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Carlos Biasotti

Alimentos
(Doutrina e Jurisprudência)

2020
São Paulo, Brasil
O Autor

Carlos Biasotti foi advogado criminalista, presidente da


Acrimesp (Associação dos Advogados Criminalistas do Estado
de São Paulo) e membro efetivo de diversas entidades (OAB,
AASP, IASP, ADESG, UBE, IBCCrim, Sociedade Brasileira de
Criminologia, Associação Americana de Juristas, Academia
Brasileira de Direito Criminal, Academia Brasileira de Arte,
Cultura e História, etc.).

Premiado pelo Instituto dos Advogados de São Paulo, no


concurso O Melhor Arrazoado Forense, realizado em 1982, é autor
de Lições Práticas de Processo Penal, O Crime da Pedra, Tributo aos
Advogados Criminalistas, Advocacia Criminal (Teoria e Prática), além
de numerosos artigos jurídicos publicados em jornais e revistas.

Juiz do Tribunal de Alçada Criminal do Estado de São Paulo


(nomeado pelo critério do quinto constitucional, classe dos
advogados), desde 30.8.1996, foi promovido, por merecimento, em
14.4.2004, ao cargo de Desembargador do Tribunal de Justiça.

Condecorações e títulos honorícos: Colar do Mérito


Judiciário (instituído e conferido pelo Poder Judiciário do Estado
de São Paulo); medalha cívica da Ordem dos Nobres Cavaleiros de
São Paulo; medalha cultural “ Brasil 500 anos”; medalha “ Prof. Dr.
Antonio Chaves”, etc.
Alimentos
(Doutrina e Jurisprudência)
Carlos Biasotti

Alimentos
(Doutrina e Jurisprudência)

2020
São Paulo, Brasil
Índice

I. Prólogo..........................................................................11

II. Alimentos (Doutrina e Jurisprudência)...........................13

III. Revisão de Alimentos......................................................27

IV. Casos Especiais (Reprodução Integral do Voto)............33


I. Prólogo

É dever legal do pai prover ao sustento, guarda e


boa educação dos filhos menores, reza o art 1.566,
nº IV, do Código Civil. Somente a absoluta carência
de meios poderá escusá-lo de seu estrito cumprimento
(cf. art. 229 da Const. Fed.).
A necessidade do credor e a capacidade do devedor:
eis a craveira para aferir a obrigação de prestar
alimentos.
Corolário do princípio ético da paternidade
responsável, de tanto relevo e alcance é o ônus
alimentício, que o devedor inadimplente que não
justifica a impossibilidade de satisfazê-lo sujeita-se, de
plano, ao inexorável rigor da lei: prisão civil (art. 733,
§ 1º, do Cód. Proc. Civil).
A dar-se o caso, porém, que mudança na fortuna do
alimentante já lhe não permita ocorrer aos alimentos na
totalidade de seu valor, fica ao prudente arbítrio do Juiz
reduzi-lo, pela via revisional.
Breves notas acerca do instituto dos alimentos: esta,
a matéria de que trata o livrinho, ou antes compêndio
de ementas de votos que proferi na 4a. Câmara da Seção
12

de Direito Privado do Tribunal de Justiça do Estado de


São Paulo. Até minha remoção para a 5a. Câmara de
Direito Criminal, aí fiz proveitoso tirocínio, no qual, do
mesmo passo que me reconciliei com as disciplinas
do Direito Civil, pude praticar, em fraterno convívio,
com vultos notáveis do Poder Judiciário paulista, mui
acreditados em saber, doutrina e virtudes; seus nomes:
Desembargadores Antonio Carlos Munhoz, Carlos
Stroppa, Carlos Vico Mañas, Enio Santarelli Zuliani,
Fernando Antonio Maia da Cunha, José Geraldo de
Jacobina Rabello e Natan Zelinschi de Arruda.
Num como preito de homenagem, admiração e
estima, dedico-lhes “ex corde” este opúsculo (ia quase
a escrever insignificantes migalhas jurídicas), com um
afetuoso abraço.
O Autor
Ementário Forense
(Votos que, em matéria cível, proferiu o Desembargador
Carlos Biasotti, do Tribunal de Justiça do Estado de São
Paulo. Veja a íntegra dos votos no Portal do Tribunal de
Justiça: http://www.tjsp.jus.br).

II. Alimentos

Voto nº 5564
Apelação Cível nº 293.393-4/0-00
Art. 1.566, nº IV, do Cód. Civil;
art. 229 da Const. Fed.

— A todo o indivíduo, na primeira etapa da vida, por incapaz de


prover aos meios urgentes à sua conservação e subsistência, deve-se-
-lhe reconhecer, “por um princípio natural jamais questionado, o
superior direito de ser nutrido pelos responsáveis por sua geração” (Yussef
Said Cahali, Dos Alimentos, 4a. ed., p. 29).
— Suposto não seja obrigado o pai a fazer o impossível – “Ad
impossibilia nemo tenetur” –, contudo seu dever legal de alimentar os
filhos menores não cede senão ante motivo de comprovada
impossibilidade, por absoluta carência de meios (art. 229 da Const.
Fed.).
14

Voto nº 5590
Agravo de Instrumento nº 290.316-4/9-00
Arts. 212, nº V, e 1.615 do Cód. Civil

— Alimentos. Investigação de paternidade. Negação de vínculo de


parentesco pelo réu. Prova pericial (exame hematológico).
Necessidade.
— Pode o Ministério Público, suprindo inércia das partes, requerer a
realização de perícia (exame hematológico) para provar a relação de
parentesco, pressuposto legal do dever de prestar alimentos. A
pesquisa da verdade real é a alma e o escopo do processo.

Voto nº 5591
Agravo de Instrumento nº 359.825-4/3-00
Art. 5.478/68 (Dispõe sobre a Ação de Alimentos)

— Ação de Separação Judicial Litigiosa. Fixação de alimentos


provisórios. Inadmissibilidade. Ritos processuais diferentes. Lei nº
5.478/68.
— Por amor da diversidade do rito das ações, não há fixar, na esfera do
processo de separação judicial litigiosa, alimentos provisórios aos
filhos do casal.
15

Voto nº 5618
“Habeas Corpus” nº 349.824-4/0-00
Art. 733, § 1º, do Cód. Proc. Cvil;
art. 229 da Const. Fed.

— Execução de Alimentos — Devedor inadimplente, que não justifica


a impossibilidade de pagar — Prisão civil — Admissibilidade —
Art. 733, § 1º, do Cód. Proc. Civil.
— Tem fomento de bom direito e, por isso, merece prevalecer
a decisão que decreta a prisão civil do executado que,
injustificadamente, não ocorre às necessidades alimentares dos filhos
menores (art. 733, § 1º, do Cód. Proc. Civil).

Voto nº 5633
Apelação Cível nº 304.404-4/5-00
Art. 212, nº V, do Cód. Civil;
Súmula nº 277 do STJ

— Investigação de Paternidade — Prova pericial científica pelo DNA —


Altíssimo grau de precisão — Irrefutável sua conclusão quando
afirmada a paternidade.
— A prova pericial científica pelo DNA, por seu altíssimo grau de
precisão (99,99%), deve ser recebida como expressão de certeza
quando afirma a paternidade, pois repugna à reta razão possa
alguém negar o que a evidência mostra.
— Prestar alimentos ao filho menor é dever natural do pai, a quem
compete criar e sustentar a prole (at. 229 da Const. Fed.).
—“Julgada procedente a investigação de paternidade, os alimentos são devidos
a partir da citação” (Súmula nº 277 do STJ).
16

Voto nº 5644
“Habeas Corpus” nº 360.361-4/8-00
Art. 229 da Const. Fed.;
art. 733, § 1º, do Cód. Prox. Civil

— Prisão Civil — Dívida de alimentos — Diferenças pretéritas —


Impossibilidade — Ordem de “habeas corpus” concedida.
— Constitui modalidade de constrangimento ilegal, reparável pelo
remédio do “habeas corpus”, a prisão civil como meio coercitivo de
cobrança de verba alimentícia pretérita, visto que já não tem caráter
alimentar nem é urgente à conservação da vida do alimentando (Lei
nº 5.478/68).

Voto nº 5645
“Habeas Corpus” nº 358.303-4/4-00
Art. 229 da Const. Fed.; art. 541 do Cód. Civil;
art. 733, § 1º, do Cód. Proc. Civil

— Execução de Alimentos — Devedor inadimplente, que não justifica


a impossibilidade de pagar — Prisão civil — Admissibilidade —
Art. 733, § 1º, do Cód. Proc. Civil.
— Tem fomento de bom direito e, destarte, deve subsistir em
sua inteireza o decreto de prisão civil do executado que,
injustificadamente, não ocorre às necessidades alimentares dos filhos
menores (art. 733, § 1º, do Cód. Proc. Civil).
— Doação — Bem imóvel — Escritura pública ou instrumento particular
— Forma essencial.
— Nenhum valor tem a defesa que se baseia na alegação de haver o
alimentante doado bem imóvel aos filhos menores para pagar-lhes
dívida de alimentos, se o não prova por escritura pública ou
instrumento particular, nos termos da lei (art. 541 do Cód. Civil).
17

Voto nº 5650
Apelação Cível nº 301.071-4/2-00
Art. 229 da Const. Fed.;
art. 1.566, nº IV, do Cód. Civil

— Alimentos — Prestação a filho menor — Dever natural do pai,


segundo suas possibilidades.
— É dever natural do pai prover ao sustento, guarda e boa educação
dos filhos (art. 1.566, nº IV, do Cód. Civil).
— Direito de Visita — Regulamentação — Competência originária do
Juízo de 1a. Instância.
— Cabe ao Juízo de 1a. Instância decidir originariamente sobre pedido
de alteração do regime de visita aos filhos; da questão o Tribunal só
poderá conhecer em grau de recurso.
18

Voto nº 5653
Apelação Cível nº 279.520-4/9-00
Arts. 226, § 3º, e 229 da Const. Fed.

— União Estável — Concurso da companheira na formação do


patrimônio comum — Direito à partilha, no caso de dissolução da
sociedade de fato.
— Comprovado seu concurso na formação do patrimônio comum, tem
a companheira, no caso de dissolução da sociedade de fato, direito à
partilha dos bens adquiridos durante a convivência “more uxorio”
(art. 226, § 3º, da Const. Fed.).
— Alimentos — FGTS e verbas rescisórias — Não-incidência, salvo em
caso de acordo expresso das partes.
— A Doutrina e a Jurisprudência têm professado o entendimento de
que, exceto se objeto de acordo expresso das partes, o percentual de
alimentos não pode incidir sobre os depósitos de FGTS e as verbas
rescisórias do alimentante, por seu caráter indenizatório (que não
salarial).
19

Voto nº 5655
Agravo de Instrumento nº 356.669-4/9-00
Art. 522 do Cód. Proc. Civil;
art. 2º da Lei nº 5.478/68

— Recurso de Agravo — Prazo — Pedido de reconsideração da decisão


recorrida, que não o interrompe nem suspende — Interposição —
Intempestividade.
— Pedido de reconsideração de decisão interlocutória não interrompe
nem suspende o prazo do agravo de instrumento (art. 522 do Cód.
Proc. Civil); também não pode ser convolado para agravo de
instrumento, se a parte o não requereu, às expressas, como
alternativa.
— Tutela Jurisdicional — Antecipação — Prova do direito do reclamante
— Necessidade.
— É princípio geralmente recebido que a antecipação de tutela, gênero
de violência grande ao contraditório, não se defere senão diante de
prova inconcussa do direito do reclamante. É a lição de J. J. Calmon
de Passos: “A antecipação (da tutela jurisdicional) pede a mesma prova
inequívoca que pede a decisão definitiva” (Inovações do Código de Processo
Civil, 1995, p. 13).
— Investigação de Paternidade — Pedido de alimentos — Satisfação do
art. 2º da Lei nº 5.478/68 (prova pré-constituída do parentesco) —
Necessidade.
— A concessão de alimentos provisórios exige a satisfação do
pressuposto da prova pré-constituída do parentesco ou da obrigação
de alimentar do devedor (art. 2º da Lei nº 5.478/68).
20

Voto nº 5659
“Habeas Corpus” nº 362.140-4/4-00
Art. 229 da Const. Fed.;
art. 733, § 1º, do Cód. Proc. Civil

— Alimentos — Dívida pretérita — Inadimplência — Prisão civil —


Inadmissibilidade — Ordem de “habeas corpus” concedida.
— Constitui gênero de constrangimento ilegal, reparável pelo remédio
do “habeas corpus”, a prisão civil como meio coercitivo de cobrança
de verba alimentícia pretérita, visto que já não tem caráter alimentar
nem é urgente à conservação da vida do alimentando (Lei nº
5.478/68).

Voto nº 5662
Apelação Cível nº 304.734-4/0-00
Art. 229 da Const. Fed.;
art. 290 do Cód. Proc. Civil

— Alimentos — Execução — Inclusão no pedido de pensões vincendas


no curso da lide — Possibilidade — Exegese do art. 290 do Cód. Proc.
Civil.
— Em obséquio ao princípio de economia processual, na execução de
pensão alimentícia vencida podem incluir-se também as vincendas,
uma vez caracterizada a inadimplência, “ad instar” do que sucede
com as prestações periódicas (art. 290 do Cód. Proc. Civil).
— Magistrado — Aplicação, nos atos de seu ofício, do princípio de
economia processual — Necessidade.
— Nos atos de seu ofício, deve o Juiz atender, sem falta, ao princípio
de economia processual, que o orienta a fazer justiça rápida e a
aliviar o gravame das partes.
21

Voto nº 5761
Apelação Cível nº 326.661-4/8-00
Art. 229 da Const. Fed.;
art. 1.694 do Cód. Civil

— Alimentos — Necessidade do credor e capacidade do devedor —


Estalão para aferir o dever de prestar alimentos.
— O critério da prestação de alimentos terá sempre em conta a
necessidade do credor e a capacidade do devedor.
— Pensão Alimentícia — Mulher jovem e saudável — Necessidade de
tomar ocupação lícita para prover à própria subsistência — Trabalho:
obrigação social e juntamente fator de promoção humana.
— Compete à mulher jovem, saudável e de comprovados cabedais de
espírito prover à própria subsistência pelo trabalho, que, além de
obrigação social e fator de promoção humana, também lhe será
timbre de altivez, pois que a guardará da insinuação de sócia
parasitária de outrem (art. 1.694 do Cód. Civil).
— O recurso apropriado a impugnar decisão que julga incidente de
pedido de assistência judiciária é a apelação (art. 513 do Cód. Proc.
Civil).
— Assistência Judiciária — Ônus da sucumbência — Isenção — Efeito
legal.
— A gratuidade judiciária isenta o necessitado do ônus da sucumbência
(art. 3º da Lei nº 1.060/50).
22

Voto nº 5715
“Habeas Corpus” nº 362.704-4/9-00
Art. 5º, nº LXVIII, da Const. Fed.;
art. 733, § 1º, do Cód. Proc. Civil

— Contra o parecer de notáveis juristas, que sustentam não ser


o “habeas corpus” meio apropriado a impugnar decisão de que
caiba recurso ordinário, mostra-se de bom exemplo conhecer da
impetração, porque, em tese, passa pelo remédio jurídico-
-processual mais célere e eficaz para conjurar abusos e ilegalidades
contra o direito à liberdade de locomoção do indivíduo (art. 5º,
nº LXVIII, da Const. Fed.).
— Execução de Alimentos — Devedor inadimplente, que não justifica
a impossibilidade de pagar — Prisão civil — Admissibilidade —
Art. 733, § 1º, do Cód. Proc. Civil.
— Assenta em bom direito, e por isso está ao abrigo da crítica sensata,
a decisão que decreta a prisão civil do executado, por não ter
ocorrido, injustificadamente, às necessidades alimentares dos filhos
menores (art. 733, § 1º, do Cód. Proc. Civil).
23

Voto nº 5740
Apelação Cível nº 307.059-4/1-00
Art. 229 da Const. Fed.;
art. 1.566, nº IV, do Cód. Civil

— Na primeira etapa da vida, a todo o indivíduo, por incapaz de


prover aos meios urgentes à sua conservação e subsistência, é mister
se lhe reconheça, “por um princípio natural jamais questionado, o
superior direito de ser nutrido pelos responsáveis por sua geração” (Yussef
Said Cahali, Dos Alimentos, 4a. ed., p. 29).
— Embora não seja obrigado o pai ao impossível – “Ad impossibilia
nemo tenetur” –, constitui-lhe entretanto dever legal alimentar os
filhos menores, salvo se comprovada a impossibilidade de fazê-lo
por absoluta carência de meios (art. 229 da Const. Fed.).

Voto nº 5741
Apelação Cível nº 305.987-4/1-00
Art. 229 da Const. Fed.;
art. 1.566, nº IV, do Cód. Civil

— Alimentos — Necessidade do credor e capacidade do devedor —


Critério da aferição do dever de prestar alimentos.
— Necessidade do credor e capacidade do devedor, eis a craveira
por que se há de aferir o cumprimento da obrigação de prestar
alimentos.
— Filhos — Assistência e educação — Dever comum dos pais — Tarefa
que, por isso, incumbe também à mãe.
— Dado que a assistência, criação e educação dos filhos são um dever
comum dos pais, também à mãe compete prover-lhes às primeiras
necessidades (art. 229 da Const. Fed.).
24

Voto nº 5746
Agravo de Instrumento nº 359.035-4/8-00
Art. 327 do Cód. Proc. Civil;
art. 1.566, nº IV, do Cód. Civil

— Ação de Alimentos — Defesa fundada na inépcia da inicial (falta de


documento indispensável) — Suprimento da omissão na fase da
réplica — Improcedência do argumento.
— A defesa indireta processual fundada na alegação de inépcia da
petição inicial, por falta de documento indispensável à execução de
alimentos, perde eficácia e valor se, no prazo da réplica, o autor
supre a omissão (art. 327 do Cód. Proc. Civil).
— Alimentos — Prestação a filho menor — Dever natural do pai,
segundo suas possibilidades.
— É dever natural do pai prover ao sustento, guarda e boa educação
dos filhos (art. 1.566, nº IV, do Cód. Civil).
25

Voto nº 5753
Apelação Cível nº 313.624-4/0-00
Art. 229 da Const. Fed.;
art. 1.566, nº IV, do Cód. Civil

— Alimentos — Dever do pai de prestá-los aos filhos menores —


Observância do princípio ético da paternidade responsável.
— Suposto não seja obrigado o pai a fazer o impossível – “Ad
impossibilia nemo tenetur” –, contudo seu dever legal de alimentar os
filhos menores não cede senão em face de absoluta carência de
recursos (art. 229 da Const. Fed.)
— Alimentos — FGTS e verbas rescisórias — Não-incidência, salvo em
caso de acordo expresso das partes.
— A Doutrina e a Jurisprudência têm professado o entendimento de
que, exceto se objeto de acordo expresso das partes, o percentual de
alimentos não pode incidir sobre os depósitos de FGTS e as verbas
rescisórias do alimentante, por seu caráter indenizatório (que não
salarial).

Voto nº 5820
“Habeas Corpus” nº 361.630-4/3-00
Art. 5º, nº LXVIII, da Const. Fed.;
art. 1.566, nº IV, do Cód. Civil

— Alimentos — Dívida pretérita — Inadimplência — Prisão civil —


Inadmissibilidade — Ordem de “habeas corpus” concedida.
— Constitui gênero de constrangimento ilegal, reparável pelo remédio
do “habeas corpus”, a prisão civil como meio coercitivo de cobrança
de verba alimentícia pretérita, visto que já não tem caráter alimentar
nem é urgente à conservação da vida do alimentando (Lei nº
5.478/68).
26

Voto nº 5706
Apelação Cível nº 324.685-4/2-00
Art. 229 da Const. Fed.;
art. 290 do Cód. Proc. Civil

— Alimentos — Execução — Inclusão no pedido de pensões vincendas


no curso da lide — Possibilidade — Exegese do art. 290 do Cód. Proc.
Civil.
— Em obséquio ao princípio de economia processual, na execução de
pensão alimentícia vencida podem incluir-se também as vincendas,
uma vez caracterizada a inadimplência, “ad instar” do que sucede
com as prestações periódicas (art. 290 do Cód. Proc. Civil).
— Magistrado — Aplicação, nos atos de seu ofício, do princípio de
economia processual — Necessidade.
— Nos atos de seu ofício, deve o Juiz atender, sem falta, ao princípio
de economia processual, que orienta a fazer justiça rápida, com o
menor sacrifício ou gravame das partes.
III. Alimentos. Ação Revisional

Voto nº 5620
Apelação Cível nº 296.959-4/6-00
Art. 229 da Const. Fed.;
art. 1.699 do Cód. Civil

— Alimentos — Ação Revisional — Mudança na fortuna do devedor —


Redução — Possibilidade — Art. 1.699 do Cód. Civil.
— Comprovando-se que mudança na fortuna do alimentante lhe não
permite prestar alimentos na totalidade de seu valor, fica ao
prudente arbítrio do Juiz reduzi-lo, pois ninguém pode ser obrigado
ao impossível: “Nemo tenetur ad impossibilia” (art. 1.699 do Cód.
Civil).
28

Voto nº 5641
Apelação Cível nº 304.378-4/5-00
Art. 1.566, nº IV, do Cód. Civil;
art. 15 da Lei nº 5.478/68

— Pedido Revisional de Alimentos — Indícios da abastada condição


financeira do alimentante — Presumida necessidade do alimentando,
menor impúbere — Caso de majoração — Recurso provido em parte.
— Indícios da abastada condição financeira do alimentante justificam a
majoração da verba alimentícia, fixada de forma irrisória a filho
menor impúbere (art. 15 da Lei nº 5.478/68).
— Isto de apoiar-se o julgador em indícios mais que em prova
plena e arrebatadora, não lhe desmerece a formação do livre
convencimento. É que, perante a sistemática do processo civil
pátrio, têm os indícios, quando múltiplos e convergentes, a força e
o prestígio que bastem a forrar uma decisão legal e justa.
29

Voto nº 5663
Apelação Cível nº 303.215-4/5-00
Art. 93, nº IX, da Const. Fed.;
art. 1.699 do Cód. Civil

— Sentença — Arguição de nulidade por falta de fundamentação —


Motivação suficiente — Preliminar repelida.
— Ainda que lacônica ou sucinta, não é nula a sentença que dá as
razões do convencimento do Magistrado (art. 93, nº IX, da Const.
Fed.).
— Alimentos — Pedido de redução por alimentante que constituiu nova
família — Falta de prova contudo de mudança na fortuna, que lhe
impossibilitasse cumprir o encargo — Improcedência.
— A alegação de haver constituído nova família não serve de escusa ao
alimentante para reclamar redução do encargo, se não comprovou
que a mudança na fortuna lhe tornou de todo impossível cumprir a
obrigação natural indeclinável de prestar alimentos ao filho (art.
1.699 do Cód. Civil).

Voto nº 5705
Agravo de Instrumento nº 361.228-4/9-00
Art. 229 da Const. Fed.;
art. 733, § 1º, do Cód. Proc. Civil

— Alimentos — Falta de regular prestação — Alegação de declínio dos


bens da fortuna do executado — Inexistência contudo de prova
segura e convincente a tal respeito — Decreto de prisão: medida,
embora extrema e odiosa, legal e necessária.
— A mera alegação de declínio dos bens da fortuna do executado não
lhe serve de justificação para o descumprimento do encargo
alimentar nem o abroquela dos efeitos do decreto de prisão, medida
extrema, verdadeira “ultima ratio”, destinada a compelir o
alimentante inadimplente à satisfação de seu débito (art. 733, § 1º,
do Cód. Proc. Civil).
30

Voto nº 5723
Apelação Cível nº 306.460-4/4-00
Art. 1.566, nº IV, do Cód.Civil;
art. 320, nº II, do Cód. Proc. Civil

— Sentença — Inobservância de regra processual básica — Nulidade —


Ocorrência.
— Ainda que “trabalho de máximo relevo do ofício do juiz”, na expressão
exata de Mário Guimarães (O Juiz e a Função Jurisdicional, 1958,
p. 313), nula é a sentença proferida com inobservância de regra
processual básica.
— Ação Revisional de Alimentos — Revelia — Pena de confissão —
Inaplicabilidade — Direito indisponível — Audiência de instrução e
julgamento — Necessidade.
— Na ação revisional de alimentos, a revelia do réu não importa
confissão nem autoriza o julgamento antecipado da lide; hipótese
de direito indisponível, é de preceito a instauração da dilação
probatória (art. 320, nº II, do Cód. Proc. Civil).

Voto nº 5732
Apelação Cível nº 305.974-4/2-00
Art. 229 da Const. Fed.
art. 1.699 do Cód. Civil

— Alimentos — Pedido de redução por alimentante que constituiu nova


família — Falta de prova contudo de mudança na fortuna, que lhe
impossibilitasse cumprir o encargo — Improcedência.
— A alegação de haver constituído nova família não serve de escusa ao
alimentante para reclamar redução do encargo, se não comprovou
que a mudança na fortuna lhe tornou de todo impossível cumprir a
obrigação natural indeclinável de prestar alimentos ao filho menor
(art. 1.699 do Cód. Civil).
31

Voto nº 5743
Apelação Cível nº 307.474-4/5-00
Art. 229 da Const. Fed.;
art. 1.699 do Cód. Civil

— Alimentos — Pedido de exoneração por alimentante que constituiu


nova família — Falta de prova contudo de que a mudança na fortuna
lhe impossibilitasse cumprir o encargo — Improcedência.
— A alegação de haver constituído nova família não serve de escusa
ao alimentante para reclamar exoneração do encargo, se não
comprovou que a mudança na fortuna o impossibilitara de cumprir
a obrigação natural indeclinável de prestar alimentos ao filho menor
(art. 1.699 do Cód. Civil).

Voto nº 5749
Apelação Cível nº 312.372-4/1-00
Art. 1.566, nº IV, do Cód. Civil;
art. 1.699 do Cód. Civil

— Alimentos — Pedido de redução — Alegação de mudança na fortuna —


Necessidade de prova cabal e firme.
— A mera alegação de mudança na fortuna do alimentante não basta a
justificar-lhe a redução do valor da prestação alimentícia ao filho
menor, sendo mister prová-lo além de toda a dúvida (art. 1.699 do
Cód. Civil).
— Alimentos — Prestação a filho menor — Dever natural do pai,
segundo suas possibilidades.
— É dever natural do pai prover ao sustento, guarda e boa educação
dos filhos menores (art. 1.566, nº IV, do Cód. Civil).
IV. Casos Especiais: Reprodução
Integral do Voto
PODER JUDICIÁRIO

1
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO

QUARTA CÂMARA — SEÇÃO DE DIREITO PRIVADO

Apelação Cível nº 304.404-4/5-00


Comarca: São Paulo
Apelante: JIN
Apelados: DGC e DGC

Voto nº 5633
Relator
Sorteado

Declaração de Voto (vencido, em parte)

— Investigação de paternidade — Prova


pericial científica pelo DNA —
Altíssimo grau de precisão —
Irrefutável sua conclusão quando
afirmada a paternidade.
— A prova pericial científica pelo DNA,
por seu altíssimo grau de precisão
(99,99%), deve ser recebida como
expressão de certeza quando afirma a
paternidade, pois repugna à reta razão
possa alguém negar o que a evidência
mostra.
36

— Prestar alimentos ao filho menor


é dever natural do pai, a quem
compete criar e sustentar a prole.
—“Julgada procedente a investigação de
paternidade, os alimentos são devidos a
partir da citação” (Súmula nº 277 do
STJ).

Diferentemente dos votos dos preclaros Desembargadores


Vico Mañas e Munhoz Soares, que a proviam em parte,
meu voto negava provimento à apelação e, pois,
mantinha, na íntegra, a r. sentença de Primeiro Grau,
por seus jurídicos e bons fundamentos, que, a meu
aviso, deviam prevalecer contra os da r. decisão da douta
maioria.

Destarte, peço vênia para declarar meu voto como o


proferi.

1. Da r. sentença que proferiu o MM. Juízo de Direito


da 2a. Vara da Família e Sucessões do Foro Regional de
São Miguel Paulista (Comarca da Capital), julgando
procedente o pedido da Ação de Investigação de
Paternidade cumulado com Alimentos, que lhe promovem
DGC e DGC, interpôs JIN recurso de Apelação para
este Egrégio Tribunal, no intuito de reformá-la.
37

Afirma, nas razões de apelo, subscritas por seu


dedicado e culto patrono, que os elementos de prova
arrebanhados nos autos não eram aptos a atribuir-lhe a
paternidade dos apelados; pelo que, pleiteia à colenda
Câmara tenha a bem prover-lhe o recurso e julgar
improcedente o libelo.

A dar-se o caso, porém, que seja outro o seu


entendimento, requer a redução do valor da pensão
alimentícia, modificado o termo inicial de sua prestação
(fls. 239/246).

Os apelados apresentaram contrarrazões de recurso,


nas quais refutaram os argumentos do apelante e
propugnaram a manutenção da r. sentença de Primeiro
Grau (fls. 255/258).

A douta Procuradoria-Geral de Justiça, em exímio


parecer do Dr. Alexandre Ciscato Ferreira, opina pelo
improvimento do recurso (fls. 265/271).

É o relatório.

2. Representados por sua mãe (JGCN), os menores


DGC e DGC ajuizaram Ação de Investigação de
Paternidade cumulada com pedido de Alimentos contra JIN.
38

Da petição inicial constou que a representante legal


dos menores e o réu se conheceram em 1977, e logo
sucumbiram aos ímpetos de uma paixão fulgurante e
avassaladora. Debalde a moçoila Josina pelejou contra
os assédios do varão, esmerados e pertinazes: acabou
transigindo em pontos de honestidade de costumes e
manteve com ele trato carnal.

Do prolongado contubérnio —— que se estendera


desde os idos de março de 1981 a fevereiro de 1987 ——
nasceram os autores.

O réu, no entanto, alegando com dificuldades de


ordem familiar, porquanto casado, não acrescentara seu
patronímico ao nome dos filhos; dava-lhes, contudo,
bem que de forma irregular e em grau mínimo, ajuda
financeira com que lhes provia à subsistência e do que,
ao demais, se podia induzir e presumir a verdadeira
paternidade deles.

Requereram, à derradeira, a procedência do pedido


e a condenação do réu a reconhecê-los por filhos,
averbando-se nos respectivos Cartórios de Registro
Civil das Pessoas Naturais, e a pagar-lhes 1/3 de seu
salário líquido, a ser descontado em folha, além dos
honorários advocatícios e custas processuais (fls. 2/4).

O réu contestou o pedido e negou, veemente, os


fatos descritos na inicial (fls. 60/65).
39

A r. sentença de fls. 212/215 acolheu, em sua


inteireza, a pretensão dos autores.

Irresignado com a conclusão do decreto judicial,


dele apelou o réu, tempestivamente, para esta colenda
Corte de Justiça, pondo a mira em modificá-lo.

3. Tenho por mui digna de subsistir, “data venia”, a r.


sentença recorrida, a despeito do esforço hercúleo do
apelante por abalar-lhe os fundamentos. A razão é que a
prova reunida no processado prestigiou, insignemente,
a pretensão dos autores, pois os laudos de exame
de vínculo genético de filiação eliminaram toda a
controvérsia acerca da paternidade, que o apelante se
obstina em negar.

Com efeito, a conclusão da perícia afirmou ser


o apelante o pai biológico dos autores, e isto “com
probabilidade de paternidade maior do que 99,99%” (fls.
168/169).

À vista do que, não fosse licença reconhecida a todo


o acusado, em nome do augusto direito de defesa, a
negativa do réu lhe arguiria ânimo empedernido.
40

Mas, dado o “altíssimo grau de precisão” da


investigação de vínculo genético de filiação por DNA, o
apelo do réu confunde-se com as defesas ruins, as quais
andam em provérbio: “Para ruim defesa, melhor é
nenhuma”.

É que repugna ao bom-senso e à reta razão possa


negar alguém o que a evidência mostra.

Que o exame de DNA seja prova cabal e irrefutável


para o convencimento do Juiz e afirmação da
paternidade estão a demonstrá-lo acórdãos, infinitos
em número, de todos os Tribunais do País. Basta
mencionar os seguintes:

a) “Em investigação de paternidade, a prova pericial


científica concernente ao exame de DNA constitui prova
direta e, quando seus resultados forem categóricos
na afirmação da paternidade, deve ser considerada
prova superior e incontestável na formação do livre
convencimento do julgador, mormente quando somada à
prova indiciária” (Rev. Tribs., vol. 736, p. 453; rel.
Abreu Leite).

b) “A excelência do exame pericial pelo sistema DNA, por


sua vez, torna indiscutível a paternidade do apelado em
relação ao apelante, originando, daí, as consequências
jurídicas advindas do decreto de filiação, tais como a
41

anotação do parentesco no assento de nascimento, a


obrigação alimentar, o ingresso do filho reconhecido na
cadeia de sucessão, etc.” (in Jurisprudência do Tribunal
de Justiça, vol. 268, p. 203; rel. Ruy Camilo).

Tal prova, de caráter científico, unida a indícios


veementes —— v.g.: fotos, contrato de locação da
residência da concubina em nome do suposto pai,
comprovante de depósitos bancários, etc. ——, permite
afirmar, de modo inconcusso, que o apelante é o pai dos
apelados. “Causa finita est”!

4. Outro tanto, não cabe reparo à r. sentença por ter


condenado o apelante a prestar alimentos aos apelados:
trata-se de dever natural do pai, a quem incumbe criar e
sustentar a prole.

Faz ao intento o ven. acórdão que o douto parecer


da Procuradoria-Geral de Justiça reproduziu (fl. 267):

“Investigação de paternidade — Cumulação com


alimentos — Ação julgada procedente — Valoração
correta da prova — Perícia realizada pelo sistema de
impressões digitais de DNA — Prova que reflete grau
quase absoluto de certeza e que é complementada por
outros elementos probatórios — Fixação dos alimentos
compatível com as possibilidades do alimentante e as
necessidades do alimentado — Recurso não-provido”
42

(TJSP; Ap. Cível nº 65.880-4 — Araçatuba; 8a. Câm.


Dir. Priv.; rel. Cesar Lacerda; j. 18.2.98; v.u.).

Ao apelante, por fim, também lhe não aproveita o


argumento de que, tendo a filha Daniela cumprido já os
21 anos de sua idade, não tinha jus à percepção de
alimentos e, “ipso facto”, era mister reduzir o valor da
verba alimentícia a 15% de seus vencimentos líquidos.

A questão já foi pontualmente dirimida pelo douto


Magistrado, ao rejeitar os embargos de declaração: o
valor dos alimentos foi fixado para ambos os filhos, “sem
individualizar o percentual de cada um; com a maioridade
de Daniela, seu percentual acresce ao do irmão Dennys”
(fl. 230).

5. Também pelo que respeita ao termo inicial dos


alimentos fixados na ação de investigação de
paternidade, discordo, muito a meu pesar, do
entendimento que abraça o estrênuo advogado do
apelante.

Yussef Said Cahali, autoridade competente no


assunto, na última edição de sua prestante obra —
Alimentos, 4a. ed. –, após discorrer das inconciliáveis
dissensões da Jurisprudência no tocante ao termo inicial
dos alimentos e da “ânsia incontida dos julgadores na busca
da melhor realização do valor ideal do justo” (p. 642),
43

ressalta que o Colendo Superior Tribunal de Justiça,


“por uma de suas mais expressivas turmas”, em ven.
acórdão de que foi relator o eminente Min. Sálvio de
Figueiredo, professou a inteligência de que, “tratando-se
de alimentos decretados em ação de investigação de
paternidade”, somente eram “devidos a partir da sentença
que reconheceu a paternidade” (p. 644); sua concessão,
com efeito retroativo, mais serviria “para indenizar o
autor do que para alimentá-lo, o que parece ser um desvio de
finalidade” (p. 648).

Mas, na sessão de “13 de dezembro de 1999, a egrégia


Segunda Seção decidiu no EREsp nº 152.895-PR, que, na
ação de investigação de paternidade, os alimentos retroagem à
data da citação” (in Revista do Superior Tribunal de Justiça,
vol. 169, p. 645).

Isto bem se colhe dos notáveis arestos abaixo


reproduzidos por suas ementas:

a) “I- A segunda Seção deste Tribunal firmou


orientação no sentido de que, em ação de investigação
de paternidade, cumulada com alimentos, o termo
inicial destes é a data da citação.

II- Não se mostra razoável, até porque esta Corte


tem por missão uniformizar o entendimento
jurisprudencial no País, que se mantenha
posicionamento contrário ao próprio Tribunal,
44

criando insegurança jurídica para as partes” (REsp


nº 242.099; rel. Min. Sálvio de Figueiredo
Teixeira; DJU 25.9.2000; Rev. Sup. Trib. Justiça,
vol. 169, pp. 618-619).

b) “Segundo assentou a egrégia Segunda Seção, em


ação de investigação de paternidade cumulada com
pedido de alimentos, o termo inicial destes é a data
da citação (EREsp nº 152.895-PR)” (REsp nº
174.732-RO; rel. Min. Barros Monteiro; DJU
4.9.2000; Rev. Sup. Trib. Justiça, vol. 169, p.
639);

c) “I- Os alimentos, na ação de investigação de


paternidade, têm como termo inicial a data da
citação do réu.

II- Jurisprudência pacificada no âmbito do


STJ (EREsp nº 152.895—PR, rel. Min. Carlos
Alberto Menezes Direito, Segunda Seção, j. em
13.12.1999)” (REsp nº 240.954-MG; rel. Min.
Aldir Passarinho Junior; DJU 15.5.2000; Rev.
Sup. Trib. Justiça, vol. 169, p. 658).

Daqui a substância da Súmula nº 277 da


jurisprudência do Colendo Superior Tribunal de
Justiça: “Julgada procedente a investigação de paternidade,
os alimentos são devidos a partir da citação”.
45

6. “Ex positis”, nego provimento ao recurso.

São Paulo, 7 de outubro de 2004

Des. Carlos Biasotti


Relator Sorteado
PODER JUDICIÁRIO

2
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO

QUARTA CÂMARA — SEÇÃO DE DIREITO PRIVADO

“Habeas Corpus” nº 360.361-4/8-00


Comarca: São Paulo
Impetrantes: Dra. Meire Nogueira Ferreira e
Deivid Lincoln Mendes Alves Nogueira (Estag.)
Paciente: VHCM

Voto nº 5644
Relator

— Prisão Civil — Dívida de alimentos —


Diferenças pretéritas — Impossibilidade —
Ordem de “habeas corpus” concedida.
— Constitui modalidade de constrangimento
ilegal, reparável pelo remédio do
“habeas corpus”, a prisão civil como
meio coercitivo de cobrança de verba
alimentícia pretérita visto que já não
tem caráter alimentar nem é urgente
à conservação da vida do alimentando
(Lei nº 5.478/68).
47

1. A ilustre advogada Dra. Meire Nogueira Ferreira


e o estagiário Deivid Lincoln Mendes Alves Nogueira
impetram ordem de “Habeas Corpus” a favor de VHCM,
sob a alegação de que padece constrangimento ilegal da
parte do MM. Juízo de Direito da 6a. Vara Cível da
Comarca de São Bernardo do Campo.

Afirmam que, por dívida de alimentos, foi decretada


a prisão civil do paciente.

Mas —— acentuam os impetrantes ——, manifesta é a


coação ilegal que padece, por falta de justa causa para
sua custódia cautelar. A razão é que a execução
respeitava a diferenças de valores das prestações
alimentícias, o que lhe não justificava o decreto de
prisão.

Pleiteiam, destarte, à colenda Câmara tenha a


bem conceder ao paciente a ordem impetrada, com
expedição de contramandado de prisão (fls. 2/7).

Instruíram o pedido com numerosas cópias de peças


processuais e instrumento de procuração “ad judicia”
(fls. 8/49).

A egrégia 3a. Vice-Presidência do Tribunal, pelo r.


despacho de fl. 53, do eminente Des. Ruy Camilo,
deferiu ao paciente medida liminar para “sustar o decreto
48

de prisão” até o julgamento definitivo do “habeas corpus”


pela Câmara.

A mui digna autoridade judiciária indicada como


coatora prestou as informações de praxe, nas quais
esclareceu que, citado para pagar as prestações
alimentícias reclamadas, o paciente deixara de fazê-lo,
injustificadamente, pelo que lhe decretou a prisão. No
caso que se cumprisse o respectivo mandado, ordenou
Sua Excelência que o paciente não fosse recolhido às
dependências do 1º, 2º e 3º Distritos Policiais locais,
porque interditados pelo Excelentíssimo Senhor Juiz
Corregedor da Comarca de São Bernardo do Campo
(fls. 65/66).

A douta Procuradoria-Geral de Justiça, em firme e


abalizado parecer do Dr. José Guerra Armede, opina
pela denegação do pedido (fls. 68/69).

É o relatório.

2. Foi citado o paciente para, no prazo de três dias,


efetuar o pagamento da prestação alimentícia em atraso,
devida aos filhos menores Anabel e Alexandre CM
(fls. 13/20).
49

Em sua defesa, impugnou o executado o rito


procedimental do art. 733 do Código de Processo Civil,
a seu aviso incompatível com a espécie, pois nunca
desatendera à obrigação de prestar os alimentos devidos:
no caso dos autos, eram diferenças de débito pretérito as
que os autores lhe estavam cobrando (fls. 21/27).

A r. sentença de fls. 28/33, entretanto, não acolheu


de boa sombra a defesa do executado e decretou-lhe a
prisão civil.

Malcontente com a imposição da violenta medida


restritiva de sua liberdade, pretende conjurá-la pela via
heroica do “habeas corpus”.

3. Em que pese aos notáveis dotes de espírito do


Magistrado de Primeiro Grau —— Dr. Celso Lourenço
Morgado ——, tenho que assiste razão aos impetrantes
quando afirmam estar o paciente sofrendo iminente
constrangimento ilegal.

De feito, suposto exarasse a r. decisão que a


circunstância de tratar-se de diferenças “pretéritas” não
contava em prol do paciente (fl. 31), o contrário têm
professado nosso Tribunais, como o persuadem os
brilhantes arestos do Colendo Superior Tribunal de
Justiça, abaixo reproduzidos por suas ementas:
50

a) “O rito do art. 733 do Cód. Proc. Civil deve ficar


reservado à cobrança das três últimas prestações
alimentícias vencidas antes da propositura da ação. E
isso porque a demora na cobrança de débito há muito
vencido evidencia que a urgência da prestação
alimentar já não se faz presente, além de ensejar a
constituição de um débito cujo valor dificilmente
poderá ser atendido pelo devedor no prazo curto que
a lei lhe reserva. Sendo a constrição sobre a liberdade
do devedor a mais grave das sanções, que o nosso
regime prisional converte em pena inominável, deve
ela, em princípio, ficar reservada àquela hipótese”
(Rev. Tribs., vol. 791, p. 200; rel. Min. Ruy
Rosado de Aguiar);

b) “A prisão civil por inadimplemento de obrigação


alimentar é constrição excepcional e tem por fim
encorajar o devedor a prestar os alimentos atuais e
não os pretéritos. Assim, o decreto de prisão deve
referir-se a débitos atuais, por isso que os débitos em
atraso já não têm caráter alimentar” (Rev. Tribs.,
vol. 717, p. 144).

Esta, de igual passo, é a doutrina de graves autores:

“A prisão civil, como meio coercitivo de pagamento de


pensão alimentícia, não se justifica na cobrança de
prestações passadas e de cujo recebimento o credor não
necessita para sobreviver; assim, é de se dar habeas corpus
51

a quem tem contra si mandado de prisão civil, acusado


de descumprimento de obrigação alimentar” (Yussef
Said Cahali, Dos Alimentos, 4a. ed., p. 1.023).

4. Pelo exposto, concedo a ordem de “habeas corpus”


para revogar o decreto de prisão civil do paciente,
expedindo-se-lhe contramandado.

São Paulo, 15 de setembro de 2004


Des. Carlos Biasotti
Relator
PODER JUDICIÁRIO

3
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO

QUARTA CÂMARA — SEÇÃO DE DIREITO PRIVADO

Apelação Cível nº 301.071-4/2-00


Comarca: Santo André
Apelante: EJS
Apelada: GAS

Voto nº 5650
Relator

— Alimentos — Prestação a filho menor


— Dever natural do pai, segundo suas
possibilidades.
— É dever natural do pai prover ao
sustento, guarda e boa educação dos
filhos (art. 1.566, nº IV, do Cód. Civil).
— Direito de visita — Regulamentação —
Competência originária do Juízo de
1a. Instância.
— Cabe ao Juízo de 1a. Instância decidir
originariamente sobre pedido de
alteração do regime de visita aos
filhos; da questão o Tribunal só
poderá conhecer em grau de recurso.
53

1. Da r. sentença que proferiu o MM. Juízo de Direito


da 6a. Vara Cível da Comarca de Santo André, nos
autos da Ação de Alimentos que lhe promove GAS,
interpôs EJS recurso de Apelação para este Egrégio
Tribunal, com o intuito de reformá-la.

Afirma, nas razões de fls. 89/93, subscritas por


esforçado e culto patrono, que o douto Magistrado de
Primeiro Grau não se houvera com acerto ao condená-
-lo a pagar à apelada, à guisa de alimentos, 25% de seus
vencimentos líquidos mensais.

Alega que Sua Excelência não tomara em conta,


por fixar o valor da verba alimentícia, o binômio
necessidade-possibilidade, que lhe servia de padrão legal
e justo.

Acrescenta que, ao revés do que inculcou a autora,


mostrava-se-lhe precária a situação financeira: de
seus rendimentos eram descontados 20%, relativos
a pensão alimentícia, e R$ 792,43 de alimentos
provisórios.

Ajunta mais que, “sponte sua”, contribuía com


dinheiro para as despesas da menor, o que tudo perfazia
R$ 2.269,07.
54

Pelo que, lançadas boas contas, do valor que recebia


– R$ 2.415,97 – somente lhe restava “a miserável
quantia de R$ 146,90”, com que necessitava prover à
própria subsistência e ao sustento da nova família.

Pleiteia, por isso, a redução do valor dos alimentos a


um salário mínimo e meio (ou R$ 300,00).

Requer, à derradeira, a modificação de cláusulas do


regime de visitas à filha.

Aguarda, em suma, o provimento da apelação para


que lhe seja reduzido o valor dos alimentos e alteradas
as condições de visita à autora.

A apelada respondeu ao recurso, repelindo-lhe


os argumentos; propugnou do mesmo passo a
confirmação da r. sentença apelada (fls. 97/99).

A ilustrada Procuradoria-Geral de Justiça, em firme


e incisivo parecer do Dr. Gilberto Ramos de Oliveira,
opina pelo improvimento do recurso (fls. 106/107).

É o relatório.
55

2. A autora da presente ação é filha do requerido,


que a vinha assistindo espontaneamente: prestava-lhe
alimentos, pagava as mensalidades escolares e as
despesas com o transporte.

Mas, de tempos a esta parte, deixara de atender com


pontualidade a essas relevantes obrigações.

Daí por que, impelida da necessidade, a autora pôs


a presente ação contra o requerido, para haver-lhe, à
maneira de verba alimentar, 1/3 de seus rendimentos
líquidos.

A r. sentença de fls. 78/81 julgou-lhe procedente em


parte o pedido: determinou que o requerido lhe pagasse
o equivalente a 25% de seus vencimentos líquidos.
Ainda: que tais descontos se fizessem diretamente em
folha de pagamento e fossem depositados em conta
bancária em nome da mãe da alimentada, no Banco Itaú
S.A.

O requerido, entretanto, não se agradou da


sentença e, por isso, veio a esta augusta Corte de Justiça,
com o fito de modificá-la: o valor da pensão alimentícia
queria fosse reduzido a um salário mínimo e meio (ou
R$ 300,00), e o regime de visitas à filha alterado
segundo as condições que discriminou (fls. 91/92).
56

3. Quer-se confirmada a r. sentença de Primeiro Grau,


visto como proferida de acordo com a prova dos autos e
à luz do melhor Direito.

Com efeito, a certidão de fl. 9 comprova o nexo de


parentesco entre as partes. Pai da autora, estava mesmo
o requerido na obrigação de prestar-lhe alimentos, que
estes são um dever natural, de que homem algum se
exime; notadamente o pai, que, em situação de perigo,
não hesita em sacrificar a própria vida, contanto que o
filho tenha a sua.

Já o “Corpus Juris Civilis” prescrevia a obrigação de o


pai dar ao filho alimentos para o corpo e o mais de que
houvesse mister (Dig. XXV, 3).

No caso, o apelante —— que “sponte sua” já atendia


a esse preceito —— deixou de cumpri-lo, por alegada
insuficiência de meios.

Mas, a planilha orçamentária que esboçou nas


razões de apelo (fl. 90) não se mostra poderosa a ilidir
os sólidos fundamentos da r. sentença recorrida.

Em verdade, e aqui bate o ponto, além de bancário,


é o apelante sócio de pessoa jurídica, de cujos lucros
participa, nos termos do contrato social de fls. 74/76.
57

Destarte, a fixação de alimentos em 25% de seus


vencimentos líquidos não excede à craveira da
razoabilidade.

Improcede, pois, a crítica do apelo, por onde


a r. sentença não metera em conta o binômio
necessidade-possibilidade; ao contrário, guardou-lhe
inteira conformidade.

Nisto de alimentos do pai ao filho são propositadas


estas palavras de Yussef Said Cahali:

“Esta obrigação não se altera diante da precariedade da


condição econômica do genitor: o pai, ainda que pobre,
não se isenta, por esse motivo, da obrigação de prestar
alimentos ao filho menor; do pouco que ganhar, alguma
coisa deverá dar ao filho” (Dos Alimentos, 4a. ed.,
p. 526).

A questão, de caráter incidental, que o apelante


versou —— alteração do regime de visitas à filha —— não
pode ser aqui apreciada, senão em procedimento
próprio de regulamentação do direito de visitas,
consultada a mãe da menor. Cumpre não esquecer que,
em tais casos, a vontade dos pais não será a que deva
prevalecer, mas o interesse e o bem-estar da criança.
58

4. Pelo exposto, nego provimento à apelação.

São Paulo, 22 de setembro de 2004


Des. Carlos Biasotti
Relator
PODER JUDICIÁRIO

4
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO

QUARTA CÂMARA — SEÇÃO DE DIREITO PRIVADO

Apelação Cível nº 324.685-4/2-00


Comarca: Jacareí
Apelante: BIC
Apelado: EC

Voto nº 5706
Relator

— Alimentos — Execução — Inclusão no


pedido de pensões vincendas no curso da
lide — Possibilidade — Exegese do art. 290
do Cód. Proc. Civil.
— Em obséquio ao princípio de economia
processual, na execução de pensão
alimentícia vencida podem incluir-se
também as vincendas, uma vez
caracterizada a inadimplência, “ad instar”
do que sucede com as prestações
periódicas (art. 290 do Cód. Proc. Civil).
— Magistrado — Aplicação, nos atos de seu
ofício, do princípio de economia
processual — Necessidade.
60

— Nos atos de seu ofício, deve o Juiz


atender, sem falta, ao princípio de
economia processual, que orienta a fazer
justiça rápida, com o menor gravame e
sacrifício das partes.

1. Da r. decisão que proferiu o MM. Juízo de Direito


da 1a. Vara Cível da Comarca de Jacareí, julgando
extinta a Execução de Prestação Alimentícia que encetou
contra EC, interpôs recurso de Apelação para este
Egrégio Tribunal, com o escopo de reformá-la, BIC.

Afirma, nas razões de recurso, elaboradas por seus


esforçados e competentes patronos, haver requerido a
citação do executado para pagar o valor dos alimentos —
— R$ 1.160,80 —— referentes aos meses de março, abril e
maio de 2002.

Acrescenta que, citado aos 18 de junho de 2002 para


quitar seu débito, ou justificar a impossibilidade de
fazê-lo, apresentou o executado justificativa, que o MM.
Juízo todavia não acolheu. Ainda: decretou-lhe a prisão
civil por 30 dias (fl. 34).

Ao cabo, acentua, o executado satisfez a dívida, e a


r. decisão de fl. 38 extinguiu-lhe a obrigação.
61

No entanto, argumenta, não era caso de extinção da


execução porque o apelado não pagara integralmente
a verba alimentícia, pois não procedera à correção
monetária da dívida nem calculara os juros da mora.

Pleiteia, destarte, à colenda Câmara tenha a bem


ordenar pague o agravado o valor correto, sob pena de
prisão (fls. 72/77).

Transcorreu “in albis” o prazo para que o executado


apresentasse contrarrazões de apelação (fls. 83 v.).

A douta Promotoria de Justiça, manifestando-se nos


autos, secundou a pretensão da apelante (fls. 85/87).

A ilustrada Procuradoria-Geral de Justiça, em


esmerado e circunspecto parecer do Dr. Antonio Celso
Pares Vita, opina pelo “provimento do recurso interposto,
reformando-se na íntegra a sentença hostilizada” (fls.
91/93).

É o relatório.

2. Foi contra a decisão que julgou extinta a execução,


com fundamento no art. 794, nº I, do Código de Processo
Civil (fl. 38), que a autora, tempestivamente, manejou
recurso (fl. 72).
62

Em que pese ao entendimento que, acerca do


ponto, professa a nobre Magistrada, tenho que assiste
razão à apelante, pois seus argumentos se mostram, sem
dúvida, de grande relevo jurídico.

Com efeito, embora a apelante, em seu recurso,


reclamasse apenas o pagamento da importância
referente a “juros e correção monetária” (fl. 77), contudo,
no libelo, pleiteara também o das “pensões vincendas”,
por tratar-se de “prestações periódicas” (fl. 3).

Deveras, pretendia a continuidade da execução para


haver as prestações que se venceram enquanto pendia a
lide; e isto mesmo lhe concedia o direito expresso. Reza,
em verdade, o art. 290 do Código de Processo Civil que,
“quando a obrigação consistir em prestações periódicas,
considerar-se-ão elas incluídas no pedido, independentemente
de declaração expressa do autor”.

Preceitua ainda o referido dispositivo legal: “se o


devedor, no curso do processo, deixar de pagá-los ou de
consigná-las, a sentença as incluirá na condenação, enquanto
durar a obrigação”.

Que na execução de prestação alimentícia vencida


podem incluir-se também as vincendas confirma-o o
ven. acórdão deste Egrégio Tribunal de Justiça, abaixo
reproduzido por sua ementa:
63

“Agravo contra decisão que em execução de prestação


alimentícia considerou impossível a inclusão das pensões
vincendas —— Possibilidade, por se tratar de obrigação de
cunho periódico —— Entendimento do art. 290 do Cód.
Proc. Civil —— Recurso provido” (AI nº 141.982-4/0-
Santa Cruz do Rio Pardo; 7a. Câm. Dir. Priv.; rel.
Salles de Toledo; j. 17.5.2000).

Esta, igualmente, é a lição de Pontes de Miranda,


expressamente comemorada pelo parecer da douta
Procuradoria-Geral de Justiça:

“A prisão é relativa à dívida vencida e não paga, e de


dívidas que, depois, se venceram e não foram pagas.
Para ser levantada, tem o réu de pagar todas as
prestações vencidas até o momento em que é solto, e não
só aquela que estava vencida e não paga no momento
em que foi requerida sua prisão” (Comentários ao
Código de Processo Civil, 1979, t. X, p. 484).

Ao demais, parecera mesmo desarrazoado isto de


a apelante haver mister encetar novos processos para
executar as prestações que se venceram no curso da
lide. Obrar segundo esse ditame fora, “data venia”,
menoscabar os conselhos da boa razão e conculcar o
princípio de economia processual, segundo o qual, “as
decisões processuais devem ser tomadas no menor tempo
possível, com o menor número de atos e o menor dispêndio
64

para as partes. A menor atividade processual para fazer


justiça rápida e barata” (Leib Soibelman, Enciclopédia do
Advogado, 3a. ed., p. 287).

Em suma: quer-se provida a apelação para que,


reformada a r. sentença de Primeira Instância, prossiga
a execução quanto às verbas alimentícias vencidas e
vincendas, comprovada a inadimplência.

3. Pelo exposto, dou provimento ao recurso para que,


reformada a sentença de Primeiro Grau, prossiga a
execução contra o alimentante.

São Paulo, 8 de novembro de 2004


Des. Carlos Biasotti
Relator
PODER JUDICIÁRIO

5
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO

QUARTA CÂMARA — SEÇÃO DE DIREITO PRIVADO

“Habeas Corpus” nº 362.704-4/9-00


Comarca: São Paulo
Impetrante: AMB
Paciente: VME

Voto nº 5715
Relator

— Contra o parecer de notáveis juristas,


que sustentam não ser o “habeas
corpus” meio apropriado a impugnar
decisão de que caiba recurso
ordinário, mostra-se de bom exemplo
conhecer da impetração, porque, em
tese, passa pelo remédio jurídico-
processual mais célere e eficaz para
conjurar abusos e ilegalidades contra
o direito à liberdade de locomoção do
indivíduo (art. 5º, nº LXVIII, da Const.
Fed.).
66

— Execução de Alimentos — Devedor


inadimplente, que não justifica a
impossibilidade de pagar — Prisão
civil — Admissibilidade — Art. 733,
§ 1º, do Cód. Proc. Civil.

— Tem fomento de bom direito e, por


isso, merece prevalecer a decisão que
decreta a prisão civil do executado
que, injustificadamente, não ocorre às
necessidades alimentares de filhos
menores (art. 733, § 1º, do Cód. Proc.
Civil).

1. Em petição subscrita por AMB, requer VME a este


Egrégio Tribunal ordem de “Habeas Corpus” que lhe
ponha termo ao constrangimento ilegal que afirma está
a padecer por parte do MM. Juízo de Direito da 1a.
Vara da Família e Sucessões do Foro Regional de
Santana.

Alega que, em autos de Ação de Alimentos, ficou


assentado pagaria pensão à mulher e a dois filhos.

Acrescenta que, enquanto lhe permitiram as


condições econômicas, satisfez regularmente à obrigação
alimentar. Mas, ajunta a impetrante, sobrevieram ao
paciente dificuldades de ordem profissional que o
impediram, muito a seu pesar, de ocorrer ao pagamento
da verba alimentícia, desde janeiro de 2003.
67

Acentua ainda que o filho MTME já alcançara a


maioridade e, por isso, não fazia jus a alimentos;
também a ex-mulher (SME) não necessitava deles, uma
vez que, desempenhando atividade remunerada, contava
com rendimentos próprios. Dos alimentandos, apenas a
filha menor MDME tinha direito a pensão.

Argumenta a impetrante que os alimentos


reclamados ao paciente perderam seu traço conspícuo
de meio necessário à sobrevivência dos alimentandos;
pelo que, não lhe podiam ser exigidos com o sacrifício
da liberdade (fls. 2/4).

Despacho do Excelentíssimo Senhor 3º Vice-


-Presidente do Tribunal, Desembargador Ruy Camilo,
determinou o processamento do pedido, sem liminar
(fl. 8).

A mui digna autoridade judiciária indicada como


coatora prestou as informações do estilo, nas quais
esclareceu que, citado o paciente, nos termos do art. 733
do Código de Processo Civil, para pagar seu débito, ou
justificar a impossibilidade de fazê-lo, apresentou
escusas. O douto Magistrado, no entanto, afastou-as.
Ainda: decretou-lhe a prisão civil (fls. 13/14) pelo prazo
de 30 dias.
68

Acompanha-se o ofício de informações de


numerosas peças processuais de interesse da causa
(fls. 15/48).

A ilustrada Procuradoria-Geral de Justiça, em


parecer a mais de um respeito notável, elaborado
pelo Dr. Marcelo Orlando Mendes, opina pelo
não-conhecimento do pedido; se conhecido, pela
denegação da ordem (fls. 50/54).

É o relatório.

2. Contra o parecer de notáveis juristas, que sustentam


não ser o “habeas corpus” meio apropriado a impugnar
decisão de que caiba recurso ordinário, conheço da
impetração, porque, em tese, passa pelo remédio
jurídico-processual mais célere e eficaz para conjurar
abusos e ilegalidades praticados contra o direito à
liberdade de locomoção do indivíduo (art. 5º, nº LXVIII,
da Const. Fed.).

Doutrina é esta que nossos Tribunais de Justiça têm


praticado em quantiosos acórdãos:

a) “Dada a natureza jurídica do habeas corpus, nada


impede sua impetração concomitantemente com
qualquer outro recurso, ainda que os argumentos
69

sejam os mesmos” (STJ; RHC nº 3.192; 5a. T., rel.


Min. Edson Vidigal; DJU 29.9.97, p. 48.225;
v.u.);

b) “O habeas corpus é ação constitucional. Prefere,


consequentemente, aos institutos da legislação
ordinária. Dessa forma, por gozar ainda de
preferência de julgamento, nenhuma medida de
prudência (no sentido de contornar a solução legal),
pode ser obstáculo à sua apreciação. Inviável a
paralisação para aguardar o julgamento de recurso”
(STJ; RHC nº 2.592-3; rel. Luiz Vicente
Cernicchiaro; DJU 3.5.93, p. 7.812; apud
Alberto Silva Franco et alii, Código de Processo
Penal e sua Interpretação Jurisprudencial, 1999, vol.
I, p. 623).

3. Conquanto digno de encômios o empenho da


nobre impetrante, não acho que censurar na r. decisão
impugnada, porquanto nenhuma ilegalidade encerra.

Deveras, não comprovou o paciente houvesse


efetuado o pagamento integral do montante sob
execução e tampouco justificado a impossibilidade de
fazê-lo.
70

Tratando-se de dívida líquida, certa e exigível, era


de preceito a imposição da drástica medida, como
providência “ultima ratio” para obrigar o alimentante ao
cumprimento de sua obrigação.

Não é o dos autos caso de dívida pretérita, senão de


cobrança de diferença de acordo celebrado “coram
judice”, e homologado conforme a lei (fls. 340/341).

Isto de haver um dos filhos atingido a maioridade


não é razão para que o paciente se esquive ao
pagamento do débito reclamado: à uma, porque a
dívida em execução é relacionada com diferença de
acordo, homologado pelo Juízo; à outra, porque em
procedimento próprio é que deverá o paciente requerer
a exoneração ou revisão de alimentos.

Ao demais, observou-o com boa penetração o douto


parecer, “o paciente não pagou uma prestação sequer,
tampouco contribuiu de qualquer forma para o sustento
da família, o que é suficiente para afastar a assertiva de
constrangimento ilegal suscitada na impetração” (fl. 53).

Esta é também a lição de graves autores:


71

“Assim, não implicando a cessação voluntária do


pagamento da pensão por parte do devedor causa de
cessação ou exoneração do débito alimentar, e não
podendo o devedor beneficiar-se de sua própria relapsia,
desde que não tenha promovido opportuno tempore
ação exoneratória do encargo alimentar, é legítima
sua prisão administrativa se não justificada a
impossibilidade de efetuar o pagamento do débito (CPC,
art. 733, in fine); aliás, a se entender de outro modo,
estar-se-ia criando um instrumento de estímulo a
benefício do inadimplente que, logrando prolongar-se no
descumprimento de sua obrigação, lograria transformá-
-la em prestações pretéritas e vultosas, pondo-se a
salvo da execução fundada no art. 733” (Yussef Said
Cahali, Dos Alimentos, 4a. ed., p. 1.025).

De igual teor é a jurisprudência do Colendo


Superior Tribunal de Justiça, como se extrai do ven.
acórdão abaixo trasladado por sua ementa:

“Não basta o pagamento mensal de parcela da pensão


alimentícia para que seja afastada a aplicação do
disposto no art. 733, § 1º, do Cód. Proc. Civil. Faz-se
necessária a quitação integral das três últimas parcelas
anteriores ao ajuizamento da execução, acrescidas
das vincendas, providência não adotada na espécie”
(Rev. Tribs., vol. 822, p. 186; rel. Min. Fernando
Gonçalves).
72

Em suma: não comprovou o paciente, como lhe


tocava, estivesse deveras a sofrer constrangimento ilegal,
conjurável por “habeas corpus”; destarte, não tem jus ao
remédio que pleiteia.

4. Pelo exposto, conheço do pedido e denego a ordem


de “habeas corpus”.

São Paulo, 10 de novembro de 2004


Des. Carlos Biasotti
Relator
PODER JUDICIÁRIO

6
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO

QUARTA CÂMARA — SEÇÃO DE DIREITO PRIVADO

Agravo de Instrumento nº 361.228-4/9-00


Comarca: São Paulo
Agravante: HL
Agravada: SS e Outro

Voto nº 5705
Relator

— Alimentos — Falta de regular


prestação — Alegação de declínio dos
bens da fortuna do executado —
Inexistência contudo de prova segura
e convincente a tal respeito — Decreto
de prisão: medida, embora extrema e
odiosa, legal e necessária.
74

— A mera alegação de declínio dos


bens da fortuna do executado
não lhe serve de justificação
para o descumprimento do encargo
alimentar nem o guarda dos efeitos
do decreto de prisão, medida
extrema, verdadeira “ultima ratio”,
destinada a compelir o alimentante
inadimplente à satisfação de seu
débito (art. 733, § 1º, do Cód. Proc.
Civil).

1. Da r. decisão que proferiu o MM. Juízo de Direito


da 6a. Vara da Família e das Sucessões da Comarca da
Capital, nos autos de Execução de Alimentos que lhe
promovem SS e VSL, interpôs HL recurso de Agravo de
Instrumento para este Egrégio Tribunal, com o escopo
de reformá-la.

Alegou, em extensa minuta de agravo, subscrita por


sua dedicada patrona, que o douto Magistrado de
Primeiro Grau, como não pagasse, num tríduo, dívida
de alimentos à mulher e ao filho, decretara-lhe a prisão
por 30 dias.

Acrescentou que a r. decisão, no entanto, não se


eximia da nota de ilegal e injusta: à uma, porque
proferida em processo nulo, por cerceamento do direito
de defesa; à outra, porque vinha pagando alimentos
aos agravados, segundo lho consentiam as dificuldades
75

conjunturais sócio-econômicas; à derradeira, dado que


se achava no limiar da insolvência, requerera ação
revisional de alimentos.

Argumentou ainda que se tratava de cobrança de


alimentos pretéritos, sem caráter de garantia de
sobrevivência, sendo no caso inadmissível a decretação
da prisão civil.

Pleiteou, destarte, à colenda Câmara tivesse a bem


revogar-lhe o decreto de prisão, atribuindo-se ao agravo
efeito suspensivo (fls. 2/23).

Recebido o recurso no efeito suspensivo —— pois que


presentes os requisitos do art. 558 do Cód. Proc. Civil ——,
foi concedida liminar ao agravante para sustar-lhe os
efeitos da decisão recorrida até o julgamento definitivo
do agravo de instrumento pela Câmara, com expedição
de contramandado de prisão.

Houve regular processamento do recurso, cujo


improvimento requereram os agravados, em minuciosa
contraminuta, na qual puseram timbre em refutar os
argumentos do agravante (fls. 360/367).

A douta Procuradoria-Geral de Justiça, em firme e


decisivo parecer do Dr. Douglas Tadeu De Cicco,
opina pelo improvimento do agravo (376/378).
76

Prestou as informações de estilo a mui digna


autoridade judiciária de Primeira Instância e sustentou
que, a seu aviso, merecia prevalecer, pelos próprios
fundamentos, a r. decisão agravada, “uma vez que
incontroversa a inexistência de pagamento dos alimentos”,
o que acarretava o decreto de prisão (fls. 373/374).

É o relatório.

2. Foi citado o agravante para, no prazo de 3 dias,


pagar a quantia de R$ 25.678,55 aos agravados, ou
justificar a impossibilidade de fazê-lo, sob pena de
prisão (fls. 45/46).

Alegou, na peça de fls. 47/55, as razões por que não


podia ocorrer ao encargo alimentar. Acompanhou-as de
copiosos documentos (fls. 56/331).

O MM. Juízo, no entanto, não tomou em conta


os motivos alegados pelo agravante e decretou-lhe a
custódia civil pelo prazo de 30 dias. O executado não se
curvou, porém, ao decreto judicial e, tempestivamente,
veio discuti-lo perante esta augusta Corte de Justiça
(fls. 2 e 7).
77

3. A defesa do agravante, por subtrair-se ao rigor da


lei, alegou que houvera mudança em sua situação
financeira, constituíra nova família e referiam-se a
prestações alimentícias pretéritas aquelas que faziam
objeto da execução (fls. 9/15).

As sobreditas razões, quando evidenciadas pela


prova, são capazes para obstar a edição do decreto de
prisão civil do devedor de alimentos.

Cumpre verificar, todavia, se os argumentos em que


se esforça o agravante assentam, de feito, em prova
idônea.

Exame refletido e curioso dos autos não sufraga,


porém, essa inteligência.

Em verdade, o argumento da alteração de sua


fortuna —— o que lhe impediria prestar alimentos aos
agravados —— não teve por si apoio do conjunto
probatório.

Ao revés do que inculca o recorrente, não houve


depauperamento de suas condições econômicas, senão
que subiram de ponto. “A variação patrimonial do
agravante” —— observam-no com agudeza os ilustres
patronos dos agravados (fl. 364) —— “foi da ordem de
R$ 1.720.411,13”, a pôr-se fé inteira no documento de
fl. 81 (Declaração de Rendimentos, exercício de 2001).
78

Ao demais, a campanha política do agravante para a


vereança de Guarulhos (fls. 369/371), contrasta com sua
afirmação de “iminente insolvência” (fl. 8).

Ainda: é matéria para estranheza —— ponderou o


douto parecer da Procuradoria-Geral de Justiça —— que,
pactuada a prestação de alimentos em acordo de
separação, em 29.5.2001, tivesse a situação financeira
do agravante sofrido “redução tão drástica” (fl. 377),
que lhe impossibilitasse o cumprimento da obrigação
alimentar, no índice livremente estipulado.

Outro tanto, não serve a justificar a inadimplência


da obrigação alimentar a alegação de que o devedor
constituíra nova família. Embora noutros casos o
argumento possa ter força e até merecer acolhimento,
é aqui notável sua fragilidade.

Cai a lanço transcrever, por sua ementa, importante


acórdão:

“Não basta que o alimentante sofra alteração na sua


fortuna para justificar a redução da prestação
alimentícia; é necessário que a alteração seja de tal
ordem que torne impossível o cumprimento da
obrigação; do contrário, tal alteração será irrelevante”
(TJDF; Ap. Cível nº 27.125; DJU II 4.11.92, p.
35.519; apud Yussef Said Cahali, Alimentos, 4a. ed.,
p. 939).
79

À derradeira, não é o dos autos caso de cobrança


de dívida pretérita, mas recente, como ressaltaram os
agravados (fl. 362).

Por fim, carece de razão o agravante quando argui


preliminar de nulidade do processo por cerceamento de
defesa (fls. 6/7). A alegação de que não pudera falar
sobre os documentos que a parte contrária juntara aos
autos (fls. 65/82) —— com o que se infringira o preceito
do contraditório: “audiatur et altera pars” —— encerra
equívoco. A razão é que —— e isto argumentaram os
agravados —— tais documentos o próprio agravante foi
quem os trouxe para os autos (fl. 365).

Inexistiu, pois, o alegado vício processual.

4. Suposto engenhosas e trabalhadas, as razões do


agravante nada puderam contra a r. decisão de Primeiro
Grau, porque proferida com lastro na prova, segundo o
bom direito.

De que a mera alegação de declínio dos bens


da fortuna não basta a justificar o descumprimento
da obrigação de pagar alimentos aos filhos está a
demonstrá-lo o julgado a seguir transcrito por sua
ementa:
80

“A mora do devedor de obrigação alimentar induz à


decretação de sua prisão civil, se não há outros meios
de compeli-lo ao cumprimento desse dever e se a
justificativa de impossibilidade de pagá-la por ele
apresentada não é razoavelmente plausível” (Rev.
Tribs., vol. 763, p. 360; rel. Carlos Henriques).

Donde se mostra, a todas as luzes, que a prisão civil


do devedor pode servir de argumento “ultima ratio”, ou
recurso extremo, para compelir o alimentante a saldar
seu débito alimentar, como o prevê o art. 733, § 1º,
do Código de Processo Civil.

5. Pelo exposto, rejeito a preliminar de nulidade do


processo e nego provimento ao agravo, cassada a
medida liminar. Comunique-se esta decisão ao MM.
Juiz da causa.

São Paulo, 6 de novembro de 2004


Des. Carlos Biasotti
Relator
PODER JUDICIÁRIO

7
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO

QUARTA CÂMARA — SEÇÃO DE DIREITO PRIVADO

Apelação Cível nº 296.959-4/6-00


Comarca: São José dos Campos
Apelantes: GT, GPT e LT
Apelados: Os mesmos

Voto nº 5620
Relator

— Alimentos — Ação Revisional —


Mudança na fortuna do devedor —
Redução — Possibilidade — Art. 1699
do Cód.Civil.
— Comprovando-se que mudança na
fortuna do alimentante lhe não
permite prestar alimentos na
totalidade de seu valor, fica ao
prudente arbítrio do Juiz reduzi-lo,
pois ninguém pode ser obrigado ao
impossível: “Nemo tenetur ad
impossibilia” (art. 1.699 do Cód. Civil).
— Os fatos públicos e notórios não
precisam demonstrados, porque a
evidência é a própria prova.
82

1. Da r. sentença que proferiu o MM. Juízo de Direito


da 7a. Vara Cível da Comarca de São José dos Campos,
julgando-lhe procedente em parte o pedido de Revisão
de Alimentos que promoveu contra GPT e LT, interpôs
recurso de Apelação para este Egrégio Tribunal, com o
escopo de reformá-la, GT.

Afirma, nas razões de recurso de fls. 111/113, que a


r. decisão “a quo” não tributara homenagem plena ao
Direito, pois a redução dos alimentos a “um salário
mínimo mensal” era a que, verdadeiramente, atendia às
circunstâncias do caso.

Também os réus apresentaram recurso, no qual,


inconformados com a solução dada ao litígio, pleiteiam
o restabelecimento do “valor da pensão alimentícia mensal
anteriormente fixada, ou seja, 7,36 salários mínimos” (fls.
96/98).

As partes responderam aos recursos (fls. 122/123 e


126/129).

A douta Procuradoria-Geral de Justiça, em


minucioso e abalizado parecer do Dr. Clilton
Guimarães dos Santos, opina pelo provimento da
apelação dos réus, improvida a do autor (fls. 135/145).

É o relatório.
83

2. GT ajuizou Ação Revisional de Alimentos contra


GPE e LT para obter-lhes a redução a índice
compatível com sua condição econômica, à vista de
modificação da fortuna.

Alegou que, em acordo celebrado nos autos da


Ação de Separação Judicial, comprometera-se a pagar
aos réus o total de 7,36 salários mínimos por mês;
no entanto, de presente, por amor de dificuldades
conjunturais sócio-econômicas, já não podia desempenhar-
-se a contento do encargo alimentar (fls. 2/5).

A r. sentença de fls. 90/93, firme na prova dos autos


e no parecer do Ministério Público (fls. 79/81), deu pela
procedência parcial do pedido, para reduzir a pensão
alimentícia mensal a 5 salários mínimos (2,5 para cada
réu).

As partes, contudo, irresignadas, comparecem a


esta augusta Corte de Justiça, clamando por sua
modificação.

3. Em que pese aos argumentos expendidos pelos


apelantes e pelo insigne Procurador de Justiça, tenho
que a r. sentença recorrida se mostra superior a toda
crítica.
84

Na real verdade, como o autor invocasse razão


forçosa – crise no mercado de revenda de automóveis,
ao qual se dedicava –, o MM. Juízo teve a bem reduzir-
-lhe o valor da verba mensal alimentícia paga aos filhos:
de 7,36 a 5 salários mínimos.

Ao revés do que sentiram os réus e o douto parecer


da Procuradoria-Geral de Justiça, o autor desincumbiu-
-se “quantum satis” do ônus de provar suas alegações:
ouvido em Juízo, discorreu das dificuldades atuais do
comércio de carros usados (fl. 76); em suas declarações
abundou a testemunha de fl.77. Demais disso, como
asseverou a circunspecta Promotora de Justiça que
oficiou na causa, “o mercado de revenda de automóveis”,
segundo a voz pública, está em dificuldades (fl. 80).

Ora, os fatos públicos e notórios não precisam


demonstrados, porque a evidência é a própria prova.

Ainda: dispõe o art. 1.699 do Código Civil que,


“se fixados os alimentos, sobrevier mudança na situação
financeira de quem os supre”, poderá o interessado
reclamar ao juiz redução do encargo.

Portanto, em havendo modificação da situação


financeira do alimentante, a redução do valor dos
alimentos passa por medida não só legítima, senão
sensata, pois ninguém pode ser obrigado ao impossível
(“Nemo tenetur ad impossibilia”). Consta, aliás, que o
85

autor, em face da estreiteza de seus meios de


subsistência, foi compelido a mudar-se para a casa dos
pais (fls. 76/77).

Não há modificar, portanto, a r. sentença de


Primeiro Grau, que resolveu com acerto e bom aviso
a controvérsia dos autos.

4. Pelo exposto, nego provimento aos recursos.

São Paulo, 8 de agosto de 2004


Des. Carlos Biasotti
Relator
PODER JUDICIÁRIO

8
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO

QUARTA CÂMARA — SEÇÃO DE DIREITO PRIVADO

Apelação Cível nº 304.378-4/5-00


Comarca: Indaiatuba
Apelante: MD
Apelado: ADN

Voto nº 5641
Relator

— Pedido Revisional de Alimentos —


Indícios da abastada condição
financeira do alimentante — Presumida
necessidade do alimentando, menor
impúbere — Caso de majoração —
Recurso provido em parte.
— Indícios da abastada condição
financeira do alimentante justificam a
majoração da verba alimentícia, fixada
de forma irrisória a filho menor
impúbere (art. 15 da Lei nº 5.478/68).
87

— Isto de apoiar-se o julgador em


indícios, mais que em prova plena e
arrebatadora, não é razão suficiente
para viciar-lhe a formação do livre
convencimento. É que, perante a
sistemática do processo civil pátrio,
têm os indícios, quando múltiplos e
convergentes, inquestionável importância
e prestígio.

1. Da r. sentença que proferiu o MM. Juízo de Direito


da 2a. Vara da Comarca de Indaiatuba, julgando-lhe
improcedente pedido Revisional de Alimentos formulado
contra ADN, apelou para este Egrégio Tribunal,
levando em vista reformá-la, MD, representado por sua
mãe LMR.

Afirma, nas razões de recurso, elaboradas por


esforçado patrono, que a r. decisão de Primeiro Grau
não merecia prevalecer, uma vez afrontara normas de
direito e o sentimento de justiça.

Acrescenta que os elementos reunidos no processado


permitiam avaliar as condições financeiras do réu, que
eram cômodas, e a insuficiência dos alimentos que
pagava ao filho.

Pleiteia, destarte, à colenda Câmara tenha a bem


fixar-lhe os alimentos em dois salários mínimos mensais
(fls. 105/109).
88

O réu apresentou contrarrazões de apelação, nas


quais repeliu os argumentos do autor e propugnou a
confirmação da r. sentença recorrida (fls. 111/113).

O Ministério Público, em ambas as Instâncias,


opinou pelo provimento parcial da apelação (fls.
115/116 e 120/125).

É o relatório.

2. A r. sentença houve por improcedente o pedido de


alimentos, forte no argumento de que o autor não se
desempenhara do ônus da prova que lhe tocava:
não demonstrara ter ocorrido mudança da situação
financeira do alimentante.

Rematou que “a possibilidade de pagamento também é


critério de fixação de valor” (fl. 102).

Mas, sem embargo dos bons fundamentos da


decisão apelada e dos dotes de espírito de seu prolator
– o distinto e culto Magistrado Dr. Wagner Roby
Gídaro –, estou que o inconformismo do apelante
deve ser acolhido de boa sombra, ainda que em parte.
89

Em verdade, embora não se produzissem provas


copiosas e arrebatadoras da solidez da economia e dos
cabedais financeiros do réu, os múltiplos indícios
reunidos no processado autorizam a inferência de
que seus rendimentos líquidos excedem a mesquinha
craveira pela qual os avaliou.

É dos autos, com efeito, possuía o réu uma pequena


propriedade (“chacrinha”), que vendera, e uma camioneta,
que lhe roubaram. Para mais, era sócio de supermercado,
de cuja razão social lhe constava o nome: “Duarte
Supermercado de Indaiatuba Ltda.” (fl. 7).

A dar-se o caso, porém, que houvesse deveras


vendido a propriedade imóvel, que fez com o produto
da venda?

A camioneta, essa lha teriam roubado, mas —— e com


razão indaga o ilustre Procurador de Justiça —— “não
haveria seguro?” (fl. 122).

Esclareceu também o apelado que trabalha na


fazenda de Antônio Ambiel e tem “comissão” na venda de
queijo.

Asseverou, à derradeira, que tem outros filhos, além


do apelante, que vivem em sua companhia (fl. 87).
90

Os elementos de convicção dos autos revelam que


o apelado, mesmo que não seja de condição abastada,
pode ocorrer à pensão do apelante.

A alegação de que sustenta outros filhos não é


poderosa a eximi-lo da obrigação de pagar alimentos
junto ao apelante, menor impúbere, cuja necessidade se
presume (fl. 10).

Esta é a jurisprudência de nossos Tribunais, como se


extrai da ementa abaixo:

“As obrigações assumidas pelo pai com nova sociedade


familiar não são motivo suficiente para determinar o
pagamento de quantia irrisória a filhos de leito anterior”
(RJTJRS, vol. 143, p. 221).

3. Isto de apoiar-se o julgador em indícios, mais que


em prova plena, não lhe perverte nem entibia a
formação do livre convencimento.

Com efeito, perante a sistemática do processo civil,


têm os indícios, quando múltiplos e convergentes, a
força e o prestígio que bastem a forrar uma decisão
legal e justa.
91

A lição de José Frederico Marques vem a ponto:

“Na legislação processual brasileira, segue-se, no tocante ao


elemento indiciário, a diretriz comum abraçada pelo
Código vigente, que é a do livre convencimento do juiz”
(Instituições de Direito Processual Civil, 4a. ed., vol.
III, p. 372).

Pelo mesmo teor, Carvalho Santos:

“Em última análise, o que o Código quer dizer é que o


valor dos indícios como regra, dependerá muito das
circunstâncias. Ficando ao arbítrio do juiz, apreciando
tais circunstâncias, dar maior ou menor valor aos
indícios, que estiverem devidamente provados nos autos”
(Código de Processo Civil Interpretado, 1940, vol. III,
p. 407).

Os elementos coligidos nos autos afiguram-se


capazes para firmar a conclusão de que o réu pode
atender ao encargo alimentar em relação ao apelante,
sem sacrifício da subsistência própria e dos outros
filhos, “em face da modificação da situação financeira dos
interessados” (art. 15 da Lei nº 5.478/68).

Postulou o autor, na petição inicial da ação


revisional a majoração dos alimentos para dois salários
mínimos mensais (fl. 3). Mais razoável, porém, será fixá-
-los em um salário mínimo, conforme o alvitre do
92

Dr. Procurador de Justiça. O novo “quantum” servirá a


atenuar as primeiras necessidades do apelante, sem
abalar a situação financeira de seu pai (fl. 10), a quem
corre a obrigação de alimentá-lo:

“O pai, ainda que pobre, não se isenta, por esse motivo, da


obrigação de prestar alimentos ao filho menor; do pouco
que ganhar, alguma coisa deverá dar ao filho” (Rev.
Tribs., vol. 279, p. 378).

Para este efeito é parcialmente provido o apelo do


autor. As custas processuais e o galardão honorário
advocatício serão suportados igualmente pelas partes.

4. Pelo exposto, dou provimento parcial ao recurso


para elevar a verba alimentícia do apelante a um salário
mínimo. Satisfarão as partes, igualmente, as custas
processuais e os honorários advocatícios.

São Paulo, 10 de setembro de 2004


Des. Carlos Biasotti
Relator
PODER JUDICIÁRIO

9
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO

QUARTA CÂMARA — SEÇÃO DE DIREITO PRIVADO

Apelação Cível nº 303.215-4/5-00


Comarca: Itatiba
Apelante: MAS
Apelado: BXS

Voto nº 5663
Relator

— Sentença — Arguição de nulidade por


falta de fundamentação — Motivação
suficiente — Preliminar repelida.
— Ainda que lacônica ou sucinta, não é
nula a sentença que dá as razões do
convencimento do Magistrado (art.
93, nº IX, da Const. Fed.).
— Alimentos — Pedido de redução por
alimentante que constituiu nova
família — Falta de prova contudo
de mudança na fortuna, que lhe
impossibilitasse cumprir o encargo —
Improcedência.
94

— A alegação de haver constituído nova


família não serve de escusa ao
alimentante para reclamar redução
do encargo, se não comprovou
que a mudança na fortuna lhe tornou
de todo impossível cumprir a
obrigação natural indeclinável de
prestar alimentos ao filho (art. 1.699
do Cód. Civil).

1. Da r. sentença que proferiu o MM. Juízo de Direito


da 1a. Vara da Comarca de Itatiba, julgando-lhe
improcedente a Ação Revisional de Alimentos que
intentara contra BXS, interpôs MAS recurso de
Apelação para este Egrégio Tribunal, com o escopo de
reformá-la.

Afirma, nas razões de recurso, elaboradas por suas


dignas patronas, que a r. sentença não podia subsistir,
visto se apartara da prova dos autos e dos ditames do
Direito.

Alega, com efeito, que seu douto prolator não lhe


metera em conta a argumentação, máxime na parte que
respeitava à absoluta carência de recursos para prestar
alimentos à autora.

À derradeira, nota de nula a r. sentença, por


ausência de fundamentação.
95

Pleiteia, destarte, à colenda Câmara tenha a bem


prover-lhe o recurso para anular a r. sentença “a quo”,
ou modificá-la no mérito (fls. 42/43).

Apresentou a apelada contrarrazões, nas quais


repeliu a pretensão do autor e propugnou a manutenção
da r. sentença de Primeiro Grau, exceto no tocante à
verba honorária, que se devia fixar entre o mínimo de
10% e o máximo de 20% do valor da causa (fls. 46/51).

A ilustrada Procuradoria-Geral de Justiça, em sólido


e criterioso parecer do Dr. Francismar Lamenza, opina
pelo improvimento da apelação (fls. 55/58).

É o relatório.

2. Ajuizou MAS ação revisional de pensão alimentícia


contra sua filha BXS, representada pela mãe (CXS).

Alegou na petição inicial que, nos autos da ação de


alimentos cujos regulares termos se processaram
perante o MM. Juízo de Direito da 1a. Vara da
Comarca de Itatiba, obrigara-se a pagar à requerida, à
guisa de alimentos, a quantia equivalente a 20% de seus
vencimentos líquidos; se desempregado, 1/3 do salário
mínimo.
96

Acrescentou que, no entanto, muito a seu pesar, não


tinha condições de, ao presente, ocorrer às despesas: à
uma, porque se achava desempregado (sustentava-se de
pequenos ganhos avulsos, ou “bicos” de ajudante geral);
à outra, porque já constituíra nova família e era pai
de criança de tenra idade; por fim, também sua
companheira estava desempregada.

Em vista do que, requereu a suspensão do


pagamento da pensão enquanto não tomasse novo
emprego, pois sequer a importância de R$ 66,00
não podia pagar (fls. 2/4).

A r. sentença de fls. 36/39, no entanto, houve por


improcedente o pedido.

Irresignado com o revés processual, vem a esta


augusta Corte de Justiça, na expectativa de conjurá-lo.

3. A preliminar de nulidade não merece acolhida, por


destituída de fundamento sério.

Deveras, o apelante acoimou de nula a sentença


porque, a seu aviso, carecia de motivação. Ninguém,
entretanto, lhe deitará os olhos, que não se persuada
para logo de que a decisão hostilizada não padece de
balda alguma, aliás passa por bom modelo de técnica
jurídica.
97

No preâmbulo, o distinto Magistrado que a proferiu


discorreu com propriedade acerca da obrigação alimentar:
características, finalidade e critério de fixação do valor.

A seguir, entrou a examinar, de espaço, as bases


lógicas do julgado.

Diversamente, portanto, do que inculcou a Defesa


do apelante, satisfez a r. sentença, a preceito, aos
requisitos de sua estrutura e formalidade.

Ao demais, versou detidamente as circunstâncias do


caso; não foi lacônica e tampouco sucinta. Mas, ainda
que o fora —— o que admito sem conceder ——, não lhe
cabia o ferrete de nula.

Em verdade:

“Não é nula a decisão com fundamentação sucinta, mas a


que carece da devida motivação, essencial ao processo
democrático” (STJ; Resp nº 19.661-0-SP; 4a. T.; rel.
Min. Sálvio de Figueiredo; DJU 8.6.92; p. 8.623;
v.u.).

4. “Circa merita”, não procedem, com a devida vênia,


os argumentos em que se esforça o apelo do autor.
98

Com efeito, foi este o móvel do pedido revisional


de pensão alimentícia: o apelante, demais de desempregado,
constituíra nova família, à qual lhe cumpria também
assistir. Na mudança da fortuna, portanto, assentara o
pleito de suspensão da prestação de alimentos.

Mas, tratando-se de razão escusativa, tocava ao autor


demonstrar, “ad satiem”, a alteração de sua capacidade
econômica, e essa de tal ordem que o impedisse de
continuar a prestar alimentos à filha.

A mera circunstância de haver juntado aos autos


certidão de nascimento da filha da nova união (fl. 9) não
se afigura cabal à comprovação de ter havido mudança
de situação financeira, apenas que, ao constituir outra
família, assumira encargos que, por muito relevantes
que fossem, não poderiam sobrepor-se ao de sustentar
a autora, menor impúbere e, pois, presumidamente
necessitada.

A acolher-se o argumento do apelante, estimulava-se


francamente a paternidade irresponsável.

Ao demais, havendo consideração ao valor módico


da prestação alimentar —— R$ 80,00 ——, constituiria
desprimor inominável disputar acerca de seu
cumprimento, visto que obrigação natural de pai.
99

Vem a ponto a lição de Yussef Said Cahali:

“Para que seja acolhido o pedido de revisão, deve ser


provada a modificação das condições econômicas dos
interessados; pedida pelo devedor a redução da pensão,
compete-lhe provar a redução das necessidades do credor,
ou o depauperamento de suas condições econômicas” (Dos
Alimentos, 4a. ed., p. 939).

Também a jurisprudência dos Tribunais tem


sufragado esse entendimento:

“Não basta que o alimentante sofra alteração na


sua fortuna para justificar a redução da prestação
alimentícia: é necessário que a alteração seja de tal ordem
que torne impossível o cumprimento da obrigação; do
contrário, tal alteração será irrelevante” (TJDF; Ap.
nº 27.125; 1a. TC; DJU II 4.11.92, p. 35.519; apud
Yussef Said Cahali, op. cit., p. 939).

Visto não demonstrada a mudança em sua fortuna,


impossível é exonerar o apelante do encargo de
alimentar a recorrida, sua filha.

Em suma: proferida segundo a prova dos autos e as


regras de Direito, deve subsistir, em sua inteireza, a r.
sentença apelada.
100

A reclamação da ré —— que lhe sejam fixados os


honorários “entre o mínimo de 10% e o máximo de
20% sobre o valor da causa” (fl. 51) —— não tem lugar, ou
porque se trata de apelo exclusivo do autor, ou porque a
r. sentença já os arbitrara “no máximo da tabela da
PAJ” (fl. 39).

5. Pelo exposto, rejeitada a preliminar de nulidade da


sentença, nego provimento à apelação.

São Paulo, 13 de outubro de 2004


Des. Carlos Biasotti
Relator
PODER JUDICIÁRIO

10
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO

QUARTA CÂMARA — SEÇÃO DE DIREITO PRIVADO

Apelação Cível nº 306.460-4/4-00


Comarca: Araçatuba
Apelante: Ministério Público
Apelado: LAMD

Voto nº 5723
Relator

— Sentença — Inobservância de regra


processual básica — Nulidade —
Ocorrência.
— Ainda que “trabalho de máximo relevo
do ofício do juiz”, na expressão exata de
Mário Guimarães (O Juiz e a Função
Jurisdicional, 1958, p. 313), é nula a
sentença proferida sem observância
de regra processual básica.
— Ação Revisional de Alimentos — Revelia
— Pena de confissão — Inaplicabilidade
— Direito indisponível — Audiência de
instrução e julgamento — Necessidade.
102

— Na ação revisional de alimentos,


a revelia do réu não importa confissão
nem autoriza o julgamento antecipado
da lide; hipótese de direito indisponível,
é de preceito a instauração da dilação
probatória (art. 320, nº II, do Cód.
Proc. Civil).

1. Da r. sentença que proferiu o MM. Juízo de Direito


da 4a. Vara Cível da Comarca de Araçatuba, julgando
procedente a Ação Revisional de Alimentos que LAMD
promoveu contra LASM e DSM, interpôs recurso de
Apelação para este Egrégio Tribunal, no intento
de reformá-la, o ilustre representante do Ministério
Público.

Afirma, nas razões de recurso, que a r. decisão de


Primeiro Grau não devia subsistir, porquanto proferida
em processo nulo, por violação da lei em seu espírito e
forma.

Alega ainda que, por versar o litígio direitos


indisponíveis, não se operavam os efeitos da revelia (art.
320, nº II, do Cód. Proc. Civil).

Requer, destarte, à colenda Câmara tenha a bem


prover o recurso para que, anulada a r. sentença de
Primeiro Grau, prossiga o feito na forma da lei; se não,
julgue improcedente o pedido (fls. 25/28).
103

Apresentou o apelado contrarrazões, nas quais


afirmou que, ao receber em ambos os efeitos o recurso
do Ministério Público, o douto Magistrado afrontara o
Direito Positivo; no mérito, pugnou pela confirmação
da r. sentença recorrida (fls. 32/35).

Contra o despacho delibatório de fl. 29 (que recebeu


o apelo do Ministério Público em ambos os efeitos)
interpôs o recorrido Agravo de Instrumento (fls. 43/49). A
r. decisão de fl. 51, contudo, havendo-lhe por atendível
o pleito, recebeu o recurso no efeito só devolutivo.

A ilustrada Procuradoria-Geral de Justiça, em


detido e abalizado parecer do Dr. Dráusio Barreto,
opina, preliminarmente, pela decretação da nulidade da
sentença; no mérito, pelo provimento do recurso (fls.
54/60).

É o relatório.

2. LAMD, alegando com a precariedade de suas


condições financeiras, propôs Ação Revisional de
Alimentos contra LA e DSM, representados por sua
mãe.
104

Afirmou, na petição inicial, que, nos autos da Ação


de Alimentos cujos regulares termos se processaram
perante o MM. Juízo de Direito da 4a. Vara Cível da
Comarca de Araçatuba, ficara acordado pagaria aos
filhos Luiz e Daniel, à guisa de pensão alimentícia,
a importância mensal de R$ 120,00.

Mas —— acrescentou ——, achava-se ora desempregado: a


mãe era quem o assistia, garantindo-lhe a sobrevivência.

Pleiteou, destarte, a fixação do valor dos alimentos


em R$ 60,00 mensais, no caso que estivesse
desempregado (fls. 2/7).

Regularmente citados na pessoa da mãe (fl. 20 v.),


deixaram os réus transcorrer “in albis” o prazo para
resposta, pelo que o MM. Juízo, com fundamento na
revelia (art. 330, nº II, do Cód. Proc. Civil), conheceu
diretamente do pedido do autor e alterou-lhe o valor
da pensão alimentícia para R$ 60,00, quando
desempregado (fls. 21/22).

A douta Promotoria de Justiça, no entanto, não se


resignou ao teor da r. decisão e veio pedir-lhe a reforma
a esta Superior Instância (fls. 24/28).

Aduz que o apelado deixara de juntar aos autos


documentos “imprescindíveis à propositura da ação”.
105

3. Ainda que mal imenso a perda da eficácia de uma


sentença – que passa pelo “trabalho de máximo relevo do
ofício do juiz”, na expressão exata de Mário Guimarães
(O Juiz e a Função Jurisdicional, 1958, p. 313) –,
é força rescindir a proferida nestes autos. A razão é
que, a despeito das boas razões que o possam ter
inspirado – talvez o intuito da encarecida rapidez na
prestação jurisdicional, ou da observância do princípio
da economia processual –, seu digno prolator
desabraçara-se de venerandos cânones processuais.

Com efeito, isto de contrair o rito procedimental


implica, não raro, sacrifício da verdade, que é a alma e o
escopo de todo o processo.

No caso, como os réus (regularmente citados)


não apresentassem contestação, foi servido o nobre
Magistrado conhecer diretamente do pedido, sob o
argumento da revelia.

À hipótese dos autos, porém, repugnava a aplicação


da revelia, cujos efeitos não operam nos casos em que “o
litígio versar sobre direitos indisponíveis” (art. 320, nº II, do
Cód. Proc. Civil), número a que pertencem os alimentos
devidos a menores impúberes.

Assim, afastada a presunção legal de veracidade da


alegação do autor, era de proceder à dilação probatória.
106

Desde que o autor nenhuma prova fizera da


mudança de fortuna, em que houvera de assentar
seu pedido revisional de pensão alimentícia, não era
possível, de plano, mandá-lo bem despachado.

Esta é a lição comum de autores de boa nota:

“Mesmo que ocorra revelia (não contestação), se o direito


posto em causa for indisponível (e.g., anulação de
casamento), não ocorrem os efeitos da revelia. Neste caso,
ainda que o réu não conteste, o autor tem de fazer a
prova dos fatos constitutivos de seu direito (CPC 333 I),
vedado ao juiz julgar antecipadamente a lide (CPC 320
II)” (Nelson Nery Junior et alia, Código de Processo
Civil Comentado, 8a. ed., p. 784).

São dignos de menção também os arestos com que


a Procuradoria-Geral de Justiça ilustrou seu exímio
parecer (fl. 56):

a) “Em ação de alimentos, regulada pela Lei nº


5.478/68, a realização da audiência de instrução e
julgamento é imprescindível, pouco importando seja
revel o demandado” (RT 599/55).

b) “A revelia do réu não dispensa, porém, a realização de


audiência (RT 599/55, 787/349), nem induz ao
107

acolhimento integral do valor pretendido na inicial


(RJ 256/67)” (apud Theotonio Negrão, Código de
Processo Civil, 35a. ed., p. 1.119).

Procede, em suma, o inconformismo do apelante.

4. Pelo exposto, dou provimento parcial ao recurso


para que, anulada a sentença de Primeiro Grau, prossiga
o feito segundo a lei.

São Paulo, 15 de novembro de 2004


Des. Carlos Biasotti
Relator
PODER JUDICIÁRIO

11
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO

QUARTA CÂMARA — SEÇÃO DE DIREITO PRIVADO

Apelação Cível nº 307.474-4/5-00


Comarca: São Paulo
Apelante: MHMC
Apelados: FPC e Outro

Voto nº 5743
Relator

— Alimentos — Pedido de exoneração


por alimentante que constituiu nova
família — Falta de prova no entanto
de que a mudança na fortuna lhe
impossibilitasse cumprir o encargo —
Improcedência.
— A alegação de haver constituído
nova família não serve de escusa ao
alimentante para reclamar exoneração
do encargo, se não comprovou que a
mudança na fortuna o impossibilitara
de cumprir a obrigação natural
indeclinável de prestar alimentos ao
filho (art. 1.699 do Cód. Civil).
109

1. Da r. sentença que proferiu o MM. Juízo de Direito


da 10a. Vara da Família e das Sucessões do Foro
Central da Comarca da Capital, julgando parcialmente
procedente a Ação Revisional de Alimentos que intentara
contra FPC e GPC, interpôs MHMC recurso de
Apelação para este Egrégio Tribunal, com o escopo
de reformá-la.

Afirma, nas razões de recurso, elaboradas por sua


digna patrona, que a r. sentença não podia subsistir,
visto se apartara da prova dos autos e das regras de
Direito.

Alega, com efeito, que seu douto prolator não lhe


tomara em conta a argumentação, máxime na parte em
que referia a extrema precariedade de sua situação
financeira, que lhe não permitia atender à própria
subsistência e da nova família que constituíra. Donde a
muita dificuldade de prestar alimentos aos filhos.

Pleiteia, destarte, à colenda Câmara tenha a bem


prover-lhe o recurso para modificar a r. sentença “a
quo”, a fim de que a pensão alimentícia dos apelados seja
fixada em um salário mínimo (fls. 89/91).

Apresentaram os apelados contrarrazões, nas quais


repeliram a pretensão do autor e propugnaram a
manutenção da r. sentença de Primeiro Grau (fls.
105/108).
110

A ilustrada Procuradoria-Geral de Justiça, em firme


e escorreito parecer do Dr. Clilton Guimarães dos
Santos, opina pelo improvimento da apelação
(fls. 120/124).

É o relatório.

2. Ajuizou MHMC Ação Revisional de Alimentos contra


seus filhos Felipe e Gustavo, representados pela mãe
(MCFP).

Afirmou que, embora tivesse contribuído com


pensão alimentícia aos requeridos (seus filhos), desde
que se divorciara da mulher, já não estava em condições
de continuar a fazê-lo, à conta da abrupta mudança de
fortuna: a empresa de que era sócio, e principal fonte de
sua renda, essa a fulminara um decreto de falência; ao
demais, tendo convolado para novas núpcias, não podia
eximir-se dos encargos da nova família. Destarte, era
força que a Justiça, olhando às vicissitudes que o
afligiam, tivesse a bem escusá-lo de prestar alimentos
aos requeridos.

A r. sentença proveu-lhe em parte a pretensão para


fixar a pensão alimentícia devida aos requeridos
“no pagamento direto das mensalidades e matrícula escolares
mais o pagamento mensal da quantia em pecúnia equivalente
111

a dois salários-mínimos vigentes à época do pagamento


(metade para cada beneficiário), com vencimento até o dia
21 de cada mês (…), excluindo-se as demais obrigações
alimentares anteriormente fixadas” (fls. 84/85).

Não se conformou porém o autor com o desfecho


da causa e, pois, veio pleitear-lhe a reforma a esta
augusta Corte de Justiça.

3. Tenho que a r. sentença apelada, visto examinara à


justa luz e com raciocínio lógico a questão dos autos,
deve permanecer em sua integridade.

De feito, as razões invocadas pelo recorrente não


permitiam que o nobre Magistrado deitasse a barra
mais longe.

Com o arbítrio do bom varão, após detida análise da


prova, decidiu a matéria do litígio com espírito
verdadeiramente salomônico: atendeu em parte, ao
clamor do apelante, atenuando-lhe o rigor do ônus
alimentício, e não postergou nem escureceu os
legítimos interesses e direitos dos alimentandos.

O argumento do revés financeiro da empresa do


apelante não poderia servir-lhe de escusa universal para
descumprimento de obrigação. É que – e bem o sentiu
112

o douto parecer da Procuradoria-Geral de Justiça (fl.


123) –, conquanto a quebra importe, deveras, redução
de suas posses, caberá “distinguir entre o patrimônio
da pessoa física obrigada a alimentos e o patrimônio da
pessoa jurídica”, pois a insolvência desta não implica,
necessariamente, a daquela. O ven. acórdão, que
mencionou por sua ementa, faz muito ao caso:

“O pai deve prestar alimentos aos seus filhos menores, que


deles necessitem. A circunstância de haver o pai sido
declarado falido não o isenta do dever de prestar
alimentos aos filhos menores. Apenas a fixação deverá
obedecer a um critério mais flexível, ponderada a
situação econômica decorrente da falência e considerados
os elementos e recursos de que possa dispor o alimentante”
(Rev. Tribs., vol. 304, p. 761; apud Yussef Said
Cahali, Dos Alimentos, 4a. ed., p. 954).

4. Outro tanto, no que respeita a haver o apelante


constituído nova família. Suposto relevante o
compromisso que acabara de contrair, é-lhe defeso dar
de mão às obrigações em que está com os filhos
menores do casamento anterior. Esta, a razão por que
nossos Tribunais têm repelido semelhante argumento,
nos pleitos em que se discute a exoneração de alimentos:

“Alimentos — Revisional — Ajuizamento pelo varão —


Existência de nova família, alegada como defesa —
113

Argumento não considerado como redutor de fortuna a


justificar a perda do valor aquisitivo da pensão arbitrada
quando da separação do casal — Ação improcedente —
Recurso não-provido” (TJSP; Ap. Cív. nº 256.717-1 —
Campinas; 8a. Câm. Dir. Priv.; rel. Osvaldo Caron;
j. 22.9.95; v.u.);

Tão só autoriza a redução do “quantum” devido:

“Alimentos — Revisional — Alimentante que constituiu


nova família — Autorizada a redução da obrigação
alimentícia — Inteligência do art. 401 do Cód. Civil.

— A revisão da pensão alimentícia é permitida quando


sobrevier mudança na fortuna de quem os supre, ou na
de quem os recebe (art. 401 do Cód. Civil)” (Rev. Tribs.,
vol. 729, p. 181; rel. Debatin Cardoso).

Em face do que levo dito, mantenho, por seus


próprios fundamentos, a r. sentença de Primeiro Grau.

5. Pelo exposto, nego provimento à apelação.

São Paulo, 11 de dezembro de 2004


Des. Carlos Biasotti
Relator
PODER JUDICIÁRIO

12
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO

QUARTA CÂMARA — SEÇÃO DE DIREITO PRIVADO

Apelação Cível nº 326.661-4/8-00


Comarca: São Paulo
Apelantes: SMB e Outros
Apelado: JCB

Voto nº 5761
Relator

— Alimentos — Necessidade do credor e


capacidade do devedor — Craveira
para avaliar a obrigação de prestar
alimentos.
— A craveira por que se há de aferir
o cumprimento da obrigação de
prestar alimentos é a necessidade do
credor e a capacidade do devedor.
— Pensão Alimentícia — Mulher jovem
e saudável — Necessidade de tomar
ocupação lícita para prover à própria
subsistência — Trabalho: juntamente
obrigação social e fator de promoção
humana.
115

— Compete à mulher jovem, saudável e


de comprovados cabedais de espírito
prover à própria subsistência pelo
trabalho, que, além de obrigação
social e fator de promoção humana,
lhe será também motivo de justo
orgulho, por guardá-la da insinuação
de sócia parasitária de outrem (art.
1.694 do Cód. Civil).
— O recurso apropriado a impugnar
decisão que julga incidente de pedido
de assistência judiciária é a apelação
(art. 513 do Cód. Proc. Civil).
— Assistência Judiciária — Ônus da
sucumbência — Isenção — Efeito legal.
— A gratuidade judiciária isenta o
necessitado do ônus da sucumbência
(art. 3º da Lei nº 1.060/50).

1. Da r. sentença que proferiu o MM. Juízo de Direito


da 12a. Vara da Família e Sucessões da Comarca da
Capital, julgando procedente o pedido da Ação de
Alimentos que promovem contra JCB, interpuseram
SMB, COMB, CJMB e SMB recurso de Apelação para
este Egrégio Tribunal, com o escopo de reformá-la.

a) Os autores, em extensa e esmerada peça jurídica


subscrita por suas diligentes patronas, afirmam que a r.
decisão de Primeiro Grau não se houvera com acerto ao
fixar o “quantum” devido à guisa de alimentos.
116

Pleiteiam-lhe, por isso, a majoração para R$


17.981,53 mensais, em favor dos 3 filhos e da mãe
Soraya, reajustável semestralmente pelo IGPM/FGV,
além do pagamento direto de outras despesas que
enumeram (fls. 2.673/2.682).

O apelado ofereceu contrarrazões, nas quais repeliu


a pretensão dos apelantes e propugnou a confirmação
da r. sentença recorrida (fls. 2.691/2.707).

b) Também o réu apelou: em recurso adesivo, que


lhe apresentou distinto e culto advogado, sustenta que
os elementos de prova reunidos nos autos não eram
aptos a concluir por sua capacidade econômica nem
permitiam a fixação do valor da verba alimentícia no
montante estabelecido.

Pelo que respeitava aos alimentos devidos aos filhos,


aduz que era obrigação dos pais prestá-los; destarte, a
apelada, na condição de mãe que desempenhava
atividade laborativa remunerada, não podia eximir-se
desse ônus.

Aguarda, em suma, o provimento da apelação para


que lhe seja reduzido o valor dos alimentos, ou
possibilitado o pagamento direto de algumas despesas
fixas, descontando-se o equivalente do “quantum”
devido (fls. 2.711/2.717).
117

Os apelados apresentaram contrarrazões de recurso,


nas quais refutaram os argumentos do apelante e
propugnaram o provimento do seu recurso de apelação
(fls. 2.731/2.741).

A ilustrada Procuradoria-Geral de Justiça, em


substancioso e abalizado parecer do Dr. Washington
Epaminondas M. Barra —— insigne membro de sua
Instituição ——, opina pelo improvimento do recurso dos
autores e pelo provimento parcial da apelação adesiva
do réu (fls. 2.757/2.782).

É o relatório.

2. SMB, por si e representando os filhos, menores


impúberes, COMB, CJMB e SMB propuseram Ação de
Alimentos contra JCB.

Afirmaram, na petição de fls. 2/25, que a primeira


requerente é mulher do requerido, de quem está
separada de fato, e os mais, seus filhos.

Alegaram que tiveram sempre invejável padrão de


vida, que, ao presente sofrera forte abalo, pois não tinha
a primeira requerente fonte de rendas e era o requerido
quem a sustentava e aos filhos.
118

O requerido, no entanto, acrescentaram, esse gozava


de cômoda e excepcional situação financeira, visto que
próspero advogado militante e proprietário de fazendas,
além de sócio da empresa “J. J. Indústria e Comércio
de Plásticos Ltda.” e possuidor de cotas das empresas
“Realiza” e “Peperoni”.

Pleitearam, ao cabo, a condenação do réu ao


pagamento da pensão alimentícia mensal de R$
17.981,53, afora a obrigação de pagar diretamente as
despesas e taxas discriminadas à fl. 16.

Acompanha-se o pedido de numerosos documentos


(fls. 23/763).

O douto Magistrado fixou-lhes os alimentos


provisórios em R$ 8.000,00 (fl. 765).

O réu, demais de impugnar a gratuidade de justiça


deferida à autora, apresentou resposta, na qual asseverou
tinha a autora Soraya condição de prover à própria
subsistência, dado que sócia de três empresas e de seu
escritório (dele, réu).

Acrescentou mais que, no que tange aos filhos, não


cabia o pedido, pois intentara ação cautelar, visando-
-lhes à guarda.
119

Ajuntou, por fim, que não diziam com a realidade os


rumores sobre seus bens da fortuna, como inculcavam
alguns a toque de corneta; ao revés, era agora chamado
às barras da Justiça, uma vez que réu em mais de
trezentas ações, com reflexos danosos em seus negócios
(fls. 784/808).

A r. sentença de fls. 2.653/2.661, após aturado


exame dos capítulos do litígio, julgou procedente o
pedido de alimentos para os filhos e, em consequência,
estipulou-lhes a pensão mensal de R$ 8.000,00; o da
autora Soraya MB, houve-o por improcedente.

Em face da sucumbência recíproca entre a autora


Soraya e o réu, determinou-lhes a r. sentença pagassem,
em igualdade de condição, as custas e despesas
processuais; a verba honorária advocatícia, também em
partes iguais, fixou-lhes em 20% do valor da causa.
Os autores, esses o nobre Magistrado isentou do
pagamento da sucumbência (art. 12 da Lei nº 1.060/50),
visto lhes concedera os benefícios da assistência
judiciária.

Inconformadas, apelaram as partes: os autores, a fim


de que lhes fosse majorada a pensão alimentícia para
R$ 17.981,53, julgando-se ainda procedente o pedido
em relação à autora Soraya MB; o réu, para a colenda
Câmara conhecer e prover-lhe o agravo retido de
120

fls. 56/58 dos autos de impugnação do valor da causa;


reduzir, por exagerado, o valor da pensão alimentícia;
alterar-lhe a forma de pagamento e redefinir a
sucumbência (fls. 2.711/2.717).

3. Da r. sentença apelaram os autores Carlos Otávio


MB, Caio José MB e Sofia MB para que lhes fosse
elevada a pensão alimentícia a R$ 17.981,53, com
reajuste semestral, além do pagamento direto das
despesas que discriminaram: IPTU, plano de saúde,
dentista, tratamentos psicológicos, mensalidade do
Esporte Clube Pinheiros, etc. (fls. 2.674/2.682).

O douto prolator da decisão recorrida examinou de


espaço e com circunspecção as circunstâncias pessoais
do alimentante e dos alimentandos, primeiro que a estes
fixasse pensão alimentícia.

Atenta sua condição de menores impúberes, houve-


-os por presumidamente necessitados de alimentos.

Reconheceu-lhes ainda a veracidade da alegação,


arrimada a prova boa, de que a família sempre viveu
“com muito conforto” e ostentava “alto padrão social”
(fl. 2.656).
121

Afastou, no entanto, a alegação dos autores de que


era ainda próspera a situação econômica do réu;
preferiu, forte nos elementos do processo, avaliá-la
segundo bitola mais estreita e admitir-lhe certo declínio.

Em verdade, mesmo que pudesse ter o réu —— como


significou às expressas a r. sentença —— tentado “ocultar
nos autos a suas reais condições econômicas” (fl. 2.659), não
lograram os autores demonstrar que ultrapassavam
a casa dos R$ 20.000,00 os rendimentos que o réu
declarou recebia mensalmente no exercício de sua
atividade profissional.

Depondo em Juízo, o réu afirmou, com efeito, que


os frutos de sua banca de advogado se haviam
amesquinhado e, sobre isso, corriam debaixo de seu
nome, nas quais figurava de réu, coisa de 300 ações
(fls. 784/808).

Assim, em que pese à imensa cópia de documentos


entranhados nestes autos —— que deitam já a 15 volumes
——, não comprovaram os autores a privilegiada condição
econômica do réu.

A importância de R$ 8.000,00 (com reajuste anual


segundo o INPC) que a r. sentença fixou aos autores, à
guisa de alimentos, satisfaz às circunstâncias do caso e
ao espírito da lei, que manda olhar o Juiz para as
possibilidades do alimentante.
122

A lição de Yussef Said Cahali vem a ponto:

“Mas, se a obrigação alimentar não se presta somente aos


casos de necessidade, devendo-se considerar a condição
social do alimentando, ter-se-á em conta, porém, que é
imprescindível a observância da capacidade financeira do
alimentante, para que não haja desfalque do necessário ao
seu próprio sustento” (Dos Alimentos, 4a. ed., p. 727).

Isto mesmo passa na esfera dos Tribunais:

“Em ação de alimentos não está o Juiz adstrito ao pedido


inicial, pois, segundo o binômio legal de possibilidade do
alimentante e necessidade do alimentando, pode fixar o
valor acima ou abaixo da estimativa pretendida” (Rev.
Tribs., vol. 759, p. 371; rel. Carlos Henriques).

No que diz com o rol de despesas, pelas quais devia


o réu responder diretamente, não se afigura atendível o
pleito dos autores, como o demonstrou à exaustão e
com rigor de lógica jurídica, o preclaro subscritor do
parecer da Procuradoria-Geral de Justiça. As razões que
Sua Excelência expôs —— como quem possui a um tempo
a ciência dos livros e a ciência do mundo —— valem
por primoroso compêndio de princípios de economia
doméstica e da arte de bem viver (fls. 2.757/2.782).
123

Em verdade, os alimentos, conforme retrilhada


máxima jurídica, são devidos “necessitatis causa” e não “ad
voluptatem”.

4. Também Soraya MB pôs recurso de apelação


contra a sentença que lhe julgou improcedente o pedido
de alimentos.

Afirma que “não trabalha” e que, embora detenha


cotas das empresas “J. J. Indústria e Comércio de Plásticos
Ltda.”, “Diguá — Distribuidora de Bebidas Ltda.” e
“Transjá Ltda.”, nelas tem “ínfima participação e não faz
nenhuma retirada mensal, nem sequer a título de pro labore”
(fl. 2.676); por isso, requer à colenda Câmara haja por
bem reformar a r. decisão apelada e condenar o réu
(“homem milionário”) a prestar-lhe alimentos em caráter
de complementação (fl. 2.677).

A r. sentença ressaltou que a alegação do réu,


carregando à apelante a culpa da separação do casal, não
obstava o conhecimento de seu pedido de alimentos.
Dado o caso que, lá para o diante, se lhe venha a
reconhecer eventual culpa no processo de separação ——
cujos termos estariam já a correr ——, pertencerá para o
juiz da causa avaliar ao justo a questão.
124

Entrou, pois, o douto Magistrado a apreciar a


pretensão da autora, que reputou improcedente, uma
vez não tinha “necessidade dos alimentos” (fl. 2.660).

Os fundamentos da r. sentença não eram fáceis de


refutar; não admira, portanto, devam prevalecer sobre
as razões da competente e dedicada Defesa (fls.
2.674/2.682).

É a apelante pessoa jovem, saudável e advogada de


profissão. Além de sócia do escritório de advocacia do
réu, consta de sua Declaração de Imposto de Renda que
tem cotas do capital social da empresa “J. J. Indústria e
Comércio de Plásticos Ltda.”, “Diguá — Distribuidora de
Bebidas Ltda.” e “Transjá Ltda.”. Seu cartão-de-visita,
como o observou o distinto Magistrado, identifica-a
pelo cargo de “representante” da “Indústria Missiato de
Bebidas Ltda.”, cujos produtos —— sobretudo a “Cachaça
Jamel” —— a apelante divulga com eficiência, como estão
a comprovar as fotografias de fls. 2.786 e 2.790.

Por isso, dou razão à sentença, que concluiu não ter


direito a apelante a alimentos porquanto deles não
necessitava.

Esta, com efeito, é a orientação firmada por nossos


Tribunais em numerosos acórdãos como o adiante
referido por sua ementa:
125

“Se a mulher se encontra em fase de maior adaptação


ao mercado de trabalho, competindo com os homens,
superando-os, mesmo, em muitos setores, com a
qualificação que possui a apelante poderá amealhar
mais rendimentos, não sendo justo que continue a ser
pensionada” (TJSP; Ap. Cív. nº 125.189-1).

Ainda:

“(…) o trabalho é obrigação social; a mulher, sendo


válida, pode concorrer para a própria subsistência com o
produto de seu esforço” (TJSP; Ap. Cív. nº 279.630;
apud Yussef Said Cahali, Dos Alimentos, 4a. ed.,
p. 496).

Portanto, uma vez obrigação social o trabalho e,


sobre isso, o melhor fator de promoção humana, pode a
mulher jovem, saudável e de comprovados cabedais de
espírito, prover à própria subsistência, o que lhe será
também motivo de fundado orgulho, que a guardará da
insinuação de sócia parasitária de outrem.

Enfim, não tendo provado a apelante que deles


necessita para a sobrevivência, não há obrigar o apelado
a pagar-lhe alimentos.
126

Além do que, prestes a exercer seus direitos sobre


os bens que lhe tocarão em partilha, por força da
separação judicial, seu pedido afigura-se injustificável.

Obrou com acerto, portanto, o douto Juiz ao


denegar o pedido de alimentos que lhe formulou a
apelante Soraya.

4. Em suas razões de recurso de apelação adesiva


clamou o réu pelo conhecimento e provimento do
agravo retido (fls. 56/58 do Apenso), interposto da decisão
que lhe rejeitou impugnação do benefício de justiça
gratuita deferido aos autores.

“De meritis”, alegou haver o MM. Juízo fixado com


imoderação os alimentos aos menores.

Sustenta mais que não se afigurava prudente efetuar


“o pagamento direto em conta da representante dos autores
menores”.

Por fim, não lhe pareceu curial a definição da


sucumbência (fls. 2.710/2.717).
127

Mas, não obstante o raro empenho de seus


talentosos advogados, não há conhecer do agravo retido
(fls. 60/63).

A razão é que —— e isto mesmo demonstrou, com


firmeza, o douto signatário do parecer da Procuradoria-
-Geral de Justiça (fls. 2.757/2.782) —— o recurso
apropriado a impugnar decisão que julga incidente de
pedido de assistência judiciária é a apelação.

O ven. acórdão que menciona (fls. 2.762) faz ao


intento:

“Disciplinada na Lei nº 1.060/50, a impugnação ao


deferimento do pedido de assistência judiciária gratuita
deve ser processada em autos apartados. Assim, se
procedente, a decisão que a aprecia desafia recurso de
apelação” (STJ; REsp nº 175.549-SP; 2a. T.; rel. Min.
Franciulli Netto; j. 9.5.2000);

Ainda:

“No cenário dos autos, feito o pedido de forma autônoma,


na fase de execução, com inicial determinação a autuação
e registro próprios, cabível é o recurso de apelação” (STJ;
REsp nº 255.057-MG; 3a. T.; rel. Min. Carlos
Alberto Menezes Direito).
128

5. O apelado José Carlos B interpôs recurso adesivo,


no qual increpa de “exagerado” (fl. 2.781) o valor que a
r. sentença estipulou para os alimentos aos menores.

Não procede, porém, a crítica, “data venia”.

O valor da pensão alimentícia que a apelante Soraya


reclamou para si e para os três filhos orçava por
R$ 17.981,53. A r. sentença, no entanto, reduziu-a a
R$ 8.000,00, e isso mesmo somente para os menores
(excluída a mãe).

As circunstâncias do caso, a necessidade dos


alimentandos e a capacidade do alimentante —— que, a
não mentirem os indícios reunidos nos autos, possui
grossos cabedais —— justificavam a fixação daquele
“quantum”.

O alvitre da ilustrada Procuradoria-Geral de Justiça


—— estipulação dos alimentos em R$ 6.000,00
(R$ 2.000,00 para cada filho) —— tem lá sua força e
pertinência. A verba, todavia, que a sentença mandou o
apelado pagar aos filhos antolha-se mais compatível
com o padrão social e o teor de vida de quem não pode
prescindir da assistência alimentar.
129

Em face da sucumbência recíproca entre o réu e a


autora Soraya, foram os respectivos ônus criteriosamente
assentados: pagamento, em partes iguais, das custas e
despesas do processo e de seus advogados, na base de
20% do valor dado à causa.

Mas, a r. sentença recorrida concedera aos autores


gratuidade judiciária, pelo que isentara da sucumbência
a autora Soraya (fl. 2.661), segundo a melhor doutrina:
“O benefício da gratuidade libera a parte que dele dispõe de
prover as despesas dos atos que realizam e requerem no
processo (CPC 19), bem como de responder pelas custas e
honorários advocatícios” (Nelson Nery Jr. et alia, Código de
Processo Civil Comentado, 8a. ed., p. 1.579).

À vista do que levo expendido, mantenho, por seus


bons e jurídicos fundamentos, a r. sentença que proferiu
o distinto e culto Magistrado Dr. João Batista Silvério
da Silva.

6. Pelo exposto, nego provimento à apelação dos


autores e não conheço do recurso adesivo do réu.

São Paulo, 25 de janeiro de 2005


Des. Carlos Biasotti
Relator
Trabalhos Jurídicos e Literários de
Carlos Biasotti

1. A Sustentação Oral nos Tribunais: Teoria e Prática;


2. Adauto Suannes: Brasão da Magistratura Paulista;
3. Advocacia: Grandezas e Misérias;
4. Antecedentes Criminais (Doutrina e Jurisprudência);
5. Apartes e Respostas Originais;
6. Apelação em Liberdade (Doutrina e Jurisprudência);
7. Apropriação Indébita (Doutrina e Jurisprudência);
8. Arma de Fogo (Doutrina e Jurisprudência);
9. Cartas do Juiz Eliézer Rosa (1a. Parte);
10. Citação do Réu (Doutrina e Jurisprudência);
11. Crime Continuado (Doutrina e Jurisprudência);
12. Crimes contra a Honra (Doutrina e Jurisprudência);
13. Crimes de Trânsito (Doutrina e Jurisprudência);
14. Da Confissão do Réu (Doutrina e Jurisprudência);
15. Da Presunção de Inocência (Doutrina e Jurisprudência);
16. Da Prisão (Doutrina e Jurisprudência);
17. Da Prova (Doutrina e Jurisprudência);
18. Da Vírgula;
19. Denúncia (Doutrina e Jurisprudência);
20. Direito Ambiental (Doutrina e Jurisprudência);
21. Direito de Autor (Doutrina e Jurisprudência);
22. Direito de Defesa (Doutrina e Jurisprudência);
23. Do Roubo (Doutrina e Jurisprudência);
24. Estelionato (Doutrina e Jurisprudência);
25. Furto (Doutrina e Jurisprudência);
26. “Habeas Corpus” (Doutrina e Jurisprudência);
27. Legítima Defesa (Doutrina e Jurisprudência);
28. Liberdade Provisória (Doutrina e Jurisprudência);
29. Mandado de Segurança (Doutrina e Jurisprudência);
30. O Cão na Literatura;
31. O Crime da Pedra (Defesa Criminal em Verso);
32. O Crime de Extorsão e a Tentativa (Doutrina e Jurisprudência);
33. O Erro. O Erro Judiciário. O Erro na Literatura (Lapsos e
Enganos);
34. O Silêncio do Réu. Interpretação (Doutrina e Jurisprudência);
35. Os 80 Anos do Príncipe dos Poetas Brasileiros;
36. Princípio da Insignificância (Doutrina e Jurisprudência);
37. “Quousque tandem abutere, Catilina, patientia nostra?”;
38. Tópicos de Gramática (Verbos abundantes no particípio;
pronúncias e construções viciosas; fraseologia latina, etc.);
39. Tóxicos (Doutrina e Jurisprudência);
40. Tribunal do Júri (Doutrina e Jurisprudência);
41. Absolvição do Réu (Doutrina e Jurisprudência);
42. Tributo aos Advogados Criminalistas (Coletânea de Escritos
Jurídicos); Millennium Editora Ltda.;
43. Advocacia Criminal (Teoria e Prática); Millennium Editora
Ltda.;
44. Cartas do Juiz Eliézer Rosa (2a. Parte);
45. Contravenções Penais (Doutrina e Jurisprudência);
46. Crimes contra os Costumes (Doutrina e Jurisprudência);
47. Revisão Criminal (Doutrina e Jurisprudência);
48. Nélson Hungria (Súmula da Vida e da Obra);
49. Ação Penal (Doutrina e Jurisprudência);
50. Crimes de Falsidade (Doutrina e Jurisprudência);
51. Álibi (Doutrina e Jurisprudência);
52. Da Sentença (Doutrina e Jurisprudência);
53. Fraseologia Latina;
54. Da Pena (Doutrina e Jurisprudência);
55. Ilícito Civil e Ilícito Penal (Doutrina e Jurisprudência);
56. Regime Prisional (Doutrina e Jurisprudência).
www.scribd.com/Biasotti
Alimentos (Doutrina e Jurisprudência) Carlos Biasotti