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Proteção jurídica do

meio ambiente

Ana Paula Liberato* *


Advogada e Consultora
Jurídica em matéria am-
biental. Doutoranda e
Mestre em Direito Ambien-
tal. Professora da Gradua­
ção e Pós-graduação da
PUC-PR; Coordenadora da

Proteção internacional do meio ambiente


Especialização em Direito
Ambiental da PUC-PR;
Coordenadora Geral de
curso preparatório para
concursos.
A agressão ao meio ambiente sempre foi uma constante na vida humana.
Em maior ou menor grau, desde o surgimento do homem na terra, o meio
ambiente vem sendo degradado.

Mas foi a partir da Revolução Industrial, que a sociedade passou a en-


xergar tal problemática. Tudo isso se deu devido ao avanço tecnológico das
grandes empresas que, sem medirem o impacto que o meio ambiente po-
deria sofrer, passaram a utilizar-se de tecnologia avançada, gerando graves
consequências para o ecossistema.

Para todos, o meio ambiente era uma fonte inesgotável de recursos que
se renovaria automaticamente. Tal ideia também foi cultivada na cabeça do
povo brasileiro, o qual, sem consciência ambiental, acreditava e ainda acre-
dita que tudo permaneceria inalterado.

Nesse diapasão, nota-se que o meio ambiente nem sempre foi considerado
como direito fundamental, somente assim foi concebido com a Constituição
Federal de 1988.

As principais conferências internacionais realizadas no âmbito


ambiental, a partir da década de 70, são as seguintes:

• Conferência Mundial sobre Meio Ambiente Humano (1972);

• Relatório “Nosso Futuro Comum” (1987);

• Conferência Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento


(Rio/92 ou Eco/92 - 1992);
Proteção jurídica do meio ambiente

• Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+10 - 2002);

• Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável


(Rio+20 - 2012).

Em termos mundiais, foi em 1972 que a comunidade


internacional, preocupada com seu desenvolvimento econômico, se
atentou sobre a degradação que o meio ambiente vinha sofrendo.
Mediante tal constatação promoveu a ONU, neste mesmo ano, uma
conferência sobre o meio ambiente em Estocolmo, a qual foi um grande
marco ambiental. Ela chamou a atenção do mundo para a gravidade da
situação nesse setor. A delegação brasileira assinou sem reserva
a Declaração de Estocolmo. Esta foi aprovada durante a Conferência
das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, em junho de 1992
que, pela primeira vez, introduziu na agenda política internacional a
dimensão ambiental como condicionadora e limitadora do modelo
tradicional de crescimento econômico e do uso dos recursos naturais.

Note-se que a preocupação direta não era com o meio ambiente em si,
mas sim com o desenvolvimento dos países que fizeram parte de referida
Conferência. O problema em discussão era como manter o
desenvolvimento econômico de tais países com a permanência de alguns
elementos essen-ciais, uma vez que aquele dependia da sustentabilidade
do meio ambiente.

Vê-se, portanto, que nesse primeiro momento se protege diretamente a


economia e indiretamente o meio ambiente.

Dessa Conferência foram colocadas três obrigações aos países


participantes:

1.ª) Cada país teria que criar sua Política Nacional do Meio Ambiente, ou
seja, medidas de como iriam enfrentar a violação ao meio ambiente. Isso foi
previsto no Brasil somente em 1981, com a edição da Lei 6.938/81.

2.ª) Desenvolvimento de educação ambiental, a qual foi implantada no


Brasil em 1995.

3.ª) Indicar o responsável pela poluição transfronteiriça. A


responsabilidade no Brasil foi regulamentada em 1988.
Proteção jurídica do meio ambiente

Em um momento posterior, foi sediada pela ONU no Brasil uma nova


Con-ferência sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento realizada no Rio de
Janei-ro, em 1992, mostrando um crescimento do interesse mundial pelo
futuro do planeta. A ideia era que se protegendo o meio ambiente
consequentemente ter-se-ia o progresso da economia.

Foi na ECO/92, como ficou conhecida referida conferência, que se trouxe


as primeiras ideias de responsabilidade e de princípios que regem o meio
ambiente. Ficou determinado ainda que pelo menos de dez em dez anos
outras reuniões teriam que ser realizadas.

O conceito de meio ambiente tal como conhecemos hoje, qual seja, um


conjunto de interações químicas, físicas e biológicas que abrange e rege
toda forma de vida (Lei 6.938/81, art. 3°, I), só passou a ser adotado pelo
Brasil em 1988 com a Constituição Federal.

Antes da Constituição Federal de 1988, a proteção que havia para o meio


ambiente era exatamente na medida em que o ser humano estivesse em
risco. Para haver punição pelos danos causados ao meio ambiente teria pri-
meiro que se provar que a vida humana tinha sofrido alterações em suas
condições.

Hoje a Constituição assim dispõe em seu artigo 225:

Art. 225. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente


equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia
qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à
coletividade o dever de defendê-Io e preservá-Io para as
presentes e futuras gerações.

Em relação ao art. 225, vale destacar que a Emenda Constitucional nº 96,


de 2017, acrescentou à redação original o §7º, segundo o qual, para fins do
disposto na parte final do inciso VII do § 1º deste artigo, não se consideram
cruéis as práticas desportivas que utilizem animais, desde que sejam
manifestações culturais, conforme o § 1º do art. 215 desta Constituição
Federal, registradas como bem de natureza imaterial integrante do
patrimônio cultural brasileiro, devendo ser regulamentadas por lei
específica que assegure o bem-estar dos animais envolvidos.
Proteção jurídica do meio ambiente

A preocupação com o patrimônio do meio ambiente pode ser dividida


em três fases.

A primeira ocorreu no Brasil do período colonial e imperial ao republicano.


Foi denominada de “exploração”. Nessa época a preocupação era isolada, não
se buscava a preservação em si, mas conservar determinadas culturas.

A segunda, chamada de “fragmentária”, preocupou-se com as diversas


categorias de recursos naturais existentes. Foi nessa época que surgiram os
Códigos: Florestal, o de Caça, o de Pesca e o de Mineração.

Finalmente veio a terceira, na qual nos encontramos até hoje – holística.


Foi nesse momento que o meio ambiente passou a ser protegido em
sua integralidade. Foram criadas nessa época a Lei de Política Nacional do
Meio Ambiente (Lei 6.938/81), a Lei da Engenharia Genética (Lei
8.974/95), hoje revogada pela Lei de Biossegurança (Lei 11.105/2005),
seguidas por diversas instruções normativas e a própria Constituição
Federal de 1988.

Podemos citar também outras importantes legislações de cunho


ambiental, como o Novo Código Florestal Brasileiro (Lei nº 12.651/12), a Lei
de Crimes Ambientais (Lei nº 9.605/98) e a lei da Política Nacional de
Resíduos Sólidos (PNRS - Lei nº 12.305/10).

Principais conferências internacionais na


matéria e suas características

Declaração de Estocolmo (1972)


Estabelecimento de normas consuetudinárias e de princípios gerais do
Direito Internacional.

 contaminação dos mares;

 consequências econômicas internacionais das normas ambientais;

 direito dos Estados explorarem seus próprios recursos naturais, com a


fixação de uma política ambiental específica, desde que não afetem os
demais Estados e as zonas fronteiriças;
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 responsabilidade dos Estados à indenização às vítimas de contaminação


e outros danos ambientais;

 dever dos Estados de cooperar em pé de igualdade nas questões inter-


nacionais relativas à proteção do meio ambiente.

Conferência de Helsinque (1975) e


Munique (1984)
Países do Leste Europeu (socialistas e ocidentais) demonstraram uma
vontade comum de proteger o meio ambiente para além das divergências
ideológicas.

Programa de Montevidéu (1981)


Reunião ad hoc (1981) tornada decisão oficial pela ONU em 1982 pelo
Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). Reco­
mendações:

 contaminação marinha;

 proteção da camada de ozônio da estratosfera;

 transporte, manipulação e eliminação de rejeitos tóxicos e perigosos;

 cooperação internacional em casos de emergência em matéria am­


biental;

 ordenação das zonas costeiras;

 conservação do solo;

 contaminação transfronteiriça do ar;

 contaminação internacional de produtos químicos potencialmente


nocivos;

 mecanismos jurídicos e administrativos para prevenção e reparação


dos danos ambientais;

 avaliação dos efeitos sobre o meio ambiente.


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Reunião de Montreal (1988)


 lema “nosso futuro pertence a todos”;

 política de desenvolvimento durável;

 limites ecológicos do planeta;

 melhor utilização dos recursos a serviço do desenvolvimento.

Declaração de Haia e de Paris (1989)


 1.ª com 24 Estados-membros;

 lema “nosso país é o planeta”;

 garantia de viver como direito absoluto;

 Estados como responsáveis para a proteção;

 necessidade de novos princípios de Direito Internacional Ambiental;

 instituição de nova autoridade internacional.

Declaração de Limoges (1990)


Base para a ECO/92, composta de 12 recomendações:

 ensino-pesquisa e especialização internacional em Direito Ambiental;

 aplicação das regras administrativas protegendo o meio ambiente;

 infrações e sanções penais ambientais;

 direito do homem ao meio ambiente e meios jurisdicionais de seu


reconhecimento;

 direito das associações;

 os estudos de impacto e a avaliação da situação ambiental;

 responsabilidade sem culpa do dano ambiental;

 proteção jurídica dos solos;


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 a conservação da diversidade biológica;

 projeto de pacto sobre a conservação do ambiente global e utilização


durável dos recursos naturais;

 aplicação do Direito Internacional do Meio Ambiente;

 Meio Ambiente – desenvolvimento e paz.

Mercosul – Tratado de Assunção (1991)


 princípio da gradualidade, flexibilidade e equilíbrio – Resolução 38/95
do Grupo Mercado Comum;

 subgrupo n.º 06 – Protocolo Adicional de Meio Ambiente;

 declaração de Canela 1992 – Las Leñas (Argentina) – diretrizes para a


proteção do meio ambiente. “As transações comerciais devem incluir
os custos ambientais causados nas etapas produtivas sem transferi-los
1
Declaração de Las Leñas às gerações futuras”1;
incorporada pelo Decreto
4210/2002.
 responsabilidade por poluição quando a mesma ultrapasse fronteiras;

 cooperação entre os Estados-partes – Brasil (CF, art. 1.º, I); Argentina


(Constituição da Argentina, art. 31); Paraguai (Constituição do Para-
guai, art. 2.º) e Uruguai (Constituição do Uruguai, art. 4.º) – respeito a
soberania.

Eco/92 (Conferência das Nações Unidas sobre o


Meio Ambiente e Desenvolvimento)
 elaboração da Agenda 21;

 modificação do eixo de conflito do Leste/Oeste para Norte/Sul;

 denominada de cúpula da terra;

 resultados da ECO/92:

1) adoção da Convenção Quadro das Nações Unidas e sobre a Diversi-


dade Biológica;
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2) subscrição de documentos com grandes princípios normativos ou


políticas a serem adotadas;

3) fixação de temas para as próximas conferências;

4) criação da Comissão para o Desenvolvimento Sustentável;

 Declaração do Rio sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento (Anexo D):

a) consagraram a filosofia dos interesses das presentes e futuras gera-


ções;

b) fixam os princípios básicos para uma política ambiental de abran-


gência global, em respeito aos postulados de um Direito ao desen-
volvimento, desde há muito reivindicados pelos países em vias de
desenvolvimento;

c) luta contra a pobreza e política demográfica;

d) reconhecem o fato de a responsabilidade dos países industrializa-


dos serem os principais causadores dos danos ocorridos ao meio
ambiente mundial.

 Princípios – poluidor-pagador; prevenção; integração da proteção ao


meio ambiente em todas as esferas políticas; impacto ambiental e in-
ternalização de custos externos;

 Política do meio ambiente global em torno do resgate do homem den-


tro da natureza, através da introdução do conceito de desenvolvimen-
to sustentável;

 Estabelecimento de um sistema de financiamento internacional


próprio.

A Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável (RIO+10) foi


realizada em Joanesburgo, África do Sul, em 2002, e dela resultaram dois
documentos oficiais:

• Declaração política;

• Plano de Implementação, que tem como objetivos o combate à pobreza


(que guarda estreita relação com os problemas ambientais) e a mudança
dos padrões de produção e consumo.
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A Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável (RIO+20 – 2012),


por sua vez, foi realizada em 2012, no Rio de Janeiro, e seu objetivo era
discutir sobre a renovação do compromisso político com o desenvolvimento
sustentável. A declaração final da Rio+20 lança os Objetivos de
Desenvolvimento Sustentável, reafirmando os princípios processados
durante conferências e cúpulas anteriores e insiste na necessidade "de
acelerar os esforços" para empregar os compromissos anteriores. No texto
destacam-se a ideia de políticas de economia verde (ecologicamente
sustentáveis), a governança mundial do desenvolvimento sustentável, e os
objetivos e meios de realização do desenvolvimento sustentável.

Resolução de questões
1. Sobre a Agenda 21, assinale a alternativa incorreta:

a) O governo federal brasileiro não criou, até o presente momento,


nenhum órgão destinado a implementar a Agenda 21.

b) Possui como um de seus objetivos atingir um crescimento sustentável,


pela integração dos conceitos de meio ambiente e desenvolvimento,
dentro dos processos decisórios.

c) Propugna pelo fortalecimento de um mundo de equidade, pelo


combate à pobreza e pela proteção da saúde humana.

d) É estruturada em 40 capítulos, de forma uniforme, englobando mais


de cem programas, sendo que cada programa é apresentado da
seguinte forma: uma introdução, anunciando seu objetivo, uma parte
ressaltando a sua necessidade e outra parte detalhando os meios para
sua implementação.
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2. Entre as determinações estabelecidas pela ECO/92 (Convenção das Na-


ções Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento) qual não se refe-
re à ECO/92:

a) Adoção da Convenção Quadro das Nações Unidas e sobre a Diversida-


de Biológica.

b) Subscrição de documentos com grandes princípios normativos ou


políticas a serem adotadas.

c) Obrigatoriedade dos países membros estabelecerem a criação de


suas respectivas Políticas Nacionais de Meio Ambiente.

d) Consagraram a filosofia dos interesses das presentes e futuras gerações.

e) Fixam os princípios básicos para uma política ambiental de abran-


gência global, em respeito aos postulados de um Direito ao desen-
volvimento, desde há muito reivindicados pelos países em vias de
desenvolvimento.

3. A Declaração de Estocolmo de 1972, primeiro evento internacional que


estabeleceu determinações e metas em defesa do meio ambiente, esta-
beleceu como obrigações aos países signatários:

a) que cada país teria que criar sua Política Nacional do Meio Ambiente, ou
seja, medidas de como iriam enfrentar a violação ao meio ambiente.

b) desenvolvimento de educação ambiental, a qual foi implantada no


Brasil em 1995.

c) obrigatoriedade dos países estabelecerem sistemáticas de responsa-


bilidade decorrentes de poluição transfronteiriça.

d) criação da Declaração do Rio de Janeiro de 1992.


Proteção jurídica do meio ambiente

Referências
LIBERATO, Ana Paula. Resumo de Direito Ambiental para Concursos. Curitiba:
Juruá, 2007.

______. Coletânea de Legislação Ambiental. VI, Legislação socioambiental.


Curitiba: Juruá, 2004.

______. Bem Jurídico Ambiental. In: Jurisprudência Brasileira- Crimes Ambien-


tais, n.º 44. Curitiba: Juruá, 2003.

______. Reforma Agrária – direito humano fundamental. Curitiba: Juruá, 2003.

______. Direito Socioambiental em Debate. Curitiba: Juruá, 2006.

______. O Verdadeiro Caráter do Direito de Propriedade na Dicotomia entre Direito


Público e Privado. In: Direito Socioambiental em debate. Curitiba: Juruá, 2006.

______. Educação Ambiental e Desenvolvimento Sustentável: uma


abordagem para a proteção internacional do meio ambiente. In:
Socioambientalismo uma realidade. Curitiba: Juruá, 2006.

______. Organismos Geneticamente Modificados e Relações de Consumo. In:


Revista Bonijuris, 2004.

MACHADO, Paulo Affonso Leme. Direito Ambiental Brasileiro. São Paulo:


Malheiros, 2012.
Proteção jurídica do meio ambiente

Gabarito
Comentário questão 1

a) Alternativa correta (ou seja, a incorreta solicitada pela questão), haja


vista que a Política Nacional do Meio Ambiente (Lei 6938/81) constitui
implementação da Agenda 21 (documento anexo da ECO/92) no
sistema jurídico brasileiro.

b) Alternativa errada. A Agenda 21 estabelece regras de intervenção nos


processos decisórios ambientais, assim como propugna em todo o
seu texto a proteção ao desenvolvimento sustentável.

c) Alternativa errada. A Agenda 21 está estruturada em capítulos para


a proteção de atributos ambientais (fauna, flora, cooperação inter-
nacional), assim como estabelece metas para a proteção da saúde
humana e combate à poluição.

d) Alternativa errada. Estruturação da Agenda 21.

Comentário questão 2

Alternativa incorreta: Letra “C” – A determinação dos países-membros


criarem suas respectivas Políticas Nacionais de Meio Ambiente foi determi-
nação da Declaração de Estocolmo de 1972, e não pela ECO/92.

Comentário Questão 3

Alternativa incorreta: Letra “D” – A Declaração do Rio de 1992 foi estabe-


lecida como criação da ECO/92.