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O Sapateiro (João Antão)

Gil Vicente apresenta-nos um sapateiro de avental e carregado de formas,


acusado pelo Diabo de roubar o povo (preço elevado que levava pelo conserto dos
sapatos). O sapateiro não nega o facto e começa a citar, em sua defesa, o cumprimento
de preceitos religiosos: faleceu confessado e comungado, ouviu missas, ofereceu
donativos à Igreja e assistiu às horas dos finados. É o Diabo quem o elucida que tudo
isso nada abona em sua defesa, uma vez que roubava.
Quando o Sapateiro roga ao Anjo que o acolha na barca, este objecta-lhe:”A
cárrega t’embaraça” (v.347). E, mais adiante, esclarece um pouco mais o seu
pensamento, quando, referindo-se às formas, adverte o Sapateiro: “Se tu viveras dereito,
/elas foram cá escusadas”. (vv.358-359). Para interpretar convenientemente estes dois
passos, só vislumbramos uma solução: as formas tinham sido compradas com o dinheiro
que o Sapateiro roubara aos seus fregueses e eram como que a materialização dos seus
pecados. Gil Vicente não considera as formas só como um elemento distintivo e
caracterizador de tipo, mas também como objectos que o Sapateiro fora obrigado a levar
para o seu julgamento como provas de acusação.
Com esta cena, procurou o autor incutir no espectador esta doutrina: os preceitos
religiosos (ouvir missa, confessar-se, comungar, dar esmolas, etc.) só ajudam os que
levam uma vida verdadeiramente honesta. É, portanto, mais uma cena moralista de
carácter religioso do que a condenação de um Sapateiro, acusado de roubar o povo.

Exercícios
1. Selecciona os símbolos cénicos associados ao Sapateiro.

a) cadeira
b) martelo
c) avental
d) sapatos
e) bolsão
f) formas

2. Assinala com V (verdadeira) ou F (falsa) as seguintes afirmações:

a) As formas simbolizam os pecados do Sapateiro.


b) O Sapateiro diz que não se confessou antes de morrer.
c) O Diabo acusa-o de ter roubado o povo.
d) O Anjo acusa-o de vaidade e tirania.

De facto, o Sapateiro é condenado ao Inferno por ter roubado e as formas,


adquiridas com dinheiro roubado, proveniente do abuso da boa-fé dos fregueses,
representam os seus pecados.
2. Associa a cada conjunto de versos o tipo de cómico que lhes está associado.

a) “Santo sapateiro honrado”


Cómico de linguagem
b) “Arrenegaria eu da festa
E da puta da barcagem!”
Cómico de carácter
c) “…quatro forminhas cagadas
Que podem bem ir i chantadas
Num cantinho desse leito!” Cómico de situação

Relembra
Tipos de cómico

Cómico de carácter – A maneira de ser e de se apresentar da personagem causa riso.

Cómico de linguagem – O discurso e o próprio vocabulário que o compõe provoca o


riso.

Cómico de situação – As circunstâncias que envolvem a personagem fazem rir.

3. Repara nos versos:

“Sap. – Como poderá isso ser.


Confessado e comungado?
Dia. – E tu morreste escomungado:”

Temos, lado a lado, dois conceitos opostos para realçar que a comunhão dada
pela igreja não é suficiente para a remissão dos pecados e ida para o paraíso. O
Sapateiro, embora tenha comungado, morreu excomungado devido aos seus pecados. A
colocação das duas ideias opostas, uma ao lado da outra, realça o contraste entre
as duas. A este recurso de estilo dá-se o nome de antítese.

Para saber

A antítese é um recurso estilístico que consiste em apresentar, lado a lado, dois


conceitos opostos de forma a exaltar o seu contraste e a sua complexidade.
O que pretende o autor com esta personagem

O Sapateiro, apesar de executar as práticas do culto religioso, foi desonesto, não


seguiu os princípios religiosos e, por isso foi castigado.
Com este exemplo, o autor quis mostrar que o cumprimento das práticas
religiosas como ir à missa, comungar ou oferecer donativos à igreja, não é suficiente
para a salvação da alma. A ida para o paraíso, depois da morte, deve-se a uma
conduta honesta durante a vida.
Estamos perante uma crítica à hipocrisia, à falsa moral religiosa.

4. Associa as seguintes expressões do texto aos respectivos adjectivos que traduzam


a evolução psicológica do Sapateiro.

a) “Ora eu me maravilho / haverdes por grão pejilho /


quatro forminhas cagadas / que podem bem ir chantadas /
num cantinho desse leito!” ADMIRADO

b) “Vamos, venha a prancha logo / e levai-me àquele fogo! /


Não nos detenhamos mais!” INDIGNADO

c) “Quantas missas eu ouvi / nom me hão elas de prestar?”


DECIDIDO

d) “E as ofertas que darão? / e as horas dos finados?”

5. Identifica as figuras de estilo presentes nos versos:

a) “Pêra o lago dos danados”

b) “Santo sapateiro honrado!”

6. Explica a evolução fonética dos seguintes signos linguísticos:


a) ego > eo > eu
b) lectum > lectu > leito
c) rotundu > redondo
d) focum > focu > fogo
e) legem > lege > lee > lei

a) __________ do (g); ___________ do (e) e do (o), formando o ditongo (eu).


b) __________ do (m); _________________ do (c).
c) ____________________________________________________________
d) ____________________________________________________________
e) ____________________________________________________________
Palavras homófonas

Atenta nos seguintes versos:

“Sap. – Assi que determinais


Que vá cozer ao Inferno?”

COSER – unir por meio de pontos dados com agulha enfiada em linha.

COZER - submeter à acção do lume; preparar ao fogo ou ao calor, geralmente dentro


de um líquido.

COSER e COZER são palavras homófonas.

Para saber

Palavras homófonas são palavras que se pronunciam de igual forma, mas com
escrita e significado diferentes.

As relações entre palavras: pronúncia, escrita e significado

Relembra

Homonímia
Este rio é o maior da Europa.
Rio sempre que vejo este programa.

Palavras homónimas – palavras que se pronunciam e escrevem de igual forma, mas


com significados diferentes.

Homografia

Entre marido e mulher não se mete a colher.


Ele decidiu colher uma flor para lhe oferecer.

Palavras homógrafas – palavras que se escrevem de forma idêntica, mas com


pronúncia e significados diferentes.
Relembra
Paronímia

A Carla tem uma piscina com dez metros de comprimento.


O João acenou com um cumprimento.

Palavras parónimas – palavras que têm significados diferentes, mas com pronúncia
e escrita muito semelhantes.

Exercícios
1. Lê com atenção as frases seguintes e identifica a forma ortográfica correcta para
cada situação.

a) Eu vou _____ a roupa a lavar. b) Há um ________ vazio na carruagem B.


Eu vou passar _____ casa! Esta palavra leva ___________ .

c) Faz a _________ do Sapateiro. d) O barco virou com a enorme ________ .


Os noivos entraram na igreja com Não temos nenhuma mesa ________ .
muita __________ .

(discrição; descrição; por; pôr; acento; assento; vaga; onda)

2. Lê com atenção as frases seguintes e identifica as relações de homonímia,


homofonia, homografia e paronímia presentes nas palavras destacadas.

a) Nunca mais me livro deste trabalho!


O livro de Português é interessante.

b) O concelho das Caldas é grande.


Tu deste-lhe um bom conselho.

c) Os meus tios foram emigrantes.


Actualmente há muitos imigrantes em Portugal.

d) O Luís pregou um prego na parede para pendurar um quadro.


Santo António pregou aos peixes, porque os homens não o ouviam.

e) Ainda me rio ao lembrar-me da representação da peça.


O rio Tejo tem correntes muito fortes.

f) Tens uma letra completamente ilegível!


Será que esse candidato é elegível?
3. Lê com atenção as frases seguintes, selecciona a forma ortográfica correcta e
identifica as relações de homofonia, homonímia, homografia e paronímia presentes
nas palavras seleccionadas.

a) O vestido está __________. Homófonas


O ___________ de Curitiba é simpático.

b) Hoje a Luísa ________ ir connosco. Homógrafas


O Carlos __________ ir ontem.

c) Esta ________ cresceu muito.


A minha avó _______ muito bonita. Homónimas

d) Eu ________ todos os dias no duche.


O móvel fica bem no ________ da sala. Parónimas

(canto; canto; pode; pôde; era; hera; prefeito; perfeito)

Relações entre palavras escritas e entre grafia e fonia

exemplo grafia som significado

salto (nome)
homonímia igual igual diferente
salto (verbo

hera, chá
homofonia diferente igual diferente
era, xá

saia, sabia
homografia igual diferente diferente
saía, sábia

invasão
paronímia semelhante semelhante diferente
evasão

Prof. Maria Filomena Ruivo Ferreira