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Processo de Ensino e Aprendizagem do Vocabulário na sala de Aulas: Reflexões e

Prática dos docentes no Ensino Básico em Moçambique

Onica Armando Chauque


Universidade Licungo – Quelimane
Departamento de Línguas, Comunicação, e Artes

Resumo
Este ensaio é um conjunto de reflexões sobre o Processo de Ensino e Aprendizagem do
Vocabulário na sala de Aulas, sobretudo realçando práticas dos docentes no Ensino Básico em
Moçambique. Parte-se do pressuposto que o conhecimento do vocabulário e seu funcionamento
são importantes para a construção de textos adequados e que funcionam em nossa sociedade.
Nesse sentido, serão tecidas algumas considerações sobre o ensino de vocábulo nas escolas em
Moçambique, bem como o ensino de leitura e produção textual nas aulas de língua portuguesa e
o lugar do dicionário na aquisição do conhecimento linguístico. Por fim, serão apresentadas
actividades que levam em consideração a reflexão do ensino de vocábulo contextualizado, que
resulta, nessa perspectiva, na habilidade de produção e leitura de textos. Nessa perspectiva,
parte-se dos pressupostos colocados por Antunes (2012) e Xatara et all (2011), que, em suas
pesquisas, alinham conhecimento lexicográfico e produção textual. Busca-se um
reconhecimento da importância do enriquecimento do vocabulário para o ensino de língua
portuguesa.

Palavras-chave: Ensino, aprendizagem, Vocabulário, aulas

Abstract
This essay is a set of reflections on the Vocabulary Teaching and Learning Process in the
Classroom, especially highlighting the practices of teachers in Basic Education in Mozambique.
It is assumed that the knowledge of the vocabulary and its functioning are important for the
construction of adequate texts that work in our society. In this sense, some considerations will
be made about the teaching of words in schools in Mozambique, as well as the teaching of
reading and textual production in Portuguese language classes and the place of the dictionary in
the acquisition of linguistic knowledge. Finally, activities will be presented that take into
consideration the contextualized teaching of words, which results, in this perspective, in the
ability to produce and read texts. In this perspective, we start from the assumptions made by
Antunes (2012) and Xatara et all (2011), who, in their research, align lexicographic knowledge
and textual production. It seeks to recognize the importance of enriching vocabulary for
teaching Portuguese.

Keyword: Teaching, learning, Vocabulary, classes


Introdução
Parece não ter chagado às escolas da educação básica de Moçambique a fora a ideia de
que a aula de língua portuguesa é o espaço em que o aluno desenvolve suas habilidades
de leitura e escrita de modo que possa demonstrar, por meio da língua e de outras
manifestações da linguagem, seus sentimentos e ideias aos diferentes públicos que
compõem a nossa sociedade. Não se pode esquecer, nesse aspecto, o facto de que, em
aulas da educação básico país a fora, em pleno século XXI, ainda imperam actividades
que tem como base um conjunto de regras e repetições que visam mais o controle da
atenção dos alunos do que, verdadeiramente, desenvolver, neles, uma habilidade
comunicativa mais ampla da que ele traz de casa.
Não à toa, Moçambique vive momento de plena crise na educação, em muitos aspectos.
A falta do manejo e do conhecimento de habilidades básicas para o ensino por parte das
escolas tem vitimado inúmeros cidadãos que, mesmo em contacto todos os dias com os
textos escritos das manchetes dos jornais, dos textos da internet, ou, ainda texto das
placas espalhadas pelas ruas, são completamente incapazes de entender o que aquele
conjunto de letras ou desenhos indicam ou estão comunicando. Não muito longe, há
aqueles que até conseguem ler, no sentido de decodificar e aproximar o som e a letra,
mas que não passam disso, não vendo lógica alguma naquele texto decodificado, seja
qual for sua dimensão.
Diante desse quadro, se faz necessário investigar e, sobretudo, identificar qual o ponto
ou os pontos nevrálgicos dessa problemática, além disso, e, sobretudo, combate-lo.
Nesse sentido, muitas discussões sobre a importância da escola nesses dados – que são
reais – são sempre necessárias, independentemente de qual seja a sua extensão. Os
diferentes aspectos das aulas, seja o aluno, o professor, o conteúdo, o material didáctico,
a comunidade escolar, tudo deve ser discutido, porque, até onde se pode entender, a
falta de habilidade comunicativa é um problema profundo, que tem muitas faces e
raízes.
Neste ensaio, um aspecto será explorado: o ensino de vocabulário nas escolas
moçambicanas no ensino básico, sobretudo as práticas dos docentes. Quando se pensa
em ensino de vocabulário, não se está pensando em um vocabulário sistemático ou,
muito menos, em intermináveis listas de palavras, mas sim, em actividades em que o
aluno desenvolva seu vocabulário e, consequentemente, sua capacidade tanto da
produção quanto de entendimento de textos que circulem em diferentes dimensões e
espaços da sociedade. Não se pode esquecer que, muitas vezes, os problemas de leitura
e escrita que o aluno enfrenta em seu quotidiano passam pela falta do conhecimento de
um vocabulário amplo, além daquele que ele traz de sua comunidade de fala. Por isso é
que o ensino de vocabulário não pode ser desmembrado de uma produção textual ampla
e que vise um sentido mais vasto do que simplesmente conhecer novas palavras, mas
deve ser um ensino que vise um leitor/ouvinte e um falante/escrevente que saiba
adequar sua fala/escrita aos diferentes públicos com o qual ele, como indivíduo social,
vivencia em seu quotidiano.
O objectivo geral do trabalho é analisar o processo de ensino e aprendizagem do
vocabulário nas escolas moçambicanas do ensino básico. Porém, para alcançar este
objectivo foi necessário: definir o conceito de vocabulário, descrever o processo de
ensino e aprendizagem do vocabulário de forma geral; explicar o processo de ensino e
aprendizagem do vocabulário a partir do texto. Contudo, este ensaio baseou-se em duas
hipóteses, das quais 1- hipótese implícita do ensino do vocabulário; 2- hipótese explícita
do ensino do vocabulário. Convém realçar que o ensaio defende a ideia de unir as duas
hipóteses para o ensino do vocabulário eficaz e eficiente, embora tenha mais enfoque na
hipótese explícita, uma vez que se trata de área de ensino, por sinal a área de formação
da autora do presente ensaio.
Todavia, a abordagem foi feita com base no método bibliográfico, fazendo sobretudo,
uma triangulação de ideias de diversos autores com as ideias ou propostas das ideias da
autora do presente ensaio.
1.REFERENCIAL TEÓRICO
1.1.O Ensino do Vocabulário nas Escolas Moçambicanas de Forma Geral
Muitas vezes quando falamos de ensino de vocabulário nas escolas em Moçambique,
muitos professores/docentes entendem como se fosse uma simples listagem de palavras
novas ao aluno retiradas do texto, e a posterior explicação do significado. Simplesmente
isso. Porém, o ensino do vocabulário é um assunto extremamente complexo, a
abordagem do vocabulário vai muito além de listagem de palavras, vai além da busca de
significados no dicionário, envolve muitos aspectos, muitas práticas do docente, com
vista a fazer perceber aos alunos sobre o vocabulário “novas palavras” e o seu uso. Mas
antes de iniciar com a discussão é necessário trazer a tona o conceito de vocabulário.
Na perspectiva de SCARAMUCCI (1995:67) “o vocabulário é um conjunto de palavras
constituintes de uma determinada língua.” É no entanto, a partir desse vocabulário que
formula frases. Assim, quanto mais se tem o domínio da língua, mais vocabulário se
tem. De acordo com GIASSON (1993:90) o vocabulário influencia a compreensão na
leitura e, por outro lado, a compreensão de um texto pode ajudar a desenvolver o
vocabulário.
Porém, os diversos estudos na área de aquisição de vocabulário mostram que usar as
pistas disponíveis no contexto para inferir o significado das palavras desconhecidas, não
implica ter tais palavras, automaticamente, incorporadas no nosso léxico mental. Alguns
estudos, como o de PARRY (1988) e NAGY e HERMAN (1987), mostram que nem
sempre as palavras inferidas a partir do contexto são aprendidas. Por outro lado, há
várias evidências de que o vocabulário pode, de facto, ser aprendido em contexto.
NAGY e ANDERSON (1984), em defesa da aprendizagem de vocabulário através do
contexto, enfatizam que:
(...) "nem mesmo o ensino de vocabulário mais directo e
implacavelmente sistemático pode explicar uma proporção significativa
de todas as palavras que as crianças realmente aprendem, nem cobrem
mais do que uma modesta proporção das palavras que elas encontrarão
nos materiais de leitura escolares."
Krashen (1989) é o principal proponente da leitura extensiva como meio de aquisição de
vocabulário. Para o autor a competência em vocabulário é alcançada mais ficientemente
através de input compreensível (cf. Krashen, 1985) e é a leitura a melhor forma de input
compreensível para o desenvolvimento do vocabulário, tanto em relação à Língua
Materna (LM) quanto à Língua Segunda (L2). Desse modo, o processo de aquisição é
incidental, já que a aquisição de vocabulário ocorre sem aprendizagem, ou seja, sem
nenhum tipo de instrução formal. Nagy e Herman afirmam que a maioria das palavras é
aprendida, gradualmente, através de repetidas exposições em vários contextos
linguísticos. De facto, a repetição leva à prática e Nick Ellis (1995) afirma que "é a
prática que faz a perfeição nos módulos de reconhecimento e produção".
Nagy, Anderson e Herman (1987) referem que, embora a probabilidade de aprender
uma palavra através do contexto seja muito pequena, para ter algum valor prático, não
podemos deixar de considerar a quantidade de leitura a que os alunos são expostos, a
fim de poder avaliar, correctamente, a contribuição da aprendizagem pelo contexto,
através da leitura, em relação à expansão do conhecimento lexical, a longo prazo:
mesmo uma pequena probabilidade de aprendizagem de uma palavra através do
contexto pode resultar em uma grande expansão do vocabulário, se houver quantidade
suficiente de leitura ampla e abrangente.
Na mesma linha NAGY et al. apud Moreira (s/d) a aprendizagem através do contexto
da leitura ocorre em pequenos incrementos de modo que qualquer encontro com uma
palavra resulta, geralmente, em um pequeno aumento do conhecimento das diferentes
acepções daquela palavra. O ponto mais importante a favor da aprendizagem incidental
através da leitura, na opinião de vários autores, foi apontado por NAGY (1988) ao
constatar que a leitura resulta em um conhecimento profundo do vocabulário.
Por outro lado, PARIBAKHT e WESCHE (1997), embora reconhecendo que a leitura
extensiva conduz à aquisição de vocabulário, apresentam estudos que demonstram que a
aprendizagem através da leitura combinada a uma instrução sistemática de vocabulário
é uma abordagem mais bem sucedida do que a simples aprendizagem através do
contexto. Elas realizaram uma pesquisa a fim de avaliar até que ponto a leitura, somada
a actividades de instrução de vocabulário, poderia resultar em ganhos para o leitor em
termos de uma maior retenção de vocabulário.
Em conclusão, PARIBAKHT e WESCHE apud MOREIRA (s/d) afirmam que embora a
leitura que vise à compreensão do texto possa produzir resultados incidentais
significativos na aquisição de vocabulário, tal leitura, suplementada com exercícios
específicos de vocabulário, produz ganhos maiores em relação às palavras alvo. A razão
para o sucesso da leitura seguida de exercícios de vocabulário é que esses exercícios
garantem que a atenção do aluno seja focalizada em itens específicos de vocabulário o
que leva os alunos a analisar e compreender os significados e funções das palavras alvo
através de tarefas variadas.
O ensino explícito do conhecimento das palavras parte do desenvolvimento da
consciência lexical nos níveis fonológico, morfológico, semântico e sintáctico e deve,
como afirma DUARTE (2000:95), contemplar os seguintes aspectos de conhecimento
declarativo:
• forma fónica;
• significado;
• classe a que pertence;
• condições sintácticas e semânticas que a
 palavra impõe ao contexto em que pode
 ocorrer;
• paradigma flexional em que se integra;
• relações com as outras palavras.

A classificação do vocabulário compreende: Vocabulário comum; Vocabulário


fundamental; Vocabulário especializado. Outros autores classificam em vocabulário
activo e vocabulário passivo, sendo que o primeiro é aquele que o indivíduo usa no seu
quotidiano, isto é, frequentemente, enquanto o passivo é aquele que não se usa
recorrentemente.
Segundo SILVA (2001), quando um leitor encontra uma palavra nova pela primeira
vez, só apreende habitualmente uma parte da sua significação, terá que encontrar essa
palavra diversas vezes até ter uma visão de conjunto da sua significação. O professor
deve criar situações em que o aluno deve usar as palavras que aprendeu para consolidar
o conhecimento. A partir desta etapa, pode-se afirmar que o aluno adquiriu um novo
vocabulário, que pode passar a fazer parte do seu vocabulário activo.
Por sua vez, SILVA (2001:98) afirma que as estratégias que os professores privilegiam
são o recurso ao dicionário, a leitura de textos, às famílias de palavras, às áreas
semânticas sendo estas facilitadoras de uma aprendizagem mais autónoma. As fichas de
trabalho, pois certamente, são os materiais que devem existir em qualquer escola mesmo
que esta não dispunha de muitos recursos, são também óptimos auxiliares no ensino de
vocabulário.
2.O Ensino-aprendizagem do Vocabulário a Partir de texto - Estratégias

Partindo das discussões apresentadas no marco teórico acima, as abordagens a seguir


serão feitas em duas perspectivas. No entanto, as estratégias e as actividades a aplicar no
Ensino e Aprendizagem do vocabulário apontam duas hipóteses distintas a destacar:

a) A Hipótese é chamada de “Hipótese Implícita”


Esta hipótese dá ênfase na aprendizagem do vocabulário como sendo algo inconsciente,
isto é, o indivíduo aprende sem tal intenção, de forma implícita, ao fazer um leitura de
lazer, proveitosa, informativa, ou mesmo ao conversar, ou seja, em diferentes situações
comunicativas.
Portanto, é possível conhecer mais palavras através de leituras esporádicas que fazemos
no nosso quotidiano, sem intenções exclusivas de aprender novas palavras ou
vocábulos. Razão pela qual, a maioria das palavras que conhecemos não nos foi
ensinada e nem as procuramos no dicionário; a maioria do vocabulário é aprendida a
partir do contexto (STERNBERG, 1987). A leitura é considerada um meio ideal para a
aquisição de vocabulário. Segundo STANOVICH e CUNNINGHAM (1992), as pessoas
que lêem mais conhecem mais vocabulário.
A aquisição de vocabulário é vista, por diferentes autores, de diferentes maneiras. O uso
da leitura como forma de aquisição de vocabulário configura uma abordagem indirecta
de ensino de vocabulário. Em que a atenção do aluno está voltada para o assunto de que
o texto trata e, não, especificamente, para o vocabulário a ser adquirido.
Conforme SCARAMUCCI (1995) ressalta, "há uma distinção entre a construção do
significado através de pistas contextuais e o real aprendizado e retenção desses
significados."

b) Hipótese Explícita
No contexto de ensino, no primeiro nível de aprendizagem de uma determinada língua
pretende-se que o aluno conheça o vocabulário corrente que irá estar de acordo com o
vocabulário da vida corrente. Assim, aprendizagem do vocabulário é
consciente/explícita, o indivíduo aprende por intenção, a partir de contextos “textos” ou
seja, o indivíduo aprende de forma consciente, sabe que a intenção conhecer e aplicar na
realidade certas palavras e tentar usa-las no seu quotidiano.
Algumas pesquisas realizadas, afirmam que a rapidez de desenvolvimento do
vocabulário dos alunos da primária e do secundário é fantástico. Porém, é necessário
sempre que possível relacionar o vocabulário a ser usado com o que se pode ensinar,
integrando esta aprendizagem em textos. É preciso sempre que possível, relacionar o
vocabulário a ser usado com o que o aluno vai aprender, integrando esta aprendizagem
em textos. É obrigatório também que o professor motive os alunos para que eles
estabeleçam a relação daquilo que vão aprender com a realidade do aluno,
O ensino do vocabulário assume uma evolução gradual. No entanto, é preciso que o
professor tenha um conhecimento prévio daquilo que os alunos sabem para depois saber
a que nível se vai trabalhar e o que irá constituir a base de estudo.
Contudo, acredito eu que a combinação destas duas hipóteses, bem como a relação com
a gramática dever ser activados para o sucesso do ensino e aprendizagem do
vocabulário. Assim, é imperioso a busca no dicionário de toda a palavra desconhecida
que aparece no texto. O outro procedimento é experimentar descobrir o sentido da
palavra no contexto.
De forma sucinta, o ensino do vocabulário segue as seguintes etapas:
1. Anotar as palavras desconhecidas (vocabulário passivo do aluno leitor);
2. Localizar num dicionário o significado que se ajuste ao texto onde elas
aparecem. Feito o registo do significado de palavras;
3. Passar um exercício de construção de frases usando os mesmos vocábulos em
contextos diversos.
Este pensamento é partilhado BIEMILLER (2005:78), ao afirmar que a utilização de
modelos integrados de desenvolvimento lexical deve obedecer aos seguintes princípios
metodológico-didácticos:
• ensinar ao aluno o que precisa saber sobre cada palavra: forma fónica,
significado em função do contexto, condições sintácticas e semânticas, classe de
pertença, paradigma flexional e relações com as outras palavras.
• ensinar ao aluno quando e como usar estratégias de aquisição lexical quando está
a ler e estratégias de precisão lexical quando está a escrever.
Neste sentido, neste exercício pode se fazer a substituição dos vocábulos desconhecidos
do texto por outros semelhantes encontrados no dicionário, sobretudo reescrevendo todo
o texto; o outro exercício consiste em resumir o texto original por suas palavras; fazer
paráfrases, procurando manter as ideias originais; comentário crítico ou avaliativo;
inversão do texto por palavras do sentido oposto.
Segundo SUMMERS (1988), o uso de dicionários é um recurso válido para aprendizes
de uma língua estrangeira, tanto como um meio de auxiliar a compreensão quanto à
produção.
Além do uso de outras estratégias de aprendizagem, (tais como: fazer inferências sobre
palavras novas encontradas nos textos de leitura, pedir explicações ao professor ou pedir
ajuda aos colegas), os alunos podem e devem ser encorajados a se beneficiar das
substanciais informações contidas num dicionário.
Contrário às afirmações acima, o princípio pedagógico que prevalece é que palavras
novas devam ser descodificadas, apenas, a partir das pistas fornecidas pelo contexto. Na
realidade, muito frequentemente, as palavras desconhecidas dentro de um texto não
podem ser deduzidas através das pistas contextuais. Tentar inferir o significado de
palavras desconhecidas num texto é uma estratégia importante para a compreensão da
linguagem usada no texto, mas o uso do dicionário também é um recurso valioso.
No entanto para se considerar aprender uma palavra, tal como afirma LAUFER (1997) é
entre outras formas aprender:
 A sua forma oral e escrita;
 A sua estrutura de base (derivação e reflexão)
 As suas propriedades sintácticas e o seu comportamento na frase;
 As suas relações pragmáticas;
 As suas relações sintagmáticas;
Ainda para concordar com LAUFER e NATION (1990) ressalta que as palavras podem
articular-se com outras palavras em função das relações de sentido ou de acordo com
diferentes situações de comunicação.
A informação que se associa ao conhecimento das propriedades das palavras é
complexo, por isso o Ensino e Aprendizagem do vocabulário só se processará de forma
efectiva se for planificado e implementado de tal maneira que o aluno seja colocado em
situações que lhe permitam desenvolver e aplicar estratégias diversificadas para a
aprendizagem das diferentes propriedades. Só com este tipo de práticas é que os alunos
podem aprender na íntegra o vocabulário e usar no seu quotidiano.
Por exemplo:
 Imaginemos que estamos a ler um texto e encontramos palavras desconhecidas
pelo aluno (vocabulário passivo) como “ludibriar, vituperar, polivalente ”
1º - o professor tem orientar o significado destas palavras de forma contextualizada,
2º - procuramos os seus sinónimos, família de palavras e seus antónimos, para que
tenhamos mais conhecimento sobre elas.
3º - usar as palavras em outros contextos semelhantes através de formação de frases,
recriação do texto original, substituição destas palavras no texto, por outras com mesmo
significado (sinónimas), etc.
Porém, convém realçar a conservação da ortografia destes novos vocábulos ao aluno,
para melhor uso do mesmo em outras situações.
Investigações de BECK, PERFETTI, MCKEOWN & OMANSON (1982) alertaram
para o modo como as crianças adquirem o vocabulário, salientando que quanto mais o
sujeito leitor possuir, mais facilmente, ao ler, deduz do contexto o significado das
palavras novas. Este aspecto é comparável ao Efeito Mateus, formulação sociológica
baseada na hipótese dos dez talentos narrada no Evangelho de Mateus, segundo a qual
àquele que tem mais lhe será acrescentado, e ao que não tem, mesmo o pouco que tem
lhe será tirado. Desta forma, no âmbito da aquisição do vocabulário, se estabelecem
nexos entre o que já se sabe e a informação nova.
Todavia, a aprendizagem de vocabulário não deverá, contudo, ser feita de uma forma
descontextualizada. Os autores, ao realizaram estudos alargados no tempo, puderam
demonstrar que também aqui, a dimensão cognitiva é fundamental. Remetendo para a
insuficiência do “método do vocabulário”, onde as palavras eram memorizadas de uma
forma descontextualizada, distinguiram não só o valor do automatismo, mas também a
importância do ensino de palavras novas num contexto de compreensão da linguagem,
mas sempre relacionado com o léxico dos leitores. Os investigadores supracitados
chamaram a esta forma de ensino “o ensino rico”, desenvolvendo um programa baseado
no ensino de palavras novas que foi, posteriormente, aplicado com grande êxito por
vários professores.
Conclusão
As reflexões apresentadas no presente ensaio referem-se a um campo complexo em que
se entrecruzam múltiplas realidades socioculturais e diferentes perspectivas de
abordagem didactológica à prática de ensino explícito do vocabulário nas sociedades
actuais, fortemente marcadas pelo fenómeno da globalização.
A prática do ensino explícito do vocabulário, na perspectiva intercultural, através de
uma abordagem lexicultural, deixa de ser assumida como um processo linear e
estandardizado, para passar a influenciar os fenómenos globais de desenvolvimento
literácito integrado. Nas sociedades globais, o processo de ensino explícito do
vocabulário deve ser entendido como um processo construído a partir de relações
dinâmicas e intensas entre o material literário para a infância, os textos de tradição oral
e as realidades sociais globalizantes, criando contextos relacionais interactivos que, por
se ligarem dinamicamente com os diferentes contextos culturais em relação aos quais os
diferentes sujeitos constroem a sua identidade e desenvolvem relações criativas e
verdadeiramente formativas, ou seja, estruturantes de movimentos de desenvolvimento
globalizante. Desta forma, desenvolve-se a aprendizagem não apenas das palavras, dos
conceitos, dos valores assumidos pelos sujeitos em relação, mas sobretudo a
aprendizagem dos contextos em relação aos quais esses elementos adquirem
significados.
Nesta realidade, nos espaços ambivalentes de relação entre os diferentes contextos de
aprendizagem e os textos especificamente destinados ao público infanto-juvenil, é que
pode emergir o novo, ou seja, os processos de formação de leitores, cimentados numa
forte relação com a aprendizagem do vocabulário.
A prática de ensino explícito do vocabulário constitui-se, assim, como um processo de
relação em que as fontes de acesso e facilitação permitem a articulação entre diferentes
contextos sociais e culturais, mediante as próprias relações desenvolvidas entre
Literatura para a Infância e prática do ensino explícito do vocabulário.
Contudo, na sequência das constatações feitas, pretendemos deixar aqui algumas
sugestões didáctico-pedagógicas para o processo de ensino-aprendizagem de
vocabulário, com vista a melhorar o processo aprendizagem dos alunos.
As estratégias de ensino de vocabulário consideradas eficazes são: a integração, a
utilização funcional e a repetição. A integração consiste em relacionar as palavras
novas com os conhecimentos do aluno. A utilização funcional visa torná-lo activo
quando apropria a palavra nova. Finalmente, a repetição serve para lhe apresentar a
mesma palavra em diversos contextos.
No início o professor deverá escolher um contexto razoavelmente informativo, para
depois chegar a contextos menos ricos. Ele demonstra como fazer, logo em seguida faz
em conjunto com os alunos e finalmente deixa-os fazerem sozinhos até se tornarem
autónomos.
Lembrar aos alunos que é importante compreender bem o sentido das palavras para
compreender um texto.
O professor define uma palavra nova apresenta-a num contexto e pede, em seguida, aos
alunos que relacionem essa palavra com a sua experiência. Existem diversas formas de
actividades que têm como objectivo integrar as palavras novas nos conhecimentos dos
alunos: as constelações, as matrizes semânticas, os diagramas e as escalas são alguns
exemplos. As actividades de aquisição de vocabulário devem apostar na participação do
aluno; devem levá-lo a tratar a palavra em profundidade, mais de que a memorizar uma
definição. Para tal o professor deve registar o tema no quadro e pedir aos alunos que
escrevam individualmente tudo aquilo em que o tema os faz pensar e de seguida, o
professor transcreve no quadro, agrupando-as em categorias com ajuda dos alunos.
Também o professor pode escrever a palavra-chave no meio do quadro e acrescenta
diversos termos ligados a essa palavra e alguns que não têm relação com ela. Depois
pede aos alunos que eliminem os termos que não têm relação com o conceito central.
Sugerimos, ainda algumas estratégias didáctico-pedagógicas para o ensino do
vocabulário:
 Ensinar o significado dos afixos mais importantes;
 Apresentar uma palavra nova num contexto especialmente concebido para essa
actividade, ou seja num contexto muito rico. Em seguida, pede-se aos alunos que
sugiram um sinónimo dessa palavra, que verifiquem a sua hipótese a partir dos
indícios dados pelo texto e que reformulem a sua hipótese caso for necessário.
 Ensinar os alunos a combinarem certos factores susceptíveis de os ajudar a
extrair o sentido de uma palavra nova. Esses factores são: a compreensão que o
aluno tem do texto, as informações sobre a sua morfologia, os conhecimentos
anteriores que tem sobre o sentido e o conhecimento implícito que tem do
funcionamento da língua.
 Ensinar o vocabulário na aula. Seleccionar a palavra ou palavras que realmente
são importantes para se apreender o sentido do texto. Algumas vias consideradas
possíveis para ensinar um conceito novo: apresentar o objecto correspondente à
palavra a aprender, utilizar recursos visuais (fotografias, filmes, desenhos)
voltar-se para as analogias, ou seja, ver as experiências dos alunos que poderiam
ser comparadas aos novos conceitos.
 Combinar a definição da palavra com o contexto representaria melhores meios
de ensinar o sentido de uma palavra nova.
A abordagem desta temática pode também ser feita nas outras áreas de ensino da língua
portuguesa como é o caso da área da gramática, área de leitura bem como a área de
escrita, pois podem ser úteis e são semelhantes. O professor de Português pode explorar
os mesmos exercícios para o ensino nestas áreas. Ora vejamos, ao criar frases usando
novas palavras, podemos usar as mesmas frases para o ensino por exemplo da estrutura
da frase; para o ensino da escrita. Ou pode-se retirar frases de um texto que esta sendo
lido, pode ser na área de leitura por exemplo, mas trabalhar o mesmo texto em outras
áreas.
Bibliografia
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