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Abordagem Biológica, Psicológica,

Social e Cognitiva do
Envelhecimento
UFCD: 7214

JÓ EDUARDO ESTEVES DE ANDRADE

2018
UFCD: 7214 – Abordagem Biológica, Psicológica, Social e Cognitiva do Envelhecimento

Mensagem de um Idoso...

Se meu andar é hesitante e minhas mãos trêmulas, ampara-me...

Se minha audição não é boa e tenho de me esforçar para ouvir o que


tu dizes, procura entender-me...

Se minha visão é imperfeita e o meu entendimento é escasso, ajuda-


me com paciência...

Se minhas mãos tremem e a comida cai na mesa ou no chão, por


favor não te irrites, tentei fazer o melhor que pude...

Se me encontrares na rua, não faças de conta que não me vês, pára


para conversar comigo, sinto-me tão só...

Se me vires triste e só, partilha simplesmente um sorriso...

Se te contei pela terceira vez a mesma "história" num só dia, não me


repreendas, simplesmente ouve-me...

Se me comporto como criança, dá-me carinho...

Se estou com medo da morte e tento negá-la, ajuda-me na


preparação para o adeus...

Se estou doente e sou um peso em tua vida, não me abandones, um


dia tu também terás a minha idade...

A única coisa que desejo neste meu final da jornada, é um pouco de


respeito e de amor...

Um pouco...

Do muito que te dei um dia!!!

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Índice
Objetivos gerais ........................................................................................................ 4
Objetivos específicos ................................................................................................ 4
Introdução ................................................................................................................. 5
1. Processo de envelhecimento: aspetos psicológicos e sociais .............................. 6
1.1. Evolução histórica do conceito de idoso ......................................................... 9
1.2. Atitudes, mitos e estereótipos associados à velhice ....................................... 9
1.3. Fases do ciclo de vida do idoso .................................................................... 11
2. Principais alterações biológicas do envelhecimento ........................................... 12
2.1. Alterações estruturais do envelhecimento .................................................... 12
2.2. Alterações funcionais do envelhecimento..................................................... 13
2.2.1. Sistema cardiovascular .......................................................................... 14
2.2.2. Sistema respiratório ............................................................................... 15
2.2.3. Sistema renal e urinário ......................................................................... 15
2.2.4. Sistema gastrointestinal ......................................................................... 16
2.2.5. Sistema nervoso e sensorial .................................................................. 16
2.2.6. Sistema endócrino e metabólico ............................................................ 17
2.2.7. Sistema Imunitário ................................................................................. 18
2.3. O sono no idoso ........................................................................................... 19
3. Problemas de saúde mais comuns no idoso ....................................................... 22
3.1. Doenças cardiovasculares............................................................................ 22
3.2. Diabetes no idoso ......................................................................................... 25
3.3. Doenças reumáticas ..................................................................................... 26
3.4. Alterações da visão e da audição ................................................................. 27
3.5. Aptidões cognitivas ....................................................................................... 27
4. Perturbações mentais e comportamentais no idoso ........................................... 30
4.1. Demência ..................................................................................................... 31
4.2. Doença de Alzheimer ................................................................................... 32
4.3. Esquizofrenia ................................................................................................ 33
4.4. Depressão .................................................................................................... 34
4.5. Perturbações delirantes ................................................................................ 35
4.7. Perturbações somatoformes......................................................................... 36
4.8. Perturbações devidas ao abuso de substância psicoativa ........................... 36

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5. Quedas no Idoso ................................................................................................. 38


6. Aspetos psicológicos do envelhecimento ............................................................ 40
6.1. Modificações das funções cognitivas ........................................................... 41
6.2. Os afetos e a sexualidade nos idosos .......................................................... 42
7. Aspetos sociais do envelhecimento .................................................................... 45
7.1. Evolução histórica do conceito de idoso ....................................................... 45
7.2. A perspetiva de outras culturas .................................................................... 46
7.3. Interpretação individual e social das várias fases do ciclo de vida ............... 46
7.4. Atitudes, mitos e estereótipos associados à velhice ..................................... 48
8. A Família enquanto rede informal de suporte ..................................................... 49
9. Redes formais de apoio ao idoso ........................................................................ 50
10. A institucionalização do idoso ........................................................................... 53
11. A vida quotidiana nas instituições ..................................................................... 55
Bibliografia .............................................................................................................. 57

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Objetivos gerais
 Identificar os conceitos e princípios fundamentais sobre o envelhecimento;
 Identificar os problemas de saúde mais comuns no idoso e suas consequências;
 Identificar alterações na autonomia e funcionalidade e seu impacto na qualidade de
vida do idoso;
 Identificar as redes de apoio e os serviços de institucionalização.

Objetivos específicos
 O/A formando/a deverá ser capaz de enunciar, oralmente, pelos menos 5, alterações
biológicas do envelhecimento;
 O/A formando/a deverá ser capaz de enunciar, oralmente, pelo menos 4, problemas
de saúde mais comuns nos idosos;
 O/A formando/a deverá ser capaz de apontar, as principais perturbações mentais e
comportamentais no idoso, sem recorrer ao manual;
 O/A formando/a deverá ser capaz de apontar, as principais consequências das
perturbações mentais e comportamentais no idoso, sem recorrer ao manual;
 O/A formando/a deverá ser capaz de identificar, sem recurso ao manual, a relação
entre quedas, imobilidade e depressão;
 O/A formando/a deverá ser capaz de identificar, e aplicar em 10 minutos, pelo menos
4 instrumentos de avaliação geriátrica;
 O/A formando/a deverá ser capaz de explicar, sem recurso ao manual, a relação
entre rede de apoio e idoso;
 O/A formando/a, deverá ser capaz de identificar, sem recurso ao manual, os
procedimentos de institucionalização das pessoas de idade.

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Introdução
O êxito do desenvolvimento da tecnologia e da medicina deu asas a um exponencial
aumento da esperança média de vida, o que originou nas últimas décadas um desequilíbrio
demográfico. Desequilíbrio esse que, nos dias de hoje é analisado por vários autores e
cientistas como um desafio social assumido, que carece de respostas efetivas e concretas,
e que, por conseguinte, levou-nos a uma série de consequências a nível social e
económico.

Desta forma, este módulo tem como base a consciencialização para um agir
profissional dos formandos com base na reflexão crítica que promova a ação, de modo a
que o envelhecimento não funcione como um fim de linha para o sujeito, mas sim, como
uma nova etapa, como novos desafios e oportunidades.

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1. Processo de envelhecimento: aspetos psicológicos e sociais


A vida adulta é de todas as fases do ciclo de vida, a mais longa e a mais propícia a
mistérios na nossa sociedade e provavelmente na generalidade da história humana
(Levinson, 1978, in Marchand, 2005).

Ao progressivo envelhecimento demográfico tem vindo a corresponder uma


longevidade crescente, que traduz uma conquista importante da humanidade. Esta ocorre
principal e significativamente nas sociedades mais desenvolvidas, que devido ao progresso
socioeconómico e do avanço da ciência e da tecnologia têm vindo continuadamente a criar
condições de vida favoráveis ao aumento da esperança média de vida (Alves, 2013).

O envelhecimento corresponde a uma fase progressiva do ciclo vital de qualquer


organismo que sofra a influência do tempo. Representa um conjunto de alterações que
ocorrem no nosso corpo, como consequência do tempo vivido (Pinhel, 2011).

O processo de envelhecimento é progressivo e degenerativo, caracterizado por uma


menor eficiência funcional, com enfraquecimento dos mecanismos de defesa face às
variações ambientais e perda de reservas funcionais. É universal e intrínseco, ou seja, não
é determinado por fatores ambientais, apesar de ser influenciado por eles (Pinhel, 2011).

Simões (2006, in Pinhel, 2011) refere que envelhecer não significa necessariamente
algo negativo. Muito pelo contrário, é um momento de transformação e de aprendizagem
das fases anteriores a novas descobertas.

Costa (2002, in Pinhel, 2011) salienta que o envelhecimento é um facto inerente à


vida humana, desta forma, acontecerá a todos, sem distinção de classe social, crença ou
ideologia política. Podemos retardá-lo ou mascará-lo, mas nunca impedi-lo.

Desta forma, a literatura (Geithner & McKenney, 2010) apresenta-nos três tipos de
envelhecimento:

 Normal: Que se refere ao envelhecimento e às suas alterações funcionais que não


são resultado de doenças;
 Patológico: Que se refere aos efeitos da idade resultantes de perturbações
ambientais, mutações genéticas e acidentes da natureza;
 Ótimo: Quando existe preservação da capacidade funcional e da qualidade de vida.

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Cardão (2009, in Pinhel, 2011) refere que a velhice é uma


etapa da vida marcada pela longevidade, que embora tenha o
processo de envelhecimento como pano de fundo, não se confunde
com este. Envelhecer não é ser idoso, é ir sendo mais velho dentro
de um processo complexo de desenvolvimento entre o momento em
que nasce e o momento em que morre, sendo inerente a todos os
seres vivos.

Fontaine (2000 in Marchand, 2005) concebe o


envelhecimento como um processo que não se reduz a perdas, mas
antes a uma interação contínua entre fenómenos biológicos, psicológicos e sociais, que
provoca alterações no organismo à medida que a idade cronológica aumenta. Do ponto de
vista biopsicossocial, pode dizer-se que não se envelhece, da mesma forma, ao mesmo
ritmo e pela mesma idade cronológica. Embora o envelhecimento seja comum a todas as
pessoas, revela características próprias de pessoa para pessoa, consoante a estrutura
biológica e de personalidade, em estreita interação com o meio.

Não se podem vincular todas as dificuldades que


caracterizam o modo de vida dos idosos a fatores sociais,
uma vez que os fatores biológicos e psicológicos são
fulcrais na capacidade de adaptação do idoso às novas
realidades, tendo uma relevância crucial no processo de
envelhecimento (Pimentel, 2005). Infere-se então, que
envelhecimento e velhice não são sinónimos, pois nem só
as pessoas idosas envelhecem (Marchand, 2005).

Envelhecer é um processo natural que não é


sinónimo de doença. Cardão (2009 in Pinhel, 2011) refere
que o envelhecimento bem sucedido implica a capacidade de o idoso se adaptar às
mudanças do meio ambiente, sendo a atividade física um fator importante, pois permite
preservar a funcionalidade e o sentimento de valor próprio. Distinguem-se, assim três
parâmetros do envelhecimento bem-sucedido: baixo risco de doenças, ou incapacidades,
funcionamento físico e mental elevado e interesse ativo pela vida (Rowe e Kanh, 1999 in
Melo, 2012). Simões (2006 in Pinhel, 2011) salienta que o grande desafio de envelhecer
com saúde é fazer com que somente as mudanças normais do envelhecimento ocorram,
minimizando as limitações. Este refere que os idosos de hoje não só são mais saudáveis,
mas também mais instruídos e sê-lo-ão cada vez mais no futuro.

Além das alterações da componente física podem-se verificar modificações nas


reações emocionais do idoso, como o acumular de perdas e separações, solidão,
isolamento e marginalização social. As principais características de um envelhecimento
emocional pautam-se pela redução da tolerância aos estímulos, vulnerabilidade à
ansiedade e depressão, sintomas hipocondríacos, autodepreciativos, de passividade,
conservadorismo de caráter e de ideias, e acentuação de traços obsessivos (Sousa, 1998
in Cardoso, 2009).

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Podemos considerar a morte como a maior das crises que o idoso enfrenta. Na
terceira idade as perdas aceleram-se, sendo que o tempo para a sua superação é
significativamente menor. Pode ocorrer, que o idoso se sinta incapacitado ou demasiado
fragilizado para enfrentar as perdas, instalando-se assim uma crise patológica. Mesmo
considerando que envelhecer e adoecer não sejam sinónimos, existem determinados
acontecimentos que são mais frequentes em idosos, nomeadamente:

 Momento trágico (viuvez, reforma, etc.);


 Rutura a nível pessoal, familiar e social;
 Dificuldade em adaptar-se;
 Espera emocional negativa (desilusão com a vida, insónias, depressão);
 Alteração do grupo de amigos.

A velhice traz consigo a perspetiva de morte. A perda de amigos, familiares e de


pessoas de referência social reforça o carácter de finitude, o qual ganha maior incidência
ao longo do processo de envelhecimento. Quando existe um acontecimento grave, que
envolva aspetos físicos, mentais e sociais, e que gera sofrimento, a morte passa a ser não
só uma probabilidade como também uma alternativa (Pinhel, 2011).

De acordo com Schroots e Birren (1980 in Melo, 2012) o processo de


envelhecimento apresenta três componentes:

 Biológica: Que resulta da vulnerabilidade crescente e de


uma maior probabilidade de morrer, a que se chama
senescência;
 Social: Relativa aos papéis sociais apropriados às
expectativas da sociedade para esta faixa etária;
 Psicológica: Definida pela autorregulação do indivíduo
no campo emocional e cognitivo, adaptando-se ao
processo de senescência e envelhecimento social.

Envelhecer é um processo dinâmico, inevitável e irreversível, habitualmente lento e


progressivo, mas individualizado, já que as pessoas não envelhecem da mesma forma nem
ao mesmo tempo. Desta forma, o ser saudável deixa de estar relacionado com a idade
cronológica e passa a ser entendido como a capacidade do organismo em responder às
necessidades da vida quotidiana, assim como, a capacidade e a motivação física e
psicológica para continuar à procura de novas conquistas pessoais e familiares (Melo,
2012).

A passagem para a velhice é variável de acordo com o tipo de ocupação, os países,


os sistemas sociais e as épocas históricas. A entrada na reforma e os 65 anos deixaram de
ser um indicador rigoroso para sinalizar o início da velhice, considerando-se atualmente a
existência de processos de envelhecimento individuais e diferenciados de pessoa para
pessoa, em linha de trajetórias de desenvolvimento a que cada um esteve sujeito ao longo
da sua vida (Paul e Fonseca, 2005 in Alves, 2013).

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1.1. Evolução histórica do conceito de idoso


Nos tempos pré-históricos a velhice terá sido extremamente rara. O idoso insere-se
na História com um texto egípcio do ano 2450 A.C., sendo frequentemente referenciado no
Antigo Testamento.

No período que antecede Platão o tratamento


filosófico dado à velhice era predominantemente
negativista, na medida em que a observação dos seus
efeitos negativos não era acompanhada pelo
incitamento em viver esse período da melhor forma
possível (Gomes e Viegas, 2007 in Melo, 2012).

Platão (427-347 a.C.) considerava o resultado do


processo de envelhecimento como uma continuidade da
vida de jovem e adulto, numa lógica de que se
envelhece como se viveu.

Já Aristóteles (384-322 a.C.) refere-se à quarta idade como sendo a da senilidade,


com deterioração generalizada das capacidades. A deterioração do corpo a par com a do
espírito (Paul e Fonseca, 2005 in Melo, 2012).

Até ao século XVII, apenas 1% da população vivia mais de 65 anos, aumentando


para aproximadamente 4% no século XIX (Hamilton, 2010 in Melo, 2012).

Para Costa (2002) as definições de envelhecimento e de idoso continuarão a evoluir


com o desenvolvimento, no entanto, o que é dado como certo, é que a sua utilização implica
relações com o tempo. O envelhecimento teve, pois, ao longo da história, diversas
conotações, que variaram em função dos valores atribuídos ao idoso pela sociedade, e do
papel atribuído no âmbito do seu contexto cultural e social.

1.2. Atitudes, mitos e estereótipos associados à velhice


Com a transformação da sociedade, que recorrentemente valoriza a produtividade,
a juventude e a beleza, os idosos tornaram-se num grupo vulnerável propício à exclusão
por parte dos mais jovens, sendo por vezes vítimas de discriminação, de representações
sociais e de estereótipos.

Desta forma, o idoso é percecionado, muitas das vezes, como


alguém cansado, doente e improdutivo, podendo estas avaliações
negativas tornar-se símbolo da própria identidade, levando a que este
as considere verídicas (Almeida & Cunha, 2003 in Neves, 2012).

Atualmente é concebida uma generalização de todos os idosos,


originando estereótipos, que comprometem a sua participação ativa na
sociedade (Mennocchi, 2009 in Neves, 2012). Consequentemente têm-se gerado falsas
crenças relativamente aos idosos, que se devem à falta de compreensão e
desconhecimento por parte da população em geral sobre esta faixa etária, contribuindo
para isolar e acelerar o processo de envelhecimento, gerando um abandono crescente,
quer pela família quer pela sociedade (Castro, 2007 in Neves, 2012).
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A exagerada valorização da juventude, contribui igualmente para encarar a velhice


como estando associada à invalidez e à morte, gerando, muitas vezes o isolamento do
idoso (Elsner, Pavan & Guedes, 2007 in Neves, 2012)

Eis alguns dos estereótipos mais frequentemente associados ao idoso:

O idoso é confuso e desinteressado em relação ao mundo – Os idosos


manifestam interesse pelo que os rodeia, gostam de estar atualizados e de aumentar o seu
conhecimento. Apenas um número reduzido sofre de alguma doença que o incapacite
cognitivamente.

Os idosos são doentes e dependentes dos outros – Ser dependente não é


sinónimo de ser idoso, pelo contrário, poderá suceder-se em qualquer das diversas etapas
da vida. Muitos idosos cuidam de si, vivendo ativos e saudáveis. O fato de a maioria dos
idosos ter alguma doença não significa que sejam incapazes de ser autónomos.

Os idosos são senis (memória deficiente, são desorientados ou dementes) –


Estudos demonstram que existe uma preservação do intelecto e de outras funções mentais
no envelhecimento normal, continuando o idoso apto a aprender e a memorizar.
Investigações demonstram que um grande número de idosos mantém laços de amizade,
permanecem em contacto estreito com a família e participam regularmente em atividades
sociais.

Os idosos vivem sós e na infelicidade – Centros de convívio e universidades de


terceira idade têm sido procurados pelos mais velhos para realizarem atividades de
socialização e de aprendizagem.

Muitos idosos estão institucionalizados – A maioria dos idosos estão em casa ao


cuidado da família, de si mesmos e/ou de instituição de apoio. Só uma pequena
percentagem reside em ambiente institucional.

Os idosos não se interessam pela atividade sexual – Os idosos gostam de


partilhar carinho, afeto e amor. O interesse sexual do idoso é maior do que se pensa e do
que eles próprios imaginam. A assexualidade não é típica do envelhecimento e não se
aplica a todos os idosos.

Os idosos são inúteis para a sociedade e incapazes no trabalho – Pelo contrário,


trabalhadores idosos são mais assíduos ao trabalho, sofrem menos acidentes e têm um
rendimento mais constante relativamente a trabalhadores mais jovens. Apesar da
diminuição da perceção e da velocidade de reação, a maioria geralmente desempenha as
suas funções tão bem quanto os jovens.

Os idosos são conservadores e incapazes de mudar – É verdade que as pessoas


quando envelhecem são mais estáveis, contudo os idosos não recusam totalmente a
mudança. As pessoas possuem suficiente plasticidade cognitiva, afetiva e emocional para
assimilar os processos adaptativos impostos pela velhice, podendo enriquecer e modificar
os seus comportamentos. Quando surgem situações novas, são capazes de se adaptar a
elas, tão bem quanto os outros.

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Os idosos são todos iguais – Pelo contrário, à medida que o ser humano
envelhece, diferencia-se dos outros sob diversos aspetos (humor, personalidade, modo de
vida, filosofia pessoal, etc.). A velhice é um período vivenciado de forma diversificada nas
diferentes classes sociais e, o ritmo de envelhecimento é diferente de indivíduo para
indivíduo.

É quase impossível para a maioria dos idosos aprender algo novo – Os idosos
têm plenas condições para aprender, porém com velocidade mais reduzida, podendo
demorar mais tempo a assimilar novas informações.

Os idosos tendem a ser mais religiosos com a idade – A geração atual de


pessoas mais idosas tende a ser mais religiosa que os jovens, porém, para muitas pessoas,
independentemente da idade recorrem a Deus como recurso emocional para lidarem com
os seus problemas.

A maioria destes estereótipos refletem o desconhecimento acerca do processo de


envelhecimento, influenciando a forma como a sociedade interage com a pessoa idosa e
até a maneira como o idoso encara a sua situação pela dificuldade em reconhecer e
desenvolver as suas potencialidades (Neves, 2012).

1.3. Fases do ciclo de vida do idoso


O envelhecimento dá origem a uma diminuição da capacidade da adaptação e de
resposta às variadas solicitações criadas ao idoso, havendo consequentemente uma
instabilidade do equilíbrio homeostático, que conduz a uma maior facilidade em adoecer,
conduzindo assim a um aumento da dependência do idoso (Melo, 2012).

A etapa da velhice subdivide-se em várias


fases:

 A primeira corresponde à fase de entrada na


velhice e abarca o período dos 60-70 anos;
 A segunda corresponde a uma fase intermédia
entre os 70-75/80 anos;
 A terceira e última fase a partir dos 75/80 anos.

Todavia, a subdivisão mais utilizada regula-se


apenas por duas fases: os " jovens idosos " - desde a
entrada até aos 75/80 anos e os " grandes idosos " a
partir dos 75/80 anos até à morte. A esta última fase, denominada por 4ª idade associa-se
uma progressiva e acentuada deterioração das capacidades biológicas, psicológicas e
sociais do indivíduo e sobre ela recai um ponto de vista extremamente negativo.

Na 4ª idade há uma grande probabilidade de o indivíduo se transformar numa pessoa


senil, aumentando assim as possibilidades de entrada definitiva numa instituição de apoio
especializado (Marchand, 2005).

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2. Principais alterações biológicas do envelhecimento


As modificações fisiológicas que se
produzem no decurso do envelhecimento resultam
de um conjunto de interações entre os vários
fatores intrínsecos e extrínsecos e manifestam-se
através de mudanças estruturais e funcionais.

Cada sistema tem o seu período de


envelhecimento, sendo este gradual e
heterogéneo. As alterações não se dão todas ao
mesmo tempo, sendo umas mais evidentes e
incidentes do que outras. Seja qual for o
mecanismo e o tempo de envelhecimento celular,
este não atinge simultaneamente todas as células,
tecidos, órgãos e sistemas.

Desta forma, é de primordial importância conhecer as alterações fisiológicas


decorrentes do processo de envelhecimento e saber identificar as síndromes geriátricas,
de forma a prevenir o bem-estar do idoso (Cardoso, 2009).

2.1. Alterações estruturais do envelhecimento


Ao longo do envelhecimento, o idoso vai sofrendo alterações ao nível da composição
global corpórea, tais como:

 Redução da massa magra, a qual tem maior atividade metabólica, verificando-se


simultaneamente o aumento da quantidade de tecido adiposo, considerando-se
metabolicamente menos ativo;
 Aumento da massa gorda e percentagem de gordura
corporal principalmente na região central do corpo;
 Redução do metabolismo basal;
 Aumento do risco de obesidade e doenças crónicas;
 Diminuição do tamanho da fibra muscular;
 Diminuição da força, velocidade e potência;
 Limitações funcionais nas atividades da vida diária;
 Redução da massa óssea;
 Redução da cartilagem que cobre as extremidades ósseas
(que provoca a osteoporose, o aumento do risco de quedas,
a osteoartrite e a dor ao movimentar-se).

Segundo Rossi e Sader (Freitas et al., 2002 in Geithner & McKenney, 2010), ocorrem
modificações anatómicas na coluna vertebral, que causam uma redução na estatura,
aproximadamente de 1 a 3 cm por cada década. Após os 50 anos de idade inicia-se a atrofia
óssea, ou seja, a perda de massa óssea que poderá levar a fraturas.

A cartilagem articular torna-se menos resistente e menos estável sofrendo um


processo degenerativo. Ocorre diminuição lenta e progressiva da massa muscular, sendo

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o tecido gradativamente substituído por colagénio e gordura. As alterações no sistema


osteoarticular provocam a perda do equilíbrio corporal do idoso, reduzindo a amplitude dos
movimentos e modificando a marcha.

O envelhecimento modifica a atividade celular na medula óssea, ocasionando um


reabastecimento inadequado de osteoclastos e osteoblastos e também um desequilíbrio no
processo de reabsorção e formação óssea, resultando em perda óssea.

Existe também a tendência de aumentar de peso verificando-se o aumento do tecido


adiposo e a perda de massa muscular e óssea. A distribuição da gordura corporal acentua-
se mais no tronco e menos nos membros. Dessa forma, a gordura abdominal eleva o risco
para doenças metabólicas, sarcopenia e declínio de funções (HUGHES et al., 2004 in
Cardoso, 2009).

O aumento da gordura corporal total e a diminuição do tecido muscular podem


ocorrer principalmente devido à diminuição da taxa de metabolismo basal e do nível de
atividade física (Cardoso, 2009).

2.2. Alterações funcionais do envelhecimento


O envelhecimento compreende uma série de alterações ao nível das funções
orgânicas e mentais, devido exclusivamente aos efeitos da idade avançada sobre o
organismo, o que limita o processo de manutenção do equilíbrio homeostático, originando
um declínio gradual das capacidades funcionais.

Consequentemente, um organismo envelhecido, quando submetido a situações de


stress, poderá apresentar dificuldades em manter a sua homeostase e, desta forma,
manifestar uma sobrecarga funcional, a qual poderá culminar em processos disfuncionais,
uma vez que há o comprometimento dos sistemas endócrino, nervoso e imunológico (Jacob
et al, 1994 in Teixeira, 2006).

O organismo envelhece como um todo, enquanto os seus órgãos, tecidos, células e


estruturas subcelulares têm um envelhecimento diferenciado, sendo um fenómeno
influenciado pela hereditariedade (Weineck, 1991 in Teixeira, 2006).

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2.2.1. Sistema cardiovascular


O envelhecimento encontra-se associado a alterações
estruturais cardíacas. Consideram-se as modificações mais
importantes na estrutura e funcionamento cardiovascular: o
aumento de gordura, a espessura fibrosa, a substituição do tecido
muscular por tecido conjuntivo e a calcificação do anel valvar (Pasi,
2006 in Geithner & McKenney, 2010).

Verifica-se também uma redução do tempo de relaxamento e da complacência do


miocárdio, o aumento da pressão arterial e a redução do fluxo sanguíneo. As paredes do
ventrículo esquerdo aumentam de espessura, ocorrendo o depósito de colagénio, da
mesma forma que a aorta se torna mais rígida (Geithner & McKenney, 2010).

Nas artérias, ocorre o acumular de


gordura (aterosclerose), a perda de fibra
elástica e o aumento de colagénio. Desta
forma, a função cardiovascular fica
prejudicada, diminuindo a resposta de
elevação de frequência cardíaca ao esforço ou
estímulo, aumentando a disfunção diastólica
do ventrículo esquerdo o que dificulta a ejeção
ventricular. Consequentemente ocorre a
diminuição da resposta às catecolaminas e a
diminuição da resposta vascular ao reflexo recetor. Advém uma maior prevalência de
hipertensão arterial sistólica isolada com um maior risco de episódios cardiovasculares
(Geithner & McKenney, 2010).

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2.2.2. Sistema respiratório


As alterações determinadas pelo
envelhecimento afetam desde os mecanismos
de controlo até as estruturas pulmonares e
extrapulmonares que participam no processo
de respiração.

Os pulmões mostram igualmente um


declínio gradual da capacidade respiratória
que passa de 165 litros aos 25 anos para 75
litros aos 85 anos (Firmino, 2006).

A musculatura da respiração
enfraquece com o progredir da idade. Este processo ocorre devido ao enfraquecimento dos
músculos esqueléticos adicionado ao enrijecer da parede torácica, resultando na redução
das pressões máximas inspiratórias e expiratórias, provocando um maior grau de
dificuldade em respirar.

Desta forma, ocorre a diminuição da forca dos músculos respiratórios, da taxa de


fluxo expiratório e da pressão arterial de oxigénio (Cardoso, 2009).

2.2.3. Sistema renal e urinário


Recorrentemente ocorre uma diminuição da função renal em
cerca de 50% das pessoas que atingem os 80 anos.

A atrofia da uretra e o enfraquecimento da musculatura pélvica


associados à perda de elasticidade uretral e de colo vesical favorecem
o aumento da frequência de incontinência urinária.

Desta forma, define-se a incontinência urinária como a


eliminação involuntária de urina, em local e momento inadequado. Não
se trata de uma doença, mas sim de um sintoma. Este problema

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aumenta com a idade, apesar do envelhecimento em si não ser causa de incontinência


urinária.

Este problema é mais frequente nas mulheres do que nos homens e afeta cerca de
30% dos idosos que vivem em comunidade e 50% dos idosos institucionalizados (Terra,
2003 in Cardoso, 2009).

2.2.4. Sistema gastrointestinal


Segundo Alencar e Curiati (2002 in Cardoso, 2009), o sistema gastrointestinal, assim
como os demais sistemas, sofre modificações estruturais e funcionais com o
envelhecimento. As alterações ocorrem em todo o trajeto gastrintestinal.

Ocorrem alterações na cavidade


oral, havendo perda do paladar, redução
na secreção da lípase e insulina pelo
pâncreas, diminuição da metabolização
de medicamentos pelo fígado, dificuldade
de esvaziamento da vesícula biliar,
diminuição da absorção de lípidos no
intestino delgado. No cólon observa-se o
enfraquecimento muscular.

No ânus são observadas


alterações relacionadas com a
espessura. Existem alterações do
colagénio e da força muscular, que
diminuem a capacidade de retenção fecal
volumosa. A isto acrescem-se alterações da elasticidade retal e da sensibilidade à sua
distensão (Cardoso, 2009).

2.2.5. Sistema nervoso e sensorial


Verifica-se a redução do tecido cerebral (10% entre os 30 e 90 anos), a diminuição
de certas enzimas, recetores e neurotransmissores, a desmielinização, a diminuição da
taxa de condução nervosa, a diminuição do controlo do sistema postural e reflexos posturais
e a redução da capacidade coordenativa (Geithner & McKenney, 2010).

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Durante o envelhecimento são várias


as mudanças estruturais que ocorrem: ao
nível do sistema nervoso, ocorre a
diminuição do volume do sistema nervoso
central (perda de neurónios e outras
substâncias) e as fibras nervosas perdem a
sua mielina – responsável pela velocidade
de condução do estímulo nervoso (Straub
et al., 2001 in. Teixeira, 2006).

Relativamente ao sistema sensorial,


órgãos dos sentidos são extremamente
importantes, não só para a vida relacional
do sujeito como também para dar qualidade
à sua existência. Quando a pessoa
envelhece os 5 sentidos declinam em acuidade, trazendo maior prejuízo o campo da visão
e da audição pois são os que maior importância tem na adaptação à vida quotidiana e ao
nível relacional (Firmino, 2006).

2.2.6. Sistema endócrino e metabólico


Conforme a pessoa envelhece
alterações como a diminuição da função dos
órgãos, e a diminuição das respostas dos
recetores podem afetar o sistema endócrino e,
consequentemente, favorecer o aparecimento
de determinadas doenças, como a diabetes.

Com o envelhecimento ocorre a


diminuição da produção de determinadas
hormonas, sobretudo as de crescimento,
estrogénio e testosterona.

O diagnóstico de doenças endócrinas pode ser dificultado pela presença de sinais e


sintomas não específicos como emagrecimento, confusão mental, fadiga e, ou, pelo fato da
pessoa já ter outras doenças (Liberman, 2011).

Importa ressaltar também que alterações da secreção da hormona de crescimento,


cortisol, estradiol, hormonas sexuais (testosterona, estrógeno, DHEA) e melatonina podem
contribuir para o surgimento de doenças mais evidentes em idosos, como osteoporose e
doença coronária (Liberman, 2011).

Por fim, é importante esclarecer que as secreções hormonais obedecem a um ritmo


biológico distinto para cada pessoa, influenciadas também por fatores externos.

Em suma, podemos afirmar que, no decorrer do processo de envelhecimento, vão-


se apresentando:

 Falhas na regulação da homeostasia;

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 Aumento dos níveis de insulina;


 Redução da sensibilidade a insulina;
 Redução dos níveis de GH e IGF;
 Redução dos níveis de testosterona (Geithner & McKenney, 2010).

2.2.7. Sistema Imunitário


À medida que os indivíduos envelhecem, o sistema imunológico torna-se menos
eficaz.

O sistema imunológico vai perdendo a sua capacidade de distinguir o que é próprio


do que não é próprio do corpo (ou seja, de identificar antígenos estranhos).
Consequentemente, as doenças auto imunes tornam-se mais frequentes

Tanto a quantidade de anticorpos produzidos em resposta a um antígeno, como a


capacidade do anticorpo de aderir ao antígeno encontram-se reduzidas. Essas alterações
podem explicar, em parte, por que razão a pneumonia, a gripe, a endocardite infeciosa e o
tétano são mais frequentes entre os idosos e conduzem à morte com mais frequência.

Essas alterações podem também explicar, em parte, porque as vacinas são menos
eficazes nos idosos e, assim, porque é importante que recebam doses de reforço
(disponíveis para algumas vacinas).

Essas alterações na função imunológica podem contribuir para o fato de os idosos


serem mais vulneráveis a contrair determinados tumores e infeções.

A deterioração da função imunitária associada ao processo de envelhecimento


denomina-se de imunosenescência, que contribui de forma importante para uma maior
mortalidade observada em adultos mais velhos, com maior incidência de infeções do
sistema respiratório e urinário (Robinson et al., 2001 in Cardoso, 2009).

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2.3. O sono no idoso


O sono encontra-se estreitamente relacionado
com a idade cronológica das pessoas e apresenta
mudanças significativas ao longo da vida.

Este carateriza-se por uma necessidade


fisiológica, que tem como funções biológicas a
restauração do organismo e a conservação da
energia, permitindo o equilíbrio físico e emocional.

O ser humano passa aproximadamente dois terços da sua existência a dormir.

Um idoso dorme cerca de seis horas ou menos, o seu sono é em grande parte
superficial, entrecortado, associado a múltiplos despertares (Mugeiro, 2010).

No entanto, dormir torna-se indispensável e fundamental para a homeostasia do


organismo, pelo que, a má qualidade de sono no idoso, dá origem a:

 Aumento da ansiedade e da irritabilidade;


 Diminuição da capacidade intelectual;
 Perda de memória e de reflexos;
 Depressão e reações emocionais adversas;
 Aumento do índice de massa corporal, desenvolvimento da obesidade e diabetes;
 Diminuição do sistema imunitário;
 Aumento de doenças respiratórias ou alérgicas, cardiovasculares;
 Pior desempenho nas tarefas.

À medida que se envelhece, o sono torna-se mais fragmentado, com interrupções


do tempo de sono, o que provoca sonolência excessiva ao longo do dia e diminuição do
estado de alerta.

Ocorre também uma diminuição da quantidade total de horas de sono no período de


24 horas, devido à diminuição da quantidade total de horas de sono (alteração do ritmo
biológico).

Mudanças sociais e fisiológicas do envelhecimento contribuem para a alteração do


padrão normal do sono, tais como: as mudanças no padrão social e familiar, a diminuição
do ciclo de amizades e a inatividade física e profissional.

No entanto, as perturbações do sono podem dever-se a outro tipo de causas:

 Problemas ou conflitos familiares;


 Más notícias;
 Medicação com efeitos no padrão normal de sono;
 Falta ou excesso de alimentos ou líquidos à hora de deitar;
 Ambiente com luz ou ruídos excessivos;
 Parceiro de quarto com hábitos de sono diferentes.

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Em geral, a arquitetura do sono sofre as seguintes modificações com o


envelhecimento:

 O tempo total de sono durante a noite é reduzido, pois os cochilos diurnos são
frequentes e prolongados;
 Diminuição do sono profundo;
 Diminuição do limiar do despertar devido ao ruído (mais pronunciado na mulher);
 Aumento do período de latência para o início do sono (mais de 30 minutos em cerca
de 32% das mulheres e 15% nos homens);
 Redução da duração total do sono;
 Maior número de transições de um estágio de sono para outro e para a vigília;
 Aumento dos problemas respiratórios durante o sono;
 Aumento da atividade mioclónica noturna, que altera o ritmo circadiano.

No entanto, consoante as causas dos problemas de sono, há soluções e fatores que


favorecem um sono confortável e tranquilo, nomeadamente:

 Comer ou beber algo ligeiro antes de deitar (quando não existe contraindicação
médica);
 Gozar de um ambiente calmo, obscurecido e sem ruído, à temperatura adequada;
 Evitar assistir a programas de televisão violentos ou situações excessivamente
dramáticas;
 Ouvir música suave e ler um texto agradável;
 Evitar discussões ou debates empolgantes;
 Tomar a medicação prescrita.

Insónia

Um dos principais distúrbios do sono é a insónia (dificuldade em adormecer ou em


manter o sono, ou a sensação de que o sono que se teve foi insuficiente).

Insónia não é apenas não dormir ou dormir pouco. Há quem durma pouco e não se
queixe durante o dia. Falamos de insónia quando o facto de se dormir pouco tem
consequências negativas durante o dia: fadiga, cansaço fácil, ardência nos olhos,
irritabilidade, ansiedade, fobias, incapacidade de concentrar-se, dificuldades de atenção e
memória, mal-estar e sonolência.

A insónia tem efeitos psíquicos e sociais, mais do que biológicos. Um dos riscos que
acarreta para as pessoas mais velhas é o de terem acidentes, uma vez que, passam o dia
menos despertas e atentas.

A insónia é mais frequente nas mulheres do que nos homens, e também nas pessoas
que vivem sós.

Causas da insónia:

 A insónia pode ser causada por substâncias que ingerimos. A cafeína e a teína, o
álcool, os corticoides e outros medicamentos podem causar transtornos do sono.

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 A insónia pode também ser causada pelas dores e incómodos associados a doenças
crónicas das pessoas idosas (doenças das articulações, asma, problemas
cardíacos, digestivos ou urinários, bronquite, entre outros).

Mas a insónia verifica-se também em pessoas que não têm qualquer doença. O
stress é suficiente para causá-la em qualquer idade, e mais acentuadamente nas pessoas
mais velhas.

Acontecimentos penosos como a morte de um amigo, perda do cônjuge, perda do


espaço social, dificuldades financeiras, sentimentos de abandono, limitações físicas
próprias da idade, mudanças no estatuto social ou perceção da própria condição de saúde
podem causar distúrbios do sono.

As três situações de saúde mental mais associadas à insónia na pessoa idosa são:

 Ansiedade: Esta dificulta o adormecer e pode levar a que a pessoa acorde várias
vezes durante a noite;
 Depressão: Uma consequência da depressão pode ser acordar cedo ou dormir
demais;
 Demência: quando ainda em estágios iniciais, pode haver muitas vezes inversão do
ciclo circadiano (dia-noite/ sono-vigília).

A insónia pode ainda ter causas ambientais. As pessoas que se deitam tarde, ou
ficam a ver televisão ou a ler até de madrugada, podem ficar com o ciclo do sono
desregulado. Este tipo de insónia adquirida afeta pessoas que trabalham em turnos
noturnos ou que atravessam frequentemente fusos horários, como os pilotos de avião.

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3. Problemas de saúde mais comuns no idoso


Para Hoeman (2000 in Cardoso, 2009) viver mais tempo aumenta as probabilidades
em 80% de contrair uma ou mais doenças crónicas, bem como limitações físicas
incapacitantes. Acrescenta ainda que em muitos casos é difícil de distinguir se se tratam de
alterações decorrentes do processo de envelhecimento ou se são manifestações
patológicas.

3.1. Doenças cardiovasculares


Algumas alterações biológicas esperadas
na pessoa idosa com o envelhecimento ocorrem
no sistema cardiovascular. Quando o idoso é
submetido a um esforço, ocorre uma diminuição
na capacidade do coração, de aumentar o
número e a força dos batimentos cardíacos. Com
o envelhecimento, ocorre também a redução da
frequência cardíaca em repouso, o aumento do
colesterol e da tensão arterial (Zaslavsky & Gus,
2002).

Ocorre um decréscimo do batimento


cardíaco máximo, associado à idade, que decorre
da frequência cardíaca máxima, pois esta diminui
de 6 a 10 batimentos por minuto (Zaslavsky &
Gus, 2002).

O miocárdio, com o envelhecimento, apresenta regiões com fibrose, depósito de


lipofuscina e substância amiloide. Já no endocárdio, é produzido um depósito de lípidos e
cálcio nas válvulas, com frequentes depósitos sucessivos. Tanto no pericárdio como no
endocárdio, ocorre um aumento do colagénio (proteína de tipo fibrosa que tem maior
concentrações na pele, ossos e tendões).

Com o envelhecimento, acontece a atrofia, com degeneração, das fibras musculares


no miocárdio, assim como a hipertrofia das fibras que restam. Verifica-se um aumento do
sistema de colagénio e de depósitos de gordura e substâncias amiloides (Zaslavsky & Gus,
2002).

Já nas grandes artérias ocorre uma perda da componente elástica determinando,


assim, uma maior rigidez da parede. Essa perda de elasticidade nas paredes arteriais
representa comummente uma condição descrita como arteriosclerose. Esta, por sua vez, é
causada por um aumento na calcificação das artérias e pelo surgimento de colagénio
(Zaslavsky & Gus, 2002).

Nos estádios mais avançados da vida, a arteriosclerose pode provocar: ataques


cardíacos, anginas e acidentes vascularcerebrais. Estes podem ser provocados por
mudanças normais da idade, influências ambientais e fatores genéticos.

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O envelhecimento estabelece algumas modificações estruturais, pois leva à


diminuição da reserva funcional, estabelecendo um limite para a performance durante a
atividade física. Desta forma, a atividade física moderada e regular atua significativamente
na prevenção de algumas doenças cardiovasculares, como a doença cardíaca isquémica,
os AVCs, a hipertensão e as doenças vasculares periféricas.

A quantidade média de sangue bombeada a partir do coração, passa de 5 litros por


minuto, aos 20 anos, para 3.5 litros por minuto aos 75 anos. Representa um declínio de
cerca de 0.7% ao ano. No jovem adulto o número de batimentos cardíacos pode atingir as
220 pulsações por minuto mas, no indivíduo com 65 anos a frequência máxima não passa
dos 160 batimentos por minuto. A frequência cardíaca máxima que se pode atingir vai
decrescendo um batimento cardíaco por ano (Firmino, 2006).

Hipertensão arterial

A hipertensão arterial é uma doença crónica determinada por elevados níveis de


pressão sanguínea nas artérias, o que faz com que o coração tenha que exercer um esforço
maior do que o normal para fazer circular o sangue através dos vasos sanguíneos. A
pressão sanguínea envolve duas medidas, sistólica e diastólica, referentes ao período em
que o músculo cardíaco está contraído (sistólica) ou relaxado (diastólica). Os valores de
referência são:

 Pressão arterial sistólica superiores ou iguais a 140 mm Hg


 Pressão arterial diastólica superiores ou igual a 90 mm Hg.

No entanto, um valor elevado isolado não é sinónimo de doença. Só é considerado


hipertenso um indivíduo que tenha valores elevados em, pelo menos, três avaliações
seriadas.

Causas da hipertensão arterial

Na maior parte dos casos (90 por cento), não há uma causa conhecida para a
hipertensão arterial. No entanto é possível encontrar uma doença associada que é a
verdadeira causa da hipertensão arterial. Por exemplo: a apneia do sono, a doença renal
crónica, a doença tiroideia e paratiroideia.

A hereditariedade e a idade são fatores a ter também em atenção. Em geral, quanto


mais idosa for a pessoa, maior a probabilidade de desenvolver hipertensão arterial.

Fatores de risco

 Obesidade;
 Consumo exagerado de sal e de álcool;
 Sedentarismo;
 Má alimentação;
 Tabagismo;
 Stress.

Como prevenir a hipertensão arterial

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A adoção de um estilo de vida saudável constitui a melhor forma de prevenir a


ocorrência de hipertensão arterial.

Entre os hábitos de vida saudável sublinha-se a importância de:

 Redução da ingestão de sal na alimentação;


 Preferência por uma dieta rica em frutos, vegetais e com baixo teor de gorduras
saturadas;
 Prática regular de exercício físico;
 Consumo moderado do álcool
 Cessação do hábito de fumar;
 No caso dos indivíduos obesos é aconselhável uma redução de peso.
 Medição da pressão arterial pelo menos uma vez por ano.

Sintomas que estão associados à doença

 Cefaleias
 Tonturas
 Mal-estar vago
 Zumbidos
 Sensação de desmaio
 Distúrbios na visão

No entanto, é comum não surgir sintomas, principalmente nos primeiros anos.

Formas de tratamento

Não há uma cura para a hipertensão arterial mas na maioria dos casos é controlável.

A adoção de um estilo de vida saudável proporciona geralmente uma descida


significativa da pressão arterial: nomeadamente, a diminuição do consumo do sal, uma
alimentação saudável, redução do consumo de álcool, evitar o stress, não fumar, manter
peso saudável e a prática regular de exercício físico (marcha, corrida, natação ou dança
são boas escolhas).

Se algum tempo depois de adotar estas medidas não tiver registado uma descida
adequada da pressão arterial, torna-se necessário recorrer ao tratamento farmacológico.
Convém sublinhar que os medicamentos não curam a hipertensão arterial, apenas ajudam
a controlar a doença. Por isso, uma vez iniciado o tratamento, ele deverá ser, em princípio,
mantido ao longo de toda a vida.

Acidente Vascular Cerebral (AVC)

O AVC acontece quando há interrupção do fornecimento de sangue em qualquer


parte do cérebro e pode ser classificado como hemorrágico e isquémico, sendo o isquémico
o mais frequente, representando 85% dos casos. O AVC tem diferentes causas:
malformação arterial cerebral (aneurisma), hipertensão arterial, cardiopatia e
tromboembolia.

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Sintomas de AVC em idosos

 Fraqueza ou formigamento na face, no braço ou na perna, especialmente em um


lado do corpo;
 Queda facial – assimetria quando o paciente é solicitado a mostrar os dentes ou
sorrir;
 Fraqueza nos braços ao ser solicitado a estender os braços para frente em um
ângulo de 90° com o tronco e mantê-los na posição por 10 segundos, um dos braços
não se move ou não fica mantido na posição em relação ao contralateral;
 Confusão, alteração da fala ou compreensão, fala anormal ao ser solicitado a
pronunciar a frase “o rato roeu a roupa do rei de Roma”, o paciente pronuncia
palavras incompreensíveis, usa palavras incorretas ou é incapaz de pronunciar;
 Alteração na visão (em um ou ambos os olhos);
 Alteração do equilíbrio, coordenação, tontura ou alteração no andar;
 Dor de cabeça súbita, intensa, sem causa aparente.

Prevenção do AVC em idosos

 Diminuir a quantidade de gordura na sua dieta;


 Adotar uma dieta saudável melhora a sua forma física e diminui o risco para doenças
vasculares (derrame, infarto);
 Parar de fumar diminui ainda mais o risco e é imediatamente eficaz;
 Exercícios físicos regulares melhoram a circulação e ajudam a diminuir os outros
fatores de risco para AVC;
 Se tiver pressão alta, tomar os seus remédios conforme orientação do médico,
mesmo que não tenha sintomas;
 Se tem diabetes, preste bastante atenção na dieta para manter o nível de glicose no
sangue dentro do normal.

3.2. Diabetes no idoso


A Diabetes Mellitus é uma doença
crónica que se caracteriza por uma
elevada taxa de glicose (açúcar) no
sangue e por uma falta parcial ou total de
insulina. Esta doença é bastante frequente
na população idosa (ocorre em 20% acima
dos 70 anos), no entanto, é pouco
diagnosticada e tratada nesta idade. A
grande maioria dos diabéticos tem mais de
45 anos (Zaslavsky & Gus, 2002).

O aparecimento da doença com o


envelhecimento poder-se-á dever a uma
predisposição genética ou a um conjunto
de outros fatores como: o aumento de peso; a falta de atividade física; stress; infeções;
grandes cirurgias ou medicação.

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A diabetes no idoso apresenta frequentemente alguns sintomas, nomeadamente:

 Perda de peso;
 Muita sede;
 Urina em grande quantidade e diversas vezes;
 Fome em excesso;
 Fadiga fácil;
 Deterioração da acuidade visual;
 Dormência ou formigueiro nas pernas;
 Infeções constantes;
 Dificuldade de cicatrização das feridas.

A diabetes não controlada poderá causar: derrames cerebrais; ataques cardíacos,


cegueira, amputação de membros, doenças renais e impotência sexual.

O paciente diabético deverá:

 Fazer no mínimo 4 refeições ao dia, em pequenas quantidades;


 Não ingerir açúcares ou fritos;
 Comer legumes ou verduras;
 Beber muita água;
 Não ficar muitas horas seguidas sem se alimentar.

O exercício físico ajuda a controlar a diabetes porque melhora a tolerância à glicose


e a sensibilidade à insulina. As atividades físicas mais recomendadas para os idosos são a
caminhada e os exercícios físicos realizados dentro de água, como a natação e a
hidroginástica.

3.3. Doenças reumáticas


Reumatismo é o nome comum para as doenças que afetam o sistema
músculoesquelético. Representam o conjunto de diferentes doenças que agridem o
aparelho locomotor, ou seja, ossos, articulações, cartilagens, músculos, tendões e
ligamentos. Além disso, algumas doenças reumáticas podem comprometer outras partes e
funções do corpo humano, nomeadamente os rins, coração, pulmões, olhos, intestino e até
a pele (Zaslavsky & Gus, 2002).

É uma doença comummente encontrada em idosos. Existem mais de 100 tipos


diferentes de doenças reumáticas, sendo as mais comuns: artrite reumatoide, artrose,
tendinite, gota, dores na coluna, osteoporose, fibromialgia, lúpus, esclerose sistémica
progressiva e a lombalgia.

Apesar de apresentarem como sintoma comum a dor nas articulações, cada tipo de
doença reumática tem características próprias. Estas provocam dor e incapacidade,
limitando o idoso, mas raramente são fatais. Podem ser causadas ou agravadas por fatores
genéticos, traumatismos, obesidade, sedentarismo, stress, ansiedade, depressão e
alterações climáticas. Esse grupo de doenças não é transmissível, não é contagioso e
normalmente é acompanhado de dor (Zaslavsky & Gus, 2002).

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Eis alguns sintomas: dificuldade em se movimentar ou rigidez nas articulações ao


acordar; diminuição da flexibilidade da coluna ao calçar os sapatos; limitação ao pentear-
se; dificuldades em escovar os dentes; dor, inchaço e calor nas articulações.

As doenças reumáticas, assim como outras doenças crónicas, têm tratamento. Se a


doença for descoberta no início e tratada de forma adequada, o paciente reumático poderá
levar uma vida normal e sem dor, minimizando o risco de incapacidade física.

3.4. Alterações da visão e da audição


A deterioração visual deve-se a modificações
fisiológicas e alterações mórbidas (Cardoso, 2009). As
causas mais frequentes que as determinam costumam
corresponder a cataratas, glaucoma, degenerescência
macular e retinopatia diabética. De acordo com Heath (1992
in Firmino, 2006) 50% dos indivíduos a partir dos 40 anos
apresenta sinais de começar a desenvolver cataratas.

As alterações visuais que ocorrem com o avançar da idade são caracterizadas pela
diminuição da acomodação, da acuidade, da sensibilidade às cores e da perceção em
profundidade. A incidência dos problemas oculares e da cegueira aumenta
progressivamente com a idade (Firmino, 2006).

Uma outra dificuldade que usualmente se observa corresponde ao declínio da


perceção visual do movimento. A diminuição da acuidade visual pode limitar bastante uma
pessoa nas atividades de vida diária, limitando também o contacto social, uma vez que a
pessoa passa a ficar dependente de terceiros para se movimentar (Firmino, 2006).

No que respeita à audição, Plomp (1978 in Firmino, 2006) refere que 50% das
pessoas acima dos 75 anos tem perda da acuidade auditiva. Segundo Nadol (1993 in
Firmino, 2006) o declínio da audição é determinado por fatores genéticos e pela exposição
que ocorreu ao longo da vida ao ruído excessivo e a substâncias ototóxicas.

Devido a este facto a pessoa vai perdendo a perceção às frequências elevadas, a


capacidade de localizar sinais sonoros, de discriminar a origem de sons diferentes e tem
dificuldade em compreender o discurso das outras pessoas. Quando há barulho envolvente
a audição fica ainda mais prejudicada (Firmino, 2006).

3.5. Aptidões cognitivas


Segundo Park et al. (2001 in Cardoso, 2009), muitas
evidências sugerem que adultos mais velhos têm maior
dificuldade em reter e assimilar novas informações, e
gradualmente as suas competências de raciocínio vão
diminuindo. Em geral, os idosos são mais lentos para
responder algumas tarefas cognitivas, e são mais
suscetíveis ao rompimento da informação que adultos mais
jovens.

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As funções intelectuais também se alteram, verifica-se: a dificuldade nos processos


de aprendizagem e de memorização, o que se relaciona com as alterações químicas,
neurológicas e circulatórias que afetam a função cerebral; a diminuição da eficácia da
oxigenação e nutrição celular e a diminuição na aprendizagem associada às insuficiências
das sinapses e à disponibilidade de determinados neurotransmissores (Braver e Brach,
2002 in Teixeira, 2006).

Os estudos relativamente ao desempenho intelectual têm vindo a demonstrar que


as aptidões cognitivas atingem o seu pico pela década dos 30 anos, continuam estáveis
até à década dos 50 ou começo dos 60 e, a partir de então, começam a declinar. O declínio
gera-se a partir dos 70 anos. No entanto, este não é uniforme para todas as funções
cognitivas (Firmino, 2006).

Spar e La Rue (1998 in Firmino, 2006) mencionam, a respeito das funções


intelectuais, os seguintes fatos:

 A capacidade de comunicar eficazmente mantém-se estável, no entanto, os idosos


apresentam uma maior dificuldade em compreender mensagens longas e complexas
e apresentam um discurso mais repetitivo;
 Os idosos evidenciam uma maior dificuldade nas tarefas de raciocínio que envolvem
uma análise lógica e organizada de material abstrato ou não familiar;
 No desempenho de tarefas que implicam planear, executar e avaliar sequências
complexas de comportamento os idosos costumam revelar-se mais lentos do que os
jovens;
 Os idosos são mais lentos nos aspetos percetivos, mnésicos e cognitivos bem como
nas funções motoras;
 Os idosos apresentam dificuldade em repartir a atenção por múltiplas tarefas ou em
desviar a atenção de um para outro tópico.

Cohen (2005 in Firmino, 2006) refere que existem 2 tipos de inteligência: fluida e
cristalina:

 Inteligência Fluída: não depende


exclusivamente de aprendizagem prévia. Tem
a ver com a rapidez com que novas situações
são apresentadas;
 Inteligência Cristalina: relaciona-se com a
informação acumulada e o vocabulário
adquiridos desde os tempos de escola como
da vida quotidiana. Diz respeito à aplicação
das aptidões e do conhecimento previamente
adquirido para resolver os problemas.

Segundo aquele autor a inteligência fluida tende a declinar lentamente com a idade.
Em contrapartida a inteligência cristalina frequentemente melhora ou expande-se com a
idade.

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O prejuízo gradual da memória costuma ser comum na velhice. Com o


envelhecimento é normal que ocorra um certo esquecimento. Consequentemente, por volta
dos 70 anos, pode-se observar uma maior dificuldade em memorizar. Os lapsos de
memória tornam-se preocupantes quando comprometem o indivíduo ao nível pessoal,
social ou profissional. Num estádio avançado, o idoso chega a apresentar esquecimentos
para procedimentos vulgares como lembrar-se se tomou banho, se almoçou, ou mesmo
reconhecer os seus próprios familiares (Cardoso, 2009).

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4. Perturbações mentais e
comportamentais no idoso
A velhice é um período normal do
ciclo vital caracterizado por algumas
mudanças mentais e comportamentais.
Perceber o limiar de diferenciação entre o
estado normal e a presença de alterações
na pessoa idosa, torna-se um processo
complexo. Desta forma, alterações de
memória, demência, depressão e
alterações do sono são alguns dos
distúrbios mais frequentemente encontrados na terceira idade (Koch & Rosa, 2001).

Os primeiros sintomas de um quadro de demência no idoso são: esquecerem-se


continuamente das coisas, colocá-las em lugares inadequados, perder-se em locais
conhecidos, apresentar-se confuso, desconfiado ou assustado, perder o interesse em fazer
coisas de que sempre gostou, não reconhecer pessoas, amigos, entre outros.

Muitas perturbações mentais em idosos podem ser evitadas ou atenuadas.


Consequentemente, uma avaliação médica e psicológica torna-se necessária para o
esclarecimento do quadro clínico apresentado pelo idoso (Cardoso, 2009). Diversos fatores
psicossociais de risco predispõem os idosos a perturbações mentais, nomeadamente:

 Perda de papéis sociais;


 Perda da autonomia;
 Morte de amigos e parentes;
 Declínio da sua saúde;
 Isolamento social;
 Restrições financeiras;
 Diminuição das capacidades cognitivas.

As perturbações mais comuns na terceira idade são:

 Demência;
 Doença de Alzheimer;
 Demência Vascular;
 Esquizofrenia;
 Depressão;
 Perturbação Bipolar;
 Perturbação Delirante;
 Perturbações de Ansiedade;
 Perturbações somatoformes;
 Perturbações por abuso de álcool e
outras substâncias.

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4.1. Demência
O aumento da esperança média de vida contribui para uma
vida quantitativamente mais longa. Este facto predispõe a população
idosa, que vive atualmente em média mais 20 anos que há 40 anos
atrás, em risco de desenvolver quadros neurodegenerativos,
verificando-se uma maior incidência de demências.

Desta forma, importa compreender o que é a demência.

Demência é um síndrome resultante da perturbação do cérebro, em geral de


natureza crónica ou progressiva no qual se registam alterações de múltiplas funções
nervosas superiores incluindo a memória, o pensamento, a orientação, a compreensão, o
cálculo, a linguagem e o raciocínio. As perturbações das funções cognitivas são muitas
vezes acompanhadas, e por vezes precedidas por deterioração do controlo emocional, do
comportamento social ou da motivação. (ICD 10, WHO 1992 in Castro-Caldas & Mendonça,
2005).

Demência refere-se a um comprometimento cognitivo geralmente progressivo e


irreversível. As funções cognitivas anteriormente adquiridas vão sendo gradualmente
perdidas. Com o aumento da idade a demência torna-se mais frequente. Envolve entre 5 a
15% das pessoas com mais de 65 anos e aumenta para 20% nas pessoas com mais de 80
anos (Firmino, 2006).

A demência caracteriza-se por um declínio cognitivo que concebe uma dependência


progressiva e incapacidade atingindo a necessidade imprescindível de cuidadores ou de
institucionalização (Koch & Rosa, 2001).

Os fatores de risco conhecidos para a demência são: a idade avançada e um


histórico familiar de demência.

Os sintomas de demência incluem:

 Alterações na memória, na linguagem, na capacidade de orientação;


 Perturbações de comportamento: como a agitação, a inquietação, raiva, violência e
gritos;
 Desinibição sexual e social;
 Impulsividade;
 Alterações do sono;
 Pensamento ilógico;
 Alucinações.

As causas de demência incluem lesões e tumores cerebrais, síndrome da


imunodeficiência adquirida, álcool, medicamentos, infecções, doenças pulmonares
crónicas e doenças inflamatórias. Por vezes as demências são causadas por doenças
degenerativas primárias do sistema nervoso central e por doença vascular (Koch & Rosa,
2001). As demências são classificadas em vários tipos, de acordo com o quadro clínico,
sendo considerada a mais comum a doença de Alzheimer.

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4.2. Doença de Alzheimer


De uma larga panóplia de demências
destaca-se a doença de Alzheimer, sendo
esta responsável por 50 a 70% de todos os
casos (Castro-Caldas & Mendonça, 2005),
convertendo-se num dos principais
problemas de saúde. Estima-se que existam
entre 15 a 20 milhões de pessoas com
Alzheimer em todo o mundo (Figueiredo,
2007).

Trata-se de uma doença


neurodegenerativa progressiva e
irreversível com um aparecimento insidioso,
que pressupõe perdas de memória, bem
como um leque de distúrbios cognitivos,
comprometendo assim a autonomia do
idoso. Consecutivamente produz mudanças
comportamentais e de personalidade, assim como, deterioração do pensamento.

Representa um protótipo de demência degenerativa cortical, ou seja, clinicamente é


acompanhada de perturbações cognitivas que envolvem a área da linguagem, as praxias e
as gnosias, sintomas estes que vão predominando e ganhando uma linha de força ao longo
de toda a evolução da doença (Figueiredo, 2007).

A sua prevalência aumenta gradualmente com a idade, tendo o seu pico de iniciação
aos 60 anos, com rácios de incidência que duplicam a cada 5 anos até, pelo menos, aos
85 anos de idade.

Apesar de a idade ser o fator de risco com maior incidência, outros fatores como os
genéticos (história familiar de doença de Alzheimer, apolipoproteína E4, outras alterações
genéticas), ambientais (traumatismo cranioencefálico, exposição a estrogénios, exposição
a anti-inflamatórios), forma familiar da doença (cromossoma 21, cromossoma 14 e 1),
processos ligados ao envelhecimento (stress oxidativo, fatores vasculares), assim como, o
género, a educação, o tabaco, podem interligar-se motivando o surgimento da patologia.
(Figueiredo, 2007).

É considerada uma doença social na medida em que toda a família é atingida pela
mudança de comportamento do idoso, pelo desconhecimento e pelos preconceitos
existentes. Desta forma, um diagnóstico precoce revela-se crucial, pois permite a
atenuação dos sintomas da doença (Department of human health & human services, 2009).

Os sintomas poderão ser melhor compreendidos ao longo de três etapas do seu


desenvolvimento: ligeiro, moderado e severo, de acordo com o nível de comprometimento
cognitivo e o grau de dependência do indivíduo. Saliente-se que esta divisão serve como
orientação para perceber o processo de evolução da doença, para ajudar os cuidadores a

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manterem-se atentos a potenciais sintomas e para permitir o planeamento futuro. Não


obstante, cada pessoa conviverá com a doença de forma diferenciada e distinta.

Numa fase inicial a pessoa pode ter dificuldades com a linguagem, apresentar
significativa perda de memória, desorientar-se no tempo e no espaço, apresentar
dificuldade em tomar decisões, carecer de iniciativa e motivação, manifestar sinais de
depressão e agressividade e perder o interesse por atividades. No entanto, ainda é capaz
de executar as atividades básicas do dia-a-dia, mantendo-se independente.

Numa fase moderada há um maior comprometimento intelectual e o paciente passa


a necessitar de algum apoio no que concerne às atividades instrumentais e às atividades
básicas do dia-a-dia.

Numa fase mais avançada, o paciente acaba por perder a sua autonomia e
independência, necessitando de assistência integral (Figueiredo, 2007; Bottino et al., 2002).

Todavia, é de relevar que o diagnóstico em vida do sujeito é um diagnóstico possível


ou provável, pelo que, um diagnóstico definitivo necessita de uma evidência histopatológica
obtida por biópsia ou necropsia (Figueiredo, 2007; Bottino et al., 2002).

Ainda não existe tratamento estabelecido que possa curar ou reverter a deterioração
causada pela doença de Alzheimer, no entanto, as opções disponíveis visam atenuar as
disfuncionalidades cognitivas e as alterações de comportamento, melhorando a qualidade
de vida do paciente e da sua rede de suporte, com uma abordagem multidisciplinar. Entre
as principais técnicas destacam-se: treino cognitivo, técnica para melhor estruturação do
ambiente, orientação nutricional, programas de exercícios físicos, orientação e suporte
psicológico aos familiares e cuidadores (Bottino et al., 2002).

4.3. Esquizofrenia
Esta doença vulgarmente tem início no final da adolescência ou idade adulta jovem
e persiste para toda a vida. Segundo estudos diversos entre 12 a 15% das esquizofrenias
iniciam-se após os 40 anos. Cerca de 20% das pessoas com esquizofrenia não apresentam
sintomas ativos aos 65 anos; 80% mostram graus
variados de comprometimento. A doença torna-se
menos acentuada à medida que o paciente
envelhece (Firmino, 2006).

Sintomas incluem inibição social,


comportamento excêntrico, pensamento ilógico,
alucinações e rigidez afetiva. Os idosos com
esquizofrenia respondem bem ao tratamento com
drogas antipsicóticas que devem ser
administradas pelo médico com cautela (Firmino,
2006).

Fatores de risco: hereditariedade (existe


um risco acrescido quando existe história familiar de doença afetiva); género (predominam
as mulheres); estado conjugal (maior número de pacientes solteiros); isolamento social

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(verifica-se que há uma associação entre o aparecimento da doença e o isolamento social,


provocado quer pela viuvez, pela perda de amigos, pela reforma, pela mudança de
habitação ou por outras causas); personalidade (os doentes com esquizofrenia tardia têm
vindo a ser descritos como reservados, excêntricos, solitários, desconfiados e
emocionalmente frios) (Firmino, 2006).

4.4. Depressão
Embora a doença possa afetar as pessoas em qualquer fase da vida, alguns estudos
indicam que os sintomas são altamente prevalentes nas fases tardias da vida. A sua
incidência anual tem tendência a aumentar com o evoluir da idade, com ratios de 17 por
cada 1000 idosos com idades compreendidas entre os 70 e os 79 anos, aumentando para
44 por cada 1000 idosos de idades entre 79 a 85 anos (Firmino, 2006).

As depressões estão muitas vezes associadas com outras doenças médicas, cuja
evolução agravam ou complicam. São por isso um importante fator de mortalidade, levando
em muitos casos ao suicídio.

O indivíduo deprimido perde o interesse pelas atividades diárias e, com isso, podem
surgir outros problemas de saúde, como diminuição da
atividade, dificuldade em dormir ou de se alimentar e uma
baixa autoestima.

Os cuidados consigo mesmo podem ajudar a


pessoa a prevenir a depressão ou a contribuir para o
tratamento. A prática de atividade física, um sono regular
e o não consumo de álcool e drogas ajudam a minimizar
os sintomas da doença. O relacionamento e interação com
familiares e amigos torna-se fundamental em todo o
processo (Koch & Rosa, 2001).

Os sintomas incluem:

 Diminuição da energia e da capacidade de concentração;


 Perda de interesse e prazer nas atividades quotidianas e nas interações sociais;
 Alterações do sono especialmente o despertar precoce pela manhã e múltiplos
despertares durante a noite;
 Sensação contínua de fadiga ou cansaço;
 Sentimento de reprovação ou culpabilidade;
 Sensação de abandono pelos familiares ou amigos próximos;
 Estado de letargia ou agitação;
 Aumento ou diminuição do apetite, originando alterações de peso;
 Queixas somáticas (como dores pelo corpo, ansiedade,...);
 Pensamentos frequentes de morte ou suicídio.

Poderão existir dificuldades de memória em idosos deprimidos, o que se denomina


síndrome demencial da depressão que poderá ser confundida com a verdadeira

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demência. Além disso, a depressão poderá estar associada a uma doença física ou ao uso
de medicamentos.

Vários fatores estão associados a sintomas depressivos como: limitações


funcionais, doenças crónicas, isolamento social, problemas socioeconómicos, perturbações
de memória, doença de Parkinson, acidentes vasculares e cerebrais, doenças crónicas ou
cardiovasculares, hipotiroidismo, perda de parentes próximos, excesso de medicamentos,
entre outros (Koch & Rosa, 2001).

4.5. Perturbações delirantes


A época de início ocorre por volta da meia-idade, podendo atingir a velhice.
Caracteriza-se pela existência de ideias delirantes não bizarras, em regra circunscritas e
bem sistematizadas, cuja duração seja superior a um mês. Não se verifica alterações no
comportamento, mantendo em regra, um funcionamento razoavelmente adequado
(Firmino, 2006).

Os sintomas traduzem-se em alterações do pensamento de natureza persecutória


(os pacientes crêem que estão a ser espionados,
seguidos, envenenados ou de algum modo
assediados). Os delírios mais frequentes são os
persecutórios, de ciúme, erotomaníacos, somáticos ou
de grandiosidade. Em regra, têm tendência à
cronicidade, uma vez que o tratamento é difícil, devido
à resistência do doente em tomar a medicação
(Firmino, 2006).

Fatores de risco: personalidade (verifica-se que vivem sós e que apresentam uma
personalidade de tipo paranoide ou esquizoide); fatores genéticos (observa-se uma
incidência mais elevada de esquizofrenia nos familiares dos doentes com perturbação
delirante); fatores socioeconómicos (o baixo nível socioeconómico tem sido associado à
perturbação delirante) (Firmino, 2006).

As alterações do pensamento podem acompanhar outras doenças mentais que


devem ser descartadas, tais como, a doença de Alzheimer, transtornos por uso de álcool,
esquizofrenia, transtornos depressivos e transtorno bipolar. Além disso, podem ser
secundárias ao uso de medicamentos ou sinais precoces de um tumor cerebral (Koch &
Rosa, 2001).

4.6. Perturbações de ansiedade

Incluem transtornos de pânico, fobias, perturbações obsessivo-compulsivas,


ansiedade generalizada, de stress agudo e de stress pós-traumático. Dos apresentados,
os mais comuns são as fobias (Koch & Rosa, 2001).

As perturbações de ansiedade poderão iniciar-se no período intermediário da idade


adulta, no entanto, algumas aparecem pela primeira vez após os 60 anos.

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Em idosos a fragilidade do sistema nervoso autónomo pode explicar o


desenvolvimento de ansiedade após um elemento stressor importante. A perturbação de
stress pós-traumático é frequentemente mais severa nos idosos do que em indivíduos mais
jovens, tendo em consideração a debilidade física e psicológica concomitante nos idosos
(Koch & Rosa, 2001).

As obsessões (pensamento, sentimento, ideia ou sensação intrusiva e persistente)


e as compulsões (comportamento consciente e repetitivo como contar, verificar ou evitar
um pensamento que serve para anular uma obsessão) podem aparecer pela primeira vez
em idosos, embora seja possível encontrar esses sintomas em pessoas de outras faixas
etárias (Koch & Rosa, 2001).

Poderão fazer-se representar por atos excessivos, fomentados pelo desejo de


organização, rituais e pela necessidade excessiva de manter rotinas. Ou em compulsões,
passando a verificar as coisas repetidamente, tornando-se geralmente inflexíveis e rígidos.

4.7. Perturbações somatoformes


Este grupo inclui sintomas físicos (por exemplo dores,
náuseas e tonturas) para os quais não pode ser encontrada uma
explicação médica adequada e que são suficientemente
sériospara causarem um sofrimento emocional ou prejuízo
significativo, à capacidade do paciente para se adaptar a papéis
sociais e ocupacionais.

Nesses transtornos, os fatores psicológicos são grandes contribuidores para o início,


para a severidade e para a duração dos sintomas. Não são resultado de simulação
consciente (Koch & Rosa, 2001).

A hipocondria é comum em pacientes com mais de 60 anos, embora o seja mais


frequente entre as pessoas com 40 e 50 anos. Exames físicos repetidos são úteis, pois
permitem garantir aos pacientes que eles não têm uma doença fatal. A queixa é real, a dor
é verdadeira e percebida como tal pelo paciente. Ao tratamento, deve-se atribuir um
enfoque psicológico ou farmacológico (Koch & Rosa, 2001).

4.8. Perturbações devidas ao abuso de substância psicoativa


Os pacientes idosos podem iniciar um quadro de dependência a uma droga ou
inclusive à medicação. A dependência de álcool, geralmente, apresenta uma história de
consumo excessivo que se iniciou em fases anteriores e frequentemente está associada a
uma doença médica, principalmente doença hepática. Além disso, a dependência ao álcool
está claramente associada a uma maior incidência de quadros demenciais (Koch & Rosa,
2001).

A dependência de substâncias como hipnóticos, ansiolíticos e narcóticos é comum.


Os pacientes idosos permitem-se a abusar de ansiolíticos para o alívio da ansiedade
crónica ou para garantirem uma boa noite de sono. O quadro clínico é variado e
frequetemente inclui quedas, confusão mental, fraca higiene pessoal, depressão e
desnutrição (Koch & Rosa, 2001).

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Uma particularidade de tais dependências nesses pacientes é que tanto os


medicamentos quanto o álcool estão relacionados com um maior número de quedas e
fraturas, o que reduz significativamente a expectativa de vida do idoso após o incidente.

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5. Quedas no Idoso
As quedas constituem a primeira causa de
incidentes a pessoas acima dos 60 anos e as mortes
devido a quedas, ocorrem principalmente nos idosos.

As consequências das quedas são mais


desfavoráveis nos indivíduos mais velhos pois estes,
muitas das vezes, acabam por sofrer um trauma
psicológico, ficando com medo de se movimentar.
Cerca de 5% das quedas originam fraturas, sendo as
mulheres mais propícias a cair e os homens mais
propícios a morrer, devido às complicações das fraturas (Koch & Rosa, 2001).

Causas mais comuns das quedas dos idosos:

 Vertigens e desequilíbrio;
 Arritmia cardíaca;
 Acidentes cardiovasculares;
 Osteoporose;
 Perda de visão;
 Perda da capacidade auditiva;
 Anemias;
 Pés com alterações nas unhas, micoses, joanetes, calos;
 Problemas graves da próstata ou prisão de ventre, que levam a um esforço para
urinar e podem, consequentemente, provocar desmaios;
 Artroses no pescoço que podem causar desequilíbrio;
 Fraqueza por desnutrição;
 Uso de bengalas, andarilhos ou cadeiras de rodas;
 Mudança de posicionamento (deitado para sentado; sentado para de pé);
 Demências, pneumonias, infeções urinárias, enfartes e hemorragias;
 Uso de medicamentos (antidepressivos);
 Ingestão de bebidas alcoólicas.

Consequências das quedas no idoso:

 As fraturas e as suas sequelas juntamente com o medo de voltar a cair podem levar
à imobilidade e, com isso, piorar a circulação originando tromboses;
 Dificultam a respiração originando pneumonias;
 Facilitam a osteoporose com o aumento das limitações físicas;
 Diminuem a independência e a interação social do idoso.

Como prevenir as quedas no idoso:

 Evitar tapetes e pisos escorregadios;


 Não deixar objetos perdidos pela casa;
 Não trancar a porta da casa de banho (local frequente de acidentes);

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 Instalar um telefone próximo à cama e


utilizar luzes de cabeceira fixas;
 Remover soleiras altas das portas;
 Não encerar o piso;
 A altura da cama e das cadeiras deve
ser apropriada, de forma a o idoso
manter os pés no chão quando
sentado;
 Colocar os utensílios em locais de fácil
acesso;
 Evitar calçado de salto alto ou sola lisa;
 Não andar de meias;
 Manter a casa iluminada;
 Colocar um interruptor de luz próximo à cama;
 O idoso não se deve levantar rapidamente após acordar (deverá aguardar alguns
minutos antes de se sentar e de caminhar);
 Retirar móveis baixos;
 Ao sentar, o idoso não deverá utilizar sofás e cadeiras com assento mole e profundo;
 Instalar corrimão nas escadas e na banheira para apoio;
 Colocar um banco na banheira para facilitar a lavagem dos pés;
 Atravessar a rua sempre nas faixas de segurança;
 Realizar visitas periódicas ao oftalmologista;
 Não tomar medicamentos sem prescrição médica.

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6. Aspetos psicológicos do envelhecimento


O processo de envelhecimento traz consigo um conjunto de aspetos psicológicos
que são variáveis consoante o sujeito, tendo em conta as suas características pessoais, o
seu meio, a sua cultura e vivências.

Nesta altura da vida, o tratamento das emoções não é de fácil gestão, há mais
resistência, levando a estados profundos de desilusão.

Os principais aspetos que afetam o psicológico da terceira idade são:

 Frustração por o corpo não acompanhar o lado cognitivo;


 Dificuldade de adaptação e de planear o futuro;
 Viuvez, morte de amigos e familiares;
 Desvalorização do papel do idoso.

Cada um vive a velhice a seu passo, e não há dois processos iguais, mesmo que as
vivências possam ser similares, e, como referido anteriormente, circunstâncias iguais
vividas em alturas da vida diferentes geram uma resposta diferente, devido às limitações
percecionadas, gerando conflitos internos.

Desta forma, o processo de envelhecimento a nível psicológico e emocional pode


gerar:

 Decadência da manifestação de afetividade, interesses, ações, emoções e desejos


(passividade);
 Lacunas na memória (pequenos esquecimentos);
 Destaque de determinadas características da personalidade antigas (desconfiança,
irritabilidade, autoritarismo, etc);
 Resistência a novas ideias e situações novas;
 Afeição aos valores, normas e costumes conhecidos;
 Alterações de humor e/ou depressão.

Todos estes processos comportamentais comportam um risco para o idoso,


nomeadamente a partir da:

 Degeneração dos processos sensoriais;


 Solidão, isolamento e depressão;
 Elevado risco de suicídio;
 Doenças mentais;
 Reduzida auto-estima;
 Mais propensão a ser vítima de violência.

As emoções ficam à flor da pele, e nesta fase surgem inseguranças antigas, medos,
ansiedades e stress.

Gerascofobia – medo (demência, existir, doença, viver, desamparo, mudanças),


sem justificação e presente de uma forma anormal relativamente ao processo de

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envelhecimento, gerados de infelicidade, não estando associada a nenhum tipo de forma


física ou perturbação psíquica.

Ligada a esta fobia encontram-se estratégias de curto prazo, como, não festejar o
aniversário, operações plásticas, entre outras. Este tipo de rumo estratégico adia o “lidar”
com a situação, aumentando o medo.

O papel do cuidador é valorizar a pessoa idosa e dignificar o processo de


envelhecimento garantindo a perceção dessa vontade e a integração social do mesmo,
assim como, trabalhar com os jovens os conceitos associados à velhice e o processo
inerente. Em termos práticos o cuidador deve propor a realização de atividades físicas,
atividades e tarefas adequadas ao envelhecimento, que garantam o convívio social.

6.1. Modificações das funções cognitivas


No processo de envelhecimento normal é esperado alguns défices cognitivos, que
devem ser acompanhados de forma a evitar avanços desproporcionados.

As alterações cognitivas mais afetadas no processo de envelhecimento são: a


velocidade e processamento de resposta, a memória de trabalho (limitação do raciocínio e
recordação), e alterações sensoriais e percetuais (lentificação do sistema nervoso central).

Dois dos défices mais propícios de aparecerem no processo de envelhecimento são:


o défice de memória associado à idade (DMAI) e o défice cognitivo ligeiro (DCL).

O primeiro está ligado a sujeitos com idade igual ou superior a 50 anos, com queixas
de perda de memória que afetam o quotidiano, com padrões de memória abaixo do normal
para a idade. O segundo relaciona-se com as áreas da aprendizagem e memorização de
informação, assim como, linguagem, raciocínio e lacunas na capacidade visuo-espacial,
pondo em causa a realização de algumas atividades instrumentais da vida diária. De referir
ainda, que os portadores de DCL, por norma, têm tendência a desenvolver demências,
devendo assim ser acompanhado através de um conjunto de intervenções de estimulação
cognitiva, não deixando de realizar algumas tarefas diárias, desde que acompanhado e
vigiado.

Os fatores que influenciam estas mudanças a nível cognitivo são os seguintes:

 Genética;
 Escolaridade;
 Atividade mental;
 Personalidade e estados depressivos;
 Meio cultural e social;
 Treino cognitivo;
 Sexo (As mulheres têm mais dificuldade em tarefas espaciais mais cedo, e os
homens em tarefas verbais).

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6.2. Os afetos e a sexualidade nos idosos


A sexualidade é uma necessidade fundamental do ser humano, cuja dinâmica e
riqueza deve ser vivida em pleno. Esta representa um conjunto de processos biológicos e
psicológicos que se iniciam com a conceção e prosseguem na vida adulta.

É concebida e idolatrada enquanto um ato amoroso, baseado na partilha de


sentimentos e desejos, concedendo a cada um, o papel principal na exploração da sua
intimidade. É embebida por influências que variam culturalmente, enraizada de acordo com
valores, estereótipos, crenças e preconceitos, sendo afetada por aspetos psicológicos e
emocionais.

A sexualidade é uma faceta da afetividade, é uma forma de comunicação através da


qual nos aproximamos da pessoa amada/desejada, dela fazendo parte a atração, a entrega,
a ternura, o carinho e a gratidão. É uma expressão que não se perde necessariamente com
o envelhecimento.

Nos últimos anos houve uma evolução relativamente ao conceito de sexualidade,


percebendo-se que esta não se reduz ao ato sexual ou genital. A Organização Mundial de
Saúde define Saúde Sexual como a “integração dos aspetos somáticos, emocionais,
intelectuais e sociais do ser humano sexual, em formas que enriquecem e realcem a
personalidade, a comunicação e o amor.” Isto pressupõe o exercício da sexualidade livre
de temores, vergonhas, culpas, mitos e falácias.

No adulto idoso, a sexualidade ganha outra forma de vida. A voracidade da juventude


dá lugar à pacificidade da velhice. No entanto, verifica-se que o facto de uma pessoa ter
uma idade mais avançada não significa impedimento para usufruir da sua sexualidade.

À medida que o envelhecimento progride, a quantidade de atividade sexual tende a


diminuir e ocorrem modificações na resposta sexual, mas o interesse e aptidões para o
desempenho sexual permanecem.

Na determinação do bem-estar sexual do idoso adquirem marcada relevância


fatores psicossociais. A reação pessoal ao envelhecimento e perdas que o acompanham,
a adaptação à doença crónica, bem como as atitudes do meio envolvente face à
sexualidade, condicionam as atitudes e vivências do próprio (Firmino, 2006).

Existem outros fatores que limitam a livre expressão da sexualidade nas pessoas
idosas:

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 O interesse do(a) companheiro(a), quando o mesmo(a) existe (note-se que há duas


vezes mais mulheres do que homens em idade avançada);
 O estado de saúde, física e mental;
 Problemas de impotência no homem ou de dispareunia (dor durante o coito) na
mulher;
 Efeitos colaterais de medicamentos;
 Perda de privacidade;
 Preconceitos da sociedade.

A persistência de mitos ainda prevalecente na sociedade atual, que toma como certo
o desinteresse e a incapacidade de desempenho sexual dos idosos. Supostamente, o
desejo tê-los-ia abandonado e qualquer dimensão erótica ter-se-ia extinguido das suas
vidas. Este é o mito do idoso enquanto ser assexual (Firmino, 2006).

Porém, a necessidade de intimidade física e emocional mantêm-se nesta fase da


vida. Nalguns casais, a maior disponibilidade em termos de tempo e a ausência das
responsabilidades familiares, podem criar as condições propícias à redescoberta da
sexualidade, vivenciada de forma mais tranquila, menos presidida pela urgência do desejo,
privilegiando assim a sensualidade, o prazer das carícias, a comunicação e a partilha da
intimidade (Firmino, 2006).

É importante realçar que em nenhuma idade a atividade sexual se resume ao coito,


nem se mede pela frequência com que este ocorre. Isso torna-se ainda mais evidente nas
idades mais avançadas.

Mudanças na Mulher

Ao contrário do que se pensou durante muitos anos, a menopausa não provoca,


diretamente, doenças depressivas nem transtornos psiquiátricos graves. É uma mudança
que exige à mulher uma adaptação, mas não tem de limitar-lhe a vida sexual. Para algumas,
chega a ser um período de libertação, serenidade e estabilidade, em que disfrutam
perfeitamente das relações.

A mulher de idade avançada pode manter os seus padrões sexuais até ao final da
vida. Não obstante, após a menopausa há mudanças fisiológicas e anatómicas a nível do
aparelho genital e de todo o organismo, mudanças essas que não são repentinas nem
decorrem de forma igual em todas as mulheres. Elas devem-se, sobretudo, a uma grande
redução da produção hormonal, mais especificamente de estrogénios.

Mudanças no Homem

Ao contrário da mulher, não existe para o homem um fim claro e definido da


fecundidade. A produção de esperma diminui a partir dos 40 anos e mantém-se ativa até
depois dos 90. Também a produção de testosterona sofre um declínio gradual a partir dos
55 anos.

Embora não haja um processo masculino tão definido como a menopausa, existem
mudanças. Não estar consciente delas pode causar num homem de idade avançada,
angústias antecipatórias sobre o seu desempenho sexual. Essas mudanças estão
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relacionadas com fatores hormonais, neuronais e vasculares, para além da menor produção
de testosterona.

Homossexualidade nas Pessoas Mais Velhas

Se há problemas quanto à aceitação social da vivência da sexualidade nas pessoas


idosas ainda mais complicado se torna quando falamos da homossexualidade. As pessoas
idosas homossexuais vivem as mesmas mudanças fisiológicas e psicológicas que os
heterossexuais.

São frequentes as relações de longa duração, ainda que, muitas vezes possam não
ter sido assumidas. Curiosamente, nas idades mais avançadas reduz-se o medo de a
homossexualidade ser descoberta, situação talvez relacionada com a menor valorização
por parte da pessoa da eventual crítica social.

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7. Aspetos sociais do envelhecimento


Além dos aspetos biológicos e psicológicos, o envelhecimento acarreta consigo um
conjunto de mudanças nos papéis sociais do idoso no contexto onde se encontra inserido,
dada a mudança de expectativas que o mesmo sofre aos olhos da sociedade.

O aumento da esperança média de vida é um dos desafios do presente século, mais


precisamente nos países desenvolvidos industrializados, sendo que, a par desta tendência
ocorreu um decréscimo da taxa de natalidade e um aumento substancial da população com
idade superior aos 65 anos de idade.

Estas alterações têm uma reflexão direta a nível familiar, económico, comunitário e
na sociedade em geral. Desta forma, quem sofre uma maior panóplia de consequências
negativas são os mais idosos, os mais dependentes e os mais carenciados a nível
económico, sendo que neste grupo se encontra em maioria as mulheres.

7.1. Evolução histórica do conceito de idoso


O conceito de envelhecimento e idoso é variável consoante os tempos e culturas,
por exemplo, nas sociedades mais primitivas os mais velhos eram objeto de veneração aos
olhos dos mais novos, sendo considerados fontes de conhecimento e bons conselhos. Aos
mais velhos eram guardados os papéis sociais considerados mais importantes de vários
ramos da sociedade, como, a nível político e postos de decisão comunitária.

Com o passar dos tempos, fruto da revolução industrial, os valores acima referidos
foram substituídos, os mais velhos passaram a ser vistos como pessoas incapazes de
produzir como os mais jovens, sendo cada vez mais excluindo socialmente,
marginalizando-os.

Atualmente, o processo de envelhecimento, o idoso em si é encarado pela sociedade


como alguém sem produtividade e decadente, fruto da separação em todos os aspetos que
se fazem entre os mais velhos e os mais jovens e a perda de responsabilidade no seio
familiar. Este tipo de exclusão praticada pela sociedade em geral geram isolamento social
nas camadas mais velhas.

Porém, têm sido feitos esforços para que estes preconceitos sejam alterados,
nomeadamente ao nível das políticas públicas e sociais (Exemplo: junção de estruturas
residenciais para idosos e creches). Além deste facto, o nível de escolaridade tem
aumentado, o que propicia uma maior exigência por parte dos seniores relativamente aos
seus cuidados e processo de envelhecimento.

É também importante distinguir o conceito de velhice e envelhecimento. O primeiro


diz respeito à noção de idade, constitui-se assim num grupo de idade homogéneo, que
neste caso, encontra-se acima dos 65 anos de idade. Ainda neste campo, encontra-se o
registo corporal, como, o aparecimento de cabelos brancos, calvície, rugas, diminuição de
reflexos, etc. O segundo conceito é mais complexo, e resulta da interação de vários fatores
biológicos (corpo), psicológicas (comportamento) e sociais (papeis assumidos).

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7.2. A perspetiva de outras culturas


Envelhecer não é um processo vivido e sentido de igual forma nas diferentes partes
do mundo.

Numa sociedade oriental o idoso continua a ser encarado como um ancião, fonte de
sabedoria, que merece o devido respeito. O mais velho na família mantem a sua posição
de respeito até ao fim da sua vida, e mesmo a mulher sendo uma figura rebaixada, tem
mais poder relativamente aos mais jovens.

Numa sociedade ocidental o processo de envelhecimento é encarado de uma forma


pesarosa e até depressiva, com mais perdas e menos ganhos, onde o mais velho perde
poder no seio familiar, e os mais novos se sobrepõem ao mesmo.

7.3. Interpretação individual e social das várias fases do ciclo de vida


A vida é um ciclo, onde cada um, consoante a faixa etária onde se encontra
perceciona as várias fases de diferente forma. Assim, em cada fase da nossa vida olhamos
o outro e o outro olha-nos de modos diferentes.

No que concerne ao idoso, este passa por diferentes fases na sua vida, sendo uma
das mais marcantes o nascimento dos netos, principalmente para as mulheres que
assumem novamente um papel de cuidadoras e protetoras, assumindo um papel de relevo
na vida dos filhos. No entanto, é nesta fase que as gerações mais novas percecionam as
perdas dos idosos e que lhes retiram alguns poderes.

Outra das fases mais traumáticas para o idoso é a entrada na idade da reforma,
onde, muitas vezes o sujeito se sente desvalorizado socialmente, que perde a sua
dignidade enquanto pessoa. Esta fase é das mais críticas, a que gera mais sentimentos
depressivos, de solidão, isolamento e perda de rumo, uma vez que, o trabalho é o principal
meio de fomento de relações sociais, obrigando a um reajustamento social, e, por vezes,
económico.

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Quanto à última fase refere-se à morte e ao modo como o idoso a perceciona, sendo
óbvio à relatividade dos sentimentos e emoções face às perdas de entes queridos,
dependendo do estado de saúde mental do mesmo, e o próprio meio social e familiar que
se encontra inserido.

Relativamente à forma como o idoso enfrenta a morte devemos ter em atenção que
é o próprio que decide o rumo dessa tomada de decisão, podendo ser recetivo ao facto de
ser importante falar sobre o assunto para melhor gerir as emoções, ou, por outro lado,
reprimir as emoções e criarem uma ideia preconcebida que a sua vida é um estorvo para
os outros.

O que dificulta a relação das pessoas com a morte e o morrer:

 Ideia de rutura;
 Medo do desconhecido;
 Mitos e herança cultural;
 Preocupação com a idade;
 A morte de alguém muito próximo;
 Fim de um relacionamento duradouro;
 Perda de segurança;
 Mudança negativa (saúde, psíquica, etc)

Consequências da morte para quem passa pelo processo de luto (reação


emocional):

 Sentimentos (Choque, tristeza, culpa, raiva, solidão, hostilidade, ansiedade,


desamparo);
 Sensações físicas (vazio no estômago, aperto no peito, nó na garganta, falta de ar,
fadiga, queixas somáticas; fragilidade hormonal);
 Comportamentos (distúrbios do sono, perda ou aumento de apetite, abuso de
substâncias, isolamento social, sonhos, inquietação);
 Cognições (descrença, confusão, perdas de memória, falta de concentração,
pensamentos obsessivos, alucinações).

O cuidador deve ter a perceção que a fase de luto deve ser vivida no momento pela
pessoa que o está a vivenciar, não apressando e não desvalorizando o mesmo.

Algumas das frases que não se devem dizer a quem está a passar a fase de luto:

 “Pelo menos ele agora não está a sofrer”;


 “Está num lugar melhor que o nosso”;
 “Deus sabe sempre o que faz”;
 “Tudo na vida tem uma razão”;
 “Ele já viveu demais”;
 “Pelo menos tens outros filhos”;
 “Agora ele é uma estrelinha”;
 “Ainda vais encontrar um viúvo/a que te acompanhe”;

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 “Sei exatamente o que sentes, comigo foi igual”;


 “Comigo foi pior…”.

7.4. Atitudes, mitos e estereótipos associados à velhice


O envelhecimento está associado a um conjunto de estereótipos ao nível do bem-
estar, da saúde, de género, de nível cognitivo e também social.

 Envelhecer é ficar doente a nível mental e físico;


 A mulher perdendo a possibilidade de procriar fica feia e velha;
 O homem torna-se mais competente e autónomo;
 Perde a capacidade de aprender;
 Dependência e passividade;
 Desinteresse e incapacidade sexual;
 Incapacidade de gerir a própria vida.

Para quebrar estes mitos e estereótipos é necessário:

 Evitar generalizações;
 Não infantilizar;
 Não tratar o idoso como incapaz;
 Privar a sua independência e autonomia;
 Incentivá-lo a desenvolver competências;
 Promover direitos.

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8. A Família enquanto rede informal de suporte


Ao longo do tempo as estruturas
que fazem parte de uma sociedade vão-
se inevitavelmente alterando, sendo que
o papel do idoso na família não é
exceção.

O cuidado ao idoso, se recuarmos


alguns anos atrás, era assegurado de
forma exclusiva pela família, em especial
por alguém do sexo feminino. Porém,
mudanças na estrutura familiar, tais
como: a entrada da mulher no mercado
de trabalho, o aumento dos divórcios, a diminuição do número de filhos, entre outros
fatores, levou a que as famílias nem sempre tenham a possibilidade/disponibilidade de
prestar cuidados ao idoso (Diogo, Ceolim e Cintra, 2005 in Melo, 2012).

No entanto, atualmente, a família é ainda referida como a maior fonte de suporte


para o idoso devido à sua função protetora, pois é onde o mesmo encontra o apoio, que
necessita. Apesar de 37,6% (INE, 1999) dos idosos portugueses viverem com a família,
existe a convicção muito forte no público em geral de que existe um grande desinvestimento
familiar relativamente aos ascendentes, o que não corresponde à realidade. Por todo a
Europa, a família constitui ainda o grande pilar da responsabilidade pelos dependentes
idosos. A família contínua a ser uma instituição significativa para o suporte e realização do
indivíduo (Jacob, 2002).

No entanto, face à conjuntura económica e social atual, constata-se que a ideia de


que é dever dos filhos tratar dos seus pais na velhice está cada vez mais a ser colocada de
lado, tendo esta tarefa sido transferida para a sociedade, sendo encarada como um dever
social. Assim, os casos em que o idoso permanece junto da família têm vindo a diminuir. O
custo inerente ao cuidado a um idoso e as mudanças de valores levam a que a
institucionalização seja cada vez mais frequente (Ângelo, 2000 in Melo, 2012). A ausência
quase total de ajudas eficazes destinadas às pessoas que cuidam dos familiares encontra-
se no centro dos problemas e é a principal razão pela qual as famílias muitas vezes são
obrigadas a recorrer às instituições de apoio aos idosos (Jacob, 2002).

As exigências da sociedade em relação aos custos de vida que levam à necessidade


de se trabalhar cada vez mais, as alterações do estatuto do idoso na sociedade, a própria
interpretação por parte da população idosa do encargo que são para os filhos, o evitar de
casos de isolamento e abandono dos idosos são outros fatores que levam à procura pela
institucionalização (Melo, 2012)

Contudo, e apesar da evidente necessidade social destas instituições, é de referir


que as Instituições de acolhimento de idosos se apresentam como uma alternativa que visa
complementar e nunca substituir a ação da família, prestando os serviços necessários e
tendo presente as suas necessidades e a sua individualidade (Melo, 2012).

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9. Redes formais de apoio ao idoso


A nível nacional, as respostas sociais institucionais existentes caracterizam-se
segundo duas tipologias: o acolhimento permanente que engloba os equipamentos de
colocação institucional de idosos, tais como: os lares, as residências e as famílias de
acolhimento; o acolhimento temporário, de carácter não institucional, que reúne os serviços
de apoio e acompanhamento local dos idosos, tais como: os serviços de apoio domiciliário
(Melo, 2012).

Cada vez mais, as instituições tentam oferecer serviços que promovam um


envelhecimento bem-sucedido, potenciando a manutenção das competências sociais e
de bem-estar dos idosos.

Neste sentido, os equipamentos sociais tendem a focar as suas respostas na


promoção do bem-estar físico, social e mental do idoso, o que inclui uma participação ativa
deste nos mais variados domínios da sociedade: económico, espiritual, cultural, cívico e
social (Melo, 2012).

Eis as formas de equipamentos e respostas, formais e oficiais, disponíveis em


Portugal (Jacob, 2002):

 Centros de Convívio: são centros a nível local, que pretendem apoiar o


desenvolvimento de um conjunto de atividades sociais, recreativas e culturais
destinadas aos idosos de uma determinada comunidade. Estes promovem uma
participação ativa do idoso;
 Centros de Dia: constituem um tipo de apoio dado através da prestação de um
conjunto de serviços dirigidos a idosos da comunidade, cujo âmbito assenta no
desenvolvimento de atividades que proporcionem a manutenção dos idosos no seu
meio sociofamiliar. Os objetivos do Centro de Dia focam-se na: prestação de serviços
que satisfaçam as necessidades básicas; prestação de apoio psicossocial; fomento
das relações interpessoais ao nível dos idosos e destes com outros grupos etários,
a fim de evitar o isolamento. O Centro de Dia assegura, entre outros, os seguintes
serviços: refeições: convívio/ocupação; cuidados de higiene; tratamento de roupas;
férias organizadas.

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 Lares de Idosos: equipamentos coletivos de


alojamento permanente ou temporário, destinados
a facultar respostas a idosos no âmbito do
acolhimento, alimentação, cuidados de saúde,
higiene, conforto, onde se propícia o convívio e a
ocupação dos tempos livres dos utentes.
 Residência: é a resposta social desenvolvida em
equipamento constituído por um conjunto de
apartamentos, com serviços de utilização comum,
para idosos com autonomia total ou parcial.
 Serviço de Apoio Domiciliário (SAD): é uma
resposta social que consiste na prestação de
cuidados individualizados e personalizados no
domicilio, a indivíduos e famílias que, por motivo
de doença, deficiência, velhice ou outro impedimento, não possam assegurar de
forma temporária ou permanente, a satisfação das suas necessidades básicas e/ou
atividades da vida diária. Este deve proporcionar os seguintes serviços: prestação
de cuidados de higiene e conforto; arrumação e pequenas limpezas no domicílio;
confeção, transporte e/ou distribuição de refeições; tratamento de roupas. O SAD
pode ainda assegurar outros serviços, nomeadamente: acompanhamento ao
exterior; aquisição de géneros alimentícios e outros artigos; acompanhamento,
recreação e convívio; pequenas reparações no domicílio; contactos com o exterior.
 Apoio Domiciliário: consiste na prestação de serviços, por ajudantes e/ou familiares
no domicílio dos utentes, quando estes, por motivo de doença ou outro tipo de
dependência, sejam incapazes de assegurar temporária ou permanentemente a
satisfação das suas necessidades básicas e/ou realizar as suas atividades diárias.
É um tipo de apoio que conquistou muitos adeptos, na medida em que se caracteriza
pela prestação de um serviço de proximidade com cuidados individualizados e
personalizados. Além disso, é preservada a família e a casa que constituem para o
idoso um quadro referencial muito importante para a sua identidade social.
 Acolhimento Familiar de Idosos (AFI): é a resposta social que consiste na
integração, temporária ou permanente, em famílias que prestem os cuidados
necessários, quando ocorre uma inexistência ou insuficiência de respostas sociais
que possibilitem a integração do idoso ou na ausência de família que assegure o
pleno acompanhamento.
 Centro de Acolhimento Temporário de Emergência para Idosos: é a resposta
social que consiste no acolhimento temporário a idosos em situação de emergência
social, perspetivando-se o encaminhamento do idoso ou para a família ou para outra
resposta social de carácter permanente.
 Centro de Noite (CN): é a resposta social dirigida a idosos com autonomia que
desenvolvem as suas atividades da vida diária no domicílio mas que durante a noite,
por motivos de isolamento,necessitam e acompanhamento. É uma estrutura cuja
lógica de intervenção tem por base o apoio temporário, que pretende dar resposta a
situações de: isolamento geográfico ou social por, respetivamente, residirem longe
da comunidade local e pela ausência d e redes de suporte informal que possam dar

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apoio; Solidão, sentimento que


pode advir de situações de
isolamento; Insegurança,
traduzida pela incapacidade em
lidar com situações perturbadoras
como é por exemplo, a morte ou
afastamento da pessoa com quem
se residia. Tendo em conta os
objetivos que presidem aos
centros de noite e, pelo facto de
não se dispor ainda de experiência
significativa do desenvolvimento desta resposta, as presentes orientações
constituem, nesta fase, um quadro referencial que permite enquadrar iniciativas que
visem a sua implementação.
 Unidades de Cuidados Continuados: constituem respostas residenciais a idosos,
que apresentam um maior grau de dependência.

A evolução das respostas sociais tem sido uma constante. Estes serviços procuram,
assim, melhorar as condições de vida da população idosa, em conformidade com as suas
limitações, potencialidades, condições monetárias e pela sua condição de vida (Melo,
2012).

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10. A institucionalização do idoso


Segundo o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa o termo institucionalização
significa “ato ou efeito de institucionalizar”. Em Portugal, as instituições destinam-se a
abrigar pessoas idosas necessitadas de um lugar para morar, alimentação e cuidados por
período integral.

Considera-se institucionalização do idoso quando este se encontra durante todo o


dia ou parte deste, entregue aos cuidados de uma instituição que não a sua família. Para
Goffman (citado por Santos e Encarnação, 1998 in Jacob, 2002), as instituições totais ou
permanentes consistem em lugares de residência onde um grupo de indivíduos leva uma
vida fechada e formalmente administrada por terceiros. Existe uma rutura com o exterior,
dado que todos os aspetos do seu quotidiano são regulados por uma única entidade.

As mudanças ocorridas na sociedade, tal como já referido anteriormente, aparecem


como as responsáveis pela situação atual de aumento da institucionalização do idoso. As
razões para a institucionalização passam sobretudo pelo facto de a família não conseguir
dar resposta às necessidades do idoso ou então quando outras respostas sociais não
conseguem prestar todos os cuidados solicitados (Melo, 2012).

Levenson (2001, citado por Almeida, 2008 in Melo, 2012) refere um conjunto de
fatores associados ao risco de institucionalização, sendo alguns dos mesmos:

 As deficiências cognitivas;
 O facto de se viver só;
 A perda de apoios sociais;
 Os problemas com as atividades de vida diária;
 A pobreza;
 As deficiências na rede de suporte informal.

No entanto, evidencia-se o isolamento como a causa mais comum para a entrada


nas instituições de acolhimento, o que se explica pela inexistência de uma rede de
interações que facilitem a integração social e familiar dos idosos e que garantam um apoio
efetivo em caso de necessidade (Melo, 2012).

A entrada do idoso numa Instituição de acolhimento é, por norma, um momento difícil


para o idoso, em especial quando este ainda possui alguma autonomia ou se a sua entrada
se deveu a um acontecimento trágico (por
exemplo, a morte de um cônjuge). Born e
Boechat (2006 in Melo, 2012) referem que
por mais qualidade que a instituição possua,
vai haver sempre um corte com o passado,
passando a existir um afastamento do
convívio social e familiar.

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A pessoa institucionalizada precisa de se acostumar ao seu novo espaço, às novas


rotinas, a novas pessoas com quem irá partilhar o espaço e toda esta nova realidade pode
originar situações de angústia, medo, revolta e insegurança.

Porém, a institucionalização não deve ser encarada apenas pela negativa, pois
existem idosos que podem sentir-se mais acompanhados, ativos e mesmo mais felizes do
que quando se encontravam sós em suas casas. Neste processo de mudança, o indivíduo
pode criar os seus próprios mecanismos de adaptação e desenvolver uma sensação de
satisfação pela sua nova condição (Melo, 2012).

É neste aspeto que o modo de organização de uma instituição, as atividades que


oferece, a relação de suporte, o grupo de técnicos e colaboradores que possui, entre outros
aspetos, é de extrema importância para que o sentimento de satisfação ocorra perante a
nova situação de vida do idoso.

Neste sentido, para Perracini (2006, citado por Almeida, 2008 in Melo, 2012) os
ambientes para idosos deveriam possuir as seguintes características:

 Acessibilidade e uso;
 Facilidade de circulação, especificamente no que concerne ao conforto, à
conveniência e à possibilidade de escolha;
 Conservação de energia;
 Comunicação: aspetos sensoriais e relacionamento social;
 Segurança: sem risco de lesão e acidentes;
 Proteção: que não cause medo ou ansiedade e que seja previsível (confiável);
 Privacidade.

Consequentemente torna-se imprescindível um foco no momento de acolhimento ao


idoso pois este é, por norma, o primeiro contacto direto que o mesmo tem com o local que
vai ser o seu lar. Logo é necessário acompanhá-lo e apoiá-lo, tendo em consideração a sua
privacidade, vontade e singularidade (Melo, 2012).

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11. A vida quotidiana nas instituições


Registo dos utentes

Cada utente tem de ter um processo individual (PI) com:

 Ficha de inscrição;
 Identificação da pessoa a contactar em caso de necessidade;
 Identificação do médico assistente;
 Registo da evolução da sua situação social, económica e saúde

Regulamento interno

É obrigatório a existência de um regulamento interno que dê conta das:

 Condições de admissão;
 Pagamento de mensalidades;
 Serviços oferecidos;
 Horário de atividades;
 Visitas;
 Condições em que os familiares podem participar no apoio a prestar aos residentes;
 Possibilidade de reclamações;

Recursos humanos

Direção Técnica:

 Direção;
 Programação de atividades e a coordenação e supervisão de todo o pessoal;
 Promover reuniões técnicas;
 Promover reuniões com utentes;
 Sensibilizar todo o pessoal face à problemática da pessoa idosa;
 Planificar e coordenar as atividades ocupacionais dos idosos.

Pessoal técnico e auxiliar:

 Formação desejável na área do envelhecimento;


 Manutenção da higiene e limpeza do estabelecimento;
 Garantir um eficaz funcionamento da cozinha

O ideal será:

 1 diretor técnico (40 utentes);


 1 enfermeiro (40 utentes/ 20 utentes dependentes);
 1 ajudante de lar (8 utentes / 5 utentes acamados);
 1 ajudante de lar noturno (20 utentes);
 1 encarregado (Serviços Gerais) (igual ou superior a 40 utentes);
 1 animador sócio-cultural;
 1 cozinheiro;

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 1 ajudante de cozinheiro (20 utentes);


 1 trabalhador auxiliar (Serviços Gerais) (40 utentes/15 utentes dependentes)
 1 administrativo;
 1 lavadeira;
 Uma costureira;
 Um motorista;

Dificuldades quotidianas

 Barreiras arquitetónicas;
 Ausência de espaços de lazer e convívio;
 Decoração homogénea;
 Ausência de sinalização compreensível;
 Quartos com mais de duas camas;
 Falta de diálogo das decisões tomadas;
 Falta de coordenação de responsabilidades;
 Autoritarismo;
 Infantilização;
 Violação da confidencialidade;
 Espírito de equipa deficitário;
 Falta de recursos humanos;
 Excessiva carga de trabalho;
 Falta de conhecimentos e formação;

A melhoria destes aspetos deve ser efetuada a partir da promoção de ações de


formação, contínuo apoio do pessoal, fomentar uma remuneração adequada às funções
desempenhadas, promover a participação de utentes e funcionários, reduzindo assim
algumas fontes de tensão, e porventura, melhorando a qualidade dos serviços prestados.

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Jó Andrade Página 58