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Dignidade da pessoa humana

Consagrada expressamente no inciso III do art. 1.° da Constituição


brasileira de 1988, a dignidade da pessoa humana desempenha um papel de
proeminência entre os fundamentos do Estado brasileiro. Núcleo axiológico do
constitucionalismo contemporâneo, a dignidade é considerada o valor
constitucional supremo e, enquanto tal, deve servir, não apenas como razão
para a decisão de casos concretos, mas principalmente como diretriz para a
elaboração, interpretação e aplicação das normas que compõem a ordem
jurídica em geral, e o sistema de direitos fundamentais, em particular.
O reconhecimento e a proteção da dignidade da pessoa humana pelas
constituições em diversos países ocidentais tiveram um vertiginoso aumento
após a Segunda Guerra Mundial, como forma de reação às práticas ocorridas
durante o nazismo e o fascismo e contra o aviltamento desta dignidade
praticado pelas ditaduras ao redor do mundo. A escravidão, a tortura e,
derradeiramente, as terríveis experiências feitas pelos nazistas com seres
humanos, fizeram despertar a consciência sobre a necessidade de proteção da
pessoa, com o intuito de evitar sua redução à condição de mero objeto. Tempos
depois, com a queda do comunismo, a partir do início da década de 1990,
diversos países do leste europeu também passaram a consagrar a dignidade da
pessoa humana em seu texto constitucional.7
O fato de ser cada vez maior o número de declarações universais de direitos
e de Constituições que a consagram expressamente é relevante na medida em
que confere a esta noção um inquestionável caráter jurídico.8 Vale dizer: a
positivação impõe que a dignidade, enquanto valor originariamente moral, seja
reconhecida também como um valor tipicamente jurídico, revestido de
normatividade.9 Ainda que o princípio da dignidade da pessoa humana possa
ser deduzido do sistema de direitos fundamentais, a consagração expressa, no
mínimo, reduz o ônus argumentativo do intérprete.
A consagração da dignidade humana no texto constitucional reforça, ainda,
o reconhecimento de que a pessoa não é simplesmente um reflexo da ordem
jurídica, mas, ao contrário, deve constituir o seu objetivo supremo, sendo que
na relação entre o indivíduo e o Estado deve haver sempre uma presunção a
favor do ser humano e de sua personalidade. O indivíduo deve servir de “limite
e fundamento do domínio político da República”, pois o Estado existe para o
homem e não o homem para o Estado.10

A dignidade como algo absoluto


A dignidade, em si, não é um direito, mas uma qualidade intrínseca a todo
ser humano, independentemente de sua origem, sexo, idade, condição social ou
qualquer outro requisito. Nesse sentido, não pode ser considerada como algo
relativo. Nas palavras de Béatrice MAURER, “a pessoa não tem mais ou menos
dignidade em relação a outra pessoa. Não se trata, destarte, de uma questão de
valor, de hierarquia, de uma dignidade maior ou menor. É por isso que a
dignidade do homem é um absoluto. Ela é total e indestrutível. Ela é aquilo que
chamamos inamissível, não pode ser perdida”.11
O fato de a dignidade ser algo absoluta – isto é, não comportar gradações
no sentido de existirem pessoas com maior ou menor dignidade – não significa
que o princípio da dignidade humana também o seja. Ainda que se deva atribuir
a esse princípio um elevado peso abstrato na ponderação, o seu cumprimento,
assim como o de todos os demais princípios, ocorre em diferentes graus, de
acordo com as possibilidades fáticas e jurídicas existentes.

Conteúdo normativo
Uma série de obstáculos dificulta a tarefa de definir com precisão o que seja
a dignidade da pessoa humana,12 mas não impede a identificação de hipóteses
nas quais ocorre sua violação no plano jurídico. Como já dito anteriormente, a
dignidade é uma qualidade intrínseca de todo ser humano, e não um direito
conferido às pessoas pelo ordenamento jurídico. A sua consagração como
fundamento do Estado brasileiro não significa, portanto, a atribuição de
dignidade às pessoas, mas sim a imposição aos poderes públicos do dever de
respeito, proteção e promoção dos meios necessários a uma vida digna.13
O dever de respeito impede a realização de atividades prejudiciais à
dignidade (“obrigação de abstenção”). De acordo com a denominada fórmula
do objeto, a dignidade é violada nos casos em que o ser humano não é tratado
como um fim em si mesmo, mas como mero instrumento para se atingir
determinados fins. Por existirem situações em que o tratamento de determinadas
pessoas como objeto de medidas estatais não significa necessariamente uma
violação de sua dignidade,14 a fórmula do objeto deve ser matizada. Assim,
pode-se dizer que a violação da dignidade ocorre quando o tratamento como
objeto constitui uma expressão do desprezo pela pessoa ou para com a
pessoa.15 Esta acepção, ligada ao valor liberdade, ao vedar a prática de condutas
violadoras da dignidade, exige uma abstenção dos poderes públicos e dos
particulares. Em síntese, o dever de respeito à dignidade impede que uma
pessoa seja tratada como um meio para se atingir um determinado fim (aspecto
objetivo), quando este tratamento for fruto de uma expressão do desprezo por
esta pessoa em razão de sua condição (aspecto subjetivo).
O dever de proteção exige uma ação positiva dos poderes públicos na
defesa da dignidade contra qualquer espécie de violação, inclusive por parte de
terceiros.16 Nesse sentido, cabe ao Poder Legislativo estabelecer normas
adequadas à proteção da dignidade (princípio da proibição de proteção
insuficiente), e.g., por meio da criminalização de condutas que causem uma
grave violação a este bem jurídico. No âmbito da aplicação judicial do direito, a
dignidade atua como uma importante diretriz hermenêutica a orientar a
interpretação e aplicação de outras normas.17
O dever de promoção impõe a adoção de medidas que possibilitem o acesso
aos bens e utilidades indispensáveis a uma vida digna. Ligada à igualdade
material, esta acepção exige uma atuação positiva dos poderes públicos, no
sentido de fornecer prestações materiais (saúde, educação, moradia, lazer,
trabalho, assistência e previdência social...) e jurídicas (elaboração de leis,
assistência judiciária, segurança pública...). A dignidade, nesse sentido, atua
como um princípio que tem como núcleo o mínimo existencial.18 A ideia do
mínimo existencial (ou núcleo da dignidade humana), pondera Ana Paula de
BARCELLOS, tem sido proposta como forma de superação de várias
dificuldades inerentes à dignidade, “na medida em que procura representar um
subconjunto, dentro dos direitos sociais, econômicos e culturais, menor –
minimizando o problema dos custos – mais preciso – procurando superar a
imprecisão dos princípios – e, sobretudo, efetivamente exigível do Estado...”.19
A partir de tais considerações é possível afirmar que a dignidade da pessoa
humana, enquanto fundamento da República Federativa do Brasil, possui
uma tripla dimensão normativa. Isso significa que, por meio da interpretação
do dispositivo constitucional que a consagra (CF/1988, art. 1.°, III), é possível
extrair três distintas espécies de normas:20

I) uma metanorma, que atua como diretriz a ser observada na criação e


interpretação de outras normas. A atuação como elemento informador
do desenvolvimento do conteúdo da Constituição faz da dignidade uma
importante diretriz hermenêutica, cujos efeitos se estendem por todo o
ordenamento jurídico. Mesmo quando possível o recurso a um direito
fundamental específico, ela deve ser considerada como parâmetro
valorativo; 21
II) um princípio, que impõe aos poderes públicos o dever de proteção
da dignidade e de promoção dos valores, bens e utilidades
indispensáveis a uma vida digna; e,
III) uma regra, a qual determina o dever de respeito à dignidade, seja
pelo Estado, seja por terceiros, no sentido de impedir o tratamento de
qualquer pessoa como um objeto, quando este tratamento for decorrente
de uma expressão do desprezo pelo ser humano.22

Dignidade da pessoa humana e direitos fundamentais


Existe uma relação de mútua dependência entre a dignidade da pessoa
humana e os direitos fundamentais, pois, ao mesmo tempo em que estes
surgiram como uma exigência da dignidade de proporcionar o pleno
desenvolvimento da pessoa humana, somente por meio da existência desses
direitos a dignidade poderá ser respeitada, protegida e promovida.23
A dignidade é o fundamento, a origem e o ponto comum entre os direitos
fundamentais, os quais são imprescindíveis para uma vida digna. Nas palavras
de Jürgen HABERMAS, “a dignidade humana, que é uma e a mesma em toda
parte e para todos, fundamenta a indivisibilidade de todas as categorias dos
direitos humanos. Só em colaboração uns com os outros podem os direitos
fundamentais cumprir a promessa moral de respeitar igualmente a dignidade
humana de cada pessoa”.24
A intenção específica da consagração de um conjunto de direitos
fundamentais é explicitar uma ideia de ser humano, manifestada juridicamente
no princípio da dignidade da pessoa humana. Esta se constitui na referência
valorativa de todos os direitos fundamentais, delimitando, desse modo, o
âmbito de sua matéria. Os direitos fundamentais constituem um sistema
estruturado em referência a esse valor que os fundamenta.25
O reconhecimento de certos direitos fundamentais é uma manifestação
necessária da primazia da dignidade da pessoa humana, núcleo axiológico da
Constituição.26 É certo, no entanto, nem todos os direitos fundamentais derivam
da dignidade humana com a mesma intensidade: enquanto a vida, a liberdade e
a igualdade decorrem de forma direta (derivação de 1.° grau), outros são
apenas derivações indiretas (derivação de 2.° grau).27
Uma questão interessante pode ser suscitada no que se refere à relação entre
os direitos fundamentais e a dignidade: se a dignidade, de fato, é o fundamento
dos direitos fundamentais, como explicar o fato de que somente após a Segunda
Guerra Mundial ela começou a desempenhar um papel central nas
Constituições? Por que esta noção não estava presente na clássica declaração de
direitos humanos do século XVIII nem nas Constituições até metade do século
XX? Por que começou a se falar de direitos humanos/fundamentais muito antes
de se falar em dignidade humana? Será que apenas após o Holocausto a ideia
de direitos humanos se torna, por assim dizer, retrospectivamente carregada
com o conceito de dignidade?
Contrariamente à hipótese de uma carga moral retrospectiva dos direitos
humanos, HABERMAS defende a tese de que esta conexão conceitual existe
desde o início, ainda que apenas de forma implícita. Adotando como ponto de
partida histórico a ideia de que os direitos humanos sempre foram o produto de
resistência ao despotismo, à opressão e à humilhação, HABERMAS conclui
que a conexão conceitual entre a dignidade humana e os direitos humanos tem
evidentes traços em comum desde o início do desenvolvimento. O filósofo
alemão conclui, então, no sentido de que a “dignidade humana significa um
conceito normativo de fundo a partir do qual os direitos humanos podem ser
deduzidos ao especificar as condições em que a dignidade é violada”.28
_______
7
Como exemplo, podemos citar a Constituição da República da Croácia, de 22 de dezembro de
1990 (art. 25); a Constituição da Bulgária, de 12 de julho de 1991 (preâmbulo); a Constituição
da Romênia, de 8 de dezembro de 1991 (art. 1.°); a Lei Constitucional da República da Letônia,
de 10 de dezembro de 1991 (art. 1.°); a Constituição da República Eslovena, de 23 de dezembro
de 1991 (art. 21); a Constituição da República da Estônia, de 28 de junho de 1992 (art. 10.°); a
Constituição da República da Lituânia, de 25 de outubro de 1992 (art. 21); a Constituição da
República Eslovaca, de 1.° de setembro de 1992 (art. 12); a Constituição da República Tcheca,
de 16 de dezembro de 1992 (Preâmbulo) e a Constituição da Federação da Rússia, de 12 de
dezembro de 1993 (art. 21).
8
Nesse sentido, ALPA, Guido. Dignità: Usi giurisprudenziali e confini concetuali, p. 415.
9
Ernst BENDA faz a seguinte observação: “Certamente que a dignidade é originariamente um
valor moral. Ocorre que sua acolhida com caráter de mandamento constitucional na Lei
Fundamental implica sua aceitação como valor jurídico, vale dizer, como norma jurídico-
positiva” (Dignidad humana y derechos de la personalidad, p. 120).
10
CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito constitucional e teoria da Constituição, p. 225.
11
“Notas sobre o respeito da dignidade da pessoa humana... ou pequena fuga incompleta em
torno de um tema central”, p. 81.
12
Miguel Ángel ALEGRE MARTÍNEZ observa que “a definição da dignidade em abstrato
contém uma série de dificuldades. Para começar, sempre estará presente a determinada
concepção ideológica de quem trate de aproximar-se deste conceito, o momento e lugar de
referência (as circunstâncias e valores sociais são variáveis, e o que em um dado momento
resulta contrário à dignidade pode não parecer em um momento ou contexto distinto). Além
disso, ele ressalta que, para alguns autores, “ainda que se possa pensar que o conceito de
dignidade é universal, válido para todos, o certo é que uma determinada medida pode ir contra a
dignidade de umas pessoas e não ir contra a dignidade de outras (por exemplo, uma medida que
suponha discriminação em razão do sexo)”. Por fim, “a essas dificuldades tem que ser
acrescentada a de determinar quem decide sobre um possível atentado à dignidade da pessoa”
(La dignidad de la persona como fundamento del ordenamiento constitucional español, p. 26).
13
SARLET, Ingo Wolfgang. “As dimensões da dignidade da pessoa humana: construindo uma
compreensão jurídico-constitucional necessária e possível”, p. 366: “A dignidade, como
qualidade intrínseca da pessoa humana, é irrenunciável e inalienável, constituindo elemento que
qualifica o ser humano como tal e dele não pode ser destacado, de tal sorte que não se pode
cogitar a possibilidade de determinada pessoa ser titular de uma pretensão a que lhe seja
concedida a dignidade. [...] pode ser reconhecida, respeitada, promovida e protegida, não
podendo, contudo (no sentido ora empregado) ser criada, concedida ou retirada (embora possa
ser violada)”.
14
É o caso, por exemplo, de voluntários que se oferecem para participar de experiências
relacionadas ao desenvolvimento de uma nova vacina ou de um novo medicamento.
15
Ingo Von Münch apud FERNÁNDEZ SEGADO, Francisco. La dignidad de la persona como
valor supremo del ordenamiento jurídico, p. 110.
16
GAVARA DE CARA, Juan Carlos. Derechos fundamentales y desarrollo legislativo, p. 220.
17
O princípio da dignidade da pessoa humana costuma ser utilizado, por exemplo, na
interpretação do caput do art. 5.° da CRFB/1988. Nesse sentido: STF – HC 94.447, Rel. Min.
Gilmar Mendes (06.09.2011): “Em conclusão, a Segunda Turma concedeu a ordem para afastar
o óbice da substituição da pena privativa de liberdade por restritiva de direito a estrangeiro não
residente no país. (...) Consignou, de início, que o fato de o estrangeiro não possuir domicílio no
território brasileiro não afastaria, por si só, o benefício da substituição da pena. (...) Não se
trataria, pois, de critério que valorizasse a residência como elemento normativo em si mesmo.
Assentou que a interpretação do art. 5.°, caput, da CF não deveria ser literal, porque, de outra
forma, os estrangeiros não residentes estariam alijados da titularidade de todos os direitos
fundamentais. Ressaltou a existência de direitos assegurados a todos, independentemente da
nacionalidade do indivíduo, porquanto considerados emanações necessárias do princípio da
dignidade da pessoa humana. (...) Nesse ponto, concluiu que o fato de o paciente não possuir
domicílio no Brasil não legitimaria a adoção de tratamento distintivo e superou essa objeção”
(Informativo 639/STF).
18
Luis Roberto BARROSO afirma que o núcleo material elementar da dignidade da pessoa
humana “é composto do mínimo existencial, locução que identifica o conjunto de bens e
utilidades básicas para a subsistência física e indispensável ao desfrute da própria liberdade”
(Fundamentos teóricos e filosóficos do novo direito constitucional brasileiro, p. 51).
19
A eficácia jurídica dos princípios constitucionais, p. 118.
20
Esta afirmação parte da premissa de que a norma e o texto normativo (dispositivo) não se
confundem. Por certo, um dispositivo pode conter várias normas, assim como uma norma pode
surgir a partir de vários dispositivos. O texto da norma, esclarece CANOTILHO, é o “sinal
linguístico”, ao passo que a norma é o que se “revela” ou se “designa” (Direito constitucional e
teoria da Constituição, p. 1.181).
21
BENDA, Ernst. Dignidad humana y derechos de la personalidad, p. 121.
22
Apesar de não ser idêntica, essa conclusão se aproxima bastante do raciocínio desenvolvido
por Robert ALEXY (Teoría de los derechos fundamentales, p. 106-108).
23
ANDRADE, J. C. Vieira de. Os direitos fundamentais na Constituição portuguesa de 1976, p.
110: “Os direitos fundamentais são os pressupostos elementares de uma vida humana livre e
digna, tanto para o indivíduo como para a comunidade: o indivíduo só é livre e digno numa
comunidade livre; a comunidade só é livre se for composta por homens livres e dignos”.
24
“The concept of human dignity and the realistic utopia of human rights”, p. 468-469.
25
ANDRADE, J. C. Vieira de. Os direitos fundamentais na Constituição portuguesa de 1976, p.
78-79.
26
SEGADO, Francisco Fernández. La dignidad de la persona como valor supremo del
ordenamiento jurídico, p. 163.
27
Nesse sentido Salvador Vergés RAMÍREZ afirma que “o parentesco da vida, liberdade e
igualdade com a dignidade os situa no primeiro grau. Efetivamente, tais direitos são
indiscutíveis, com a correlativa exigência de sua promoção, enquanto se assentam sobre o pilar
da racionalidade da pessoa, que é o conteúdo mais nuclear de sua dignidade. Em concreto, o
direito à vida, à liberdade e à igualdade são a irradiação dessa qualidade específica da condição
humana” (Derechos humanos: fundamentación, p. 88).
28
HABERMAS, Jürgen. “The concept of human dignity and the realistic utopia of human
rights”, p. 466.

Marcelo Novelino. Manual de direito constitucional. 9. ed. rev. e atual. – Rio


de Janeiro: Forense; São Paulo: MÉTODO, 2014.

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