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Pouco passava das 18h. Melissa tentava adaptar-se ao novo fuso horário.

Um largo
oceano afastava-a da sua última casa. Fechada num quarto que não lhe era estranho, onde
costumava ficar muitos anos antes, ao longo da sua infância e adolescência, tentava rever
alguns documentos referentes ao seu novo trabalho. Nascida em Portugal, onde a sua mãe se
refugiara ainda grávida, decidira mudar o rumo à sua vida e tentar regressar ao país onde se
recordava ter passado a maior parte das férias, em casa dos avós paternos. Professora de
profissão, num acesso de loucura com muita coragem, enviara candidatura espontânea para o
colégio português de Boston. Passadas umas semanas nem se recordava mais da loucura que
cometera mas contactaram-na. Primeiro por e-mail… Depois por vídeo chamada… O cargo era
seu! Tinha apenas que ir assinar contrato ainda durante o verão. Tomou todas as diligências e
foi. Inicialmente por dois dias. Reviu as mesmas caras que vira ano após ano na infância e uma
amiga da mãe ofereceu-se para a acolher nos primeiros tempos. Não havia necessidade de
ficar em hotéis. Enquanto revia a sua nova vida, lembrava-se da antiga.

O marido, Francisco, morrera há três anos, ainda antes de saber que iria ser pai, num
acidente de trabalho. Uma parede desabara, levando consigo dois trabalhadores: um arquiteto
e Francisco, o engenheiro civil. Quantas vezes Melissa o ouvira em casa a queixar-se que as
coisas não estariam a ser bem construídas e que esperava que não houvesse uma desgraça.
Mas Melissa não lhe ligava. Eram os moinhos de vento do marido e a preocupação em fazer
sempre o que estava certinho, como os heróis dos filmes de sábado à tarde. Melissa achava na
altura que aquela era uma ideia infantil de justiça e romantização do mundo por parte de
Francisco. Ela era uma adulta responsável que sabia, como qualquer outro adulto responsável,
que nem tudo pode ser feito de acordo com a idoneidade e que por vezes tinham de ser
saltados passos para que as coisas fossem feitas. Não importava o caminho, desde que o
destino fosse para melhor. Além disso, Melissa estava mais preocupada com o seu emprego,
achando-se importante. Só se dá valor ao que se tem quando se perde.

No momento do acidente, Melissa, sem saber que o marido perdia a vida naquele
instante, fazia um teste de gravidez. Ia dar a notícia naquela noite. Ou no dia seguinte,
lembrando-se ter que terminar um relatório. Afinal, que diferença faria ao marido mais uma
noite? E assim sempre acabava o trabalho. Não seria ninguém prejudicado. Pensava quando
lhe daria a notícia, pensando na balança o peso do seu trabalho, quando recebeu a chamada
da empresa. Naquela tarde, Melissa aprendeu que afinal não é o destino o mais importante. E
trocou a sua viagem.

Mas Melissa não era uma pessoa má. Apenas amargurada. O pai, filho de políticos
americanos habituado à satisfação rápida e momentânea, tinha engravidado a mãe, açoriana
emigrada com os pais, ele com 18 e ela com 17 anos. O avô, ilustre figura da panorama
conservador de Boston, dirigiu-se pessoalmente até ao bairro português com o intuito de dar
muito dinheiro à mãe, numa tentativa de a fazer abortar e limpar a mancha que o filho James
colocara na imaculada história da família MacGregor. Pagaria tudo, desde o procedimento
médico noutro estado até à garantia de um futuro para a mãe. Afinal, que futuro teria aquela
criança sozinha num bairro de emigrantes nos “arredores dos arredores” de Boston? Laura
pegou no cheque e olhou para aquele montante, maior do que alguma vez tinha visto e maior
do que alguma vez pensaria vir a segurar em toda a sua vida. Laura era a primeira da sua
família a chegar à faculdade, paga pelos seus pais, com o suor de uma vida de trabalho,
partindo depois em busca do sonho americano que depressa terminara com a morte de
ambos, com pouco mais de dois anos de diferença, deixando o pequeno restaurante português
a cargo da filha. Mas Laura queria ser professora e aquele cheque vinha mudar muita coisa.
Tanta coisa, tantos sonhos trocados por um erro. Mas não se apagam erros com novos erros
ainda maiores. Rasgou o cheque à frente do sogro. Mãe solteira, sem estudos, regressou ao
país dos pais e ficou a trabalhar numa papelaria em Lisboa, onde pouco conforto podia dar à
filha. Mas o pai podia. E então Laura lutou. Lutou muito, em tribunal inclusivamente, para que
sua filha tivesse o nome do pai e direito a uma pensão. Nunca quis um cêntimo para si.
Daquele homem apenas quisera outrora amor e até esse lhe fora fingido. Mas à filha não
faltaria nada. E assim foi. Melissa cresceu sem pai. E os verões, que todas as crianças os
anseiam, ela apenas tolerava. “Vá, daqui por dois meses a mãe vai buscar-te… A avó não tem
culpa e gosta muito de ti. Aproveita para brincar com a avó”. Era o discurso que ouvia ano
após ano, no aeroporto de Lisboa pois Laura acreditava que o melhor para Melissa era ter
contacto com a família paterna. E o pai assim o exigia. Já que pagava pensão, ao menos que
conhecesse a criancinha, na sua perspetiva de “se já que está pago, que se usufrua nem que
seja uma vez por ano”. Não era que James não gostasse da filha. Apenas não gostava de ser
pai.

Assim, Melissa crescera desde cedo a saber que a vida não era fácil e os unicórnios
nem do lado de lá do Atlântico existem. E iria provar ao pai que tinha aprendido a lição. Ter um
bom emprego, bem pago, era a sua principal preocupação. Ser bem-sucedida
profissionalmente. Seguiu o sonho da mãe e tornou-se ela professora, tendo a sorte de ir parar
a um dos melhores colégios da capital. Mais do que sorte, foi trabalho. E lá dentro teria que
trabalhar ainda mais, chegar aos quadros da direção e conseguiu ser a diretora de grupo mais
nova da história daquela instituição. Ser uma referência e uma pessoa respeitada. Mas apenas
numa chamada fê-la perceber que tinha o bilhete errado para aquela viagem.

Depois de Francisco morrer, Melissa ficou em Lisboa por mais dois anos, a cuidar da
sua própria mãe, doente de Alzheimer precoce. Saiu do colégio e foi trabalhar para uma
instituição de solidariedade infantil, ganhando apenas metade do ordenado a que estava a
habituada. Ninguém disse que a viagem para o novo destino tinha de ser em classe alta.
Apenas diferente da que estava a ser feita. Com aquele emprego podia passar mais tempo
com a filha e mudar realmente a vida de alguém que precisava, talvez purgando a culpa que
sentia pelo que tinha perdido da vida que lhe passou ao lado. Gostava de acreditar que numa
realidade alternativa, numa realidade em que uma Melissa não estivesse tão preocupada em
mostrar ao mundo como era boa e como iria fazer muito dinheiro, uma Melissa fosse ainda
feliz com um Francisco. Talvez nessa realidade desse ouvidos ao marido e quem sabe até não
tivessem boicotado a empresa de construção por incumprimento das regras de segurança e o
Francisco era pai duma pequena Nicole.

Quando a mãe morreu, ficou sozinha a viver num pequeno apartamento no Alto de
Santa Catarina. O mesmo apartamento onde a mãe morrera, com a mão dada à filha por quem
tanto lutou. Estava na hora do descanso dos justos, ou pelo menos daquela guerreira. Ligou a
Felícia, amiga de infância, já ela própria filha de uma amiga de infância de Laura. Ia precisar de
ajuda com a pequena Nicole nos primeiros dias, enquanto se reconstruia a si própria. Sally veio
com a filha de imediato para Lisboa e praticamente tratou do funeral de uma mulher que não
via há mais de 10 anos. Melissa apenas chorava agarrada à filha por dias a fio. Quando Felícia e
a mãe regressassem aos EUA estaria sozinha. Os familiares mais próximos eram uns tios da
mãe que nunca saíram dos Açores. Nos EUA apenas trocava postais de Natal com a avó, a
única pessoa que nunca a tentara prejudicar nem a si nem à mãe. Soube da neta já Laura tinha
fugido para Lisboa.
Passados 10 anos, voltava aos subúrbios de Boston, num bom bairro de casas com
jardim e dois cães à porta, memória dos seus verões, daquela vez para ficar, quem sabe se
para sempre. Estava lá há dois dias. O início das aulas era logo na primeira semana setembro e
tinha um programa para preparar.

Um bater na porta do seu quarto acordou-a do seu computador. Era Felicia, a filha da
anfitriã e sua amiga de infância:

- Que fazes aqui fechada? Daqui a nada começa o outono e isto não é Portugal! A
temperatura desce, chove que s’a farta… E daqui a três ou quatro meses andamos de pá na
mão a afastar a neve das portas! Por isso, ‘bora aproveitar o solinho!
- Qual solinho qual carapuça? Tenho de preparar as minhas aulas.
- Mel… Que disciplinas vais dar no colégio?
- Português e História.
- E que disciplinas davas em Portugal?
- Português e História… - respondeu contrariada, sabendo que teria de dar razão à
amiga.
- E há quanto tempo ensinas Português e História?
- Há oito anos… - disse com um tom de voz amuado.
- E se ainda assim não sabes dar a primeira semana de aulas, estamos mal! – fechou-
lhe a tampa do portátil. – Vá, ‘bora apanhar solinho à beira-mar com a miúda.
- Contra factos não há argumentos. Vá, vamos lá então.

Foram um pouco até à praia brincar com Nicole à beira-mar e Melissa sentiu-se grata.
A sua vida nunca fora fácil. Se tinha sido feliz, fora com Francisco mas até essa felicidade lhe
fora subtraída. Talvez ali, na terra que mais odiava enquanto crescia, seria feliz.