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TORAT YEHOSHUA

SEGUNDO O LIVRO ORIGINAL HEBRAICO DE


MATEUS

BRUNO SUMMA
2019
Torat Yehoshua
According to the Hebrew Book of Matthew
Copyright™ 2019 Bruno Summa. All right reserved
Except for the Talmud's quotations Commentaries and the hebrew version
of the book of Matthew, no part of this book may be reproduced in any
manner without prior written permission from the publisher.
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Al. Nothmann 1058 - São Paulo
Proibido reprodução

Outro livros do mesmo autor:


A Torah aos Galatas
B. Summa 2018 All rights reserved

O Conhecimento do Bem e do Mal


B. Summa 2018 All right reserved

Primeira edição maio/2019


Índice

Title Page
INTRODUÇÃO
-----PARTE 1 - FATORES HISTÓRICOS
I - A Educação de Yehoshua
II - Fariseus
III - As Torah's
IV - Shammai e Hillel
V - Mashiach
VI - Yehoshua no Talmud
-----PARTE 2 - ENSINOS
I - Bereshit
II - O Nome
III - Yohanan e o Mikveh
IV - Tentação
V - O Reino de Israel
VI - Ashrei
VII - Sal e Luz
VIII - Abolição da Torah
IX - Leves e Sérios
X - Amor
XI - O Erro de Salomão
XII - Juramento
XIII - Olho Por Olho
XIV - Tzedakah
XV - Pai Nosso
XVI - Aiyin Tovah
XVII - Julgamento
XVIII - Vida
XIX - Devarei Torah
XX - Morto Enterrando Morto
XXI - Tzitzit
XXII - Discípulado
XXIII - Jugo
XIV - Shabbat
XXV - Ruach Elohim
XXVI - Yonah
XXVII - Netilat Yadayim
XXVIII - Uma Pequena Desonra
XXIX - A Canaanita
XXX - Conectar
XXXI - Yom Kippur
XXXII - Anokhi
XXXIII - Shalem
XXXIV - Uma Só Carne
XXXV - O Homem Pobre
XXXVI - Ashir
XXXVII - Figueira
XXXVIII - Assassinos e Meretrizes
XXXIX - Deus Dos Vivos
XL - Maiores Mandamentos
XLI - O Senhor De David
XLII - Takanot
XLIII - Tevilah
XLIV - Líderes Cegos
XLV - Do Leste A Oeste
XLVI - Zodíaco
XLVII - Arrebatamento Segundo Yehoshua
XLVIII - Pessach
XLIX - Nova Aliança
L - Os Ignorantes
LI - Duas Falsas Testemunhas
LII - Últimas Palavras
-----PARTE 3 - PARÁBOLAS
I - O Semeador
II - A Boa Semente
III - O Grão De Mostarda
IV - Três Pequenas Parábolas
V - Recompensa
VI - A Vinha
VII - As Dez Virgens
-----PARTE 4 - CONCEITOS
I - O Misticísmo de João
II - Seiscentos e Sessenta e Seis
III - Trindade
IV - Shkutz Shomem
V - Algumas Profecias
VI - Yehoshua e os Judeus
VII - Confirmando a Hipótese
---PARTE 5 - LIVRO DE MATEUS PORTUGUÊS
---PARTE 6 - LIVRO DE MATEUS HEBRAICO
INTRODUÇÃO
INTRODUÇÃO
A hora é chegada! Tem acontecido um despertar como nunca visto antes
em todas as nações sobre a face da terra. Um levantar por parte de muitas
pessoas em uma busca de conhecimentos sobre a Torah, o Povo de Israel e as
verdadeiras origens bíblicas, principalmente sobre o novo testamento e suas
raízes. Ao observarmos toda a história da igreja, e ouso até dizer, da
humanidade, nunca antes foi testemunhado uma busca tão incessante pelo
Deus de Israel como tenho visto nos últimos anos.
Em todo o mundo ocidental, os olhos de muitos que seguem ao
cristianismo tem sido abertos e, por motivos inexplicáveis, estão vendo que a
verdade não está bem ali, não está naquilo que a igreja vem ensinando pelos
últimos dois mil anos.
Eu tenho presenciado isso desde o ano de 2012, quando muitos cristãos
começaram a conversar comigo e a me questionar sobre Torah e sua relação
com Yeshua. Me impressionou o desejo interior que cada uma dessas pessoas
tinha. A sensação que me foi passada foi de um certo “desespero” por um
entendimento sobre o Deus Único e por uma liberdade das doutrinas que os
fizeram reféns por toda suas vidas. Outra coisa que percebo também é como
algumas pessoas, que muitas vezes nem sabem o que é Torah, ou nunca se
importaram com a existência de um Deus, são tocadas quando escutam coisa
ou outra, mesmo que simples, sobre a Sua Palavra. Já aconteceu comigo
algumas vezes, em conversas cotidianas, sem intenções nenhuma, falo
alguma coisinha sobre a Torah e isso entra no coração da pessoa de uma
forma que chega até me espantar, o transformar de vida que se segue a isso é
ainda mais tremendo.
Isso não é algo que vem do homem, mas sim do Deus Criador. Quando
uma pessoa é escolhida Sua, não tem jeito, mesmo que nunca tinha ouvido
falar sobre Ele, ouvir sobre uma pequena vírgula da Torah, muda
instantaneamente os caminhos dessa pessoa. Isso tem se tornado algo comum
nos dias atuais. A busca, o anseio e a sede pela verdade do Criador virou
praxe e não algo pontual. A meu ver, é fantástico, pois mostra a proximidade
que estamos da vinda de Mashiach.
Deus criou para Si um Povo, o Povo de Israel, e não uma religião. O
cristianismo, o judaísmo e todas as outras, não passam de criações humanas
que muitas vezes mais escravizam do que libertam. O que Deus busca é um
povo e não um aglomerado de pessoas dentro de um templo seguindo regras
humanas. É por isso que a Torah é vital, pois ela não é uma religião, é um
estilo de vida. É através dela que o indivíduo é definido como Povo de Deus
ou como resto das nações.

TORAT YEHOSHUA
“Torat Yehoshua” significa a Torah de Yeshua, ou a Torah segundo o
entendimento e ensino de Yeshua. Esse não é um livro para o cristão
tradicional, ou para pessoas fortemente apegadas e ligadas à qualquer
religião, seja ela o judaísmo ou qualquer vertente do cristianismo. Se o
indivíduo acredita que nelas se encontra a verdade, então é bom que fique
nelas, cada um se mantenha naquilo que foi chamado. O objetivo desse livro
é trazer um novo entendimento àqueles que queiram respostas que vão além
de religiões, teologias, dogmas e teorias humanas.
Se o leitor busca respostas que vão desafiar sua fé e um entendimento que
visa o libertar de correntes humanas, então esse livro talvez possa ajudar. Não
pretendo convencer ninguém a nada através dele. Ele foi concebido através
daquilo que Adonai me permitiu compreender e ele não representa nada além
do que um compartilhamento desse entendimento. Não tenho a intenção de
provar que pessoas estão erradas ou atacar ninguem, apenas ser uma
ferramenta que possa ajudar àqueles que buscam algo a mais do Criador.
Eu sempre fui relutante em escrever livros sobre Yeshua, pois o novo
testamento nunca foi o foco de meus estudos. Os materiais que coloco aqui
foram adquiridos em momentos diversos durante minha vida e tem sido
guardados desde 2012, assim como o evangelho original de Mateus,
conforme exposto no fim desse livro.
Todos os estudos desse livro se focarão em um entendimento
judaico/rabínico dos ensinos de Yeshua, portanto, serão apresentados de uma
forma completamente diferente e oposta do que é comumente ensinado pelas
igrejas e teologias cristãs. Tudo aquilo que for exposto aqui, será comprovado
através de ensinos antigos dos sábios de Israel.
Lendo o livro de Mateus, em sua versão original em hebraico, Yeshua me
mostrou claramente a base de sua fé. Diferentemente do que muitos pensam e
ensinam, que jesus se revoltou com sua fé e fundou uma crença nova, o
verdadeiro Yeshua apregoou o judaísmo, pregou tanto a Torah quanto o
Antigo Testamento, sempre através de uma visão rabínica, através do uso da
Torah Oral como exemplo.
Sem a Torah Oral, posso dizer com propriedade que é impossível
entendermos sobre quem ele foi e sobre o que ele falava, pois ele se dirigia a
um público judeu, era um exímio conhecedor da Torah e levava a vida de
acordo com a Torah Oral, portanto, ensinos nesses conformes fazem total
coerência, pois era sua realidade. Interpretações de suas palavras sem esse
conhecimento como base, levam a graves e profundos erros que são difíceis
de serem corrigidos mais tarde.
Tudo que será apresentado nesses estudos terá como base a Torah Escrita
e a Torah Oral. Junto a isso, também colocarei os comentários dos sábios e
dos rabinos, assim como algumas explicações e observações por mim feitas.
Por tal motivo, a compreensão desses estudos podem ser um tanto difícil por
parte daqueles que não estão acostumados a esse tipo de pensamento, ensino
e ideologia.

O LIVRO DE MATEUS EM HEBRAICO


Diferentemente do que a igreja ensina, tanto o livro de Mateus,
quanto o livro de João, o livro de Lucas e o livro de Marcos, NÃO foram
escritos em grego e sim em hebraico. Por todo o livro de Mateus é possível
confirmar isso devido aos inúmeros cacoetes que o autor tem, cacoetes que só
são possíveis em escritos originais em hebraico.
A versão do livro de Mateus que apresento nesse livro foi uma
cópia manual feita por um médico judeu chamado Shem-Tov Ben-Isaac Ben-
Shaprut. Shem-Tov nasceu em uma cidade chamada Tudela, no reino de
Castela na Espanha, durante o século quatorze. Devido a forte inquisição
espanhola que estava dizimando a milhares de judeus, Shem-Tov se viu
obrigado, assim como toda a sua comunidade, a estudar o novo testamento.
Isso se deu pelo fato de como a inquisição procedia. Os cristãos tinham o
costume de pegar os judeus, os levarem às praças publicas e, sob ameaça de
morte, eles eram obrigados a responder às perguntas que lhes eram feitas. Os
inquisidores, como sabiam que judeu nenhum conhecia o novo testamento,
faziam perguntas que normalmente abordavam a vida do jesus.
Os judeus de sua comunidade, para se prepararem a tais eventos,
começaram a estudar os escritos dos evangelhos. Um de seus colegas, em
uma viagem ao Oriente Médio, conseguiu uma cópia de um livro chamado
Mateus e através dele, todos dessa comunidade começaram a copiar
manualmente esse livro. A cópia que possuo é justamente a de Shem-Tov,
que foi feita em torno do ano de 1380 e.c. e por ter sido copiado a mão, algo
que demandava demais, existem alguns erros mínimos de escrita pelo
manuscrito.
Esse manuscrito, que hoje se encontra escondido na British Library,
desapareceu por 507 anos, até que um estudioso chamado George Howard da
Universidade da Geórgia, o encontra e o publica em 1987. Esse não é o único
manuscrito do livro de Mateus em Hebraico, existe uma cópia de outro autor
em Moscou e uma terceira em Florença, na Itália.
Para mim, é uma grande honra dada por Deus que eu tenha sido o
primeiro a publicar uma tradução desse livro em língua portuguesa, algo
inédito. Traduzir esse livro foi um desafio, pois além de possuir um hebraico
muito antigo, a letra de mão de Shem-Tov não é tão clara em algumas partes.
Porém, com o devido tempo, ao longo de alguns anos, a tradução foi
concluída e se encontra no final desse livro, tanto em português, quanto em
hebraico.

ORIGINALIDADE
Ler o livro de Mateus em seu idioma original e compará-lo com as
traduções provenientes do grego, pode e revela muitas coisas. Muitas das
diferenças encontradas são impressionantes e esclarecedoras. Porém, na
grande parte do livro, a maioria das diferenças que se encontram nele, não
mudam muito o entendimento de uma pessoa que não entende a cultura
judaica do primeiro século e como o judaísmo rabínico ortodoxo funciona.
Portanto, tentarei trazer à luz, com ajuda de Deus, algumas “estranhezas”
contidas no livro em seu original, para que ao compararmos ambos os
escritos, traduções ocidentais e hebraico, possamos entender que existe mais
do que diferença de palavras e termos, mas uma diferença de mensagem e
contexto.
O livro de Mateus, após os anos que desprendi em seu estudo, é
definitivamente e irrevogavelmente um livro escrito em hebraico. O hebraico
antigo, conhecido como Yvrit Tanakhi, segue um sistema de escrita poético,
ao escrever sobre um assunto, é normal a repetência de termos, assim como o
uso de outras palavras que possuem a mesma raiz, dando uma sonoridade
única ao texto quando lido. Outro costume desse hebraico antigo, muito
comum no antigo testamento, é uma narrativa na voz passiva. Tal ideia soa
muito estranho nas línguas ocidentais, mas é comum no hebraico bíblico.
Tais costumes de escrita, são conhecidos como hebraísmo e o livro de
Mateus é cheio deles. São coisas que, assim como são difíceis de traduzir
para outras línguas, é impossível, através de uma tradução para de uma língua
estrangeira para o hebraico, a formulação desses hebraísmos.
Seguem alguns exemplos desses típicos hebraísmos que aparecem por
todo o livro de Mateus e bem comuns pelo antigo testamento:

E ela dará luz a um filho e o chamará de YESHUA, pois ele YOSHIA o


meu povo de suas iniquidades.
Mateus 1:21

Nomeação de pessoas através de verbos para representar suas ações é


algo exclusivo da língua hebraica, não só com Yeshua, mas praticamente
todos os grandes homens da bíblia. Essa ideia é completamente perdida na
versão grega.

Nesse tempo disse Yeshua a seus talmidim: o Reino dos Céus é como um
rei que se assenta para fazer um levantamento com seus servos e ministros.
E quando começam a fazer o levantamento, vem um que deve dez peças
de ouro.
E ele não tem nada para dar e seu senhor ordena que ele seja vendido
junto com seus filhos e com tudo aquilo que ele possui para pagar
(LESHALEM) esse valor.
E o servo cai perante seu senhor e pede para que seja misericordioso
com ele e lhe dê tempo, pois pagará (ISHALEM) todo o saldo devedor.
E então seu senhor teve pena dele e lhe perdoou todo o débito.
E saiu o servo e encontrou outro que lhe devia cem peças de prata e lhe
agarrou e o atacou e então disse:
Confie em mim e tenha paciência comigo, eu pagarei (ESHALEM) tudo
E ele não estava querendo ouvi-lo, então levou-o a prisão até que tudo
fosse pago (SHALAM).
E viram os servos do rei o que foi feito e se enfureceram muito e foram
contar ao senhor deles.
Então o senhor chamou-o e disse lhe: servo maldito, não lhe perdoei de
toda dívida que tinhas comigo?
Então porque não perdoou o servo quando ele lhe suplicou, assim como
eu lhe perdoei?
E seu senhor se irou com ele e comandou que fosse afligido até que todas
suas dívidas fossem pagas (ISHALEM).
Assim fará a vocês o meu Pai no céu se não perdoarem ao homem e ao
seu irmão de coração completo (SHALAM).
Mateus 18:23-35

Na mesma parábola, palavras de mesma raiz aparecem seis vezes, tal


feito, além de ser algo muito comum do hebraico, é praticamente impossível
consegui-la através de uma tradução.

E eu lhe digo que você é rocha (EVEN) e eu construirei (EV´NAH)


sobre ti minha BEIT TEFILAH. E os portões do Gehinam não prevalecerão
perante ti.
Mateus 16:18

Temos também hebraísmo em Mateus 16:18, pela qual muitos justificam


a originalidade grega do texto. Acabou sendo apenas uma coincidência na
hora da tradução para o grego, pois o hebraísmo também se encontra aí. Mais
um exemplo linguístico:

E viu (vayir´u) a multidão e temeu (vayir´u) muito...


Mateus 9:8a
No versículo acima mais um hebraísmo que se perde com a tradução,
apesar de “viu” e “temeu” não terem nada a ver, no hebraico, as palavras são
similares. Esse método não seria possível se o livro em hebraico fosse
proveniente de uma tradução. Fora esses exemplos acima, existem outros
milhares por todo o livro de Mateus.
Não faz sentido, um judeu, de origem hebraica, no território de Israel,
falando de coisas sobre Israel, ensinando às pessoas de Israel, escrever em
grego. Não faz o menor sentido, por motivos mais do que óbvios, não
deveriam nem haver dúvidas quanto a originalidade do idioma.
Existem algumas citações feitas pelos primeiros pais da igreja em relação
ao livro de Mateus:

Mateus... ...um composto evangelho sobre cristo, primeiramente


publicado na Judéia em HEBRAICO... Em hebraico foi preservado até os
dias de hoje na biblioteca em Caesarea... Eu também tive a oportunidade de
ter uma cópia feita para mim pelos nazarenos de Beroea... ...Os quais, o
usam.
Jerome, 392

Eles tem trabalhado duro, da melhor que forma podem, para fazerem as
traduções do hebraico.
Clemente de Roma, a respeito dos evangelhos, 118 e.c.

Livros originalmente escritos em hebraico: Mateus, Lucas, Marcos, João,


Atos e Apocalipse (em Aramaico).
A formatação do livro de Mateus não segue como nas versões ocidentais.
Sua separação não é em capítulos e versículos, porém o livro é dividido em
114 partes, seções, os quais foram montados para diferenciação dos temas
que o autor abordava, algo comum no hebraico. Eu deixarei ambas as
separações, tanto a original, quanto a ocidental, para uma facilidade de
entendimento,

GEMATRIA
A Gematria é um sistema numerológico pelo qual as letras hebraicas
correspondem a determinados valores numéricos. Esse sistema faz parte da
Cabala e é uma ferramenta muito poderosa para a interpretação de textos
bíblicos.
Cada letra do alfabeto hebraico é representado por um número. Pode-se
então calcular o valor numérico das palavras hebraicas da bíblia para uma
exegese mais mística, oculta, daquilo que a Palavra de Deus está ensinando.
No mundo da exegese bíblica, muitos comentaristas e sábios da Torah,
baseiam seus argumentos na equivalência numérica das palavras. Quando
uma palavra possui uma valor numérico igual ao de outra palavra, existe uma
conexão mística entre ambas. Isso mostra que ambas as palavras podem ser
usadas em ambos os contextos, ou seja, uma pode tomar o lugar da outra e
vice-versa, revelando um entendimento único das passagens bíblicas.
Muitos sábios acreditam que Adonai criou o universo através das letras
do alfabeto hebraico e portanto, existe um poder oculto por trás de cada uma
delas. Os números que cada uma representa, servem para ocultar à vista do
homem comum os segredos do Criador.
Por outro lado, devemos ter muito cuidado com a Gematria, pois é uma
ferramenta para uso exclusivamente bíblico. Fazer uso dela de uma forma
secular, como meio de adivinhação ou previsões do futuro, é algo
veementemente proibido pela Torah e por Deus diversas vezes. Esse método
possui tanto poder que, diversos pseudo-cabalistas nos dias de hoje oferecem
esse ensino às pessoas leigas para uso secular. Outras seitas ocultas também
conhecem essa ferramenta e a usam para fortalecimento de seus feitiços e
bruxarias. Portanto, saliento, a Gematria não deve ser usada fora de um
contexto bíblico e não deve ser aprendida em um meio secular através de
livros de autores desconhecidos e nem tão pouco por pessoas sem ligação
direta com a Torah divina, ela só pode ser ensinada e aprendida através de
rabinos que a usam como ferramenta de interpretação bíblica.
A Gematria é uma ferramenta que eu uso muito por todo esse livro.
Existem inúmeras formas de usá-la, porém usarei as duas formas mais
simples: a soma de valores absolutos, que é a soma total dos números ligados
às letras da palavra estudada ou os valores reduzidos, que é a soma dos
números do valor absoluto, atingindo um número entre 1 e 9.
Para tanto, usarei duas tabelas de cálculo, uma que inclui as letras SOFIT
do hebraico e uma outra, que não possui valores para essas letras SOFIT:
VERSÍCULOS OMISSOS
Os versículos a seguir não se encontram no livro de Mateus em hebraico.
Podem ser adições posteriores da igreja, assim como o já confessado
versículo 19 do capítulo 28, ou adições feitas pelas pessoas que traduziram do
hebraico para o grego, com a intenção de explicar alguma coisa que
auxiliasse na tradução, ou talvez se encontrem em outros manuscritos.

5:6 – 5:7 – 5:47 – 10:33 (primeira parte) – 10:38 – 14:34 – 16:6 – 16:7 –
18:4 – 23:21 – 26:19 – 27:36 – 27:61 – 28:19

INTENÇÕES DO LIVRO
Esse manuscrito, depois de descoberto, ficou muitos anos sem que fosse
estudado. Minha intenção é revelá-lo pela primeira vez na língua portuguesa,
para todos que tiverem interesse em um entendimento mais preciso sobre a
origem do novo testamento.
Outro ponto é mostrar Yehoshua Ben Yosef, judeu, israelense, rabino,
fariseu, ortodoxo, seguidor da Torah, mestre na Torah Oral e no Midrash, que
se declarou como Maschiach Ben Yosef e veio atrás das ovelhas da Casa de
Israel.
O Yeshua tratado nesse livro, com base no livro original de Mateus, não é
o jesus cristão, não é o jesus de Roma, não é o jesus que o mundo ocidental
conhece. Esse livro trata da pessoa verdadeira e não de um mito.

TERMINOLOGIA
Para quem não conhece a língua hebraica ou não está habituado a
terminologia rabínica, é de vital importância que os termos a seguir sejam
estudados e compreendidos antes da leitura desse livro, pois são termos muito
usados pelo Livro de Mateus e os mantive em meus estudos, pois é uma
terminologia que perde sua essência com traduções:

Torah Escrita – Os cinco primeiros livros da bíblia – Genesis, Êxodo,


Levítico, Números, Deuteronômio – conhecido também como a Lei de
Moises. A Torah é o mais santo de todos os livros, pois é o único que revela o
verdadeiro “eu” do Criador de todas as coisas.

Torah Oral – Segundo os sábios, a Torah Oral foi a explicação sobre a


Torah Escrita que Deus deu a Moises enquanto estava no monte Sinai, a qual
foi passada oralmente por gerações. Ela trata dos detalhes dos mandamentos
da Torah Escrita que não são tão “claros”.

Mishnah – É o outro nome para a Torah Oral, aborda todas os


mandamentos da Torah.

Gemarah – São os comentários rabínicos sobre a Mishnah. Também é


conhecida como Talmud, e possuem inúmeras leis criadas pelos sábios e
impostas sobre o povo judeu por anos.

Midrash – Comentários dos sábios sobre as passagens bíblicas, os


Midrashim foram compostos em aramaico e possuem uma sabedoria sem
igual.

Talmud – Mishnah + Gemarah + alguns ensinos externos.

Tzadik (Tzadikim, plural) – Esse é um termo vital para entendermos as


palavras de Yeshua. Um TZADIK é uma pessoa que observa e obedece as
Leis da Torah. Esse termo foi traduzido como “justo” e com isso perdeu toda
sua essência. Ser um Tzadik é o objetivo de vida de qualquer judeu que ama a
Deus.

Kasher – Apesar desse termo ser associado com alimentação, a palavra


kasher é um adjetivo dado a qualquer coisa que esteja nos conformes da
Torah. Uma pessoa que segue as Leis de Deus fielmente é uma pessoa
kasher.

Kashrut – Dieta bíblica de acordo com Levíticos 11.

Talmid (Talmidim, plural) – “Aluno” em hebraico.


Mamon – Apesar de muitos afirmarem que é o nome de um demônio,
mamon é apenas uma palavra comum em aramaico, significa “dinheiro”.

Gehinam – Conhecido como inferno, para muitos é apenas um purgatório


temporário.

Tshuvah – Outro termo muito importante usado vastamente no novo


testamento. Tshuvah em uma tradução direta significa “resposta”, mas é um
termo rabínico para se referir a arrependimento. Diferentemente do
arrependimento cristão que não passa de algo interno, a Tshuvah é mais volta
a ações, quem faz Tshuvah é a pessoa que decide adotar um estilo de vida de
acordo com a Torah.

Olam Hazeh – Mundo terreno, a vida que vivemos na carne.

Olam Habah – Mundo vindouro ou era de Mashiach. Sinônimo para vida


eterna.

Mitzvah (Mitzvot, plural) – Mandamento da Torah.

Chupah – Cabana sob a qual casamentos são feitos.

Mashiach – Messias, o ungido.

Bessorah – Boas novas ou evangelho.

Tanakh – Torah + Profetas + Escritos = Bíblia Hebraica ou antigo


testamento.

TODAS AS PASSAGENS DO TANAKH, DOS MIDRASHIM, DO


TALMUD E OS COMENTÁRIOS RABÍNICOS USADOS NESSE
LIVRO, FORAM TRADUZIDOS DE SEUS IDIOMAS ORIGINAIS
(HEBRAICO OU ARAMAICO) PELO PRÓPRIO AUTOR DESSE
LIVRO, AO MENOS QUANDO IDENTIFICADO A TRADUÇÃO
USADA. POR ESSE MOTIVO, ESSAS PASSAGENS PODEM
APRESENTAR ALGUMAS DIFERENÇAS QUANDO COMPARADAS
COM AS TRADUÇÕES OCIDENTAIS MAIS COMUNS.

ESSE LIVRO PODE SER OFENSIVO A ALGUMAS PESSOAS


DEVIDO AOS SEUS CREDOS E FÉ. SE CASO O LEITOR
ACREDITE PIAMENTE NA IGREJA, EM SEUS DOGMAS,
TEOLOGIAS E ENSINOS E OS VEEM COMO VERDADE
ABSOLUTA E IRREVOGÁVEL, PEÇO PARA QUE NÃO LEIA ESSE
LIVRO.
◆◆◆
PARTE 1
FATORES HISTÓRICOS
SEÇÃO I
A EDUCAÇÃO DE YEHOSHUA

Para que haja um verdadeiro entendimento sobre a pessoa que


Yehoshua foi, algo que vai além de seus ensinos e de suas obras, precisamos
buscar informações sobre aquilo que não nos foi relatado nos livros do novo
testamento, sua infância e educação. Apesar de Yehoshua ter tido uma
existência elevada, ele também foi um ser humano, foi criança, adolescente,
jovem e adulto, e todas essas fases formaram suas características como
indivíduo. Minha intenção aqui não é descobrir as características pessoais de
Yehoshua, mas sim da onde vieram as influências que deram o tom de seus
ensinos por todo o novo testamento. Como não temos relatos bíblicos e nem
talmúdicos em relação a sua vida antes do início de seu ministério, devemos
olhar para o padrão de educação que era seguido na terra de Israel do
primeiro século.
Antes de mais nada, é necessário tirar da mente muitos conceitos
criados pela igreja antiga. Temos na crença popular um Yehoshua que foi
uma pessoa simples, sem educação básica e um caipira do interior. Mas com
uma leitura cuidadosa de seus ensinos, fica claro que Yehoshua teve uma
profunda educação, sendo um exímio conhecedor da Torah, do Tanakh, da
Torah Oral, dos costumes e de todos os ensinos rabínicos de sua época. Se
tivesse que trazer uma imagem para Yehoshua nos dias atuais, de certo seria
como um judeu ortodoxo, que se vestiria de preto e branco, com os tzitzit na
cintura, uma barba longa e um belo de um chapéu.
Não podemos olhar para Yehoshua e ver o jesus criado pela igreja,
uma pessoa pobrezinha, coitadinha e sem preparo nenhum. Devemos olhar
para Yehoshua conforme a pessoa que ele realmente foi, um judeu, fariseu,
rabino, extremo conhecedor das Torah’s, proveniente de uma família
abastada e com uma personalidade de ensino muito forte e única.
Eu acredito que essa imagem de um Yehoshua desprovido de
educação vem de um mal entendimento sobre os habitantes da antiga
Galileia. Para os Judeus de grandes cidades, como Jerusalém, os galileus
eram vistos como caipiras, povo do campo, roceiros e sem capacidade
intelectual como um cosmopolita tinha. Porém a Galileia, por estar perto de
regiões fronteiriças, possuía um contato maior com culturas diversas, o que a
enriquecia culturalmente de uma forma diferente do que acontecia com
grandes cidades mais no interior de Yehudah, sendo que tal influência criou
uma mentalidade na Galileia que era diferente do resto de Israel.
Se olharmos para o nível de conhecimento que os galileus possuíam,
veremos que supera em muito o do resto das pessoas de grandes centros
cosmopolitas. A Galileia foi um celeiro dos maiores rabinos da história do
judaísmo e seus ensinos são praticados e vividos até os dias de hoje em
muitas sinagogas e comunidades. Entre eles temos Yohanan Ben Zakkai,
Hanina Ben Dosa, Abba Yose Holikrofi, Zadok e Yehoshua Ben Yosef.
Muitas coisas importantes aconteciam também nessa região, como o
nascimento de uma movimento conhecido como “os zelotes” e foi desse lugar
que a rebelião contra o império romano se iniciou, causando a destruição do
Templo no final das contas.
Para um sábio do primeiro século, não teria melhor lugar para se
estudar a Torah e as escrituras do que a região da Galiléia, pois foi nessa
região que se formaram os mais sábios e lenientes rabinos da história.

EDUCAÇÃO
Apesar do novo testamento não contar nada sobre a infância e a educação
de Yehoshua, de certo não foi nada diferente do que dos outros galileus.
Tanto a educação quanto os estágios da vida de um típico judeu do século
primeiro é descrita pelo Talmud, no Pikei Avot:

Yehudah Ben Teima dizia: aos cinco anos de idade é a idade para o
estudo das escrituras, aos dez anos para o estudo da Mishnah, ao treze anos
para o começo da observância das Mitzvot, aos quinze anos para o estudo do
Talmud e aos trinta é a idade de força total.
Pikei Avot 5:21

Todas as crianças da Galileia seguiam essa forma de educação, as escolas


da época não se prendiam apenas a lecionar matemática e história, mas
tinham o foco basicamente nas escrituras e tudo que era ligado a elas.
As sinagogas do primeiro século possuíam um anexo chamado Beit Sefer
(escola), onde as crianças iam e recebiam toda a educação necessária tanto
para uma vida secular quanto para uma vida religiosa. Muitos dos alunos
deixavam os estudos na idade de treze anos, pois necessitavam começar a
trabalhar, porém outros, aos quinze anos, deixavam a escola e partiam para a
tutela de uma escola rabínica para se tornarem sábios da Torah e rabinos.
Pelo alto conhecimento das escrituras que Yehoshua possuía, eu acredito que
ele continuou seus estudos e se afiliou a Beit Hillel, pois tanto Hillel quanto
Yehoshua, possuíam uma forte similaridade em seus ensinos, por incontáveis
vezes, Yehoshua faz uma abordagem em seus ensinos da mesma forma que
Rabbi Hillel fazia.
Todos os alunos que davam continuidade em seu estudo de Torah, eram
considerados os verdadeiros adoradores. Segundo a mentalidade judaica, a
adoração não se tratava apenas de entoar cantos e louvores, mas sim de um
verdadeiro desprendimento ao estudo da palavra de Deus, isso definia o
verdadeiro adorador:

Uma pessoa deve praticar as mitzvot em vida, pois depois que ela morre,
ela estará livre da observância da Torah e não poderá mais ser uma
adoradora daquele que é Santo, Bendito Seja.
Talmud da Babilônia, Tratado Shabbat 30a

Isso mostra que o lugar mais sagrado era justamente o Beit Sefer, assim
como estar embaixo da tutela de um rabino, pois eram justamente nesses
lugares onde o maior ato de adoração era praticado, o estudo da Torah.

MÉTODO DE ESTUDO
Apesar de existirem rolos e um método desenvolvido de escrita e leitura,
todo material escrito naquela época era extremamente caro, por esse motivo a
grande maioria do Povo de Israel não possuía a Torah e nenhuma forma de
escritura em casa. Apenas os mais ricos possuíam alguns rolos com alguns
trechos do Tanakh. Por esse fato, aprender a Torah Escrita e a Torah Oral
exigia um grande esforço de memorização. Até os dias de hoje, em que temos
um acesso fácil às escrituras, muitas escolas rabínicas ainda usam o processo
de repetição e memorização. É praticado até um movimento feito com a
cabeça para ajudar com a aprendizagem.
Yehoshua, assim como todos os fariseus a sua volta, possuíam a Torah, o
Tanakh, os costumes e a Torah Oral totalmente memorizados, era como algo
que corria em suas veias, algo raríssimo de se encontrar em outras religiões,
isso demandava anos e anos de estudo a fio. Para se tornar um rabino de
nome, a vida secular deveria ser deixada para trás.

Hillel disse: “Aquele que repetes cem vezes não é comparável àquele que
repete cento e uma vezes”.
Talmuda da Babilônia, Tratado Chagigah 9b

Aquele que não volta ao estudo da Torah por diversas vezes, é como um
homem que planta e não colhe.
Talmud da Babilônia, Tratado Sanhedrin 99a

Muitos métodos de memorização foram desenvolvido pelos sábios e


ensinados nas escolas por todo Israel. Alunos estudavam a Torah seis dias por
semana e no sétimo nenhuma matéria nova era dada, eles usavam o dia para
ficarem recitando aquilo que aprenderam durante a semana até decorarem.
Hoje em dia, nos bairros mais ortodoxos de Israel, é comum vermos pessoas
andando pra cima e para baixo falando sozinhas, na verdade elas estão
recitando a Torah e o Talmud para uma total memorização.
A memorização e o aprendizado das duas Torah’s em Israel sempre foi a
parte mais importante da fé judaica, foi assim que mantiveram a Toral Oral
viva por muitos séculos sem nunca ter sido escrita. Um padre católico, por
volta do ano 400 e.c., foi a Israel para aprender a língua hebraica e em um de
seus relatos, ele afirma que não viu uma criança sequer que não conhecia a
bíblia de Adam até Zeruvbabbel.

Yehoshua, como um bom judeu, passou por tudo isso, seus ensinos
mostram que ele possuía um conhecimento sem igual da Torah Escrita e da
Torah Oral, a forma como ele usa ambas mostra que os textos sagrados
faziam parte de sua essência. Portanto, se torna impossível entendê-lo se não
tivermos a mesma estrutura teológica e a mesma forma de pensar que ele
tinha. A diferença da educação de Yehoshua em comparação a educação
cristã ocidental, levou o mundo a uma interpretação muito pobre, e por vezes
errônea, de tudo aquilo que ele ensinou.
A quebra de paradigmas se faz necessária para qualquer estudo referente
a palavra de Deus, principalmente para uma mente doutrinada segundo a
teologia cristã, proveniente em sua essência dos pais da igreja, que nada mais
eram do que pagãos buscando a um Deus que pouco conheciam. Infelizmente
a influência de seus ensinos e pensamentos entrou de uma forma na igreja
que hoje afeta a todos os cristãos, pois eles acabam acreditam mais em
teologias humanas do que na bíblia em si. Se a pessoa não estiver disposta a
olhar para as escrituras de uma forma sem pré conceitos estabelecidos, a
verdade nunca será revelada a ela.
◆◆◆
SEÇÃO II
FARISEUS

A palavra hebraica para fariseu é p’rushim, que significa


“separatistas”. Esse título lhes foi dado devido a dissociação que tinham com
o povo comum de Israel e com os saduceus. Os fariseus consideravam o
cidadão comum como pessoas impuras, que tinham pouco conhecimento da
palavra e não se preocupavam com a lei da Torah Oral. Eles procuravam se
distinguir daquilo que consideravam como “povão”. Outras fontes apontam
que o motivo desse título era dado justamente pela diferença que tinham de
um grupo um pouco mais antigo que eles, os saduceus.

Os Saduceus
Tudo que sabemos hoje sobre os saduceus provém de fontes externas,
pois os mesmos não tinham o costume de registrar sua história. Os saduceus
eram um tipo de casta dentro do judaísmo e começaram a se formar por volta
do ano 150 a.e.c. Eles estão diretamente ligados com a influência que os
Maccabbeus ganharam dentro de Israel através de suas vitórias sobre o
exército macedônio.
Acredita-se que foram fundados por um indivíduo chamado Tsadok e
eles se tornaram uma classe de aristocratas que dominou toda a área politica e
sacerdotal de Israel. Possuíam o controle sobre o Sanhedrin e tinham total
poder de escolha em relação a nomeação de sacerdotes, apesar de alguns dos
sacerdotes não fazerem parte dos saduceus, a grande maioria fazia.
A classe dos saduceus era a classe alta da época de Yehoshua, eram
pessoas poderosas, influentes e ricas, trabalhavam duro para agradar a Roma,
assim mantendo a paz em todo Estado de Yehudah. Era uma classe
totalmente ligada à política, ao financeiro e de nada tinham a ver com a
religião. Tanto Yehoshua quanto Paulo fazem fortes críticas a eles, pois por
muitas vezes, colocavam em cargos de sacerdotes pessoas que não faziam
parte da tribo de Levi, colocavam os ganhos seculares acima dos
mandamentos de Deus e tornavam o povo de Israel cada vez mais escravo
dos romanos, já que isso era extremamente lucrativo para eles.
Fora toda a sujeira política e manobras dentro do Templo, eram eles
que possuíam a autoridade sobre a Torah Escrita, pois controlavam o
Sanhedrin. Os saduceus possuíam uma doutrina que contradizia em alguns
pontos vitais a doutrina dos fariseus, são quatro os principais pontos:

1. Negavam que Deus se envolvia na vida diária dos homens;


2. Negavam a ressurreição dos mortos;
3. Negavam o pós vida, acreditavam que a alma sumia após a morte;
4. Não acreditavam em uma estrutura espiritual, negando anjos e
demônios.

Por não se preocuparem com a religião, nunca se preocuparam com


Yeshohua até o momento em que ele chega no Templo e causa uma confusão
virando as mesas dos vendedores. O comércio no Templo era algo criado e
incentivado pelos saduceus, principalmente em época de celebrações, como o
Pessach por exemplo, onde era necessário cada um levar uma oferta a ser
queimada a Deus. Essa ideia partiu da necessidade de muitas pessoas
morarem longe da Jerusalém e terem que fazer longas viagens até o Templo
trazendo consigo suas ofertas, que muitas vezes eram animais. A ideia era
que vendam esses animais em suas terras e venham para Jerusalém com o
dinheiro para comprar outro animal na porta do Templo, para que possa ser
sacrificado.
Claro que se observarmos friamente, temos a sensação de uma
excelente ideia que ajudaria a muita gente, mas o fato é que toda transação
comercial sob o império romano gerava impostos, tanto na hora da venda do
animal quanto da recompra, tornando-se assim algo muito interessante tanto
para Roma quanto para os saduceus que também lucravam em cima.
Quando Yehoshua ataca diretamente os negócios dos saduceus e
começa a apontar as manobras politicas e sacerdotais que eles faziam,
começaram a prestar mais atenção nele e o desenrolar de sua morte começa
exatamente nesse momento.
No momento em que nasceu um grupo, com fortíssimo apelo popular,
que discordava de suas politicagens e ideias religiosas, esse grupo começou a
ser chamado de separatistas, ou nesse caso, fariseus. Os Saduceus deixaram
de existir no ano de 70 e.c. após a destruição do Templo pelos romanos, já os
fariseus existem até os dias de hoje, conhecidos como os ortodoxos.

Os Fariseus e a Torah Oral


Não se sabe ao certo quando o movimento farisaico começou, mas
muitos estudiosos acreditam que foi em paralelo aos saduceus, pois muitos
foram contra o controle e a manipulação que começaram a fazer com as
coisas que eram referentes a Deus, pois misturavam ideias helenistas com
coisas santas. Essa batalha originou os fariseus plebeus e os aristocratas
saduceus. Por volta do ano 130a.e.c. a briga entre os dois grupos era tão forte
que todos os fariseus se desligaram do Sanhedrin e de qualquer atividade que
era estabelecida por seus membros.
Os fariseus se diferenciavam de outros grupos pela sua rígida
observância à Torah Oral e distinta interpretação da Mishnah. Eles ensinavam
que a Torah Oral explica com detalhes alguns pontos que são sucintos na
Torah Escrita e portanto, era de suma importância, pois tornava os
mandamentos de Deus mais acessíveis ao entendimento de todos.
Segundo os fariseus e os judeus ortodoxos, a Torah Oral foi entregue
a Moises no mesmo momento em que ele recebeu a Torah Escrita no monte
Sinai e foi essa a forma em que Moises ensinou a Torah ao povo. A Torah
Oral, também conhecida como Talmud, é de vital importância, pois mesmo
que o ensino de Yehoshua tenha se baseado no Tanakh, o método que ele usa,
tanto de ensino quanto de debate, sempre foi a Torah Oral e foi ela que gerou
os maiores impasses de seus ensinos com alguns fariseus.
Yehoshua tinha uma compreensão muito clara da Torah Oral, muito
maior do que qualquer cristão ou judeu possa imaginar. A relação que ele
tinha com o Talmud era de amor e ódio, muitas das vezes reafirmando o que
está escrito nela, porém muitas outras, indo totalmente contra, como veremos
muitas vezes nesse livro. Apesar de muitos acharem que a Torah é o que
define o judaísmo ortodoxo, assim como foi com o farisaísmo, o que os
define é justamente a Torah Oral, toda regra de conduta, vestimenta,
alimentação, comportamento, observância, oração, jejum e muitas outras
coisas, vão muito além daquilo descrito pela Torah, são regras e costumes
criados pelos antigos e eternizadas no Talmud e são justamente essas leis e
costumes que caracterizam um judeu como judeu.

A Cerca ao Redor da Torah


Qualquer um que transgredir as palavras dos sábios receberá uma
sentença de morte, como está escrito: “quem quebrar a cerca, será mordido
por uma cobra”.
Talmud da Babilônia, Tratado Eruvim 21b

Os fariseus contaram 613 mandamentos contidos na Torah, dentre


eles, 248 positivos, os quais a pessoa deve fazer e 365 negativos, os quais não
devem ser feitos. Esse grupo, assim como o judaísmo ortodoxo moderno,
possuí um extremo temor de quebrar qualquer um desses mandamentos e por
isso, criaram o que chamam de "cerca ao redor da Torah", que nada mais é
do que a criação de leis em torno desses mandamentos, afim de manter a
pessoa o mais distante possível de quebrar qualquer Lei contida na Torah.
Tais “cercas” são chamadas de “tradições” no novo testamento.
Exemplos claros dessas tradições são as inúmeras regras referentes a
observância do Shabbat, sendo a vasta maioria delas não bíblicas, as regras
de uma verdadeira refeição kasher, as vestimentas que vemos nos dias de
hoje, a forma como a oração e os estudos de Torah devem ser conduzidos e
diversos outras regras que abrangem literalmente todos os mandamentos para
o povo judeu.
Os reais problemas começaram a aparecer quando os próprios
fariseus, começaram a definir a religiosidade e a devoção a Deus de um
indivíduo através da sua observância à essas leis criadas pelos rabinos e não
pelo puro cuidado com a Torah em si. Tais costumes não geraram grandes
discórdias entre o povo, mas foi uma das maiores objeções de Yehoshua,
sendo a outra, a hipocrisia quando cumpriam alguma Lei da Torah Escrita.
Infelizmente pelo fato da igreja ter pouco conhecimento sobre esses costumes
e ensinos, não entendem da onde vem os ensinos dele e acreditam que ele
estabeleceu uma nova lei que substituiu a Torah.
Podemos usar de exemplo o hábito que os fariseus tinham em relação
ao jejum, era costume dos sábios da época ensinarem que Deus mandava seu
povo jejuar duas vezes na semana, toda segunda-feira e quinta-feira, e que
para o jejum ser válido, afirma a tradição, as pessoas deveriam ficar tristes
como prova de humildade perante o Criador e para sentirem na pele a dor de
um sacrifício. Yehoshua faz um comentário bem breve em relação a
justamente esse costume rabínico:

Ainda disse para eles que quando jejuarem não sejam como os hipócritas
que mostram a si mesmos como tristes e que mudam suas faces para que os
homens vejam que jejuam. Mas eu digo a vocês que já receberam o mérito.
E nos jejuns de vocês lavem suas cabeças.
Não pareçam aos homens que estão jejuando, mas ao Pai que está em
segredo e o Pai que está em segredo lhe completará (recompensará).
Mateus 6:16-18
Yehoshua, claramente, foi contra a maneira dos fariseus de jejuar,
talvez se algum quisesse jejuar todos os dias, de certo Yehoshua o apoiaria,
mas o ponto que ele debate é justamente o “mandamento” em relação a
necessidade de sentir algum tipo de tristeza no momento do jejum. O
interessante é que o sentimento de tristeza não é algo controlado pelo ser
humano, ninguém fica triste quando quer, é algo que simplesmente acontece,
sendo assim, a única forma de aparentar essa tristeza é justamente
demonstrando-a pela face de uma forma hipócrita.
Outro exemplo que podemos usar de como Yehoshua usou de sutileza na
crítica referente aos costumes poucos conhecidos da época, se encontra no
capítulo 11:

E quando veio Yohanan que não comia nem bebia, falavam dele: está
possuído por demônios.
E os homens vão comer e beber e falam que ele é glutão, beberrão e
amigo de homens violentos e pecadores. Os tolos julgando os sábios.
Mateus 11:18-19

Nessa passagem, Yeshoshua critica algumas pessoas que falavam mal de


Yohanan, o imersor, dizendo pelo fato de não comer e nem beber, estava
possuído de demônios, enquanto essas mesmas pessoas eram glutonas e
beberronas. Yehoshua nessa parte se refere a um documento datado do século
primeiro, o qual afirma que todos os fariseus, que serviam a Deus, mereciam
um rico banquete de comidas e bebidas a cada hora do dia e deveriam amar
festejar, comer e beber do momento em que acordam até a hora de deitar.
Yehoshua fazia uma clara crítica, que me parece até possuir um certo tom
irônico, à essa tradição estipulada por algum rabino.
Os fariseus possuíam uma grande autoridade e influência sobre as massas,
isso devido a dedicação que tinham ao estudo da Torah Escrita e da Torah
Oral. Toda sinagoga, oração, celebração das festas e ensinos das Escrituras,
eram realizados por eles. Assim como nos dias de hoje, a grande maioria das
sinagogas, ensinos, rituais de conversão e interpretação da Torah, se
encontram nas mãos dos rabinos ortodoxos.
Por outro lado, devemos observar que a teologia farisaica se alinha quase
que perfeitamente com os ensinos neo testamentários. Muitos acreditam que
Yehoshua era um essênio, é bem verdade que os costumes desse grupo se
assemelha muito com o que Yehoshua ensinava, mas isso era devido ao fato
desses ensinos também se assemelharem a mentalidade farisaica. Existem
dois pontos muito importantes que devemos levar em consideração ao
pensarmos que Yehoshua era essênio, o primeiro é que esse grupo não
acreditava na ressurreição dos mortos, o que de cara vai contra com um dos
feitos mais importantes de Yehoshua, o segundo é que eles eram contra
qualquer tipo de ministério público e Yehoshua claramente teve um. Só esses
dois pontos são suficientes para derrubar qualquer hipótese que ele fazia parte
dessa sociedade.

Os Nove Tipos de Fariseus


Para entrarmos de uma forma mais profunda sobre os hipócritas e sobre
aqueles os quais Yehoshua tanto criticava, devemos olhar para os tipos
comuns de fariseus que são descritos de acordo com a Enciclopédia Judaica:

1- Fariseu Shechem - aquele que colocava sobre os próprios ombros sua


observância para que todos vessem;
2- Fariseu Lento – sempre atrasando aos outros quando queria realizar
alguma mitzvah para que todos acabassem vendo;
3- Fariseu Cego – sempre trombando com a parede, pois vedava os olhos
para não olhar para as mulheres;
4- Fariseu Manipulador – usava das leis para tirar proveito;
5- Fariseu Orgulhoso – sempre contando suas boas obras, mas anda em
hipocrisia;
6- Fariseu Torto – ensina erroneamente a Torah;
7- Fariseu inocente – faz sem saber o porquê faz;
8- Fariseu Temente – aquele que era um verdadeiro tzadik, assim como Jó
foi;
9- Fariseu Amante de Deus – assim como Abraham, possuía uma afeição
muito forte por Deus.

Os sábios no Talmud, no Tratado Sotah 22b, alegam que se fosse


pelos sete primeiros tipos de fariseus dessa lista, Deus destruiria o mundo
devido a enorme hipocrisia que possuíam, mas que devido aos dois últimos,
ele resolver manter Sua criação. Ao olharmos para o Capítulo 23 do livro de
Mateus, Yehoshua lança “as sete vergonhas sobre os fariseus” e elas se
encaixam perfeitamente com os sete primeiros tipos dessa lista:
Fariseu Shechem - Vergonha a vocês hipócritas, fariseus e sábios, que
constroem os túmulos dos profetas e honram os monumentos dos sábios. (ver
29);

Fariseu Lento - Vergonha a vocês sábios e fariseus, hipócritas, que


parecem sepulturas, bonitas e brancas por fora para homens, porém por
dentro são cheia de ossos dos mortos e imundice. (ver 27);

Fariseu Cego - Vergonha a vocês, cegos na cadeira, que dizem que


aquele que jura pelo Templo não é obrigado (a cumprir), mas aquele que jura
por qualquer coisa que é consagrada ao Templo é obrigado a pagar. (ver 16);

Fariseu Manipulador - Vergonha a vocês fariseus e sábios, hipócritas,


devoram e dividem os bens das viúvas através do DERESH ARUKH, por
isso sofrerão grande punição. (ver 14);

Fariseu Orgulhoso - Vergonha a vocês fariseus e sábios, hipócritas,


fecham o Reino dos Céus aos homens e aos que querem entrar vocês não
deixam que entrem. (ver 13);

Fariseu Torto - Vergonha a eles, sábios e fariseus, que dizimam menta,


dill e romã. Mas que cometem roubos. É melhor honrar as sentenças da
Torah, que são: Chessed, a verdade e a fé. A Torah é digna de ser seguida,
nunca se esqueçam disso. (ver 23);

Fariseu Inocente - Vergonha a vocês, fariseus e sábios, que submergem


os copos e os pratos por fora e por dentro estão cheios de maldades e
impurezas. (ver 25).

Yehoshua não critica aos fariseus de forma geral, nem tão pouco ao
farisaísmo, mas sim alguns tipos de comportamento que eram muito comuns
dentro desse grupo. Tais comportamentos são muito comuns dentro de
qualquer religião, podemos vê-los ainda nos dias de hoje dentro do judaísmo,
em todas suas esferas e também dentro da igreja, todas elas.
O novo testamento também fala sobre esses dois últimos grupos de
fariseus, como Nicodemus, José de Arimateia e o rabino Gamliel, assim
como muitos outros que seguiam a Yehoshua. Flavius Josefvs escreveu sobre
os fariseus: “Os fariseus são reconhecidos pela impressionante habilidade da
exata intepretação da palavra de Deus” e deve ser por isso que esse foi o
único grupo que existe até hoje, conhecido como Judaísmo Rabínico, ou
Ortodoxo.

A Misericórdia Farisaica
Em comparação aos outros dois grupos, saduceus e essênios, os fariseus
eram aqueles que tinham maior compaixão em relação ao próximo,
ensinavam as escrituras por amor e realmente eram tementes a Deus.
Praticavam uma leniência muito grande quando se tratava de aplicações de
punições referentes às quebras das Leis de Deus e sempre buscavam a justiça
divina em tudo que faziam.

Um Sanhedrin que aplica uma pena de morte a cada sete anos é uma
corte assassina
Mishnah Makkot 1:10

Eles faziam o que podiam para evitar qualquer tipo de punição que
custasse a vida de alguém e desenvolveram diversas leis e costumes para
tanto. Um caso interessante era um costume que possuíam; se caso houvesse
uma sentença de morte, tentavam amenizar o sofrimento do condenado, o
Talmud relata algumas misturas que poderia ser feitas e dadas às pessoas para
que as dores sofridas fossem menores e a punição menos sofrida, tal atitude
aparece de uma forma não muito clara no livro de Mateus:

E deram a ele vinho misturado com MARAH (Extrato de uma planta


extremamente amarga). Mas quando ele começou a beber, ele percebeu e
não bebeu.
Mateus 27:34

Uma dessas fórmulas é justamente a mistura de vinho com marah, ela


servia como anestésico para a dor e de certo, a pessoa que tentou dar esse
líquido a Yehoshua, era um fariseu, pois assim determinava a Torah Oral.

A Autoridade Rabínica
Um dos princípios fundamentais da fé farisaica/rabínica é a absoluta
autoridade dos rabinos para interpretar as Escrituras, o que eles falam e
decidem em termos religiosos, mesmo quando estão errados, se torna lei.
Quando um rabino diz que o céu não é mais azul, é vermelho, isso se torna lei
e verdade dentro da comunidade na qual ele faz parte.
Uma história relatada no Talmud da Babilônia, deixa esse conceito bem
claro:

Um dia Rabbi Eliezer foi engajado em um debate sobre um determinado


tipo de forno que não poderia ser usado, pois não removeria as impurezas
dos alimentos. Porém todos os outros rabinos ali presentes alegavam o
oposto.
Por não conseguir convencer aos outros rabinos, Rabbi Eliezer ficou
muito frustrado e para resolver tal situação, ele resolve invocar um milagre,
então Rabbi Eliezer grita: “se estou certo, que as árvores confirmem”. Então
um grande barulho foi ouvido do lado de fora e quando os rabinos foram
olhar o que estava acontecendo pela janela, todas as árvores do jardim
estavam prostradas.
Todos da sala ficaram impressionados e viraram ao Rabbi Eliezer e
disseram: “Nós não damos ouvidos a meras árvores”. Então Rabbi Eliezer
tentou mais uma vez e gritou: “Se eu estiver certo, que o rio confirme”.
Todos da sala correram para o lado de fora e viram que o rio que cortava a
cidade começou a correr em sentido oposto ao usual. Nesse momento todos
os rabinos ficaram extremamente impressionados e disseram: “Nós não
damos ouvidos as águas”. Rabbi Eliezer, profundamente irritado, gritou
mais uma vez: “Se eu estiver certo, que o Céu confirme”. Então todos
ouviram uma voz vinda do céu, dizendo: “Porque vocês descordam de Rabbi
Eliezer, já que ele está correto?” e disseram os rabinos ali presentes: “Nós
não damos ouvidos aos céus, já que a Torah não está lá, está aqui, sob
nossos cuidados”. Então Deus sorri e diz: “meus filhos me venceram, meus
filhos me venceram”.
Talmud da Babilônia, Tratado Bava Metzia 59b

A passagem da Torah que eles usam para corroborar com essa ideia se
encontra com Deuteronômio 30:12, porém utilizam apenas o comecinho
desse versículo, “não está nos céus” e de uma forma totalmente fora de
contexto, usam para afirmar que, como a Torah não está nos céus e sim na
terra, nas mãos dos homens, cabe a eles decidirem como interpretá-la. Essa
ideia pode ser um pouco estranha, pois por exemplo, vivemos nessa terra e
não nos céus, quer dizer então que nossas vidas não estão nas mãos do
Criador? Acho isso um pouco perturbador.
Por um outro lado, os rabinos também ensinam “Tudo está nas mãos dos
céus, exceto o temor aos céus”. Se colocarmos ambos os conceitos lado a
lado, teremos uma enorme contradição, pois por um lado afirmam que como
a Torah está na terra, estando sujeita as decisões do homem; já nossas vidas,
vividas também na terra, em contra partida, estão nas mãos dos céus. Uma
enorme incoerência.
Fora a hipocrisia, era esse tipo de discordância de ensinos rabínicos que
Yehoshua repudiava, ele batia de frente e refutava as tradições e
interpretações rabínicas que contradiziam aquilo determinado por Deus na
Torah, iremos ver isso por todo o livro de Mateus.

Yehoshua, O Fariseu
Yehoshua era um fariseu típico, seus ensinos comprovam isso claramente,
porém possuía opiniões divergentes em relação à algumas regras rabínicas
que acabavam indo contra ou substituindo a Torah Escrita, a qual para ele,
estava acima de todas as coisas.
Os maiores embates que Yehoshua teve e que passou a impressão que ele
atacava ao farisaísmo, na verdade, não passavam de críticas, críticas duras
contra a hipocrisia para a defesa do próprio movimento farisaico e da Torah.
A forma que ele fazia isso era justamente ensinando que servir a Deus não
pode ser por atitudes externas per se, mas que elas deveriam ser resultados da
fé e do amor que a pessoa possuía por Deus e que jamais nenhuma regra
humana poderia se sobressair àquilo que está escrito na Lei de Moises.
Infelizmente o novo testamente trata o fariseu como um grupo homogêneo e
contrário a nova religião de cristo, mas na verdade, esses embates se davam
apenas com alguns pequenos grupos de fariseus provenientes de outras
escolas, a grande massa desse grupo claramente concordava com Yeshohua e
isso podemos ver em outros ensinos farisaicos.

Os céus tudo sabem, e a grande corte dos céus irá trazer a exata punição
àqueles que usam o manto de tzadikim, mas de fato são indignos por dentro.
Talmud da Babilônia, Tratado Sotah 22b

Não temam os fariseus nem os saduceus, mas de fato temam os hipócritas


que se parecem com os fariseus, os quais tem atos parecidos com o perverso
Zimri.
Talmud da Babilônia, Tratado Sotah 22b
Isso mostra que dentro do movimento farisaico existia o problema da
hipocrisia, assim como em todas as religiões modernas e antigas, e os grandes
sábios eram contra a esse tipo de atitude. Portanto, as críticas que Yehoshua
fazia não podem ser vistas como uma crítica a um grupo, ou a esse
movimento, porém a alguns indivíduos que faziam parte desse grupo. Dentro
de todas as críticas que ele fazia, ele acabava se alinhando com o próprio
movimento e mentalidade farisaica, fazendo dele cada vez mais fariseu.

Fariseus, os inimigos de cristo


O termo fariseu se tornou sinônimo de hipocrisia e assassino de cristo
desde os primórdios da teologias cristã. Foi justamente esse grupo que
inspirou alguns pais da igreja a comporem obras extremamente antissemitas,
como no caso de João Crisóstomo e Martinho Lutero:

A sinagoga dos judeus é um lugar pior que um bordel ou um bar: refúgio


de malandros, toca de feras selvagens, templo de demônios, esconderijo de
ladrões e pervertidos, caverna de demônios, uma assembleia de assassinos
de cristo. São todos dignos de abates.
João Crisóstomo, Adversus Judeos, vol.68

Os judeus são pequenos demônios destinados ao inferno. Queime suas


sinagogas, force-os a trabalhar e trate-os com toda severidade. São inúteis,
devemos tratá-los como cachorros loucos, para não sermos parceiros em
suas blasfêmias e vícios e para que não recebamos a ira de Deus sobre nós.
Martin Luther, pai das igrejas protestantes e evangélicas

Assim como os fariseus foram os “caras maus” do novo testamento, eles


também foram os caras bons. Eu acredito que antes que a igreja julgue os
fariseus, ela deveria olhar para a própria história, não apenas a católica, mas
todas as vertentes, pois o berço é o mesmo para todas. Vemos muitas
vertentes onde proíbem mulheres de usarem maquiagens, brincos, apenas
devem usar saias, homens não podem usar shorts e até em casos extremistas,
algumas denominações alegam que mulher que masca chiclete é pecadora.
Tais atitudes e doutrinas não se diferenciam em nada do que era praticado e
ensinado pelo farisaísmo da época de Yehoshua. Algumas coisas sobre o
farisaísmo deve ser compreendida, pois foram eles os primeiros a
desenvolveram lugares de adoração (sinagogas que inspiraram igrejas), foram
eles que começaram com o “evangelismo” através do envio de missionários a
todos os lugares, foram eles que começaram com a ideia da possibilidade de
cada ser humano ter a capacidade de ter um relacionamento íntimo com o
Criador, foram eles que desenvolveram a estrutura espiritual de anjos, de
demônios e, principalmente, foram eles que educaram a Yehoshua.
Tanto o cristianismo, quanto o judaísmo, devem muito a esse grupo e aos
sábios que dali saíram.

Adoração Farisaica
Devido ao exílio babilônico, foi necessário ao povo de Israel desenvolver
outras formas de adoração a Deus e, segundo os fariseus, um dos mais
importantes deles é o estudo da Torah. Foi por causa da falta de
conhecimento da palavra de Deus que o povo não soube se comportar,
gerando a desobediência pela qual Deus permitiu a destruição do Templo.
Toda sinagoga do primeiro século, assim como nos dias atuais, é basicamente
dividida em duas partes, a Beit Tefilah (casa de oração) e Beit Midrash (casa
de estudo). Ambas as casas estavam dentro da mesma Beit Knesset
(sinagoga) e possuem funções distintas.
A Beit Tefilah é onde se encontram os rolos da Torah e é o lugar onde as
pessoas se reúnem para a leitura da mesma na noite de Shabbat e para todo o
tipo de oração e adoração a Deus. Já a Beit Midrash é onde se estuda as
Escrituras, tanto a Torah Escrita quanto a Torah Oral, de acordo com a visão
e o entendimento do grupo ortodoxo da qual essa sinagoga faz parte.
O interessante é que Yehoshua faz uma menção sobre essa estrutura em
uma conversa com Pedro conforme relatado no livro de Mateus:

E eu lhe digo que você é rocha e eu construírem sobre ti minha BEIT


TEFILAH. E os portões do Gehinam não prevalecerá perante TI.
Mateus 16:18

Por causa das inúmeras modificações do novo testamente feitas pela


igreja, perdemos a essência do que Yeshoshua estava fazendo e isso acabou
levando muitos a acreditarem que ele estava fundando uma nova religião. O
que Yehoshua estava determinando naquela conversa com Pedro era
justamente uma Beit Tefilah, uma casa de oração. O que impressiona é que
ele não fala um Beit Knesset, nem tão pouco uma Beit Midrash, ele fala
apenas sobre o lugar onde é feito a leitura da Torah e a oração a Deus, isso
mostra que a estrutura da Beit Midrash deveria ser mantida. Em termos mais
simples, Yehoshua trouxe uma nova interpretação da Torah, o que permitiu
um contato mais íntimos com o Criador e isso gerou uma forma de orar, de se
aproximar a Deus, muito além dos costumes da época, porém os estudos, a
forma de ensinar, o que deveria ser aprendido, deveria ser mantido, ou seja, a
forma farisaica. O ensino da Torah Escrita e aquilo sobre a Torah Oral que
não se opunha à Torah Escrita, deveriam ser ensinados e praticados e é nesse
ponto onde muitos escorregam, sendo esse um dos motivos que trouxe a
igreja tão distante de se aproximar do verdadeiro Povo de Israel.

Reação Farisaica aos Milagres


De acordo com a literatura judaica, Yehoshua não foi o único a realizar
milagres. Rabinos como Onias e Hanina Ben Dosa são lembrados pelos
inúmeros milagres de cura que realizaram, desde cura de surdos-mudos até
doenças mais sérias. Milagres e expulsão de demônios não eram coisas
incomuns no judaísmo do primeiro século, Yehoshua inclusive faz um
comentário crítico a respeito de milagres que eram feitos por alguns fariseus:

E se eu expulso demônios por Baal Zevuv, então por que o filho de vocês
não os expulsam? Eles serão seus juízes.
Mateus 12:27

Porém existia um milagre o qual ninguém nunca havia feito, a cura de um


leproso e tal fenômeno foi vastamente mencionado no novo testamento como
prova do messianismo de Yehoshua, já que Mashiach realizaria atos que
homem algum poderia realizar. Quando Yohanan, o imersor, manda seus
talmidim perguntarem a Yehoshua se ele era Mashiach, dentre muitos feitos,
Yehoshua menciona que os leprosos estão puros, mostrando um feito nada
comum em toda a história judaica.
Segundo a Torah, toda cura de lepra deveria ser reportada a um sacerdote,
o qual deveria declarar que a pessoa se tornou ritualmente pura. Nesse
momento uma oferta deve ser entregue no Templo para confirmar a cura
perante Deus:

No oitavo dia ele deve levar dois cordeiros sem defeito, sendo um deles
em seu primeiro ano de vida sem defeito, três décimos de medida de farinha
escolhida misturado com óleo para a oferta de alimento e um log de óleo.
Isso deve ser apresentado perante Adonai junto com o homem a ser
purificado, na entrada na tenda da congregação, pelo sacerdote que fará a
limpeza.
Levítico 14:10-11
Apesar de muitas pessoas acreditarem que Yehoshua aboliu a Torah, na
verdade, ele incentivava e exigia a sua prática. Em um dos casos que ele cura
a um leproso, ele ordena a essa pessoa que ele se apresente ao sacerdote e
faça uma oferenda, assim como determinado na Lei:

Estendeu Yeshua sua mão, tocando-o, disse: eu desejo que você seja
purificado e naquela hora o leproso foi purificado da sua lepra.
E disse Yeshua a ele: tenha cuidado ao contar isso aos homens, vá ao
sacerdote e ofereça uma oferenda como ordena a Torah de Moisés.
Mateus 8:3-4

Tal fato é de extrema importância, pois além de mostrar que realizava


milagres que iam além dos realizados pelos fariseus, ele ensinava a
importância da observância da Torah em seus mínimos detalhes.
Yehoshua foi um grande fariseu, conhecedor da Torah Escrita e da Torah
Oral, ele foi muito claro em seus ensinos que afirmavam que nenhum
mandamento deve ser adicionado ao já determinado por Deus e que as
interpretações que poderiam ajudar ao próximo a seguir aos mandamentos,
seriam bem aceitos por Deus. Porém, Yehoshua ia claramente contra àqueles
que insistiam em adicionar coisas a Lei de Deus e que as ensinavam como se
fosse o próprio Deus que as ordenou. Fora a hipocrisia, esse foi a motivo que
causou os maiores embates entre ele e alguns fariseus.
◆◆◆
SEÇÃO III
AS TORAH’S

O Povo de Israel nasceu de uma promessa feita por Deus a Abraham, em


um momento da história onde poucas pessoas serviam ao Deus Verdadeiro. O
mérito que Abraham teve perante Deus, ao renunciar a idolatria de sua época
e de sua casa, lhe tornou digno de ser o primeiro patriarca de um povo
formado e escolhido por Deus. Essa promessa se concretizou em sua forma
plena no pé do monte Sinai, no momento em que Moises sobe ao seu topo e
recebe a Torah das próprias mãos de Deus.
A mística judaica conta que a Torah foi criada por Deus em sua totalidade
antes da criação do mundo, assim como um engenheiro desenha uma planta
antes de começar a obra. Deus criou a Torah e com base nela, criou todas as
coisas conforme descritas no livro de Genesis, pois Deus a usou para colocar
ordem no mundo que acabara de criar. O momento em que ela é entregue no
monte Sinai, é o momento de sua materialização e da revelação mais
profunda de quem é o verdadeiro Deus Criador e como Ele deve ser seguido
e amado.
A palavra Torah significa “alvo”, pois é o padrão que todos os que
seguem a Deus devem atingir. Apesar de fortemente associada ao judaísmo,
por ser a coluna cervical da fé do povo judeu, na realidade, ela foi entregue a
um povo, ela não é um guia religioso e sim um guia de vida para aqueles que
querem seguir ao Verdadeiro e Único Deus. É de vital importância que todos
possam desvencilhar a Torah da religião judaica, para que assim possam
entender que ela serve para ajuntar aos que temem a Deus embaixo de Suas
asas.
Dentro do judaísmo moderno, assim como no primeiro século, existem
duas Torah’s, a Torah she-bichtav e a Torah she-b'al’pei, que são a Torah
Escrita e a Torah Oral. Essa segunda Torah é o que realmente define a
religiosidade e rituais religiosos da religião judaica. A compreensão de ambas
é de extrema importância para quem quer entender o novo testamento, pois
ele é composto de livros escritos por judeus e para judeus, e judeus
fortemente conhecedores e influenciados por ambas as Torah’s, inclusive
Yehoshua.

TORAH ESCRITA
A Torah Escrita é o verdadeiro livro santo, é a única parte da bíblia que
não foi inspirada por Deus, mas revelada por Deus, o que dá um peso muito
maior a sua importância. A palavra Torah se refere aos cinco primeiros livros
da bíblia – Bereshit (Genesis), Shmot (Êxodo), Vayikra (Levítico), Bamidbar
(Números) e Devarim (Deuteronômio) – porém o termo Torah tem um
significado que vai além do que um nome de uma coletânea de livros antigos,
esse termo abrange fundamentos, leis, conceitos, revelação e tudo a respeito
do Único Deus.
O peso que a Torah Escrita possui é indescritível, Yehoshua, os
apóstolos, Paulo e todos que aparecem no novo testamento viveram,
pregaram, ensinaram e propagaram a Torah, tanto entre os gentios quanto
entre os judeus. Ela foi a base de todos os ensinos de Yehoshua e ele sempre
a colocou acima de qualquer outro ensino proveniente de homens. Sua vida
foi voltada a esse livro e ele trouxe uma interpretação própria a respeito dela
e isso é o que melhor define seu ministério em vida.
Muitas pessoas, principalmente as cristãs, acreditam que a Torah foi
abolida por Yehoshua, se esse fosse o caso, Yehoshua seria um herege,
blasfemo e longe de ter autoridade de se declarar filho de Deus, pois ele
estaria acabando com a maior obra daquele que ele chamou de Pai. Quem
realmente acabou com a Torah foram os pais da igreja, o catolicismo, o
protestantismo, a igreja evangélica e todas as outras denominações que
nasceram da igreja de Roma, sem exceção, todos os ramos cristãos estão e
sempre estarão ligados ao paganismo da igreja católica, mesmo que alguns
não acreditem em seus santos, ídolos e doutrina.
A restauração que virá antes da era de Mashiach é justamente a volta do
entendimento da importância da Torah em todo o mundo, e aqueles que
aceitarem seu jugo serão as verdadeiras ovelhas perdidas da casa de Israel.

TORAH ORAL
Dizem os sábios que quando Moises estava sobre o monte Sinai, tudo
aquilo que lhe foi entregou para escrever, foi dito pela boca do próprio Deus,
e foi essa a forma que Moises ensinou, de forma oral, a Torah Escrita. Tudo
que é passado verbalmente, ainda mais na época em que a escrita era feita em
rolos, é muito mais claro e detalhado, portanto, dizem os sábios, que a Torah
Oral possuí todos os detalhes omitidos na Torah Escrita.

Essas são as leis, regras e TOROT (plural de Torah) que Adonai


estabeleceu, através de Moises no monte Sinai, entre Ele e o Povo de Israel.
Levítico 26:46

O plural é usado pois existem duas Torah’s, uma escrita e outra pelas
palavras da boca.
Rashi, Levítico 26:46

Nessa passagem do livro de Levítico, em seu idioma original, a palavra


Torah realmente aparece no plural, aludindo assim à duas Torah’s que foram
entregues por Deus no monte Sinai. É bem possível que Deus tenha revelado
muitas coisas a Moises que iam além daquilo que foi escrito, como vemos na
seguinte passagem:

Boca a boca falo com ele, claramente e não por enigmas


Números 12:8

A maioria das mitzvot (mandamentos) da Torah Escrita não são


explicados, sendo a observância do Shabbat uma delas, pois não possui
nenhuma instrução específica além da proibição do trabalho. Todas essas
explicações de como todas as 613 Leis encontradas na Torah Escrita devem
ser observadas, estão na Torah Oral.
Segundo Rabbi Aryeh Kaplan, a Torah Oral se manteve de forma oral por
muitos anos, pois deveria ser passado de mestre para discípulo, não sendo
possível de ser aprendida por alguém sozinho, o que impede diversas
ambiguidades. Outro ponto que os sábios ensinam sobre a importância da
Torah Oral, é que Deus saberia que o livro santo cairia nas mãos dos gentios
e ficaria a mercê de interpretações pobres e errôneas, portanto a Torah Oral
foi uma exclusividade para o povo judeu, caso contrário esse povo deixaria
de ser único e singular. A Torah Oral não apenas explica a Torah Escrita, mas
é ela que define o povo judeu e que o distingue de todas as outras religiões do
mundo.

Mishnah
Moises, durante sua vida, ensinou a Torah Oral, principalmente a seu
discípulo Yehoshua Ben Nun, o qual por sua vez, a transmitiu aos anciões de
Israel, os quais ensinaram aos profetas e juízes do Sanhedrin. O Sanhedrin
era a corte suprema de Israel onde se encontravam os juízes que julgavam os
casos de acordo com a Torah. Durante o período do segundo Templo, esse
juízes começaram a codificar os ensinos da Torah Oral, a qual foi chamada de
Mishnah.
No ano de 188 e.c. um rabino chamado Yehuda Ha-Nasi reuniu todas as
Mishnot, comentários da Torah, explicações e tradições e os reuniu em um
único livro que se tornou o Talmud que existe nos dias de hoje. Isso ocorreu
devido ao medo que tinha por uma segunda diáspora do povo judeu e tais
tradições fossem esquecidas.

Talmud
Assim como existem duas Torah’s, também existem dois Talmuds, o
Talmud de Jerusalém e o mais importante, Talmud da Babilônia.
Todas as vezes que os sábios estudavam a Torah Oral, a Mishnah, eles
davam opiniões, faziam análises e abriam discussões com outros rabinos para
esclarecer aquilo que estava escrito na Torah Escrita e na Mishnah, e tais
feitos ficaram conhecidos como Gemarah, que nada mais são do que os
comentários rabínicos sobre a Mishnah, que é a Torah Oral.
No ano de 505 e.c. foi-se compilado a Mishnah, seus comentários
conhecidos como Gemarah, a baraita que são obras externas a Mishnah e a
halachah que é a própria lei judaica, e nisso nasceu o que temos hoje como
Talmud. Por ter sido escrito na região da Babilônia, o nome adotado foi
justamente Talmud da Babilônia. Um compilado de livros que possuem 517
capítulos e 63 tratados, o qual é o principal livro de regras dentro da religião
judaica, mais forte que seu irmão, o Talmud de Jerusalém. Apesar de ter sido
escrito no papel depois da época de Yehoshua, tais conceito, leis, regras e
ensinos, já eram vastamente ensinados e vividos em sua época. Todo judeu
do primeiro século era educado segundo os ensinos que encontramos hoje no
Talmud, assim como Yehoshua certamente foi.
Segundo os sábios, o Talmud deve ser aceito por todo o povo judeu como
sendo a verdadeira fonte de leis da Torah e por isso, não deve ser revogado
por autoridade nenhuma e é justamente nesse ponto que começa todo o
problema que Yehoshua tinha.
Sem nenhuma sombra de dúvida, Yehoshua foi educado segundo o
Talmud, ao lermos os seus ensinos no livro de Mateus isso fica mais do que
comprovado. Yehoshua nunca foi contra a existência da Torah Oral, da
Mishnah, da Gemarah ou das tradições judaicas, pois por diversas vezes, seus
ensinos seguiam o que ali era ensinado da forma que ali era determinado.
Porém ele tinha uma coisa muito clara na cabeça e foi isso que ele passou a
vida ensinando, nenhuma lei, nenhuma regra, nenhum mandamento que
provém do homem NÃO pode, de forma alguma, ir contra qualquer
mandamento da Torah Escrita, NÃO pode, de forma alguma, anular algum
mandamento da Torah Escrita e principalmente, nenhum mandamento
referente ao Talmud deve ser ensinado como algo que “Deus que mandou”.
Fora a hipocrisia, que é algo natural do ser humano, os maiores
embates que Yehoshua travou, tratavam única e exclusivamente da Torah
Oral e como ela transformava o comportamento do povo perante Deus, o
afastando ou o aproximando da verdadeira vontade divina.

A ETERNIDADE DA TORAH
A Torah é um livro eterno, mesmo se passarem os céus e a terra, a Torah
continuará a existir. Nenhum sábio, profeta, rabino, apóstolo e nem mesmo
Mashiach pode anular ou abolir a Torah. Todo aquele que vem em nome de
Adonai, mesmo que realize milagres e curas, se alterar ou revogar uma
vírgula da Torah, é um falso profeta, falso sábio ou um falso Mashiach.
Quem acredita em um Mashiach que aboliu o livro mais sagrado de todos,
acredita em um ser místico, criado por mentes pagãs com intenções escusas.
Na era de Mashiach, a verdade será revelada e o mundo reconhecerá a Torah
como o verdadeiro e único mandamento divino a humanidade.
◆◆◆
SEÇÃO IV
SHAMMAI E HILLEL

Posso afirmar com convicção que é impossível entendermos a pessoa


de Yehoshua, assim como seus ensinos, se não tivermos ao menos um bom
conhecimento sobre a fé que ele professava e o contexto histórico social no
qual ele estava inserido. O judaísmo de sua época, assim como nos dias de
hoje, sofre uma forte influência da chamada Torah Oral, também conhecida
como Talmud, a qual engloba todos os debates rabínicos sobre as
interpretações das leis da Torah.
O judaísmo do primeiro século já tinha a Torah Oral muito bem
definida, a qual estipulava e regulava a vida de todos os judeus, as escolas
dessa época focavam muito nos ensinos da Mishnah e da Gemarah, que
abordam os debates e as aplicações das leis rabínicas.
Dois dos maiores rabinos do Talmud são exatamente contemporâneos
de Yehoshua, Rabbi Hillel e Rabbi Shammai, só os dois possuem mais de
trezentos embates e discussões por todo o Talmud, o que os tornam os dois
maiores legisladores de muitas leis rabínicas. Entender a vida desses dois
rabinos é de extrema importância para entendermos a Yehoshua, pois ele
fazia parte da escola de Hillel, a qual era vigente na Galileia e ele sofria de
grande influência da visão desse rabino e de seus ensinos talmúdicos. Já a
escola de Shammai, era muito forte na região de Jerusalém e seus alunos
tinham muitas discussões com os alunos da escola de Hillel.
Os ensinos de Yehoshua tinham como base a Torah e o Tanakh, mas a
ferramenta que ele usava era o Talmud, tanto de uma forma positiva quanto
de uma forma crítica. Muitos dos embates que ele teve com outros fariseus
foram justamente embates que já existiam entre essas duas escolas, o que nos
mostra que os fariseus que o confrontavam, na verdade, eram prováveis
alunos da escola de Shammai, pois sempre batiam em pontos em que os dois
rabinos discordavam.

RABBI HILLEL
Hillel nasceu na Babilônia e foi levado à Yehudah aos quatorze anos de
idade, ele era descendente a linhagem de David pelo lado de sua mãe e foi
apontado pelos sábios de sua época como um Nasi (líder do Sanhedrin).
Hillel era conhecido como alguém que preservava o amor, o humanismo, os
direitos humanos, a bondade, a compaixão e tinha uma paciência inquebrável.
Hillel foi um dos primeiros formuladores das halachot (leis judaicas) e de
como um judeu deveria observar a Torah de forma correta. Ele também era
conhecido por ter feito uma grande revolução espiritual dentro do judaísmo,
pois foi um dos primeiros a falar sobre uma conexão mística entre Deus e o
homem e como Deus poderia falar e se comunicar com cada indivíduo de
uma forma clara e direta. Apesar disso ter criado diversas discórdias na
época, hoje é muito bem absorvido pelo judaísmo, assim como foi por
Yehoshua e pela fé cristã.
Hillel era um homem a favor da paz, sempre respondia a todas as
perguntas que lhe eram feitas, tinha um enorme apreço por todos os seres
humanos, sendo que sua escola era a única que aceitava não judeus,
ensinando assim a Torah à todas as nações.
Hillel foi realmente um revolucionário em sua época e podemos ver
muito de sua forma de pensar nos ensinos de Yehoshua, pois se assemelham
muito com o que era ensinado por esse rabino. Sendo ele o autor da famosa
frase: “não faça para os outros aquilo que você não quer que façam para
você.”
Ele também teve forte influência política, pois desenvolveu diversas leis
que ajudaram a manter a economia judaica viva em sua época.

E tudo o que desejar que os homens façam para você, faça a eles, essa é
toda a Torah e os profetas.
Mateus 7:12

O não judeu veio perante Hillel e Hillel o converteu e disse: “Aquilo que
você não quer para você, não faça ao próximo, essa é toda a Torah, o resto é
comentário, vá e estude”.
Talmuda da Babilônia, Tratado Shabbat 31a

RABBI SHAMMAI
Shammai era conhecido por ser um homem extremamente íntegro e
correto em seus caminhos, porém com muito pouca paciência. Teve uma
postura muito firme em relação a opressão estrangeira sob a qual Yehudah se
encontrava e isso o levou a se tornar Nasi após a morte de Hillel.
Shammai sempre levou a observância das Leis de Deus de uma forma
muito dura e radical, não aceitava concessões, nem desculpas e nem tão
pouco “jeitinhos” quando se tratava de obediência ao Criador. Seus alunos
eram facilmente reconhecidos, pois era possível ver neles a forma radical e
exaltada de Shammai.
Apesar do radicalismo de Shammai, ele era um homem que possuía um
extremo amor à Torah e ao seu povo.

Os sábios ensinaram em uma baraita: Uma pessoa deve ser sempre


paciente como Hillel e nunca impaciente como Shammai.
Talmud da Babilônia, Tratado Shabbat 30b

BEIT HILLEL E BEIT SHAMMAI


Hillel e Shammai vieram da mesma escola, ambos foram discípulos de
Rav. Shemaya e Rav. Avtalyon e por isso, a princípio, possuíam poucos
pontos de discórdia, sendo eles apenas três. Porém devido aos problemas
sociais da época, eles acabaram se dividindo em duas escolas diferentes, Beit
Hillel e Beit Shammai e a partir de então acabaram em disputas por mais de
trezentos casos.
Na maioria dessas disputas, Beit Shammai era muito mais restrito nas
interpretações das leis, enquanto Beit Hillel possuía uma abordagem mais
leniente, o Talmud acaba sendo favorável a Beit Hillel em diversos casos
apesar da escola de Beit Shammai ter sido muito mais numerosa do que Beit
Hillel.
A disputa era tão grande entre as duas escolas que existem registros de
alunos de Hillel fazendo ameaças a vida de alunos de Shammai, o que acabou
formando duas comunidades distintas dentro do povo judeu do primeiro
século, tanto em relação aos estudos, interpretações, escolas, jeito de levar a
vida, sinagogas e até mulheres, pois foi gerada uma proibição de casamento
entre pessoas provenientes da outra escola.

A Gemarah sugere: Venham e escutem, mesmo que Beit Shammai e Beit


Hillel discordem em vários casos, não deveriam impedir ninguém a casar
com mulheres da outra comunidade.
Talmud da Babilônia, Tratado Yevamot 14b

Yehoshua, devido a região onde foi criado, assim como é visto em seus
ensinos, claramente era fariseu da escola de Beit Hillel, toda compaixão,
bondade, espiritualidade e a forma em que entrava em embates, mostram as
atitudes que vemos nos escritos de Hillel. Para entendermos o que Yehoshua
ensinou é de extrema importância o entendimento da Torah de acordo com a
mentalidade ensinada pela Beit Hillel, pois muitas das coisas que ele falava
não são claras sem entendermos a forma de pensar desse rabino.
Por outro lado, é vital entendermos a linha de pensamento de Beit
Shammai, pois muitos dos fariseus que vinham provocar a Yehoshua eram da
escola de Shammai e eles usavam de ensinos de seu mestre para criar debates,
exatamente como ocorre no Talmud entre os alunos de ambas as escolas. As
provocações que Yehoshua sofria por parte dos fariseus, que na verdade, em
sua boa parte, eram alunos de Beit Shammai, eram coisas comuns entre as
duas escolas. Outro motivo evidente dessas discussões é devido a Yehoshua
usar de sua própria interpretação da Torah, a qual se prendia mais às Leis
escritas do que às leis dos homens, o que era muito diferente dentro da
mentalidade de Shammai.
Muito dos estudos desse livro, sobre as palavras de Yehoshua, terão por
base as interpretações de Hillel e Shammai, para que através dos ensinos
desses dois rabinos, possamos entender a verdadeira mensagem.

Rabbi Abba disse que Shmuel disse: “Por três anos Beit Shammai e Beit
Hillel discordaram”.
Talmud da Babilônia, Tratado Eruvim 13b
◆◆◆
SEÇÃO V
MASHIACH

Muitas pessoas que seguem ao jesus, o consideram o messias, e acreditam


que a função de messias nessa terra é trazer salvação à humanidade. Porém
isso não define exatamente o que é Mashiach, como muitos sabem, a palavra
hebraica Mashiach significa “ungido”, pois ele foi escolhido e ungido por
Deus para liderar e realizar Sua obra. A palavra “Mashiach” aparece 39 vezes
em todo o Tanakh e a crença em sua vinda faz parte dos 13 fundamentos da
fé judaica, conforme descrito por Maimônides.
Mashiach terá autoridade dada pelo Criador para governar todas as
nações do mundo, impor as Leis de Deus, ensinar a verdadeira vontade
daquele que É, acabar com a iniquidade e trazer o verdadeiro sentido da
criação do ser humano. Portanto, uma fé em um messias que aboliu a Torah é
crer em um ser mítico criado por mentes humanas, que nada difere do
paganismo dos tempos antigos. Por isso é de vital importância que
entendamos o que é ser o Mashiach.

Autoridade de Mashiach
O Cetro não se arredará de Yehudah, nem o legislador dentre seus pés;
até que venha Siloh, e a ele se congregarão os povos.
Genesis 49:10

A palavra hebraica SILOH (‫)שילה‬, segundo a interpretação Midráshica, é


o mesmo que (‫ – )שי לו‬tributo a ele – assim como podemos achar no livro de
Salmos:

Façam votos e paguem a Adonai o vosso Deus; todos ao seu redor


deverão trazer tributos (‫ )שי‬ao temível.
Salmos 76:12

Yaakov, de alguma forma misteriosa, já sabia sobre Mashiach na


passagem de Genesis citada acima. No momento em que ele abençoa
justamente a seu filho Yehudah, ele fala da vinda de um tal de Siloh e a ele se
congregarão os povos, já no livro de Salmos, temos o mesmo termo se
referindo a alguém que todos deverão trazer tributos, alguém temível. Isso
nos mostra a autoridade que Mashiach irá exercer, será Rei sobre todos os
povos, os quais lhe trarão tributos e ele será temido por todos.

DOIS MASHIACHIM
Ensinam nossos sábios que haverão dois Mashiachim, um chamado
Mashiach Ben Yosef e o segundo Mashiach Ben David. Na realidade, Ben
Yosef e Ben David, não representam duas pessoas, mas duas obras distintas
que serão realizadas por Mashiach.
A Torah oral possui vários tratados que lidam com essa crença,
vamos olhar para alguns:

Rabbi Ben Dosa diz: a terra lamentará sobre o Mashiach que será
assassinado... ...Isso explica que a causa é o assassinato de Mashiach Ben
Yosef.
Talmud da Babilônia, Tratado Sukkah 52a

O começo da guerra de Gog e Magog começará com a vinda de


Mashiach Ben David.
Kol HaTor 1:14

Mashiach Ben Yosef será a primeira representação de Mashiach,


conforme relatado pelos sábios, ele será assassinado e segundo um achado
arqueológico recente, chamado manuscrito em pedra do mar morto, datado
em torno de 110 anos antes de Yehoshua, esse Mashiach Ben Yosef, após sua
morte, ressuscitaria.
Já Mashiach Ben David, terá a missão de governar sobre toda a
terra, derrotar aos inimigos, restaurar o Templo e terá um reinado de mil
anos.
Por todo esse livro, irei lidar com ambas as representações de
Mashiach, porém, abordarei com mais teor a versão Ben Yosef, pois é ela que
Yehoshua declara ser, o Mashiach Ben Yosef.

Missão de Mashiach
Para um entendimento sobre Mashiach, conhecer sua missão é essencial.

A missão terrena de Mashiach Ben Yosef tem três frentes: revelação dos
mistérios da Torah, retornar os exilados e a remoção do espirito imundo da
terra.
Kol HaTor 1:11

1- REMOÇÃO DO ESPIRITO IMUNDO


O verei, mas não agora; o contemplarei, mas não agora. Uma estrela
procederá de Yaakov e um cetro subirá de Israel, que ferirá aos moabitas, e
destruirá todos os filhos de Seth.
Números 24:17

Nessa passagem temos palavras proferidas pelo profeta Bil’am, um


profeta que veio profetizar contra o Povo de Israel enquanto ele estava no
deserto, as palavras que saíram da boca desse homem são extremamente
místicas e cheias de recados ocultos.
Mencionando o patriarca Yaakov, ele profetiza que uma estrela virá dele.
O nome de Yaakov foi mudado para Israel, sendo assim, essa estrela virá de
Israel, revelando que de lá, Mashiach virá.
Segundo ponto é a afirmação “ferirá aos moabitas”, o mesmo termo
aparece em II Samuel 8:2, quando relata que o rei David “feriu aos
moabitas”. Usando exatamente os mesmos termos em hebraico, ambas as
passagens revelam que existe uma ligação dessa tal "estrela", que vem de
Israel, com a casa de David.
Por último, será sua missão final destruir os filhos de Seth. Seth, como
filho de Adam, gerou todas as nações, sendo assim, o termo “filhos de Seth”
representa as nações que não reconhecem e não seguem ao Deus de Israel.
Mashiach não terá piedade, não virá pregar pra essa gente, não virá ensinar
para que se arrependam, mas virá para destruir todas as nações inimigas de
Deus, isso que é remover o espírito imundo da terra.

2- ENSINAR TORAH
Como a definição das obras de Mashiach é fortemente abordada pela
Torah Oral, é pra ela que devemos olhar para entendermos muitas coisas

(Gen 41:45)“aquele que explica o que está oculto” – Isso foi dito sobre
Yosef, e é uma das missões de Mashiach Ben Yosef, pois ele revelará os
ocultos da Torah para todas as gerações.
Kol HaTor 2:122
Uma das principais missões de Mashiach é ensinar a Torah e isso é de
extrema importância. Dizem os sábios que todos os outros livros das
Escrituras se tornarão apenas livros históricos, pois o único que continuará
válido como “bíblia” é a própria Torah, isso devido ao fato de Mashiach
explicar como ela deve ser vivida, deixando de lado a necessidade de profetas
e sábios.
Yehoshua, para ser visto como Mashiach, além de nunca poder abolir a
Torah, ele deve concentrar 100% de seus ensinos na Torah e como ela deve
ser observada e vivida, essa é uma das principais funções de Mashiach.

3- RETORNAR OS EXILADOS
Essa profecia é bem conhecida, se repete em diversas partes pelo Tanakh,
o retorno do povo judeu à terra de Israel hoje é uma realidade depois de quase
dois mil anos.

Então Adonai seu Deus irá restaurar vossas sorte e lhe tomar de volta em
amor. Ele irá juntar vocês novamente de todas as nações aonde Adonai seu
Deus vos espalhar.
Deuteronômio 30:3

Dizem os sábios que os primeiros versículos do capítulo 30 de


Deuteronômio se refere a Mashiach e a seus feitos. O versículo 3 aborda
justamente isso, a grande obra de Deus de trazer Seu povo de volta à terra de
Israel.

Yehoshua, como grande conhecedor dos ensinos rabínicos, sabia muito


bem disso e fez três comentários a respeito desses três tópicos, dessas três
missões que estariam sobre os ombros de Mashiach Ben Yosef:

1) REMOÇÃO DO ESPÍRITO IMUNDO


Nessa hora disse Yeshua aos seus talmidim, não pensem que vim colocar
nas nações (paz), mas sim a desolação.
Mateus 10:34

Realmente, só o conceito “jesus” trouxe muita guerra e morte entre


nações e povos. Mas esse termo “desolação” que ele usa, que foi
erroneamente traduzido como “espada”, se refere ao termo HaShkutz Shomem
conforme aparece no livro de Daniel e pode ser traduzido como
“Abominação da Desolação”. Tal termo é utilizado para se referir à idolatria
e às nações pagãs. A idolatria é o nível mais baixo da impureza e a coisa mais
odiada por Deus.
O que Yehoshua está dizendo é que ele causará a Abominação da
Desolação, mas pela forma como ele se expressa em hebraico, dá a entender
que ele irá se impor contra as nações que praticam idolatria, removendo
assim todas as impurezas, destruindo-as.

2) ENSINAR A TORAH
Tomem meu jugo como vosso jugo e aprendam minha Torah, pois sou
humilde eu sou bom e puro de coração e acharão repouso em vossas almas.
Mateus 11:29

Passagem autoexplicativa, Yehoshua é bem claro ao dizer “minha


Torah”, ou seja, "minha interpretação de Torah". É a forma como ele a
entende, como ele a ensina e como ele a a ao mundo.
Gostaria de fazer uma breve análise sobre o termo jugo, pois traz a
impressão de algo negativo. No linguajar rabínico, quando um aluno entra
sob a supervisão de um rabino, diz-se que esse aluno tomou o jugo desse
mestre. O jugo nada mais é do que uma peça feita de madeira e colocada no
pescoço de dois bois justamente para uni-los e andarem em compasso. O
termo jugo não era apenas usado como uma carga sobre os ombros, porém
como algo que fazem duas pessoas andarem lado a lado, assim como é a
intenção do aluno andar junto a seu mestre.
Yehoshua, ao usar tal termo, convoca as pessoas a andarem lado a lado
com ele de acordo com sua interpretação de Torah, ou seja, segundo sua
halachah (leis judaicas – halachah significa “caminhada” na tradução direta).

3) RETORNAR OS EXILADOS
E respondeu a ele Yehoshua: não fui enviado exceto para as ovelhas
perdidas da casa de Israel.

Mateus 15:24

Muitas pregações cristãs ensinam que Yehoshua se referia aos pecadores


de Israel, que ele veio para perdoá-los e ensiná-los. Porém, o termo Beit
Israel (Casa de Israel) é usado pela Gemarah para se referir ao reino do norte,
conhecido como Reino de Israel, que foi invadido pelos Assírios e teve seu
povo disperso e assimilado pelo mundo, até hoje não se sabe para onde foram
levados e nem quem são seus descendentes.
Mashiach irá também resgatar a essas pessoas e juntá-las novamente com
o restante do povo de Israel. Alguns sábios dizem que o não-judeu que aceita
o jugo da Torah é de alguma maneira descendente dessas pessoas que foram
espalhadas pelo mundo.

Salvação de Mashiach
Não podemos falar de Mashiach sem trazer o tema salvação. Mesmo que
para muitos judeus Yehoshua não seja Mashiach, o messianismo dele não
pode ser negado pelos gentios, pois foi através de sua vida, ministério e morte
que muitos receberam o conhecimento sobre o Deus verdadeiro e sobre Sua
palavra. É inegável que se dependessem dos judeus de hoje em dia,
principalmente dos ortodoxos, gentio nenhum teria conhecimento do Deus
Vivo, pois em toda minha vida não vi um sequer levando a palavra para as
nações.
O cristianismo pode ter diversos defeitos, mas foi a ferramenta que Deus
usou para se tornar conhecido a todo o mundo ocidental e tal fato se deu
através da figura de Yehoshua Ben Yosef. Infelizmente o conceito de
salvação que foi enxertado pela igreja na cabeça do cristão não é bem aquele
que temos na bíblia, principalmente no novo testamento.
Segundo muitas linhas cristãs, quando uma pessoa aceita ao jesus e se
batiza, ela garante a salvação, claro que existirão regras a serem observadas,
como manter uma vida puritana de acordo com as regras criadas pela igreja e
uma presença constante no templo onde o culto é prestado. A salvação se
tornou um item comercial com altíssimo retorno financeiro para quem a
prega, pois tal conceito pode gerar certo temor dentro do indivíduo através de
pregações mal intencionadas, as quais acabam o trazendo para o seio da fé
cristã pelo medo de uma condenação eterna. A salvação não pode ser o
motivo de uma vida perante o Criador, mas sim a consequência dessa vida.
Se a pessoa se importa com aquilo que Deus determina, a salvação é algo
automaticamente garantido.
Infelizmente muitas pessoas confundem salvação com vida eterna, porém
não são as mesmas coisas, a vida eterna é um termo autoexplicativo, mas a
salvação é um estado que deve ser adquirido e então mantido, aceitar a jesus
e se batizar não significa uma passagem gratuita para a vida eterna.
De acordo com Paulo de Tarso, a salvação é quando a pessoa se encontra
dentro do Povo de Israel. Fazer parte dessa “oliveira” e se manter nela é
justamente o que podemos chamar de “salvação”. Fazer parte desse povo não
significa se tornar judeu, significa servir ao Deus de Israel e guardar Suas
ordenanças de forma fiel e com fé, pois são elas que distinguem Seu povo das
outras nações do mundo.
Expondo de uma forma mais resumida, a morte de Yehoshua não garantiu
salvação per se a ninguém, mas a morte dele garantiu ao gentio o acesso a
palavra de Deus, a qual se for seguida, levará o gentio a salvação e
automaticamente a vida eterna, essa é a verdadeira salvação bíblica.
Um exemplo interessante é hitler, um declarado cristão, que em algum
momento da vida se batizou e aceitou ao jesus,. Do outro lado temos mais de
seis milhões de judeus cruelmente mortos, os quais não aceitaram jesus e nem
se batizaram. Estariam esse seis milhões no inferno e hitler no céu?
◆◆◆
SEÇÃO VI
YEHOSHUA NO TALMUD

Todos grandes sábios da história judaica, tanto de uma forma positiva


quanto negativa, é mencionado no Talmud. Pode ser para ensinos que devem
ser copiados, outras vezes como exemplo do que não se deve fazer, mas o
ponto é que todo estudioso da Torah, que causou algum tipo de repercussão,
acaba aparecendo em algum dos tratados.
Com Yehoshua não foi diferente. Existem algumas menções a seu
respeito no Talmud, três delas com o nome “jesus, o nazareno”, outras com
uso de apelido para que não seja facilmente descoberto. Tais citações são
raramente trazidas a tona ou debatidas, pois não se encaixam bem com aquilo
que o cristianismo acredita e professa. A história a principio pode ser um
pouco chocante, mas com uma pequena análise, é possível chegar em um
ponto falho desses contos do Talmud.

Yehoshua Ben Perahya


Quando eles voltavam para Eretz Israel, Rabbi Yehoshua Ben Perahya
entrou em uma determinada estalagem. O dono estava perante ele e se
sentindo honrado pela sua presença. Rabbi Yehoshua Ben Perahya então
sentou e estava louvando os donos dizendo: “Que lindo esse lugar”. Jesus, o
nazareno, um de seus alunos, disse a ele: “Meu mestre, a mulher do dono da
estalagem é estrábica.”. Rabbi Yehoshua Ben Perahya disse a ele: ”Mal
educado, é nisso que fica reparando?”. Então ele excomungou Jesus. Todos
os dias Jesus vinha perante ele, mas o Rabbi não aceitava seu retorno.
Um dia Rabbi Yehoshua Ben Perahya estava recitando o Shma quando
Jesus apareceu. Nessa ocasião o Rabbi resolveu aceitá-lo de volta, então
sinalizou para que ele esperasse, mas Jesus achou que estava sendo rejeitado
por ele. Então ele foi e levantou uma pedra e a adorou como um ídolo. Rabbi
Yeshoshua Ben Perahya disse a ele: “Volte de seus pecados.”. Jesus lhe
disse: “Essa é a tradição que recebi de você, qualquer um que pecar e fizer
as massas pecarem, não terá oportunidade de perdão.” A Gemarah explica
como ele fez as massas pecarem: Pois o mestre disse: “Jesus, o nazareno fez
bruxaria e incitou as massas, e subverteu as massas, e causou o povo judeu a
pecar.
Talmud da Babilônia, Tratado Sotah 47a
Essa passagem do Talmud conta uma história de um aluno muito
revoltado de uma famoso rabino. O interessante é que, apesar de uma história
aparentemente ofensiva a esse tal de jesus, a crítica verdadeira e o ensino que
o Talmud que passar, recaem justamente sobre o Rabbi Yehoshua Ben
Perahya, pois ele foi muito duro com o aluno e isso gerou uma revolta dentro
dele.
Esse relato está em aramaico e foi muito pouco comentado ou discutido
durante muitos anos, pois se tal historia caísse na mão da igreja, teriam
muitos judeus tendo que dar explicações pra não perderem a cabeça.
Yehoshua Ben Perahya foi um grande sábio, por um tempo chegou a ser
líder do Sanhedrin e possuía diversos alunos e seguidores, sua linha de
pensamento era dominante em sua época por todo o território de Israel. De
sua escola saíram rabinos proeminentes, como por exemplo Rabbi Shimon
Ben Shatah, que foi mestre de outros rabinos famosos, como por exemplo
Rabbi Avtalyon e Rabbi Shemaya, o quais, por suas vezes, foram mestre de
Rabbi Hillel, e é justamente nesse ponto que a história não bate, já que a
ligação de Beit Hillel e Yehoshua é muito clara.
De certo existiu o indivíduo da história talmúdica acima, aluno de
Yehoshua Ben Perahya, alguém que talvez até tenha sido um nazareno, com
algum nome próximo a Yehoshua e que foi relatado ali como o jesus de
Nazaré. O que fez esse aluno chamado jesus de Nazaré não importa, o fato é
que não é o mesmo Yehoshua relatado no livro de Mateus, pois Yehoshua
Ben Perahya viveu em torno de 200 anos antes do nascimento de Yehoshua,
se fosse um erro de cinco anos, ou dez, ou talvez vinte anos, até poderíamos
ter o fator dúvida, mas duzentos anos é um erro muito discrepante.
Essa é a história do Talmud usada por muitos ex-cristãos que se tornam
pseudo-judeus para justificarem que jesus não existiu ou foi um feiticero,
porém, ela é falha. Não afirmo que a história é uma mentira, afirmo que não
se trata da mesma pessoa.

Apedrejamento
O nome “jesus, o nazareno” volta a ser mencionado em outro tratado,
como alguém que praticou bruxaria, idolatria e fez o povo pecar. Interessante
que esse jesus desse segundo tratado bate exatamente com o que foi relatado
no tratado mencionado acima, portanto, eu acredito que o Talmud continua a
história desse mesmo indivíduo. Reitero, não é o mesmo relatado por Mateus.
Na noite de Pessach eles penduraram o corpo de jesus o nazareno depois
que o mataram por apedrejamento, pois praticou bruxaria, incitou as massas
a idolatria e desviou o povo judeus.
Talmud da Babilônia, Tratado Sanhedrin 43a

Segundo o Talmud, esse jesus aluno de Rabbi Yehoshua foi apedrejado e


então teve seu corpo pendurado devido aos pecados já mencionados. De
certo, pela ligação de contexto que ambas passagens tem, o jesus ao qual elas
se referem é o mesmo. Esse indivíduo que se sufocou com as regras e
absurdos religiosos dos judeus, se revoltou, se envolveu com bruxaria, com
idolatria e conseguiu muitos seguidores, pois realizava maravilhas através do
oculto. Tal jesus foi preso, julgado e condenado a morte por apedrejamento.
Na época de Yehoshua, sob o forte domínio romano, Roma não permitia
condenação à morte em tribunais fora o seu, por esse motivo que tiveram que
levar Yehoshua perante Poncivs Pilatvs, para pedir seu aval para matarem-no.
Já o apedrejamento não é uma forma utilizada pelo tribunais romanos, sendo
assim, se esse jesus foi apedrejado, foi antes do domínio do império romano
sobre Israel que ocorreu apenas em 63 a.e.c., confirmando assim a data muito
anterior ao nascimento do Yehoshua relatado no livro de Mateus.

Onkelos
Devido a revolta que se iniciou no ano de 66 e.c., o imperado romano
Vespasiano manda a Israel uma enorme força de soldados romanos liderados
por um general chamado Titvs. Durante um pouco mais de três anos, milícias
de judeus combateram os romanos em diversas frentes por toda a terra de
Israel, culminando na destruição total de Jerusalém, do Templo e na expulsão
dos judeus de todo o território de Yehudah, essa é uma diáspora que perdura
até os dias de hoje.
Titvs tinha um sobrinho chamado Onkelos Bar Kelonimos, um nobre e
estudioso romano. Um dia ele resolveu ir atrás de algo que fosse bom para
sua alma e acabou encontrou o judaísmo.

Onkelos foi e levantou Titvs de seu túmulo através da necromancia e lhe


disse: quem são os mais importantes no mundo em que você está? Titvs lhe
disse: os judeus. Onkelos o perguntou: devo eu me juntar a eles? Titvs lhe
respondeu: os seus mandamentos são muitos e você não vai dar conta, é
melhor que você se levante contra eles e assim ficarás famoso.
Então Onkelos foi e levantou Bil’am (Balaam) de seu túmulo através da
necromancia. Onkelos lhe disse: quem são os mais importantes no mundo em
que você está? Bil’am lhe disse: o povo judeu. Onkelos lhe perguntou: devo
eu me juntar a eles? Bil’am respondeu: você não deve nem ir atrás da paz
deles e nem da guerra deles, deixa quieto.

Onkelos então orou ao Deus dos judeus e apareceu Yeshua perante ele.
Onkelos lhe disse: quem são os mais importantes no mundo em que você
está? Yeshua lhe disse: o povo judeu. Onkelos perguntou: devo eu me juntar
a eles? Yeshua lhe disse: busque o bem estar deles e não sua destruição, vá,
seja um bom judeu e estude a Torah, pois são a “menina” dos olhos de Deus
(Zacarias 2:12).
Talmud da Babilônia, Tratado Gittin 57a

Onkelos ouve o conselho de Yeshua e se torna judeu. Ele resolve então


traduzir a Torah do hebraico para o aramaico e faz uma verdadeira revolução
dentro da fé judaica. A tradução que ele fez é uma tradução palavra por
palavra e se manteve na originalidade do texto, porém ele conseguiu acabar
com algumas ambiguidades, se tornando assim uma tradução de referência
muito utilizada quando existem dúvidas no original.
Em qualquer rolo da Torah, qualquer Sefer Torah comprado em qualquer
país do mundo, qualquer texto original da Torah encontrado escrito, o único
nome que SEMPRE aparece é justamente o nome de Onkelos, pois sempre
acompanham a tradução aramaica. Hoje, seu nome é parte inseparável da
Torah, uma figura de peso dentro do judaísmo, e tudo começou através de um
conselho de Yehoshua.

Yeshua e os Discípulos
Em relação ao julgamento de Yeshua, a Gemarah cita outra Baraita,
onde os sábios ensinam: Yeshu tinha cinco discípulos, Mattai, Nakai, Netzer,
Buni e Toda
Talmud da Babilônia, Tratado Sanhedrin 43a

Essa citação do Talmud já causou muita polêmica, pois dentre os cincos


discípulos citados, apenas Mattai (provavelmente Mateus) é facilmente
identificável. Existem teses cientificas, debates entre historiadores e
estudiosos, mas nenhum com alguma conclusão concreta sobre de quem eram
esses nomes.
Joseph Klausner, em seu livro Jesus de Nazaré, diz que esse texto foi uma
fabricação durante o período Amoraico, quando o Talmud ja havia sido
concluído, e colocaram certos textos para causarem confusão dentro da igreja.
◆◆◆
PARTE II
ENSINOS
SEÇÃO I
BERESHIT

No início criou Elohim os céus e a terra.


Genesis 1:1

Logo na primeira palavra do livro de Genesis, no seu original em


hebraico, temos muitos segredos escondidos. O termo inicial, BERESHIT
(‫)בראשית‬, costumeiramente traduzido como “no início”, sofre com as
traduções nas línguas ocidentais.
Para que tivéssemos um início determinado, como “O início”, o termo
usado em hebraico deveria ser BARESHIT, porém a palavra que aparece é
BERESHIT. Isso nos mostra que na verdade não é “nO início”, mas sim “EM
UM INÍCIO CRIOU DEUS OS CÉUS E A TERRA”. Um início em um
tempo completamente indeterminado.
Pode parecer irrelevante, mas tal afirmação revela que o início de todas as
coisas, conforme relatado pela bíblia, não foi um início único, ele foi apenas
mais um dentre outros. Tudo que foi criado nesse “início” está muito bem
descrito na Torah, o céu, a terra, os animais, a natureza, o ser humano e etc.
Porém, por todo o Tanakh, aparecem algumas coisas que são reveladas a
humanidade e que não aparecem no momento da criação, coisas que
simplesmente existem e não são revelados quando foram criadas, o que prova
que o “no início” do livro de Genesis, na verdade, não é bem o início de tudo,
mas sim um início dentre outros inícios.
Os sábios nos contam que antes da criação da realidade onde estamos
inseridos, houveram outros sete “inícios”, ou seja, Deus criou 7 coisas antes
do que é relatado pelo livro de Bereshit. Essas coisas aparecem do nada no
Tanakh, o que nos revela que já existiam antes de todas as coisas. O
entendimento de algumas delas pode nos trazer algumas revelações.

1º INÍCIO – KISEH HAKAVOD (‫)כסא הכבוד‬


O Kiseh HaKavod, o Trono da Glória de Deus, aparece inúmeras vezes
pela bíblia, mas não é relatado a sua criação, pois já existia antes de Bereshit.
O Trono da Glória foi criado antes da criação do mundo. É através dele
que o Povo de Israel poderá reconhecer ao verdadeiro Deus, poderá distinguir
o verdadeiro profeta do falso profeta.
Existe um debate longo no Midrash Bereshit Rabbah se realmente o trono
foi a primeira criação, a conclusão vem através de um Salmo:

Seu trono se mantém firme desde a antiguidade, ele existe desde a


eternidade.
Salmos 93:2

O versículo acima afirma que o Trono existe desde toda a eternidade, sua
criação precedeu tudo aquilo que o ser humano tem ciência e apenas o nome
do Criador está acima de sua importância.
O Kiseh HaKavod concentra toda a glória, o poder, a soberania, o
controle, a realeza e a força do Criador. Será através dele que todos os povos
verão o quão grande é Aquele que criou todas as coisas.

2º INÍCIO – TORAH (‫)תורה‬


Os sábios dizem que Deus é como um engenheiro, um arquiteto, que
desenvolveu e criou todo o universo. Todo projeto tem basicamente três
passos, o primeiro é a idealização, o segundo é a planificação e por último, a
realização.
A Torah possui três momentos na história, o primeiro é justamente o
momento que estamos abordando. Como todo bom construtor, Deus
primeiramente idealiza toda sua obra, então ele constrói uma “planta”. Ele
monta um projeto segundo o qual todas as coisas funcionarão e é nesse
momento em que ele cria a Torah, para que, através dela, Ele possa criar
todas as coisas.
A Torah não é apenas um livro, mas é a vontade e idealização de Deus,
toda a criação, como a natureza, os animais e os astros, se portam de acordo
com a vontade de Deus. Essa vontade nasceu nesse ato. Quando Deus cria a
Torah, Ele estabelece como toda Sua criação se portaria e O obedeceria. Caso
Ele criasse todas as coisas sem estabelecer essas regras, o mundo seria uma
total bagunça.

Adonai me criou (TORAH) no começo de Seu curso, como a primícia de


Seus trabalhos na antiguidade.
Provérbios 8:22

O segundo momento da Torah se dá no final da criação de todas as coisas


conforme relatado no livro de Genesis:
E Adonai abençoou o sétimo dia e o santificou, pois nele Deus terminou o
que criou para fazer.
Genesis 2:3

Essa é uma tradução um pouco diferente daquelas que temos em


português, tentei manter o máximo de sua forma original, mas mesmo assim
fica muito estranha. Como assim "Deus terminou o que criou para fazer”? É
uma alegação que não faz aparente sentido. Mas, se prestarmos atenção,
aquilo que Deus criou para fazer se refere justamente a Torah. O Shabbat foi
o dia em que Deus trouxe para a realidade mundana a Torah, foi quando Ele
estabeleceu Suas Leis sobre toda a criação. Por isso que diz que “Ele
terminou”, pois se refere a Ele ter acabado de estabelecer todas as Leis da
Torah no mundo. Então, diz “que criou para fazer”, refere-se a própria Torah,
pois foi ela que Ele criou para fazer todas as coisas.
O Shabbat não é só o dia de descanso, mas também o dia que representa a
Torah, pois foi nesse dia que Deus estabeleceu o modus operandi desse
mundo, por esse motivo é que esse dia foi santificado.
Por último, temos a materialização da Torah conforme relatado no livro
de Êxodo. Moisés sobe ao monte Sinai e Deus lhe entrega a Torah.
Interessante notar que não diz que Deus cria a Torah na Torah, mas sim que
Deus a entrega. Se Deus a entrega, significa que ela já existia, e como a
Torah não relata sua própria criação, significa que ela foi criada antes mesmo
da primeira palavra de Bereshit.

3º INÍCIO – BEIT HAMIKDASH (‫)בית המקדש‬


O Beit HaMikdash, o Templo Sagrado, é já revelado em sua íntegra ao rei
Salomão no momento em que ele resolve construí-lo. O projeto, a ideia e a
idealização nas esferas espirituais já haviam sido estabelecidas por Deus. Ele
só precisou pegar a “planta” do Templo e entregá-la nas mãos de Salomão.
O Templo representa o Trono da Glória nessa terra, é o lugar onde
preparará o povo para o cumprimento das Leis de Deus e o ápice da
santidade. Para que o ser humano pudesse ter um mínimo de entendimento a
esse respeito, o Templo precisou ser criado.

Oh! Trono da Glória, exaltado da antiguidade, lugar da Mikdash.


Jeremias 17:12

O Santo Templo é o lugar onde a santidade e a glória do Trono de Deus


descansam, por isso foi criado depois do Trono.

4º INÍCIO – TSHUVAH (‫)תשובה‬


A Tshuvah, pobremente entendida como arrependimento, possui um
conceito muito diferente daquilo que a cultura ocidental cristã ensina. O
arrependimento que é ensinado se refere a um sentimento interno e particular
de culpa por algo praticado ou por alguma decisão tomada, as quais podem
abrir os olhos sobre como as decisões futuras devem ser tomadas daquele
momento em diante.
O arrependimento não passa de um sentimento de remorso e não
necessariamente está conectado a Deus ou ao pecado. Por exemplo, um
indivíduo compra algo e acaba assumindo uma dívida por muitos anos, e, ao
chegar em casa, ele se dá conta do que fez e sente um arrependimento muito
forte, mesmo que ele não tenha cometido nenhum pecado. Se comprar algo
não é errado, e fazer dívidas não é algo condenado por Deus, então, o
arrependimento sentimental não está conectado necessariamente com as
coisas santas. Porém, esse sentimento é muito válido, porquê é através dele
que a verdadeira Tshuvah se inicia.
A Tshuvah, que em uma tradução direta significa “resposta”, é uma ação
e não apenas um sentimento, assim como “dar resposta” é uma ação por parte
de quem a dá e não apenas um sentimento. A verdadeira Tshuvah, ou
arrependimento, é tomar os caminhos da Torah, é uma decisão de mudança
de vida perante o Criador. Eleanão é dado por um remorso apenas, mas ela
representa toda a coletânea de erros que uma pessoa comete na vida e como
resposta, essa pessoa larga tudo aquilo que é abominável perante Deus e
resolve mudar sua vida, deixando os antigos costumes para trás e seguindo
uma vida de acordo com a vontade de Deus.
A Tshuvah foi criada por Deus para que andasse em paralelo com a
Torah, pois sem um, o outro não existe, não existe arrependimento sem
Torah. Sua criação foi para que o homem sempre tivesse uma porta aberta ao
Trono da Glória.

5º INÍCIO – GAN EDEN (‫)גן אדן‬


O Jardim do Éden representa a terra de Israel, a Jerusalém restaurada, a
era de Mashiach. O momento em que toda a criação de Deus estará
diretamente sob Seu governo, onde reinará a paz, onde todos terão a vida
eterna e será conforme Deus idealizou sua criação.
A criação da Era de Mashiach é o plano final de Deus para a humanidade,
é o ápice e o objetivo de todos que creem em Deus. Esse conceito foi criado
pois representa a idealização do Criador em relação a coroa da sua criação, o
ser humano.

6º INÍCIO – GEHINAM (‫)גהנם‬


Aquilo que conhecemos como inferno, não é bem o Gehinam criado por
Deus. O Gehinam é um lugar de punição, é o lugar onde as almas dos que
viveram uma vida longe do caminhos de Adonai serão colocadas, é o
contraponto do Gan Eden. Enquanto uns ressuscitarão e viverão a era de
Mashiach, a maioria será lançada no Gehinam.
Não podemos entender o Gehinam da forma como Dante Alighieri
imaginou, mas sim como um lugar criado por Deus e administrado por anjos
que ele determinou que ali ficassem. Esses anjos não são inimigos de Deus,
não estão lá por terem se revoltado contra o Criador, mas foram colocados no
Gehinam para que cuidassem e administrassem esse lugar. Para eles (anjos),
estarem no Gehinam não é uma punição.
A bíblia fala que, no final dos tempos, satan será jogado ali. Essa
alegação é devido ao fato desse querubim ter sido criado para cuidar desse
lugar, assim como outros foram criados para ficarem perto do Trono, cada
um com sua função.
O Gehinam se fez necessário antes da criação do mundo, pois ele
representa a balança de Deus. O Criador não é só bom, mas também é justo, e
justiça só existe quando existem dois lados opostos. É ela que decide para
onde a decisão penderá. Se só existisse bondade no mundo, por quais motivos
Deus julgaria sua criação? Como saberíamos se Deus é realmente bom se não
conhecêssemos a contraparte da bondade? Para que o ser humano precisaria
de Deus?

7º INÍCIO – SHMO SHEL MASHIACH (‫)שמו של משיח‬


Por último, antes de todas as coisas, Adonai cria o nome de Mashiach.

Seu nome (de Mashiach) é eterno...


Salmos 72:17a

O nome de Mashiach foi contemplado, pois está escrito, seu nome


precede ao sol.
Midrash Bereshit Rabbah 1:4

O nome de Mashiach é tão importante que é justamente o seu nome que o


define como “o ungido”. A unção que ele recebe para ser o que é, é devido ao
nome que recebeu. Muitos dos cristãos que tem jesus como o messias, não se
importam se o nome dele foi jesus ou não, e alegam que como Deus conhece
o coração de cada um, Ele entende ao que cada um se refere. Talvez essa
definição esteja certa ou não, mas o entendimento do nome daquele que eles
chamam de Mashiach fará total diferença na vida e no relacionamento de
cada um com o Criador.

O INÍCIO – BERESHIT (‫)ברשית‬


Agora temos o início relatado pela Torah, a criação dos céus e da terra
por Elohim, porém nesse Bereshit, nesse início que conhecemos, também
existe uma expansão. Segundo o Zohar HaKadosh, no momento do oitavo
Bereshit, seis coisas foram criadas, pois se lermos Bereshit em aramaico,
teremos BARA – criou + SHIT – seis.

Bereshit é formado pelo segmento BaraShit (criou seis), pois do fim de


um céu a outro, existem seis colunas que se estendem do segredo de Bara
(criou)... ...Os pilares são Chesed, Gvurah, Tiferet, Netzach, Hod e Yesod.
Zohar HaKadosh, 1:15b

Antes de criar os céus e a terra, Adonai criou seis colunas para que
pudessem sustentar Sua obra. O Zohar é um livro muito místico e de difícil
compreensão, ele usa termos de difícil entendimento para explicar o mover de
Deus. Vamos ver suscintamente cada termo que nos é apresentado:

Chesed
Chesed é conhecido como graça, porém diferentemente da graça cristã,
pois essa é a graça que nos é vastamente apresentada por todo o Tanakh. Ela
pode ser traduzido de duas formas, tanto como bondade, quanto como
misericórdia.
A graça bíblica está totalmente atrelada aos mandamentos de Deus, pois
são eles que determinam como essa graça chegará ao indivíduo. Se a pessoa
obedecer a vontade do Criador, ela receberá chesed (bondade), se caso ela
descumpra aos mandamentos e fizer Tshuvah, ela terá chesed (misericórdia),
duas coisas que homem algum merece.
Durante a criação dos céus e da terra, Adonai traz à realidade sua bondade
e sua misericórdia.

Gvurah
Gvurah é o oposto de chesed, é a severidade de Deus. Ele traz isso a
realidade humana para que possa servir de oposto na hora de Seu julgamento.
Os iníquos, aqueles que não O servem, receberão não sua chesed, mas sua
Gvurah.
Tiferet
Tiferet é o ponto de equilíbrio na vida, é a coluna que separa o terreno do
espiritual. Por ser um ponto de equilíbrio, um meio termo, algo na mediação,
essa coluna e seu entendimento serviram de base para o místico autor do livro
de Hebreus alegar que Yehoshua é o “mediador”, isso pelo fato de que, nesse
momento, Deus criou o conceito do sacrifício, tanto do Templo, quanto o que
viria acontecer com Yehoshua.O sacrifício é o que conecta o ser humano a
Deus, é o que faz a mediação, não apenas o sacrifício de animais do Templo,
mas também sacrifícios pessoais, como o jejum por exemplo.

Netzach
Netzach representa o entendimento espiritual, a capacidade que Deus
criou e foi dada aos homens de conseguirem entendê-Lo dentro da realidade
terrena. Daí que temos a criação da Emunah, da fé.
Toda vez que Yehoshua falava daqueles que possuíam pequena fé, era
justamente o Netzach que faltava a essas pessoas, pois só através do
entendimento do mundo espiritual que o homem é capaz de criar fé em seu
interior.

Hod
Hod representa a inteligência do homem e a capacidade dada a ele para
que possa entender a criação e assim se desenvolver nela. A ciência, o
desenvolvimento, a engenharia, tudo provém desse conceito.
O Hod é vital para um entendimento mínimo da palavra de Deus.

Yesod
É a capacidade do homem realizar atributos que são exclusivos do
Criador. Através do Yesod, Deus deu a capacidade a seres humanos de serem
canais de bênçãos para que Deus opere milagres através deles.
Isso inclui a capacidade da profecia, da cura através da oração, de visões,
sonhos e etc. Toda forma que Deus se manifesta através do homem.
Depois disso tudo, os céus, a terra e tudo que há nela estavam prontos para
serem criados, pois já estavam prontos tudo aquilo que sustentaria toda a obra
das mãos de Deus.

Quero deixar bem claro aqui que o estudo por conta própria desses
termos aqui citados são de extremo risco. Tais “colunas” aqui citadas
tem sido usadas como base a diversas formas de ocultismo, feitiçaria,
magia e ilusionismo, assim como adivinhações e previsão do futuro.
Coisas totalmente PROIBIDAS PELA TORAH.
Buscar o conhecimento disso através da internet, livros de autores
desconhecidos, kabbalah comercial e fontes duvidosas podem trazer um
peso desnecessário à vida de quem faz isso.
Os ensinos da verdadeira Cabalá não podem serem desligados da
Torah e aplicados em outras áreas da vida, como muitos ensinam por ai.
Tais conhecimentos só podem ser passado por sábios tzadikim à pessoas
com ao menos 40 anos de idade.
Reafirmo, caso não conheça alguém temente a Torah, de confiança,
não busquem informações sobre esse assunto.
◆◆◆
SEÇÃO II
O NOME

E ela dará luz a um filho e o chamará de Yeshua, pois ele salvará o meu
povo de suas iniquidades.
Mateus 1:21

E dará luz a um filho e chamarás o seu nome de Jesus; porque ele


salvará seu povo dos pecados.
Mateus 1:21 ALMEIDA

Acredito que primeiramente é muito importante sabermos o nome


verdadeiro daquele que é o foco do livro de Mateus. O nome, por toda a
bíblia, tem um peso importante, seus significados revelam muito sobre a
pessoa que o carrega e entendê-los traz uma outra perspectiva sobre nosso
objeto de estudo e sua missão nessa terra. Portanto acredito ser necessário
começar os estudos sobre o livro de Mateus fazendo uma abordagem sobre o
verdadeiro nome de Yeshua e qual o “recado” que esse nome quer passar,
logo no primeiro capítulo temos toda revelação que necessitamos.
Analisando a passagem acima, veremos um aparente simples versículo,
mas que contém muitas informações ocultas à vista. Tanto a teologia da
igreja, quanto o entendimento tradicional cristão, sobre a essência e a pessoa
de Yeshua, foram alterados devido a má interpretação dessas simples
palavras.
Eu coloquei ambas as traduções lado a lado para poder analisar três
incoerências entre elas que, apesar de uma aparência simples, fazem toda a
diferença para enxergarmos qual o significado de seu nome e a conexão dele
com sua obra.

Jesus
Antes de mais nada é vital que saibamos que o nome “jesus” não passa de
uma tradução latina/grega de uma forma diminutiva de seu nome verdadeiro.
Jesus nunca foi o nome dele, mas sim o nome de um deus pagão criado pela
igreja, o qual tem uma aparência muito próxima ao verdadeiro Yeshua.
Existem muitas teorias em torno da palavra “jesus”. Alguns alegam que
se refere a dois deuses gregos IE+SOUS – IE, amada de zeus e SOUS, o
próprio zeus, outros dizem que vem do aramaico YE+SUS – YE, divindade e
SUS, cavalo, dando alusão a algum falso deus em forma de cavalo.
É claro que, apesar de todas essas ideias que circulam por aí, a verdade é
que jesus é uma palavra transliterada de uma forma errônea de seu nome.
Jesus é uma palavra tão relativa nas línguas ocidentais que, dependendo do
idioma falado, sua escrita e pronuncia mudam.
Muitos alegam que não importa qual era o nome real dele, o que
importa é que quando usam o nome jesus, Deus conhece as intenções e
atenderá suas súplicas. Se isso é fato ou não, eu não opino, mas o que sei é
que o nome é algo tão importante por toda a bíblia que tudo o que sabemos
sobre o Deus Criador é SEU NOME, tudo que provém Dele está ligado a esse
nome e isso foi a revelação mais profunda que Ele deu sobre o Seu próprio
Ser.
Por esse fato, acredito eu que, não devemos anular a necessidade de saber
seu verdadeiro nome e a dimensão que ele possui. Não faz sentido alguém
declarar que ele é Mashiach e nem ao menos saber o seu verdadeiro nome.
Quando os judeus falam sobre Mashiach, a primeira coisa que questionam é
justamente qual será o seu nome, pois é através do nome dele que ele será
reconhecido. A igreja, por ter criado um jesus, perdeu todo o entendimento a
respeito do verdadeiro, pois se desvencilhou de seu nome.

O NOME
Tem algumas revelações que são perdidas quando não lemos na língua
original. Uma delas é o jogo de palavras usada pelo anjo quando disse a
Yosef qual deveria ser o nome de seu filho, vou colocar o versículo mais uma
vez e deixarei alguns termos no original:

E ela dará luz a um filho e o chamará de YESHUA, pois YOSHIA o meu


povo de suas iniquidades.
Mateus 1:21

Aqui vemos algo bem comum dos textos hebraicos, esse tipo de jogo de
palavras aparece em inúmeras passagens pelo Tanakh e por todo o Talmud.
Isso é mais uma prova que o livro de Mateus foi escrito em hebraico.
YOSHIA significa “Ele Salvará”, assim como aparece nas traduções
ocidentais, mas o grande problema é que temos a impressão que quem salva é
jesus, ou Yeshua, e é ai que está o grande problema em não entendermos seu
verdadeiro nome.
Yeshua é uma variante do nome Yehoshua, assim como o nome
Daniel fica Dani ou o nome Rafael fica Rafa. Existem relatos sobre essa
variante no Tanakh:

Os israelitas não tinha mais feito assim desde os dias de Yeshua Ben Nun
até os dias de hoje.
Neemias 8:17

Então Yeshua filho de Yozadak...


Esdras 3:2a

O Yeshua do livro de Esdras era o sumo sacerdote na época da construção


do segundo Templo, se olharmos na tradução em português, seu nome estará
como Josué. Assim como no primeiro versículo, Yeshua Ben Nun não é
ninguém menos do que Josué, servo de Moises, que guiou o povo para dentro
da terra prometida. Ou seja, em português, o nome de jesus é Josué, pois
Josué em hebraico é Yehoshua. Vale lembrar que esse não é o nome original
de Josué, seu nome era Hoshea, mas foi mudado por Deus em um
determinado momento de sua vida, assim como ocorreu com Abraham, Sarah
e Yaakov.
Agora que sabemos qual era seu verdadeiro nome, devemos descobrir
qual o peso que esse nome tem e o que ele pode nos revelar sobre a missão de
Yehoshua.
Yehoshua é uma junção de um nome e um verbo, assim como o nome
Rafael (Rafa – curou + EL – Deus). O nome que é usado é justamente O
NOME SOBRE TODOS OS NOMES, o tetragrama (‫ – )יהוה‬YEHOxxx e o
verbo LEHOSHIA (‫ )להשיע‬- salvar - conjugado no tempo futuro da terceira
pessoa do singular YOSHIA(‫)יושיע‬.

YEHOxxx (‫ )יהוה‬+ yoSHIA (‫ = )יושיע‬YEHOSHUA (‫)יהושע‬

O nome Yehoshua é a junção do verdadeiro e mais profundo nome do


Criador ao verbo “salvar”, assim teremos ADONAI SALVARÁ,
diferentemente da palavra jesus, que não significa nada. No livro de Mateus,
seu nome aparece na forma contraída de Yeshua, porém em outros livros, em
seus originais, como o livro de Lucas e o livro de Yohanan, seu nome
completo aparece como Yehoshua Ben Yosef.
Como mencionado acima, pessoas chamadas Yehoshua acabavam
recebendo o “apelido” de Yeshua, algo muito costumeiro até o primeiro
século. Em alguns casos, pessoas chamadas Yehoshua eram chamadas de
Yeshu e eu acredito que seja justamente dessa palavra, yeshu, que a palavra
jesus surgiu. Esse é mais um motivo que devemos tomar cuidado, pois yeshu
é um acrônimo pejorativo na língua hebraica:

Yeshu (‫“ – )ישו‬Yimach SHemo Uezikro” (que seu nome e memória


sejam apagados).

Se realmente o nome jesus veio da palavra yeshu, o que é bem provável,


de uma forma indireta o uso do nome jesus faz uma referência negativa a
Yehoshua Ben Yosef.

INIQUIDADES
Diferentemente da tradução ocidental, na qual aparece a palavra pecado,
no original temos iniquidades. Uma pessoa que pratica a iniquidade é uma
pessoa que transgride as leis e as normas.
Claro que a transgressão de alguma lei de Deus pode ser diretamente
relacionado ao pecado, mas nesse caso, a salvação não vem para tirar o povo
do pecado, mas sim tirar o povo de uma vida sem lei, de uma vida sem Torah.
Mateus usa essa descrição para provar que Yehoshua é o Mashiach, pois a
primeira missão de Mashiach é revelar como a Torah deve ser vivida e a
última é governar todas as nações através das Leis da Torah. Afirmar que ele
veio para acabar com a iniquidade através da Torah faz muito mais sentido na
mentalidade judaica do que alguém que vem salvar do pecado, pois isso não
faz um sentido palpável, apenas na mentalidade mística cristã.
Com isso em mente, vou reapresentar o versículo 21 fazendo algumas
mudanças no jogo de palavras, assim acredito que ficará muito mais claras as
palavras do anjo:

E ela dará luz a um filho e o chamará de “Adonai Salvará”, pois Adonai


salvará o povo de uma vida sem Torah.
Mateus 1:21

Apesar de muitos acharem que só jesus salva, a bíblia acha o contrário:


Eu sozinho sou ADONAI, o ÚNICO que pode lhe salvar.
Isaías 43:11

A missão de Mashiach é trazer como a Torah deve ser seguida e


observada. Através de um caminhar em santidade perante o Criador,
estaremos no caminho da salvação, a qual é dada apenas por Elohim e o
próprio nome Yehoshua representa isso.
Esse nome faz total sentido em relação a sua missão, pois ele veio
trazer a interpretação da Torah, toda sua pregação foi sobre Torah, sua morte
abriu as portas para os gentios conhecerem a Deus e a Sua Palavra, ele levou
as Leis de Deus ao conhecimento de todo o mundo, dando assim a chance
para todos de terem um vida sem iniquidades, assim atingindo a salvação.
Fato Interessante
O famoso rabino moderno, Yitzhak Kaduri, que faleceu em 2007 aos 106
anos de idade, era um famoso mestre religioso, considerado um dos maiores
conhecedores do misticismo judaico e de forte influência em causas políticas
e sociais do Estado de Israel.
Rabbi Kaduri era considerado autoridade suprema da Cabala e suas
previsões eram precisas e certeiras, suas profecias sempre eram vistas como
alertas e seus conselhos como verdadeiras bênçãos.
Poucos meses antes de morrer, rabi Kaduri escreveu o nome de Mashiach
em um pequeno bilhete conforme foi-lhe revelado por Deus e pediu para que
apenas fosse aberto 7 meses após sua morte. Segundo o jornal Israel Today,
no bilhete estava escrito o seguinte:

Quanto às letras da abreviação do nome de Mashiach, ele erguerá o


povo e provará que suas palavras e leis são verdade.

Esta eu assinei no mês da chessed,


Yitzhak Kaduri

Muitos ficaram decepcionados a princípio com esse bilhete, pois


esperavam a revelação do nome de Mashiach e foi nesse momento que
perceberam a forma como foi escrito em hebraico:

‫ירים העם ויוכיח שדברו ותורתו עומדים‬

Yarim HaAm VeYokhiach SheDbaro VeTorato Omdim


Da direita para a esquerda, se pegarmos as primeiras letras de cada
palavra, teremos (‫)יהושוע‬, transliterando, YEHOSHUA.

O NOME E JERUSALÉM
Eu acredito piamente que o nome de Mashiach que governará sobre todas
nações é Yehoshua e digo isso porque, dentre tantas missões que Mashiach
terá, uma delas é a reconstrução de Israel e do Templo.
Tais feitos não serão exclusivos de Mashiach, pois duas outras pessoas já
fizeram isso, uma delas foi Esdras, ao reconstruir o Templo que foi destruído
pelos babilônios e Nehemiah, que reconstruiu o muro de Jerusalém, o que de
uma forma indireta, representa a reconstrução da própria cidade. Mas a
pergunta é, o que tudo isso tem a ver com o nome Yehoshua? Oras, tudo!
Se fizermos uma análise mística dos nomes através da Gematria, muitas
coisas podem ser reveladas e poderemos enxergar algo muito profundo.

NEHEMIAH (5‫ ה‬+ 10‫ י‬+ 40‫ מ‬+ 8‫ ח‬+ 50‫נחמיה( – נ‬

= 133

ESDRAS (1‫ א‬+ 200‫ ר‬+ 7‫ ז‬+ 70‫עזרא( – ע‬

= 278

YEHOSHUA (70‫ ע‬+ 300‫ ש‬+ 6‫ ו‬+ 5‫ ה‬+ 10‫יהושע( – י‬

= 391

Bom, temos o valor para o nome de Esdras de 278, de Nehemiah de 113 e


de Yehoshua de 391. Aparentemente não há ligação nenhuma entre os três,
mas se pensarmos que Nehemiah reconstruiu o muro e a cidade, Esdras
reconstruiu o Templo e Yehoshua fará o serviço de ambos, reconstruindo o
muro (cidade) e o Templo, teríamos:

278 (Esdras) + 113 (Nehemiah) = 391 (Yehoshua)


Agora temos uma outra prova do nome de Mashiach ser Yehoshua, pois,
assim como Esdras e Nehemiah reconstruíram o muro, a cidade e o Templo,
Mashiach irá restaurar a cidade santa, será a sua proteção e reconstruirá o
Templo Sagrado.

O nome Yehoshua mostra que Mashiach trará a revelação do Deus Vivo e


de sua Torah, pela qual, Adonai salvará. Mostra também sua missão de
reconstruir a cidade santa e o Templo e por último, assim como Josué
(também Yehoshua), liderou o povo para a terra de Israel, Mashiach também
guiará seu povo de volta à terra santa.
Saber o verdadeiro nome de Mashiach faz toda diferença.

Que Hashem nos garanta o presente de poder estudar e ensinar por todos
os dias de nossas vidas, para que tenhamos o mérito da redenção final,
quando Mashiach Ben David vir para reconstruir o Templo.
Rav. Moshe Feinstein, Iggeros Moshe, V I 17

O resultado definitivo será quando Mashiach chegar e a Cidade Santa


descerá dos céus.
Kav HaYashar 102

Ele trará Israel de todas as partes para a sua cidade, a nação que
construirá seu templo. O TZADIK congregará ao redor de Mashiach e
aqueles que estudam a Torah, poderão estudá-la com ele.
Metsudah Chumash, Bereshit 49:11
◆◆◆
SEÇÃO III
YOHANAN E O MIKVEH

Falar do famoso Yohanan (João Batista) pode se tornar um pouco


complicado. Yohanan tinha envolvimento com grupos pouco conhecidos ao
redor da terra de Israel. O pouco que a bíblia fala dele, e de seus ensinos,
mostra o quão radical ele era em relação a sua crença e atitudes.
Segundo David Flusser, em seu livro The Sage From Galilee, as palavras
de Yohanan se assemelhavam muito aos ensinos da comunidade dos
Essênios, sendo que é muito provável que ele tenha feito parte de algumas
dessas comunidades. Na época em que Yehoshua vai até ele, Yohanan já
tinha se separado desses grupos, pois os Essênios possuíam uma mentalidade
separatista do resto do povo judeu e Yohanan queria oferecer uma
oportunidade a todo Israel de arrependimento e perdão, indo na contra mão
de ensinos básicos dos Essênios.

O BATISMO
A coisa que mais atraia pessoas a Yohanan era justamente o que o
cristianismo chama hoje em dia de batismo. Tal costume era muito comum
no meio judaico desde a saída do povo hebreu do Egito e também é uma
mandamento da Torah, chamado de Mikveh. Para que possamos entender o
misterioso Yohanan, é vital que entendamos o que seria esse tal de Mikveh,
como a Torah o define e como os sábios lidavam com ele.

Traga Aharon e seus filhos para a entrada da Tenda e que sejam


imergidos no Mikveh.
Êxodos 40:12

Então aspergirei a água pura (mikveh) sobre vós, e ficareis purificados;


de toda vossas imundices e de todos os vossos ídolos vos purificareis.
Ezequiel 36:25

Adonai, mikveh de Israel, todos aqueles que te abandonarem serão


envergonhados....
Jeremias 17:13
Antes do começo dos trabalho na tenda, Deus ordenou que Aharon e seus
filhos fossem imersos no Mikveh, um ritual de purificação e que representou
o inicio dos ministérios deles. Todos os membros da tribo de Levi que
desempenhavam algum trabalho no Templo, antes que começassem,
deveriam passar pela imersão nas águas da forma como determina a Torah.
Com Yehoshua não foi diferente, ele se apresenta a Yohanan justamente
antes de começar sua missão efetivamente, o fato dele ter sido “batizado” não
foi para receber salvação e nem perdão dos pecados, mas como um ritual de
purificação antes de começar seus ensinos, obedecendo assim a Torah.
Interessante que no livro do profeta Jeremias, o termo Mikveh foi
traduzido como “esperança” em diversas bíblias que chequei, mas o que o
profeta está dizendo é que o verdadeiro purificador de Israel é o próprio
Deus. O famoso batismo já era algo que vinha sido feito muito antes da vinda
de Yehoshua, tal não servia apenas para iniciar algum ministério, mas
também para purificar caso determinadas coisas pré estabelecidas na Torah
acontecessem, como tocar em cadáver ou após o fluxo mensal da mulher,
essas pessoas deveriam ser submergidas nas águas.
Muitos acreditam que o batismo foi criado por Yohanan e divulgado
por jesus, outros pensam que foram ideias criadas e impostas pela igreja e
existem aqueles que dizem que o batismo de jesus foi para resgatá-lo das
antigas práticas da Torah em sua vida.
Nada disso é verdade e o que poucos sabem é que esse tal “batismo”
existe como um ritual de pureza desde a criação do homem. O Midrash conta
que logo após Adam ter sido banido do Jardim do Éden, ele se sentou em um
rio que fluía pelo meio do jardim para refletir no que tinha feito e como
processo de tshuvah (arrependimento) ele mergulha e se lava de uma forma
simbólica na tentativa de retornar a sua forma original perfeita.
O que os cristãos chamam de batismo, Yehoshua chamava de Mikveh,
que nada mais é do que uma submersão ritualística determinada pela Torah e
diferentemente do cristianismo, que impõe o batismo como pré-requisito para
morar no céu, o verdadeiro batismo determinado por Deus possui propósitos
diferentes.
O Mikveh, o qual Yohanan fazia e pelo qual Yehoshua passou, de nada
tinha a ver com a intenção de garantir salvação a ninguém ali, pois essa
estava atrelada com a tshuvah (arrependimento), a intenção do Mikveh era
justamente purificar aquele que era submergido, em outras palavras, anular o
estado anterior. Imaginemos um semente que é plantada em solo profundo,
antes de começar a criar raízes, ela precisa primeiro se desintegrar, deixar de
existir na forma de semente para nascer na forma de árvore. Para que alguém
consiga chegar a um nível espiritual mais alto, esse alguém precisa primeiro
anular seu estado atual e isso acontece através do Mikveh.
No monte Sinai, antes da entrega da Torah, Deus mandou que todos ali
presentes entrassem no Mikveh para deixarem as impurezas provenientes do
paganismo egípcio para trás e se prepararem para a Torah. Durante os
quarenta anos que o povo ficou no deserto, a famosa “fonte de Miriam” se
tornou o Mikveh que Aharon usava para preparar novos sacerdotes. No tempo
do Templo, todo judeu que queria entrar na casa de Deus, primeiramente
deveria passar pelo Mikveh.
No dia de Yom Kippur, quando o sumo sacerdote entrava no Santo dos
Santos, onde nenhum outro ser vivo poderia entrar, passava antes pelo
Mikveh como ritual preparatório para se apresentar perante o Criador. Tal
ritual é biblicamente muito importante, ele serve para remover as impurezas
da mulher pós menstruação, serve para mergulhar o novo converso e para
purificação de alguém que teve algum contato com cadáver, ou seja, na Torah
esse “batismo” não é apenas uma vez, mas sim algo constante, que pode ser
feito sempre que a pessoa achar necessário.
Alguns sábios fazem uma linda comparação do Mikveh com a história de
Noach. Por que Deus resolveu acabar com o mundo? Pois estavam seguindo
por caminhos abomináveis a Deus. Então por que foi por um dilúvio? Pois
pelo dilúvio não temos uma punição e sim um ato de purificação, as águas
submergiram o mundo totalmente, assim como o corpo do homem é
totalmente coberto no Mikveh, removendo as impurezas e voltando a purificar
essa terra. Mas Por que quarenta dias e quarenta noites? Pois quarenta se’ah é
a medida mínima requerida de água para preencher um Mikveh.
Diferentemente do que é definido pela igreja, Yehoshua não se batizou
para ser salvo, ele entrou no Mikveh como um ato preparatório de purificação
para o começo de seu ministério. Yohanan quando ficava no Jordão
batizando, ele não batizava as pessoas para que elas se tornassem cristãs, nem
para garantir que elas fossem salvas e nem ao menos era algo que ele fazia
apenas um vez na vida de cada um. Yohanan era bem claro, ele batizava
aqueles que queriam fazer tshuvah. Tshuvah nada mais é do que o
arrependimento, é largar o pecado e seguir a vida conforme a Torah, a partir
do momento em que o individuo tomava essa decisão para si, ele ia ao
Mikveh para se purificar e “renascer” para essa nova vida.
O Mikveh personifica tanto o útero quanto a cova, os portais da vida e da
morte.

É importante que esse conceito fique bem claro, o batismo não foi
invenção do novo testamento, nem de Yehoshua, nem de Yohanan, mas sim
um mandamento da Torah. O batismo não estava ligado diretamente a
salvação, mas sim à obediência a um mandamento, o qual, traz a salvação.
Infelizmente o batismo cristão é usado como uma porta para a conversão a
religião ou como garantia de vida eterna, mas não é bem isso que vemos pela
Torah. Yohanan não falava para o povo batizar e que tudo estava resolvido,
ele ensinava primeiro para as pessoas fazerem Tshuvah e então o batismo, ou
seja, primeiro se arrependiam, decidiam retornar ao caminho da obediência a
Deus, da Torah e então eram submergidas para serem purificadas, se
tornando assim limpas para seguirem essa nova vida que resolverem ter
através da Tshuvah. Quando alguém se converte ao judaísmo e resolve seguir
o caminho da Torah, esse alguém é também submergido no Mikveh, mas não
por ter entrado em uma nova religião, mas sim para estar pronto e limpo
perante Deus para poder ser santificado pelos mandamentos.
O batismo certamente é de vital importância, mas deve ser utilizado de
forma correta. Como vimos acima, nos versículos do Tanakh, o Mikveh serve
para preparar a pessoa perante Deus e para purificá-la, vamos ver o que os
sábios dizem a respeito:

Preparo
Por essa razão, a halachah determina que aquele que ainda não se
imergiu no mikveh, não estará pronto.
Kol Dodi Dofek, Imersão 3

Purificação
Se alguém é enterrado na terra de Israel, seus pecados serão transferidos
para o solo, a terra de Israel irá agir como o Mikveh, o purificando.
Rabbeinu Bahya, Devarim 32:43:3

Assim como o Mikveh purifica o impuro, também o Santo, Bendito Seja,


purifica a Israel.
Talmud da Babilônia, Tratado Yoma 85b

Os três comentários rabínicos casam perfeitamente com os versículos


citados acima. Ninguém estará pronto para uma vida de santidade, nem
ministerial, sem aquilo que o cristão chama de batismo, como já mencionei
acima, ele é também ligado a salvação, mas não como solução para alcançá-
la, porém ele faz parte de um processo que prepara a pessoa para um vida
que, dependendo de como for vivida, levará o indivíduo a verdadeira vida
eterna.

Yohanan tinha uma visão essênica, os Essênios exortavam aos judeus de


uma forma diferente dos fariseus, focavam muito na justiça e na piedade em
relação ao próximo. Na visão deles, se isso não fosse parte da atitude da
pessoa, ou seja, uma vida de acordo com aquilo que a Torah determinava
como “amar ao próximo como a si mesmo”, o Mikveh não seria válido
perante Deus. Não deveriam buscar perdão dos pecados através do Mikveh,
mas apenas uma purificação física, pois a alma já estaria limpa depois da
tshuvah.
Isso era exatamente o que Yohanan pregava, primeiro tshuvah, volta aos
caminhos do Criador e então estariam pronto para purificarem ao corpo. A
água só purifica o corpo daquele que já tem a alma purificada.
Os essênios também ligavam o batismo com o Espírito Santo, pois como
o Espírito serve para escrever a Torah no coração do homem, após o batismo,
a pessoa estará pronta para seguir as Leis de Deus com ajuda do Espírito
Santo.

YEHOSHUA E YOHANAN
Um assunto muito pouco abordado é o relacionamento entre Yehoshua e
Yohanan após o batismo, se olharmos para o livro de Mateus veremos que
existem duas história envolvendo a ambos, que se colocarmos lado a lado é
muito estranha a conclusão que ela nos dá.

E Yohanan respondia a todos: Em verdade eis me aqui, submergindo


vocês na água da Tshuvah e depois virá um mais forte do que eu, o qual eu
não sou digno de desatar as sandálias dos pés, ele vos purificará com o fogo
do Espírito Santo.
O garfo para joeirar está em suas mãos para tratar sua eira, ele irá
juntar os grãos em seus celeiros e a palha (será queimada em fogo, aquilo
que não é útil).
Então veio Yeshua de Galil ao Yordan, no mikveh de Yohanan.
E Yohanan estava em dúvida em submergi-lo e disse: É mais propício
que eu seja submerso pelas suas mãos e você que vem até mim?
Mateus 3:11-14

E ouviu Yohanan enquanto estava na prisão sobre os feitos de Yeshua e


mandou dois de seus talmidim.
Dizendo a ele: você é aquele o qual estava por vir ou teremos esperança
por outro?
E respondeu a eles Yeshua: vão e contem a Yohanan sobre as coisas que
viram e sobre as coisas que ouviram.
Os cegos enxergam, e os mancos andam, e os leprosos estão puros, e os
surdos ouvem, e mortos estão revividos e os pobres estão comprometidos.
Mateus 11:2-5

Como Yohanan, na época do batismo, reconhece a Yehoshua como


Mashiach, aquele que vem para trazer o julgamento, alguém que ele não é
digno de desatar as sandálias e depois de sua prisão, ele manda seus alunos
irem perguntar a ele se era ele aquele pelo qual eles esperavam? Não faz
sentido, a não ser que Yohanan tenha ficado louco na prisão ou aconteceu
algo de muito sério que não foi relatado.
Como trabalhar com essas hipóteses seriam apenas especulações, vamos
tentar achar uma solução buscando um outro ponto de vista, um ponto de
vista segundo os ensinos dos Essênios.
Para esse grupo, que possuía uma mentalidade muito mais cabalística que
os próprios fariseus, envolvida de mística e mistérios espirituais, o Reino dos
Céus tratava do momento pós julgamento, do reinado de Mashiach, da nova
Jerusalém. Yohanan de certo seguia e acreditava nessa linha de pensamento e
era bem possível que o próprio Yohanan acreditava ser ele o profeta que viria
no fim dos tempos para anunciar Mashiach Ben David. Muitos o chamavam
de Elias, o profeta que deveria preceder a era messiânica. Por esse motivo ele
pregava e ensinava que logo viria um depois dele que traria o julgamento de
Deus e inauguraria a era de Mashiach.
Como ele se via como a personificação da profecia, se apressava em
chamar o povo a fazer tshuvah, a se arrependerem, pois sabia que era questão
de muito pouco tempo para que aquele que tinha o garfo da joeira na mão,
chegasse e acabasse com tudo que fosse mal.
Porém, como todos sabemos, não foi bem isso que ocorreu, a vinda de
Yehoshua não veio trazer o julgamento final. As grandes catástrofes e
guerras, como previam os Essênios, não ocorreram naquele tempo, a
Jerusalém não foi restaurada, o Templo ainda continuava de pé e o tempo ia
passando enquanto Yohanan estava preso e ele não via nada daquilo que ele
acreditava acontecendo. Esse foi o ponto de quebra entre Yehoshua e
Yohanan, pois ele chega a conclusão que talvez ele não fosse o Mashiach,
criou duvidas em sua cabeça, pois o Reino dos Céus não se apresentava de
forma concreta, da forma como acreditava. Nisso, ele manda dois de seus
alunos questionarem a Yehoshua sobre a veracidade de quem ele realmente
era.
Claramente a visão que ambos tinham sobre o Reino dos Céus divergiam
em alguns ponto vitais. Para Yohanan, o Reino dos Céus se tratava da era
messiânica, que era eminente em sua época. Para Yehoshua, o Reino do Céu
se tratava da realização da primeira profecia dada ao Povo de Israel, a qual
dizia que seriam benção para todas as nações, era o momento de abertura da
portas, onde todas as nações conheceriam sua Torah, sua história, sua força,
as portas da salvação seriam abertas e a profecia do Povo de Israel ser
sacerdote para todas as nações se concretizaria. Isso tudo antes da efetiva
chegada da era messiânica.
O Tanakh fala até a vinda de Yohanan, então para ele, a vinda do Reino
dos Céus fazia total sentido, ele não imaginou que haveria um tempo entre o
fim do Tanakh e a era messiânica, tempo o qual, estamos nós vivendo, que á
aquilo que Yehoshua chamava de Reino dos Céus. É nesse tempo que Deus
tem estabelecido o conhecimento a Seu respeito às nações.
Sabendo disso, Yehoshua traz uma parábola em resposta a Yohanan:

E colocou perante eles outra alegoria (parábola). O Reino dos Céus é


como a pessoa que semeia boa semente.
E é quando os dois homens estão dormindo que vem seu inimigo e semeia
joio, em língua estrangeira beriyagah, dentre o trigo e se vai.
E quando cresce a erva fazendo frutos, ele vê o joio.
E se aproximam os servos ao senhor do campo e lhe dizem: nosso senhor,
não semeaste sementes boas? Da onde veio esse joio?
E disse a eles: meu inimigo fez isso e lhe disseram os servos: vamos
arrancar o joio.
E disse a eles: não, a não ser que arranquem também o trigo
Mas deixem que ambos cresçam juntos até a colheita e no tempo da
colheita eu direi aos ceifadores: Junte primeiramente o joio e o amarre em
feixes para serem queimados e o trigo ponham no celeiro.
Mateus 13:24-30

Para Yohanan, no Reino dos Céus os tzadikim permanecerão e o joio será


cortado, para Yehoshua, no Reino dos Céus, ambos coexistirão, essa
separação será só durante a colheita, após aquilo que Yehoshua define como
Reino dos Céus.
Resumindo, a visão teológica de ambos entrou em conflito, uma
totalmente essênica, enquanto a outra, apesar de algumas influências dos
Essênios, típica farisaica. O Reino dos Céus é essa época intermediária que
estamos, uma preparação para a era messiânica, quem não viver e se portar
nos conformes do que o Reino dos Céus exige, não entrará na era messiânica.
Na verdade, o Reino dos Céus é a realização do profecia dada a Abraham.

A PROFECIA À ABRAHAM
Abençoarei aos que vos abençoarem, e amaldiçoarei aos que vos
amaldiçoarem; e por meio de você todos os povos da terra serão
abençoados".
Genesis 12:3

Qual será a verdadeira benção que os gentios receberam através de


Abraham? Será a fé? Mas a fé é algo muito subjetivo, ninguém tem a fé igual
a de ninguém, a fé que Abraham tinha, só ele tinha. Será a Torah? Mas nem
todos acreditam que a Torah ainda tem validade. Será o povo judeu? O que
seria essa profecia efetivamente?
Para entendermos, devemos fazer uma análise da estrutura gramatical
hebraica usada nesse versículo. A Torah é quase toda escrita na voz passiva,
ao ler no original acaba sendo muito estranho algumas vezes, porém, quando
se trata de profecia, o verbo é sempre conjugado no futuro. No caso dessa
promessa a Abraham, o verbo é VENIBRECHU, conjugado na voz passiva
de uma forma incomum, pois trata de uma promessa para o futuro. Se
fizermos uma análise desse verbo, na sua raiz, nos leva a uma palavra
hebraica muito usada na Mishnah, que é MABRICH, que significa “enxerto”.
Então teríamos o seguinte:
Abençoarei aos que o abençoarem, e amaldiçoarei aos que o
amaldiçoarem; e por meio de você todos os povos da terra serão enxertados.
Genesis 12:3

Ou seja, a verdadeira benção que Deus promete é que todas as nações


poderão ser enxertadas na fé de Abraham. A maior benção que Deus pode dar
a alguém é a oportunidade de torná-lo parte de Seu Povo, parte do povo de
Abraham.
Então, quando Deus promete à Abraham que através da sua fé todos
aqueles que crerem e obedecerem como ele creu e obedeceu, poderão ser
abençoados com a oportunidade de serem enxertado no Povo de Israel.
É isso o que Yehoshua define como Reino dos Céus, só pararmos para
pensar, foi após a vinda de Yehoshua e sua morte que todas as nações do
mundo tiveram a chance de conhecer a Deus, o livro que existia apenas
dentro do Templo de uma das menores nações do mundo, se tornou o livro
mais vendido da história da humanidade, a maioria dos países possuem leis
baseadas, diretas ou indiretas, na palavra de Deus, desde leis sobre família,
casamento, roubo, assassinato, leis que não existiam de forma tão forte nas
nações na época ou em épocas anteriores a Yehoshua. Mesmo que muitos não
acreditem, todo mundo sabe o que é o monoteísmo, algo raro entre os povos
de seu tempo. O mundo inteiro sabe da existência de Israel, de sua fé, de seu
povo, de sua história, algo que só era conhecido por nações que viviam
próxima a terra de Israel. Tudo mudou, o conhecimento ao qual o mundo
inteiro tem acesso hoje é como nunca antes. De uma forma ou de outra, pelo
menos um mandamento da Torah, todos vivem, a mentalidade e educação
que muitos países tem baseadas na bíblia e oportunidades que foram dadas a
todo homem de ser enxertado no Povo de Israel, é o tempo do Reino dos
Céus. É incrível como ele sabia disso, tanto que ele ensinou que ambos, trigo
e joio, bom e mal, estariam juntos nesse Reino, porém, na era messiânica,
quem não estiver nos conformes desse Reino, será cortado, como ele explica
na parábola a seguir:

E saíram os servos aos caminhos e convidaram todos, bons e maus e a


CHUPAH se encheu com aqueles que comiam.
E veio o rei para ver os que comiam e viu ali um homem que não se
vestia com roupas de CHUPAH.
E disse a ele: meu amado, como você veio aqui sem roupas de
CHUPAH? E ele estava calado.
Então disse o rei aos seus servos: amarrem as mãos e os pés desse
homem e o atirem no mais baixo SHAOL, ali terá choro e dentes batendo.
Muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos.
Mateus 22:10-14

A Chupah é o Reino dos Céus, todos estavam lá, porém havia um que,
mesmo estando lá, não se portava de acordo com o Reino dos Céus, que no
final é atirado no shaol. E termina com “muitos são chamados, mas poucos os
escolhido”, é ai que Yehoshua se refere ao Reino dos Céus e a era
messiânica, pois apesar de todos terem acesso a Deus e à Sua Palavra, não
quer dizer que entrarão na era de Mashiach.
Existem muitas pessoas que se manterão na visão de que o Reino dos
Céus realmente se trata da era messiânica, assim como Yohanan acreditava:

E dizia: façam Tshuvah que o Reino dos Céus está se aproximando.


Mateus 3:2

Yehoshua usa de palavras parecidas para se referir ao Reino dos Céus,


porém com uma conjugação verbal diferente:

Daqui em diante começou Yeshua a pregar e falar sobre o retorno a


Tshuvah, pois o Reino dos Céus havia chegado.
Mateus 4:17
Ele afirma que o Reino dos Céus JÁ HAVIA CHEGADO, já começou,
se o Reino dos Céus realmente fosse a época da redenção, a era messiânica, a
qual ainda está por vir, Yehoshua teria cometido um equivoco ai. O ponto em
comum é a Tshuvah, ou seja, o arrependimento e o retorno aos caminhos da
Torah.
Esse foi o grande embate entre ambos, como cada um definia o termo
Reino dos Céus. Mas apesar das discórdias, Yehoshua sabia da importância
de Yohanan e também sabia que não poderia diminuir a figura que foi, pois
se esse fosse o caso, Yehoshua não poderia afirmar que era Mashiach, pois
Yohanan deveria preceder sua vinda. Sabendo disso, Yehoshua alega o
seguinte:

Ainda disse Yeshua a seus talmidim: eu falo pra vocês que entre todos os
nascidos de mulher, não levantou um maior do Yohanan o imersor.
De seus dias até agora, o Reino dos Céus tem sido oprimido.
Pois todos os profetas e a Torah falaram sobre Yohanan.
Se você recebê-lo, ele é Eliahu, que ainda estava por vir.
Quem tem ouvidos, ouça!
Mateus 11:11-15

As traduções para as línguas ocidentais possuem uma diferença nessa


parte, onde Yehoshua alega que o menor no Reino dos Céus é maior do que
Yohanan, tal alegação não aparece no original e é completamente incoerente.

O CARVALHO E O JUNCO
E passado isso, Yeshua foi e começou a falar sobre Yohanan à multidão:
vocês viram o que no deserto? Moshlechet Baruach?
Mateus 11:7

E partindo eles, começou jesus a dizer às turbas, a respeito de João: Que


fostes ver no deserto? Uma cana agitada pelo vento?
Mateus 11:7 ALMEIDA

Um último tópico em relação a Yohanan que gostaria de abordar trata


justamente de um termo totalmente local. Se olharmos as traduções, ambas
são difíceis de entender, principalmente a tradução do original, caso o leitor
não tenha pleno conhecimento da mentalidade popular da época de
Yehoshua. Por outro lado, temos também uma tradução ocidental tão ruim
que beira o hilário, que deixa o leitor completamente alheio ao que está
escrito no texto.
Durante séculos, Israel ficou sob o domínio dos gregos, houve então uma
absorção muito forte de diversos aspectos da mentalidade e estilo de vida
helenista que mudou completamente o dia a dia da terra de Israel. Tal fato foi
tão profundo e sério que muitos rabinos escreveram diversos comentários e
textos sobre essa época, foi um tempo de forte assimilação do Povo de Israel
por uma cultura de práticas pagãs.
Junto com essas práticas, vieram também a arte, a história e a cultura,
assim como seus contos, fábulas, ensinos e metodologias. Entre elas, existia
uma muito conhecida e que se espalhou muito rapidamente entre o povo
judeu, sendo que, na época de Yehoshua, era conhecida por absolutamente
todos, como uma espécie de folclore. Tal conto era conhecido por Moshleceht
Baruach, em português, “o conto do carvalho e do junco”:

Um majestoso e singular carvalho, ao ser arrancado do solo pela força


do vento é arremessado rio abaixo e arrastado pela correnteza.
Ao cruzar com alguns juncos, em tom de lamento, diz:
“Gostaria de ser como vocês que, de tão frágeis, não são de modo algum
afetados por esse vento.”
E eles respondem:
“você lutou com o vento e por isso sucumbiu. Nós, ao contrário, nos
curvamos perante a menor brisa e assim permanecemos salvos.”

Yehoshua confronta as pessoas que achavam que fossem chegar no


deserto e encontrar um Yohanan majestoso, forte como um carvalho e ao
chegarem lá viram um cara simples, como um junco. Então ele traz esse
conto popular à tona, ensinando que apesar de parecer um junco frágil e sem
força, ele se mantinha de pé, pois sabia se curvar perante aquilo que ele
deveria se curvar e não como um arrogante carvalho. E ele continua:

Ou o que saíram para ver? Pensaram que Yohanan era um pessoa que
vestia roupas nobres? Os que se vestem com roupas nobres estão nos
palácios (não no deserto).
Então, o que vocês foram ver? Um profeta? De verdade digo a vós que
esse é maior que um profeta.
É sobre ele que está escrito para o meu bem: mando meu anjo que abrirá
o caminho perante mim.
Mateus 11:8-10

Um voz que clama do deserto: preparem o caminho de Adonai, levante


no deserto uma via para nosso Elohim.
Isaías 40:3

“preparem”, essa palavra é endereçada a todas as nações.


Ibn Ezra, Isaias 40:3:2

Quando o Santo, Bendito Seja, redimir a Israel, três dias antes da vinda
de Mashiach, Elias virá e estará sobre as montanhas de Israel. Nessa hora, o
Santo, Bendito Seja, mostrará sua glória e seu reino a todos os habitantes do
mundo.
Peshikta Rabbati 35
◆◆◆
SEÇÃO IV
TENTAÇÃO

Então Yeshua foi levado pelo Espírito Santo ao deserto para ser tentado
por satan.
E jejuou Yeshua por quarenta dias e quarenta noites e depois disso teve
fome.
O tentador se aproximou e lhe disse: Se você é filho de Elohim, diga para
essa pedra se tornar pão.
E respondeu Yeshua dizendo-lhe: Está escrito que não só pelo pão e etc.
Então satan o levou a cidade santa e ficaram sobre o lugar mais alto,
sobre todo o templo
E disse a ele: Se você é Elohim, pule para baixo, pois está escrito: Ele
ordenou aos seus anjos para lhe guardar em todos seus caminhos e etc.
E Yeshua respondeu a ele pela segunda vez, não tentará Adonai seu
Elohim.
E satan o carregou a um monte muito alto e lhe mostrou todos os reinos
da terra e suas glórias.
E lhe disse: Tudo isso lhe darei se você se render a mim.
Então Yeshua lhe respondeu: vá satan, que é satanás, pois está escrito
que apenas a Hashem orarei e apenas a Ele servirá.
Então satan o deixou e eis que anjos se aproximaram dele e lhe serviram
(ministraram).
Mateus 4:1-11

Cada religião, cada crença, cada comunidade religiosa, possui seus


próprios meios para resistir e expulsar a satan. Muitas usam a oração, o
jejum, o nome de jesus, a gritaria, a entrevista (bizarro, mas acontece) e etc.
Mas o que eu nunca vi, foi alguém resistir ou afastar o espírito de satan da
mesma forma como Yehoshua fez enquanto estava no deserto.
Yehoshua combate a satan usando a Torah, não apenas citando-a, mas
ensinando que vivendo o estilo de vida determinado pelas Leis de Deus é o
que afastará o opositor da vida do homem. Ele não precisou expulsá-lo, nem
orar, nem fazer exorcismo ou seja lá o que for, tudo que ele fez foi mostrar
que pelo estilo de vida dele, estilo de vida conforme Torah, foi o suficiente
para manter o adversário e suas armadilhas bem longe, por mais que ele tente.
Nos três encontros que Yehoshua teve com satan, ele usa quatro
simples, mas profundas, passagens da Torah para se livrar da presença do
opositor e mostrar como se vence suas tentações.

VIVER PELO PÃO


...Mas não apenas de pão viverá o homem, mas de tudo encontrado na
boca de Adonai.
Deuteronômio 8:3b

Quando as escrituras apresentam os termos vida, morte, viverá e morrerá,


eles não se referem apenas a vida e a morte física, mas sim a vida eterna e a
condenação eterna. Veja pelo próprio Adam quando comeu do fruto, mesmo
que Deus tenha dito que morreria naquele mesmo dia, viveu mais de
novecentos anos. Então os termos vida, viverás, terás vida e etc. são todos
referentes a vida eterna.
O conceito "vida eterna" se tornou muito forte no novo testamento, pois é
uma terminologia vastamente usada pelos fariseus e judeus do primeiro
século, por isso que essa ideia fazia parte intrínseca das pregações de
Yehoshua. Devido a esse motivo, para entendermos ao que ele se refere com
o "nem só pelo pão viverá" dessa citação que ele faz a satan, devemos olhar
para aquilo no que ele se baseava.

Para que o homem viva, ele não deve por sua segurança no pão, apenas
naquilo encontrado na boca do Senhor. Pelas Leis que saem da Sua boa
viverá o homem e o colocarão em segurança e lhe darão vida neste mundo e
no mundo vindouro.
Bekhor Shor, Devarim VIII:III

Segundo o comentário de Bekhor Shor, o homem que busca a vida eterna


não deve buscar ao pão, pois o pão só garante uma vida momentânea, a vida
nessa terra. Porém aquilo que sai da boca de Adonai não só garante a vida na
carne, mas também a vida eterna e por último, ele ainda afirma o que é aquilo
que está na boca de Deus e que garante a vida, Seus mandamentos.
Podemos ligar alguns pontos aqui. Está escrito que a fé é gerada naqueles
que ouvem a "palavra" de Deus, também é sabido que essa "palavra" é
justamente aquilo que se encontra na boca de Adonai. Sendo assim, como a
fé é gerada pela "palavra" que sai da boca de Adonai e essa mesma "palavra"
é o que dá a vida eterna, chegamos a conclusão que o homem "viverá pela
fé". Da boca de Deus sai a palavra, a qual é ouvida pelo homem, gerando fé
nele e consequentemente ele viverá.
Esse é um conceito bíblico conhecido tanto por judeus quanto por
cristãos, o profeta Habacuque é quem faz essa ligação:

Eis que a sua alma está orgulhosa, não é reta nele; mas o TZADIK
viverá pela fé.
Habacuque 2:4

Apesar de ser uma afirmação que todos conhecem, a interpretação que


normalmente é dada às palavras do profeta não são bem coerentes com a
mensagem que ele está passando. Muitos usam dessa profecia,
principalmente cristãos, para justificarem que terem fé, ou seja, acreditarem
em algo ou algum acontecimento, é suficiente para que tenham a vida.
Infelizmente esse entendimento não é o mesmo que formava a base de
conhecimento do profeta, de Yehoshua e do Povo de Israel, ao qual essa
profecia foi entregue. Esse termo “fé” que Habacuque usa não se refere ao
“crer” e nem a “emunah”, existe um outro significa por trás.

Deus deu a Israel 613 mandamentos, pelos quais se obteria a vida eterna.
Se o homem os observar, viverá por eles. Mas 613 são muitos para lembrar,
o rei David os simplificou os 613 para apenas 11 mandamentos em Salmos
15. Mas 11 ainda são muitos para se lembrar. Então o profeta Isaías os
simplificou, de 11 para 6 mandamentos em Isaias 33:13-14. Mas 6 ainda são
muitos para se lembrar. Então em Miquéias 6:8 temos: “1) faça a justiça, 2)
ame a bondade, 3) ande humildemente perante Deus.”. Mas mesmo 3 coisas
são um pouco pesadas. Então Isaías os simplifica mais uma vez, sumarizando
toda a Torah em apenas 2 princípios em Isaías 56:1: “Mantenha a justiça e
faça o correto”. E Então vem Habacuque e simplifica toda a Torah em
apenas um único princípio: “O tzadik viverá pela fé”.
Talmud da Babilônia, Tratado Makkot 24a

Segundo o Talmud e o entendimento judaico sobre essa “fé” de


Habacuque, ela representa justamente a sumarização dos mandamentos de
Deus. A “fé”, pela qual o homem viverá, é a Torah e os mandamentos de
Deus. A bíblia fala algumas coisas a esse respeito.

Portanto, os meus estatutos e os meus juízos guardareis; os quais,


observando-os o homem, viverá por eles. Eu sou o Adonai.
Levítico 18:5

“viverá por eles” se refere a vida eterna. Pois se você pensa que esse
versículo se refere a esta vida, não está o homem fadado a morrer na carne?
Rashi Chamisha Chomashi Torah, Levítico 18:5

E você guardará meus estatutos e meus juízos, os quais, se um homem os


segui-los terá a vida através deles e vida eterna.
Targum Onkelos (tradução aramaica), Levítico 18:5

E você guardará meus estatutos e as ordens de meus julgamentos, os


quais, se um homem os fizer, sua posição na vida eterna será entre os justos.
Targum Yonatan, Levítico18:5

Acredito que isso deixa bem claro que a “fé”, a qual Habacuque fala, não
é a fé ensinada pelo meio cristão. Nesse caso, a fé representa a Torah e os
mandamentos que, segundo o próprio Deus, aqueles que os seguirem, viverão
por Eles, ou seja, terão a vida eterna.
A prova final é justamente o que Habacuque fala, “o justo viverá pela fé”,
esse justo no original é Tzadik. O Tzadik é aquele que tem a vida segundo a
Torah e a verdadeira vontade do verdadeiro Deus. Sendo assim, poderíamos
fazer uma releitura desse versículo da seguinte forma:

“Aquele que segue aos mandamentos de Deus e tem uma vida de acordo
com a Torah, terá a vida nesse mundo e no mundo vindouro”.

Pão
É um erro acreditar que a capacidade do homem, seu poder criativo e sua
própria força são suficientes para mantê-lo vivo na face da terra. O fator
primário que mantêm toda essa existência terrena é a providência divina.
Quem acredita na própria capacidade para conseguir o pão de cada dia é mais
uma vítima da mais perigosa desilusão que um ser humano pode ter, mais
cedo ou mais tarde, ela baterá em sua porta.
O pão possui uma representação bíblica bem interessante, não só é o mais
básico e simples entre todos os alimentos, mas ele representa a conquista que
todo homem quer obter enquanto nessa terra. A palavra pão em hebraico é
LECHEM (‫)לחם‬, da mesma raiz da palavra MILCHAMAH (‫)מלחמה‬, que
significa guerra. Isso nos dá uma revelação profunda, pois nos ensina que
quando esse “pão” (entenda-se, tudo aquilo que uma pessoa conquista) NÃO
vem de Deus, o homem entrará em uma “guerra” para obtê-lo, uma guerra
contra o próximo, contra familiares, contra amigos, contra si mesmo e por
muitas vezes, contra Deus. Mesmo que haja algumas vitórias na conquista
desse “pão”, o preço que vem junto com essa conquista pode ser
injustificável e, em muitos casos, doloroso demais.

Agora fica claro a razão oculta da reposta de Yehoshua a satan. O pão,


que representa a vida terrena e suas necessidades, oferecido por satan, pode
ser momentaneamente bom, porquê se fosse REALMENTE BOM, o homem
não teria fome nunca mais após comê-lo, pois ele só é bom naquele dia,
naquele momento. Assim como as promessas de satan, ou de religiões e
práticas proibidas pela Torah, podem parecer e até serem boas, são apenas
momentâneas, fúteis e vazias, e como esse pão tem a mesma raiz que guerra,
e guerra é algo dolorido, esse “bom” momentâneo, em determinado
momento, trará dores como as de guerra.

Fútil, futilidade sobre futilidade, é tudo fútil.


Qual o verdade valor daquilo que o homem ganha por si só através
daquilo que faz debaixo do sol?
Eclesiastes 1:1

Por outro lado, para aqueles que não se preocupam com as coisas terrenas
e vivem conforme o determinado por Deus, terão o pão todos os dias na
mesa, sem esforços, sem guerras, sem dores e ainda por cima, terão o pão que
não permitirá que eles nunca mais tenham fome, o pão da vida eterna.

TENTAR ADONAI
Não tentem (‫ )תנסו‬Adonai, seu Elohim, como fizestes em Massah.
Deuteronômio 6:16
Essa passagem mencionada por Yehoshua só faz real sentido se
estudada em hebraico. A palavra usada para “tentem” é T’NASU (‫)תנסו‬. O
verbo tentar – LENASOT (‫ – )לנסות‬possui a mesma raiz da palavra milagre –
NAS (‫)נס‬. O que a Torah nos ensina aqui é para não tentarmos a Deus para
que Ele faça algum milagre ou prove Sua existência através de milagres. Sua
existência já é comprovada com a perfeição que vemos em toda Sua criação e
em relação aos milagres, cabe apenas a Ele decidir fazê-los ou não. Seguir a
Deus atrás de milagres ou pelo Seus milagres, é a verdadeira proibição que
essa passagem se refere.
Interessante como Yehoshua rebate satan com essa passagem. Talvez seja
por causa do monte de religião que existe hoje em dia, as quais sobrevivem
através de promessas que Deus fará milagres na vida daqueles que se
associarem a elas. Intrigante, pois me parece que satan gosta de “oferecer” ou
“tentar convocar milagres” de Deus, algo claramente proibido aos homens
pela Torah, e vejo exatamente isso em muitas vertentes cristãs.
Vai do entendimento de cada um.

APENAS A HASHEM ORAREI E ADORAREI


Yehoshua, nessa última tentação, faz menção a duas passagens do livro
de Deuteronômio, a primeira é “apenas a Hashem orarei” e a segunda
“apenas a Adonai servirás”.
Na primeira, algo que está apenas no livro original de Mateus, Yehoshua
diz que ele orará apenas a HASHEM. Eu acredito que a pessoa que crê que
ele é Mashiach, deveria fazer como ele fazia e ensinou, deveria orar apenas a
Adonai, assim como ele diz que fez. Isso automaticamente exclui orações
feitas ao próprio Yehoshua, ao jesus, aos anjos, aos santos, ao espirito santo,
aos mortos, aos extraterrestres, aos profetas, a buda, a Maomé, às virgens e
todo o resto que pode passar pela mente humana.

Eu orarei (‫ )אתפלל‬a Hashem...


Deuteronômio 9:26a

Eu realmente não entendo os motivos que levam uma pessoa a orar a


alguém além do Verdadeiro Criador. Eu vejo muito no cristianismo orações
começando com “amado jesus” ou “meu jesus”, fico com a impressão que
essas pessoas servem mais a uma religião e a sua teologia doente ao invés de
servirem a palavra do Deus que É e sempre Será. Mas cada um sabe o que é
melhor para si.
Já na segunda citação, temos um problemão. Yehoshua reafirma um
mandamento da Torah, APENAS A ADONAI deve ser dada adoração. Nas
versões ocidentais também aparece essa alegação de Yehoshua em relação a
adorar apenas a Adonai.
Vamos olhar o que a citação que Yehoshua faz, diz:

Apenas a Adonai temerás(‫)תירא‬, seu Elohim e apenas a Ele


ADORARÁS(‫ )תעבד‬e apenas em Seu nome jurarás(‫)תשבע‬.
Deuteronômio 6:13

Temerás (‫ – )תירא‬Subordinação da mente e vontade a Deus.


Adorarás (‫ – )תעבד‬Subordinação total da existência a Deus.
Jurarás (‫ – )תשבע‬Subordinação de todos os atos a Deus.

Não pode ser mais claro, Yehoshua claramente afirma que apenas a
Adonai Eloheinu devemos servir e adorar.

Esse é o estilo de vida que mantém sata longe, obediência, fé e


oração e adoração apenas a Adonai.

Ponto final. Quem tiver entendimento, que entenda.


◆◆◆
SEÇÃO V
O REINO DE ISRAEL

E passaram dias e Yeshua ouviu que Yohanan foi levado à prisão e então
foi para Gilgal.
E passou por Nazarael e habitou em Kafar Nahum Raitah, que em língua
estrangeira significa Marítima, nos arredores das terras de Zevulum.
Para cumprir o que o profeta Isaias disse:
Terra de Zevulum e terra de Naftali, caminho do mar, além do Yordan,
Galil dos estrangeiros.
O povo que andava na escuridão viu uma grande luz, aqueles que
habitavam em uma terra de tremenda escuridão viu luz brilhar sobre eles.
Mateus 4:12-16

Mas a terra que foi angustiada não será escurecida. Tornou-a


desprezível nos primeiros tempos, a terra de Zevulom e a terra de Naftali.
Mas nos últimos tempos a enobrecerá junto ao caminho do mar, além do
Jordão, na Galiléia das nações.
Isaías 8:23**

O povo que andava em trevas, viu uma grande luz, e sobre os que
habitavam na região da sombra da morte resplandeceu a luz.
Isaías 9:1**
** esses versículos nas versões ocidentais correspondem a Isaias 9:1-2

Em toda literatura rabínica existem pouquíssimas conexões sobre essa


profecia de Isaías com a obra messiânica. Por esse motivo, fiquei curioso em
saber o porquê o autor do livro de Mateus fez questão de citar essa profecia
de Isaías, associando-a a Mashiach e algo me foi revelado.
Através de uma interpretação muito simples, entendemos que Mateus fez
essa conexão, pois Yehoshua se mudou para fora de Yehudah, para as terras
do antigo Reino de Israel, em Kafar Nahum, terras que um dia pertenceram às
tribos de Zevulum e Naftali e que sua presença lá trouxe luz aos seus
habitantes. Esse Midrash simples, feito autor de Mateus sobre a profecia de
Isaías, ao associá-la com Yehoshua, é válido, assim como qualquer outra
análise rabínica. Mas o que realmente me intriga a esse respeito é justamente
o que seria essa “luz” que foi levada à Galileia dos gentios e qual foi o real
motivo pelo qual Yehoshua foi para lá.

O REINO DE ISRAEL
Após a morte do rei Salomão em torno de 922a.e.c., Israel foi dividido em
duas partes, o reino do norte, chamado Reino de Israel, que englobava as
tribos de Reuven, Dan, Naftali, Gad, Asher, Issachar, Simeon, Zevulum,
Efraim e Menasseh, e o reino do sul, chamado Yehudah, formado pelas tribos
de Judah e Benjamim e os levitas circulando entre ambos os reinos.
Em 722a.e.c., depois de muitos avisos de Deus, o império Assírio invadiu
Israel e o reino do norte foi conquistado devido às maldades de seus reis. A
grande maioria do povo de Israel foi exilado, o império Assírio deslocou
quase todos os habitantes do reino do norte e os dispersou por todo o mundo,
a maioria deles foram levados para Media e Aram-Naharaim e, em seus
lugares, foram trazidas pessoas de diversas outras regiões do império para
habitarem nessas terras.
As tribos perdidas do Reino de Israel é um dos maiores mistérios da
história judaica. Múltiplas teorias foram criadas em cima disso, tem aqueles
que dizem que alguns se encontram na Índia, outros na Nigéria e tem alguns
outros que ousam dizer que os descendentes dessas tribos são os índios
nativos da América do Norte.
Inúmeras evidências arqueológicas comprovam que essas pessoas, do
Reino de Israel, foram eventualmente absorvidas e assimiladas em sociedades
gentílicas e portanto, as pessoas dessas tribos tiveram seus paradeiros
perdidos e desapareceram por completo. Hoje ninguém sabe o que realmente
aconteceu com eles, a única coisa que restou foi uma profecia a respeito dos
descendentes dessas tribos:

E você, mortal, pegue uma vara e escreva nela: De Yehudah e os


israelitas associados com ele. E pegue outra vara e escreva nela: De Yosef, a
vara de Efraim e todos da casa de Israel associados com ele.
Aproxime-os um ao outro, para que se tornem uma vara, juntas pelas
suas mãos... ...Assim diz Adonai: Eu irei tomar a vara de Yosef – a qual está
nas mãos de Efraim – e das tribos de Israel associados com ele e eu a
colocarei sobre a vara de Yehudah e assim farei delas apenas uma vara,
juntadas pelas minhas mãos.
Ezequiel 37:16-19
Muitos rabinos ensinam que na era de Mashiach, os descendentes dessas
tribos serão novamente reunidos na terra de Israel pelas mãos do próprio
Criador. Dizem os sábios que existe algo dentro de cada membro do Povo de
Israel que o diferencia de todas as outras nações, fora a Torah, todos os
descendentes de Yaakov possuem uma fagulha divina dentro de suas almas,
uma fagulha que é passada de geração em geração. Os descendentes dessas
tribos, hoje espalhados pelos quatro cantos do mundo, não sabem que fazem
parte do povo criado por Deus. Muitas pessoas ao redor do mundo, dentre
diversas nacionalidades e credos, serão chamados de volta através dessa
fagulha divina que eles possuem em seus interiores, em suas almas. Serão
pessoas que, mesmos sem saber ou entender, rapidamente aceitarão esse
chamado que será feito através de Mashiach.

Rabbi Eliezer diz: assim como o dia é seguido pela escuridão e então a
luz retorna, então também, mesmo que se torne escuridão para as tribos
perdidas, Deus irá definitivamente tirá-los da escuridão.
Talmud da Babilônia, Tratado Sanhedrin 110b

A obra redentora de Mashiach Ben Yosef é justamente ajuntar o seu


povo, ele irá trazer de volta todos os descendentes de Yaakov para servi-lo. A
afirmação de Rabbi Eliezer é uma leve alusão que o Talmud faz sobre a
profecia de Isaías, esse entendimento rabínico é o provável motivo pelo qual
Mateus faz questão de citar esse profeta em seu livro. O fato de Yehoshua ter
tido uma ligação com essa região e com algumas das pessoas que ali
habitavam, faz bastante sentido em relação a sua alegação de ser o Mashiach,
pois essa atitude demonstra, mesmo que por um momento e apenas de uma
forma simbólica, a conexão dele com o Reino do Norte. Quando Yehoshua ia
para essas regiões fora da terra de Yehudah, ele não ia atrás dos samaritanos
ou dos gentios, nem tão pouco fazer “evangelismo”. Ele ia atrás dos
remanescentes dessas tribos, já mostrando um de seus propósitos. Em uma
dessas viagens ele afirma:

E respondeu a ele Yeshua: não fui enviado exceto para as ovelhas


perdidas da casa de Israel.
Mateus 15:24

Muitos cristão acreditam que essas “ovelhas perdidas de Israel” são os


judeus que estão sob a maldição da lei ou ensinam que essas ovelhas
representam os gentios que aceitarão jesus ou até mesmo, que essas ovelhas
mostram como o povo judeu é um povo perdido.
Mas deixando todas essas interpretações viciadas cristãs de lado, essa
alegação mostra, na verdade, que ele veio atrás das ovelhas perdidas da Casa
de Israel, essas ovelhas as quais ele se refere não são os judeus, não são os
habitantes de Yehudah, mas sim os descendentes perdidos do Reino de Israel,
aquelas pessoas que foram dispersadas, perdidas e que pertenciam às outras
tribos de Israel. Assim como ensinar a Torah, redimir o povo e governar
sobre todas as nações, uma outra obra de Mashiach é justamente ajuntar os
descendentes perdidos de Yaakov, o qual também era chamado de Israel.
Essa atitude por parte de Yehoshua corroborava com a alegação que ele faz
posteriormente de ser o Mashiach.
Um outro rabino faz um comentário sobre essa passagem de Isaías 9, o
qual relaciona a luz com o fim dessa obra que os assírios fizeram, ou seja, o
fim dessa dispersão das ovelhas de Israel:

Após a queda do que fez a Assíria, não haverá ninguém perdido de Israel
que ficará no escuro e então verá a grande luz.
Malbim, Isaias 9:1

HIPÓTESE
Dos últimos anos pra cá, uma forte busca pela Torah por parte do mundo
gentílico tem acontecido. Em diversos lugares do mundo, muitos cristãos
estão deixando de lado os ensinos e dogmas comuns da igreja para buscarem
respostas na Torah divina. A sede pelo conhecimento sobre Adonai cresce no
mundo ocidental de uma forma sem precedentes, muitas pessoas estão
deixando de lado a mentalidade típica cristã e estão se associado aos
mandamentos dados por Deus.
Tal fenômeno, nunca visto antes, tende a crescer cada vez mais conforme
se aproxima a era de Mashiach. Talvez essas pessoas, que largam a religião
para assumir o jugo da Torah, são pessoas que possuem uma fagulha divina
em suas almas, a mesma fagulha que é encontrada nos filhos das tribos de
Israel e talvez sejam essas pessoas os descendentes das ovelhas perdidas da
casa de Israel.
Se fizermos algumas conexões com a obra de Yehoshua, essa hipótese
pode ser plausível, pois ele mesmo declara que veio para ajuntaras ovelhas
perdidas de Israel. Querendo ou não, foi através de sua vida que o
conhecimento sobre o Deus Único e sobre a bíblia chegaram aos gentios, não
foi através de um judeu batendo de porta em porta ensinando a “boa nova”.
Por esse fato, essa declaração que ele faz em relação a sua missão, começou a
se cumprir depois de sua morte e vem se tornando concreta nos dias atuais.
Também acredito que, não é pelo fato do indivíduo pertencer a algum
templo cristão ou vertente do cristianismo que ele seja um descendentes da
Casa de Israel, pois muitos dos que se encontram nessas religiões estão
fortemente presos a elas, às suas teorias, teologias e dogmas. Ao mesmo
tempo que o cristianismo prendeu diversas pessoas, foi através do próprio
cristianismo que Deus manteve essas ovelhas perdidas próximas a Ele e agora
chegou a hora de separá-las de religiões ocidentais e trazê-las de volta para a
verdadeira vontade do Criador.
Dizem que os sinais da vinda do Mashiach serão percebidos ao olharmos
para Israel, talvez, esse Israel não seja o Estado de Israel, mas sim ao Reino
de Israel. Acredito que essa fagulha que existe dentro de muitas pessoas que
mostra que elas são os descendentes dessas tribos perdidas, servirá de sinal
que precederá a vinda de Mashiach. Essa fagulha serve como um radar, pois
esse movimento que tem ocorrido em todo o mundo, onde as pessoas buscam
cada vez mais a Torah ao invés de ensinos de homens, mostra claramente que
Deus está reunindo o seu povo para a era messiânica, talvez seja esse o Israel
para o qual devemos olhar, muitos gentios se aproximando sem motivo
algum a Israel e de uma forma milagrosa, se colocando sob o jugo da Torah.
Sendo assim, a luz relatada por Mateus e profetizado por Isaías, está
chegando agora na vida daqueles que entendem a idolatria praticada pelo
cristianismo, as mentiras que vem sido ensinada por anos pela igreja e
começam a se identificar e a se conectar à única verdade, a Palavra do
Criador.
QUE SEJA EM NOSSOS DIAS!
◆◆◆
SEÇÃO VI
ASHREI

E abriu sua boca e falou com eles dizendo:


Ashrei aquele que tem o espírito humilde, dele é o Reino dos Céus
Ashrei os que esperam, eles descansarão
Ashrei os simples, pois herdarão a terra
Ashrei o de coração e esperanças inocentes, verão a Elohim
Ashrei os que buscam a paz, serão chamados de filhos de Elohim
Ashrei os perseguidos por serem tzadikim, deles é o Reino dos Céus.
Ashrei serão vocês quando forem perseguidos e repreendidos e lhes
disserem muitas coisas ruins por causa da Torah, todas ditas falsamente.
Alegrem-se, sua recompensa será muito grande nos céus, porque
perseguiram aos profetas.
Mateus 5:2-12

e ele se pôs a ensiná-los, dizendo:


Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus.
Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados.
Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra.
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça porque eles serão fartos.
Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia.
Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus.
Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de
Deus.
Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles
é o reino dos céus.
Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguiram e,
mentindo, disserem todo mal contra vós por minha causa.
Alegrai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque
assim perseguiram aos profetas que foram antes de vós.
Mateus 5:2-12 ALMEIDA

As clássicas “bem aventuranças”, vastamente conhecidas e pregadas pelo


mundo cristão, nada mais são do que preceitos antigos dentro da mentalidade
judaica e são datados muito antes da construção do primeiro Templo. Ao
compararmos as traduções, conforme mostradas acima, podemos perceber
fortes discrepâncias, tanto no assunto que é igual em ambas, como também
nas partes da versão do Almeida que não existem no original, nos mostrando
a influência da igreja antiga quanto a manipulação da bíblia.
No original, os versículos 6 e 7 foram escritos de uma forma quase
inelegível, talvez pelo fato do autor usar uma linguagem ou vícios de
linguagens muito peculiares, não sabemos, porém esses versículos não se
encontram na versão original. A minha análise será feita pelo original,
deixando os versículos “extras” de fora, pois são assuntos que não estão de
acordo com a mentalidade judaica.

ASHREI
O que temos como “bem aventurados”, em hebraico, aparece o termo
ASHREI (‫)אשרי‬, o qual é de uso muito comum no meio rabínico até os dias
de hoje. Com certeza Yehoshua não inventou tais jargões, pois ele, além de
usar de uma linguagem que todos conheciam, se prendia essencialmente ao
YVRIT TANAKHI (hebraico bíblico) em seus ensinos.
O Siddur (livro de rezas judaicas) e o livro de Tehilim (Salmos) são
repletos do termo ASHREI para se referirem a alguém que tem um caminhar
que torna esse alguém uma pessoa abençoado. O termo ASHREI não se
refere a alguém que é abençoado por Deus, mas sim ao indivíduo que se torna
bendito pelo próprio caminhar. Ambos os conceitos, apesar de próximos,
tratam de duas coisas totalmente diferentes. Yehoshua, ao começar seu
ensino com esse termo, se refere ao próprio caminhar de seus talmidim.

ASHREI o homem que não anda segundo os conselhos dos ímpios...


Salmos 1:1

A palavra ASHREI também se refere ao nome de uma reza, já bem


conhecida na época de Yehoshua, que é recitada três vezes ao dia e que era
composta de trechos dos Salmos 84, 115, 144 e 145.

BEM AVENTURADOS
1- O primeiro ASHREI se refere a humildade de espírito, o qual é
comumente ensinado como humildade financeira, dando a entender que o
pobre receberá o Reino dos Céus, porém, o humilde que ele se refere aqui é o
humilde de espírito. Isso significa que nosso espírito deve ser livre do
orgulho e da busca de méritos próprios. Devemos ter o entendimento de que
tudo que acontece na vida daquele que realmente busca ao Criador é graças a
Ele e não pelos atributos e méritos próprios. Pode parecer algo simples, mas
para qualquer ser humano, ter o autocontrole do próprio ego, principalmente
quando Deus realiza algo grande através dele, é muito difícil. Não receber a
glória de homens e ter a total ciência disso é verdadeiramente se tornar um
ASHREI. Como dizia o mestre de Yehoshua:

Sejam de espirito humilde perante todos os homens.


Rav Hillel, Pirkei Avot 4:10

O mesmo Yosef que cuidava dos cordeiros do pai é o mesmo Yosef que
estava no Egito e se tornou líder ali, se manteve correto e tzadik, devido a
seu espírito humilde.
Rashi, Êxodo 1:5:1

Além de vermos as palavras de seu rabino Hillel, Yehoshua vai de acordo


com a mentalidade judaica. Rashi, ao comentar o livro de Êxodo, alega que
Yosef se tornou líder e mesmo como um, se manteve humilde da mesma
forma como era quando pastoreava as ovelhas de seu pai.

2- O segundo ASHREI aborda aqueles que “esperam”. Israel tem uma


longa história de “espera”, uma história de perseverança que vemos até os
dias de hoje, esperaram por uma terra, esperaram por um Templo, esperaram
por um rei, esperaram pelo retorno do exílio, esperaram as vitórias sobre seus
inimigos e ainda hoje esperam, esperam pelo fim da diáspora e esperam pelo
governo de Mashiach.
Quando Yehoshua traz essas palavras aos que o ouviam, ele afirma que
tudo isso acabará, o descanso ao qual ele se refere no final de todas as
“esperas” é a redenção do Povo de Israel sob as asas de Mashiach. Ele
confirma que apesar de tudo, todas as esperanças e promessas feitas a Israel
serão cumpridas.
Um dos títulos talmúdicos dado a Mashiach é Menahem, que significa
aquele que traz descanso.

Qual é o seu nome? Alguns dizem que Menachem é o seu nome, como
está escrito: “Porque o que traz o descanso (Menachem) que irá aliviar
minha alma está longe de mim” (Lamentações 1:16).
Talmud da Babilônia, Tratado Sanhedrin 98b

3- O terceiro ASHREI trata dos simples, que na tradução do Almeida


aparece como mansos. Alguns entendem que uma pessoa simples, ou mansa,
deve ser alguém fraco que abaixa a cabeça para qualquer coisa, talvez seja
isso mesmo na mentalidade ocidental, mas de certo, não foi a isso que
Yehoshua estava se referindo.
A palavra em hebraico usada é ANAVIM, plural de ANAV, que
simboliza um poder sob controle. Imaginem um carro esportivo que pode
chegar a 100 km/h em menos de 8 segundos, mas seu motorista, devido as
leis de trânsito, não dirige com velocidade superior a 60 km/h, apesar de ter
um grande poder, esse poder é mantido sob controle. Tal ensinamento se
refere a todos que exerciam algum tipo de autoridade, desde religiosa até
politica e que, apesar de seu cargo dar a oportunidade de exercer excessos, o
controle era vital para que o indivíduo pudesse “herdar a Terra”.
Isso é algo realmente muito raro de ser visto nos dias de hoje, temos o
famoso ditado que diz que para conhecer alguém, basta dar-lhe poder.

Como já vimos, ANAV (simples) é um desses nomes. Então, onde se achar


a grandeza de Hashem, também ali se achará sua humildade através da
palavra ANAV(simples).
Kav HaYashar 66:1

Nessa passagem de um grande sábio judeu, ele afirma que o próprio Deus
é ANAV, ele mantém seu poder sob controle para não destruir tudo, sendo
essa uma das maiores grandezas e misericórdias do Criador, por isso
devemos imitá-Lo e sermos ANAVIM (simples).

4- O quarto ASHREI mostra como vai ficando cada vez mais difícil
seguir a Torah de Yehoshua. Ter um coração puro parece uma tarefa quase
impossível de se conseguir e manter. Temos a tendência de falhar nos
caminhos de Deus e da Torah, mesmo com as melhores das intenções, nossas
ações e pensamentos não chegam nem perto daquilo que necessitamos para
atendermos essa ordenança.
Tal ideia de um coração puro acaba amarrado com outras intenções, pois
para conseguir esse coração, precisamos da ajuda do próprio Deus e para
tanto, devemos nos tornar tzadikim, o qual só é obtido através da observância
de Suas Santas Leis. Ligando um ponto a outro, a vida de acordo com o que
Deus quer é o que possibilitará ao homem de vê-Lo.

David chamou seu coração de impuro, como está escrito: “Crie para
mim um coração puro, o Deus!”; pois o coração é impuro devido a má
inclinação.
Talmud da Babilônia, Tratado Sukkah 52a

Incline meu coração aos Seus testemunhos (à Torah), e me de um


coração puro para que eu possa vê-Lo e Lhe servir de verdade.
Tikkun HaKlali 12

Se o próprio rei David precisou de ajuda de Deus, imagine nós?! Outro


sábio do Tikkun pede um coração puro para poder ver e servir a Deus,
seguindo a mesma mentalidade dos ensinos de Yehoshua. Ele ainda liga a
necessidade desse novo coração puro com a Torah. Impressionante!

5- O quinto ASHREI trata da paz, de Shalom, porém aqui devemos traçar


uma linha entre essas duas palavras (paz e shalom), pois apesar de paz ser a
tradução direta da palavra hebraica Shalom, ambas possuem essências muito
distintas.
Paz, para a mentalidade ocidental, se trata de ausência de conflitos, tantos
externos, quanto internos. Já a palavra Shalom (‫ )שלום‬tem a mesma raiz da
palavra LEHASHLIM (‫)להשלים‬, que significa “completar”.
Para que possamos atingir o Shalom precisamos atingir a completude,
sobre a qual temos:

Seus méritos – Por tanto será descoberto que ele ocupa a si mesmo e
assim terá sua completude (LEHISHLEM - SHALOM) e quando atingi-la, ele
ganhará o benefício de Sua própria mão e receberá sua porção.
Da´at Tevunot 14

Olha só, nos é dito que pela Shalom receberemos nossa porção das mãos
do próprio Deus e Yehoshua nos revela o que seria essa porção, é ser
chamado de filhos de Elohim, o Deus altíssimo. Mas o que seria essa
completude? Como atingi-la?

Misericórdia e verdade se encontram; TZEDEK (tzadikim) e SHALOM


beijam um ao outro.
Salmos 85: 11

Completude para ser chamado de filho de Elohim? Só será atingida


pelos tzadikim! Ou seja, apenas aos que observam a Torah serão completos e
receberão o mérito de serem chamados de filhos de Elohim.

6- O sexto ASHREI trata justamente do que falamos no anterior, dos


tzadikim e sobre o sofrimento que eles podem passar pelo fato de estarem
obedecendo aos preceitos de Hashem.
Tais coisas acontecem tanto do judaísmo quanto no cristianismo, muitos
dos judeus que acabam deixando de lado as leis rabínicas para seguirem
exclusivamente a Torah são mal vistos, principalmente dentro da comunidade
ortodoxa, eles acabam não tendo a fé reconhecida e sofrendo diversas
criticas, perdendo muito do prestigio dentro da comunidade em que esse
indivíduo faz parte.
O mesmo acontece dentro do cristianismo, termos pejorativos como
“judaizante”, “legalista” ou “debaixo de maldição” são extremamente
comuns àqueles que verdadeiramente seguem a Deus através de Sua Torah.
Yehoshua diz que se, caso isso aconteça com aqueles que seguem a Torah,
eles devem se alegrar, pois deles será o Reino dos Céus.
Isso é uma ligação muito profunda que Yehoshua faz entre a Torah e
atingir a vida eterna. Como ele mesmo disse: quem tiver entendimento, que
entenda.

7- O sétimo e último ASHREI se refere àqueles que sofrem falsos


testemunhos por causa da Torah, uma sequência do pensamento do ASHREI
anterior. Mas uma conclusão podemos tirar a respeito, não seria pela Torah
que o povo judeu é tão perseguido? E talvez seja por isso que existam tantos
judeus abençoados verdadeiramente por ai. Interessante, não?!

Yehoshua, em suas bem aventuranças, não pregou nada novo, pregou


Torah, pregou conceitos antigos judaicos, trouxe à tona sua origem farisaica e
expôs de uma forma esclarecedora a importância e o resultado de tais ações.
Esses ensinos não visavam o ouvinte estrangeiro, apenas os da casa de Israel.
Os ASHREI não devem ser interpretados através de uma mentalidade
ocidental cristã para que não hajam enganos.
◆◆◆
SEÇÃO VII
SAL E LUZ

Nesse tempo disse Yeshua aos seus talmidim: Vocês são sal no mundo, se
o sal perde o sabor, com o que salgará? Não terá utilidade para nada, será
jogado para fora para ser pisado por pés.
Vocês são luz do mundo, uma cidade construída sobre o monte não pode
ser escondida.
Não se acende uma lamparina para colocá-la em um lugar escondido
onde ela não pode iluminar. Mas se deve colocá-la em uma Menorah, para
iluminar a todos na casa.
Portanto, que sua luz brilhe perante todos os homens, para que vejam
suas boas obras, para que a glória e a honra sejam dadas ao vosso Pai, que
está no céu.
Mateus 5:13-16

Yehoshua ensina nesses versículos como seus talmidim devem se


comportar, ele usa dois exemplo extremamente comuns dentro da cultura
judaica e da Torah. Tanto o sal, quanto a luz, desempenham um forte papel
em muitas das esferas da mentalidade rabínica, a qual, foi a base do
entendimento de Yehoshua a respeito desses dois itens.

O SAL
O sal possui diversas facetas. No mundo antigo, ter sal era status de poder
e riqueza, o próprio Talmud faz menção sobre a relação do sal com o mundo:

O mundo não pode existir sem o sal.


Talmud da Babilônia, tratado Soferim 15:8

O sal era uma importante commodity de troca, porém, acima de tudo isso,
o sal possui dois grandes objetivos na Torah. O primeiro é ser um item vital
para inúmeros sacrifícios na época do Templo:

...Isso deve ser uma aliança de sal eterna perante Adonai, para você e
para suas gerações.
Números 18:19b

Um aliança de sal significa que Ele fez uma aliança com Aaron de algo
que é santo e durador, pois o sal mantém as coisa santas duradouras.
Rashi, Números 18:19

Você deve temperar todas suas ofertas de carne com sal; você não deve
omitir de sua oferta de carne o sal da sua aliança com seu Elohim; com
todas suas ofertas, vocês devem ofertar sal.
Levítico 2:13

O governo do Reino de Hashem virá como o sal, o qual dá sabor a todos


os alimentos, pois o sal é como uma aliança.
Ramban, Levítico 2:13

Tanto Rashi quanto Ramban, afirmam aquilo que Yehoshua tinha em


mente, a analogia do sal com santidade. E a santidade, por sua vez, só é
obtida através da obediência. O sal, que mantêm as coisas duradouras, pode
representar a vida eterna e o Reino dos Céus, pois são coisas duradouras.
Até os dias de hoje, antes do kiddush de Shabbat, é costume das
famílias judaicas jogarem um pouco de sal sobre a Challah (pão do Shabbat)
como um memorial da época que existia o Templo.
O segundo objetivo do sal é justamente o seu uso para a remoção do
sangue da carne vermelha. Para que uma carne seja Kasher, ou seja, de
acordo com as normas estabelecidas pela Torah, um dos pontos vitais é que
não haja nela sangue de nenhuma forma, e para tanto, a carne crua era
colocada no sal para que haja uma total absorção de seu sangue, removendo
as “impurezas” da carne.
O termo Kasher não é de uso exclusivo para alimentos, mas se refere a
tudo que está de acordo com as Leis de Deus, por exemplo, uma carta de
divórcio quando de acordo com a Torah, é considerada um carta de divórcio
Kasher. A kasherização é a remoção das impurezas de determinadas coisas,
seja ela o que for, e torná-las nos conformes da Torah, tornando essas coisas
Kasher. Por esse fato, o sal, além de representar a santidade, ele representa a
kasherização, que é “se tornar conforme a Torah”.
Yehoshua ao usar o exemplo do sal, ensina que aqueles que o seguem tem
duas missões, a primeira é remover as impurezas de si mesmo, se
santificando e isso só é possível através do próprio caminhar, um caminhar
segundo as Leis de Deus. A segunda é “kasherizar” o mundo, que significa
tornar o mundo conforme a Torah ao ensinar suas Leis e preceitos aos
homens. Viver e ensinar Torah é a única e verdadeira forma de alguém ser
“sal do mundo”, pois é ela que santifica e é ela que “kasheriza”. Caso o
indivíduo não se encaixe nesse padrão, ele será jogado fora e pisado por pés.

O sal deve ser colocado sobre a carne até que nenhum pedaço de carne
fique sem sal. Tem que ficar salgada o suficiente para que não seja possível
comê-la com essa quantidade de sal (até total remoção das impurezas).
Shulchan Arukh, Yoreh De´ah 69:4

Em todo caso, tanto Beit Shammai quando Beit Hillel concordam que se
tornar o sal requer uma mudança, não pode ser de uma forma ordinária e
regular.
Talmud da Babilônia, Tratado Beitzah 14a

O livro Shulchan Arukh descreve como o sal é importante para


remoção de impurezas e para a kasherização do alimento. Já no Talmud, tanto
Rabbi Shammai, quanto Rabbi Hillel, concordam que se tornar sal (fazendo a
mesma analogia que Yehoshua faz) requer mudança, que de certo é
comportamental. Essa mudança não pode se de maneira ordinária, mas sim de
uma forma profunda e única.

Ele entrou na sala de estudo, e perguntou: é esse item, um item Kasher


ou um item não Kasher? E os sábios responderam: certamente Kasher, pois
um item não Kasher não está ligado aos céus.
Talmud da Babilônia, Tratado Sanhedrin 59b

Vemos também que o item Kasher não é necessariamente um


alimento, pode ser qualquer item, ou até mesmo, uma pessoa. Segundo os
sábios, para que o homem seja ligado ao céu, ele deve ser e ter uma vida
Kasher e assim como o sal, que ele possa remover as impurezas desse mundo
através do seu andar.
A LUZ
O segundo exemplo dado por Yehoshua é a luz. Esse termo não é
nenhuma novidade ao entendimento do Povo de Israel. O profeta Isaías já
dizia que seu povo foi escolhido para ser a luz para as nações, espalhando a
salvação do Deus Único.

E Ele disse: és meu servo muito pequeno, portanto eu levantarei as tribos


de Yaakov e restaurarei os sobreviventes de Israel: Eu também lhe farei
como uma luz para as nações, para que minha salvação chegue até o fim da
terra.
Isaías 49:6

O que é muito difícil para o mundo cristão de entender é que a promessa


de ser luz para as nações foi feita para o Povo de Israel, não para a igreja, não
para o gentio. Se o gentio hoje está sendo abençoado pela Palavra de Deus, é
porquê a luz que veio desse povo iluminou sua vida. Para que o indivíduo se
torne luz para as nações, deve ele primeiro se tornar parte de Povo de Israel
(NÃO me refiro a judaísmo) e para tanto, ele deve viver de acordo com
aquilo que define o homem como Povo de Deus, a Torah.
Acredito que esse ensino tenha sido dado em um época de Rosh Chodesh
(festival da lua nova), pois era de costume ascenderem pilhas de fogo em
montes pré determinados no entorno de Israel, para que todos possam saber
que o festival teve início. Quando Yehoshua disse essas palavras na Galileia,
é muito provável que ele tenha apontado a uma cidade nas montanhas
chamada Tsfat, pois era um dos lugares onde essas pilhas de fogo eram
acesas.
Como pode o indivíduo mostrar sua luz, aquela que Yehoshua diz que
tem que brilhar? Ela só pode brilhar através das coisas boas que cada um de
nós pode fazer e que são observadas por outras pessoas. Isso sempre teve um
valor muito forte nos ensinos dele. Nossa crença e nossas ações devem
sempre caminhar juntas. Como pode a pessoa se tornar sal e luz do mundo se
suas ações não são vistas pelas pessoas ao seu redor? Por isso que Tiago
escreveu:

Fé sozinha, sem companhia das obras, é morta


Tiago 2:17

Claro que o termo obras se refere a obediência àquilo que Deus


determinou que obedeçamos e não se refere a puritanismo, como ensinado
por muitas vertentes cristãs. Ninguém verá a Elohim com fé morta, por mais
forte que ela seja, se ela não vier acompanhada de obediência, é morta!
◆◆◆
SEÇÃO VIII
ABOLIÇÃO DA TORAH

Nesse tempo disse Yeshua aos seus talmidim: não pensem que vim para
violar a Torah, mas para observá-la em sua completude.
De verdade eu digo a vocês que até os céus e a terra (departam), um yud
ou uma nekudah não serão canceladas da Torah ou dos profetas e tudo será
cumprido.
E aquele que deixar de cumprir alguma Mitzvot da Torah, por menor que
seja e ensinar isso a outros, será chamado de HAVEL (fútil) no Reino dos
Céus e quem observar e ensinar Mitzvot da Torah, grande será chamado no
Reino dos Céus.
Mateus 5:17-19

Yehoshua fazia parte de um circulo rabínico, de uma sociedade guiada


por rabinos, de uma realidade de mentalidade rabínica. Em um meio rabínico,
é comum as conversas do dia a dia focarem em discussões sobre
interpretações de Torah, para que assim pudesse haver um melhor
entendimento sobre como aplicá-la na vida diária. Por muitas vezes,
Yehoshua usava de terminologias totalmente tradicionais usadas nesses tipos
de discussões, as quais não são bem compreendidas no mundo cristão
ocidental. Conhecer esses termos trará a verdade por trás daquilo que ele
falava.
Os versículos acima sempre geraram muita confusão no meio cristão, pois
eles, de forma bem direta, vão contra a máxima do cristianismo, que a Torah
foi abolida. Muitos dizem que o jesus cumpriu a lei para que ninguém mais
precisasse cumpri-la, outros dizem que a Torah chegou a sua completude no
Mashiach e então foi substituída por algo chamado “lei de cristo”, mas isso
tudo não passa de desculpas de pessoas que querem induzir outros para longe
da verdade. Ensinar abolição da Torah é comparável a esconder um monte de
sujeira por baixo do tapete, esquecendo que metade dela acaba ficando à
vista, e assim elaboram ideias absurdas para explicar o inexplicável.
A primeira coisa que devemos prestar atenção é a forma como ele
começa a falar que, de cara, já revela seu objetivo. O termo “eu vim”,
halakhti (‫)הלכתי‬, dentro da terminologia bíblica, é usado para definir um
propósito, uma intenção, então, quando Yehoshua começa dizendo que “eu
vim para obervar a Torah”, ele revela que seu objetivo é justamente vivê-la e
que veio para isso.

VIOLAR, CANCELAR E CUMPRIR


Outro ponto que devemos prestar atenção é a forma que ele afirma isso,
um dos termos que aparece no original e que não encontrei em nenhuma
tradução para a língua portuguesa, é o verbo “violar”. O verbo usado em
hebraico é lehafil (‫)להפיל‬, comumente traduzido como violar, porém existe
uma outra terminologia rabínica para esse verbo e que talvez já fosse um
recado para muitas pessoas que fossem estudar suas palavras no futuro. Na
terminologia rabínica, o verbo lehafil é usado para o que em inglês seria to
overthrow, que é “remover forçadamente do poder ou posição de destaque”.
Sendo assim, Yehoshua ao usar o termo “violar”, afirma que de forma
alguma ele veio retirar a Torah da posição que lhe é devida. Ela não foi
substituída pela lei de cristo, nem pela fé per se, nem por absolutamente
nada, e não só, ele ainda afirma que seu objetivo é observá-la por completo.
Yehoshua viveu, pregou e respirou Torah por toda sua vida e ele deixa isso
bem claro em suas palavras.
Yehoshua então afirma que nenhum yud (menor das letras hebraicas) ou
nekudah da Torah serão canceladas. Uma nekudah, ou várias nekudot, são
aqueles pequenos pontos que são colocados por baixo das palavras hebraicas
da Torah, como o hebraico escrito possui vogais ocultas, as nekudot auxiliam
a leitura, mostrando como deve ser pronunciada cada palavra. O verbo que
ele usa para o termo cancelar é levatel (‫)לבטל‬, o significado literal realmente
é cancelar, mas tal termo tem uma conotação especial dentro do linguajar
ortodoxo, quando alguém faz uma interpretação errônea da Torah, dizem que
esse alguém está “cancelando - levatel” a Torah.
A Torah jamais será cancelada, mas tal termo é apenas uma expressão
que se refere a alguma má interpretação de algum mandamento da Lei. Em
outras palavras, Yehoshua afirma que, além da Torah nunca perder sua
validade, a interpretação que ele faz não é uma má interpretação,
“cancelando-a - levatel”, mas sim um entendimento válido. Por fim, ele diz
que tudo será cumprido, o verbo usado nesse caso é lekayem (‫)לקיים‬, seu
significado é justamente cumprir, porém, como o verbo anterior, tem um
significado rabínico, o qual é “preservar”. Podem passar os céus e a terra,
Deus pode um dia acabar com tudo, absolutamente tudo, mas a Torah será
preservada, é isso que Yehoshua afirma.
Esse tipo de afirmação, na forma como Yehoshua expos, é muito comum
dentre ensinos dos rabinos, tantos fariseus, quanto ortodoxos. As palavras
dele são muito próximas a muitas coisas ensinadas pelo Rabi Hillel.

E OS CÉUS E A TERRA ESTAVAM PRONTOS – tudo tem uma medida


(pois tem um fim), céus e terra possuem medidas (tem fim), apenas uma coisa
não tem medidas: o que seria essa coisa? A Torah, sobre a qual está escrita:
sua medida é mais longa do que a terra...
Genesis Rabbah X:I

Nenhuma letra nunca será cancelada da Torah.


Exodus Rabbah VI:I

Podem todas as nações do mundo se unirem para arrancarem uma


palavra sequer da Torah, eles não serão capazes de fazê-lo.
Leviticus Rabbah XIX:II

AS MITZVOT
Por último, Yehoshua faz um paralelo de mitzvot pequenas com mitzvot
grandes, ao citar que quem descumpre um pequeno mandamento e assim o
ensina, será um “nada” no Reino dos Céus.
Bom, tal ideologia provém de diversas literaturas rabínicas, o conceito
que foi usado por ele é justamente aquilo que os rabinos chamam de Mitzvot
Kalot (mandamentos leves) e Mitzvot HaMurot (mandamentos pesados ou
sérios). Para termos um esclarecimento do que são ambas e o que definem
ambas, usarei alguns exemplos:

Quando encontrares pelo caminho um ninho de ave numa árvore, ou no


chão, e a mãe posta sobre a cria, ou sobre os ovos, não tomarás a mãe com
os filhotes.
Deixará ir livremente a mãe, e os filhotes tomarás para ti; para que tudo
te vá bem e para que seus dias na terra se prolonguem.
Deuteronômio 22: 6-7

Honra teu pai e tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra
que Adonai, teu Elohim, te dá.
Êxodo 20:12
Aqui temos dois exemplos do que os rabinos classificam como
“mandamento leve” e “mandamento sério”. O mandamento de não remover a
mãe de perto do filhote é considerado um mandamento leve, já honrar pai e
mãe é algo que exige muito mais atenção de todos, pois todo mundo tem pai
e mãe, e muitas pessoas nunca na vida terão a oportunidade de remover
algum filhote de animal de sua mãe, o que torna esse mandamento relativo ou
improvável até certo ponto. O interessante é que ambos tratam de parentela e
de prolongamento de dias na terra.
O problema que pode ocorrer aqui é o desprezo do mandamento leve,
o que é muito comum em todas as comunidades que observam a Torah,
dando mais importância naquilo que chamam de sério. Na verdade, essa
distinção, de sérios e leves, é feita pelos rabinos não para menosprezar os
menores, mas sim para supervalorizar os sérios, exigindo uma atenção
especial a eles.
O que Yehoshua faz aqui é justamente isso, ele está tratando a Torah
como um todo, mostrando que não veio só pelos mandamentos sérios, mas
também pelos leves, os quais, são tão importantes que, Yehoshua usa-os de
base para ensinar como se tornar grande no Reino dos Céus.
Ele traz esse tema a tona, pois muitos daquela época, assim como nos
dias de hoje, acreditavam que a observância deveria ser primeiro nos
mandamentos sérios e assim, acabavam deixando os leves para depois, o que
Yehoshua afirma aqui é que TODOS os mandamentos são sérios, tão sérios
que os leves possuem grandes recompensas. Agora imagine, se os leves
fazem isso, o quão grande deve ser a recompensa quando se observa os
sérios?!
Outra coisa muito curiosa é o termo que Yehoshua usa para chamar
àqueles que fazem os outros tropeçarem, HAVEL.
Havel é o nome de Abel em hebraico, filho de Adam. Havel também
pode ser definido como aquela pequena fumacinha que sai da boca em dias
frios, algo que dura menos de 1 segundo. Outro significado interessante para
havel é a forma que o rei Shlomo usou essa palavra:

Havel Havalim (vaidade das vaidades), diz o Kohelet, Haval Havalim


(vaidade das vaidades), tudo é Havel (vaidade)
Eclesiastes 1:2

O que aprendemos com esses versículos é que Yehoshua, além de não


abolir a Torah, ele afirma que ela é eterna e que, ele irá vivê-la. Então ele faz
um balanço entre os mandamentos nela contidos e alega que, todos, leves e
sérios, devem ser cumpridos e ensinados, sendo a recompensa o próprio
Reino dos Céus e o status que o indivíduo terá dentro dele.
◆◆◆
SEÇÃO IX
LEVES E SÉRIOS

Nesse tempo disse Yeshua aos seus talmidim, de verdade eu digo a


vocês, se não forem tzadikim maiores do que os fariseus e os sábios, não
entrarão no Reino dos Céus.
Não ouviram o que foi dito pelos antigos? Não assassinarás, e quem
assassina será culpado com pena de morte.
E eu vos digo que aquele que fica irritado com seu amigo será
julgado pelo tribunal e que chamar seu irmão de inferior será julgado
pelo Kohel e aqueles que o chamarem de tolo será julgado pelo fogo do
Gehinam.
E ao aproximar-se próximo ao altar, se lembrar que tem contigo
uma disputa com seu amigo e ele estiver se queixando com você sobre
isso.
Deixe sua oferenda ali, perante o altar, e vá agradá-lo antes. Depois
então ofereça sua oferenda.
Então disse Yeshua aos seus talmidim: vejam, se apressem a
acalmarem seus inimigos que andam juntos a seus caminhos, antes que
eles te entreguem ao juiz e este juiz lhe entregue ao servo que lhe
colocará na prisão.
De verdade eu digo a vocês, não sairão de lá até pagar todo o
dinheiro devido.
Ainda disse a eles: ouviram o que foi dito pelos antigos, não
adulterarás
E eu vos digo que todo que olhar para mulher e desejá-la, já
adultera com ela no coração.
E se sua direita te seduz, pegue-a e jogue-a fora de perante de ti.
E também se sua mão te seduz, corte-a. Melhor para ti perder um
membro do que todo seu corpo no Gehinam.
Ainda disse Yeshua aos seus talmidim: ouviram o que foi dito pelos
antigos, todo aquele que deixar sua mulher e enviá-la (embora), dará a
ela uma carta de divórcio (Get Kritot), que em língua estrangeira é
Libeila Repudio.
E eu digo a vocês que todos que deixarem suas mulheres, dê a elas
Get Kritot. Mas se for por causa de adultério, ela se torna adúltera e se
torna adúltero aquele que toma essa mulher para si.
Mateus 5:20-32

Nos próximos versículos, Yehoshua, para expor sua interpretação da


Torah, usa de uma didática bem comum no meio rabínico, porém de uma
maneira inversa. Continuando aquilo que ele estava ensinando sobre os
mandamentos leves e os mandamentos sérios, ele cita um mandamento sério
e logo em seguida, expõe um mandamento leve e então põe os dois em
paralelo, no mesmo nível.
Infelizmente muitos entenderam que, quando ele dizia “porém eu vos
digo” é a prova de que Yehoshua abolia a Torah e implantava novas leis em
seu lugar, sendo um tipo de forma para mostrar a substituição daquilo que a
Torah diz. Tal entendimento não pode ser mais errôneo, Yehoshua, ao dizer o
“porém eu vos digo”, ao invés de abolir a Torah, ele compara a seriedade de
um mandamento leve com a seriedade de um mandamento sério, elevando a
dificuldade de seguir a Deus e isso nada tem a ver com abolição ou
substituição de nada da Torah, como muitos acreditam.

ASSASSINAR
O ensino da Torah de Yehoshua é muito mais difícil de se atingir do
que a própria Lei escrita, em outras palavras, para aqueles que alegam que
seguir a Torah é difícil, seguir a forma como ela foi exposta por ele é muito
mais árduo do que apenas seguir a forma literal do que está escrito. Vejamos:

Não assassinarás...
Êxodos 20:13a

Ele cita um mandamento básico da Torah, o qual tem um alto grau de


seriedade, porém fácil de seguir, e em seguida o compara com o ódio ao
próximo, o qual, segundo algumas pessoas, é um mandamento leve. Então ele
compara o leve com o sério, colocando aquele que é aparentemente menor
em um nível acima de um mandamento sério. Tal ideia de que o assassinato
não é só algo apenas físico, que abrange o lado psicológico também e que
começa através de um sentimento interno do indivíduo, não é novidade nos
ensinos rabínicos.
Apesar de muitos teólogos acreditarem que Yehoshua substitui a
Torah com novas regras, como nesse caso, com a proibição do assassinato
através da proibição do ódio, se esquecem que ambas estão na Torah, o que
ele faz é colocar ambos os mandamentos lado a lado.

Você não deve se vingar ou ter ódio contra seu irmão, ame a seu próximo
como a si mesmo. Eu sou Adonai.
Levítico 19:18

O sentimento de ódio contra o próximo ter um peso como o


assassinato já era abordado por outros sábios:

Não assassinarás: com sua mão; ou com sua língua, testemunhar


falsamente já comete assassinato; ou se for um fofoqueiro; ou se der um mal
conselho; ou se descobrir um segredo que pode salvar a alguém e não o
compartilha, você é como um assassino.
Ibn Ezra, Êxodos 20:13

Vemos aqui no comentário do Rabino Ibn Ezra que um sentimento ruim


ou uma atitude ruim, a qual é vista por muitos como algo “normal”, “leve”,
na verdade é tão serio quanto assassinar.
Outro ponto que devemos prestar atenção é que, quando houver um
pecado que se refere ao relacionamento “homem X homem”, o simples
sentimento de perdão não resolve a situação, a menos que o caso seja
resolvido entre os dois. Esse é um tipo de pecado que exige uma ação de
correção.
Existe uma estória de um determinado prefeito judeu em uma cidade da
Ucrânia no século 16, conta a estória que ele roubou muito durante a sua
administração, passados alguns anos que deixou o cargo, ele se arrependeu
daquilo que fez e foi procurar seu rabino para saber o que fazer. O rabino lhe
explicou que nesse caso, apenas o sentimento de arrependimento não era
suficiente e que deveria fazer algo para se retratar perante a população
daquela cidade. Esse prefeito então resolve construir uma ponte que a cidade
tanto precisava com o dinheiro do próprio bolso, refazendo assim o erro que
havia cometido. Só então seu jejum de Yom Kipur seria aceito como
sacrifício de perdão perante Deus.
Outra estória trata de dois judeus sócios em uma tecelagem, um deles
desvia um grande montante de dinheiro e a sociedade é desfeita, anos mais
tarde, esse que roubou se arrepende e para obter o perdão perante o Criador,
procura seu antigo sócio para refazer o erro. Infelizmente ele descobre que
seu colega havia morrido e resolve devolver o montante para seus filhos.
O que vemos aqui é um ensino profundo da Torah, a qual fala que quando
um homem pecar contra outro homem, é necessário mais do que um pedido
de perdão, e sim, uma atitude que, de alguma forma, repare o dano causado.
Esses são os tipos de pecados que devemos estar mais atento para que não os
cometamos.
O mesmo ocorre com os mandamentos leves, pois são com eles que
devemos ter mais cuidado, são justamente eles que nos levam a quebra dos
mandamentos sérios. Vejamos mais afundo isso:

Aquele que viola um mandamento leve, irá inevitavelmente violar um


pesado; aquele que viola “ame seu irmão como a ti mesmo (Levítico
19:18)”, irá certamente violar “Você não deve odiar seu irmão em seu
coração (Levítico 19:17)” e “Não se vingarás nem carregará ódio (Levítico
25:35)” e também “Ele morará contigo (Levítico 25:35)”, e no fim, ele
acabará derramando sangue.
Sifrei Devarim, Shoftim 187

Resumindo, Yehoshua alega que o assassinato começa com um


sentimento de ódio, caso esse sentimento não exista, a possibilidade de
alguém tirar a vida do próximo por motivos torpes diminui muito. Para tanto,
ele compara o ódio ao assassinato, pois se uma coisa leva a outra, deve-se
então cortar o mal pela raiz. Tal pensamento de uma transgressão a um
mandamento leve ser a porta para uma transgressão de uma mandamento
sério é um senso comum entre os sábios.

Aquele que publicamente escarnece seu próximo age como se derramasse


seu sangue.
Midrash Bava Metzia 58b

O verbo usado pela Torah no mandamento “não assassinarás” é


tachmod (‫)תחמד‬, que não significa simplesmente tirar uma vida, pois se esse
fosse o caso, teríamos uma forte contradição com outros mandamentos que
são passíveis de morte ou quando Deus manda seu povo a guerra. Tachmod
(‫ )תחמד‬implica tirar uma vida por motivos torpes. Caso o indivíduo esteja
correndo risco de vida, ou se sua família corre risco de vida, a pessoa tem o
direito de proteção, nem que seja ao custo da vida do agressor. A proibição se
refere a matar alguém no papel de agressor.

ADULTÉRIO
Temos o mesmo caso aqui, primeiro ele cita um mandamento sério sobre
não adulterar, então o compara a algo comum entre muitos homens, que é
olhar para mulheres alheias e desejá-las. Isso é algo tão rotineiro para muitas
pessoas que passa totalmente desapercebido, o que acaba tornando tal ato um
mandamento supostamente leve, por ser algo corriqueiro. Porém Yehoshua
compara esse mandamento leve como sendo mais sério do que o ato proibido,
elevando a obediência a um nível muito acima do que o sentido literal do
mandamento, que seria simplesmente se deitar com uma pessoa casada.

Imoralidade sexual existe em muitos níveis, desde um olhar que deseja


até a relação ilícita com uma virgem ou uma viúva.
Rabbi Saadia Gaon, Deuteronômio 23

Rabbi Gaon segue a mesma opinião que Yehoshua em seu comentário


sobre as imoralidades em Deuteronômio 23, assim como outros rabinos do
Midrash:

“cometer adultério” (‫ )תנאף‬consiste em quatro letras, para que nos


lembre que pode ser com a mão, com o pé, com o olho ou com o coração.
Midrash HaGadol, Êxodo 20:13

O mandamento que poderíamos considerar leve nesse caso é o do desejo


através do olhar. Por ser do coração e muito pessoal, é algo que deve ser visto
de uma forma mais séria, pois por muitas vezes ele não é demonstrado,
podendo permanecer por anos escondido dentro do indivíduo sem que
ninguém saiba, talvez nem ele mesmo se dê conta disso. Yehoshua focava
seus ensinos sobre os mandamentos que abordavam mais do que simples
atitudes, abordavam atitudes internas, mostrando assim que para seguir
Torah, ela deve começar dentro de cada um.

Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu


próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu
jumento, nem coisa alguma do seu próximo.
Êxodo 20:17
Não adulterarás.
Êxodo 20:14

Eis ambos os mandamentos que Yehoshua coloca na balança. Aquele que


cobiça, perante Deus, comete o mesmo pecado se tivesse cometido adultério.
O judaísmo farisaico seguia essa mesma linha de pensamento, traçando o
mesmo paralelo:

Aquele que olha com cobiça para o pequeno dedo de uma mulher casada
age como se já tivesse cometido adultério com ela.
Kalah 1

Não é somente o que peca com seu corpo que é chamado de adúltero,
mas aquele que peca com seu olho também é assim chamado.
Levitico Rabbah, XXIII:XII

DIVÓRCIO
O casamento sempre foi algo muito importante dentro do judaísmo, os
rabinos sempre deram muitas orientações em como manter um
relacionamento abençoado. O plano perfeito de Deus é que o homem e a
mulher apreciem o casamento até que a morte os separe. Pelo fato do
casamente ser algo firmado entre dois indivíduos de natureza caída e a
separação uma realidade, a Torah tomou algumas provisões para casos
limitados de divórcios. Se caso isso ocorra, o homem é obrigado a dar a sua
mulher um certificado de divórcio, chamado get pelo rabinos, já na Torah
aparece como sefer kritot, que significa literalmente “livro de rompimento”.
Quando o divórcio ocorre dentro do judaísmo, o mesmo tem que ser julgado
por um grupo de rabinos, os quais, por muitas vezes, demoram meses até
saírem com alguma decisão a respeito, isso devido ao fato de acreditarem que
com a demora, possa haver alguma possibilidade do casal mudar de ideia.

Rabbi Eliezer diz: Em relação a qualquer um que se divorcia de sua


primeira mulher, até o altar derrama lágrimas por ele...
Talmud da Babilônia, Tratado Sanhedrin 22a

O problema maior que temos aqui é uma falsa contradição entre


Yehoshua e a Torah, pois muito acreditam que a Torah permitia o divórcio e
Yehoshua mudou isso, proibindo-o, exceto em caso de adultério. Isso devido
principalmente pelo que ocorre em Mateus 19:

E chegaram os fariseus a ele, para testa-lo. E perguntaram-no


dizendo: é permitido deixar sua mulher por qualquer motivo e dá-la
carta de divórcio? (LEAH GET)
E lhes respondeu: não leram que foram feitos nos tempos antigo
macho e fêmea?
E disse: por tanto deixa o homem a seu pai e a sua mãe e se junta a
sua mulher e serão uma só carne.
Por isso, eles não são dois, pois são uma só carne. E o que junta o
Criador, homem não consegue romper.
E lhe disseram: sendo assim, porque comandou Moshe dar a carta
(GET KRITOT) e mandá-la embora?
E disse a eles: Moshe, devido a obstinação de vossos corações,
disse-lhes para deixar suas esposas. Mas na eternidade não é assim.
Eu digo a vocês que todo aquele que deixa sua mulher e toma outra
senão por causa de adultério, comete adultério. E aquele que toma a
mulher divorciada, comete adultério.
Mateus 19:3-9

Alguns fariseus se aproximaram de Yehoshua sustentando que o divórcio


era autorizado pela Torah, o que é verdade, como se segue:

Um homem toma um mulher e a possui. Se ela falhar em lhe agradar


porque ele encontrou nela alguma imoralidade, e ele escreve a ela uma carta
de divórcio, dê a ela e a mande embora de sua casa.
Deuteronômio 24:1

Yehoshua não cria novas regras, mas ele explica, através da Torah, o
divórcio que a Torah permite. Primeiro ele afirma que no começo foi criado
homem e mulher e que ambos seriam uma só carne, ou seja, não existia o
caso de separação. Depois explica que Moisés permitiu o divórcio por causa
da teimosia do povo devido a natureza caída, mas Moisés deixa claro que isso
só é permitido se a mulher fizer alguma coisa ofensiva, que segundo
Yehoshua e Beit Shammai, seria alguma imoralidade. Por último, ele
apresenta justamente essa interpretação, que Moisés apenas permitiu em caso
de adultério. Sua interpretação é totalmente pautada na Torah e casa bem com
interpretações de outros sábios.
OS RABINOS E O DIVÓRCIO
O get é um documento tão importante que existe todo um tratado no
Talmud, Tratado Gittin, focado apenas nesse assunto. Muitos outros tratados
também mencionam coisas a respeito do divórcio, fora os diversos
comentários rabínicos de diversas fontes.
O interessante é como existem divergências em relação aos motivos que
podem levar ao divórcio. Vamos analisar as propostas feitas pelos líderes das
três maiores escolas farisaicas da época de Yehoshua, Beit Hillel, Beit
Shammai e Beit Akiva. Com isso poderemos ver o que era ensinado na época
e como o ele via essas ideias:

E Beit Hillel diz: ele pode se divorciar dela mesmo se houver um pequeno
problema, por exemplo, caso ela queime a comida dele ou a salgue em
demasiado.
Talmud da Babilônia, tratado Gittin, 90a

Rabbi Akiva diz: ele pode se divorciar dela mesmo se achar outra mulher
mais bonita do que ela.
Mishnah Gittin 9:10

Beit Shammai diz: nenhum homem deve se divorciar de sua mulher, a


menos que ele encontre nela um comportamento imoral como escrito em
deuteronômio 24.
Mishnah Gittin 9:10

Beit Hillel e Beit Akiva dão suporte ao divórcio pelos motivos mais
banais, um afirma que pelo simples fato de queimar a comida já é motivo
para o divórcio, Akiva alega que encontrar uma mulher mais bonita já basta.
O interessante é que Yehoshua é rabino da escola de Beit Hillel e,
acredito ser essa a única vez que ele discorda de seu mestre. Nesse momento
vemos uma rara situação onde Yehoshua concorda com alguma interpretação
de Shammai, suas maiores discussões com os fariseus de sua época eram
justamente com aqueles provenientes de Beit Shammai, pois ambas escolas
possuíam diversas divergências, que em alguns casos, geravam atitudes
violentas entre os alunos de ambas as escolas. Fico imaginando uma aula de
Hillel, com Yehoshua na classe, sobre esse assunto, as discussões acaloradas
entre ambos.
Tanto Shammai, quanto Yehoshua, acreditam que o único motivo para o
divórcio é a atitude imoral, aquela concernente ao adultério, para ambos, esse
é o único motivo plausível para que uma carta de divórcio seja entregue. E
não para por aí, além da mulher se tornar adúltera, aquela que a toma,
também se torna adúltero.
Resumindo, o que Yehoshua ensina aqui é justamente contra esses
costumes de usarem motivos pobres para o divórcio, por isso ele começa o
ensino com “ouviram o que foi dito..” e não com “viram o que foi escrito...”,
pois o que foi dito se refere as tradições e a Torah Oral, enquanto o que foi
escrito se refere apenas a Torah de Moisés. Ele vai contra o que diziam a
maioria dos rabinos da época, se alinhando com Rabbi Shammai e sempre
usando a Torah como a base de tudo que fala.

A segunda parte do que Yehoshua ensina aborda a pessoa que se casa


com alguém que se divorciou por outros motivos que não o adultério, se esse
for o caso, segundo Yehoshua, ambos se tornam adúlteros mesmo que o
relacionamento não se deu enquanto a pessoa ainda estava casada. Yehoshua
eleva a Torah a um nível mais alto, pois hoje em dia é comum vermos
pessoas divorciadas. O que ele diz é que, quem se envolver com essas
pessoas, se tornarão adúlteros. Aquele que se divorcia sem ter sofrido
adultério quebra um o mandamento e faz com o que o ex-conjuge também
quebre.
Outras escolas possuem outras visões em relação a isso, como no caso de
Rabbi Gamliel. A mentalidade dele é exposta por um de seus mais
conhecidos alunos, Paulo de Tarsos:

Mas se separar daquele que não crê, que se separe. Pois tanto o homem,
quanto a mulher, não ficarão embaixo do erro. Deus nos chamou para
vivermos em paz.
1 Coríntios 7:15

Segundo Paulo e Gamliel, se caso um dos dois resolver entrar nos


caminhos da Torah e o outro não, então o divórcio é válido e torna a pessoa
livre como no caso de adultério.
Para fechar esse ensino, repare no versículo 20, onde ele afirma que
para herdarmos o Reino dos Céus devemos ser mais tzadikim do que os
sábios e fariseus, os quais dedicam suas vidas nos caminhos da Torah,
observe o grau de dificuldade que é o ensino de Yehoshua, será que estamos
aptos?

Rabbi Yehuda HaNasi disse: qual é o caminho reto que a pessoa deve
escolher para si mesma? O caminho que seja digno para essa pessoa. Porém
seja cuidadoso com o mandamento leve assim como com o mandamento
sério, pois você não sabe a recompensa que será dada pela observância
desses mandamentos. Também, veja o peso de perder uma benção pela não
observância de um mandamento. Pese também a perda que uma transgressão
pode trazer. Mantenha seus olhos em três coisas e você não pecará, sabendo
o que está sobre você: um olho que vê, um ouvido que ouve e o livro onde
todos seus atos serão escritos.
Pirkei Avot 2:1
◆◆◆
SEÇÃO X
AMOR

Ainda disse Yeshua aos seus talmidim: ouviram o que foi dito pelos
antigos, e amarás aos que te amam e odiarás aos que te odeiam.
E eu digo a vocês: amarás seus inimigos e farás o bem para aqueles
que te odeiam e te enfurecem, orarás por aqueles que te perseguem e te
oprimem.
Para que sejam filhos de vosso Pai no céu que faz o sol brilhar
sobre os bons e os ruins e traz a chuva aos maus e aos tzadikim.
Se amarem os que te amam, qual o ganho para vocês? Até esses
impudentes amam os que os amam.
Mateus 5:43-46

Já presenciei inúmeras pessoas alegando que a Torah apregoava amor ao


próximo e ódio aos inimigos e que jesus veio e acabou com isso, pois ele era
só amor. Ainda bem que é ai que se enganam, pois a Torah nunca pregou
amor apenas ao próximo, muito pelo contrário, o amor por ela ordenado deve
abranger a todos, amigos e inimigos.
Devemos sempre prestar muita atenção na forma como Yehoshua começa
seus ensinos e, nesse caso, começa com “ouviram o que foi dito...” se
referindo não a Torah, mas sim ao que era ensinado por homens.

Você não deve odiar o seu próximo em seu coração. Reprove a seu
próximo mas não ponha culpa sobre ele.
Você não deve se vingar ou ter ódio contra seu irmão, ame a seu próximo
como a si mesmo. Eu sou Adonai.
Levítico 19:17-18

E ao estrangeiro que residir no seu meio como um cidadão, você deverá


amá-lo como a si mesmo, pois foste estrangeiro na terra do Egito. Eu sou
Adonai, seu Elohim.
Levítico 19:34

Isso comprova que Yehoshua se manteve fiel a Torah, sem adicionar nem
remover nada. A instrução dele sobre o amor se assemelha muito com a de
seu mestre e instrutor, Rabbi Hillel, que ensinava amor a todos, seja quem
for:

Hillel diz: procurai ser como os discípulos de Aharon, amai a paz,


procurai a paz, amai todas as pessoas e aproximai-as da Torah.
Pirkei Avot 1:12

Fica claro aqui que Yehoshua debatia os ensinos de alguns indivíduos,


os quais, afastavam o povo da Torah. De certo tais ensinos não vieram dos
fariseus verdadeiramente tzadikim, mas vieram daqueles com aparência de
tzadikim, mas por dentro são podres e esse tipo de comportamento pode levar
aos que os seguem ao abismo, pois a Torah sempre começa de dentro.

Shmuel o jovem diz: quando seu inimigo cair, não se alegre, e quando ele
sucumbir, não celebre. Pois Deus verá isso e será mal a Seus olhos e ele
removerá Sua fúria de sobre seu inimigo.
Pirkei Avot 4:19

Como visto acima, deixe que Deus cuide dos inimigos e não se alegre por
isso, jamais.

CONCLUSÃO
O sermão da montanha nada mais é do que ensinos da Torah, ensinos
rabínicos sobre a observância de mandamentos. A base desses ensinos foi de
comparações de mandamentos leves com sérios e a ideia de que o
mandamento deve ser cumprido primeiramente no coração para que então
seja cumprido no exterior.
Isso faz total sentido naquilo que Yehoshua, Paulo e os apóstolos
ensinavam, para que a obra seja válida, deve também haver fé, que nada mais
é do que seguir a Torah de coração.
Yehoshua alega que veio trazer o Espírito Santo e portanto, esses ensinos
são o que realmente prova isso, pois a verdadeira função do Espirito de Deus
é que a Torah comece pelo coração:

E colocarei Meu espírito dentro de vós e isso farás com que sigas minha
Torah fielmente e observes meus estatutos.
Ezequiel 36:27
◆◆◆
SEÇÃO XI
O ERRO DE SALOMÃO

De verdade eu digo a vocês que até os céus e a terra (departam), um


YUD ou uma nekudah não serão canceladas da Torah ou dos profetas e tudo
será cumprido.
Mateus 5:18

Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, nem um
jota ou um til jamais passará da lei, até que tudo seja cumprido.
Mateus 5:18 ALMEIDA

Essa afirmação de Yehoshua é bem clara e direta, porém muito má


interpretada por cristãos e judeus que estudam o novo testamento. Do lado
cristão, o entendimento é que essa frase é válida até que tudo seja cumprido e
como jesus "cumpriu" a Torah, significa que ela chegou a seu fim, pois seria
ATÉ que alguém cumprisse tudo. Esse erro de interpretação é devido a má
tradução nas línguas ocidentais, a qual afirma “até que tudo seja cumprido”
enquanto no original a palavra “até” não aparece. Pode parecer pouco, mas
muda tudo.
Já no caso dos estudiosos judeus, eles entendem essa afirmação como
algo bom, mas posteriormente caem no mesmo erro de interpretação que
muitos cristãos caem, quando jesus dá a entender que ele troca as Leis da
Torah por leis que ele aparentemente cria, o que não é verdade.
O que me chamou mais a atenção nesse versículo foram alguns pequenos
detalhes na forma como Yehoshua faz essa afirmação, ele usa duas palavras
para afirmar que absolutamente nada da Torah deixará de ser válido, são eles
a nekudah, que são aqueles pequenos pontos colocados embaixo das letras
hebraicas para ajudar na leitura e a letra hebraica YUD (‫)י‬, que é a menor
letra de todas.
Dentro da literatura rabínica, a letra YUD (‫ )י‬possui diversas referências,
sempre de uma forma muito mística; Os rabinos a usam para fazer analogia
às suas parábolas e contos. Existe um muito interessante que conta como essa
letra muito pequena causou a desgraça da vida do rei Salomão. Tal história já
era bem conhecida no primeiro século e sempre serviu de lição para muitos.
Talvez fosse ela que estivesse na cabeça de Yehoshua no momento em que
ele faz essa afirmação.

O YUD E O REI
Bastava a Yehoshua dizer que a Torah nunca seria anulada, mas ao invés
disso, ele usa dois termos para explicar onde quer chegar. Como nada é por
acaso, o uso dessas palavras serve para revelar algo nas entrelinhas.
Existe um mandamento da Torah que exige que todo rei de Israel escreva
para si uma cópia dos rolos da Lei. Segundo o rabino Rashi, deveriam ser
duas cópias, uma grande para ficar junto a seu trono e uma pequena, para que
o rei possa carregá-la em seu bolso aonde quer que vá.

Quando ele estiver sentado em seu trono, ele deverá ter uma cópia
escrita por ele em rolos perante os sacerdotes levíticos.
Deuteronômios 17:18

Então, todos que viravam reis, deveriam sentar e escrever de próprio


punho toda a Torah perante os sacerdotes, e manter esses rolos sempre junto
ao seu trono, para que lhe ajudem na hora de tomar decisões. Também mostra
como rei algum jamais estará acima das Leis de Deus.
Todos sabem que o rei Salomão foi um rei de muitas mulheres (mais de
setecentas esposas, segundo a bíblia) e fico imaginando o dia em que
Salomão fez sua cópia, mais precisamente quando ele escreveu o versículo
anterior do mencionado acima:

Ele (rei) não deverá multiplicar para si muitas mulheres, pois isso irá
desviar seu coração, nem deve ajuntar prata e ouro em excesso.
Deuteronômio 17:17

É interessante imaginarmos o que aconteceu com Salomão nesse


momento. Será mesmo que o homem mais sábio de toda história da
humanidade esqueceu o que ele mesmo escreveu, ou aconteceu alguma coisa
que não estamos vendo? Um midrash conta um pouco sobre esse dia:

Quando Deus deu a Torah a Israel, Ele deu mandamentos positivos e


negativos e também mandamentos a um rei, dizendo: o rei não deve
multiplicar riquezas para si, não deve multiplicar mulheres para si ou seu
coração se desviará.
Porém Salomão se levantou e foi estudar esse mandamento, dizendo: por
que Deus disse para não multiplicar mulheres? Seria apenas para não
desviar meu coração? Bom, pela minha sabedoria multiplicarei mulheres
para mim e não desviarei meu coração”.
Shemot Rabbah 6

Segundo esse midrash, Salomão desafia a Deus colocando suas


capacidades acima dos mandamentos da Torah, e é claro que isso não iria dar
certo. Mas precisamos olhar ainda para duas outras coisas, o que aconteceu
com Salomão e o que ele fez para “contornar” essa Lei.

O rei Salomão amou muitas mulheres estrangeiras, fora a filha do Faraó,


foram moabitas, amonitas, edomitas, fenícias e hititas.
Das nações as quais Adonai disse aos israelitas: “nenhum de vocês deve
se juntar a elas e nenhuma delas deve se juntar a vocês, pois desviarão
vossos corações para seguir seus deuses”.
Ele teve setecentas esposas e trezentas concubinas, e suas esposas
desviaram seu coração.
Em sua velhice, suas esposas desviaram o coração de Salomão aos seus
deuses, e ele não estava mais voltado de todo coração a Adonai, seu Elohim,
como seu pai David era.
I Reis 11:1-4

Pelo que podemos ver aqui, o plano de Salomão não deu certo, sua
vontade de desafiar a Deus e colocar sua sabedoria e entendimento sobre os
mandamentos o levou a idolatria e ao paganismo, que são duas coisas
extremamente abomináveis a Deus. O que aconteceu foi muito sério, tanto a
atitude de Salomão quanto o resultado. É impressionante como até o homem
mais sábio e mais rico de toda a história não é absolutamente nada perante
um pequeno mandamento da Torah. Um rabino faz um comentário bem
marcante sobre esses versículos:

Melhor teria sido para Salomão ter passado sua vida limpando esgotos
do que um versículo como esse escrito a seu respeito.
Rabbi Bar Yochai, I Reis 11:4

Não sabemos se Salomão se arrependeu ou não, mas a desgraça que caiu


sobre sua vida é algo inaceitável pelas Escrituras. Salomão não tinha a
intenção de desviar seu coração e servir a falsos deuses, isso é certo; A
intenção dele era de obedecer os mandamentos até o fim. O problema é que
ele quis fazer de sua própria maneira, algo como “os fins justificando os
meios”. Ele tinha a intenção de atingir o alvo, mas da forma como ele achou
melhor ao invés de seguir a forma como Adonai estipulou.
Agora precisamos olhar para a forma pela qual Salomão fez isso e com
isso teremos nossa ligação com as palavras de Yehoshua.
Dizem os sábios que aqueles que leram a Torah escrita por Salomão
encontraram um minúsculo erro, não sabem se esse erro foi proposital ou foi
por falta de atenção. Vou colocar a versão correta conforme a Torah e a
versão que encontraram na Torah de Salomão para compararmos:

‫ ְו א ָיסוּר ְלָבבוֹ‬,‫ ְו א ַי ְרֶבּה לּוֹ ָנִשׁים‬.


Ele não deverá ajuntar para si muitas mulheres, pois isso irá desviar seu
coração...
Deuteronômio 17:17a

‫ א יסוּר ְלָבבוֹ‬,‫לּוֹ ָנִשׁים‬-‫א ְרבה‬.


Ajuntarei mulheres para mim e não desviará meu coração...
Deuteronômio de Salomão 17:17a

Interessante que a passagem que ele erra é justamente aquela que trata
sobre o erro que ele viria a cometer no futuro. Se repararmos bem, a falha
aparece justamente no verbo “multiplicar” (‫ – )ירבה‬YARBEH. Ao invés de
Salomão ter escrito corretamente com a letra inicial YUD(‫)י‬, ele inicia a
palavra com a letra ALEF (‫)א‬, escrevendo ARBEH (‫)ארבה‬. Essa troca
conjuga o verbo multiplicar no futuro da primeira pessoa do singular –
multiplicarei.
Salomão remove a menor letra da Torah, o YUD e coloca outra em seu
lugar, causando um confusão sem igual, a qual acaba em uma das piores
transgressões perante o Criador. De uma forma mística, um rabino cabalista
nos conta o que aconteceu nesse momento:

Chazal disse: quando o rei Salomão casou com a filha do Faraó,


transgredindo Dt17:17 por remover um YUD da Torah, esse YUD subiu
perante o Senhor Abençoado e lhe disse: algo que é parcialmente anulado é
anulado por inteiro, se Salomão está me anulando, quem irá me cumprir?
O Santo, abençoado Seja, lhe respondeu: Salomão, assim como milhões
como ele, será anulado, mas nem um YUD da minha Torah será jamais
anulado.
Talmud de Jerusalém, Tratado Sanhedrin 2:6

Neste momento o YUD se apresenta perante Adonai e diz: Rei do


universo, você não disse que nunca a menor letra sairia da Torah? Agora
veja, Salomão se levantou e me aboliu, será que ele não abolirá toda a Torah
amanhã?
E Adonai responde: Abolirei Salomão e todos como ele que anularem um
único YUD da Torah.
Shemot Rabbah 6
É incrível o que está acontecendo. Segundo os sábios, Salomão
comete um erro ao escrever a Torah, trocando a letra YUD pela letra ALEF
em Deuteronômio 17:17, e assim muda completamente tudo. Por essa
mudança, Salomão, em toda sua sabedoria, paga um preço: cai em idolatria.
Essa foi a forma que Deus usou para aboli-lo ao ter alterado uma letrinha bem
pequenina na Torah.
Isso é confirmado pelas palavras do próprio Salomão anos mais tarde, ele
se dá conta do que fez e onde foi que ele errou:

Pois como ficará o homem que tentar suceder aquele (DEUS) que está
imperando através daquilo (TORAH) construído tempos atrás? Passei da
contemplação da sabedoria para loucura e tolices.
Eclesiastes 2:12

Salomão, no fim de sua vida, reconhece a besteira que fez. Ele afirma que
aquele que tenta "ajudar" a Deus através de uma forma diferente daquela que
Ele determinou, ou seja, a Torah, irá cair nos mesmos erros que ele caiu
edeixará de ser uma pessoa sábia para se tornar louca e tola.
Isso é muito complicado e sério. Hoje em dia é comum pensamentos
do tipo “fazer o que sentir no coração” ou “o importante é que amo a Deus”,
essas ideias não passam de justificativas para se fazer a vontade do próprio
“eu” de cada um, da mesma forma como Salomão fez. A bíblia é clara em
afirmar que o coração é enganoso e o amor a Deus é da forma como Ele
determinou. Essas crenças podem levar as pessoas que as seguem ao mesmo
destino que Salomão – à idolatria.
Vemos muitos rabinos colocando suas leis acima das Leis da Torah,
padres criando novas leis como se fossem divinas, pastores anulando a Torah
por completo, líderes guiando milhões através de ideologias baratas criadas
por eles mesmos. São todos idólatras, todos! Assim como anulam ou
modificam a palavra de Deus, serão anulados por HaKadosh, Barukh Hu.

Yehoshua não só afirma que veio cumprir a Torah, mas também deixa
um recado implícito: ai daquele que remover ou alterar um YUD sequer na
Torah, pode ser a pessoa mais sábia, rica e poderosa do mundo, que assim
como ela anula a palavra de Deus, ela será anulada por Deus, melhor limpar
esgotos do que isso.

Você não deverá adicionar nada naquilo que lhe ordeno, nem remover
nada. Mas observe os mandamentos de Adonai, seu Elohim, que eu coloco
sobre você.
Deuteronômio 4:2
◆◆◆
SEÇÃO XII
JURAMENTO

Ainda ouviram o que foi dito pelos antigos: Não jure em meu nome
falsamente pois deverá responder a Adonai suas promessas.
E eu digo a vocês: Não jure em vão por nada, nem pelo céu que é o
trono de Elohim.
E não pela terra que é o piso para Seus pés, não pela cidade dos
céus (Yerushalaim) pois é a cidade de Elohim.
E não pela sua cabeça pois não podes fazer seu cabelo branco ou
preto.
Mas sejam suas palavras sim, sim e também, não, não. Tudo
adicionado a isso é mal.
Mateus 5:33-37

Outrossim, ouvistes que foi dito aos antigos: Não jurarás falso, mas
cumprirás para com o Senhor os teus juramentos.
Eu, porém, vos digo que de maneira nenhuma jureis; nem pelo céu, porque é
o trono de Deus;
nem pela terra, porque é o escabelo de seus pés; nem por Jerusalém, porque
é a cidade do grande Rei;
nem jures pela tua cabeça, porque não podes tornar um só cabelo branco ou
preto.
Seja, porém, o vosso falar: Sim, sim; não, não; pois o que passa daí, vem do
Maligno.
Mateus 5:33-37 ALMEIDA

Esse foi um ensino que fiz questão de colocar ambas as traduções


lado a lado para que vejamos uma pequena diferença. O Almeida fala para
não jurar em falso e depois diz para cumprir todas as promessas, já no
original, Yehoshua diz outra coisa, ele fala que só pelo fato de jurar
falsamente já é suficiente para termos que responder perante Adonai. Pode
parece mais ou menos a mesma coisa, mas pelo original vemos que só pelo
fato de fazer uma promessa falsa, já é o suficiente para que tenhamos alguma
culpa.
O tópico juramento, da forma como foi abordado por Yehoshua,
sempre foi algo muito sensível para mim e até um certo tempo atrás,
totalmente incompreensível. A razão que o levou a abordar tal assunto em um
determinado momento de seu ministério sempre foi um tanto confusa pra
mim.
De certo, ele trouxe isso à tona devido a algum motivo que não nos é
revelado pelos livros e que provavelmente estava acontecendo em seus dias.
O tema juramento é algo abordado tanto pela Torah quanto pelo Tanakh,
porém de uma forma um pouco diferente do que vemos nas suas palavras. O
ponto mais sensível que temos aqui é o famoso “ouviste o que foi dito, eu
porém vos digo”, dando uma falsa impressão de que Yehoshua estava
substituindo a Torah pelo famoso jargão cristão “lei de cristo”. Claro que se
olharmos cruamente para a forma como ele fala, podemos ter esse
entendimento que, no mínimo, posso chamá-lo de errôneo, pois para que
Yehoshua seja digno do título de Mashiach, o que ele mesmo afirmou ser,
necessariamente ele teria que ensinar única e exclusivamente a Torah.
Antes de entrarmos mais a fundo, vamos dar uma olhada qual é a visão do
Deus Único sobre esse tema:

A Adonai, seu Deus, temerás, somente a Ele servirás, e pelo seu nome
jurarás.
Deuteronômio 6:13

E jurou o rei Salomão por Adonai...


1 Reis 2: 23a

Então David tornou a jurar...


1 Samuel 2:3a

E serás que, se aprenderem os caminhos do meu povo, jurando pelo meu


VIVO NOME, como ensinaram o meu povo a jurarem pelo nome de baal, se
edificarão no meio do MEU POVO.
Jeremias 12:16

Eu fico impressionado com a profundidade dessas passagens. Primeiro, se


olharmos com atenção a passagem de Deuteronômio, o juramento não é
apenas uma permissão, mas sim um mandamento. É uma ordenança que o
juramento seja feito no nome tetragrama de Deus. Isso é tão profundo que,
em Jeremias, o profeta fala para os gentios que, se eles aprenderem os
caminhos do Seu povo (Torah) e jurarem pelo Seu Nome Vivo, serão
enxertados no Povo de Israel.
Outros dois personagens de extremo peso perante Adonai, David e seu
filho Salomão, juravam em nome de Adonai.
Então, como poderia Yehoshua destituir tal mandamento? Aquele que
acredita que Yehoshua aboliu a Torah, a obra daquele que ele chamava de
“meu pai”, o tornando assim um filho rebelde, indisciplinado, fora do povo
de Israel e impossibilitado de ser chamado de Mashiach, está na hora de rever
seus conceitos. Fora que ele estaria anulando a profecia de Jeremias sobre a
adoção dos gentios, o que seria inconcebível. Quem acredita em um jesus que
fez assim, crê em uma figura mitológica, criada pela igreja, que possui
algumas semelhanças com o verdadeiro Yehoshua, porém não são os
mesmos.
Primeiramente devemos prestar atenção nas palavras de Yehoshua, ele,
em nenhum instante, proíbe o juramento ou anula o mandamento sobre o
juramento, o que ele afirma é para que NÃO JUREMOS FALSAMENTE. E
ele cita isso em referência a uma outra passagem da Torah:

Nem jurareis falso pelo meu nome, pois profanaríeis o nome de vosso
Deus, eu sou Adonai.
Levítico 19:12

Agora vemos o sentido no ensinamento dele, ele não aboliu o juramento,


não negou a Torah, porém ele colocou em paralelo dois mandamentos,
afirmando que se for pra jurar falsamente, melhor não jurar.
O problema que existia em sua época, assim como ainda existe, eram
algumas interpretações de certas escolas farisaicas em relação a esse
versículo. Alguns fariseus usavam essa passagem para se justificarem a
poderem jurar falsamente desde que não fosse em nome de Adonai. Juravam
em nome do Templo, de Yerushalaim, pelo céus, pela terra e etc. Se não
fosse pelo nome de Adonai, não se viam obrigados a cumprirem o que
juraram.

Jurar por seu Nome e não em nome de outros deuses. Em outras


palavras, você não deve jurar em nomes de outros deuses, mas em nome de
Adonai. Porém, senão for em nome de outros deuses, pode-se fazer
juramento para afirmar um testemunho ou firmar um contrato, mesmo que
não seja em Seu Nome.
Ibn Ezra, Deuteronômio 6:13

Um dos grandes sábios e comentaristas da Torah, Ibn Ezra, alega que de


forma alguma podemos jurar em nome de falsos deuses, mas ele afirma
também que se o juramento não for em nome de falsos deuses, a pessoa está
livre para jurar em nome de qualquer coisa.
Infelizmente muitos não entenderam que a proibição de Levítico não era
de jurar falsamente em nome de Adonai, era simplesmente jurar falsamente e
ponto final. Yehoshua estava exortando alguns fariseus que, se jurarem, seja
pelo que for, cumpram. Não é porque não juraram especificamente em nome
de Adonai que eles estão isentos de cumprir o voto, se for o caso, é melhor
nem jurar por absolutamente nada.
Outros rabinos concordam plenamente com o ensino de Yehoshua, assim
como muitas outras escolas farisaicas:

Se você tiver todas as características aqui citadas, se você venera Seu


nome e se você O serve, então você tem o direito de fazer um juramento em
Seu nome. Porém muito cuidado com qualquer juramento, pois senão, é
melhor não jurar por nada.
Rashi, Deuteronômio 6:13

O grande sábio Rashi concorda plenamente com as palavras de


Yehoshua, muito cuidado com juramentos, caso contrário, é melhor não jurar
por nada.
Eu não encontrei nada relacionado a permissão farisaica de poder
jurar falsamente desde que não seja em nome de Adonai, muitos outros
historiadores fizeram e refizeram essa busca e segundo alguns estudioso
israelenses, tais ensinos se encontravam em parte do Talmud de Jerusalém, o
qual teve grande parte de sua obra destruída ha muitos anos atrás.
Para finalizar sua exortação, ele cita “tudo adicionado a isso é mal”,
apesar de muitos terem o entendimento de que esse “mal” se refere a jurar ou
se refere a adicionar algo ao que Yehoshua falou, na verdade, tal citação é um
típico jargão ortodoxo/farisaico referente algo muito sério na Torah, trazendo
assim outra passagem da Torah:

Não acrescentarás nada à Torah que vos mando, nem diminuireis


dela, para que guardeis os mandamentos de Adonai, vosso Deus, que eu vos
mando.
Deuteronômio 4:2

Ele está reafirmando o tópico básico dos princípios da Torah,


provavelmente para silenciar a qualquer um que possa estar pensando que ele
está adicionando ou removendo algo da Lei. O que ele fala sobre juramento
está de acordo com o livro de Levítico, quando deixou bem claro sobre o
juramento FALSO. Então, no final, através de um linguajar rabínico, ele diz
que ensinar outras coisas que não estão na Torah, como sendo leis de Deus, é
o verdadeiro mal, pois estariam adicionando coisas nela. Ele esclarece aos
seus Talmidim que adicionar ou remover qualquer coisa da Torah é o que é
mal.
O que aconteceu aqui foi uma proibição de um aparente costume de
algumas escolas rabínicas de jurarem falsamente a partir do momento que
não fosse em nome de Adonai. Yehoshua usa então o versículo de Levítico
19:12, o qual deveria servir de base a eles para fazerem tais juramentos e, em
cima dele, revela que o juramento falso não deve ser feito sob nenhuma
hipótese. No final ele fala que nada deve ser adicionado a Torah, mostrando
que as leis rabínicas que adicionam quaisquer coisas à Lei de Deus são más e
que ele, sob hipótese alguma, estava removendo algo da Torah.

Eu acredito que tal tópico era tão sério e tão intrínseco na mentalidade
de algumas pessoas que, alguns capítulos mais tarde, Yehoshua volta a
abordar o mesmo tema.

Vergonha a vocês, cegos na cadeira, que dizem que aquele que jura
pelo templo não é obrigado (a cumprir), mas aquele que jura por
qualquer coisa que é consagrada ao templo é obrigado a pagar.
Homens loucos e cegos, qual é maior, o templo ou o que é
consagrado ao templo?
Aquele que jurar pelo altar não é obrigado a cumprir, mas aquele
que jura a trazer uma oferta é obrigado a cumprir?
O que é maior, a oferta ou o altar, o templo ou a oferta?
Aquele que jura pelo altar, jura por tudo que tem nele.
Aquele que jura pelo trono de Elohim, jura por aquele que no trono
senta.
Mateus 23:16-20

Ai de vós, guias cegos! que dizeis: Quem jurar pelo ouro do


santuário, esse fica obrigado ao que jurou.
Insensatos e cegos! Pois qual é o maior; o ouro, ou o santuário que santifica
o ouro?
E: Quem jurar pelo altar, isso nada é; mas quem jurar pela oferta que está
sobre o altar, esse fica obrigado ao que jurou.
Cegos! Pois qual é maior: a oferta, ou o altar que santifica a oferta?
Portanto, quem jurar pelo altar jura por ele e por tudo quanto sobre ele está.
Mateus 23:16-20 ALMEIDA

Nessa passagem, Yehoshua fala diretamente com alguns fariseus que,


segundo ele, estão sentados sobre a cadeira de Moises, por isso temos esse
termos estranho “cegos na cadeira”, pois se referem à alguns líderes que
estavam tomando decisões concernentes às leis judaicas que, segundo
Yehoshua, ensinavam coisas contrárias a Torah, são cegos guiando cegos.
Yehoshua os critica por dizerem que, se uma pessoa jurar pelo
templo, ou pelo altar, ou pelo trono de Deus, não é obrigada a cumprir o voto.
Em ambos os casos, Yehoshua diz que os votos e juramentos são válidos
indiferentemente sobre o que são feitos. Yehoshua não dá nenhuma “dica”
que ele é contrário ao juramento, nem dá a entender que aquele que jura pelo
altar ou pelo trono é uma pessoa má ou pecadora, mas ele se mantém no
principio da Torah sobre o juramento falso (qualquer um).
Aqui temos, mais uma vez, Yehoshua tentando trazer o povo de volta
a Torah, depois que muitos fariseus os desviaram. Hoje em dia, o tópico do
juramento falso se tornou tão importante que, no dia mais santo do calendário
bíblico, o YOM KIPUR, uma oração é feita por todos que o celebram. O
nome dessa oração é KOL NIDREI que, em aramaico, quer dizer “todas as
promessas” e por mais intrigante que seja, não se trata de uma oração
puramente de arrependimento ou perdão, mas sim de uma anulação de
promessas feitas e não cumpridas. Para o judaísmo moderno, votos e
juramentos são de extrema importância e fortemente abordados pela Torah e
pelas escolas ortodoxas dos dias atuais. Muitas passagens do Talmud
aconselham a evitar qualquer tipo de juramento ou promessa. Algo que
Yehoshua ensinou dois mil anos atrás, vemos hoje dentro do judaísmo
ortodoxo.
◆◆◆
SEÇÃO XIII
OLHO POR OLHO

E ainda ouviram o que é dito pela Torah: olho dado por olho e dente
dado por dente.
E eu vos digo: não dê mal pelo mal mas quem bate na sua face direita, dê
também a esquerda.
E aquele que quiser se opor a ti no julgamento e lhe roubar sua camisa,
deixa também seu casaco.
E aquele que te pedir para ir com ele por mil passos, vá com ele por dois
mil.
Aquele que pede a você, o dê e aquele que quer tomar emprestado, não
evite.
Mateus 5:38-42

Olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé.
Êxodo 21:24

Esse é um tópico crucial no ensino de Yehoshua que gerou, e ainda gera,


um enorme desentendimento entre muitos cristãos sobre o relacionamento
dele com a Torah. Muitos dizem que a Torah faz apologia a vingança, que ao
ensinar o olho por olho, a Lei de Deus comanda que a vítima se vingue de seu
agressor. Então veio jesus e acabou com isso, ensinando que, ao invés da
vingança, devemos dar a outra face, provando novamente a substituição da
Torah pela “lei de cristo”.
Mas tal ideia geraria diversos problemas, como pode Deus, Criador de
todas as coisas, um Ser Bom, benevolente, amoroso, dar um comando a atos
de vingança? Se esse realmente fosse o caso e Yehoshua fosse contra a uma
determinação de Adonai, ele não seria mais digno de afirmar que era
Mashiach, se tornaria apenas um jesus cristão, perdendo assim toda sua
moral. O mal entendimento dessa passagem da Torah, a qual dá essa
impressão da vingança, foi a base para muitos pais da igreja ensinarem, de
forma bem sutil, que o deus do novo testamento não é o mesmo do Deus do
antigo testamento.
A má interpretação das palavras de Yehoshua é devida ao fato do
conhecimento pífio por parte de muitos líderes cristãos sobre a profundidade
dos mandamentos de Deus e de uma teologia doente e viciada. O “olho por
olho”, na verdade, é um mandamento que visa evitar a vingança. Vejamos
dois exemplos, se a pessoa A fere a perna da pessoa B (a qual se recupera
após alguns dias), dá o direito a pessoa B de ferir a perna da pessoa A.
Quando a pessoa B fere por vingança a perna da pessoa A e por um acaso ela
acaba atingindo algum ligamento, o que impossibilita que a pessoa A volte a
andar, então o dano causado pela vingança da pessoa B é muito maior que o
dano causado pela pessoa A, não sendo assim o “olho por olho”.
Outro exemplo, a pessoa A arranca o olho da pessoa B, que fica com a
visão de apenas uma vista, mas continua enxergando, na hora da vingança da
pessoa B, ela percebesse que a pessoa A apenas possui um olho e que se ele
for arrancado, ficará totalmente cega, sofrendo um dano muito maior, pois a
B ainda enxerga.
Então, o que a Torah permite é que a vingança seja exatamente da mesma
forma, do mesmo modo, da mesma maneira, do mesmo grau, da mesma
intensidade, da mesma gravidade e de mesmo dano que o primeiro ato foi.
Porém tais condições são impossíveis para o ser humano, que acabariam
causando um dano muito maior ou menor, pois é impossível atender todas
essas condições. Nesse caso é melhor não se vingar, pois se o dano causado
for maior, o vingador se tornaria um transgressor. Ou seja, a Torah “permite”
a vingança, mas sob suas condições, as quais são humanamente impossíveis
de se atingir, sendo assim, quem se vinga vai acabar inevitavelmente
transgredindo a Torah.
Nenhuma escola farisaica dava suporte ao ato de vingança baseando-se
nessa passagem da Torah, como muitos pensam. Na verdade, eles propunham
uma interpretação diferente:

Se alguém cegar ao seu próximo, ele terá que pagar financeiramente o


valor de seu olho.
Rashi, Êxodo 21:24

Se tivéssemos que aplicar uma punição igual ao crime, em todas sua


severidades, seria impróprio. Porém, de acordo com a tradição, apenas uma
compensação financeira seria válida, pois é difícil mensurar com precisão
como aplicar o “olho por olho”.
Sforno, Êxodo 21:24
O ensinamento era que o dano deveria ser compensado financeiramente,
caso alguém causasse algum dano ao seu próximo que o inabilitasse de
trabalhar, aquele que causou o dano deveria sustentá-lo e a todos aqueles que
se beneficiariam de seu trabalho.
Sforno concorda com Rashi, por ser difícil mensurar uma vingança, é
melhor dar a compensação financeira.
Yehoshua usa dessa interpretação, como o ser humano nunca
conseguirá uma vingança 100% igual, é melhor dar a face, pois é melhor a
humilhação do que se tornar um transgressor ao não conseguir uma vingança
exata conforme manda a Torah. Porém, dar a face é só uma alegoria para que
nenhum ato de vingança fosse tomado, pois se olharmos para João 18:23, no
diálogo com o sumo sacerdote, Yehoshua NÃO deu a outra face.
Como a vingança trata de relacionamento entre duas pessoas,
Yehoshua, nos últimos versículos, termina seu ensino com um desafio, um
teste, para provar o “amor ao próximo”, ao permitir que leve sua capa além
de sua camisa, ou se disponibilizar a andar o dobro do que o solicitado, não
negar um pedido ou um empréstimo, isso prova o relacionamento do
indivíduo com o próprio Criador, pois faz parte do coração de Deus que seu
povo saiba compartilhar e ser generoso.
Outro ponto em relação a dar a outra face, muitas pessoas citam isso
como um ensino de Yehoshua, que foi ele que trouxe esse entendimento à
tona, mas na verdade, dar a outra face é uma citação que ele faz das palavras
do profeta Jeremias:

Dê a sua face ao que te fere; farte-se de afronta.


Lamentações 3:30

OLHO, DENTE, MÃO, PÉ


Esse mandamento na Torah vem de uma forma muita estranha, cita
membros do corpo como olho, dente, mão e pé. Se formos um pouco além e
deixarmos a ideia de vingança um pouco de lado, podemos tirar daqui um
ensino muito profundo de Deus.
O olho, o dente, a mão e o pé, são representantes da verdadeira riqueza,
pois o olho simboliza a janela do entendimento, é principalmente através da
vista que o homem recebe quase todo o conhecimento que absorve. Já o dente
representa o poder da fala assim como a língua, pois sem eles as palavras
proferidas por alguém podem ser incompreensíveis. A mão representa a
capacidade criativa e de criação do ser humano, já os pés simbolizam seu
poder de se movimentar.
Pode parece meio doido, mas são justamente esses quatro pontos que
representam a Torah na vida de alguém. O Olho para aprender a Torah, os
dentes para poder falar e ensinar a Torah, a mão para cumprir seus
mandamentos e os pés para levá-la a todos os homens. Essa é a verdadeira
riqueza do ser humano, pois atingir isso é atingir seu verdadeiro propósito de
ter sido criado, é a máxima que Deus busca de um homem.
Para provar isso vamos olhar para esses quatro termos em hebraico:

OLHO (AIN) - ‫עין‬


DENTE (SHIN) - ‫שין‬
MÃO (YAD) - ‫יד‬
PÉ (REGEL) - ‫רגל‬

Ao pegarmos as primeiras letras de cada palavra (lembrando que o


hebraico se lê da direita para a esquerda), teremos a palavra ASHIR (‫)עשיר‬,
que significa RICO. A lição que podemos tirar daí é aquele que é
verdadeiramente rico não é aquele que tem dinheiro, nem posses e nem fama,
mas é aquele que tem capacidade de estudar e aprender a Torah, de ir aonde
for para ensiná-la e cumprir seus mandamentos, essa é a verdadeira riqueza e
a lição que podemos tirar daí.
◆◆◆
SEÇÃO XIV
TZEDAKAH

Cuidado para que não seja tzadik somente perante os homens para que te
louvem. E se fizer, não haverá mérito para ti de vosso Pai no céu.
Ainda disse Yeshua: quando fizer tzedakah, não faça proclamação nem
(sons) trombeta perante vocês como os hipócritas, em língua estrangeira,
Yipokratis. Os quais fazem suas tzedakot nas ruas e nos mercados onde são
vistos pelos homens. Porém eu digo a vocês que já receberam seus méritos.
E quando vocês fizerem tzedakah, que sua mão esquerda não saiba o que
a direita faz
Para que seja sua oferta em segredo e seu Pai que em segredo vê, te
complete (recompensa).
Mateus 6:1-4

Shimon HaTzadik dizia: sobre três coisas o mundo se sustenta: na Torah,


no serviço a Deus e na Tzedakah.
Pirkei Avot 1:2

Muito da Torah de Yehoshua aborda a necessidade da pessoa se tornar


um tzadik, e não seria possível se ele não abordasse um tema tão importante
como a tzedakah. A palavra tzedakah tem a mesma raiz em hebraico da
palavra tzadik (‫)צדיק‬, pois um é impossível sem o outro. Tzedakah em uma
tradução direta seria “justiça”, porém é o termo usado para “caridade”.
A tzedakah é algo vital na vida do judeu e na sociedade judaica, ela não
trata apenas de caridades ou esmolas, mas tem uma essência muito mais
profunda do que apenas dar dinheiro, ela trata de estender a mão a um
próximo, mesmo que desconhecido, para dar-lhe suporte na área que ele
necessitar, seja qual for. Claro que a forma mais fácil é através da doação de
dinheiro e itens materiais, mas a tzedakah também aborda um momento
solidário com alguém solitário, visita aos idosos, às viúvas, consolar alguém
que chora, ensinar sobre Deus à pessoa que está perdida, guiar o cego e tudo
aquilo que uma pessoa pode fazer pelo próximo. Sem esse tipo de atitude no
interior do indivíduo, mesmo que ele siga toda a Torah, ele nunca será tzadik,
pois tzedakah deve andar de mãos dadas com a Torah na vida do indivíduo
para que ele seja um tzadik digno do Reino dos Céus. O que Yehoshua ensina
vai de acordo com o Talmud:

Aquele que faz tzedakah tem o mérito da vida eterna.


Talmud da Babilônia, tratado de Rosh Hashanah 4a

É costumeiro, durante os dias festivos, que os judeus façam três


coisas, Tshuvah (retorno as Leis da Torah que não estavam seguindo mais),
Tefilah (oração) e Tzedakah (caridade), para evitarem o julgamento divino.
O Rabino Maimônides compilou uma lista de dez itens que devem ser
observados para a prática da tzedakah, desde ajudar a própria família até
fazer contribuições anônimas. Todos os judeus devem fazer tzedakah, até
mesmo os judeus pobres.

Por esse motivo, talvez o ensino de Yehoshua sobre tzedakah possa ser
desnecessário, pois é algo que todos ali cresceram fazendo, mas se olharmos
com atenção, ele não ensina sobre tzedakah e nem que ela deve ser feita, mas
ele aborda um tema muito mais íntimo, a intenção com a qual a tzedakah é
feita e isso é muito delicado, pois ele não bate de frente com escolas rabínicas
de sua época, mas sim, contra o “eu” de cada um que ali estava ouvindo.
Para que possamos entender melhor o que ele estava dizendo, precisamos
abordar algumas “gírias” comuns de sua época e que ele mencionou nesses
versículos.

SONS DE TROMBETA
Eis um termo estranho, a impressão que passa é que após uma doação, o
individuo saía anunciando o que fez. Na verdade, durante o primeiro século,
no pátio do Templo eram colocados treze recipientes feitos de bronze, eles
eram largos na parte inferior e estreitos na parte superior, lembrando um
Shofar, uma trombeta.
O metal das moedas ao se chocarem com o bronze, devido ao seu
formato, produzia um som bem alto e peculiar, existia o hábito entre algumas
pessoas de levarem varias moedas de pouco valor ao invés de uma única
moeda de grande valor, pois quando as colocavam ali no recipiente, elas
faziam muito mais barulho, como um som de trombeta, dando a impressão
aos que estavam em volta que essa pessoa estava fazendo uma grande
doação.

Existiam treze SHOFAROT (baús de coletas em forma de trombeta), treze


mesas e treze lugares para se prostrarem no interior do templo...
Mishnah Shekalim 6:1

Por isso Yehoshua chamou de hipócrita os que tocam as trombetas, pois


ficavam ali jogando um monte de moedinhas para se mostrarem aos outros e
não com a verdadeira intenção de realizar uma tzedakah por amor, uma
prática que Yehoshua era totalmente contra.

RUAS E MERCADOS
Mercados eram lugares comuns de tzedakah, não só pelo fato de muitos
que necessitam estarem ali, mas pela alta visibilidade que o doador teria. O
Talmud relata diversas discussões entre os sábios pelos mercados da cidade,
o que nos leva a entender que muitas pessoas importantes se reuniam nesses
lugares.

Se um coletor de tzedakah encontrar dinheiro no mercado, ele não pode


colocá-lo em seu bolso, pois pode parecer roubo. Ele deve colocá-lo em uma
bolsa de tzedakah.
Mishneh Torah, Doações aos Pobres 9:9

Como relatado por inúmeras vezes por todo o livro de Mateus, o grande
“problema” que Yehoshua tinha com outros fariseus era justamente a
hipocrisia, e isso não engloba os fariseus, mas sim todos os seres humanos,
sem excessão. Eu acredito que quase todo seus ensinos, de alguma forma,
abordavam justamente esse tema, fora os casos onde ele debatia certas leis
rabínicas que sobressaíam a Torah.
Apesar de todos seus ensinos terem sido baseados na Torah, ele não veio
ensinar a Torah em si, isso já era ensinado nas escolas, era algo que corria na
veia dos judeus do primeiro século. Ele veio interpretá-la e ensinar que é
essencial começar a vivê-la por dentro.
Segundo o judaísmo, a melhor doação é aquela que é anônima. Existem
muitas comunidades judaicas onde as doações são feitas a um rabino ou a
uma sinagoga e a sinagoga se encarrega de ajudar o necessitado, servindo
como intermediadora, dessa forma, nem o doador e nem quem recebe, sabe
um do outro. Para que aquele que doa não se vanglorie e para aquele que
recebe não seja grato à pessoa errada.

Existem quatro tipo de pessoas que fazem tzedakah, aquele que deseja
dar, mas não quer que outros deem também, esse tem um olho mal em
relação aos outros.
Aqueles que não desejam dar, mas desejam que outros deem, esse tem um
olho mal em relação a si mesmo.
Aqueles que desejam dar e desejam que outros também deem, não
levando méritos, esse é o tzadik.
Aqueles que não desejam dar e não querem que ninguém dê, esse é a
pessoa má.
Pirkei Avot 5:13

E ele acreditou em Adonai, e isso lhe foi creditado como tzedakah.


Genesis 15:6

É ótimo fazer tzedakah antes de orar.


Shulchan Arukh, Orach Chayim 92:10
◆◆◆
SEÇÃO XV
PAI NOSSO

Nesse tempo disse Yeshua aos seus talmidim: no momento que orarem
não levantem a voz e não sejam como esses galhos soltos que oram nas
sinagogas, pelos cantos do pátio, orando com um discurso alto para que
sejam louvados pelos homens.
E nas orações de vocês, venham aos leitos e fechem as portas atrás de
vocês e orem ao seu Pai em segredo e seu Pai, que vê em segredo, irá te
completar (recompensar).
E quando vocês orarem, não multipliquem palavras como os hereges, que
pensam que serão ouvidos.
Não veem que vosso Pai no Céu sabe as coisas (que pedir) antes que
sejam pedidas por vocês?
E assim orarás: Pai nosso, Santo seja o seu nome
Abençoado seja seu Reino e Sua vontade seja feita no céu e na terra.
E nos dê nosso pão sempre
E perdoe nossos pecados quando perdoamos aos que pecam contra nós.
E não nos traga ao lado da tentação e nos guarde de tudo o que é mal,
amém.
Mateus 6:5-13

O famoso “pai nosso” é visto por muitos cristãos como um modelo de


oração que até virou uma forma de “mantra”, quase uma forma única de
oração nesse meio. Na verdade, o que Yehoshua ensina aqui não é uma
oração per se a ser copiada, mas sim um resumo do conceito básico da reza
judaica.
Para que possa ficar claro da onde essa oração veio, devemos olhar para o
estilo da reza rabínica. A oração central na liturgia judaica é conhecida pelo
número de bênçãos que ela contém, seu nome é Shmoneh Eisreh, que
significa “dezoito”, pois consiste em dezoito tópicos que devem compor uma
oração.
O Shmoneh Eisreh também é conhecido como Amidah e é feita em pé,
voltado a Yerushalaim. O Amidah é recitado durante o Shabbat, os dias
santos e no serviço diário na sinagoga, sendo ela recitada três vezes por dia
por alguns judeus mais religiosos, manhã, tarde e noite.
As três primeiras bênçãos tratam da unicidade absoluta de Deus e a fé
fundamental que Ele é o Criador de todas as coisas. Da quarta até a nona
tratam de petições de caráter pessoal. Da décima a décima quinta tratam de
petições de caráter comum e as três últimas abordam o serviço à Adonai.
Todo judeu é obrigado, ensinado e doutrinado a realizar o Amidah ao
menos uma vez ao dia, porém, em momentos de emergência ou por falta de
tempo, essa obrigação pode ser cumprida com um Amidah de forma reduzida,
fazendo um resumo das dezoitos bênçãos, que é o que aparenta que ocorreu
quando Yehoshua ensinou o “pai nosso”, uma forma reduzida do Amidah.

Todas escolas rabínicas, principalmente do primeiro século, formulavam


e discutiam quais seriam e como seriam essas formas resumidas. Cada rabino
decidia as partes que acreditava serem as mais essenciais e as ensinava a seus
alunos, sendo que através dessa reza, era possível determinar de qual escola
rabínica era o indivíduo. Tais orações foram vastamente discutidas no
Talmud:

Aquele que estiver andando em um lugar onde existam grupos de feras


selvagens e ladrões, deve recitar a Amidah abreviada. Qual seria a Amidah
abreviada? Rabbi Eliezer disse: “Que Sua vontade se realize nos céus acima,
e dê paz de espírito àqueles que Lhe temem aqui embaixo, e faça aquilo que
for bom a Seus olhos. Bendito és Tu, Adonai, que escuta as orações”.
Talmud da Babilônia, Tratado Brakhot, 29b

Rabbi Yehoshua ben Levi diz que ele recita: “Escute o clamor de Sua
nação, Israel, e rapidamente cumpra seu pedido. Bendito é Tu, Adonai, que
escuta as orações”.
Talmud da Babilônia, Tratado Brakhot, 29b

Rabbi Eliezer, filho de Rabbi Tzadok, diz que ele recita: “Escute o grito
de Seu povo, Israel e cumpra seu pedido sem demora. Bendito és Tu, Adonai,
que escuta as orações.
Talmud da Babilônia, Tratado Brakhot, 29b

Podemos ver aqui que é algo muito comum entre o rabinato uma
formulação do que deve ser orado a Deus quando uma forma mais resumida
for necessária. Não foi diferente com Yehoshua, o que ele faz neste momento
é justamente ensinar um Amidah resumido a seus talmidim, algo que todo
rabino faz. Com certeza absoluta Yehoshua e seus talmidim rezavam ao
menos uma vez ao dia o Shmoneh Eisreh de forma completa.

PAI NOSSO, SANTO SEJA SEU NOME – Na primeira parte


de sua oração resumida, Yehoshua ensina que devemos sempre
abençoar aquilo que é mais intimo e profundo sobre Adonai, que é
Seu Nome.

ABENÇOADO SEJA SEU REINO E SUA VONTADE


SEJA FEITA NO CÉU E NA TERRA – Na segunda parte
abençoamos ao Deus Criador, dono de todas as coisas e a soberania
de Sua vontade.

PÃO, PECADO, LIVRAMENTO – Os três últimos tópicos


tratam de pedidos de caráter pessoal, tanto para o físico quanto para
a alma. Porém aqui vemos uma característica típica de Yehoshua e
como ele endurece o seguir a Deus. A condição para que sejamos
perdoado é se perdoarmos antes, o que exige uma ação de nossa
parte para que possamos receber o perdão de Deus, mostrando
assim que o arrependimento não é apenas um sentimento, mas
exige uma ação.

É de extrema importância para o cristão entender a oração judaica, pois


além de ser a base da fé daquele que chamam de Mashiach, ela ensina muita
coisa referente a sua mentalidade. Essa oração é muito antiga, muito mais
antiga que Yehoshua, talvez uns 430 anos antes de seu nascimento. A oração
é linda, cheia de menções e alusões às escrituras.

AMIDAH
1- PATRIARCAS
Pois o nome de Adonai é grande como nosso Elohim. Abrirei minha
boca em oração
Bendito és Tu, ó Adonai, nosso Elohim, e Elohim de nossos pais. O
Deus de Abraham, Deus de Itzhak e o Deus de Yaakov. Grande e poderoso
Deus. O mais Santo e que nos dá Sua graça, Criador de todas as coisas, que
se lembra das boas obras dos patriarcas e por amor trará um redentor para os
filhos deles, para a glória de Seu nome. Ó Rei, Ajudador, Salvador e Escudo.
Bendito és Tu, Adonai, o Escudo de Abraham.

2- PODER DIVINO
Seu poder é eterno, revive aos mortos, você tem o poder para salvar, você
faz o vento soprar e a chuva cair.
Você mantêm o vivo com benevolência, você ressuscita aos mortos com
grande misericórdia, você dá suporte ao que cai, cura o doente, liberta o
cativo e mantem a fé daqueles que dormem no pó. Quem é como Tu, fazedor
de coisas poderosas? Quem parece contigo? Um Rei que põe a morte apenas
para então restaurar a vida e assim faz a salvação florescer. Você certamente
reviverá aos mortos. Bendito és Tu, Adonai, que revive aos mortos.

3- KEDUSHAH (SANTIDADE)
Nós santificaremos Seu nome nesse mundo, assim como é santificado nos
céus, assim como está escrito pelo profeta: Santo, Santo, Santo é o Senhor
das hostes, toda a terra está cheia de Sua glória.
Bendita seja a presença de Adonai nesse lugar e na Sua santa Palavra está
escrito, dizendo: Adonai reina para sempre, seu Elohim, ó Sião, por todas as
gerações, aleluia.
Por todas as gerações iremos declarar Sua grandeza. Sua oração, ó nosso
Elohim, que nunca parta de nossos lábios, pois Tu és Grande e Santo e Rei.
Bendito és Tu, Adonai, o Deus Santo. Você é Santo, Seu Nome é Santo e
criaturas santas louvam a Ti todos os dias. Bendito és Tu, Adonai, o Elohim
Santo.

4- ENTENDIMENTO
Você dá Seu favor aos homens com conhecimento e ensina aos mortais
entendimento. Nos favoreça com o entendimento e clareza que vem de Ti.
Bendito és Tu, Adonai, O Gracioso Doador de conhecimento.

5- ARREPENDIMENTO
Nos traga de volta, ó Pai Nosso, para as Suas instruções. Traga-nos
próximos, ó Nosso Rei, para servir a Ti. E nos faça retornar a Ti em perfeito
arrependimento. Bendito é Tu, Adonai, que se alegra no arrependimento.

6- PERDÃO
Nos perdoe, ó Pai nosso, pois nós pecamos. Nos perdoe, ó Nosso Rei,
pois nós transgredimos. Pois Tu és perdão. Bendito és Tu, Adonai, que é
Misericordioso e sempre pronto a perdoar.
7- LIVRAMENTO DAS AFLIÇÕES
Olhe para nossas aflições e escute nossa causa, e nos redima rapidamente
para glória de Seu Nome, pois Tu és O Redentor Poderoso. Bendito és Tu,
Adonai, Redentor de Israel.

8- CURA
Nos cure, ó Adonai, e nós seremos curados. Nos salve e nós seremos
salvos, para Ti é a nossa oração. Garanta uma cura perfeita para todas nossas
doenças, pois Tu, Rei Todo Poderoso, és um fiel e poderoso curador. Bendito
és Tu, Adonai, que cura os doentes do Povo de Israel.

9- PELO NECESSÁRIO
Abençoe esse ano, ó Adonai nosso Elohim, juntos com tudo aquilo que
produzimos, para o nosso bem-estar. Nos satisfaça com Sua bondade, e
abençoe nosso ano para que seja o melhor de todos os anos. Bendito és Tu,
Adonai, que abençoa aos anos.

10- PELOS EXILADOS


Soe o grande Shofar e levante o estandarte para juntar a todos os exilado
e nos junte dos quatro cantos da terra. Bendito és Tu, Adonai, que junta os
dispersos do Povo de Israel.

11- PELA JUSTIÇA DE ADONAI


Restaure nossos juízes e nossos conselheiros como eram no início.
Remova de nós a tristeza e o choro. Reine sobre nós, apenas Ti, ó Adonai,
com amor e compaixão. Bendito és Tu, Adonai, o Rei que ama a justiça e ao
justo.

12- DESTRUIÇÃO DOS INIMIGOS DE DEUS


Que não haja esperanças para maus e que toda maldade pereça em um
instante. Que todos Seus inimigos sejam rapidamente cortados fora, e que,
em nossos dias, sejam arrancados e jogados fora todo o domínio da
arrogância. Bendito és Tu, Adonai, que esmaga os inimigos e destrói os
arrogantes.

13- PELA JUSTIÇA E PELOS PROSÉLITOS


Que sua compaixão seja direcionada, ó Adonai nosso Elohim, aos justos,
aos pios e aos anciões da casa de Israel e aos remanescentes de Seus sábios,
aos prosélitos e a nós. Garanta uma boa recompensa a todos que
verdadeiramente confiar em Seu Nome. Separe nossa parte para sempre para
que nunca caiamos em vergonha, pois nós colocamos nossa confiança em Ti.
Bendito és Tu, Adonai, que dá suporte e fica ao lado do Tzadik.

14- POR JERUSALÉM


Volte em misericórdia a Jerusalém, Sua cidade, e habite nela assim como
prometeu. Reconstrua-a em nossos dias como uma eterna estrutura, e restaure
o trono de David. Bendito és Tu, Adonai, que reconstrói Jerusalém.

15- REI MASHIACH


Que a semente do Rei David floresça e que ele seja exaltado pelo Seu
poder salvador, pois esperamos o dia todo por Sua salvação. Bendito és Tu,
Adonai, que causa o florescimento da salvação.

16- RESPOSTA DE ORAÇÃO


Escute nossa voz, ó Adonai nosso Elohim, nos poupe e tenha piedade de
nós. Aceite nossas orações em misericórdia e com favor, pois Tu és O Deus
que escuta orações e súplicas. Nosso Rei, não nos retire de Sua Presença de
mãos vazias, pois Tu escutas as orações de Seu Povo com compaixão.
Bendito és Tu, Adonai, que escuta as orações.

17- RESTAURAÇÃO DO TEMPLO


Seja alegrado, ó Adonai nosso Elohim, com Seu Povo de Israel e com
suas orações. Restaure os serviços do santuário mais íntimos do Templo, e
receba com amor e com favor ambos as ofertas queimadas de Israel e suas
orações. Que a adoração de Seu Povo seja sempre aceita por Ti. Que Seus
olhos estejam sobre Sião. Bendito és Tu, Adonai, que restaura a presença
divina em Sião.

18- AGRADECIMENTO PELAS MISERICÓRDIA DE DEUS.


Agradecemos a Ti, pois Tu és nosso Elohim e Elohim de nossos pais para
sempre e sempre. Por gerações Tu tens sido a Rocha em nossas vidas, o
Escudo de nossa salvação. Nos lhe daremos graça, pois nossas vidas estão em
Suas Mãos, pois nossas almas estão confiadas a Ti, pois Seus milagres estão
diariamente em nossas vidas, pois Suas maravilhas e Seu favor estão conosco
todo o tempo, manhã, tarde e noite. Ó misericordioso, que sua graça nunca
acabe. Nossa esperança está em Ti. Que Seu Nome seja abençoado por todos
esses atos, ó Nosso Rei, para todo o sempre. Que toda criatura viva dê graças
a Ti e louve Seu Nome em verdade, ó Elohim, nossa Salvação e nosso
Socorro. Bendito és Tu, Adonai, Seu Nome é O Benfeitor, e o qual é digno de
agradecimento.

Essa é o Amidah completo que provavelmente era recitado por Yehoshua,


podemos ver que em sua oração resumida, o “pai nosso”, ele aborda os itens
mais importantes, 2, 3, 5, 6, 7, 9, 18 do Amidah.
Uma oração poderosa que foi reapresentada por Yehoshua, ter a
consciência e o conhecimento de que isso fazia parte da educação,
mentalidade e dia a dia dele é vital, ela nos mostra muito daquilo que ele
pregava e ensinava.

Rabban Gamliel disse: “Todos devem dizer os dezoitos todos os dias”.


Rabbi Yehoshua diz: “ou uma forma abreviada das dezoito”.
Midrash Brakhot 4:3

CORAÇÃO E FÉ
Outro ponto que Yehoshua ensina, assim como a tzedakah, a oração deve
ser feita de coração, com intenção e com fé. Muitas rezas judaicas insistem na
repetição de determinadas palavras, uma forma de mantra, para que o que
pedem seja realizado, claramente Yehoshua ia contra essa ideia, chamando-os
de hereges, pois fazem isso e se esqueciam que com Deus o mantra não
funciona.
Alguns contemporâneos de Yehoshua debatem algumas coisas
interessantes sobre a oração, a fé e a intenção por trás dela, coisas que
mostram um pouco da base de sua formação.

Rabbi Eliezer está conversando com Rabbi Yehoshua. Como pode Rabbi
Yehoshua responder a Rabbi Eliezer sobre o poderoso argumento que
qualquer um pode louvar a Deus a qualquer época do ano? Rabbi Yehoshua
diz: qualquer um que orar pela ressurreição dos mortos diariamente, mesmo
que não ocorra diariamente, mostra a fé que qualquer dia é dia propicio
para que isso ocorra.
Talmud da Babilônia, Tratado Taanit 2b

Aqui temos a fé por trás da oração, Rabbi Yehoshua Ben Levi orava todo
dia pela ressurreição dos mortos e mesmo que não acontecesse, continuava
orando por isso, pois acreditava que qualquer dia é um dia propício para que
isso aconteça. Ele não olhava para as circunstâncias, não olhava para a
resposta imediata, ele apenas olhava para a certeza que ele tinha do milagre.
Isso vai de acordo com Yehoshua quando afirma que a oração será
recompensada por Deus e que Deus já sabe tudo antes que peçamos, o que
nos basta não é a repetência dos hereges, mas sim a fé posta na oração.

Qual o serviço a Deus feito no coração? É de certo o serviço da oração.


Talmud da Babilônia, Tratado Taanit 2a

Que as palavras de minha boca e a oração de meu coração sejam


aceitáveis a Ti, ó Adonai, minha Rocha e meu Redentor.
Salmos 19:15

Outro ponto, a intenção do coração durante a oração, a única forma para


que uma oração se realize e seja aceita por Deus é fazê-la com o coração,
com verdadeiras intenções perante o Criador. Se for feita para que outros
vejam como se ora bonito, ou como é eloquente, então de nada adiantará.
◆◆◆
SEÇÃO XVI
AIYIN TOVAH

Ainda disse a eles: não se prendam ao acúmulo de tesouros na terra que


são comidos pela ferrugem e pelos vermes ou roubado pelos ladrões.
Faça para vocês tesouros no céu, no lugar em que a ferrugem e os
vermes não o comem e no lugar que ladrão não rouba.
Neste lugar que estará seu tesouro.
E a luz de seu corpo é seus olhos, se seus olhos olharem para frente, seu
corpo (caminho) não escurecerá.
E se a sua luz escurecer todos seus caminhos escurecerão.
Neste tempo disse Yeshua aos seu talmidim, não pode o homem trabalhar
(servir) para dois senhores a menos que ame um e odeie ao outro ou honre a
um e desonre ao outro. Não pode trabalhar (servir) a EL e ao mundo.
Portanto eu digo a vocês que não se preocupem com a comida para suas
almas e também não com a roupa para seus corpos. A alma é mais cara que
o alimento e o corpo mais que as vestimentas.
Observem aos pássaros no céu, não plantam, não colhem (do solo) e nem
ajuntam em galpões, porém o vosso Pai exaltado que provém. Não são vocês
mais importantes do que eles?
Mateus 6:19-26

Se olharmos com atenção, existem dois tópicos no mesmo ensino que aos
olhos ocidentais não fazem muito sentido ao serem apresentados juntos, o
tópico que trata da riqueza material e o tópico sobre os olhos serem a luz do
corpo.
O que temos aqui é algo idiomático, termos totalmente rabínicos, os quais
ligam os olhos com bens materiais. Os olhos bons (aiyin tovah) e os olhos
maus (aiyin ra´ah) são terminologias ortodoxas que se referem às pessoas
generosas e às pessoas egoístas em relação aos bens materiais que elas
possuem.
Quando Yehoshua ensina sobre bens materiais, faz total sentido ele trazer
essa ideia de “olhos” à tona, pois ele ensina que aquele que junta tesouros nos
céus tem aiyin tovah e isso iluminará todo o seu corpo e seu andar, em outras
palavras, terá uma vida abençoada por Deus, já aquele que se prende a bens
materiais, egoísta e ganancioso, possui aiyin ra´ah e isso escurecerá todo seus
caminhos, que nada mais é que uma vida longe de Deus.
Para entendermos melhor essa terminologia, vamos olhar para os ensinos
rabínicos a respeito desse tema, Yehoshua não é muito claro sobre esses
“olhos”, pois todos seus ouvintes já estavam acostumados sobre esse tema.
Devemos nós observar o que devemos fazer para obtermos o aiyin
tovah e qual a maneira que devemos agir para que nunca saiam de nossas
vidas:

Se uma pessoa fizer uma tzedakah, que a faça com aiyin tovah.
Midrash Bava Batra 14:4

De cara já percebemos que o aiyin tovah está ligado a tzedakah, a


caridade, e não poderia fazer mais sentido, pois aquele que não se preocupa
com o que ele acumula nessa terra, facilmente ajudará financeiramente ao
próximo e sempre fará de bom grado.
A escola Beit Hillel faz alguns comentários a respeito, que a meu ver, são
os comentários mais radicais que encontrei em todo o Talmud:

A quantidade de Terumah (doação): Beit Hillel diz: uma quantidade


generosa é de um quarto. Beit Shammai diz: um terço. A quantidade comum
é de um quinto. Um sexto é um aiyin ra´ah.
Mishnah Terumot 4:3

Todos sabem que o que a Torah ordena é um décimo de tudo que


obtemos, mas olha que interessante, o rabino de Yehoshua estabelece um
quarto, 25% de tudo que alguém recebe e ainda afirmam que se for um sexto,
ou menos, essa pessoa não tem aiyin tovah.
Em outras palavras, para verdadeiramente termos um aiyin tovah que
ilumine nosso caminho, devemos ir além dos dez por cento, devemos chegar
até um quarto. Isso mostra um total desprendimento de bens materiais,
exatamente como Yehoshua está explicando. Vamos olhar da onde Yehoshua
tirou isso:

Aquele que tem aiyin tovah será abençoado, pois dá do seu pão ao pobre.
Provérbios 22:9

Não comas do pão daquele que possui aiyin ra´ah, nem cobices seus
bens.
Provérbios 23:6

Existe um claro paralelo entre o físico e o espiritual nisso tudo, assim


como os olhos trazem o conceito de claridade para a mente, o
desprendimento de bens materiais traz a claridade para o espírito.
Devemos entender que nem a Torah e nem Yehoshua eram contra a
possessão de bens materiais, o que eles são contra é o apego a essas coisas, o
valor que o homem põe sobre elas e o quão mesquinho ele se torna. Por tal
motivo, Yeshoshua continua seu ensino citando que homem algum pode
servir a dois mestres, não se pode servir a Deus e a Mamon (dinheiro em
aramaico).
Tal concepção de servir a dois mestres é algo da Torah, mas não está de
forma clara, para tanto, devemos fazer uma análise gramatical do livro de
Genesis.
YETZER
Tanto o aiyin tovah quanto o aiyin ra´ah são resultados dos dois instintos
que foram colocados dentro de ser humano por Deus, são eles o bom instinto
(Yetzer Tovah) e o mal instinto (Yetzer Ra´ah), ambos são os principais
fatores que conduzem a vida de todo ser humano e a verdadeira luta de cada
um é justamente concernente a esses dois Yetzer. Ao olharmos na Torah, no
momento em que Deus cria o ser humano, algo de interessante nos é relatado:

‫וייצר יהוה אלהים את האדם עפר מן האדמה ויפח באפיו נשמת חיים ויהי‬
‫האדם לנפש חיה‬

E formou o SENHOR Deus o homem do pó da terra e soprou em suas


narinas o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente.
Genesis 2:7

Nesse versículo temos um aparente erro gramatical, um erro de


escrita, mas como estamos falando da Torah, aquilo que parece erro, na
verdade é uma mensagem, é algo que devemos parar e prestar atenção.
O termo “formou” em hebraico é Yitzer (‫ )יצר‬e é usado quando Deus
forma os animais e a humanidade no sexto dia, porém, na criação de Adam o
mesmo termo é usado, mas sua escrita vem de forma diferente e única em
toda literatura hebraica; No caso, temos a mesma palavra Yitzer (‫ )ייצר‬porém
com uma repetição anormal da letra inicial YUD (‫ ;)י‬Esse fato oculto revela
que a Torah já nos relata de cara que Adam já sabia muito bem o que era bom
e mal.
Isso acontece porque existe uma outra palavra que é escrita
exatamente da mesma forma que o termo Yitzer (‫)יצר‬, que é a palavra Yetzer
(‫)יצר‬. Isso já muda tudo, pois Yetzer é o nome da inclinação intrínseca do
homem. Dentro de cada ser humano existe o Yetzer HaTov (inclinação boa) e
o Yetzer HaRah (inclinação má) e tudo aquilo que fazemos e decidimos na
vida é influenciado por uma dessas inclinações.

Rav Nahman bar Rav Hisda interpreta: qual o significa do que está
escrito: “então Adonai Elohim formou (vayyitzer) o homem” com dois Yud?
Esses dois Yud fazem alusão ao fato de que o Santo, abençoado seja, criou
duas inclinações, uma boa e uma má.
Talmud da Babilônia, Tratado Brakhot 61a

Yehoshua fala de uma forma muito similar, e de certo possuía esse


entendimento referente a criação do homem. Quando ele ensina sobre servir a
dois mestres, ele se refere justamente a essas duas inclinações, é impossível
uma pessoa ser boa ao mesmo tempo que é má, é impossível observar a
Torah e viver no pecado, pois a Torah não estará sendo observada no coração
(como já ensinado no capítulo 5), pois se ela está no coração, o pecado nem é
uma opção. Quem vive nesse meio termo é o tal do “morno”, ou seja
“quente” ou seja “frio”, isso faz total sentido com tudo que ele ensina.

Beit Hillel usava de uma linguagem muito comum e muito replicada por
Yehoshua em referência ao acúmulo de tesouros no céu e sobre os danos que
eles sofrem se forem acumulados na terra.
Alguns anos após a morte de Yehoshua, um rei na Arábia, chamado
Izates, recebeu uma visita de um judeu chamado Ananias da escola de
Gamliel, a qual nasceu da escola de Hillel, e ensinou Torah a esse rei até que
alguns anos depois, ele acaba se convertendo ao Deus de Israel. O que mais
me intriga é como esse rei foi ensinado, como o linguajar dele se
assemelhava muito com os ensino de Yehoshua, mesmo sem nunca ter o
visto. Irei colocar aqui uma pequena história sobre esse rei da forma como foi
relatada pelo maior historiador judeu do primeiro século, Flavivs Josefvs:

A respeito do rei Izates, que exauriu todos seus tesouros e as reservas de


seus pais durante os anos de fome para ajudar a terra de Israel. Seus irmãos
e a casa de seu pai trouxeram uma delegação perante ele e lhe disseram:
“Seu pai guardou ouro e aumentou o tesouro de seus pais e você, o está
desperdiçando.” O rei responde: “A verdade jorra da terra como água de
uma fonte e a caridade nos olha lá de cima, dos céus”(salmos 85:11). Meus
pais colocaram suas riquezas em um local vulnerável a ferrugem e a
corrosão, mas eu coloco minhas riquezas em um local invulnerável a
ferrugem e a corrosão, como está escrito, “caridade e julgamento são a
fundação de Seu trono”(Salmo 97:2). Meus pais juntaram algo que não
produz frutos, mas eu juntei algo que produz frutos, como está escrito, “Diga
ao que recebe a caridade que tudo estará bem com ele, pois comerá dos
frutos de seus atos”(Isaias 3:10). Meus pais juntaram tesouros em forma de
ouro, mas eu juntei meus tesouros em forma de almas, como está escrito, “a
fruto da caridade é a Árvore da Vida e qualquer um que obtém uma alma, é
sábio(Provérbios 11:30). Meus pais juntaram para outros e eu juntei para
mim mesmo, como está escrito, “E a caridade será por ti”(Deuteronômios
24:13). Meus pais juntaram para esse mundo, mas eu juntei para a vida
eterna, pois está escrito, “Sua caridade andará perante ti”(Isaias 58:8).

Acredito que essa história pode deixar muito claro ao que Yehoshua se
referia, o aiyin tovah, a generosidade, o não apego as coisas terrenas e
principalmente uma vida segundo o yetzer tovah regido pela Torah é o que
todo ser humano precisa, o resto é resto, pois se nem os pássaros se
preocupam com as coisas dessa terra, por que então aquele que entende essas
coisas e as seguem, deve se preocupar?

PREOCUPAÇÃO E PROVIDÊNCIA
De uma forma muito profunda, Yehoshua entrega a solução para àqueles
que seguirem ao que ele fala à respeito de bens materiais.
Se nem os pássaros no céu se preocupam, pois recebem a providência
divina diariamente, por que os seres humanos se preocupam, já que são muito
mais importante dos que meros pássaros?
Acredito que o entendimento desse ensino é bem claro, NÃO SE
PREOCUPEM, mas sempre devemos olhar para os ensinos rabínicos com a
ideia de que sempre há algo por trás.
Para que possamos entender melhor esse exemplo, devemos ter
conhecimento de algo chamado “os sete princípios de Hillel”, que são sete
maneiras de como um ensino deve ser passado, sete regras que devem ser
usadas para trazer qualquer interpretação profunda sobre temas da Torah.
Yehoshua tinha maestria nesses sete princípios, pois tais foram escritos pelo
seu próprio mestre e ele, Hillel, deveria passá-los de forma exaustiva a seus
alunos. Hoje tais princípios são vastamente usados nos meios ortodoxos.
Conhecê-los e entendê-los bem irá ajudar muito a entender melhor as
palavras de Yehoshua em todos os livros a seu respeito e o próprio Tanakh.

OS 7 PRINCÍPIOS DE RABBI HILLEL


Tais princípios já existiam antes mesmo de Rabbi Hillel, mas foram
compilados pela primeira vez por ele, devido a seu excessivo uso delas. Hillel
usava a analogia e a alegoria para adaptar a Torah naquilo que ele queria
ensinar, permitindo que todos entendam a palavra de Deus, tanto os mais
inteligentes, quanto os mais debilitados.

1- KAL VACHOMER (LEVE E PESADO)


Se algo é verdadeiro para alguma coisa de menor importância, como
no caso de uma mandamento leve, esse algo também toma forte
importância para algo mais sério. Observamos o uso desse conceito por
todo o sermão da montanha, quando Yehoshua põe na balança os
mandamentos sérios e os leves, ensinando que a quebra de um
mandamento pequeno, certamente levará a quebra de um sério.

2- GEZERAH SHAVAH (EQUIVALÊNCIA VERBAL)


Se uma palavra aparece em dois trechos diferentes da Torah, pode-se
assumir uma conexão de entendimento entre ambas.

3- BINYAN AB MIKATUB ECHAD (SUPOSIÇÃO ATRAVÉS DE


UMA REGRA)
Aplicação de uma norma encontrada em determinada passagem em
outras passagens que relacionam o mesmo tema, porém não são
encontradas nelas essa mesma norma de forma direta.

4- BINYAN AB MISHENE KETUVIM (DEDUÇÃO A PARTIR DE


VÁRIAS NORMAS)
Construir uma norma própria através da conexão de vários textos do
Tanakh.
5- KEAL U´PERAT – PERAT ´KELAL (DO GERAL AO
PARTICULAR – DO PARTICULAR AO GERAL)
Um termo ensinado de uma forma geral que é aplicado em uma
forma particular, para o indivíduo e vice-versa.

6- KAYOTZE BO MIMAKOM ACHER (ANALOGIA DE


OUTRA PASSAGEM)
Quando duas passagens entram em conflito, usar uma terceira para
resolução.

7- DABAR HILMAD ME ANINO (INTERPRETAÇÃO ATRAVÉS


DO CONTEXTO)
A passagem é explicada por alguma norma anterior ou
posterior a ela.

Agora acredito que fica mais simples de entendermos de onde vem o


exemplo dado por Yehoshua. Assim como no sermão da montanha, onde ele
usa vastamente o KAL VACHOMER, nesse momento ele se utiliza do
KEAL U´PERAT, expondo algo comum, que é o cuidado de Deus com toda
Sua criação, porém de uma forma individual, particular, ou seja, o mesmo
cuidado que o Criador tem com tudo aquilo que Ele criou, será muito maior e
muito mais pessoal àqueles que O servirem e isso é maravilhoso.

CONSIDERAÇÕES
Se caso EL pense em vocês, não se preocupem em dizer o que comerei ou
o que beberei.
Tudo aquilo que o corpo necessita, o vosso Pai sabe. Todas as coisas que
vocês precisam.
Busquem antes o Reino de Elohim e sejam tzadikim e todas essas coisas
lhe serão dadas.
Não se preocupem com o dia de amanhã pois o dia de amanhã se
preocupará por si mesmo. Basta a vocês hoje e seus problemas.
Mateus 6:31-34

Para terminar a linha de pensamento, Yehoshua aponta algo muito duro e,


até certo ponto, radical. A forma como ele se expressa no versículo 31, o qual
está de forma errônea nas traduções para o português, começa com “SE
CASO”, isso mostra algo muito complicado, pois ele deixa claro que existe
uma possibilidade de que EL (Deus) não pense nas pessoas, se não
encontrarmos uma “maneira” para que Deus pense em nós, ai sim, teremos
com que nos preocuparmos, muita atenção nesse simples termo que
Yehoshua utiliza, a providência de Deus É CONDICIONAL!
Segundo ponto, qual ser humano não tem o costume de orar com um
monte de petição? Acredito que a vasta maioria, mas ele diz que Deus já sabe
dessas coisas, e que nossa oração deveria ser focada na busca do Reino dos
Céus, e tal ideia, é fortemente atrelada a busca de como aprimorar os
mandamentos em nossas vidas.
E por fim, apenas um tipo de pessoa receberá tudo o que necessita de
Deus, o tzadik, que nada mais é que a pessoa que vive Torah, ou seja, pelas
palavras de Yehoshua, apenas os que seguem a Lei de Deus terão todas as
necessidades atendidas. De novo, TODAS e não algumas.

Não criem um falso Yehoshua na cabeça, não caiam no jesus romano, que
só serve pra fingir que dá aquilo que o homem pede, não percam tempo com
deuses criados por homens. Sigam a Deus, aprendam com as verdadeiras
palavras dele, quebrem conceitos anteriores e tenham uma vida repleta de
Deus, de verdade, de alegria, cheia de todas as formas e com os olhos no
Reino dos Céus. Quem tiver entendimento, que entenda.
◆◆◆
SEÇÃO XVII
JULGAMENTO

Não julgues para não ser julgado.


Através desse julgamento serás julgado e com essa medida serás medido.
E por que você vê a palha no olho de seu próximo e não vê a trave que
está nos seus olhos?
E como falarás para seu próximo: espere um pouco que arrancarei a
palha de seus olhos e eis que que a trave está em seus olhos?!
Hipócrita! Arranque antes a trave de seus olhos e então sim, arranque a
palha dos olhos de seu próximo.
Mateus 7:1-5

Acredito que nenhum dos ensinos do sermão da montanha tenha sido


tão mal entendido como o assunto abordado no começo do capítulo sete.
Muitos entendem esse ensino como uma proibição de fazer julgamento,
porém tal ideia não é coerente com aquilo que Yehoshua vem ensinando.
Podemos observar de outras passagens que o julgamento é essencial ao
homem e que ele deve sempre fazê-lo, julgar entre o certo e o errado, entre a
luz e a escuridão, são atitudes necessárias para a vida de qualquer ser humano
que decida seguir a Deus. O interessante é que nem nesse caso, que trata de
julgamento ao próximo, Yehoshua traz alguma proibição, o que ele faz e
incentivar o julgamento, porém um julgamento pessoal, uma introspectiva
sobre nossas atitudes e após esse julgamento, se estivermos nos conformes da
Palavra de Deus, então teremos autoridade de julgar ao próximo.
Pode parecer estranho, mas é justamente isso que ele ensina. Porém, e
sempre tem um porém, devido a nossa condição caída, temos a propensão de
fazer péssimos julgamentos, tanto em relação a nós mesmos quanto em
relação ao próximo, temos uma tendência de usar dois pesos e duas medidas,
sendo muito leve sobre nós mesmos, chegando até uma certa hipocrisia, e
muito mais pesado em relação ao próximo. E nesse caso, é melhor ficarmos
quietos.
Nós devemos ter muito cuidado ao tentarmos remover algo dos olhos do
próximo quando temos algo muito maior em nossos olhos. Devemos ter
grande discernimento se quisermos ter uma vida de acordo com a Torah.
Caso caiamos nesse erro, o mesmo acontecerá conosco, pois se formos
injustos com o próximo, eventualmente serão injustos conosco. O indivíduo
que se sente sempre injustiçado perante os julgamentos dos próximos, deve
começar a analisar o próprio “eu”, pois isso pode ser resultado das próprias
atitudes.

Não sejam desonestos no julgamento, nem na vara, nem no peso, nem na


medida.
Levítico 19:35

O começo para um homem julgar é que julgue através de seu estudo da


Torah, o que vem depois é resto.
Mishneh Torah, Estudos da Torah 3:5

Duas coisas bem interessantes, a primeira é a própria Torah falando sobre


julgamento, ela não o proíbe, assim como Yehoshua não o proibiu, porém
ambos impõe a mesma condição de não sermos desonestos e isso pode ser
complicado.
O Mishneh Torah afirma que para que possamos julgar um pouco melhor,
esse julgamento deve ser elaborado através do estudo da Torah, ou seja, é a
base que deve ser levada em conta na hora do julgamento.
Por último vamos olhar de onde Yehoshua tirou tal ensino e
interpretação:

‫ולא תשנא את אחיך בלבבך הוכח תוכח‬


Você não deve odiar a seu próximo em seu coração, reprove e reprove
seu próximo mas não seja condenado por causa dele.
Levítico 19:17

Nessa passagem em Levítico, em hebraico, o termo correção aparece


duas vezes seguidas. Segundo o rabino Baal Shem Tov, essa repetição é
devido a forma como a pessoa deve se aproximar de seu irmão na hora de
julgá-lo ou corrigi-lo, o primeiro se refere a própria pessoa, que deve
primeiro se corrigir e então ela estará apta a corrigir ao próximo. Acredito ser
exatamente essa a mesma interpretação de Yehoshua.

PORCOS E CACHORROS
Na sequência, ele usa de um exemplo bem interessante, que aborda
diversas coisas em relação às impurezas, uma estranha explicação referente
ao julgamento que só pode ficar claro se entendermos bem os termos por ele
utilizados.

Ainda disse a eles: não deem carne kasher aos cachorros, e não atire
(coisas sagradas) perante os porcos para que não as mastiguem perante ti e
te prejudiquem.
Perguntem a EL e serás dado a vocês, peçam e encontrarás, batam e
abrirás para vocês.
Tudo que perguntar (pedir) serás dado e ao que pergunta (pede)
receberá e encontrará, e ao que chama será aberto.
Quem no meio de vós, que o filho pede a vós um pedaço de pão, o dá
pedra?
Ou se pede peixe, o dá cobra?
E vocês que são um povo mal, vem e dão presentes bons perante vocês,
então muito mais o vosso Pai no Céu, que dá Seu Espírito bom para quem
pedi-lo.
Mateus 7:6-11

Para que possamos entender devemos entender alguns termos utilizados


no original e que infelizmente foram omitidos nas traduções ocidentais.

Carne Kasher
Dentro das leis da Kashrut (leis dietéticas da Torah) as maiores
proibições tratam justamente de alimentos proteicos, ou seja, de origem
animal, como por exemplo os tipos de carnes vermelhas e a forma que elas
devem ser consumidas, os peixes, frutos do mar e etc.
Hoje, sem dúvida alguma, o alimento kasher mais caro é a própria
carne vermelha, o processo que ela deve passar para ser kasher é um tanto
trabalhoso. Tudo começa na forma do abate do animal, o mashguiach tem
que abater o animal degolando-o, sem que o animal veja a faca, deve-se
esperar até que todo o sangue escorra e então, apenas as carnes de “segunda”
podem ser aproveitadas, pois são partes que possuem uma concentração
menor de sangue. Os cortes são então colocados no sal para que todo o
excesso de sangue seja removido e assim ficam prontas para a venda. Todo
esse processo torna o custo da carne muito elevado, tornando-a assim um
objeto de valor, uma refeição com carne kasher é inevitavelmente uma
refeição de alto custo. Assim como a “carne kasher” é um símbolo de
linguagem que representa a kashrut, a kashrut também pode ser um símbolo
de linguagem que representa a Torah, pois todos que observam as Leis de
Deus irrevogavelmente praticam a lei da kashrut.
Dentro da terminologia rabínica, todos aqueles que praticam qualquer
forma de paganismo ou idolatria são chamados de cães ou cachorros. E
também segundo os rabinos, os idolatras são justamente aqueles que não
seguem ou negam a Torah:

Daqui se deriva que quem nega a Torah, admite a idolatria.


Rashi, Deuteronômio 11:28:1

Se ligarmos os dois pontos, sendo os mandamentos de Deus


representados pela terminologia “carne kasher” e cachorros são os idólatras,
que são aqueles que não seguem a Torah, podemos entender que a afirmação
de Yehoshua é que não se deve ensinar os mandamentos de Deus àqueles que
não buscam segui-los ou acreditam que foram abolidos. Isso é uma verdade,
tomando o meio cristão como exemplo, a aceitação de um ensino que aborda
qualquer tipo de obediência a Lei de Deus é muito mal visto, a pessoa que
ensina tais coisas é acusada de blasfemia, judaizante e legalista, pois se
encontra debaixo da maldição da lei. Para tais pessoas nenhum ensino em
relação a Deus deve ser passado, pois esses cães já estão julgados por si
mesmos.
Assim como a carne kasher é uma representação da kashrut, o porco,
um alimento veementemente proibido pela bíblia, é uma simbologia usada
para representar a impureza. O ensino agora aperta um pouco. Como
qualquer ensino relacionado a Deus é santo, ele não deve de forma alguma
ser passado para pessoas impuras, pessoas que não apenas negam a Torah,
que são os “cães” visto acima, mas também vivem uma vida contrária a ela,
sendo representadas pelo termo “porcos”. Os “porcos” são pessoas que
praticam o mal, a idolatria, a violência, a imoralidade sexual e etc. Para esse
tipo de gente nem devemos desprender nosso tempo com quaisquer ensinos
sobre Deus e Sua Torah, a não ser que essas pessoas estejam realmente
dispostas a mudarem de vida, insistir nessas coisas com os “porcos” é como
dar murro em ponta de faca, irá apenas nos prejudicar.
◆◆◆
SEÇÃO XVIII
VIDA

Nesse tempo disse Yeshua aos seus talmidim: venha pelo portão estreito,
pois o portão da desgraça é largo e profundo e a maioria vai por ele.
Quão estreito é o portão e pesado o caminho que leva à vida e quão
serão os poucos que os encontrarão.
Mateus 7:13-14

Já ouvi muitos líderes religiosos usando essa passagem para


induzirem as pessoas a irem aos seus templos religiosos, pois são esses
lugares que representam esse “caminho estreito” que Yehoshua fala. Muito
da literatura cristã trata esse “caminho estreito” como sendo a própria igreja
ou fé cristã. Também existem outras fontes que alegam que o caminho é o
próprio jesus, as quais tornam a interpretação desse versículo algo muito
místico, quase mágico.
Segundo meu entendimento, essas interpretações não definem bem o que
Yehoshua estava falando. Para tanto, vamos nos focar somente em um ponto
desse ensino, a VIDA, pois se descobrirmos o que seria essa vida, vamos
entender o que seria esse caminho e o que seria esse portão. Mas temos um
probleminha, será essa vida, a qual Yehoshua se referia, a vida eterna ou a
vida nesse mundo? Como isso não é claro nesse versículo, vamos olhar para
ambas, através da Torah e alguns ensinos rabínicos.

A VIDA NA CARNE
O que é encontrar o caminho que leva a verdadeira vida nesse mundo?
Segundo a Torah, é encontrar o propósito pelo qual Deus escolhe alguém.
Claro que nem todo ser humano possui um, pois muitos não passam de
números embaixo dos céus, mas aquele que o tem, no momento em que o
encontra, encontra a vida.
Todo propósito vem com um preço alto a se pagar, por isso Yehoshua usa
palavras como estreito e pesado, pois poucos conseguem suportar servir a
Deus. Só encontrando os planos de Deus nas nossas vidas, será possível
atingirmos o propósito pelo qual estamos aqui, pois isso é o verdadeiro
significado do termo "vida".
Veremos dois casos na Torah que confirma isso e também veremos o que
passaram essas pessoas para chegarem lá, tanto fisicamente quanto
mentalmente. Essa análise será feita através da Gematria conforma relatada
na introdução desse livro.

1)SARAH
‫ויהיו חיי שרה מאה שנה‬
E foram os anos de Sarah cento e vinte e sete
Genesis 23:1a

Essa passagem fala justamente do tempo de VIDA de Sarah. Se pegarmos


a primeira palavra desses versículo, VAICHIU (‫ – )ויהיו‬e foram - e fizermos o
cálculo de seu valor pela Gematria, teremos:

VAICHIU (‫)ויהיו‬
6‫ ו‬+ 10‫ י‬+ 5‫ה‬+10‫ י‬+ 6‫ו‬
=37

Para darmos sentido a esse valor, devemos comparar a passagem acima


com uma outra que fala de um acontecimento na vida de Sarah:

...pode Sarah dar a luz a uma criança as os noventa anos de idade?


Genesis 17:17b

Sarah morreu aos 127 anos, seu filho, Itzhak, nasceu quando ela tinha
noventa, ou seja, Sarah morre 37 anos após o nascimento de seu maior sonho.
O propósito na vida de Sarah não era casar com Abraham, não era sair de Ur
para ir a Canaan, não era expulsar Ishmael de casa, mas sim ter um filho, o
maior plano de Deus em sua vida foi que ela tivesse Itzhak e através dele, se
daria o início de um povo prometido e escolhido por Deus.
Os últimos 37 anos da vida de Sarah foram os anos que ela realmente
viveu, se sentiu viva, entendeu o verdadeiro motivo de estar nessa terra e
conheceu ao Criador na prática, como ela mesmo disse:

Sarah disse: Deus me trouxe sorriso, todos que ouvirem essa história irá
sorrir comigo.
Genesis 21:6

Sarah encontrou seu propósito e por isso se alegrou e viveu de verdade.


2) YAAKOV
‫ויחי יעקב בארץ מצרים‬
E Yaakov viveu dezessete anos na terra do Egito...
Genesis 47:28a

Faremos a mesma coisa que foi feita no exemplo anterior, vamos usar a
primeira palavra desse versículo VAICHI (‫ – )ויחי‬e viveu – para calcular seu
valor na Gematria:

VAICHI (‫)ויחי‬

10‫ י‬+ 8‫ ח‬+ 10‫ י‬+ 6‫ו‬


=34

Novamente, para que esse valor faça algum sentido, é necessário alguns
detalhes sobre a vida de Yaakov. O patriarca tinha um filho preferido, Yosef,
que foi vendido ao Egito quando ele tinha apenas 17 anos. Anos mais tarde,
seus irmãos o reencontram como líder de toda terra do Egito e mudam com
toda sua família para lá, trazendo inclusive seu pai, Yaakov, o qual viveu em
paz no Egito por mais 17 anos.
Yosef viveu junto a seu pai pelos primeiros 17 anos de sua vida, antes de
sua venda e depois por mais 17 anos no Egito, 17+17=34. O propósito da
vida de Yaakov foi justamente ter esse filho, ter Yosef, pois através dele que
o povo hebreu desceu ao Egito para a realização de todo o plano de Deus
conforme relatado em Êxodo.
Foi depois do nascimento de Yosef que Yaakov decide se livrar de todo o
jugo que estava sobre ele na casa de Labão, foi por causa de Yosef que ele
resolve ir a terra prometida e foi por causa de Yosef que o fez sair de lugares
de influência pagã. Yosef foi o verdadeiro propósito na vida de Yaakov e sua
maior alegria.

Depois que Rachel deu a luz a Yosef, Yaakov disse a Laban: Deixe-me
partir para minha terra natal.
Genesis 30:25

Nesse momento começa uma caminhada de um povo que passa pelo


Egito, pelo deserto, pelo Sinai e termina com Josué entrando e tomando a
terra de Israel.

A vida que Deus promete por toda sua palavra não se restringe apenas a
uma vida eterna no Olam Habah, mas por muitas vezes se refere a nossa vida
terrena, no Olam Hazeh. Uma vida de bênçãos, de alegria e de proximidade
ao Criador. Para que tudo isso seja possível, cada um deve descobrir e atingir
o propósito para o qual foi criado. Essa é a verdadeira vida!
O Preço
Chegar ao propósito não foi fácil para Sarah e muito menos para Yakoov.
Sarah viveu anos de sua vida como nômade, por muito tempo não teve terra,
não teve casa e conforme a idade avançava, sofria cada vez mais com sua
esterilidade, pois sabia que engravidar se tornaria cada vez mais difícil.
Já Yakoov, além de ter que fugir de casa, trabalhou para seu tio Laban
por anos a fio. Teve que casar com uma mulher que não amava, ser enganado
diversas vezes, enfrentar seu irmão, lutar com um anjo e ter a noticia da perda
do filho que mais amava.
Os propósitos de Deus exigem um preparo, que muitas vezes são
dolorosos. Esse é o portão estreito e o caminho pesado de Deus que
Yehoshua fala, pois muitos não tem coragem suficiente para enfrentá-los, por
isso os propósitos de Deus são para muito poucas pessoas.

A VIDA ETERNA
Se encararmos esse versículo como se referindo a vida eterna ao invés da
vida na terra, precisaremos das Escrituras para termos uma base sobre o que
seria esse portão e esse caminho.
O conceito vida eterna é algo muito forte no novo testamento, pois é uma
terminologia vastamente usada pelos fariseus na época em que o novo
testamento foi escrito, por isso que essa ideia fazia parte das pregações de
Paulo, dos apóstolos e principalmente de Yehoshua. Por esse motivo, para
entendermos ao que eles se referem quando mencionam o termo vida eterna,
devemos olhar para aquilo no que eles se baseavam. Acredito que nesse caso,
podemos olhar para dois versículos do Tanakh. Após expor cada um deles,
vou trazer comentários rabínicos, talmúdicos e versões aramaicas dos
mesmos que, de certo, faziam parte do conhecimento de Yehoshua e de todos
seus ouvintes.
Portanto, os meus estatutos e os meus juízos guardareis; os quais,
observando-os o homem, viverá por eles. Eu sou o Senhor.
Levítico 18:5

“viverá por eles” se refere a vida eterna. Pois se você pensa que esse
versículo se refere a esta vida, não está o homem fadado a morrer na carne?
Rashi, Levítico 18:5

E você guardará meus estatutos e meus juízos,


os quais, se um homem os segui-los terá a vida através deles e vida
eterna.
Targum Onkelos, Levítico 18:5

E você guardará meus estatutos e as ordens de meus julgamentos, os


quais, se um homem os fizer, sua posição na vida eterna será entre os justos.
Targum Yonatan, Levítico18:5

Rabbi Meir costumava dizer: “como saberemos se quando um gentio que


estuda Torah será comparado com o próprio sumo sacerdote?” De Levítico
18:5, onde diz: “se um homem os fizer, viverá por eles”. Meir diz: “não diz
se um sacerdote, um levita ou um israelita os fizer, o versículo diz se um
homem os fizer”. Se aprende aqui que até mesmo um gentio que estuda a
Torah é equivalente ao sumo sacerdote.
Talmud da Babilônia, Tratado de Sanhedrin 59a

Segundo a Torah, o Talmud, as versões aramaicas e os rabinos, o


seguir a Torah, ou mais do que isso, obedecer a Deus, é o que nos garante na
vida eterna e isso está aberto a todos os homens, judeus ou gentios.
Claro que obediência sem fé não basta, o novo testamento em
diversas passagens é enfático ao relacionar ambos. Hoje existem muitos
rabino que ensinam que independentemente do judeu ter fé ou não, ele deve
seguir os mandamentos, pois isso lhe bastará para entrar na vida eterna. Claro
que não são todos que pensam assim, além do novo testamento, o Tanakh os
comentários rabínicos também corroboram a ideia da fé ligada a obediência
que leva a vida eterna:

Eis que a sua alma está orgulhosa, não é reta nele; mas o justo viverá
pela fé.
Habacuque 2:4

Deus deu a Israel 613 mandamentos, pelos quais se obteria a vida eterna.
Se o homem os observar, viverá por eles. Mas 613 são muitos para lembrar,
o rei David os simplificou de 613 para apenas 11 mandamentos em Salmos
15. Mas 11 ainda são muitos para se lembrar. Então o profeta Isaías os
simplificou de 11 para 6 mandamentos em Isaias 33:13-14. Mas 6 ainda são
muitos para se lembrar. Então em Miquéias 6:8 temos: “1) faça a justiça, 2)
ame a bondade, 3) ande humildemente perante Deus.”. Mas mesmo 3 coisas
são um pouco pesadas. Então Isaías as simplifica mais uma vez, sumarizando
toda a Torah em apenas 2 princípios em Isaías 56:1: “Mantenha a justiça e
faça o correto”. E Então vem Habacuque e simplifica toda a Torah em
apenas um único princípio: “O justo viverá pela fé”.
Talmud da Babilônia, Tratado de Makkot 24a

Ou seja, viver pela fé é a própria sumarização da Torah, das Leis de


Deus e dos caminhos de Deus para um homem que quer segui-Lo. Porém a fé
é algo muito subjetivo, muito pessoal, pois a fé de um indivíduo nunca será
igual ou comparável com seu próximo, por outro lado, os mandamentos,
quando seguidos por um grupo de pessoas, essas pessoas os seguirão de
forma semelhantes, todos se comportando igual perante Deus.
Yehoshua, quando ensina sobre a “vida” no versículo que estamos
estudando, o faz de uma maneira um pouco estranha, algo que só pode ser
percebido no livro original de Mateus em hebraico. Ele começa dizendo:
“VENHA, pelo portão estreito...”. A palavra “venha” está conjugada no
singular, como se ele estivesse falando para uma pessoa apenas, mas ele
termina sua frase da seguinte forma: “...a maioria vai por ele”, se referindo
não mais ao indivíduo, mas sim a um grupo. Ele começa na forma singular e
termina na forma plural. Pode parecer apenas uma maneira de falar, mas na
verdade, essa maneira de expressar algo remota a algo que aparece na Torah,
o qual é expresso da mesma forma:

VEJA, neste dia, eu coloco perante VOCÊS a vida e a morte.


Deuteronômio 30:15

Se fizermos uma conexão através da forma gramatical das palavras de


Yehoshua com essa passagem da Torah, podemos entender que Yehoshua
está se referindo a vida e a morte que foram colocadas por Deus perante os
homens.
Isso também faz uma alusão ao conceito fé e obediência, pois começa no
singular e, assim como a fé é algo singular de cada um, mostra que primeiro a
pessoa precisa crer, ter fé para que então obedeça, pois obediência é algo que
se praticado por todos, todos terão um andar parecido, escolhendo assim a
vida.

VIDA E VIDA
Eu acredito que ambas as interpretações se encaixam aqui, tanto a vida
terrena quanto a vida eterna apresentam os mesmos desafios citados.
Se entendermos as palavras de Yehoshua como a vida nessa terra, o
portão nesse caso seria o propósito de Deus, que representa a lapidação que é
feita com os escolhidos por Ele, os preparando para os planos divinos. O
caminho seria justamente andar nesse propósito, só olharmos para as vidas
dos patriarcas e dos grandes homens do Tanakh, mesmo depois de terem
atingidos seus propósitos, a vida não se tornou fácil, porém, apesar das
dificuldades, a alegria, o prazer e a verdadeira razão da vida superam todas as
dificuldades.
Por outro lado, se essa vida for a vida eterna, o portão seria a fé, o
primeiro passo a ser tomado, algo que, apesar de muito particular, fé no Deus
Verdadeiro é um desafio. Isso pois Deus não é palpável e nem visível, Suas
obras não fazem lógica e Ele gosta de confundir os sábios. O caminho é o
passo a ser dado a seguir, os mandamentos, a Torah, uma vida de obediência
que guia o ser humano a vida eterna.
Muitos entendem que jesus é o caminho, ou o portão, mas essa
interpretação deixaria tudo muito místico, mágico e de difícil acesso.
Yehoshua afirma em outros livros que ele é o caminho, a porta e etc. Essa
alegação não se refere a pessoa dele, mas sim às suas obras e ensinos, esse
tipo de terminologia é muito comum dentro do judaísmo para se referirem a
grandes mestres e sábios, o Talmud possuí inúmeros exemplos a esse
respeito, alguns rabinos são chamados de colunas, em referencia às colunas
do Templo, pois é através dos ensinos deles que a Torah se sustenta.
A meu ver, o que Yehoshua diz aqui é que seguir os seus ensinos será
difícil e pesado, porém é através deles que seus seguidores encontrarão o
propósito nessa vida e no final dela, a vida eterna, através da fé e obediência.

A LETRA HEBRAICA HEI – ‫ה‬


A ideia de caminho estreito que leva a vida e caminho largo que leva a
perdição é um conceito rabínico bem antigo, é possível encontrar menções
com teores parecidos já nos primeiros livros que foram compilados pelos
sábios. Os rabinos ensinam que essa ideia é representada pela letra hebraica
chamada HEI (‫)ה‬, pois a parte de baixo é bem aberta, representando o
caminho largo que leva às coisas ruins, às coisas de baixo. Já na parte
superior, também existe uma abertura, bem mais estreita e menor que a de
baixo, representando o caminho que leva ao Olam Habah. Essa abertura na
letra HEI, além de estreita, é de difícil acesso, pois vai contra a gravidade por
ficar na parte de cima.
As palavras de Yehoshua não causaram surpresa a seus ouvintes, pois
esse conceito já era de comum conhecimento pelos judeus, o que eles
entendem através delas é que seus ensinos e a fé neles, representam o portão
e o caminho que, apesar de pesados e estreitos, eles levam à verdadeira vida,
tanto terrena quanto eterna.
Para finalizar vou deixar duas passagens, uma do livro de Salmos e
uma outra talmúdica, ambas abordam esse tema. O primeiro se refere a vida
na terra, já o segundo, a vida eterna e ambos fazem uma conexão com a
Torah:

Eu nunca vou negar seu preceitos (Torah), pois Você preserva minha
vida através deles.
Salmos 119:93

Mas Ele preparou também o Gehinam para os maus, que é como uma
espada afiada que consome, e no meio dele, Ele criou flocos de fogo e brasas
ardentes para o julgamento dos maus que se rebelaram em vida contra as
doutrinas da Torah. Servir a Torah é melhor que o próprio fruto da árvore
da vida. A Torah é a Palavra de Adonai que, se o homem mantê-la, irá andar
no caminho da vida, que leva a vida eterna
Targum Jonathan Ben Uzziel, Genesis 3
◆◆◆
SEÇÃO XIX
DEVAREI TORAH

Ainda disse a eles: todos que escutam as suas coisas (Devarei Torah) e
as fazem é similar ao homem que constrói a casa em cima da rocha.
A chuva cai sobre ela e o vento bate nela e não cai, pois sua fundação é
na rocha.
E todos que ouvirem “essas coisas” (Eile HaDevarim) e não as fizerem é
similar ao homem que é tolo, que constrói uma casa sobre a areia.
Caem as chuvas e vem a enchente e a casa cai com uma grande queda.
Enquanto Yeshua estava dizendo essas palavras (Devarim), todo o povo
estava impressionado com a sua conduta.
Pois estava pregando perante o povo com grande poder, e não como os
sábios.
Mateus 7:24-29

Temos perante nós palavras muito profundas por parte de Yehoshua.


Existem nesses poucos versículos alguns termos técnicos judaicos que, se os
entendermos, eles poderão esclarecer muitas coisas sobre o que ele está
ensinando. Esses termos são de fáceis traduções, porém seus sentidos só
serão conexos dentro de uma perspectiva judaica e em seu idioma original.
Por três vezes, Yehoshua cita o termo DEVARIM (‫)דברים‬, esse termo
pode ser traduzido como “coisas” ou “palavras”. Se usarmos quaisquer um
desses dois termos para fazermos uma tradução para o português, ambos
farão total sentido, pois teríamos “todos que escutam essas coisas...” ou
“todos que escutam essas palavras...”, tanto uma tradução, quanto a outra são
coerentes. Ao olharmos para as bíblias traduzidas que temos em mãos hoje
em dia, veremos que aparece nelas um desses dois termos, “coisas” ou
“palavras”.
Apesar de uma tradução direta como essa ser válida, ela acaba tirando
muito da essência do significado da palavra DEVARIM. Yehoshua fala que
aquele que escuta essas “coisas” ou “palavras” e as fazem, é como o homem
que constrói a casa sobre a rocha e quem escuta essas “coisas” ou “palavras”
e não as fazem, é como o homem que constrói a casa sobre a areia. Um
ensino muito profundo, mas até certo ponto relativo, pois eu pergunto, o que
são essas “coisas”? O que são essas “palavras”? Alguém pode responder que
essas “coisas” e “palavras” são os ensinos de Yehoshua e posso até concordar
com isso, mas ai pergunto novamente, que ensinos? E entraríamos em um
looping, pois cada resposta geraria um nova pergunta, a não ser que
consigamos chegar na fonte do ensino dele.
DEVARIM significa muito mais do que “coisas” ou “palavras”,
DEVARIM é o nome do último livro da Torah, o livro de Deuteronômio, o
livro que é a repetição de todas as Leis de Deus, o “grande resumo” daquilo
que o Criador quer de seu povo. Talvez, as “coisas” e as “palavras” que
Yehoshua diz que devemos ouvir e fazer são justamente aquelas que estão no
livro de Deuteronômio. Mas para termos certeza, devemos olhar mais
profundamente para alguns detalhes.

PROVA 1
A palavra hebraica para “esses”, “estes” ou “aqueles” é EILE (‫)אלה‬.
Apesar de ser uma simples palavra de uso muito comum, tem algumas coisas
no entorno dela que podem nos levar a uma compreensão nova sobre esse
ensino.
O que vou passar aqui eu aprendi em uma aula de Torah com um rabino
de Tel Aviv, na sinagoga da Binyan Olam, há muitos anos atrás. Essa aula foi
baseada em um livro chamado Sifsei Chachomim Chumash.
Ele ensinou que existem diversos casos onde uma parashah, ou um
versículo, começa com a palavra EILE (‫)אלה‬. Na vasta maioria das vezes, o
versículo que começa com esse termo, está conectado com as Leis de Deus.
São alguns deles:

Esses (‫ )אלה‬são os mandamentos... – Levítico 27:34


Esses (‫ )אלה‬são os mandamentos e as Leis... – Números 36:13
Esses (‫ )אלה‬são os estatutos... – Números 30:17
Essas (‫ )אלה‬são as palavras da aliança... – Deuteronômio 28:69
Esses (‫ )אלה‬são as datas santas... – Levítico 23:4
Essas (‫ )אלה‬são as Leis e as ordenanças... – Deuteronômio 12:1

O termo EILE (‫)אלה‬, na Torah, possui uma associação mística com os


mandamentos e as Leis de Deus, pois toda vez que as Leis são apresentadas
ou reapresentadas na Torah, o termo EILE (‫ )אלה‬as precede.
Agora, quando Yehoshua fala no versículo 26, “todos que ouvirem
essas coisas...”, no original, ele chama “essas coisas” de EILE HaDEVARIM
(‫)אלה דברים‬. Assim como nos versículos mencionados acima, também nos é
apresentado algo que está sendo precedido pela palavra EILE. Através do que
vimos, acredito que agora possamos começar a ligar alguns pontos.
Pelo fato desse HaDEVARIM ser precedido pela palavra EILE,
podemos então definir que a palavra HaDEVARIM usada por Yehoshua
nesse caso, não pode ser traduzida como “coisas” ou “palavras”, pois esse
HaDEVARIM, que vem após o termo EILE (‫)אלה‬, se refere justamente as
Leis, aos mandamentos e as ordenanças de Deus, ou seja, a TORAH.

Não podemos desqualificar o EILE (‫)אלה‬, pois ele procede


Deuteronômio (‫)דברים‬, o qual tem o propósito de repetir a Torah.
Sifsei Chachomim Chumash, Êxodo 21:1

Os próprios sábios do Sifsei Chachomim nos ensinam que não


podemos desqualificar esse termo, por mais ordinário que seja, ele nos revela
muitas coisas místicas. Devemos entender que pequenos detalhes fazem
muita diferença, a sabedoria rabínica que Yehoshua tinha realmente me
impressiona. Mas vamos buscar por mais provas a esse respeito.

PROVA 2
Se estivéssemos em Israel hoje, conversando em hebraico com um
israelense e se quiséssemos dizer “essas coisas” ou “essas palavras”, diríamos
HaDEVARIM HaEILE (‫)הדברים האלה‬.
Interessante que, quando Yehoshua diz “essas coisas” no versículo 26, ele
não diz HaDEVARIM HaEILE (‫)הדברים האלה‬, mas sim EILE HaDEVARIM
(‫)אלה דברים‬, ele inverte a ordem da forma mais usual para dizer “essas
coisas”.
Isso me chamou muito a atenção, pois se olharmos para o livro de
Deuteronômio, justamente aquele chamado de DEVARIM, logo na suas
primeiras palavras, temos algo muito interessante:

Essas são as palavras (‫ )אילה הדברים‬que Moises disse a Israel....


Deuteronômio 1:1

Impressionante! Yehoshua, ao usar o termo EILE HaDEVARIM, está


justamente fazendo uma menção ao livro de Deuteronômio, citando suas
exatas primeiras palavras. Esse livro é a repetição das Leis da Torah e isso
também nos mostra que essas “coisas” e essas “palavras”, que devemos ouvir
e fazer, são justamente as Leis que estão na Torah!
Acredito que agora podemos fazer uma releitura dos versículos acima de
uma forma mais direta:

Ainda disse a eles: todos que escutam as LEIS DA TORAH e as fazem é


similar ao homem que constrói a casa em cima da rocha.
A chuva cai sobre ela e o vento bate nela e não cai, pois sua fundação é
na rocha.
E todos que ouvirem as LEIS DA TORAH e não as fizerem é similar ao
homem que é tolo, que constrói uma casa sobre a areia.
Caem as chuvas e vem a enchente e a casa cai com uma grande queda.
Enquanto Yeshua estava ensinando DEUTERONÔMIO, todo o povo
estava impressionado com a sua conduta.
Pois estava pregando perante o povo com grande poder, e não como os
sábios.
Mateus 7:24-29, autor

Acho que agora fica muito claro quais são as coisas que devemos fazer e
as palavras que devemos ouvir para que possamos construir a casa sobre a
rocha. A única coisa suficientemente sólida, na qual podemos apoiar a nossa
fé e descansar nosso espírito, é apenas a Palavras de Deus e não existe outra
coisa além dela.

ROCHA
A sabedoria construiu sua casa...
Provérbios 9:1

A sabedoria construiu sua casa: isso é a Torah, que ensina a construir e


que construiu todos os mundos.
Midrash Mishlei 9

Eu direi a Adonai, A minha rocha...


Salmos 42:10a

Por todo o livro de Salmos, encontramos declarações que Adonai é a


rocha, a rocha sobre a qual devemos construir nossas casas, nossas vidas,
nossa fé, nossas esperanças e nossos planos. Muitos acham que a rocha é
Yehoshua, ou o Mashiach, ou a Torah, ou a Bíblia, mas a rocha mesmo é
Adonai, Aquele que criou todas as coisas.
A Torah, por sua vez, é o que nos instrui a construir a nossa casa por cima
dessa rocha, ela nos ensina sobre as propriedades da Rocha, como escavá-La,
como estabelecer uma fundação e como deixá-La se tornar a base e suporte
de tudo em nossas vidas. É a Torah que nos dá essa sabedoria, aquele que não
a conhece, nunca poderá construir a casa sobre a rocha, pois só conhece areia.
O ensino de Yehoshua é sobre como devemos colocar tudo que é relativo
a nossas vidas em Adonai, como tudo aquilo que planejamos e sonhamos
deve ser construído sobre a rocha que Ele é e isso só é possível através do
“manual de instruções” que Ele entregou ao seu povo.
◆◆◆
SEÇÃO XX
MORTO ENTERRANDO MORTO

Um de seus talmidim lhe disse, permita-me ir enterrar meu pai.


E lhe disse Yeshua, me siga e os mortos que enterrem aos mortos.
Mateus 8:21-22

Essas curtas palavras de Yeshoshua, se não bem interpretadas, podem


passar uma sensação negativa e contrária a relação familiar estabelecida pela
Torah, principalmente em relação ao pais.
Muitos judeus, que estudam a vida de Yehoshua, usam essa passagem,
dentre muitas outras, para provar como ele foi contra a Torah, contra o
principal princípio que forma a sociedade, que é a família e contra os
mínimos requisitos exigidos de alguém que busca servir ao Deus de Israel.
O grande problema, que impede o entendimento real, é justamente a
resposta que ele dá a esse seu talmid, “que os mortos enterrem aos mortos”.
As palavras que Yehoshua usa nesse caso parecem pouco usuais, porém elas
aparecem na Torah Oral, é um termo estranho em hebraico chamado METIM
METEIHEM (‫ )מתים מתיהם‬e engloba justamente uma mandamento deixado
de lado nos dias atuais.

Quando a carne decompor, os ossos devem ser coletados e colocados em


pequenos ossuários e levados a lugar apropriado. Depois que os ossos forem
levados ao ossuário, então o filho pode sair do luto.
Talmud de Jerusalém, Tratado Moed Katan 1:5

A transferência dos ossos do túmulo a um ossuário era conhecido como


segundo funeral, ou Metim Meteihem, que em uma tradução direta dá uma
ilusão que o próprio morto estive se “re-enterrando”. Foi estabelecido pelos
rabinos que todo esse ritual deveria ser feito pelo primogênito, depois de um
ano do enterro, ele deveria remover os ossos do túmulo e levá-los os à cidade
de Jerusalém ou para o mausoléu pertencente à família. Esse ritual era praxe
no judaísmo do primeiro século. Por falta desse entendimento, principalmente
pelo tradutor original desse texto, a impressão que nos é passada aqui é que
Yehoshua discordava com a obrigação de enterrar os familiares, porém o
verdadeiro problema que ele tinha era em relação a esse costume talmúdico e
com seu verdadeiro significado.
Rabbi Yose dizia que o motivo para tal ritual é porquê, conforme a carne
se decompõe entre o primeiro e o segundo enterro, o morto se torna
justificado pelos seus pecados. Apenas depois do segundo enterro o filho
poderia sair do luto, pois como a carne é pecaminosa e ela já não existia mais,
o pecado sobre o espírito do morto também não existia mais, então ele
poderia levar os ossos “justificados” para junto aos seus ancestrais.
De certo, contrariamente ao que muitos pensam, Yehoshua não estava
incentivando ao jovem quebrar o quinto mandamento e desonrar seu pai, mas
ele era claramente contra o Metim Meteihem, pois dava a impressão que
poderia existir algum tipo de maneira de se receber o perdão dos pecados que
não seja através de arrependimento perante o Deus Criador.
Outro ponto a se levar em consideração a esse respeito é o fato desse
talmid ir se encontrar com Yeshoshua, o que mostra que ele não estava mais
efetivamente de luto. E não só já havia terminado o luto, mas também já
havia um tempo que seu pai havia morrido, em torno de um ano, pois
conforme o determinado pelos rabinos, durante esse um ano de luto, a pessoa
não poderia estar estudando Torah junto a um mestre, nesse caso, com
Yehoshua. Isso prova que a morte de seu pai aconteceu ao menos um ano
antes e o enterro que esse rapaz se referia era levar os ossos do pai ao
mausoléu.
Alguns historiadores afirmam que esse caso aconteceu um pouco antes da
festa de Sukkot e estavam a caminho de Jerusalém para essa celebração, o
que pode ter parecido uma boa oportunidade ao rapaz de levar o ossuário para
lá. Essa ideia de aproveitar as festas para levar o ossuário à cidade santa
aparece em um debate no Talmud, no mesmo tratado citado acima, onde Rav.
Yose e Rav. Meir discutem sobre se há ou não uma proibição em carregar um
ossuário ou cavar uma cova em épocas de festa.
◆◆◆
SEÇÃO XXI
TZITZIT

E eis uma mulher com fluxo abundante de sangue há doze anos e veio por
trás dele e tocou nos Tzitzit de seu Talit.
Ela dizia em seu coração: se eu tocar apenas em seu talit ficarei curada
imediatamente.
E virou sua face e disse a ela: seja forte minha filha, o temor por Adonai,
bendito seja (Baruch hu) te curou. Naquela mesma hora ela foi curada.
Mateus 9:20-22

A CURA DO TZITZIT
O novo testamento, apesar de muitas pessoas não entenderem, deixa
bem claro o quão observante da Torah era Yehoshua. Por este motivo não há
sombras de dúvida que ele vestia seus tzitzit todo o tempo, assim como
ordena a Torah.

E falou o Senhor a Moisés, dizendo: Fala aos filhos de Israel e dize-


lhes que nas bordas das suas vestes façam franjas, pelas suas gerações; e
nas franjas das bordas porão um cordão azul. E nas franjas vos estará, para
que o vejais, e vos lembreis de todos os mandamentos do Senhor, e os façais;
e não seguireis após o vosso coração, nem após os vossos olhos, após os
quais andais adulterando. Para que vos lembreis de todos os meus
mandamentos, e os façais, e santos sejais a vosso Deus. Eu sou o Senhor,
vosso Deus, que vos tirei da terra do Egito, para vos ser por Deus; eu sou o
Senhor, vosso Deus.
Números 15:37-41

Franjas porás nas quatro bordas da tua manta, com que te cobrires.
Deuteronômio 22:12

Segundo a própria Torah, a vestimentas foram criadas e dadas ao homem


devido ao pecado de Adam que, após ter consumido o fruto da Árvore do
Conhecimento do Bem e do Mal, adquiriu consciência da má inclinação que
possuía dentro de si, percebendo assim que certas partes de seu corpo
estavam associados com prazeres físicos. Por esse motivo o Criador decidiu
confeccionar roupas para ele e tal conceito de “se vestir” nunca deixou a
realidade humana. Acredito que seja por esse motivo que a Torah ordena que
tzitzit sejam presos às vestimentas, servindo ambos ao mesmo propósito: Os
tzitzit nos lembram para ficarmos de guarda em relação as nossas más
inclinações e combatê-las através dos mandamentos. Já as vestimentas como
um memorial do preço a ser pago caso não nos atentemos naquilo que Deus
quer de nós, assim como ocorreu com Adam.
O tzitzit faz parte das vestimentas diárias do Povo de Israel, ela sempre
esteve presente nas vestes diárias para que se lembrem constantemente dos
mandamentos do Deus Único. Esse mandamentos possui um simbolismo
único e gera uma aproximação exclusiva com Deus. Uma coisa interessante
em relação ao tzitzit é que um deles é cortado das vestes de uma pessoa que
morre, pois representa o fim de suas obrigações com a Torah. É por esse
motivo que em I Samuel 24, David corta as “orlas” das vestes do rei Shaul,
na verdade, ele corta seu tzitzit, representando a morte de seu reinado.
O tzitzit é uma franja presa nas vestimentas, mas sem fazer parte delas.
São 5 fios de algodão entrelaçados com 8 nós, dando um total de 13
diferentes pontos. Se usarmos a gematria e calcularmos o valor numérico da
palavra tzitzit em hebraico, teremos o valor de 600 e somando ambos (seu
valor numérico mais o número de pontos), teremos o valor de 613. 613 é
justamente o número de mandamentos na Torah, 613 mitzvot. Por isso que
Deus comanda o uso dos tzitzit como lembrança de Seus mandamentos, todos
os 613. O mesmo deve ser afixado nos quatro cantos das vestes ou em um
Talit (manto de oração).
Em Israel do primeiro século, era costume os homens vestirem um túnica
simples chamada haluk, tanto em casa quanto na rua. Quando em lugares
públicos, era costume usarem por cima do haluk uma outra túnica
quadrangular, chamada Talit, que ia desde os ombros até os pés e servia de
proteção climática. Em cada uma das quatro pontas do Talit, eram colocados
os tzitzit em obediência ao mandamento bíblico.
Existe um poder e um segredo espiritual imensurável por trás desse
mandamento, tão forte que Rabi Shimon Bar Yochai diz que aquele que
coloca o tzitzit em suas orações recebe a Shekhinah sobre ele. Tal poder, que
muitos não entendem, era bem conhecido por essa mulher com problemas no
fluxo de sangue. Se analisarmos a Torah, poderemos observar da onde ela
tirou essa fé. Na passagem de Números acima, a palavra em hebraico para
“bordas” é “knafeiah”, a qual também pode ser traduzida como “asas”, tal
termo aparece em todo o Tanakh setenta e seis vezes, somando sete com seis,
teremos novamente 13, que representa os cinco fios e os oito nós. De todas
essas passagens, a mais interessante é a que aparece no livro do profeta
Malaquias:

Mas para vós que temeis o meu nome nascerá o sol da justiça e cura
trará debaixo das suas asas; e saireis e crescereis como os bezerros do
cevadouro.
Malaquias 4:2

O profeta afirma que Mashiach virá trazendo cura embaixo de suas asas,
embaixo de suas “knafeiah”, que nada mais é do que seus tzitzit. Malaquias
afirma que apenas aqueles que temerem ao nome de Adonai (o tetragrama)
receberá a cura, Yehoshua quando percebe o que acontece, vira para a mulher
e diz que o temor dela por Adonai (se referindo ao tetragrama) a tinha curado,
confirmando assim o que o profeta havia dito.
Com esse entendimento em mente, uma passagem em salmos se torna
muito mais clara e coerente:

No lugar secreto do Altíssimo e embaixo de Suas asas.


Salmos 91: 1-4

A cura se deu por um mandamento da Torah, a Palavra Viva do Deus


Vivo, por uma profecia, pelas asas de Deus e pela obediência que Yehoshua
tinha.

A HIPOCRISIA PELO TZITZIT


E todas suas MA´ASSOT, as fazem para serem vistos. Vestem Talitot
caros e Tzitzit longos.
Amam serem os primeiros nas casas festivas e estarem sentados nas
sinagogas nos primeiros lugares.
Mateus 23:5-6

Por vezes ouvi ensinos cristãos sobre a abolição do uso do Tzitzit com
base nessa passagem, reafirmando ainda mais que jesus veio abolir a Lei de
Deus. Talvez tenham razão, talvez o jesus deles realmente tenha abolido a
Torah, porém o verdadeiro Yehoshua, não só veio confirmá-la, mas também
veio cumpri-la, ensiná-la e propagá-la. Portanto, não devemos de forma
alguma olhar para esse versículo como uma abolição do mandamento de
Deus.
Yehoshua, como um bom observante, abraçou o uso do tzitzit e de
maneira alguma condenou seu uso, mas ele denunciou o seu uso como
símbolo do estado espiritual de alguém. O tzitizit só cumpre seu papel se o
coração de quem o sua for puro.
A Torah não estabelece um tamanho fixo para o tzitzit, por esse motivo
existiam aqueles que usavam longas franjas que arrastavam no chão, tal
costume não é só relatado pelas palavras de Yehoshua, mas também nas
fontes judaicas.

Nessa época existiam em Jerusalém três homens ricos: Nakdymon Ben


Gurion, Ben Kalba Savua e Ben Tzitzit HaKesat... ...Ben Tzitzit HaKesat era
chamado por esse nome pois era conhecido por seus longos tzitzit que se
arrastam pelas ruas por sobre seus pés.
Talmud da Babilônia, Tratado Gittin 56a

Claramente Yehoshua não se opunha ao uso do Talit e nem tão pouco do


tzitzit, pois se esse fosse o caso, seria ele um hipócrita. Ele se opunha ao uso
exagerado dos mandamentos de Deus como forma de mostrar uma falsa
santidade perante os homens, muitos judeus usam tzitzit e tefilim enormes
apenas para parecerem mais espiritualmente elevados perante os homens,
mostrando claramente o quão vazios são. Como ele ensinou muitas vezes,
tudo deve ser em secreto, para que o Pai, que vê em secreto, abençoe. Tal
conceito não era apenas para orações, mas para tudo.
Essa “competição” por santidade existe até os dias de hoje, por inúmeras
vezes, durante a festa de Yom Kippur, famílias abastadas reservam por
valores abusivos, as primeiras cadeiras nas sinagogas para a reza de Kol
Nidrei e nem aparecerem na hora. Isso acontece apenas para que seus nomes
sejam colocados sobre as cadeiras para que todos vejam seus poderes
financeiros, impedindo que muitas pessoas, que comparecem a reza, fiquem
mais próximas a tribuna. Yehoshua condenava essas atitudes medíocres por
parte de muitos, e dou total razão a ele.
Uma coisa era certa, Yehoshua usava tzitzit, tefilim e talit e jamais
aboliria esses mandamentos.

O FIO DO TZITZIT
Um fato curioso, o fio usado para a confecção do tzitzit, quando
fabricado, é enrolado em torno de si mesmo 39 vezes. Se compararmos esse
processo com o maior mandamento da Torah, encontraremos uma conexão
um tanto profunda.
O maior mandamento da Torah é concernente a existência de um Único
Deus Vivo e Seu reconhecimento como tanto. Em hebraico, esse Deus que é
Um, é tratado como ADONAI ECHAD (‫)יהוה אחד‬. Se fizermos uma análise
através da gematria dessas palavras, teremos novamente o simbolismo do
tzitzit:

ADONAI ECHAD (‫)יהוה אחד‬


4‫ ד‬+ 8‫ ח‬+ 1‫ א‬+ 5‫ ה‬+ 6‫ ו‬+ 5‫ ה‬+ 10‫י‬
=39
(igual ao número de vezes que um fio de tzitzit é enrolado durante sua confecção)

Vejo nos dias atuais que muitas vertentes cristãs tem buscado o uso do
Talit e do tzitzit de uma forma bem frequente. Infelizmente muitos não
entendem os motivos desse manto e acreditam que o próprio Talit é o “item
santo” ao invés do tzitzit.
Outro grande problema que vejo muito é o “mal uso” dessa ordenança. O
real sentido dela é para que o seu usuário se lembre dos mandamentos, caso a
pessoa não os siga, ou acredita que foram abolidos, qual a função do tzitzit?
Nenhuma, se torna hipocrisia. Mas mesmo assim continuam acreditando que
usá-lo será uma forma de receberem bênçãos de Deus. Isso me incomoda
grandemente, não as pessoas que o usa, mas os líderes que, ao invés de
ensinar o que deveria ser ensinado, ficam alegando que o Talit, o tzitzit ou
qualquer outro “acessório” da Torah é fonte de bênçãos, tornando seu uso
como algo para beneficio próprio e um tanto egoísta.
Não é o Talit, ou o tzitzit, que garante verdadeiras bênçãos, mas sim uma
vida correta perante os olhos do Criador, através de Sua Torah como um todo
e não apenas o que convêm dela. Nada da Torah pode se tornar um talismã de
bênçãos.
◆◆◆
SEÇAO XXII
DISCIPULADO

Eu vim separar o filho de seu pai e a filha de sua mãe.


O inimigo deve ser amado.
O que ama o seu pai e a sua mãe mais do que a mim, não sirvo a ele.
Mateus 10:35-37

Em um determinado momento vemos Yehoshua afirmando que honrar pai


e mãe é um mandamento da Torah e deve ser observado. Porém, agora temos
um caso muito estranho, ele fala que vai separar os filhos dos pais, pois o
amor que os filhos devem ter por ele, deve ser maior que o amor que devem
ter pelo pai e pela mãe.
Essa é uma passagem complicada de ser explicada, a forte contradição
aparente que ela possui em relação a outros ensinos de Yehoshua e com os
valores morais e familiares ensinados pela bíblia, dificulta seu entendimento.
Para trazê-la à luz, um breve costume do rabinato do primeiro século deve ser
entendido.

SEGUIDORES
No judaísmo do primeiro século, muitos rabinos eram itinerantes, iam de
cidade em cidade para ensinar a Torah. Muitas pessoas acabavam seguindo a
esses rabinos, outros se tornavam talmidim e acabavam levando uma vida
conforme a do seu mestre, caminhando, viajando e aprendendo junto a ele.
Esse tipo de ministério era algo comum, padrão entre os que ensinavam a
Torah, e com Yehoshua não foi diferente. A vida de um rabino itinerante na
terra de Israel não era fácil, os rabinos eram proibidos de cobrar por seus
ensinos, não podiam aceitar nenhum tipo de valor monetário como oferta e
deveriam apenas aceitar alimentos e acomodações por aqueles que os
recebessem. Era uma vida dura de total devoção a Deus, muitos alunos
seguiam a grandes rabinos por um determinado período e após terem
adquirido uma bagagem de conhecimento, voltavam a suas cidades e
fundavam escolas de acordo a linha de pensamento de seus antigos mestres,
porém mantinham sua profissão como forma de sustento.

Qualquer um que se beneficiar com ganhos próprios através dos ensino


das palavras da Torah, remove sua vida desse mundo.
Pirkei Avot 4:5

Assim era a vida de Yehoshua, ele era um rabino itinerante que viajava
pela terra de Israel ensinando, curando e pregando. Muitos o ouviam, alguns
largavam suas vidas para segui-lo e seu grupo contava com a caridade dos
locais aos quais ele ensinava. Yehoshua faz alguns comentários a respeito
dessa prática que ele tinha:

E respondeu a ele Yeshua: as raposas tem buracos e os pássaros ninhos,


mas o filho do homem, filho da virgem, não tem lugar para entrar (repousar)
sua cabeça.
Mateus 8:20

Nesse versículo, Yehoshua fala de sua vida como rabino itinerante, onde
não possuía nenhum conforto, nenhuma renda fixa e nenhum tipo de bem
material que não pudesse ser carregado com ele. Era uma vida totalmente
voltada ao estudo e aprendizado da Torah.

Aquele que dá um copo de água fresca a um dos meus menores talmidim,


pelo nome do talmid, Amém (em verdade) eu digo a vocês que não perderão
o mérito.
Mateus 10:42

Nessa outra passagem, Yeshohua se refere a caridade que um rabino


itinerante e seus alunos necessitavam, ele ensinava que aquele que oferecer
qualquer coisa a eles receberão méritos perante o Criador.
Tal estilo define o típico rabino do primeiro século, o típico professor e
mestre de Torah. A vida de um sábio era de ensinos em cidades, vilas,
fazendas, templos e sinagogas. Centenas de rabinos circulavam por todo o
território de Israel na época de Yehoshua, eles não hesitavam em ir à lugares
remotos, de difícil acesso e a distantes grupos na diáspora para obter um novo
seguidor, um novo talmid. Era muito comum os ensinos desses rabinos serem
em casas de famílias, ou no campo, ou embaixo de uma árvore, ou de um
barco caso houvesse muita gente ao redor.

Façam muitos discípulos.


Pirkei Avot 1:1
O discipulado não foi algo criado por Yehoshua, era uma tradição dentre
os rabinos da época. Levantar seguidores era o objetivo maior de qualquer
um que ensinava a Torah. O Talmud conta que Rabbi Gamliel possuía mais
de mil talmidim. Yehoshua também possuía diversos seguidores, fora os doze
já conhecidos, existiam muitos outros que ele chamava pelo caminho e
acabavam lhe seguindo. Após sua morte, só na cidade de Jerusalém, existiam
em torno de cento e vinte discípulos dele. O talmud conta alguns casos onde
aparecem esses discípulos de forma aleatória:

Uma vez estava andando pelo mercado da cidade de Tzippori e cruzei


com um discípulo de Yeshua chamado Yaakov de Kefar-Sekaniah que me
disse....
Talmud da Babilônia, Tratado Avodah Zarah 17a

A vasta maioria das pessoas que seguiam a Yehoshua foram esquecidas


pela história, mas de certo, de alguma forma, suas obras depois da morte de
seu mestre geram frutos até hoje. Esses homens saíram por toda a terra de
Israel ensinando a Torah de acordo com a interpretação de seu mestre,
ensinando que nenhuma Lei da Torah Oral pode estar acima do que está
escrito e de forma alguma a hipocrisia deveria ser aceita no meio do povo.

O PAI, A MÃE E O DISCÍPULO


Voltando ao versículo, para uma melhor compressão é necessário uma
análise no termo usado por Yehoshua. O verbo que traduzi como “separar”,
em hebraico é LEHAFRID (‫)להפריד‬, porém esse mesmo verbo pode também
ser utilizado para denotar “isolar” ou “conduzir em um sentido oposto”.
Quando uma pessoa se tornava um talmid de algum rabino, esse talmid
deveria se afastar de sua família para levar a vida itinerante junto a seu novo
mestre. Quando Yehoshua declara que ele veio separar o filho do pai e a filha
da mãe, ele estava simplesmente dizendo que levaria os filhos consigo, pois
estava fazendo discípulos para si, para segui-lo, para terem uma vida
itinerante com ele e para aprenderem a sua Torah, sendo assim, de uma certa
forma, afastando os filhos fisicamente dos pais pelo tempo em que estiverem
caminhando junto a ele. Simples assim.
Isso conecta com o que foi dito na sequência “aquele que amar mais aos
pais, não serve pra mim”. O verbo “amar” em hebraico é LE’EHOV (‫)לאהוב‬,
o qual também pode ser usado para “preferir”. O que Yehoshua está dizendo
é que aquela pessoa que prefere aos pais à aprender a Torah, é melhor que
fique com os pais, pois não se encaixam com aquilo que Yehoshua define
como discípulo. Ele não se refere a amor nessa passagem num sentido literal,
mas sim a uma escolha que deve ser feita pela pessoa que decide segui-lo,
pois aquele que aceita a seu jugo, não deve olhar para trás, não deve ficar
com o coração e a mente no passado e sim aceitar a vida que escolheu a partir
daquele momento em diante. Ou seja, o filho deve preferir a ficar com
Yehoshua do que ficar com os pais.
Esse ensino casa muito bem com o Talmud:

Assim como é importante honrar pai e mãe, sair de casa para estudar
Torah é ainda mais importante.
O mestre tem precedentes em relação ao pai, pois o pai o trouxe para
esse mundo e o mestre o levará para o mundo vindouro.
Mishnah Bava Metzia 2:11

INIMIGOS
Interessante que no meio de duas passagens conexas aparece uma que
foge um pouco do contexto, o amor ao inimigo. A razão de Mateus tê-la
colocado ai não nos é claro, mas tal ensino em relação aos inimigos é mais
um crítica a mentalidade rabínica e a alguns ensinos da Torah Oral.

Sobre o inimigo, você fica isento do mandamento: “amarás o próximo


como a ti mesmo”.
Chizkuni, Êxodo 23:5:1

Muito ensinam que o amor ao próximo se referia ao próximo “judeu”.


Inimigos, estrangeiros e aqueles que não observavam a Torah, não deveriam
ser amados. Existem diversas menções a esse respeito em várias partes da
literatura judaica antiga e moderna. Porém nem todos pensam e ensinam
dessa forma, assim como Yehoshua, muitos rabinos ensinavam o oposto.
Hillel era um deles, que não fazia distinção de pessoas, ensinando a Torah a
qualquer um que quisesse. Um dos livros um pouco mais moderno do
judaísmo, que aborda diversos tópicos em como levar um vida estilo Tzadik,
fala uma coisa bem interessante:

Um dos sábios disse: “o melhor plano que alguém pode armar contra um
inimigo é lhe dar porções de amor”.
Orchot Tzadikim 6:10

Yehoshua então ensina que busca seguidores, seguidores que dão uma
importância maior à Torah do que à família, ao dinheiro, aos negócios, pois
seguir a Torah de Yehoshua irá separá-lo de todas essas coisas.
Quem um dia decidir seguir esse caminho, que nunca olhe para trás, pois
é uma decisão sem volta. Aquele que assume o jugo da Torah para mais para
frente se arrepender e voltar atrás, não serve para nada, não serve para
Yehoshua, não serve para Deus, não serve para si próprio.
Por último, vimos mais uma crítica de Yehoshua sobre os mandamentos
rabínicos que sustentavam o ódio aos inimigos. Claramente “amar” a um
inimigo é humanamente impossível, mas podemos aplicar esse “amar” como
não buscar vingança, não causar o mal, não buscar a sua destruição e deixá-lo
viver sua vida em paz. Um ensinamento do Tanakh:

Se seu inimigo tiver fome, dê-lhe pão para comer.


Provérbio 25:21
◆◆◆
SEÇÃO XXIII
JUGO

Venha até mim todos os fracos e os que trabalham duramente e eu


ajudarei a vocês a carregarem a injustiça sobre vós.
Tomem meu jugo como vosso jugo e aprendam minha Torah, pois sou
humilde eu sou bom e puro de coração e acharão repouso em vossas almas.
Mateus 11:28-29

Uma interpretação cristã clássica dessa passagem é a comparação que


Yehoshua faz da Torah em relação as leis que ele estava criando, a
comparação do morto judaísmo em relação a vida do cristianismo, a
comparação em uma vida de legalismo em relação a uma vida graça. Porém
todos esses termos do tipo, cristianismo, graça cristã, nova religião, leis de
cristo, eram coisas totalmente fora da sua realidade.
A pergunta é: como a audiência que ouviu essas palavras as interpretou?
O relacionamento entre um aluno e seu rabino começa quando o aluno entra
sob a tutela desse mestre, é então o momento em que ele toma o jugo do
mestre através da obediência, dedicação e filosofia desse rabino. O desejo do
aluno deveria ser sempre se tornar como seu mestre e na mentalidade judaica,
isso é “tomar o jugo” de um rabino.
A palavra jugo traz na mente algo preso no pescoço, pesado e custoso de
carregar sobre os ombros, que apenas serve para trazer mais dificuldades
desnecessárias nessa vida. Porém, na verdade, o jugo nesse caso é um pedaço
de madeira preso em dois bois para que ambos andem no mesmo compasso,
lado a lado, sem que um se desvie para a esquerda e o outro para a direta. O
jugo não tinha uma conotação negativa, muito pelo contrário, o jugo
representava a união do aluno com seu mestre.
Porém as palavras de Yehoshua ainda podem ser um pouco difíceis,
termos como jugo e injustiça nunca trazem um impressão boa e dificilmente
conseguimos associá-las com ensinos positivos.
Existe um livro escrito por alguns judeus chamado Apocrypha, esse é
livro pré-datado a Yehoshua em ao menos 100 anos. Um de seus autores, Ben
Sira, faz alguns comentários que são bem parecidos com esses afirmado por
Yehoshua:
E ponham seus pescoços sob seu jugo (Torah) e deixe sua alma carregar
seu fardo. Ela (Torah) está próxima e leve aos que a procura e aquele que
der sua alma por ela, a achará.
Apocrypha, Ben Sira 51:26

Esse é um livro bem pouco conhecido, mas é uma compilação de estudos


antigos que eram vastamente conhecidos e comuns no judaísmo do primeiro
século, sendo que muitos desses ensinos são seguidos até os dias atuais.
Existe uma forte similaridade entre ambos, tanto o dito por Yehoshua,
assim como o dito por Ben Sira. Ambos usam termos como jugo, fardo,
carregar e Torah, dando uma boa visão da mentalidade rabínica do primeiro
século e como as palavras de Yehoshua era facilmente compreendida entre o
povo que o escutava.
Yehoshua não comparava o fardo de seus ensinos com o fardo dos
ensinos dos fariseus, pois o termo jugo automaticamente representava o
ensino de Torah e Torah é uma. Porém, ele se refere ao custo de ser seu
discípulo, ao estilo de vida que ele tem devido a Torah, as viagens, a
abordagem e a prática sobre as Leis de Deus.
Yehoshua ao dizer que é bom de coração e humilde, ele apresenta a linha
que segue sua interpretação de Torah, principalmente em referência aos
mandamentos “homem x homem”. Esse tipo de declaração é muito
importante, pois dá um orientação ao aluno qual seria, mais ou menos, a
forma de interpretação da Torah. Temos dois muito bons exemplos a esse
respeito, Rabbi Hillel e Rabbi Shammai, um era paciente e amoroso, portanto
ensinava uma lei leniente, já o outro, temperamental, o que resultava em um
ensino mais intolerante. Yehoshua aqui revela como é a sua aproximação à
Torah, o que muito se assemelha a Rabbi Hillel.
Assim como outros rabinos contemporâneos, Yehoshua deixa claro que
segui-lo é um jugo, mesmo que leve, não deixa de ser um jugo. A vida do
talmid que resolver aprender Torah com ele, será uma vida com grandes
sacrifícios e rigorosas regras. Tal estilo de vida é sempre caracterizado por
uma extrema dedicação aos deveres e ao mestre.
Com essas palavras, Yehoshua faz um chamado a novos seguidores. A
Torah não é um jugo, mas o seu estudo sim, pois estudar Torah exige muita
dedicação, porém segundo Yehoshua, estudar com ele será tão fantástico que
os alunos nem iriam perceber o peso do jugo que esse estudo traria.
Jugo da Torah
Uma análise sobre os mandamentos da Torah pode nos dar a impressão
da Torah ser um jugo. Isso é compreensível e até um certo ponto uma
realidade, pois qualquer regra ou lei que demanda de alguém algum tipo de
mudança ou um estilo comportamental diferente do habitual é um fardo que
deve ser lidado pela pessoa. Porém, por outro lado, as leis só são penosas
quando ela aponta alguma falha no caráter do ser humano, como por exemplo
a lei seca, para alguém que não tem o costume de beber, ela não será um
problema, não será um jugo, será algo que já faz parte do instinto e estilo
comportamental da pessoa, mas se beber for um hábito corriqueiro, ai sim,
seguir essa lei se torna um jugo, pois ela mostra uma falha comportamental
que deve ser mudada.
Quando algum mandamento da Torah se torna um jugo, isso mostra que
existe uma falha na vida dessa pessoa. Usar a Torah para revelar essas falhas
é tirar o ser humano da sua zona de conforto. Quando a lei de Deus se torna
um jugo, é um bom sinal, pois mostra que Deus está se revelando e
mostrando o que ele quer de nós, que ele se preocupa e que as portas do céu
ainda estão abertas.
O ponto negativo é que homem nenhum gosta disso, muitos líderes
religiosos, ao invés de ensinarem a verdade, oferecem uma fé que e encaixa
na zona de conforto de todos, para tanto, a anulação da Torah se faz
necessária.
Qualquer líder que ofereça uma verdade que ao invés de confrontar,
apenas conforta, seus conceitos devem ser revistos, pois como Yehoshua
disse, existe um jugo ao segui-lo que ele disse ser leve, mas o que pode ser
leve para ele, pode ser pesado para nós. A naturalidade de seguir a Torah por
cada um que serve ao Deus de Israel é a verdadeira função do Espírito Santo.

Eu colocarei meu Espírito dentro de ti. E ele fará com que você siga às
minhas Leis e fielmente observe meus mandamentos.
Ezequiel 36:27
◆◆◆
SEÇÃO XIV
SHABBAT

Neste tempo atravessou Yeshua no meio dos grãos em um dia de Shabbat


e seus talmidim estavam famintos e começaram a arrancar os grãos e a
debulhar os grãos em suas mãos e comeram-nos.
E viram os fariseus e disseram a ele: eis que seus talmidim fazem coisas
que não poderiam fazer no dia de Shabbat.
E respondeu a eles Yeshua: não leram o que fez David quando teve fome
com seus homens?
Na casa de Elohim comeram o Lechem Bela`az, que em língua
estrangeira é Paan Sagrah, e não poderiam comer exceto os sacerdotes
apenas.
E também na Torah não leram que os sacerdotes do templo violam os
Shabbatot e eles ficam sem ter pecado?
Amem (em verdade) eu digo a vocês que o Templo é maior do que isso.
Se vocês soubessem o que é isso: quero graça (chessed) e não sacrifício,
não teriam convencido aos inocentes.
Que o filho do homem é senhor do Shabbat.
Mateus 12:1-8

Falar do Shabbat talvez seja um dos temas mais difíceis sobre tudo que
Yehoshua passou e ensinou, existem quase infinitas halachot (leis judaicas)
em relação ao permitido e proibido no Shabbat que um simples ensino de
Yehoshua sobre esse dia vai abordar diversos comentários da Mishnah, tanto
positivamente quanto negativamente.

NO INÍCIO HAVIA O SHABBAT


Mas no sétimo dia é o Shabbat de Adonai seu Elohim; você não deve
fazer nenhum trabalho, você, seu filho ou filha, seu escravo ou escrava, ou
seus animais, ou o estrangeiro que estiver com vocês em suas propriedades.
Êxodo 20:10

O livro de Genesis relata que Deus criou o mundo em seis dias e


descansou no sétimo, por isso o significado literal da palavra Shabbat é “ele
descansou”. A etiologia do Shabbat é dada nos dois primeiros capítulos do
livro de Genesis, apesar de não aparecer o nome propriamente dito. O status
especial desse dia, assim como seu nome, Shabbat, foi revelado ao povo
hebreu durante o episódio do Manah, onde Deus dava provisão diária durante
cinco dias e no sexto a provisão vinha dobrada. De acordo com o livro de
Êxodo, o trabalho não deveria ser realizado durante o Shabbat para que
fossem dado descanso aos trabalhadores, escravos e animais. Quando Deus
ordenou a construção do tabernáculo, a primeira ordem dada foi justamente
referente ao trabalho que não deveria ser realizado nesse dia, mostrando a
extrema importância que esse dia tem para o Criador.
A instrução sobre sua observância veio depois que Deus tirou o Povo de
Israel do Egito no ano 2448, Ele ensinou a eles sobre o Shabbat: trabalhe por
seis dias e descanse no sétimo. O Shabbat é também um dos dez
mandamentos que Deus transmitiu no Sinai algumas semanas depois. Por
isso, o Shabbat comemora tanto a criação, um Deus Criador, e a intervenção
divina em nossas vidas terrenas. Porém a Torah é muito sucinta em relação a
observância do Shabbat, apenas proíbe o trabalho. Para que fosse possível
trazer essa observância para os dias modernos, o rabinato criou inúmeras
regras baseadas em algumas passagens da Torah, depois vieram outros e
criaram mais regras baseadas nas primeiras regras e assim por diante.
A essência bíblica da observância do Shabbat não é de uma observância
restrita, mas sim um dia de grande alegria muito esperado por toda a semana,
um dia para que toda as preocupações da vida sejam colocadas de lado e de
devoção às coisas realmente importantes, como a família, os amigos, oração e
gozo.

Esse dia todo deverá ser devoto para as coisas espirituais. Isso envolve o
estudo da Torah, o ensino da Torah, a realização dos mandamentos
associados e o aprecio da natureza. Esse dia que no qual, ao invés de servir
a alguém, pode-se se concentrar em servir ao Mestre, o provedor da vida e
da inspiração espiritual.
Sforno, Êxodo 20:10

O Shabbat Ortodoxo
A forma como o shabbat é observado nos dias atuais é conforme
estipulado pela halachah judaica. Pelo fato da Torah apenas proibir o
trabalho durante esse dia sem especificar o que seriam esses trabalhos, os
sábios tiveram que buscar um entendimento sobre o que realmente abordaria
essa restrição dada por Deus na Torah e assim fizeram uma levantamento do
trabalho que ocorria na época da entrega da Torah, tal se focava justamente
na construção do Mishkan (tabernáculo) e todas as tarefas relacionadas a sua
manutenção. Segundo os sábios existem trinta e nove proibições na Torah em
relação ao Shabbat:

1- Arar
-- Cavar a terra para plantio;

2- Semear
-- Estimular crescimento de plantas;

3- Colher
-- Retirar uma planta do local que cresceu;

4- Agrupar produtos de colheita


-- Ajuntar qualquer produto proveniente de trabalho;

5- Debulhar
-- Separar a parte consumível de um produto da terra;

6- Dispersar o grão
-- Qualquer grão colocado na terra para crescimento;

7- Separar
-- Separar alimentos consumíveis dos não consumíveis;

8- Moer
-- Desfazer algo grande em pedaços pequenos;

9- Peneirar
-- Separar alimento consumível por meio de peneiração;

10- Fazer massa


-- Formar massa través da mistura de ingredientes;

11- Cozinhar, assar ou fritar


-- Colocar alimento sobre fonte de calor;

12- Tosquiar
-- Aparar pelos, humano ou animal;

13- Lavar
-- Usar água para tornar tecido mais limpo;

14- Desembaraçar lã
-- Trabalho de tornar tecido liso;

15- Tingir
-- Alterar coloração;

16- Fiar
-- Esticar ou enrolar lã ou tecido;

17- Esticar o fio


-- Esticar fio para usá-lo com fins de tecê-lo;

18- Passar fio entre dois anéis


-- Processo realizado ao tear tecido;

19- Tecer
-- Entrelaçamento de fios para produção de tecidos;

20- Desfazer fios


-- Retornar o tecido a sua forma original;

21- Desatar
-- Desfazer algum tipo de nó que seria proibido fazer no Shabbat;

22- Atar
-- Dar nó do tipo “nó cego”;

23- Costurar
-- União de tecidos;
24- Rasgar
-- Separar o tecido em duas partes;

25- Caçar
-- Matar ou aprisionar algum animal;

26- Abater
-- Tirar vida de um animal, incluindo insetos;

27- Pelar o couro


-- Remover pele de animal morto;

28- Curtir o couro;


-- Preparo do couro;

29- Alisar o couro


-- Remover imperfeições do couro;

30- Demarcar o couro


-- Preparo para corte;

31- Cortar
-- Apenas se o corte realizado seguir uma medida pré-estipulada;

32- Escrever
-- Esculpir letras;

33- Apagar
-- Apagar letras esculpidas;

34- Construir
-- Qualquer coisa que se monte;

35- Destruir
-- Demolir qualquer coisa construída;

36- Acender fogo


-- Aumentar, prolongar ou propagar a chama;
37- Apagar fogo
-- Diminuir a chama;

38- Terminar manufatura


-- Finalização de qualquer obra não terminada;

39- Transportar de propriedade particular para pública


-- Carregar qualquer objeto de casa para fora, vice e versa também se
aplica;

A partir dessas trinta e nove proibições, os sábios e os rabinos começaram


a desenvolver cercas em volta dessas leis, as quais, com o passar do tempo,
foram multiplicando as proibições relacionadas ao Shabbat, chegando ao
ponto de tornar a observância do Shabbat algo penoso e custoso. O dia criado
para servir ao homem começou a exigir tanto dele que, aquele que o observa
segundo a halachah judaica, acaba se tornando um escravo desse dia,
justamente pela quantidade obscena de leis humanas criadas pelos antigos.
Existe um tratado no Talmud da Babilônia chamado Tratado de Shabbat,
o qual é focado apenas nas leis para a observância desse dia, são séculos e
séculos de debates rabínicos sobre essas trinta e nove leis da Torah que,
devido a interpretação pessoal de cada um, acabaram gerando leis
intermináveis.
Infelizmente, muitas pessoas nos dias de hoje acreditam que a
observância segundo o determinado pela Torah é aquela vista no
comportamento dos judeus ortodoxos, o que não é verdade. O Shabbat deve
ser um dia de prazer e não um dia para seguir aquilo que foi estipulado por
homens. A teologia cristã, por um fraco entendimento disso e uma forte
necessidade de controle, afirma que Yehoshua aboliu o Shabbat ao alegar que
o filho do homem é o senhor do Shabbat.
Um dos versículos usado como base é o que encontramos em Marcos:

E disse-lhes: O Shabbat foi feito por causa do homem, e não o homem


por causa do Shabbat.
Marcos 2:27

Uma afirmação similar é feita por Paulo, vamos comparar ambas:


Porque também o homem não foi criado por causa da mulher, mas a
mulher por causa do homem.
1 Coríntios 11:9

Quem acredita na abolição do Shabbat usando essa passagem como base,


assim como algumas outras, ao lermos Paulo em sua carta aos Coríntios, o
qual faz uma alegação de uma forma muito semelhante ao ensino de
Yehoshua, também deveria acreditar na abolição da importância da mulher, o
que seria algo absurdo.
Essa afirmação que Yehoshua faz já se encontra no Talmud:

Rabbi Yonatan ben Yosef diz que está escrito: “pois é sagrado para
você”(Êxodo 31:14). Isso mostra que o Shabbat foi dado em suas mãos e não
você nas mãos do Shabbat para que assim não morra nas mãos dele.
Talmud da Babilônia, Tratado Yoma 85b

Yehoshua, nem seus talmidim, de nenhuma forma aboliu o Shabbat,


assim como não aboliu ou descumpriu um único mandamento da Torah. A
abolição do Shabbat foi obra da igreja, a abolição da Torah foi feita por um
falso jesus romano vastamente adorado pela religião formada em Roma.

Fariseus e Fariseus
Infelizmente a narrativa neo-testamentária trata os fariseus como um
grupo único e homogêneo. Devemos manter sempre em mente que o fariseu é
caracterizado pela qual escola farisaica ele segue e dentro do farisaísmo,
assim como do ortodoxismo moderno, existem inúmeras linhas de
pensamento e doutrinas, por esse motivo, podem existir, como já existiam na
época de Yehoshua, fariseus de pensamentos e crenças muito diversas. Esse é
o principal fato que levou a existência de tantos debates em relação a
determinadas leis da Torah no Talmud.
Yehoshua era da escola Beit Hillel. Rabbi Hillel era conhecido pela
sua paciência e ensino de uma lei coerente com o dia a dia da sociedade
israelense. Outra escola muito famosa de sua época é Beit Shammai, a qual
era muito mais dura na aplicação da lei, ambos Rav Shammai e Rav Hillel
possuíam uma mentalidade bem oposta e discordavam sobre quase todas as
formas de observância da Torah.
A sensibilidade que Hillel tinha em relação a vida humana era
realmente sem igual, do que adianta seguir aos mandamentos, que
supostamente deveriam trazer a vida, as custas da vida do homem?
Realmente não faz sentido. Shammai já dizia o contrário, para ele a
observância da lei está acima de quaisquer condições.

Rabbi Aha disse em nome de Rabbi Akiva: os mandamentos foram dados


a Israel para que ele possa viver por eles, como está escrito: “O qual deve o
homem observar para que viva por eles” – ele deve se manter vivo devido a
eles e não morrer por causa deles. Nada precede a vida, salvo idolatria,
pecados sexuais e assassinato.
Tosefta Shabbat 16:14

Rabbi Akiva esclarece nesse texto aquilo que todo judeu sabe muito bem,
a Torah é vida e não morte. Esse versículo mencionado nessa parte do
Talmud se encontra em Levítico 18:5 e revela a ligação forte que os
mandamentos de Deus tem com a manutenção da vida na terra e além.
Segundo os sábios, apenas três pecados devem ser evitados a todo custo,
inclusive ao custo da própria vida, que são a idolatra, imoralidade sexual e
assassinato, nesses casos, é melhor a morte.
Existem outros que concordam com a interpretação dada por Yehoshua,
como vemos a seguir:

Rabbi Yosei, filho de Rabbi Yehudah, diz: “Mas observem meus


Shabbatot” (Êxodo 31:13). Alguém pode achar que isso se aplica a todos sob
quaisquer circunstâncias, porém, o versículo afirma “mas”, um termo que
restringe e qualifica. Isso mostra que existem circunstâncias que deve-se
observar o Shabbat e circunstâncias onde pode-se quebrar o Shabbat.
Talmud da Babilônia, Tratado Yoma 85b

OS GRÃOS DE SHABBAT
Mateus continua seu relato contando sobre Yehoshua passando
próximo a um campo de grãos em um Shabbat e de uma forma inesperada
ocorre um certo mal-estar entre Yehoshua e algum fariseu sobre o que é
permitido e proibido fazer nesse dia.
Devemos ter em mente que a atitude que os talmidim tiveram está
completamente de acordo com os mandamentos da Torah, o grande problema
foi justamente o dia que tal fato ocorreu:
Quando você entrar em um campo de grãos de outro homem, você pode
arrancar com as mãos; mas você não pode usar ferramentas nos grãos de
seu vizinho.
Deuteronômio 23:26

É interessante como Mateus deixa claro que os grãos foram


arrancados e não cortados e então debulhados com as mãos, isso prova uma
observância a Torah referente a pequenos detalhes que poucos conhecem.
Outro ponto sensível dessa permissão dada pela Torah é que é uma permissão
que não cita o Shabbat, ou seja, a permissão fica aberta a qualquer dia.
Muitas escolas, seguindo as trinta e nove proibições rabínicas do
Shabbat, proíbem veementemente qualquer tipo de colheita nesse dia, porém,
conforme alguns rabinos, a Torah foi dada para a manutenção da vida e de
forma nenhuma os mandamentos podem privá-la de alguém que os segue.
Portanto, qualquer mandamento pode ser quebrado se caso a vida ou a saúde
estiver em jogo, a não ser os mandamentos de idolatria, assassinato ou
imoralidade sexual, qualquer outro não pode estar acima da manutenção da
vida.
Como não sabemos o estado em que se encontravam e pelo fato de
terem consumidos grãos crus, é bem provável que a fome estava muito
grande, ao ponto de realmente precisarem de algum alimento, já que o
ministério de Yehoshua era mantido por doações daqueles que o ouviam e
por isso o acesso a alimentos poderia ser algo pontual por vezes. Por esse
fato, eu acredito que o consumo dos grãos pelos seus talmidim foram
justificados com esse princípio da manutenção da saúde e da vida. O seguinte
comentário aborda essas condições:

Rabbi Mathias ben Harash diz: “se uma pessoa está com dor de
garganta, é permitido colocar remédios em sua boca em um Shabbat, pois a
doença pode colocar sua vida em risco e tudo que colocar a vida em perigo,
supera a observância do Shabbat”.
Mishnah Yoma 8:6

Acredito estar bem claro que o valor da vida, seja o risco de uma
doença ou até mesmo da fome, está acima da observância do Shabbat para
muitos rabinos. Essa atitude por parte de Yehoshua é compreensível, já que
essa forma de pensar provinha justamente da escola na qual ele foi formado:
Beit Shammai diz: Aquele que colhe profana o Shabbat, Beit Hillel diz:
aquele que colhe para si mesmo não profana o Shabbat.
Talmud da Babilônia, Tratado Shabbat 135b

Claramente o que acontece nessa passagem é justamente um choque


entre essas escolas. É muito difícil saber qual era a situação dos talmidim de
Yehoshua nesse momento, mas para que alguém colha algum grão cru e o
coma, de certo estava com muita fome. Era muito provável que esse fariseu
que faz a abordagem provinha de alguma escola contrária a escola farisaica
de Nazaré, já que o mesmo não chega nem a questionar o estado e o motivo
que os levaram a colher os grãos.
Yehoshua apenas observou o Shabbat de acordo com aquilo que era
ensinado na escola na qual ele foi educado e usando sua autoridade de rabino
para confirmar esse entendimento, não houve quebra da observância e nem
abolição.
Infelizmente o que observamos hoje em dia são muitos cristãos que,
além de não observarem o Shabbat, abominam quem o observa. Alguns
dizem que foi abolido, outros que Deus se aborrece no sábado, outros ainda
alegam que isso é escravidão, sem olharem para si mesmos quando prestam
culto aos domingos, dia de um deus pagão.

DAVID, OS KOHANIM E O SHABBAT


Dentro desde confronto, os talmidim de Yehoshua são acusados de
quebrarem a observância do Shabbat. Para responder a fortes acusações,
Yehoshua usa da fonte de tudo, as Escrituras. De uma maneira muito
rabínica, ele rebate uma afronta com uma pergunta, sabendo muito bem que
os fariseus que o acusam sabiam sobre o que ele falava.
Se prestarmos atenção nos dois pontos que Yehoshua usa para afrontar os
fariseus, teremos todas as repostas do que aconteceu naquele momento, o
primeiro é sobre David comer o pão sagrado e o segundo sobre os sacerdotes
quebrando a observância.

O sacerdote respondeu a Davi: eu não tenho pão comum em mãos;


apenas pão consagrado reservado para os jovens que se abstiveram-se de
mulheres.
Em resposta ao sacerdote, David disse: eu lhe garanto que mulheres
foram mantidas distantes de nós, como sempre. Sempre quando vou em
missão, mesmo que a jornada seja uma comum, os vasos dos homens jovens
se mantêm consagrados; para que comida consagrada possa ser colocada
nesses vasos.
1 Samuel 21:5-6

E o pão, uma vez removido da mesa, e queimado o incenso, se torna


comum, pois é removido dele a proibição do sacrilégio assim que se tornar
permitido ao sacerdote
Rashi, 1 Samuel 21:6

David recebe uma ordem do rei Shaul e parte em missão com alguns
homens, até que em um determinado momento ele chega a Nob, ao sacerdote
Ahimelech e solicita a ele alguns pães para ele e seus homens. O sacerdote
diz que não possuía pão comum, apenas o pão consagrado de acordo com
Levítico:

Ele (sacerdote) deve arrumá-los (pães) perante Adonai regularmente


todo dia de Shabbat, esse é um cometimento para todo o sempre na parte dos
Israelenses.
Levítico 24:8

Era claro que o pão que ficava em cima do propiciatório não era para
consumo, ele devia ficar ali representando um sacrifício a Adonai, porém
algo acontece, algo muito sério, que se torna até mais importante que o
próprio mandamento do livro de Levítico, algo que só vemos em poucos
lugares, como na tradução do Tanakh chamada Targum Yohanan do livro de
1 Samuel:

O que há embaixo de suas mãos, cinco pedaços de pão? Dê os a mim,


pois temos fome – ou que estiver disponível.
Targum Yonahan, Alef Shmuel 21:4

O que temos aqui é a quebra de uma ordenança de extrema importância


perante Adonai devido a manutenção da vida e da saúde de David e de seus
homens, pois possuíam fome. Quando Yehoshua aborda esse tema, os
fariseus de certo entenderam de imediato a mensagem que o ocorrido se deu
por causa da fome de seus talmidim.
O segundo ponto é justamente esse pão ser preparado e organizado em
um Shabbat, ou seja, de uma forma indireta, Yehoshua alega que se os
sacerdotes podem fazer tais coisas é porquê foram autorizadas por Adonai e
se Adonai autoriza, quem são os rabinos para proibirem? Yehoshua usou de
exceções em relação a Torah Oral por diversas vezes, indo de encontro com
os ensinos religiosos de homens e nunca em relação a Torah Escrita.
Ele aborda justamente os dois pontos até aqui expostos, a manutenção da
vida como o principal motivo da Torah e o ataque às halachot rabínicas que
tornavam o Shabbat um peso.

SACRIFÍCIO
Eu quero graça (chessed), não sacrifício; Obediência a Deus, ao invés de
ofertas queimadas.
Oséias 6:6

Porque tenho desejado bondade (chessed) e não sacrifício, e o


conhecimento de Deus é grande. É possível delinear o ato de bondade
(chessed) e os pensamentos que surgem para expiar o pensamento. Aqueles
que não praticam bondade (chessed) não conhecem a Adonai, mas se fizerem
bondade (chessed) verão as bondades (chessed) de Adonai.
Sefer Oshea de Chomat Anakh

Não tem como entendermos essa citação sem antes conceituar o termo
chessed, o qual é o ponto chave do versículo citado por Yehoshua. Hoje
conhecemos o CHESSED como “graça” e devemos olhar para a real
definição desse termo.

GRAÇA
Esse é um tema muito delicado, mas de vital importância, pois é a má
compreensão da graça que afasta muitos daqueles que buscam a Deus de
Seus verdadeiros caminhos. A graça na vida de muitos cristãos serve de
muleta e de desculpa, pois torna a fé e o servir a Deus tudo muito relativo e
conveniente.
Um claro exemplo disso é o famoso “sentir no coração”, hoje muitos
pensam que servir a Deus é seguir ao que vem no coração, que tudo que Deus
quer de alguém vem através do “sentir no coração”, deixando uma margem
enorme para justificativas quando não se quer servir ao Criador.
Entenda, creio piamente e tenho plena certeza que Deus fala e se revela
de diversas formas, uma delas é o sentimento que vem em nossos corações,
porém não podemos definir esse meio como o único ou principal meio
através do qual Deus fala conosco, assim como também não podemos definir
a Torah como o único meio que Deus fala conosco. A diferença entre a
Palavra de Deus e os sentimentos, é a relatividade que ambos apresentam. A
Torah é o método claro de obediência a Deus, enquanto o sentimento, apesar
de muito válido, pode ser algumas vezes um tanto sombrio, pois tal
percepção requer um nível espiritual avançado, o qual é obtido através da
obediência e proximidade a Deus.
A graça, ao contrário do que muitos acreditam, não foi algo inventado
pela igreja, nem tão pouco algo inventado por Yehoshua, mas é um conceito
antiquíssimo que se encontra na própria Torah. Vamos abordar as principais
diferenças da graça cristã e da graça bíblica.

A graça cristã
Basicamente, o cristianismo define a graça de Deus de uma forma muito
simples, é receber algo que não merecemos. É a forma que Deus mostra seu
amor conosco. Quando merecíamos castigo por causa de nossos pecados,
Deus envia a jesus para pagar o preço e nos oferecer salvação, para que
através dele tenhamos a vida eterna.
No cristianismo a graça é um dom gratuito de Deus ao homem, é o
encontro que transforma e restaura o ser humano, através dela, Deus torna o
homem seu filho adotivo. A graça, por ser gratuita, ninguém a recebe por
mérito.
A graça toma a vida do cristão e o torna apto a salvação a partir do
momento em que o indivíduo começa a fazer parte dessa religião e creia em
determinados acontecimentos da forma como são relatados pela teologia
cristã.
Segundo a teoria da dispensação, após a morte de jesus, teve-se a
abolição da lei e o fim da Torah, e então, a graça toma seu lugar. As leis de
Deus que faziam o povo de “escravo”, deu espaço a uma graça que faz com
que aquele que crê em jesus tenha liberdade, salvação e vida eterna que só
vem através da sua inclusão no cristianismo e na fé no jesus (o que é muito
relativo).
Tal teoria é um pouco problemática, primeiro pelo que o próprio
Yehoshua declarou em Mateus 5, dizendo que não veio abolir a Lei, mas
cumpri-La e mesmo que os céus e a terra passem, nada da Lei seria abolida.
Segundo, o Deus de Israel não é um deus que muda de ideia, não é um deus
que faz algo para desfazer depois, Suas palavras e Leis são eternas. Terceiro,
para alguém abolir uma lei, esse alguém tem que ser maior do que aquele que
criou as leis e como ninguém é maior do que Deus, ninguém pode aboli-las.
Quarto, se a graça depende da fé e a fé sem obras é morta (i.e. Torah), então,
sem a Lei de Deus é impossível atingir a graça.
A graça é um ótimo bode expiatório, pois ela serve de desculpa para
facilitar a vida de todos que se baseiam exclusivamente nela. Imagine uma
igreja que queira se expandir ensinando as Leis de Deus? Qual a
probabilidade de uma igreja dessa crescer? Baixíssima, pois o Deus
verdadeiro é para poucos. O que observo hoje são pessoas atrás de um deus
pelos favores que ele pode fazer, quanto mais fácil e menos se exige em uma
igreja, mais ela cresce, quanto mais longe da Palavra de Deus e mais envolto
de coisas místicas e relativas, como a graça cristã, mais a igreja enche.
O caminho é estreito e a porta pequena. De certo, a maioria das pessoas,
mesmo as que servem a Deus, não são de Deus. Conhecem a Deus, mas Deus
não as conhece, por isso, quando uma mudança de vida, de hábitos e de
costumes para seguir a Palavra de Deus são exigidos, elas correm, alegando
que tais coisas foram abolidas, ou são malditas ou em alguns casos, que é o
próprio demônio ensinando tais ideias.

A graça bíblica
Contrariando o que muitos cristãos pensam, ao acreditarem que a graça
foi algo que veio com jesus, a Torah já trazia esse conceito há muitos anos
antes:

Então orou: SENHOR, Deus do meu senhor Abraham, dá-me neste dia
bom êxito e seja bondoso (chessed) com o meu senhor Abraham.
Genesis 24:12

Faze resplandecer o teu rosto sobre o teu servo; salva-me por tuas
misericórdias (chessed).
Salmos 31:16

A palavra em hebraico para graça é CHESSED (‫)חסד‬. Se observarmos


essas duas passagens, uma da Torah e outra em Salmos, veremos que o termo
graça aparece nas duas, porém em suas respectivas traduções, temos outros
termos, bondade e misericórdia.
Yehoshua não era um teólogo cristão, mas sim, um judeu ortodoxo,
extremo conhecedor da Torah e do Talmud, por isso, vamos olhar em mais
fontes nas quais faziam parte da base da educação dele.

Rav Ben Iehuda em nome de Rav Pinchas diz: são 613 mitzvot
(mandamentos) de Hashem, sendo seus santos mandamentos basicamente
duas leis. 365 são negativos, que realizando-os, estaremos em pecado
perante Aquele que É, Bendito Seja, e assim necessitaremos de sua
CHESSED (Misericórdia).
Outras 257 mitzvot (mandamentos) são positivos, que realizando-os,
teremos sua CHESSED (bondade), onde receberemos o favor Daquele que É,
Bendito Seja, para que vivamos a glória de Adonai sobre a Terra.
Talmud da Babilônia, tratado de Brakhot 2b

Segundo os sábios, o Talmud, a Torah e o Tanakh, a graça pode ser


entendida como duas coisas, a bondade de Deus e a misericórdia de Deus,
ambas são atributos gratuitos de Deus e de certo, homem nenhum os merece.
Ao mesmo tempo que a palavra CHESSED em hebraico se associa a duas
coisas distintas, elas acabam sendo também próximas, pois são resultados de
obediência e desobediência. Quando realizamos um mandamento positivo da
Torah, aqueles que Deus comanda que façamos, então receberemos o
CHESSED (bondade) de Deus em nossas vidas. Se por outro lado,
realizarmos um mandamento negativo, ou seja, se fizermos aquilo que Deus
manda não fazer e nos arrependermos de tal ato, teremos a CHESSED
(misericórdia) de Deus em nossas vidas. Essa é a verdadeira graça de Deus.
A graça é algo totalmente e exclusivamente ligado à Palavra de Deus
e às Suas Leis, a verdadeira graça não existe sem a Torah. Diferentemente da
graça cristã, a graça bíblica exige obediência ao Criador, exige buscá-Lo,
exige seguir Seus caminhos e não é algo relativo, que existe apenas dentro do
ser humano, mas é algo que vai além do coração do homem, se torna palpável
e visível por todos muitas vezes. A graça existe antes mesmo da entrega da
Torah. As Leis de Deus e a graça andam e sempre andarão de mãos dadas,
qualquer graça que não esteja ligada a Torah é uma graça mentirosa e
manipuladora.

Agora podemos entender o comentário de Chomat Anakh exposto


acima. Realizar algum sacrifício era um ato de obediência a Deus e
obediência às Leis de Deus geram chessed na forma de bondade. O sacrifício
não era a única forma de obediência que gera chessed, outros são as Leis
referentes ao relacionamento do homem com o homem, sobre o qual, a Torah
se mostra ser um belíssimo código de éticas. Outra coisa que gera chessed é
justamente o que está escrito em Deuteronômio 4:2, onde se proíbe adicionar
ou remover qualquer coisa das Leis de Deus.
Interessante, pois quando Yehoshua diz que Deus quer graça em lugar
de sacrifício, ele cutuca os fariseus que estavam presos na halachah.
Primeiramente, o sacrifício era um mandamento simples de se obedecer,
mesmo quem não acreditasse ou não concordasse com ele, poderia muito
bem ir lá e queimá-lo. Agora, difícil é o relacionamento com o próximo, pois
se existem algumas desavenças, seguir a algum mandamento da Torah
referente a essa pessoa, se torna muito mais complicado do que queimar uma
oferta, Yehoshua traz esse exemplo de difícil compreensão e bem sutil,
devido ao constante ataque que ele sofria de seus próprios irmãos, que não se
contentavam em deixá-lo seguir seu ministério. O outro ponto que Yehoshua
se refere, ao fazer essa citação do livro de Oséias, é o chessed que deixariam
de receber por adicionar coisas às Leis de Deus através das halachot, que
impunha muitas coisa não bíblicas sobre o povo. Esse versículo trata de uma
crítica sobre o comportamento do judeu religioso extremista e muito mal
interpretada pela teologia cristã.

CURAR NO SHABBAT
E foram-se poucos dias e passou dali Yeshua e chegou na sinagoga deles.
E ali tinha um homem com a mão seca e perguntaram a ele dizendo: é
permitido no Shabbat curá-lo?
E disse a eles: quem entre vocês que tem uma ovelha que cai em um
buraco em um Shabbat e não a levanta?
Então melhor é o ser humano do que ela. Portanto é permitido e
necessário ao homem agir melhor no Shabbat.
Então disse ao homem: estique sua mão e ele esticou a mão e voltou a ser
como a outra.
E então os fariseus estabeleceram uma conspiração para matá-lo.
Mateus 12:9-14

Logo na sequência, Mateus continua sua abordagem às controvérsias do


Shabbat, porém agora sai de um campo de grãos e vai para dentro de uma
sinagoga. Foi durante um serviço de Shabbat que alguns líderes aproveitaram
a oportunidade para testar sua autoridade, trazendo a ele um homem com mão
seca e questionando-o sobre se era lícito curar no Shabbat. Isso deixa claro
algumas coisas, primeiramente vemos que ato de “curar” era algo comum
dentro das sinagogas e bem aceito no meio judaico. Segundo, acreditavam
que tais milagres estavam atrelados aos rabinos, por isso que muitos
enfermos procuravam ao Rabbi Yehoshua buscando cura. Yehoshua não
estava em sua sinagoga habitual na qual ele foi criado, pois fica claro o
impasse que ele tem com os fariseus locais e tal impasse é totalmente ligado
às diferenças de interpretações da Torah.
Primeiramente vamos ver a opinião de dois dos maiores rabinos da época
que foi eternizada no Talmud:

Confortar os que estão de luto no Shabbat e visitar aos doentes no


Shabbat é proibido pela Beit Shammai pois são atividades para dias de
semana e não de Shabbat. Beit Hillel permite fazer todas essas atividades no
Shabbat, pois são mitzvot.
Talmud da Babilônia, Tratado Shabbat 12a

Temos aqui um típico desentendimento entre Rabbi Shammai e Rabbi


Hillel. O primeiro diz que toda bondade que podemos fazer por alguém que
seja feita durante a semana, já que no Shabbat não é o momento propício para
isso, por outro lado, Rabbi Hillel define os mandamentos em níveis diferentes
de importância, colocando aquilo que se refere ao próximo e a vida sobre a
própria observância do Shabbat, pois Rabbi Hillel, assim como Yehoshua,
acreditava que o Shabbat seria o dia mais adequado para realizar as mitzvot
(mandamentos) da Torah.
Vemos aqui uma total conformidade de Yehoshua com Rabbi Hillel e
claramente o mesmo não ocorre na sinagoga na qual ele se encontrava, o que
me leva a crer que esse lugar era de alunos ligados a Rabbi Shammai ou a
algum outro rabino de visão mais radical. O mais importante que podemos
tirar aqui é que Yehoshua não foi contra a Torah e nem tão pouco contra a
Torah Oral, foi apenas contra a interpretação de alguns rabinos.
Como no caso anterior, Yehoshua age de uma forma típica rabínica,
responde a provocação com uma pergunta, porém diferentemente do que
aconteceu no campo de grãos, dessa vez a abordagem que ele faz não é
bíblica e sim talmúdica:
Rabbi Eliezer e Rabbi Yehoshua** discordavam em uma disputa em
relação a alguma cria que tenha caído em um poço durante um Shabbat....
Talmud da Babilônia, Tratado Shabbat 177b
**Esse Yehoshua não é mesmo Yehoshua do livro de Mateus

Yehoshua aborda uma linha de pensamento muito conhecida e abordada


pelo próprio tratado Talmud sobre o Shabbat. Nesse Tratado, dois rabinos
entram em um debate sobre o que fazer quando uma cria cai em um poço
durante um Shabbat ou um dia festivo, se devem remover o animal e matá-lo,
ou se devem removê-lo e deixá-lo vivo. Independentemente da conclusão que
os rabinos chegaram no final do Tratado, o fato é que, no final das contas,
removeram o animal do poço, o que acabou gerando um baita trabalho. Se
vidas humanas tivessem valores financeiros agregados assim como as crias
possuem, Yehoshua de certo não precisaria mandar que agissem de uma
forma melhor no Shabbat.
Até o famoso comentarista medieval Maimônides, também conhecido
como Rambam, afirma que é uma obrigação religiosa a quebra do Shabbat
para oferecer ajuda a alguém que precise.

Para terminar de uma forma bem simples, aquele que ensina e


defende a abolição do Shabbat é claramente uma pessoa que não é digna de
sua confiança em relação as coisas de Deus, pois prega contra as Escrituras e
contra aquele que ele provavelmente alga seguir, pois conforme visto,
Yehoshua de forma alguma aboliu ou desrespeitou o Shabbat.
◆◆◆
SEÇÃO XXV
RUACH ELOHIM

Quem não está comigo, está contra mim. Quem não se junta a mim, nega
essa obra.
Portanto eu digo a vocês que todos os pecados e maldições serão
perdoados ao homem, mas a blasfêmia ao espírito de Elohim não será
perdoada.
E todas as coisas ditas contra o filho do homem serão perdoadas. E todas
as coisas ditas contra ao agir de Elohim (Espírito Santo) não serão
perdoadas, nem nesse mundo, nem no mundo vindouro.
Faça a árvore boa o fruto bom e a árvore má o fruto mal, pois
verdadeiramente pelo fruto conhecerás a árvore.
Famílias de serpente, como podem falar coisas boas sendo maus? De
certo quando a boca acorda, o coração fala.
Homem bom, do tesouro do coração traz o bom e o homem mal, da
maldade do tesouro do coração traz o mal.
Eu digo a vocês que de todas as coisas que o homem disser, deverá ele
prestar contas no dia do julgamento.
Pelas palavras de suas bocas serão julgados e pelo atos condenados.
Mateus 12:30-37

Acredito ser vital, para uma compreensão das palavras de Yehoshua nessa
ocasião, um entendimento judaico ao invés do entendimento habitual cristão
sobre o que é o Ruach Elohim, também chamado de Ruach HaKadosh, e em
português, Espírito Santo. Para tanto, primeiramente é necessário entrar no
conceito que foi criado pela igreja sobre esse Espírito e desfazer alguns
pontos, para que assim possamos entendê-lo sem certos vícios.

O ESPÍRITO SANTO CRISTÃO x RUACH HAKODESH BÍBLICO


No cristianismo, o Espírito Santo representa a terceira pessoa da trindade,
juntamente com o pai e o jesus. O Espírito Santo foi enviado para santificar e
dar vida a igreja. O mesmo também traz, através de sua manifestação,
algumas coisas conhecidas como “mover do Espirito”, “batismo no espírito”,
dentre outras. O Espírito Santo, como sendo parte da trindade, é um deus,
possuindo assim as mesmas características de deus pai e de deus filho, não
havendo distinção entre os três.

Porém, essa definição cristã apresenta alguns problemas por diversos


motivos, tantos lógicos, quanto teológicos e bíblicos. Olhando pelo lado da
teologia cristã, conforme definido por Thomas de Aquino em seu livro Deus
Triuno, o Espírito Santo é o filho e que também é o pai, pois os três são um é
na verdade são todos o Espírito Santo.
Tal definição, com os anos, foi tomando diferentes formas, mas sempre
com a mesma essência, uma bagunça idolatra que foi feita em cima de um
conceito criado por mentes humanas. Não podemos negar que, se os três
realmente fossem um, teriam que ser um em todos os sentidos, essência,
poder, vontade e manifestação. Se esse fosse o caso, quando o Espírito Santo
torna Miriam (maria) grávida de Yehoshua, na verdade, ele a tornou grávida
dele mesmo. E quando Yehoshua promete a vinda do Espírito Santo, dizendo
que ele irá ao Pai mas que virá o consolador, o que talvez ele estivesse
dizendo é que ele iria ao Pai, mas quando chegasse lá o Pai já teria vindo
como forma de Espírito Santo e que na verdade foi ele que veio, mesmo
dizendo que iria embora. Poderíamos continuar com essa linha de
pensamento maluca de Thomas de Aquino por horas.
Por isso que devemos olhar para o Ruach Elohim da forma e no lugar
aonde ele foi conceituado.O Ruach é um entendimento judaico, pois ele foi
uma revelação dada ao Povo de Israel e claramente não aos pais da igreja.
Segundo os sábios da Kabbalah judaica, através de uma linguagem muito
mística, dizem que, Adonai, antes de criar o mundo, precisou “encolher” um
pouco de sua santidade para abrir um espaço e que nesse espaço, Ele criou
todas as coisas. Para que o mundo não fosse destruído pela Sua santidade e
também para que o mundo não ficasse sem ela, Adonai então gera algumas
partículas de Sua essência que entram em contato com nossa realidade, sendo
essa a forma como Ele trabalha, age e fala no mundo terreno.
Essas partículas não tem vida per se, pois não fazem parte de Um
relativo, nem são seres independentes, mas sim um espírito desprendido do
próprio Deus, usado como um tipo de “ferramenta” para que o ser humano
possa ter contato com Ele sem ser destruído. Seria como um copo de suco, o
homem é o receptor, é a pessoa que bebe, já o líquido seria a essência de
Deus, um contato íntimo com Ele e o canudo que ele usa para beber desse
líquido é justamente o Espírito Santo, que nada mais é do que uma “ponte”
criada por Deus para que possamos, de um mundo cheio de impurezas, nos
ligar a Sua santidade.
Nunca, em nenhuma parte da bíblia, alguém orou para o Espírito Santo,
nenhum personagem bíblico teve um diálogo com o Espírito Santo e o
Espírito Santo nunca recebeu veneração por parte de ninguém. Tudo que
vemos a respeito do Espírito acontece “através” do Espírito, Deus falou
através do Espírito, curou através do Espírito, se manifestou através do
Espírito, ou seja, essa “ferramenta” nada mais é do que a própria conexão
entre Deus e o homem e não um ser independente.
O Ruach Elohim é a vontade de Adonai, Seu poder e Sua providência...
Shadal, Genesis 1:2

O Ruach é o próprio agir de Deus na terra, pois tal é ligado à Sua


vontade, Seu poder e Sua providência. Não existe um agir de Deus que não se
baseie em ao menos em uma das três coisas dessa lista. Toda vez que os
sábios mencionam o Ruach (Espírito Santo) é sempre devido a algo feito por
Deus.

Foram informados de todas as coisas através do Espírito Santo.


Likutei Moharan 19:3:6

Um dos níveis de revelação divina é justamente através do Ruach


Hakodesh, Espírito Santo.
Rabbeinu Bahya, Shemot 28:30:1

Então “o Ruach de Deus”, o qual é o Ruach Hakodesh, pairava (sobre as


águas) e se estendia sobre ela, e Ele (Deus) trazia vida através dele (Espírito
Santo).
Likutei Moharan 78:3:2

O Ruach Hakodesh era o espírito profético operando...


Bereshit Rabbah 85:9

Fica claro aqui que o conceito de Ruach Hakodesh é muito mais antigo
que a igreja, muito mais antigo que os profetas e muito mais antigo que a
promessa da vinda de um consolador. Quando os talmidim de Yehoshua
ouviram isso da boca de seu mestre, na verdade, não ficaram surpresos, pois
esse conceito já era bem comum no judaísmo do primeiro século. Quando
receberam o espírito conforme relatado em Atos, houve ali um contato mais
íntimo com o Criador em comparação ao que possuíam antes, a ligação que
Deus tem com a terra através do Espírito Santo se tornou uma ligação mais
interna, mais pessoal, mas isso não faz dele um deus, ou parte da trindade, o
Ruach HaKodesh é o termo utilizado para o mover de Deus nessa nossa
realidade.

Isso é demonstrado pelas próprias palavras de Yehoshua que, afirma que


heresias contra ele e contra o Pai serão perdoadas, se caso o Espírito Santo
fizesse parte da trindade e se houvesse alguma diferença entre os três, como
no caso das heresias, um deles automaticamente seria diferente e se um for
diferente, há uma quebra do conceito de unidade, pois a mesma se torna
relativa e Deus é absoluto.
O Ruach HaKodesh, em palavras resumidas, representa o mover de Deus
nessa terra, Sua vontade e Sua representação. Se olharmos para o Espírito
dessa forma, veremos que a heresia que não tem perdão não é uma heresia à
pessoa de Deus, mas sim à forma como Ele trabalha, se manifesta, decide,
julga, promete, se revela e todas as outras formas que Deus age nessa
realidade.
Isso torna as coisas muito mais complicadas, pois não se trata de ofender
a um ser, mas se trata de acharmos que temos a autoridade de julgar de certo
ou errado aquilo que Deus faz ou decide. Vou dar dois exemplos mais
práticos:

Deus criou o homem para se casar com mulher, essa é a decisão de Deus
nessa terra, a qual se manifestou e nos foi revelada através do Espírito Santo.
Quando alguém age de uma outra forma, é como se dissesse que aquilo que
foi determinado por Deus não é o correto, ele se sente no direito de ir contra
aquilo que foi entregue através do Espírito Santo.
Eis um pecado contra o Espírito que, segundo Yehoshua, é sem perdão.
Se olharmos bem, quantos ex-homossexuais conhecemos? Qual a quantidade
de doenças que os vêm matando atualmente? Só pensarmos com um pouco
de bom senso. É como se dissessem que Deus decidiu errado, cometendo
assim uma grande heresia contra o Espírito Santo, pois vão contra o que Deus
decidiu.
Outro ponto é acreditar que a Torah foi abolida, a obra máxima de
Adonai para essa terra. Simplesmente abolida, pois algum pai da igreja
decidiu assim. É como jogar na cara de Deus que aquilo que Ele manifestou e
decidiu para essa terra através do Espírito, Suas Leis, simplesmente
acabaram, pois não convém ou talvez sejam muito difíceis. Algo a se pensar.
Por último, quero colocar aqui a verdadeira função da vinda do Espírito
Santo no interior de cada ser humano, na forma chamada de “consolador”:

E colocarei dentro de vós o Meu Ruach (Ruach Elohim) e farei que


andeis nos Meus estatutos, e guardareis meus juízos, e os observeis.
Ezequiel 36:27

Segundo o próprio Adonai, através do Ruach HaKodesh falando pelo


profeta Ezequiel, nos é revelado a verdadeira função do Espírito Santo. A
promessa que Yehoshua faz, sobre a vinda do consolador, foi de uma
internalização do Espírito para que ele começasse a operar dentro do coração
de cada um, para que assim, segundo o prometido por Adonai, possamos
viver a Torah de uma forma natural e da forma estipulada por Ele. Que seja
em nossos dias.

PALAVRAS DA BOCA
“Julgados pelas palavras, condenados pelos atos”, uma declaração forte e
com uma aparência de simples interpretação, mas o que será que Yehoshua
quis ensinar ao alegar isso, o que seriam essas palavras e quais seriam esse
atos?
Para que possamos entender bem, devemos encaixar esse aviso dentro do
contexto no qual ele foi usado. Yehoshua estava dizendo que as palavras
contra o Espírito Santo não teriam perdão, sabemos que o Espírito Santo
nesse caso é um termo para representar o mover, as decisões e o método com
o qual Deus age e formou todas as coisas, ou seja, blasfemar o Espírito é o
mesmo que dizer a Deus que Ele está errado naquilo que Ele decide ser o
correto. Já agir contra o Espírito é tomar decisões contrárias ao que foi
determinado pelo Criador pelo simples fato de não haver concordância com
aquilo que Ele estipulou, mostrando assim que aquele que age contra Sua
Palavra sabe mais o que é melhor para si mesmo do que Aquele que o criou.

Como Rav. Hamnuna disse: “O começo do julgamento de um homem é


apenas através de suas palavras sobre a Torah”.
Talmud da Babilônia, Tratado Kiddushin 40b

A Torah Oral explica melhor as palavras de Yehoshua e confirma o que


foi visto até aqui, a Torah, além das Leis de Deus, é também o manual de
como agradar ao Criador e tudo sobre aquilo que Ele é, determinou e formou.
Quando usamos nossas palavras contra a Torah, não como um crítica ao livro
per se, mas sim de uma forma contrária ao conteúdo apresentado por ela, é o
mesmo que criticar o determinado por Deus, é criticar o próprio Espírito
Santo, pois é esse o nome dado a manifestação de Deus representada pela
Torah e é ai justamente o início do julgamento que o homem sofrerá. Aqueles
que ensinam qualquer coisa contra a Torah, ou ideologias que tentam
completá-La, como as leis rabínicas por exemplo, é como se dissessem a
Deus que Sua obra não é completa e que necessita da ajuda de homens. Esse
é a maior blasfêmia contra o Espírito Santo.
Após todo o julgamento vem a condenação e nesse caso virá de acordo
com os atos, se além de um ensino contrário ao estipulado por Deus, alguém
levar uma vida dessa forma, agindo contra aquilo que Deus determinou, a
condenação será certa. Se pensarmos friamente, é meio óbvio que o ensino se
reflete nos atos, pois aquele que ensina alguma coisa, como por exemplo a
abolição da Lei de Deus e que o cristão está liberto para comer bacon, essa
pessoa com certeza também come bacon, pois alguém que segue a Torah, de
forma alguma, ensinaria ou falaria algo contrário ao determinado por ela.

Yehoshua critica fortemente algumas leis rabínicas, mostrando que além


delas serem uma blasfêmia ao Espírito Santo, pois tentam completar a Torah,
também serão através dela que virá o julgamento de Adonai. Ele também
afirma que quem as ensinam serão julgados e quem as seguem serão
condenados. Não devemos esquecer que essas leis existem no judaísmo, pois
o mesmo não passa de uma religião, assim como o cristianismo, que possui
inúmeras leis e teologias não bíblicas, sendo assim, tal reprovação vale para
os dois lados.
◆◆◆
SEÇÃO XXVI
YONAH

Nesse tempo veio a Yeshua alguns dos fariseus e alguns dos sábios
dizendo: queremos ver sinal do céu por você.
E disse a eles: uma geração má e blasfema procura sinal, mas sinal
não será dado, exceto o sinal de Yonah.
Que quando estava dentro do peixe (Dagah) por três dias e por três
noites, também estará o filho do homem dentro da terra (enterrado) por
três dias e por três noites.
As pessoas de Niniveh se levantarão para julgar essa geração e a
condenarão pois fizeram Tshuvah pelas palavras de Yonah e eu sou
maior do que Yonah.
A rainha Sheba, em língua estrangeira Reizina de Ishtiriah, se
levantará para julgar essa geração e a condenará, pois ela veio do fim
da terra para ouvir a sabedoria de Shlomo e eis me aqui, maior que
Shlomo.
Quando o espírito impuro sai do homem, em lugares secos procura
descanso, mas não o encontra.
Então diz: voltarei a minha casa da qual sai, e ele vai e a encontra
vazia, segura e pronta.
Então leva sete espíritos piores que ele e que vão com ele e ali
ficam. E o estado novo do homem é pior que o seu anterior. Assim será
a essa geração má.
Mateus 12:38-45

SINAL DE YONAH

Yonah orou a Adonai, seu Deus, da barriga do peixe (Dagah)...


Jonas 2:2

Existe algo muito oculto nessas palavras de Yehoshua. Interessante como


ele escolhe alguns termos místicos para passar sua mensagem. A palavra
hebraica para "peixe" é DAG (‫)דג‬, uma palavra masculina, assim como em
português, porém nesse caso ele chamada peixe de DAGAH (‫)דגה‬, que é um
termo feminino e gramaticalmente incorreto em hebraico, como se ele
chamasse peixe de “peixa”.
O termo dagah aparece algumas poucas vezes no Tanakh e é alvo de
fortes especulações e comentários na literatura rabínica. Como a Torah não
explica de forma direta o que seria esse termo e os motivos de seu uso,
devemos olhar para a Torah Oral para entendermos as razões de Yehoshua ao
expor seu ensino usando esse termo estranho.

LEVIATAN
Leviatan é um mostro marinho citado no Tanakh e a sua imagem é
retratada pela primeira vez no livro de Jó nos capítulos 40 e 41 através de
uma breve descrição. Durante a idade média, Giordano Bruno em seu livro
Svmma Daemoniaca, o descreve como um demônio representando uma das
cinco pontas do baphomet, tal teoria foi rapidamente absorvida pela igreja
católica e passada adiante em todas as vertentes cristãs.
Muitos dos sábios alegam que o dagah que engoliu a Yonah era
justamente o Leviatan do livro de Jó. Ensinam que esse monstro foi criado
por Deus no quinto dia da criação, conforme relatado no primeiro capítulo de
Genesis, justamente com o propósito de engoli-lo e levá-lo a Niniveh, sendo
aprisionado por Deus logo após tal fato.
Por um outro lado, alguns sábios cabalistas fazem um comentário muito
interessante em uma passagem do livro de Números onde o termo dagah
também aparece:

Nós lembramos do peixe (dagah) que comíamos gratuitamente no Egito,


os pepinos, os melões, o alho-poró, as cebolas e o alho.
Números 11:5

Foi dito que: Dagah nesse versículo se refere às relações sexuais imorais
que a Torah ainda não havia proibido.
Talmud da Babilônia, Tratado Yoma 75a

Nesse caso temos o termo dagah não se referindo a peixe como forma de
alimento, nem ao monstro Leviatan, mas sim como um termo que caracteriza
o pecado da imoralidade sexual, do incesto, da orgia e de todo o tipo de
sodomia. Isso é interessante, pois caracteriza um dos pecados que fez com
que Deus decidisse destruir aquela cidade caso não se arrependessem.
Um segundo caso se encontra no livro do profeta Amós:
Adonai meu Senhor jura pela Sua Santidade: Vejam, dias virão sobre vós
nos quais vocês serão carregados em cestas e, até o último, em cestas de
peixe (dagah).
Amós 4:2

Carregados em cestas como peixes, cestas de terras idólatras (dagah).


Radak, Amós 4:2

Agora temos um caso diferente, o famoso comentarista Radak faz uma


analogia do termo dagah com idolatria, pois a promessa que Deus faz sobre a
ida do povo para terras babilônicas é que eles seriam levados a um lugar onde
a idolatria era praticada e onde não se conhecia ao Deus de Israel.
Agora o terceiro caso onde encontramos esse termo na Torah:

E os peixes (dagah) do Nilo morreram. O Nilo cheirava mal até que os


egípcios não podiam mais beber da sua água; havia sangue em toda terra do
Egito.
Êxodo 7:21

A Gemara responde: a baraita é difícil de acordo com o seguinte verso:


“E o peixe (dagah) que estava no rio morreu.”... ...a Gemara responde que
dagah se refere aos grandes e pequenos levados com o sangue da violência.
Talmud da Babilônia, Tratado Nedarim 51b

Agora a Gemara faz um alusão entre dagah e violência pelo fato do rio
Nilo ter se tornado vermelho, parecendo sangue. Se juntarmos os três,
veremos que dagah pode ser imoralidade sexual, violência e idolatria, nos
levando a um outro ensino da Torah Oral:

Rabbi Yohanan diz em nome de Rabbi Shimon ben Yehotzadak: Se


disserem a alguém: transgrida esse mandamento e você não será morto, ele
deve transgredir para não ser morto, exceto se for idolatria, imoralidade
sexual e derramar de sangue.
Talmud da Babilônia, Tratado Sanhedrin 74a

Esse é um ensinamento muito salientado por todos os rabinos, tantos os


fariseus quanto os modernos ortodoxos, é quase uma máxima judaica para
que o judeu saiba até onde pode ir com sua desobediência a Torah para
preservação da vida.
Isso nos revela os motivos que levaram a Deus decidir destruir a cidade
de Niniveh, violência, idolatria e imoralidade sexual, assim como foi com
Sodoma e Gomorra.
O desafio é conectarmos esse estudo com as palavras de Yehoshua. Ele
diz que o sinal que será dado aos que lhe enfrentavam seria apenas o sinal de
Yonah, e faz uma comparação de Yonah no interior do peixe com quando ele
estiver no interior da terra, claro que podemos ter um entendimento direto e
simples nesse caso, assim como Yonah ficou três dias na barriga de um peixe
e saiu vivo, Yehoshua também ficaria três dias debaixo da terra e sairia vivo.
Porém se pararmos naquilo que os olhos podem ver, vamos perder todo o
segredo que está por trás da terminologia usada por ele.
Os ensinos talmúdicos levantados até aqui são de conhecimento de
qualquer religioso estudioso da Torah. Yehoshua, ao mencionar o termo
dagah, trás à tona esses três pontos, imoralidade, violência e idolatria. A
forma mais fácil de entendermos é olhando para os reais motivos que
causavam todos esses debates entre Yehoshua e alguns dos fariseus, as leis
judaicas.

IDOLATRIA
Quando alguém tem algo na vida que é maior do que Deus e Sua palavra,
esse alguém corre o sério risco de cair em idolatria, se o emprego, o status, a
fama, o poder, o dinheiro, as posses, a família, ou qualquer outra coisa ligada
à essa vida terrena possuir um peso maior que a importância da Torah, esse
indivíduo se faz um idolatra.
A idolatria não é apenas adoração a falsos deuses, mas sim tudo aquilo
que toma o lugar que Deus deveria ter na vida do homem, se mandamentos
de Deus deixam de serem observados por motivos citados acima, esses
motivos se tornam mais importantes do que o que Deus quer dessa pessoa e
isso pode ser caracterizado como idolatria.
Se pensarmos friamente, os rabinos e fariseus, assim como os atuais
ortodoxos e inúmeros cristãos, colocam as leis humanas e a observância de
regras criadas por homens acima daquilo que é estipulado por Deus. Muitas
leis são criadas como cerca de proteção aos mandamentos da Torah, porém
muitas outras acabam substituindo aquilo que Deus determinou, a partir do
momento em que alguém segue alguma lei que não seja explícita na Torah e a
ensina como sendo de Deus, acaba cometendo idolatria, pois essas leis
tomam o lugar das reais, anulando assim a Torah.
As maiores discussões de Yehoshua com os fariseus abordavam
justamente as leis rabínicas, praticamente em todos os evangelhos, os debates
eram referentes a Torah Oral e aos costumes judaicos da Época e nada tinham
a ver com a Torah em si. Por esse motivo, Yehoshua usa o termo dagah, pois
acusa os fariseus de idolatras ao colocarem as leis que eles seguem acima da
pura observância da Torah. Tudo que toma o lugar de Deus ou de Sua Torah
é idolatria, até Rashi concorda com isso:

Daqui se deriva que quem nega a Torah, admite a idolatria.


Rashi, Deuteronômio 11:28:1

VIOLÊNCIA
Esse pode parecer um pouco estranho, pois seriam os fariseus assassinos?
Nesse caso um comentário do Talmud pode nos ajudar:

Aquele que publicamente fala mal de seu próximo, age como se


derramasse seu sangue.
Talmud da Babilônia, Tratado Bava Metzia 58b

Os fariseus e Yehoshua não só eram próximos, mas eram do mesmo


povo, da mesma terra, da mesma fé e mesmo assim, alguns versículos antes,
esses “irmãos” de Yehoshua conspiravam contra ele e criticavam abertamente
seus ensinos.
Com isso, temos mais um motivo claro da razão do uso do termo dagah,
pois a maledicência de alguns fariseus e saduceus, os faziam como
assassinos.

IMORALIDADE SEXUAL
Será que os fariseus, religiosos, justos e corretos em seus caminhos
praticavam atos de imoralidade sexual, do tipo sodomia ou incesto? Qual
prova Yehoshua tinha a esse respeito?

Rabbi Shimom diz: Nós podemos entender isso no próprio contexto onde
se encontra, como diz: “Eles (que praticam incesto e imoralidade) terão suas
almas cortadas”, pois é como a blasfêmia.
Mishnah Makkot 3:15
Rabbi Shimom faz uma afirmação muito interessante, ele diz que a
imoralidade sexual é como a blasfêmia. Quem conhece a Torah sabe que
existem diferentes tipos diferentes de pecados que, perante os olhos de Deus,
possuem o mesmo peso, como se um fosse o outro e o outro o um.
Se nesse caso olharmos a imoralidade sexual como um pecado de
blasfêmia, podemos voltar alguns versículos e entrarmos novamente sobre o
ensinamento do pecado contra o Espírito Santo, que nada mais é do que
negação e atos contrários àquilo que Deus determinou, o que também
podemos chamar de blasfêmia.
Então, acredito eu que, a acusação que partia de Yehoshua sobre os
fariseus é sobre o pecado de blasfêmia que cometiam contra Deus ao
colocarem as leis da halachah em maior destaque que as Leis Divinas e sua
autoridade por cima da do Todo Poderoso.
Temos aqui um ensino pesado por parte de Yehoshua que, na verdade,
não é um ensino, mas uma acusação indireta em relação aos pecados mais
condenáveis da Torah. Mas o ser humano não muda e tal ensino pode muito
bem ser encaixado na vida atual, pois quem não coloca alguma coisa
relacionada a vida nessa terra acima das coisas de Deus? Ou nunca falou mal
de ninguém? Ou aqueles que acabam cometendo imoralidades sexuais, a qual
se tornou muito comum e bem aceita em nossa sociedade? Ou pessoas
ligadas a religiões, que possuem diversos dogmas que acabam se
sobressaindo as Leis de Deus? O que será que ele falaria para nós se ele
estivesse hoje aqui? Seria dagah?
Yehoshua afirma que se as pessoas de Niniveh, as quais praticavam todas
essas coisas, se converteram (fizeram tshuvah) ao ouvir uma pregação muito
ruim de Yonah, os rabinos também deveria fazer tshuvah ao escutar a
Yehoshua, pois ele declara que é muito maior que um profeta, portanto, os
ninivitas terão moral de julgá-los no mundo vindouro.

TSHUVAH
O termo que aparece em português como “arrependimento” nesse caso,
assim como em muitos outros no livro de Mateus, é justamente uma palavra
hebraica chamada tshuvah. Esse termo, em uma tradução literal, significa
“resposta”, mas é um termo muito usado no meio rabínico, tanto do farisaico
quanto do moderno ortodoxo.
Quando alguém afirma que irá “fazer tshuvah” esse alguém está dizendo
que não irá apenas se arrepender, mas também irá mudar sua vida de acordo
com as ordenanças da Torah. O arrependimento que Yehoshua ensina em
todo o livro de Mateus não é bem aquele ensinado nos meios cristãos, que é
um sentimento de remorso confundido com arrependimento, mas o
arrependimento de Yehoshua é um que vai além do sentimento, é uma
atitude, é uma prova palpável do verdadeiro sentimento, é a pessoa largar
tudo que faz de errado para literalmente ter uma vida de acordo com a Torah.
Tshuvah não é apenas deixar de fazer o que Deus proíbe, mas também é fazer
aquilo que Ele manda fazer. Sem Torah não há tshuvah!
Quando Yehoshua alega que o povo de Niniveh fez tshuvah, ele não diz
apenas que eles largaram os atos imorais, mas alega que colocaram suas vidas
perante Deus através da Torah. Segundo a mentalidade de Yehoshua, sem
Torah, o verdadeiro arrependimento se torna relativo, pois não é algo que
pode ser comprovado na pele.
A RAINHA SHEBA
A bíblia apresenta uma rainha nunca antes mencionada, a qual, um
determinado dia, resolve sair de suas terras e viajar até Jerusalém para ouvir a
sabedoria do rei Salomão. Acompanhada por muitos servos e camelos, ela
leva ao rei uma grande quantidade de temperos, ouro e pedras preciosas
conforme relatado em 1 Reis 10 e Crônicas 9.
Porém o relato bíblico sobre essa estranha rainha acaba ai, mas outras
fontes judaicas apresentam histórias sobre quem ela era e adicionam detalhes
sobre essa visita a Jerusalém. No século 14 foram encontrados documentos
na Etiópia sobre uma rainha que tinha ido a cidade santa de Jerusalém, que
essa rainha “conheceu” ao rei daquele lugar e concebeu um filho chamado
Menelik.
Menelik quando atingiu a idade de 22 anos resolveu ir para Israel
conhecer ao rei, seu pai. O rei Salomão ficou encantado com sua presença e
fez de tudo para que ele ficasse e assumisse o reinado após sua morte, porém
o garoto resistiu e voltou a sua terra, então seu pai manda junto com ele
alguns guardas, sábios para conduzi-lo no ensino e a arca da aliança, para que
pudesse ter proteção no caminho, o que gerou uma teoria sobre o suposto
paradeiro da arca nos dias atuais, na cidade de Aksum, Etiópia.
Histórias a parte, a distância entre Aksum e Jerusalém é de exatos 3.409
km, o qual leva 26 dias viajando sem paradas, com paradas para descanso
leva em média 41 dias, 82 dias se contarmos com a volta. Segundo
Yehoshua, justamente por esse motivo, essa rainha já tem o mérito de julgar
àqueles que estão cara a cara com ele e relutam em escutá-lo.
ESPÍRITO IMPURO
Por último vemos o quão interessante é a forma que Yehoshua chama
esses espíritos que de certo são malignos. Não como demônios, nem como
imundos, mas os chama de impuros. O termo “impuro” ou “impureza” é algo
bem singular em toda a Torah e é para ela que devemos olhar.

Impureza
Um dos conceitos mais mal interpretados da Torah está contido nas
palavras Tum’ah e Tahara, traduzidos como Impuro e puro. Os dois maiores
erros que vejo são as confusões feitas entre impureza, pecado e a ideia de que
a impureza é algo relacionado a esse mundo terreno e não ao espiritual.
As leis de pureza e impureza da Torah estão dentro de uma categoria de
mandamentos chamado chukkim, que são mandamentos divinos sem que uma
razão tenha sido dada por Deus, não são racionalmente compreensíveis,
diferentemente de leis como “não matarás” ou “não roubarás” e justamente
por esse motivo é necessário um alto nível espiritual para que possa haver
uma total compreensão.
Os sábios explicam que tum’ah, impureza espiritual, pode ser definido
como “ausência de santidade”. Diferentemente do pecado, o qual leva a
morte, a impureza espiritual leva a um distanciamento de Deus, mesmo que a
vida continue, é uma vida vazia e sem paz.
Segundo a terminologia cabalística, as forças do mal são chamadas de
“outro lado”, elas são aquilo que estão “fora”, o que esta distante da presença
e santidade de Deus. Essas forças florescem em uma realidade aonde a
presença de Deus está mais “ausente”, “escondida”, lugares onde tem maior
espaço para “oposição” ao Criador.
A impureza espiritual acontece quando a pessoa empurra Deus para lá, se
afasta de Sua presença e acaba criando um vazio, um vácuo, e o lugar onde
Sua presença deveria estar, fica vazio. Isso pode acontecer com qualquer um,
com pessoas que servem a Deus, prestam culto a Deus, vivem longe do
pecado, mas por algum motivo, no interior delas, são vazias. Isso se dá pelo
fato que não usam aquilo que serve para santificá-las, ou seja, a Torah. A
Torah não serve apenas para ensinar o que é pecado, mas também é o manual
de como nos tornarmos santos, fechando a porta para toda impureza
espiritual.

E você deve observar meus estatutos e os fazer, Eu sou Adonai que te


santifica.
Levítico 20:8

Talvez agora possamos entender o porquê Yehoshua fala sobre os


espíritos impuros logo depois de falar sobre o dagah. Essa acusação foi
justamente pelo fato dos fariseus estarem colocando as leis rabínicas acima
das Leis da Torah e as ensinando como se fossem dadas pelo próprio Deus,
sendo assim, eles acabam deixando de seguir a Torah propriamente dita, a
qual santifica, para seguirem leis humanas, as quais não santificam, gerando
assim um certo tipo de impureza devido ao distanciamento, tornando o
interior de cada um deles um grande vazio da santidade de Deus e propício a
proliferação de espíritos impuros e não demônios.

Então, quando alguém tem algo na vida que está acima de Deus, de
sua Torah ou algo que a nulifique, esse alguém não é apenas um idólatra, mas
um terreno fértil para a proliferação desses tipos de espíritos, que não são
afastados através de oração apenas.
◆◆◆
SEÇÃO XXVII
NETILAT YADAYIM

Então veio a Yeshua os sábios e os fariseus lhe dizendo:


Por que seus talmidim não respeitam as TAKANOT dos antigos
concernentes a NETILAT YADAYIM antes de comerem?
E disse Yeshua a eles: Por que vocês não respeitam a Torah de EL por
causa das suas TAKANOT?
Mateus 15:1-3

Então chegaram a Jesus uns fariseus e escribas vindos de Jerusalém, e


lhe perguntaram:
Por que transgridem os teus discípulos a tradição dos anciãos? pois não
lavam as mãos quando comem.
Ele, porém, respondendo, disse-lhes: E vós, por que transgredis o
mandamento de Deus por causa da vossa tradição?
Mateus 15:1-3 ALMEIDA

Uma certa vez, um amigo meu cristão, me disse que jesus tinha abolido a
Torah e a prova disso era justamente o versículo em questão. Ele afirmou que
até os mínimos detalhes foram abolidos, como o mandamento básico de uma
simples lavagem de mãos antes de comer, conforme a Torah dos judeus
mandava.
O interessante é que esse cristão, não foi capaz de me mostrar aonde na
Torah estava esse mandamento referente ao lavar das mãos e por mais que
tentasse, nunca iria conseguir, pois tal mandamento não se encontra na Torah.
Hoje, no judaísmo ortodoxo, assim como no judaísmo farisaico, o lavar
das mãos, apesar da aparência de mandamento, nada mais é do que um ritual
criado pelos antigos rabinos. E como todos os rituais rabínicos, o Netilat
Yadayim, ou o lavar das mãos, é repleto de detalhes que devem ser
cuidadosamente observados.
O Netilat Yadayim foi definido devido a conceitos chamados Tum´ah
(impuro) e Taharah (puro). As leis referentes a esses dois termos são
consideradas leis supra racionais, ou seja, não necessitam explicações, pois
estão acima da razão pelo alto nível espiritual delas. A tum´ah é definida
como a ausência da Kedushah, que é a fonte onde emana toda a vida, o
próprio Deus. Uma vida que não é livre do que é impuro significa uma
ausência de santidade, uma ausência de Deus.
A Torah é muito detalhista em relação às impurezas, desde alguns
alimentos, a menstruação da mulher e o contato com cadáveres. A impureza é
algo que deve ser muito observado, já que, de certo, é muito importante para
o Criador.

Se os rolos (Torah) não se preocupassem como nada relativo a impureza


ou pureza, assim como o que é proibido e permitido, por que então está
escrito sobre isso lá?
Midrash Ruth Rabbah 2:14

Leis, o serviço de sacrifícios, pureza e impureza e as relações ilícitas são


as essências da Torah.
Mishnah Chagigah 1:8

O consenso da importância da pureza perante o Criador é enorme, claro


que a impureza não é tratada como pecado ou transgressão pela Torah, mas
quando o indivíduo, por algum motivo, se torna impuro, Adonai vira Sua face
em direção oposta às orações dessa pessoa até o fim do dia e por esse motivo,
existe uma grande preocupação por parte dos sábios em relação a impureza, o
que acabou os levando a criarem diversos rituais para "contorná-la".
O Netilat Yadayim, pelas leis rabínicas, é obrigatório principalmente
em dois momentos, ao acordar e antes das refeições.
Ao Despertar
Durante o sono, os rabinos acreditam que o espírito se eleva do corpo,
deixando-o “semi-vazio” e este vácuo causado pela ausência do divino,
possibilita a entrada de elementos impuros no corpo. Quando a alma volta,
esses elementos impuros deixam o corpo totalmente, exceto nos dedos das
mãos. Segundo as leis rabínicas, o único jeito de remover esses traços de
impureza é através da lavagem ritualística das mãos.
Normalmente, um judeu mais religioso tem uma pequena bacia de água
em baixo da cama, assim que acorda, antes mesmo de se levantar, já faz a
lavagem das mãos, pois acreditam que a benção matinal não pode ser recitada
se houver algum tipo de impureza no corpo, para que Deus não vire a face
para sua oração.

Nas Refeições
A lavagem ritualística antes das refeições não visa simplesmente limpar
as mãos, pois higiene é de senso comum, porém serve para purificar as mãos
para que elas não tornem o alimento impuro. Em outras palavras, segundo os
rabinos, as mãos não apenas podem sujar o alimento, mas também
impurificá-lo.
Outros casos onde o Netilat Yadayim é obrigatório: após cortar os
cabelos, as unhas, após necessidades fisiológicas, tirar sangue, relações
sexuais, mexer nos sapatos, tocar em partes cobertas do corpo e voltar de um
enterro.
Caso o alimento seja tocando após as situações acima, o alimento se
tornará impuro.

O RITUAL
Antes do ritual, as mãos já devem estar limpas, qualquer acessório, como
anéis e alianças, deve ser removido. Um recipiente específico para isso deve
ser segurado com a mão direita enquanto é enchido com exatos 86ml de água.
Depois de cheio, ele é passado para a mão esquerda e despeja-se a água sobre
o braço direito, lavando toda a mão, o punho e parte do antebraço. Depois o
recipiente é cheio novamente e o mesmo processo é feito na mão esquerda,
isso é repetido por três vezes em cada braço.
Existem muitos outros detalhes referentes a qualidade da água, a origem
da água, o recipiente a ser usado, a força na qual a água é despeja,
quantidades variáveis de água e etc.
Outro ponto muito importante é a benção que deve ser recitada durante o
ritual:

“Bendito és Tu, Senhor nosso Deus, Rei do universo, que nos santificou
com Seus mandamentos e nos ordenou sobre o lavar das mãos.”
Brachat Netilat Yadayim

Temos que fazer uma análise muito cuidadosa aqui, pois existem
verdades misturadas com meias verdades. Como já explicado acima, a pureza
e o ritual de pureza, conforme descrito pela Torah, é de extrema importância
e deve ser levado muito a sério por qualquer pessoa que queira seguir as Leis
de Deus. Yehoshua de forma alguma iria contra tais regras, isso é
comprovado quando ele procura Yohanan, o imersor, pois o que os cristãos
conhecem como batismo, nada mais é do que a Torah descreve como Mikveh,
que é um ritual bíblico de purificação.
Existem dois pontos muito sérios aqui nos quais Yehoshua foi contra, a
primeira é relativa a necessidade da Netilat Yadayim antes das refeições. À
partir do momento em que um alimento é kasher, ou seja, determinado por
Deus como puro para consumo (Levítico 11), nada que homem algum possa
fazer, tornará esse alimento impuro. A partir do momento em que as palavras
que saem da boca do Criador determinam que o alimento é puro, sujeira
nenhuma ou impureza nenhuma ligada ao corpo do homem pode ser mais
forte do que as próprias palavras Dele, achar isso é um pensamento herege.
Yehoshua, ao negar essa tradição, deixa claro que algo determinado por
Deus não pode ser anulado ou modificado por conceitos criados por homens,
se o alimento é kasher segundo a Torah, impureza nenhuma pode alterar isso.
Por esse motivo que Yehoshua não se preocupou com o lavar ritualístico das
mãos, pois os alimentos que comiam já eram purificados segundo a própria
Torah.
O segundo problema é a própria brachah (benção) a ser recitada, onde a
mesma afirma que essa ordenança proveio de Deus, o que não é verdade. Tal
ordenança proveio de rabinos, que usurparam a autoridade de Deus para
beneficio próprio.
Yehoshua em nenhuma instante foi contra a Torah, ele era contra
determinadas leis rabínicas que, mesmo que indiretamente, iam contra as Leis
de Deus.
◆◆◆
SEÇÃO XXVIII
UMA PEQUENA DESONRA

Pois EL disse: honre seu pai e sua mãe e aquele que bate em sua mãe e
em seu pai deve ser levado a morte.
E vocês dizem que qualquer palavra que deve ser dita pelo homem a seu
pai e à sua mãe em relação a qualquer caridade a ser dada, o faz como um
pecador. Porém essa iniquidade será nula para ele.
Então, ele não honra a seu pai e a sua mãe e vocês desprezam a palavra
de EL por suas TAKANOT.
Mateus 15:4-6

Algumas coisas tem aparências muito estranhas. Nas traduções ocidentais


desses versículos, as palavras ficam completamente sem sentido, já no
original, nos é apresentado uma grande dificuldade nas palavras de
Yehoshua. Porém se observarmos alguns termos utilizados, talvez seja
possível ligar algumas pontas soltas.
Primeiro ponto a levarmos em consideração, e que poucos percebem, é
como Yehoshua mantém a punição à morte conforme ordenado pela Torah,
muitas pessoas acreditam que o novo testamento acabou com as sentenças de
morte de um deus antigo e desatualizado, que deu ao seu povo um livro de
leis cruéis e que foi completamente abolido pela compaixão de cristo. Mas
segundo as próprias palavras de Yehoshua, compaixão alguma deve ser dada
a quem bate no pai ou na mãe. Isso nos prova que até a pena de morte,
conforme determinado pela Torah, ele manteve e corroborou.

Quando alguém tiver um filho desobediente e rebelde, que não obedece à


voz de seu pai e à voz de sua mãe, e castigando-o eles, lhes não der ouvidos.
Então seu pai e sua mãe o pegarão e o levarão aos anciãos de sua cidade, e
a porta do seu lugar. E dirão aos anciãos da cidade: Esse nosso filho é
rebelde e desobediente, não dá ouvidos à nossa voz; é um comilão e um
beberrão. Então todos de sua cidade o apedrejarão até que morra; e tirarás
o mal do meio de ti, e todo o Israel ouvirá e temerá.
Deuteronômio 21:18-21

Yehoshua não aboliu nenhuma vírgula da Lei, nem ao menos as sentenças


mais pesadas que eram impostas aos desobedientes.
Continuando a análise para entendermos melhor sobre o que ele
estava falando, devemos olhar para dois termos relevantes, “caridade” e
“palavra dita”. Segundo as takanot dos rabinos, ou seja, seus costumes e
ensinos, todo aluno que entrasse sob a supervisão e tutela de um rabino, era
de praxe que todo os bens que esse aluno possuísse se tornassem propriedade
escola a qual ele agora fazia parte. Isso era tão comum que até o grupo
messiânico, liderado por Yaakov irmão de Yehoshua, tinha tal costume, por
isso eram chamados de evyonim, pois toda pessoa que se afiliava a esse
movimento doava todos os seus bens ao grupo. Por esse fato surgiram
diversos grupos católicos que agiam da mesma forma, a pessoa que se
afiliava a esses grupos, doava todos os seus bens para a igreja.
Até então tudo bem, o problema começa quando algumas escolas exigiam
os bens não só pertencentes ao aluno, mas os bens que lhe serão dados como
herança, mesmo sem tê-la ainda recebido, com seus pais ainda vivos. Muitos
começaram a doar previamente suas heranças, as terras e os bens dos pais,
para as escola rabínicas e isso gerava uma forte comoção local. O Talmud, de
uma forma bem sútil, fala sobre esse costume:

E Beit Shammai concorda com sua linha de pensamento: Não se pode


pedir para uma autoridade halakhica dissolver um voto de consagração de
propriedade.
Talmud da Babilônia, Tratado Nazir 9a

O proprietário lhe disse: eu juro pelo serviço do templo que foi assim. Eu
não tinha dinheiro disponível naquele momento, pois eu fiz voto de
consagração de toda minha propriedade devido a Hyrcanus, meu filho, que
entrou nos estudos da Torah e não queria deixar herança para ele.
Talmud da Babilônia, Tratado Shabbat 127b

Essa história relatada no Tratado Shabbat conta sobre um trabalhador que


trabalhou nas terras de uma pessoa por três anos e no final não recebeu seu
salário. Depois de um tempo, o proprietário junta o dinheiro, paga esse
trabalhador e então justifica que tinha jurado (palavra dita) suas posses
(caridade) por causa do comportamento do filho. Tal procedimento pode ser
feito pelo pai quando ele não quer deixar herança aos filhos ou pode ser feito
pelo filho, quando quiser comprometer a herança como um pagamento de
garantia a escola a qual ele ingressa.
Em alguns casos, após o juramento (palavra dita) de consagração
(caridade) de propriedade feito pelo filho em relação a sua futura herança, os
“novos donos” acabavam tomando as terras antes mesmo da morte dos pais,
antes que a propriedade se tornasse uma herança propriamente dita. Isso
claramente irritava a Yehoshua, assim como os ensinos dos fariseus de Beit
Shammai, que ensinavam que a partir do momento que o voto é feito, não
poderia mais ser anulado. Essa falsa “caridade” gerava danos aos pais desse
aluno e isso seria desonrar pai e mãe. Uma takanot que ia contra um
mandamento direto e claro da Torah. Essa quebra de mandamento, segundo
Yehoshua, não cairá sobre os ombros do aluno, pois será nula para ele, mas
sim sobre aqueles que ensinam leis que vão contra as Leis de Deus.
◆◆◆
SEÇÃO XXIX
A CANAANITA

E depois que disse, Yeshua foi de Galili para Tzot (Tyro) e Sodom.
E chegou perante ele uma mulher canaanita, das terras do leste, gritando
a ele: meu senhor, filho de David, tenha pena de mim, pois minha filha está
possessa por demônios.
E Yeshua não respondeu coisa alguma. E seus talmidim se aproximaram
dele e lhe disseram: nosso senhor, porque você abandoa essa mulher que
grita atrás de nós?
E respondeu a ele Yeshua: não fui enviado exceto para as ovelhas
perdidas da casa de Israel.
E a mulher se prostrou e disse: meu senhor, me ajude.
E disse a ela Yeshua: não é bom que o homem pegue o pão de seus filhos
e o de aos cachorros.
E respondeu a mulher: Muitas vezes comem os cachorros os pãezinhos
que caem da mesa de seu senhor.
E respondeu Yeshua a ela: grande mulher de fé, sua fé lhe fez aquilo que
queria. E nessa hora sua filha foi curada.
Mateus 15:21-28

Nesse momento, Yehoshua viajava com seus talmidim para fora da terra
de Israel, eles vão para as cidades de Tzot e Sodom, as quais se encontravam
na região do Líbano moderno. É interessante nos atentarmos em algumas
histórias que relatam as diversas viagens de Yehoshua para fora de Israel e
como ele se portava nesses lugares.
É muito difícil não interpretar esse ocorrido como uma atitude
extremamente racista por parte dele, ele nem sequer queria dirigir a palavra a
essa mulher e relutou para atendê-la pelo fato de ser gentia. Isso é até certo
ponto compreensível, pois a promessa da vinda de Mashiach foi dada
primeiro ao Povo de Israel e só posteriormente deveria atingir ao povo gentio.
Porém, essa mulher ao chamar Yehoshua de filho de David, mostra que
possuía algum conhecimento das Escrituras e de certo sabia que a promessa
de Mashiach também chegaria aos não judeus. Ela devia conhecer a promessa
feita a Abraham que dizia que através de sua semente todos os povos da terra
seriam abençoados e foi provavelmente com essas palavras em mente que ela
teve coragem e fé para se aproximar dele.
Isso caracteriza duas coisas, ela não acreditava apenas que Yehoshua era
Mashiach e capaz de fazer milagres, mas mais do que isso, ela acreditava na
Torah, pois se não fosse pela fé que possuía na palavra de Deus, ser ou não
Mashiach se tornaria irrelevante e portanto ela não teria motivos para se
aproximar de Yehoshua. Então, essa fé que salvou sua filha, pela qual
Yehoshua a elogiou, seria uma fé mais no Tanakh do que na pessoa dele, pois
sem as escrituras, ela nunca o teria reconhecido.
Algo totalmente compreensível de uma perspectiva judaica, como
Ramban ensina:

Os maiores sinais e maravilhas vem pela fé no Criador e em toda a


Torah.
Ramban, Êxodo 13:16:1

De acordo com a percepção judaica sobre fé, a fé que essa mulher tinha e
a qual Yehoshua se referia, é justamente a fé em Deus e na Torah, pois foi
por ela que essa canaanita teve a ciência de reconhecê-lo através da sua
crença naquilo que está escrito. Claro que a fé em Mashiach é importante,
mas essa fé não tem base se antes não houver fé naquilo que fala sobre ele, as
Escrituras. Eu particularmente acredito que foi essa fé no Tanakh e no Deus
Único que salvou sua filha, ao invés de uma fé na pessoa de Yehoshua, da
forma como muitos entendem e ensinam.
Mas o que ainda não ficou claro é o motivo pelo qual Yehoshua foi tão
áspero com ela, passando uma imagem racista e fria em relação aos gentios.
Se entendermos que Yehoshua foi um rabino, educado segundo a Torah e as
tradições judaicas, ficará mais fácil de enxergamos o porquê ele agiu dessa
forma.
Dentro do rabinato, existe um costume muito forte em relação ao
tratamento que deve ser dado aos gentios que tentam de alguma forma se
aproximar do judaísmo, tanto para conversão, quanto para coisas simples
como um estudo ou explicação de algo relacionado a Torah, conforme
ensinado pela Torah Oral:

Prosélitos são tão duros para Israel quanto uma ferida.


Talmud da Babilônia, Tratado Yevamot 47b

Os juízes devem dizer a ele: O que te motivou a vir ao Povo de Israel?...


...Você não sabe o quanto o Povo judeu é perseguido?... ...Aceita o jugo da
Torah?
Talmud da Babilônia, Tratado Yevamot 47b

Esse capítulo do Tratado Yevamot trata da aproximação de gentios ao


povo judeu e de suas conversões, o judaísmo não é contra o proselitismo, mas
fortemente desencoraja o interessado a fazê-lo, pois são muitas regras a serem
observadas, portanto o Talmud estipula três perguntas que devem ser feitas
com o intuito de fazer o gentio a mudar de ideia, pois caso a pessoa se
converta e deixe de lado a Torah, segundo o próprio Talmud, ela se torna
como uma "ferida para Israel".
É de praxe muitos rabinos rejeitarem qualquer gentio que tente se
aproximar por três vezes, normalmente a primeira não dão atenção alguma ao
gentio, o rejeitando completamente, na segunda tentativa o rabino tende a
questionar seus motivos de forma crítica e na terceira ele refutará os motivos
apresentados pelo gentio. Caso esse gentio dê ao rabino respostas
satisfatórias, então esse rabino deve aceitar o que ele pede, pois isso prova
que existe um verdadeiro interesse.
Esse costume não engloba apenas a conversão, mas tudo aquilo que
envolve um gentio e um judeu, desde a conversão quanto a possibilidade de
frequentar uma sinagoga, aprender Torah e tudo referente a Israel.
Neste contexto, o encontro de Yehoshua com essa mulher gentia
reflete uma resposta natural de um rabino a um potencial novo seguidor
gentio. Como um bom rabino, Yehoshua rejeita a mulher por três vezes, a
primeira não respondendo, a segunda dizendo que ele veio apenas para o
povo de Israel e a terceira dizendo que o pão não deve ser dado aos
cachorros. Quando ele percebeu que a mulher se manteve fiel em sua crença,
ele aceita seu pedido.
A atitude de Yehoshua não foi uma atitude racista, mas foi de acordo
com aquilo estabelecido pelos costumes rabínicos, quando a mulher se
aproxima dele, ele de certo não estava com a intenção de não ajudá-la, mas
ele testou não só a fé dessa mulher, como também sua verdadeira intenção e
entendimento das Escrituras.
Aqui temos um exemplo claro de como Yehoshua era um rabino, sua
misericórdia recaiu sobre uma pessoa que possuía fé em Deus e
conhecimento da Torah Sagrada e por isso essa mulher teve sua filha liberta
da possessão demoníaca em que se encontrava.
Esse exemplo é muito útil, pois nos mostra como podemos atingir a
misericórdia e a bondade de Deus, a verdadeira graça.
◆◆◆
SEÇÃO XXX
CONECTAR

E eu lhe digo que você é rocha (‫ )אבן‬e eu construírei (‫ )אבנה‬sobre ti


minha BEIT TEFILAH. E os portões do Gehinam não prevalecerão perante
TI.
Pois eu lhe dou as chaves do Reino dos Céus. E tudo que você proibir na
terra será conectado no céu e tudo que você permitir na terra, será
desconectado no céu.
Mateus 16:18-19

ROCHA
Ao lermos as versões que foram traduzidas do grego, veremos um
trocadilho quase poético das palavras Pedro e pedra, porém como mostrado
no original, não foi bem isso que foi dito. É de comum consenso que essas
palavras de Yehoshua “deram” liberdade à igreja de Roma a dizer e a ensinar
que foi nesse momento em que Yehoshua criou a igreja, o que claramente
não é verdade.
Quando Yehoshua declara que Pedro seria a rocha, ele declara algo que
foi instantaneamente entendido pelo seu talmid, pois tais palavras nada mais
são do que uma terminologia rabínica muito usada quando alguém se torna
responsável por alguma coisa perante Deus, como por exemplo uma sinagoga
ou um grupo de estudos.

Quando o Bendito criou o mundo, Ele passou pelas gerações de Enoch e


do dilúvio, mas quando Ele viu que Abraham estava por vir, Ele disse:
“Olhe, achei a rocha na qual posso estabelecer o mundo”. Por tanto, Ele
chamou Abraham de “a rocha”.
Yalkut, Números 23:9

O hábito que os rabinos tinham de chamar de “rocha” todos aqueles que


criavam um linha de pensamento ou lideravam uma escola de Torah era
extremamente comum. A linguagem usada por Yehoshua simplesmente
definia que a nova comunidade messiânica a ser criada seria liderada por
Pedro. Não foi uma terminologia para fazer jogo de palavras com o nome de
Pedro, nem tão pouco palavras novas para a fundação de algo novo, no caso,
a igreja.
Um exemplo atual é justamente um dos maiores movimentos judaicos
ortodoxos do mundo na atualidade, chamado de Chabad-Lubavitch. Esse
movimento foi fundado sobre a “rocha” chamada Rabbi Menachem Mendel
Schneerson, também conhecido como Rebbe de Lubavitch, pois os membros
da Chabad seguem seus ensinos de Torah e sua visão sobre o judaísmo e
sobre a vida secular.

BEIT TEFILAH
Outro ponto crucial é aquilo que Yehoshua estabelece, não uma igreja,
mas sim uma Beit Tefilah, que obviamente é algo completamente diferente.
Uma Beit Knesset (Sinagoga) comum é basicamente a junção de uma Beit
Tefilah (casa de oração) e uma Beit Midrash (casa de estudo). Uma Beit
Tefilah tem duas funções, a primeira é que é ela que define a linha de
pensamento da sinagoga, se é ortodoxa, reformista, liberal, e através dessa
definição é que suas orações e rezas são estabelecidas. A linha que a sinagoga
segue é o que define a forma de oração, pois é através da oração que é
determinado a forma como as pessoas dessa comunidade se aproximam e se
relacionam com Deus.
O que Yehoshua define através de Pedro é a ideologia pela qual sua
sinagoga seguiria, em outras palavras, uma sinagoga messiânica, uma
comunidade que iria fazer orações através dos ensinamentos de Yehoshua ao
invés das orações já definidas por outros rabinos de sua época ou anteriores,
pois é a forma de oração que define o relacionamento do homem com Deus.
O que mais me intriga é que Yehoshua não cita nada a respeito de Beit
Midrash, o que mostra claramente que os estudo que são realizados em uma
sinagoga deveriam ser mantidos, ou seja, o ensinos da Torah Escrita e
daquilo que a Torah Oral ensina, quando não substitui a Torah Escrita, seriam
iguais a quaisquer outra sinagoga. Esses estudos deveriam ser mantidos como
já eram feitos em sua época, pois é na Torah que Deus se faz conhecido, é no
Tanakh que o Mashiach é profetizado e é na Torah Oral que se encontram
muitas explicações sobre a Torah Escrita.
Yehoshua não fundou igreja e nem tampouco outras religiões, mas sim
uma comunidade judaica que seguiria uma visão messiânica através dos
ensinos que ele trouxe. Tudo aquilo que já era costumeiramente ensinado foi
mantido. Infelizmente esse tipo de ensino é raramente visto em templos que
afirmam seguirem ao verdadeiro Yehoshua e é por isso que vemos tantas
igrejas serem engolidas pelo gehinam. Se tornar um seguidor de Yehoshua
exige primeiramente um entendimento dessas coisas.

CONECTAR E DESCONECTAR
Por anos esse texto tem sido alvo de muitas más interpretações. Como
Pedro foi considerado pela igreja católica como o primeiro papa, a igreja usa
muito desse texto para comprovar a autoridade que os descendentes em seu
cargo possuem, pois, segundo a igreja, essa autoridade foi passada para os
papas e através dela, eles fizeram o que todos sabem muito bem nesses
últimos dois mil anos.
Olhando para os verbos que ele usa nessa frase, dentro da mentalidade
judaica, vemos termos muito comuns. Nesse caso, o que temos como
“proibir” é LIKSHOR (‫)לקשור‬, que também pode ser traduzido como
“amarrar”, “linkar” ou “conectar”. No Caso de “permitir”, Yehoshua usa o
verbo LEHATIR (‫)להתיר‬, que também pode ser entendido como
“desembaraçar” ou “desconectar”.
Esses termos são muito usados pela Torah Oral quando se trata de
decisões legais, tanto likshor, quanto lehatir, eram usados para determinar o
que era permitido e o que era proibido em relação às Leis da Torah e é nisso
que devemos nos atentar.

Aquele que faz um voto de abstinência a leite é permitido (mutar – verbo


lehatir) comer coalho. Mas Rabbi Yose proíbe. Abba Shaul diz: “aquele que
faz um voto de abstinência a queijo, então é proibido (likshor), tanto salgado
quanto sem sal.
Mishnah Nedarim 6:5

Por toda a história, uma das funções mais essenciais do rabinato dentro de
uma comunidade é a interpretação das escrituras, tanto da Torah Escrita
quanto da Torah Oral. Podemos usar de exemplo a kashrut, a Torah
determina o que pode e o que não pode ser comido, existem também diversas
outras determinações em relação a ela que se encontram na Torah Oral,
porém se caso exista algum tipo de alimento que não é claramente tratado em
nenhuma das duas, cabe aos rabinos decidirem se é permitido ou proibido o
seu consumo.
Sobre eles estava a autoridade de permitir, ou conectar, e de proibir, ou
desconectar, pois essa “chave” lhes foi entregue pela comunidade ao qual eles
faziam parte. Ou seja, tais termos e tal autoridade é apenas sobre a
interpretação da Torah, a autoridade que foi dada a Pedro era sobre como
determinadas Leis deveriam ser seguidas, era ele que dava a palavra final
sobre qualquer dúvida que poderia existir dentro das Escrituras e tal
autoridade não poderia ser usada para decisões seculares, pois para esse caso,
a liderança estava com Yaakov, irmão de Yehoshua.
Essa autoridade não está com o papa, não está com os padres, nem com
os pastores, nem com os bispos, nem com os modernos “apóstolos”, assim
como com ninguém ligado a igreja, pois esses aboliriam a Torah, sendo
assim, tal poder de decisão é incoerente com a fé que professam. Fora que
Yehoshua prometeu essa autoridade a Pedro e não disse que ela seria herdada
por aqueles que o substituíssem.
◆◆◆
SEÇÃO XXXI
YOM KIPPUR

Nesse tempo disse Yeshua para Simon, chamado Pietros, se seu irmão
pecar contra ti descumprindo a Torah, o repreenda em privado. Se ele lhe
ouvir, você terá méritos pelo seu irmão.
E se ele não lhe ouvir, o repreenda perante outro, e se por todo
juramento ele não lhe ouvir, você adiciona mais um ou dois perante vocês,
sendo três testemunhas, pois com duas ou três testemunhas, a palavra será
estabelecida (TORAH)
E se com tudo isso ele ainda não ouvir, fale dele para a congregação e se
à congregação não ouvir, será banido como um que não respeita a Torah,
um inimigo e um cruel.
Amém (em verdade) eu digo a vocês que toda promessa que fizer na terra
será conectada no céu e toda promessa que for desfeita na terra será
desconectada no céu (KOL NIDREI)
E também eu digo a vocês que se quiserem dois dentre vocês trazerem
LASIM SHALIM nessa terra, tudo aquilo que pedirem, será de vocês pelos
céus.
E em todos os lugares, se dois ou três estiverem unidos sob meu nome, eu
estarei no meio deles.
Então se aproximou Pietros dizendo: meu senhor, se meu irmão pecar
contra mim, até sete vezes devo perdoá-lo
E lhe disse Yeshua: eu não lhe digo até sete, mas sim até setenta e sete.
Mateus 18:15-22

Eu decidi comentar essa parte porque, de acordo com o meu


entendimento particular, esse ensino ocorreu em uma época de Yom Kippur,
pois Yehoshua trata de temas típicos desse dia como o perdão, promessas,
repreensão e um termo oculto nas traduções, lasim shalim. Levantarei um a
um:

REPREENSÕES
A forma como Yehoshua aborda o Yom Kippur é exatamente como é
feito por qualquer rabino mundo afora, eles tratam de correções, quebras de
promessa, oferta e perdão, exatamente como aparece nesses versículos do
livro de Mateus.
O primeiro assunto abordado é justamente o mais delicado, pois corrigir
ao próximo é algo que muitos amam fazer, porém muito perigoso se não
soubermos uma forma correta de abordagem. Yehoshua é bem claro em
relação às atitudes das pessoas e mostra que há um limite para tudo nessa
vida, inclusive para receber o perdão de Deus. O indivíduo deve ser
repreendido por três vezes, a primeira em particular, a segunda com duas ou
três testemunhas e por último perante a comunidade, caso essa pessoa decida
se manter no erro ela deve ser lançada fora, fechando-lhe as portas para
seguir os caminhos do Criador, algo muito sério.

Existem diversas leis rabínicas em relação a como essa correção deve ser
feita e todas formuladas com base no seguinte versículo da Torah:

Não odiarás a teu irmão no teu coração; não deixarás de repreender o


teu próximo, e por causa dele não sofrerás pecado.
Levítico 19:17

“por causa dele não sofrerás pecado”, pois se você não corrigi-lo, você
poderá ser punido por causa dele.
Ibn Ezra, Levítico 19:17

Em relação a mitzvah de repreensão, a Gemara entende que pelo fato de


existir a repetição do verbo “hokhe’ah tokhiah” é derivado pelos sábios que
alguém deve repreender o próximo diversas vezes se necessário. Um dos
sábios disse a Rava que “hokhe’ah” é a correção particular que deve ser
feita uma vez, e “tokhiah” é a obrigação de fazer uma correção pública com
testemunhas e então com a comunidade, e depois disso não existirá mais
obrigação.
Talmud da Babilônia, Tratado Bava Metzia 31a

Olha que fantástico, Yehoshua ensina duas coisas de senso comum


rabínico, a primeira é a necessidade da repreensão, para que não sejamos
punidos por não termos corrigido ao próximo como determinado pela Torah e
o segundo é a própria interpretação desse versículo (o qual deve ser lido em
hebraico), nele, o termo "repreender" aparece duas vezes seguidas, sendo a
primeira representando a repreensão particular e a segunda a repreensão
pública, com testemunhas e perante a comunidade, dando um total de três
repreensões, depois disso, “não sofreremos mais pecado por causa dele” e
Yehoshua ensina justamente isso, a Torah segundo uma interpretação
totalmente rabínica.

YOM KIPPUR
Conta a Torah que, após o pecado do bezerro de ouro, Moises ora e Deus
concede perdão ao povo no dia dez do sétimo mês bíblico chamado Tishrei.
Por isso essa data se tornou a data MAIS IMPORTANTE de todo o
calendário da Torah.

E esse deve ser para você um estatuto eterno: No sétimo mês, no décimo
dia do mês, você deve afligir sua alma. E nenhum trabalho será feito pelo
cidadão e pelo estrangeiro que estiver entre vós.
Levítico 16:30

Apenas no décimo dia deste sétimo mês é o dia do perdão (YOM


KIPPUR) (apenas aos que se arrependerem será garantido o perdão). Um
chamado santo deve ser para você. E você deve afligir sua alma e presentear
a Adonai com uma oferta queimada.
Levítico 23:27

Sobre o Yom Kippur, o grande rabino Maimônides, conhecido como


Rambam, escreve: “É o dia de arrependimento para todos, para o indivíduo
e para a sociedade, é o tempo de perdão para Israel. Por isso todos são
obrigados a se arrepender e a confessar os erros em Yom Kippur.”
O perdão recebido no dia de Yom Kippur é muito mais profundo e
elevado do que um perdão comum, pois é nesse dia em que Adonai e Seu
povo se tornam um e essa é uma união intocável pelo pecado. Os rabinos
ensinam que a pessoa deve primeiro se arrepender e então presentear a Deus
com uma oferta.
Na época do segundo Templo, essa oferta que era apresentada a Deus
durante o Yom Kippur tinha um nome próprio, chamada de "oferta de paz".
No primeiro século, por muitas vezes, era muito difícil para muitos judeus de
todo território de Israel e da diáspora irem até a cidade santa para prestar esse
sacrifício, além das longas distâncias e altíssimos gastos, por muitas vezes o
próprio Templo não conseguia atender a todos, portanto, os sábios tiveram o
entendimento de uma outra possibilidade de oferta de paz e chamaram-na de
Lasim Shalim, sendo a palavra Shalim derivada da palavra Shalom, e que
pudesse ser feito quando a pessoa não tinha acesso ao Templo, o qual se
encaixa perfeitamente nos dias de hoje, pois o Templo não existe mais.

Beit Shammai diz: eles trazem Lasim Shalim em Yom Kippur e não põe
suas mãos sobre ele, mas não precisam trazer ofertas queimadas. Beit Hillel
diz: podem trazer ambas Lasim Shalim e a oferta queimada e podem colocar
suas mãos por sobre elas.
Mishanah Chagigah 2

Tanto a Beit Shammai quanto a Beit Hillel concordam com o Lasim


Shalim, claro que discordam da forma, mas ambos sabem o quão importante
para todo o povo observar esse dia tão sagrado, portanto os dois rabinos
concordam com o sacrifício não queimado fora do Templo.
Yehoshua claramente tinha conhecimento sobre esse outro tipo de oferta,
e não apenas o conhecia, como também confirmou sua observância e deu a
ela um nível de importância muito acima do que encontrado em toda
literatura rabínica, dizendo que aquele que, em Yom Kippur, presenteia a
Adonai com um Lasim Shalim, receberá dos céus tudo o que pedir.
Mas o que seria esse tipo de oferta nos dias de hoje? Só olharmos para a
Torah, ela diz que deve ser uma oferta que nos aflija, que no caso mais
comum, o próprio jejum. Hoje em dia, todos que seguem a Torah e acreditam
no Criador, observam esse dia em total jejum e arrependimento, e é
exatamente isso que Yehoshua estipula como condição para que sejamos
atendidos pelos céus.

KOL NIDREI
Outro ponto que devemos levar em consideração é a abordagem que
Yehoshua faz sobre promessas, de uma forma muito estranha, entre dois
temas nada relacionados com promessas, que são a correção e a oferta, ele
traz esse conceito à tona. O Yom Kippur não é apenas um dia sobre perdão e
arrependimento, esse dia santo possui uma terceira faceta que poucos
conhecem, que é justamente sobre as promessas que fazemos.
Em todas as sinagogas, na noite de Yom Kippur, no ínicio dos serviços,
uma declaração chamada de Kol Nidrei (do aramaico, Todas as Promessas) é
recitada por todos ali presentes e ela permite a anulação dos votos e
promessas feitas e não cumpridas.
A declaração usada nos dias de hoje foi composta em torno de 590e.c.
durante a inquisição espanhola, onde o rei Ricardo da Espanha forçou a todos
os judeus se converterem ao cristianismo e assim usavam o Kol Nidrei para
fazerem a quebra dessa promessa que fizeram ao se converterem, apesar do
texto lido ser mais atual do que Yehoshua, o conceito que ele representa é
muito mais antigo.
Dentro do judaísmo, tanto as promessas quanto os juramentos são de
extrema importância e a Torah é muito explícita nesse ponto. A mesma
afirma que uma promessa feita na terra não pode ser quebrada, portanto, antes
de receber o perdão de Yom Kippur, todos devem desligar nos céus as
promessas não cumpridas feitas na terra.
Yehoshua aborda justamente esse tópico já que estão falando de Yom
Kippur, perdão e oferta. Não seria surpresa falar sobre as promessas e pelo
que entendo de suas palavras, uma oração para “desligamento” de promessas
não cumpridas, além de necessária, é válida e funcional, por isso ele alerta
que tudo que prometemos será ligado nos céus, porém se a desfizermos em
um Yom Kippur, ela será desfeita nos céus. Isso é de extrema importância.
Segue o Kol Nidrei:

“Todos os votos, promessas, juramentos, as anátemas, as interdições, os


empenhos e os compromissos que a nós mesmos impusermos, seja por voto
solene, juramento, anátema ou auto-proibição, a partir desse Yom Kippur até
o próximo Yom Kippur, que vem a nós em paz – todos eles são declarados
sem valor e considerados completamente nulos, não ocorridos e inexistentes.
Nossos votos não são votos, nossas promessas não são promessas e nossos
juramentos não são juramentos.”

Por fim, fica claro a abordagem do tema perdão, quando Pedro pergunta a
Yehoshua quantas vezes devemos perdoar e, diferentemente das traduções
em português onde ele diz setenta vezes sete, ele responde que é até setenta e
sete, o qual não deixa de ser inúmeras vezes.

Devemos sempre manter em mente que Yehoshua era judeu, nunca


deixou de ser judeu, não fundou religiões, não foi hippie e acima de tudo,
nunca aboliu a Torah, muito pelo contrário, a seguiu fielmente, observando e
ensinando tudo nela contido, assim como o Yom Kippur.
◆◆◆
SEÇÃO XXXII
ANOKHI

E em todos os lugares, se dois ou três estiverem unidos sob meu nome,


ANOKHI (‫ )אנוכי‬estarei no meio de vocês (‫)בתוככם‬.
Mateus 18:20

Um dos maiores problemas que encontro em traduções de textos do Yvrit


tanakhi (hebraico antigo) é a falta que esse idioma tem de pontuação. Textos
provenientes do Tanakh, do Talmud, do Midrash e outros contemporâneos,
não utilizam vírgulas, aspas, dois pontos e etc. Isso causa alguns problemas,
pois o tradutor necessita uma boa percepção quando há uma mudança de
assunto ou quando uma citação de terceiros é feita. É bem verdade que
algumas versões mais atuais da Torah possuem algumas pontuações que
foram ali colocadas pelos rabinos, mas em outras fontes antigas, que
raramente passam por revisões, não é encontrado esse “facilitador” de
compreensão.
E não é diferente com o livro de Mateus em sua versão hebraica, o texto
sofre fortemente por falta de pontuação, a única que esse manuscrito possui é
o ponto final, o qual foi adicionado pela pessoa que fez sua cópia. Isso causa
enormes problemas para quem for traduzi-lo, pois uma única vírgula, ou a
falta dela, pode mudar completamente a interpretação do que está escrito.
Essa passagem que temos acima sofre justamente desse problema, o
tradutor que traduziu esse livro para o grego e depois para o latim, ao que me
parece, escorregou nesse ponto ao traduzir as palavras de Yehoshua acima.
Se olharmos nas versões ocidentais, teremos a impressão que essa é uma
afirmação, dando a entender que se dois ou mais estiverem reunidos no nome
de Yehoshua, ele estará no meio deles, mas na verdade, o que temos aqui não
é uma afirmação, mas sim um citação do que já foi dito. Ou seja, faltou o
“dois pontos” e as “aspas”, sendo o versículo 20 uma continuação do “eu vos
digo” do versículo 19.
O que eu estou querendo dizer é o seguinte:

E eu vós digo: “Em todos os lugares, se dois ou três estiverem unidos sob
meu nome, ANOKHI (eu) estarei no meio de vocês”.
Yehoshua não diz que ele estará no meio, mas ele faz uma citação de algo
que foi dito por “anokhi”, que “anokhi” estará no meio daqueles que
estiverem unidos sob O nome daquele que diz “anokhi”.

ANOKHI
A palavra “EU” em hebraico é ANI (‫)אני‬, tanto no antigo quanto no atual,
tanto no Tanakh quanto no Talmud. Esse termo é sempre o mesmo e sempre
foi usado da mesma forma, se referindo a primeira pessoa da singular.
Porém, na Torah, quando Deus fala “EU”, Ele não só usa a palavra ANI
(‫)אני‬, mas também a palavra ANOKHI (‫)אנכי‬, principalmente quando Ele fala
que Ele é Deus ou fala sobre algum de Seus atributos. Esse é um termo muito
usado por Adonai quando Ele fala algo na primeira pessoa do singular.
Existem alguns casos onde outros personagens na Torah usam anokhi para
falarem algo, como Avraham e Moises por exemplo, mas esse termo é
conhecido como algo quase exclusivo do Criador, pois é a primeira palavra
que aparece nos dez mandamentos.

Anokhi (Eu) sou seu escudo...


Genesis 15:1

Anokhi (Eu) sou Adonai, seu Deus, que lhe tirou da terra do Egito.
Êxodo 20:2

Anokhi (Eu) sou Adonai, seu Deus...


Deuteronômio 5:6

Esses mandamentos Anokhi (Eu) eu ordeno hoje em seu coração.


Deuteronômio 6:6

Veja, nesse dia Anokhi (Eu) coloco perante ti a benção e a maldição.


Deuteronômio 11:26

Anokhi é um termo curioso, existem alguns comentários a seu respeito


pela literatura rabínica.

Rabbi Yohanan disse que a palavra anokhi é uma abreviação de: Eu


mesmo escrevi e dei (ana nafshi ketivat iehavit). Outros dizem que é uma
abreviação de: uma declaração prazerosa foi escrita e dada (amira
ne’emanim ketiva iehiva).
Talmud da Babilônia, Tratado Shabbat 105a

Essa afirmação do Talmud fala sobre frases formuladas utilizando cada


letra da palavra anokhi, sendo que cada letra dessa palavra é usada como a
primeira letra das palavras que formam as frases citadas acima. Usando esse
tipo de pensamento, podemos também formar outra frase, mas dessa vez
usando as letras de forma invertida:

ANOKHI – Iehiva KHetiva Ne’emamim Amareha – “Foi escrito, foi


dado, suas declarações são fiéis.”

Essas declarações se referem justamente aos mandamentos da Torah. Por


um outro lado, existe um Midrash que explica a origem e o motivo do uso da
palavra Anokhi pela Torah, ele diz que essa palavra é de origem egípcia e
pelo fato do povo hebreu ter passado anos nas terras do Egito, o povo acabou
se acostumando com algum tipo de analogia entre Deus e a palavra Anokhi,
portanto Deus resolve se manifestar através dessa palavra, para que o povo
saiba o que está acontecendo. Porém o Midrash não explica se os egípcios
usavam essa palavra para se referirem de alguma forma a alguma divindade
que possuíam.

Rabbi Nehemiah disse: O que é “anokhi”? É uma palavra egípcia. Ao


que isso é comparável? A um rei, o qual teve seu filho capturado e mantido
por muito tempo com seus captores.
Midrash Tanchuma, Yitro 16:1

De qualquer forma, independente da origem da palavra ou do que ela


significa, o fato é que na mentalidade popular, o uso desse termo
automaticamente remota à Torah e as palavras ditas diretamente por Deus.
Por todo o livro de Mateus, a palavra EU, na forma ANI (‫)אני‬, aparece 111
vezes e em apenas uma única situação, o EU aparece como ANOKHI (‫)אנכי‬.
Essa única vez acontece exatamente no versículo que estamos analisando.
Isso mostra que ele, Yehoshua, não falava de si mesmo, pois para tanto, ele
usaria a palavra ANI (‫)אני‬, da forma como vem usando por todo o livro.
Quando Yehoshua cita Anokhi, ele remete às palavras de Adonai, pois a
outra palavra que ele diz, “estar no meio de vocês”, na forma como aparece
em Mateus, B’TOKH’KHEM (‫)בתוככם‬, é exatamente a mesma usada por
Deus no livro de Levítico quando Ele promete que estará para sempre no
meio do Povo de Israel:

Eu estarei para sempre presente em seu meio (B’TOKH’KHEM -


‫)בתוככם‬, Eu serei seu Elohim e vocês serão meu povo.
Levítico 26:11

Se colocarmos pontuação e usarmos o que vimos sobre Anokhi,


poderemos ler esse versículo sob outra perspectiva:

Yehoshua disse que Adonai diz: “Em todos os lugares, se dois ou três
estiverem unidos sob O meu nome, Anokhi (eu, Adonai) estarei no meio vós.”

Eu não tenho a intensão de desqualificar nenhuma crença a respeito da


presença de Yehoshua, ou jesus para alguns, no meio daqueles que se reúnem
em seu nome. A minha intenção com esse estudo é verificar os termos que ele
usou para fazer tal afirmação.
De certo, quando Yehoshua andou nessa terra, em suas orações, ele não
buscava a sua própria presença, pois se esse fosse o caso, qual a necessidade
que ele teria de orar? Ou de buscar a Deus? Se fosse sua presença o que
importava, então ele seria autossuficiente, sem necessidade nenhuma de
Adonai. Porém, nós vemos o contrário nas atitudes dele, por inúmeras vezes
ele se retira e entra em oração a Deus. Yehoshua ensina a orar a Deus
buscando Sua presença, em nenhum instante ele orienta a ninguém a orar
para ele, mas sim, para orar apenas para o Pai, que está no céu. Era a presença
do Pai que ele buscava e era sobre a presença do Pai que ele ensinava,
portanto, acredito eu que, quando ele fala sobre presença, é a aquela presença
que ele sempre ensinou e buscou.

Esse é o meu ponto.


◆◆◆
SEÇÃO XXXIII
SHALEM

Nesse tempo disse Yeshua a seus talmidim: o Reino dos Céus é como um
rei que se assenta para fazer um levantamento com seus servos e ministros.
E quando começam a fazer o levantamento, vem um que deve dez peças
de ouro.
E ele não tem nada para dar e seu senhor ordena que ele seja vendido
junto com seus filhos e com tudo aquilo que ele possui para pagar (‫)לשלם‬
esse valor.
E o servo cai perante seu senhor e pede para que seja misericordioso
com ele e lhe dê tempo, pois pagará (‫ )ישלם‬todo o saldo devedor.
E então seu senhor teve pena dele e lhe perdoou todo o débito.
E saiu o servo e encontrou outro que lhe devia cem peças de prata e lhe
agarrou e o atacou e então disse:
Confie em mim e tenha paciência comigo, eu pagarei (‫ )אשלם‬tudo.
E ele não estava querendo ouvi-lo, então levou-o a prisão até que tudo
fosse pago (‫)שלם‬.
E viram os servos do rei o que foi feito e se enfureceram muito e foram
contar ao senhor deles.
Então o senhor chamou-o e disse lhe: servo maldito (ARUR), não lhe
perdoei de toda dívida que tinhas comigo?
Então porque não perdoou o servo quando ele lhe suplicou, assim como
eu lhe perdoei?
E seu senhor se irou com ele e comandou que fosse afligido até que todas
suas dívidas fossem pagas (‫)ישלם‬.
Assim fará a vocês o meu Pai no céu se não perdoarem ao homem e ao
seu irmão de coração completo (‫)שלם‬.
Mateus 18:23-35

Essas passagens servem como mais um prova do livro de Mateus ter sido
escrito em hebraico, o jogo de palavras que o autor usa, representando as
palavras de Yehoshua, é algo bem típico da língua hebraica e podemos vê-la
na repetição de palavras que possuem a mesma raiz. Esse repetição de
palavras provenientes da raiz (‫ם‬-‫ל‬-‫ )ש‬acontece seis vezes, sendo cinco delas
representando alguma conjugação do verbo “pagar” e a última, a conclusão
de seu ensino, o coração completo, coração Shalem (‫)שלם‬.
Uma das táticas de interpretação da Torah é o estudo de repetições de
palavras ou de termos que possuem a mesma raiz. Temos aqui um típico
ensino que diz mais do que os olhos podem ver. De uma forma direta, essas
passagens mostram algo que vai além do simples perdão, ensina caráter,
ensina que nenhum pecado cometido contra nós é maior do que os que
cometemos todos os dias contra Deus e, assim como Ele perdoa nossas
enormes falhas, devemos perdoar ao próximo as pequenas coisas que fazem
contra nós.
Para irmos um pouco além, devemos olhar os termos que se repetem,
assim será possível encontrar um significado além do que temos como
habitual. A raiz (‫ם‬-‫ל‬-‫ )ש‬pode formar diversas palavras com significados
diferentes.

- PAGAR (‫)לשלם‬
- COMPLETAR (‫)להשלים‬
- PAZ (‫)שלום‬

Uma outra palavra dessa raiz é SHALEM (‫)שלם‬, essa palavra aparece
em algumas passagens pelo Tanakh:

E Malkitzedek, o rei de Shalem, trouxe pão e vinho...


Genesis 14:18a

Shalem é o antigo nome da cidade de Jerusalém. Malkitzedek foi uma


pessoa de extrema importância em sua época, pois ele era um sacerdote do
Deus Vivo, ele conhecia os mandamentos divinos e as leis sobre sacrifício
muitos anos antes da Torah ter sido entregue ao Povo de Israel. O
interessante é que ele já conhecia a santidade que possuía a sua cidade, a
cidade de Shalem, na qual ele era rei. Os patriarcas, Avraham, Yaakov e
Itzhak, em algum momento de suas vidas, também tiveram alguma ligação
com esse lugar.

E Yaakov veio a Shalem, uma cidade de Shekhem, a qual esta na terra de


Canaã, quando ele veio de Padam-Aram e armou sua tenda defronte a
cidade.
Genesis 33:18
Jerusalém, Yerushalaim em hebraico, possui um significado que vai além
de cidade santa, ela representa o coração completo, o “coração shalem”,
como podemos ver:

O coração completo, é chamado de YeRuSHaLaiM (‫ – )ירושלים‬pois onde


tem YRah (‫ – ירא‬TEMOR), tem SHaLeM (‫ – שלם‬COMPLETUDE).

YR + SHLM (‫ ירא‬+ ‫ = )שלם‬YeRuSHaLaiM (‫)ירושלים‬.


Likutey Moharan 22:10:19

Se entendermos o “coração shalem”, “coração completo”, o qual Yehoshua


se refere, como um “coração Yerushalaim”, teremos as “entre linhas” dessa
mensagem. A palavra Shalem pode também ser entendida como
Yerushalaim. Yerushalaim, por sua vez, significa que a “completude” só é
possível através do “temor” a Deus. Ou seja, Yehoshua alega que o perdão de
Deus apenas será dado ao homem que perdoar ao próximo pelo temor a Deus
que ele tem no coração, se o perdão for dado por algum outro motivo, ele não
será válido perante os olhos do Criador.
Mas o que seria esse temor? Os sábios ensinam:

Shalem (completude) está nas mãos dos céus, exceto o Yrah (temor) aos
céus.

Essa é uma alegação muito profunda, ela ensina que tudo está no controle
de Deus, nossas vidas, nossos futuros, o que faremos ou deixaremos de fazer,
exceto a decisão de temer ou não a Deus, de aceitá-Lo ou de negá-Lo em
nossas vidas, todo o resto será decidido por Ele conforme essa escolha. Esse é
o verdadeiro livre arbítrio, essa é a única escolha que nos foi dada, um sim ou
um não a Deus.
Um coração shalem nada mais é do que um coração de alguém que
escolhe servir e seguir aos cominhos de Deus, aquele que perdoa por temor
aos céus é aquele que dá o perdão por amor, que esquece toda a ofensa, que
não guarda mágoas nem rancor e que transforma o antigo relacionamento em
algo novo. O verdadeiro perdão só é dado por aqueles que tem o coração
quebrantado por Deus, pois apenas essas pessoas conseguem chegar a um
nível espiritual suficientemente elevado para conseguirem perdoar
verdadeiramente ao próximo, pois a técnica do perdão verdadeiro, não faz
parte das características humanas, é um atributo dado por Deus àqueles que O
temem. Sendo assim, a mensagem de Yehoshua vai além do perdão, ele
afirma a necessidade de temermos a Deus, de seguirmos Seus caminhos e
Leis e através disso, receberemos de Deus a capacidade de perdoar ao
próximo verdadeiramente.
Uma passagem do livro de Salmos confirma isso. Apenas o coração que
teme aos céus pode se tornar capaz de perdoar, pois apenas esse coração pode
ser habitado pelo Deus Altíssimo:

Em Shalem está seu tabernáculo e o lugar de sua habitação em Zion.


Salmos 76:3

Um “coração shalem” é onde o tabernáculo de Deus repousará, aqueles


que não tiverem um coração nesses conformes, “será afligido nessa vida até
que todas as dívidas sejam pagas”. O recado é: escolher temer aos céus é a
única forma de termos uma vida sem aflições, em paz, em SHALOM, pois só
assim saberemos perdoar.

Não se trata de perdão, mas sim, de temor.

ARUR (‫)ארור‬
Existe um termo nessas passagens que chamou minha atenção, a palavra
ARUR (maldito) usada para se referir ao servo. Esse é um termo pouco usual,
e um tanto pesado, para chamar alguém de maldito. A palavra arur aparece
algumas vezes pelo Tanakh, sendo ela a primeira palavra que Adonai lança
sobre a serpente na história do Jardim do Éden. Se olharmos para a raiz da
palavra ARUR, veremos qual será o destino daqueles que não possuem um
“coração shalom”, que não escolhem o temor aos céus.
A raiz de ARUR (‫ )ארור‬são as letras ‫ר‬-‫ר‬-‫ א‬as quais podem ser
relacionadas com a raiz ‫ר‬-‫ר‬-‫ע‬, e que pode significar desolado, sem
companhia de outros, sem conexão com o futuro, sem prazer.
Yehoshua ensina que aqueles que não escolherem os caminhos de
Deus, não escolherem temê-Lo e por consequência, não souberem perdoar,
terão uma vida desolada, sem prazer, sem verdadeiros amigos, sem futuro, ou
seja, sem uma vida no OLAM HABAH e no final de tudo, seu nome será
esquecido, sendo apenas mais um número embaixo do céus. Nasceu, cresceu,
morreu e fim. Isso é confirmado no versículo 34, no qual Yehoshua diz que
tais pessoas serão afligidas, essa é a aflição que sofrerão.
É de extrema importância entendermos os termos utilizados, pois são
eles que, de uma forma indireta, explicam o ensino. O ensino sobre o perdão
é óbvio e claro a quem lê, mas entender que o perdão está vinculado ao
temor aos céus, a uma vida reta segundo os mandamentos de Deus e quem
não chegar lá terá uma vida desolada, só é possível quando nos aprofundamos
nos conhecimentos de Deus e de Sua Torah.
◆◆◆
SEÇÃO XXXIV
UMA SÓ CARNE

E lhes respondeu: não leram que foram feitos nos tempos antigo macho e
fêmea?
E disse: portanto deixa o homem a seu pai e a sua mãe e se junta a sua
mulher e serão uma só carne.
Por isso, eles não são dois, pois são uma só carne. E o que junta o
Criador, homem não consegue romper.
Mateus 19:4-6

Adonai criou na imagem digna Dele; Ele criou o homem numa forma
digna por parte de Deus; Ele os criou macho e fêmea.
Genesis 1:27

Esse menção da Torah que Yehoshua faz se dá durante uma discussão


entre ele e alguns fariseus sobre o porquê Moises autorizou ao homem dar
carta de divórcio a esposa. Claramente e como já visto anteriormente,
Yehoshua é contra o divórcio e suas ideias a esse respeito andam lado a lado
com os ensinos da escola Beit Shammai, sendo esse o único tópico em que
ambos concordam.
Apesar de óbvio o que Yehoshua ensina, sobre aquilo que Deus une
homem algum pode separar, a passagem que ele cita do livro de Genesis tem
um peso muito grande dentro da cultura e mentalidade judaica.
Todas as criaturas foram criadas macho e fêmea, essas criaturas,
independente do sexo, são autossuficientes, não necessitando da parte oposta
para se completarem. A sexualidade no mundo animal se dá apenas para a
reprodução e propagação da espécie, sendo que o macho só procura a fêmea
no momento do acasalamento.
Segundo os sábios, o mesmo não ocorre com o ser humano. O primeiro
homem foi criado como um ser híbrido, ele tinha em sua natureza tanto o
macho quanto a fêmea. Quando Deus resolve criar Eva, tirando de Adam
uma de suas costelas, Ele remove de Adam parte de sua essência, parte de sua
existência e ser. Isso torna a mulher parte do homem e não apenas um sexo
oposto, algo muito diferente no que temos no reino animal.
Isso é comprovado no livro de Genesis, capítulo 2:
‫ויאמר יהוה אלהים לא טוב היות האדם לבדו אעשה לו עזר כנגדו‬
E disse o Adonai Elohim Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei
uma ajudadora-opositora a ele.
Genesis 2:18

Não sei se lhe pareceu estranho a forma como traduzi esse versículo,
mas mantive um termo que não aparece em nossas bíblias tradicionais, algo
que não estamos acostumados a ler. Graças aos nossos tradutores e milhões
de revisores, podemos ter acesso a uma bíblia que tenta ser coerente, mesmo
ao custo daquilo do que ela realmente nos quer ensinar.
Mas deixando os tradutores de lado e focando mais nas estranhezas da
linguagem bíblica como no versículo acima, no momento em que Deus
resolve criar a mulher, segundo o texto original, Ele cria uma ajudadora que
também é opositora. Antes que tiremos qualquer conclusão disso, Rashi irá
nos ajudar com um de seus comentários sobre essa passagem:

“Se o homem for digno, então sua mulher será uma azar (‫ )עזר‬-
ajudadora, mas se for indigno, então ela será um k´negdo (‫– )כנגדו‬
opositora”.
Rashi, Genesis 2:18

O comentário de Rashi é muito legal, mas me deixa na dúvida. Se o


que Adam realmente precisava era uma ajudadora, então por que Deus criou
também uma opositora?
Acredito que esse termo caracteriza bem o papel da mulher na vida do
homem, uma esposa não é como uma geisha japonesa por exemplo, alguém
que diz amém para tudo, que está sempre elogiando o marido e servindo
como um troféu na estante. Uma esposa genuína precisa saber dizer “não”
quando necessário, se tornando assim uma k´negdo para benefício do próprio
marido, caso contrário, ambos estarão vivendo uma grande ilusão.
Assim como “opositora”, k’negdo pode também significar “oposto”,
“outro lado”, assim como a esquerda é oposta a direita e ambas se
completam, a mulher é o oposto do homem, pois é o outro lado dele, o lado
que lhe falta.
HOMEM, MULHER E O CRIADOR
Portanto um homem deixa seu pai e sua mãe e se junta a sua mulher, e
eles se tornam um só carne.
Genesis 2:24

A afirmação de Yehoshua que homem nenhum pode separar o que


Deus juntou, parece um pouco estranha, pois quantos casamentos, algo que
supostamente Deus juntou, não acabam em separação?
Na verdade, eu acredito que essa afirmação vem através de algum
conhecimento que Yehoshua possuía. Ele não afirma que nenhum casamento
pode acabar, pois é esse casamento foi algo que Deus juntou, ele afirma que o
que Deus junta, homem nenhum pode separar, é diferente. Vamos ver:

Entre as palavras hebraicas para homem – ISH (‫ – )איש‬e mulher –


ISHA(‫)אשה‬, existe uma pequena diferença. Na palavra homem, temos a letra
YUD (‫)י‬, enquanto na palavra mulher, temos a letra HEI (‫)ה‬, o restante de
ambas as palavras são iguais (‫)אש‬. Ao juntarmos as letras HEI (‫ )ה‬e YUD (‫)י‬,
as quais diferenciam ambos os termos, teremos um dos nomes de Deus, HAI
(‫)הי‬.
Se tirarmos o YUD (‫ )י‬da palavra ISH (‫ )איש‬e o HEI (‫ )ה‬da palavra
ISHA (‫)אשה‬, simbolizando uma remoção de Deus da vida de um casal,
ambas as palavras se tornarão a mesma palavra, ESH (‫)אש‬, que significa
FOGO.
Em outras palavras, o ISH (‫ – )איש‬homem – e a ISHA (‫– )אשה‬
mulher – só podem se tornar verdadeiramente uma só carne quando HAI (‫)הי‬
– Deus – estiver no meio deles, caso contrário, a vida desse casal será apenas
ESH (‫ – )אש‬fogo – um verdadeiro inferno. Eu acredito que seja a isso que
Yehoshua se refere, o casamento que homem nenhum pode separar, é o
casamento que tem HAI no meio do casal, e não a qualquer casamento.

O LADO MÍSTICO DO HOMEM E DA MULHER


As palavras de Yehoshua, quando diz que “homem não consegue romper”
se referindo a união de um homem e de uma mulher, do macho e da fêmea,
me lembrou fortemente de alguns profundos e místicos ensinamentos no livro
Zohar HaKadosh, o qual também faz parte do Talmud.
O Zohar é muito delicado de se abordar e seu entendimento muito difícil,
portanto vou citar apenas alguns pontos que fazem referência ao tema em
questão.

“No início criou Elohim” é um segredo antigo, chamado de Chochmah


(sabedoria) que nesse caso foi chamado de “início”. O termo “criou” alude
a um segredo escondido, do qual tudo que existe se expandiu. O significado
desse segredo de Elohim é o que mantêm tudo que existe abaixo. O termo
céus (que está no plural) alude a união do macho e da fêmea, e é proibido
separá-los, mas deve-se combiná-los, pois eles são o segredo da voz e da
emanação do YUD – HEI – VAV – HEI – ADONAI, o qual é UM.
Zohar HaKadosh 1:15b

Esse texto faz parte de um livro proibido de ser estudado sem auxílio de
um mestre. Não quero me prender a todo o texto, mas se observarmos, ele faz
a mesma menção de Yehoshua sobre a união feita por Deus, do macho e da
fêmea, e da proibição de separá-los.
Segundo essa passagem, quando a Torah, em seu começo, ensina que
Deus criou os céus (plural) e a terra, de uma forma mística, esses “céus” não
representam apenas o céu físico, o céu dos anjos, o céu da habitação de Deus
e etc. Pois quando Deus começa a criação relatada na Torah, Ele já possuía
uma “habitação”, assim como os anjos. Sendo assim, esses “céus” que Ele
cria não são os céus que normalmente somos ensinados a respeito.
Os céus que ali estão, na verdade, é o conceito de macho e fêmea, algo
que vai além de do sexo de cada um, mas um conceito único e muito
profundo. Então, quando Deus cria os céus (conceito macho e fêmea), Ele
põe nesse conceito Sua Voz e a EMANAÇÃO de Seu Nome mais profundo,
o tetragrama, pois como Deus representa a verdadeira vida, vemos a vida
acontecendo através do macho e da fêmea, pois é através dessa criação
(macho e fêmea) que toda a vida na terra, em todos os reinos, se propaga, se
mantém e é gerada. Em outras palavras, a vida que esse Nome gera, o qual
emana pelo macho e pela fêmea, é o poder de Deus para que todos os seres
gerem vidas e se procriem, gerando filhos. Isso representa os “céus” criados
em Genesis 1:1.
É o relato de um dos poderes de Deus, o poder de trazer a vida,
sendo elucidado e chamado de “céus”, e então colocado nas mãos do
“conceito macho e fêmea”.

Em seguida, nos é ensinado que é proibido separá-los, isso porquê o


macho e a fêmea foram criados um e sempre serão um, até que em um
determinado momento da história, o próprio Deus resolve fazer uma
separação física desse conceito, criando a mulher à partir do homem. Quando
ambos se unem novamente, trazendo de volta à realidade deles aquilo criado
por Deus e onde emana o Nome acima de todos os nomes, a obra criativa de
Deus volta à suas origens. Por outro lado, quando há uma separação, essa
base onde está esse Nome é quebrada e a emanação de Deus deixa de existir
nessa realidade.
Por isso, o casamento deve ser definitivo, e casar pensando que se não der
certo existe o divórcio é entrar com o pé esquerdo em um ambiente santo.
Essa quebra traz consequências desastrosas em diversas áreas da vida. Eu
acredito que os ensinos de Yehoshua sobre união, de alguma forma, giravam
em torno dessa mentalidade.
◆◆◆
SEÇÃO XXXV
O HOMEM POBRE

E chegou a ele um rapaz e o reverenciou, dizendo: rabi, o que é bom


fazer
para se obter a vida eterna?
E respondeu a ele: o que se refere a bom? Não existe homem bom, pois
EL apenas é bom. E se quiser entrar na vida eterna, guarde as MITZVOT.
E disse a ele: quais são? E disse Yeshua: Não matarás, não roubarás,
não falará falso testemunhos contra seu vizinho.
Honre seu pai e sua mão e ame seu próximo como a ti mesmo.
E disse lhe o rapaz: tudo isso já observo, mas o que ainda me falta?
E Yeshua disse a ele: se quiser ser perfeito, vá e venda tudo o que é seu e
dê aos pobres e terás tesouro no céu e me siga.
E quando ouviu o rapaz, foi-se embora. Pois ele NÃO possuía muitas
propriedades.
Mateus 19:16-22

BOM
Essa é a famosa história do “homem rico”, o qual preferiu abandonar a
vida eterna em prol às suas supostas muitas riquezas. O mal uso dessa
passagem fortaleceu a crença cristã da necessidade da pobreza para se obter a
vida eterna, tal engano levou muitas pessoas para longe daquilo que Deus
queria dar a elas e enriqueceu a igreja romana durante quase toda a história
moderna. Nem a bíblia e nem Deus são contra posses e dinheiro, o que são
contra é justamente aquilo que o dinheiro representa para aqueles que o tem,
tornando-o muitas vezes um deus.
Acho importante olharmos para essa passagem com outros olhos,
olhos mais voltados ao judaísmo do século primeiro para podermos encontrar
um sentindo que pode ser muito mais profundo do que o usual que
encontramos no texto através de uma leitura simples.
Vamos prestar atenção na pergunta, o jovem questiona o que é BOM
fazer para se obter a vida eterna. Essa é um pergunta muito comum no meio
farisaico da época e de alguns meios ortodoxos atuais. Esse ideia de
perguntar sobre “o que é bom fazer” é um questionamento que deve ser feito
dentro de cada um, é um questionamento pessoal desenvolvido pelos rabinos
com base no livro de Miquéias, porém, pelo que podemos observar em
algumas passagens do Talmud, e no próprio livro de Mateus, ele foi
vastamente popularizado e acabou sendo usado em um sentido um pouco
distorcido daquilo que o rabinos queriam dizer.

Ele te disse, ó mortal, o que é bom e o que Adonai exige de você: faça
justiça, bondade e ande em modéstia perante seu Elohim.
Miquéias 6:8

A ideia inicial desse questionamento era justamente uma auto-análise


sobre se a vida de cada um está de acordo com aquilo que é bom, ou seja,
com os mandamentos. Porém o entendimento popular gerou, através desse
ensino, uma busca de mandamentos que seriam “bons” para garantirem uma
passagem direta para a vida eterna. Tais pessoas eram chamados pelos sábios
de “fariseus calculistas”, pois ficavam calculando o próprio mérito de acordo
com cada mandamento que cumpriam, algo como “jogar na cara” de Deus a
observância daquilo que Ele nos manda observar.
Devemos prestar muita atenção na resposta de Yehoshua, o primeiro
ponto que ele aborda é justamente aquilo que seria “bom”, de certo Yehoshua
sabia muito bem o que o rapaz queria dizer, mas o criticou de uma forma bem
rabínica pela forma que usou o termo “bom”. Como se Yehoshua dissesse:
“porque você usa “bom” dessa forma?”
Yehoshua claramente se opôs a sugestão do rapaz que afirmava que a
vida eterna seria obtida através de certos “mandamentos bons”, ou seja,
mandamentos observados para a obtenção da vida eterna, como se houvesse
um grupo de mandamentos específicos para isso. Essa mentalidade faz com
que o indivíduo busque mandamentos para seguir com o intuito de obter vida
eterna, outros, ele os segue para obter cura, outros servem para problemas
financeiros e assim por diante, o que, apesar de muito comum, não é uma
verdade bíblica. Yehoshua, assim como muitos rabinos de sua época, se
opunha fortemente a ideia de que existem níveis de mandamentos. Como já
vimos em outras passagens, os mandamentos leves são tão importantes
quanto os mandamentos pesados, por isso devemos ter muito cuidado com os
pequenos, para que não erremos nos grandes. Não existe um mandamento
“bom” para garantir ao homem a vida eterna, pois TODOS os mandamentos
são bons e devem ser observados, não para a vida eterna, mas pelo simples
fato de serem a vontade do Criador.
Em todas as religiões, inevitavelmente, existem pessoas que seguem ao
objeto de sua fé pelo puro e simples fato de esperarem por algo em troca,
alguma recompensa por parte do divino. Tanto no judaísmo quanto no
cristianismo, tal mentalidade não é diferente, por isso que não só Yehoshua,
como também diversos rabinos são totalmente contra tal comportamento.

Abençoado é o homem que se devota grandemente aos Seus


mandamentos.
Salmos 112:1

Abençoado é o homem que se devota aos Seus mandamentos e não às


recompensas de Seus mandamentos.
Talmud da Babilônia, Tratado Avodah Zarah 19a

Não sejam como servos que servem a seu mestre para receberem um
recompensa, mas sejam como servos que servem a seu mestre não pela
recompensa.
Pirkei Avot 1:3

Nessa ensino de Yehoshua, a maior lição que podemos tirar, muito mais
do que algo referente ao dinheiro per se, é a importância das mitzvot, todas as
mitzvot! Elas devem ser observadas por obediência e não como uma moeda
de troca e barganha com Deus. De acordo com Yehoshua, mesmo aquele que
observa à todas as mitzvot não é merecedor da vida eterna, observá-las é
apenas parte de nossa obrigação, a vida eterna é um dom gratuito de Deus.
Rabbi Hillel possuía o mesmo ponto de vista:

Se você observou muitas mitzvot (se você cumpriu muita Torah), não
pense que você tem algum mérito (que você mereça alguma recompensa),
pois obedecê-la (Torah) é o motivo pelo qual você foi criado.
Pirkei Avot 6:7

Não existe mandamento especificamente “bom” para algo, assim


como não existe homem algum bom, apenas EL, mais ninguém. Obedecê-Lo
plenamente é a ÚNICA coisa boa que podemos fazer para nós mesmo, sem
esperar nada em troca.

HOMEM RICO, HOMEM POBRE


Sem dúvida alguma esse rapaz que se aproxima de Yehoshua era um
conhecedor e observante da Torah, só pelo fato de reconhecer a Yehoshua
como rabino mostra que ele sabia muito bem aquilo que estava perguntando,
mas o interessante é a aparente surpresa que ele tem ao se deparar com a
resposta do rabino.
Yehoshua aborda um determinado grupo de mandamentos da Torah,
aqueles que são referente aos mandamentos “Homem x Homem”, que são os
mais difíceis de seguir e com as piores consequências caso sejam quebrados.
O relacionamento entre irmãos, para a Torah, é o segundo principal motivo
de sua existência, o primeiro é para que saibamos quem é Deus. O amar ao
próximo sobre todas as coisas é a representação de todos os mandamentos
referentes ao relacionamento entre homens, sem eles, o amar ao próximo é
inalcançável.
O rapaz, por ser uma pessoa inserida em um meio judaico, responde que
ele já observa a tudo isso e então, Yehoshua aborda um outro tema totalmente
diferente, já não fala mais de mitzvot, mas sim, de acúmulos de tesouros no
Reino dos Céus e é agora que entra uma outra confusão. Como já abordado
anteriormente, o Reino dos Céus não se trata do pós-vida ou da era de
Mashiach, mas sim a era a qual vivemos hoje, com acesso irrestrito a Deus, à
Sua palavra, à Sua verdade, uma era em que o mundo inteiro sabe ao menos o
que é uma bíblia. O que Yehoshua está dizendo é que, para sermos perfeito,
devemos nos atentar aos mandamentos de Deus, não nos apegarmos a bens
materiais e devemos seguir a Mashiach, assim juntaremos tesouros, tesouros
muito bem explanados em Levítico 26, tesouros que possuiremos e os
viveremos aqui nessa vida, para que possamos nos alegrar e entendermos o
verdadeiro intuito de Deus quando nos criou.
Por fim, apesar das traduções aos idiomas ocidentais tratarem o homem
como uma pessoa rica, no original, esse homem não possuía muitas
propriedades, o fato não é o rico ter dificuldades de entrar do céu, mas sim
qualquer um que tenha algum apego a bens materiais, seja ele rico ou pobre.

A abordagem que apresento aqui é muito diferente da tradicional,


Yehoshua não é contra a riqueza e nem faz apologia a pobreza, mas sim ao
fato do individuo ter apegos a bens materiais, indiferente de sua classe social.
A vida eterna é garantida àqueles que procuram obedecer a Torah por amor e
não por recompensas, tendo tanto cuidado com os mandamento leves como
com os sérios. Devemos servir a Deus por amor para que possamos agradá-
Lo, quem procura o mandamento “bom”, procura apenas o que é bom para si
mesmo.
A tzedakah, apesar de ser algo de extrema importância, tanto na Torah
quanto na vida do judeu, não é o ponto principal do ensino de Yehoshua
nesse caso, ele aborda um ensino que se espalhou erroneamente em seus dias
e se tornou algo popular na mentalidade dos judeus do século primeiro, que é
a busca da salvação através de determinados mandamentos.
O rapaz também ilustra o interior de todo ser humano que, de alguma
forma, acaba se apegando demais a bens materiais, deixando muitas vezes de
lado a importância de se obedecer ao Criador, por isso que Yehoshua alerta
diversas vezes sobre o amor ao dinheiro e não ao fato de possuir dinheiro. E
por fim, ele fala sobre os grandes tesouros que teremos em vida, que são
parte da promessa de Deus àqueles que obedecem a Sua Torah.
Vamos olhar para a Torah e para o Talmud para termos alguns
exemplos daquilo que fez parte da educação, conhecimento e ensino de
Yehoshua:

E não terás outros deuses perante mim.


Êxodo 20:3

Onde aparece o termo “outros deuses”, é uma tradução incorreta e deve


ser traduzido como “outros ídolos”, sendo tudo aquilo que tenha mais
importância que Adonai.
Chizkuni, Deuteronômio 11:16

Você deverá observar minhas Leis e meus Estatutos, aqueles que as


buscarem, viverá; Eu sou Adonai.
Levítico 18:5

Esse versículo explica que as Leis e os Estatuto trazem vida àqueles que
os praticam. Vida nesse mundo e no mundo vindouro. Quem se agarrar no
profundo da Torah de Adonai irá apreciar vida eterna e nunca morrerá.
Ibn Ezra, Levítico 18:5

Os comentários rabínicos deixam muito mais claros aquilo que Yehoshua


vem ensinando sobre a Torah, primeiramente tudo aquilo que assume um
papel mais importante do que Adonai em nossas vidas, se torna um deus,
como nesse caso, o dinheiro.
Já o segundo comentário confirma a obediência a Torah para se obter a
vida eterna e não a alguns determinados mandamentos ou alguns tipos de
regras comportamentais que são definidas por homens.
◆◆◆
SEÇÃO XXXVI
ASHIR

E disse Yeshua a seus talmidim: amém (em verdade) eu digo a vocês que
é difícil um rico entrar no Reino dos Céus.
E ainda lhes digo que é mais fácil um camelo passar pelo olho de uma
agulha do que um homem rico entrar no Reino dos Céus.
E ouviram os seus talmidim e ficaram muito impressionados e disseram a
Yeshua: Se é assim, quem pode salvá-los?
Ele se virou dizendo: contra os homens, todas as coisas são difíceis, mas
contra Elohim todas as coisas são fáceis.
Mateus 19:23-26

Assim que o rapaz vai embora, Yehoshua vira para seus talmidim e
afirma que o acesso ao Reino dos Céus para os ricos é muito difícil. Claro
que a interpretação tradicional sobre os ricos tem muita validade, mas para
darmos continuidade a linha de pensamento usada até aqui, uma busca de
sentidos mais detalhados sobre essa explicação se faz necessária.
Para tanto, devemos olhar para o termo hebraico que Yehoshua usou para
se referir a uma pessoa rica, a palavra é ASHIR (‫)עשיר‬, que em uma tradução
direta realmente significa rico, porém essa palavra é usada pelos rabinos no
Talmud para se referirem a alguém mesquinho, ligado às coisas que o
dinheiro pode trazer. Acredito que Yehoshua, por também ser um rabino, usa
dessa terminologia não se referindo às pessoas financeiramente abastadas
mas sim, àquelas ligadas emocionalmente aos bens materiais.
Vejam só que interessante, Yehoshua não alega que essas pessoas irão
queimar no Gehinam, como muitos ensinam, mas sim que elas não farão
parte do Reino dos Céus. Isso implica que pessoas que servem ao dinheiro,
sendo gananciosas, idólatras ao trabalho, pessoas que tem necessidade de
posses, de poder e de bens, nunca poderão fazer parte do verdadeiro Povo de
Israel, nunca conseguirão conciliar suas vidas com a Torah eterna, nunca
poderão ver e vivenciar ao Criador e assim, de certo, não farão parte do Reino
de Mashiach e isso é um pouco mais profundo do que simplesmente queimar
no Gehinam.
Infelizmente homem nenhum pode ajudar ou salvar alguém que seja
assim, apenas Deus, porém Deus não salva a todos, Ele é bem seletivo, salva
apenas aqueles que Ele quer salvar, devemos ter isso sempre em mente, para
que isso nos motive a andarmos em Seus caminhos.

OLHO DA AGULHA
Muitas coisas que Yehoshua fala parecem desconexas ou novos conceitos
que ele formulava. A igreja católica sempre ensinou da importância de uma
vida simples, sempre prezou a pobreza, ensinou o quão pobre era jesus, como
era importante que os que queriam a salvação deveriam ser pobres. Tal ideia
é totalmente compreensível devido as palavras de Yehoshua, ao fazer uma
comparação de um rico entrando no Reino dos Céus com um camelo
passando pelo olho de uma agulha, algo impossível.
Mas interessante, será mesmo que uma pessoa que é rica não pode servir
a Deus verdadeiramente e ter um coração voltado a Ele? Isso é muito
estranho, assim como nenhuma folha cai da árvore sem que seja vontade do
Criador, ninguém fica rico que não seja pela Sua vontade. Ai vem a questão,
estaria Deus condenando essas pessoas ao permitirem que elas tenham
dinheiro? Acho bem difícil que esse seja o caso.
As palavras de Yehoshua aparentemente não deixam sombra de dúvida,
mas será isso mesmo que ele está dizendo sobre pessoas que possuem
dinheiro e bens materiais? Para sabermos a verdade, vamos dar uma olhada
em uma passagem bem parecida da Torah Oral:

Rava disse: Saiba que se esse for o caso, nunca é mostrado ao indivíduo
uma palmeira de ouro ou um elefante passando pelo olho de uma agulha em
um sonho, pois sonhos tratam da mente do indivíduo.
Talmud da Babilônia, Tratado Brakhot 55b

O costume rabínico de comparações de animais passando por “olho de


agulha” não era novidade para nenhum dos ouvintes de Yehoshua, pois a
Torah Oral já usava tais termos.
Essa parte do Talmud, a qual fala do elefante passando pelo olho da
agulha, está abordando temas referentes a mente humana e como ela é afetada
por fatores externos. A mente é uma coisa muito interessante tanto na Torah,
quanto na mentalidade rabínica, ela é o que muitos chamam de “coração” no
mundo ocidental. Quando Deus fala através do coração, na verdade é na
mente que Ele está falando, a fé que está no coração é algo definido pela
mente. A mente é o que chamamos de coração, tudo acontece através dela e é
justamente nesse conceito que devemos nos apegar para entender o que
Yehoshua e os rabinos de sua época ensinavam quando se referiam ao termo
citado acima.
Quando Yehoshua fala do “olho da agulha”, ele automaticamente se
refere a mente humana, de uma forma que é rapidamente associada às ações
da mente que tratam do “coração”. A alegação que o rico terá dificuldades em
entrar no Reinos dos Céus, ele não se refere ao rico que possui muito dinheiro
e muitas posses, mas ele se refere àquele rico que tem a riqueza dentro da
MENTE, dentro do CORAÇÃO. Pessoas que vivem para o dinheiro, ganho
pessoal, trabalho, sucesso, fama, ter carro caro, possuir mansões, conquista
financeira e todas as coisas do gênero, terão verdadeira dificuldade de
entrarem, pois um coração voltado a esses planos de vida, dificilmente terão
tempo e disposição para servirem a Deus.
Quando seus talmidim perguntam: “quem poderá salvá-los?”, Yehoshua
não responde nada a esse respeito, apenas diz que todas as coisas para os
homens são difíceis, mas fáceis para Deus e fim de papo, dando um
impressão que a salvação poderá nunca alcançá-los.
◆◆◆
SEÇÃO XXXVII
FIGUEIRA

E viu uma figueira perto da estrada e foi até ela e não encontrou nela
nada o além de folhas e disse a ela: não sairão nunca mais de ti frutos. E a
figueira secou imediatamente.
E viram seus talmidim e ficaram maravilhados e disseram: como a
figueira secou imediatamente?
E respondeu a eles Yeshua, dizendo: se houvesse fé em vocês, sem
nenhuma dúvida, não apenas a figueira faria, mas também se dissessem a
esse monte para partir e fosse para o mar, iria.
E tudo que pedirem em Tefilah com Emunah, receberão.
Mateus 21:19-22

A história da figueira relatada acima é bem conhecida pelos cristãos. Esse


fato ocorreu em um dia que Yehoshua teve fome e se aproximou de uma
árvore a procura de figos, ao não encontrá-los, ele amaldiçoa a figueira, a
qual seca imediatamente.
Acredita-se que esse incidente gerou uma lição sobre fé. Seus talmidim,
ao verem tal acontecimento, ficam estarrecidos e questionam a Yehoshua
como isso é possível e ele ensina que fazer tais coisas é possível a qualquer
um à partir do momento que fosse pedido através de Tefilah com Emunah.
Esses dois termos deixei em hebraico propositalmente, pois suas traduções
não revelam o profundo significado que cada um tem e acredito ser
importante dar uma atenção especial a ambos.

Tefilah
A tradução para tefilah seria oração ou reza, porém essa definição é
horrivelmente imprecisa. Uma oração trata de duas entidades distintas
estabelecendo uma comunicação, sendo uma delas inferior, fazendo um
pedido a uma superior. A palavra para isso em hebraico seria bakashah, do
verbo LEVAKESH (‫ – )לבקש‬pedir. Por outro lado, também existe o termo
SHEVACH (‫)שבח‬, que significa “adoração”. A tefilah é justamente a junção
desses dois conceitos, uma ligação de um ser inferior com um ser superior
através da adoração. Uma melhor palavra para definir tefilah seria
“comunhão”.
Tefilah nada mais é do que o despertar de um amor oculto dentro do
coração daquele que ama ao Criador através de uma “conversa” com ele, até
que o estado de união seja alcançado. A tefilah é o que torna os mandamentos
na vida de alguém algo vivo e prazeroso. Isso difere muito da reza
tradicional.

Emunah
Emunah, traduzido como “fé”, é algo que vai muito além disso. O
conceito básico de fé é aquilo que a pessoa crê mesmo sem vê-lo. Mas
entender a Emunah como algo que simplesmente se acredita é desvalorizar
seu real significado, pois como o rei Salomão disse, “os tolos também
acreditam”.
A Emunah é uma percepção da verdade que transcende a razão e isso só
vem através de três coisas, sabedoria, entendimento e conhecimento, por isso
que é dito que a fé vem pelo ouvir da palavra, pois sem esses três fatores
sobre a Torah, a fé nada mais será do que uma crença de tolo. Quando uma
pessoa tem a verdadeira Emunah, ela sente que o que ela acredita faz parte
intrínseca de sua própria existência, a ponto de, caso negue essa Emunah, ela
estaria negando a sua razão de existir. É muito mais profundo do que
acreditar em algo que não se vê.
Com essas definições fica mais fácil de entender o quão difícil é aquilo
que Yehoshua ensina.

Apenas aquele que que possui uma comunhão íntima com o Criador,
fazendo dela a verdadeira razão de sua existência nessa terra, é que vai
conseguir TUDO o que pedir.
A FIGUEIRA
A figueira nessa história não foi por acaso, pois ela tem uma
representação muito forte que pode ser associados com tefilah e emunah.
Para entendê-la é necessário entrarmos novamente naquilo que formava a
base dos ensinos e fé de Yehoshua, a Torah Oral.
Mas para que eu possa fazer uma associação mais profunda, vamos olhar
para um outro caso onde “figueira” aparece no livro de Mateus:

Da figueira aprendam pela mishnah, quando verem os ramos e sobre


eles as folhas, saibam que
Estão próximos aos portões.
Mateus 24:32-33

Nas traduções ocidentais, aonde deixei o termo original mishnah,


podemos encontrar palavras como “parábola” ou “lição”. Se repararmos bem,
isso é intrigante, pois a “parábola da figueira”, conforme o capítulo 24 do
livro de Mateus (acima), não é relatada nesse momento. Fora esse versículo
acima, o outro caso que vemos uma "figueira" é na historinha que vimos
anteriormente sobre a figueira que secou e ela não é uma parábola, então, o
que seria essa "parábola da figueira" de que Yehoshua fala? A sua afirmação,
na verdade, não é “parábola”, mas sim uma menção sobre a Torah Oral, onde
famosas mishnot sobre figueiras são relatadas.
Existem três coisas que devemos reparar, o que é a figueira, o que é o
fruto da figueira e o que significa os ramos e folhas, conforme mencionados
por ele.

Figo
Rabbi Hiyya Bar Abba disse que Rabbi Yohanan disse: qual o significado
do que está escrito: “aquele que guarda a figueira, comerá de seus
frutos”(Pv 27:18)? Por que as coisas da Torah são comparadas ao figo?
Assim como um pessoa que procura figos para comer e acha figos na
figueira, pois a figueira não está seca, assim é com a Torah. Toda vez que
uma pessoa meditar sobre ela, ele achará nela novos segredos.
Talmud da Babilônia, Tratado Eruvin 54a/54b

Segundo a Torah Oral, o fruto da figueira representa justamente a Torah e


aquilo que sai dela. Assim como qualquer um que procura figo, o encontra na
figueira, também será com a pessoa que procura segredos sobre Deus na
Torah, sempre os encontrará. O Talmud faz outra analogia:

Assim como o figo é um fruto que sempre se acha, também o fruto da


Torah sempre será achado pela pessoa que buscá-lo nela.
Ein Yaakov, Eiruvin 5:9

Ein Yaakov é uma compilação de materiais do Talmud junto a seus


comentários, o qual ensina que assim como aquele que tem fome e busca os
frutos da figueira, os quais dão sempre, aquele que busca a Deus sempre O
encontrará quando buscá-Lo na Torah.
Figueira
Por que a figueira é comparada à quem estuda a Torah? Pois
diferentemente de outras árvores, nas quais seus frutos podem ser colhidos
de uma só vez, o figo deve ser colhido pouco a pouco. Assim como quem
estuda a Torah, hoje ele estuda um pouco e amanhã mais um pouco, pois ela
não é aprendida em um ano ou dois.
Midrash Tanchumah, Pinchas 11:1

A meu ver, esse ensino do Midrash Tanchumah é fantástico. Ele compara


a pessoa que estuda a Torah com a própria figueira, pois para se tornar uma
árvore que sempre dê frutos, deve-se estudar sempre a Torah para dar frutos.
Assim como a figueira dá frutos aos poucos, aquele que estuda da Torah
também dará frutos aos poucos, pois é algo que transforma a vida e o
caminhar da pessoa, que são coisas que vem um passo por vez.
O Talmud confirma isso com uma passagem bem mística, porém
impressionante:

Aquele que sonha com uma figueira, recebe um sinal que a Torah está
dentro dele.
Talmud da Babilônia, Tratado Brakhot 57a

Se juntarmos tudo o que aconteceu em Mateus capítulo 21, teremos duas


respostas, a primeira é o porquê da figueira secar e o segundo é como teremos
nossos pedidos atendidos.
A figueira que Yehoshua secou era uma árvore que não dava fruto.
Primeiramente, como vimos acima, devemos entender que para ser uma
figueira, devemos estudar a Torah, essa figueira que secou pode ser vista
justamente como alguém que conhece a Deus e a Sua palavra e, apesar de ser
uma árvore bonita e pomposa, se não gerar frutos, ou seja, se não gerar
Torah, de nada essa árvore serve para Deus. Não adianta servir a Deus, alegar
que acredita em Yehoshua e ler a bíblia, se a vida não gerar frutos de Torah, a
pessoa se tornará seca.
Por outro lado, quando alguém conhece a Deus, tornando-se assim uma
figueira e começar a gerar frutos de Torah, esse alguém terá comunhão com
Deus. Sua vida e seu comportamento serão verdadeiras adorações ao
HaKadosh Baruch Hu, assim realizando tefilah. Então, quando os caminhos
da Torah se tornarem parte essencial de sua vida, ele receberá a verdadeira
emunah, chegando no ponto em que tudo o que pedir, receberá.
O ensino de Yehoshua sobre “fé” está totalmente conectado com aquilo
que acontecia a sua volta. O figo é a Torah, a figueira é aquele que segue a
Torah e aquele que atingir a ambos, a Emunah e a Tefilah virão.
Quem conseguir entender, que entenda.

Folhas e Ramos
Por último, em uma outra ocasião relatada no capítulo 23, tratando sobre
o fim dos tempos e a desolação que virá sobre o mundo antes da vinda de
Mashiach Ben David, Yehoshua usa novamente o exemplo da figueira.
Porém ele não fala sobre seus frutos e sim sobre folha e ramos, e ainda cita
que isso é conforme uma mishnah.
Eu acredito que Yehoshua se refere a um ensino da Torah Oral que
também foi compilado por Rabbi Eliezer em seu livro sobre comentários das
mishnot da Torah Oral. Rabbi Eliezer foi um grande sábio e discípulo do
grande Rabbi Yochanan Ben Zakai.
Rabbi Eliezer explica qual a associação ramos e folhas de uma figueira
tem com o fim dos tempos, assim como Yehoshua mencionou:

Rabbi Eliezer disse: quando os frutos da figueira sumirem e ficar apenas


uma árvore seca e então quando começarem a produzir ramos e folhas
frescas, esse é o sinal que não haverá mais mal, não haverão mais pragas e
não haverão mais infortúnios, como foi dito: “Eu crio novos céus”.
Pirkei Rabbi Eliezer, 51:3

Essa afirmação de Rabbi Eliezer é muito profunda e se enquadra bem


com as palavras de Yehoshua. É através desse rabino que poderemos ter um
aprofundamento sobre o que foi ensinado no livro de Mateus.
Rabbi Eliezer afirma que, quando NÃO houver mais frutos na figueira e
quando ela voltar a produzir folhas e ramos novos sem citar frutos, será um
sinal que em breve não haverá mais nada de ruim. Essa ideia do mal, das
pragas e dos infortúnios deixarem de existir se refere justamente a era de
Mashiach, ao fim dos tempos.
Interpretando as palavras desse rabino através do que vimos até aqui, a
era de Mashiach, o fim dos tempos, será anunciado quando as pessoas que
“conhecem” e “seguem” a Deus (figueiras) não produzirão mais frutos
(Torah), pois não acreditam na Torah ou acham que ela foi abolida. Serão
árvores bonitas, cheias de ramos e folhas novas, passando a impressão que
são árvores abençoadas, enquanto da verdade, não servem para nada.
Hoje vemos muitas igrejas e comunidades que são enormes, tem o serviço
que mais parece um show, líderes cheios de palavras bonitas, que nada mais
são do que armadilhas aos que aprendem com ele. Tudo o que ensinam geram
os frutos errados, uma figueira gerando maçãs é uma abominação, pois
deixaram a Torah de lado.
Era esse o sinal ao qual Yehoshua se referia, será que estamos sendo
testemunhas dessas figueiras em nossos dias?
◆◆◆
SEÇÃO XXXVIII
ASSASSINOS E MERETRIZES

Naquela mesma noite, disse Yeshua aos seus talmidim: qual a visão de
vocês? Existia um homem que tinha dois filhos, se aproximando de um, disse-
lhe: vá meu filho, hoje você trabalhará na minha vinha.
E respondeu: não tenho vontade. Mas depois disso, se arrependeu e foi.
E disse ao outro a mesma coisa, o qual respondeu: eis me aqui meu
senhor, e não foi.
Qual dos dois fez a vontade do Pai? E lhe disseram: o primeiro. E disse-
lhes Yeshua: amém (em verdade) eu digo a vocês que os assassinos e
meretrizes precederam a vocês no Reino dos Céus.
Yohanan veio a vocês ensinar o caminho Tzadik (TORAH) e não
acreditaram nele. Os assassinos e as meretrizes acreditaram nele, vocês
viram isso e não fizeram Tshuvah. Também depois de tudo, ainda não
acreditam nele. Quem tiver ouvidos para ouvir, ouça.
Mateus 21:28-32

Essa pequena parábola tem um contesto simples, o filho que diz


“não” e depois muda de ideia, representa aquele que conhece a palavra de
Deus, mas decide não ouvi-la, levando uma vida conforme acha melhor, até
chegado um tempo que, percebe o erro e se arrepende.
Já o filho que diz “sim” e depois não vai, representa aquele que vive um
vida “santa” para os outros verem, mas por dentro é mau e nunca fará uma
verdadeira Tshuvah.
Porém, por mais uma vez, se compararmos o original com as traduções
ocidentais, vemos que perdemos al gumas revelações conectadas aos termos
que aparecem como “assassinos e meretrizes”. Tais termos já possuíam
significados ocultos dentro do judaísmo. Pelo fato da parábola citar uma
vinha e vinha representa Israel, gostaria de propor uma interpretação
diferente à essa parábola.

GENTIOS
Essa talvez seja a parte mais delicada de todo o livro de Mateus para se
expor. No capítulo 32, onde Yehoshua cita assassinos e meretrizes, a
interpretação mais comum que existe por ai é que o judaísmo proibia
conversão de pessoas que praticavam tais atos. Assassinos e prostitutas eram
proibidos de se converterem ou até mesmo de se arrependerem e buscarem
conserto para seus caminhos.
Mas eu acredito que isso não tenha sido o que Yehoshua quis dizer, eu
leio esse versículo e o imagino sendo ensinado de uma forma muito irônica,
irônica ao ponto de ser uma crítica pela mentalidade ridícula e repreensível de
alguns rabinos e sábios de sua época, e a qual, infelizmente, dura até os dias
de hoje em algumas comunidade judaicas.
Dentro da gíria praticada por alguns péssimos rabinos, o termo
“assassino” faz referência ao homem gentio, já o termo “meretriz” à mulher
gentia. Em algumas comunidades eram ensinados que todos os homens
gentios são assassinos e todas as mulheres gentias são prostitutas. Tal
pensamento lixo aparece no Talmud em alguns versos que foram anulados
por algumas comunidades judaicas pelo mundo, o que mostra extremo bom
senso. Não acho necessário colocá-las aqui, pois esse é não o intuito.

Em versões modernas do Talmud, essas passagens não são mais


encontradas, foram excluídas pelas comunidades judaicas há muitos anos, são
definições pobres feitas por rabinos esquecidos que não representam a
mentalidade e a fé judaica.
A meu ver, Yehoshua sabia disso e de uma forma indireta, ele diz que
aquelas pessoas que eles diminuem com apelidos pejorativos, os gentios no
caso, serão aquelas pessoas que farão Tshuvah de coração, pois serão elas que
darão verdadeiros ouvidos à palavra de Deus.
Eu vejo muito mais gentios voltados a Deus, amando-O e buscando-O do
que muitos judeus ortodoxos, que vestem uma máscara de santidade, mas por
dentro são traiçoeiros. Os verdadeiros assassinos e as verdadeiras meretrizes
são aqueles que se escondem atrás da santidade, ou como Yehoshua define,
os hipócritas.
Pela graça do Criador podemos encontrar verdadeiros seguidores de
Deus, dentre os gentios, dentre os judeus e dentre os ortodoxos. Não podemos
julgar um grupo pelas palavras ou atitudes de apenas um ou outro indivíduo.

Eu acredito que agora fica mais fácil de interpretar o exemplo que


Yehoshua deu. A vinha representa Israel, o primeiro filho que fala não, são
como os assassinos e as meretrizes que, a princípio agem mal, mas como
possuem um coração voltado a Deus apesar dos pesares, acabam indo
trabalhar, acabam se arrependendo e fazendo Tshuvah.
Já o segundo filho, o qual diz que vai, é como os que vestem a máscara da
santidade, mostram uma fidelidade a Deus, dizendo sim a tudo, mas quando
chega a hora que devem fazer algo, pulam fora.
Você deve se perguntar, por que eu associei o assassino e a meretriz aos
gentios já que, na época de Yehoshua, a Torah e o conhecimento sobre o
Deus de Israel ainda não tinham alcançado às nações, como poderiam eles
terem dito “não” e depois disseram “sim”?

O Santo, Bendito Seja, antes de dá-la a Israel, ofereceu sua Torah à


todas as nações e povos de todas as línguas, mas todos a recusaram.
Talmud da Babilônia, Tratado Avodah Zarah 2a

Segundo o Talmud, Deus, em algum momento da história ofereceu a


Torah aos gentios e eles a negaram, sendo aceita apenas pelo povo hebreu.
Então, segundo meu entendimento, esses gentios, que seriam os “assassinos e
meretrizes”, que um dia falaram não à Torah, estão agora retornando ao seus
caminhos e verdadeiramente indo trabalhar na vinha depois de muitos anos.
Por outro lado, muitos dos filhos de Israel que disseram sim, acabaram não
aceitando a Torah verdadeiramente.
◆◆◆
SEÇÃO XXXIX
DEUS DOS VIVOS

Neste dia, lhe chamaram os saduceus e os que não acreditavam na


ressurreição dos mortos e lhe perguntaram,
dizendo: rabi, disse-nos Moises que quando dois irmãos habitam juntos e
um deles morre, o qual não tem filho, o irmão deve tomar sua mulher e dar
continuidade em sua semente.
E eis que no meio de nós haviam sete irmãos e o primeiro tomou para si
mulher e então morreu sem deixar semente, então seu irmão tomou para si
sua mulher.
Assim com o segundo, o terceiro e ainda o quarto.
E depois a mulher morreu.
Já que ela foi de todos, ela será mulher de qual deles?
E respondeu Yeshua e disse a eles: vocês erram e não entendem os livros
e o poder de Elohim.
No dia da ressurreição, os homens não tomarão mulheres para si e nem
mulheres a homens, apenas serão como os anjos de Elohim que estão no céu.
Vocês não leram que, na ressurreição dos mortos, disse Adonai a vocês,
dizendo:
Eu Sou Adonai, Elohei Abraham, Elohei Itzhak e Elohei Yaakov. Por isso
não há Elohim dos mortos, mas Elohim dos vivos.
E ouviu a multidão e ficaram espantados com sua sabedoria.
Mateus 22:23-33

O clássico entendimento desse ensino é a refutação que Yehoshua faz


sobre a crença dos saduceus, os quais não acreditavam na ressureição dos
mortos. De uma forma um tanto irônica, eles abordaram Yehoshua e fizeram
uma pergunta que, a meu ver, foi um tanto maliciosa, pois qual seria o
interesse deles sobre algo que não acreditavam? Quem não crê em alguma
coisa, não demonstra interesse sobre ela, apenas a repudia.
Usando a lei do levirato (Deuteronômio 25) como exemplo, eles
questionam a Yehoshua sobre a vida após a morte, levando-o a declarar que
Deus não é Deus dos mortos e sim Deus dos vivos, dando a entender que
mesmo depois da morte, a pessoa contínua viva, não existindo a “morte
eterna” da forma como eles acreditavam.
Essa interpretação é extremamente correta a meu ver e não poderia ser
mais verdade, pois para Deus esse conceito de “vivo e morto” não existe, mas
sim o conceito “encarnado e desencarnado”, para Ele nenhuma alma morre
ou deixa de existir, tornando-O assim o Eterno Deus dos eternos vivos.
Porém existe algo curioso sobre a pergunta que Yehoshua faz no meio
dessa conversa, “vocês não leram que, na ressurreição dos mortos, disse
Adonai a vocês”. O Tanakh possuí diversos ensinos sobre ressurreição,
principalmente pelas bocas dos profetas, porém nenhum deles está
relacionado com o termo “Elohei Avraham, Elohei Itzhak, Elohei Yaakov”, e
da forma como Yehoshua o apresenta em seu ensino, nos mostra que essa
associação que ele faz, seria algo “a ser lido”.
Aonde será que essa associação, que pode ser lida, foi feita?

ELOHIM DOS MORTOS, ELOHIM DOS VIVOS


Yehoshua poderia muito bem ter usado um versículo de algum profeta
para falar sobre a ressurreição e como ela procederia, dessa forma teria
conseguido dar exatamente o mesmo recado e refutado a crença dos
saduceus. Porém os saduceus, por apenas acreditarem na Torah e não no
Tanakh, fizeram com que Yehoshua abordasse essa lição em livros que não
tratam diretamente de ressurreição e portanto, ele teve que ligar uma
passagem da Torah com algumas tradições de sua época que eram bem
conhecidas por todos, pois esse era o único jeito de ir contra a fé deles usando
o livro que eles acreditavam.

EU SOU, Ele disse, “o Elohim de seu pai, Elohei Avraham, Elohei Itzhak,
Elohei Yaakov”. E Moises escondeu sua face, pois estava com medo de olhar
para Adonai.
Êxodo 3:6

Deus quando aparece pela primeira vez a Moises, no meio da sarça


ardente, se apresenta de uma forma como se estivesse mostrando seu
Curriculum. Dentre diversas maneiras que Ele poderia se revelar como Deus,
como por exemplo, o Criador de todas as coisas ou o Deus que te salvou
durante sua infância, Ele prefere se apresentar dizendo primeiramente que é o
Deus de Amram (pai de Moises) e então o Deus dos patriarcas.
Esse é um versículo que possuí inúmeros comentários dos sábios, dentre
os muitos temas abordados, alguns se assemelham muito com o que
Yehoshua está falando:

“Eu Sou o Elohim de seu pai”, ao dizer essas palavras, Deus revelou a
Moises que seu pai já tinha morrido, pois temos uma tradição de que Deus
não associa seu nome aos vivos, já que não sabemos se essa pessoa
abandonará os caminhos de Deus antes que morra.
Chizkuni, Êxodo, 3:6

É necessário aqui uma análise cuidadosa para que um entendimento entre


o ocorrido com Moises, as palavras de Yehoshua e a tradição rabínica, sejam
coerentes.
O rabino Hezekiah Ben Manoah, o Chizkuni, em um de seus comentários,
menciona uma tradição antiquíssima dentro dos ensinos rabínicos, que é a
crença de que Deus não associa seu Nome aos vivos. Essa tese aparece em
diversos outros ensinos e comentários por toda a literatura rabínica. A meu
ver, quando Yehoshua cita que Deus não é Elohim dos mortos e sim Elohim
dos vivos, ele está se referindo justamente a essa mentalidade. Essa ideia de
Deus não associar Seu Nome aos vivos pode não ser boa, pois poderia afastar
muitas pessoas de um relacionamento íntimo e verdadeiro com Deus
enquanto vivas, algo que colocaria uma grande frustração naqueles que
possuem um amor ao Criador, pois poderiam pensar que nunca teriam uma
aproximação maior com Deus.
Mas interpretar dessa forma gera mais perguntas, pois os três patriarcas
citados por Yehoshua, Avraham, Itzhak e Yaakov já estavam mortos, tanto na
época dele quanto na época que Deus aparece a Moises, o que deixa essa
ideia ainda mais confusa.
O rabino Naftali Zvi Yehuda Berlin, também em um de seus comentários,
nos ensina algo muito interessante e que também fazia parte dos
conhecimentos dos antigos, algo que sustenta o entendimento que Yehoshua
tinha em relação ao dilema do Deus dos mortos e dos vivos.

Deus foi o escudo de Avrahan Avinu na guerra e em todos os lugares,


pois mesmo sem um rabino, passava noites e dias em busca da Torah, a qual
vinha de seus “rins”. E com Itzhak, Deus foi seu sustento, abençoou seu
trabalho e foi um imigrante em paz, pois dedicou sua vida a oração e às
mitzvot. E com Yaakov, graças a suas tzedakot e seus estudos em suas tendas
(Torah), Deus cuidou dele e deu um novo significado a seu nome.
Esse é o significado de Elohei Avraham, Elohei Itzhak e Elohei Yaakov,
pois cada um teve um caminho perante Deus e foram todos cuidados por Ele.
HaAmek Davar, Êxodus 3:6:1

Essa linha de pensamento é incrível e é bem provável que Yehoshua se


associava com ela. Ela ensina que Deus cuidou dos três patriarcas, de
Avraham, foi seu escudo durante as guerras, de Itzhak, foi seu sustento e de
Yaakov, Deus deu um novo significado a sua existência, lembrando que tudo
isso foi devido a observância dos mandamentos de Deus.
Não precisamos de muitos estudos para entendermos que todas essas
graças de Deus nas vidas desses três homens vieram enquanto eles estavam
vivos e não mortos, e por essa graça que lhes foram dada em vida, eles são
reconhecidos até os dias de hoje. Ou seja, Deus fez a grande obra enquanto
vivos e não mortos.
O que Yehoshua pode se referir aqui é que Deus se faz conhecido
associando Seu nome e Sua Chessed (graça) na vida dos vivos, pois é através
deles que Ele se faz reconhecido por todas as gerações.
Outra prova para refutar essa ideia era a forma como o próprio Deus fala
com o Povo de Israel:

Shma Israel: Adonai é o vosso Elohim, Adonai é Um.


Deuteronômio 6:4

Nessa passagem, dentre muitas outras, Elohim se associa com seus


ouvintes, o Povo de Israel, formado por uma multidão que ouvia essas
palavras enquanto viva, tornando-a ligada com Deus, pois assim como ele
disse ser “Elohim de seu pai” para Moises, agora ele diz: “VOSSO
ELOHIM” ao povo Dele.
É fantástico, alguns versículos acima, Yehoshua diz que eles erram e não
entendem os “livros”, nos revelando que seu ensino, nesse caso, iria contra
alguma tradição rabínica que ele não concordava. O termo usado por ele,
“livros”, se refere então à Torah Escrita, pois era o único livro que o saduceus
acreditavam. Yehoshua refuta uma tradição rabínica usando a própria Torah.
E como citado acima, mesmo que a pessoa esteja morta, estará morta na
carne, pois para Deus, tanto no Olam Hazeh quanto no Olam Habah, todos
estão vivos, não existe a ideia de “fim após a morte”.

DEUS DE AVRAHAM, DEUS DE ITZHAK, DEUS DE YAAKOV


Outra coisa interessante é que Deus não se apresenta como “Elohei
Avraham, Itzhak e Yaakov”, mas se apresenta como “Elohei Avraham,
Elohei Itzhak e Elohei Yaakov”. Com isso, ensinam nossos sábios que, se
pudéssemos perguntar para cada um deles quem foi Deus, teríamos três
respostas diferentes sobre o mesmo Deus.
O conceito do nome Elohim terminar com “IM” (plural de palavras
masculinas no hebraico) denota a relação pessoal que cada um tem com
Deus, como cada um O vê e como cada um O entende. Nunca haverão duas
pessoas com exatos mesmos conceitos sobre o Criador, pois Elohim é único
para cada um que O serve.
Por outro lado, o nome Adonai (tetragrama) é imutável e representa a
essência do Criador, esse é a forma como Ele mesmo se define, superando
qualquer conceito que o ser humano possa criar a Seu respeito.
Um cuidado muito grande deve ser tomado, pois a teologia cristã ensina
falsamente que pelo fato do nome Elohim ser no plural, representaria a
trindade, o que não é verdade e não pode ser provado através da bíblia.

DUPLA CONCLUSÃO
Esse ensino possui duas interpretações possíveis que são interconectadas,
uma aborda os vivos no Olam Hazeh e a outro aborda os vivos do Olam
Habah.
Os que estão vivos na carne, poderão sim ter seus nomes associados a
Elohim, poderão receber Sua graça, poderão ver Suas maravilhas, poderão ser
cuidados e tratados com o amor de Deus, tudo isso através de uma vida nos
conformes de Sua vontade.
Já no mundo espiritual, todos também estarão vivos, pois a ressurreição
dos mortos é uma realidade vastamente ensinada por toda a bíblia, pois toda
alma e espírito criados por Deus nunca deixarão de existir.
Com isso aprendemos que só existe o Deus dos vivos.
◆◆◆
SEÇÃO XL
MAIORES MANDAMENTOS

Rabbi, diga, qual a maior mitzvah (mandamento) na Torah?


E disse a ele: Amarás Adonai, seu Elohim, de todo coração e etc...
Esse é o primeiro
O segundo é esse, amarás seu próximo como a ti mesmo.
E sobre essas duas Mitzvot (mandamentos) se baseia toda a Torah e os
profetas.
Mateus 22:36-40

Toda vez que começo a escrever algum comentário sobre as palavras de


Yehoshua do livro de Mateus, a primeira coisa que vem na minha cabeça é
“versículo perigoso”. Infelizmente eu poderia começar toda explicação de
seus ensinos com essas palavras, pois de alguma forma, todos criaram fortes
conceitos errôneos que escravizam muitas pessoas.
Em distintas oportunidades, perguntei a alguns cristãos os motivos pelos
quais eles não seguiam as Leis da Torah e uma das respostas mais comuns
que recebibaseava-se justamente nessa passagem, pois, segundo eles, cristo
substituiu toda a Torah por esse dois mandamentos, dizendo que a partir do
momento em que a pessoa ama a Deus sobre todas as coisas e ao próximo
como a si mesmo, ele não precisa mais observar a Torah.
Como já mostrado em diversas partes desse livro, e declarado pelo
próprio Yehoshua no capítulo 5, ele não aboliu nada da Torah. O ensino
dessa passagem não só engloba a Torah, mas ele nada mais é do que um
antigo entendimento sobre ela.

OS MANDAMENTOS
A Torah possuí um total de 613 mandamentos, esses mandamentos não
são aplicáveis a todos os indivíduos. Existem mandamentos apenas para
homens, outros apenas para mulheres, outros para reis, sacerdotes, juízes e
etc. Com exceção dos mandamentos referentes à ética, moralidade sexual e
caráter, todos os mandamentos se encaixam em determinados grupos e não
são aplicáveis de uma forma geral.
Os mandamentos da Torah podem ser divididos em duas partes de duas
formas diferentes. A primeira divisão é entre os mandamentos positivos e os
mandamentos negativos, ou seja, aqueles que você DEVE fazer e aqueles que
você NÃO DEVE fazer.
Existem 365 mandamentos negativos, os quais não podem ser praticados,
representando um “não” por dia durante um ano. Os positivos dão um total de
248 mandamentos, os quais necessitam um cuidado e uma atenção à sua
observância, 248 também é o número total de ossos e órgãos que o corpo
humano possuí, algo como que se todo o corpo estivesse querendo dar um
“sim” para Deus.
A segunda divisão é feita de acordo com o tipo de mandamento, podendo
ser ele referente a um relacionamento “homem x Deus” ou um
relacionamento “homem x homem”. No primeiro grupo entram os
mandamentos referentes ao Shabbat, às festas, a kashrut, a tzedakah e etc. Já
no segundo, temos os mandamentos referentes à imoralidade sexual,
assassinato, roubo e etc. Essa divisão é representada pelas próprias tábuas da
Lei dada por Deus a Moises sobre o monte Sinai, na primeira tábua temos os
mandamentos referente a “homem x Deus” e na segunda, os mandamentos
referentes “homem x homem”.
A resposta que Yehoshua dá nessa passagem aborda essa segunda divisão
de mandamentos. Fazer tal abordagem em referência a Torah tem um
significado bem definido dentro da mentalidade judaica.
AMAR A DEUS
Shma Israel, Adonai é nosso Elohim, Adonai É UM. E amarás Adonai,
vosso Elohim de todo seu coração, de toda sua alma e de todo seu muito.
Deuteronômio 6:4-5

Essa passagem maravilhosa do livro de Deuteronômio, conhecido como


“shma”, é a máxima representação do Povo de Israel e a pedra fundamental
da fé judaica. Esses versículos são tão poderosos que são recitados três vezes
ao dia pelos judeus, são escritos dentro dos tefilim (filactérios) e dentro das
mezuzot colocadas nos umbrais das portas.
Quando Yehoshua cita esse versículo, além de afirmar a fé que tinha,
tanto por ser judeu, quanto por servir a um Deus único e indivisível, ele
automaticamente se refere a todos os mandamentos “homem x Deus”,
dizendo que para chegar a essa amor, é necessário antes observar a todas
essas ordenanças, pois só aqueles que amam muito a Deus, com todo seu
“muito”, realmente conseguem mudar o estilo de vida em pró desse Deus.
Como está escrito: “E amarás Adonai seu Elohim com todo seu
coração", isso significa com sua má inclinação e com sua boa inclinação,
pois ambas devem estar subjugadas a Deus. “com toda sua alma” significa
que você deve amar a Deus mesmo ao custo de sua alma. “com todo seu
muito” significa com todo seu dinheiro e posses. Outro entendimento: “como
todo seu muito” se sujeitando às mitzvot de Adonai.
Talmud da Babilônia, Tratado Brakhot 54a

O Talmud cita essa relação entre “amar a Deus” com as mitzvot “homem
x Deus”. O amar a Deus sobre todas as coisas deve ser através das
inclinações, vontades, sonhos e sentimentos, pois amar a Deus deve ser maior
que o amor próprio e por último, através da observância de TODOS os
mandamentos da Torah que se encaixam nos mandamentos referentes a
“homem x Deus”.

AMAR AO PRÓXIMO
Clássica afirmação rabínica, não só é citada por Yehoshua, mas
também por Paulo e inúmeros outros rabinos.
Yehoshua não se refere a um sentimento, pois amar a desconhecidos é
estranho a nossa natureza, mas o amor nesse caso, se refere às atitudes em
relação ao próximo e tais atitudes são definidas apenas pela Torah. Vamos
ver de onde ele tirou esse conceito:

Não te vingarás nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas
amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou Adonai.
Levítico 19:18

Rabi Akiva diz: Amar ao próximo é o maior princípio da Torah.


Talmud de Jerusalém, Tratado Nedarim 30b

Toda manhã, antes de suas preces, comprometa-se a amar seu próximo


como a si mesmo. Então suas preces serão aceitas e produzirão frutos.
Rabi Yitschac Luria

Você ouve o que dizem na academia celestial? Que amar seu próximo
significa amar totalmente o perverso assim como você ama o completamente
justo.
O Maguid de Mezeritch
Agora pergunto, será que todos esses sábios deixaram de seguir a
Torah porque acreditavam que "amar a Deus" e "amar ao próximo" são todos
os mandamentos que necessitamos? Ou será que eles entendiam que para
chegar a esses dois mandamentos precisaríamos do único caminho a ser
seguido que foi ensinado por Deus na Torah?
Sendo Yehoshua um judeu, que recebeu uma educação baseada na
Torah, no Talmud e nos sábios, não pensava da mesma forma que os rabinos
citados acima? Então por que muitos cristãos afirmam que essas duas leis
aboliram toda a Torah? Não faz sentido.

Ao citar “amar a Deus” e “amar ao próximo”, que representam o


pináculo de todos os mandamentos da Torah, Yehoshua afirma que não existe
mandamento mais ou menos importante, pois são todos importantes. Para
chegar ao total amor a Deus, da forma como Ele exige, é necessário a
observância dos mandamentos “homem x Deus” e para chegar ao verdadeiro
amor ao próximo, algo que transcende um sentimento, algo que aborda a
ética, o respeito, a educação, a compaixão, o carinho, a dedicação, o bom
senso, a ajuda, a Torah se faz necessária, pois foi através dela que tais
conceitos foram revelados ao mundo.
Em uma forma menos rabínica, a resposta de Yehoshua é: “Toda a
Torah”.

CONEXÃO RABÍNICA ENTRE AS DUAS PASSAGENS


“guardar ira”, se refere a problemas referente a dinheiro e não a
insultos pessoais.
Talmud da Babilônia, Tratado Yoma 23a

A vingança, quando se sobressai, causará a alma ser cortada e não terá


vida eterna.
Mishneh Torah, Rep 8:5

Quando amamos ao próximo é quando começamos a amar a Deus.


Yismach Yisrael, Haggadah Shel Pessach, Maror 1:2

Como está escrito: “E amarás Adonai seu Elohim com todo seu
coração", isso significa com sua má inclinação e com sua boa inclinação,
pois ambas devem estar subjugadas a Deus. “com toda sua alma” significa
que vocÊ deve amar a Deus mesmo ao custo de sua alma. “com todo seu
muito” significa com todo seu dinheiro e posses. Outra entendimento:
“como todo seu muito” se sujeitando às mitzvot de Adonai.
Talmud da Babilônia, Tratado Brakhot 54a

Segundo a mentalidade rabínica, amar a Deus com todo nosso “muito” é


quando não guardamos raiva em nosso coração. Amar a Deus com toda nossa
“alma” é nunca se vingar. Amar a Deus com todo nosso “coração” é amar ao
próximo, fazendo uma ligação entre Deuteronômio 6:4-5 e Levítico 19:18.
As duas frases de Yehoshua estão totalmente interligadas, não dá para
fazer um sem fazer o outro, não dá para amar a Deus sem amar ao próximo e
não dá para amar ao próximo sem os mandamentos da Torah. É uma escada,
primeiro adaptamos nossas vidas de acordo com a vontade do Criador, então
teremos atitudes honrosas perante o próximo, pois esses preceitos vão mudar
nossas vidas, atitudes e caráter, então chegaremos no ápice, amando a Deus
sobre todas as coisas e assim cumprindo Seus mandamentos de forma natural.

“amar a Deus” tem suas raízes nas mitzvot (mandamentos).


Likutei Moharan 93:1:3

Yehoshua não trocou toda a Torah por dois mandamentos. Esses


mandamentos na verdade, representam toda a Torah e para chegar a eles, uma
observância aos mandamentos de Deus se faz necessária. Aquele que declara
que segue a Yehoshua deve ter isso em mente, pois segui-lo é muito mais
complexo do que a igreja ensina. Se caso os líderes ensinassem sobre o
verdadeiro, a igreja perderia toda essa aparência apelativa que ela possui.

SHMA ISRAEL
Shma Israel, Adonai é nosso Elohim, Adonai É UM. E amarás Adonai,
vosso Elohim de todo seu coração, de toda sua alma e de todo seu muito.
Deuteronômio 6:4-5

Vou aproveitar a abordagem desse tema para poder entrar um pouco


mais afundo nos dois versículos que representam toda a fé judaica e a
unidade do Povo de Israel, esses dois versículos são recitados todos os dias e
são conhecidos como SHMA ISRAEL (ouça Israel).

1- SHMA (‫)שמע‬
A Torah não diz VEJA ISRAEL, mas sim, OUÇA ISRAEL. Isso é pelo
fato de que nosso conhecimento sobre Deus está baseado na percepção
sensorial. Durante a época anterior a entrega da Torah, pouco se sabia de
Deus, essa concepção de um Deus Único que reina sobre toda a terra, era
uma ideia muito abstrata e pouco coerente com a realidade humana e a
mentalidade comum pós dilúvio.
Para que Deus se fizesse conhecido, Ele teve que buscar homens, se
apresentar para eles e, através desses homens, realizar grandes feitos. Se
fizermos uma comparação da época de Abraham, de Moises e dos profetas
com os dias de hoje, a impressão que teremos é que, com o passar do tempo,
Deus foi se ocultando, suas “aparições” e grandes milagres foram se tornando
cada vez mais escasso, porém, por um outro lado, o acesso que um indivíduo
qualquer, seja ele quem for, pobre ou rico, branco ou negro, latino ou
asiático, tem à Palavra de Deus e ao conhecimento sobre quem Ele é, é
irrestrito. Por esse fato, a Torah comanda: OUÇA! Ouça quem é Deus, ouça o
que Ele fez, ouça Suas proezas, ouça Suas maravilhas, pois nos dias atuais é
através desse “ouvir” que Deus se faz conhecido na vida do homem.
Claro que Deus pode se revelar a quem Ele quiser, da forma que Ele
quiser e não só pela audição. Mas essa revelação não vem sem que antes
“ouçamos” Sua Palavra, sobre quem Ele é e como Ele trabalha, pois se Ele se
apresenta antes disso, muito dificilmente a pessoa que recebesse essa visão,
teria a capacidade de reconhecer a fonte dela.

2- UM (‫)אחד‬
Essa é uma afirmação que gera diversas teorias, principalmente por parte
daqueles que querem criar e justificar falsos deuses. A palavra ECHAD
(‫ – )אחד‬UM – não só significa que Deus é um, mas também representa a sua
essência, Ele é UM absoluto e não UM composto. Caso fosse Deus um UM
composto, então dentro dessa composição existiria um agrupamento, se existe
um agrupamento, significa que alguém teve que agrupá-lo, ou seja, se Deus é
um UM composto, alguém precisou compô-lo, o que nos mostra assim que
existe algo, ou alguém, maior do que Deus, pois foi capaz de ajuntar três em
um. A fé em um deus tri-uno e a fé em deus que não é absoluto é estranha,
pois suas composições precisaram ser criadas em algum momento. Se um
cria ao outro, então esse outro não possui o mesmo poder daquele que lhe
criou, quebrando assim a igualdade que deveriam ter para serem UM em
equilíbrio.
Se caso Deus fosse três em um, a palavra não seria ECHAD (‫ )אחד‬nessa
passagem, mas sim ACHER (‫ – )אחר‬sendo a diferença em uma única letra do
hebraico entre as duas palavras, o DALET (‫ )ד‬e o REISH (‫)ר‬.

3- AMARÁS (‫)אהבת‬
A palavra hebraica para amar mostra um significado muito mais profundo
daqueles que temos nos idiomas ocidentais. AHAVAH (‫ – )אהבה‬amor –
começa com a letra ALEF (‫ )א‬e toda palavra que sua raiz começa com essa
letra, trata de uma concepção individual, interna de cada um, algo reflexivo.
Já a junção da letras (‫)הב‬, sendo as letras restante da palavra AHAVAH,
temos como significado “doar”. Sendo assim, a palavra AHAVAH (‫)אהבה‬
significa algo como “doação de si mesmo”.
Quando a Torah comanda amarmos a Deus, ela não se refere a um
sentimento interno, mas sim para que doemos a nós mesmos para Deus, para
Sua vontade e para Seus planos.

4- TODO SEU CORAÇÃO (‫)לבבך‬


Nos entregarmos a Deus com todo coração não é algo simples, justamente
por causa da palavra “todo”. Isso só é possível através de um reconhecimento
da unidade absoluta do Criador, pois é através desse reconhecimento que o
ser humano poderá entender que “amar com todo o coração” nada mais é do
que entregar tanto a inclinação boa quanto a inclinação má que existem
dentro de cada ser humano nas mãos de Deus.
A verdadeira natureza dessa mitzvah engloba a ideia que estejamos
preparados e prontos para entregar a Deus nossos desejos, sonhos e vontades
e, se caso não estejam de acordo com aquilo que Deus quer, iremos
alegremente desistir dessas coisas.

5- TODA SUA ALMA (‫)נפשך‬


A alma representa a verdadeira essência do ser humano, é ela que define a
proximidade que poderemos ter com o Criador e Seus desígnios. Da forma
como o “coração” representa nossos sonhos e vontades nessa vida terrena, a
alma representa nosso ser, nossos pensamentos, nosso caráter, nossa devoção
e aceitação de Deus.
Segundo nossos sábios, é ai que entram os mandamentos, pois são através
deles que a pessoa demonstra verdadeira devoção a Deus, e não só, apenas
através deles que um relacionamento íntimo com Deus será estabelecido, ou
seja, é através dos milagres que ocorrem por causa de nossas obediência que
iremos reconhecer a Deus de uma forma irrevogável.
Entregar a alma a Deus é seguir a Seus mandamentos e a Sua Torah.

6- TODO SEU MUITO (‫)מאדך‬


Esse mandamento em hebraico pode ser interpretado de duas formas. O
“muito”, segundo os sábios, representa os bens materiais que um indivíduo
possui. Se entregar a Deus através de nossos bens materiais é usá-los para
servi-Lo, tendo a ciência de que tudo pertence a Ele e também, não quebrar
nenhum dos mandamentos para obtenção desses bens.
Mas além disso, o termo MEOD (‫ – )מאד‬muito – pode ir um pouco além,
pode representar um termo para medidas e quantidades. Isso significa que
devemos entregar a Deus tudo aquilo que possuímos e que possa ser
“medido”, ou seja, tudo.
◆◆◆
SEÇÃO XLI
O SENHOR DE DAVID

E ajuntou mais fariseus e perguntou Yeshua a eles.


Dizendo: O que, na visão de vocês, é o Mashiach? Filho de quem? E lhe
disseram: filho de David.
E disse a eles: Como David, pelo Espírito Santo, o chamava dizendo:
senhor.
Como está escrito: Adonai disse ao meu senhor, sente a minha direita e
farei seus inimigos o estrado de seus pés.
Se David o chamava de senhor, como poderia então ser filho?
E não puderam responder-lhe uma palavra e desde então, tinham medo
de perguntarem qualquer coisa.
Mateus 22:41-46

O novo testamento não é um livro que deve ser interpretado sem o uso do
Tanakh como base. Ao ler ensinos de rabinos como Yehoshua e Paulo, é de
extrema importância que, além de um conhecimento de Torah, é necessário
um maior aprofundamento sobre aquilo que formou a base da educação deles
e qual era a forma que eles interpretavam a Torah, pois o ensino de ambos é
fortemente influenciado pela visão que tinham em relação a Palavra de Deus.
A visão que alguém tem sobre a bíblia é formada por dois fatores, o fator
pessoal, que é a interpretação particular de cada indivíduo e o fator educação,
a forma como essa pessoa foi ensinada em relação as Escrituras. A Torah,
sem dúvida nenhuma, é a base para esses dois rabinos. O judaísmo deles
exercia enorme influência em tudo que faziam e ensinavam, pois, era a única
realidade que tinham, o mundo para eles, rabinos do primeiro século, era
visto através da ótica judaica. Portanto, a Torah Oral e a mentalidade rabínica
são as maiores fontes que devemos nos apoiar para entender os ensinos
provenientes dos dois, principalmente por Yehoshua, que apenas ensinou a
judeus.
Nesses versículos temos um clássico caso de confronto entre Yehoshua e
os sábios. Yehoshua começa indagando-os sobre quem, segundo a visão
deles, seria o Mashiach, através da resposta que eles deram, Yehoshua já cita
um Salmo de David e os questiona de uma forma que ficam sem palavras.
O Salmo apontado por Yehoshua, dizem os sábios, é um Salmo
messiânico, onde o rei David aparece chamando a Mashiach de senhor.
Yehoshua, se apegando nesse ponto, questiona os sábios como poderia David
chamar um descendente seu de senhor.

Por David. Um Salmo. Adonai disse ao meu senhor: “sente a minha


direita enquanto eu faço seus inimigos o estrado para seus pés”.
Salmos 110:1

Vamos reparar em alguns pontos nessa história do livro de Mateus.


Primeira coisa que devemos prestar atenção aqui é que, diferentemente de
outras ocasiões, Yehoshua NÃO afirma ser Mashiach, ele faz um
questionamento indireto e sem se comprometer. Isso refuta a tese de que ele
estava dizendo ser maior que David, pois essa versão só seria entendida pelos
seus talmidim, somente a eles Yehoshua tinha dito ser Mashiach, os sábios
ainda não tinham ouvido da boca dele.
Segundo, todo judeu sabe muito bem que Mashiach é maior que David, se
o intuito da pergunta de Yehoshua era ensinar esse tópico, sábio nenhum teria
ficado sem resposta. E por último, Yehoshua, ao fazer a pergunta sobre
Mashiach, induz os fariseus a responderem algo especifico, “filho de quem?”.
Yehoshua não queria saber quem era Mashiach para eles, mas ele queria
saber da origem de Mashiach. Só esses tópicos por si só, anulam a
interpretação teológica que simplesmente afirma que ele dizia aos fariseus
que é maior que David.
A resposta que precisamos se encontra em duas perguntas, por que
Yehoshua mencionou justamente esse Salmo e o que ele estava refutando em
relação aos ensinos dos sábios que os deixou sem resposta?

DAVID PELO ESPÍRITO SANTO


Yehoshua abre sua fala justificando o questionamento. Ele fala de como
David reconhecia a Mashiach como seu senhor e isso lhe tinha sido passado
pelo Espírito Santo.
Essa afirmação por si só já poderia ter dado o que falar, já que no Tanakh
não aparece nenhuma afirmação que esse reconhecimento de Mashiach por
parte de David lhe foi dado pelo Espírito Santo, porém isso já era de
conhecimento dos sábios. Existe na literatura rabínica algo que aborda essa
ideia de uma forma bem similar:

Da forma como alguém conversa de forma privada com seu Senhor é um


aspecto do Espírito Santo, assim como o rei David, de abençoada memória,
o qual teve grandes virtudes de acordo com o livro de Salmos.
Likutey Moharan, Torah 156:1

David, quando afirma as palavras de Adonai nesse salmo, com certeza


absoluta, lhe foram reveladas pelo Espírito Santo, assim como todas as suas
virtudes que são encontradas no livro de Salmos.
Essa passagem de Likutey Moharan se encaixa como luva naquilo que
Yehoshua afirmou, pois assim que ele disse que a revelação de David
provinha do Espírito Santo, ele cita justamente um Salmo na sequência. A
conexão que Yehoshua tinha com a Torah Oral e com os ensinos rabínicos
são impressionantemente fortes, por isso essa afirmação não causou
estranhezas entre os ouvintes.
UM SALMO DE DAVID
Entender o porquê o Salmo 110 se trata de um salmo messiânico pode
mudar muitas coisas em relação a interpretação das palavras de Yehoshua
neste caso. Para isso, será necessário uma análise estrutural da língua
hebraica usada nesse versículo, assim como algumas comparações com
versículos posteriores do mesmo capítulo.
Uma das formas de exegese rabínica é pela comparação de dois
versículos que utilizam de termos ou palavras parecidas. Em alguns casos
quando isso ocorre, é de costume de alguns rabinos separarem o versículo em
duas partes, parte A e parte B. Com o segundo versículo, o qual foi associado
ao primeiro, o mesmo é feito, divide-se em duas partes, parte A e parte B e
então, conecta-se a parte A do primeiro com a parte B do segundo, e vice-
versa, e assim muitas mensagens ocultas no Tanakh são reveladas.
Além desse método, uma análise de alguns termos desse versículo em seu
original será necessária. Toda palavra hebraica possui uma raiz, essa raiz
normalmente é formada por três letras que compõem essa palavra, quatro em
alguns poucos casos, e através dessas três letras, novas palavras podem ser
formadas. Essas novas palavras, por serem da mesma raiz da original, podem
ser substituídas no versículo em questão, trazendo um novo entendimento.
Vamos olhar para a palavra “meu senhor” que, segundo os rabinos, se refere
a Mashiach:

Por David, um Salmo, disse Adonai | Para o meu senhor (‫)אדני‬: “sente a
minha direita enquanto eu faço seus inimigos o estrado para seus pés”.
Salmos 110:1

Nessa passagem, a palavra “meu senhor” aparece como ADONI (‫)אדני‬,


que é uma forma contraída de ADON SHELI (‫)אדון שלי‬. A palavra ADON
(senhor) tem a mesma raiz da palavra DIN (‫ – )דין‬LEI - a qual também pode
ser YADIN (‫ )ידין‬que é uma forma conjugada do verbo JULGAR, conforme
aparece em Salmos 110:6:

‫ידין בגוים מלא גויות מחץ ראש על ארץ רבה‬


Julgarás (YADIN) as nações, empilhando corpos e quebrando cabeças
distantes e largas.
Salmos 110:6

Agora é possível fazer a divisão de ambos os versículos em partes A e


partes B, pois encontramos uma palavra que os conecta, ADON e YADIN. A
divisória deve ser realizada justamente onde as palavra ADONI (meu senhor)
e YADIN (julgarás) aparecem, pois são de mesma raiz.

Salmo 110:1

PARTE A = Por David, um Salmo, disse Adonai para (ou pelo).


PARTE B = Sente a minha direita enquanto eu faço seus inimigos o
estrado de seus pés.

Salmo 110:6

PARTE A = Julgarás a nações.


PARTE B = Empilhando corpos e quebrando cabeças distantes e
largas.

Um cruzamento entre A com o B oposto e B com o A oposto,


teremos:

1- Por David, um Salmo dito por Adonai, empilharei corpos e quebrarei


cabeças distantes e largas.

2- Julgarás as nações, sente a minha direita enquanto faço seus inimigos


o estrado de seus pés.
Olhando para o número 1, não temos um versículo muito estranho, já no
caso do número 2, aparentemente, ele perde completamente o sentido. Talvez
se o olharmos em hebraico, alguma coisa apareça por trás dessa definição
doida:

‫אשית איביך הדם לרגליך‬-‫ידין בגוים מלא שב לימיני עד‬


Esse é o número 2 em hebraico. Se pegarmos as primeiras letras das três
primeiras palavras (‫ )ידין בגוים מלא‬da esquerda para a direita teremos (- ‫ ב‬- ‫מ‬
‫ )י‬que representa:

Mashiach - ‫ משיח‬- ‫מ‬


Ben - ‫ בן‬-‫ב‬
Yosef - ‫ יוסף‬- ‫י‬

Agora temos um total sentido do que o Salmo fala, se pegarmos o número


2 e substituirmos os termos, teremos o motivo pelo qual esse salmo é visto
como um salmo messiânico:

Mashiach Ben Yosef sentará a minha direta enquanto faço seus


inimigos o estrado de seus pés.

E o versículo 7 continua, confirmando o analisado até o então:

‫כן ירים ראש‬-‫מנחל בדרך ישתה על‬


Ele beberá do ribeiro pelo caminho e ficará de cabeça erguida.
Salmos 110:7

Se pegarmos as primeiras letras das três primeiras palavras (‫ י‬- ‫ ב‬- ‫)מ‬,
porém dessa vez da direita para a esquerda, teremos novamente:

Mashiach - ‫ משיח‬-‫מ‬
Ben - ‫ בן‬- ‫ב‬
Yosef - ‫ יוסף‬- ‫י‬

Igualmente, se substituirmos as três primeiras palavras originais pelo


nome de Mashiach, teremos:
Mashiach Ben Yosef ficará de cabeça erguida.

Para finalizar, uma leitura interligada desses três versículos, 1, 6 e 7,


mostrará a verdadeira revelação de Mashiach, é impressionante:

Por David, um Salmo dito por Adonai: Maschiach Ben Yosef julgarás
as nações sentado a minha direita enquanto farei seus inimigos o estrado
para seus pés, empilhando seus corpos e quebrando suas cabeças distantes
e largas e Mashiach Ben Yosef ficará de cabeça erguida.

MASHIACH BEN YOSEF


Tudo até então é muito bacana, mas os salmos acima falam sobre
Mashiach Ben Yosef e o tratado no relato do livro de Mateus se refere a
Mashiach Ben David. Alguns tópicos sobre Mashiach já foram expostos no
começo desse livro, mas vamos repassar algumas coisas que possam
esclarecer o que acontecia entre aqueles sábios e Yehoshua.
Olhando apenas para Mashiach Ben Yosef, dizem os sábios que seu
principal objetivo é preparar o Povo de Israel (não estamos falando de judeus
aqui) para a redenção e levá-lo ao nível espiritual apropriado para a vinda de
Mashiach Ben David através do ensino de Torah. Essa redenção significa
arrependimento, a qual causará a vinda de Ben David. Conforme afirmam os
sábios:

“Ele anuncia salvação”, está escrito no singular porque se refere a


Mashiach Ben Yosef.
Kol HaTor 2:81

“Trará um redentor” – Essa é a missão de Mashiach Ben Yosef


Kol HaTor 2:84

Mashiach Ben Yosef preparará o mundo para a vinda de Ben David. Ele
realizará milagres, curas e maravilhas, sua figura causará discórdias e muitas
guerras, causando Edom a se levantar contra Israel, sendo ele destruído por
Mashiach Ben David. Isso é uma alegação interessante, pois o termo Edom,
na literatura judaica, se refere às nações cristãs, as quais são antissemitas em
suas essências.
Outro ponto sobre Mashiach Ben Yosef é que, para que sua obra seja
completa, ele deve conhecer a morte. Devemos ter em mente que não existem
dois Mashiachim (plural de Mashiach), mas apenas um. A distinção de Ben
Yosef e Ben David é dada pela diferença das missões dele. Enquanto o Ben
Yosef trará redenção a Israel e passará pela morte, Ben David trará o
julgamento sobre as nações, irá separar o bom do mal e irá reinar em
Jerusalém, trazendo uma era de paz ao mundo.

A “PEGADINHA”
Yehoshua quando questionou os sábios fez uma pegadinha, pela qual ele
queria mostrar, mesmo que de uma forma bem indireta, que sua missão de
Mashiach não era exatamente como eles esperavam.
Quando abordamos as discórdias entre Yehoshua e Yohanan, o imersor,
vimos que a visão e expectativa que Yohanan tinha em Mashiach não
estavam sendo “concretizadas” por Yehoshua, o que gerou dúvidas na cabeça
de Yohanan a seu respeito, isso porquê o imersor esperava um Ben David.
Essa expectativa não era apenas de Yohanan, mas de todo o povo judeu, de
todos os fariseus, de todos os rabinos e de todos os sábios, pois para eles
Mashiach Ben Yosef já tinha vindo, como dito por Rabbi Saadiah Gaon:

Rabbi Gaon nota que: Josué é Mashiach Ben Yosef, assim como Esdras e
Nehemias tiveram a missão de Mashiach Ben Yosef.
Kol HaTor 2:116

Para muitos dos sábios, Josué Bin Nun foi Mashiach Ben Yosef e
portanto, o Mashiach agora teria que vir na forma de Ben David.
Quando Yehoshua faz menção a esse Salmo, ele, de uma forma indireta,
estava apontando um erro de interpretação do judaísmo da época, a pergunta
que deixa os sábios sem resposta é justamente referente a obra que vinha
fazendo Yehoshua nos conformes ao esperado de Ben Yosef, o qual, os
rabinos já diziam que tinham vindo, causando grande confusão na mente
deles.
Os relatos dos feitos de Yehoshua no livro de Mateus são bem
compatíveis com as descrições rabínicas sobre Mashiach Ben Yosef, seus
ensinos, abertura de portas aos estrangeiros, redenção, salvação, morte e
trazer guerras. Fora o nome completo de registro de Yehoshua, Yehoshua
Ben Yosef.
Assim temos as respostas das perguntas iniciais, ele mencionou esse
Salmo para revelar que os ensinos rabínicos de que Mashiach Ben Yosef já
tinha vindo estavam equivocados e que sua missão era de Ben Yosef e não de
Ben David, como eles esperavam.

ARGUMENTOS
O Salmo 110 é um agregado de versículos místicos, o estudo que fizemos
sobre eles nos revela algumas coisas referentes as diferenças entre Adonai e
Mashiach, e qual o alcance de sua missão.
O Salmo nos conta que a missão de Mashiach será de julgar as nações, já
a de Adonai, de subjugar as nações sob seu pés. Mashiach, se fosse “deus”,
não necessitaria de Deus para subjugar as nações, ele faria por si próprio,
assim como assentar a direita de si mesmo é um tanto inexplicável.
A diferença entre um e outro é clara, de certo Mashiach tem uma alma
espiritualmente elevada e uma essência divina, porém Adonai é Deus e
Mashiach é Mashiach, sendo ele Ben Yosef ou Ben David.
◆◆◆
SEÇÃO XLII
TAKANOT

Sobre a cadeira de Moises se assentam os fariseus e os sábios.


E agora, tudo que ELE disse para vocês, observem e façam, porém as
suas TAKANOT e suas MA´ASSOT não as escutem, pois eles dizem mas não
fazem.
Eles exigem e colocam grande fardo (nos ombros de homens) que não
conseguem suportar, mas eles mesmos não pretendem sequer mover um dedo
(para fazê-las).
Mateus 23:2-4

Na cadeira de Moisés se assentam os escribas e fariseus.


Portanto, tudo o que vos disserem, isso fazei e observai; mas não façais
conforme as suas obras; porque dizem e não praticam.
Pois atam fardos pesados e difíceis de suportar, e os põem aos ombros dos
homens; mas eles mesmos nem com o dedo querem movê-los.
Mateus 23:2-4 ALMEIDA
O capítulo 23 do livro de Mateus é repleto de ensinos diretamente
voltados aos talmidim de Yehoshua, logo no começo ele já caracteriza em
poucas palavras o tipo de instrução na qual ele se baseará. Infelizmente, o
tradutor que fez a tradução desse livro para o grego teve alguns problemas de
atenção referente a alguns pequenos detalhes da língua hebraica, a qual gerou
uma enorme bagunça nesse ensino.
Algumas bíblias em português possuem subtítulos entre versículos para
facilitar o entendimento daquilo que será abordado. No caso dessa parte, o
subtítulo que encontrei em diversas bíblias se refere ao ensino de Yehoshua
sobre a hipocrisia. Porém, se lermos com muita atenção a tradução que temos
em português, esse ensino sobre hipocrisia é um pouco obscuro, pois,
Yehoshua ao falar: “tudo que vos disserem, isso fazei e observai”, na
verdade, ele está ensinado não contra a hipocrisia, mas está fazendo apologia
a mesma, ou seja, ele ensina a seus talmidim a serem hipócritas, fazendo o
que os fariseus dizem, mas não fazer conforme eles fazem. Apenas nos basta
um pouco de bom senso e uma boa interpretação de texto para que possamos
enxergar esse absurdo que uma má tradução causou e que poucos percebem.
Para entendermos a origem do erro, devemos olhar para o texto em
hebraico, no versículo 3 temos:

‫כל אשר יומר לכם‬


KOL ASHER YOMAR LACHEM
Tudo que ele disse para vocês...

e o que o tradutor escreveu foi:

‫כל אשר יומרו לכם‬


KOL ASHER YOMRU LACHEM
Tudo que eles disseram para vocês...

Uma diferença de uma pequena letra hebraica, a letra VAV (‫)ו‬, que é
uma das menores letras do hebraico. Isso fez total diferença, pois YOMAR
(‫ )יומר‬significa DISSE, terceira pessoa do singular e YOMRU (‫)יומרו‬
significa DISSERAM, terceira pessoa do plural.
Yeshoshua, em nenhum instante, ensinou para que seguissem aos fariseus
e nem sobre hipocrisia, isso não fazia parte desse ensino, por isso ele faz uma
citação sobre a cadeira de Moisés, pois, apesar dos fariseus estarem agora
sentados sobre a cadeira de Moisés, ele (MOISÉS) ainda tem autoridade,
então façam e observem tudo o que ELE (MOISÉS) disse e não os que os
fariseus dizem.
Para que isso fique mais claro, devemos entender mais sobre os termos
utilizados por Yehoshua nessa parte, termos que foram pobremente
traduzidos por alguém que claramente não conhecia o judaísmo do primeiro
século.

TAKANOT x MA´ASSIM
Depois de instruir seus talmidim de fazerem e observarem o que disse
Moisés, Yehoshua continua dizendo que eles não devem fazer as Takanot e
Ma´assim dos fariseus. Apesar de tais termos terem sido traduzidos como
“obras”, suas versões originais são repletas de significados que não podem
ser traduzidos, isso mostra mais uma vez como o tradutor tinha um
conhecimento muito pobre sobre a sociedade na qual Yehoshua estava
inserido e como isso foi danoso para a formação da teologia cristã.
No jargão farisaico, o termo TAKANOT significa “decretos, reformas” e
mais especificamente “reformas sobre as leis bíblicas”. Como todos sabemos,
qualquer reforma busca algum tipo de mudança e com as TAKANOT não são
diferentes, são mudanças proposta pelos rabinos para adaptação de
determinadas leis ao cotidiano no qual elas estão inseridas.
Os rabinos distinguem muito bem as leis da Torah e as leis que eles
inventam, vou usar um bom exemplo muito comum no meio do judaísmo
ortodoxo dos dias de hoje.

...Não cozerás o cabrito no leite de sua mãe.


Deuteronomio 14:21b

De todo o caso, a Torah não proíbe apenas cozinhar carne no leite.


Porém, é proibido comer ambos juntos, mesmo se comer ambos sem salgar é
proibido pela lei rabínica, além disso, deve-se esperar entre comer carne e
leite.
Shulchan Arukh, Yoreh De´ah 87:4b
No judaísmo ortodoxo é expressamente proibido comer carne com
qualquer tipo de alimento derivado do leite. Para uma cozinha ser totalmente
kasher, de acordo com as leis judaicas, deve-se ter duas geladeiras diferentes,
uma só para carne e outra para produtos lácteos, assim como duas pias
diferentes, o contato um com o outro já torna o alimento impróprio para
consumo.
Tal regra foi baseada no versículo que temos acima, onde Adonai proíbe
cozer a carne do cordeiro no leite de sua mãe (também em Êxodo 23:19 e
Êxodo 34:26) e a partir daí, os rabinos criaram leis extremamente restritas em
relação ao consumo e até mesmo, o contato de carne com leite, essa proibição
engloba quaisquer tipo de carne, inclusive as de aves, que não são nem ao
menos mamíferos.
Tais costumes, dentre muitos outros, conhecidos como TAKANOT, são
os primeiros pontos que Yehoshua vai contra, alterações das leis da Torah por
mãos humanas. Ele não ensinava contra a Torah, como muitos pensam, mas
ele ia contra a alguns tópicos da teologia judaica, leis e teorias criadas por
homens. Devemos ter em mente que isso ocorre em todas religiões,
principalmente no cristianismo, por isso que existem diversas correntes
cristãs muito diferentes, devido as TAKANOT cristãs.
Esse termo aparece em uma outra passagem do livro de Mateus e
Yehoshua traz mais uma opinião a respeito das TAKANOT:
Ele, porém, respondendo, disse-lhes: E vós, por que transgredis o
mandamento de Deus por causa da vossa tradição?
Mateus 15:3 ALMEIDA

E disse Yeshua a eles: Porque vocês não respeitam a Torah de EL


por causa das suas TAKANOT?
Mateus 15:3
Yehoshua acusa aqueles que seguem as leis feitas por homens, teologias,
teorias bíblicas e tudo aquilo que não está explicito na Torah de EL, como
sendo pessoas contrárias a Ele. Porém, por mais uma vez, somos vítimas de
más traduções feitas por pessoas claramente despreparadas.

Outro termos citado por Yehoshua é a palavra MA´ASSIM, tal termo era
muito comum no judaísmo do primeiro século e significa algo como
“precedentes” ou “atos feitos”. Esse termo é único e profundo, não me
surpreende que o tradutor para o grego não tinha a menor ideia do se tratava e
traduziu com o termo genérico “obras”. Mas quando Yehoshua menciona
isso, ele está falando de algo bem específico.
Para que possamos entender o que é Ma’assim, devemos olhar para
alguns exemplos. Quando um fariseu se depara com alguma situação, na qual
ele não sabe como a lei deve ser aplicada, ele vai sanar essa dúvida olhando
para as atitudes de seus precedentes, sendo eles sábios da Torah Oral ou
alguns de seus professores. Por suporem que os sábios e os mestres são
pessoas sem pecados, esse fariseu procura momentos nas vidas deles, onde
se depararam com uma mesma situação na qual esse fariseu se encontra e
assim, age da mesma forma que esse sábio ou rabino agiu.
Vamos a alguns exemplos no talmud:

Ma´asseh Rabi – Ma´asseh é um professor


Talmud da Babilônia, Tratado Sabbath 21a

Um exemplo um pouco mais prático. No Shabbat, além de ser


proibido trabalhar pela Torah, também é proibido fazer com que outros
trabalhem, sejam judeus ou gentios.
Vamos supor que esse fariseu precisa descer de um barco em um
Shabbat, então um gentio coloca uma rampa entre o barco e a praia para que
todos desçam. O gentio realiza um trabalho colocando a rampa e se o judeu
usá-la, poderia estar cometendo um pecado, então o que fazer?

Se um gentio fizer uma rampa em um Shabbat para desembarcar de um


navio, que o judeu desembarque apenas depois dele. Se a rampa foi feita
especificamente para o judeu, então é proibido. Houve um incidente no qual
Rabbi Gamliel e os anciães estavam viajando e um gentio fez um rampa em
um Shabbat para desembarque e Rabbi Gamliel desembarcou por ela.
Talmud da Babilônia, Tratado Shabbat 122a

Resolvido, basta a esse fariseu, que está com duvida no que fazer,
olhar para outros homens. Rabbi Gamliel realmente era um homem tzadik em
seu tempo, foi o grande mestre de Paulo e seu nome é mencionado no livro
de Atos.
Agora temos um ideia melhor do termo MA´ASSIM usado por
Yehoshua. É o habito de olharem para outros homens, que eram considerados
corretos, para saber o que fazer em relação as leis judaicas e TAKANOT.

EINAM OSSIM
Nas últimas palavras do versículo 3, aparecem algumas palavras
particularmente interessantes.

“Pois dizem, mas não fazem”

O que será que Yehoshua quis dizer com isso? O que eles dizem? O que
eles não fazem? A sensação que tenho, quando leio em hebraico, é que falta
alguma coisa, alguma informação ficou implícita naquilo que Yehoshua
estava falando.
Como já disse antes, além dos problemas das traduções, é impossível
entendê-lo sem um amplo conhecimento do Tanakh. Yehoshua faz uma
citação muito sutil, mas vastamente conhecida no meio judaico sobre o livro
de Reis, deixando o próprio livro de Reis dar o recado daquilo que ele quer
ensinar. Uma forma indireta, mas muito certeira.

Até os dias de hoje, eles fazem conforme os primeiros costumes; não


temem a Adonai e "não fazem" (einam ossim); como os estatutos, como as
ordenanças e como a Torah...
2 Reis 17:34a
Na época que esse livro foi composto, dez das tribos de Israel já haviam
sido exiladas e em seu lugar, o império Assírio trouxe pessoas de
descendência babilônica, de passado totalmente pagão, as quais acabaram
absorvendo diversos costumes judaicos e conhecimento do Deus de Israel e
da Torah, tais pessoas ficaram conhecidas mais tarde como os Samaritanos.
O problema é que, para uma mentalidade idolatra, adorar diversos
deuses é algo comum. Então, ao mesmo tempo que adoravam ao Deus de
Israel durante o dia, adoravam seus antigos deuses durante a noite e isso
gerou diversas repreensões por parte de Israel e do próprio Deus, uma delas é
a que lemos na passagem citada acima, onde, pelo fato de não temerem a
Adonai, muitos dos samaritanos continuavam na prática pagã que possuíam
antes de conhecerem ao verdadeiro Deus.
Mas o que quero abordar aqui é a forma como foi escrito esse
versículo, EINAM OSSIM é exatamente o mesmo termo usado por Yehoshua
no final do versículo 3, a tradução literal do hebraico por parecer um pouco
estranha, dá a impressão que os samaritanos não faziam de acordo com os
próprio costumes pagãos, porém é justamente o contrário, eles EINAM
OSSIM (não fazem) conforme a Torah.
Tal termo era de uso comum no judaísmo do primeiro século para
sutilmente se referir a alguém que não respeita e não observa a Torah.
Yehoshua estava dizendo que, assim como os samaritanos de antigamente
tinham costumes contrários a Torah, alguns dos fariseus tinham suas próprias
leis e estatutos, aos quais seguiam e ensinavam. Ao mesmo tempo que
falavam sobre a Torah, não faziam a Torah, pois não temiam a Adonai.
O que Yehoshua ensina é que, aquele que o segue, deve seguir o que
falou Moisés e não através de TAKANOT e MA´ASSIM. O mesmo também
é válido no cristianismo, que sofre do grande mal chamado teologia,
costumes cristãos e teorias doutrinárias, pois quem as fazem, além de não
seguir Torah, mostra falta de temor a Adonai, pois são claramente contrárias
a Torah.
Agora o versículo 4 fica claro. Tal verso foi vastamente usado por
muitos teólogos cristãos para afirmar que a Torah era um fardo, que era
colocado sobre os ombros e ninguém conseguia carregar. Mas o que
Yehoshua chamou de fardo foi justamente as leis rabínicas, que realmente
são um fardo, são tantas, mas tantas, que a pessoa que procura seguir a todas
não consegue fazer mais.nada, por isso que muitos dos ortodoxos de regiões
como Meah Shearim e Bnei Brakh não trabalham, pois não dá tempo.
Uma lei ou regra só se torna um fardo na vida de alguém quando essa
lei, de alguma forma, incomoda, proibindo ou inibindo algo que esse
indivíduo gosta de fazer. Se a as Leis da Torah representam um fardo na vida
de alguém, esse alguém precisa urgentemente revisar sua vida
comportamental perante o Criador, pois a lei aponta justamente aos nossos
erros e isso incomoda.
◆◆◆
SEÇÃO XLIII
TEVILAH

Vergonha a eles, sábios e fariseus, que dizimam menta, dill e romã.


Mas que cometem roubos. É melhor honrar as sentenças da Torah, que
são: Chessed, a verdade e a fé. A Torah é digna de ser seguida, nunca
se esqueçam disso.
Sementes de líderes cegos, quem anda no caminho estreito como um
mosquito e consegue engolir um camelo?
Vergonha a vocês fariseus e sábios, que submergem os copos e os
pratos por fora e por dentro está cheio de maldades e impurezas.
Hipócritas, primeiro limpem dentro de vocês e então serão puros
por fora.
Mateus 23:23-26

O que temos aqui, é uma mandamento da Torah, muito praticado por


judeus mais religiosos, sendo usado de exemplo para uma crítica ao
comportamento de algumas pessoas ao redor de Yehoshua. Esse mandamento
que ele menciona chama-se TEVILAH e trata da “kasherização” de utensílios
domésticos. Antes que algum utensílio possa ser usado em uma cozinha, ele
necessita atingir um certo nível de “santidade” e para tanto, necessita passar
por um ritual de imersão conforme determinado pela Torah:

Qualquer utensílio que aguente fogo, esses você deve passar por fogo e
eles serão purificados, exceto quando eles precisam ser purificados com a
água da separação, e tudo que não pode passar pelo fogo você deve passá-lo
por água.
Números 31:23

A halachah determina diversas regras sobre a imersão dos utensílios. O


lugar da submersão, também chamado de Mikveh, deve ser construído de
acordo com as medidas estipuladas pelos rabinos, a água que deve ser usada,
deve ser uma água proveniente de uma fonte natural, como da chuva por
exemplo, esse ritual é chamado de TEVILAH, proveniente da palavra
hebraica TOVEL – imergir.
Também segundo a halachah, nem todo utensílio deve passar pelo
processo de tevilah, apenas aqueles que não são fabricados por judeus ou se
já pertenceram a algum gentio. A tevilah não tem o propósito de lavar ou
limpar o item, é apenas um ritual para a purificação do mesmo, tornando
assim a cozinha kasher.

Ele também ressalta que utensílios provenientes de algum não judeu


estão sujeitos a imersão de acordo com os decretos rabínicos.
Problemas Halakhicos contemporâneos, Vol. V, Capítulo XII

A Torah realmente determina que todo utensílio adquirido deve passar


por uma imersão, mas só, não determina nada além disso. Com base nessa
mitzvah, os rabinos criaram inúmeras leis e regras em relação a esse ritual. De
qualquer forma, se é envolto de leis rabínicas ou não, Yehoshua não expressa
nenhuma opinião a esse respeito, mas pelo fato de citar tal determinação da
Torah, temos mais um prova da importância que ele dava até aos menores e
mais simples mandamentos da Lei, conforme já levantado antes.
Yehoshua usa a tevilah como um exemplo para atacar alguns fariseus, os
quais possuem aparência de justos, porém são podres por dentro. Tal crítica,
infelizmente, abrange a todas religiões e religiosos, pois muitos usam a
máscara da religião e de suas regras para esconderem suas verdadeiras faces.
Qualquer religião, seja ela qual for, é um terrenos fértil para o indivíduo
esconder sua verdadeira natureza usando regras, teorias e teologias criadas
pelo homem, por isso muitas se disseminaram tão rapidamente mundo afora,
muito mais rápido que aquilo que foi determinado por Deus em Sua palavra.
A Torah não é um livro que serve apenas para ser seguido, mas é um livro
que serve para ser seguido a partir do momento em que houver total fé e
certeza nela, para que assim, o observante possa ser purificado por dentro
através de seus ensinos.

MENTA, ROMÃ, DILL


Romã é uma fruta vastamente encontrada em Israel, dizem os sábios que
a romã representa a própria Torah, pois assim como a Torah possui 613
mandamentos, toda romã possui 613 sementes. O rei Salomão possuía um pé
de romã no jardim atrás de seu palácio e os entalhes no topo das colunas do
Templo eram de romãs, um símbolo muito usado dentro do judaísmo.
O dill, em hebraico é shevet. Shevet era um planta com um bom valor
econômico, sendo seu plantio a renda de muitas famílias em Israel, conforme
relatado pelo Talmud:

Ele disse a ele: nós temos um tipo de tempero chamado dill (shevet), o
qual pode ser colocado em pratos cozidos e sua fragrância se difunde. O
imperador o disse: nos dê um pouco disso.
Talmud da Babilônia, Tratado Shabbat 119a

Já a menta, nesse caso, aparece em hebraico como (‫ )נמנע‬que também


significa abstenção. Fica um pouco obscuro a real intenção de Yehoshua ao
usar esse termo, mas a menta não deixa de ser um tipo de erva do campo, o
qual é diretamente citado pela Torah:

Você deve separar todo ano um décimo de toda erva que nasce no
campo.
Deuteronômio 14:22

O que devemos observar é o motivo pelo qual Yehoshua cita


especificamente esses itens, ele poderia ter dito pratas, ou moedas, ou figos
ou qualquer outra coisa.

Esses são aqueles que nós somos lenientes com Demai (produtos dos
quais os dízimos devem ser tirados): figo selvagem, romã, maça, figos
brancos, fruta da sycamore, menta, dill e alcaparras.
Mishnah Demai 1

Essa passagem da Mishnah, que trata sobre dízimos, ressalta alguns itens
que exigem cuidados para se ter certeza se foram tirado o dízimo. Esse estudo
contínua de uma forma muito longa e relata o motivo de cada um desses itens
serem tão importantes e seus significados. O dízimo da romã representa os
10% que deve ser dado a Deus através do estudo da Torah, a menta
representa os 10% que devem ser dados a Deus através dos bens materiais e o
dill representa os 10% que devem ser dado a Deus através da abstenção dos
prazeres da carne, mesmo que não sejam proibidos pela Torah.
Yehoshua levanta um tema interessante, apesar de não estar falando
especificamente disso, ele cita tais itens, pois eram de comum conhecimento
e facilmente associados aos dízimos a Deus e a simbologia que cada um
tinha, Torah, dinheiro e prazeres.

CHESSED, VERDADE E FÉ
Antes de mais nada, a definição do termo hebraico Chessed é necessário.
Esse tópico já foi abordado nesse livro, porém o colocarei aqui mais uma vez.

Chessed, a graça
Em uma tradução direta, a palavra chessed é exatamente o que temos
hoje como graça, porém a graça bíblica não é bem aquela definida pela igreja.
Esse é um tema muito delicado, mas de vital importância, pois é a má
compreensão da graça que afasta muitos daqueles que buscam a Deus de
Seus verdadeiros caminhos. A graça na vida de muitos cristãos serve de
muleta e de desculpa, pois torna a fé e o servir a Deus tudo muito relativo.
A graça, ao contrário do que muitos acreditam não foi algo inventado pela
igreja, nem tão pouco algo inventado por Yehoshua, mas é um conceito
antiquíssimo que se encontra na própria Torah. Vamos abordar as principais
diferenças da graça cristã e da graça bíblica.
Contrariando o que muitos cristãos pensam, quando acreditam que a
graça foi algo que veio com jesus, a Torah já trazia esse conceito há muitos
anos antes:

Então orou: "SENHOR, Deus do meu senhor Abraão, dá-me neste dia
bom êxito e seja bondoso (chessed) com o meu senhor Abraão.
Genesis 24:12

Faze resplandecer o teu rosto sobre o teu servo; salva-me por tuas
misericórdias (chesssed).
Salmos 31:16

A palavra em hebraico para graça é CHESSED (‫)חסד‬. Se observarmos


essas duas passagens, uma da Torah e outra do Tanakh, veremos que o termo
graça aparece nas duas, porém, em suas respectivas traduções, temos outros
termos, bondade e misericórdia.
Rav Ben Iehuda em nome de Rav Pinchas diz: são 613 mitzvot
(mandamentos) de Hashem, sendo Seus santos mandamentos basicamente
duas leis. 365 são negativos, que realizando-os, estaremos em pecado
perante Aquele que É, Bendito Seja, e assim necessitaremos de Sua
CHESSED (Misericórdia). Outras 257 mitzvot (mandamentos) são positivos,
que realizando-os, teremos Sua CHESSED (bondade), onde teremos o favor
Daquele que É, Bendito Seja, para que vivamos a glória de Adonai sobre a
Terra.
Talmud da Babilônia, tratado Brakhot 2b

Segundo os sábios, o Talmud, a Torah e o Tanakh, a graça pode ser


entendida como duas coisas, a bondade de Deus e a misericórdia de Deus,
ambas são atributos gratuitos de Deus e de certo, homem nenhum os merece.
Ao mesmo tempo que a palavra CHESSED em hebraico se associa a duas
coisas distintas, acabam sendo também próximas, a obediência e a
desobediência.
Quando realizamos um mandamento positivo da Torah, aqueles que
Deus comanda que façamos, então, receberemos o CHESSED (bondade) de
Deus em nossas vidas. Se por outro lado, realizarmos um mandamento
negativo, ou seja, se fizermos aquilo que Deus manda não fazer e nos
arrependermos de tal ato, teremos a CHESSED (misericórdia) de Deus em
nossas vidas. Essa é a verdadeira graça de Deus.
A graça é algo totalmente e exclusivamente ligado a Palavra de Deus
e a Suas Leis, a verdadeira graça não existe sem a Torah. Diferentemente da
graça cristã, a graça bíblica exige obediência ao Criador, exige buscá-Lo,
exige seguir Seus caminhos e não é algo relativo, que existe apenas dentro do
ser humano, mas é algo que vai além do coração do homem, se torna palpável
e visível por todos muitas vezes. A graça existe desde quando a Torah foi
entregue. As Leis de Deus e a graça andam e sempre andarão de mãos dadas,
qualquer graça que não esteja ligada a Palavra de Deus é uma graça
mentirosa e manipuladora.

Verdade
A palavra verdade em hebraico é EMET (‫ )אמת‬e é uma das poucas
palavras sem plural na língua hebraica, pois verdade, só existe uma, a palavra
de Deus.

E por último, temos a fé, que é totalmente ligada a palavra de Deus:

A Torah representa a fé absoluta no Criador e a aceitação de Sua justiça.


Talmud da Babilônia, Tratado Pesachim 113b

Suas palavras deixam bem claro que por mais que cumpramos os
mandamentos de Deus, se não os fizermos de coração, com verdadeira fé no
Criador, de nada adianta.
Yehoshua levantou as maiores representações da Torah, a bondade e a
misericórdia de Deus, a única verdade acima de qualquer teologia humana e a
fé no Todo Poderoso. Essas são as maiores honras da Torah. Por isso,
segundo Yehoshua, ela é digna de ser seguida, que nunca nos esqueçamos
disso.
◆◆◆
SEÇÃO XLIV
LÍDERES CEGOS

Sementes de líderes cegos, quem anda no caminho restritos como um


mosquito e consegue engolir um camelo.
Mateus 23:24

Condutores cegos! Que coa um mosquito e engole um camelo.


Mateus 23:24 ALMEIDA

Eu coloquei a tradução do original lado a lado com a tradução mais


comum da língua portuguesa, justamente para podermos ver uma diferença
quase impercebível. Logo na primeira parte, na versão Almeida, Yehoshua
chama seus ouvintes de “condutores cegos”, pessoas que não enxergam e que
tendem a guiar outros pelos mesmos caminhos tortuosos. Já no original,
Yehoshua não os chama de “cegos”, mas sim de “sementes de líderes cegos”,
ou seja, ele ataca não sua plateia, mas sim aos sábios que educaram a muitos
que ali estavam, atacando assim não a pessoa, mas a linha de pensamento
farisaica a qual eles faziam parte. Pode parecer pouco, mas é interessante
entendermos essa diferença e qual é, segundo a mentalidade judaica, o
problema em se ter um líder “cego”.
Segundo a Cabala e o livro Zohar HaKadosh, existem 50 portões de
impurezas que representam atitudes extremamente mundanas, as quais levam
o indivíduo cada vez mais para baixo, sendo os mais profundos conectados
com a idolatria, sacrifício pagão e assassinato. Os sábios do Zohar contam
também que quem atinge o portão 50º não terá mais retorno e sua condenação
será eterna.
O Zohar afirma que o povo hebreu, quando estava no Egito, atingiu o 49º
portal, por esse motivo que a redenção e a entrega da Torah não aconteceram
naquelas terras. Para que Deus não perdesse Seus escolhidos, os tira no
momento exato de lá. Isso tudo aconteceu com o povo, pois eles não tinham
líderes espirituais aptos após Yosef, filho de Yaakov, e portanto sobraram
apenas aqueles que tinham pouco conhecimento de Deus que, segundo o
Zohar, eram “líderes cegos”. Esse termo não é criação desse livro, mas ele
retoma esse dizer do seio judaico e dá uma explicação mais mística para ele.
O mal que um cego (leia-se pecador) causa é misticamente explicado pela
Torah, no livro de Deuteronômio:

‫וירעו אותנו המצרים‬....


Os egípcios nos fizeram mal...
Deuteronômio 26:6a

Quando lemos essa passagem, logo entendemos que o Egito fez muito
mal ao povo hebreu, causou grande dor e sofrimento entre os descendentes de
Yaakov. Mas não é bem isso que está escrito literalmente na Torah.
Temos o termo (‫ – )אותנו‬otanu – traduzido como “nos”. Se fosse para
dizer que “nos fez mal” ou “nos faz qualquer coisa” deveria ser usado (‫– )לנו‬
lanu – no lugar de otanu. O significado com o uso do otanu muda um pouco,
a Torah não diz que “os egípcios nos fizeram mal”, mas sim “os egípcios nos
tornaram maus” e isso muda tudo.
O que a Torah está revelando aqui é que os egípcios não só fizeram mal
ao povo, mas também tornaram esse povo mal, longe de Deus e de Seus
caminhos. Mas a pergunta é: como os egípcios tornaram o povo mal? A
Torah também responde. A palavra usada nessa passagem, traduzida como
“fizeram mal” é (‫ – )ירעו‬yar’u – através da raiz dessa palavra, teremos o
termo (‫ )רעות‬que significa “companhia”, “influência”.
O mal que os egípcios causaram sobre o povo hebreu está bem claro e
detalhado na Torah, porém foi a influência que eles exerciam sobre o povo
que o tornou mal, levando-o aos mais baixos graus de impurezas.
Voltando a Yehoshua, quando ele chama o pessoal de “sementes de
líderes cegos”, ele afirma que os seus mestres eram cegos e por isso, aqueles
que o escutavam, foram feitos cegos e eles ainda farão seus seguidores cegos
e assim por diante, pois segundo a Torah, a companhia de “cegos” torna as
pessoas ao seu redor “cegas”, conforme aconteceu com o povo hebreu
enquanto estava no Egito.
Essa é uma lição que devemos adotar para a vida em relação a escolha de
amizades, relacionamento, líderes, igreja, sinagoga, o que for, pois eles
exercerão enorme influência sobre quem fica embaixo de suas asas. Portanto,
um conhecimento de Torah é essencial, pois é através dele que veremos se o
lugar que frequentamos realmente serve a Deus ou só possui aparência de
santo.

MOSQUITOS E CAMELOS
A diferença entre ambos é óbvia, o mosquito é um inseto minúsculo,
enquanto o camelo é um enorme animal. Mas Yehoshua, ao usar esses
termos, diz que esses líderes são tão restritos e exigentes que não deixam nem
ao menos um mosquito passar, e por outro lado, vivem uma vida tão sem
restrições que até camelos passam.
Mas me chamou muito a atenção essa comparação que Yehoshua fez, de
tantos opostos que ele poderia usar, abordou justamente o mosquito e o
camelo. Isso me fez lembrar de um pequeno ensino de uma compilação
judaica chamada Yalkut Shimoni:

O solo será amaldiçoado por você caso mude um mosquito na Torah. E


lhe trará condenações como um camelo...
Yalkut Shimoni Torah 32

Bom, vamos lá. Yehoshua primeiro diz que aqueles que vem de escolas
de cegos, também são cegos e ensinarão a outros a serem cegos. Então ele
critica a hipocrisia deles, dizendo que por fora são restritos, não deixando um
mosquito passar sequer, mas por dentro tão liberais que um camelo enorme
consegue passar. Eu vejo isso muito nos dias de hoje, existem muitos
pseudos-religiosos que tem uma pompa toda ortodoxa e quem vê de fora, tem
a impressão que levam uma vida nos conformes da Torah. Essas pessoas
acabam virando exemplos ao próximo e chegam até ao ponto de ensinarem
sobre toda a demanda da lei judaica com uma restrição ímpar. Mas por outro
lado, quando vem os problemas, principalmente financeiros ou quando muito
poder é colocado em suas mãos, esquecem completamente a Torah que
ensinam, são gananciosos, egoístas e arrogantes.
Isso não é algo exclusivo do judaísmo, podemos ver em toda e qualquer
religião, pessoas mostrando reverência e restrição em relação as regras
religiosas, mas por dentro são sujos e sacanas, ao ponto de todas essas
restrições se tornarem tão amplas em seus atos, que até um camelo passa.
Por outro lado, segundo a minha interpretação pessoal, ele usa esses dois
exemplos, pois ambos já possuíam essa analogia dentro dos ensinos
rabínicos. Essa analogia não trata apenas de serem restritos, mas também do
tamanho do erro em comparação ao tamanho do preço, ou seja, altera um
mosquito na Lei e o preço a pagar é do tamanho de uma camelo.
Usando um linguajar típico rabínico, ele consegue dar um recado mais
íntimo sobre hipocrisia e a cegueira, que nada mais é do que colocar as leis
humanas sobre as Leis de Deus, alterando-as de diversas formas e assim
amaldiçoando a terra e condenando àqueles que os escutam.

Apesar de um ensino simples, quando olhamos para traduções ocidentais


que temos hoje, fica bem difícil de entender o básico muitas vezes.
◆◆◆
SEÇÃO XLV
DO LESTE A OESTE

Ainda disse a eles Yeshua: assim como o raio sai do leste e é visto no
oeste, assim será a vinda do filho do homem.
Mateus 24:27

Nada é por acaso, o acaso é algo que só existe no dicionário e na


imaginação popular. Yehoshua poderia ter usado diversos exemplos para
falar que a vinda do filho do homem será vista por toda a terra. Mas como ele
sempre fala em mistérios, precisamos olhar misticamente para a Torah para
entendermos seu linguajar místico.
O que mais me chamou a atenção foi que ele falou que será como um
raio, que saíra do leste com direção a oeste e isso tem uma conexão profunda
com algumas coisas sobre Deus.

A VOZ DE DEUS
E ouviram a voz de Adonai Elohim, que passeava no jardim pela viração
do dia; e escondeu-se Adão e sua mulher da presença de Adonai Elohim,
entre as árvores do jardim.
Genesis 3:8

Esse é um versículo cheio de mistérios, até porque se fizermos uma


tradução ao pé da letra, vai dar um tom totalmente sem sentido em
comparação àquilo que estamos acostumados a ler. Vou colocar a tradução
no sentido literal e quero poder analisar alguns termos utilizados.

E ouviram a voz de Adonai Elohim se retraindo em direção ao vento do


dia e se esconderam, o homem e sua mulher, de perante da face de Adonai
Elohim no meio das árvores do jardim.
Genesis 3:8

Apesar de parecer algo sem pé nem cabeça, temos grandes mistérios


escondidos nessa passagem. Infelizmente com as traduções perdemos esse
acesso. Se prestarmos a atenção, temos uma ideia completamente nova
daquilo que estava acontecendo, Adam e Eva não simplesmente ouviram a
voz de Deus ecoando pelo jardim, como quando alguém que está na sala
chama alguém que está no quarto quando a janta está pronta, mas eles sentem
a voz de Deus ecoando para fora do jardim, como se ela estivesse se
retirando. Pergunto, será que isso que a Torah chama de voz, é realmente
uma voz no sentido literal da palavra?
O verbo usado para movimento em hebraico é LALECHET (‫)ללכת‬,
porém nessa passagem temos a palavra MITHALEKH (‫ )מתהלך‬sendo
utilizada como verbo de movimento, o que é pouco usual. A diferença entre
um e outro é que no caso de mithalekh, o espaço onde o movimento acontece
é limitado dentro de uma determinada área. Podemos entender daí que o
movimento feito pela “voz” de Deus se move de uma forma, como que, ela se
retirasse de uma área determinada onde ela já “habitava”.
Outro termo interessante é o LERUACH HAYIOM (‫– )לרוח היום‬
vento do dia - esse termo só pode significar duas coisas, ou “direção que
nasce o sol, Leste” ou “direção que o sol se põe, Oeste”. Segundo a tradução
aramaica de Onkelos, esse termo se refere ao lugar onde o sol se põe. Então,
a “voz” de Deus que se movia em movimento de retirada do lugar pré-
determinado onde já se encontrava, se movia em direção a Oeste. Se
olharmos para o Templo de Salomão, a única coisa que temos hoje é apenas
um muro que fazia parte do Templo, esse muro hoje é importante, pois,
segundo os sábios, a presença de Deus está ali, porque quando ela saiu do
Templo, saiu em direção a esse muro e como foi o último lugar do Templo
que ela tocou (pelo fato do muro ser a “borda” da área sagrada do Templo) ali
ela manteve parte de Sua presença. E esse muro é justamente o MURO
OESTE. Resumindo, a voz nada mais é do que a Shekhinah de Deus, Sua
presença, que saiu do jardim pelo lado Oeste, assim como ocorreu no
Templo.
Gosto de lembrar de uma história que ouvi uma vez, ela dizia que
quando chegava a hora da oração da tarde no Templo em Jerusalém, a
inclinação da incidência dos raios solares vinham do Oeste, de uma forma
que quando batiam nas colunas de bronze do Templo, davam a sensação que
estavam acesas como fogo, lembrando a Shekhinah de Deus em forma de
coluna de fogo enquanto o povo estava no deserto.
Outra linha de pensamento que devemos lembrar é o padrão que Deus
age. Deus age em ciclos, a vida criada por Deus é definida em ciclos em
todas as áreas. Temos noites e dias, semanas, meses, anos, tudo se repete.
Histórias bíblicas se repetem, o mover de Deus sempre segue um padrão.
Hoje estamos por baixo, amanhã estaremos por cima, tudo é um círculo, se
algo acaba pelo lado esquerdo, quando recomeça, de certo recomeçará pelo
lado direito. Sendo mais direto, se realmente a Shekhinah de Deus foi embora
pelo Oeste, acredito eu que voltará pelo Leste, assim como o nascer e pôr do
sol.

Vamos ver o que as escrituras falam a respeito:

E os que assentarão as suas tendas diante do tabernáculo, a Leste, diante


da tenda da congregação, para a banda da nascente...
Números 3:38a

Então, me levou à porta, à porta que olha para o caminho do Leste.


E eis que a glória do Deus de Israel vinha do caminho do Leste; e a sua
voz era como a voz de muitas águas, e a terra resplandeceu por causa da sua
glória.
Ezequiel 43:1-2

Depois disso, me fez voltar à entrada da casa, e eis que saíam umas
águas de debaixo do umbral da casa, voltada para o oriente; porque a face
da casa olhava para o oriente, e as águas vinham de baixo, desde a banda
direita da casa, da banda do sul do altar.
Ezequiel 47:1

O Tabernáculo e o Templo estavam virados para o Leste esperando a


vinda da Shekhinah, temos também Ezequiel alegando que a Shekhinah de
Deus virá pelo Leste. Por isso que muitos sábios oravam voltados a Leste,
pois aguardavam a volta da Shekhinah de Deus.
Então, entendo que o sentido estabelecido por Deus é do Leste para
Oeste, assim como o movimento da terra em relação ao sol. E veja que legal,
temos algumas passagens que falam sobre ir em direção a Leste, ou seja, na
direção oposta do movimento da Shekhinah do Criador, fazendo a alusão de
ir contra Deus:
E, havendo lançado fora o homem, pôs querubins ao leste do jardim do
Éden...
Genesis 3:24a
Adam foi expulso do jardim em direção ao Leste. Quando o povo de
Israel foi levado ao exílio babilônico, também foi em direção ao Leste. Ou
seja, quando vamos em direção contrária àquilo que Deus determina sempre
acabará em exílio, ser lançado fora e separado da benção. Isso tudo foi
estabelecido por Deus exatamente naquele momento, por isso sua “voz” foi
para Oeste e a expulsão de Adam foi para o Leste, sentidos opostos.
Talvez Yehoshua faça uma associação da vinda do filho do homem
com o retorno da Shekhinah.
◆◆◆
SEÇÃO XLVI
ZODÍACO

Nessa hora, depois desses dias, escurecerá o sol, a lua não refletirá sua
luz, as estrelas cairão dos céus e todas as hostes (chail) do céu tremerão.
E então aparecerá o sinal do filho do homem no céu e todas as famílias
da terra chorarão e verão o filho do homem entre as nuvens do céu com uma
grande hoste (chail) e com uma aparência terrível.
E enviará seus anjos com um trombeta e com grande voz para juntar
todos seus escolhidos dos quatro ventos dos céus, de um lado ao outro dos
céus.
Mateus 24:29-31

Todo estudo que é feito referente a profecias ainda não realizadas, tanto
as do Tanakh quanto as do novo testamento, não passam de especulações. Se
fizermos uma busca sobre esse versículo, encontraremos milhões de
diferentes interpretações, as quais acabam deixando as palavras de Yehoshua
cada vez mais nebulosas.
Acredito que, ao invés de olharmos para o futuro correndo atrás da
profecia, melhor olharmos para trás, buscando a fonte dela.
Nesse momento, Yehoshua faz uma citação de uma profecia dada pelo
profeta Isaías que trata de um momento futuro ao seu tempo. O misticismo
que envolve qualquer profecia encontrada no Tanakh torna sua interpretação
possível apenas quando o fato profetizado ocorre, realmente entrar nesse
assunto é muito difícil.
Porém, algo me chamou muita a atenção no versículo comentado por
Yehoshua, pois em cima dele foi-se criado muita mística, ele serviu como
uma das bases para o pensamento rabínico cabalista antigo comprovar a ideia
da existência e da influência que o zodíaco exerce sobre os homens.
Antes de mais nada, gostaria de deixar claro que não sou astrólogo, não
me interesso por esse assunto e pouco conheço a seu respeito, sendo esse
pouco que sei provém de ensinos e concepções formadas através dos rabinos.
Tais ideias podem divergir pouco, ou muito, da astrologia moderna ocidental,
aquelas que encontramos pela internet ou em livros que abordam esse tema.

O ZODÍACO JUDAICO
Dizem os sábios que a ideia da existência de um zodíaco, o qual exerce
influência no caráter comportamental do ser humano, foi desenvolvida pelos
judeus através de revelações de segredos do livro de Genesis. Tais ensinos
são conhecido como Sefer Yetsirah e apesar de nunca ter sido escrito, é o
quinto “livro” mais antigo dos judeus.
Por todo o Tanakh encontramos descrições de como Deus canaliza Sua
força e vontade divina em nosso mundo através de corpos celestiais,
causando uma forte influência em nosso comportamento. Tal conceito, dentro
do judaísmo, não é uma forma de nos conhecermos, como fazem os
astrólogos, mas sim o conhecimento de um obstáculo que devemos superar.
Pois através da observância da Torah estaremos plugados com o sobrenatural,
com a verdadeira vontade divina, a qual nos fará vencer as influências das
forças astrológicas.
Assim como existem 12 signos definidos pelo judaísmo, existem 12
meses no ano, 12 raízes de alma, 12 tribos de Israel e etc. O signo indica uma
força e características ocultas dentro de cada indivíduo que devem ser
vencidas e não aceitas.

O ZODÍACO NAS PROFECIAS


Agora posso trazer a passagem de Isaías mencionada por Yehoshua e
veremos que ela possuí um termo muito bizarro.

‫יגיה‬-‫כובי השמים וכסיליהם לא יהלו אורם חשך השמש בצאתו וירח לא‬-‫כי‬
‫אורו‬
As estrelas e constelações dos céus não darão sua luz, o sol escurecerá
quando surgir e a lua não refletirá seu brilho.
Isaías 13:10

Yehoshua faz uma citação do versículo de Isaías quase em sua íntegra, a


não ser por um termo adicionado por ele, traduzido como hostes nos
versículos 29 e 30 (ver acima). A palavra CHAIL (‫ )חיל‬tem alguns
significados, como "força", "hostes", "força que mantém algo unido", porém
seu significa em aramaico é o substantivo coletivo para astros que, em outra
palavra, significa "constelação", o que nos leva ao entendimento que, assim
como Isaías, Yehoshua também está falando de algo oculto.

No versículo de Isaías, a palavra traduzida como “constelações”, em


hebraico, é KSILIM (‫)כסילים‬, plural de KSIL(‫ )כסיל‬e não CHAIL (‫)חיל‬
conforme usado por Yeshohua.
KSIL não significa “constelação”, mas é o nome de uma estrela
especifica, localizada no Polo Sul. Essa estrela é conhecida como “o sinal que
os camelos morrerão”, pois ela só se torna visível no hemisfério norte em
pleno verão, quando os camelos ficam expostos a temperaturas extremas e
morrem devido ao calor.

Assim como no versículo de Isaías, nomes de estrelas associadas a


constelações são mencionadas por outras três vezes pelo Tanakh:

As estrelas e Ksilim dos céus não darão sua luz, o sol escurecerá quando
surgir e a lua não refletirá seu brilho.
Isaías 13:10

Aquele que fez Kimah e Ksil. Aquele que transforma a profunda


escuridão no amanhecer e o dia escuro em noite. Aquele que invoca as águas
dos mares e as despeja por cima da terra – Seu nome é Adonai.
Amós 5:8

Aquele que fez AS, Ksil, Kimah e Chadrei Teman.


Jó 9:9

Você pode amarrar cordões na Kimah ou desfazer os reinos de Ksil?


Jó 38:31

Nessas quatro menções, existem quatro nomes estranhos que foram


traduzidos de forma aleatória porque os trautores não conheciam seus
verdadeiros significados, esses termos são: Ksil, Kimah, AS e Chadrei
Teman.
Esses termos ocultos só podem ser compreendidos através da mística e do
conhecimento de astrologia dos antigos sábios. As associações que possuem
com o zodíaco revelam coisas profundas:

ESTRELAS E SIGNOS
KSIL
Estrela no coração da constelação de Scorpio, ponto equinocial do
Sul. Durante muito tempo a constelação de Libra era considerada sendo parte
da constelação de Escorpião, sendo a primeira o centro da segunda. Segundo
o grande rabino cabalista Ibn Ezra, Ksil era a estrela do coração de Escorpião,
representando o centro dessa constelação, que agora pertence a constelação
de Libra.

LIBRA (mês: TISHREI) – O período de Libra é o mais delicado, é a


época que tem duas festas importantes, o Rosh Hashanah (ano novo) e dez
dias depois, o Yom Kippur (dia do perdão). Ensinam nossos sábios que esses
dez dias entre uma festa e outra é justamente o período em que os céus
estarão abertos para que possamos refletir sobre nossos pecados e pedir
perdão verdadeiramente por eles, chegado o dia de Yom Kippur, Deus dará a
sentença, por isso temos uma balança como símbolo desse signo.

AS
Próximo a Ursa Maior, Polo Norte. AS pode ser entendida como uma
estrela chamada “eta geminorum” e fica próxima a constelação de Touro. Sua
posição mais exata a coloca dentro da constelação representada pelo signo de
Gêmeos, a qual também pode ser visto de ambos os hemisférios.

GÊMEOS (mês: SIVAN) – Esse é o mês considerado o mês que


representa o aprendizado a caminhar nos trilhos da Torah. Nesse período
temos a celebração da festa de Shavuot. O símbolo de gêmeos se dá devido as
duas tábuas da lei, pois foi nessa época que a Torah foi entregue.

KIMAH
Estrela também conhecida como Ari, ponto equinocial Norte. Essa
estrela é localizada dentro de uma constelação chamada pelo nome Áries.

ÁRIES (mês: NISSAN) – O primeiro mês do signo judaico. Nesse


período temos a celebração da festa de Pessach. Deus definiu esse mês como
sendo o primeiro mês dos meses (Ex 12:2) e por esse fato, se tornou o
primeiro signo do zodíaco. Seu símbolo é um cordeiro, símbolo o qual é a
representação do próprio Pessach (Ex 12:3-5).

CHADREI TEMAN
Estrela também conhecida como Spica, Polo Sul. A estrela mais
importante dentro da constelação de Virgem.

VIRGEM (mês: ELUL) – Época que antecede a de Libra, na qual sairá


nossa sentença. Por isso nesse período devemos ter um comportamento
humilde e inocente para nos prepararmos para o dia do perdão. O símbolo de
uma virgem representa justamente isso, pureza e inocência perante o Criador.
Essa ideia é mostrada pelo próprio rei Salomão, quando ele escreveu –
ani ledodi Vedodi li - dando o nome do mês de Elul (‫ )אלול‬através das inicias
das palavras desse versículo:

‫אני לדודי ולדודי לי‬


Eu sou de meu amado e meu amado é por mim.
Cantares 6:3

Nessa época preparatória é quando devemos ter uma vida totalmente


voltada para Deus e assim Ele será por nós.

KSIL E O YOM KIPPUR


O Yom Kippur é a data mais importante da Torah, é uma ordenança
representada pelos sacrifícios que eram levados ao Templo. A estrela de Ksil
tem uma simbologia associada ao Yom Kippur, pois faz parta da constelação
que é representada por uma balança, fazendo assim uma referência ao dia do
julgamento de Deus.
A palavra Ksil aparece em um outro lugar da Torah, mas dessa vez não
como uma estrela ou constelação, mas em referência ao korban, ao sacrifício:

‫כסילים‬-‫ואת שתי הכלית ואת החלב אשר עלהן אשר על‬...


E os dois rins e a gordura que estão sobre eles, isso é os flancos
(Ksilim); e a protuberância no fígado, o qual ele deve remover com os rins.
Levítico 3:4

Nessa passagem temos a associação de Ksil com o sacrifício a ser


levado ao Templo, lembrando que essas regras que estão na Torah eram para
ser observadas tanto em Pessach quanto em Yom Kippur.

CUIDADOS
O zodíaco judaico é muito diferente daquele praticado pelo misticismo
moderno. Um cuidado é muito importante, pois é uma faca de dois gumes,
assim como pode ser interessante conhecer as definições de caráter que eles
apresentam, os quais podem ser precisos até certo ponto. Usá-los para
previsão do futuro, como um mapa astral ou até mesmo saber como vai ser o
dia ou a semana, é adivinhação, algo proibido pela Torah.
A intenção desse estudo não é explicar como será essa profecia, pois
qualquer um que explicá-la não estará fazendo nada além de especulações, só
saberá como será quem estiver lá naquele momento. Mas é interessante como
Yehoshua possuia uma forte ligação mística com o misticismo judaico.
Ninguém sabe o dia, apenas Deus, mas tem algo que podemos aprender
com isso. Yehoshua cita uma profecia que fala sobre KSIL, uma estrela que
faz parte da constelação de Libra e em seguida alega que os anjos virão
tocando trombetas, tocando o shofar. A festa mais importante que está no
período de Libra e que se toca o shofar é justamente o Rosh Hashanah e o
período de dez dias antes do Yom Kippur. Talvez isso seja uma dica da época
do ano que tudo isso irá ocorrer, pois os fins dos tempos para Yehoshua nada
mais é do que o dia do julgamento de Deus, sendo assim, eu partiularmente
entendo que a vinda de Mashiach será em Rosh Hashanah e o julgamento
final após dez dias, em Yom Kuppur.

O SIGNO DE YEHOSHUA BIN NUN


Como mencionado anteriormente, a sabedoria em relação aos signos
servem para que saibamos como combater àquilo que estamos fadados. Os
rabinos ensinam que pela observância da Torah e, consequentemente, a
obtenção de um estado espiritual elevado, não estaremos mais subjugados às
constelações, nem tampouco ao destino e ao acaso. Não seremos pessoas que
nascem, crescem e morrem, mas seremos pessoas grandemente usadas por
Deus, contrariando tudo aquilo que o ser humano determina como “natural”.
Um bom exemplo disso é Josué Ben Nun e a forma que Moises o instruía
para selecionar homens para ir consigo às batalhas:

Moises disse a Josué: escolha para nós alguns homens e saia e batalhe
contra Amalek. Amanhã eu ficarei no topo no morro, com a vara de Adonai
em minhas mãos.
Êxodo 17:9

“escolha para nós alguns homens”. Moises se referia a homens nascidos


no segundo mês de Adar, pois pessoas nascidas nesse mês não tinham medo
de feiticeiros e bruxas. Tais pessoas não eram influenciadas por forças
negativas das doze constelações do zodíaco.
Chizkuni, Êxodo 17:9:1

Temos aqui um comentário muito estranho em relação a essa passagem


de Êxodo. Chizkuni afirma que Moises queria homens nascidos no segundo
mês de Adar, pois não seriam influenciados pelo zodíaco.
O calendário judaico, diferentemente do ocidental, não é solar e sim
lunar, os dias começam e terminam conforme a lua aparece e vai embora, o
que causa um descompasso com os meses do calendário solar, pois os meses
lunares possuem vinte e nove dias e meio. Para que isso seja corrigido, um
mês chamado Segundo Adar, que seria o décimo terceiro mês, é adicionado
ao calendário anual a cada três anos. Mês em que, dizem os sábios, Josué
nasceu.
Por existirem apenas doze signos, aqueles que nascem no mês de
Segundo Adar não estão sob nenhum tipo de influência do zodíaco e por isso
eram homens valentes, pois seu espírito não estava sob determinações
astrológicase por esse motivo, Josué se tornou um líder valente e forte,
conquistou a terra de Israel e foi grandemente abençoado por Deus, pois não
estava sob influências externas, é o exemplo de como deve se tornar o
homem que usa a palavra de Deus para vencer a influência dos signos, todos
devem ser iguais a ele.
Portanto, aqueles que não nasceram nesse mês devem seguir aos
caminhos de Deus para que, através deles, possam ser transformados e
elevados, deixando de lado uma vida pré determinada para uma vida guiada
pelo Criador.
◆◆◆
SEÇÃO XLVII
ARREBATAMENTO SEGUNDO YEHOSHUA

O arrebatamento é um conceito escatológico criado pelo cristianismo para


definir como será o fim daqueles que aceitam a essa fé. Segundo essa ideia,
jesus viria dos céus e chamaria a igreja, levando os cristãos para fora dessa
realidade terrena, elas iriam juntos a ele para a Jerusalém celestial, onde tudo
é perfeito, lá seria a nova habitação da igreja junto com jesus.
Enquanto isso, na terra, aconteceria a tribulação, onde o anti-cristo iria
trazer sofrimento aos que não aceitaram esse jesus como salvador,
principalmente aos judeus. Após sete anos, jesus voltaria para a terra para
trazer julgamento sobre as pessoas más que aqui ficaram e condenar a satan.
Existem muitas passagens que serviram de base para a formação dessa
ideia teológica, mas da mesma forma que foi possível desenvolver esse
conceito através delas, é também possível refutar esse conceito usando as
mesmas passagens, pois se tratam de versículos fora de contexto,
interpretadas por mentes que pouco conhecem a verdadeira fé daqueles que
os escreveram.
De qualquer forma, Yehoshua fala algumas coisas a respeito desse grande
momento e pelo que me parece, não está muito de acordo com esse conceito
cristão.

Ainda disse Yeshua a seus talmidim: assim como nos dias de Noach, será
nos dias do filho do homem.
Antes do dilúvio, comiam e bebiam, eram frutíferos e se multiplicavam
até o dia que Noach entrou na arca.
E não sabiam até que veio o dilúvio sobre eles e levou os não Tzadikim,
assim será a vinda do filho do homem.
Se houver dois cultivando um campo, aquele que é Tzadik ficará e aquele
que é mal será levado.
Duas mulheres estão trabalhando em um moinho, uma será levada e a
outra deixada. Isso porque os anjos, no fim do mundo, irão levar embora do
mundo as pedras de tropeço, separando assim os bons dos maus.
Mateus 24:37-41

Essa é a genealogia de Noach, Noach homem tzadik; ele era inculpável


em seus dias; Noach andava com Deus.
Genesis 6:9

Deus disse a Noach: Eu decidi colocar um fim em toda a carne, pois o


mundo está cheio de iniquidades por causa dela, irei destruí-la junto com a
terra.
Genesis 6:13

TZADIK (TZADIKIM, plural) – Palavra hebraica normalmente


traduzida para o português como “justo”. Tal termo é vastamente usado por
todo o Tanakh em referencia à pessoa que segue a Torah. Quanto mais tempo
desprendido ao entendimento e a observância das Leis de Deus, segundo o
próprio Criador, maior Tzadik será essa pessoa.

Já ouvi diversas explicações e estudos em relação ao que a igreja chama


de arrebatamento. Apesar de pequenas diferenças em alguns pontos entre
esses estudos dos teólogos cristãos, o resumo é que jesus virá buscar a igreja
para levá-la morar em uma Jerusalém que se encontra em algum lugar no
espaço.
Mas o que me deixa mais indignado é como uma teologia dessa, que vai
de encontro com as palavras daquele que supostamente viria buscá-los, pode
se sustentar tão fortemente na mente de milhões de cristãos. Acho que não é
necessário fazermos uma análise muito profunda em relação ao que está
escrito para que possamos ver isso.
Yehoshua usa a história de Noach como exemplo. Apesar da igreja
interpretar esse ensino como um comparativo entre os dias de Noach com os
dias atuais, não era bem a isso que Yeshohua se referia. Noach vivia em uma
época em que a iniquidade e o pecado imperavam, Deus resolve destruir tudo
e começar de novo, então manda um dilúvio para levar aqueles que viviam
no pecado. Por outro lado, Noach, homem tzadik, ficou vivo e continuou
nessa terra, pois era uma pessoa que seguia as Leis de Deus.
Da mesma forma, Yehoshua afirma que será assim nos dias do filho
do homem, que nada mais é do que um outro termo em referência ao fim dos
tempos. Os que serão levados serão os pecadores e os tzadikim ficarão, algo
totalmente contrário a ideia do arrebatamento cristão. Yehoshua fala isso de
uma forma bem clara e direta.
O último versículo possuí uma enorme diferença em relação as traduções
ocidentais, Yehoshua fala que as “pedras de tropeço” serão levadas para
separar os bons dos maus. Um ensino tão simples e tão direto, não entendo
como a teologia do arrebatamento se sustenta frente as palavras de Yehoshua,
o qual seria o personagem principal dessa teoria. Fora tudo isso, será mesmo
que Deus vai levar alguém morar no céu? Será que isso faz sentido?
Morar no Céu
Gostaria de abordar um pouco esse conceito cristão de “morar no céu”,
para tanto, vamos olhar a alguns versículos do Tanakh e do novo testamento:

Há muitas moradas onde vive meu Pai, e vou aprontá-las para a vossa
chegada. Quando tudo estiver pronto, então virei para vos levar, para que
possam estar sempre comigo onde eu estiver. Se assim não fosse, eu próprio
vos teria dito claramente.
João 14:2

Esse é o texto áureo do cristianismo para defender a doutrina de “morar


no céu”. Mas dois pontos que devemos levar em consideração ao analisarmos
essa passagem. Essas palavras foram ditas pelo próprio Yehoshua a seus
seguidores, veja, se a missão de Mashiach é reinar nessa terra por mil anos,
tendo seu governo a partir de Jerusalém e se há uma promessa que ele e seus
seguidores estarão juntos, então, fica meio óbvio que ninguém irá morar no
céu, mas sim, nessa terra, sob seu governo. Pois como pode ele estar na terra
e seus seguidores no céu? Não faz o menor sentido.
Outro ponto a se observar é a razão de Yehoshua ter usado essas palavras
como uma forma de consolo aos seus discípulos. Toda vez que ele usava a
expressão “casa de meu Pai”, ele não se referia ao céu, mas ao Templo em
Jerusalém e isso fica claro em inúmeras passagens pelas escrituras. Quando
Yehoshua diz que “na casa de meu Pai há muitas moradas”, ele aborda um
desejo antigo dos judeus de morar no Templo de Deus:

Uma coisa pedi ao Senhor, e a buscarei: que possa morar na casa do


Senhor todos os dias da minha vida, para contemplar a formosura do
Senhor, e habitar no Seu Templo.
Salmos 27:4

O consolo que Yehoshua traz através dessas palavras é justamente a


possibilidade daqueles que seguem a Deus, de morar no Templo, em outras
palavras, na Nova Jerusalém, pois é o lugar onde será reconstruído o Templo.
Uma vez em nova Jerusalém, salvo estará.
A concepção de “morar no céu” não nasceu no cristianismo, vem de
culturas muito mais antigas como a de Nimrod por exemplo, que edificou
uma torre para que pudesse chegar no céu e lá habitar. Essa necessidade de se
morar no céu que existe dentro do ser humano supri um certo descaso em
relação a situação da vida nesse mundo terreno, do quanto ir para o céu
poderia ser a solução de todos os problemas aqui presente. Mas pessoas que
buscam a isso, se esquecem de que a missão do homem que serve a Deus
nessa terra é de aperfeiçoá-la, estabelecendo nela o Reino de Deus através da
sua obediência aos mandamentos e de seus testemunhos. O plano de Deus
nunca foi de tirar o homem da terra pra colocá-lo em algum outro lugar, pois
a terra foi criada por Deus pensando na gente.
Seguem mais algumas passagens sobre o assunto:

Os céus são os céus do Senhor; mas a terra a deu aos filhos dos homens.
Salmos 115:16

Os Tzadikim herdarão a terra e habitarão nela para sempre.


Salmos 37:29

E produzirei descendência a Jacó, e a Judá um herdeiro que possua os


meus montes; e os meus eleitos herdarão a terra e os meus servos habitarão
ali.
Isaías 65:9

Temos que ter muito cuidado com alguns conceitos enraizados em nossa
educação religiosa, não é porque os ouvimos a vida toda que os fazem
verdade. Se nesse caso a teoria do arrebatamento estivesse correta, os Salmos
seriam uma mentira, tudo seria uma mentira, a Torah, o Tanakh, os ensinos
de Yehoshua, os profetas, tudo.

“ARREBATAMENTO” SEGUNDO O JUDAÍSMO


Toda vez que o novo testamento trata do assunto “arrebatamento”, ele
trata na verdade de um conceito muito antigo dentro da fé judaica e que foi
um pouco mal interpretado pela igreja. Esse conceito que veremos faz toda a
diferença, pois é a ele que Yehoshua se referia, é nele que todos os seus
talmidim acreditavam e é sobre ele que o livro de Apocalipse foi escrito.
Pureza leva a separação, separação leva a santidade, santidade leva a
modéstia, modéstia leva ao medo de pecar, medo de pecar leva a piedade e
piedade leva ao Espírito Santo. O Espírito Santo leva a ressureição e
ressurreição começara quando vier Elias, de abençoada memória, Amém.
Mishnah Sotah 9:15

Essa mishnah mostra como o comportamento leva ao Espírito Santo, o


Espírito Santo leva a ressurreição e a ressurreição começará quando vier
Elias, como Elias é o percursor de Mashiach, então, a ressurreição se dará nos
dias de Mashiach, ou era messiânica.

HaKadosh Baruch Hu, como punição por Adam ter comido do fruto da
árvore, declarou que todo homem deve passar pela morte até quando vier
Mashiach e a ressurreição dos mortos ocorrer.
Rav Moshe Feinstein, Choshen Mishpat II 73 32

Esse fenômeno nada mais é do que a ressurreição dos mortos, segundo a


fé judaica, quando Mashiach chegar para julgar as nações, todos os mortos
voltarão para serem julgados. Eles se encontrarão com ele nos céus, pois
receberão a sentença primeiro e os que forem considerados tzadikim,
ressuscitarão e viverão com Mashiach nessa terra. Então Mashiach julgará
aos vivos, os maus serão lançados fora e os tzadikim receberão a mesma
forma física que os que ressuscitaram e todos reinarão com Mashiach por mil
anos.

Esses não terão lugar no mundo vindouro: Aquele que diz que a
ressurreição dos mortos não é da Torah.
Mishnah Sanhedrin 10:1

Mexer com conceitos nunca é fácil, principalmente quando se trata de


conceitos religiosos. Infelizmente todo ser humano tem o costume de seguir
pelo caminho mais fácil, é muito mais fácil aprender ouvindo do que
aprender estudando. Todos nós temos a tendência de entrarmos em lugares
onde a palavra de Deus é ensinada, ouvir a mensagem e por algum motivo,
ter essa interpretação que ouvimos como verdade absoluta, principalmente
quando a ouvimos por longos anos.
Esses conceitos devem ser quebrado e vencidos, principalmente quando
vão de encontro com a bíblia. Veja pelos próprios ensinos de Yehoshua, o
que ele mais fez? Justamente bateu de frente e refutou muitos dos ensinos,
costumes, teologias e teorias da fé judaica que iam contra a bíblia.
Imaginem se Yehoshua viesse nos dias de hoje e fosse um cristão, será
que ele não seria contra esse monte de ideias teológicas criadas por homens?
Será que ele não seria contra essa infinidade de padres, reverendos e pastores
que se apegam mais a igreja per se do que na bíblia? Todos aqueles
problemas que Yehoshua teve com os fariseus de sua época são justamente os
mesmos problemas que ele teria com o cristianismo nos dias atuais, nem vou
citar o judaísmo, pois o judaísmo não acredita em seu ministério. Os fariseus
hipócritas de hoje em dia são os padres, os pastores e todos os líderes de
comunidades que ensinam a abolição da Torah, a teologia da substituição, a
teologia da dispensação e tudo aquilo que foi criado pela má interpretação
bíblica. Sempre é bom pensar nisso
◆◆◆
SEÇÃO XLVIII
PESSACH

Vocês não sabem que daqui dois dias será Pessach e o filho do homem
será entregue às mãos dos judeus para ser pendurado?
Mateus 26:2

O Pessach é uma festa bíblica que representa a saída do Povo de Israel do


Egito conforme relatado no livro de Êxodo. Existe muita confusão entre
Pessach e Páscoa, pois ambas caem em datas muito próximas, mas a Páscoa
em nada se relaciona com o Pessach bíblico. A celebração do Pessach é tão
importante e intrínseca no povo judeu que, segundo uma pesquisa feita em
Israel, 98% da população celebra o Pessach de alguma forma, tanto judeus
quanto não judeus residentes neste pais.
As raízes que o Pessach possuí são muito profundas, é um tempo de
celebração da saída da “casa da escravidão”, “do fim do jugo” e “da
liberdade”. Tudo em torno de sua celebração é simbólico e sempre
relacionado ao relato da Torah, desde as dez pragas que assolaram ao Egito
até a travessia do Povo de Israel pelo mar de juncos.

Adonai disse a Moises e Aharon na terra do Egito. Esse mês deve marcar
para vocês o começo dos meses. Deve ser o primeiro dos meses do ano para
vocês. Fale para toda comunidade de Israel e diga que no décimo desse mês
cada um deve tomar um cordeiro por família, um cordeiro por casa.
Êxodo 12:1-3

A redenção do Egito e a entrega da Torah estabelece a identidade do


Povo de Israel como “servos de Adonai” e não “servos de servos”. O grande
sábio, chamado Maharal de Praga, explicava em suas aulas que a saída do
Egito marcou a natureza do Povo de Israel e essa transformação é reafirmada
em todo Pessach. Apesar das muitas conquistas e escravidão que o Povo de
Israel passou, a natureza de homens livres que possuem nunca foi alterada.
O Pessach, mais do que uma saída para a liberdade, representa a natureza
e qualidade de um povo livre para servir ao Deus Verdadeiro, pois Deus
liberta Seu povo do Egito todos os dias. O milagre do Pessach não é uma
celebração de algo que aconteceu, mas é uma celebração de algo constante
em nossas vidas.
Na época de Yehoshua, a celebração de Pessach, com todos os costumes
judaicos, já era muito popular. Flavius Josefvs estimou que no Pessach do
ano 29 e.c., que é muito provável que seja o mesmo ano que Yehoshua entrou
em Jerusalém para celebração da festa, haviam mais de três milhões de
pessoas na cidade em observância a essa data. O Talmud também relata um
fato interessante sobre esse ano.

Os sábios ensinam que o rei Agrippa quis colocar seus olhos na multidão
de Israel. Ele disse ao sumo-sacerdote para ficar de olho nos cordeiros de
Pessach e que contasse quantos animais seriam trazidos. O sumo-sacerdote
contou os pares de rins antes de serem queimados e sua contagem foi de seis
milhões de rins, como cada animal possui dois rins, a população ali presente
era de três milhões de pessoas, o dobro do número dos que saíram do Egito.
Talmuda da Babilônia, Tratado Pesachim 64b

Yehoshua entra em Jerusalém nesse mesmo período para a observância


dessa festa. A famosa santa ceia não foi uma ceia, mas foi um “seder de
Pessach” (celebração judaica de Pessach), o famoso partir do pão, não foi um
pão, mas sim uma “matzah”, a reunião de Yehoshua e seus talmidim não foi
uma ocasião de despedida antes de sua morte, mas sim uma observância de
um mandamento da Torah.
Portanto, acho importante alguns esclarecimentos em relação a alguns
termos e costumes descritos no livro de Mateus.

SEDER SHEL PESSACH


E no primeiro dia da festa dos pães não levedados, se aproximaram os
talmidim de Yeshua, dizendo: Aonde devemos preparar o lugar para o
SEDER de PESSACH?
Mateus 26:17

O Seder Shel Pessach (ordem do Pessach) é a forma estabelecida para a


celebração dessa festa. Durante séculos, essa celebração não possuía regras
definidas em relação ao que deveria ser feito nesse dia, até que o rei Josias
instituiu as reformas relatadas em II Reis 23 e determinou a forma de
celebração do Seder como conhecemos hoje, ali ele começou ser criado.
Durante o segundo Templo, a forma como a festa era observada já estava
bem definida e regulada, tanto pela Torah Oral quanto pelas escolas
rabínicas. Yehoshua irrefutavelmente segue essas regras como veremos mais
adiante.
O Seder é muito longo para ser descrito, mas ele determina os tipos de
alimentos simbólicos que devem ser comidos, intercalando com a leitura da
Torah sobre as passagens onde essas simbologias se encontram. Durante o
Seder, um livro chamado Hagadah Shel Pessach é lido.
A Hagadah é um livro que foi introduzido pela grande assembleia há
quase dois mil e quinhentos anos atrás e nele se encontram a história da saída
do Egito, salmos e canções para recitar durante a festa, ela também determina
a ordem que cada alimento deve ser comido e sua representação simbólica.
Nessa passagem, os talmidim de Yehoshua o questionam onde ele
gostaria de realizar esse Seder Shel Pessach, com certeza, além do relatado
pelo livro de Mateus, eles entoaram os Salmos, cânticos, abençoaram a Deus,
leram a Hagadah, comeram os alimentos simbólicos e estudaram o livro de
Êxodo. Ninguém ali abriu ovo de chocolate.

ALIMENTOS DE PESSACH
E respondeu a eles: aquele que mergulhar o Karpas na água salgada
junto a mim, é aquele que passa as informações a meu respeito. E ninguém
pôde reconhecê-lo, pois se tivessem o reconhecido, o teriam destruído.
Mateus 26:23

Os alimentos simbólicos que são comidos em um Seder Shel Pessach são:


Matzah (pão ázimo), Maror (erva marga), Charosset (mistura de maçã com
nozes), Zeroah (um osso com carne), Beitzah (ovo cozido) e Karpas (legume
cozido). No centro da mesa é colocado uma tigela com água salgada que é
usada justamente para mergulhar o Karpas.
A água salgada simboliza as lágrimas derramadas pelo Povo de Israel em
seus anos de escravidão, é o símbolo da tristeza que o povo passou.
Dentre tantas formas de provar quem era o traidor, Yehoshua resolve
usar justamente essa água salgada, talvez para mostrar a sua tristeza e seu
choro por ter sido traído.

MATZAH
Enquanto comiam, Yeshua pegou a MATZAH, abençoou e partiu
entregando aos talmidim e disse: tomem e comam, esse é meu corpo.
Mateus 26:26

A matzah é um tipo de pão sem fermento, mais parece um biscoito e é


produzido sob rigorosa supervisão rabínica. Esse tipo de pão é consumido
durante o Pessach em observância a um mandamento da Torah:

Sete dias comerás pães sem fermento, porque apressadamente saíste do


Egito, para que se recorde do dia da tua saída da terra do Egito, todos os
dias da tua vida.
Deuteronômio 16:3

Vemos aqui mais uma restrita observância de Yehoshua da Torah, pois o


texto não afirma que ele comeu pão, que pelo qual estaria ele quebrando esse
mandamento da Torah, mas Mateus deixa bem claro que Yehoshua comia
matzah, conforme ordenado por Deus. Tal comparação pode ser interessante,
o novo testamento afirma que Yehoshua se tornou o cordeiro perfeito pois
não havia pecados nele, o fermento é biblicamente associado ao pecado,
como a matzah não possui fermento, seria ela “um pão sem pecado”, portanto
se encaixa com as palavras dele ao dizer que aquela matzah “é o corpo dele”.

Para terminar o assunto sobre Pessach, quero deixar um ensino de Rabbi


Gamliel, rabino de Paulo de Tarso.

Rabbi Gamliei costumava dizer: qualquer um que não mencionar essas


três coisas em um Pessach não cumpriu com sua obrigação, e elas são o
sacrifício de Pessach, a matzah e as ervas margas. O sacrifício, pois o
Onipresente passou por cima das casas do Povo de Israel. Matzah pois o
povo foi remido da escravidão e ervas amargas, pois Deus livrou da
amargura dos egípcios. Estamos obrigados a agradecer, orar, louvar,
glorificar, exaltar, engrandecer, abençoar e adorar AQUELE que faz todos
esses milagres. Ele nos traz da escravidão para liberdade, da tristeza para
alegria, da escuridão para luz, da servidão para redenção. Por isso devemos
dizer perante Ele, Halleluyah!
Mishnah Pesachim 10

Interessante, segundo Rabbi Gamliel, as três coisas que devem ser


mencionadas em um pessach são exatamente as mesmas três coisas citadas
por Mateus, a matzah, as ervas amargas e ele próprio, como sacrifício, seria
por acaso tudo isso?
◆◆◆
SEÇÃO XLIX
NOVA ALIANÇA

E pegou o copo, deu graças a seu Pai e deu a eles, dizendo: todos bebam
isso.
Esse é meu sangue, e a nova parte da aliança, que será derramada sobre
todos para a justificação dos pecados.
Mateus 26:27-28

Segundo a igreja, não estamos mais sob a Lei, mas sob a graça. A
aliança feita com Moises cumpriu seu papel e perdeu assim seu propósito,
sendo ela substituída por uma aliança superior através do ministério do jesus.
Sob essa nova aliança temos a salvação como um presente gratuito, ou seja,
sem que tenhamos que obter qualquer mérito perante Deus, sendo nossa
única responsabilidade é ter fé e ir a igreja. Através do Espírito Santo
compartilhamos a herança de cristo e as suas leis se tornaram superiores as
Leis do antigo povo de Deus, que perdeu sua posição ao não aceitarem e
matarem a cristo.
Porém toda essa baboseira teológica é baseada em interpretações
parciais e antissemitas de alguns pais da igreja e que acabaram se tornando
verdade absoluta em todas as vertentes cristãs. Yehoshua não fala em “nova
aliança”, mas ele fala da “NOVA parte da aliança”, pois uma aliança não
pode ser quebrada e nem tão pouco substituída.
Conhecer o berço dessa teologia é importante para o entendimento
dessas palavras de Yehoshua:

Eis que dias vêm, diz o Senhor, em que farei uma aliança nova com a
casa de Israel e com a casa de Judá.
Não conforme a aliança que fiz com seus pais, no dia em que os tomei pela
mão, para os tirar da terra do Egito; porque eles invalidaram a minha
aliança apesar de eu os haver desposado, diz o Senhor.
Mas esta é a aliança que farei com a casa de Israel depois daqueles dias, diz
o Senhor: Porei a minha lei no seu interior, e a escreverei no seu coração; e
eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo.
Jeremias 31:30-32
Essa é a promessa que Deus faz sobre a “nova aliança” que serve como
uma das principais bases para a formação dessa teoria cristã, mas para que
não caiamos mais em sofismas teológicos, vamos analisar essa passagem com
muito cuidado.

1)
Algo muito importante na bíblia é a diferenciação que ela ensina. De
um lado temos a casa de Israel, descendentes sanguíneos de Abraham. Do
outro lado, os gentios, que se aproximam de Deus e entram para o Povo de
Israel, apesar dos dois grupos fazerem parte de um mesmo povo, dentro desse
povo, existe e sempre existirá uma diferenciação, cada um com objetivos e
responsabilidades diferentes, não sendo um melhor que o outro.
Deus, ao fazer essa promessa através do profeta Jeremias, deixa bem
claro que essa “nova aliança” seria feita com a casa de Israel e com a casa de
Judá, olha só, não com o gentios diretamente, não com a igreja e nem tão
pouco com ninguém que não faça parte do Povo de Israel. Em outras
palavras, se o gentio quer fazer parte dessa “nova aliança”, ele precisa ser
enxertado na oliveira de Romanos 11, é imperativo que ele entre para o Povo
de Israel (não me refiro a judaísmo) e que faça parte da Casa de Israel, ai sim,
a promessa irá inclui-lo.

2)
Deus afirma que a aliança foi invalidada, foi quebrada, porém pelo
próprio Povo de Israel, pois não O obedeceram. Deus, em nenhum instante,
fala qu