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Pernambuco Experimental

Clarissa Diniz (org.)

INCENTIVO AO CATÁLOGO PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

PARCEIROS DO MUSEU DE ARTE DO RIO - MAR


Pernambuco Experimental
Experimental Pernambuco

Clarissa Diniz (org.)

Rio de Janeiro, 2014


9 Apresentação Carlos Gradim

14 PERNAMBUCO EXPERIMENTAL Clarissa Diniz

124 UMA POÉTICA DE SINAIS Adolfo Montejo Navas


(O OUTRO MAPA DA IMPUREZA)

156 RECIFE COMO CENTRO DO MUNDO: Zanna Gilbert


REPENSANDO O REGIONALISMO ATRAVÉS
DAS PERFORMANCES DE LONGA DISTÂNCIA
DA REDE DE ARTE POSTAL

186 QUER MESMO SABER? I José Cláudio

204 QUER MESMO SABER? II José Cláudio

210 escrevivendo ao mar de a para z Jomard Muniz de Britto

212 Biografias dos autores

214 Versão em Inglês [english version]


O Museu de Arte do Rio apresentou Pernambuco Articuladas às mostras, as prioridades do MAR
Experimental (PE:EXP), um recorte da arte produzida contemplaram, até o momento, a região Norte
em Pernambuco entre 1900 e 1980. Com curadoria de (o Fundo Amazônico do museu, com 500 itens), o
Clarissa Diniz, PE: EXP abordou alguns dos debates Nordeste (iniciado em torno de Pernambuco), o
centrais dessa época. A um só tempo, evidenciou as Centro-Oeste (tendo como ponto de partida os 50
singularidades do contexto pernambucano e apontou itens do Grupo EmpreZa, de Goiás) e a cidade de São
diálogos com a produção cultural de outras partes do Paulo (o conjunto de objetos de 16 coletivos voltados
Brasil e do mundo. para intervenções urbanas, problemas de moradia
e violência social na cidade formado pelo Fundo
O esforço geográfico de curadoria implantado por Criatividade Coletiva/Doação FUNARTE).
Paulo Herkenhoff para os programas de acervo e
de exposições do MAR é um mapeamento da arte A riqueza do trajeto de Pernambuco Experimental
contemporânea brasileira. Desde sua abertura em no museu desdobrou-se numa programação de
março de 2011, o MAR reuniu pinturas, desenhos, educação centrada na ideia de experimentação
gravuras, fotografias, livros de artista, vídeos, filmes, educacional e resultou na mostra subsequente,
poesia visual, arte em xerox e outras peças de 15 Experimentando Pernambuco Experimental, em que
artistas, de Vicente do Rego Monteiro a Lula Cardoso atividades criadas ao longo de PE:EXP ganharam
Ayres. Adensadas no universo denominado por protagonismo e configuraram um novo recorte
Herkenhoff Pernambuco Experimental, compõem sua curatorial, trabalho conjunto das gerências de
trilogia formada ainda por Pernambuco Moderno conteúdo e educação do MAR. A partir da mostra
(co-curada por ele em 2006), e Pernambuco organizou-se também um show de músicos das
Contemporâneo. Depois de propor o módulo bandas dos anos 1970 que integraram PE:EXP.
experimental ao MAR, confiou-o a Clarissa Diniz. Realizado no último fim de semana da mostra como
parte das festividades de comemoração do primeiro
A exposição convocou obras, artistas e movimentos ano do MAR, foi um momento singular de reunião
surgidos em Pernambuco para, em sua intensidade desses artistas, de ativação de sua história e obra
experimental, adensar a construção coletiva dos no contexto do Rio de Janeiro e diante de um público
modos de existir, pensar e criar. Provocou as jovem.
sempre insuficientes circunscrições da história da
arte, ativando a responsabilidade das instituições Este catálogo organizado por Clarissa Diniz é o
de pesquisa e seus públicos no contínuo esforço terceiro título do MAR publicado em 2014, ao lado
de pensar além das fronteiras imediatas. Por de Pororoca – A Amazônia no MAR e Largo do
meio do encontro de individualidades, diferenças, Paço, a generosa doação do Fundo Fátima Zorzato
invisibilidades, estereótipos e marginalidades, e Ruy Souza e Silva. É com grande contentamento
Pernambuco Experimental lançou luz sobre outros que o apresentamos no lastro de um programa
projetos de modernidade, ideias de país, experiências editorial que constrói histórias transversais a partir
de arte e conformações sensíveis. Trata-se, assim, de contínuo exercício dialógico entre exposição e
de uma mostra que reagiu criativa e criticamente às catálogo. Reunindo textos inéditos de Clarissa Diniz,
zonas de conforto da cultura – esforço continuado Adolfo Montejo Navas, José Cláudio, Zanna Gilbert e
com o qual se compromete o Museu de Arte do Rio. Jomard Muniz de Britto, e com patrocínio do Fundo
Pernambucano de Incentivo à Cultura (Funcultura),
Das 470 obras exibidas em PE:EXP, 160 já esta publicação pretende ser uma referência para
foram incorporadas à Coleção MAR. O acervo admiradores e pesquisadores da experimentação
pernambucano provém de generosas doações de que, surgida em Pernambuco, transborda e contribui
artistas e famílias, bem como dos Fundos Z, Fundo largamente para toda a cultura do Brasil e do mundo.
Orlando Nobrega e Fundação Roberto Marinho. O Museu de Arte do Rio agradece a todos que
tornaram este projeto possível.

Carlos Gradim
Diretor-presidente do Instituto Odeon - MAR
Cícero Dias Eu Vi o Mundo... E Ele Começava no Recife [I Have Seen the World… And It Began in Recife], 1926 - 1929. Guache e técnica mista sobre
papel kraft [Gouache and mixed technique on kraft paper], 198 x 1.186 cm. Coleção Particular [Private Collection]
14-15 pernambuco Experimental - clarissa diniz PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

Pernambuco Experimental
Clarissa Diniz

Na contramão da intenção de rotular a arte produzida a partir


de Pernambuco, o que se quer com Pernambuco Experimental é
discutir a potência de invenção e revulsão da prática artística, aquilo
que poderíamos denominar como caráter experimental: capaz de
“confundir o estabelecido e estabelecer diferenças”,1 nas palavras 1. Jomard Muniz de
Britto em O que fazer
de Jomard Muniz de Britto. Articulando obras, artistas, debates, da crítica cultural?
(1979). Originalmente
iniciativas e episódios diversos, é essa a intensidade experimental que publicado em BRITTO,
Jomard Muniz; LEMOS,
se apresenta, sublinhando questões gerais que atravessaram o período Sérgio. Inventário de
um feudalismo cultural.
de 1900 a 1980, recorte abarcado pela exposição. Recife: Gráfica Nordeste,
1979.

A despeito de ser eminentemente conhecido pela produção


contemporânea dos anos 1990 e 2000, Pernambuco viveu décadas
de efervescência experimental ao longo do século anterior, quando os
desdobramentos modernos se ampliavam e constituíam o fértil terreno
que se intensificou, por exemplo, com o manguebeat. Pernambuco
Experimental aborda esses momentos, em que são construídos
projetos de modernidade, investigadas as radicalidades da forma,
experimentados novos meios, inventados outros corpos, vivenciados
processos colaborativos de criação, sociabilidade e circulação da
arte, bem como constantemente recriadas suas estratégias críticas, de
resistência e de atuação social e política.

Mais do que a afirmação de certas posições ou estratégias, é


sobremaneira a constante reinvenção – transformações e conflitos –
da linguagem que nos interessa: a exposição é uma aposta na força
movediça que desenlaça a arte de determinantes ou identidades
regionais. Afinal, se para um artista como José Cláudio, “arte não é
produto agrícola”, “não vem com a farinha que a gente come ou com
o sangue que a gente tem”,2 também para Jomard Muniz de Britto e 2. José Cláudio em Não
há Nordeste (1961).
Daniel Santiago trata-se de uma experiência abissal que se expande Publicado em Diário da
Noite. Recife, 13 jun.
para além de seu local de origem: “o Brasil é meu abismo”. 1961.
Arte abismática e libertária, mas não sem “contextura – entre a
3. Jomard Muniz de
Britto em O que fazer
diferença pela raiz e o envolvimento pelo con-texto”.3 Nesse sentido,
da crítica cultural?
(1979). Originalmente
Pernambuco Experimental também enfrenta os estereótipos e lugares-
publicado em BRITTO,
Jomard Muniz; LEMOS,
comuns que pela arte são imaginados ao longo do tempo, por vezes
Sérgio. Inventário de alimentando, ainda que colateralmente, concepções conservadoras
um feudalismo cultural.
Recife: Gráfica Nordeste, de sociedade. É no atrito libidinal e dissensual com o contexto que se
1979.
adensa, afinal, o caráter friccional da criação – motivo e problema
basilar desta exposição.
4. Cf. Gilberto Freyre.
Casa-Grande e senzala
(1933). Poucos artistas têm uma obra tão eloquente em relação às
5. Cf. Gilberto Freyre.
contradições estéticas, sociais e políticas do contexto pernambucano
Um pintor brasileiro
fixado em Paris. Rio de
quanto Cícero Dias. Decerto um experimentalista, sua trajetória
Janeiro, José Olympio, articula invenção, radicalidade e conservadorismo num “a seu modo”
1962.
tipicamente freyreano. Se, para Gilberto Freyre, uma vida “a seu
6. “Quando Cícero Dias
fez uma exposição em modo” seria a encarnação dos “antagonsimos em equilíbrio”4 –
Jundiá, na Escada, ele
queria precisamente característica por ele sublinhada como defesa de uma história do Brasil
varar essa crosta de
prejuízos dos homens
como bamba, porém efetiva, negociação entre confraternizações e
cultos da capital, para
atingir a instintividade
violências de toda ordem5 –, para Cícero tampouco seria diferente.
popular de modesta
aglomeração da roça,
afastada das pugnas e Filho da artistocracia canavieira, como tantos jovens da época, nos
deformações ideológicas
ou intelectuais dos anos 1920 Cícero Dias deixa Pernambuco para estudar no Rio de
grandes centros. É
fato conhecido que Janeiro, onde despontam suas primeiras investigações. Se por um lado
um jovem vaqueiro ou
pastor analfabeto, mas
significavam ousadia diante do campo artístico ainda timidamente
dotado de sensibilidade
plástica inconsciente,
moderno da capital, suas aquarelas e seus desenhos, quando exibidos
pode sentir melhor de volta em Escada, sua terra natal, não pareciam despertar o mesmo
um quadro moderno
que um estudante choque.6 Organizadas por Gilberto Freyre, duas exposições (1928
culto de qualquer das
nossas faculdades e 1929) de Cícero em Jundiá – seu engenho de nascimento – foram
superiores. Eis o que os
letrados tanto custam parte dos interesses da dupla (que não mais se desligaria ao longo
a compreender.”
PEDROSA, Mário.
da vida) pelo universo sensível da cultura do açúcar, ao passo que
Pernambuco, Cícero Dias
e Paris. Revista Região.
apresentavam respostas às críticas recebidas pelo artista no Rio e em
Recife, dez. 1948. Recife, dentre as quais a de produzir arte nonsense.

Cícero Dias e/and


Gilberto Freyre
Catálogos II Exposição
Cicero Dias na Escada
e III Exposição Cicero
Dias na Escada, s.d.
[Catalogs 2nd Cicero
Dias Exhibition in Escada
and 3rd Exhibition
Cícero Dias in Escada,
undated], 26 x 16 x
0,5 cm

Coleção [Collection]
Fundação Gilberto
Freyre
16-17 pernambuco Experimental - clarissa diniz PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

Gilberto Freyre
Gilberto Freyre no
Ateliê de Vicente do
Rego Monteiro [Gilberto
Freyre at Vicente
do Rego Monteiro’s
Studio], 1922

Reprodução de
caricatura original
de [Reproduction of
original caricature of]
Gilberto Freyre, 10 x
15 cm
Coleção [Collection]
Fundação Gilberto
Freyre

O diálogo entre ambos assenta-se em 1932, quando o pintor retorna


a Pernambuco: “Estaria eu participando de suas ideias?”, pergunta
Dias, imaginando que “o notável sociólogo jamais poderia encontrar
uma pintura onde as afinidades literárias e sociológicas estivessem tão
perto das artes plásticas”.7 Da interlocução que mantiveram ao longo 7. DIAS, Cícero. Eu vi
o mundo: Cícero Dias.
de toda a vida, surgiram interesses quanto aos modos de relacionar a São Paulo: Cosac Naify,
2011, p. 69-70.
pintura a seu contexto social, cultural e ambiental: “teria sido Gilberto
o primeiro a mostrar-me os verdes que empregava nos quadros?
Os verdes dos mares pernambucanos, quando todos os pintores
convencionalmente olhavam os mares azuis. Curioso que os pintores
copiadores da natureza, ao retratar os verdes, os faziam azuis”.8 8. Ibidem, p. 69.

Enquanto Freyre cedo compreendeu, com Dias, que o “nonsense em 9. FREYRE, Gilberto.
Cícero Dias e seu
vez de fim é na verdade um meio: um esforço no sentido de ‘novas “nonsense”. Diário da
Manhã. Rio de Janeiro,
formas de expressão da vida’ […], busca de sua pintura toda ousada 7 nov. 1942.

de experimentação”,9 Dias, por sua vez, adotou a relação com 10. DIAS, Cícero. É
preciso conduzir a
sua região natal como parte de suas estratégias estéticas: “Nunca arte à vida cotidiana.
Originalmente
esqueço de levar meus quadros a Escada, na persuasão de que sua publicado no Diário
de Pernambuco,
valorização cresça em contato com o povo”.10 Para ambos, o universo Recife. Posteriormente
plástico e temático da obra de Dias era mais uma continuidade face ao republicado na revista
Região. Recife, ago.
imaginário pernambucano do que uma ruptura com o mesmo, hipótese 1948.
pela qual o painel Eu Vi o Mundo... E Ele Começava no Recife (1926-
1929) teria provocado uma suposta polêmica apenas quando exibido
fora de seu contexto de referência.

11. “Não cultivo a


penumbra, mas a
Ícone de sua pintura moderna de sexualidade explícita,11 como
resplandecência. Nada também de sua relação com o Nordeste e com a história social, o
é obscuro na minha
obra”, anota Cícero Dias painel teria vivenciado uma temerosa reação do público à libido nele
em sua biografia. DIAS,
Cícero. Eu vi o mundo: exposta pelo artista pernambucano. Parcialmente depredado quando
Cícero Dias. São Paulo:
Cosac Naify, 2011, exibido no Salão Revolucionário (Museu Nacional de Belas Artes,
p. 74.
1931), o painel de aproximadamente 12 metros, em sua transparência
de forma e tema, profanava o distanciamento da arte diante das
sensações e narrativas mais ordinárias. Na grande pintura de Dias –
realizada sobre papel kraft, já indício de profanação do métier –, se o
pretexto inicial da obra era o de contar a história de Joaquim Nabuco,
inevitavelmente metamorfoseou-se numa enxurrada de imagens do
cotidiano: “Tudo se mexia na minha cabeça. Imagens do começo da
minha vida. Tantas coisas: mulheres, histórias fantásticas, a escada de
Jacó, as onze mil virgens. Levaria todas essas imagens para dentro de
12. Ibidem, p. 55. um grande afresco?”12 O intuito épico é atravessado pela experiência
da vida; ordinário e mítico se fundem no corpo do artista transformado
numa carnalidade pictórica capaz de atrair e repelir, seduzir e revoltar.
Cícero Dias sabia que “passava pelo seu corpo toda a história de um
13. Ibidem, p. 83.
Nordeste”.13

Cícero Dias
Condenação
dos Usineiros
[Condemnation of the
Plantation Owners],
c. 1930

Aquarela sobre papel


[Watercolor on paper],
50 x 69 cm. Coleção
[Collection] Jean
Boghici
18-19 pernambuco Experimental - clarissa diniz PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

Cícero Dias
Eu Vi o Mundo... E Ele
Começava no Recife [I
Have Seen the World…
And It Began in Recife],
1926 - 1929
(detalhe [detail])

Guache e técnica
mista sobre papel
kraft [Gouache and
mixed technique on
kraft paper]. Coleção
Particular [Private
Collection]

São várias as imagens das contradições – entre outras, sociais – que


interessaram a Freyre e ao Dias experimental que figuram em Eu Vi o
Mundo. Se o painel não tem a contundência crítica de algumas de suas
aquarelas posteriores, como a Condenação dos Usineiros (1930) em
sua acidez contra o sistema oligárquico, tampouco deixa de pontuar
as convivências entre diferenças culturais, como nas situações de uma
mulher branca amamentando um bebê negro, da simultaneidade entre
avião e carro de boi, ou da vizinhança entre uma arquitetura de

Cícero Dias
Eu Vi o Mundo... E Ele
Começava no Recife [I
Have Seen the World…
And It Began in Recife],
1926 - 1929
(detalhe [detail])

Guache e técnica
mista sobre papel
kraft [Gouache and
mixed technique on
kraft paper]. Coleção
Particular [Private
Collection]
Cícero Dias
Eu Vi o Mundo... E Ele
Começava no Recife [I
Have Seen the World…
And It Began in Recife],
1926 - 1929
(detalhe [detail])

Guache e técnica
mista sobre papel
kraft [Gouache and
mixed technique on
kraft paper]. Coleção
Particular [Private
Collection]

engenho e de metrópole, “antagonismos” ritmadamente equilibrados


no painel.

Por entre a presença coreografada de suas figuras insinua-se a


paisagem rural e a condição portuária de um Recife que parece
sobrepujar o apequenado Rio de Janeiro, cujo Pão de Açúcar é
lançado para o campo mais profundo da obra, estratégia política que
é indício da efervescência cultural, política e intelectual que marcava o
Recife desde o século XIX, especialmente com a presença da Faculdade
de Direito – fomentadora de ideias tão relevantes para o país quanto o
pensamento de Joaquim Nabuco, Tobias Barreto ou Graça Aranha.

Mais adiante, com a virada para o século XX, a atmosfera renovadora


do campo das discussões filosóficas e políticas atinge uma escala
urbanística jamais vista, cujo epicentro é a reforma do Porto do
Recife. Além de possibilitar a intensificação dos fluxos intelectuais e
econômicos entre Pernambuco e o mundo (trânsito no qual tiveram
um papel também os zepelins que ancoravam na cidade), as
transformações do porto radicalizaram a experiência de uma Recife
moderna. Diversamente do ecletismo estilístico que dava o tom da
arquitetura do período noutras partes do país – a exemplo das
fachadas dos edifícios da Avenida Central, no Rio de Janeiro –, a
capital pernambucana vivenciava o surgimento de uma composição
20-21 pernambuco Experimental - clarissa diniz PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

urbana cujas linhas modernas ocupavam quarteirões inteiros, cenário


que se completava por meio do fortalecimento de uma cultura híbrida,
informada por referências europeias e africanas de cuja mistura e
reinvenção surge – no encontro entre marchas, maxixes, bandas
militares, fanfarras, capoeiras e dobrados – o frevo.

Francisco Du Bocage
Armazém [Storehouse],
Diferentemente de outras manifestações culturais de Pernambuco, em
1913 sua maioria surgidas em regiões rurais (especialmente no contexto
Fotografia
[Photograph],
dos canaviais, a exemplo do maracatu), o frevo aparece no começo
40 x 60 cm. Coleção do século XX como uma experiência claramente urbana, repleta de
[Collection] Fundaj /
Benício Dias referências advindas do fluxo globalizatório que se intensifica a partir
do porto, ao passo que se caracteriza como modo de ocupação da
cidade e suas ruas. Improvisação e fervura – agitação calorosa de
onde deriva o termo frevo – eram elementos não só de sua música ou
dança, como também de todo o contexto cultural que fizera com que
Pernambuco já não tivesse aderido à resolução nacional de 1855, a
qual, a partir do Congresso das Sumidades Carnavalescas (realizado
no Rio de Janeiro), acordava que a não proibição ou criminalização do
Carnaval equivaleria à sua realização dentro de um padrão europeu –
decisão aceita pelos demais estados do país.

Assim, o frevo é também evidência da verve crítica que se completava


na atmosfera nacionalista, republicana e antiescravagista que
ganhava corpo em Pernambuco desde o século XIX, e que se podia
Lula Cardoso Ayres
Sem título [Untitled],
1940

Fotografia [Photograph],
50 x 80 cm (cada uma
[Each one]). Coleção
[Collection] Luiz
Gonzaga Cardoso Ayres
Filho

entrever na riqueza da caricatura praticada cotidianamente no estado.


Emblemático dessa produção é o Álbum (1912) de Emílio Cardoso
Ayres, que o ombreia a J. Carlos na representação crítica por meio da
caricatura, da vida urbana que se introduzia em cidades como Rio de
Janeiro e Recife. Emílio inova o portrait-charge da elegância mundana
ao descrever tipos modernos como o flâneur e o dândi, radar do estilo
de vida articulado às grandes reformas urbanísticas dessas cidades,
com seus transatlânticos, terrações, casas de chá, galerias de arte e
novos padrões de comportamento.
Vista da exposição com obras de Ladjane Bandeira, Pierre Verger (Foto Pierre Verger © Fundação Pierre Verger), Lula Cardoso Ayres e ilustração de frevo publicada no Jornal Pequeno
[View of the exhibition with works from Ladjane Bandeira, Pierre Verger, Lula Cardoso Ayres and frevo illustration published in Jornal Pequeno]
Emílio Cardoso Ayres, Álbum [Album], 1911. Nanquim [China ink], 30 x 43. Coleção [Collection] MAR - Fundo [Fund] Lula Cardoso Ayres Filho
26-27 pernambuco Experimental - clarissa diniz PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

Nesse contexto de intensidade cultural, a fase inicial da trajetória


de Cícero Dias – e seu diálogo com Freyre, cujo Casa-Grande
e Senzala (1933) é por ele ilustrado – levaria o artista a uma
presença inquestionável em meio ao profícuo campo de disputa em
torno de projetos de modernidade que se desenrolava no Recife.
Grosseiramente, de um lado tem-se a imediata adesão de camadas
políticas e intelectuais a concepções “renovadoras” que – em
consonância com a reforma do porto – em termos estéticos eram
comumente tratadas como futurismo14 e se apresentavam entusiastas 14. Cf. Rigel de Orion.
Revista do Norte. Recife,
do progresso, da instantaneidade e da ruptura. É o caso, por exemplo, 2ª quinzena de 1924.

do jornalista Joaquim Inojosa, que em 1924 publica A Arte Moderna,15 15. Joaquim Inojosa.
A arte moderna.
carta que convoca a adesão ao “credo novo” que no Brasil teria Originalmente publicado
na revista Era Nova.
surgido na Semana de Arte Moderna de São Paulo, em 1922. João Pessoa, 1924.

Em tom de manifesto, Joaquim Inojosa afirma sua convicção em “uma


nova expressão de arte” contra “as velhas fórmulas”, ao mesmo

Cícero Dias
Casa-Grande do
Engenho Noruega​[The
Master’s House on the
Noruega ​Sugarcane
Plantation], 1933
Ilustração para o livro
[Illustration of the
book] Casa-Grande &
Senzala, de Gilberto
Freyre

Aquarela e nanquim
sobre papel
[Watercolor and China
ink on paper], 52 x
52 cm
Coleção [Collection]
Fundação Gilberto
Freyre
tempo em que diferencia seu ímpeto moderno do futurismo: para o
jornalista, tratava-se da construção de uma modernidade cujo ponto
de partida se encontrava na importante contribuição de Graça Aranha
em seus posicionamentos no campo intelectual e literário, bem como
por sua obra A Estética da Vida (1921), em que se funda uma espécie
de fenomenologia da luz no Brasil, sublinhando suas relações com
a história da formação do país em termos étnicos e sociais. Assim,
em A Arte Moderna, Inojosa lê o campo da arte como um território
dividido entre aqueles que seriam adeptos do parnasianismo, do
academicismo, do naturalismo, do passadismo, ou da arte oficial,
entre os “regionalistas sistemáticos” e, por fim, os modernos, numa
clara compreensão da não convivialidade entre esses diversos regimes
sensíveis e políticos.

De outro, há posições que buscarão combinar o espírito moderno com


a valorização de certos aspectos locais ou tradicionais da cultura de
Pernambuco, movimento do qual o grande ícone é Gilberto Freyre
e seu pensamento estético e social. É em 1925, no texto “Algumas
notas sobre a pintura no Nordeste do Brasil”, publicado no Livro
do Nordeste, que pela primeira vez Freyre argumentará acerca de
uma “renovação” artística que não deixe de versar sobre “assuntos
regionais, sem perder o sentido brasileiro e universal das coisas”
nem “resvalar no caipirismo ou no separatismo [...], no patriótico,
16. FREYRE, Gilberto.
Algumas notas sobre
anedótico ou apologético”,16 tema que ele desenvolverá ao longo de
a pintura do Nordeste
do Brasil. In: FREYRE,
sua trajetória com duas ênfases centrais – as ideias de regionalismo
Gilberto et al. Livro do e de ecologia. Ambos confluirão em seus pensamentos e fertilizarão
Nordeste, comemorativo
do centenário do Diário o debate estético de todo o Brasil e, em especial, do Nordeste e de
de Pernambuco: 1825-
1925. Pernambuco, nutrindo um diálogo estreito com a produção de artistas
como Cícero Dias ou Lula Cardoso Ayres. Tratava-se de um ambiente
cultural dedicado a pensar, nas palavras de Freyre, “o problema das
relações” da arte e seu contexto: “até que ponto é a arte independente
das condições regionais de meio físico e de meio sociocultural em que
17. FREYRE, Gilberto. se desenvolve ou em que se desenvolve o artista?”.17
A propósito de Francisco
Brennand, pintor, e do
seu modo de ser do
trópico. In: Vida, forma e Observa-se, ao longo de sua obra, a crescente presença de uma
cor. Rio de Janeiro: José
Olympio, 1962. consciência contextual em contraste com uma ambição regional, que
18. FREYRE, Gilberto.
levaria o sociólogo a afirmar que “precisamos cada vez mais pensar
A favor da arte popular
regional. Diário de
em termos de inter-relação das coisas”,18 emancipando o regionalismo
Pernambuco. Recife, 27 de sua vinculação única com o Nordeste para circunscrevê-lo como
fev. 1972.
os modos de relação com qualquer região, assim fundando o que
chamaria – no Brasil, pioneiramente –, de ecologia : um complexo de
28-29 pernambuco Experimental - clarissa diniz PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

Revista do Norte, 1926,


23 x 16 cm
relações geográficas, sociais, culturais e biológicas. Assim, o “homem
Coleção [Collection]
do Nordeste” paulatinamente interessará a Freyre eminentemente
Instituto Ricardo
Brennand
como “homem situado”,19 perspectiva social relacional que o levará 19. FREYRE, Gilberto.
Algumas notas sobre
a defender o uso da maconha como hábito regional 20 e, no caso dos a pintura do Nordeste
Diário de Pernambuco do Brasil. In: FREYRE,
Gilberto Freyre (org.) homens, a adoção do uso de saias 21 – exemplos de um pensamento Gilberto et al. Livro do
Nordeste, comemorativo
Livro do Nordeste [Book que também se configurará como um modo de vida dos trópicos, ou do centenário do Diário
of the Northeast], 1925
tropicologia.22 de Pernambuco: 1825-
1925. Recife: Off. do
Coleção [Collection] Diário de Pernambuco,
Instituto Ricardo 1925.
Brennand A dimensão regional, ecológica e tropical de seu pensamento nutre 20. Cf. Gilberto Freyre.
a efervescência cultural e social do Recife dos anos 1930 em diante. Uma palavra a favor da
maconha. 31 jan. 1953.
Sua presença como interlocutor ativo daquele contexto dá a ver, por
21. Cf. Gilberto Freyre.
outro lado, a importância da obra de artistas como Cícero Dias e Lula Arte e civilizações
tropicais. Publicado em
Cardoso Ayres para a configuração de seu pensamento social. Antes Vida, forma e cor. Rio de
da aquarela (Casa Grande do Engenho Noruega, 1933) de Dias para Janeiro: José Olympio,
1962.
Casa-Grande e Senzala, Freyre havia tomado conhecimento de Eu Vi 22. Cf. Idem
o Mundo... E Ele Começava no Recife (1926-1929), obra embebida da
experiência pessoal do artista na cultura do açúcar que se avizinhava
também à dimensão antropológica da obra de Lula Cardoso Ayres,
de suas fotografias a suas pinturas. Ambos exerceram papel vertebral
na constituição do imaginário freyreano do Nordeste. Constituíram,
juntos, a imagem moderna da tradição e da atualidade de uma
região, num diálogo que também demandava de Freyre uma atuação
gráfica – são vários os esboços feitos por Freyre nas conversas com
esses artistas; entre os quais um esboço para a aquarela de Dias para
Casa-Grande e Senzala.
Enquanto Gilberto Freyre imaginava uma pintura do Nordeste que Lula Cardoso Ayres
Caderno Croquis:
trouxesse a memória canavieira das “fornalhas onde arde a lenha, Boneco de Barro
[Croquis Book: Clay
para avivar o fogo [...], e os corpos meio nus em movimento, oleosos Puppet], 1944-1945

de suar, [que] se avermelham à luz das fornalhas, e assumem, na Grafite e aquarela sobre
papel [Graphite and
23. FREYRE, Gilberto.
Algumas notas sobre tensão de algumas atitudes, relevos de estátuas de carne”,23 por sua watercolor on paper],
a pintura do Nordeste
do Brasil. In: FREYRE,
vez, Lula Cardoso Ayres verá na cerâmica popular outro profícuo 22 x 32 cm. Coleção
[Collection] MAR - Fundo
Gilberto et al. Livro do
Nordeste, comemorativo
território para explorar a relação entre calor, corpo, fogo e carne. Com [Fund] Lula Cardoso
Ayres Filho
do centenário do Diário uma abordagem claramente antropológica, a partir de 1932 o artista Caderno de Desenho
de Pernambuco: 1825-
1925. Recife: Off. do frequenta terreiros e outros espaços das manifestações populares, [Drawing Book], c. 1960
Diário de Pernambuco,
1925. bem como faz viagens de pesquisa pela Zona da Mata, desenhando Grafite sobre papel
[Graphite on paper], 22
o que observava e produzindo um importantíssimo conjunto de x 32 cm
fotografias que se tornaram uma referência para a compreensão da Coleção [Collection]
Luiz Gonzaga Cardoso
história da cultura de Pernambuco. O corpo do artista imbricava-se Ayres Filho

com seu “objeto”, no que residia sua diferença metodológica diante de


Vicente do Rego Monteiro, por exemplo, cuja relação com a cerâmica
amazônica era eminentemente literária ou museológica.

Lula Cardoso Ayres


Sem título
[Untitled],1940

Fotografia [Photograph],
50 x 80 cm. Coleção
[Collection] Luiz
Gonzaga Cardoso Ayres
Filho
30-31 pernambuco Experimental - clarissa diniz PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

O método eminentemente vivencial de Lula Cardoso Ayres conferia 24. Alguns dos artistas,
escritores, dramaturgos
carnalidade a suas pinturas e seus desenhos, ao passo que lhes e jornalistas que
atuavam em Pernambuco
garantia uma dimensão antropológica até então inédita na arte de fundaram, em 1948,
a Sociedade de Arte
Pernambuco: não à toa, os desenhos que o pintor realiza no princípio Moderna do Recife
(SAMR). Tendo à
dos anos 1930 a partir de visitas aos xangôs do Recife participaram frente Feijó, Abelardo
da Hora e Ladjane
do I Congresso de Estudos Afro-Brasileiros realizado em 1934 por Bandeira, entre outros,
iniciativa de Freyre. Seu método inspiraria, ainda, um artista como a SAMR representou,
talvez, a primeira –
Abelardo da Hora em seu método da pose rápida, um desenho ágil e organizada – iniciativa
de legitimação de um
performativo realizado em terreiros, mangues, periferias e canaviais campo profissional
para a arte em
que seria a base para os preceitos estéticos do Ateliê Coletivo 24 (1952). Pernambuco por meio
da institucionalização de
Daniel Santiago Como analisava Freyre, no caso de Lula Cardoso Ayres, eram “[...] uma “classe artística”,
Cream Cracker compreensão política
Confiança, 1978 olhos transferidos para as pontas dos dedos [...]. Olhos-dedos de da cultura que Abelardo

Arte correio a partir de pintor discípulo de ceramistas rústicos. Descobrindo novas relações da Hora trouxera de
sua passagem pelo
embalagem de produto
alimentício [Mail art entre luz tropical e forma. Entre luz tropical e cores. Entre luz tropical Rio de Janeiro, onde
estivera engajado nos
made of containers of
food products]
e gentes”.25 Tratava-se, ainda, de uma importante contribuição para protestos em torno da
não realização do Salão
12 x 11 cm. Coleção
[Collection] MAR -
pensar as retroalimentações – caracteristicamente modernas – entre as Nacional de 1945.
(...)
Fundo [Fund] Z outrora denominadas “arte popular” e “arte erudita”.
Como esclarece José
Cláudio, “volta Abelardo
Na profícua obra de Lula Cardoso Ayres – também um fundamental
da Hora [...] disposto a
fundar uma sociedade
artista gráfico que se engajaria ativamente na industrialização em
de artistas para poderem
batalhar juntos e
curso na modernidade pernambucana, em que se situa sua contribuição
inclusive criar entre nós na criação de dezenas de marcas para produtos e fábricas locais –
a profissão de artista”.
É no seio desse primeiro observa-se um diálogo crucial entre fotografia, desenho e pintura.
esforço, a SAMR, que
surge, em 1952, o Ateliê As imagens fotográficas geradas pelo artista em suas andanças pelo
Coletivo. Na história da
arte de Pernambuco,
interior do estado serão a fonte primordial para sua obra gráfica. Não
o Ateliê marca não
só uma tentativa mais
apenas a documentação de tipos humanos inspirará seus desenhos
ampliada (sistêmica)
de constituição de um
– entre os quais se destaca a figuração de índios e comunidades
campo profissional para indígenas com abordagens diversas (até mesmo econômica), o que
a arte (no que concerne
ao ensino, à produção, enuncia uma preocupação política do artista – como, mais adiante,
ao pensamento, à
exibição e mesmo à a conformação estética da fotografia tal como praticada por Ayres,
comercialização da arte,
aspectos vivenciados
em sua estaticidade e nitidez de contornos, será referência para seus
na prática do Ateliê),
como também, no que
desenhos e suas pinturas posteriores, o que contrasta as soluções
ocupa papel central,
representa talvez a
plásticas de sua obra com aquelas de seu contemporâneo Cícero Dias,
mais clara distinção exímio artista do movimento, da fluidez e da continuidade.
– até o período – dos
paradigmas da arte
moderna face àqueles
da arte acadêmica,
diferenciação possível
a partir da vinculação Lula Cardoso Ayres
de um programa Caboclos TucHau do
político às investigações Carnaval do Recife
estéticas que estavam [Caboclos TucHau of
sendo perpetradas. Recife’s Carnival], 1963
Sua produção plástica
e orientação política Óleo sobre tela [Oil on
são, a despeito da canvas], 100 x 110 cm
intencionalidade Coleção [Collection]
revolucionária, Thomaz Lobo
significativamente
canônicas, razão
pela qual o Ateliê
Coletivo não foi
incluído como grupo
na mostra Pernambuco
Experimental, senão por
meio da participação
individual de alguns
de seus integrantes
eminentemente
experimentais.

25. FREYRE,
Gilberto. Prefácio. In:
VALLADARES, Clarival
do Prado. Lula Cardoso
Ayres, revisão crítica
e atualidade. Rio de
Janeiro: Recife: Spala,
1978, p. 11.
Ambos, contudo, estiveram interessados na plasticidade da arte
popular como matriz para a arte moderna. Enquanto é comum
encontrar nas pinturas de Dias a representação de animais
(especialmente bois e cavalos) dentro das referências da cerâmica
do Alto do Moura – cujo destaque é a obra de Mestre Vitalino –,
como se pode ver em Eu Vi o Mundo... E Ele Começava no Recife, em
Lula Cardoso Ayres tal interesse se expande para séries e conjuntos
inteiros, incorporando as referências da cerâmica produzida na região
26. Agradeço a Thomaz
Lobo a compreensão da
de Águas Belas.26
referência a Águas Belas
na obra de Lula Cardoso
Ayres.

Cícero Dias
Eu Vi o Mundo... E Ele
Começava no Recife [I
Have Seen the World…
And It Began in Recife],
1926 -1929 (detalhe
[detail])

Guache e técnica
mista sobre papel
kraft [Gouache and
mixed technique on
kraft paper]. Coleção
Particular [Private
Collection]

Enquanto pinturas como Partindo o Bolo (1943) e Retrato de Família


(1943) surpreendem ao apresentar cenas tradicionais da aristocracia
do açúcar representadas a partir de uma ótica popular que
reposiciona o status quo bem como o lugar da arte diante da questão
de classes, são os cadernos de estudo do artista que melhor revelam
seu processo plástico. Ali se pode perceber a volumetria da cerâmica
surgindo por entre os traços arredondados do desenho, conferindo-
lhe densidade e, assim, reorganizando a espacialidade da obra. Não
à toa, a espacialidade dos trabalhos nos quais Lula Cardoso Ayres
explora a estética da cerâmica popular diferencia-se radicalmente da
planaridade que marca grande parte de sua obra, como se pode ver
nos desenhos e pinturas de manifestações culturais como o maracatu,
cujos linhas e ângulos, por sua vez, anunciam um artista prestes a
investigar o territóro da abstração. Ao lado de Lula Cardoso Ayres e
Cícero Dias, também Vicente do Rego Monteiro orientaria seus

Lula Cardoso Ayres Tirador de Loas e Gonguê, 1930. Nanquim, guache e grafite sobre papel [China ink, gouache and graphite on paper]
44 x 32 cm. Coleção [Collection] Mamam
34-35 pernambuco Experimental - clarissa diniz PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

interesses para a cerâmica como referência para a pintura moderna;


seu enfoque, contudo, será a cerâmica marajoara.

Lula Cardoso Ayres


Partindo o Bolo
[Cutting the Cake],
1943

Guache e aquarela
sobre cartão [Gouache
and watercolor on
card],
81 x 94 cm. Coleção
[Collection] Luiz
Gonzaga Cardoso
Ayres Filho

Lula Cardoso Ayres


Retrato de Família
[Family Portrait], 1943

Aquarela sobre papel


[Watercolor on paper],
40,5 x 61,7 cm.
Coleção [Collection]
MAM - RJ
Lula Cardoso Ayres
Boneco de Barro [Clay
Puppet], 1940

Grafite sobre papel


[Graphite on paper],
54 x 64 cm Coleção
[Collection] MAR - Fundo
[Fund] Z

27. Paulo Herkenhoff.


Pernambuco Moderno. Como provoca Paulo Herkenhoff,27 talvez tenha havido outra “Semana
Recife: Instituto Cultural
Bandepe, 2006.
de Arte Moderna” naquele mesmo ano de 1922 – não em São Paulo,
mas em Paris, do que é testemunha a caricatura de Gilberto Freyre
na ocasião de seu encontro com Vicente do Rego Monteiro na capital
francesa. Os Rego Monteiro – especialmente Vicente e seu irmão,
Joaquim – realizavam investigações cuja modernidade, diferindo
do modernismo paulista então nascente, anunciava interesses de
fundamental contribuição para a cultura brasileira.

É o caso dos exercícios de Joaquim em torno da planaridade da


composição que, explorando também sua vivência cosmopolita (são
diversas suas paisagens urbanas e “cartografias”), se desdobra em
abstrações geométricas precoces no contexto da arte brasileira. Sua
desconhecida trajetória, interrompida pela morte ainda jovem, dá
a ver um contínuo processo de abstração que tem na escala urbana
sua medida e perspectiva formal, ao passo que política: as pinturas
derivam de uma simplificação acentuada de suas paisagens iniciais
– entre as quais se destacam pinturas de portos, com inscrições e
ranhuras que evidenciam uma relação concreta no campo formal.
São obras informadas pela modernidade urbanística vivenciada pelo
36-37 pernambuco Experimental - clarissa diniz PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

Joaquim do Rego
Monteiro
La Rotonde, 1927

Óleo sobre tela [Oil on


canvas], 81 x 100 cm
Coleção [Collection]
Mamam

Joaquim do Rego
Monteiro
América do Sul [South
America], 1927

Óleo sobre tela [Oil on


canvas], 81 x 100 cm
Coleção [Collection]
Mamam
Joaquim do Rego
Monteiro
Composição
[Composition], 1930

Óleo sobre tela [Oil on


canvas], 72 x 72 cm
(esquerda [left]) / 65 x
80 cm (direita [right]).
Coleção Particular
[Private Collection]

artista em Paris, bem como em sua terra natal, como evidenciado


em América do Sul (1927), na qual figuras humanas e símbolos
são esquematizados assim como o são os planos da composição,
potencialmente territórios geográficos ou contextos atmosféricos.
Em sua produção desse período, paulatinamente desaparecem as
referências ao espaço da cidade – ainda presente em pinturas como La
Rotonde (1927) – para afirmar-se uma espacialidade “pura”, de traços
cartográficos, que se dá como geometria, ao passo que permeada por
formas arredondadas que se comportam como silhuetas silenciosas,
numa espécie de abordagem melancólica em torno da cidade
moderna.

Por sua vez, Vicente do Rego Monteiro também desenvolve trabalhos


que põem em diálogo a moderna malha urbana e a planaridade
pictórica e gráfica da arte, conversa eloquente nos desenhos da
publicação Quelques Visages de Paris (1925), perspectivas aéreas da
capital francesa que trazem para o plano do desenho a experiência da
ordem social. Mais adiante, deve-se estender o olhar até a publicação
Legendes, Croyances et Talismans des Indiens de l’Amazone (1923),
cujo repertório sígnico se monta na articulação entre tradições
egípcias, marajoaras, mexicanas, chinesas. É ali, no contraste entre
culturas, que se percebe uma intencionalidade universalista que fará
com que a água esquematizada nos planos de Quelques Visages
de Paris seja ao mesmo tempo a cobra das ilustrações dedicadas
às lendas amazônicas, dois braços que por sua vez se fundem em
pinturas como Motivo Indígena (1922), na qual a planaridade aérea
– de aspecto cartográfico – soma-se a signos de origem indígena cuja
fonte de inspiração transborda também na paleta da obra.

[p. 38] Legendes, Croyances et Talismans des Indiens de l’Amazone, 1923. Adaptação de [Adaptation by] Pierre Louis Duchartre e
ilustrações de [Illustrations by] Vicente do Rego Monteiro. Paris, editions Tolmer (detalhe [detail]). Coleção [Collection] MAR - Fundo [Fund] Z
[p. 39] Vicente do Rego Monteiro, Quelques Visages de Paris, 1925. Reprodução de fac-símile editado pela [Facsimile reproduction edited by]
Imprensa Oficial do Governo do Estado de São Paulo
40-41 pernambuco Experimental - clarissa diniz PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

Legendes, Croyances et
Talismans des Indiens
de l’Amazone, 1923

Adaptação de
[Adaptation by] Pierre
Louis Duchartre e
ilustrações de
[Illustrations by] Vicente
do Rego Monteiro.
Paris, editions Tolmer
(detalhe [detail]).
Coleção [Collection]
MAR - Fundo [Fund] Z

​ s pesquisas de Vicente do Rego Monteiro em torno do “primitivismo”


A
transformam, assim, o Brasil em questão plástica moderna. A
cerâmica amazônica converte-se em interesse do artista, explorada
em volumetrias, paleta e, de modo geral, esquemas de redução
das figuras. Suas cores evocam a terra cozida – o barro, tal como
chamado no Nordeste – e a pintura indígena desses artefatos; suas
figuras emergem de volumetria similar aos relevos, ao passo que
articulam um vocabulário visual que também conhecia os bonecos
de barro do Nordeste e o cubismo tubular de Fernand Léger. No
seu repertório estavam ainda – e em momentos diferentes de sua
trajetória – a estilização comum à art déco e, sobretudo na década
de 1920, certa gramática do “retorno à ordem” que se proliferara
na Europa após a Primeira Guerra Mundial com a observância de
valores clássicos próprios até mesmo a antiguidades orientais como
a estética egípcia. Tal diversidade de referências conforma Vicente
do Rego Monteiro como um artista singular – ao qual soma-se ainda
uma profícua pesquisa no campo da poesia e da poesia visual, a ser
tratada mais adiante –, cuja contribuição para a configuração da arte
moderna brasileira se encontra ainda pouco explorada.
Vicente do Rego
Monteiro
Motivo Indígena
[Indigenous Motif], 1922

Óleo sobre madeira


[Oil on wood], 37,5 x
45,5 cm (acima [top]) /
27,5 x 38 cm (abaixo
[bottom]). Coleção
[Collection] Max
Perlingeiro
42-43 pernambuco Experimental - clarissa diniz PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

O regionalismo freyreano, bem como o retorno à ordem que


impactaria Vicente do Rego Monteiro, encerrava também uma série
de contradições políticas, que marcam a conexão entre a prática
artística e a dimensão ideológica da arte. Enquanto o movimento
europeu encontraria sua encruzilhada diante de tendências fascistas
– no caso brasileiro, muitas vezes monárquicas, como manifestada
localmente na participação editorial de Vicente na revista Renovação
–, o regionalismo alcançaria repercussão simbólica e, por sua defesa
da cultura e da sociedade do açúcar, de economia canavieira, diversas
vezes geraria posições políticas de tendências conservadoras, calcadas
na possibilidade de interpretação – indubitavelmente superficial,
contudo – das obras de Freyre como apologéticas do “mito da
democracia racial”: a ideia de que, no Brasil (e especialmente no
Nordeste), dado o intenso processo de miscigenação, as desigualdades
civis e econômicas seriam minimizadas em prol de uma convivência
parcialmente harmônica entre as classes.

Revista Renovação
[Renovação Magazine],
1939 - 1942. 32 x
23 cm

Coleção [Collection]
Biblioteca Pública de
Pernambuco

A despeito da ênfase sob tal mito ser habitualmente derivada de uma


leitura desatenta, incapaz de lidar com as ambiguidades de suas
obras, decerto é exemplo da trajetória ideológica das concepções
regionalistas o percurso político do próprio Freyre, que seria candidato
a deputado federal pela União Democrática Nacional (UDN) – vide o
cartaz de sua candidatura, ilustrado por Lula Cardoso Ayres – e, mais
tarde, favorável ao regime militar.

Lula Cardoso Ayres (projeto gráfico / graphic project). Cartaz da candidatura de Gilberto Freyre a deputado federal [Poster for
Gilberto Freyre as federal deputy candidate], 1945. 98,5 x 68,5 cm. Coleção [Collection] Luiz Gonzaga Cardoso Ayres Filho
Assim como parte da obra de Cícero Dias fará uma crítica social ao
imaginário e à economia do açúcar, como nas pinturas Condenação
dos Usineiros (década de 1930) e Os Senhores das Terras (década de
1920) – nas quais os conflitos de classe são tema central –, por sua
vez, a crítica cultural do pensamento de Gilberto Freyre foi elaborada
por alguns dos artistas de Pernambuco, em especial por Jomard Muniz
de Britto, cujo tropicalismo se dará, a partir dos anos 1970, como
contraste e sátira das concepções regionalistas, tal como no vídeo O
Palhaço Degolado (1977) ou Inventário do Feudalismo Cultural ou
uma Ficção Histórico Existencial (1978). O ácido texto de O Palhaço
Degolado, de autoria de Wilson Araújo de Souza, não permite que
descansem as inquietações que a arte deve ter contra sua própria
cultura. Na figura de um palhaço que percorre a Casa da Cultura
de Pernambuco (antigo presídio) enquanto em seu discurso trafega
por encruzilhadas políticas e estéticas da cultura do estado estão
postas questões que precisam não ser caladas: “Recife de todas as
sofríveis promessas / dos novos complexos portuários aos / seculares
desejos des-reprimidos / ontem casa de detenção: exposta em seu
cruel miserabilismo / hoje casa da cultura: transposta no mais dócil
folclorismo / ontem e hoje: casa de detenção da cultura”.

Jomard Muniz de Britto/


Raul Córdula
Série O País da
Saudade, década de
1980 [The Land of
Longing series, 1980s]

Fotocópia e colagem
sobre papel [Photocopy
and collage on paper],
40 x 30 cm Coleção
[Collection] MAR - Fundo
Raul Córdula

Cícero Dias Os Senhores das Terras [The Owners of the Lands], c. 1920. Aquarela sobre papel [Watercolor on paper], 50 x 46 cm. Coleção Particular [Private Collection]
Jomard Muniz de Britto
O Palhaço Degolado
Contudo, os problemas regionais não cessaram de se fazer urgentes
[The Decapitated
Clown], 1977
e de ampliar seu papel político, no que Freyre continuou a ter um
Vídeo [Video], 9’22’‘
papel relevante ao longo da vida. Como parte de sua atuação como
Coleção [Collection] deputado federal, fundou, em 1949, o Instituto Joaquim Nabuco
MAR - Fundo [Fund]
Jomard Muniz de Britto de Pesquisas Sociais (atualmente, Fundação Joaquim Nabuco),
dedicado à pesquisa e à melhoria das condições de vida na região
agrária do Nordeste brasileiro, no seio do qual são ainda hoje
desenvolvidos projetos sobre o Nordeste, o sertão e suas múltiplas
dificuldades – entre elas, a seca, a fome e a educação, temas que
encontrarão significativa reverberação entre outros autores e artistas
de Pernambuco.

É o caso de Geografia da Fome, publicado em 1946, livro no qual


Josué de Castro reúne pensamentos e pesquisas desenvolvidas desde
os anos 1930, a partir das quais analisa a fome como problema
histórico, advindo da contundente desigualdade social do Brasil.
Mais tarde ampliaria suas pesquisas em âmbito global, publicando
Geopolítica da Fome (1951), no qual reafirma a fome não como
consequência do aumento populacional ou da ausência de recursos
alimentares, mas como efeito dos desequilíbrios da distribuição do
capital. Tendo sido criada próximo aos manguezais do Recife, sua
obra refletia, assim, as preocupações de quem conhecera a miséria e
compreendera que a ciência, o pensamento social, assim como a arte,
poderiam ser armas de luta contra as circunstâncias mantenedoras
de uma sociedade desigual. Ombreados com as preocupações de
Josué de Castro estiveram muitos artistas, como Abelardo da Hora –
que ilustrara uma de suas edições com sua série Meninos do Recife
(1962), criada durante o período em que o artista estava atuando
no Movimento de Cultura Popular –, José Cláudio, Paulo Bruscky,
Unhandeijara Lisboa, Daniel Santiago, entre outros, transformando o Abelardo da Hora
Álbum Meninos do
problema social da fome num dos territórios políticos da arte praticada Recife [Kids from Recife
Album], 1962
em Pernambuco sobretudo a partir dos anos 1950. Ideologicamente,
28. BRITTO, Jomard
contudo, a fome se mantém como um campo de problemas dos Nanquim sobre papel
[China ink on paper],
Muniz; LEMOS, Sérgio.
Inventário de um
quais não foge a arte, como sintetizou Jomard Muniz de Britto em 58 x 48 cm (cada, com
moldura [each, including
feudalismo cultural. 1979: “como diferenciar / na culinária do opressor / o alimento do frame]). Coleção
[Collection] Mamam
Recife: Gráfica Nordeste,
1979. oprimido?”.28
29. Silke Weber
em entrevista ao
Mais adiante, no começo dos anos 1960, uma aliança política em
Departamento de
Sociologia da UFPE,
âmbito nacional, estadual e municipal propiciou, em Recife e em
Recife, junho de 2009.
In: Juliana Rodrigues de
Pernambuco (bem como noutras partes do Nordeste), algumas
Notas com design de
Lima Lucena. Do lar ao experiências significativas no campo da educação popular e cultural. Aloísio Magalhães/Casa
largo: novas relações da Moeda do Brasil
de gênero e poder no Um dos marcos desse contexto foi o Movimento de Cultura Popular [Banknotes designed by
cenário cultural e político
do Recife (1955-1964). (MCP), dedicado a “elevar o nível cultural dos instruídos para melhorar Aloísio Magalhães/Casa
da Moeda do Brasil]
Dissertação apresentada
ao Departamento
sua capacidade aquisitiva de ideias sociais e políticas”, ampliando “a Cédula de cem cruzeiros
de Letras e Ciências
Humanas, Programa
politização das massas, despertando-as para a luta social”.29 Artistas com retrato do Duque
de Caxias [One hundred
de Pós-Graduação
em História Social da
e intelectuais agruparam-se em torno das ações – apresentações, cruzeiros banknote with
portrait of the Duke of
Cultura Regional da oficinas, cursos, exposições, edições de livros e cartilhas – do MCP, Caxias], 1981-1987
Universidade Federal
Rural de Pernambuco entre as quais se destaca o trabalho de alfabetização do qual estava Cédula de duzentos
(2010).
à frente Paulo Freire, que se engajara na iniciativa levada adiante por cruzeiros com retrato
da Princesa Isabel
Germano Coelho e outros colaboradores. [Two hundred cruzeiros
banknote with portrait of
Princess Isabel], 1981-
1987

Impressão em papel
moeda [Print on money
paper], 7,5 x 15 cm
Coleção [Collection]
MAR - Doação de
[Donated by] Luiz
Guimarães

Ministério da Educação
e [and] O Cruzeiro
Projeto gráfico [Graphic
design] Aloísio
Magalhães
Cartilha abc, 1962

Impressão offset sobre


papel-jornal [Offset print
on newsprint]. Coleção
[Collection] Clarice
Magalhães

José Cláudio Primeiro a Fome Depois a Lua [First Hunger then the Moon], 1968. Tinta a óleo sobre eucatex [Oil on MDF], 82 x 62 cm
Coleção [Collection] MAR - Fundo [Fund] Z
Uma espécie de célula político-cultural em ebulição, o MCP foi
fechado com a instalação do regime militar em 1964 – suas ideias e
experimentações ecoariam, contudo, em pensamentos e políticas que
se estendem aos dias de hoje, no Brasil e no mundo, a exemplo do
método de alfabetização Paulo Freire. Desde então, a educação torna-
se uma questão de grande atenção dos artistas pernambucanos, que Daniel Santiago
se engajam em processos educacionais – a exemplo da colaboração Série Exercícios de
Caligrafia [Caligraphy
entre Abelardo da Hora, Aloisio Magalhães, Jomard Muniz de Britto e Exercises series], 2002

Paulo Freire – ao passo que estão criticamente atentos às implicações Desenho e impressão
offset sobre papel
ideológicas do ato de educar. É marco desse interesse pela educação [Drawing and offset print
on paper], 34 x 25 cm
e, mais especificamente, pela alfabetização, uma série de exercícios (cada uma, com moldura
caligráficos por parte dos artistas dos anos 1960 e 1970. De alfabetos [each one, including
frame]). Coleção
reinventados à criação de tipos, o letramento torna-se um ponto de [Collection] MAR - Fundo
[Fund] Z e Fundo [Fund]
partida para experimentações sígnicas mais amplas, como nas séries Daniel Santiago

de Alfabetos de Daniel Santiago (décadas de 1980 e 1990).

Para além da provocação direta face à alfabetização, a gestualidade,


o improviso e a emancipação sígnica da arte são interesses de artistas
tão diversos quanto Cícero Dias, Vicente do Rego Monteiro e Montez
Magno. Em Pernambuco, no final dos anos 1950, Vicente do Rego
Monteiro desenvolve uma série de monotipias que variam entre uma

Aloisio Magalhães Cartazes para Meio Rural (Governo Arraes) [Posters for the Countryside (Arraes Government)], 1963 - 1964. Impressão offset [Offset print]
Coleção [Collection] João Souza Leite
52-53 pernambuco Experimental - clarissa diniz PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

figuração abstratizada e um experimento de embate gestual com


a tinta e o espaço gráfico. Enquanto certamente tinha em mente
um diálogo com o tachismo e o expressionismo abstrato, sem que
se conhecessem, estabelecia também um paralelo com a obra do
jovem Montez Magno, à época criando uma série de monotipias
30. Depoimento de
sob a orientação experimental de Aloisio Magalhães: “ele [Aloisio] Montez Magno a
me ensinou e me estimulou a usar materiais diversificados (estilete, Clarissa Diniz (6 mar.
2009). In: DINIZ,
gilete, pedaços de madeira, pano e, às vezes, o dedo) para ir abrindo Clarissa (org). Montez
Magno. Recife: Grupo
caminho na tinta”.30 Paés, 2010.

Vicente do Rego Monteiro


Acrobatas [Acrobats],
A não figuração moderna encontrava-se, portanto, além da geometria.
1955 Outras modernidades eram experimentadas por meio da pincelada
Monotipia sobre papel
[Monotype on paper],
livre, da “arte sem régua”, da improvisação no espaço da composição,
63 x 52 cm. Coleção bem como dos modos de pintar. Sem os ângulos retos, a matéria
[Collection] Thomaz Lobo
pictórica vem à tona e adquire importância, densidade e significação.
Montez Magno
Série Monotipias Passeando pela superfície, o gesto, a pincelada, o traço e as formas
[Monotypes series], 1958
por vezes tornam-se signos, inventando espécies de caligrafias ou
Tinta de impressão sobre
papel [Inkjet on paper],
ideogramas. Noutras vezes, arranham a superfície, rasgam a matéria
32 x 38,5 cm. Coleção
do artista [Artist’s
da tinta e, assim, enfatizam o caráter não representacional da arte
collection] para além do princípio da “forma pura”, da geometria.

Cícero Dias Cena Vegetal [Vegetal Scene], 1944. Óleo sobre tela [Oil on canvas], 80 x 60 cm. Coleção [Collection] Roberto Marinho
54-55 pernambuco Experimental - clarissa diniz PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

Nesse rico território de experimentação que se estende ao


contemporâneo – e que, expandindo-se para além da pintura ou do
desenho, se faz carimbo, vídeo, fotografia, livro, performance,
xerox –, ressalta-se a importância de Vicente do Rego Monteiro
e Aloisio Magalhães como incentivadores da constante revulsão
das estratégias da linguagem e dos meios. As presenças da obra
experimental de Vicente do Rego Monteiro – que também fez poesia,
ilustração, edição, experiências sonoras – e da força agregadora
Paulo Bruscky
Álbum Expressão de Aloisio Magalhães e Gastão de Holanda em torno da editora O
Alinhavada [Basted
Expression Album], Gráfico Amador são irradiadoras de uma pulsão experimental que,
1978.
atravessando os anos 1950, será de absoluta importância para as
Livro de artista
[Artist’s book]
décadas posteriores, a exemplo da influência vertebral que exerceram
12,5 x 19 cm
Coleção [Collection]
sobre Paulo Bruscky, artista de marcada verve experimental.
Galeria Nara Roesler Experimentar encontra, assim, um lugar social como um gesto da arte.

Montez Magno Série Fragmentações [Fragmentation series], 1964. Óleo a seco sobre papel [Dry oil on paper], 71 x 100 cm
Coleção [Collection] MAR - Fundo [Fund] Montez Magno
56-57 pernambuco Experimental - clarissa diniz PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

A história da gestualidade na produção artística de Pernambuco –


que tem pontos de grande investigação nas séries Caatinga (1963)
e Fragmentações (1963) de Montez Magno, bem como em vídeos de
Ypiranga Filho (Dinâmicas do Traço I, II e III, 1967) e obras de Paulo
Bruscky, como Aépta (1982) ou parte significativa de sua pesquisa com
máquinas fotocopiadoras nos anos 1970 e 1980 – tem precedentes
num importante marco do qual Cícero Dias é o personagem central.

Montez Magno
Da série [From the
series] Caatinga, 1963

Documentação
fotográfica de obra
destruída [Photographic
documentation of
destroyed work].
Coleção [Collection]
Montez Magno

Nos anos 1940 e 1950, o debate entre regionalismo e modernidade


estava posto nacionalmente, provocando as mais variadas respostas
e posições por parte do público, da crítica e dos artistas. No Recife,
desse processo de disputa em torno da modernidade são ícones
os murais projetados por Cícero Dias para o edifício da Secretaria
da Fazenda e sua exposição retrospectiva na Faculdade de Direito,
ambos em 1948. Ao produzir imagens de significados ambivalentes
e explorar a geometria, o artista reorientava o norte da discussão
regionalista que estava então pautada na “representação do
Nordeste” em termos eminentemente sociais e antropológicos. Assim,
a questão moderna para Pernambuco despregava-se da “figuração
regional” – afastando-se de uma espécie de “pintura de gênero”
– e se tornava “forma ecológica”, capaz de responder sensível e
criativamente ao seu contexto.
Lula Cardoso Ayres
Boi [Bull], 1945

Óleo sobre tela [Oil


on canvas], 150 x
72,5 cm (com moldura
[with frame]). Coleção
[Collection] MAR -
Fundo [Fund] Z
(p. 58 - 60) Cícero Dias Murais [Murals at] da Secretaria da Fazenda, 1948. Reprodução fotográfica dos murais [Photographic reproduction of the murals]
60-61 pernambuco Experimental - clarissa diniz PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

O outrora encantador “menino de engenho” não deixaria de


experimentar uma negativa repercussão quando sua obra atravessasse
essa inflexão. Em sua exposição retrospectiva de 1948 foram
apresentadas pinturas da década de 1940 que (con)fundiam imagens
e sentidos por meio de um surrealismo de eixo linguístico: Guarda-
Chuva ou Instrumento de Música (1943), Galo ou Abacaxi (c.1940),
Moça ou Castanha-de-caju (1946) e Mamoeiro ou Dançarino (década
de 1940). Avizinhado ao conde de Lautréamont (que descrevera
a beleza de um rapaz como o “encontro casual de uma máquina
de costura e um guarda-chuva numa mesa de dissecações”, verso
posteriormente citado em obra do surrealista Man Ray), esses quadros-
paradoxos substituíam o elemento industrial do encontro proposto pelo
conde por frutas tropicais. Nessa operação, criavam uma ambivalência
no campo dos significados que, à época da exposição, inquietou o
público do Recife.
Diante do alvoroço causado pela exposição retrospectiva do
artista na Faculdade de Direito do Recife, a edição de dezembro
daquele ano da revista Região foi integralmente dedicada a debater
diversos aspectos de sua obra – da ambivalência da significação à
radicalidade da abstração geométrica, da relação entre erudição e
hermetismo ao papel político da arte. Do corpo de textos publicados
na revista destaca-se “Pernambuco, Cícero Dias e Paris”, do crítico
pernambucano (radicado no Rio de Janeiro) Mário Pedrosa, para
o qual os trabalhos de Dias articulavam uma experiência ecológica
do Nordeste com um processo de reducionismo formal: “dos temas
regionais só restou realmente o que era do domínio plástico: certas
formas vegetais e arquitetônicas tiradas da paisagem pernambucana,
sobretudo recifense, e certas cores locais, azuis e amarelos que
31. Mário Pedrosa em
Pernambuco, Cícero Dias
resistem a qualquer luz”.31 Por entre as discussões publicadas em
e Paris. Recife: Revista
Região, dezembro de
Região entrevê-se, mais adiante, também um retrato – ainda que
1948. estereotipado – da recepção da arte moderna no Recife, como
mencionado no mesmo texto de Pedrosa: “Recife reagiu com vigor à
experiência de Cícero. [...] As famílias burguesas perderam o sossego;
homens sisudos e pequenos burgueses moralistas não compreendiam
como é que se havia aberto o Salão Nobre da Faculdade de Direito,
tão vetusta, guardiã das mais respeitáveis tradições, àquelas
garatujas e monstros. Para a boa gente, Cícero era um pernambucano
32. Idem endiabrado, que se perdera em Paris em más companhias”.32

Revista Região,
33 x 24 cm
Dezembro de 1948
[December 1948]

Coleção [Collection]
Fundaj / Acervo
Biblioteca Central
Blanche Knopf
Cícero Dias Moça ou Castanha-de-Caju [Lady or Cashew Nut], 1946. Óleo sobre tela [Oil on canvas], 105 x 125 x 10 cm (com moldura [with frame])
Coleção [Collection] Waldir Simões de Assis Filho
Cícero Dias Galo ou Abacaxi [Rooster or Pineapple], c. 1940. Óleo sobre tela [Oil on canvas], 100 x 80 cm
Coleção [Collection] Ivo Pitanguy
64-65 pernambuco Experimental - clarissa diniz PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

Somavam-se à força de sua exposição de 1948 também os murais


criados pelo artista para o edifício da Secretaria da Fazenda de
Pernambuco, cuja construção se iniciou em 1941. Executados em
1948, são provavelmente os primeiros murais abstratos da América
Latina e evidenciam como o artista transformou aspectos singulares
da paisagem de Pernambuco – a luz, o canavial, as frutas tropicais,
o porto, a praia, o Rio Capibaribe, os engenhos – num repertório de
formas geométricas cuja intensidade luminosa remete à tropicologia
concebida por Gilberto Freyre em 1965, interessado em observar o
modo como a zona tórrida do globo, entre os trópicos de Câncer e de
Capricórnio, informava a arte, ainda que reconhecesse que “o mundo
é vasto e muito diverso nas suas cores e nas suas formas, nos seus
climas e nos seus ambientes. O puro fato de nascer um indivíduo no
Brasil não o abriga a ser, como artista, um entusiasta do sol forte,
da luz crua e das cores quentes”.33 O mural e a exposição marcam, 33. FREYRE, Gilberto.
Arte, ciência social e
assim, a complexificação de um projeto estético que, podendo ser sociedade. Revista da
Escola de Belas-Artes
lido sob a chave do regionalismo, expande-se para além dessa de Pernambuco. Recife:

circunscrição para se fazer como modo relacional de entendimento Escola de Belas-Artes de


Pernambuco, 1958, p.
e prática da arte, o que fará de Pernambuco um território onde o 17-30.

construtivismo se reinventa em paralelo à sua face de abstração de


ênfase industrial.

Assim como no começo do século, tais questões e sua relação com a


região – como a problemática da industrialização diante da ruralidade
– colocam-se também em âmbito urbanístico. Um dos marcos desse
processo é a DAC, criada em 1934 pelo governador Carlos de Lima
Cavalcanti, que transformou o então setor de Obras Públicas – braço
urbanístico do governo – em Diretoria de Arquitetura e Construção
(DAC). Sob a gestão de Luiz Nunes, a DAC interviu radicalmente no
urbanismo do Recife, instaurando um pensamento moderno sobre a
cidade que, como colocado pelo próprio, compreendia a “arquitetura
[...] como uma preocupação administrativa, uma demonstração de
cultura e espírito, muita coisa de humano e social”.34 Apesar de sua 34. Nunes, Luiz.
Portaria nº 14. Diretoria
curta duração, à atuação da DAC somou-se a efervescência intelectual de Arquitetura e
Construção, 4 de
da cidade em termos do debate urbanístico, como entrevisto, por dezembro de 1935. In:
Alcântara, Antonio Pedro
exemplo, em alguns projetos individualmente assinados por Luiz Gomes. Luiz Nunes.
Arquitetura. Revista do
Nunes, entre os quais se destaca o reservatório de água de Olinda Instituto de Arquitetos do
(1934), concebido com soluções absolutamente inovadoras à época, Brasil, n.13, jul. 1963,
p. 5.
como pilotis e combogós – estratégias posteriormente exploradas pela
arquitetura brasileira, a exemplo dos edifícios de Brasília.
Anônimo [Anonymous]
Reservatório de água
de Olinda [Water
reservatoir in Olinda],
c. 1945

Coleção [Collection]
Cehibra / Fundaj

Mais adiante, é desse período a presença, no Recife, do paisagista


Roberto Burle Marx, que na cidade desenvolveu os projetos da Praça
de Casa Forte e do Largo Benfica, onde utilizou plantas advindas da
Amazônia e da caatinga, respectivamente. Tratava-se, assim, de um
momento de especial experimentação da arquitetura, tendo em vista
a percepção de especificidades ecológicas e culturais capazes de
reinventar aspectos tão diversos quanto as tecnologias de construção,
dos modos de iluminação, de ventilação ou de decoração de uma
cidade.

As preocupações freyreanas em torno da necessidade de pensar


ecologicamente em termos urbanísticos alimentaram, mais tarde,
também o projeto do arquiteto Acácio Gil Borsoi para a comunidade
de Cajueiro Seco, no Recife. Iniciado em 1962 – mas suspenso com
a instalação do regime militar, em 1964 –, tratava-se um projeto de
habitação popular baseado numa técnica vernacular e difundida
de construção, a taipa (barro armado), típica das localidades de
baixa renda de todo o Nordeste. Escolhida por suas características
construtivas, bem como pelo fato de ser uma técnica largamente
conhecida e dominada pela população – que construiria as casas
em regime de mutirão –, o projeto coordenado por Borsoi realizava
pesquisas de otimização do uso desse material e técnica quando da
suspensão das atividades, cuja ambição era, assim, rever criticamente
também os paradigmas da arquitetura e do urbanismo.
(p. 66 - 67) Acácio Gil Borsoi Documentação referente ao projeto Cajueiro Seco, s.d. [Documentation of the Cajueiro Seco project,
undated] Artigo de Lina Bo Bardi para a revista Mirante das Artes | Fotografias da construção das casas [Lina Bo Bardi article for
the magazine Mirante das Artes | Photographs of the construction of the houses]. Coleção [Collection] Roberta Borsoi
68-69 pernambuco Experimental - clarissa diniz PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

É a partir de questionamento vizinho que, em 1985, Gilberto Freyre


retoma suas reflexões sobre o projeto de Brasília, o qual ele reconhece
como “esteticamente primoroso, sim”,35 refazendo, contudo, outras 35. Gilberto Freyre em
Brasília e Lucio Costa. O
perguntas: “Mas a adaptação do projeto estético a circunstâncias Estado de S. Paulo. São
Paulo, 3 fev. de 1985.
brasileiras? Por que o modelo inspirado por centro europeu imposto,
sem mais aquela, ao trópico brasileiro? Por que o abuso de vidros,
Aloisio Magalhães /
Eugene Feldman
nos edifícios que deviam ser seguidos como modelos de arquitetura
Doorway to Brasília,
1959
única, que tornaram difícil a vivência neles, brasileiramente à vontade,
de futuros moradores? Por que a carência de espaços para lazer?
Impressão offset [Offset
print], 28 x 84 cm. Por que a carência de espaços para solidariedades urbanas?”.36 Seus 36. Idem
Coleção [Collection]
Clarice Magalhães questionamentos faziam a crítica de um pensamento urbanístico que
fosse prioritariamente estético, sublinhando a necessidade de pensar
as cidades “socioecologicamente” – ou seja, considerando os mais
diversos aspectos de seu contexto geográfico, social, cultural etc. Caso
contrário, adverte, estaremos adotando “o mais antibrasileiro, o mais
37. Idem
antiecológico, o mais antitropical dos modelos”37 de urbanidade.

Nesse processo de esgarçamento dos referenciais regionalistas


também em escala urbanística, pode-se compreender o esforço de
Cícero Dias – na sequência das investigações de Vicente e Joaquim
do Rego Monteiro – para o estabelecimento de outras trajetórias
possíveis para os problemas da forma abstrata que tomavam também
os artistas de São Paulo e do Rio de Janeiro, os quais estavam mais
próximos dos referenciais construtivos que logo configurariam o
terreno do debate entre concretismo e neoconcretismo. Distante da
lógica do suprematismo, do neoplasticismo ou da arte concreta,
Cícero Dias atribuía à cor um protagonismo singular na composição
geométrica então praticada no país. Como em suas aquarelas dos
anos 1920 e 1930, seus experimentos são estridentes e inclassificáveis,
numa audácia antieconômica que faria, por exemplo, com que
Waldemar Cordeiro, artista concreto de São Paulo, afirmasse julgar
38. CORDEIRO,
Waldemar. Ruptura.
“hedonista o não figurativismo do sr. Cícero Dias”.38
Correio Paulistano. São
Paulo, 11 jan. 1953,
p. 3. Tal desobediência aos cânones então em voga noutras partes do Brasil
encontrará ecos – e antagonismos – em artistas que, nos anos 1950
e 1960, constituíram em Pernambuco um campo de livre investigação
da abstração, da geometria, da cor, da forma e da participação do
espectador, a exemplo de Montez Magno. Prolificamente experimental,
o artista terá um papel fundamental: sua obra compreende que
momento histórico do modernismo estava se concluindo e, assim,
enfrentando inventivamente os paradigmas modernos, elabora
percepções e problemas que em Pernambuco serão propulsores do
conjunto de experimentações da arte contemporânea.

É curioso perceber o papel das operações de redução ou estouro sobre


a vegetação que são cruciais para as experiências abstratizantes de
Cícero Dias, Aloisio Magalhães, Ladjane Bandeira ou Montez Magno.
Para este último, por exemplo, na série Negra (1961-2007) ou em
seus Desenhos Gestuais (1962), um olhar de pretexto cientificista
resultaria num exercício formal de cunho fenomenológico: “a série
surge como desenvolvimento de formas vegetais, só que eu vou
Cícero Dias
Convergir [To
Converge], 1954

Óleo sobre tela [Oil on


canvas], 98 x 80 cm
Coleção [Collection]
Geneviève e Jean
Boghici

Composição
Geométrica [Geometric
Composition], 1958

Óleo sobre tela [Oil on


canvas], 116 x 73 cm
Coleção [Collection]
Fadel

Montez Magno
Caixa II [Box II], 1967

Tinta sobre madeira


[Paint on wood], 39 x 22
cm (fechada [closed]).
Coleção [Collection]
Galeria Pilar
fazendo um processo reducionista, deixando somente os troncos.
Desses troncos, eu fiz dezenas de desenhos que vão sendo cada vez
mais reduzidos a formas de frutos negros, até que eu faço trabalhos
39. Depoimento de
Montez Magno a
em que desaparecem os frutos, e ficam só as manchas negras”.39
Clarissa Diniz (7 mar.
2009). In: DINIZ,
Como afirmava o crítico de arte e físico Mário Schenberg, cuja casa
Clarissa (org). Montez o artista frequentou nos primeiros anos da década de 1960, “[...]
Magno. Recife: Grupo
Paés, 2010. a pintura de Montez começou a se enriquecer com a temática da
espacialidade e do vazio musical. [...] Seus desenhos grandes [...],
com seus traços grossos funcionando como fibras condutoras de fluxos
orgânicos, dão autênticos arquétipos vitais. A série dos pequenos
desenhos de tendência caligráfica oriental de 1961 revela uma nova
40. SCHENBERG,
Mário. Fôlder de
sensibilidade: o ritmo orgânico é captado interiormente”.40
exposição de Montez
Magno. São Paulo:
Casa do Artista Plástico,
1963.

Ladjane Bandeira
Sem título [Untitled],
1958

Óleo sobre papel [Oil on


paper], 62 x 99 cm
Coleção [Collection]
Instituto Cultural Ladjane
Bandeira

Nesse processo de “interiorização” que levara a “desenhos de


tendência caligráfica”, o foco de Montez Magno não estava, contudo,
precisamente nas formas que ali se constituíam em pretensos signos,
41. PEDROSA, Mário.
Da caligrafia ao plástico.
mas nos processos que lhe possibilitavam o surgimento. Como
Jornal do Brasil. Rio de apontava Mário Pedrosa, “quando o signo surge em sua pureza
Janeiro, 7 fev. 1958.
potencial, fora de qualquer contexto verbal linguístico, para ser
42. Ver página 56.
Pintar sobre papel significante e único no plano do símbolo estético, é sempre fruto de
canson de bobina
foi um procedimento uma violência inicial necessária, de um impulso energético que lhe
compartilhado por
Montez Magno e
dá nascimento”. Interessado eminentemente por essa “violência do
Anchises Azevedo, seu
companheiro de ateliê,
impulso energético”,41 Montez realiza as pinturas em bobina da
em Olinda, no começo série Caatinga (1963, hoje não mais existentes),42 na qual explode
dos anos 1960.
72-73 pernambuco Experimental - clarissa diniz PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

os frutos e as paisagens nordestinas que, fragmentados, se tornam


significantes desgarrados. Na sequência, destrinchando a própria
lógica de construção desses significantes, surgem as Fragmentações
(1963): “Fundamentalmente, é como se eu quisesse ver o que ocorria
Montez Magno dentro da matéria, uma espécie de atomização. [...] Depois disso, em
Desenho Gestual
[Gestural Drawing], 1966, essa fragmentação ganha um suporte tridimensional, quando
1962
surgem os relevos. Eles são a fragmentação tridimensional da forma.
Tinta de impressão
sobre papel [Inkjet on
Eu descobri que essas coisas estavam ligadas aos fótons. Quis alongar, 43. Depoimento
paper], 100 x 70 cm. depois, a fragmentação, como se fossem ondas”,43 donde surgem, por concedido a Clarissa
Coleção [Collection] Diniz no dia 6 de mar.
Galeria Pilar sua vez, as peças da série Bacchianas (1966). de 2009.
Montez Magno Série Bacchianas, 1964. Caneta hidrográfica sobre cartão duplex [Hydrocolor pen on double card], 111 x 76,5 cm (cada uma [each one])
Coleção [Collection] Galeria Pilar

Compostas de traços e manchas que ocupam – homogeneamente,


sem direção ou centro – suas respectivas superfícies, as pinturas das
séries Caatinga e Fragmentações comungavam preocupações com as
pesquisas que desde a década de 1950 vinha desenvolvendo, por
exemplo, o cearense Antônio Bandeira. Se, segundo o crítico Paulo
Herkenhoff, as pinturas de Bandeira “representam um novo programa
construtivo na arte brasileira, diferente do concretismo ou da arte
44. Pincelada, Pintura
e Método: Projeções
geométrica em geral”,44 as experimentações de Montez Magno eram
da Década de 50.
Curadoria de Paulo
parte da contribuição pernambucana para a construção desse novo
Herkenhoff. São Paulo: programa. Coincidentemente, na Paris dos anos 1960, Cícero Dias
Instituto Tomie Ohtake,
2009. também se desviava de sua ácida e angulosa geometria de então
74-75 pernambuco Experimental - clarissa diniz PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

na curta série de pinturas Entropia, na qual a tinta organicamente se


entrega à agitação da gravidade.

A trajetória de sua abstração encontraria, ainda, outras rotas. A


série Morandi (1964) é emblemática de uma posição estética que visa
escapar aos riscos de exotização da luz e da cultura brasileiras – ou
nordestina – que circunda, por exemplo, a obra geométrica de Cícero
Dias. Antitética à tropicalidade cromática da geometria de Dias, a
suave ordenação racional da série Morandi toca a noção de geometria
sensível da América Latina, interessada em uma regência intuitiva
Montez Magno
das formas. Produzida na Itália, a série torna visível o encantamento
Série [Series] Morandi, comovido em terra estrangeira do então jovem Montez Magno, o qual,
1964
distanciando-o do regionalismo, por outro lado o mantém em diálogo
Tinta industrial sobre
madeira [Industrial com as preocupações ecológicas que se mantinham efervescentes em
paint on wood],
28 x 25 cm (cada uma Pernambuco: “eu não sou nacionalista, nem sou regionalista, nem
[each one]). Coleção
do artista [Artist’s
sou bairrista. [...] Você pode fazer coisas ligadas à região – como
45. Depoimento em
collection] eu fiz. [...] Mas isso me interessa estando aqui ou, por exemplo, na entrevista a Clarissa
Wishlist Cisjordânia”.45 Diniz, em 6 mar. 2009.
Tais pinturas se desenvolvem sobre a herança morandiana de uma
experiência existencial do espaço que, para além da perspectiva
euclidiana, revela o “espaço da consciência como realidade
46. ARGAN, Giulio
Carlo. Arte Moderna:
concreta”.46 A sugestão de um espaço que transborda o limite da
do iluminismo pintura é evidente. Longe das malhas geométricas ou de acepções
aos movimentos
contemporâneos. físicas da forma, os elementos que flutuam na série Morandi são como
Tradução de Denise
Bottmann e Frederico pequenas partes de um cosmos – quase sempre de um azul primaveril
Carotti. São Paulo:
Companhia das Letras, – que captamos nos recortes que nos são possíveis. Complexificando
1992.
a deriva espacial que o artista iniciara em Caatinga, Fragmentações e
com colagens de 1962, a série Morandi encara o vazio como matéria,
numa conversa com o vazio-pleno de Lygia Clark. As inclinações
de seus quase quadrados, quase retângulos e quase retas fazem
vislumbrar um movimento contínuo: naquele universo pictórico e
existencial, o fundo não é vácuo, mas ar. Dessa forma, instâncias
privilegiadas no discurso político de Montez Magno, a cor e a forma
serão por ele intensamente experimentadas num “construtivismo” que
ocupa lugar singular na história da arte brasileira, do qual participam
ativamente as Caixas desenvolvidas pelo artista a partir de 1967.

Numa possível resposta à sensação de aprisionamento durante a


ditadura – presente também em O Ovo (1969) e MMMausoléu (1969)
–, nas Caixas a experiência de espaço da série Morandi se transforma
em espacialidade mondrianesca: rígida, objetiva e aparentemente
homogênea, senão por sua dimensão participativa. Retornam das
primeiras abstrações feitas por Montez nos anos 1950 os ângulos
retos, o cromatismo saturado, os limites dados a priori, a grade. A
série surge como apropriações de estojos escolares colados e pintados,
trabalhos que se realizam na manipulação do público. As Caixas
anunciam uma preocupação que mobilizará parte significativa de sua
obra: “O espaço-tempo e a cor-luz serão cada vez mais os elementos
47. Trecho de Testo
e Contesto, texto que os artistas utilizarão em suas obras”,47 levando o artista a
de Montez Magno,
publicado em fôlder de explorar a dimensão participativa do outro na experiência estética,
exposição individual do
artista na Petite Galerie.
posto que, para Montez, “a meta da arte é de se reintegrar com a
Rio de Janeiro, 1970. vida, de tal forma que todos possam participar criativamente de tudo
48. MAGNO, Montez. o que for feito pelo homem para o homem”.48 A prática artística teria
Depoimento. Fôlder de
exposição individual do o “poder de levar o espectador a uma ação”, processo que “implica
artista. Rio de Janeiro:
Ibeu, 1968. uma tomada de posição filosófica, da parte do artista (e também
do público) (...), estendendo-se a todos e desenvolvendo a nossa
capacidade perceptiva” – preocupação que atravessa diversas de suas
obras, a exemplo de Escultura Manipulável (1968-1970), formada por
longas placas de alumínio e de cartão betumado, disponíveis para
manipulação.
76-77 pernambuco Experimental - clarissa diniz PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

Montez Magno Caixa I [Box I], 1967 Madeira policromada [Polychrome wood], 30,5 x 22,8 x 3 cm. Coleção [Collection] MAR - Doação Fundo Z [Z Fund donation]
Montez Magno Caixa II [Box II], 1968 Madeira policromada [Polychrome wood], 20,5 x 22,5 x 4 cm. Coleção [Collection] MAR - Doação Fundo Z [Z Fund donation]

Diferentemente de Bichos (1960), de Lygia Clark, o trabalho de Magno


diminui a presença/marca do artista ao não previamente moldar o
alumínio, transferindo autoria ao sujeito que com o objeto interage.
Sem dobras, dobradiças, encaixes ou fundição, Escultura Manipulável
abdica do objeto-obra em prol da pura experiência, embate e diálogo
do sujeito com a matéria. Na ausência de artifícios de estabilização
ou agrupamento, a obra consiste na negociação de um equilíbrio
orgânico – posto que em si – entre placa, espaço, tempo e corpo, jogo
de forças que habitualmente conduz a formas ovoides, de um labirinto
circular e, sempre, aberto em uma de suas faces.

Vista de exposição com obras Caixa I e Caixa II de Montez Magno [View of the exhibition with Box I and Box II from Montez Magno]
78-79 pernambuco Experimental - clarissa diniz PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

Simbólica e fisicamente, o ponto de contato de Escultura Manipulável


com o mundo não se encerra, como acontece na pintura Ovo Linear
(1958), de Lygia Clark, “espaço que está contido, mas não se quer
conter naquela situação”.49 Também não se encerra a experiência 49. HERKENHOFF,
Paulo. Diagrama da
do trabalho: não há possibilidade de conclusão da relação entre vida – entrevista com
Paulo Herkenhoff.
participante-autor e objeto em uma forma final fixa, visto que o In: ROLNIK, Suely;
DISERENS Corinne
equilíbrio da organização das placas passa, necessariamente, pela (org.). Lygia Clark – da
obra ao acontecimento.
presença do sujeito em interação com a matéria – a obra “está sempre São Paulo: Pinacoteca
do Estado de São Paulo,
se fazendo presente, está sempre recomeçando o impulso que a gerou 2006.
e de que ela era já a origem”.50 50. GULLAR, Ferreira.
Manifesto neoconcreto.
Jornal do Brasil, Rio de
Em Montez Magno, a outrora contenção das Caixas transforma-se em Janeiro, 22 mar. 1959.

abertura para o mundo e para o outro e, em seguida, essas placas


literalmente se agarram a esse mundo numa série de objetos (1970)
que integram alumínio a pedaços de madeira velha. Ao “substituir”
o metal de tratamento industrial por lascas de madeira velha e
precariamente montada, humaniza, aproxima e politiza. Longe de
carregar o mistério das “caixas pretas” da fotografia, as Caixas e
outras obras de Montez, como a instalação Olhe (1973), deixam no
ar uma sugestão de do it yourself 51 muito explorada ao longo da 51. Do inglês, “faça
você mesmo”.
trajetória do artista, especialmente no conjunto de maquetes Cidades
Imaginárias (1970-), prenhes de intenções políticas cujo alcance crítico
e poética material foram precisamente percebidos por Lygia Pape na
ocasião da mostra individual do artista no IBEU, em 1968: “Como uma
proposição, uma amostragem, a transmutação do uso ordinário, ao
novo significado. Algo diferenciado. O antirresíduo da faina, alguma
coisa nova, plena. É antiarte. Proposta a partir do quase-nada.
Daquilo que é usado e, agora, é novo-ato. [...] A exposição [de Montez
Magno] nos diz: o material provoca a criação, sugere a invenção,
espontâneo, liberto de qualquer conotação particular. Reassume nova
origem – não a do uso diário – mas a do sonho colorido .52 52. PAPE, Lygia. Montez
Magno. Diário de
Notícias, Rio de Janeiro,
4 dez. 1968.
As experimentações da forma paulatinamente rompem com o
monopólio da visualidade, contaminando a imagem com uma
gramática de caráter musical. O espaço da composição torna-se um
campo ritmado – vazios tornam-se silêncios, traços são como sons,
gestos compõem harmonias – e os artistas desdobram esse desejo
sinestésico, de mistura de sentidos (entre eles, a visão e a audição),
Montez Magno
Escultura Manipulável
[Manipulable Sculpture],
1968

Fotografia [Photograph],
18 x 20 cm (cada uma
[each one]). Coleção do
artista [Artist’s collection]

Wishlist
[p.80]
Montez Magno
Série Cidades
Imaginárias [Imaginary
Cities series], 1972

Fotografia [Photograph]
17 x 23 cm (cada
imagem [each image])
Coleção [Collection]
Galeria Pilar

[p.81]
Montez Magno
Série Cidades
Imaginárias [Imaginary
Cities series] Tesserato,
1972

Sabão de coco e
palitos [Cocunut soap
and sticks]
25 x 40 x 25 cm
Coleção MAR
[MAR Collection]

Série Cidades
Imaginárias [Imaginary
Cities series], 1972

Fotografia
[Photograph],
18 x 20 cm. Coleção
do artista [Artist’s
collection]
82-83 pernambuco Experimental - clarissa diniz PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

em experiências variadas. O ruído faz-se música e as partituras estão


por toda parte – dos ninhos nos fios elétricos do álbum Composições
no Fio – Partituras Mutantes (1979) às pedras presas nos bueiros das
fotografias sonorizadas Partitura (1982), da obra de Paulo Bruscky.
Nessas, o olhar atento ao ordinário que – na obra do artista e para
além do do it yourself material da obra de Magno – se faz também
como intervenção na realidade comum revela-se numa ênfase
eminentemente poética que brinca com o silêncio do olhar diante da
cacofonia urbana.

Paulo Bruscky
Partitura [Music Score],
Mais adiante, como experimentado também por Montez Magno, a
1982 visualidade mostra-se um rico campo de reinvenção do código musical,
Fotografia som
[Photograph and
que é reescrito por entre desenhos, apropriações e poesia, a exemplo
Sound], 53 x 82 cm do álbum Notassons (1970-1992), que leva a investigação sígnica
Coleção do artista
[Artist’s collection] e caligráfica de séries como Fragmentações (1963) a uma dimensão
musical. Para o artista, Notassons – bem como Cromossons (1994),
cuja lógica é essencialmente cromática – pode ser entendida como
música aleatória ou poesia visual, no que se avizinha também a outras
obras da dupla Bruscky & Santiago. Como fazem ver as pranchas Montez Magno
Sonata para Olho e
Sonata Esquizo (1976) e Impromptu-3 (1992) do álbum em questão, Ouvido [Sonata for Eye
and Ear], 1970
Montez Magno está atento às tecnologias que então reconfiguravam
Caneta hidrográfica
a prática artística e que serão proficuamente exploradas individual e sobre papel
coletivamente por Paulo Bruscky e Daniel Santiago. [Hidrographic pen on
paper], 33 x 24 cm.
Coleção [Collection]
MAR -
É assim que, em diálogo com a obra de John Cage, a Equipe Bruscky Fundo [Fund] Montez
Magno
& Santiago desenvolve happenings para a criação coletiva de
Montez Magno
sonoridades, como o Con(s)(c)(?)ertoSensonial ou, ainda, numa chave Poema Sinfônico
Universon [Sinfonic Poem
mais metafórica, a Composição Aurorial. Enquanto o Cons(s)(c)(?) erto Universon], 1992
é uma ação participativa – regida cromaticamente pela dupla no Nanquim sobre papel
Teatro Santa Isabel – de produção de sonoridade a partir de caixinhas [China ink on paper],
33 x 24 cm Coleção
de fósforos que são tocadas pelo público, Composição Aurorial articula [Collection] MAR -
Fundo [Fund] Montez
de modo igualmente inventivo as relações entre visualidade, Magno

[p. 84 - 85] Montez Magno Sonata Esquizo - Em Clé - Único Movimento Electro [Schizo Sonata - K - One Movement Electro], 1975
Nanquim sobre papel [China ink on paper], 33 x 24 cm. Coleção [Collection] MAR - Fundo [Fund] Montez Magno
86-87 pernambuco Experimental - clarissa diniz PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

Paulo Bruscky
Silence: Homage to
musicalidade, silêncio, tecnologia e poder, sublinhando a dimensão
John Cage, 1993 política, ao passo que utópica, da arte. Tratava-se de uma proposta
Tinta nanquim e
cotonetes tingidos sobre
publicamente apresentada em 1976, pelos jornais: “a Equipe propõe
cartão [China ink and expor uma aurora tropical artificial colorida provocada pela excitação
tinted ear sticks on
card], 15,3 x 10,9 cm dos átomos atmosféricos a 100 km de altitude. Os átomos voltarão
Coleção [Collection]
Mamam espontaneamente ao estado natural depois da exposição. A exposição
não polui o espaço, não altera o tempo, nem influencia a astrologia, é
Equipe Bruscky &
Santiago
um acontecimento de arte contemporânea”.53 Sem retornos, uma vez 53. Jornal do Brasil,
1976.
Composição Aurorial
(Carta para NASA)
publicado o anúncio, a dupla insiste no projeto junto à NASA, para
[Aurorial a qual envia carta de apresentação e solicitação de cooperação –
Composition (Letter to
NASA)], 1976 igualmente sem retorno. Tomando como exemplo esses dois trabalhos,
Fotocópia sobre papel vê-se que será aí, no espaço entre a efetividade e a ineficiência sociais,
[Photocopy on paper],
33 x 22 cm. Coleção
estéticas e políticas, que se situará parte importante da obra de
[Collection] MAR -
Fundo [Fund] Z
Bruscky & Santiago.

Equipe Bruscky & Santiago “Composição Aurorial (A Exposição Noturna de Arte Especial Visível a Olho Nu da Cidade do Recife)” [“Aurorial Composition (The Nocturnal
Exhibition of Special Art Visible to the Naked Eye from the City of Recife)”], 1976. Matéria de jornal [Newspaper clip]. Coleção [Collection] Daniel Santiago
4.

7.
1.

5.
8.

2.

6.

3.

José Cláudio [1] História de um Carimbo nº 1 [History of a Stamp n. 1], 1969. Carimbo com nanquim sobre papel [China ink stamp on paper], 50 x 70. Coleção [Collection] MAR –
Fundo [Fund] Z. [2] História de um Carimbo nº 4 [History of a Stamp n. 4], 1969. Carimbo com nanquim sobre papel [China ink stamp on paper], 50 x 70 cm. Coleção [Collection] MAR
– Fundo [Fund] José Cláudio. [3] História de um Carimbo Nº 5 [History of a Stamp n. 5], 1968. Carimbo com nanquim sobre papel [China ink stamp on paper], 50 x 70 cm. Coleção
[Collection] MAR – Fundo [Fund]. [4] Dispersão [Dispersion], 1969. Carimbo com nanquim sobre papel [China ink stamp on paper], 60 x 70 cm. Coleção [Collection] MAR – Fundo
[Fund]. [5] Vê Se Gosta [See If You Like It], 1969. Carimbo com nanquim sobre papel [China ink stamp on paper], 50 x 70 cm. Coleção do artista [Artist’s collection]. Coleção [Collection]
MAR – Fundo [Fund] José Cláudio. [6] Nebulosa [Nebula], 1969. Carimbo e bico de pena com nanquim sobre papel [China ink pen and stamp on paper], 50 x 70 cm. Coleção
[Collection] MAR – Fundo [Fund] Z. [7] História de um Carimbo – 5 [History of a Stamp - 5], 1969. Carimbo com nanquim sobre papel [China ink stamp on paper], 50 x 70 cm.
[8] Festas de Varão [Male Parties], 2005. Carimbo e nanquim sobre papel [Stamp and China ink on paper], 50 x 70 cm. Coleção [Collection] MAR - Fundo [Fund] José Cláudio

Outra experiência singular que correlaciona gestualidade,


musicalidade e artes gráficas é a série de Carimbos de José Cláudio,
artista que, por muitos anos, trabalhou como desenhista na Sudene
(Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste, criada em 1959
a partir das pesquisas e políticas propostas por Celso Furtado), onde
ilustrava os mais diversos tipos de materiais, publicações e plantas.
Certa vez, precisando fazer grandes mapas rurais de Pernambuco,
desenvolveu carimbos feitos de borrachas de apagar para facilitar
a ocupação de manchas de plantações de cana ou coqueirais, por
exemplo. A técnica – que fora retomada de sua infância – passou a
interessá-lo como artista e, no final dos anos 1960, realiza diversas
experiências com carimbos, articulados com grafismos e outras
técnicas de frotagem.
90-91 pernambuco Experimental - clarissa diniz PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

Entre esses trabalhos, destaca-se a narrativa visual História do


Carimbo (1968-1969) e livros de artista que tomaram a técnica
como base – em todos há a repetição de um conjunto de elementos
que, distribuídos na superfície do papel, criam ritmo e emulam
certa musicalidade. A obra é peça importante na história da arte
em Pernambuco, na esteira das ricas investigações que se dão
especialmente entre os anos 1940 e 1970, chegando ao poema/
processo.

No período que se estende sobretudo entre os anos 1950 e 1970,


o campo das artes gráficas promove um frutífero entrecruzamento
de diferentes linguagens: design, poesia, literatura, artes visuais,
música, fotografia. Parte significativa dos artistas, escritores e poetas
atuantes nesse período colaborou em publicações de pequena tiragem,
independentes ou integrantes do catálogo de editoras experimentais
– entre outras, La Presse à Bras (1948-1957), editora parisiense de
Vicente do Rego Monteiro baseada num prelo manual trazido do
Recife), Renovação (Vicente do Rego Monteiro), O Gráfico Amador
(1954-1961), fundada por Aloisio Magalhães, Gastão de Holanda,
José Laurênio de Melo e Orlando da Costa Ferreira, sob o incentivo de
João Cabral de Melo Neto, e Abrakadabra (Katia Mesel e Lula Côrtes).

Tais experimentos editoriais articularam sofisticação inventiva a partir


de técnicas gráficas simples, muitas vezes caseiras, como a xerox,
os carimbos, a serigrafia. Ao mesmo tempo, por meio da prensa
manual, as publicações combinam máquina e mão livre, preocupações
com a reprodutibilidade e com a singularidade de cada livro e cada
leitor. Assim é que as publicações de O Gráfico Amador sustentam a
dimensão íntima de um livro como Aniki Bobó (1958) – poemas de
João Cabral de Melo Neto criados a partir de ilustrações de Aloisio
Magalhães, feitas com o uso de barbantes como carimbos – e, ao
mesmo tempo, a escala de uma cidade inteira, como o livro-sanfona
impresso em mimeógrafo Pregão Turístico do Recife (1955), dos
mesmos autores. Por sua vez, à liberdade experimental de O Gráfico
Amador somava-se a rigidez metodológica e estética das experiências
de Vicente do Rego Monteiro, cuja produção de poesia foi por ele
mesmo editada na França, bem como no Brasil, em suportes tão
distintos como jornais, revistas, pequenos panfletos, discos e livros.
Além de publicar os artistas que as coordenavam, essas iniciativas
foram responsáveis pela circulação – nacional e internacional – da
poesia e da prosa de autores como Carlos Pena Filho, João Cabral de
Melo Neto e Ariano Suassuna, dando continuidade à efervescência
cultural que a partir de 1941 havia gerado os congressos de poesia do
Recife, organizados por Vicente do Rego Monteiro e parceiros. Dessa
forma, os congressos, as editoras e os artistas de Pernambuco faziam
do Recife um importante centro de produção e reflexão literária que
se desdobraria, mais adiante, numa prolífica cena da arte correio, da
poesia visual e do poema/processo.

Aloisio Magalhães / João Cabral de Melo Neto (O Gráfico Amador) Aniki Bobó, 1954
Impressão tipográfica e clichê de barbante sobre papel [Typograhic print and string mold on paper], 13 x 15 cm
Coleção [Collection] PVDI Design
92-93 pernambuco Experimental - clarissa diniz PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

Na cena editorial, gráfica e de poesia de Pernambuco ressalta-se,


ainda, a participação de Joaquim Cardozo, engenheiro, poeta e
crítico. Atuante desde a década de 1910 como caricaturista e poeta,
já nos anos 1920 sua obra vai aos poucos sendo publicada (ainda
que insuficientemente ao longo da vida), ao passo que Joaquim
assume a edição da Revista do Norte e passa a integrar com maior
intensidade as interlocuções do campo da arte do Recife moderno, de
Vicente do Rego Monteiro a Ascenso Ferreira, Gilberto Freyre ou Luís
Jardim. Além da atuação na construção e na engenharia de Brasília,
Joaquim Cardozo terá em sua poesia também um espaço de invenção
e experimentação das formas modernas que reverberarão não apenas
em seus contemporâneos como, mais tarde, nos artistas e poetas dos
anos 1970 em diante.
O regime militar e seus mecanismos de controle fizeram fortalecer,
no Brasil, a rede de arte correio que interligava artistas de todo o
mundo, estabelecendo formas paralelas e subversivas de comunicação
e circulação de informações. Essa rede funcionava, ainda, como
um modo alternativo de circuito para a arte, que saía da clausura
institucional ou do mercado e invadia os mais improváveis espaços da
sociedade, fomentando um ambiente colaborativo entre artistas que
através da rede de arte correio cultivavam trocas de todas as ordens.
Com a arte postal experimentava-se, ainda, uma variedade infinita de
meios – fotografia, carimbos, desenhos, xerox etc. –, tecnologias e, em
especial, explorava-se prolificamente o território da poesia visual.

Pernambuco foi um importante centro da arte correio do Brasil,


sobretudo pela atuação do artista Paulo Bruscky, que trocava
correspondências, propunha e participava de iniciativas da arte postal
mundo afora, organizando também – com parceiros como Ypiranga
Filho e Daniel Santiago, entre outros – exposições internacionais de
arte correio. Em profunda interlocução com Pernambuco estavam,
ainda, a Paraíba e o Rio Grande do Norte – neste existia, desde os
anos 1960, uma rica cena do poema/processo, vertente da poesia
concreta que esgarçava radicalmente a ideia de poesia, como posto
em texto de 1967, assinado pelo grupo poema/processo: “poesia
para ser vista e sem palavras [...]. pintura só estrutura [...], histórias
em quadrinhos e humor, sem legendas. quadros servindo de padrões
têxteis. ruído (industrial) levado à categoria de música. computador
54. Manifesto eletrônico: como pesquisa musical”54.
Proposição (1967). In:
GALVÃO, Dácio. Da
poesia ao poema: leitura
do poema/processo. Entre as várias abordagens da arte correio, sublinha-se um grande
GALVÃO, Dácio Tavares
de Freitas. Natal, RN: Zit corpo de trabalhos que, ao mesmo tempo que afirmam, igualmente
Gráfica e Editora, 2004.
problematizam o status da arte, então posto em questão por um novo
modo de circulação e criação. Em Pernambuco – como noutros lugares
do mundo –, parte desses trabalhos é fonte de crítica institucional,
como Atitude do Artista/Atitude do Museu: Continuo Insistindo, a Arte
Não Pode Ser Presa (1978), de Paulo Bruscky, ou trabalhos (1976 em
diante) da Equipe Bruscky & Santiago que partiam do recorte de uma
única e prévia imagem que se transformava em postais distribuídos
pelo país e que só se reencontrariam, novamente retomando a
imagem, nos salões nos quais a obra fosse selecionada. Isso sem que,
por sua vez, os júris ou as instituições envolvidos tivessem a garantia

Joaquim Cardozo Poema, década de 1950 [Poem, 1950s]


94-95 pernambuco Experimental - clarissa diniz PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

de que ela alcançaria sua própria proposta, lidando com o fracasso


Daniel Santiago
como potência crítica. Ainda nesse âmbito da crítica institucional e
Série Composição
Reciclada [Recycled
da arte, Paulo Bruscky realiza uma infinidade de objetos e postais,
Composition series], tais como É a Arte Reversível? (1977), Arte (1976) – a inscrição da
1983
palavra “arte” sobre uma lixa –, bem como fizeram parceiros como
Tinta acrílica e caneta
hidrográfica sobre Daniel Santiago num trabalho da dupla Bruscky & Santiago, Abra
papel cartão [Acrylic
paint and hydrographic e Cheire: a Primeira Lembrança é Arte (1975) ou, ainda, Leonhard
pen on card],
11 x 13,5 cm (cada
Frank Duch (Arte Kunst, 1976) e Ypiranga Filho, com A Arte de Bons
uma [each one]).
Coleção do artista
Serviços (1975) e Assim Não Dar Pé (1976), para citar apenas alguns
[Artist’s collection] exemplos.
Paulo Bruscky
Diagnóstico Arte [Art
Diagnosis], c. 1970

Colagem sobre papel


[Collage on paper],
19 x 24 cm. Coleção
[Collection] Thomaz Lobo

Ypiranga Filho
Assim Não Dar Pé [It’
Won’t Work Out This
Way], 1976

Fotocópia e nanquim
sobre papel [Photocopy
and China ink on paper],
19 x 23 cm Arquivo
[Archive] Paulo Bruscky
96-97 pernambuco Experimental - clarissa diniz PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

Paulo Bruscky
É a Arte Reversível? [Is
A arte correio tinha outro eixo fundamental na própria discussão
Art Reversible?], 1977 de seus modos de circulação, com os quais se fazia também uma
Colagem sobre cartão
[Collage on card],
leitura geopolítica da arte, a exemplo do pequeno desenho Situação
10,5 x 15 cm. Coleção Geográfica - Distância de Artista (1982), de Paulo Bruscky, que
[Collection] Mamam
evidencia a distância entre o artista e seu parceiro Leonhard Frank
Duch (residente em Berlim), ao passo que revela que, por meio da arte,
existia sua possibilidade de conexão, a ponto de a obra inverter as
ordens geográficas e afirmar “Bruscky em Berlim” e “Duch em Recife”.
Tal possibilidade de conexão e rede, ainda antecessora do grande
boom da globalização, é a pauta de um cartaz em xerox como 6.000
Agências (1977), de Daniel Santiago, onde se lê “os correios têm
6.000 agências para você mandar arte por correspondência”, e da
apropriação (1978) feita por esse artista de embalagens de alimentos
que são ressignificados como postais. Ao mesmo tempo, sempre
cientes da dimensão de ineficiência ou fracasso que é parte constitutiva
da dimensão política da arte, Paulo Bruscky fará a colagem –
distribuída em larga quantidade como cartazes fotocopiados –
Returned to Sender - ao Remetente (1979), em que reúne selos de
correspondências que não chegaram a seu destino, afirmando ser
também no espaço do ruído entre emissor e receptor que a arte tem
força singular.

Paulo Bruscky 6000 Agências [6000 Agencies], 1977. Fotocópia sobre papel [Photocopy on paper], 33 x 22 cm. Coleção [Collection] MAR - Fundo Z
Por entre postais, cartas e outras formas de correspondência, notam- Paulo Bruscky
Situ/Ação Geo/Gráfica
se ainda dois intensos campos de investigação: a palavra e o corpo. - Distância de Artista
[Geo/Graphic Situ/
Se um trabalho como Lembrança de Itamaracá - Minha Pele da Coxa Action - Artist’s Distance],
1982
Queimada em Itamaracá (1975), de Leonhard Frank Duch (no qual o
Tinta hidrocor sobre
artista cola no papel parte de sua pele descolada do corpo pelo efeito papel cartão [Hydrocolor
paint on card paper],
do sol), trata de um corpo que se faz presente na medida mesma de 10,8 x 14,8 cm Coleção
sua ausência (recurso comum às estratégias da arte sob estado de [Collection] Mamam

exceção política), também outros desdobramentos se fazem a partir


da emancipação do movimento e dos fluxos tão caros à arte correio
da dimensão estrita do papel ou da bidimensionalidade, como é o
caso de Poesia Viva (1977), de Paulo Bruscky. Nela, o artista veste
pessoas com letras (que, reunidas, formam as palavras “poesia viva”)
e as provoca a experimentar a condição de signo, ao passo que
significante; ambos correlacionados e desgarrados, a depender dos
movimentos e das relações entre os corpos. Trata-se da reinvenção das
possibilidades de sentido para o que está aparentemente posto, função
primeva da poesia viva, e de uma vida poética.

Paulo Bruscky Returned to Sender – Ao Remetente, 1979. Fotocópia sobre papel [Photocopy on paper], 44,7 x 31,2 cm. Coleção [Collection] MAR - Fundo [Fund] Z
100-101 pernambuco Experimental - clarissa diniz PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

Mais adiante, os corpos e suas relações estiveram sempre entre os


interesses da produção cultural em Pernambuco. Se o corpo foi um
dos elementos centrais de Gilberto Freyre para argumentar que
haveria no Brasil uma experiência social que afrouxava as distinções
entre as classes – cujas diferenças se amenizariam, por exemplo, por
meio do sexo ou da culinária –, por outro lado é também o território
privilegiado de práticas, manifestações e discursos que não aceitam
que, no corpo, as contradições se dissolvam. Assim, artistas diversos
lidam com o corpo sob constante estado de exceção – socialmente
higienizado, reprimido, violentado, como nas obras de Daniel
Santiago, Paulo Bruscky e Montez Magno –, ao passo que dão a ver
como cada corpo é, por sua singularidade, uma exceção. É o caso do
grupo teatral Vivencial Diversiones ou dos vídeos de Jomard Muniz de
Britto, cujas discussões sobre gênero, sexo e outras formas de invenção
de subjetividade fazem vibrar, ainda hoje, a intensidade de uma
sociedade que nos anos 1970 fez a revolução do corpo.

Atuante entre os anos 1970 e 1980, o Vivencial Diversiones foi um


grupo de teatro experimental surgido em Olinda, no contexto de
um trabalho pastoral da arquidiocese local, e que logo se revelaria
como um importante palco de debate sobre questões tão diversas
quanto homossexualidade, política, miséria, drogas, violência, cultura,
mercado. Largamente pautado em improvisações cênicas e colagens
textuais, o Vivencial provocava ainda a participação ativa do público
a ponto de, em 1979, inaugurar uma sede-teatro no manguezal
olindense onde, ao longo de muitos anos, os espetáculos do grupo
e performances de travestis eram assistidas por uma audiência
extremamente plural.

Por sua vez, como um dos organizadores do II Festival de Inverno


da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), em 1979 Paulo
Bruscky convida Hélio Oiticica a ir ao Recife apresentar seu Programa
Ambiental e, em especial, os Parangolés (1965-). A passagem
do artista pela capital pernambucana é marcada pelo debate
público de suas propostas e, mais adiante, assevera a contribuição
pernambucana no contexto do tropicalismo, marcado por uma troca
intensa de ideias e, até mesmo, pela publicação de dois manifestos
(Manifesto Tropicalista – Porque Somos e Não Somos Tropicalistas, e II
Manifesto Tropicalista – Inventário de Nosso Feudalismo Cultural,
ambos de 1968) que, escritos principalmente por Jomard Muniz de
Britto, foram também assinados por artistas como Caetano Veloso,
Gilberto Gil, Moacyr Cirne e Falves Silva. Nestes, já se reconheciam
limites e contradições do projeto tropicalista: “Reconhecemos a
transitoriedade (o trânsito e o transe) do tropicalismo, junto ao perigo
de comercialização, de mistificação, de idolatria. Assim como dizemos
‘abaixo a esquerda festiva’, acrescentamos: ‘abaixo o fanatismo
55. Jomard Muniz
de Britto, Aristides tropicalista!’”.55
Guimarães e Celso
Marconi. Manifesto
tropicalista: porque
somos e não
A presença do tropicalismo em Pernambuco se dá eminentemente
somos tropicalistas. contra o marasmo criativo e político atribuído às tradições locais no
Originalmente publicado
no Jornal de Commercio. campo da cultura, antagonizando-se sobremaneira com o lastro do
Recife, 20 abr. 1968.
pensamento freyreano, entendido como “fidelidade regionalista”
diante de um “amor às nossas tradições”. Nesse lastro, o tropicalismo
incluirá as manifestações mais recentes, João Cabral de Melo Neto
ao Teatro Popular do Nordeste (TPN), que formariam uma “nova e
novíssima geração” sob a “tutela sincretista, lusotropical, sociodélica,
56. Idem
joãocabralina, t-p-n-ística”.56 Ao mesmo tempo, enquanto busca
57. Jomard Muniz
de Britto, Aristides
distinguir-se desse “tradicionalismo”, busca também diferenciar
Guimarães, com os
signatários Alexis
tropicalismo de “tropicanalha”, no que o primeiro seria uma “posição
Gurgel, Anchieta de radicalidade crítica e criadora”, lidando com os recursos e as
Fernandes, Caetano
Veloso, Carlos Antônio estratégias próprias a seu tempo, a exemplo do poema/processo
Aranha, Celso Marconi,
Dailor Varela, Falves em sua exploração das tecnologias, mídias e redes de circulação
Silva, Gilberto Gil,
Marcus Vinícius de de informação com a intenção de tornar ainda mais “agudas as
Andrade, Moacyr
Cirne e Raul Córdula. II
contradições”, enquanto a tropicanalha insistiria “em dar respostas
Manifesto Tropicalista
– inventário do nosso
passadas aos problemas, revelando o passadismo através da
feudalismo cultural. nostalgia, do donzelismo, do pitoresco do cartão-postal, da carência
Publicado originalmente
em exposição individual de informação, contribuindo assim para uma perpetuação do
de Raul Córdula na
Oficina 154. Olinda, subdesenvolvimento; enxergar com viseiras e preconceitos”,57 a
1968.
exemplo dos conselhos de cultura e das academias de letras. Portanto,
58. Jomard Muniz
de Britto, Aristides
contra a censura, o tropicalismo aposta numa desobediência irrestrita
Guimarães e Celso
Marconi. Manifesto
às normas e aos cânones, enfatizando o apoio a “toda iniciativa
Tropicalista: porque de cultura ‘não-oficial’”, ao “movimento radical-estudantil” e dos
somos e não
somos tropicalistas. “intelectuais independentes”, bem como a “qualquer movimento de
Originalmente publicado
no Jornal de Commercio. vanguarda cultural” que rompa com os padrões. Sinteticamente, “a
Recife, 20 abr. 1968.
loucura contra a burrice!”.58

Da cena experimental dos anos 1970 no campo das artes visuais e


da poesia fazia parte ainda uma inquieta cena musical. Em 1972, na
102-103 pernambuco Experimental - clarissa diniz PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

Jomard Muniz de
Britto/
cidade de Fazenda Nova, interior de Pernambuco, foi realizada
O Cruzeiro/Caetano
Veloso
a I Feira Experimental de Música, posteriormente conhecida como
Série O País da
Saudade [Raul Córdula]
“Woodstock do Nordeste”. O evento marca a constituição de uma
– “Mas É Isso que É a cena musical contracultural que, surgida entre Recife e Olinda (com
Juventude que Diz”
[The Land of Longing a colaboração de músicos de estados vizinhos), representa uma
series – “But That Is the
Youth contribuição singular para o contexto brasileiro da época, identificado
Who Says”], 1980
principalmente pelo tropicalismo e pela Jovem Guarda. Para essa
Fotocópia e colagem
sobre papel [Photocopy
cena musical colaborava a Fábrica de Discos Rozenblit, uma das
and collage on paper],
40 x 30 cm
maiores do Brasil, responsável, por exemplo, por gravar os discos do
Coleção [Collection] selo independente Solar, a exemplo de Satwa (Lula Côrtes e Lailson)
MAR - Fundo [Fund]
Raul Córdula e Paêbirú (Lula Côrtes e Zé Ramalho). A sonoridade, a poesia, a
visualidade (largamente devedora da presença criativa de Katia Mesel,
autora ou coautora de grande parte dos projetos gráficos de discos
e cartazes do período) e a performance experimental de bandas/
iniciativas como Nuvem 33, Lula Côrtes, Marconi Notaro, Phetus,
Flaviola, Ave Sangria, dentre outros – comumente denominados
de movimento udigrudi (corruptela inicialmente pejorativa de
underground), psicodelia nordestina, beat psicodelia recifense –,
em seu cruzamento de referências populares e do rock, ainda hoje
emanam uma inconteste potência revulsiva.

Lula Wanderley/Peixe Cartaz [Poster] Feira Experimental de Música, 1974. Impressão offset [Offset printing], 31,5 x 21 cm. Coleção [Collection] Lula Wanderley
104-105 pernambuco Experimental - clarissa diniz PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

Flaviola e o Bando TAMARINEIRA VILLAGE Em sua trajetória, a banda


do Sol
e Paêbirú Tamarineira Village mudou de nome, tornando-se Ave
Cartaz de lançamento Sangria em 1974, quando da gravação de disco homônimo.
[Release poster of]
Flaviola e o Bando do Em torno de uma sonoridade psicodélica e letras muitas
Sol/Paêbirú, 1976 vezes descontraidamente existenciais, a banda teve uma
Impressão offset [Offset circulação significativa e reuniu músicos como Almir
print], 59 x 85 cm. de Oliveira, Marco Polo Guimarães, Agrício Noya, Paulo
Coleção [Collection]
Flaviola Rafael, Israel Semente e Ivson Wanderley.

NUVEM 33 Em 1972, jovens músicos, poetas, artistas,


ilustradores reuniram-se em torno da Nuvem 33, uma
iniciativa transdisciplinar com preocupações e
interesses diversos – entre eles, a profissionalização
da cultura do Nordeste do país – que circulavam em
fanzines, textos, manifestos, artigos de jornal. A
produção textual do grupo dava-se também nas composições
(grande parte de Tiago Araripe, cuja prática literária
ficcional reverberava na Nuvem 33) das quais, contudo,
não temos gravações. Sem caracterizar-se como uma banda,
senão como um coletivo, a Nuvem 33 não lançou discos,
mas organizou concertos – como Retreta Eletrônica –
com significativa estrutura de improvisação (músicos,
performers, poetas e artistas de toda a cidade eram
convidados a participar) que não tinham hora para

Tamarineira Village Cartaz [Poster of] Tamarineira Village no Teatro do Parque, 1973
Impressão offset sobre papel [Offset print on paper], 33 x 22 cm. Coleção [Collection] Almir de Oliveira
terminar e que foram importantes para os encontros e
as parcerias daquela nascente cena musical. Além dos
integrantes mais estreitamente vinculados ao grupo
– Otávio Bzzz, Lula Wanderley e Bactéria (Humberto
Avellar) –, também inúmeros colaboradores participaram
da Nuvem 33, a exemplo de Carneirinho (Carlos Fernando),
Bactéria (Humberto Avellar), Robertinho do Recife,
Rodolfo Mesquita, Ivan Maurício, dentre outros.

PHETUS Tendo existido por exatos nove meses, a banda


Phetus – da qual não há registros de época, mas
gravações recentes, a exemplo da música “Vacas Roxas” –
atuou em 1973. Com uma performance de caráter sombrio,
ao mesmo tempo que cômica (tocavam apenas depois da
meia-noite e vestiam-se de forma soturna), o grupo
Nuvem 33
Convite Nuvem 33 no
Pátio de São Pedro,
1972

Convite [Invitation],
8 x 14,5 cm. Coleção
[Collection] Lula
Wanderley

Fanzine, c. 1972

Fotocópia sobre papel


[Photocopy on paper]
Coleção [Collection] Lula
Wanderley

Ave Sangria Cartaz [Poster of] Ave Sangria: Perfumes y Baratchos, 1974. Impressão offset sobre papel [Offset print on paper], 48 x 33 cm. Coleção [Collection] Almir de Oliveira
Nuvem 33
Cartaz [Poster]
Concerto Nuvem
33, 1972

Impressão offset
[Offset printing], 22
x 32,5 cm Coleção
[Collection] Lula
Wanderley
hibridizava referências e, assim, criou o forrock,
mistura de forró com rock que teve na canção “Alagoas”
seu melhor exemplo. Posteriormente ao Phetus, seus
integrantes – Lailson de Holanda, Paulo Rafael, Zé da
Flauta – atuariam em outras bandas do Recife e manteriam
parcerias entre si.

SATWA Considerado o primeiro disco independente do rock


psicodélico brasileiro, Satwa (1973) é o instigante
resultado da parceria entre Lula Côrtes e Lailson. Tendo
retornado de viagens ao Marrocos e aos Estados Unidos,
respectivamente, os músicos compõem – e gravam em
formato acústico – a partir do cruzamento de referências
e de escalas ocidentais e orientais com o repertório
sonoro nordestino. Assim, instrumentos de corda – como
violas e tricórdios – produziam um som de caráter folk
psicodélico (evidente nos títulos das músicas, como
“Valsa dos Cogumelos” ou “Allegro Piradíssimo”) que
se revelou absolutamente singular no contexto musical
brasileiro de então. Destaca-se, nesse mesmo ano, o
lançamento do disco Marconi Notaro no Sub Reino dos
metazoários, também do selo Solar, cuja psicodelia
inclui, ainda, espaço para um samba ou referências mais
imediatas à sonoridade popular de Pernambuco, como na
faixa “Maracatu”.
Phetus
PAÊBIRÚ As idas de artistas e músicos à Pedra do Ingá, Membros da banda
[Members of the band],
sítio arqueológico do interior da Paraíba, foi decisiva 1973
para a criação de Paêbirú (1975), projeto de Lula Côrtes
Fotografia [Photograph],
e Zé Ramalho com o qual colaboraram ainda Alceu Valença, 10 x 15 cm. Coleção
Geraldo Azevedo, Robertinho do Recife, dentre outros. [Collection] Lailson
110-111 pernambuco Experimental - clarissa diniz PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

As lendas e o imaginário do Ingá – aqui representadas


pelos desenhos de Raul Córdula, artista que integrou
algumas dessas expedições – se somaram à psicodelia
de Lula Côrtes, conformando a abordagem de caráter
alquímico do disco. Organizadas em quatro partes (terra,
ar, fogo e água) e misturando referências da cultura
popular, do rock e do jazz, as composições exploram
instrumentos inusitados, bem como sons corporais e
sintetizados, daí o cruzamento fervoroso – “pirado”,
como dito à época – entre chocalhos, violas, baixos,
guitarras e rabecas, entre outros. A riqueza de
referências e a sedutora história de surgimento do
disco são, por sua vez, tratados no generoso encarte
que o acompanha, integrando o projeto gráfico do
disco desenvolvido por Katia Mesel e sua Abrakadabra,
produtora que teve papel fundamental na cena cultural
pernambucana dos anos 1970.

FLAVIOLA Em 1974, também pelo selo Solar, foi lançado


o disco Flaviola e o Bando do Sol, que, explorando
referências estéticas similares (do folk, do rock, da
música popular nordestina), é, contudo, especialmente
singular em sua poesia e eminentemente mais suave em
suas melodias. Por sua vez, suas letras quase sempre
curtas exploram repetições e sutis variações entre seus
versos, como é o caso da bela canção “O Tempo”, cuja
poesia parece, hoje, nos falar das circunstâncias de
memória/esquecimento em torno dessa cena musical: “Eu
podia ter esquecido / Matado ou perdido / Já faz tanto
tempo / Tanto que eu podia até / Ter esquecido / Já faz
tanto tempo / Que eu reclamo pelas coisas que eu amo
/ Tanto que eu podia até / Ter esquecido / Ou nascido
outra vez”.

Raul Córdula
Sem título [Untitled],
1965

Aquarelas, guache,
nanquim sobre papel
[Watercolors, gouache,
China ink on paper],
61,5 x 72 cm (com
moldura [with frame])
Coleção [Collection]
MAR - Fundo [Fund] Z
Discos de vinil [Vinyl LPs]

Ave Sangria, 1974


Coleção [Collection] Almir de
Oliveira

Satwa, 1973
Coleção [Collection] Lailson

Paêbirú – Lula Côrtes e [and] Zé


Ramalho, 1975
Coleção [Collection] Raul Córdula

Flaviola e o Bando do Sol, 1976


Coleção [Collection] Raul Córdula

Marconi Notaro no Sub Reino


dos Metazoários, 1973
Coleção [Collection] Lailson
112-113 pernambuco Experimental - clarissa diniz PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

Em 1975, Montez Magno escreve Algúria, uma utopia que narra os


modos de organização de Al-gures, capital da sociedade ideal de
Algúria. No conto, o trajeto ficcional por entre casas, ruas e instituições
de admirável harmonia faz notar o quanto a experiência urbana é
marcada por uma não contiguidade entre a cidade vivida e aquela que
imaginamos, desejamos e projetamos. O estranhamento faz ecoar, por
sua vez, o desvio entre um modo eminentemente moderno – do que
seria ícone a construção de Brasília, criticada por Gilberto Freyre dada
sua parca consciência ecológica – e outro, mais contingente, de pensar
a urbanidade. É nesse sentido que os artistas desse período passam a
trabalhar não com a cidade ideal ou planejada, mas com o conflituoso
tecido urbano, cujos atritos se tornam potência de criação e crítica. O
processo de transformação dos modos de perceber e atuar nas cidades
inspira intervenções, happenings, fotografias, vídeos, maquetes etc.,
os quais, abrindo mão da ambição de reestruturar as cidades, buscam
sobremaneira intervir em nossos modos possíveis de habitá-las e
compreendê-las.

Montez Magno
Cidade Esférica
[Spherical City], 1988

Maquete em metal e
madeira [Metal and
wood maquette],
36 x 36 x 7 cm.
Coleção [Collection]
Galeria Pilar

Não coincidentemente tem-se um pedido de asilo político em Algúria,


enviado por Leonhard Frank Duch a Montez Magno (1975) –
idealizador dessa sociedade utópica – que evidencia um duplo choque:
de um lado, a distância entre as cidades imaginadas e aquelas que se
mostram possíveis; de outro, a impossibilidade de encontrar refúgio
diante de um regime político opressor que reprime a vida social como
um todo. A arte, por sua vez, situa-se nessas fissuras entre o possível
e o que se julga impossível, configurando um topos – um lugar – de
forma simbólica, subjetiva e política que, ao resistir, faz persistir
o desejo de não se acomodar a realidades que parecem dadas a
priori. É nesse sentido que, por exemplo, Montez Magno não cessa de
construir cidades – de sabão, de pedra, de plástico, de madeira, ou de
quaisquer outros “restos” que produz nossa sociedade.

Leonhard Frank Duch


Carta de Pedido de
Asilo em Algúria [Letter
Requesting Exile to
Algúria], 1975

Carta datilografada
[Typed letter], 10 x 23,5
(Envelope). Coleção
[Collection] Montez
Magno
114-115 pernambuco Experimental - clarissa diniz PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

Ao mesmo tempo, no contexto histórico brasileiro de 1969, num


momento de corpos sitiados, Montez Magno projeta dois espaços
de arquitetura ativista, O Ovo e MMMausoléu, que anunciam a
ironia do artista de, em meio ao regime militar, propor a edificação
de “monumentos” à violência. Articulando pensamentos de crítica
institucional, arquitetura, antropofagia, participação, utopia,
urbanismo, etc., por meio de uma arquitetura desenhada para um
único corpo – simultaneamente presente e ausente –, os projetos lidam
também com a vida, a morte e a libido.

Montez Magno
MMMausoléu, 1969
Diversamente à escala utópica ou individual das obras de Montez
Grafite sobre papel
Magno, situam-se as colaborações entre Daniel Santiago e Paulo
[Graphite on paper],
21,5 x 30 cm. Coleção
Bruscky por meio da dupla Bruscky & Santiago. Suas preocupações
[Collection] MAR - com a dimensão social da arte tornam possível uma série de projetos
Fundo [Fund] Paulo
Herkenhoff nos interstícios da cidade, como a 1ª Exposição Internacional de
Paulo Bruscky Art Door, que em 1981 ocupou 111 outdoors com intervenções de
Arte Cemiterial
[Graveyard Art], 1971
artistas de todo o mundo. Esses artistas chegaram à cidade, por meio
Convite [Invitation]
da rede de arte postal, a convite dos organizadores da exposição,
10 x 6 cm
Coleção [Collection]
MAR - Fundo [Fund]
Paulo Bruscky

Montez Magno O Ovo [The Egg], 1969. Grafite e lápis de cor sobre papel [Graphite and colored pencil on paper]
21,5 x 30 cm. Coleção [Collection] MAR - Fundo [Fund] Paulo Herkenhoff
116-117 pernambuco Experimental - clarissa diniz PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

a Equipe Bruscky e Santiago. Entrecruzando, com ironia, as


estratégias da publicidade com a habitual “invisibilidade” da arte
durante o regime militar (então ainda em voga), além da significativa
intervenção na cidade, o projeto propunha a saída “da arte das 59. Paulo Bruscky e
requintadas galerias e dos arcaicos museus [...]. O artista, no juízo Daniel Santiago. In:
FREIRE, Cristina. Paulo
final, sendo julgado pela população [...], numa exposição sem fins Bruscky: arte, arquivo
e utopia. Recife:
comerciais onde a propaganda cede lugar para trabalhos das mais Companhia Editora de
Pernambuco, 2006,
variadas técnicas”.59 p. 99.

Jomard Muniz de Britto


I Exposição
Com estratégias diversas, como em todo o país, em Pernambuco a
Internacional de
Artdoor [1st Artdoor
produção artística dos anos 1960 e 1970 foi marcada por questões
International Exhibition],
1981
políticas, dado o regime militar que cerceava a vida pública. Diante
da censura à liberdade de expressão, às urgências políticas somaram-
Vídeo [Video]
Coleção [Collection] se ainda experimentações de toda ordem que visavam, por meio da
MAR - Fundo [Fund]
Jomard Muniz de Britto linguagem, subverter as normas impostas e resistir subjetiva, social
e simbolicamente, como tratado mais adiante nos ensaios inéditos
de Zanna Gilbert e Adolfo Montejo Navas. Dessa forma, foram
potencializadas as redes de arte correio, as intervenções urbanas e
happenings, as performances, os vídeos e quaisquer outros meios de
produção e de circulação que, de alguma maneira, contribuíssem para
driblar as severas condições de então.
Inevitavelmente, a violência se torna uma questão de preocupação
e interesse de quase todos os artistas da época, como nos dá a ver
a obra de Paulo Bruscky, Daniel Santiago, Silvio Hansen e Montez
Magno. Ao passo que denunciam os atos violentos da sociedade e
da política de então – como a série de objetos (1986-87) de Silvio
Hansen –, tratam ainda de outras formas de violência, eminentemente
simbólicas. Não apenas concentrando seus esforços na crítica à
censura, esses artistas estavam também atentos a outros modos de
higienização social, como advertem os trabalhos Limpo e Desinfetado
(1987) e Arte – Vacina Contra Tédio (cartaz de 1976 e performance
de 1984), da Equipe Bruscky & Santiago, iniciativas de uma crítica
institucional sempre singular e bem-humorada. Pois, além da reflexão
aguda sobre violência, repressão, democracia, questões trabalhistas,
vigilância, liberdade eleitoral etc., Pernambuco testemunhou também,
nesse período ditatorial, uma sequência de esforços críticos em
relação ao papel e ao poder da cultura e da arte, a exemplo da Silvio Hansen
Brincadeira de Criança
proposta coletiva O País da Saudade – elaborada por Raul Córdula e I/II [Child’s Game I/
II], 1986
colaboradores, em que se pensa acerca das imagens que construímos
sobre o passado e projetamos no futuro – e do vídeo O Palhaço Madeira, metal,
bombons [Metal, wood,
Degolado, de Jomard Muniz de Britto, cujo berro de “até quando?!” candies], 8 x 15 cm.
Coleção [Collection]
parece sintetizar a agonia de todo um tempo histórico. MAR - Fundo [Fund] Z
Silvio Hansen Vindita
Criança [Vendetta
Child], 1986

Madeira, metal,
bombons [Metal, wood,
candies]. Coleção
[Collection] MAR -
Fundo [Fund] Z

Montez Magno
Ludus Bellicum, 1973

Madeira, vidro e
soldados de chumbo
[Metal, glass and lead
soldiers], 27 x 10 cm
Coleção do artista
[Artist’s collection]
Paulo Bruscky Luto [Mourning], 1976. Carimbo sobre envelope [Stamp on envelop] , 7 x 11 cm. Coleção [Collection] MAR - Fundo [Fund] Z

Silvio Hansen Linha Dura [Hard Line], 1977. Nanquim sobre papel [China ink on paper], 21 x 29,7 cm. Arquivo [Archive] Paulo Bruscky

Equipe Bruscky & Santiago Limpo e Desinfetado [Clean and Disinfected], 1987. Offset, 12,1 x 16,3 cm. Coleção [Collection] Mamam
Paulo Bruscky Título de Eleitor Cancelado [Cancelled Voting Card], 1976. Fotocópia, selo, carimbos e etiqueta sobre papel [Photocopy, postage
stamp, stamp marks and label on paper]. 12,2 x 16,5 cm. Coleção [Collection] Mamam
A atenção – e a crítica – ao lugar de poder da arte na criação desses
imaginários será exercício constante dos artistas de Pernambuco e,
em especial, das redes de colaboração entre eles. Desde o princípio
do século XX, os diálogos e as parcerias que tanto identificam o
campo da arte local serão essenciais para a criação de uma cena cuja
efervescência se faz também nas relações entre artistas, públicos,
meios de comunicação etc., numa diversidade de perspectivas que
instaura alteridades (auto)questionadoras que talvez tenham como
um de seus corolários o experimental. Será nessas relações que as
fervorosas perguntas lançadas pelos trabalhos de tantos criadores
continuarão a ecoar, insistentes em sua urgência diante da experiência
abismática do mundo.

Silvio Hansen
Brasil Coração Partido
[Brazil Broken Heart],
1977

Nanquim sobre papel


[China ink on paper],
21 x 29,7 cm Arquivo
[Archive] Paulo Bruscky

Paulo Bruscky Série O País da Saudade [Raul Córdula] – LUTO [The Land of Longing series – MOURNING], 1980. Fotocópia e colagem sobre papel
[Photocopy and collage on paper], 40 x 30 cm. Coleção [Collection] MAR - Fundo [Fund] Raul Córdula
124-125 Uma Poética de sinais - Adolfo montejo Navas PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

UMA POÉTICA DE SINAIS


(o outro mapa da impureza)
Adolfo Montejo Navas

“A pureza é um mito.”
Hélio Oiticica

“Nossos rhytmos íntimos, devíamos todos, sempre, ouvir nossos


rhytmos íntimos. Ora é impossível que todos o consigam,
pequenos e grandes de carne... Se o conseguissem, saberiam,
todos, acordar a si próprios (...)”

Débora do Rego Monteiro

I. Uma dissonância artística

Nada como uma mostra panorâmica para ilustrar a natureza de um


itinerário artístico, ainda mais quando se trata de um Brasil dentro do
Brasil, de uma cartografia que se inscreve na história cultural do país.
Essa inscrição decorre não apenas de méritos próprios e produção
transcendente, mas também por meio de senhas de identidade ou
suficientemente fortes e singulares para criar uma certa dissonância na
historiografia cultural que sempre tende ao mainstream ou na leitura
cíclica de acordos genéricos. O estado de Pernambuco e, por extensão,
de forma simbólica, a cultura nordestina – naquela zona climática
definida como tórrida, com uma luz entre trópicos, e no registro
temporal escolhido em Pernambuco Experimental, 1900 -1980 –
cultivaram matrizes artísticas e socioculturais que se fixavam no húmus
da época como uma modernidade em gestação nos vários campos 1. As caixas moduláveis
do conhecimento e da vida social. Nada disso ocorria sem atrito com de Montez Magno
(de 1967) e os livros
as linhas de força conservadoras locais, mas também abrigando objetos e livros de
artista de Paulo Bruscky
e propulsando outras referências estéticas que, de algum modo, (desde os datados de
décadas anteriores até
contestavam ou divergiam de modelos e padrões regentes no Brasil.1 os atuais), por exemplo,
estavam ausentes
de Aberto Fechado,
Nesse sentido, deve-se reconhecer certa impureza conceitual – num Caixa e Livro na Arte
Brasileira (Pinacoteca
embate contra a forma pura, contra a ausência de mundo – que a arte de São Paulo, 2012),
recente mostra com
promovida a partir das raízes pernambucanas manifesta e exalta, interessante curadoria
de Guy Brett sobre esses
colocando outro diapasão artístico. microuniversos espaciais.
Portanto, assiste-se a uma desmistificação de aspectos estritamente
formalistas e de traços construtivos obrigatórios – como a curiosa
ausência de linhas retas – junto com o descobrimento de outras
frequências e sintonias tanto atávicas quanto permeáveis, tanto
cifradas no local de ação quanto ouvidoras dos ventos estado e Brasil
afora. A presença pioneira de artistas do teor de Vicente do Rego
Monteiro e Cícero Dias, com sua multivisão cultural Europa-Recife e
vice-versa, produz uma abertura histórica que trará consequências e
outras descendências. O recorte feito na mostra surpreende pelo alto Vicente do Rego
Monteiro
grau de experimentação com signos visuais, iniciado já na primeira Concrétion (1941),
pintura modernista, para prosseguir em experiências mais abertas Segunda edição [second
edition], 1996.
(leia-se Montez Magno, Aloisio Magalhães, José Cláudio, Paulo Arquivo [Archive] Paulo
Bruscky, Daniel Santiago, entre tantos outros). Bruscky

Tal percurso pode-se identificar já na obra de Vicente do Rego


Monteiro, tanto em sua pintura entremundos (plana e emblemática
qual esfinges corporais) quanto em sua poesia, escrita em francês,
como modo de sair do nacionalismo poético dos anos 1940 - 1950.
Nessa via regional-internacional, sem passar pelos eixos de poder
cultural nacionais, deve-se entender até mesmo sua rara e simbólica
participação, com 12 pinturas, na Semana de Arte Moderna de 1922.
Na tensão desse duplo olhar estrangeiro (para dentro e para fora) se
explica parte do paradigma artístico do pintor, poeta e artista gráfico,
sua “excentricidade” de situação: “a interculturalidade na obra
126-127 Uma Poética de sinais - Adolfo montejo Navas PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

monteriana é uma relação que surge da observação de um passado


visto de fora por dois olhares – o do ‘estrangeiro’ (Géo-Charles)2 e 2. Géo-Charles, poeta,
marchand e crítico de
Vicente do Rego
Monteiro o de um nativo (Monteiro) – para o fim de enunciar as contradições arte francês, amigo
de Vicente do Rego
Legendes, Croyances et
Talismans des Indiens
de um país sem tradições, preso ao compromisso de ser ‘original’. Monteiro.

de l’Amazone, 1923 Monteiro foi um pintor primitivista da Escola de Paris que, na Europa, 3. Vicente do Rego
Monteiro e Géo-Charles:
Publicação [Publication] descobre não o ‘outro’, alienígena, a que a vanguarda recorria para correspondências.
25,7 x 22,2 cm
Coleção [Collection] fazer a ruptura da tradição, mas o ‘mesmo’, indígena, capaz de In: BRUSCKY, P. et
al (org.). Vicente do
Coleção [Collection]
MAR - Fundo [Fund] Z repor as tendências destrutivas da arte moderna, no curso de uma Rego Monteiro: poeta,
tipógrafo, pintor. Recife:
poética nativista intermediária entre a novidade e o tradicionalismo”,3 2004, p. 93.

conforme observação crítica de Francisco-Oiticica Filho.

Por outro lado, se Hélio Oiticica inscreveu uma obra-aforismo sobre


este aspecto, em plena agitação experimental neoconcreta carioca,
que propulsou toda uma geração de rupturas estéticas em diversos
âmbitos,4 a desmitificação desse conceito clássico já vinha sendo 4. Rio Experimental,
el Poema Mas Allá del
conduzida de uma forma ou de outra também em Pernambuco, Arte, el Poema y la
Acción. Fundación Botín,
por meio de obras que aspiravam outra porosidade com o mundo Santander, 2010. Nesta
mostra, na Espanha,
– nas quais a pureza, pertencente a uma concepção de época, vira se traçava um mapa
artigo de luxo apenas, démodé. Essa contaminação vital que a arte de contestação estética
histórica, na qual o
pernambucana abriga desde muito cedo, de alguma forma torna-se, “exercício experimental
da liberdade” enunciado
décadas depois, referência de arte relacional, de contexto, de uma por Mário Pedrosa se
ampliava no “assumir o
nova articulação linguagem-realidade. Diversos fatores contribuem experimental” defendido
por Hélio Oiticica
para que essa posição referencial se estabeleça: seja a vinculação como questão de vida,
comportamento, sempre
de raízes de índole indígena (marajoara) ou a tradição gráfica (das livre, em estado de
diversas formas da gravura às experiências propriamente gráficas invenção, em progresso.
Aloisio Magalhães (O Gráfico Amador) Improvisação Gráfica [Graphic Improvisation], 1958. Técnicas variadas de impressão sobre papel
[Variable printing techniques on paper], 24 x 15 cm. Coleção [Collection] MAR - Fundo [Fund] Paulo Herkenhoff

5. O Gráfico Amador
desenvolveu experiências
que enlaçam Vicente do Rego Monteiro, João Cabral de Melo Neto,
gráficas inovadoras
e amplos conteúdos
O Gráfico Amador 5), ou ainda as preocupações de ordem social,
culturais a partir de
sua criação em 1954,
concomitantes com a vida do período escolhido, por grande parte de
em Recife, por Aloisio seus teóricos mais importantes (Gilberto Freyre, Josué de Castro, Paulo
Magalhães, Gastão de
Holanda, José Laurênio Freire, Celso Furtado). Essas matrizes reflexivas acabaram introjetando
de Melo e Orlando
da Costa Ferreira. Em questões críticas na atividade de cunho plástico, sem cair, porém, no
oito anos de produção,
a gráfica multiplicou
protocolo de muita arte ideológica, politicamente engajada (o que foi,
as coordenadas de
impressão com o uso de
às vezes, quase outra caça às bruxas, guardadas as distâncias).
tipografia e ilustrações
feitas em litografia,
clichê de metal,
xilogravura, clichê de
barbante e pochoir.
Josué de Castro
Segunda edição de
[Second edition of]
Geografia da Fome
[Geography of Hunger]
(1946), 1948
22 x 15 cm

Coleção [Collection]
Biblioteca Pública de
Pernambuco
128-129 Uma Poética de sinais - Adolfo montejo Navas PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

Em vista dessas considerações prévias, sintéticas, podem-se contemplar


todas as poéticas citadas e incluídas nesta mostra coletiva e histórica,
tanto documental quanto conceitual (entre o gabinete de curiosidades,
o arquivo como ateliê), na medida em que se oferece um organograma
estético plural, multifacetado, mas revelador de alguns eixos
emblemáticos que geram desdobramentos e intercomunicações.

Caberia pensar então em uma modernidade diferente? Em outro


projeto além das vanguardas, de sua doutrina e sua herança
de ruptura, e que se insere mais no corpo metabolizado da arte
por extenso, fora da redoma do território plástico? No fundo, a
possibilidade de outro mapa artístico ampliado, que já faz parte da
dinâmica crítica cultural de nossa época de revisões da história oficial,
bem como a procura por situar uma constelação cultural maior, mais
viva e extensamente dialética, é o que muitas oposições binárias e
excludentes fazem eclipsar. Embora dotado de certo perfume histórico,
o conflito do monopólio do modernismo está no cerne geográfico do
problema do século XX, com a tendência sulista a centralizar a atenção
na promoção da Semana de 1922 como eixo único desse modernismo.
Assim, a conseguinte e atávica polaridade São Paulo-Nordeste
norteou-se por oposições frontais, excludentes, modelo modernidade-
regionalismo, como também aconteceu posteriormente com a disputa
poesia concreta versus poema/processo (outra polaridade paulistana-
nordestina-carioca, fundamentalmente).

É inegável o sentido libertador destas premissas em jogo, em suma,


da proposta de Pernambuco Experimental, seja pela liberdade
de linguagem contemplada, seja pelo resgate de poéticas mais
desconhecidas ou subestimadas em sua extensão nacional, sem
uma contextualização à altura de seu valor. Joaquim do Rego
Monteiro, Montez Magno e Jose Cláudio são três casos notáveis
desse descompasso de atenção. Pernambuco Experimental se insere
nas mostras retrospectivas que visam resultar prospectivas pela
natureza das proposições críticas geradas e pelas reflexões que
atritam com uma leitura comodista, aburguesada em sua zona de
conforto histórico e metodológico e, consequentemente, pelas conexões
que suscita como novo território transversal a explorar. De fato, há
sempre uma necessidade permanente de rever a história, sobretudo
a recente, talvez com a promessa quimérica de entender melhor o
presente, como aponta Giorgio Agamben, no sentido de que só se 6. AGAMBEN,
embrenhando nas sombras latentes do passado, e reatualizando-as na Giorgio. O que é o
contemporâneo? e outros
parte incognoscível do presente, pode-se ter verdadeiro sentimento do ensaios. Chapecó, SC:
Argos, 2009.
tempo.6
II. Quando o mundo começou em Recife ou a outra modernidade

O começo do mundo já foi alguma vez em Recife através de uma


tela painel de 1929, na qual as coisas foram vislumbradas em uma
rara constelação de imagens, numa condição de convivência híbrida,
apresentando-se soltas, em certa deriva e suspensão – como acontece
no imaginário pictórico de Chagall, ainda que o desenho e a cor do
pintor pernambucano confiram mais concatenação entre os mundos
exibidos, pois sua “colagem” não se apresenta como idealização
direcionada e, sim, como construção poética, presença mais libidinosa
da realidade em perspectiva primitiva (sem fundo). Curiosamente, a
associação de figuras, arquiteturas, espaços contidos nos três painéis
rompia com qualquer narrativa usual – o propósito linear de algum
intuito épico, como tanto fizeram os muralistas mexicanos. Aliás,
essas imagens, na maioria das vezes, se interpenetram e atravessam
oferecendo uma natureza mutável, pois o pano de fundo parece
geológico, pródigo de camadas do real, fruto de um pintor poeta,
como era designado por Picasso. Ainda que em algum canto apareça
uma imagem identificável (do Pão de Açúcar do Rio de Janeiro),
o itinerário que se pode seguir é uma rosa dos ventos urbana e
7. Não em vão, no
curta-metragem de
paisagística que caminha em todas as direções.7 Como se pertencesse
Mário Carneiro sobre
o pintor, a trilha para
a obra a um imaginário memorialístico (Joaquim Nabuco, Frei Caneca)
acompanhar esta obra que se converte em tempo contínuo, o que emana das imagens em
magna foi assinada
por Hermeto Pascoal estado de deslocamento.8
(“Ato de Criação”),
estabelecendo-se assim
um mesmo plano de
liberdade visual/sonora. Por outro lado, a substância onírica dessa tela maiúscula está também
8. Mário Hélio Gomes
na arquitetura cruzada e no lugar das sombras, o que respira às
aponta a sintonia entre
memórias verbais
vezes ecos de Giorgio de Chirico, assim como há um humor popular
e pictóricas em As quase chaplinesco, como a sombra rindo do busto que projeta a
Memórias de um Pintor.
In: DIAS, Cícero: Cícero imagem, ou diversas situações divertidas atravessando a composição
Dias, eu vi o mundo.
São Paulo: Cosac Naify, – meios corpos passando em estado de dança. Nessa obra-prima,
2011, p. 220.
se ainda vale essa categoria contemporaneamente, o deslocamento
e a fragmentação imagética, articulados por meio do recorte e da
deformação inusitada dos contornos das coisas, parece até hoje levar
à convicção poética de que o mundo se abriu, inaugurou-se em Recife,
ainda está se abrindo de forma maleável a cada vez que olhamos.

Nesse contexto, não deixa de ser interessante que outras


representações de Cícero Dias, suas quatro pinturas-símbolo de finais
dos anos 1940 (três estão na mostra), sejam obras promissoras
daquela pintura que também Francis Picabia ou René Magritte
estabeleceram como território seminal da bad painting que viria
depois.
Elas são, propositalmente, iconografia ilustrada, com elementos
desconexos e jogando com formas emblemáticas (de frutas
características do país), ironicamente tratadas, entre a lógica da
paródia e o desejo cômico. Algo que Jormard Muniz de Britto
também vai fazer a seu modo no filme Jogos Frugais Frutais (1979),
em que o nu feminino e as frutas mais estereotipadas da cultura
tropical, as bananas, desempenharam o papel de alter ego erótico,
de coprotagonista, na escrachada, mais que irônica, narração com
direito a striptease cultural “para inglês ver” e na qual a afinidade
sexo/frutas nesta Maia Nua posando com frutas ganha requinte
paródico. Se a melancia aparece nesta obra citada, também surge no
vídeo A Democracia Chupando Melancia (2011), de Daniel Santiago
(performance com convidados), que é outra visualidade em estado de
corrosão crítica.

Pode-se dizer agora que talvez seja a ironia uma das figuras Jomard Muniz de Britto
Jogos Frugais Frutais
de linguagem mais inseridas na cultura e no comportamento [Frugal Frutal Games],
1979
nordestinos – neste caso, falando de Recife –, em contraste com Vídeo [Video], 13’50”
outros estados do Brasil. Faz parte do tratamento oblíquo e crítico Coleção [Collection]
MAR - Fundo [Fund]
da cultura pernambucana essa característica que, por exemplo, não Jomard Muniz de Britto

se encontra tanto em outras latitudes. Esse recurso – que sempre


joga com a ambiguidade em diagonal e devasta onipotências – não
pode ser nunca cifrado de exclusividade geográfica, pois permeia
com constância não só um grande número de obras e realizações
de diversas áreas, desde os versos de Manuel Bandeira a Sebastião
Uchoa Leite, o teatro de Ariano Suassuna ou a literatura de cordel
até os ritmos mais genéricos ou ainda as aventuras musicais mais
próximas, as experiências de Zé Ramalho com Lula Côrtes incluídas

Cícero Dias Pão de Açúcar [Sugar Loaf], c. 1920. Aquarela sobre papel [Watercolor on paper], 40 x 45 cm. Coleção particular [Private collection]
132-133 Uma Poética de sinais - Adolfo montejo Navas PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

Daniel Santiago
A Democracia
Chupando Melancia
[Democracy Eating
Watermelon], 1980
- 2011

Vídeo [Video], 23’38’’


Coleção [Collection]
MAR - Fundo [Fund]
Daniel Santiago

nordestinamente na mostra, ou as formações como Nação Zumbi ou


Mestre Ambrósio. Pode igualmente, e sem esforço, ser percebida como
prática cotidiana, no mais simples hábito diário como outra leitura das
coisas. Desde os alfabetos metamórficos de Daniel Santiago (variações
sobre um mesmo código gráfico, Alfabeto Comilão, Colorido, Eleito, no
Plural...), da década de 1980, aos títulos de obras cáusticas de Jomard
Muniz de Britto, por exemplo, o filme Alto Nível Baixo (1977), cuja
trilha sonora incrementa a dissonância das imagens, ou até a obra
de José Cláudio, óleo sobre eucatex com perfume de proclamação,
Primeiro a Fome Depois a Lua (1968)9, com seu antiparnasianismo 9. Neste ponto de
aproximação pioneira
militante (e de consciência sociopolítica trazida por Josué de Castro sobre a fome, deve-se
incluir outra obra
com suas obras sobre a geografia da fome), ou os festivais de outdoor exemplar, o longa
de Mário Carneiro,
dos primeiros anos da década de 1980 (1981, 1982), como toda uma Gordos e Magros
(1977), no qual também
contravenção publicitária às avessas. Em todas essas referências pode- há proclamações
semelhantes e inusitadas
se respirar o veneno cítrico que a ironia destila, seu antídoto libertário para o corpus político
diante da totalidade (como apontam alguns versos de Uchoa Leite em brasileiro.

“ Poética dos Mosquitos”: “com picadas de agulha/numa espécie de


poética átona”). Ironia e jogo, patrimônio vital do homo ludens, que
chega a enlaçar Clowneries e Cartomancie (1952, ambos), com a
performance Arte: Vacina Contra o Tédio, de Paulo Bruscky e Daniel
Santiago, ou o duelo de faroeste com câmeras super-8 e 16 mm até
o estilhaço final do choque, em Duelo (1975), dos mesmos artistas,
espírito que continua de distintas formas em obras de José Patrício,
Gil Vicente ou Carlos Melo, por exemplo, já fora do escopo da mostra,
mas em seu continuum.

Daniel Santiago Vacina Contra Tédio [Vaccine Against Tedium], 1984. Cartaz, impressão offset sobre papel
[Poster, offset print on paper] Coleção do artista [Artist’s collection]
134-135 Uma Poética de sinais - Adolfo montejo Navas PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

Há várias surpresas nesta mostra, e a primeira são as telas do irmão


de Vicente do Rego Monteiro, Joaquim, falecido prematuramente, nas
Daniel Santiago quais as formas e os signos, orgânicos ou pictogramáticos, constituem
Vacina Contra Tédio
[Vaccine Against
uma pintura enfaticamente planar muito afastada de tudo o que
Tedium], 1984 se vinha fazendo na época, até mesmo das telas do irmão, mais
Vídeo [Video], 1’23” vinculadas a uma geometria ou a um imaginário de raiz indígena
Coleção [Collection]
MAR - Fundo [Fund] Z de caráter mais sagrado ou mitológico (apesar de que em Quelques

Visages de Paris, 1925, livro de poemas incluído em Pernambuco


Experimental, as ilustrações do artista se aproximam dessa poética
de sinais, sendo um misto de anagramas/logos visuais/pictogramas).
No caso de Joaquim do Rego Monteiro, em telas como La Rotonde ou
América do Sul (ambas de 1927), vemos diferentes estruturas e planos
de cor com presença de figuras humanas-índices sintéticos, silhuetas
de desenhos cuja economia formal se aproxima da linguagem dos
sinais por sua codificação extrema (o que também se oferece no livro
Silêncios (1925), realizado com sua irmã, Débora do Rego Monteiro,
em homenagem ao irmão morto, José, e cheio de desenhos sombras
esquemáticos). Também duas telas chamadas Composição (ambas
de 1930) apresentam outra vertente inusitada para a época: um
construtivismo de raiz, entre um desejo compositivo geométrico e seu 10. Vicente do Rego
contrário, no qual gravitam formas amorfas, informes, semiorgânicas, Monteiro, aumentando
a contradição, apontava
inserindo-se na série de pinturas paradoxais que Pernambuco em aforismo pessoal:
“Como cubista sou
Experimental traz, via Joaquim do Rego Monteiro10 ou Cícero Dias. construtivista”.

Equipe Bruscky & Santiago O Duelo [The Combat], 1975. Vídeo [Video], 3’18”. Coleção [Collection] Paulo Bruscky
136-137 Uma Poética de sinais - Adolfo montejo Navas PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

III. A música dos signos

Na produção pernambucana do século XX, destaca-se a generosa


presença dos signos, a construção de uma música visual que não
só está em obras mais “explícitas” (com latências musicais visíveis)
de Montez Magno [Bachianas (1964), Madrigais (2009)] e de
Paulo Bruscky [Con(s)(c)(?)ertoSensonial (1972), Partituras (1984)]
– sempre com algumas afinidades interessantes entre eles e uma
conceitualização prioritária do som pós-Cage –, mas também presente
em obras de José Cláudio, assim como antes numa pintura sígnica
cuja matéria se orienta além das formas geométricas ou figurativas, a
exemplo de Cícero Dias e, sobretudo, de Joaquim do Rego Monteiro
por seus elementos iconográficos, como já apontamos.

Equipe Bruscky & Santiago


Con(s)(c)(?)ertoSensonial,
1972

Documentação da
ação (caixas de fósforo)
[Documentation
of action (matchboxes)]
Coleção [Collection]
Paulo Bruscky
Tampouco deve ser alheia a essa profusão de elementos gráficos a
tradição que no campo da gravura e da edição representa a cultura
pernambucana. Esse aspecto de cartografia sígnica, tão prolífico
na poesia visual por suas derivas imagéticas, começa cedo com
as experiências avant la lettre de Vicente do Rego Monteiro, com
sua paixão pela poesia e pela edição. Concrétion (1952), livro que
surpreendeu os concretistas ao tomar notícia dele várias décadas
depois de sua publicação, ou Cartomancie (1952), poemas impressos
sobre baralho de naipes que se dimensionam para outra percepção
lírico-plástica, como exemplos que influenciaram João Cabral de Melo
Neto em sua condição de impressor durante sua estadia na Espanha,
chegando a publicar Joan Brossa ou, depois, contribuindo para as
experiências do grupo O Gráfico Amador. Talvez isso explique que,
nessa poética de sinais, tenham-se incluído nesta mostra exemplos
de poemas visuais mais desconhecidos de Joaquim Cardozo, poeta
sempre lateral ao cânone versicular e merecedor de maior espaço, em
parte por seu pionerismo em outras vertentes, poesia visual/sonora,
livro de artista, caso também de Katia Mesel (estando presente nesta
exposição a joia gráfica O Livro, de 1970, com páginas limpas para
aforismos espaciais) e de Lula Côrtes, com suas próprias edições de
livros.

Como se a música fosse cega, muitas aventuras de vanguarda


exploraram outros sentidos ou a sinestesia, e grande parte dela
pautou-se também pela consideração da partitura como lugar ideal de
projeção de signos gráficos. Neste ponto, o pentagrama, visualmente
atraente, sempre foi ímã para os grafismos próprios da música
(aleatória, concreta, eletroacústica), para desenhos que pudessem
traduzir oscilações e inflexões, ritmos e contrarritmos, silêncios e
vazios que a música produz, mas que a plástica esconde (vejam-
se, assim, também os relevos cortados de Abraham Palatnik e seus
objetos cinéticos como partituras e máquinas da música do silêncio).
Como música para os olhos, portanto, podem-se considerar diversos
11. Hermeto Pascoal trabalhos de Montez Magno e de Paulo Bruscky11, nos quais os acentos
também faz parte desse
segmento artístico com das formas, dos signos e das cores trabalham a composição gráfico-
méritos próprios, tanto
por seus desenhos visual ou, como em Bruscky, saltam para a comunhão da performance
caligrafias como
por suas partituras com a poesia sonora. Tome-se como exemplo Ele Está ou a Dor do
caligráficas (a exemplo
de O Calendário do
Parto (1972), na qual uma múmia encena onomatopeias alusivas,
Som, 2000). o que se mostrou no fechamento da exposição junto com outras
experiências sonoras da época.
140-141 Uma Poética de sinais - Adolfo montejo Navas PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

[p. 138 - 139] Katia Mesel O Livro das Transformações [The Book of Transformations], 1975. Coleção [Collection] MAR - Fundo [Fund] Z

Montez Magno realiza diversas obras nessas coordenadas visuais


e, sobretudo, o álbum Notassons (1970 -1992), que tem o seguinte
apontamento simbólico como subtítulo: Sonata para Olho e Ouvido.
São um conjunto de composições, caligrafias cromáticas, sismografias
e móbiles de signos sobre pentagramas que exploram o sentido de
anotação visual do som, segundo reza o título, indagações de um
espaço sonoro cosmológico de rara beleza, como composições, cujas
leveza e estrutura plástica ecoam em outra obra referente (a série
Morandi, de 1964, por sua vez, propõe um lirismo construtivo singular,
como fez Mira Schendel ao tratar também o vazio como horizonte
e matéria), em que as cores se comportam como notas de uma
constelação fragmentada no espaço.

Paulo Bruscky Aépta, 1982. Super-8 / xerofilme colorido [Colored film copy]. Coleção [Collection] MAR - Fundo [Fund] Paulo Bruscky

Ypiranga Filho Dinâmicas do Traço I [Trace Dynamics I], 1967. Vídeo [Video], 3’04. Coleção do artista [Artist’s collection]

Ypiranga Filho Dinâmicas do Traço II [Trace Dynamics II], 1967. Vídeo [Video], 2’45. Coleção do artista [Artist’s collection]
Paulo Bruscky O Meu Cérebro Desenha Assim I [My Brain Draws Like That 1], 1976/2007. Vídeo [Video], 7’29’’. Coleção do artista [Artist’s Collection]

Nesta mesma semiose que hibridiza universos sonoro-visuais, cabe a


inscrição de alguns filmes que reinventam a linguagem, deslocando
seu corpus genérico, caso de Dinâmica do Traço I, II e III (1967), de
Ypiranga Filho, no qual os gestos ampliados do desenho lumínico
se orquestram na concepção de uma partitura em movimento. O
mesmo acontece com Aépta (1982), mais um trabalho inclassificável
12. Criação de Paulo
Bruscky a partir de
de Paulo Bruscky, de sua veia de inventor, xerox-filme12 em super-8,
sequências xerográficas. cujos grafismos na tela são fruto de uma performance com a própria
câmera de projeção, uma aliança semimágica de cordas e luz que
almeja uma sonoridade primigênia. Neste contexto de poiesis, Meu
Cérebro Desenha Assim I e II, em suas duas versões, 1976 e 2007,
p&b e cor, inscreve-se como acervo sonoro-visual, não só pela trilha
dos encefalogramas ou de Walter Smetak, mas como desenho gráfico
tecnológico próprio que articula bipolaridades: notação/desenho-cor,
corpo-mente, tecnologia-ética. A música está, até mesmo, nas três fotos
contempladas na mostra de Aloiso Magalhães (Cartema, 1979), pois,
em sua qualidade de fotomontagens com repetição serial de motivos,
orquestração harmônica e imagens acordes participam desse mesmo
espírito abordado.

Já os desenhos de bico de pena e pincel sobre papel de José Cláudio


podem também ser considerados constelações de signos, mas sua
obra com carimbos, entre poesia visual e desenho ampliado, é ainda
mais exemplar. Como grafias de uma nova escritura de sinais, tão
afinada com as estruturas do poema/processo (veja-se também a
obra de Arnaldo Tobias ligada a esse movimento). Aliás, nos anos
13. É de autoria de José
Cláudio a série História
1960, José Cláudio, quando trabalhava em órgão oficial, apresenta
de um Carimbo (1969). várias situações geradas com carimbos13 que são ensambles
aleatórios, de alguma forma, tramas compositivas que simulavam
outras espacialidades possíveis, como se a necessidade de invenção
de alfabeto fosse parte desta cultura, em que a educação rege a
história durante um período intenso. Cabe acrescentar que Paulo Freire
começa a exercer aqui uma transformação intelectual-pedagógica e
sociocultural ainda a ser processada em seus termos reais no Brasil.
Não deixa de ser sintomático que houvesse trabalho estético (de
Aloisio Magalhães) com as cartilhas escolares de educação (aliás,
quando uma cartilha de educação deixa de ser – como também o
universo de algumas telas linguísticas de Magritte alude – um poema
visual, semiótico?). Os exemplos trazidos pela mostra oferecem dupla
Aloisio Magalhães
leitura interpretativa, como os alfabetos de Daniel Santiago ou as Menino na Escada [Boy
at Staircase], 1979
cartilhas visuais de Bruscky, que se inscrevem nessa órbita de signos
que tanto se afilia à sonoridade da música e suas enteléquias quanto à Cartema, 40 x 60 cm
Coleção [Collection]
sonoridade do mundo e suas obrigações contratuais. Mamam

Aloisio Magalhães Tobogã [Slide], 1979. Cartema, 59,5 x 42 cm. Coleção [Collection] Mamam
144-145 Uma Poética de sinais - Adolfo montejo Navas PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

Daniel Santiago Alfabeto Comilão e Alfabeto Eleito [Glutton Alphabet and Elected Alphabet], 1988. Impressão offset sobre papel [Offset print on paper]
29,7 x 42 cm cada um [Each one]. Coleção [Collection] MAR - Fundo [Fund] Z

Com base nisso, faz parte desse vocabulário híbrido a série de


monotipias de Vicente do Rego Monteiro (1955), tramas gráficas
de grande diversidade mas que apresentam um grave universo
labiríntico, assim como as de Montez Magno (1958), mais caligráficas
e hedonistas. Essas obras juntam-se ao painel de grafismos desenhado
nesta mostra como constituinte, quase como outro leitmotiv subjacente,
uma sismografia visual expandida.

Daniel Santiago Alfabeto no Plural [Plural Alphabet], 1980. Impressão offset sobre papel [Offset print on paper]. Coleção do artista [Artist’s collection]
146-147 Uma Poética de sinais - Adolfo montejo Navas PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

Montez Magno Traça/Traço [Moth/Trace], 1992-2010. Canetas hidrográficas e estereográficas sobre papel
[Hydrographic and stereographic pens on paper], 23 x 16,5 (fechado [closed]). Coleção do artista [Artist’s collection]
148-149 Uma Poética de sinais - Adolfo montejo Navas PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

IV. Outro vocabulário experimental

Articular outro vocabulário experimental não só implica rever o


repertório estabelecido por estratégias de linguagens à procura de
novas realidades e de imaginários em curso, referentes e simbologias
inscritas nas obras – o leque de significações que se abrem como
obra em construção. Requer outro itinerário em que a criação de
sentidos ultrapassa as balizas convencionais da própria realidade
artística. Portanto, há de se vincular a presença da cidade de Recife à
cultura urbana que emana da rua, ao mesmo tempo que se registra
a convivência com seu lado mais popular, com esse universo de
gambiarras e engenhocas que a cidade transpira, de forma lateral
ao tempo da história, junto com os valores que a memória secular
aporta (e, diga-se de passagem, essa presença memorialística
aliada ao entorno, tanto em Cícero Dias como em Paulo Bruscky).
Assim, o universo urbano da capital de Pernambuco ganha estatuto
de coautoria em numerosos projetos artísticos pulsantes, numa
dinâmica de participação pública raras vezes vista. Nesse sentido, as
intervenções da dupla Bruscky & Santiago, além de ações próprias de
Bruscky, fazem parte de um acervo de arte pública imanente que não
se restringe ao jardim de esculturas, senão tudo ao contrário. Algumas
dessas ações estão entre o melhor da arte brasileira do período –
com a ditadura de fundo –, quando se começava a colocar a cidade
e o público em outra relação, fora das coordenadas reféns do cubo
branco: a linguagem da arte em estado situacionista, contextualizado
popularmente.

Havia também outra espacialidade, tanto real quanto virtual, gerada


pela arte correio. Se já há algumas obras incipientes de Vicente do
Rego Monteiro nessa direção, ninguém estabelece um raio de ação
tão intensamente produtivo como Paulo Bruscky. Com a profusão de
sua atividade com a arte correio, ele consegue inserir Recife tanto
no mapa ecumênico, por suas grandes sintonias fluxistas, quanto no
mapa do Brasil, pelo ideário de uma arte em rede que poderia fugir
dos contextos de chumbo da época, tendo o organismo dos correios
como copartícipe. Ao mesmo tempo, e em sintonia com o valor gráfico
herdado de outras épocas, o envelope, a correspondência interna/
externa, com seus conteúdos de além-muros, se convertia, por volta
dos conceituais anos 1970, numa ferramenta estética capaz de abrigar
como suporte numerosas ações e intervenções de todo tipo e destino.
Uma verdadeira caixa postal cuja objetualidade em trânsito permitia
explorações de poesia visual ampliada – o poema/processo, sempre
tão esquecido quando não negado na cultura brasileira, foi baluarte
destas ações interpostais, verdadeiras obras coletivas que jogavam
com o húmus anônimo quase como autoria/identidade final. E veja-
se aqui a ligação do Nordeste (Natal, Recife) com esse movimento
abissal, no lugar da poesia concreta que teve mais filiação com a
Bahia, o que explica a sintonia de um trabalho singular de Raul
Córdula, O País da Saudade, feito em plena ditadura militar. Trata-se
de outra obra cáustica que virou um bumerangue estético com seu
feedback de respostas-colaborações de todo Brasil, respondendo ao
pedido de interferência e postagem, que autoanalisa o país em aberto
(Artur Barrio, Torquato Neto, Dailor Varela, entre muitos outros). Uma
obra vaivém (textos, imagens) que ocupa seu espaço em Pernambuco
Experimental como verdadeiro trabalho coletivo, de pluralidade de
vozes, intergeográfica e interpoética.

Almandrade
Série O País da
Saudade [Raul Córdula]
– Saudades do Livro
Obscuridade do
Desejo, Recusado pela
Fundação [The Land of
Longing series – Missing
the Book Obscurity of
Desire, Rejected by the
Foundation], 1980

Fotocópia e colagem
sobre papel [Photocopy
and collage on paper],
40 x 30 cm Coleção
[Collection] MAR - Fundo
[Fund] Raul Córdula
150-151 Uma Poética de sinais - Adolfo montejo Navas PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

Em outro plano ainda urbano, mas muito mais interiorizado,


reflexivamente voltado para dentro, Montez Magno inaugura uma
vertente pioneira com suas maquetes ao mostrar um construtivismo
lateral, com material simples e de livre investigação. Suas Cidades
Imaginárias (quase invisíveis, diria Italo Calvino) são um complexo
de esculturas de pequeno formato em que já habita o espaço de
outra forma, como gênese que tem mais a ver, em alguns casos, com
as construções-instalações bem contemporâneas de Miguel Navarro
– sempre como um conjunto de células arquitetônico-espaciais cuja
gramática mínima confunde instâncias micro-macro. Isso se faz
presente em outras aventuras arquitetônicas, os projetos O Ovo e
MMMausoléu (1969), e até nas caixas de estojos escolares em que a
relação espaço-tempo-cor-luz é imbricada, interdependente.14

Nesse vocabulário ampliado, as fotomontagens de Aloisio Magalhães


presentes na exposição apresentam uma estrutura geométrica que,
diferentemente do que acontece em Geraldo de Barros, reveste as
formas de ironia, redundância e repetição de motivos. O resultado são
trabalhos caleidoscópicos, com o que isso significa de jogo e abertura,
de desmitificação pela mutação compositiva. Os três labirintos aqui
oferecidos podem juntar-se a outra experiência dissímil, também
sui generis, já que a participação de Jomard Muniz de Britto não
se justifica apenas pela contribuição cinematográfica, mas também
pelo grau de reflexão crítica, dentro e fora dos filmes, trazendo uma 14. DINIZ, C. Desdobrar-
se. A Obra de Montez
temperatura estética agreste, nada fake, nem manufaturada, que Magno. In: Montez
Magno. Recife: Paés,
coloca a visualidade em risco, no limiar, com mais imagens-fricção que 2010, p. 28.

ficção.

Há um respeitável sentido crítico nesta mostra, característica de


uma vitalidade estética que não se quer restringir a uma redoma
estética (nem local, nem global). Essa pulsão tensionada que habita
Pernambuco Experimental, com seu amplo recorte temporal de quase
um século, ilustra o que significa o lema de O Brasil É Meu Abismo,
como diz uma peça-proclamação (de Daniel Santiago) que vira do
avesso o lado mais ufano. Ela precisamente convida a pensar que há
sempre a possibilidade de uma arte contextual que se debruça sobre o
abismo da linguagem, em seu grau de experimentar verdades novas,
leituras outras sobre o mundo, e não necessariamente em alguma
15. A. M. Navas,
texto de parede,
ordem. Contudo, “é uma margem que não quer ser eixo, nem centro
Sempre Margem (Ou a
Iconografia Poética de
regedor. Melhor, obra libertária, sempre margem”,15 como exemplifica
P. Bruscky), em Paulo
Bruscky – Ver Vendo,
emblematicamente a poética de Paulo Bruscky, o que significa até
Galeria Amparo 60, agora que a independência estética é uma conquista cultural.
Recife, 2008.

Rio de Janeiro/Foz do Iguaçu, maio de 2014.

Daniel Santiago O Brasil É o Meu Abismo [Brazil Is My Abyss], 1982. Cartaz [Poster]. Texto de [Text by] Jomard Muniz de Britto.
Coleção [Collection] MAR - Fundo [Fund] Orlando Nóbrega.
(Página Direita / Right Page)

Daniel Santiago / Ronan Gonçalves


O Brasil É o Meu Abismo [Brazil is my Abyss], 2007
Performance apresentada na [Performance presented at the]
Pontifícia Universidade Católica de Goiás
Coleção do artista [Artist’s collection]

(Página esquerda/Left page)

Daniel Santiago
O Brasil É o Meu Abismo [Brazil Is My Abyss], 1982
Fotografia (registro de performance) [Photograph
(performance documentation)]
Texto de [Text by] Jomard Muniz de Britto
Coleção [Collection] MAR -
Fundo [Fund] Orlando Nóbrega
156-157 recife como centro do mundo - zanna gilbert PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

Recife como centro do mundo:


Repensando o Regionalismo Através das Performances
de Longa Distância da Rede de Arte Postal
Zanna Gilbert

Quando Cícero Dias pintou Eu Vi o Mundo... E Ele Começava no


Recife (1926-1929), não somente sinalizou o início de sua própria
jornada como pintor, mas também de um regionalismo apoiado pelos
escritos do amigo e proeminente sociólogo pernambucano Gilberto
Freyre. Cinquenta anos depois, Recife tornou-se um importante centro
de arte postal com as atividades de artistas como Paulo Bruscky,
1. Lisboa sempre viveu
Daniel Santiago, Unhandeijara Lisboa1 (Paraíba), Ypiranga Filho, e trabalhou na Paraíba,
Silvio Hansen e Leonhard Frank Duch. Se um regionalismo nordestino sem nunca deixar de
manter forte diálogo e
por vezes desafiador marca a produção intelectual e artística de participação nos projetos
de arte postal provenientes
escritores, artistas e intelectuais pernambucanos ao longo do século de Recife.

XX, como esse posicionamento cultural se conectaria à acelerada


internacionalização dos sistemas de comunicação que levaram
à formação de redes cada vez mais transnacionais de produção
artística? Este ensaio evidencia como essas preocupações com a
realidade local imediata, registrada por meio da performance,
de intervenções urbanas e de trabalhos que colocam o dia a
dia da cidade em primeiro plano, entrecruzaram-se com corpos
materiais – obras de arte postal – que viajam em nome do artista,
transferindo seus corpos ou sua regionalidade a diversos contextos
por todo o mundo. Essas atividades paralelas foram essencialmente
conjugadas tanto como expressões do local e do imediato, quanto
como deslocamentos dessas experiências a outras localidades. Foram
também (mas não apenas) respostas carregadas das tensões da vida
sob um governo militar, especialmente após o Ato Institucional nº 5,
instituído em 1968, que teve como efeito a subsequente anulação da
ação coletiva e da resistência social iniciada em 1960.

Regionalismo em rede: dentro do translocal

Ao denunciar a condição das artes visuais no Nordeste do Brasil


como uma “tirania da distância imposta a nossos olhos e a nossa
imaginação”, em 1925, Gilberto Freyre lamentava a falta de
Paulo Bruscky Abra e Cheire: Este Envelope Contém Cheiro da Praia de São José da Coroa Grande [Open and Smell: This Envelop Contains the Smell of São José da Coroa Grande
Beach], 1976. Sargaço, carimbo, nanquim e caneta hidrográfica sobre envelope [Seagrass, stamp, China ink and hydrocolor pen on envelop], 11 x 17 cm. Coleção [Collection] Galeria
Nara Roesler
Equipe Bruscky & Santiago Abra e Cheire: A Primeira Lembrança É Arte [Open and Smell: The First Memory is Art], 1975. Caneta hidrográfica e Colagem sobre papel [Hydrocolor pen
and Collage on paper], 14 x 9 cm. Coleção [Collection] Montez Magno
158-159 recife como centro do mundo - zanna gilbert PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

especificidade dos métodos artísticos para responder à particularidade


2. FREYRE, Gilberto.
das condições regionais.2 A queixa de Freyre quanto a esse “regime Algumas Notas sobre
cultural” recaía principalmente sobre a qualidade especial da luz da a Pintura do Nordeste
do Brasil. In: FREYRE,
região nordestina. Reivindicava ainda uma arte que apresentasse não Gilberto et al. Livro do
Nordeste, comemorativo
apenas temas locais, mas também uma diferença epistemológica ou do centenário do Diário
de Pernambuco: 1825-
metodológica em sua abordagem.3 Sendo um dos mais importantes 1925. Recife: Off. Do
Diário de Pernambuco,
intelectuais no Brasil, o discurso do regionalismo pronunciado por 1925, p. 126

Freyre tornou-se um ponto de debate para artistas pernambucanos que 3. Ibid.


procuravam responder à sua localidade imediata e, ao mesmo tempo, 4. A construção
inserir-se em conversas artísticas situadas em outras partes. Conforme cartográfica do
Nordeste, assim
os desenvolvimentos acumulados do século XX na impressão, na como toda construção
geográfica simbólica
reprodução e nas tecnologias de comunicação avançaram, além do foram definidas por
Moacir dos Anjos:
subsequente estreitamento das distâncias entre o “aqui” e o “lá”, os “Embora possa por vezes
parecer eterna ou natural
artistas começaram a negociar a crescente habilidade de se comunicar aos brasileiros, a ideia
além de suas localidades imediatas e continuaram a incluir os aspectos do Nordeste é de pouco
mais de um século, sua
muitas vezes cosmopolitas do regionalismo. origem remontando
à reação política ao
desmantelamento das
economias do açúcar e
Não foi por acidente que Recife se tornou um centro na rede do algodão e à busca
de uma solução para
internacional de arte postal; a forte identidade cultural do Nordeste, a crise enfrentada
conjuntamente pelas
sua história cosmopolita e a herança artística contribuíram para a províncias brasileiras
construção de um fórum cultural independente e à parte do domínio que delas dependiam.”
Ele aponta ainda para
exercido – ainda hoje – pelo eixo Rio-São Paulo.4 Ao passo que o fato da cristalização
da região ter ocorrido
Moacir dos Anjos indicou a construção relativamente recente do através do trabalho
de autores, músicos,
Nordeste como região, o regionalismo como posição que poderia romancistas, ensaístas
e pintores que
ser buscada ou desafiada é inegável. No entanto, esse envolvimento solidificaram e definiram
seu legado, juntamente
com o local não era hermético e de maneira alguma comprometia com a caracterização de
o desejo de alcançar alçadas além-Brasil, não raro contornando Gilberto Freyre de que a
região contém as raízes
inteiramente a trajetória dos reconhecidos centros da arte no país. das tradições culturais
brasileiras. ANJOS,
O Manifesto Tropicalista: Porque Somos e Não Somos Tropicalistas, Moacir. Desmanche
de bordas: notas sobre
escrito em Recife, em 1968, reclama do “marasmo cultural da identidade cultural no
Nordeste do Brasil. In:
província”, perguntando: “Por que insistimos em viver há dez DINIZ, Clarissa; HEITOR,
Gleyce Kelly; SOARES,
anos da Guanabara e há um século de Londres? Por fidelidade Paulo Marcondes (org.).
regionalista? Por defesa e amor às nossas tradições?”5 No segundo Crítica de arte em
Pernambuco, escritos
manifesto do mesmo ano, nomeado Inventário do Nosso Feudalismo do século XX. Azougue
Editorial, 2012, p.
Cultural, os autores defendem “novos processos criativos” e o uso 265-6.

de meios de comunicação de massa como forma de superar a 5. BRITTO, Jomard


Muniz de et al.
estagnação já mencionada.6 Se anteriormente Cícero Dias concebeu Manifesto tropicalista:
porque somos e não
o mundo “começando no Recife”, artistas naquela cidade viram uma somos tropicalistas.
oportunidade, no início dos anos 1970, para mais uma vez reinventar Jornal do Commercio.
Recife, 20 abr. 1968.
geografias por meio da reconfiguração das estruturas de transmissão
Francisco Du Bocage Construção do Cais do Porto [Construction of the Harbor], 1911. Fotografia [Photograph]. Coleção [Collection] Fundaj / Benício Dias

Francisco Du Bocage Demolição da Rua do Bom Jesus e do Pelourinho [Demolition of the Bom Jesus and Pelourinho Streets], 1913. Fotografia [Photograph]
Coleção [Collection] Fundaj / Benício Dias

6. BRITTO, Jomard Muniz


de et al. II Manifesto
de informação e ideias, e do correio. O porto de Recife já havia
tropicalista: inventário
do nosso feudalismo
inaugurado a cidade como um centro cosmopolita do século XX, o
cultural. Publicado pela
primeira vez para a
que já vinha sendo definido em séculos anteriores pelas incursões
mostra individual de Raul coloniais holandesas, inglesas e francesas. Portanto, com exemplos
Córdula na Oficina 54,
Olinda, 1968. de inovadores pernambucanos mais recentes em mente, como Vicente
do Rego Monteiro, Aloisio Magalhães e Montez Magno, artistas
começaram a trabalhar com práticas performáticas experimentais que
trouxeram uma diversidade de influências para a cena artística de
Recife.

Recife era, então, uma localidade sempre definida tanto pelo que
estava situado além de si mesma quanto pelo local. Isso se nota na
obra magistral de Cícero Dias, na qual reserva um espaço de sua tela
exuberante para representar os morros do Rio, permitindo que outros
elementos do lugar adentrem seu retrato de Recife. A representação
que Cícero Dias faz do Rio afirma o deslocamento, mas também a
160-161 recife como centro do mundo - zanna gilbert PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

conectividade entre dois lugares. Que tipo de visão do local é esta? O


Rio torna-se presente, mas também secundário, em Recife, admitindo
possibilidades de divergência, de pontos de vista subjetivos, de uma
localidade formulada a partir de experiências variadas do lugar. Um
envio feito por Unhandeijara Lisboa a Paulo Bruscky por correio, em
1977, propõe uma visão geográfica ainda mais radical, na qual a arte
postal havia reconfigurado a terra drasticamente.

Este globo cúbico vem acompanhado da mensagem “Salve! Salve! O


pacote de Recife!”. O mapa de Lisboa remete a distorções iniciais do
mapa-múndi pelos surrealistas, de acordo com os centros de atividade
ou interesses surrealistas. Ele representa um cubo descentralizado
e reconfigurável, fragmentado em quatro seções móveis que
demonstram a multiplicidade de conexões e possibilidades da rede de
arte postal. Em vez de limitar-se à transmissão unidirecional de normas
estéticas do centro à periferia, a arte postal abraçou as possibilidades
da troca multidirecional. Isso resultou em uma verdadeira cacofonia
de influências; tanto que as raízes e as genealogias da arte postal são
quase impossíveis de rastrear.

Unhandeijara Lisboa
Sem título [Untitled],
1977

Fotocópia sobre papel


[Photocopy on paper]
Arquivo [Archive] Paulo
Bruscky

Corpos urbanos: poema/processo, performance e cidade

Em razão das atitudes conservadoras da elite cultural de Recife, os


museus estavam em geral fechados para a nova geração de artistas
que desejava experimentar com os meios de comunicação e questionar
valores institucionalizados dentro da arte e também em esfera mais
ampla.
Em uma medida que provou ser tanto pragmática quanto ideológica,
as intervenções urbanas dos artistas tornaram-se estratégia de
inserção da arte do dia a dia da esfera pública de Recife. Diferindo,
de certa forma, das ações de body art que investigam os limites
físicos do corpo com fins existenciais, o uso que os artistas de Recife
fizeram do corpo foi frequentemente extrapolado para o corpo social,
explorando as divisões entre popular e erudito. A primeira ação do
duo Bruscky-Santiago, Exponáutica e Expogente (1971), tomou a praia
como espaço expositivo, em vez do habitual espaço privilegiado da
galeria. No ano seguinte, na ação Arteexpocorponte (1971), Bruscky
e Santiago convidaram participantes a se comunicar entre duas das
pontes de Recife por meio de cartões coloridos, invocando ação
coletiva, participação e comunicação sem o uso da língua. Naquele
mesmo ano, para Artemcágado, a dupla convidou pessoas a decorar
seus cágados de estimação para ser expostos na rua. Essa postura de
transformar a arte em uma atividade popular e coletiva se baseia no
desenvolvimento, e subsequente repressão, dos movimentos sociais da

Equipe Bruscky & Santiago Artexpocorponte [Artexpobodybridge], 1971. Livro de artista [Artist Book], 48 x 72 cm, ed. 1/1
Coleção [Collection] Paulo Bruscky
162-163 recife como centro do mundo - zanna gilbert PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

década de 1960 que teve desdobramentos na esfera artística a partir 7. SILVA, Itamar
Morgado da. Fissuras
da criação de iniciativas como o Movimento de Cultura Popular do e capilaridades: o
individual e o coletivo
Recife (1960), o Movimento da Ribeira (1960) e o Movimento Armorial na formação da poética
artística de Daniel
(1970) – todos preocupados com a coletividade e com a cultura Santiago, dissertação
de mestrado. Recife:
popular.7 Universidade Federal
de Pernambuco, 2013.
p. 33-4.

Equipe Bruscky & Santiago Artemcágado [Artontortoise], 1972. Fotografia [Photograph]. Coleção [Collection] MAR - Fundo [Fund] CIFO
A formação da rede de arte correio em Recife era tanto literária
quanto performática – implicando o corpo – desde o princípio. Os
artistas em Recife se envolveram com a arte postal inicialmente por
meio do movimento poema/processo, que desenvolveu algumas das
8. Assim como a arte questões dos movimentos de poesia concreta e visual.8 Apresentado
postal, o movimento
foi em rede, surgindo pelo artista Wlademir Dias-Pino na revista Ponto (1967), o poema
em várias cidades ao
mesmo tempo, como processo proclamou uma poesia focada no “desencadeamento crítico
observou Neide Sá: “O
poema/processo foi um de estruturas sempre novas”.9 Dias-Pino define o poema/processo
movimento fundado em
1967, que aconteceu
sobretudo em relação à noção de jogos, marcação de pontos e
simultaneamente em
vários pontos do
atividades – uma poesia que emerge da página para a esfera social.10
Brasil: aqui no Rio, no Como Craig Saper observa:
Nordeste, em Natal no
Recife e em Minas. O
Movimento do Poema/
Processo se desenvolveu O poema processo se constrói nos avanços da poesia
de 1967 até 1972 e concreta e segue em direção à tendência de jogos visuais
chegou a ter cerca de
250 artistas e poetas conceituais, placares e atividades. Embora esses poemas
participando. Ele não sirvam ainda para marcar pontos, sugerem um sistema
era aberto a novos
participantes para de código secreto à espera de um leitor que o interprete
o que o correio era ou jogue.11
intensamente utilizado
– a arte via correio.
Muita gente que faz
arte – correio hoje Essas redes já estabelecidas vão ao encontro da internacionalização
participou do poema/
processo” Entrevista da arte postal alcançada pelo compartilhamento dos endereços de
com Regina Célia Pinto,
sem data, site do Museu
correio dos artistas nas revistas e entre artistas e poetas.
do Essencial e do Além
Disso. Disponível em:
<http://www.arteonline. A conexão entre a poesia experimental e o corpo foi exposta no
arq.br/museu/
interviews/neide.htm> poema performance Poesia Viva (1977), culminância e celebração
Acesso em 4 jul. 2012
do poema/processo. Organizada por Paulo Bruscky e Unhandeijara
9. DIAS-PINO,
Wlademir. Process: Lisboa, essa ação afirmou o corpo como o próprio poema. No texto
project reading. Rio/
Montevideo: Ponto/
distribuído no evento, Lisboa declarou: “Somos a própria obra,
OVUM, Oct., 1969
apud PERRONE, Charles
nós somos a letra em movimento”.12 Cada participante segurava
A. Seven faces: brazilian uma das letras que compunham o título do trabalho e, ao longo da
poetry since modernism.
Durham: Duke University performance, ajudava a formar outras palavras ao mover o corpo pelo
Press, 1996, p. 66.
espaço. O corpo se tornou a letra, a letra se fundiu com o corpo, e o
10. Ibid. n.p.
significado foi criado coletivamente por meio da recuperação simbólica
11. Citação de Craig
Saper, Networked art.
da relação entre língua e corpo, a resposta do coletivo para a quebra
Minnesota: University of
Minnesota Press, 2001.
dos sistemas semióticos codificados.
12. Statement issued as
part of the performance, A interseção entre texto e corpo também é notável no caso de duas
1977. Paulo Bruscky
Archive. performances comparáveis, cada uma delas de autoria de um dos
colaboradores de longa data, Bruscky e Santiago. No caso Bruscky, O
que É Arte, para que Serve? (1978), a obra questiona literalmente o
papel da arte na sociedade. A pergunta, como nas letras carregadas
Paulo Bruscky Poesia Viva [Live Poetry], 1977. Fotografia [Photograph], 40 x 70 cm. Coleção [Collection] MAR. Fundo [Fund] Ariel Aisiks

pelos participantes-atores em Poesia Viva, foi levada no corpo de


Bruscky, ao ser disposta em uma placa-sanduíche. O artista expôs a
si mesmo na janela da Livraria Moderna, ao distribuir fisicamente a
mensagem ao redor da cidade. Em 1982, Daniel Santiago também
usou o próprio corpo e um texto no trabalho O Brasil É o Meu Abismo.
O título se refere ao poema de Jomard Muniz de Britto, “Aquarela
do Brasil”, um comentário obscuro sobre os anos da ditadura militar.
O artista se suspendeu no corrimão da Galeria Metropolitana (hoje
Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães) segurando um cartaz com
as palavras “O Brasil é o meu abismo”. O estar pendurado de cabeça
para baixo desafiava normas de percepção e suscitava o “abismo”
da resposta pessoal do artista à situação política daquele momento.
Ambas ações literais e físicas dependiam do corpo como suporte para
o texto e como instigador da ação poética.

Arnaldo Tobias Olho Mata [Eye Kills], 1970. Fotocópia sobre papel [Photocopy on paper], 33 x 22 cm. Arquivo [Archive] Paulo Bruscky
166-167 recife como centro do mundo - zanna gilbert PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

Corpos de matéria: a letra humana

O fato de ser a arte postal uma forma de arte sem corpo não impediu
que os artistas seguissem experimentando formas de colocar o
corpo como protagonista de seus trabalhos postais. Em 1975, por
exemplo, Leonhard Frank Duch enviou uma lembrança bem-humorada
das férias em Itamaracá, praia famosa no litoral no Nordeste. O
cartão-postal, no lugar de imagens pitorescas da cidade litorânea,
estampava a própria pele de Duch queimada de sol, dirigindo a
atenção ao corpo e à carne do remetente ausente. Nos trabalhos
de arte postal, assim, o correio normalmente atua como emissário,
viajando como representante ou no lugar do artista. Além disso,
havia a preocupação em estabelecer interações mais íntimas, indo
contra o cenário de desumanização da comunicação tecnológica e dos
meios de comunicação de massa, que deveriam estabelecer conexões
afetivas entre as pessoas. Amelia Jones atribui o interesse dos artistas
conceituais pelo corpo a uma reação à mercantilização, declarando
que, no “pancapitalismo, os sujeitos se tornam objetos do sistema
mercantil inseridos no processo de troca sem-fim.”13 No entanto, ainda 13. JONES, Amelia et al.
The artist’s body. London:
que certamente preocupados com a racionalização da comodificação Phaidon, 2000, p.21.

Leonhard Frank Duch


Lembrança de
Itamaracá Minha Pele
da Coxa Queimada
em Itamaracá [Souvenir
of Itamaracá – Skin of
my Thigh Sunburnt in
Itamaracá], 1975
Colagem e caneta
hidrográfica sobre
papel [Collage and
hydrographic pen on
paper], 8 x 10,5 cm
Coleção [Collection]
MAR - Fundo [Fund]
Monte Magno

Daniel Santiago Do Que É Que Eu Tenho Medo? [What Am I Affraid Of?], 1976. Trabalho publicado em Commonpress. Revista Internacional de Arte Correio
[Work published in Commonpress. International Magazine of Mail Art] (ed. Paulo Bruscky e [and] Leonhard Frank Duch). Arquivo [Archive] Paulo Bruscky.
168-169 recife como centro do mundo - zanna gilbert PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

e mercantilização, artistas que trabalham no contexto das ditaduras


estenderam as implicações de apresentar o corpo ou os vestígios dele
em seus trabalhos.

Outra dupla de trabalhos de Bruscky & Santiago trata de como a


possibilidade de risco corpóreo e punição física demandavam um
estado de alerta visceral do âmbito somático.14 Depois de preso junto 14. O conceito de corpo
de Merleau-Ponty como
com Bruscky em 1976 por organizar uma exposição de arte postal de no locus da percepção
também pode ser
cunho político, Daniel Santiago realizou um comovente autorretrato notado na mente, já
que desenvolve uma
acompanhado da pergunta: “De que é que eu tenho medo?”. O noção de conhecimento
incorporado que
desenho a tinta representa o artista abatido, profundamente afetado exerceu grande
pelo tratamento recebido nas mãos das autoridades. O retrato de três influência sobre Lygia
Clark e Hélio Oiticica.
quartos seria bastante convencional, não tivesse o artista substituído
seus ombros e a parte superior do torso por um envelope, do qual
emergem cabeça e ombros. Santiago cria uma conexão direta entre
suas buscas artísticas e seu medo somático remete ao breve período
de prisão. A pergunta – um balão de pensamento, implicando sua
natureza privada – é retórica, mas poderia ser também acusatória ou
referir-se a uma autocensura iminente. O processo de internalização
das estruturas e dos modos de comportamento impostos pela
ditadura é visto aqui em ação, juntamente com as oportunidades
comprometidas de livre atividade artística oferecidas pela rede de
arte postal. O autorretrato de Santiago refere-se diretamente ao
explícito policiamento do corpo e remete implicitamente ao uso indireto
dos efeitos da censura e de uma rígida ordem social. A obra de
Paulo Bruscky, Cuidado com Violação (1978) também alude à obra
enviada por correio como metáfora do corpo. A violência que pode
ser exercida sobre a imagem de Bruscky, quando um destinatário
descuidado rasga o envelope ao abri-lo, equipara-se à fragilidade
física durante o trânsito. Assim como no trabalho de Santiago, o corpo
do artista emerge com o meio de comunicação. A vulnerabilidade
física e, por extensão, a vulnerabilidade que deriva do envolvimento
com a arte postal são abordadas por ambos os artistas.

Os dois trabalhos sugerem que o envelope pode conter, esconder


e transportar o artista, como se permitisse fuga ou escapatória.
Mostram, então, como a obra postal pode deslocar o corpo do artista
para outro lugar. O antropólogo Alfred Gell defende que as imagens 15. GELL, Alfred.
Art and agency:
e os objetos não se constituem em outros sociais, mas em “canais an anthropological
theory. Oxford:
de acesso” físicos reais que são projeções da consciência humana.15 Clarendon Press, 1998.

Paulo Bruscky Cuidado com Violação [Careful with Violation], 1978. Colagem e desenho sobre papel/envelope
[Collage and drawing on paper/envelop], 9 x 20,2 cm. Coleção [Collection] Galeria Nara Roesler
Esses “corpos envelopes” convertem o envelope, de sua função de
recipiente, em sujeito considerado agente em si. Tal compreensão da
obra funcionando como agente, corpo ou ícone aparece nas diferentes
propostas articulando o corpo na arte postal. Essa obra pode,
portanto, ser vista como representante físico do artista, e talvez como
forma de “fuga” de regimes repressivos.

A obra de Paulo Bruscky nos ajuda a compreender o modo como


os artistas transpõem suas preocupações com a presentificação do
corpo em performances públicas, e como essas “performances”
viajaram e se conectaram através da distância por meio da rede
de arte postal. Seus trabalhos de arte postal são carregados de
traços indiciais que estabelecem referências corpóreas imediatas:
autorretratos fotográficos, figuras em negativos de filmes expostos,
raios X e impressões digitais. O historiador de arte Ian Walker ressalta
que essas relações indiciais físicas transformam essas obras em um
tipo específico de signo, já que a conexão extremamente próxima
entre signo e objeto constitui uma característica de realismo, que, por
sua vez, alcança o efeito de imediatez em uma imagem e cria uma
16. WALKER, Ian. City
gorged with dreams: “autenticidade extra e uma carga mágica”.16
surreal documentary
photography in interwar
Paris. Manchester:
Manchester University
Se os artistas adotaram completamente o potencial democrático
Press, 2002, p. 12. da reprodução, também mantiveram a necessidade de uma
qualidade “mágica” para a obra de arte, posto que foi por meio
dessa imediaticidade que conseguiram, figurativamente, “tocar” o
destinatário. Por exemplo, as distorções criadas por Paulo Bruscky
ao comprimir o corpo na máquina xerox evocam uma atmosfera de
violência claustrofóbica – a boca do artista está aberta em um grito
silencioso que registra o instante preciso em que foi gravado. Nesse
caso, a especificidade do momento transmite tanto a possibilidade de
criar um tempo de imediaticidade através do correio ao tentar reduzir
a distância implícita na comunicação postal, quanto a impossibilidade
última do contato direto (aqui registrado pela ausência do som no
grito e pela sensação de claustrofobia criada pelo corpo preso). Em
sua Xeroxperformance (1980), Bruscky literalmente traduz sua ação
corporal para o papel, que é, então, enviado aos destinatários. A
reprodução e a documentação da imagem, assim, torna-se parte
integral do próprio trabalho, contrariamente ao que acontece com
muitas performances nas quais é mero documento.

Daniel Santiago Fome [Hunger], 1976. Carimbo sobre papel [Stamp on paper], 9,5 x 12 cm. Coleção [Collection] MAR - Fundo [Fund] Z
Unhandeijara Lisboa Fome Hoje [Hunger Today], 1976. Carimbo sobre papel [Stamp on paper], 7,9 x 13,4 cm. Coleção [Collection] MAR - Fundo [Fund] Daniel Santiago
172-173 recife como centro do mundo - zanna gilbert PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

Raul Córdula
AEestéticaÉODefeito
A experiência e o conhecimento corporificados, que podem ser
DoArtistaODefeitoÉ
AEstéticaSocial
encontrados em Merleau-Ponty e, até certo ponto, no método de
[Aestheticisisthe
DefectOfTheArtist
alfabetização de Paulo Freire, entendem o corpo como agente social
TheDefectisTheSocial básico. Ao escrever sobre sua obra magistral, Cícero Dias comentou
Aesthetics], 1981
que “toda a história do Nordeste” tinha passado pelo seu corpo.17 17. DIAS, Cícero. Eu vi
o mundo: Cícero Dias,
Fotografia [Photograph]
(registro de intervenção Como, então, a obra arte postal age à distância, como corpo viajante p. 83.
em outdoor/register
of intervention on
que é localidade em si mesmo? Desse modo, a obra de arte postal
billboard)
Coleção [Collection]
também se torna representativa de um lugar, tanto como sujeito quanto
MAR - Fundo [Fund]
Raul Córdula
como objeto, deslocando-se de um lugar para o outro, deslocando

contextos e criando localidades problematizadas. Os trabalhos de


Daniel Santiago do final dos anos 1970 que lidam com a fome e a
inanição no Nordeste, tais como Fome e Brazil Cream Cracker, e o
trabalho de Unhandeijara Lisboa, Fome Hoje, são respostas precisas
a problemas sociais urgentes que são, então, transmitidos a outros
lugares como registro das ocorrências de onde eles foram enviados. A
obra de Paulo Bruscky, AlimentAÇÃO (1978) também trata da questão
da comida e da fome, uma vez que o artista parece estar consumindo
seu próprio corpo. No entanto, o trabalho sustenta ainda que pode ser
retirado do corpo em si, com o carimbo “cópia conforme o original”.

Paulo Bruscky AlimentAÇÃO, 1978. Livro [Book], 19 x 13 cm. Coleção [Collection] MAR - Fundo [Fund] Z
174-175 recife como centro do mundo - zanna gilbert PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

Regionalismo e o translocal

A arte postal está praticamente literalmente inscrita na translocalidade.


Carrega as marcas do lugar nos selos colados nos envelopes e nos
endereços do remetente e do destinatário. No entanto – o que é
importante – situa-se também além do lugar: viaja ou transporta
essas marcas de seus contextos a uma localização distinta. Assim,
é enraizada e contextual, um movimento que responde a condições
políticas e sociais específicas do lugar, ao tempo que transcende
essas mesmas condições e categorias. Apesar do caráter animista, a
experiência humana e o próprio corpo têm de ser codificados para
poder viajar. Nessa esfera do “entre”, o corpo também pode ser
concebido como entidade translocal, que provoca perguntas sobre
as limitações do que pode viajar e ser traduzido através dos meios
de comunicação. Como tal, o que é local pode ser pensando como
presença, e o trans, através de níveis de ausências, como traços ou
índices daquela presença, o corpo inscrito no próprio trabalho.

Noções construídas do local são redefinidas pela intersecção de


múltiplas localidades. Arjun Appadurai define a localidade como
“uma característica da vida social que é constituída por um senso
de imediaticidade social advinda de certas formas de sociabilidade,
gerando a si mesma como contexto”. A análise de Appadurai
do efeito dos meios de comunicação de massa eletrônicos na
formação das localidades se reflete em sua habilidade de construir
novas realidades que não são necessariamente geograficamente
determinadas: a localidade é relacional, não espacial.18 Isso porque 18. JONG, Ferdinand
de. The production of
“espectadores desterritorializados” com acesso à mídia globalizada translocality. Focaal
30/31 (1997), p. 61.
criam “comunidades de sentimento” [grupos] que começam a
19. Ibid., 8.
imaginar e sentir as coisas juntos”.19 A rede de arte correio, em seu
desenvolvimento de sociabilidade intersubjetiva, pode ser definida
como uma “comunidade de sentimento”: uma localidade em si. Essa
translocalidade transgride as concepções cartográficas de espaço e
possibilita uma articulação de uma multiplicidade de localidades, tanto
aquelas ligadas ao lugar e construídas através da distância, quanto
as que são construídas em espaços limiares, nesse caso, nos canais de
comunicação.

Como vimos, as ideias sobre performance e corpo dos artistas de


Recife que trabalhavam com arte correio foram traduzidas entre a
presença e a ausência, o local e o distante, a matéria e o conceito,
Daniel Santiago Arte Postal Onde Quer Que Você Esteja [Mail Art Wherever You May Be], 1978. Carimbo [Stamp] Coleção do artista [Artist`s collection]

entre a página e a ação. Nessas experiências de interações translocais


que ocorrem em locais específicos (no trabalho de arte postal
isso é expresso pelo selo, pelos endereços, pelo funcionário dos
correios e pelo trabalho enviado) e são transportados para outros
lugares, criando imaginários virtuais através de práticas em rede. O
entendimento de localidade de Arjun Appadurai, desenvolvido nos
anos 1990, foi baseado na comunicação eletrônica, hoje superada
e suplantada pela internet. Mas e quanto à comunicação analógica,
na qual as mensagens viajam com menos rapidez, possibilitando
o surgimento de um descompasso entre dois lugares? Nesse gap,
nesse entre-espaço, em que utopias podem emergir, um espaço
agora comprimido por uma condição de hiper-rede. As tentativas dos
artistas postais de Recife de simultaneamente envolver e transcender
sua localidade atuou como crítica desafiadora das concepções
cartográficas de espaço e poder nas esferas locais e nacionais;
categorias que continuam a ser fortemente codificadas. A arte que
está em fluxo, que se define pela sua passagem através dos sistemas
de circulação, por definição, resiste a tentativas de ter seu lugar
definitivamente determinado. Como Daniel Santiago carimbou diversas
vezes em seus trabalhos: “Arte correio: onde quer que você esteja”.

[p. 176 - 177] Tiago Amorim Lago Tracunhaém, 1978. Nanquim sobre papel [China ink on paper], 18 x 12 cm. Coleção [Collection] Celso Marconi
QUER MESMO SABER? (I & II)
José Cláudio
186-187 QUER MESMO SABER? I - José CLáudio PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

1948.

É preciso ver a coisa a partir dessa perspectiva: do matutinho


bisonho, de 16 anos, sem conhecer ninguém no Recife, com duas
agravantes: não ter tido convívio em casa com nenhum tipo de
arte ou letras e ter passado os últimos anos, desde os 11, numa
bolha, que era o internato do Colégio Marista. No colégio,
como única válvula de escape, irmão Estanislau, professor de
desenho, melhorava a nota dos alunos que ornassem a página da
esquerda, na qual copiávamos os dados do problema de geometria
que seria resolvido na página direita, com algum desenho à mão
livre, de preferência engraçado. Mas valia tudo, uma árvore,
um bicho, até caricaturas dos colegas de classe. Às vezes,
eu fazia esses desenhos para metade da classe. Mas isso não
tinha ligação com pintura, arte de que talvez tivesse lido
vaga referência nos livros de história, ou até pela capa do
caderno de desenho, Raphael. Depois de adulto, eu soube que
alguns colégios do Recife empregavam pintores – como Balthazar
da Câmara, Elezier Xavier, Mário Nunes – como professores de
desenho, e assim eu poderia ter tido conhecimento da existência
da profissão, mas infelizmente no Marista não existiu essa
possibilidade.

Na longínqua Ipojuca, de onde eu sou, hoje quase subúrbio do


Recife, que as distâncias encurtaram com as estradas, meu
padrinho de crisma, Othon Fialho de Oliveira, a essa altura já
morando no Recife, era pintor, além de advogado, tendo com o
tempo abandonado a arte. Mas ainda consegui incluir um quadro
seu, Vacas Dentro de um Rio, da Coleção Faculdade de Direito
do Recife, no álbum Artistas de Pernambuco. Dele incluí também
um desenho a lápis, Retrato de Mário Nunes, que, na época da
publicação do álbum, 1982, pertencia à Coleção Mário Nunes.
Era esse tipo de desenho que dr. Othon fazia no papel de
embrulho da loja de meu pai quando ia passar férias em Ipojuca,
hospedando-se em nossa casa, desenhando as matutas e os matutos
fregueses da loja. Isso me fascinou de tal modo que passei o
resto da vida, enquanto vivia em Ipojuca, emporcalhando os
papéis de embrulho da loja, mesmo com a proibição de meu pai.
Eu escondia as folhas garatujadas por baixo das outras.
Lembro-me vagamente de um quadro de Fialho, como assinava,
Barbeiro de Feira, possivelmente inspirado na feira de Ipojuca,
que era no domingo. Muitos anos depois, já vivendo de pintura,
pintei um barbeiro de feira, que vi na feira de Abreu e Lima ou
Itamaracá, ou Itapissuma, mas na verdade me lembrando do quadro
de Othon Fialho.

“Já vivendo de pintura.”

Quantas voltas o mundo precisou dar para que eu pudesse


escrever essa frase! Aos 16 anos, nem sequer sabia existir a
profissão de pintor, perdida no passado remoto. Uma coisa que
eu disse ao cineasta Vladimir Carvalho foi essa, de a pintura,
isto é, o pintor, ao menos muitos deles, poderem viver de
pintura, enquanto o cinema precisava de patrocinadores – ele
justamente gravando em minha casa recentemente um depoimento
sobre o impacto que me causou a exposição de Cícero Dias, que
eu vi, na Faculdade de Direito, em 1948. Que foi duradouro,
foi. Tanto que não esqueci. Lembro até em que parede estavam
alguns quadros, como, logo que se chegava ao primeiro andar
e se dobrava à esquerda em direção ao salão de leitura da
biblioteca, o Mamoeiro ou Dançarina (1946), de mais de 1 metro
de altura. Insisto em chamar “dançarina” – o título original
é Mamoeiro ou Dançarino, no masculino – porque, mesmo sem
nunca ter visto um balé ao vivo, já via os mamões balançando
como belos peitos “dando tapas no vento”. Desculpem o prosaico
da comparação, prosaísmo a começar pelo título, beirando o
vulgar, comparar peitos femininos com o fruto do mamoeiro, ou
melhor, na época, simplesmente aludir a peitos femininos, pelo
menos nas redações escolares no Colégio Marista, e ainda mais
baloiçantes.

O puritanismo da mídia local não devia ser diferente do que


imperava no Colégio Marista, então só masculino. Numa ocasião,
no primeiro momento fiquei escandalizado quando passei na
Avenida Conde da Boa Vista, antigamente rua, e vi belas meninas
sentadas numa das janelas do dormitório! Aí me lembrei que
não estávamos mais nos anos 1940, não existia mais internato
e minha própria filha poderia ser uma das moças sentadas na
188-189 QUER MESMO SABER? I - José CLáudio PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

janela: minha mulher resolvera matriculá-la no Colégio Marista,


possivelmente em minha homenagem.

Voltando a Cícero: impiedade de comparar uma criatura humana a


um pé de mamão! E não criatura humana qualquer, uma bailarina,
porque no quadro está claramente definido o saiote usado
pelas bailarinas, criaturas espirituais, dignas de palácios
reais, criatura humana do sexo feminino a quem devemos o mesmo
respeito dedicado à Virgem Maria. Por esse lado, e poderíamos
dizer basta esse lado: o quadro todo é de uma irreverência
nunca vista na nossa cidade. Até mesmo para com o pé de mamão,
pintado de qualquer jeito, para, e por, um imbecil que nunca
tivesse visto um pé de mamão ou soubesse como representá-lo.
Era como se esse suposto parisiensezinho filhinho de papai
viesse aqui nos dizer que de caviar pouco ouvimos falar e
de arte idem, que qualquer coisa servia; como na fábula das
rãs que queriam um rei, jogaram na lagoa um pedaço de pau e
elas passaram a reverenciá-lo. Foi alegado ser caso de saúde
pública, de uma doença contagiosa, uma providência devia ser
tomada pelas autoridades. Como é que um pintor, embora, aqui
pra nós, em Pernambuco não existisse uma galeria de arte
nem ninguém nunca tivesse comprado um quadro ao menos que
se ouvisse dizer, como era que um pintor, em pleno uso de
suas faculdades mentais, pintava um quadro que ele próprio
confessava não saber se era uma dançarina ou um mamoeiro? E não
guardou para ele essa aberração e, sim, nos afronta expondo-o
no lugar mais nobre da capital, na Faculdade de Direito, no
templo de Tobias Barreto!

Uma das poucas vezes que vi Cícero Dias, na Galeria Artespaço,


de Nara Roesler e Renato Magalhães Gouvêa, comentando o tema
“viver de arte”, ele disse: “Antigamente, quadro era para dar,
e era difícil”. Era difícil porque o indivíduo presenteado
temia estar sendo vítima de um golpe, de o tal pintor querer
criar uma espécie de dívida ou vínculo para o que o presenteado
não se sentia à vontade. Sobre isso, me vem à mente um presente
que um senhor queria dar a um judeu rico amigo de Renato Gouvêa
no dia de aniversário – um relógio caríssimo.
O judeu olhou e devolveu dizendo: “Não temos intimidade para o
senhor me dar um presente desse”.

Galo ou Abacaxi.

Quem me contou foi o pintor Francisco Brennand. Dom Quixote


ia por um caminho e viu um pintor em plena ação. Dom Quixote
parou, começou a olhar e não entendeu nada. “O que pintas?”,
perguntou ao pintor. “O que sair”, respondeu este. Não sei se
Dom Quixote chegou a entender alguma coisa depois de o quadro
terminado, mas por via das dúvidas o pintor escreveu por cima
da pintura: “Isto é um galo”. René Magritte acrescentou,
num quadro em que representava unicamente um cachimbo, o
letreiro: “Isto não é um cachimbo”. Em 1948, eu não conhecia
Francisco Brennand, nem tinha lido Dom Quixote, nem nunca tinha
ouvido falar de René Magritte, nem em surrealismo, mas minha
compreensão de Galo ou Abacaxi e de Mamoeiro ou Dançarina foi
imediata. Eu poderia ter dito na ocasião como Correggio quando
viu um quadro de Rafael: “Eu também sou pintor”. De uma vez por
todas acabou com o mistério que envolvia a arte da pintura e
de fato nunca ninguém precisou me ensinar mais nada de pintura
até hoje, embora também seja verdade que aprendo todo dia, ou
foram esses quadros que me deram a possibilidade de aprender:
eu era cego, ó Cícero, e me conferistes o sentido da visão. Ou
a impressão pode ter sido tão forte que me tenha cegado para
outro tipo de visão, me impedindo de olhar em outra direção.
Parodiando aquele presidente do Museu de Arte Moderna de
Nova York, eu poderia dizer que o que não é Cícero Dias não é
pintura, como ele disse: “O que não é Picasso não é século XX”.

Certamente, a dúvida permeia até os mais fanáticos, e nunca


me vi como “mais” coisa nenhuma. Mas mesmo Picasso, pai e mãe
de todos nós, desde os que viveram séculos atrás, porque a
gente só vê Piero della Francesca pelo que Picasso nos disse,
mesmo Picasso, que o melhor que fiz na vida foi ter ido a
Nova York para ver sua monumental retrospectiva, no MoMA, em
1980, quem sabe quem me abriu os olhos para que pudesse vê-
lo foi Cícero Dias. Claro que se Cícero estivesse vivo não
seria eu tão despudorado para me derramar desse jeito, mas

[p. 190 - 191] Vista da exposição com obras de [View of the exhibition with works from] Cícero Dias

Guarda-Chuva ou Instrumento de Música [Umbrella or Musical Instrument], 1943. Óleo sobre tela [Oil on canvas], 100 x 81 cm. Coleção [Collection] Fadel
Galo ou Abacaxi [Rooster or Pineapple], c. 1940. Óleo sobre tela [Oil on canvas], 100 x 80 cm. Coleção [Collection] Ivo Pitanguy
Moça ou Castanha-de-Caju [Lady or Cashew Nut], 1946. Óleo sobre tela [Oil on canvas]. Coleção [Collection], 105 x 125 cm. Waldir Simões de Assis Filho
192-193 QUER MESMO SABER? I - José CLáudio PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

não conheço ninguém da família: gênio não tem família. Devia


ser decretado isso, que gênio não tem família, para podermos
abrir nosso coração, porque até o que pode ter cabimento alguém
pode considerar suspeito: não temos intimidade para dar esse
presente.

Na hora não percebi esse milagre todo porque sem nenhum contato
com o mundo das artes e das letras de canto nenhum. Nem sabia
que pintura ainda existia. Minhas únicas obras tinham sido as
ilustrações nos cadernos dos colegas e, vejam só, foram elas
que destamparam de uma petelecada acidental todos os meus
sonhos, sonhos encobertos que nem eu mesmo sabia que tinha!
Ora, um dia qualquer, em 1952, encontro casualmente o ex-colega
de classe do Colégio Marista, Ivan de Albuquerque Carneiro,
com quem nem tinha maior aproximação. Ele era externo, ia para
casa depois das aulas. Não me lembrava do nome dele. Nem ele
do meu. Tanto que me parou e perguntou: “Você ainda gosta de
desenhar?” Fiquei até sem saber direito se dizia sim ou não,
tanto tempo fazia que não pensava no assunto. Estava cursando
o primeiro ano de direito, ou repetindo, que nunca ia lá, na
mesma faculdade onde vira a exposição de Cícero Dias quatro
anos antes, sem saber o que ia ser na vida ou o que fazer da
vida.

Como gostava de ler tanto quanto de desenhar, alguns me


sugeriam estudar engenharia e outros direito. Optei por direito
porque nunca fui apaixonado por matemática. Dizem que tudo
depende de um bom professor e eu, sinceramente, não me lembro
de nenhum professor de matemática. O máximo a que cheguei foi
à regra de três. Nem adiantou ler O Homem que Calculava. “Eu
gosto”, respondi a Ivan. Ele disse que estavam para fundar um
ateliê coletivo, justamente para os que não sabiam nada de
pintura, acrescentou à minha desculpa de estar completamente
despreparado. E disse lá uma insignificância que cada um
deveria pagar para manter esse tal ateliê. Dei a quantia, mas
sem maiores esperanças. Não demorou, apareceu Ivan: “Alugamos
a casa”. Era bem perto de onde eu morava, a bem dizer na mesma
rua. Eu morava na Santa Cruz e a casa era na Soledade. Depois
desse dia nunca mais pus os pés na faculdade. Agora, quem eu
via todo dia era Ionaldo Andrade Cavalcanti, Gilvan Samico,
Abelardo da Hora, Wellington Virgolino e seu irmão Wilton de
Souza, Marius Lauritzen Bern, além de Reynaldo Fonseca, já
um pintor consumado. O líder era Abelardo da Hora, escultor
conhecido, que tinha sido aluno do escultor Edson Figueredo na
Escola Profissionalizante da Encruzilhada. Seguia a linha da
arte participante ditada pelo partido. Naquela época quase toda
a intelectualidade era comunista ou simpatizante. Arte tinha
de ser compreensível ao grande público e não para uma minoria
privilegiada. Nada de experimentalismo. Isso está pormenorizado
no livrinho Memória do Ateliê Coletivo, há pouco reeditado
pela Cepe (Companhia Editora de Pernambuco), com prefácio de
Clarissa Diniz. Os pintores modernistas no Recife eram de
classe alta, burguesia, elite dominante, haja vista Aloisio
Magalhães, Lula Cardoso Ayres, Cícero Dias, Joaquim e Vicente
do Rego Monteiro, Francisco Brennand, Hélio Feijó. Bastava
ser modernista para ter fama de comunista, ou anarquista,
com ou sem fundamento, mesmo que o sujeito fosse fascista ou
analfabeto em política. Hélio Feijó, por exemplo, foi preso,
ouvi dizer. Quem não tinha ido embora do Recife corria perigo.

A situação em casa se agravava com minha decisão de deixar de


estudar. E logo para ser “artista”, sinônimo de vagabundo. Saí
de casa com a roupa do couro – eu quis que fosse assim para
mostrar que não queria viver à custa da família, mas para tomar
posse da liberdade de seguir minha escolha. E ao mesmo tempo
sentindo necessidade de conhecer outros lugares fora do Recife.
Também não vou me estender aqui sobre isso, pormenorizado
na trilogiazinha Viagem de um Jovem Pintor à Bahia (1965),
Ipojuca de Santo Cristo (1965) e Bem Dentro (1968), livrinhos
que gostaria de reeditar, nem que seja por fac-símile, o jeito
mais barato, creio. A grande mudança se deu com o contato com
Arnaldo Pedroso d’Horta, que conheci na Bahia. Em São Paulo,
ele foi como um pai para mim, guiando-me nesse ambiente de
arte. Procurei esquecer de mim para aprender, respirar o clima
de globalização das bienais. Fiquei devendo a Sérgio Milliet
e Paulo Mendes de Almeida um relato do tempo que passei em São
Paulo como fiz com a Bahia, de que eles tanto gostaram.
194-195 QUER MESMO SABER? I - José CLáudio PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

Havia um grupo de ex-comunistas que pregavam a total liberdade


artística, como Lívio Abramo e o crítico pernambucano Mário
Pedrosa, amigos de Arnaldo. Muitos eram trotskistas, palavra
que circulava no ambiente sem a conotação de “traidores” como
no Recife. Comigo, Arnaldo nunca falava de política. Com bolsa
da Fundação Rotelini, passei um ano em Roma e adjacências vendo
os grandes museus, Itália, França, Alemanha, Áustria, Suíça,
Espanha, instruindo-me. Já estava na hora de voltar para casa.

Cheguei no Recife, casei, fui trabalhar como ajudante


de desenhista técnico na Sudene (Superintendência do
Desenvolvimento do Nordeste), virei desenhista de arte nas
horas vagas mas com muito afinco, às vezes passando a noite
nesses bicos de pena de que a mostra do MAR, Pernambuco
Experimental, exibe alguns exemplares. Todo esse catatau para
chegar a esses desenhos pretos que são o resultado de tudo o
que passei na vida até então.

Na raiz desses desenhos pretos estão os bicos de pena de


Arnaldo Pedroso d’Horta. Há muito deixara de praticar a pintura
simplesmente por não ter um lugar para pintar, por ser mais
dispendioso preparar telas, comprar tintas e pincéis – você
pode dizer “por comodismo”. Seja. Mas desde a Bahia, pelos
mesmos motivos, eu tinha deixado de pintar completamente,
satisfazendo-me em ver os outros pintar, ajudante de Carybé
e Mário Cravo. Mas nunca deixei de ser pintor na minha
imaginação. Em São Paulo, fiz uma exposição de desenhos
no Clubinho (Clube dos Artistas e Amigos da Arte) usando
essas tramas dos bicos de pena de Arnaldo Pedroso d’Horta,
o “trabeculado”, como dizia José Geraldo Vieira, em figuras,
gente, bicho, bichos inventados como fazia Marcelo Grassmann,
mas algo lembrando folclore nordestino, quem sabe inspirados
em literatura de cordel. Ao chegar à Itália, em 1957, isso
foi sendo esquecido; menos o aprendizado do bico de pena que
mantive nos desenhos de folha de caderno de desenho tamanho
ofício que levava para todo canto com pena e tinteirinho de
nanquim, desenhando os pinheiros de Villa Borghese, ruínas da
Roma antiga e o mais que me desse na telha.
Quando tomei casa pela primeira vez na vida, 1960, casado,
evoluí para esses papéis maiores, 50 x 70 centímetros, trabalho
longo, sem tempo para acabar, principalmente por não encontrar
comprador e não que eu tivesse vocação para mártir. Acho que
vendi no máximo dois, um a Baccaro e outro, ainda no tempo
da Sudene, década de 1960, ao arquiteto Moisés Agamenon.
Durante a execução, pelo menos conscientemente, não havia
intenção figurativa. Era “o que sair” do pintor encontrado
por Dom Quixote. Hoje, meio século depois, quando pintando
exaustivamente o interior de uma folhagem, nas paisagens com
intenções superfigurativas, quando quero que o espectador
saiba até qual a árvore, cajueiro, mangueira, parece que volto
aos desenhos pretos ou que aqueles desenhos pretos procuravam
chegar à sensação quase tátil da pasta espessa da pintura a
óleo. Alguns também parecem olhados de cima, influência dos
desenhos de aerofotogrametria que eu fazia na Sudene.

Também na Sudene, no GEVJ, Grupo de Estudos do Vale do


Jaguaribe, rio que fica no Ceará, ou Projeto Morada Nova,
cidade do Ceará, precisava-se fazer com urgência uma série
de desenhos de plantações especificando planta por planta,
seu alinhamento, para mostrar ao embaixador de Israel. Ainda
não havia uns desenhinhos tipo letraset, que era só colar.
Seria necessário criar esse desenhinho, por exemplo, cajueiro,
coqueiro, não lembro, tudo em papel milimetrado com a maior
precisão. Lembrei-me do tempo de criança em Ipojuca, quando os
meninos recortavam na borracha de apagar suas iniciais para
sair carimbando nos cadernos e em todo lugar. A gente melava
na tinta de escrever e carimbava. A loja de meu pai vendia
material escolar e estraguei com essa brincadeira muitas
borrachas, daquelas retangulares, mais ou menos do tamanho da
metade de uma caixa de fósforos pequena. Sugeri usar o método
nos mapas do projeto da Sudene e assim foi feito, eu recortando
as borrachas com o bisturi que usávamos para raspar desenho
a nanquim, a caneta Graphus, no papel vegetal. Derramávamos
um pouco de nanquim em cima de um vidro plano ou algo símile,
molhávamos o carimbinho e carimbávamos no lugar certo. Depois
do serviço, aqueles carimbos ficaram por lá sem serventia e,
para não botar no lixo, trouxe-os para casa.
José Cláudio

Buracos Negros [Black


Holes], 1968

Bico de pena com nanquim


sobre papel [China ink pen
on paper], 51 x 73 cm
Coleção [Collection] MAR –
Fundo [Fund] José Cláudio

Intuições [Intuitions], 1970

Pincel e nanquim sobre


papel [Paintbrush and
China ink on paper], 70 x
100,5 cm
Coleção [Collection] MAR –
Fundo [Fund] José Cláudio
José Cláudio

Massa Luminosa [Luminous


Mass], 1959 - 1960

Bico de pena com nanquim


sobre papel [China ink pen
on paper], 67 x 100 cm
Coleção [Collection] MAR
– Fundo [Fund] Z

Cosmos, 1968

Bico de pena com nanquim


sobre papel [China ink pen
on paper], 51 x 73 cm
Coleção [Collection] MAR
– Fundo [Fund] Z
198-199 QUER MESMO SABER? I - José CLáudio PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

Um belo dia, sábado ou domingo, porque era de dia, 10 horas


da manhã, chegam lá em casa, na Rua do Bonfim, Olinda,
Jomard Muniz de Britto e Moacy Cirne, exatamente quando eu
experimentava ao léu os tais carimbinhos: fui flagrado no ato.
“Isso é poema/processo!”, exclamou Moacy. “Você é um poeta/
processo!” Assim entrei no movimento arte processo, mandavam
livros para mim, saí até numa coleção seriíssima, Poetas do
Modernismo, em seis volumes, do Instituto Nacional do Livro,
Ministério da Educação e Cultura, Brasília, 1972. Lembro com
ternura do poema/processo. Gostaria de ter conhecido Wlademir
Dias-Pino, Álvaro de Sá.

Continuei fazendo desenhos de carimbos, às vezes aliados ao


bico de pena. Foi o meu adeus ao desenho. Arnaldo Pedroso
d’Horta, que vinha de quando em quando, veio umas três vezes,
passar uns dias, poucos, em nossa casa, numa dessas ocasiões
eu justamente fazia desenhos de carimbos. Ele gostou tanto
que arriscou uns minidesenhos usando como carimbos gume de
ferramentas como formão, goiva, bisturi. E hoje olho esses
desenhinhos como se fossem o seu adeus.

Quer dizer, essas coisas aconteceram sem nenhuma ideia


deliberada de vanguarda ou experimentalismo. E assim também
ocorreu com minha volta à pintura, quase poderia dizer sem
que eu quisesse. Ainda na casa da Rua do Bonfim, Olinda, em
1967, tive um sonho, sonhado mesmo, enquanto dormia de noite.
E pintei o quadro a óleo que intitulei Sonho (1967), vendido
na galeria Espaço Brennand no ano passado, a respeito do qual
escrevi uma pequena explicação que a galeria gentilmente mandou
imprimir com a reprodução em cores do quadro, de onde extraio
este trecho: “E como desenhista continuei, mesmo ao voltar
ao Recife, onde casei, dando como encerrada minha carreira no
exterior [leia-se fora do Recife]. Nesses anos todos, nunca
mais tinha tocado numa tela, nunca mais tinha pintado. Até que,
sem nenhum motivo aparente, depois de uns 15 anos sem pintar,
tive um sonho absolutamente nítido, que não esmaeceu durante os
vários dias em que resolvi comprar uma folha de eucatex, mandar
colar numa grade de madeira, preparar a superfície do eucatex,
comprar material de pintura e pintar o quadro aqui exposto
intitulado Sonho. A partir desta tela, voltei a me dedicar
à pintura como quando tinha começado no Ateliê Coletivo. Me
pergunte o que significa que não sei explicar. Nem nunca
pretendi. Agora, neste momento, depois de 46 anos, desde 1967,
data da obra, nota-se a ideia da perspectiva, do panorâmico,
que aos poucos foi se impondo na minha pintura, sem que disso
me tivesse dado conta, até pela circunstância de eu ter passado
parte desse tempo longe desse quadro Sonho, não que proibido de
vê-lo mas o certo é que havia muitos anos não punha os olhos
nele. Somente agora, ao revê-lo por motivo desta exposição,
é que pude constatar sua importância para o desenvolvimento
posterior da minha pintura, como a presença do mar, desse mar,
que comparece, e marcante, dominante, pela primeira vez em
quadro meu, motivando Neném Brennand [dona da galeria, filha do
pintor Francisco Brennand], ao falar-lhe eu sobre isso, sugerir
o título deste pequeno depoimento: A Matriz de Todos os Mares.
Considero-o, pois, o meu primeiro quadro. E pela primeira vez
exposto. (1º/junho/2013)”

Ainda na década de 1960 conheci Hermilo Borba Filho e, por


intermédio dele, Renato Magalhães Gouvêa, que me tirou da
Sudene e contratou como artista exclusivo, já eu à altura
totalmente voltado para a pintura. Cheguei no que queria: viver
de pintura. Daí para frente, a vida seguiu igual mais de dez
anos. A mudança decisiva veio com um telefonema de um amigo com
quem tinha perdido contato e que conheci por meio de Arnaldo
Pedroso d’Horta: Paulo Vanzolini. “Você ainda quer conhecer
a Amazônia? Estamos partindo para uma excursão a um dos rios
mais interessantes, o Rio Madeira.” Dessa mudança que aconteceu
no Rio Madeira dou notícia no belo livro feito pela Imprensa
1. SCHARLACH, Oficial.1
Cecilia. José Cláudio da
Silva/100 Telas, 60 Dias 
& Um Diário de Viagem Resumo. Em todo lugar, o barco era preso pelo delegado de
- Amazonas. São Paulo,
1975. polícia pensando, sei lá, tratar-se de guerrilheiros. Até que
fôssemos liberados, passavam-se dias. No lugarejo São Carlos
(RO), o delegado, seu Felizardo, ficava o dia todo me vendo
pintar. Um dia disse: “Eu queria um quadro”.

[p. 200 - 201] Ionaldo Cavalcanti Álbum Paisagens Concretas [Concrete Landscapes Album], 1958. Serigrafia sobre papel [Serigraphy on paper]
14,2 x 23,1 cm. Coleção [Collection] Fundaj | Coleção [Collection] Mauro Mota
202-203 QUER MESMO SABER? I - José CLáudio PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

“Que quadro, seu Felizardo?” “Um índio flechando uma arara.”


Fiz. O homem ficou na maior alegria, levou o quadro ainda
molhado para casa e liberou o barco. Aí me deu o estalo: a
orientação no Ateliê Coletivo era fazer arte para o povo, mas
não perguntávamos ao povo o que queria que pintássemos. De
volta ao Recife, comuniquei que a partir de agora, isto é, de
então, pintaria por encomenda, o cliente dizendo o que queria
que eu pintasse. Isto foi em 1975. No próximo ano essa proposta
vai fazer 40 anos: nunca mais me faltou encomenda. Pelo
contrário, o difícil agora é que há fila de espera e alguns
ficam ofendidos, acham que há privilégio. Enfim, minha estética
agora é a do freguês.

Só mais uma história. Quando comecei a fazer isso, me submeter


à vontade do cliente, estava certa noite conversando com o
pintor Maurício Arraes, de cuja pintura gosto muito. Era num
terracinho na casa de seu pai, ele e eu sozinhos, e Maurício
protestando: “Agora que a pintura se livrou dessa escravidão,
você quer espontaneamente voltar para ela!”. Nisso apareceu
Miguel Arraes, de pijama, chinelo ou sapato de pano, nem lembro
mais, que estivera fumando cachimbo num terracinho ao lado
no escuro do quintal e ouviu a conversa. Maurício numa rede,
eu de um lado numa cadeira e Miguel Arraes sentou na cadeira
do outro lado. “Zé Cláudio tem razão”, ele disse. “Quando Mao
Tsé-Tung assumiu na China, quis conhecer aqueles comandantes
que lutaram ao lado dele em regiões longínquas e que ele só
conhecia de nome. Um deles chegou, se apresentou, Mao mandou
sentar e perguntou: ‘Qual é a sua religião?’ O cidadão até se
ofendeu, pensando que Mao o estivesse chamando de ignorante:
‘Excelência, eu sou marxista!’ Mao disse: ‘Tá errado. Se você
não tiver a religião de seu povo, você jamais será capaz de
entendê-lo’.” Adão Pinheiro, pintor pernambucano nascido em
Santa Maria (RS), em 1938, no artigo “Às Margens Plácidas”
(1987), comenta: “Ora, se diria que a produção da pintura
pernambucana estaria voltada muito mais, hoje, em adquirir uma
marca ou em formar uma tradição e menos em enveredar pelos
caminhos da experimentação”.
O artigo era sobre Ypiranga Filho, artista que mexe com várias
técnicas, da gravura à escultura. Escrevi, há pouco, sobre
exposição dele, Ypiranga, e mais Paulo Dias e Suzana Azevedo,
e aproveitei a deixa de Adão: “Essa luta nunca esmoreceu e
parece que cada dia começa de novo. Ou são as duas coisas
numa” (“Gravadores e Papeleiros”, para a revista Continente,
Recife, maio, 2014). Isto escrevi agora, três meses depois de
ter visitado a mostra Pernambuco Experimental. Ainda dentro
da exposição senti que estava vivendo um momento especial,
tanto que disse à minha filha Maria Júlia, que me acompanhava
e foi quem me animou a ir ao Rio de Janeiro: “Era bom que todo
mundo lá do Recife visse esta exposição”. Eu sempre opunha
experimentalismo a, nas palavras de Adão, “adquirir uma marca”
ou “formar uma tradição”. Até que deixei de pensar no assunto.
Mas passeando pela mostra, vendo tanta coisa bonita de nossos
artistas, quadros que a gente nem supunha, de Cícero Dias, de
Vicente do Rego Monteiro, de Lula Cardoso Ayres, até de Ionaldo
que eu pensava conhecer, e tanta coisa mais que eu não conhecia
ou não conseguia ver com essa visão nova, sem preconceitos
antigos, me senti outro e poderia dizer de novo: eu era cego, ó
Cícero, e me conferiste o sentido da visão. Ou melhor, eu era
cego, ó MAR. Obrigado.
204-205 QUER MESMO SABER? II - José CLáudio PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

Os anos 1960 foram feitos de voltas, de retornos, começando na


década anterior, quando voltei da Europa em novembro de 1958
após um ano lá no Velho Continente. Devo ser sucinto, bem sei,
coisa difícil para mim, falastrão: começo a escrever e não
paro.

Tem coisa que não posso deixar de contar. Em Louvain, na


Bélgica, “Lovaina” em português, cheguei num fim de tarde de
domingo. Toquei a campainha da casa mantida pelo casal Morrin
para estudantes estrangeiros pobres. Tinha-me inscrito e estava
sendo esperado. Mas não com tanta euforia como quando um rapaz
moreno do meu tope, menos de 1,70 metro, pulou em cima de
mim dando um abraço apertado assim que pronunciei meu nome e
bradou em espanhol: “Viemos mostrar a esses europeus o quanto
valem nossos índios!”. Como não apresentei reação, completou:
“O Brasil acabou de ganhar a Copa do Mundo!”. Achei oportuno
contar isso neste ano de Copa do Mundo no Brasil. Infelizmente
o México não foi campeão e não pude lhe retribuir o abraço.

Algum tempo antes, na Itália, o comissário da representação


espanhola na Bienal de Veneza, Luís Gonzales Robles, prometera-
me hospedagem de um ano em Madri, para onde eu pretendia
seguir após a Bélgica. Quando subi no carro do marido de madame
Morrin – que me levava todo dia para Bruxelas, dessa vez para
ir embora –, ela, apreciadora de pintura, dona de um Utrillo,
e que conversava comigo sobre arte, aproximou-se estendendo-
me um envelope grosso: “Para você conhecer um pouco mais da
Bélgica”. Um tijolo de dólares. Adiei a ida à Espanha e fui ver
a Bélgica, a Alemanha, a Áustria, a Suíça, me despedi da França
e, quando cheguei a Madri, ninguém dava notícias do comissário
Robles. Disseram que tinha mudado para o Peru. Sem o dinheiro
de madame Morrin, a essa altura acabado, uma noite me deu
aquele desespero e, antes de dormir, no tabique providenciado
pelo olindense Félix Athayde, que encontrei por acaso, intimei
Deus a me dizer o que fazer no dia seguinte. Caso contrário,
toparia qualquer coisa, até assaltar banco. No meio da noite,
ouvi aquele grito estrondoso: “Vá simbora pro Brasil hoje!”. Ao
chegar à companhia de navegação de manhã, constatei que o navio
Conte Grande, em que eu tinha vindo, atracara no dia anterior
em Barcelona, partindo para o Brasil no dia seguinte. Félix
Athayde conseguiu a passagem de avião. Aconteceram vários
milagres nesse dia. Mas deixemos. Desembarquei em Santos, fiz
concurso para repórter do jornal O Estado de S. Paulo, onde
trabalhei uns meses, mas queria mesmo era voltar para casa.
No Recife, trabalhei no Diário da Noite, e certa vez Ladjane
mandou escrever a matéria para sua página. Fiquei escrevendo
sobre arte local. Ninguém comprava um quadro meu nem de ninguém
da minha geração, ao que parecia. Em 1960 casei e fui trabalhar
de ajudante de desenhista técnico na Sudene, a Superintendência
do Desenvolvimento do Nordeste; virei artista de fim de semana.
Durante mais de dez anos.

Não tinha contato com os artistas mais importantes, como


Francisco Brennand, que recebia amigos intelectuais na Várzea,
nem com Lula Cardoso Ayres, com quem nunca tivera aproximação,
nem com Cícero Dias, que morava na França, ou Vicente do
Rego Monteiro, que depois do golpe viera para Brasília; Hélio
Feijó andava afastado por motivo de doença; Aloisio Magalhães
vinha aqui de passagem, mas também eu não entrava no circuito.
Para não dizer que não me relacionava com ninguém, fiz uma
1. Miguel Arraes,
prefeito do Recife,
exposição de arte polimatérica na galeria da prefeitura1
fizera, por inspiração dirigida por Abelardo da Hora, acho que também outra na loja
de Abelardo da Hora, a
galeriazinha da beira do
Rozemblit dirigida por Wilton Souza – não precisa dizer que
rio, projeto de Marcos não vendi nada. Arte era para dar, como disse Cícero Dias.
Domingues. Ficava a
meia altura entre o nível
Eu vivia isolado em decorrência mesmo do meu estilo de vida
da água do Capibaribe – embora não parasse de desenhar e, em seguida, pintar –, mas
e o da rua, ali onde
tem hoje, se já não
poucos sabiam da minha existência e eu talvez contribuísse
quebraram, a estátua para isso, imbuído de que arte era coisa muito pessoal e
de Capiba. Entrada
pela Rua do Sol. Uma
ninguém tinha nada com isso. Logo veio o golpe militar. As
gracinha de galeria, pessoas ficavam com medo umas das outras. Mas engraçado é
aconchegante, sempre
movimentada tanto pela
como havia no ar aqui no Recife, no meio artístico rarefeito,
afluência do público não sei que ideia a meu respeito que fazia com que um Jomard
como pela sequência
de boas exposições. No
Muniz de Britto ou Moacy Cirne aparecessem de supetão lá em
coração do Recife. Mas casa sem que eu os conhecesse. Como certa noite também Celso
durou pouco, destruída
por uma cheia que a
Marconi, jornalista que escrevia sobre cultura, cinema, arte,
deixou submersa. Eu ia acompanhado de Caetano Veloso vestido de saia comprida de pano
muito lá, até fiz uma ou
duas exposições.1962.
estampado verde, sua mulher e o empresário Guilherme, se não me
engano, mais Rita Lee e dois rapazes, Os Mutantes, que ficaram
206-207 QUER MESMO SABER? II - José CLáudio PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

brincando entre si enquanto eu, minha mulher e meus filhos,


crianças, nos perguntávamos o que estaria acontecendo. Era a
época do tropicalismo, e não me espanto se algum historiador me
incluir entre seus participantes.

Eu trabalhava dois expedientes. Batia ponto às 7h20 da manhã na


Rua da Concórdia, Recife, morando em Olinda, outro município:
perdi muito remunerado em pé no ônibus, no engarrafamento.
Chegava em casa de noite. Minha vida se resumia a isso. Tive
de me espelhar na vida dos sábios e dos santos que viviam na
pobreza, como se eu estivesse acima das contingências da vida.

Um dos lugares que eu frequentava em Roma nas minhas


perambulações era o Monte Capitolino, tanto pelo museu como
pela praça, geralmente vazia, com aquelas riscas no chão
desenhadas por Michelangelo, assim como o pedestal da estátua
de Marco Aurélio a cavalo que inspirou tudo que é estátua
equestre no mundo. De tanto contemplá-la, quis saber quem tinha
sido Marco Aurélio. Li suas Meditações – I Ricordi, em
italiano –, que virou um dos meus livros prediletos até hoje.

Outro autor que chegou à minha vida para ficar aconteceu de


modo imprevisto. Eu sempre gostei de ler e nunca, nem nas horas
mais difíceis, deixei de fazê-lo, até debaixo do poste da rua
quando não tinha luz elétrica em casa nem candeeiro, como no
Buraco Doce, um lugarzinho do Rio Vermelho, Salvador, que hoje
não existe mais. 1955. Por incrível que pareça, o marchand
uruguaio Cipriano me apareceu com dois desenhos meus feitos lá
no Buraco Doce, que muitos anos depois troquei por um quadro.
Crianças brincando nuas numa bacia com fundo de pau, como
faziam antigamente para aproveitar bacias velhas furadas: esses
meninos do vizinho comiam terra, eram de raça branca, cabelos
finos, lisos, muito louros, barrigudos. A meninazinha não
conseguia andar, por isso a mãe botava ela sentada na bacia.

Voltando a Roma. Teve um dia que senti grande necessidade de


ler em português. Por isso Fernando Pessoa disse: “Minha pátria
é minha língua”. Bati tudo que foi de livraria em Roma e não
encontrei um livro, qualquer que fosse, em português.
Isso se repetiria em Munique, onde tive de me satisfazer com
um livrinho de Miguel de Unamuno em espanhol, El Cristo de
Velázquez. Estava disposto a incomodar Murilo Mendes para
pedir livro emprestado. Alguém sugeriu procurar a biblioteca
do Vaticano. Pelo menos a Bíblia deveria encontrar. A freira
atendente andou pra lá e pra cá, saía e entrava, até que,
visivelmente transtornada, me disse quase chorando: “Isto é um
absurdo! O Brasil, o maior país católico do mundo, e não temos
uma Bíblia em português!”. Foi lá dentro e trouxe uma Bíblia
escrita num alfabeto que nem existia, que foi criado para
publicar a Bíblia para esse país africano, uns garranchos para
nós ilegíveis, mostrando o cuidado da Santa Sé para que não
faltasse a Bíblia em nenhuma língua. Mandou-me esperar e com
pouco chegou um padre português, meia-idade, dizendo que no dia
seguinte eu fosse à igreja dele no centro de Roma que me daria
um livro em português. No outro dia me deu As Confissões, de
Santo Agostinho.

Nesses dois livros se resume toda minha cultura filosófica.


Para saber mais sobre Marco Aurélio, li Epicuro e Lucrécio.
Quanto à Bíblia, ler Santo Agostinho é ler a Bíblia, que
ele cita a cada passo como se soubesse de cor. Mas, para
que não me confundam, sou ateu. Embora minha mulher me ache
irritantemente católico, apostólico, romano. São pontos de
vista. De certo modo esse estoicismo dos tempos mais difíceis
se reflete até hoje, embora dando para viver de pintura no meu
caso, modestamente, é certo. Naquela década de 1960, na Rua do
Bonfim, onde pintei o quadro Sonho, fiz os desenhos de carimbos
e muitos dos desenhos pretos. A certa altura, me perguntei
afinal para que eu, quando menino, queria aprender pintura.
Veio-me a ideia de pintar a pracinha contígua à casa onde
morava. Com vergonha até de mim mesmo, preparei uma telinha de
eucatex e assim que o dia clareou, quase de madrugada, sentei
na calçada, no meio-fio, ajeitei a telinha num caixãozinho –
ou talvez já tivesse o cavaletezinho de campo, dado por João
Carlos Carneiro da Cunha, extraordinário pintor que precisa
urgentemente ser redescoberto – e voltei ao século XIX, à
pintura ao ar livre. Esse quadrinho de dois ou três palmos foi
adquirido pelo escritor Renato Carneiro Campos.
208-209 QUER MESMO SABER? II - José CLáudio PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

Também lembrei que adoraria saber pintar para pintar os


passarinhos que via nos gaiolões do vendedor em Ipojuca quando
menino – sanhaçu, sangue-de-boi, pintor-verdadeiro, concriz,
galo-de-campina, cabocolinho e tantos outros. Enchi a casa
de gaiolas desses passarinhos e outros, até lambu que não
se adapta à gaiola, guriatã, caga-sebito, e mandei brasa:
eram quadrinhos de meio tamanho, até hoje conservo alguns.
E pintava tudo que achava bonito. Certo dia acordei com uma
troça tocando frevo na minha porta, A Burra do Rosário, e
pintei um quadro de 80 x 120 centímetros, hoje com minha irmã
Nena, um dos primeiros com tinta acrílica, depois de ter tido
uma intoxicação com óleo. E assim, até hoje, da forma mais
espontânea, “o que sair”.

Há ainda a comentar o fato de ter sido incluído na exposição


de Cícero Dias na Faculdade de Direito do Recife, em 1948,
um quadro de Telles Júnior (1851-1914), e não que estivesse
ali por acaso: a obra foi retirada de propósito do Museu do
Estado para integrar a mostra de Cícero Dias. Muitas foram as
interpretações. Alguns consideraram um desafio, significando
que Cícero não temia o confronto com o maior pintor
pernambucano anterior aos modernistas ou cuja pintura não foi
afetada pelo modernismo e que ele era, ainda, tão digno quanto
do orgulho dos conterrâneos; outros acharam uma reverência, um
reconhecimento, sinal de respeito à obra de Telles Júnior, e
não um desafio. Para outros, ainda, era um modo de dizer que as
diferenças se constituíam e decorriam de abordagens diferentes,
tão legítimas estas quanto as da pintura anterior, observando-
se também que se destacava a presença da terra pernambucana em
ambos os pintores. Além, naturalmente, dos que achavam simples
escárnio botar Telles Júnior em tal companhia, ou um ato de
insânia.
ESCREVIVENDO AO MAR DE A PARA Z
Jomard Muniz de Britto
210-211 ESCREVIVENDO AO MAR de a para Z - Jomard muniz de britto PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

A char gerador de todos os achismos, impressionistas e


TRANSsubjetivos.“Quem acha vive se perdendo?” Aqui e ágora.

B rincar enquanto exercício cotidiano entre jogos de salão, Copas


e peladeiros. Atividades lúdicas TRANSpiradas pelo HOMO LUDENS.

C alcular (para confrontar) estatísticas da (im)popularidade dos


Governos e desgovernos.

D esviar ou dissipar manifestações perdurantes do populismo


sem fronteiras. E dos racismos camuflados.

E ncenar ritos da brasilidade, longe dos colonialismos internos


e metropolitanos. Além das mitomanias do nacional-popular.

F ranquear negociações problemáticas entre Cuba, China, Rússia


e Argentina, dentro e fora dos carismas franciscanos.

G erar expectativas para uma democracia sem adjetivos, nepotismos


e famigerados mensalões. Gerir fantasmas do passado.

H istoricizar sem a histeria historiográfica, porém


intensificando.

I ludir sem repetir ilusões do memorialismo com tendências


ao absoluto dos gostos e camaradagens, atuais brodagens.

J ogar pelas REDES SOCIAIS a necessidade de leitura do mundo


encarando a COPA sem absurdos financeiros.

K itschizar verbalizando a palavrinha quase palavrão – KITSCH –


que nos invade pelas tramas da estética na politicidade das
artes.

L utar com palavras e performances pode ainda ser a luta mais vã.

M anipular seja qual for o Príncipe (ou habitante dos precipícios)


é mais do que um risco no grau zero das escriduras.

N avegar sem naufragar por todas as obsessões bipolares:


direita/esquerda, núcleo/descentramentos, alegria/agonia.
Sejamos multipolares sem cargos nem descargas ideológicas.

O uvir em tempos lógico, cronológico e analógico, buscando


saberes. Onde estão os cadáveres do Araguaia? Das balas
perdidas e antipacificadores?
P recisar no singular plural das conversações analíticas e dos
automatismos da NET. É preciso e urgentíssimo que alguém
escreva dentro e fora das escroquerias, picaretagens da
psicanálise e da poesia pop filosofante.

Q uerer – quereres da musicalidade. Querendo abolir o trauma dos


preconceitos.

R enarcisar-se sem o adorno do egocentrismo que


dispara egolombrismos.

S onhar mais um sonho impossível? Sem saudosismo investir nos


labirintos da criticidade sem temer o rigor das teorias.

T eatralizar agudamente nossas contradições na travessia dos


pensamentos pensantes. Trágica lucidez vivencial interligando o
tempo da história ao temporal das sobrevivências. Tragicomédia
dos patrocinadores de campanhas eleitorais e Afundações
Culturais.

U nificar sem uniformizar. Umbral dos últimos e dos inocentes


inúteis. Último de todos nós, ignorantes do UM, do Bem,
fundamento ético das urgências.

V ampirizar nosso H.O. nas jugulares das experimentações, ora


Museais, talvez Museificantes. Ex-PERY-mental em metaleiros.

W agnerizar as potencialidades operísticas.

X erocar desde que não é preciso criar. E muito menos


invencionar.

Y sem verbos nem verbas: Yang & Yin. Dialética sem síntese.
Interpenetrações gilbertofreYreanas nas tropicologias e
democracias metarraciais. Tropicais alegorias e melancolias.
Mestiças e híbridas solidões.

Z erando ou não a reza. Zeus, Zumbi, Zaratustra no crepúsculo


dos ídolos e idiotas dos nacionalismos e internacionalismos.
Indomável zoológico da POLITICARIA.

Rio de Janeiro, março/abril de 2014, na Recifernália.


atentadospoeticos@yahoo.com.br
212-213 Biografias dos autores PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

José Cláudio da Silva (Ipojuca, PE, 1932) despertou Adolfo Montejo Navas (Madri, Espanha, 1954) é
para a pintura ainda na escola primária ao ver o poeta, crítico, curador independente, tradutor e artista
pintor Othon Fialho de Oliveira, seu padrinho de visual. Colaborador de diversas publicações culturais
crisma e ex-promotor, desenhar os fregueses nos na Espanha e no Brasil, é correspondente da revista
papéis de embrulho da loja de seu pai, Amaro Silva. de arte internacional Lápiz, de Madri, desde 1998.
Em 1952, abandonou o curso da Faculdade de Direito Realizou curadorias de Anna Bella Geiger, Victor
do Recife e juntou-se ao grupo do Ateliê Coletivo, Arruda, Regina Silveira, Wlademir Dias-Pino, Paulo
dirigido por Abelardo da Hora, sendo um de seus Bruscky, Vera Chaves Barcellos, Liliana Porter, Iberê
fundadores. Na Bahia trabalhou com Mário Cravo Camargo, Eduardo Haesbaert, além de diversas
Júnior, Carybé e Jenner Augusto; em São Paulo, com coletivas na Espanha e no Brasil. Além de poesia,
Di Cavalcanti e estudou gravura com Lívio Abramo. aforística e traduções, publicou Miscelânea Cortázar
Premiado na IV Bienal de São Paulo, ganhou o Prêmio (Coleção Memorial de América Latina, 2009), A
Leirner de Arte Contemporânea, concedido pela Bola entre Palavras (org. com Vanderley Mendonça,
Folha de S. Paulo, e, com bolsa da Fundação Rotelini, Annablume, 2010), Regina Silveira (Charta Books,
passou um ano na Europa. Atualmente expõe na 2011), Victor Arruda (Casa da Palavra, 2011), O Outro
galeria Espaço Brennand, em Recife. Lado da Imagem e Outros Textos – A Poética de
Regina Silveira (Edusp, 2012), Poiesis Bruscky (Cosac
Jomard Muniz de Britto (Recife, PE, 1933), graduado Naify/APAC, 2013), Mário Carneiro – Trânsitos (coautor,
em filosofia pela Universidade do Recife (atual MinC, Circuito, 2013). Ganhou o Prêmio Mário
Universidade Federal de Pernambuco-UFPE), integrou, Pedrosa de Ensaio de Arte e Cultura Contemporânea
nos anos 1960, a equipe de alfabetização de adultos (Fundação Joaquim Nabuco, 2009). Coordena Limiar
do educador Paulo Freire. Com o AI-5, mesmo após Edições Extraordinárias.
ser preso e aposentado da UFPE, seguiu atuando
como professor titular da Universidade Federal da Clarissa Diniz (Recife, PE, 1985) é crítica e curadora.
Paraíba-UFPB até 1973, ano em que foi impedido Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Artes
de lecionar por meio de comunicação sumária. Foi da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)
reintegrado na duas universidades após a anistia. O e graduada em artes plásticas pela Universidade
poeta lúcido, político lúdico e pedagogo libertário, Federal de Pernambuco (UFPE). É gerente de
autor de mais de dez livros, atuou ainda como crítico conteúdo do Museu de Arte do Rio, tendo realizado
cultural, no Cine Clube Vigilanti Cura, em Recife, a curadoria de diversas de suas exposições, entre
e no Jornal do Commercio. A partir da década de elas, Pernambuco Experimental, O Abrigo e o
1970, participou ativamente do tropicalismo, com Terreno – Arte e Sociedade no Brasil I, junto com
uma extensa filmografia em super-8 e variadas Paulo Herkenhoff e Do Valongo à Favela: Imaginário
performances. e Periferia, junto com Rafael Cardoso. Foi curadora
assistente do Programa Rumos Artes Visuais 2008-
Zanna Gilbert (Norwich, Reino Unido, 1980) é pós- 2009, do Instituto Itaú Cultural, São Paulo, e assinou
doutoranda no Departamento de Desenho do MoMA, a curadoria e cocuradoria de diversas exposições,
doutora pela Universidade de Essex e Tate Research. como Refrações – arte contemporânea em Alagoas
Atuou como professora em cursos de pós-graduação (Pinacoteca da UFAL, 2010), Ambiguações (CCBB,
na Universidade de Essex e na Universidade Nacional 2013), Zona tórrida – certa pintura do Nordeste
Autônoma do México (Unam). O foco de sua pesquisa (Santander Cultural - Recife, 2012), contidonãocontido
são as redes de artistas e a circulação transnacional (MAMAM, 2010) e Contrapensamento selvagem
da arte através do correio. Foi curadora das (Instituto Itaú Cultural, 2011). Editora da Tatuí, revista
exposições Felipe Ehrenberg: Obras do Arquivo Tate de crítica de arte, desde 2006, e membro do Grupo
(2009), Burocracias Íntimas: Arte e Correio (2011), de Críticos do Centro Cultural São Paulo de 2008
Jogos de Competição: A Revolução do Design do a 2010, Clarissa é também autora e coautora dos
México em 68 (2012), Daniel Santiago: O Brasil É o livros Crachá: aspectos da legitimação artística;
Meu Abismo (Mamam, Recife, 2012; MAC-Niterói, Gilberto Freyre; Montez Magno; e Crítica de arte em
2014) e Edgardo Antonio Vigo: O Desfazedor de Pernambuco: escritos do século XX.
Objetos (MoMA, 2014).
Versão em Inglês
[english version]
214-215 presentation - carlos gradim PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL
experimental pernambuco - clarissa diniz

The Museu de Arte do Rio presents Experimental Pernambuco The rich seam of Experimental Pernambuco also gave rise to
(PE: EXP), a selection of art produced in Pernambuco between a program of related educational activities based on the idea
1900 and 1980. Curated by Clarissa Diniz, PE: EXP also sheds of educational experimentation later resulted in further show,
light on some of the key debates of this period, demonstrating Experimenting with Experimental Pernambuco, in which the
the singular features of the Pernambuco context and also educational activities produced in the course of PE:EXP took
pointing to dialogue with art from other parts of Brazil and center stage in a new exhibition put together by the managers
overseas. of the MAR’s content and education sectors. The show also
gave rise to a concert involving musicians and bands from
The geographical efforts introduced into the curation by Paulo the 1970s whose work had been included in PE:EXP. Staged
Herkenhoff for MAR collection programs and exhibitions during the final week of the exhibition as part of festivities
have produced a map of Brazilian contemporary art. Since to commemorate the first year of the MAR, it was a unique
it opened in March 2011, the MAR has brought together opportunity to bring these bands back together and to revive
paintings, drawings, prints, photographs, artist’s books, their work and their legacy in the context of Rio de Janeiro and
videos, films, visual poetry, photocopy art and other kinds for a younger audience.
of work by 15 different artists, ranging from Vicente do Rego
Monteiro to Lula Cardoso Ayres. In addition to what Herkenhoff This catalogue edited by Clarissa Diniz is the third MAR title
calls Experimental Pernambuco, his trilogy also includes published in 2014, along with Pororoca – A Amazônia no
Modern Pernambuco (which he co-curated in 2006), and MAR and Largo do Paço, the generous donation by Fundo
Contemporary Pernambuco. After proposing the experimental Fátima Zorzato and Ruy Souza e Silva. It is with the greatest
module for the MAR, he entrusted the project to Clarissa Diniz. of pleasure that we present this catalogue as part of an
editorial program that builds up alternative histories based
The exhibition brought together works, artists and movements on continuous dialogue between exhibitions and catalogues.
that have emerged in Pernambuco, whose experimental Bringing together previously unpublished texts by Clarissa
intensity added weight to the collective construction of the ways Diniz, Adolfo Montejo Navas, José Cláudio, Zanna Gilbert and
people exist, think and create. The exhibition also challenged Jomard Muniz de Britto, this catalogue aims to provide a point
the always inadequate circumscriptions of the history of art, of reference for researchers and lovers of the experimentation
urging research institutions and those connected to them to that emerged in Pernambuco but spilled over and had a broad
take responsibility for continued efforts to think outside the box. influence on the culture of the whole of Brazil and around the
With its combination of individuals, differences, invisibilities, world. The Museu de Arte do Rio – MAR extends a warm thank
stereotypes and marginalities, Experimental Pernambuco shed you to all those who made this project possible.
light on different projects of modernity, ideas of a country,
experiences of art and collective sensibilities. It was therefore
an exhibition that reacted critically and creatively to the comfort
zones of our culture – an ongoing task to which the Museu de
Arte do Rio is always committed.

Of the 470 works exhibited in PE:EXP, 160 have now been


incorporated in the MAR Collection. The Pernambuco section
of our collection is a result of generous donations from artists
and families, as well as from the Z Fund, the Orlando Nóbrega
Fund and the Fundação Roberto Marinho. Along with the
shows, the MAR’s priorities currently include the North Region
(the Museum’s Amazonian Fund, with 500 items), the Northeast
(starting in Pernambuco), the Midwest (starting with the 50
items from the Goiás Grupo EmpreZa) and the city of São
Paulo (the set of objects from 16 collectives involved in urban
interventions, housing problems and violent crime in the city set
up by FUNARTE’s Collective Creativity/Donation Fund).

Carlos Gradim
President director of Instituto Odeon - MAR
EXPERIMENTAL PERNAMBUCO
Clarissa Diniz

Rather than to label the art produced in Pernambuco, the Few artists’ work speaks so eloquently of the artistic, social
aim of Experimental Pernambuco is to discuss the power of and political contradictions of the context of Pernambuco
invention and revulsion of artistic practice and that which we as Cícero Dias. A clear experimentalist, his career combines
may call its experimental character, capable, in the words invention, radicalness and conservatism in a typically Freyrean
of Jomard Muniz de Britto, of “confounding the established “sui generis”. For Gilberto Freyre, a “sui generis” life is the
and establishing differences”.1 Bringing together works, incarnation of “antagonisms in equilibrium”4 – a feature he
artists, debates, initiatives and various episodes, this is the stresses in his defense of a history of Brazil as a tightrope act,
experimental intensity that presents itself, underlining general effectively negotiating fraternization and violence of every
questions that pervade the period between 1900 and 1980 kind.5 It wouldn’t be different with Cícero Dias.
covered by the exhibition.
A child of the sugar plantation aristocracy like so many
Although it is very well-known for its contemporary work young men at that time, Cícero Dias left Pernambuco in the
of the 1990s and 2000s, Pernambuco was a hotbed of 1920s to study in Rio de Janeiro, where he set out on his first
experimental art throughout the preceding century, when explorations. His watercolors and drawings, while daring in
modern developments broadened their scope and provided the context of the Brazilian capital, did not appear to cause the
fertile ground, intensifying with the Manguebeat movement, same shock when exhibited back in his home town of Escada.6
for example. Experimental Pernambuco addresses the points Organized by Gilberto Freyre, two exhibitions of Dias’s work (in
at which projects of modernity were built up, radical forms 1928 and 1929) in Jundiá – the sugar plantation where he was
explored, new media experimented with, new bodies invented, born – illustrated the interest of the pair (who were lifelong
collaborative projects involving creation, sociability and the friends) in the sensible world of the sugar culture of the time,
circulation of art engaged in, and the constant recreation of while responding to the criticisms the artist had received in Rio
critical strategies for resistance and social and political action and Recife, including that of producing “nonsense art”.
was in course.
The dialogue between the two began in 1932, when the painter
More than the assertion of certain positions or strategies, it returned to Pernambuco: “Could I be participating in his ideas?”
is above all the constant reinvention – transformations and Dias asked, imagining that “the renowned sociologist could
conflicts – of language that interests us: the exhibition places never find a form of painting in which literary and sociological
its faith in the shifting force that disentangles art from regional affinities were so close to the visual arts”.7 The lifelong dialogue
determinants or identities. After all, while for an artist such as between the pair gave rise to an interest in the ways painting
José Cláudio, “art is not farm produce”, “it doesn’t come with the relates to its social, cultural and environmental context: “Could
flour we eat or with the blood we have”,2 for Jomard Muniz de Gilberto have been the first to show me the greens I used in
Britto and Daniel Santiago too it is an abyssal experience that my canvases? The greens of the Pernambuco sea I saw, where
extends beyond one’s place of origin: “Brazil is my abyss”. all painters conventionally saw blue. It is curious that painters
aiming to copy nature turned greens into blues”.8
Art that is abyssal and libertarian, but not without “contexture
- between the difference that comes from the root and the Freyre understood early on that, with Dias, the “nonsense
involvement that comes from the con-text”.3 Experimental was not the end but, in fact, a means: an attempt to produce
Pernambuco thus also challenges the stereotypes and ‘new ways of expressing life’… his painting strives towards the
commonplaces that are imagined by art over time, at times boldest of experimentation”.9 In turn, Dias took on his relation
fuelling, albeit collaterally, conservative conceptions of society. with his homeland as part of his artistic strategies: “I never
It is, after all, in the libidinal and dissenting clash with the forget to take my paintings to Escada, as I am persuaded that
context that the frictional character of creation takes shape and they gain in value through contact with the people”.10 For both
this is both the justification for and the basic issue addressed by men, the visual world and themes of Dias’s work was more
this exhibition. a continuation of the symbolic world of Pernambuco than a
break with it, which may explain why his panel I Have Seen
the World... And It Began in Recife (1926-1929, p. 154 - 155)
supposedly stirred controversy only when exhibited outside of
its local context.

1. Jomard Muniz de Britto in O que fazer da crítica cultural? (1979). Originally 6. “When Cícero Dias staged an exhibition at Jundiá, in Escada, his aim was precisely
published in BRITTO, Jomard Muniz; LEMOS, Sérgio. Inventário de um feudalismo that of scraping away the encrusted prejudices of the cognoscenti of the capital city,
cultural. Recife: Gráfica Nordeste, 1979. in order to achieve the popular intensity of the culture of humble farmhands, far
2. José Cláudio in Não há Nordeste (1961), Published in Diário da Noite. Recife, 13 from the ideological and intellectual disputes and deformities of the great artistic
June 1961. centers. It is a known fact that a young rancher or an illiterate shepherd, endowed
3. Jomard Muniz de Britto in O que fazer da crítica cultural? (1979). Originally with unconscious artistic sensibility, can get a better feel for a modern painting than
published in BRITTO, Jomard Muniz; LEMOS, Sérgio. Inventário de um feudalismo a scholar of any of our establishments of higher education. This is what the men of
cultural. Recife: Gráfica Nordeste, 1979. letters struggle to understand.” PEDROSA, Mário. Pernambuco, Cícero Dias e Paris.
4. Cf. Gilberto Freyre. Casa-Grande e senzala (1933). Revista Região. Recife, dezembro de 1948.
5. Cf. Gilberto Freyre. Um pintor brasileiro fixado em Paris. Rio de Janeiro, José 7. DIAS, Cícero. Eu vi o mundo: Cícero Dias. São Paulo: Cosac Naify, 2011. p. 69-70.
216-217 experimental pernambuco - clarissa diniz PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

An icon of his sexually explicit modern painting11 and of his Later, with the advent of the 20th century, the climate of
relation to the Northeast region and social history, the panel philosophical and political renewal attained an unprecedented
apparently provoked a timorous reaction from the public to urban scale, centered on the renovation of the Port of Recife.
the libidinous drives exposed in it. Partially vandalized when Apart from enabling a more intense flow of goods and ideas
exhibited at the Revolutionary Salon (National Museum of between Pernambuco and the rest of the world (an exchange
Fine Arts, 1931), the approximately 12-meter-long panel, with in which the zeppelins that stopped off in the city also played a
its transparency of form and theme, profaned the distance role), the transformation of the port radicalized the experience
kept between art and more ordinary feelings and narratives. of a modern Recife. Different from the stylistic eclecticism that
In Dias’s grand painting – executed on Kraft paper, which was setting the architectural tone of the period in other parts of
signaled from the outset its profanation of the métier –, while the country – such as the façades if the buildings lining Central
the initial pretext for the work was to tell the story of Joaquim Avenue in – the Pernambuco capital saw the emergence of a
Nabuco, it inevitably metamorphosed into a flurry of images of modernist urban fabric that occupied entire blocks, completed
the everyday. “Everything was mixed up in my head. Images by the strengthening of a hybrid culture, fed by European and
from my childhood. So many things: women, folk tales, Jacob’s African influences, the intermixture and reinvention of which
ladder, the eleven thousand virgins. Could I put all these images gave rise – through the combination of marches, maxixes,
into a grand fresco?”12 The epic intent is shot through with brass bands, fanfarras, capoeiras and dobrados – to the
experience of life; the ordinary and mythical merge in the body carnival dance and music known as frevo.
of the artist transformed into a pictorial carnality capable of
attracting and repelling, seducing and revolting. Cícero Dias Different from other manifestations of the culture of
knew that “the whole history of the Northeast coursed through Pernambuco, mostly coming from rural regions – in particular
his body”.13 the culture of the sugar plantations – such as maracatu – frevo
appeared at the outset of the 20th century as a clearly urban
Various images of contradictions – including social ones – that experience, replete with references coming from the globalizing
interested Freyre and the experimentalist Dias feature in I Have flux passing through the port, characterized as an occupation
Seen the World.. And It Began in Recife. While the panel does of the city and its streets. Improvisation and fervor – the heated
not have the critical clout of some of his later watercolors, such agitation from which the term frevo is derived – were features
as Condemnation of the Plantation Owners (1930, p. 17), with not only of music and dance, but also of the whole cultural
its bitter critique of the oligarchical system, it nevertheless does context in which Pernambuco had refused to adopt the national
point up the coexistence of cultural differences, such as a white resolution of 1855, according to which, based on the Carnival
woman breastfeeding a black baby, an airplane juxtaposed Authorities Council (held in Rio de Janeiro), Carnival would not
with an oxcart, or the architecture of the plantation alongside be prohibited or criminalized so long as it followed European
that of the metropolis. Such “antagonisms” are rhythmically laid patterns – a decision accepted by other Brazilian states.
out in the panel.
Frevo is thus also evidence of the critical verve that formed in
The rural landscape and port city of Recife appear among the nationalist, republican, abolitionist atmosphere that had
the choreographed figures, seeming to overwhelm a tiny Rio been taking shape in Pernambuco since the 19th century and
de Janeiro, whose Sugar Loaf Mountain is thrown deep into that can be seen the rich tradition of the caricatures produced
the background, a political statement and an indication of the daily in the state. Typical of this is Emílio Cardoso Ayres’s Álbum
cultural, political and intellectual ferment that had marked (1912), which, in the same vein as the cartoons of J. Carlos,
Recife since the 19th century, especially through the Faculty of caricatures the forms of urban life that were being introduced
Law – a shaper of ideas as important for the country as the in cities such as Rio de Janeiro and Recife. Ayres was innovative
thinking of Joaquim Nabuco, Tobias Barreto or Graça Aranha. in developing the elegantly urbane portrait-cartoon depicting
modern types such as the flâneur and the dandy, tracking the
lifestyle connected to the grand-scale urban reforms in these
cities, with their transatlantic manners, verandahs, tea houses,
art galleries and new patterns of behavior.

8. DIAS, Cícero. Eu vi o mundo: Cícero Dias. São Paulo: Cosac Naify, 2011, p. 69. 14. Cf. Rigel de Orion. Revista do Norte. Recife, 2nd fortnight of 1924.
9. FREYRE, Gilberto. Cícero Dias e seu “nonsense”. Diário da Manhã. Rio de Janeiro, 15. Joaquim Inojosa. A arte moderna. Originally published in Era Nova magazine.
7 Nov. 1942. João Pessoa, 1924.
10. DIAS, Cícero. É preciso conduzir a arte à vida cotidiana. Originally published in 16. FREYRE, Gilberto. Algumas notas sobre a pintura do Nordeste do Brasil. In:
Diário de Pernambuco, Recife. Later republished in Região magazine. Recife, Aug. FREYRE, Gilberto et al. Livro do Nordeste, comemorativo do centenário do Diário de
1948. Pernambuco: 1825-1925. Op. cit.
11. “I don’t cultivate shadow but resplendence. Nothing is obscure in my work”, Cícero 17. FREYRE, Gilberto. A propósito de Francisco Brennand, pintor, e do seu modo de
Dias notes in his biography. DIAS, Cícero. Eu vi o mundo: Cícero Dias. São Paulo: ser do trópico. In: Vida, forma e cor. Rio de Janeiro: José Olympio, 1962.
Cosac Naify, 2011. p. 74. 18. FREYRE, Gilberto. A favor da arte popular regional. Diário de Pernambuco.
12. DIAS, Cícero. Eu vi o mundo: Cícero Dias. São Paulo: Cosac Naify, 2011. p. 55. Recife, 27 Feb. 1972.
13. DIAS, Cícero. Eu vi o mundo: Cícero Dias. São Paulo: Cosac Naify, 2011. p. 83.
In this cultural ferment, the initial phase of Cícero Dias’s Throughout Freyre’s career there was a growing awareness of
career—and his dialogue with Freyre, whose The Masters and the context rather than regional ambition, which would lead
the Slaves (or Casa-Grande e Senzala, the original title), from him to state that “we increasingly need to think in terms of the
1933, he illustrated – would project him into an unquestionable inter-relation of things”,18 freeing regionalism from its unique
role in the lively debate regarding the projects of modernity connection with the Northeast and seeing it rather as the modes
that were unfolding in Recife. Broadly speaking, on the one of relation of any region, thus founding what would come to be
side there was the early uptake by politicians and intellectuals called – in pioneering fashion in Brazil – ecology: a complex of
of “renewing” conceptions which – like the renovation of the geographical, social, cultural and biological relations. The “man
port – was commonly regarded as futurism in aesthetic terms,14 of the Northeast” would thus gradually come to interest Freyre
with its enthusiasm for progress, instantaneity and a break primarily as a “situated man”,19 a socio-relational perspective
with the past. This was the case, for example, of the journalist that would lead him to defend the use of marijuana as a
Joaquim Inojosa, who, in 1924, published Modern Art,15 a letter regional custom,20 along with the use of skirts by men 21 – an
which called for adherence to the “new creed” which had idea that would also be touted as typical of tropical culture or
emerged in Brazil during the São Paulo Modern Art Week, in tropicology.22
1922. In a manifesto-like tone, Joaquim Inojosa conveys his
belief in “a new form of artistic expression” opposed to “the old The regional, ecological and tropical dimension of Freyre’s
formulae”, whilst differentiating his modernist spirit from that of work has fuelled the cultural and social ferment in Recife
futurism. In his view, modernity should be constructed based from the 1930s onwards. His active defense of that context
on the important contribution of Graça Aranha in intellectual also reveals the importance of artists such as Cícero Dias and
and literary fields, and his study The Aesthetics of Life (1921), Lula Cardoso Ayres for the development of his social thought.
which established a kind of phenomenology of light in Brazil, Before Dias produced the watercolor The Master’s House on
underlining its relation with the history of the ethnic and social the Noruega ​Sugarcane Plantation (1933) for The Masters and
formation of the country. In Modern Art, Inojosa therefore reads the Slaves, Freyre was already familiar with I Have Seen the
the art world as a field divided between those who espouse World... And It Began in Recife (1926-1929), a work imbued with
Parnassianism, Academicism, Naturalism, antiquarianism, the artist’s personal experience of the sugar culture, akin to Lula
or official art, the “systematic regionalists” and, finally, the Cardoso Ayres’s anthropological photographs and paintings.
modernists, in a clear expression of the incompatibility of these Both played a key role in developing Freyre’s imagined world
various sensibilities and schools of political thought. of the Northeast. Together they built up the modern image of
tradition and the contemporary relevance of the region, in a
On the other side, there were those who sought to value both dialogue that also required Freyre to produce some artwork;
the modernist spirit and certain local or traditional aspects of he produced various sketches during conversations with these
the culture of Pernambuco, foremost among them Gilberto artists, including a sketch for Dias’s watercolor for The Masters
Freyre and his thinking on art and society. It was in 1925, in and the Slaves.
a text entitled Notes on Painting in the Northeast of Brazil,
published in Livro do Nordeste, that Freyre first argued for While Gilberto Freyre imagined a painting of the Northeast
an artistic “renewal” that did not overlook “regional issues, that bore the sugar plantation memory of the “ovens in which
without losing sight of a Brazilian and universal view of affairs” the tinderwood glowed to quicken the fire... and semi-naked
nor “descending into rural localism or separatism... into the bodies in movement, oily with sweat, reddened by the light of
patriotic, anecdotal or apologetic”,16 a theme that he would the ovens, and assume, through the tension of some poses, the
develop throughout his career with two central points of status of carnal reliefs”,23 Lula Cardoso Ayres, in turn, would see
emphasis – regionalism and ecology. The two would converge in folk ceramics another fertile ground for exploring the relation
in his thinking and stimulate the aesthetic debate across Brazil, between heat, the body, fire and meat. Adopting a clearly
especially in the Northeast and Pernambuco, nurturing a anthropological approach, as of 1932 he started frequenting
fruitful dialogue with the work of artists such as Cícero Dias Afro-Brazilian temples and other places related to folk culture,
and Lula Cardoso Ayres. This was a cultural context dedicated, and to go on field trips to the Zona da Mata, drawing what he
in the words of Freyre, to thinking through “the problem of the saw and producing an important collection of photographs
relations” between art and its context: “to what extent is art that became a point of reference in the understanding of the
independent of the regional conditions of the physical and cultural history of Pernambuco. The body of the artist became
sociocultural environment in which it and the artist develops?”.17

19. FREYRE, Gilberto. Algumas notas sobre a pintura do Nordeste do Brasil. In: 24. In 1948, some of the artists, writers, playwrights and journalists working in
FREYRE, Gilberto et al. Livro do Nordeste, comemorativo do centenário do Diário de Pernambuco founded the Recife Modern Art Society (SAMR). Headed by Feijó,
Pernambuco: 1825-1925. Recife: Off. do Diário de Pernambuco, 1925. Abelardo da Hora and Ladjane Bandeira, among others, the SAMR perhaps
20. Cf. Gilberto Freyre. Uma palavra a favor da maconha. 31 January 1953. represented the first – organized – initiative to legitimate a professional art field
21. Cf. Gilberto Freyre. Arte e civilizações tropicais. Published in Vida, forma e cor. Rio in Pernambuco by way of the institutionalization of an “artistic class”, a political
de Janeiro: José Olympio, 1962. understanding of culture that Abelardo da Hora had brought back from his stay in
22. Cf. Idem Rio de Janeiro, where he had been engaged in the protests surrounding the failure
23. FREYRE, Gilberto. Algumas notas sobre a pintura do Nordeste do Brasil. Ín: to stage the National Salon in 1945. As José Cláudio points out, “Abelardo da Hora
FREYRE, Gilberto et al. Livro do Nordeste, comemorativo do centenário do Diário de returned... ready to found a society of artists that could fight together and even
Pernambuco: 1825-1925. Recife: Off. do Diário de Pernambuco, 1925. create the profession of artist among us”. It was from this first attempt, the SAMR,
that the Atelier Coletivo emerged in 1952. In the history of the art of Pernambuco,
(...)
218-219 experimental pernambuco - clarissa diniz PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

involved with its “object”, wherein lies the methodological While paintings such as Cutting the Cake (1943) and Family
difference in comparison with Vicente do Rego Monteiro, Portrait (1943) surprised the viewer by presenting traditional
for example, whose relation to the ceramics of the Amazon scenes to the sugar aristocracy and depicted them in a popular
region was primarily literary or museological. The eminently manner that repositioned the status quo and the place of art
experiential method of Lula Cardoso Ayres gave his paintings with regard to the issue of class, it is the artist’s study notebooks
and drawings a carnality, and assured them an anthropological that best reveal his creative process. We can see the volume
dimension till them unheard of in the art of Pernambuco. It was of the ceramics emerging from rounded drawings, giving
no coincidence that the drawings produced in the early 1930 them density and thus reorganizing the spatial nature of the
based on visits to Xangôs African-Brazilian spiritual leaders in work. It is no coincidence that the spatial nature of the works
Recife featured in the 1st Congress of African-Brazilian Studies in which Lula Cardoso Ayres explores the aesthetics of popular
held in 1934 at Freyre’s bidding. His method also inspired an ceramics is radically different from the flatness of much of his
artist like Abelardo da Hora with his ‘rapid pose’ method, an work, as can be seen in the drawings and paintings of cultural
agile performative kind of drawing used for the Afro-Brazilian movements such as maracatu, whose angles and lines testify
temples, mangroves, suburbs and sugar plantations that would to an artist prepared to investigate the territory of abstraction.
form the basis for the aesthetic precepts of the Atelier Coletivo24 Like Lula Cardoso Ayres and Cícero Dias, Vicente do Rego
(1952). In Freyre’s view, Lula Cardoso Ayres had “...eyes on his Monteiro would also be guided by an interest in ceramics as a
fingertips.... The eye-fingers of a painter who is a disciple of the point of reference for modern painting – in his case Marajoara
rustic ceramicists. Discovering new relations between tropical ceramics.
light and form. Between tropical light and people”.25 This was
also an important contribution to thinking about the feedback As Paulo Herkenhoff contends,27 there may have been another
loops – characteristically modern – between what were once “Modern Art Week” in the year of 1922 – not in São Paulo, but in
denominated “popular” and “erudite” art. Paris, as evidenced by the caricature of Gilberto Freyre on the
occasion of his meeting with Vicente do Rego Monteiro in the
In the prolific work of Lula Cardoso Ayres – another French capital. The Rego Monteiros – especially Vicente and his
fundamental graphic artist who was actively involved in the brother, Joaquim – conducted investigations whose modernity,
industrialization under way in modern Pernambuco, with his different from the then nascent São Paulo modernism,
creation of dozens of brands for local products and factories proclaimed interests fundamental to Brazilian culture.
– the dialogue between photography, drawing and painting is
crucial. The photographic images generated by the artists on This is the case with Joaquim’s exercises using the flat plane
his travels in the interior of the State would be the primordial of composition, which, while exploring his experience as a
source for his graphic work. Not only will the documentation cosmopolitan man (he made various urban landscapes and
of human types inspire his drawings – especially figures of “cartographies”), developed into geometrical abstraction
Indians and indigenous communities addressed using various early on in the history of Brazilian art. This relatively unknown
approaches (including economics), testifying to the political artist, whose work was interrupted by an early death, shows a
concerns of the artist – but also, later, the development of an continuous process of abstraction whose measurements and
aesthetics of photography as practiced by Ayres, with static formal perspective are on urban scale, which is also political:
forms and clear contours, would be a starting point for his the paintings derive a powerfully simplified accent from the
drawings and more mature paintings, which contrast the initial landscapes – including especially paintings of ports,
plastic solutions of his work with those of his contemporary with inscriptions and grooves showing a concrete relation
Cícero Dias, the doyen par excellence of movement, fluidity and to form – informed by the urban modernity the artist had
continuity. experienced both in Paris and in his native land, as can be seen
in South America (1927), in which human figures and symbols
Both, however, were interested in the plasticity of folk art as are schematized, as are the compositional planes which are
a model for the modern. While it is common to find animals potentially geographical territories or atmospheric features.
depicted in Dias’s paintings (especially oxen and horses) in In other works of this period, the references to the space of
the style of the ceramics of Alto do Moura – the master of the city gradually disappear – although they are still present
which was Mestre Vitalino –, as can be seen in I Have Seen the in paintings such as La Rotonde (1927) – to affirm a “pure”
World... And It Began in Recife, in Lula Cardoso Ayres this same spatiality of cartographic marks, which appears geometrical,
interest expands into entire series and groups, incorporating although permeated by rounded forms that act like silent
references to ceramics produced in the Águas Belas region.26 silhouettes in a kind of melancholy approach to the modern
city.

(...) the Atelier marks not only more far-reaching and systematic attempt to establish Experimental Pernambuco, except for some eminently experimental individual
a professional field for art (in terms of teaching, production, thinking, exhibition and members.
even the sale of art, all of which were practiced at the Atelier), but also, primarily, 25. FREYRE, Gilberto. Prefácio. In: VALLADARES, Clarival do Prado. Lula Cardoso
it perhaps represents the clearest distinction – up to then – of the paradigms of Ayres, revisão crítica e atualidade. Rio de Janeiro-Recife: Spala, 1978, p. 11.
modern art as opposed to academic art, a difference made possible by connection 26. I am thankful to Thomas Lobo for understanding the reference to Águas Belas in
with a political program of artistic investigation that was under way. Its production the work of Lula Cardoso Ayres.
of work and political orientation were, despite revolutionary intentions, relatively 27. Paulo Herkenhoff. Pernambuco Moderno. Recife: Instituto Cultural Bandepe,
canonical, for which reason the Atelier Coletivo was not included as a group in (...) 2006.
Vicente do Rego Monteiro has also developed works that through its defense of the culture, society and economics of
establish a dialogue with the modern urban fabric and the the sugar plantation, it would on various occasions generate
pictorial and graphic plane of art, which is especially eloquent conservative political positions, based on the possibility of an
in drawings in Quelques Visages de Paris (1925), aerial views interpretation – albeit doubtless a superficial one – of the work
of the French capital that bring the experience of social order of Freyre as an apology for the “myth of racial democracy”:
to the drawing plan. Later, he would move on to Legendes, the idea that, in Brazil (and especially the Northeast), given
Croyances et Talismans des Indiens de l’Amazone (1923), the extent of inter-racial marriage in the region, civil and
whose repertoire of signs combines complementary Egyptian, economic inequalities are assuaged by a partially harmonious
Marajoara, Mexican and Chinese traditions. It is here, in the coexistence of classes. Although an emphasis on this myth is
contrast between cultures, that a universalist intention can usually derived from an inattentive reading, unable to take
be found which makes the schematized water in the planes account of the ambiguities of Freyre’s works, this provides
of Quelques visages de Paris simultaneously the serpent in a clear example of the ideological path of regionalist ideas
illustrations dedicated to Amazonian legends, two arms that in Freyre’s political career; He would be a candidate for the
then merge in painting such as Indigenous Motif (1922), in Federal Chamber of Deputies for the National Democratic
which the aerial map-like flatness, in combination with the Union (UDN) – see his campaign poster, illustrated by Lula
signs of indigenous origin whose source of inspiration exceeds Cardoso Ayres – and later favorable towards the military
the palette of the work. regime.

Monteiro’s research into “primitivism” thus transformed Brazil Just as some of Cícero Dias’s work would be a social critique
in terms of modern visual art. Amazonia ceramics, made of of the symbolic and economic world of the sugar plantation,
terracotta – or clay, as it is called in the Northeast – aroused as in his paintings Condemnation of the Plantation Owners
the interest of Vicente do Rego Monteiro, who explored the (1930s) and Lords of the Land (1920s) – in which class conflict is
colors, volume and, in general terms the ways in which figures the main theme –, a cultural critique of the thinking of Gilberto
are schematically reduced. The colors are reminiscent of Freyre was mounted by some Pernambuco artists, especially
terracotta and the ceramics painting of indigenous peoples, Jomard Muniz de Britto, whose tropicalism would provide, from
his figures emerge from a volume similar to the reliefs, putting the 1970s onwards, a contrast to and satire of regionalist ideas,
together a visual vocabulary which also draws on the clay as in his video The Decapitated Clown (1977) or Inventory of
dolls of the Northeast and the tubular cubism of Fernand Cultural Feudalism or an Existential Historical Fiction (1978).
Léger. His repertoire also included – at various points in The caustic text of The Decapitated Clown, written by Wilson
his career – a stylization common to art deco, especially of Araújo de Souza, provides no respite from the criticisms that
the 1920s, a certain grammar of the “return to order”, which art should raise of its own culture. In the figure of the clown
had proliferated in Europe after the First World War with the who runs through Pernambuco House of Culture (formerly
observance of classical values, including the aesthetics of the prison) and in his discourse shot through with political
oriental antiquities, such as those of Ancient Egypt. Such a and aesthetic issues regarding the culture of the State of
diversity of influences made Vicente do Rego Monteiro a unique Pernambuco, he poses questions that should not be silenced:
artist – not to mention his prolific work in the field of poetry and “Recife of all possible promises / from the new port complexes
visual poetry, which we will deal with later – whose contribution to the / un-repressed age-old desires / yesterday a detention
to the development of modern Brazilian art has still not been center: exposed in its cruel misery / today a house of culture:
sufficiently well investigated. transformed into the most docile folklore / yesterday and
today: a detention center for culture”.
Freyre’s regionalism, like the return to order that would
influence Vicente do Rego Monteiro, also contained a However, regional problems did not cease to be urgent or to
series of political contradictions, which mark the connection extend their political influence, in which Freyre continued to play
between artistic practice and the ideological dimension of a significant role for the rest of his life. As part of his work as
art. While the European movement would reach a crossroads federal deputy, in 1949, he founded the Joaquim Nabuco Social
when it encountered fascist tendencies – in the case of Research Institute (currently the Joaquim Nabuco Foundation),
Brazil, often monarchical ones, as evidenced locally by the devoted to research and the improvement of living conditions in
editorial participation of Monteiro in Renovação magazine the rural parts of the Brazilian Northeast, an institution that now
–, regionalism would achieve symbolic repercussions and, develops projects on the Northeast, the semi-arid region and its
220-221 experimental pernambuco - clarissa diniz PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

various challenges – such as drought, hunger, and education – Since then, education has become a major issue for artists
which would strike a significant chord with the thinking of other in Pernambuco, who have become actively involved in
writers and artists from Pernambuco. educational processes – as in the case of the collaboration
between Abelardo da Hora, Aloisio Magalhães, Jomard Muniz
This was the case with The Geography of Hunger, published de Britto and Paulo Freire – while remaining critically alert to
in 1946, a book in which Josué de Castro brings together the ideological implications of the act of educating. One sign of
thinking and research developed since the 1930s, in which this interest in education and adult literacy more specifically, is
he examines hunger as an historical problem, deriving from a series of calligraphy exercises produced by artists in the 1960s
the staggering social inequality to be found in Brasil. Later, and 1970s. From reinvented alphabets to the creation of fonts,
he would expand his research to global level, publishing The literacy became the starting point for broader experimentation
Geopolitics of Hunger (1951), in which he restates the thesis that with signs, such as in Daniel Santiago’s Alphabets series (1980s
hunger is not a consequence of population growth or lack of and 1990s).
food resources, but an effect of imbalances in the distribution of
capital. Having been raised near the mangroves of Recife, his Apart from direct involvement in adult literacy, gestures,
work thus reflected the concerns of someone who had known improvisation and the free use of signs number among the
extreme poverty and understood that science, social thinking, interests of artists as varied as Cícero Dias, Vicente do Rego
and art could be used as weapons in the struggle against the Monteiro and Montez Magno. In Pernambuco, in the late 1950s,
circumstances that perpetuate social inequality. Many artists Vicente do Rego Monteiro developed a series of monotypes
shared the concerns of Josué de Castro, including Abelardo that ranged from abstract figuration to an experiment with the
da Hora – who illustrated one of his books with his Kids of clash of gestures between paint and graphic space. Although
Recife series (1962), produced during the period when the artist he certainly had in mind a dialogue with the unconnected
was part of the Popular Culture Movement – along with José tachisme and abstract expressionism, without knowing him,
Cláudio, Paulo Bruscky, Unhandeijara Lisboa, Daniel Santiago, Monteiro also established a parallel with the work of the
and others, transforming the social problem of hunger into young Montez Magno, who at the time was creating a series
one of the political battlegrounds for the art produced in of monotypes under the experimental supervision of Aloisio
Pernambuco, especially from the 1950s onwards. Ideologically, Magalhães: “He [Aloisio] taught me and encouraged me to
however, hunger continued to pose a set of issues to which art use diverse materials (stylus, razors, pieces of wood, cloth and,
would turn again, since, as Jomard Muniz de Britto summed sometimes, my fingers) to open the way for the paint”.30
it up in 1979: “how do we distinguish / in the cuisine of the
oppressor / the food of the oppressed?”.28 Modernist non-figuration thus went beyond geometry. Other
kinds of modernity were explored using free brushstrokes, “art
Later, in the early 1960s, a political alliance at national, regional without a ruler”, improvisation in the space of the composition,
and municipal level provided, in Recife and Pernambuco and in the manner of painting. Without right angles, the
(and other parts of the Northeast), a number of significant pictorial matter comes to light and acquires importance,
experiences in the field of popular and cultural education. density and meaning. Passing across the surface, the gesture,
One of the leading lights of this time was the Popular Culture the brushstroke, the trace and the shapes sometimes become
Movement (MCP), dedicated to “raising the level of cultural signs, inventing forms of calligraphy or ideograms. At others,
education of learners in order to improve their ability to acquire they scratch the surface, tear the substance of the paint and
social and political ideas”, thereby extending “the politicization thus emphasize the non-representational character of art
of the masses, and awakening them to the social struggle”.29 beyond the principle of geometry and “pure form”.
Artists and intellectuals grouped together around MCP activities
– presentations, workshops, courses, exhibitions, the publication In this rich field of experimentation which extends into the
of books and manuals – especially the adult literacy teaching contemporary – and which, expanding beyond painting or
work led by Paulo Freire, who had got involved in the initiative drawing, takes the form of stamps, videos, photography, books,
developed by Germano Coelho and colleagues. A kind of performance, or photocopies – Vicente do Rego Monteiro and
ebullient cultural and political cell, the MCP was closed down Aloisio Magalhães are particular important as advocates of
when the military regime took power in 1964, but its ideas and constant resistance to strategies regarding languages and
experiments would nevertheless find an echo in thinking and media. The presences of the experimental work of Monteiro
politics to this day in Brazil and across the globe, as is the case – who also produced poetry, illustrations, books and sound
with Paulo Freire’s adult literacy training method. experiments – and the accumulated force of Aloisio Magalhães
and Gastão de Holanda at O Gráfico Amador [The Amateur

28. BRITTO, Jomard Muniz; LEMOS, Sérgio. Inventário de um feudalismo cultural. 30. Statement made by Montez Magno to Clarissa Diniz (6 March 2009). In: DINIZ,
Recife: Gráfica Nordeste, 1979. Clarissa (Ed.). Montez Magno. Recife: Grupo Paés, 2010.
29. Silke Weber in an interview for the UFPE Department of Sociology, Recife, June
2009 In: Juliana Rodrigues de Lima Lucena. Do lar ao largo: novas relações de
gênero e poder no cenário cultural e político do Recife (1955-1964). Dissertation
presented to the Department of Letters and Human Sciences, Post-Graduate
Program in the Social History of Regional Culture at the Federal Rural University of
Pernambuco (2010).
Publisher] spread an experimental drive that, occurring In view of the uproar caused the retrospective exhibition at
throughout the 1950s, would be crucially important for later the Recife Faculty of Law, the December edition for that year
decades, exercising a key influence, for example, on the of Região magazine was dedicated in full to debating various
strikingly experimental artist Paulo Bruscky. Experimentation aspects of this artist’s work – from ambivalence to radical
thus found a social place as a gesture of art. geometrical abstraction, from the relation between learning
and hermeticism to the political role of art. Foremost among the
The history of the gesture in the art of Pernambuco – which is texts published was “Pernambuco, Cícero Dias and Paris”, by
extensively exploited in Montez Magno’s Caatinga (1963) and the Pernambuco critic (based in Rio de Janeiro) Mário Pedrosa,
Fragmentations (1963) series, and in the videos of Ypiranga for whom Dias’s work combined an ecological experience
Filho (Dynamics of the Trace I, II and III, 1967) and works by of the Northeast with a process of formal reductionism: “all
Paulo Bruscky, such as Aépta (1982) or a significant portion that was really left in terms of regional themes was visual in
of his work using photocopiers in the 1970s and 1980s – have nature: the shapes of plants and architecture taken from the
precursors in an important movement in which Cícero Dias Pernambuco landscape, especially that of Recife, and certain
played the principal role. local colors, blues and yellows resistant to all light”.31 Among the
discussions published in Região there was also later an account
In the 1940s and 1950s, the debate between regionalism and – albeit a stereotypical one – of the reception of modern art in
modernity was underway nationally, provoking a very wide Recife, as pointed out in the aforementioned text by Pedrosa:
range of responses and positions on the part of the general “Recife reacted forthrightly to Dias’s experiment... Bourgeois
public, critics and artists. In Recife, the iconic representations families lost sleep over it; grave men and petit bourgeois
of this dispute regarding modernity are the murals designed moralists could not understand how the august halls of the
by Cícero Dias for the Treasury building and his retrospective Faculty of Law, the hallowed guardian of the most respectable
exhibition at the Faculty of Law, both in 1948. By producing such of traditions, could open their doors to these scrawled
ambivalent images and exploring geometry, Dias reoriented monsters. For the good people of Recife, Dias was a local boy
the discussion regarding regionalism, which was then centered possessed by the devil, having fallen into bad company in
on the “representation of the Northeast” in predominantly Paris”.32
social and anthropological terms. The modernist question
in Pernambuco thus freed itself of “regional figuration” – In addition to the powerful 1948 exhibition, there were also the
eschewing a kind of “genre painting” – and becoming an murals created by the artist for Pernambuco State Treasury
“ecological form”, capable of responding sensitively and building, work on which had begun in 1941. Also produced in
critically to its context. 1948, these were probably the first abstract murals in Latin
America and they show how Dias transformed singular aspects
The one time charming “young master of the sugar plantation” of the Pernambuco landscape – the light, the sugar plantation,
would not neglect to experiment with negative repercussions, the tropical fruits, the port, the beach, the river Capibaribe,
when his work came up against this. His 1948 retrospective the sugar mills – into a repertoire of geometrical forms whose
exhibition displayed paintings from the 1940s which (con)fused luminous intensity remind us of the tropicology Gilberto Freyre
images and meanings through a linguistic kind of surrealism: imagined in 1965, interested in observing how the tropics – the
Umbrella or Musical Instrument (1943), Rooster or Pineapple (c. torrid zone of the globe between the Tropics of Cancer and
1940), Lady or Cashew Nut (1946) and Papaya Tree or Dancing Capricorn – informed art, although he recognized that “the
Girl (1940s). Like the Comte de Lautréamont (who described the world is vast and exhibits a diverse range of colors and forms,
beauty of a boy as the “chance meeting on a dissecting-table climates and environments. The simple fact that an individual
of a sewing-machine and an umbrella”, a line later cited in a was born in Brazil does not oblige them to be, as an artist, an
work by the surrealist photographer Man Ray), these paradox- enthusiast of bright sunshine, raw light and vivid colors”.33 The
paintings replaced the industrial element of the juxtaposition mural and the exhibition thus signal the development of a more
proposed by Lautréamont with tropical fruits. He thereby complex approach to an aesthetic project that, while open to
created an ambivalence that, at the time of the exhibition, a regionalist interpretation, goes beyond this and becomes a
troubled the public in Recife. relational manner of understanding and practicing art, which
would make Pernambuco a place where constructivism would
reinvent itself in parallel to its industrially inspired abstract side.

31. PEDROSA, Mário. In: Pernambuco, Cícero Dias e Paris. Recife: Revista Região,
December 1948.
32. Idem
33. FREYRE, Gilberto. Arte, ciência social e sociedade. In: Revista da Escola de Belas-
Artes de Pernambuco. Recife: Escola de Belas-Artes de Pernambuco, 1958, p.
222-223 experimental pernambuco - clarissa diniz PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

As at the beginning of the 20th century, such questions and their Similar questions led Gilberto Freyre, in 1985, to reflect again
relation to the region – like the problem of the relation between on the Brasília project, which he acknowledged to be “indeed,
the rural and the industrial – also manifested themselves in aesthetically exquisite”,35 but raised other questions: “Is the
urban design. One of the hallmarks of this process was the project aesthetically suited to Brazilian circumstances? Why is
DAC, created in 1934 by Governor Carlos de Lima Cavalcanti, the model inspired by imposed European center and not by
who transformed the then Public Works sector – the city one based on the Brazilian tropics? Why is so much glass used
planning branch of government – into the Directorate of in buildings that should be followed as models of for a unique
Architecture and Construction (DAC). Under the leadership of architecture, making them difficult for future Brazilian residents
Luiz Nunes, the DAC intervened radically in the urban fabric of to live in comfortably? Why the lack of recreation grounds?
Recife, introducing a modern way of thinking about the city, Why the lack of spaces for urban solidarity?”.36 His questions
which, as Nunes himself put it, architecture was understood criticized a form of urban thinking that was primarily aesthetic,
as “an administrative issue, a manifestation of culture and underlining the need to view cities “socio-ecologically” – that
spirit, something very human and social”.34 Although short- is, in terms of the various aspects of their geographical, social,
lived, the work of the DAC added to the intellectual ferment cultural context and so forth. If we do not do this, he warns, we
in the city surrounding urban planning, as can be seen, for will be adopting “the most un-Brazilian, anti-ecological, anti-
example, in a number of projects signed personally by Luiz tropical of models”.37
Nunes, in particular the Olinda Water Reservoir (1934), with
its architectural strategies that were totally new at the time, This dilution of regionalist references also on an urban scale,
such as pilotis and latticework – strategies that would later be helps us to understand Cícero Dias’s efforts – following
explored by architecture across Brazil, as in the buildings of investigations by Vicente and Joaquim do Rego Monteiro – to
Brasília. establish different possible routes for the problems of abstract
form that the artists of São Paulo and Rio de Janeiro had also
This period also saw the landscape designer Roberto Burle taken, closer to the constructivist references that would soon
Marx at work in Recife, where he developed projects for shape the debate between concretism and neoconcretism.
Casa Forte and Largo Benfica Squares, using plants from Shunning the logic of suprematism, neoplasticism or concrete
Amazonia and the Caatinga region, respectively. This was art, Cícero Dias regarded color as the singular protagonist in
thus an special time of experimentation in architecture, in the geometrical composition then being produced in Brazil.
which people realized that specific ecological and cultural As in his watercolors of the 1920s and 30s, his experiments are
characteristics could be used to reinvent various aspects of the strident and unclassifiable, exhibiting a lavish audacity that
built environment, such as construction technology, illumination, would lead the São Paulo concrete artist Waldemar Cordeiro to
ventilation and the ornamental features of a city. refer to the “hedonistic non-figurativism of Mr. Cícero Dias”.38

Freyre’s concerns regarding the need to see cities in ecological Such disregard for the canons then in vogue in other parts
terms would later also inform Acácio Gil Borsoi’s architectural of Brazil would find echoes – and dissent – in artists who, in
project for the Cajueiro Seco community, in Recife. Initiated in the Pernambuco of the 1950s and 60s, were engaged in a
1962 – but suspended after the 1964 military coup – this was a free field of exploration of abstraction, geometry, color, form,
public housing project using the vernacular and widespread and viewer participation, such as Montez Magno. Prolifically
rammed earth mud-brick construction technique, typical of experimental, this artist would play a fundamental role: his
low-income communities across the Northeast. Chosen for work realized that the historical period of modernism had come
its construction features as well as the fact that it is a widely to an end and, therefore, inventively confronting the modernist
known technique with which the population – who would build paradigms, developed perceptions and problems that would,
the houses themselves in a joint effort – was familiar, Borsoi in Pernambuco, drive the experimentation of contemporary art.
was conducting research to determine the optimal use of this
material and technique when work was suspended on a project It is interesting to note the crucial role that the reduction and
that aimed also to critically review architectural and urban deflation of vegetation played in the abstract experiments
planning paradigms. of Cícero Dias, Aloisio Magalhães, Ladjane Bandeira and
Montez Magno. The last of these, for example, in his Black
Woman series (1961-2007) or in Gestural Drawings (1962),
used a supposedly scientific eye to produce a formal exercise
of a phenomenological nature: “the series emerged as
the development of vegetal forms, except that I follow a

34. Nunes, Luiz. Portaria n. 14. Diretoria de Arquitetura e Construção, 4 de dezembro 39. Statement made by Montez Magno to Clarissa Diniz (7 March 2009). DINIZ,
de 1935. In: Alcântara, Antonio Pedro Gomes. Luiz Nunes. Arquitetura. Revista do Clarissa (ed.). Montez Magno. Recife: Grupo Paés, 2010.
Instituto de Arquitetos do Brasil, n 13, july 1963, p. 5. 40. SCHENBERG, Mário. Montez Magno exhibition leaflet. São Paulo: Casa do
35. Gilberto Freyre em Brasília e Lucio Costa. O Estado de Sâo Paulo. São Paulo, 3 Artista Plástico, 1963.
February 1985. 41. PEDROSA, Mário. Da caligrafia ao plástico. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 7
36. Idem Feb. 1958.
37. Ibidem 42. Painting on Canson paper was a procedure also used by Anchises Azevedo, who
38. CORDEIRO, Waldemar. Ruptura. Correio Paulistano. São Paulo, 11 Jan. 1953, p. 3. shared Magno’s studio, in Olinda, in the early 1960s.
reductionist process, stripping away everything but the trunks. His abstract work would also find other routes. The Morandi
I make dozens of drawings of these trunks that are stripped series (1964) typifies an aesthetic position that aims to avoid the
down more and more to the shape of black fruits, until I risks of exoticizing Brazilian or Northeastern light and culture, as
produce pieces where even the fruit disappears, leaving only in the geometrical work of Cícero Dias, for example. Antithetical
black stains”.39 In the words of the art critic and physicist Mário towards the chromatic tropicality of Dias’s geometry, the
Schenberg, whom the artist used to visit in the early 1960s, smooth rational orderliness of the Morandi series touches on
“...Montez’s painting began to grow richer when it adopted the notion of sensitive Latin American geometry, interested in
the theme of space and musical emptiness... His large-scale an intuitive government of forms. Produced in Italy, the series
drawings... their thick strokes functioning like fibers channeling reveals the enchantment the then young Montez Magno felt
organic fluids, produce authentic vital archetypes. The series at being in a foreign land, which, while distancing him from
of small drawings influenced by oriental calligraphy of 1961 regionalism, kept him in touch with the ecological concerns that
reveals a new sensibility: the organic rhythm is captured still abounded in Pernambuco: “I am not a nationalist, nor a
internally.40 regionalist, nor a neighborhoodist... You can do things related
to the region – as I have done... But this interests me whether I
In this process of “internalization” which would lead to am here or on the West Bank for example”.45
“calligraphic drawings”, Montez Magno does not however
focus precisely on the shapes that form into attempts at signs, Such paintings develop the Morandi legacy of an existential
but on the processes that enable them to emerge. As Mário experience of space that, beyond Euclidian perspective,
Pedrosa pointed out, “when the sign emerges in its pure reveals the “space of consciousness as a concrete reality”.46
potential, without any verbal linguistic context, to be a unique The suggestion of a space spills beyond the boundaries of
signifier on the symbolic aesthetic plane, it is always the fruit the painting is clear. Far from the geometrical grid or physical
of some necessary initial act of violence, an energetic impulse definitions of form, the floating elements in the Morandi
that gives birth to it”.41 Especially interested in this “violence series are like small parts of a cosmos – almost always in
of energetic impulse”, Montez produced the reel paintings Spring blue – which we capture in the snapshots that we can.
of the Caatinga series (1963, now lost),42 in which there is an Adding complexity to the spatial drift that the artist initiated in
explosion of fruit and landscapes of the Northeast, which, Caatinga, Fragmentations and the 1962 collages, the Morandi
when fragmented, become stray signifiers. Then, unravelling series confronts the void as matter, in a dialogue with the full
the very logic by which these signifiers were constructed, emptiness of Lygia Clark. The inclination of his almost square,
Fragmentations (1963) appeared: “Basically, it is as though almost rectangles, almost straight lines provide a glimpse of
I wanted to see what is happening inside matter, a kind of continuous movement: in that pictorial and existential world, the
atomization... Then, in 1966, this fragmentation acquired a background is not a vacuum, it is air. In this way, key features
three-dimensional support, giving rise to reliefs. They are the of Montez Magno’s political discourse, color and form will be
three-dimensional fragmentation of form. I discovered that intensively experimented with by him in a “constructivism” that
these things were linked to photons. Then I wanted to stretch occupies a unique place in the history of Brazilian art, a place
out the fragmentations, as if they were waves”,43 giving rise in in which the Boxes developed by the artist as of 1967 play an
turn to the Bacchianas series (1966). active part.

Composed of strokes and stains that fill their respective In a possible response to the experience of being imprisoned
surfaces homogeneously without direction or center, the under the military regime – also present in The Egg (1969) and
paintings from the Caatinga and Fragmentations series share MMMausoleum (1969) – Boxes transforms the experience
the same concerns as research being conducted since the of space of the Morandi series into a Mondrian-like space:
1950s, such as that, for example, of the Ceará artist Antônio rigid, objective and apparently homogeneous, except for
Bandeira. While, according to the critic Paulo Herkenhoff, its participatory dimension. They look back to Montez’s first
Bandeira’s paintings “represent a new constructive program abstract works of the 1950s with their right angles, saturated
in Brazilian art, different from concretism or geometrical art colors, a priori boundaries, grid. The series arose from the
in general”,44 the experiments of Montez Magno formed part appropriation of glued and painted school pencil cases, works
of Pernambuco’s contribution to the development of this new produced through manipulation by the audience. The Boxes
program. Coincidentally, in Paris in the 1960s, Cícero Dias had announce a concern that will drive a significant part of his work:
deviated from his caustic angular geometry of that period in “space-time and color-light will increasingly be the elements
a short series of paintings entitled Entropy, in which the paint that artists will use in their work”,47 leading them to explore the
organically gives way to the force of gravity. participatory dimension of the other in the artistic experience,

43. Statement to Clarissa Diniz on 6 March 2009. 47. Extract from Testo e Contesto, a text by Montez Magno, published in a leaflet
44. Pincelada, Pintura e Método: Projeções da Década de 50. Curated by Paulo accompanying the artist’s solo exhibition at the Petite Galerie. Rio de Janeiro, 1970.
Herkenhoff. São Paulo: Tomie Ohtake Institute, 2009.
45. Statement from interview with Clarissa Diniz, 6 March 2009
46. ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna: do Iluminismo aos movimentos
contemporâneos. Translation by Denise Bottmann and Frederico Carotti. São Paulo:
Companhia das Letras, 1992.
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given that, for Montez, “the goal of art is to be re-integrated It is anti-art: a proposal based on almost nothing. That which
into life, in such a way that everyone can participate creatively is used and now a new act... [Montez Magno’s] exhibition tells
in everything made by humans for humans”.48 Artistic practice us that the material provokes creation, suggests invention,
should have the “power to lead the viewer to take action”, a spontaneous and free of any particular connotation. It takes on
process that “implies the taking of a philosophical position, a new origin – not that of everyday use – but that of a dream
on the part of the artist and public alike..., reaching out to all in color.51
and developing our creative capacity” – a concern that can
be found in many of his works, such as Manipulable Sculpture The experimentation with form gradually broke with the
(1968-1970), made of long sheets of aluminum and roofing monopoly of the visual, contaminating the image with a
paper available for manipulation. grammar of a musical nature. The composition space becomes
a field of rhythm – empty space becomes silence, lines
Different from Lygia Clark’s Animals (1960), Magno’s work sounds, gestures harmonies – and artists develop this desire
reduces the presence/mark of the artist by not previously for synesthesia, a mixture of the senses (including seeing and
molding the aluminum, transferring the authorship to the hearing), in a variety of experiments. Noise becomes music
subject who interacts with the object. With no folds, hinges, and musical scores are everywhere – from the nests on the
welding, or fitted parts, Manipulable Sculpture gives up the electricity wires in the album Compositions on the Wire –
object-work in favor of pure experience, confrontation and Changing Scores (1979) to the stones stuck in the gutter in the
dialogue between the subject and the material. In the absence sound photographs of Score (1982) by Paulo Bruscky. In these,
of artificial stabilization or arrangement, the work consists of the eye for the everyday, which – in the work of the artist and
negotiation of an organic self-generated equilibrium between beyond the material do it yourself of Magno – also occurs
sheet, space, time and body, an interplay of forces that usually through an intervention in ordinary reality, is revealed in a
leads to ovoid forms, a circular labyrinth that is always open primarily poetic emphasis that plays with the silence of the eye
on one of its sides. Physically and symbolically, the point of in the face of the cacophony of urban life.
contact between Manipulable Sculpture and the world is not
closed, as occurs in Lygia Clark’s 1958 painting Linear Egg, “a Later, as Montez Magno had also experimented with, the
space that is contained, but does not want to be contained in visual also shows itself to a rich field for the reinvention of
that situation”.49 Neither is the experience of the work closed: the musical code, which is rewritten through the drawings,
there is no possibility of a conclusion of the relation between theappropriations and poetry, as in the Notesounds album (1970-
author-participant and the object in a final fixed form, given 1992), which led the exploration of signs and calligraphy in
that the equilibrium of the organization of the sheets passes, series such as Fragmentations (1963) to a musical dimension.
necessarily, through the presence of the subject interacting with For the artist, Notesounds – like Chromosounds (1994), whose
the material – the piece “is always making itself present, always logic is essentially chromatic – can be understood as random
recommencing the impulse that generated it and of which it music or visual poetry, similar to other works by the Bruscky &
was already the origin”.50 Santiago duo. As can be seen from the tracks Schizo Sonata
(1976) and Impromptu-3 (1992) from the album in question,
In Montez Magno, the containment of Boxes is transformed into Montez Magno was aware of the technologies that were then
openness to the world and to the other and, then, the sheets reconfiguring artistic practice and would be widely exploited by
literally grip this world in a series of objects (1970) which join Paulo Bruscky and Daniel Santiago both separately and jointly.
aluminum to pieces of old wood. In “replacing” industrially-
treated metal with strips of precariously assembled old It is thus that, in dialogue with the work of John Cage, Team
wood the artist humanizes, reaches out, politicizes. Far from Bruscky & Santiago staged happenings to collectively create
harboring the mystery of the “black boxes” of photography, sounds, such as SensonialCon(s)(c)(?)ert or, in a more
Boxes and other works by Montez, such as the installation metaphorical key, Aurorial Composition. While Cons(s)(c)(?)
Look (1973), have a do it yourself air to them, a theme much ert was a participatory action – conducted chromatically
explored throughout this artist’s career, especially in the series by the duo at the Santa Isabel Playhouse – involving the
of models Imaginary Cities (1970-), pregnant with political production of sound from match boxes played by the audience,
intentions whose critical reach and material poetics were Aurorial Composition, in a similarly inventive manner, brought
accurately perceived by Lygia Pape in Montez’s 1968 solo show together the visual, music, silence, technology and power,
at the Ibeu: “As a proposition, a sampling, the transmutation of underlining the political, yet utopian, dimension of art. This was
ordinary use to a new significance. Something differentiated. a proposal publically presented in 1976 by the newspapers:
The anti-residue of the teamwork, something new and full. “the Team proposes to exhibit a colorful artificial tropical

48. MAGNO, Montez. Statement. Leaflet accompanying a solo exhibition of the 51. PAPE, Lygia. Montez Magno. Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 4 Dec. 1968.
artist’s work. Rio de Janeiro: Ibeu, 1968.
49. HERKENHOFF, Paulo. Diagrama da vida – interview with Paulo Herkenhoff. In:
ROLNIK, Suely; DISERENS Corinne (ed.). Lygia Clark – da obra ao acontecimento.
São Paulo: Pinacoteca do Estado de São Paulo, 2006.
50. GULLAR, Ferreira. Manifesto neoconcreto. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 22
March 1959.
aurora caused by the agitation of atoms in the atmosphere Such publishing experiments combined creative sophistication
100 km above the earth. The atoms will return spontaneously with simple, often home-made, techniques, such as
to their natural state after the exhibition. The exhibition will photocopying, stamps and silkscreen printing. At the same time,
not pollute space, alter the weather, or influence astrological manually printed publications combining printed and hand-
charts; it is a contemporary art event “.52 No-one responded to produced material brought a concern with reproducibility
the announcement, but the duo insisted on sending a letter of and the uniqueness of each book and each reader. This was
presentation to NASA requesting help, which, likewise, received how the publications of O Gráfico Amador maintained the
no reply. These two pieces show that it would be in the space intimate nature of a book such as Aniki Bobó (1958) – poems
between the socially, artistically and politically effective and by João Cabral de Melo Neto based on illustrations by Aloisio
ineffective that the most important work of Bruscky & Santiago Magalhães, produced using string to make stamps – and, at
would be situated. the same time, the city-wide circulation of the mimeographed
concertina book Recife Tourist Guide (1955), by the same
Another unique experience that combined gestures, music and authors. The experimental freedom of O Gráfico Amador
graphic arts was the Stamps series by José Cláudio, an artist combined with the methodological and aesthetic rigor of the
who worked for many years as a draughtsman at Sudene experiments of Vicente do Rego Monteiro, who published his
(Superintendency for Development of the Northeast, created in own poetry in both France and Brazil, on supports as distinct as
1959 based on research and policy proposals by Celso Furtado), newspapers, magazines, small pamphlets, records, and books.
where he illustrated a wide range of materials, publications
and plans. On one occasion, when he needed to produce large These initiatives, apart from publishing the work of the artists
maps of the Pernambuco countryside, he made stamps out of who coordinated them, were also responsible for the national
erasers to repeatedly place symbols representing sugarcane and international circulation of the poetry and prose of authors
or coconut tree plantations, for example. The technique – such as Carlos Pena Filho, João Cabral de Melo Neto and
which was from his childhood – came to interest him as an Ariano Suassuna, continuing the cultural ferment that, since
artist and, in the late 1960s, he conducted various experiments 1941, had generated the Recife Poetry Congresses, organized
using erasers, combined with graphics and other rubbing by Vicente do Rego Monteiro and partners. The congresses,
techniques. These works included the visual narrative History publishers and artists of Pernambuco thus turned Recife into
of the Stamp (1968-69) and artist’s books using the technique, an important center for production of and reflection on the
all of them involving the repetition of a set of elements, which, literature, which would later develop into a prolific mail art,
when arranged on the surface of the paper, create a rhythm visual poetry and process-poem scene.
and emulate music to some extent. The work is important in
the history of art in Pernambuco, in the wake of the productive Another distinguished figure in the Pernambuco publishing,
investigations that were being undertaken, especially between printing and poetry scene was the engineer, poet and critic,
the 1940s and 1970s, leading to the process/poem. Joaquim Cardozo. Active since the 1910s as a caricaturist and
a poet, in the 1920s his work began gradually to be published
Over this period, especially between 1950 and 1970, the field of (although not in sufficient volume during his lifetime), as
graphic arts saw a fruitful cross-fertilization of different media: Cardozo took over the editorship of the Revista do Norte and
design, poetry, literature, visual arts, music, and photography. became more heavily involved in debates regarding art in
A significant number of the artists, writers and poets active modern Recife, being developed by Vicente do Rego Monteiro
during this period contributed to small-scale publications which a Ascenso Ferreira, Gilberto Freyre or Luís Jardim. Apart from
were independent or part of the catalogue of experimental working on building and engineering in Brasília, Joaquim
publishers, including among others La Presse à Bras (1948- Cardozo would also use his poetry as a space for the invention
1957), the Paris Publisher of Vicente do Rego Monteiro based of and experimentation with modern forms that would strike a
on a manually-produced print run brought from Recife, chord not only among his contemporaries, but later among the
Renovação (Vicente do Rego Monteiro), O Gráfico Amador artists and poets of the 1970s and thereafter.
[The Amateur Publisher] (1954-1961), founded by Aloisio
Magalhães, Gastão de Holanda, José Laurênio de Melo and Pernambuco was an important center of mail art in Brazil,
Orlando da Costa Ferreira, at the instigation of João Cabral de above all because of the work of Paulo Bruscky, who
Melo Neto, and Abrakadabra (Katia Mesel and Lula Côrtes). exchanged letters, proposed and participated in postal art
initiatives elsewhere, and also organized – with the aid of
partners such as Ypiranga Filho, Daniel Santiago, and others
– international mail art exhibitions. Also deeply involved were

52. Jornal do Brasil, 1976.


226-227 experimental pernambuco - clarissa diniz PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

the States of Paraíba and Rio Grande do Norte. In the latter, stamps from letters that did not reach their destination,
there had been, since the 1960s, a rich tradition of the process- demonstrating that art derives its unique power in the space
poem, a kind of concrete poetry that radically deconstructed created by the noise between emission and reception.
the idea of poetry, as explained in a 1967 text, signed by the
process/poem group: “poetry to be seen and without words... The postcards, letters and other forms of correspondence cover
painting that is only structure... comic books and humor, without two other main themes: language and the body. While a work
captions, paintings serving as textile patterns, (industrial) such as Leonhard Frank Duch’s Souvenir of Itamaracá – Skin
noise regarded as music, the electronic computer for musical from my Thigh Sunburnt in Itamaracá (1975) – in which the
exploration”.53 artist sticks part of his peeled off sunburnt skin on the paper
– deals with a body that makes its presence felt even through
Although mail art adopts various approaches, there is a its absence (a common strategy in art produced under a state
large body of work that both affirms and questions the status of political exception), other developments are based on the
of art through the new mode of circulation and creation. In emancipation of movement and the fluxes so dear to mail
Pernambuco – as in other parts of the world – some of these artists restricted to the two-dimensionality of paper. This is
works are a source of criticism of institutions, as with Paulo the case with Paulo Bruscky’s Living Poetry (1977), in which he
Bruscky’s Attitude of the Artist/Attitude of the Museum: I dresses people in letters and groups them together to form the
Continue to Insist Art Cannot Be Held in Captivity (1978), or the words Living Poetry, causing them to experiment with being
work of Team Bruscky & Santiago (1976 onwards), based on signifying signs; both related and disconnected, depending on
parts of a single image cut up and sent on postcards around the movements and the relations between their bodies. This is
the country, which would only come together again to recreate the reinvention of the possibilities of meaning for that which is
the image in the salons which had selected the work, without apparently posited, a primeval function of living poetry and of
the judges or institutions involved having any guarantee that a poetic life.
this would occur, dealing thereby with the critical potential of
failure. In this field of criticism of institutions and of art, Paulo
Bodies and the relations between them had always been of
Bruscky produced countless objects and postcards, such as interest to Pernambuco artists. While this had been one of the
Is Art Reversible? (1977), Art (1976) – the word “art” etched on central elements of Gilberto Freyre’s contention that, in Brazil,
sandpaper – and joint undertakings with Daniel Santiago as sex and cuisine, for example, smooth out and assuage class
the Bruscky & Santiago duo, including Open and Smell: the First distinctions, it is also the privileged field of practice, protest
Memory is Art (1975), as did Leonhard Frank Duch (Arte Kunst, and discourse that does not accept that contradictions are
1976) and Ypiranga Filho, (The Art of Good Service, 1975, and It reconciled in the body. Various artists, such as Daniel Santiago,
Won’t Work Out This Way , 1976), to cite just a few examples. Paulo Bruscky and Montez Magno, have thus dealt with the
body under a constant state of exception – subject to social
Another fundamental axis of mail art was the discussion of hygiene, repressed and abused – and shown how each body,
its own modes of circulation, which it also used to produce a for reason of its uniqueness, is an exception. This is also the
geopolitical reading of art, as in the case of Paulo Bruscky’s case with the theater group Vivencial Diversiones and the
small drawing Geo/Graphic Situ/Action – Artist’s Distance videos of Jomard Muniz de Britto, whose discussions of gender,
(1982), which demonstrated the distance between the artist and sex, and other forms of invention of subjectivity keep alive to
his partner Leonhard Frank Duch (a resident of Berlin), while this day the intensity of a society that generated the revolution
revealing that art provides the possibility of connection, to the of the body.
extent that the work inverts the geographical order, locating
“Bruscky in Berlin” and “Duch in Recife”. This possibility of a Active in the 1970s and 1980s, Vivencial Diversiones was an
connection and a network, a precursor of the great boom of experimental theater group that emerged in Olinda, in the
globalization, was the theme of a photocopied poster, such context of the pastoral work of the local archdiocese, and
as Daniel Santiago’s 6000 Branches (1977), which reads “the would soon show itself to be an important forum for debating
post office has 6000 branches where you can send art by issues as wide-ranging as homosexuality, politics, poverty,
mail “, and the way, in 1978, this same artist appropriated the drugs, violence, culture, and the market. Working largely
packaging of food products to turn them into postcards. At the with stage improvisations and textual collages, Vivencial also
same time, Paulo Bruscky, always aware of the inefficiency or encouraged the active participation of the public, to the point
failure that are a constitutive part of the political dimension of that, in 1979, they set up a theater in the Olinda mangrove,
art, produced the collage Returned to Sender (1979) – which where, over the years, shows and performances involving
circulated in large quantities as photocopied posters – using transvestites were watched by an extremely diverse audience.

53. Manifesto Proposição (1967). In: GALVÃO, Dácio. Da poesia ao poema: leitura 55. Idem
do poema/processo. Dácio Tavares de Freitas Galvão. Natal, RN: Zit Gráfica e 56. Jomard Muniz de Britto, Aristides Guimarães, and signatories Alexis Gurgel,
Editora, 2004. Achieta Fernandes, Caetano Veloso, Carlos Antônio Aranha, Celso Marcondi,
54. Jomard Muniz de Britto, Aristides Guimarães & Celso Marconi. Manifesto Dailor Varela, Falves Silva, Gilberto Gil, Marcus Vinícius de Andrade, Moacy Cirne
Tropicalista: porque somos e não somos tropicalistas. Originally published in Jornal e Raul Córdula. II Manifesto Tropicalista - inventário do nosso feudalismo cultural.
do Commercio. Recife, 20 April 1968. Originally published in a solo show by Raul Córdula at Oficina 154. Olinda, 1968
Likewise, as one of the organizers of the 2nd Catholic University of the Northeast”. The event marked the emergence of a
of Pernambuco (Unicap) Winter Festival, in 1979, Paulo Bruscky countercultural music scene, which, beginning in Recife and
invited Hélio Oiticica to visit Recife to present his Environmental Olinda (with the collaboration of musicians from neighboring
Program and, in particular, Parangolés (1965-). The artist’s stay states), provided a singular contribution to the Brazilian culture
in the Pernambuco capital was an occasion for public debate of the time, identified principally with tropicalism and the
regarding his work and he acknowledged the contribution Jovem Guarda. This music scene enjoyed the collaboration of
of the State to the tropicalist movement, with an intensive the Rozenblit record companies, one of the largest in Brazil,
exchange of ideas and the publication of two manifestoes responsible, for example, for cutting disks for the independent
(Tropicalist Manifesto – Why We Are and Are Not Tropicalists, Solar label, including Satwa (Lula Côrtes and Lailson) and
and 2nd Tropicalist Manifesto – Inventory of our Cultural Paêbirú (Lula Côrtes and Zé Ramalho). Mixed with references
Feudalism, both in 1968), written mainly by Jomard Muniz to pop and rock, the sounds, poetry, visual images (largely
de Britto, but also signed by artists such as Caetano Veloso, owing to the creative presence of Katia Mesel, that authored
Gilberto Gil, Moacy Cirne and Falves Silva. These manifestoes or co-authored many of the record sleeve and poster designs
were already acknowledging the limitations and contradictions of the time) and the experimental performance of outfits
of the tropicalist project: “We realize that tropicalism is such as Nuvem 33, Lula Côrtes, Marconi Notaro, Phetus,
transitory (in transit and in a trance), and the dangers of Flaviola, Ave Sangria, and others – collectively known as the
commercialization, mystification and idolatry. We therefore udigrudi movement (an originally pejorative corruption of the
say, “Down with the festive left!” and add “Down with tropicalist English word underground), Northeastern psychedelia, Recife
fanaticism!”.”54 psychedelia beat, still resonate today with their unquestionable
counter-cultural potential.
The presence of tropicalism in Pernambuco clearly runs against
the creative and political apathy associated with local traditions
TAMARINEIRA VILLAGE: The band Tamarineira Village changed
in the arts, clashing especially with the ballast of Freyre’s
its name to Ave Sangria in 1974, when it recorded the disk of
thought, understood as “regionalist loyalty” based on “love of
the same name. With its psychedelic sound and unabashedly
our traditions”. In this ballast, tropicalism would include its most
existential lyrics, the band sold a significant number of records
recent manifestations, from João Cabral de Melo Neto to the
and brought together musicians such as Almir de Oliveira, Marco
Teatro Popular do Nordeste (TPN), which would form a “new
Polo Guimarães, Agrício Noya, Paulo Rafael, Israel Semente and
and very new generation” under “syncretistic, luso-tropical,
Ivson Wanderley.
sociodelic, joãocabralian, t-p-nistic tutelage”.55 Likewise, while
it sought to distinguish itself from this “traditionalism”, it also
NUVEM 33: In 1972, a number of young musicians,
saw a difference between tropicalism and “tropicrap”, whereby
poets, artists and illustrators came together as Nuvem 33, a
the former was a “radical critical creative stance”, using the
transdisciplinary initiative with a range of interests and concerns
resources and strategies of its time, such as the process poem,
– including the professionalization of the culture of the Northeast
in its exploration of technologies, media and information
region of the country – which circulated in fanzines, texts,
networks as a way of making “contradictions even sharper”,
manifestoes, and newspaper articles. The group’s texts also
while tropicrap insisted “on providing antiquated answers to
included compositions (many of them by Tiago Araripe, whose
problems, revealing its antiquated nature through nostalgia,
fictional literature imbued Nuvem 33), although we have no
daintiness, picture postcard picturesque, and ignorance,
recordings of these. Characterizing itself as a collective rather
thereby helping to perpetuate under-development; seeing
than a band, Nuvem 33 did not launch disks, but organized
things in a blinkered prejudiced manner”,56 like the Boards of
concerts – such as Retreta Eletrônica – with a high degree of
Culture and Academies of Letters. Tropicalism thus opposed
improvisation (musicians, performers, poets and artists from
censorship and opted for unrestricted disobedience of norms
all over the city were invited to participate) and no fixed
and canons, stressing support for “all non-official cultural
duration. These were important for establishing connections
initiatives”, the “radical student movement” and “independent
and partnerships in this nascent music scene. Apart from those
intellectuals”, as well as “any avant-garde cultural movement” that
most closely associated with the group – Otávio Bzzz, Lula
breaks with tradition. In short, “madness against stupidity!”.57
Wanderley and Bactéria (Humberto Avellar) – Nuvem 33 had
many other occasional collaborators, including Carneirinho
The experimental scene of the 1970s in the field of poetry and
(Carlos Fernando), Robertinho do Recife, Rodolfo Mesquita, Ivan
visual arts also involved a lively music scene. In 1972, the city
Maurício, and others.
of Fazenda Nova, in the interior of Pernambuco, staged the
1st Experimental Music Fair, later known as the “Woodstock

57. Jomard Muniz de Britto, Aristides Guimarães & Celso Marconio. Manifesto
Tropicalista: porque somos e não somos tropicalistas. Originally published in Jornal
do Commercio. Recife, 20 April 1968.
228-229 experimental pernambuco - clarissa diniz PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

PHETUS: The band Phetus was active for exactly nine months in In 1975, Montez Magno wrote Algúria, a utopian short-story
1973. There are no recordings from the time, but some recent that recounts the forms of organization of Al-gures, capital
ones, such as “Purple Cows”. Their performances were at once of the ideal society of Algúria. In the story, the admirably
somber and comical in character (they only played after midnight harmonious fictional journey around houses, streets and
and wore dark clothes) and they mixed styles, creating forrock, institutions leads us to note the extent to which our urban
a mixture of forró and rock, the best example of which was the experience is marked by non-contiguity between the city
song “Alagoas”. After Phetus, its members – Lailson de Holanda, we live in and the one we imagine, desire and project into
Paulo Rafael, and Zé da Flauta – continued to work together and the future. The uncanniness in turn echoes the disjunction
played in other bands from Recife. between an eminently modern style – the icon of which was
the construction of Brasília, criticized by Gilberto Freyre for
SATWA: Considered the first independent psychedelic rock its paucity of ecological consciousness – and another more
record in Brazil, Satwa (1973) was the intriguing result of a contingent way of thinking about the urban experience.
partnership between Lula Côrtes and Lailson. On their return Artists of this period thus came to work not with the ideal or
from trips to Morocco and the United States, respectively, the planned city but with the conflict-ridden urban fabric, whose
two musicians recorded acoustic tracks that mixed western and frictions are a potent source of creativity and criticism. The
oriental sounds with those of the Northeast. String instruments – process of transforming modes of perceiving and acting in
such as violas and mandriolas – produced a psychedelic folk cities has inspired interventions, happenings, photographs,
sound (as is clear from titles such as “Mushroom Waltz” or “Crazy videos, models and so forth, which, giving up the ambition of
Allegro”) which were totally unique in the Brazilian music scene restructuring cities, seek above all to intervene in the possible
of the time. The same year saw the launch of Marconi Notaro ways of inhabiting and understanding them.
in the Sub-Kingdom of Metazoa, also on the Solar label, whose
psychedelic sound also found room for a samba and more direct It is no coincidence that there was an appeal for political
references to the popular music of Pernambuco, as in “Maracatu”. asylum in Algúria, sent by Leonhard Frank Duch to Montez
Magno (1975) – who designed this utopian society whose
PAÊBIRÚ: Trips by artists and musicians to Pedra do Ingá, an capital is Al-gures – demonstrating a double contradiction:
archeological site in the interior of the State of Paraíba, were on the one hand, the distance between imagined cities and
decisive for the creation of Paêbirú (1975), a project put together those that prove to be possible; on the other, the impossibility of
by Lula Côrtes and Zé Ramalho, also involving Alceu Valença, finding refuge in an oppressive political regime that represses
Geraldo Azevedo, Robertinho do Recife, and others. The legends social life as a whole. Art, in turn, inhabits the cracks between
and symbolic world of the Ingá people – represented here by the the possible and that which is deemed to be impossible,
drawings of Raul Córdula, who joined some of these expeditions setting up a topos – a place – of symbolic, subjective and
– are added to the psychedelia of Lula Côrtes, in keeping with political power, which, by resisting, perpetuates the desire not
the alchemical quality of the album. Arranged in four parts (earth, to conform to apparently preordained realities. This is why, for
air, fire and water) and mixing elements of popular culture, rock example, Montez Magno continues to build cities – of soap,
and jazz, the songs make use of unusual instruments, as well as stone, plastic, or any other “waste material” produced by our
sounds of the body and synthesizers, giving rise to the frenetic— society.
“crazy” in the jargon of the time – mixture of rattles, violas, bass,
electric guitar and fiddles, to name but a few. The rich range At the same time, in the historical context of Brazil in 1969, a
of references and the appealing history of the production of the time when bodies were under siege, Montez designed two
record are, in turn, recounted in the extensive sleeve-notes that spaces for architectural activism, The Egg and MMMausoleum,
accompany it, including sleeve design by Katia Mesel and her in which the artist, in the midst of the military regime, ironically
Abrakadabra group, whose work played a fundamental role in proposes the erection of “monuments” to violence. Combining
1970s Pernambuco culture. ideas from institutional criticism, architecture, anthropophagy,
participation, utopianism, urban planning and so on in an
FLAVIOLA: 1974 saw the launch of Flaviola e o Bando do Sol, architecture designed for a single body – that is simultaneously
also on the Solar label, an album that explored similar artistic present and absent – the projects also deal with issues of life,
influences (folk, rock, and the popular music of the Northeast), death and libido.
and that was imbued with an especially distinctive poetry and
outstandingly smooth melody. The lyrics, almost always clipped,
involve repetitions and subtle variations between verses, as in the
exquisite “O Tempo”, whose poetry appears to speak to us today
of the memory/forgotten age of that music scene: “I could have
forgotten /Killed or lost / It’s been so long / As much as I could
/ Until forgotten / It’s been so long / That I clamor for the things
that I love /As much as I could / Until forgotten / Or born once
again”.
The collaborative work of Daniel Santiago and Paulo Bruscky, Concern for – and criticism of – the place of the power of art
through the Bruscky & Santiago duo, differs from the utopian in the creation of these symbolic worlds would be a constant
or individual scale of the work of Montez Magno. Their concern theme of the artists of Pernambuco and especially of the
with the social dimension of art made it possible to create a networks of collaboration between them. Since the early 20th
series of projects on the interstices of the city, such as the 1st century, dialogue and partnerships that clearly identified
International Art Door Exhibition, which, in 1981, occupied 111 the field of local art would be essential for the creation of
billboards with interventions by artists from around the world, a scene in which relations between artists, audiences and
who, at the invitation of the exhibition organizers – Team communications media, for example, could flourish, with a
Bruscky & Santiago – arrived in the city through the mail art diverse range of perspectives establishing (self-)questioning
network. Ironically combining advertising strategies with the alterities, for which the experimental may have been as one of
habitual “invisibility” of art still in vogue during the military the corrollaries. It would be in these relations that the burning
regime, as well as a significant intervention in the city, the questions raised by the work of so many creative individuals
project proposed that art come out of “the refined galleries and would continue to reverberate, insisting on their urgency in view
antiquated museums... The artist, in the final analysis, being of the abyssal experience of the world.
judged by the people... in a non-commercial exhibition in which
advertising gives way artworks using various techniques”.58

The artists of Pernambuco in the 1960s and 1970s used various


strategies, as artists did across the country, to address political
issues in a military regime that strictly controlled public life. In
view of restrictions on freedom of expression, urgent political
demands were combined with all kinds of experimentation to
attempt, through the medium, to subvert the imposed norms
and socially, subjectively and symbolically resist them, as will
be further pointed out in the unpublished essays by Zanna
Gilbert and Adolfo Montejo Navas. This strengthened mail art
networks, urban interventions and happenings, performances,
video art and any other means of production and circulation
that, in some way, helped to circumvent the harsh restrictions
then in force.

Inevitably, violence became a major concern and interest of


almost all artists of the time, as can be seen from the work of
Paulo Bruscky, Daniel Santiago, Silvio Hansen and Montez
Magno. While they denounced acts of social and political
violence of the time – as in the series of objects by Sílvio
Hansen (1986-1987) – there were also other eminently symbolic
forms of violence. Not content merely to concentrate their
efforts on criticizing censorship, these artists were also aware
of other forms of social hygiene, as can be seen in Clean and
Disinfected (1987) and in Art – Vaccinne Against Tedium (1976
poster and 1984 performance), by Team Bruscky & Santiago,
initiatives involving an always unique and good-humored
institutional criticism. Thus, apart from keen reflection on
violence, repression, democracy, workers’ rights, surveillance,
free elections and so forth, Pernambuco also saw, during the
time of the dictatorship, a series of critical efforts relating to
the role and power of culture and art, such as the collective
proposal The Land of Nostalgia – drawn up by Raul Córdula
and colleagues, to think about the images of the past that we
construct and project into the future – and Jomard Muniz de
Britto’s video The Clown with His Throat Slit, whose cry of “How
much longer?!” seems to sum up the agony of a whole historical
epoch.

58. Paulo Bruscky & Daniel Santiago. FREIRE, Cristina. Paulo Bruscky: Arte, arquivo e
utopia. Recife: Companhia Editora de Pernambuco, 2006, p. 99.
230-231 A POETIC OF SIGNS - Adolfo montejo navas PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

A POETICS OF SIGNS (THE OTHER MAP OF IMPURITY)


Adolfo Montejo Navas

“Purity is a myth.” Such a trajectory can be found in the work of Vicente do


Hélio Oiticica Rego Monteiro, both in his painting (flat and emblematic as
the bodies of sphinxes) that straddles different worlds and in
“We should all always listen to our inner rhythms. But not his poetry, written in French, as a way of escaping from the
everyone, great and small, can do this... If they could, everyone poetic nationalism of the 1940s and 1950s. It is as part of this
would know how to wake themselves… regional-international route, not passing through the national
axes of cultural power, that his rare and symbolic participation,
Débora do Rego Monteiro with 12 paintings in the Modern Art Week of 1922, should be
understood. The tension of this doubly foreign eye (from within
and from without) explains part of the artistic paradigm of
I. An Artistic Dissonance the painter, poet and graphic artist, the “eccentricity” of his
situation: “the intercultural nature of Monteiro’s work is a
There is nothing like a panoramic exhibition to illustrate the relation that emerges through observation of a past from two
nature of an artistic itinerary, especially when it is a Brazil within external points of view – one that of a ‘foreigner’ (Géo-Charles)
2

Brazil, a cartography inscribed in the cultural history of the one that of a native (Monteiro) – as a way of expressing the
nation. It is inscribed not only on account of its own merits and contradictions of a country without traditions, trapped in a
transcendental character, but also by way of identity codes or commitment to be ‘original’. Monteiro was a Primitivist painter
those that are powerful and unique enough to create a certain of the Paris School, which, in Europe, discovered not the alien
dissonance in a cultural historiography that always tends ‘other’, which the avant-garde used to break with tradition,
towards the mainstream or in the cyclical reading of generic but the indigenous ‘same’, capable of replacing the destructive
accords. The State of Pernambuco and, by symbolic extension, tendencies of modern art, by way of a nativist poetics
the culture of the Northeast region – that climatic zone defined intermediate between novelty and traditionalism”, in the critical
3

as torrid, with its tropical light, during the period covered by observation of Francisco-Oiticica Filho.
Experimental Pernambuco, 1900-1980, put down firm artistic
and socio-cultural roots in the soil of the time, as a modernity On the other hand, if Hélio Oiticica inscribed an aphoristic work
in gestation in various fields of knowledge and social life. Noneon this aspect, at a time when Rio neoconcretism was in full
experimental swing, inspiring a whole generation of artistic
of this occurred without creating friction with local conservative
force lines, but this also fostered and drove other artistic breaks with the past in various fields,4 the demystification of
references that, in some way, challenged or diverged from the this classical concept was already being carried out in some
prevailing models and standards in Brazil.1 form or another in Pernambuco, by way of works that aspired
to be porous and open to the world in a different way – in
We should thus recognize a certain conceptual impurity – in a which the purity, typical of the thinking of the time, became
clash with pure form, with the absence of the world – that the merely an outmoded luxury item. This vital contamination that
art rooted in Pernambucan soil expresses and exalts, producing Pernambucan art fostered from a very early stage somehow
a different artistic tone. We find, therefore, a demystification became, decades later, a point of reference for relational
of strictly formalist elements and the obligatory traces of art, a new context and a new articulation of language and
constructivism – such as the curious absence of straight lines reality. Various factors contributed to this point of reference
– along with a discovery of other frequencies and harmonies, being established, be it the association with local indigenous
as atavistic as they are permeable, as coded by the site of (marajoara) roots or the graphic tradition (from the various
action as they are attuned to the winds coming from the rest forms of engraving to the truly graphic experiments that
of Brazil and overseas. The pioneering presence of artists connect Vicente do Rego Monteiro, João Cabral de Melo Neto
of the caliber of Vicente do Rego Monteiro and Cícero Dias, and O Gráfico Amador [The Amateur Publisher]),5 or even the
with their Europe-Recife and Recife-Europe cultural multi- preoccupation with social order, that was part of life in the time
vision, produces an historical opening that will have further under review, of most of its major theorists (Gilberto Freyre,
consequences and ramifications. The works selected for the Josué de Castro, Paulo Freire, Celso Furtado). These reflexive
show exhibit a surprisingly high degree of experimentation with features ended up injecting critical questions into the activity
visual signs, beginning with the first modernist paintings and of visual artists, without falling, however, into the protocols of
moving on to more open experiments (Montez Magno, Aloisio much ideological, politically engaged, art (which was, at times,
Magalhães, José Cláudio, Paulo Bruscky, Daniel Santiago, almost another witch-hunt, regarding the diferences).
among many others).

1. The modular boxes of Montez Magno (1967) and Paulo Bruscky’s book objects 2. Géo-Charles, French poet, art dealer and critic, friend of Vicente do Rego
and artist’s books (from previous decades until now), for example, were absent from Monteiro.
Aberto Fechado, Caixa e Livro na Arte Brasileira (Pinacoteca de São Paulo, 2012), 3. Vicente do Rego Monteiro and Géo-Charles: correspondance. In: BRUSCKY, P. et
an intriguing recent exhibition curated by Guy Brett that investigated these spatial al (ed.). Vicente do Rego Monteiro: poeta, tipógrafo, pintor. Recife, 2004, p. 93
microuniverses. 4. Rio Experimental, el Poema Mas Allá del Arte, el Poema y la Acción. Fundación
Botín, Santander, 2010. This show, in Spain, drew a map of historical artistic conflict,
in which the “experimental exercise of freedom” proclaimed by Mário Pedrosa
broadened into the “acceptance of the experimental” advocated by (...)
In view of these prior summary considerations, we can view all II. When the World Began in Recife: the Other Modernity
of the notions of the artistic cited and included in this historical
group show, which is at once documentary and conceptual The beginning of the world already once was in Recife in a
(somewhere between the curiosity cabinet and the archive as 1929 panel painting, in which things were glimpsed in a rare
studio), as providing a plural, multifaceted aesthetic schema, constellation of images, living together as hybrids, appearing
which nevertheless reveals a certain emblematic axis that loose, as if adrift or in suspension – as occurs in the pictorial
generates future developments and intercommunication. imagination of Chagall, although the Pernambucan painter’s
use of drawing and color concatenates the diverse worlds
Should we therefore think in terms of a different kind of more, since his “collage” does not present itself as a directed
modernity? Another project beyond the avant-garde and its idealization, but rather as a poetic construction, a more
doctrines and legacy of a break with the past that fits better libidinous presence of reality from a primitive perspective
into the more extensive metabolized body of art, outside (without background). Curiously, the association of figures,
the bell-jar of the field of plastic arts? At root, the possibility architecture, and spaces contained in the three panels breaks
of another broader map of art, which already forms part of with any normal narrative – the epic linearity that was so
the critical cultural dynamics of our age of revision of official much the hallmark of the Mexican muralists. Besides, these
history and also seeks to situate a wider constellation of cultural images, for the most part, merge into one another and overlap,
phenomena, more living and extensively dialectic, is what many presenting a mutable nature, as the background seems
excluding binary oppositions eclipse. Despite a certain historical geological, rich in layers of the real, the fruit of a painter poet,
flavor, the conflict surrounding the monopoly of modernism lies as Picasso would designate him. Although an identifiable
at the geographical heart of the problem of the 20th century, image appears at one point (of the Rio de Janeiro’s Sugarloaf),
with a southern-leaning tendency to center attention on the the itinerary one is led to follow is a compass rose of urban
1922 Modern Art Week as the only axis of this modernism. The and landscape art that flows out in all directions.7 As if the work
resulting and long-standing polarity between São Paulo and belonged to a memorialist imagination (Joaquim Nabuco, Frei
the Northeast is thus guided by full-on, mutually exclusive Caneca) converted into continuous time, emanating from the
oppositions, based on the regionalism vs. modernity model, as shifting images.8
happened later in the dispute between concrete and process/
poetry (fundamentally another São Paulo-Northeast-Rio On the other hand, the dream-like substance of this enormous
polarity). painting also lies in the shadow-swathed hybrid architecture,
which sometimes echoes de Chirico, just as there is a popular
The sense of freedom of the premises in play in Experimental almost Chaplinesque humor, as with the shadow laughing
Pernambuco is undeniable, both because of the freedom of at the bust that projects it or various scenes of diversion
language professed by them and because of the recovery of that pervade the composition – half-bodies dancing by. In
less well-known, or, in their national extension, underestimated this masterwork, if this category still means anything in the
conceptions of art, which have not been set in a context that contemporary world, the shifting and fragmenting of the
reflects their true value. Joaquim do Rego Monteiro, Montez images, brought together by the way things are cut and their
Magno and Jose Cláudio are three notable examples of such contours distorted in unusual ways, seems, to this day, to lead
neglect. Experimental Pernambuco is one of those retrospective to the poetic conviction that the world first unfolded and came
shows that aim to lead to future ones, for reason of the nature into being in Recife, and is still supply opening out a little more
of the critical proposals generated and the reflections that each time we look.
clash with a convenient bourgeois reading fixed in its historical
and methodological comfort zone and, hence, by way of Given this, it is interesting that other works by Cícero Dias, his
connections it suggests as a new cross-cutting territory to be four symbol-paintings of the late 1940s (three of which are in
explored. In fact, history, especially recent history, is always in the exhibition), are pieces that promise the kind of painting
constant need of revision, perhaps in the chimerical promise that Francis Picabia or René Magritte too would establish as
of a better understanding of the present, as Giorgio Agamben the seminal territory of the bad painting to come. They are
puts it, in so far as it is only by delving into the latent shades of a deliberate illustrated iconography, disconnected elements
the past and making them fresh again in the inconceivable part that play ironically with emblematic shapes (the typical fruits
of the present, that it is possible to have a true feeling of time.6 of the country), hovering between the logic of parody and
comic desire. This is something that Jormard Muniz de Britto
would also do, in his own manner, in his film Jogos Frugais

(...) by Hélio Oiticica as a question of life and behavior that is always free, in a state 6. AGAMBEN, Giorgio. O que é o contemporâneo? e outros ensaios. Chapecó, SC:
of being invented, in progress. Argos, 2009.
5. O Gráfico Amador produced innovative graphic experiments and broad cultural 7. It is no coincidence that, in Mário Carneiro’s short film on the painter, the sound-
content from the time it was set up in Recife in 1954, by Aloisio Magalhães, Gastão track that accompanies this masterwork was composed by Hermeto Pascoal (“Act of
de Holanda, José Laurênio de Melo and Orlando da Costa Ferreira. Over eight Creation”), thereby setting visual and musical freedom on the same plane.
years, it expanded the ranging of printing techniques, producing typography and 8. Mário Hélio Gomes remarks on the connection between verbal and pictorial
illustrations using lithography, metal plates, woodcuts, string and stencils. memory in Memories of a Painter. In: DIAS, Cícero. Eu vi o mundo: Cícero Dias.
Cosac Naify, São Paulo, 2011, p. 220.
232-233 A POETIC OF SIGNS - Adolfo montejo navas PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

Frutais [Frugal Frutal Games] (1979), in which the female nude There are various surprises in this show, the first being the
and bananas (the stereotypical tropical fruit) play the role of canvases of Vicente do Rego Monteiro’s prematurely deceased
an erotic alter ego, a shameless co-protagonist, more than brother, Joaquim, in which organic or pictogrammatic shapes
ironic narration with the right to the cultural strip-tease “for and signs make up an emphatically planar painting, very
foreign eyes,” in which the affinity between sex and fruit in this different from everything else being done at the time, including
Nude Maja posing with fruit attains a perfection of parody. his own brother’s work, which were more geometrical and
The watermelon that appears in this work also appears in allied to a more sacred or mythological conceptions with
the video A Democracia Chupando Melancia [Democracy indigenous roots (despite the fact that in Quelques Visages
Eating Watermelon] (2011), by Daniel Santiago (performance de Paris, 1925, a book of poems included in Experimental
with guests), which offers another visual image corroded by Pernambuco, the artist’s illustrations, with their mixture of
criticism. anagrams, visual logos and pictograms, closely resemble this
poetics of signs). In the case of Joaquim do Rego Monteiro,
It could perhaps be said that irony is one of the figures of in paintings such as La Rotonde or América do Sul [South
speech most typical of the culture and behavior of people America] (both 1927), we see different structures and planes
from the Northeast – in this case Recife –, in contrast to other of color with human figures – synthetic indices, silhouettes of
Brazilian States. This characteristic, not very oftenly found at drawings whose formal economy approaches a language
other latitudes, forms part of the oblique and critical treatment of signs in its extreme codification (as also in the book
of Pernambucan culture. This feature – which always plays Silêncios (1925), produced by his sister, Débora do Rego
obliquely with ambiguity and challenges dominant powers Monteiro, in homage to her dead brother, José, which is full
– can never be coded in a geographically exclusive manner, of somber schematic drawings). Likewise, the two paintings
since it not only constantly permeates a wide number of called Composição [Composition] (both 1930) show another
artworks and art products in various fields, from the verse of feature that was unusual for the time: a rooted constructivism,
Manuel Bandeira to Sebastião Uchoa Leite, the plays of Ariano somewhere between the desire for geometric composition
Suassuna or cordel literature to the most generic rhythms or and its opposite, with amorphous, formless, semiorganic
even the closest musical adventures, the experiences of Zé shapes, included in the series of paradoxical paintings that
Ramalho with Lula Côrtes included Northeastern-style in the Experimental Pernambuco brings to light, via Joaquim do Rego
exhibition, Nação Zumbi or Mestre Ambrósio. It can likewise Monteiro10 or Cícero Dias.
easily be seen to be an everyday practice, a simple daily
habit of reading things differently. From the metamorphic III. The Music of Signs
alphabets of Daniel Santiago (variations on a single graphic
code, Alfabeto Comilão, Colorido, Eleito, no Plural... [Glutton, Signs have had a strong presence in the Pernambucan art of
Colorful, Elected, Plural Alphabet]), of the 1980s, to the titles the twentieth century, with the construction of a visual music,
of the caustic works of Jomard Muniz de Britto, such as his not only in more explicitly musical works such as those of
film, Alto Nível Baixo (1977), whose sound-track augments Montez Magno [Bachianas (1964), Madrigais (2009)] and
the dissonance of the images, or even the work of José Paulo Bruscky SensonialCon(s)(c)(?)ert (1972), Partituras
Cláudio, oil on eucatex with a whiff of proclamation, Primeiro (Musical Score, 1984) – which always have some intriguing
a Fome Depois a Lua [First Hunger Then the Moon] (1968),9 affinity with post-Cage sound art –, but also in works by José
with its militant anti-Parnassianism (and the socio-political Cláudio, and earlier in a sign-based painting that goes beyond
conscience of Josué de Castro with his work on the geography the geometrical or figurative, such as that of Cícero Dias and,
of hunger), or the outdoor festivals of the early 1980s (1981, above all, Joaquim do Rego Monteiro with his iconographic
1982), an outright contravention of publicity in reverse. In all of elements, as noted above.
these one can scent the vitriol that irony distills, its libertarian
antidote to totality (as some verses by Uchoa Leite put it in Neither is Pernambucan culture’s tradition of engraving and
Poética dos Mosquitos: “with needle pricks/in a kind of atonal book editing and publishing free of this profusion of graphic
poetics”). Playful irony, a vital legacy of homo ludens, which elements. This aspect of the cartography of signs, so prolific in
joins Clowneries and Cartomancie (1952, both), with Art: the images of visual poetry, began early with the avant la lettre
Vaccine Against Tedium, a performance by Paulo Bruscky and experiments of Vicente do Rego Monteiro, with his passion for
Daniel Santiago, or the cowboy shoot-out with super-8 e 16 poetry and publishing. Concrétion (1952), a book that surprised
mm cameras, in Duel (1975), by the same artists, a spirit that the concretists, when they became aware of it various decades
finds continuity in various ways in the works of José Patrício, Gil after its publication, or Cartomancie (1952), poems printed on
Vicente and Carlos Melo, for example, which lie beyond the playing cards that provide a different kind of visual lyricism
scope of this exhibiition but are consistent with it. influenced João Cabral de Melo Neto as a printer during his

9. We should also mention another pioneering work that addressed the issue of 10. Vicente do Rego Monteiro exacerbated the contradiction when he remarked in
hunger, Mário Carneiro’s feature film, Gordos e Magros (1977), which makes a private, “As a cubist, I am a constructivist”.
similar and, for the Brazilian political corpus, unusual statement.
stay in Spain, where he published Joan Brossa and later when whose graphic marks derive from a performance involving
he was involved in the experiments of O Gráfico Amador. This the projector, a semi-magical combination of ropes and light
may explain why, in this poetics of signs, this show includes that achieves a primeval sound-effect. In terms of poiesis, My
examples of the most rarely seen visual poems by Joaquim Brain Draws Like That I and II, in its two versions, 1976 and 2007,
Cardozo, a poet who always worked on the margins of the b&w and color, is a visual-sound archive, not only because
genre and deserves wider recognition, in part for reason of his of the soundtrack of encephalograms or Walter Smetak, but
pioneering work in different spheres, visual and sound poetry, as its own technological graphic design that combines polar
and artist’s books. This is also the case with Katia Mesel (whose opposites: notation/drawing and color, body and mind,
1970 jewel of graphic art, O Livro, with its clean pages of technology and ethics. There is even music in the three photos
spatial aphorisms, is included in this exhibition) and the books by Aloiso Magalhães (Cartema, 1979) included in the show, with
produced by Lula Côrtes. their photomontage, serial repetition of motifs, and harmonic
orchestration of images.
As if music were blind, many avant-garde experiments explore
other senses or synesthesia and many of these are based on José Cláudio’s brush and quill drawings on paper can also be
sheet music as the ideal support for the projection of graphic regarded as constellations of signs, but his work using stamps,
signs. The visually-attractive stave has always been a magnet hovering between visual poetry and drawing in the broad
for the graphic representation of music itself (be it random, sense, is an even better example of this. For the graphic marks
concrete, or electro-acoustic), for drawings that can translate of a new kind of sign writing, as refined as the structures of
the oscillations and inflections, rhythms and counter-rhythms, the process/poem, see also the work of Arnaldo Tobias, who
silences and gaps that music produces, but plastic art hides. was allied to this movement. In the 1960s, José Cláudio, who
The cut reliefs and kinetic objects of Abraham Palatnik can also was working as a civil servant at the time, produced various
be seen as scores or instruments of a music of silence. Music for situations involving stamps,13 which are random ensambles of a
the eyes is also provided by various works by Montez Magno kind, carefully woven compositions that simulate other possible
and Paulo Bruscky,11 in which the accents of shapes, signs and configurations of space, as if the need to invent the alphabet
colors work to produce a visual-graphic composition or, in the were part of this culture in which education has governed
case of Bruscky, commune in performance with sound poetry. history for an intensive period of time. It should also be noted
One example of this is Ele Está ou a Dor do Parto [He Is or the that it was in this part of the world that Paulo Freire launched
Pain of Birth] (1972), in which a mummy acts out onomatopoeic his pedagogical, intellectual and socio-cultural transformation
allusions, which was shown at the end of the exhibition along that has yet to be taken up in Brazil. It is also significant that
with other sound experiments of the time. there is art work (such as that of Aloisio Magalhães) that uses
school exercise books (and when, we may ask, does an exercise
Montez Magno has produced various works of this kind, book cease to be – as some of Magritte’s linguistic paintings
especially, Notesounds Album (1970-1992), which has the also suggest – a visual, semiotic poem). The examples in the
symbolic subtitle: Sonata for Eye and Ear. This is a series of show provide two contrasting interpretations: Daniel Santiago’s
compositions, chromatic calligraphies, seismographs and sign alphabets and Bruscky’s visual primer, both rooted in a world
mobiles on musical staves that explore the meaning of the of signs connected both to the sounds of music and its enigmas
visual annotation of sound, as the title proclaims, suggestions of and to the sound of the world and its contractual obligations.
a cosmic sound space of a rare beauty, as compositions, whose
lightness of touch and plastic structure are, in turn, echoed Vicente do Rego Monteiro’s 1955 series of monotypes contribute
in another key work, the 1964 Morandi series, with its unique to this hybrid vocabulary, their vast graphic diversity portraying
constructive lyricism, akin to that of Mira Schendel in her use of a grave labyrinthine universe, as Montez Magno does in his
the void as horizon and material, in which colors behave like 1958 pieces, in a more calligraphic and hedonistic way. These
the notes of a constellation fragmented in space. works form part of the range of graphic works this show aims
to present, as if as an underlying leitmotif, an extended visual
Works that present hybrid visual-sound worlds also include a seismography.
number of films that re-invent the medium, such as Ypiranga
Filho’s Dinâmica do Traço, I, II and III [Dynamics of the trace 1, 2
and 3] (1967), in which the broad gestures of the light drawing
are orchestrated into a score in movement. The same occurs
in Aépta (1982), yet another unclassifiable work by Paulo
Bruscky, in his role as an inventor, a Xerox film12 on super-8,

11. Hermeto Pascoal also forms part of this segment, for reason of the merits both of 13. José Cláudio is the author of the History of a Stamp series (1969).
his calligraphy drawings and his calligraphic scores (such as O Calendário do Som,
2000).
12. A work by Paulo Bruscky based on a sequence of xeroxes.
234-235 A POETIC OF SIGNS - Adolfo montejo navas PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL
recife as center of the world - zanna gilbert

IV. A Different Experimental Vocabulary height of the military dictatorship. This is another caustic work
that became an artistic boomerang through the feedback of
Putting together a different experimental vocabulary does not responses and collaborations it received throughout Brazil,
just mean reviewing the repertoire established by language answering the call for interference and posting, which provokes
strategies seeking new realities and symbolic worlds being an open national self-analysis (Artur Barrio, Torquato Neto,
created, referents and symbolisms inscribed in the works – the Dailor Varela, among others). The work that features in
range of meanings that opens out as the work is built up. It Experimental Pernambuco swivels between text and image
requires another itinerary in which the creation of meanings and is a truly collective undertaking, produced by a plurality
goes beyond conventional artistic limits of reality. There is of voices, bridging diverse geographical regions and artistic
thus a need to link the presence of the city of Recife to the styles.
urban culture of the streets and also to register the presence
of its most popular side, the spirit of quick-fixes and gadgets Also urban, but more inward-looking and reflective, Montez
that imbues the city, traveling parallel to historical time, along Magno introduces a pioneering perspective with his models,
with the immemorial values of old (a combination of memory presenting a lateral constructivism, freely exploring simple
and the surroundings that is present both in Cícero Dias and materials. His Imaginary Cities (reminding us of Italo Calvino’s
Paulo Bruscky). The urban world of the capital of Pernambuco invisible ones) are a complex of small-scale sculptures that
thus becomes a co-author in various exciting art projects, inhabit the space in a different way, as a genesis that has
in a dynamics of public participation that is rarely seen. The more in common, in some cases, with the highly contemporary
interventions of Bruscky & Santiago, and Bruscky’s solo work construction-installations of Miguel Navarro – always as
are thus part of an immanent public art archive that is not a collection of architectonic-spatial cells whose minimal
restricted to sculpture gardens, if not quite the contrary. Some grammar merges micro and macro. The same feature is
of these actions number among the best Brazilian artworks of present in other architectonic adventures, The Egg and
the period – against the backdrop of the military dictatorship –, MMMausoleum projects (1969), and even the school pencil-
when a different relation between the city and the public began cases, in which the relation between space, time, color and light
to be established, one that extended beyond the confines of the is interdependently imbricated.15
white cube: a situationist artistic language contextualized in a
popular sense. In this broadened vocabulary, the photomontages of Aloisio
Magalhães included in the exhibition present a geometrical
There was also another kind of space, straddling the virtual structure which, different from the work of Geraldo de Barros,
and the real, generated by mail art. While there are some imbues shapes with irony, redundancy and repeated motifs.
early pieces by Vicente do Rego Monteiro that were moving in This results in freely playing kaleidoscopic works that demystify
this direction, no-one was so intensively prolific in this field as through their mutable composition. The three labyrinths
Paulo Bruscky. With his profusion of mail art, Bruscky succeeded included here are connected to another different but equally
in putting Recife on the world map, in a grand-scale flowing unique experience, since Jomard Muniz de Britto forms part of
together of cultures, and on the map of Brazil, with his idea of a this exhibition, not solely on account of his film work, but also
networked art that could evade the oppression of the era, with for reason of the high degree of critical reflection, in his films
the complicit participation of the post office. At the same time, and other work, bringing to them the artistic temperature of
in tune with the graphic legacy of previous ages, the envelope, the Agreste region, nothing fake or manufactured, putting the
internal and external correspondence, with its outside-of-the- visual at risk, at the limit, with images that are more friction
box content, was converted, in the conceptual 1970s, into an than fiction.
aesthetic tool capable of acting as the support for various kinds
of actions and interventions with various purposes. A true post There is a respectfully critical side to this exhibition,
office box, which, as transitional object, enables exploration of characteristic of an artistic vitality that does not wish to confine
a broader kind of visual poetry. The process poem, always as itself to a local or global aesthetic bell-jar. This tension that
much overlooked as resisted in Brazilian culture, was a bulwark drives Experimental Pernambuco, with its broad sweep of
of these acts of postal art, these truly collective works that play almost a century, demonstrates the meaning of the slogan
with the anonymous humus as if it were the final authorship/ “Brazil is my abyss”, adopted in a proclamation-piece by Daniel
identity. And we can see here the link between the Northeast Santiago that turns the most virulent jingoistic nationalism on its
(Natal, Recife) and this abyssal movement, rather than concrete head. It invites us to realize that there is always the possibility
poetry, which is more connected with Bahia, thereby explaining of a contextual art that pores over the abyss of language, in
the resonance of a unique piece by Raul Córdula, O País da so far as it experiments with new truths, different readings
Saudade [The Land of Longing] (1980s), produced during the of the world, in no particular order. However, “it is a margin
that does not aspire to be an axis, or a governing center.
Rather, a libertarian body of work, always on the margin”,16 as
epitomized by the aesthetics of Paulo Bruscky, suggesting that,
15. DINIZ, C. Desdobrar. A Obra de Montez Magno. In: Montez Magno. Editora Paés,
still today, is a considerable cultural achievement.
Recife, 2010, p. 28.
16. A. M. Navas, wall text, Sempre Margem (Ou a Iconografia Poética de P. Bruscky),
in Paulo Bruscky – Ver Vendo, Galeria Amparo 60, Recife, 2008. Rio de Janeiro/Foz do Iguaçu, May 2014
Recife as the CentER of the World: Rethinking
Regionalism Through the Mail Art Network’s Long
Distance Performance
Zanna Gilbert

When Cícero Dias inscribed his painting I Have Seen the That Recife became a hub for the international mail art network
World... And It Began in Recife (1926-1929) he signalled not is not incidental; the north-east’s strong cultural identity,
only his own journey as a painter, but also an audacious cosmopolitan history and artistic heritage meant constructing
regionalism supported by the writings of his friend, the pre- a cultural forum that was independent and removed from
eminent Pernambucan sociologist Gilberto Freyre. Fifty years the dominance – still effective today – of the Rio-São Paulo
later, Recife became a major hub for the international mail axis.4 While Moacir dos Anjos has pointed out the relatively
art network with the activities of artists such as Paulo Bruscky, recent construction of the north-east as a region, regionalism
Daniel Santiago, Unhandeijara Lisboa1, Ypiranga Filho, as a position that could be either pursued or challenged is
Silvio Hansen, and Leonhard Frank Duch. If an occasionally undeniable. However, this commitment to the local was not
defiant north-eastern regionalism marks the production of hermetic and in no way compromised the desire to reach
Pernambucan writers, artists and intellectuals throughout the beyond Brazil, often circumventing entirely the path through the
20th century, how would this cultural stance meet with the country’s acknowledged art centres. The Manifesto Tropicalista:
accelerated internationalisation of communication systems Porque Somos e Não Somos Tropicalistas (Tropicalist
that led to the formation of increasingly cross-national artistic Manifesto: Why We Are and Are Not Tropicalists), authored
networks? This essay explores how these concerns with the in Recife in 1968, laments the ‘cultural stagnation of the
immediate locality, registered through performance, urban province’, asking: “Why do we insist upon living 10 years behind
interventions and works that foreground the everyday life of the Guanabara, and a century behind London? For regionalist
city, intersected with bodies of matter – mail art works – that loyalty? For the love and defense of our traditions?’5 In the
travelled on behalf of the artist, transferring their bodies or second part of the manifesto published the same year, this time
their localities into varied worldwide contexts. These parallel subtitled ‘Inventory of our Cultural Feudalism’, the authors argue
activities were elementally conjoined both as expressions for ‘new creative processes’ and the use of the mass media
of the local and immediate and as displacements of these as a way of overcoming the aforementioned stagnation.6 If
experiences to other localities. They were also (but not only) Cícero Dias had earlier conceived of the world as ‘starting in
responses fraught with the tensions of living under military Recife’, by the early 1970s, artists in that city saw an opportunity
government, particularly after the Institutional Act 5 was to once again reinvent geographies by reconfiguring the
instituted in 1968, which effected a subsequent nulling of the structures of transmission of information, ideas and art
sphere of collective action and social resistance initiated in the through the mail. Recife’s port had already inauguarated the
1960s. city as a 20th century cosmopolitan hub, which moreover in
previous centuries had been defined by Dutch, English and
Networking Regionalism: into the Translocal French colonial incursions. With the examples of more recent
Pernambucan innovators in mind, such as Vicente do Rego
When, in 1925, Gilberto Freyre complained of the condition of Monteiro, Aloisio Magalhães, and Montez Magno, artists
visual art in the north-east of Brazil as a ‘tyranny of distance began working with performative experimental practices that
imposed on our eyes and our imagination’, he lamented brought diverse artistic influences to bear on Recife’s art scene.
the lack of specificity of artistic methods to respond to the
particularity of regional conditions.2 Freyre’s complaint of this Recife was a locality, then, always defined as much by the
‘cultural regime’ was particularly concerned with the special beyond as by the local. This characteristic is noted in Cícero
quality of light in the north-eastern region, but it also called Dias’s masterwork, in which he reserved some space in his
for an art that would present not only local subject matter exuberant canvas for a depiction of the hills of Rio, allowing
but an epistemological or methodological difference in its space for other elements of place to enter into his portrait of
approach.3 As one of the most important intellectuals in Brazil, Recife. Dias’s depiction of Rio asserts displacement, but also
the discourse of regionalism pronounced by Freyre became connectivity between two places. Rio becomes present, but
a debating point for Pernambucan artists seeking at once to also secondary to Recife, acknowledging the possibilities of
respond to their immediate locality and at the same time take differing, subjective vantage points, of a locality formulated by
part in artistic conversations further afield. As the twentieth various experiences of place. A mailing sent by Unhandeijara
century’s accumulating developments in printing, reproduction, Lisboa to Paulo Bruscky in 1977 proposes an even more radical
and communications technologies marched on, and the geographical vision, one in which mail art has drastically
resulting closure of distance between the ‘here’ and ‘there’, reconfigured the earth. This cubic globe is accompanied by
artists began to negotiate the increasing ability to communicate the message, ‘Hail! Hail! A Package from Recife!’. Lisboa’s map
beyond their immediate locations, and further engage the often recalls earlier surrealist distortions of the world map according
cosmopolitan aspects of regionalism. to the centres of surrealist activity or interest; he depicts a

1. Lisboa has always lived and worked in Paraíba, but he maintained a strong (...) political reaction to the dismantling of the sugar and cotton trades and a
dialogue and participation in mail art projects emanating from Recife. solution to the crisis faced together with the Brazilian provinces that depended upon
2. FREYRE, Gilberto. Algumas Notas sobre a pintura do Nordeste do Brasil. In: it.” He further points out that the crystallization of the region through the works of
FREYRE, Gilberto. et al. Livro do Nordeste, comemorativo do centenário do Diário de writers, musicians, novelists, essayists and painters solidifiedits legacy, and defined
Pernambuco: 1825-1925. Recife: Off. Do Diário de Pernambuco, 1925. it, along with Gilberto Freyre’s characterization as a centre that held the roots of
3. ibid Brazilian cultural traditions. Moacir dos Anjos, “Desmanche de bordas: notas sobre
4. The constructed cartography of the north-east and indeed, all symbolically-constructed identidade cultural no Nordeste do Brasil” in Clarissa Diniz, Gleyce Kelly Heitor &
geographies, is noted by Moacir dos Anjos: “Although at sometimes seems eternal Paulo Marcondes Soares (org.) Critica de Arte em Pernambuco, Escritos do Século
for Brazilians, the idea of the northeast is only a century old, its origin being the (...) XX, Azougue Editorial, 2012, p. 265-6.
236-237 recife as center of the world - zanna gilbert PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

decentralized and reconfigurable cuboid fragmented into These already established networks met with the
four moveable sections that demonstrate the multiplicity of internationalization of mail art, which was achieved through
connections and possibilities in mail art networks. Instead of a sharing of mailing lists of artists’ addresses in magazines and
unidirectional transmission of aesthetic norms from centre to between artists and poets.
periphery, mail art embraced the possibilities of multidirectional
exchange. This resulted in a veritable cacophony of influences, The connection between experimental poetry and the body
so much that the roots and genealogies of mail art are almost was exposed in the 1977 performance poem Poesia Viva (Live
impossible to trace. Poetry) a culmination and celebration of process poetry.
Organized by Paulo Bruscky and Unhandeijara Lisboa the
Urban bodies: Poema/Processo, Performance and the City performance asserted the body as the poem itself. In the text
distributed at the event, Lisboa stated: “we are the work itself,
Given the conservative attitudes of Recife’s cultural elite, we are the moving letter”.12 Each of the participants bore one
museums were generally closed to the new generation of the letters that spelled the title of the work, and throughout
of artists wishing to experiment with media and question the performance each of them helped form additional words
institutionalized values in the artistic and broader sphere. In by moving their bodies around. The body became the letter,
a move that was as much pragmatic as ideological, artists’ the letter fused with the body, and meaning was created
urban interventions became a strategy of insertion into the collectively through a symbolic recuperation of the relation
everyday of Recife’s public sphere. Differing somewhat from between language and the body, the collective’s answer to
body art actions that investigate the physical limits of the body breaking codified semiotic systems.
to existential ends, Recife artists’ use of the body was often
extrapolated to the social body, exploring divisions between The intersection between text and body is also notable in the
the popular and the erudite. The first action of the Bruscky- case of two comparable performance works, each by the
Santiago Duo, Exponáutica e Expogente [Exponautical and long-term collaborators Bruscky and Santiago. In the case of
Expopeople], (1971), took the beach as a space for exhibition Bruscky’s O que é arte, para que serve? [What is art, what is it
in place of the customary gallery space. The next year, at the for?, 1978], the work asks a literal question about the role of art
action Artexpocorponte [Artexpobodybridge] (1972), Bruscky in society. The question, like the letters borne by the participant-
and Santiago invited participants to communicate between two actors in Poesia Viva, was carried on Bruscky’s own body, by
Recife bridges by means of coloured cards invoking collective being displayed on a sandwich-board. The artist exhibited
action, participation and communication without language, himself in the window of the Livraria Moderna bookshop, then
and in the same year for Artemcágado [Artontortoise] (1972), physically distributing the message around the city. In 1982,
the pair invited people to adorn their pet tortoises for exhibition Daniel Santiago also employed his body and a text in the work
in the street. This posture of turning art into a collective and O Brasil é o meu Abismo [Brazil is my Abyss]. The title of the
popular activity built upon the development and subsequent work refers to a poem by Jomard Muniz de Britto, Aquarela do
repression of social movements of the 1960s that inflected the Brasil [Watercolour of Brazil], which is a dark commentary of
artistic sphere creating such initiatives as the Recife Popular the years of military dictatorship. The artist suspended himself
Culture Movement (Movimento de Cultura Popular do Recife, from the banister of the Galeria Metropolitana (today the
1960), the Ribeira Movement (Movimento da Ribeira, 1960), Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães) holding a poster
and the Armorial Movement (Movimento Armorial, 1970) that with the words ‘Brazil is my abyss’ on the card. Hanging upside
were concerned both with collectivity and popular culture.7 down challenges norms of perception, and conjures up the
‘abyss’ of the artists’ personal response to the political situation
The formation of mail art network in Recife was both literary at that moment. Both of these literal and physical actions
and performatic – implicating the body – from the beginning. depended on the body as a support for text and an instigator of
Artists in Recife became involved in mail art initially through poetic action.
the movement Poema/Processo [Process/Poetry], which
developed some of the achievements of the concrete and visual Bodies of Matter: The Human Letter
poetry movements.8 Introduced by the artist Wlademir Dias-
Pino through the magazine Ponto in 1967, Poema/Processo The fact that mail art is a disembodied art practice did not
proclaimed a poetry focused on the ‘critical unleashing of prevent artists from experimenting with ways of making the
always-new structures’.9 Most crucially, Dias-Pino defines body the protagonist of their mailings. In 1975, for example,
process poetry in relation to the notion of games, scores and Leonhard Frank Duch sent a humorous ‘souvenir’ from a
activities – a poetry that emerges from the page into the social holiday to Itamaracá, a well-known beach destination on the
sphere.10 As Craig Saper observes:
5. Jomard Muniz de Britto et al, Manifesto Tropicalista: Porque somos e não somos
Process Poetry builds on the advances of concrete poetry and tropicalistas, Jornal do Commercio, Recife, 20 April, 1968.
6. Jomard Muniz de Britto et al, II Manifesto Tropicalista: Inventário do nosso
moves towards that tendency toward visual conceptual games, feudalismo cultural, first published for the solo exhibition of Raul Córdula at Oficina
scores and activities. Although these poems are not yet scores, 54, Olinda, 1968.
they do suggest a secret code system waiting for a reader to 7. Itamar Morgado da Silva, “Fissuras e Capilaridades: O individual e o coletivo na
formação da poética artística de Daniel Santiago”, MA Thesis, Universidade Federal
interpret or play.11 de Pernambuco, Recife, 2013, p. 33-4.
north-east coast. The postcard, instead of bearing picturesque Both works suggest that the envelope can contain, conceal
images of a typical beach town, carries Duch’s own burnt and transport the artist, as if the practice of mail art allows
skin, drawing attention to the body and flesh of the absent an escape or flight. These works then, show how the mail
sender. In mail art works, then, the mailing often acts as an work is able to displace the body of the artist to another
emissary, travelling as a proxy in lieu of the artist. Moreover, locale. Anthropologist Alfred Gell has argued that images and
the preoccupation with establishing more intimate interactions objects are not social others, but real physical “channels of
against the backdrop of dehumanising technological access” which are projections of human consciousness.15 These
communication and mass media meant to establish affective “envelope bodies” convert the envelope from its function as a
connections between one another. Amelia Jones ascribes container into a subject to be considered agents in themselves.
conceptual artists’ interest in the body to a reaction against This understanding of the mail art work as an agent, a body or
commodification, stating that in “pancapitalism, subjects an icon is variously employed by different artists’ engagement
become objects of the commodity system with its never-ending with the body in mail art. The mail art work can thus be seen as
processes of exchange.”13 However, while they were certainly a proxy for the artist’s body, and perhaps a means of ‘escape’
concerned with the rationalising processes of commodification for artists living under repressive regimes.
and mechanization, artists working in the context of
dictatorships extended the implications of featuring the body, Paulo Bruscky’s work helps us to understand the way that
or traces of the body in their work. artists transposed their concern with the presence of the
body in public performances, and how these ‘performances’
Another pair of works by Bruscky and Santiago explore how travelled and connected across distances through the
the possibility of corporal danger and physical punishment network of correspondents. His mail art works are laden with
demanded a visceral awareness of the somatic realm.14 indexical traces that establish immediate somatic references:
After he and Bruscky were imprisoned in 1976 for organizing photographic self-portraits, figures on exposed negative film,
an exhibition of mail art with some political content, Daniel x-rays, and fingerprints. Art historian Ian Walker points out
Santiago made a touching self-portrait accompanied by that the indexes’ physical relationship makes it a distinctive
the question, “What is it that I’m afraid of?”. The ink drawing kind of sign, since the extremely close connection between the
depicts the downcast artist, clearly profoundly affected by his sign and the object constitute a quality of realism, which in
treatment at the hands of the authorities. The three-quarter turn achieves the effect of immediacy in an image creating an
length portrait would be quite conventional had the artist not “extra authenticity and magical charge”.16 If artists embraced
replaced his shoulders and upper torso with an envelope, from the democratic potential of reproduction wholeheartedly, they
which his head and shoulders emerge. Santiago makes a direct also maintained a need for the artwork’s ‘magical’ quality,
link between his artistic pursuits and his somatic fear refer since through this immediacy they were able to figuratively
to the atmosphere of intimidation during his brief period of ‘touch’ the recipient. For example, the distortions Paulo Bruscky
incarceration. The question – a thought bubble implicating it as created by pressing the body against the photocopying
a private one – is rhetorical, but it could also be accusatory, or machine evoke an atmosphere of claustrophobic violence –
refer to impending self-censorship. The process of internalising the artist’s mouth is open in a silent scream which registers
structures and modes of behaviour imposed by dictatorship is the precise instant being recorded. In this case, the specificity
seen in action here, alongside the compromised opportunities of the moment conveys both the possibility of creating an
for free artistic activity presented by the mail art network. impression of immediacy through the mail by attempting to
Santiago’s self-portrait refers directly to the overt policing reduce the distance implicit in postal communication, as well as
of the body, and implicitly refers us to the indirect effects of the ultimate impossibility of direct contact (here registered by
censorship and a rigid societal order. Paulo Bruscky’s Cuidado the lack of sound in the scream and the sense of claustrophobia
com Violação [Careful with Violation, 1978], also alludes to the created by the trapped body). In his 1980 Xeroxperformance,
mailed work as a metaphor for the body. The violence that Bruscky literally translated his body-action onto paper,
might be exerted on Bruscky’s image as a careless recipient which was then mailed to recipients. The reproduction and
tears open the envelope equates with its fragility during transit. documentation of the image thus becomes an integral part of
Just as with Santiago’s work, the artist’s body merges with the the work itself, rather than with many performances, as a mere
medium of communication. The vulnerability of the body and document.
by extension the vulnerability caused by engaging in mail art is
addressed by both artists.

8. Like mail art, the movement was networked, arising in various cities at the same 9. Wlademir Dias-Pino, “Process: Project Reading” (Rio/Montevideo: Ponto/OVUM,
time, as noted by Neide Sá: “Process Poetry was founded as a movement in 1967, October, 1969). Cited by Charles A. Perrone, Seven Faces: Brazilian Poetry since
it happened simultaneously in various ‘points’ throughout Brazil: here in Rio, in the Modernism (Durham: Duke University Press, 1996), 66.
North-East in Natal and Recife, and in Minas [Gerais]. From 1967-1972, the Process 10. ibid. n.p.
Poetry movement came to have about 250 participating artists and poets. It was 11. Cited by Craig Saper, Networked art (Minnesota: University of Minnesota Press,
open to new participants so that mail was intensively employed ... Many of those 2001), 19.
who now do mail art participated in Process Poetry.” Interview with Regina Célia 12. Statement issued as part of the performance, 1977. Paulo Bruscky Archive.
Pinto, undated, Museu do Essencial e do Além Disso website, accessed July 4, 2012, 13. Amelia Jones et al., The Artist’s Body (London: Phaidon: 2000), 21.
http://www.arteonline.arq.br/museu/interviews/neide.htm
238-239 recife as center of the world - zanna gilbert PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL
DO you really want to know? - josé claudio

Embodied experience and knowledge, which can be traced Constructed notions of the local are redefined by the
through Merleau-Ponty and to some extent in the literacy intersection of multiple localities. Arjun Appadurai defines
method of Paulo Freire, understand the body as primary social locality as “a quality of social life that is constituted by a sense
agent. Writing about his masterwork, Cícero Dias commented of social immediacy brought about by certain forms of sociality,
that “the history of the whole of the north-east” had passed thus generating itself as a context”. Appadurai’s analysis of the
through his body.17 How then, does the mail art work act at a effect of electronic mass media on the formation of localities
distance, as a travelling body that is a locality unto its self? In reflects upon its ability to construct new realities that are not
this sense, the mail art work also becomes representative of necessarily geographically determined: locality is relational, not
a place, as both subject and object, moving from one place spatial.18 This is because “deterritorialised viewers” with access
to another, displacing contexts and creating problematized to globalised media create “communities of sentiment [groups]
definitions of space. Daniel Santiago’s works from the late that begin to imagine and feel things together”.19 The mail art
1970s that deal with famine and hunger in the north-east, such network, in its development of inter-subjective sociability, can
as Fome [Hunger] and Brazil Cream Cracker and Unhandeijara be defined as a “community of sentiment”; a locality in itself.
Lisboa’s Fome Hoje [Hunger Today] are precise responses to This translocality at once transgresses cartographic conceptions
urgent social problems which are then transmitted into other of space and enables an articulation of a multiplicity of
places as records of occurrences from where they are sent. localities, both those bound to place and constructed by
Paulo Bruscky AlimentAÇÃO [AlimentACTION, 1978] also deals distance, and those that are constructed in between spaces, in
with the question of food and hunger, as the artist seems to be this case, in channels of communication.
consuming his own body. However, the work further asserts that
the work can be taken to be the body itself, with the stamped As we have seen, Recife’s mail artists’ ideas about performance
‘Copy conforms to the original’. and the body were translated between presence and absence,
the local and the far away, matter and concept, and page
Regionalism and the Translocal to action. In these translocal interactions, experiences occur
in specific places (in the mail art work this is signified by the
Mail art is quite literally inscribed with translocality. It bears stamp, the address, the mail worker and the mailed work) and
the markers of place in the stamps affixed to envelopes and are transported to other places, creating virtual imaginaries
the addresses of sender and recipient, but importantly, it is through networking practices. Arjun Appadurai’s understanding
also beyond this place: it travels, or transports these markers of locality, developed in the 1990s, was based upon electronic
of their context into a different location. Thus mail art is both communication, now superseded and enhanced by the
rooted and contextual, a movement that responds to the internet. But what of earlier analogical communication in which
specific political and social conditions of place, while it also messages travel less quickly, allowing a gap between two
transcends those same conditions and categories. Despite this places to emerge? It is in this gap, this in-between space, that
animistic character, human experience, and the body itself, utopias can emerge, a space now compressed by a hyper-
must be codified in order to travel. In this in-between sphere, networked condition. Recife’s mail artists’ attempts to both
the body can also be conceived as a translocal entity, which engage and transcend their locality acted as a defiant critique
provokes questions about the limitations of what can travel and of cartographic conceptions of space and power in the local
be translated through communications media. As such what is and the national spheres; categories which continue to be
local might be thought of as presence and the trans through strongly codified. Art that is in flux, which defines itself through
degrees of absences, traces or indexes of that presence, the its passage through systems of circulation, by definition resists
body inscribed in the work itself. attempts to be definitively located. As Daniel Santiago often
stamped on his works: ‘Arte correio: onde quer que você esteja’
(Mail Art: Wherever it might be).

14. Merleau-Ponty’s notion of the body as the locus of perception can also be borne
in mind as it develops a notion of embodied knowledge that was influential for the
well-known artists Lygia Clark and Hélio Oiticica.
15. Alfred Gell, Art and Agency: An Anthropological Theory (Oxford: Clarendon Press,
1998).
16. Ian Walker, City Gorged with Dreams: Surreal Documentary Photography in
Interwar Paris (Manchester: Manchester University Press, 2002), p. 12.
17. Cícero Dias, Eu vi o mundo: Cícero Dias, op.cit p. 83.
18. Ferdinand de Jong, “The Production of Translocality,” FOCAAL 30/31 (1997): 61
19. Ibid, 8.
Do You Really Want to Know? I
by José Cláudio

1948. the Cícero Dias exhibition had had on me when I saw it at the
Law Faculty, in 1948. It had left a lasting impression upon me. I
You have to see things from this point of view: a sixteen-year- even remember exactly where some paintings were positioned
old country bumpkin, knowing no-one in Recife, never having on the wall, arriving on the first floor and turning left in the
had anyone in the family who had anything to do with art or direction of the reading room. Papaya Tree or Dancer (1946),
literature and having spent the last five years, since the age of over three foot in height. I insist on viewing the “dancer” as
eleven, in the bubble of the Colégio Marista boarding school. female, even though the dancer in the original Portuguese
At school, the only escape valve was Brother Estanislau, the title is clearly male – because, even though I had never seen
drawing teacher, who gave kids a better grade if they adorned live ballet, I had seen papayas “wiggling their tits in the wind”.
the left-hand page, on which we were supposed to work out Please excuse the vulgar comparison between breasts and
the geometry problem given on the right-hand page, with fruit, which is already there in the title. At the time, breasts were
some kind of free-style drawing, especially if it was funny. But merely alluded to, at least in the schoolboy essays produced by
anything would do, a tree, an animal, caricatures of fellow- the students of the Colégio Marista, and even more pendulous
students. Sometimes I would do these drawings for half the ones. The prudishness of the local media was no different from
class. But this had nothing to do with painting, an art form I that which prevailed at the boys-only Colégio Marista. On one
knew about vaguely from history books, or from the Raphael occasion, I was shocked, as I walked along Conde da Boa Vista
on the cover of our drawing books. Later, as an adult, I found Avenue, which was then a side-street, and saw pretty girls
out that some schools in Recife employed painters – like sitting on the window-sills of their dormitories! I remembered
Balthazar da Câmara, Elezier Xavier, and Mário Nunes – as that we were no longer in the 1940s, boarding schools had
drawing teachers, and that may have been how I heard of ceased to exist and my own daughter could have been one of
this profession, but at Marista we learnt nothing about that. In the girls sitting on the window-sills. My wife had enrolled her as
faraway Ipojuca, where I was born, which is now practically a a student at Colégio Marista, possibly in my honor.
suburb of Recife, thanks to all the new highways, my godfather,
Othon Fialho de Oliveira, who was living in Recife at that time, To go back to Cícero, what a nerve he had comparing a
was a painter and a lawyer. He eventually gave up painting. papaya tree to a living human being. And not any human
But I managed to get one of his pieces, Cows in a River, from being, but a ballerina. You can clearly see the tutu used by
the Recife Law Faculty Collection, into the album Pernambuco ballerinas – those sublime female creatures, more at home in
Artists. I also included his pencil drawing, Portrait of Mário royal palaces, to whom we owe the same respect due to the
Nunes, which, at the time Pernambuco Artists was published, in Virgin Mary. In this way, and significantly so, the whole painting
1982, belonged to the Mário Nunes Collection. It was the kind was an irreverence the like of which our city had never seen.
of drawing of one of the country folk who passed through the Even the papaya tree, painted anyhow, for, and by, an imbecile
store that Othon would produce on the wrapping paper in my who has never seen a papaya tree and doesn’t know how to
father’s store, when he spent the holidays with us in Ipojuca. depict one. It was as if this supposedly Parisian Daddy’s boy
This fascinated me and I spent the rest of my time in Ipojuca had come here to tell us that we know as little about art as we
scrawling on the wrapping paper, even though my father do about caviar, that anything goes; as in the fable of the frogs
forbade me to do so. I hid the sullied sheets under others. I who want a king. They throw a stick into the lake and the frogs
vaguely remember a painting signed by Fialho, called Street start bowing down to it. It was said to be a question of public
Barber, that may have been inspired by the Sunday street health, a contagious disease, that measures should be taken
markets in Ipojuca. Many years later, when I was already by the authorities. How was it that, although here among us in
working as an artist, I painted a street barber I saw at the Pernambuco there had never been an art gallery and no-one,
market in Abreu e Lima, Itamaracá, or Itapissuma, based on so far as people knew, had ever bought a painting, how was
Othon Fialho’s painting. it that a painter, in full possession of his mental faculties, could
produce a painting about which he himself admitted that he
“Working as an Artist.” wasn’t sure whether it depicted a dancer or a papaya tree?
And neither did he keep this aberration to himself, but had the
How many years it took before I could say that! At 16, I didn’t effrontery to exhibit it in the most dignified place in the State
even know that you could be a painter. It was a profession from capital, the Law Faculty, the temple of Tobias Barreto!
the distant past. I remarked once to the film-maker Vladimir
Carvalho that painters, or at least most of them, could live off
their painting, while film-makers needed sponsorship. He had
recently been filming me in my home talking about the impact
240-241 DO you really want to know? - josé claudio PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

On one of the few occasions that I saw Cícero Dias, at Nara At the time, I was not fully aware of the miracle because I knew
Roesler and Renato Magalhães Gouvêa’s Artespaço Gallery, absolutely nothing about art or literature from anywhere. I
talking on the subject of “living off art”, he declared, “In the old did not even know that people still painted. The only works I
days, paintings were meant to be given and were difficult to had produced were the illustrations in my school colleagues’
produce”. It was difficult because the individual receiving the notebooks and it was these that accidentally triggered all my
painting was always wary of being conned, that the so-called dreams, hidden dreams that I didn’t even know about! One
painter would create some doubt or a tie with which the day, in 1952, I happened upon a former classmate from Colégio
recipient wasn’t comfortable. This reminds me of a birthday Marista, Ivan de Albuquerque Carneiro. He was not someone
present that an old man wanted to give a rich Jew who was a I had been particularly close to. He was a day-boy; he went
friend of Renato Gouvêa. It was a very expensive watch. The home after classes. I didn’t remember his name, nor he mine.
Jew looked at it and handed it back, saying, “We do not know But he stopped me and asked, “Do you still draw?” I was unsure
each other well enough for you to give me a present like this”. whether to say yes or no. It had been a long time since I’d
thought about it and I didn’t know what to answer. I was a first-
A Rooster or a Pineapple year law student, or repeating the first year (I don’t remember
which) at the same faculty where I had seen the Cícero Dias
Francisco Brennand told me this story. Don Quixote was riding exhibition four years earlier. I didn’t know what I wanted to do
along, when he came across a painter at work. Don Quixote with my life and I didn’t turn up for class that often. As I liked
stopped, had a look at the painting and couldn’t understand both reading and drawing, some people suggested that I take
it at all. “What are you painting?” he asked. “Whatever comes up engineering, others that I take up law. I chose law because
out”, the painter replied. I do not know whether Don Quixote I never liked math that much. It is said that everything depends
understood something of what it was about when the painting on the teacher and, frankly, I don’t recall ever having had any
was completed, but, to clear up any doubts, the painter wrote good math teacher. The best I could manage was the basic
above the painting: “This is a rooster”. René Magritte added the algebra. Reading The Man who Counted didn’t help much.
words “This is not a pipe” to a painting that depicted nothing
but a pipe. In 1948, I didn’t know Francisco Brennand, I hadn’t “I like drawing”, I answered. Ivan said that he was putting
read Don Quixote, and had never heard of René Magritte, or together a studio and – in response to my protestations that
surrealism, but my understanding of Rooster or Pineapple and I was a complete ignoramus on the subject – he added,
Papaya Tree or Dancing Girl was instantaneous. I could have precisely for people who knew nothing about painting. He
said when I saw them what Correggio said when he first saw a mentioned that each participant would need to pay no more
Rafael: “I too am a painter”. This did away once and for all with than a pittance to rent the space. I gave him some money,
all the mystique that surrounds the art of painting and, in fact, without expecting much to come of it. Not long after, Ivan
to this day, no-one has ever needed to teach me anything more reappeared. “We rented the place,” he said. It was very near
about painting, although it is true to say that I learn something where I lived; on the same street, in fact. I lived in Santa Cruz
every day. It was these paintings that enabled me to learn. and the studio was in Soledade. From that day on, I never
I was blind; Cícero, and you conferred the gift of sight upon set foot in law school. Now my day-to-day companions were
me. Or it may have been that the impression that it had on me Ionaldo Andrade Cavalcanti, Gilvan Samico, Abelardo da Hora,
was so powerful that it blinded me to any other kind of vision, Wellington Virgolino and his brother Wilton de Souza, Marius
preventing me from looking elsewhere. To parody the director Lauritzen Bern, and Reynaldo Fonseca, who was already an
of the New York Museum of Modern Art, I could say that, if accomplished painter. The leader of the group was Abelardo
it’s not Cícero Dias it’s not painting, just as he said, “If it’s not da Hora, the renowned sculptor, who had been a student
Picasso, it’s not 20th century art”. To be sure, even the strongest of Edson Figueredo at the Encruzilhada Technical School.
fanatics have their doubts and I have never seen myself as He strictly followed the party line of politically-engaged art.
anything ‘special’. Even Picasso, mother and father of us all, did At that time, almost every intellectual was a communist or
even those who lived centuries ago, because we only see Piero a communist-sympathizer. Art had to be accessible to the
della Francesca through what Picasso tells us, even Picasso. masses, not the preserve of a privileged elite. Experimental
The best thing I did in life was to visit New York to see the art was out. This is outlined in detail in Memoir of a Collective
monumental Picasso retrospective, at the MoMA, in 1980. But, Studio, a new edition of which has recently been published by
who knows, maybe the person who opened my eyes to be able Cepe (Companhia Editora de Pernambuco), with a preface
to see Picasso was Cícero Dias. Of course, if Cícero were alive written by Clarissa Diniz. Recife’s modernist painters—Aloisio
today, I would be ashamed to enthuse like this, but I know of Magalhães, Lula Cardoso Ayres, Cícero Dias, Joaquim and
no-one of his ilk: geniuses have no kin. We should declare that Vicente do Rego Monteiro, Francisco Brennand, Hélio Feijó—
geniuses have no kin, so that we can open our hearts, because were all bourgeois, upper-middle class, members of the elite.
even some deserved praise could be taken the wrong way: we Being a modern artist was enough to tar you as a communist
do not know each other well enough to give such a present. or an anarchist, whether you were or not, even if you were a
fascist or had no interest in politics. Hélio Feijó, for example,
was arrested, I heard. Anyone who didn’t flee Recife ran the risk Geraldo Vieira put it, to produce figures, people, animals,
of becoming a target. imaginary beasts, such as those of Marcelo Grassmann, but
drawing on the folklore of the Northeast, perhaps inspired
My relations with my family worsened when I decided to drop somewhat by cordel popular literature. On arriving in Italy,
out of law school. Worse still, to become an “artist”, which was in 1957, I started to leave this behind; though not so much my
viewed at the time as being tantamount to becoming a drifter apprenticeship in draughtsmanship which I maintained in my
or a bum. I left home with nothing but the clothes on my back. I drawings in the drawing notebooks that I took everywhere, with
wanted to make it clear that I had no wish to live at my family’s a quill and inkwell, to draw the pine trees of the Villa Borghese,
expense, but to be free to follow my own path. I also wanted to the ruins of ancient Rome and anything else that took my fancy.
explore other parts of Recife. I don’t want to dwell on this; the
story is told in detail in the little trilogy of books Viagem de um When I married and set up home for the first time, in 1960, I
Jovem Pintor à Bahia (1965), Ipojuca de Santo Cristo (1965) and moved onto larger 50 x 70 cm sheets of paper, taking a long
Bem Dentro (1968), which I would like to see new editions of, time over the work, with no fixed deadline, mainly because I
even as a facsimile, the cheaper way, I suppose. couldn’t find buyers, not because I wanted to be a martyr. I
think I sold at most two, one to Baccaro and another, when
The great breakthrough came when I met up with Arnaldo I was still at Sudene, in the 1960s, to the architect Moisés
Pedroso d’Horta in Bahia. In São Paulo, he was like a father Agamenon. While producing these pieces, I was not, at least
to me, guiding me through this world of art. I tried to forget not consciously, aiming to be figurative. That was “what came
my past and learn, breathing in the global climate of the out,” as with the painter Don Quixote came across. Nowadays,
biennales. I still owe Sérgio Milliet and Paulo Mendes de half a century later, when I am producing a detailed painting of
Almeida an account of the time I spent in São Paulo, akin to the foliage, in highly figurative landscapes, when I want the viewer
one I produced on my stay in Bahia, which they liked so much. to know even what tree it is – a cashew tree, a mango tree –
There was a group of former communists who advocated total I seem to be going back to the dark drawings or those dark
artistic freedom, including Lívio Abramo and the Pernambuco drawings seem to have sought to achieve the almost tactile
critic Mário Pedrosa, who were both friends of Arnaldo. Many sensation of the oil paint as a thick paste. Some also seem to be
of them were Trotskyites, a term that wasn’t tarred there with seen from above, influenced by the aerial photography work
the same taint of treachery as it was in Recife. Arnaldo and I that I did for Sudene.
never discussed politics. I was awarded a grant by the Rotelini
Foundation and spent a year in Rome and visiting and learning Also at Sudene, for the GEVJ, the Jaguaribe Valley Study Group,
from the great museums of Italy, France, Germany, Austria, on a river in Ceará, and the Morada Nova Project, a city in
Switzerland and Spain. After that, I was ready to return home. the same State, we urgently needed a series of drawings of
plants and the way they are laid out to show to the Israeli
Back in Recife, I got married and took a job as a technical ambassador. At that time there was no such thing as Letterset,
drawing assistant at Sudene (the Development Agency of the which you could just stick on. You had to draw the cashew-
Northeast of Brazil). I spent my free time passionately devoting tree or the coconut palm on technical drawing paper with the
myself to artistic drawing, often working through the night on greatest of precision. I remembered how, when I was child in
the pen-and-ink pieces, some of which are included in this Ipojuca, boys would carve their initials into rubbers, cover them
MAR Experimental Pernambuco show. These dark drawings in ink, and stamp their initials all over their exercise books. My
were the product of everything I had been through previously. father’s shop sold school materials and I destroyed a lot of
small rectangular rubbers, more or less the size of a matchbox,
These drawings are influenced by Arnaldo Pedroso d’Horta’s playing this game. I suggested using the method for the Sudene
quill drawings. He had long since given up painting, simply project maps and that is what we did. I cut the rubbers with
because he didn’t have the space to paint and preparing a scalpel used to scrape down China ink drawings, used a
canvases and buying paints and brushes was expensive – you Graphus pen and paper. We spilt a little China ink on a sheet
could say “out of convenience”. Fair enough. And, since Bahia, of glass or something similar, wetted the stamp and imprinted
for the same reasons, I had given up painting altogether, the image in the correct position. After this, the stamps no
contenting myself with watching others paint, assisting Carybé longer served any purpose, so, rather than throw them away,
and Mário Cravo. But I never stopped being a painter in my I brought them home. One Saturday or Sunday, at ten in the
imagination. In São Paulo, I staged an exhibition of drawings morning, I was visited, at my home on Rua do Bonfim, Olinda,
at the Little Club (Artists and Art Lovers Club) using Arnaldo by Jomard Muniz de Britto and Moacy Cirne and they caught
Pedroso d’Horta’s quill strokes, the “spider’s web”, as José me distractedly trying out these stamps. “That is process
242-243 DO you really want to know? - josé claudio PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL
DO you really want to know? II - josé claudio

poetry!” Moacy exclaimed. “You are a process poet!” So I joined Still in the 1960s, I met Hermilo Borba Filho and, through him,
the process art movement. They sent me books. I was even Renato Magalhães Gouvêa, who got me out of Sudene and
included in a six-volume, very serious collection, Modernist hired me to work exclusively as an artist, as I was now totally
Poets, published by the Ministry of Education’s National Book committed to painting. I had achieved what I wanted: to earn a
Institute (Brasília, 1972). I look back fondly on the process poem. living as a painter. My life remained unchanged for the next ten
I would like to have met Wlademir Dias-Pino, Álvaro de Sá. years. The decisive change came with a telephone call from a
friend, with whom I had lost touch, who I knew through Arnaldo
I continued to produce during using stamps, sometimes Pedroso d’Horta: Paulo Vanzolini. He asked me whether I still
combining this with quill work. This was my farewell to drawing. wanted to visit Amazônia. They were setting off on an excursion
Arnaldo Pedroso d’Horta, who visited from time to time, on to one of the most interesting rivers, the River Madeira. I
occasions, spent two or three days with us, and once he saw describe the change that occurred on the River Madeira in
me drawing using stamps. He liked it so much that he tried out a beautiful book published by Cecília Scharlach at Imprensa
some small drawings of his own produced using a range of Oficial, São Paulo: José Cláudio da Silva/100 Paintings, 60 Days
materials as stamps, and chisels, gouges and scalpels. I now & A Travel Diary – Amazonas, 1975, if you want to read about
see these little drawings as his farewell gift. it in detail. To sum up. The boat was stopped everywhere by
the police. They thought we were guerrilleros or something.
I should say that all this happened without any deliberate Sometimes we were kept in custody for days on end. In the
intention of being avant-garde or experimentalist. It was the village of São Carlos, in the State of Rondônia, the chief of
same when I returned to painting, almost without wanting to. police, a guy called Felizardo, watched me painting all day.
When I was still living on Rua do Bonfim, Olinda, in 1967, I had a One day he said, “I want a painting”. “What kind of one,
dream while I was sleeping. I produced an oil painting entitled Felizardo?” I replied. “An Indian shooting a macaw with a bow
Dream (1967), which was sold at the Espaço Brennand Gallery and arrow.” I produced the painting. The guy was so pleased
last year. I wrote a short explanation of it that the gallery kindly with it that he took it home before the paint had dried and
printed along with a color reproduction of the painting. Here is let the boat travel on. That was when the penny dropped: the
an extract from it “I continued to draw, even when I returned to Collective Studio urged us to make art for the people, but we
Recife and got married, putting an end to my travels [meaning didn’t ask the people what they wanted us to paint. Back in
outside Recife]. During these years, I never touched a canvas Recife, I announced that, from that point on, I would paint on
or painted. Until, for no apparent reason, after 15 years not commission, the customer telling me what he or she wanted
painting, I had a very, very vivid dream that refused to fade me to paint. This was in 1975. Next year this will have been forty
over the following days. So I decided to buy a sheet of Eucatex, years ago: I have never wanted for customers. On the contrary,
had it fixed to a frame, prepared the surface, bought paints the problem now is that there is a waiting list and some people
and brushes and produced the painting exhibited here entitled get offended; they think some clients are given preference. So,
Dream. After this I picked up painting where I had left off at now my style is that of the client.
the Collective Studio. I don’t know what that means. You tell
me. I had never intended to. Now 46 years on from 1967, when Just one more story. When I started to do this—to bow to the
I produced the piece, people note the concept of perspective, will of the customer—I was talking one evening with the painter
the panorama, which gradually unwittingly took shape in Maurício Arraes, whose work I adore. It was on the terrace of
my painting, even though I had for a good part of this time his father’s house and we were alone. “Just when we have freed
distanced myself from the Dream painting. Not that I forbade ourselves from this servitude, you want to go back to it of your
myself look at it, but I hadn’t clapped eyes on it in a long while. own free will!” Maurício protested. At this point Miguel Arraes
Only now, looking at it again because of this exhibition, can I appeared, in pajamas and slippers. He had been smoking his
say how important it was for the subsequent development of pipe on a side terrace and had overheard the conversation.
my painting. The presence of the sea, for instance, that striking Maurício was lounging in a hammock and I was sat in a chair.
imposing sea, which appears for the first time in this painting, Meanwhile, Miguel Arraes appeared in pijamas and sat down
causing Neném Brennand [the gallery owner and daughter of in the chair opposite me. “Zé Cláudio is right”, he said. “When
Francisco Brennand], when I talked to her about it, to suggest Mao Zedong took power in China, he wanted to meet the
that I entitle this text The Model of All Seas. So I consider this my military commanders who had fought for him in distant regions,
first painting. And now (1 June 2013) it is being exhibited for the whom he only knew by name. One of these arrived and
first time.” introduced himself. Mao asked him to take a seat and inquired,
‘What is your religion?’ The comrade was somewhat offended,
thinking that Mao was accusing him of being ignorant. ‘Your
Excellency, I am a Marxist!’ he replied. Mao said, ‘That’s wrong.
If you do not have the same religion as your people, you will
never be able to understand them’.”
Do You Really Want to Know? II
by José Cláudio

Adão Pinheiro, a Pernambucan painter born in Santa Maria, The 1960s for me was a time of returning, beginning in the
Rio Grande do Sul, in 1938, wrote, in an article entitled “On previous decade, when I returned from Europe in November
the Calm Margins” (1987), that “painting in Pernambuco these 1958 after a year-long stay in the Old World. I must be succinct,
days is much more geared towards turning itself into a brand I know, which is difficult for a chatter-box like me: I start writing
or founding a tradition and less towards treading the path and I can’t stop.
of experimentation”. The article was about Ypiranga Filho
(Recife, 1936), an artist who dabbled in a variety of techniques, There are however things that I must tell. I arrived in Louvain,
ranging from engraving to sculpture. I recently wrote about Belgium, on a Sunday evening. I rang the doorbell of the house
an exhibition that included work by Ypiranga, along with that run by the Morrins for poor foreign students. I had enrolled and
of Paulo Dias and Suzana Azevedo, in which I cited Adão. was expected. But not with such euphoria as when a dark-
“This struggle has never flagged and seems to begin anew skinned lad about the same height as me, around 1.7 meters,
every day. Perhaps the two are one and the same thing.” jumped on me and gave me a huge bear hug as soon as I told
(“Engravers and Stationers”, for Continente magazine, Recife, him my name and cried out in Spanish, “We have just shown
May 2014). I wrote this three months after seeing Experimental those Europeans what we Indians can do!” When I did not react,
Pernambuco. While viewing this exhibition, I felt that it was a he added, “Brazil has just won the World Cup!” I thought it was
very special occasion and I remarked to my daughter, Maria appropriate to tell this story in this year when Brazil is hosting
Júlia, who had encouraged me to travel to Rio de Janeiro the World Cup. Unfortunately, Mexico hadn’t won and I could
and accompanied me on the trip that “it would be a good not return the embrace.
thing if everyone in Recife saw this exhibition”. I have always
opposed experimentalism, what Adão calls “forming a brand” Some time earlier, in Italy, the commissioner of the Spanish
or “a tradition”. To the point where I stopped thinking about pavilion at the Venice Biennale, Luís Gonzales Robles, had
it. But, walking through this show, seeing so many beautiful promised to put me up for a year in Madrid, where I was
things created by our artists, paintings you would never have going when I left Belgium. When got into her husband’s car—in
imagined, by Cícero Dias, Vicente do Rego Monteiro, Lula which I travelled every day to Brussels—this time to leave for
Cardoso Ayres, even Ionaldo, whom I thought I knew, and so good, she, Mme. Morrin, who was an art lover, owned an
much more that I was not familiar with or had not been able to Utrillo and talked to me about art, came up to me holding out
see in this new way, free of preconceived ideas, I felt renewed a thick envelope. “For you to get to know Belgium a bit more”.
and I could say again: I was blind; Cícero Dias conferred the It contained a wad of dollars. I put off my trip to Spain and
gift of sight upon me. Or rather: I was blind; thank you MAR. travelled around Belgium, Germany, Austria, Switzerland, said
goodbye to France and, when I arrived in Madrid, no-one
had heard word of commissioner Robles. They said he had
moved to Peru. As Mme. Morrin’s money had by now run out, I
spent the night in despair and, before going to bed, in a shack
provided by a guy from Olinda called Félix Athayde, who I
happened to meet, I prayed to God to tell me what to do the
next day. If He didn’t, I would do anything, even rob a bank.
In the middle of the night, I heard a great shout go up, “Off to
Brazil today!” When I went to the sea travel company the next
morning, I found out that the Conte Grande, on which I had
arrived, had put into port the day before in Barcelona and
was due to set sail for Brazil the next day. Félix Athayde got
me a plane ticket. Various miracles occurred that day. But let’s
just not mention them. I disembarked in Santos, I got a job as
a reporter for the O Estado de S. Paulo newspaper, for which
I worked for a few months, but I really wanted to go home.
In Recife, I worked for Diário da Noite, and one day Ladjane
asked me to write something for his page. I wrote something
about local art. No-one bought any of my paintings or those of
anyone of my generation, it would seem. In 1960, I got married
and started work as a technical drawing assistant at Sudene,
the Northeast Development Agency. I became a Sunday artist.
For more than ten years.
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I had no contact with the most important artists, such as electricity and no candles at home, as in Buraco Doce, a small
Francisco Brennand, who received intellectual friends in Várzea, corner of Rio Vermelho, in Salvador, which no longer exists.
nor with Lula Cardoso Ayres, who I had never been close to, 1955. Incredible as it seems, the Uruguayan art dealer Cipriano
nor Cícero Dias, who lived in France, nor Vicente do Rego turned up with two drawings I had produced in Buraco Doce,
Monteiro, who had gone to Brasília after the coup; Hélio Feijó which, many years later, I exchanged for a painting. Children
was out of circulation because he was sick; Aloisio Magalhães playing naked in a tin bath with a wooden bottom, like people
passed through here, but I didn’t move in his circles either. This had in the old days to make use of old tin baths with holes in
doesn’t mean that I didn’t know anyone. I staged an exhibition them. The neighbor’s boys ate dirt. They were white, with fine,
of art using multiple materials at the city hall gallery1 run straight, very blond hair and pot bellies. The little girl couldn’t
by Abelardo da Hora, and another, I think, at the Rozemblit walk, so her mother sat her down in the tub.
Store run by Wilton Souza. Needless to say, I sold nothing. Art
was for giving away, as Cícero Dias put it. I lived in isolation To go back to Rome. There was one day in Rome when I felt
because of my style of life – though I didn’t stop drawing, and a great need to read something in Portuguese. That’s why
later, painting –, but few people knew I existed and I may Fernando Pessoa said, “My homeland is my language”. I went
have contributed to that, thinking that art was something very to every bookshop there was in Rome and couldn’t find a single
person and no-one else had anything to do with it. Then came book in Portuguese. It would be the same story in Munich,
the military coup. People started to fear each other. But the where I had to content myself with a little book in Spanish by
funny thing was that there was some idea going round about Miguel de Unamuno, Velázquez’s Christ. I was prepared to
me here in Recife, in rarefied artistic circles, that led someone bother Murilo Mendes to ask him to lend me a book. Someone
like Jomard Muniz de Britto or Moacy Cirne to drop in on me suggested I go to the Vatican library. I should at least find a
suddenly, even though I didn’t know them. Celso Marconi, a Bible there. The nun who worked there, walked around, came in
journalist who wrote about culture, art and cinema, also came and out of the stacks, until, visibly upset, she told me, practically
round one night, accompanied by Caetano Veloso wearing in tears, “This is absurd! Brazil is the most populous Catholic
a long green patterned skirt, his wife, and the businessman country in the world and we don’t have a Bible in Portuguese!”.
Guilherme, if I’m not mistaken, plus Rita Lee and two guys, The She went and got a Bible written in an invented alphabet that
Mutants, who played among themselves, while my wife and I had been created to spread the gospel in an African country,
and our children wondered what was going on. It was the age an illegible scrawl to us, showing how the Holy See took care
of tropicalism and I wouldn’t be surprised if some historian to ensure that there was a Bible in every language. She asked
regarded me as being a part of that movement. me to wait and after a short while a middle-aged Portuguese
priest arrived, saying that if I went to his church in the center of
I worked two jobs. I would clock in at 7:20 in the morning at Rome the next day, he would give me a book in Portuguese.
Rua da Concórdia, Recife, lived in Olinda, another city: I lost a The next day, he gave me Saint Augustine’s Confessions.
lot of time standing on the bus, stuck in a traffic jam. I arrived
home at night. That was my life. I had to react like the saints My knowledge of philosophy is summed up by those two
and wise men who lived in poverty, as if I could rise above the books. To find out more about Marcus Aurelius, I read Epicurus
vicissitudes of life. and Lucretius. As for the Bible, reading Saint Augustine is
tantamount to reading the Bible, which he cites constantly, as
One of the places I frequented in Rome during my travels was if he knew it by heart. But, don’t get me wrong, I’m an atheist.
the Capitoline Hill, both the museum and the square, which was Although my wife finds me annoyingly Catholic, apostolic,
usually empty, with those lines scratched in the pavement by Romish. These are points of view. In some ways I still have this
Michelangelo, and the pedestal of the statue of Marcus Aurelius Stoicism for difficult times today, even though in my case I can
on horseback which inspired every equestrian statue in the live, modestly, off painting of course. Back in the 1960s, on Rua
world. I looked at it so much that I was intrigued to find out who do Bonfim, where I painted Dream, I also produced drawings
Marcus Aurelius was. I read his Meditations – I Ricordi, in Italian using stamps and lots of black drawings. At one point, I finally
–, which is still one of my favorite books. asked myself why, as a boy, I had wanted to learn to paint. I
got the idea of painting the little square next to my house. “A
I discovered another author who came to be part of my life little ashamed of myself, I prepared a Eucatex canvas and,
in a quite unexpected way. I had always liked reading and, as soon as day broke, in the early hours of the morning, I sat
even during the most difficult of times, never stopped doing on the sidewalk, on the curbside, propped the canvas up on
so, even under the light of a street-lamp when there was no a box – or perhaps I already had the folding easel that João

1. Miguel Arraes, the Mayor of Recife, had been inspired by Abelardo da Hora to
have a little gallery, designed by Marcos Domingues, built on the banks of the river.
It was halfway up the bank of the River Capibaribe, where there is now a statue of
Capiba, if they haven’t demolished it, turning into Rua do Sol. A cozy little gallery,
always well-frequented and busy with good exhibitions. In the heart of Recife. But it
didn’t last long. It was swept away by a flood. I went there a lot and staged one or
two exhibitions. 1962.
Carlos Carneiro da Cunha, an extraordinary painter who needs
urgently to be rediscovered, had given me – and I went back
to the 19th century, painting in the open air. That small painting
was acquired by the writer Renato Carneiro Campos. I also
recall that I would have loved to have been able to paint the
birds I saw in the street-vendor’s cages in Ipojuca when I was
a boy – sayaca tanagers, Brazilian tanagers, seven-colored
tanagers, Campo orioles, red-cowled cardinals, copper
seedeaters, and many others. I filled the house with these
caged birds and others, even brown tinamous, which don’t
adapt well to captivity, violaceous euphonias, bananaquits,
and set to work. They were medium-sized paintings. I still
have some today. I painted anything I found beautiful. One
day I woke up to the sound of a band of revelers playing frevo
outside my door, Rosário’s Donkey, and I painted a 80 x 120
centimeter canvas, which now belongs to my sister Nena. It was
one of my first in acrylic, having been poisoned by oils. As so, to
this day, things spontaneously “come out”.

I should also comment on the fact that a painting by Telles


Júnior (1851-1914) was included in the 1948 Cícero Dias exhibition
at the Recife Faculty of Law and that this was no accident: it
had been deliberately removed from the State Museum for
inclusion in the show. There have been many theories about
this. Some consider it an act of defiance, indicating that Dias
was not afraid of standing up to the greatest pre-modern
painter, or at least one whose painting had been untouched by
modernism, and that he himself was therefore as worthy of the
pride of his fellow citizens. Others saw it as a homage, a sign of
respect for the work of Telles Júnior, rather than a challenge. Still
others argued that it was a way of saying that the differences
were the result of different but equally valid approaches, noting
that the Pernambucan landscape plays an important part in
the work of both painters. And, of course, there were also those
who thought it sheer act of provocation to include a Telles in
such company, or a sign of insanity.
246-247 biographies PE:EXP PERNAMBUCO EXPERIMENTAL

José Cláudio da Silva (Ipojuca, Pernambuco, 1932) Adolfo Montejo Navas (Madrid, Spain, 1954) is a poet,
discovered painting when he was still at primary critic, independent curator, translator and visual artist.
school watching his godfather, the former district He has been involved in various cultural publications in
attorney Othon Fialho de Oliveira, drawing portraits Spain and Brazil and has been a correspondente for
of customers on wrapping paper in his father Amaro the international art journal Lápiz, based in Madrid,
Silva’s stationery store. In 1952, he dropped out since 1998. He has curated exhibitions of work by Anna
of Law School in Recife and joined Abelardo da Bella Geiger, Victor Arruda, Regina Silveira, Wlademir
Hora’s Collective Studio group as one of its founder- Dias-Pino, Paulo Bruscky, Vera Chaves Barcellos,
members. In Bahia, he worked with Mário Cravo Liliana Porter, Iberê Camargo, Eduardo Haesbaert,
Júnior, Carybé and Jenner Augusto; in São Paulo, with and various group shows in Spain and Brazil. Apart
Di Cavalcanti, and studied engraving under Lívio from poetry, books of aphorisms and translations, his
Abramo. He received an award at the 4th São Paulo published works include Miscelânea Cortázar (Coleção
Biennale and won the Folha de S. Paulo newspaper’s Memorial de América Latina, 2009), A bola entre
Leirner Prize for Contemporary Art. He received a palavras (Ed. with Vanderley Mendonça, Annablume,
grant from the Rotelini Foundation to spend a year 2010), Regina Silveira (Charta Books, 2011), Victor
in Europe, in Italy and other countries. He currently Arruda (Casa da Palavra, 2011), O Outro Lado da
exhibits at the Espaço Brennand Gallery, in Recife. Imagem e outros textos - A Poética de Regina Silveira
(Edusp, 2012), Poiesis Bruscky (Cosac Naify/APAC,
Jomard Muniz de Britto (Recife, Pernambuco, 1933), 2013), Mário Carneiro – Trânsitos (co-author, MinC,
graduated in Philosophy at what was then called the Circuito, 2013). In 2009, he won the Joaquim Nabuco
University of Recife (the present-day Federal University Foundation’s Mário Pedrosa Contemporary Art and
of Pernambuco – UFPE). In the 1960s, he joined Paulo Culture Essay Prize. He is responsible for special
Freire’s team of adult literacy teachers. Under the publications at Limiar Edições.
military regime, he was arrested and removed from
his post at the UFPE, but continued to teach at the Clarissa Diniz (Recife, Pernambuco, 1985) is a critic
Federal University of Paraíba – UFPB until 1973, when and curator. She holds a Master degree from the
he was summarily ordered to stop teaching at this Post-Graduate Arts Program of the State University
institution also. He was reinstated at both universities of Rio de Janeiro (UERJ) and holds a graduated
after the amnesty. A lucid poet, a playful politician and degree in Plastic Arts from the Federal University
libertarian educator, who has published more than a of Pernambuco (UFPE). She is content manager
dozen books, Britto is still an active arts critic at the at the Rio Museum of Art and has curated various
Vigilanti Cura Cine Club, in Recife, and for the Jornal exhibitions at this institution, including, Experimental
do Commercio. In the 1970s, he became an active Pernambuco, Shelter and Land – Art and Society in
participant in the tropicalist movement, producing Brazil 1, with Paulo Herkenhoff and From Valongo to
an extensive body of work using super-8 film and Favela: Imaginary and Periphery, with Rafael Cardoso.
numerous performances. She was assistant curator of the Itaú Cultural Institute’s
Programa Rumos Artes Visuais 2008-2009, in São
Zanna Gilbert (Norwich, UK, 1980) is a postdoctoral Paulo, and has curated or co-curated various other
fellow at MoMA’s Department of Drawings and Prints exhibitions, such as Refrações – arte contemporânea
and holds a PhD from the University of Essex and Tate em Alagoas (Pinacoteca da UFAL, 2010), Zona tórrida
Research. She has taught postgraduate courses at – certa pintura do Nordeste (Santander Cultural -
the University of Essex and the National Autonomous Recife, 2012) , contidonãocontido (MAMAM, 2010) and
University of Mexico (Unam). Her research focuses Contrapensamento selvagem (Instituto Itaú Cultural,
on artists’ networks and the transnational circulation 2011). She has been editor of the Tatuí art criticism
of art through the mail. She curated the exhibitions journal, since 2006, and was a member of the São
Felipe Ehrenberg: Works from the Tate Archive (2009), Paulo Cultural Center’s Critics Group between 2008
Intimate Bureaucracies: Art and the Mail (2011), and 2010. Clarissa has authored or co-authored
Contested Games: Mexico 68’s Design Revolution various publications, including Crachá: aspectos da
(2012), Daniel Santiago: Brazil is my Abyss (Mamam, legitimação artística (2008); Gilberto Freyre (2010);
Recife, 2012; MAC-Niteroi, 2014) and Edgardo Antonio Montez Magno (2010); and Crítica de arte em
Vigo: The Unmaker of Objects (MoMA, 2014). Pernambuco: escritos do século XX (2012).
ARTISTAS [ARTISTS]

Abelardo da Hora
Acácio Gil Borsoi
Alexandre Bérzin
Aloisio Magalhães
Arnaldo Tobias
Ave Sangria
Benício Dias
Cícero Dias
Daniel Santiago
Débora do Rego Monteiro
Emílio Cardoso Ayres
Equipe Bruscky & Santiago
Flaviola
Francisco Du Bocage
Gilberto Freyre
Ionaldo Cavalcanti
João Cabral de Melo Neto
Joaquim Cardozo
Joaquim do Rego Monteiro
Jomard Muniz de Britto
José Cláudio
Josué de Castro
Katia Mesel
Ladjane Bandeira
Laílson
Leonhard Frank Duch
Luiz Nunes
Lula Cardoso Ayres
Lula Côrtes
Manuel Bandeira
Marconi Notaro
Montez Magno
Nelson Ferreira
Nuvem 33
O Gráfico Amador
Paulo Freire
Paulo Bruscky
Phetus
Pierre Verger
Raul Córdula
Roberto Burle Marx
Silvio Hansen
Tiago Amorim
Unhandeijara Lisboa
Vicente do Rego Monteiro
Vivencial Diversiones
Wilson Carneiro da Cunha
Ypiranga Filho
exposição exhibition Edição e revisão de textos Luiz Gonzaga Cardoso Ayres Filho
10/10/2013 > 30/03/2014 Edition and Proofreading Lula Wanderley
Ciça Corrêa Marcos Falcão
A exposição foi uma realização Maria do Carmo Nabuco de Almeida Braga
da equipe do Museu de Arte do Rio - Tradução Translation Marta e [and] Paulo Kuczynski
MAR, com a colaboração de VÃK Traduções - Renato Rezende Max Perlingeiro
The exhibition was a project of the Montez Magno
Museu de Arte do Rio - MAR’s staff Making of Museu de Arte Contemporânea da
with the collaboration of Luiz Guilherme Guerreiro Universidade de São Paulo (MAC/USP)
Museu de Arte Moderna Aloisio
Curadoria Curatorship Plotagem Plotting Magalhães (Mamam)
Clarissa Diniz ProfiSinal Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro
(MAM/RJ)
Consultoria Advice Fotografia e digitalização de imagens Paulo Bruscky
Paulo Herkenhoff Photography and image digitalization Rafael Rodrigues e [and] Joana de Paula
Breno Laprovítera Soares Iannibelli Hu
Coordenação de produção Raul Córdula
Production coordination Logística de transporte Roberta Borsoi
Bebel Kastrup Transportation logistics Rodrigo Braga
Al Consultancy Secretaria da Fazenda de Pernambuco
Produção Production Sergio e [and] Hecilda Fadel
Janaísa Cardoso (PE) Transporte Transportation Silvio Hansen
Juliana Notari (RJ) Alves Tegam Thomaz Lobo
Yasmine Sefraoui (RJ) Art3 Log Tiago Amorim
Tiago Araripe
Pesquisa Research Seguro Insurance Ypiranga Filho
Lorena Taulla Affinité
Agradecimentos Acknowledgments
Identidade visual Visual identity Colecionadores e acervos Amauri Cavalcanti
Raul Luna Collectors and collections Amélia Córdula
Almir de Oliveira Amim Stepple
Expografia Expography Arquivo Público Estadual Jordão Aruza de Holanda Cavalcanti
Bartira Ghoubar Emerenciano Avir Shamaim
Biblioteca Brasiliana Guita e [and] José Bárbara Collier
Museologia Museology Mindlin Beth da Matta
Dulcineia Paz Rocha (SP) Biblioteca Pública do Estado de Carlos Alberto Gouvêa Chateaubriand
Heloisa Biancalana (SP) Pernambuco Carlos Carvalho
Pérside Omena (PE) Bolsa de Arte Cátia Louredo
Suely Deschermayer (PR) Camilla e [and] Eduardo Barella Cláudia Calaça
Suzana Omena (PE) Carlos Augusto Lira Cristiane Mabel Medeiros
Valéria Garcia Sellanes (RJ) Carlos Carvalho Cristina Gaio
Viviane Silveira Teixeira (RJ) Celso Marconi Daniel Maranhão
Clarice e [and] Solange Magalhães Daniel Roesler
Coordenação de montagem Coleção Roberto Marinho Elísio Yamada
Set up coordination Daniel Santiago Fátima Noronha
Jorge Pinheiro Flaviola Fernando Cardoso
Fundação Gilberto Freyre Filipe Coimbra
Montagem Set up Fundação Joaquim Nabuco Gilberto Chateaubriand
Carlos Alberto Goulart da Silva Fundação Pierre Verger Gina Ferreira
José Roberto da Silva Fundação Roberto Marinho Gustavo Neves
Valdeci da Silva Galeria Nara Roesler Hebe Gurgel Cavalcanti
Galeria Pilar Hélio Rozenblit
Museografia Museography Galeria Simões de Assis Henrique Miziara
Camuflagem Geneviève e [and] Jean Boghici Hermano Moura
Instituto Cultural Ladjane Bandeira Hugo Bianco
Automação Automation Instituto Ricardo Brennand Jamille Barbosa
32 Bits Ivo Pitanguy João Florentino
João Souza Leite Joel Coelho
Projeto de Iluminação Lightning project Jomard Muniz de Britto Juany Nunes
Artimanha - Julio Katona Jones Bergamin Leonardo de Siqueira
José Cláudio Leonel Kaz
Molduras Frames Katia Mesel Luiz Camillo Osório
Glatt Molduras Lailson Lydia de Santis
Lúcia Santos Maíra Braga
Luis Antonio Nabuco de Almeida Braga Marcelo Campos
Marcia Lira Fotografias Photographs Gerência de Conteúdo
Márcia Müller Breno Laprovítera Content Management
Marco Polo Guimarães Clóvis Masson Clarissa Diniz
Maria Clara Rodrigues Falcão Junior
Marília Bovo Lopes Luciano Oliveira Gerência de Educação
Marta Mestre Rafael Adorján Education Management
Myriam Barros Sérgio Guerini Janaina Melo
Nair de Paula Soares Thales Leite
Nara Galvão Gerência de Produção
Nara Roesler Versão em inglês English version Production Management
Paulo Rafael Paul Webb Daniel Bruch
Paulo Roberto Santi
Versão em português do texto original
Renata Casatti em inglês de Zanna Gilbert [Portuguese Gerência de Relações Institucionais
Rita de Cassia Araújo version from Zanna Gilbert’s English Institutional Relations Management
Roberta Guedes Alcoforado original text]: Camilla Cardoso
Roberta Rodrigues
VÃK Traduções - Renato Rezende
Rodrigo Cantarelli Equipe Staff
Roseana Diniz Alan Muller, Alex Ferreira, Alexandre da Rocha,
Revisão de textos Proofreading
Tadeu Chiarelli Alvenrindo Borges, Ana Carolina Ventriglia,
Ciça Corrêa
Tiago Araripe Ana Carla Fernandes, Ana Carolina Vigorito,
Kiel Pimenta
Verônica Cavalcante Ana Cristina Rodrigues, Ana Terra Rodrigues,
Virginia Kastrup Andrea Barboza, Andreia de Oliveira, Bianca
Impressão Printing
Waldir Simões de Assis Mandarino, Bruna Azevedo, Bruno Gonzaga,
Facform
Yuri Bruscky Bruno Kenji Yokoi, Carlos Rogério da Silva,
Zanna Gilbert Carolina Delavalli, Cassiana Silva, Cassio
museu de arte do Rio
Pereira, Catarina de Medeiros, Clara Szarvas,
catálogo catalog Crislane Rocha, Daniel Braga, Daniel Nogueira,
Conselho do MAR
Dayana Carvalho, Débora Leite, Diego da
MAR Advisory Board
Edição Edition Conceição, Fabiana da Silva, Fabio da Costa,
Márcio Fainziliber
Museu de Arte do Rio - MAR Gabriela Carneiro, Gleyce Heitor, Guilherme
Hugo Barreto
Instituto Odeon Porto, Gustavo Pereira, Helen Rodrigues,
Ronald Munk
Jô Nascimento, Ingrid Boiteux, Ingrid Melo,
Luiz Chrysostomo
Organização Organization Irlana Oliveira, Jaqueline Fonseca, Jessica
Pedro Buarque de Hollanda
Clarissa Diniz de Mesquita, Josecleiton Amaro, José Russi,
Josivan Ferreira, Juan Silva, Julia Baker, Karen
Conselho do Instituto Odeon
Gerencia de comunicação Gonçalves, Leandro Martins, Leonardo Alano,
Instituto Odeon’s Board
Communications management Leonardo da Silva, Leonardo Siqueira, Livia
Eder Sá Alves Campos
Hannah Drumond Pontes, Ludmila Costa, Marcelo Henrique Silva,
Afonso Henriques Borges Ferreira
Marcello Talone, Marcia Machado, Marcos
Edmundo de Novaes Gomes
Edição de conteúdos e produção editorial Meireles, Marcos Pereira, Marcos Ramos,
Eloisa Elena
Content edition and editorial production Marcos Vinicius Nunes, Maria Clara Boing,
Fernando Ladeira
Marco Aurélio Fiochi Maria Janaína Mesquita, Mariana Marques,
Monica Moreira Esteves Bernardi
Marília Palmeira Marília Palmeira, Marissol Sarmento, Marlon
das Neves, Mayra Brauer, Melina Almada,
Diretor-Presidente President Director
Produção Production Nahama Baldo, Natália Nichols, Nilton
Carlos Gradim
Barbara Collier Conceição, Pamela Cristina, Pedro Silva, Rachel
Cruz, Rachel Orlando, Raniere Dias, Regina
Diretor Cultural Cultural Director
Pesquisa e assistência de produção Barbosa, Renato Alexandre, Renato Dias,
Paulo Herkenhoff
Research and production assistance Rita de Cássia, Robnei de Oliveira, Rosinaldo
Lorena Taulla Oliveira, Sabrina Pacheco, Sandra Magalhães,
Diretor de Projetos e Gestão
Saullo Vasconcelos, Stella Paiva, Taiana dos
Director of Projects and Management
Projeto gráfico Graphic design Santos, Tamires Lima, Tiago Conceição, Vanda
Tiago Cacique
Raul Luna Batista, Vanessa Lima, Victor Ribeiro, Victor
Monteiro, Wagner dos Santos, Weverton do
Diretor Financeiro Financial Director
Textos Texts Monte, Willian Jardim.
Luiz Guimarães
Adolfo Montejo Navas
Carlos Gradim Na época da exposição Pernambuco Experimental,
Gerência Administrativo-Operacional integravam também a equipe MAR e trabalharam
Clarissa Diniz
Operational-Administrative Management diretamente em sua realização [During the period
Jomard Muniz de Britto of the exhibition Experimental Pernambuco, the
Roberta Kfuri
José Cláudio da Silva following former members of staff at MAR worked
directly towards its realisation]: Alan Correia,
Zanna Gilbert
Gerência de Comunicação Gabriela Alevato, Luciana Souza, Marco Aurélio
Fiochi, Silvio Borges.
Communications Management
Hannah Drumond Prefeitura do Rio de Janeiro / Secretaria de Cultura - Secult /
Secretaria de Educação - Seduc / CDURP.

Esta exposição contou com o patrocínio das Organizações Globo e da Vale por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Rouanet).
Coleção Pernambuco Assis Ângelo, Fredrico, Katia Bento, Laurindo, Greve (1989)
Experimental Carlos Caetano, Cláudia Martignago, Gastão Genotexto (1982)
de Magalhães, Vagner Dante Veloni, Anna Metamorfome (s. d.)
Pernambuco Experimental
Carolina, Maria da Piedade de Moura, Arlindo
Collection Kaibert, L.C.N, Jussara Almeida, Sócios na Silvio Hansen
Fantasia, Ramon, J.B.L., Aussí, M. Lila, H.G.O., Vide páginas [See pages] 117, 118
Coleção composta a partir da doação dos Marconi Edson, Valdir dos Santos, Chico Dantas,
fundos [Collection formed through the donation Suplício de uma Saudade (1987)
Leonhard Frank Duch, Bené Fonteles, Lauro Poema Lágrimas (2013)
of the following funds] Monteiro, Paulo Ró, Romildo Vallones, A. R. Os Comedores de Batatas (1987)
Condé, Sérgio Pinheiro, J. Medeiros, Brandão,
Arquivo Paulo Bruscky, Daniel Santiago, Alba Liberato, Olímpio Pinheiro, dentre outros.
Fundação Roberto Marinho, Jomard Muniz de O Gráfico Amador
Britto, José Cláudio, Lula Cardoso Ayres Filho, Vide página [See page] 127
Maurício Lissovsky, Montez Magno, Orlando Jomard Muniz de Britto Dez Sonetos Sem Matéria (1960),
Nóbrega, Paulo Bruscky, Paulo Herkenhoff, Raul Vide páginas [See pages] 46, 116, 131 de Sebastião Uchôa Leite
Córdula, Z Alto Nível Baixo (1977) Gesta e Outros Poemas (1960),
Esses Moços, Pobres Moços (1975) de Jorge Wanderley
e de doações de [and of the following Olho Neles (1982) As Conversações Noturnas (1954),
individuals and organizations] Ariel Aisiks, Bebel Toques (1975) de José Laurênio de Melo
Kastrup, CIFO, Luiz Guimarães. Uma Experiência Didática de Jomard Muniz de Macaco Branco: Fortuna e Pena desse
Britto (1974) Personagem no Reino do Futebol, Narradas
Vivencial I (1974) por Gastão de Holanda, 1955.
Artistas representados Memórias do Boi Serapião (1955), de
Represented artists José Cláudio Carlos Pena Filho
Vide páginas [See pages] 48, 88-89, 196-197 Mãe da Lua (1956), de José de Moraes Filho
Os Bichos da Roda (1966) Ode (1955), de Ariano Suassuna
Aloísio Magalhães Catende (1971) Revista do Gráfico Amador n. 2 (1961)
Vide página [See page] 49 Cadernos de Viagem à Amazônia (c. 1975) Rumeur et Vision, 12 poemas de Baudelaire,
Cédula de Cr$500 (1966) [projeto de aquisição (wishlist)] Mallarmé, Verlaine e Rimbaud (1957)
Cédula de Cr$1.000 (Barão do Rio Branco, 1978) Volante 1 - Receita de Mulher (1957), de
Cédula de Cr$5.000 (Castelo Branco, 1981) Vinicius de Moraes
Cédula de Cr$500 (Marechal Deodoro da
Montez Magno
Vide páginas [See pages] 55, 74 [projeto de Volante 3 - Pergunta (1958), de
Fonseca, 1981) José Laurênio de Melo
aquisição (wishlist)], 76, 83, 84-85, 114,115
Sem título (Da série Barracas do Nordeste, 1985) Azulejos Holandeses do Convento de Santo
Lula Cardoso Ayres Caixa de Música (2005) Antônio do Recife (1959), de
Vide páginas [See pages] 29, 35, 57 Sertão (1989) João M. dos Santos Simões
Caderno de desenho (s.d. e década de 1960) Do Áspero ao Suave (2009)
Cartaz do Congresso de Salvação do Nordeste Olhe (1973) [projeto de aquisição (whishlist)] Kátia Mesel
(1955) Dodeskaden (1977) Vide páginas [See pages] 138-139
Boi (1945) Série Cidades Imaginárias – Tesserato (1972) Folhas (1984)
ABC Pilar (1940) Série Cidades Imaginárias – Torres (1972) O Livro (1970)
Índias (1940) Câmara Escura (2002) Rarucorp (déc. 1970)
Mãe e Filho (1940) Dentro da Caixa, Cinza (1980) [projeto de aquisição (wishlist)]
Quando Dorme uma Consciência Tranquila Diwân de Casa Forte (1992)
(1922) Floemas (1978)
Ele: Que Vais Tocar? (1922)
Leonhard Frank Duch
Livro de Ouro (2006) Vide página [See page] 166
Bahia! Terra do Meu Samba (s.d.) A Véspera Metálica (2005)
Interior de Sobrado Patriarcal Urbano (s.d.)
Unhandeijara Lisboa
Equipe Bruscky & Santiago Vide página [See page] 170
Emilio Cardoso Ayres Vide páginas [See pages] 86, 162 Furo (1979)
Vide páginas [See pages] 24-25 Carta a Walter Zanini (documentação de obra
que integrou a exposição Arte Agora I / Brasil
Daniel Santiago 70-75
Vide páginas [See pages] 30, 51, 132, 134, 144, (MAM-RJ), 1976)
151, 152, 170 Carta aos artistas (documentação de obra que
Alfabeto Colorido (1988) integrou a exposição Arte Agora I / Brasil 70-75
Cartaz de Cabeça para Baixo (1982) (MAM-RJ), 1976)
Mingau Maizena #2 (1978)
Paulo Bruscky
Vicente do Rego Monteiro Vide páginas [See pages] 97, 98, 114, 119, 140,
Vide página [See page] 38 165, 173
Cartomancie (2ª edição, 1999) Documentação de visita de Hélio Oiticica ao
Recife (1972)
Raul Córdula Arte/Pare (1973)
Vide páginas [See pages] 110, 172 Artexpocorponte (1971)
Sem título (1965) Composições no Fio - Partituras Mutantes (1979)
Edson Luiz – Martírio no Calabouço (1968) Xeroxperformance (1980)
Série O País da Saudade (vide páginas 45, 102, Disco de artista (1982)
120, 149). Também integram a série obras de Alimento, Gente, Fome (1970)
Falves da Silva, Maurício Silva, Genilson Soares, Dedo (1978)
Chico Pereira, E.Z., Alex Flemming, Diva Buss, Meu Cérebro Desenha Assim #2 (2009)
títulos anteriores do
museu de arte do rio

Rio de Imagens : Uma paisagem em construção


Publicado por ocasião da inauguração do Museu de
Arte do Rio, o catálogo apresenta imagens da coleção
em formação e inclui textos de Paulo Herkenhoff, Carlos
Martins e Rafael Cardoso. (Organização de Paulo
Herkenhoff, português, 200 p.).

O Largo do Paço
Textos de Pedro Vasquez e Ruy Souza e Silva apresentam
24 obras de fotografia documentária e gravura que
integraram a mostra Largo do Paço, precioso conjunto
de imagens da Praça XV doado ao MAR por Fátima
Zorzato e Ruy Souza e Silva. (Edição de Ruy Souza e Silva,
português e inglês, 64 p.).

Pororoca: A Amazônia no MAR


A partir de exposição homônima curada por Paulo
Herkenhoff no Museu de Arte do Rio, o catálogo constitui-
se numa documentação reflexiva dos mais de 450 itens
que integram o Fundo Amazônico da Coleção MAR.
Textos de Armando Queiroz, Adriano Pedrosa, Claudia
Andujar, João de Jesus Paes Loureiro, entre outros.
(Organização de Paulo Herkenhoff, português, 488 p.).

Este livro foi composto em Futura Standard, Letter Gothic


e Sofia Pro, impresso pela gráfica Facform, sobre papel
Couché 125gr para o Instituto Odeon - Museu de Arte do
Rio.