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A AGROECOLOGIA COMO BASE PARA A SUSTENTABILIDADE


DE SISTEMAS AGROFLORESTAIS FAMILIARES

Edson Diogo Tavares1, Edmar Ramos de Siqueira2, Ana Paula Fraga Bolfe3,
Édson Luis Bolfe4
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Eng. Agr., Dr., Pesquisador da Embrapa Tabuleiros Costeiros. Av. Beira-Mar, 3250, Aracaju, SE. (79) 3226-
1331. E-mail: diogo@cpatc.embrapa.br
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Eng. Ftal.,Dr., Pesq. da Embrapa Tabuleiros Costeiros. E-mail: edmar@cpatc.embrapa.br
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Pedagoga, MSc., Profª. Universidade Federal de Sergipe. E-mail: apfbolfe@uol.com.br
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Eng. Ftal.,MSc., Pesq. Embrapa Tabuleiros Costeiros. E-mail: bolfe@cpatc.embrapa.br

RESUMO
A idéia de sustentabilidade da agricultura como uma das questões chave na problemática do
meio ambiente revela a crescente insatisfação com a agricultura da revolução verde. As
várias definições de sustentabilidade enfatizam a necessidade de sua viabilidade em longo
prazo. O objetivo deste trabalho foi analisar a agroecologia como base para a busca da
sustentabilidade de sistemas agroflorestais familiares. Concebida como uma ciência
baseada em princípios como a diversidade, solidariedade, cooperação, respeito à natureza
e participação, a agroecologia permite refletir sobre a sustentabilidade dos atuais sistemas
de produção. Dessa forma ela recorre a conceitos e princípios que permitem analisar, de
forma holística, a sustentabilidade de agroecossistemas. Ela integra os conhecimentos
existentes de forma a promover o fortalecimento local, não importando se o conhecimento é
tradicional, gerado por especialistas ou pelos agricultores. Os sistemas agroflorestais
sucessionais (SAF's) concebidos com base no processo da sucessão secundária das
florestas tropicais se constituem numa aplicação do paradigma agroecológico e do
desenvolvimento de um novo conhecimento que parte da interação dos saberes técnicos e
aqueles dos agricultores.

Palavras-chave: agricultura familiar; agroecologia; sistemas de produção, sustentabilidade.

INTRODUÇÃO
A adoção de políticas agrícolas que visam o aumento da produção sem
considerarem o ambiente, está levando à degradação dos recursos naturais: erosão do solo,
desflorestamento, desperdício e poluição da água. Assim, a produção agrícola só pode ser
mantida a longo prazo, se a terra, a água e as florestas, que constituem sua base, não
sofrerem degradação (CMMAD, 1991).
A idéia de sustentabilidade da agricultura é uma das questões chave na
problemática do meio ambiente (EMBRAPA, 2004) e revela a crescente insatisfação com a
agricultura moderna. Indica o desejo social de práticas que, simultaneamente, conservem os
recursos naturais e forneçam produtos mais saudáveis, sem comprometer os níveis já
alcançados de segurança alimentar (BRASIL,1999).
O modelo de agricultura moderna é responsável por impactos sobre os solos, os
aqüíferos, as florestas e pela perda da biodiversidade (WEID, 1996).

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As várias definições de sustentabilidade, particularmente na agricultura, enfatizam


a necessidade de sua viabilidade em longo prazo e o suprimento das necessidades
humanas de alimentos e matérias primas para a indústria. Para isso é necessário o uso
eficiente dos recursos naturais não renováveis, garantindo a renda dos agricultores e, em
última instância, a qualidade de vida presente e futura da sociedade humana.
O objetivo deste trabalho foi analisar a agroecologia como base para a busca da
sustentabilidade de sistemas agroflorestais familiares.

SUSTENTABILIDADE E AGRICULTURA FAMILIAR


A definição de desenvolvimento sustentável surgiu como meta a ser atingida pelas
nações, a partir da constatação de que promover o desenvolvimento econômico dos países
não era mais suficiente para garantir a melhoria do padrão de vida de toda a humanidade.
Um novo padrão de desenvolvimento deveria, também, eliminar as desigualdades sociais e
garantir a satisfação das necessidades básicas pela participação ativa da maioria das
pessoas.
Leff (2001) considera que o desenvolvimento sustentável deve converter-se num
projeto de erradicação da pobreza, de satisfação das necessidades básicas e para melhorar
a vida da população. Nesse sentido, a gestão ambiental não deveria se limitar a regular o
processo econômico mediante normas e ordenamentos ecológicos. Os princípios de
racionalidade ambiental permitiriam oferecer novas bases para construir um paradigma
produtivo alternativo que tivesse por base o potencial ecológico, a inovação tecnológica e a
gestão participativa dos recursos.
A busca do desenvolvimento sustentável deve integrar as responsabilidades de
longo prazo para as gerações futuras como, também, a consideração de que a vida humana
depende da preservação do meio ambiente.
Reid (1997) estudando os fenômenos naturais, a partir da ecologia, demonstra a
total inexistência, na natureza, de fenômenos isolados, e conseqüentemente, a
impossibilidade de compreensão da magnitude dos mesmos, se permanecerem sendo
analisados de forma isolada.
O estabelecimento de um novo padrão produtivo que promova a inclusão social,
que proporcione melhores condições econômicas para os agricultores, que produza
alimentos isentos de resíduos químicos, que não degrade o ambiente e que mantenha as
características dos agroecossistemas por longos períodos, é uma necessidade urgente para
superar o modelo da “revolução verde”. Em torno desse eixo, dezenas de movimentos e
práticas agrícolas têm se desenvolvido, em busca de uma agricultura sustentável (EHLERS,
1995; ALMEIDA, 1998).

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A sociedade já está mobilizada para defender o ambiente de diversos impactos. Os


olhares do movimento ambientalista começam a se voltar para a pesquisa agropecuária,
identificando se ela está direcionada para o desenvolvimento de uma agricultura que atenda
os preceitos da Agenda 21 (ALMEIDA, 1998).
Para manter em perspectiva todos os aspectos da realidade rural, o novo modelo
para a agricultura brasileira precisa se desenvolver a partir de um novo paradigma científico.
Concebida como campo de conhecimento de caráter multidisciplinar, a agroecologia
considera os condicionantes sociais e do meio ambiente com o objetivo de produzir, e
também a manutenção da sustentabilidade ecológica dos sistemas de produção (ALTIERI,
1995; GLIESSMAN, 2001; HECHT, 2002).
Concebida como uma ciência baseada em princípios como a diversidade,
solidariedade, cooperação, respeito à natureza e participação, a agroecologia permite refletir
sobre a sustentabilidade dos sistemas de produção, industrialização e comercialização,
praticados pelos agricultores familiares, com possibilidades de uma maior distribuição de
renda, poder e responsabilidades entre os atores envolvidos (GUZMÁN, 1995).
A agroecologia baseia-se não apenas numa atitude diferente em relação à
agricultura e aos agricultores mas também está baseada em conceitos filosóficos
diferenciados. Norgaard e Sikor (2002), apresentam um quadro (Quadro 1) onde confrontam
as premissas dominantes da ciência moderna (na qual a agricultura da “revolução verde”
está baseada) e as premissas alternativas que embasam a busca da agroecologia.

Quadro 1- Premissas dominantes na ciência moderna e suas alternativas.


PREMISSAS DOMINANTES PREMISSAS ALTERNATIVAS
Atomismo: os sistemas consistem de partes Holismo: as partes não podem ser compreendidas separadamente do
imutáveis e são simplesmente a soma de suas todo e o todo é diferente da soma de suas partes. As partes podem
partes. desenvolver novas características ou podem surgir partes totalmente
novas.
Mecanicismo: as relações entre as partes são fixas, Os sistemas podem ser mecânicos, mas também podem ser
os sistemas movem-se continuamente de um ponto determinísticos, ainda que não previsíveis ou contínuos, porque são
de equilíbrio a outro e as mudanças são reversíveis. caóticos. Os sistemas também podem ser evolucionários.
Universalismo: os fenômenos complexos e diversos Contextualismo: os fenômenos dependem de um grande número de
são o resultado de princípios universais subjacentes, determinados fatores, especialmente ligados ao tempo e ao espaço.
que são em números reduzidos e não se modificam Fenômenos semelhantes podem ocorrer em tempos e lugares distintos,
no tempo ou no espaço. devido a diferentes fatores.
Objetivismo: podemos permanecer à parte do que Subjetivismo: os sistemas sociais e especialmente “naturais” não podem
tentamos estudar e pesquisar. ser compreendidos separadamente de nossas atividades, de nossos
valores e do modo como os entendemos e como atuamos sobre eles no
passado.
Monismo: nossas formas separadas e individuais de Pluralismo: os sistemas complexos só podem ser conhecidos mediante
entender sistemas complexos estão fundindo-se padrões múltiplos de pensamento, sendo cada um deles
num todo coerente. necessariamente uma simplificação da realidade. Padrões diferentes
não intrinsecamente incongruentes.
Fonte: Norgaard e Sikor, 2002.

A partir da definição de agricultura sustentável, compreende-se que a atividade


agrícola deve ser capaz de produzir alimentos, mas também permitir o acesso dos
indivíduos envolvidos no processo de produção a uma dieta equilibrada, num contexto de

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desenvolvimento local onde se contribua para a justiça social, para a manutenção da


biodiversidade e do meio ambiente.
A agroecologia, entendida como uma ciência ou um campo de conhecimento de
caráter multidisciplinar, recorre a uma série de conceitos e princípios que nos permitem
analisar, de forma holística, a sustentabilidade de agroecossistemas, entendidos como
unidades geográficas e socioculturais, fundamentais para o estudo e planejamento do
desenvolvimento rural sustentável (CAPORAL; COSTABEBER, 2002). Entendida desta
forma, a agroecologia nos permite compreender os processos biológicos e socioeconômicos
e as relações existentes entre os seres humanos e os recursos naturais responsáveis pelo
que é conhecido como agricultura.
Dessa forma, é possível estabelecer bases científicas para realizar o processo de
transição do modelo da agricultura convencional ou da “revolução verde”, para um modelo
de desenvolvimento rural sustentável (GLIESSMAN, 2001; CAPORAL; COSTABEBER,
2002).
Nesse sentido, a agroecologia não separa a biologia da sociologia, na verdade
tenta integrar os conhecimentos existentes de forma a promover o fortalecimento local, não
importando se o conhecimento é tradicional, gerado por especialistas ou pelos agricultores
(LACEY, 2000).

SISTEMAS AGROFLORESTAIS SUCESSIONAIS E AGROECOLOGIA


Os princípios dos sistemas agroflorestais sucessionais (SAF's) foram concebidos
com base no processo da sucessão secundária da floresta tropical incorporando o
conhecimento sobre o seu manejo. Consistem em sistemas de manejo florestal que
conciliam produção agrícola e manutenção de espécies florestais, por meio de capinas
seletivas das espécies que já cumpriram seu papel fisiológico na sucessão e podas de
rejuvenescimento. Em quase todas as experiências com sistemas agroflorestais observa-se
o crescimento de matéria orgânica nos solos, a redução da erosão e o aumento da
diversidade de espécies (VIVAN, 2000).
A pesquisa para definir os arranjos em sistemas de cultivo múltiplo, então, têm como
base a sucessão ecológica de espécies, conforme a classificação em pioneira, secundária e
clímax; a indicação das espécies pertinentes para cada sítio ecológico e a avaliação do
desempenho conjunto no sistema. Além de seguir com rigor os princípios ecológicos
tropicais é condição indispensável para a implementação desses sistemas a incorporação
do saber local em todas as suas fases (GÖTSCH, 1996).
Dessa forma os sistemas agroflorestais se constituem numa realidade concreta da
aplicação do paradigma agroecológico e do desenvolvimento de um novo conhecimento que

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parte da interação dos saberes técnicos e aqueles dos agricultores, passo fundamental para
um diagnóstico correto e o sucesso da intervenção (FREIRE, 1983).
Os sistemas agroflorestais sucessionais estão direcionados para uma otimização do
sistema produtivo. Nesse modelo agroecológico, os insumos a serem utilizados são
sementes e o conhecimento ecológico social e historicamente adquirido (BOLFE et. al.,
2004). Dessa forma, concretamente, nos sistemas agroflorestais sucessionais é possível, a
partir de princípios ecológicos desenvolver sistemas produtivos ambientalmente
sustentáveis.

CONCLUSÕES
A agroecologia, como um enfoque científico interdisciplinar, pode ser utilizada como
paradigma a ser perseguido em busca da sustentabilidade. Dessa forma, é possível analisar
os sistemas agroflorestais de forma sistêmica considerando as diferentes dimensões da
realidade.
A agricultura familiar é, por suas características, a que pode, de forma sistêmica,
atender às diferentes dimensões da sustentabilidade, na medida em que, não há
dissociação entre o pensar, o agir e o projetar para o futuro, pois todas essas funções são
desempenhadas pela família, administrando a propriedade e seus sistemas de produção,
numa perspectiva de longo prazo.
Numa perspectiva agroecológica a configuração dos sistemas agroflorestais
alternativos devem surgir da sinergia entre a biodiversidade ecológica e a sócio-cultural
locais, na medida em que os conhecimentos básicos para a formulação dessas práticas já
foram acumulados historicamente pelos agricultores.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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