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O presente texto trata da análise comparativa dos contos Felicidade

Clandestina, da autora Clarice Lispector, e O Viajante Clandestino, do Mia Couto.


Foram analisados os seguintes aspectos em ambos os contos, os narradores, as
crianças, as mães, e a felicidade.

OS NARRADORES

No conto O Viajante Clandestino, temos um narrador personagem, que


às vezes se apresenta em terceira pessoa, como no trecho “do meu assento eu
podia ver a tristeza desembrulhando líquidas missangas no seu rosto”, e em outros
momentos em primeira pessoa, como em “saímos da sala para o avião”. O narrador
ainda utiliza em alguns momentos o discurso indireto “Até que a mãe debitou suas
ordens. Ele que recolhesse a fantasia, aquele lugar era pertença exclusiva dos
adultos”.

No conto de Clarice Felicidade Clandestina, temos também um


narrador personagem-protagonista “No dia seguinte fui a sua casa, literalmente
correndo. Ela não morava em um sobrado como eu, e sim numa casa”, e a narração
sempre é feita em terceira pessoa. O interessante deste conto é que diversas vezes
o narrador “imagina” o que as pessoas estão pensando ou sentindo, mas nunca fala
com precisão, “Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos
imperdoavelmente bonitinhas...”, usando constantemente a palavra “devia”, para
expressar sua opinião sobre o que estaria se passando na cabeça das outras
personagens.
AS CRIANÇAS

A criança em O Viajante Clandestino é um menino imaginativo,


inocente, infantil, e não demonstra nenhum sentimento ruim em relação ao mundo,
seus conceitos ainda não foram submetidos às convenções sociais, ele age como se
“o mundo fosse seu enorme brinquedo”. O menino brinca de forma natural com o
nome das coisas, fazendo relações completamente aceitáveis em relação a isso,
como “arvião” poderia ser facilmente o nome de avião, afinal ele sempre está no ar.

O autor nos apresenta através da criança um modo de vida que


perdemos ao longo do tempo ao nos tornarmos adultos, o que fica claro no trecho
“Seria aquele menino a fractura por onde, naquela toda frieza, espreitava a
humanidade?”. É interessante que o menino no fim do conto, se atenha ao sapo que
está na pista, porque ele não o vê como uma criatura que causa medo e nojo como
a maioria dos adultos, mas para aquele menino o sapo era como um bichinho
qualquer, um bichinho até muito engraçado, que tinha a boca maior que o próprio
corpo.

Em Felicidade Clandestina temos dois personagens infantis, um deles


é uma criança ingênua e criativa, capaz de caminhar pelas ruas a saltitar sem se
importar nenhum pouco com os pensamentos alheios, a menina de loiros cabelos de
Clarice Lispector, ela mesma segundo alguns autores. A menina tem um doce ar
infantil, se deixa enganar e ainda assim guarda a esperança no dia seguinte, mas
ela também possui um teor levemente adulto, já que ela não vive as emoções com
intensidade, como as outras crianças que sempre têm pressa, a menina Clarice,
prolonga ao máximo que pode sua felicidade, é cautelosa. Afinal por que voltaria
todos os dias na casa da filha do livreiro, se sabe o que a filha do livreiro pretende
“Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para sofrer, às vezes adivinho”,
porque sonhar e ter a esperança de ter o livro a cada dia era melhor do que
definitivamente não tê-lo, era talvez, melhor do que tê-lo.

Há ainda no texto de Clarice há outro modelo infantil, um modelo


contrario aos outros dois, a autora nos mostra uma criança cruel, sádica, mas ao
mesmo tempo nos explica porque dessa crueldade, “era gorda, baixa, sardenta e de
cabelos excessivamente crespos” enquanto as outras meninas eram
“imperdoavelmente bonitinhas”. Ela maltratava as outras meninas, talvez porque
fosse diferente, talvez as meninas tivessem o que ela queria, mas ela tinha o que a
menina Clarice queria, e sabia o que fazer para maltratá-la e até certo ponto torturá-
la, esperando que isso talvez a fizesse sentir-se melhor.

AS MÃES

Em O Viajante Clandestino a mãe do menino está sempre o corrigindo,


o limitando, ainda que a única intenção dela seja de que o menino veja o mundo
pelos olhos dos adultos, como fica claro no trecho “Ele que recolhesse a fantasia,
aquele lugar era pertença exclusiva dos adultos”. Em ambos os contos as mãe se
chocam ao verem como seus filhos realmente são, porém são sobre diferentes
aspectos que esses choques acontecem. Neste conto a mãe se horroriza ao ouvir
do filho “Mãe, eu posso levar o sapo?” não por que o filho tenha feito algo realmente
ruim, mas por que isso a envergonhava diante dos outros passageiros fugia a regras
sociais. No fim a mãe vence, “o menino vai murcho como acento circunflexo” ao
avião. O porquê de a mãe agir assim? Talvez ela só esteja tentando fazer seu papel
na sociedade, fazer com que o filho se torne adulto, ainda que isso o faça perder
toda a sua naturalidade, e até certo ponto liberdade.

A mãe em Felicidade Clandestina não está tão presente na história


como no conto anterior, mas a mãe também tem uma enorme surpresa com a filha.
Do mesmo modo que no conto anterior, a mãe só esta fazendo o seu papel, educar
sua filha, e ao ver a maneira como sua filha enganou a outra menina, de o quanto
ela foi cruel, afinal o livro nunca havia saído da casa, sua filha nem sequer o leu, o
pior para a mãe “devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha”.
A FELICIDADE

Em Felicidade Clandestina, a felicidade da protagonista nunca é vivida


em toda sua plenitude, como ela mesma diz “A felicidade sempre iria ser clandestina
para mim”, a personagem principal sente uma felicidade em esperar pelo livro, em
voltar a cada dia a casa da filha do livreiro, e quando finalmente tem a chance de ter
“pelo tempo que quisesse” seu tão sonhado livro, prolongava o prazer de lê-lo, talvez
porque consumar a leitura fosse o começo do fim, ela terminaria um dia, mais cedo
ou mais tarde, e por conseqüência teria de devolvê-lo.

A felicidade em O Viajante Clandestino está presente em quase todo


conto, o menino protagonista é uma criança naturalmente feliz. Feliz em seus mais
simples atos, desde imitar um avião, até em sonhar em ser “passaporteiro”. Ele vive
as emoções como uma criança, com uma intensidade que só vemos em crianças,
chora ao ser obrigado a deixar seu sapo pra trás e se alegra novamente ao vê-lo no
ato final. Mas sua felicidade também é clandestina assim como no conto de Clarice,
porque o sapo está ali no avião perto dele, mas se ele tentar usufruir dessa
felicidade, ela poderá acabar, já que dificilmente deixariam um sapo solto em um
avião.

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