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A FAMÍLIA – PRISÃO DO AMOR

Jacques Mousseau

Quando, nos anos 60, os meios de comunicação se transformaram em profetas


sociológicos, ficou claro que a maioria das referências à família moderna vem associada à
idéia de “crise”. A impressão que se tem é de que a família entrou em um período de
decadência nos últimos anos – um acontecimento trágico quando comparado à
tranqüilidade da Idade de ouro do passado. Na verdade, ambas as observações são mera
fantasia, já que o passado não foi tão glorioso quanto nossas lembranças nos levaram a
crer, nem o presente é tão catastrófico quanto argumentam alguns. Como diz Mousseau,
não foi a família per se que mudou tanto com o passar dos anos, mas sim as nossas atitudes
com relação a ela.
A família extensa do passado possuía um núcleo “econômico” bem definido, e não
poderia ter sido de outro modo, dada a dificuldade em se conseguir sobreviver em uma
sociedade que está desbravando uma terra. Os casamentos não eram realizados
necessariamente por amor ou para a satisfação dos egos envolvidos, mas principalmente
para assegurar a perpetuação da sociedade.
Cada geração se depara com um desafio diferente (e até certo ponto, único), que
testa a vitalidade da família enquanto instituição. Nossos avós depositavam uma
importância considerável na estabilidade e no apoio que recebiam através de suas crenças
em relação à família e o Criador. Talvez fosse bom para a geração atual ter um pouco da
vontade de acreditar que caracterizava seus avós; no entanto, parece que este não é o caso, e
os beneficiários (ou vítimas, dependendo da geração que for consultada) da sabedoria e/ou
da insensatez dos ancestrais, são uma multidão de céticos.
Provavelmente, uma das acusações mais significativas feitas à família moderna seja
a sua vulnerabilidade emocional frente a um mundo impessoal – neste caso, a autonomia é
uma faca de dois gumes. De um modo ou de outro, a família (como Mousseau coloca) se
tornou prisioneira do amor. De fato, com a complexidade da vida moderna, podemos
observar que cada membro da família nuclear se torna mais interdependente de umas
poucas e selecionadas pessoas que lhe proporcionam os recursos físicos e emocionais para
conseguir levar a vida adiante. Enquanto isso, surgem inúmeras organizações no país
inteiro com o objetivo de oferecer ajuda à família para que ela possa enfrentar esse
problema – desde Meditação Transcendental até Pais Anônimos.
Apesar de toda a união existente em algumas famílias nucleares de hoje em dia, não
está muito claro até que ponto essa união gera felicidade. Se supusermos que a convivência
familiar em excesso pode trazer desavenças (ou ao menos indiferença), então o futuro da
família nuclear pode vir a sofrer sérias mudanças. Empatia e compreensão do problema
obtida por quaisquer métodos talvez possam ajudar bastante a família moderna a se ajustar
à constante tensão da vida num mundo em permanente mudança.

JACQUES MOUSSEAU – Num mundo em acelerado processo de mudança, os


seres humanos tentam desesperadamente preservar os valores que acreditam serem eternos.
Entre esses valores está a família, ou, para ser mais específico, nossa atitude em relação a
ela. No seu estudo sobre a história das atitudes, ou “mentalidades”, você encontrou esse
sentimento da família como um conceito fundamental da sociedade?

PHILIPPE ARIÈS – A família, tal como a conhecemos hoje, não. Muitas pessoas
pensam que depois de séculos de estabilidade a família começou repentinamente a sofrer
mudanças, e que os problemas atuais da família tiveram sua origem num passado distante.
Na verdade, nossos problemas são o resultado de um novo tipo de família – que vem se
desenvolvendo há séculos e que se tornou tanto um refúgio para todos os problemas quanto
uma prisão.

Temos dois tipos de tendências atualmente. Algumas tendem a aproximar ainda


mais a família, tornando-a mais limitadora com suas necessidades emocionais. As pressões
em sentido contrário são uma espécie de rebelião de presos. A preocupação atual com a
família reflete essa disputa. Um dos tópicos da minha pesquisa é mostrar exatamente como
chegamos até nossa atitude atual em relação à família, pois não poderemos compreender a
crise pela qual passa atualmente, se não examinarmos as mudanças que elas vêm sofrendo
durante todos esses anos. Para fazer isso, analisei os diferentes papéis que a criança
assumiu no nosso campo de sentimentos. Assim como eu poderia ter analisado também o
casal.

JACQUES MOUSSEAU – Pelo que entendi, temos que distinguir a família dos
sentimentos que alimentamos em relação a ela. A família talvez pareça ser a mesma, mas as
nossas atitudes em relação a ela podem variar bastante.

PHILIPPE ARIÈS – Correto. A função da família na sociedade afeta aquilo que os


membros da família sentem um em relação ao outro e a maneira como eles expressam esses
sentimentos. É claro que a família sempre foi uma unidade social importante, é uma das
partes que forma a sociedade, e é portanto mais biológica que cultural. Mas a função social
dessa família eterna mudou. A tendência é dar mais importância aos aspectos que foram
modificados do que àqueles que não sofreram alterações.

JACQUES MOUSSEAU – Quais foram as nossas mudanças de atitude em relação à


família nos últimos duzentos anos?

PHILIPPE ARIÈS – No século XVII, a família, assim como a família da Idade


Média, não proporcionava à criança nenhuma espécie de carinho ou educação, e nem
conseguia sociabiliza-la por si só. A organização familiar era baseada nas atividades do dia
a dia, na proteção do grupo em horas de perigo, e na defesa da honra, noções que já quase
esquecemos.

JACQUES MOUSSEAU – O que você quer dizer com honra?

PHILIPPE ARIÈS – Dignidade. Você pode ver que nem conhecemos mais o
significado da palavra. Para entende-la, temos que conhecer o teatro espanhol do século
XVII. Acima de tudo, estava a honra da mulher. Mas essa honra não se limitava às atitudes
em relação a ela. Podia também ser gravemente ameaçada por circunstâncias que hoje em
dia pareceriam inofensivas.
A honra e a segurança só estavam ameaçadas nas épocas de crise. No resto do
tempo, a função essencial da família era organizar a vida cotidiana. O homem não era capaz
de viver sozinho; tinha que cooperar com sua mulher, fosse no trabalho do campo ou no seu
trabalho de artesão. Quando a família não estava ameaçada, o núcleo formado pelo casal e
os filhos tendia a se separar em grupos.
Muitos estudiosos escreveram sobre a família patriarcal, supondo que esta fosse
composta de várias gerações ou várias famílias vivendo juntas. Acredito que tais famílias
eram raras na cultura ocidental. A família patriarcal do Ocidente, ao contrário, limita-se a
definir sua linhagem através do pai e da mãe, chegando até os primos mais distantes.
Este sentimento de linhas de parentesco se manifesta com mais intensidade na
nobreza, mas outros grupos sociais apresentam um sentimento de mesma intensidade por
aquilo que podemos chamar de comunidade: um grupo de parentes próximos ou distantes,
vizinhos, clientes e patrões. Este mundo era geograficamente próximo, mas as pessoas não
viviam numa mesma casa. Há duzentos anos a comunidade tinha um papel importante no
carinho pela criança e na sua sociabilização.

JACQUES MOUSSEAU – E a criança podia escolher quem bem quisesse para


amar. Hoje ela não tem escolha, tem que amar o pai e acima de tudo a mãe. Se não tem
carinho algum por eles é considerada desnaturada. Tornou-se prisioneira do amor.

PHILIPPE ARIÈS – Exato. A criança vivia em um grupo muito maior que a família,
e entre eles escolhia seus amigos. Na verdade, a família se expandia num grupo.
Atualmente existem situações como estas em algumas tribos africanas. Lá, a criança
pertence não à família, mas a um grupo mais abrangente. A família mantém uma relação
individual com a criança, que vai herdar suas propriedades; mas o afeto entre os indivíduos
é determinado pelas escolhas e influências que ocorrem dentro desse grupo.

Do mesmo modo, há duzentos anos a família não tinha um papel emocional e sim
econômico: preservar e transmitir propriedades e estabilizar a comunidade trabalhadora.
Por exemplo, quando um artesão morria, sua esposa se casava com o assistente chefe, com
o objetivo de preservar o negócio.
JACQUES MOUSSEAU – Seu trabalho mostra também que os habitantes das
aldeias eram separados mais por sexo do que por grupo familiar.

PHILIPPE ARIÈS – É, os homens formavam um grupo e as mulheres outro. E com


as crianças eram assim também: as meninas não brincavam com os meninos.

JACQUES MOUSSEAU – Esta separação ainda existe em algumas igrejas em


aldeias da França. Os homens se sentam de um lado da igreja e as mulheres do outro, como
acontecia em algumas seitas protestantes dos Estados Unidos.

PHILIPPE ARIÈS – Um amigo meu, o historiador Yves Castan, contou-me que no


século XVIII um grupo de aldeões levou seu senhor à justiça porque este sempre ia à
procissão de Corpus Christi acompanhado da esposa, enquanto o resto da população se
separava conforme o sexo. A comunidade não permitia que o senhor quebrasse a tradição.
Naquela sociedade, o casal não era a unidade mais importante da vida cotidiana.
No entanto, mesmo assim os casais às vezes se uniam. Quando chegava um exército
ou o cobrador de impostos, a família se mantinha coesa. A esposa escondia o marido e o
ajudava a escapar. Como eu disse antes, a família se unia quando a morte ou algum perigo a
amedrontava. Quando não estava ameaçada, a união era menor. É este mecanismo que
temos que compreender.

JACQUES MOUSSEAU – Existia amor nessas famílias?

PHILIPPE ARIÈS – Claro ! Seria ridículo e infantil dizer que não havia amor. Estou
só dizendo que o amor não era considerado necessário para a formação, duração e
estabilidade da família. Quando um homem se casava, era possível que nunca tivesse visto
sua noiva antes. Mesmo assim, com mais freqüência do que se imagina, era ele quem a
escolhia. Em ambos os casos, havia fortes fatores econômicos que determinavam sua
escolha. Normalmente, a esposa seria alguém que pudesse ajuda-lo no campo ou em sua
oficina.
O sentimento tinha um importância maior nas camadas mais baixas da sociedade;
talvez porque se casavam muito tarde. Entre a burguesia e a nobreza, o sentimento não era
muito importante, embora algumas vezes ele nascesse depois do casamento. Se não existia
amor, não havia razão alguma para o casal se separar. Havia muitas outras razões para
manter o homem e a mulher juntos. Naquela época, a ênfase que damos à compatibilidade
de gênios seria considerada estranha ou até mesmo imoral.
O Duque de Saint-Simon, no clássico “Hemoires”, é um bom exemplo. Antes do
casamento ele nunca tinha visto aquela que viria a ser sua mulher. Tinha pedido a mão da
irmã dela em casamento, mas seu futuro sogro respondeu: “Não. Prefiro casar esta aqui
primeiro”. Mais tarde, eles vieram a se amar profundamente, e em seu testamento Saint-
Simon pediu que seus caixões fossem acorrentados um ao outro para que pudessem
permanecer juntos após a morte.
O que acabei de dizer sobre o casal se aplica também aos filhos. Embora fosse
comum existir amor e carinho na relação pais-filhos, nem o sentimento, em sua expressão
eram necessários. Eles não tinham nenhuma obrigação de amar um ao outro ou fingir que o
faziam.
É lógico que não passamos abruptamente desse tipo de família para o atual. Durante
o século XVI aparece a família intermediária, moldada nos padrões das classes mais altas.
Esta evolução se centrou na criança. Você deve estar lembrado do que nós dissemos sobre a
comunidade, que ela era responsável pela sociabilização e educação da criança.

JACQUES MOUSSEAU – Incluindo sua preparação profissional. Não era sempre


que o filho de um artesão seguia os mesmos passos do pai.

PHILIPPE ARIÈS – Exato. Havia trocas entre as famílias. A criança crescia e


adquiria sua herança profissional ou intelectual à medida em que convivia com os adultos.
Logo que ela se tornava capaz de cuidar de si mesma, era separada dos pais e levada para
viver com os adultos. No final do século XV, esta situação começou a mudar lentamente.
Hoje, com a extensão da escolarização, esse processo alcançou seu extremo. Na época
moderna, a criança, separada dos adultos, é colocada num espaço especialmente elaborado
para ela: a escola.
Esse sistema existia na Idade Média mas não tinha a função de cuidar da educação
da criança. Sua função era treinar os sacerdotes e o clero. Nesta escola, que era profissional,
quase técnica, crianças novinhas misturavam-se a homens de vinte anos. Dali saiam os
estudiosos, assim como das oficinas saiam os artesões. Mais tarde, a escola sofreu
transformações e se tornou um instrumento para a educação da criança, como é atualmente.
Acredito que essa mudança na vida da criança explica toda a evolução da família. A
família contemporânea nasceu no momento em que a sociedade começou a separar a
criança do adulto.

JACQUES MOUSSEAU – É isso que Michel Foucault chama “o grande


confinamento”, incluindo as escolas e os hospitais psiquiátricos na categoria dos desajustes
sociais. As escolas foram inventadas para isolar a criança do resto da sociedade.

PHILIPPES ARIÈS – É, este é um aspecto do grande confinamento que teve início


no século XVII. A partir desse momento, a família foi completamente transformada. Sua
função econômica permaneceu, mas as funções de sociabilização e educação passaram a
ter um peso maior. Toda essa transformação só pode ser explicada se colocamos o afeto à
frente de todas as outras funções. Tornou-se cada vez menos possível não amar na nova
família e o divórcio se transformou então numa válvula de escape quase que necessária.

JACQUES MOUSSEAU – As atenções da mãe e do pai se centravam na criança,


proporcionando-lhe carinho, educação e sociabilização. Em troca, exigiam seu amor. A
barganha está implícita, mas não deixa de ser um tipo de jogo.

PHILIPPE ARIÈS – É claro. É provável que originalmente este afeto tenha se


concentrado na mãe, porque a mulher estava começando a assumir um papel cada vez mais
importante na nova família. O homem normalmente estava ausente. Antes, o homem e a
mulher estavam constantemente juntos, mas o século XIX pôs um fim a essa proximidade
em todas as classes sociais. As únicas exceções foram os pequenos comerciantes, os
advogados, e os médicos, que tinham seus escritórios e consultórios em casa mesmo. Na
maioria das famílias – pobres ou ricas – o homem saía de manhã e só voltava à noite.
Atualmente, as pessoas que têm que viajar para chegar ao local de trabalho intensificaram
mais ainda essa distância, os filhos ficaram separados por muitos quilômetros do pai e essa
distância os afastou dos problemas reais da vida adulta.

JACQUES MOUSSEAU – Antigamente o mundo adulto era apresentado à criança


tão logo ela começasse a andar. Ela era considerada um adulto em miniatura . Quando as
pessoas começaram a perceber que a criança não era um adulto em miniatura, que deveria
ser separada para sua própria proteção, que nem tudo lhe poderia ser revelado, nasceu nossa
atitude atual em relação a ela.

PHILIPPE ARIÈS – O problema é mais delicado e mais complexo do que isto,


porque os novos sentimentos nunca surgem da noite para o dia. Nas sociedades ocidentais
tradicionais, os adultos eram indiferentes à criança até o ponto de quase a negligenciarem, e
ela era vista somente como uma linda criaturinha. Eles brincavam com a criança como se
ela fosse um bichinho. Talvez fosse essa a forma inicial de manifestação de afeto. Mas não
implicava em uma relação emocional mais profunda: a criança podia morrer que ninguém
ia chorar por ela. E às vezes esta morte era até provocada! Já foi provado que muitas
crianças morriam por negligência voluntária dos pais, o que significava um infanticídio
disfarçado.

JACQUES MOSSEAU – Que tipo de negligência?

PHILIPPE ARIÈS – Talvez deixassem uma criança se sufocar nas cobertas.


Naquela época não havia berços, a maioria das crianças dormia na cama dos pais até
desmamar ou até aprender a andar. Casos de crianças que morriam sufocadas
acidentalmente eram freqüentes, mas nós suspeitamos que vez por outra os pais davam uma
ajuda (Ver “Our Forebears Made Childhood a Nightmare”, PT, Abril de 1975). No século
XVII a Igreja proibiu que a criança dormisse na cama dos pais. A Igreja tinha consciência
do que vinha acontecendo porque nos confessionários eram descobertos muitos casos de
sufocamento provocado.
JACQUES MOUSSEAU – E a criança que dormia na cama dos pais assistia ao
relacionamento sexual dos pais?

PHILIPPE ARIÈS – Ninguém se preocupava com isso. Para esta sociedade, a


sexualidade não representava problema algum.

JACQUES MOSSEAU – Como então um historiador das atitudes vê as teorias de


Freud: como o complexo de Édipo, o trauma resultante da observação do “ato primal”?

PHILIPPE ARIÈS – Não sou psiquiatra, mas me pergunto se a psicanálise


Freudiana não é simplesmente uma resposta específica aos problemas sexuais e
psicológicos que surgem em uma sociedade na qual a criança foi posta de lado, a família se
fechou e a mãe adquiriu uma influência enorme. Em famílias assim, os problemas da mãe e
do pai, e da relação entre a criança e seus pais, adquirem uma importância monstruosa.
Acho que a psicanálise não nasceu em Viena, no final do século XIX, por acaso.

JACQUES MOUSSEAU – Antes disso, ninguém pensaria em educação sexual para


crianças?

PHILIPPE AIRÈS – Pareceria completamente absurdo. Não havia esse problema, já


que a criança vivia num mundo onde a sexualidade era expressada recatadamente, porém
livremente. Naquele mundo não havia exibicionismo, mas as ações e palavras relacionadas
a sexo estavam presentes no dia a dia.
Havia também os animais. Eu sei que os psicanalistas dizem que a criança não faz
nenhuma associação direta entre a sexualidade humana e a animal, mas o espetáculo
apresentado pelos animais de certo modo as preparava.
E os adultos falavam abertamente, sem a mínima noção de que deviam esconder
certas coisas sobre sexo de seus filhos. Quando a Igreja foi estabelecida formalmente, ela
começou a impor discrição nos assuntos sexuais e desde então ficou proibido falar sobre
sexo na frente das crianças.
JACQUES MOUSSEAU – No início do século, quando um escritor como André
Gide declarou: “Famílias, odeio vocês!” ele estava expressando sua revolta em relação a
algo recente e específico. Ele não se rebelou contra a função da família, mas sim contra o
que ela exigia do indivíduo: total carinho e dedicação.

PHILIPPE ARIÉS – E a polarização da sensibilidade da criança. É exatamente esse


tipo de família que questionamos atualmente. Acreditamos que a família nuclear sempre
existiu, ou que já há alguns milhares de anos; no entanto, como podemos constatar, é algo
bem recente.

JACQUES MOUSSEAU – Você frisa muito as funções da família, mas quase não
fala em sua composição. Alguns pesquisadores, principalmente David Riesman (ver “The
Young Are Captives of Each Other”, uma conversa com David Riesman, PT Outubro 1969)
elaboraram uma teoria sobre a história do homem baseada na composição da família. A
teoria de Riesman parece se basear no fato de ter existido uma época em que o homem
passou da família tribal para a família nuclear. Essa teoria é válida?

PHILIPPE ARIÈS – Em parte. Em geral, o que Riesman diz sobre o “homem-


interior” e o “homem-exterior” é verdadeiro. Mas sua posição à família nuclear e à família
patriarcal parece questionável. Para justificar essa teoria ele teria que substituir outra
oposição – aquela entre a família contemporânea (um núcleo fechado) e a família aberta a
uma relação comunitária intensa e afetuosa. A antiga família era totalmente aberta a uma
comunidade relativamente fechada. A vida acontecia nesse ambiente: nas ruas, ao redor da
fogueira onde os vizinhos se reuniam, na casa de uma pessoa importante, na praça, durante
os feriados, na Igreja. A Igreja era tanto um local de reunião quanto uma casa de oração.

JACQUES MOUSSEAU – Atualmente dois movimentos parecem estar


relacionados à sua teoria. Um que poderia vir a negar a evolução em direção a uma família
mais fechada e outro que poderia vir a dar continuidade a ela. O movimento que parece
estar negando a evolução desta tendência da família é o esforço enorme que os jovens têm
feito no sentido de “reabrir” a família. Os jovens estão fugindo das famílias e o movimento
de liberação sexual defende que é necessário pararmos de confundir as nossas funções
emocionais com as reprodutivas.
O movimento que dá continuidade à evolução – e aqui surpreenderemos muita gente
– é o Movimento de Liberação da Mulher. A esposa e mãe têm adquirido uma importância
cada vez maior no seio da família, tornando-se não somente a companheira do homem e sua
aliada econômica, mas assumindo também o papel cada vez mais importante nas funções
educacional e emocional. Parece-me que as tentativas de liberação da mulher tendem a
torna-la cada vez mais o centro da família.

PHILIPPE ARIÈS – A reabertura da família é fundamental, é um fenômeno


estrutural. Mas eu me pergunto se a liberação da mulher está realmente afetando a estrutura
familiar ou se é simplesmente uma combinação de circunstâncias. Num caso como este a
história é útil, pois “relativiza” um evento e o coloca em perspectiva.
Não podemos entender a emancipação atual se dermos ouvidos aos sociólogos que
estudam somente o presente.
Temos que analisar o movimento sob uma perspectiva histórica. Do ponto de vista
legal e político, a mulher certamente tinha mais direito durante a Idade Média do que na
França pouco antes da Revolução. A evolução das instituições durante os séculos XVI e
XVII reduziu sua independência, seus direitos legais e a transformou, como fez com a
criança, em um menor. O triunfo dessa evolução é o Código Napoleônico.
Em termos de existência cotidiana, a mulher tinha um papel econômico muito
importante no lar até a Revolução Industrial. No século XIX a importância do papel
econômico diminuiu e a sociedade começou a acreditar que ele deveria diminuir cada vez
mais. O lugar da mulher era em casa, cuidando dos filhos.

JACQUES MOUSSEAU – Isso começou a acontecer na época do desenvolvimento


das grandes cidades?

PHILIPPE ARIÈS – É, e com o êxodo rural. A função produtiva da mulher foi


substituída pelos trabalhos domésticos e os cuidados com os filhos. Na minha opinião, esta
função era mais importante que as anteriores. Era ela quem dirigia a educação dos filhos,
mas ao mesmo tempo ficava mais e mais confinada ao lar.
Há um terceiro evento, quase contemporâneo, importante para delinearmos a origem
do Movimento de Liberação da Mulher – o “boom dos bebês” nos Estados Unidos. O
boom no índice de natalidade ocasionou a exaltação da mulher como esposa e mãe. Ma
família do século XIX a mulher deveria ter poucos filhos. Depois da Segunda Guerra
Mundial aconteceu o contrário: esperava-se que ela tivesse mais filhos – os gerentes e os
profissionais liberais. Esse aumento na taxa de natalidade é um dos grandes acontecimentos
da demografia contemporânea. No século XIX nós éramos mais Malthusianos.
O livro “The Feminine Mystique” de Betty Friedan é um trabalho muito importante
para o Movimento de Liberação da Mulher. Friedan se opõe à idéia da mulher ser destinada
a ser somente parceira do homem e mãe. A parte essencial do movimento atual talvez seja
menos a questão da igualdade de direitos no trabalho do que a necessidade de arrancar a
mulher do lar onde o século XIX a havia enclausurado e onde o “boom” dos bebês a havia
prendido mais ainda.

JACQUES MOUSSEAU – No final das contas, então, o movimento feminista terá o


mesmo efeito que o movimento dos adolescentes: “abrir” a família ao mundo.

PHILIPPE ARIÈS – A “reabertura” da família toma a forma de uma luta familiar,


mas questiona a sua própria estrutura. Esta revolta ataca a família como uma das estruturas
básicas de um mundo tecnológico e racional. No final do século XVIII e durante todo o
século XIX a família era considerada um meio de separar a criança da sociedade, a fim de
garantir seu desenvolvimento social através da educação.
O primeiro passo para segregação dos jovens se deu em uma sociedade que ainda
não era agressiva e na qual ainda é possível se viver relativamente bem. No século XX,
quando o mundo começou a se tornar agressivo, após a Primeira Guerra Mundial, a família
se transformou num refúgio. O automóvel e a televisão acentuaram essa tendência de
escape. A família se tornou um gueto para as pessoas na faixa etária entre os vinte e trinta
anos, atualmente.
JACQUES MOUSSEAU – Como você vê essa revolta? Nos filhos que se recusam a
corresponder às ambições dos pais? Em sua rejeição à ética do trabalho? Eles tentam sair de
casa o mais cedo possível? Que aspectos dessa revolta poderiam mudar a estrutura
familiar?

PHILIPPE ARIÉS – É difícil responder porque é muito cedo ainda para ver o
movimento em perspectiva. Não sabemos se essa revolta é somente contra um determinado
tipo de família ou se vai levar à formação de outras famílias. Ou seja, se’ra que os jovens
vão se casar mais cedo que seus pais e formar o mesmo tipo de família? Ou será que essa
revolta é uma contestação mais global, mais radical? Será que estamos formando um novo
tipo de acasalamento, completamente diferente de tudo aquilo que a humanidade já viu?
Serei cauteloso nas minhas respostas. Mas acredito que a revolta em relação à família é
somente um dos aspectos da revolta ocidental em relação à sociedade mecanizada. É a
revolta de um prisioneiro vivendo em mundo limitado que se torna cada vez mais limitado.
A proliferação de automóveis e de aparelhos de televisão tem reduzido mais ainda
as oportunidades das pessoas se encontrarem. Na França, por exemplo, a falta de pessoas
nos cafés da cidade, à noite, deixa qualquer um perplexo. Antes, esses cafés
contrabalançavam o gueto familiar. Tanto os jovens quanto os mais velhos os
freqüentavam, não só para beber, mas também para se encontrarem fora do ambiente
familiar. Esta necessidade, tão antiga, que era aceita por todos, foi anulada – proibida até –
pela civilização industrial.

JACQUES MOUSSEAU – Como as pessoas vivem mais, o gueto parece ser uma
carga maior ainda.

PHILIPPE ARIÈS – O aumento no número de anos escolares também agrava a


situação. O estudante continua sendo prisioneiro do gueto até arranjar um emprego e a
entrada do indivíduo na força de trabalho foi adiada, não somente na classe média.

JACQUES MOUSSEAU – Nas famílias mais antigas, na maioria das vezes, a


separação de um casal só se dava quando um dos cônjuges morria. Enquanto, hoje em dia,
os casais têm a possibilidade de viver meio século ou mais juntos. Os adultos tiveram que
inventar o divórcio para substituir a morte.

PHILIPPE ARIÈS – A morte como válvula de escape acabou. Mesmo o conceito de


divórcio mudou. O divórcio já foi um modo de resolver uma situação incomum e
irreparável. Hoje em dia, transformou-se na segurança de casais que não conseguem tolerar
um ao outro por tantos anos. Filêmon e Baucis sonhevam viver juntos cem anos. Agora que
a utopia de ontem já é quase possível de ser realizada, descobrimos que cem anos de vida
em comum seriam um inferno.

JACQUES MOUSSEAU – As transformações na atitudes em relação à família e à


infância tiveram algum impacto na demografia?

PHILIPPE ARIÈS – Não só tiveram impacto como também freqüentemente a


demografia nos fornece provas dessa evolução. O coito interrompido, usado como método
anticoncepcional no século XIX e no início do século XX, nos introduziu a um mundo onde
a concepção se tornou um ato planejado. Tudo mudou e nós desenvolvemos métodos
anticoncepcionais mais modernos, mais técnicos.

JACQUES MOUSSEAU – Uma civilização de atos conscientes está surgindo em


lugar de uma civilização de instintos e hábitos.

PHILIPPE ARIÈS – Acho que seria melhor se falássemos de uma “civilização mais
próxima da natureza”. A reação contra a família moderna está ligada a uma determinada
atitude, eu já estava quase dizendo ecológica, uma reação a nossa distância da natureza. O
homem certamente não é uma criatura da natureza, ele é uma criatura cultural, mas se
distanciou tanto dela que sua condição tornou-se intolerável.

JACQUES MOUSSEAU – Os jovens desenvolveram novas atitudes que tentam


diminuir a distância colocada por nós entre a natureza e a cultura.
PHILIPPE ARIÉS – A família do século XIX e a maneira pela qual ela abordava a
sexualidade estabeleceu tanta distância que a vida ficou corrompida. Mas não há como não
se ficar surpreso. A volta à natureza através de uma sexualidade provocativa é tão artificial
e forçada quanto os tabus Vitorianos
Mas há alguma coisa além dessa sexualidade provocativa no que se refere às
mudanças sociais. É algo mais do que uma revolta contra a família como uma prisão do
amor. A crença geral e absoluta no progresso técnico e em suas vantagens (em oposição ao
científico) acabou. Há um movimento espontâneo contestando a sociedade de consumo, e
talvez uma nova cultura esteja emergindo. Não podemos prever quais serão os elementos
dessa cultura, mas podemos ter certeza de que será uma cultura na qual a vida não estará
mais sob o controle absoluto da técnica.

JACQUES MOUSSEAU – Você pode predizer o futuro da família?

PHILIPPE ARIÈS – Pode se imaginar as situações extremistas. Ou a família


continua a exercer seu papel, ou as uniões efêmeras tomam seu lugar definitivamente. Eu
pessoalmente acredito numa terceira hipótese. A comunidade monogâmica e indissolúvel
vai perdurar, mas somente durante o período de fecundidade voluntária da mulher e da
educação das crianças. Uns quinze anos, digamos. Antes e depois desse período não haverá
comunidades estáveis, nem famílias. Cada pessoa viverá livremente, por conta própria.
Em termos de estatísticas demográficas, essa hipótese seria expressa por um
declínio no número de casamentos (as pessoas só se casariam se tivessem filhos e talvez só
se fosse mais de um filho), um declínio na taxa de natalidade (devido à igualdade dos
papéis masculino e feminino) e um aumento no número de divórcios, de gravidez antes do
casamento e de filhos ilegítimos.
Estou pressupondo que as relações cotidianas entre os indivíduos e a sociedade
continuam a ser essencialmente o que são em nossa civilização tecnológica atual. Nada
acontecerá entre a família e a profissão. Mas se uma nova estrutura intersticial surgir para
preencher o vazio atual, as coisas irão sofrer mudanças consideráveis.
Nada me leva a prever tal “rearrumação” nesse ponto. Mas se ela ocorrer, é provável
que toda a vida social e afetiva não se concentre mais na família. Esta prisão do amor
perderia suas grades e talvez a família não tivesse mais importância.

(Extraído da Revista Psychology Today, agosto de 1975. Tradução do Curso de Tradução


do Departamento de Letras da PUC-Rio)

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