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A Ruptura com o senso comum

“Metodologia das Ciências Sociais – Ruptura com o senso comum nas ciências sociais” - Resumo
Também na antropologia (como noutras disciplinas) foi-se consolidando, nos séculos passados, um
saber especializado, assente na reflexão teórica e na observação empírica.

Na antropologia, uma das dificuldades principais foi a dificuldade em separar as


convicções/interpretações dos antropólogos do estudo das sociedades, ou seja, sendo os antropólogos
membros de uma sociedade (pertencentes ao social), então como seria possível analisar a sociedade sem
interpretações próprias, sendo que a regra metodológica de Durkheim (“explicar o social pelo social e só
pelo social”) tenha contribuído para a resolução desta dificuldade. A outra solução foi a ruptura com o
senso comum.

Só através da ruptura, é possível construir modelos sobre a sociedade, é possível estudar a sociedade.
Aliás, é o senso comum que tende muitas vezes a produzir interpretações naturalistas, individualistas e
etnocentristas dos factos humanos, procurando explicá-los por características que pensa ligada à
“natureza” da humanidade e não às diferentes culturas. Sendo assim, é absolutamente imperioso recorrer
a esta ruptura.

Também se afirma que a demografia é uma ciência social, a qual tem como objectivo analisar as
dimensões espaciais da vida social, ou seja, a função do espaço na dinâmica das sociedades.

Uma das formas mais correntes de tentar explicar os factos sociais é evocar “causas” de ordem natural,
através duma interpretação do tipo naturalista, isto é, todos os comportamentos humanos são regulados
por factores que se consideram “inerentes” à condição humana, ou à natureza de um povo. Assim, estes
factos são indiscutíveis, dado que são universais para o Homem ou para o povo em estudo (os quais
podem ser biológicos -principalmente, políticos, psicológicos, etc.)

Relacionada com a interpretação anterior, outra interpretação do tipo naturalista é o biologismo, em que
os comportamentos sociais são regulados por características biológicas de um determinado povo ou do
Homem, em geral. Sendo assim, a sócio-biologia pressupõe que todo o comportamento social tem uma
base biológica, sujeita à selecção natural e dotada de um inatismo absoluto, ou seja, de uma
aplicabilidade universal (embora não seja muito aceite).

As razões para que tantos profissionais da área das ciências sociais terem adoptado (e ainda
adoptarem) interpretações do tipo naturalista são:

o Uma tentativa de capitalização das novas ciências humanas, como a etologia, ecologia, genética, etc., e
também os novos estudos feitos com populações de insectos (por exemplo)
o A tentativa da cientifização dos estudos sobre as sociedades através de modelos das disciplinas
naturais.
o Por fim, a tentativa de reforçar uma já longa tradição, em que se afirma que existe uma dualidade entre
a natureza e a cultura. (Nota: também se pode considerar como uma razão, a tentativa de universalizar
causas para o comportamento humano, estabelecendo leis universais)

Um dos exemplos da aplicação da sócio-biologia é o caso da dominância entre classes na mesma


sociedade (principalmente, nas contemporâneas), divididas por classe, sexo e raça. Um exemplo mais
prático é por exemplo a discrepância do nº de mulheres e de homens em cursos no Ensino Superior.
Neste caso concreto, pode-se explicar esta discrepância (existem muito mais mulheres no Ensino
Superior, especialmente em cursos na área da saúde, do que homens) por causas de ordem biológica, ou
seja, as mulheres terem uma maior “predisposição” para os estudos do que os homens.

Obviamente que, neste caso, as causas desta discrepância será por razoes de ordem sociais e não
biológica ou psicológica. Uma explicação sociológica partiria da análise das diferentes condições sociais,
da estrutura de oferta dos cursos universitários, etc., segundo o sexo, origem e trajectória social.

Normalmente, surgem argumentos de dois tipos: ou se sustenta que certos fenómenos são regulados
por leis naturais ou se sustenta que certos atributos não são redutíveis a uma abordagem científica, ou
seja, não são passíveis de ser estudados. Actualmente, um dos trabalhos mais importantes para os
historiadores, antropólogos, psicólogos, etc., é a analise de propriedades/factos que, até então, tinham
sido considerados como não-analisáveis, ou seja, universais e/ou naturais.

No caso da economia, vários postulados eram considerados inerentes à condição humana, em que todo
o indivíduo era um ente racional, capaz de efectuar escolhas racionais para maximizar o seu prazer e
bem-estar, formulando-se, assim, leis consideradas universais também.

Mas, as interpretações do tipo individualista são bastante difíceis de separar das “universais”, dado que
estas, geralmente, encontram-se em conjunto, ou seja, para explicar as “universais”, verifica-se um
conjunto de “individuais”. No séc. XIX, usou-se esta linha de pensamento “individualista” para aplicar a
politica liberal.

Outra maneira de criticar as atitudes universalistas é a demonstração de casos particulares que


exemplificam casos gerais, como por exemplo, o kula.

Assim, o objectivo dos teóricos é limitar a todo o custo as interpretações do tipo “universal”, mas não as
negando, baseando-se em quatro argumentos principais:

o Há certamente regularidades observáveis à escala colectiva, mas estas são, somente, as verificadas ao
nível individual. Sendo assim, deve-se analisar primeiro um conjunto de “individuais” para atingir o
“colectivo”, ou seja, a colectividade representa o produto combinado das acções individuais.
o De seguida, importa salientar a existência de líderes naturais nestes conjuntos sociais (quer por
natureza psicológica ou por posição no grupo).
o Por fim, através destas interpretações, seria possível restringir as leis utilizadas às leis psicológicas, ou
seja, não seria possível que todas as características humanas relevantes para o estudo fossem, de facto,
estudadas.

Mesmo assim, nenhum destes argumentos (que pretendem explicar as teorias “individualistas”) é, de
facto, admissível, dado que os indivíduos e a sociedade não são realidades separáveis. O corpo
socializado (que se chama individuo/pessoa) não se opõe à sociedade, é uma das suas formas de
existência.

Por exemplo, através das interpretações do tipo individualista, a análise em relação ao sucesso escolar
seria feito através da análise da inteligência/capacidades de cada aluno, ou seja, cada aluno tem um
determinado nível de inteligência/predisposição para o sucesso escolar (interpretação do tipo naturalista e
individualista). Sendo assim, seria menosprezada a questão da interacção social e de outras temáticas
mais “universais”.

Assim, a sociologia é definida muitas vezes como o estudo das sociedades humanas, através da
história, da antropologia, da demografia, da economia e até da psicologia. Por outro lado, a psicologia é
definida como a descrição e explicação da conduta dos organismos (através da biologia e até da
sociologia).

A palavra “etnocentrismo” serve para designar duas atitudes: sobrevalorização do grupo e da cultura a
que pertence o sujeito (local, regional, etc.) e a correlativa depreciação das restantes culturas e
organizações sociais diferentes da do sujeito (muitas vezes, estas duas atitudes são de uma forma
inconsciente).

Exemplos de etnocentrismo são: o racismo, o fanatismo religioso, o genocídio colonial, etc. Neste caso,
o padrão único é a própria cultura do sujeito, enquanto que as restantes culturas se encontram “erradas”.
Outra forma bastante típica de etnocentrismo é “pensar por preconceitos”, estando esta presente no
inconsciente e, embora exista uma grande facilidade em negá-la e explicar o porquê de ser um mau tipo
de pensamento, quando esta se encontra de forma inconsciente nas pessoas, é difícil de alterar o
pensamento. Mesmo os cientistas sociais “tropeçam” na questão dos preconceitos, sendo uma das suas
maiores dificuldades aquando a realização dos seus estudos de culturas diferentes da nossa.

Estudando estas culturas diferentes da nossa, encontra-se bastante sujeito a atitudes de etnocentrismo.

A ruptura com o senso comum não é um trabalho feito de uma vez por todas, é uma atitude e um
trabalho de construção conceptual permanente.
O objectivo desta ruptura é poder estudar (e explicar melhor) as relações entre cultura e natureza, entre
indivíduos e sociedade, entre grupos e culturas diferentes.

As razões para que são inadmissíveis preconceitos e/ou leis puramente ideológicas (que não possam
ser trabalhadas em pesquisa) residem no reconhecimento que as teorias cientificas são passíveis de ser
designadas, estudadas e postas em prova cientifica/empírica. Sendo assim, estas teorias podem também
ser transformadas pela prática, através da experiência.

Sendo assim, para o processo de produção de conhecimentos científicos, saõ necessários três “actos
epistemológicos” indissociáveis:

o Ruptura com as “evidências” de senso comum que possam constituir obstáculos àquele processo
o Construção das teorias explicativas (do objecto em análise)
o Validação/verificação das teorias através da observação/informação empírica

Assim, a atitude problematizadora própria da ciência constitui os instrumentos fundamentais da ruptura.


Em primeiro lugar, uma operação axial consiste na relativização dos fenómenos humanos. De seguida, a
relacionação dos factos constitui uma outra operação decisiva, que também contribui para a superação
dos argumentos de senso comum invocados, ou seja, os factos sociais só podem ser explicados por
sistemas de relações entre eles. Por fim, a possibilidade de pôr sistematicamente os conhecimentos
adquiridos em causa.

A ruptura nunca é completa, mas é necessária para a evolução da prática científica.

Então, é conhecimento científico…


…quando conseguimos explicar os fenómenos sociais a partir de processos fundamentados.
Explicação do social pelo social
…Ruptura com:
- evidências do senso comum
- teses naturalistas (relação entre a natureza e a diversidade dos contextos sociais criados pelo Homem)
Ex: O fenómeno do suicídio explicado por causas estritamente naturais não abrange todas as
causas/motivos.
- teses individualistas (indivíduo/sociedade)
- etnocentrismo (nós e os outros)
Forma como vejo o mundo é que faz sentido, eu é que estou certo.
Ex: Narcisismo, nazismo, …
Sintetizando a ruptura com o senso comum…

---» O senso comum é resultado de um juízo de valor sobre uma realidade social que é dado como certo,
sem provas empíricas. Este conceito é resultado do facto de que a vida social seria impossível se
tivéssemos de pensar conscientemente sobre todos os nossos actos.
---» Para conhecer a realidade social é necessário estudá-la e, portanto, romper com os dados que são
tidos como garantidos do senso comum.

---» Para conhecer a realidade do ponto de vista científico é necessário:


Ruptura com o senso comum e, portanto, com o conhecimento do quotidiano
Tornar estranho o que é comum – atitude metodológica
Diferenciar problema social de problema sociológico

---» Assim, a sociologia permite estudar objectivamente a realidade social, aplicando o método científico
das regras sociológicas, método este elaborado por Durkheim1. Este mesmo autor afirma que o social
deve ser explicado pelo social. Por exemplo, explicar a pobreza devido ao desemprego2, ambos
factores sociais