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MEMÓRIAS, SONHOS, OMISSÕES – Sonu Shamdasani

www.rubedo.psc.br | Artigos | © Sonu Shamdasani

MEMÓRIAS, SONHOS, OMISSÕES1

Sonu Shamdasani vive em Londres e é o editor de From India to the Planet Mars, de
Théodore Flournoy (Princeton University Press, 1994) e co-editor de Speculations after
Freud: Psychoanalysis, Philosophy, Culture (Routledge).

Tradução: Marta Chagas

"Esse é um livro muito importante e intensamente original


- penso que terá um enorme sucesso e tornar-se-á um clássico!"

Richard Hull, 19602

Memórias, Sonhos, Reflexões é comumente visto como o trabalho mais importante de


Jung, assim como o mais amplamente conhecido e lido. É tido como seu testamento final,
pois, como observa Gerhard Adler, "Em nenhum outro lugar o homem Jung revelou-se tão
abertamente ou atestou suas crises de decisão e a existência de sua lei interna"3. Desde
a morte de Jung, ele tem sido a fonte principal sobre sua vida e tem feito brotar uma
pletora de literaturas secundárias. Neste estudo, minha primeira omissão será a ampla
maioria dessa literatura secundária, por razões que se tornarão mais claras. Espero
mostrar que através de um processo que teve implicações perturbadoras para o
entendimento de Jung e sua correta localização na história intelectual do século XX,
Memórias Sonhos, Reflexões não é, de forma alguma, a autobiografia de Jung.

A existência de Memórias, Sonhos, Reflexões retardou significativamente o trabalho


erudito sobre Jung. Em seu prefácio para suas memórias biográficas, que foi umas das
primeiras a aparecer, Barbara Hannah escreveu que " .... os filhos de Jung eram
totalmente contrários a qualquer escrito biográfico sobre seu pai, visto que achavam que
tudo o que era necessário foi dito em seu próprio Memórias, Sonhos, Reflexões."4
Quando as biografias de Jung vieram a ser escritas, sem exceção, todas elas basearam-
se neste livro, não somente como fonte de informação, mas, também, como a estrutura
narrativa fundamental da vida de Jung. Assim, Hannah escreve sobre Memórias que ele
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"...sempre permanecerá o mais profundo e a fonte mais autêntica e profunda sobre


Jung."5 O entendimento de Jung ficou tão fortemente ligado a esse texto que é
improvável que tal compreensão possa modificar-se sem uma releitura radical o mesmo.

De início, a significância de uma autobiografia por Jung era imposta por sua própria da
natureza do empreendimento psicológico. Jung sustentou como um de seus
entendimentos centrais a noção de "equação pessoal". Ele escreve: " ... a crítica filosófica
ajudou-me ver que toda psicologia - a minha inclusive - tinha o caráter de uma confissão
subjetiva."6 Indiferente se alguém concorda com essa noção, ela é crucial para o
entendimento da psicologia de Jung, pois claramente indica como Jung entendeu sua
própria psicologia - e como desejava ser entendido.

À parte de um vislumbre atormentador, num seminário privado em 19257, contudo, Jung


não apresentou publicamente sua história de vida. De seu próprio entendimento da
significância da biografia de um teórico, essa lacuna apresenta, talvez, o maior
impedimento para uma compreensão de seu trabalho. Neste mesmo seminário, ele
francamente provê uma razão para essa lacuna:

Tudo isso é a imagem externa do desenvolvimento de meu


livro sobre os tipos. Eu poderia dizer, perfeitamente bem, que
essa é a maneira como o livro se produziu e colocar um ponto
final nisso. Mas há um outro lado, um avançar cometendo
erros, pensamentos impuros, etc., os quais são sempre muito
difíceis para um homem tornar públicos. Ele gostaria de dar a
vocês o produto acabado desse seu pensamento dirigido, e
fazer vocês entenderem que foi dessa forma que ele surgiu em
sua mente, livre de fraquezas. A atitude de um homem com
função pensamento, em relação a sua vida intelectual, é
bastante comparável a da mulher em relação a sua vida
erótica.

Se você perguntar a uma mulher sobre o homem com quem


ela se casou: "Como isso aconteceu?", ela dirá: "Eu o
encontrei e o amei, e isso é tudo." Ela esconderá, muito
cuidadosamente, todas as pequenas mesquinharias, as
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situações paralelas em que ela pode estar envolvida e ela


apresentará para você, uma situação perfeita impossível de
ser rivalizada. Sobre tudo, ela esconderá os erros eróticos que
cometeu ...

O mesmo acontece a um homem a respeito de seus livros. Ele


não quer mencionar as alianças secretas, os faux pas de sua
mente. Isso é o que torna mentirosas a maioria das
autobiografias. Da mesma forma que a sexualidade é, na
mulher, amplamente inconsciente, também é esse lado inferior
de seu pensamento, amplamente inconsciente, no homem. E
da mesma forma que uma mulher estabelece sua força de
poder em sua sexualidade, e não abrirá nenhum de seus
segredos do seu lado fraco, assim um homem centra seu
poder em seu pensamento e propõe mantê-lo como uma
fachada sólida contra o público, particularmente contra outros
homens. Ele acha que dizer a verdade nesse campo é o
equivalente de entregar as chaves da citadela ao inimigo.8

Nessa afirmação surpreendente, o que Jung vê como a quase impossibilidade de


honestidade, o que "torna mentirosas a maioria das autobiografias", prova ser a maior
contra-indicação para se ingressar nesse empreendimento. Claramente, Jung não teve a
menor intenção de 'entregar as chaves de sua citadela' a seus inimigos. Nos anos
seguintes a esse seminário, Jung consistentemente manteve a mesma posição. Em 1953,
Henri Flournoy, o filho do mentor de Jung, o psicólogo suíço Théodore Flournoy,
retransmitiu a Jung a pergunta do Dr. Junod, se ele havia escrito uma autobiografia ou se
pretendia fazê-lo9. Jung replicou:

Eu sempre desconfiei de uma autobiografia porque nunca


ninguém pode contar a verdade. Na medida em que se é
verdadeiro, ou acredita ser verídico, isso é uma ilusão, ou mau
gosto.10

Quando chegou Memórias, teria Jung, tardiamente, sucumbido a uma ilusão, ou a um


severo lapso no gosto? Em uma carta a seu amigo vitalício Gustave Steiner, Jung
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expressou sua contínua resistência a empreender uma autobiografia, a despeito de


pressão contínua:

Durante os últimos anos foi-me sugerido em diversas ocasiões,


fazer algo como uma autobiografia. Não tenho sido capaz de
conceber nada dessa espécie. Conheço muitas autobiografias,
suas auto-decepções e mentiras expedientes; sei muito sobre
a impossibilidade da auto-descrição para entregar-me a uma
tentativa a esse respeito.11

Jung não era menos enfático quanto à possibilidade de uma biografia sobre sua vida. Em
resposta a J. M. Thorburn, quem havia sugerido que Jung poderia encarregar-se de uma
biografia de sua vida, Jung afirma:

... Se eu fosse você, não me importaria com minha biografia.


Eu não quero escrever uma porque, além da falta de
motivação, não saberia como fazê-lo. Muito menos posso ver
como alguém poderia desfazer esse monstruoso nó górdio da
fatalidade, estupidez, aspirações e não sei mais o quê!
Qualquer um que tentasse tal aventura deveria analisar-me
muito mais do que eu me conheço, se quiser fazer um trabalho
verdadeiro sobre isso.12

Como, então, surgiu Memórias? Inicialmente, surgiu da sugestão de um editor


conceituado, Kurt Wolff. Até então, Jung tinha contrato exclusivo com a Routledge &
Kegan Paul e a Bollingen Foudation. Que um outro editor planejasse publicar a
"autobiografia" de Jung era um golpe , embora fosse o que Kurt Wolff se preparasse para
executar. Em um artigo intitulado " Como atrair autores", Wolff escreve:

Cada país no mundo tem estritas leis de tráfico de escravos


brancos. Os autores, por outro lado, são uma espécie
desprotegida e devem cuidar de si próprios. Eles podem ser
comprados e vendidos, como meninas no comércio de
escravas-brancas - só que no casos dos autores, isso não é
ilegal.13

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Para Richard Hull, tradutor de Jung, Kurt Wolff descreveu como:

.... por muitos anos ele tentou persuadir Jung a escrevê-la


[uma autobiografia], como Jung sempre recusou e como,
finalmente, ele [Kurt] chegou a feliz idéia de um "Eckerfrau"
para quem Jung poderia ditar de forma aleatória, a Eckerfrau
sendo Aniela Jaffé.14

Numa carta a Herbert Read, Kurt Wolff escreveu que, em última análise, teria sido Aniela
Jaffé quem persuadiu Jung a realizar essa tarefa15. Devido ao envolvimento com outro
editor, o livro não apareceria nos mesmos canais editoriais como o resto do trabalho de
Jung, o que teria conseqüências significantes para seu resultado.

Em sua introdução para Memórias, Aniela Jaffé escreve:

Nós começamos na primavera de 1957. Foi proposto que esse


livro fosse escrito não como uma "biografia", mas na forma de
uma "autobiografia", com o próprio Jung como narrador. Esse
plano determinou a forma do livro e minha primeira tarefa
consistiu, apenas, em fazer perguntas e anotar as respostas
de Jung.16

Quando o livro foi publicado, sua significância para a compreensão de Jung foi apontada
claramente por Henri Ellenberger. Ele escreve:

Poucas personalidades do mundo psiquiátrico e psicológico


tem sido tão mal compreendidas como Carl Gustav Jung... É
precisamente o interesse nessa sua Autobiografia que nos
permite unificar de modo plausível as imagens disparatadas,
que foram feitas até agora sobre a vida, a personalidade e o
trabalho do fundador da Psicologia Analítica.17

Entretanto, como argumentarei, sua própria plausibilidade não diminuiu as confusões


acerca do trabalho de Jung, mas elevou-as à proporções imprevisíveis.

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De início, muito foi falado sobre as omissões de Jung. Por um lado, Jung foi muito
criticado por não mencionar: seu vitalício caso extra-conjugal, com Toni Wolff; figuras, tais
como Eugen Bleuler e Pierre Janet; e a controvérsia sobre sua alegada colaboração com
os nazistas. Foi questionado que as omissões de Jung, para o psicólogo que fez da
questão da confissão subjetiva a pedra fundamental de sua psicologia, foram sinais de má
fé e desonestidade intelectual. Desastrosamente essa acusação continua a ser feita ao
movimento junguiano.

Por outro lado, essas mesmas omissões não foram apenas defendidas, mas lhes foram
dadas uma razão profunda. Aniela Jaffé escreve:

Nas memórias de Jung as personalia estão quase que


interiamente escassas, para o desapontamento de muitos
leitores ... Essa crítica e a acusação do desinteresse de Jung
para com relacionamentos eram irrelevantes. Seus olhos
estavam sempre voltados para o impessoal, para o arquétipo
oculto; o segundo plano, o qual estava disposto revelar
somente na medida em que dizia respeito a sua própria vida.
18

Alguns argumentaram que tais omissões eram justificadas porque Memórias inaugurou,
nada menos, que um novo capítulo na história da autobiografia e da auto-compreensão
ocidental - aquele da nova forma "interna" da moderna autobiografia psicológica, e que
Memórias é, historicamente, tão significativo como as Confissões de Santo Agostinho ou
as de Rousseau.19

Essa leitura, que pode ser, convenientemente, chamada de canonização de Jung, foi
ressaltada por Kathleen Raineem em sua recensão, "Um homem enviado", na qual ela
afirma simplesmente:

A vida de Jung, mesmo que fragmentadamente revelada,


convida a comparações não com autobiografias profanas, mas
com as vidas de Plotino e Swedenborg, as vidas de santos e
sábios, entrelaçadas com milagres.20

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Raine não foi a única a fazer comparação com a vida de santos. A mesma analogia foi
feita pelo psicólogo Hans Eysenck, embora com um ponto de vista caracteristicamente
diferente. Em sua recensão, ele escreve:

Acólitos escrevendo hagiografias são raramente afortunados o


bastante para ter a assistência do próprio santo em seus
esforços; Aniella Jaffé teve o privilégio da discussão extensa
com Jung ... Isso pode ser considerado como representando o
tipo de imagem que Jung gostaria de dar de si próprio.21

No prólogo de Memórias, Jung escreve: "Fui agora incubido ... de contar meu mito
pessoal [den Mythus meines Lebens]." Assim, o próprio texto foi tido como um exemplo
paradigmático do que um tal mito poderia ser. Desse modo, não foi somente tomado
como um relato definitivo da vida de Jung, mas, também, como a forma que uma vida
psicologicamente individuada deveria ter. Edward Edinger comenta:

... tal como a descoberta de Jung de sua própria ausência de


mito tinha paralelo com a condição de ausência de mitos da
sociedade moderna, então a descoberta de Jung de seu
próprio mito individual provará ser a primeira emergência de
nosso novo mito coletivo... quase todos os episódios
importantes da vida de Jung podem ser vistos como
paradigmáticos do novo modo de ser, que é a conseqüência
de viver com um novo mito.22

Em sua introdução ao livro, Aniella Jaffé afirma que sua gênese determinou sua forma
eventual. Portanto, algumas palavras são necessárias sobre Aniella Jaffé e sobre seu
relacionamento com Jung. Jaffé encontrou Jung pela primeira vez em 1937 e,
subseqüentemente, começou a fazer análise com ele. Vinte anos depois ela tornou-se
sua secretária. Era um trabalho bem adequado a ela, pois havia trabalhado como
secretária independente dos professores Gideon e von Tsharner.23 Em 1947 ela tornou-
se secretária do Instituto Jung em Zurique.

Em uma entrevista, ela recordou que, depois da morte da esposa, Jung não se sentia
disposto a responder sua correspondência e que ela respondeu muitas cartas em seu

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nome, lendo para ele suas respostas, as quais, às vezes, ele fazia poucas correções.24
Essa afirmação espantosa não deixa claro, precisamente, quantas cartas de Jung,
durante esse período, foram escritas dessa forma. As últimas cartas de Jung, que
compuseram a maioria do segundo volume de suas cartas selecionadas, que Aniella Jaffé
editou com Gerhard Adler, são comumente tidas como possuíndo suas mais sábias e
mais humanas afirmações. Quantas dessas foram, na verdade, trabalho de Aniella Jaffé?

Esse acordo mostra o nível inicial de confiança que Jung demonstrou por Jaffé,
permitindo-lhe "escrever em seu nome". Além do mais, isso nos ajuda a compreender
como Memórias foi composto. De início, Jung confiou em sua habilidade de "assumir seu
'Eu' " e representá-lo para o mundo externo.

Em sua introdução a Memórias, Aniella Jaffé afirma, "Jung leu todo o manuscrito desse
livro e aprovou-o."25 Portanto, é geralmente aceito que Jung foi o derradeiro responsável
por quaisquer omissões no texto. Entretanto, de início, havia rumores de outra ordem de
omissões. Essa pergunta foi feita a Jaffé numa entrevista com Suzanne Wagner, ocorrida
em 1977:

Wagner: Ouvi que existiram partes de sua autobiografia que


não foram permitidas de serem publicadas - idéias sobre
reincarnação, por exemplo.

Jaffé: Não, nós publicamos tudo que julguei que poderia ser
publicado. O que cortei foram partes do capítulo que ele
escreveu sobre a África. Era, simplesmente, muito longo.
Tomaria o livro inteiro. Mas, discuti isso com ele e ele ficou
muito satisfeito.26

A única omissão significante no texto pareceria ser um grande relato das viagens de Jung
à África, o que poderia ser um continente perdido da obra de Jung, que,
conseqüentemente, nunca emergiu. Seja como for, o que é crucial aqui é sua afirmação
de que Jung aprovou as mudanças que foram feitas.

Numa conversa, em 1988, com Michael Fordham, que foi a instigação de minha pesquisa,
ele falou de suas impressões a partir de um esboço inicial de Memórias que ele havia lido.

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Declarou que os capítulos do esboço eram muito diferentes e "mais exasperados" que os
da versão publicada. Eu, subseqüentemente, localizei um editorial datilografado em
Countway Library of Medecine , em Harvard; e não só encontrei capítulos inteiros que não
foram publicados - como um relato das viagens de Jung a Londres e Paris, e um capítulo
sobre William James - mas, também, correções significativas em quase todas as
páginas.27 Contactei, então, Aniella Jaffé sobre meu projeto de pesquisa. Ela informou-
me que nem todo o material, sobre o qual o livro foi baseado, entrou no texto publicado e
que ela planejou usar alguns materiais posteriormente, mas que a permissão foi negada
pelos herdeiros de Jung.28 Ela informou-me que as trasncrições das entrevistas estavam
na Library of Congress, a qual eu consultei subseqüentemente.29

Irei, primeiramente, lidar com traços principais dos textos. Embora o manuscrito de
Countway seja reconhecido como uma versão extensa do texto publicado, o mesmo não
se aplica às transcrições não-publicadas. A própria Jaffé lida com a diferença entre os
textos publicados e as entrevistas reais. Alguns sustentaram que como ela era a
secretária de Jung, sua tarefa na compilação de Memórias, simplesmente, teria sido a de
anotar o relato de Jung. Essa afirmação a enfureceu, levando-a a a revelar seu papel
ativo no trabalho. Em uma carta, Jaffé relatou que seria completamente ridículo afirmar,
como muitos o fizeram, que Jung meramente havia ditado para ela. Ela observou que
Jung falava de maneira semelhante à associação livre freudiana, sendo que tal modo de
falar não poderia ser publicado. Ela disse ter tido um trabalho imenso em desembaraçar
essas associações em uma narrativa coerente. Portanto, a visão de que o texto foi
simplesmente ditado representou um grande elogio a seu trabalho.30

Essa afirmação revela sua parte ativa no texto; sugere que a estrutura narrativa total do
livro que foi tomada, não somente, como a quinta essência da vida de Jung, mas como o
exemplo do novo mito de individuação que este último representou, foi amplamente uma
construção dela. Os próprios textos datilografados dão uma impressão completamente
diferente. Eles, freqüentemente, começam com Jaffé fazendo perguntas específicas e
Jung associando livremente em resposta, não seguindo nenhum padrão cronológico. Em
uma passagem do original datilografado de Countway que foi omitido, Jung disse que as
repetições freqüentes no texto eram um aspecto de seu modo de pensamento circular.
Ele descreveu seu método como um novo modo de peripatética.31 Isso sugere que em

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termos da estrutura narrativa, pelo menos, algo de importância central para o auto-
conhecimento de Jung caíram no vazio.

Na versão publicada, a escassez de qualquer menção sobre as figuras da vida de Jung é


tomada, por alguns, como a marca de sua individuação ou auto-realização e, por outros,
como um sintoma de seu afastamento quase-autístico do mundo, ou de um grau extremo
de narcisismo. Entretanto, nas páginas datilografas das entrevistas, há muitas passagens
de figuras, as mais variadas possíveis, como Adolf Hitler, Billy Graham, Eugen Bleuler e
Sabina Spielrein, para não mencionar uma longa passagem sobre a misteriosa e
sugestiva semelhança entre as irmãs de Jung e a de Goethe. Primeiramente, tomarei uma
dessas omissões como um exemplo.

Muitos esperaram, com a respiração suspensa, sobre o caso extra-conjugal vitalício de


Jung com Toni Wolff; sim, as transcrições continham material sobre esse caso. Laurens
van der Post justifica sua omissão dessa forma:

Ela [Toni Wolff] não é mencionada em Memórias de Jung e


compreende-se a omissão, em grande parte, porque o livro é
um registro somente da quinta-essência. As relações pessoais
de Jung não são, deliberadamente, parte disso.32

Van der Post provê o seguinte relato do papel de Toni Wolff em sua vida:

Ela era a única pessoa capaz de entender, a partir de sua


própria experiência e transfiguração, o que Jung estava
tomando sobre si. Nesse mundo do inconsciente, o qual ele
penetrou como homem, ela sempre suportou como mulher.
Graças à direção de Jung, ela re-emergiu, como uma
personalidade ampliada e reintegrada.33

Nesse sentido, ela desempenhou o papel de Beatriz na Vita Nuova de Dante, que era o
mito de Jung. Nas transcrições das entrevistas de Jaffé com Jung, ele disse que no
começo de sua [Wolff] análise, Toni Wolff tinha fantasias incrivelmente selvagens e
cósmicas, mas, porque ele estava tão preocupado com suas próprias fantasias, era
incapaz de cuidar delas.

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Jung disse que encarou o problema do que fazer com Toni Wolff, somente após o término
de sua [Wolff] análise, apesar de se sentir envolvido com ela. Um ano mais tarde, ele
sonhou que estavam juntos nos Alpes, num vale de rochas, onde ele ouviu elfos cantando
numa montanha, na qual ela desapareceu, o que o deixou temeroso. Depois disso, ele
entrou em contato com ela novamente, pois sabia que seria inevitável e porque se sentia
em perigo de vida. Em uma ocasião posterior, enquanto nadava, ele sentiu cãibra;
prometeu, então, que se isso cedesse e ele sobrevivesse, sucumbiria ao relacionamento -
no qual, somente então, ele embarcou. Ele disse que infectou-a com sua experiência, que
era medonha e terrível; ela foi tragada pela mesma e permaneceu igualmente impotente.
Ele disse que tornou-se seu centro e através de sua compreensão interna, ela encontrou
seu centro (dela). Contudo, ela necessitava muito que ele desempenhasse esse papel, o
que significou que ele não poderia ser ele mesmo e, então, ela se perdeu. Ele se sentiu
como se estivesse sendo rasgado e freqüentemente tinha que se esforçar muito para
manter-se coeso.

Nesse exemplo, pode-se, talvez, entender a omissão por razões de decoro, mas isso não
diz respeito, de forma alguma, às omissões seguintes. Para contextualizá-las, colocarei
algumas diferenças críticas entre a versão publicada e o manuscrito de Countway. Em
Memórias, a única seção que foi nomeada individualmente foi sobre Freud, deixando a
impressão de que as duas figuras mais importantes da vida de Jung foram Freud e Deus,
o que deixou comentadores disputando qual das duas vinha primeiro. Essa impressão é
reforçada nas edições americanas e inglesas, onde os apêndices sobre Théodore
Flournoy e Heinrich Zimmer, que apareciam na edição alemã, estão ausentes.34 Isso
reforça a leitura freudocêntrica sobre Jung, que até hoje tem sido a principal maneira
como Jung e o desenvolvimento da Psicologia Analítica foram compreendidos.

O manuscrito de Countway apresenta uma organização radicalmente diferente. Essa


versão mostra vários arranjos de capítulos que alteram consideravelmente a estrutura da
narrativa. A seção seguinte ao capítulo sobre Freud chama-se "Memórias. Flournoy -
James - Keyserling - Crichton Miller - Zimmer." Esse título está, então, riscado à mão e
mudado para "Théodore Flournoy e William James."35 Somente essas variações no
arranjo já mostram a contingência do arranjo em Memórias. Além disso, nesse arranjo, os
tributos a Flournoy e James se seguem diretamente à seção sobre Freud.

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No capítulo sobre Freud em Memórias, Jung diagnostica Freud como sofrendo de uma
neurose séria e afirma que seus seguidores não compreenderam o significado da neurose
de seu fundador. Para Jung, as afirmações universais feitas pela psicologia de Freud são
inválidas devido a sua neurose. O capítulo que imediatamente se segue, apresenta o
heróico "Confronto com o inconsciente" de Jung e suas descobertas dos arquétipos e,
através da descoberta de seu próprio mito, um meio para "o homem moderno encontrar
sua alma". Memórias, promove o mito da descida heróica e da auto-geração de Jung,
depois dele ter se libertado dos grilhões da psicologia freudiana (fundando uma psicologia
enjeitada, sem antecedentes, sem um modelo primeiro a ser seguido, somente "anti-
exemplos").

O manuscrito datilografado de Countway apresenta uma versão muito diferente. Nas


seções sobre Flournoy e James, que sucedem ao capítulo sobre Freud, o problema de
como poder-se-ia fundar uma psicologia não-neurótica, na qual Jung atesta que Freud
sucumbiu, já parece tendo sido respondida afirmativamente antes de Freud, por Flournoy
e James. Além disso, Jung mostra a positividade da relação com mentor, através da qual
nenhuma quebra foi necessária. Jung credita sua significância em sua ajuda a formular
suas críticas a Freud e fornecer pressupostos metodológicos para sua formulação de uma
psicologia pós-freudiana.36

No capítulo sobre James, Jung fornece um relato sobre seu contato e tenta demonstrar
seu débito intelectual para com James. Jung recorda que encontrou James em 1909 e lhe
fêz uma visita no ano seguinte. Disse que James foi uma das mais extraordinárias
pessoas que ele conheceu. Ele o achou aristocrático, a imagem de um cavalheiro,
embora sem ostentação e atrativos. Ele conversou com Jung sem se mostrar superior;
Jung achou que eles travaram uma relação excelente. Ele sentiu que era apenas com
Flournoy e James que poderia falar tão facilmente, que ele reverenciava a memória de
James e que era um modelo para ele. Achou-os ambos receptivos e cuidadosos com
suas dúvidas e dificuldades, o que ele nunca encontrou novamente. Ele prezava a
abertura e visão de James, a qual era, particularmente, marcante em sua pesquisa
psíquica, que discutiram em detalhes, da mesma forma que suas sessões com a médium
Sra. Piper. Ele viu o significado de longo alcance das pesquisas psíquicas como meio de
acesso à psicologia do inconsciente. Jung disse que tinha sido muito influenciado pelo
trabalho de James sobre a psicologia da religião, que também tornou-se para ele um

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modelo, em particular, pelo modo como conseguia aceitar e deixar intacta a religião, sem
forçá-las num preconceito teórico.

Essas duas omissões dizem respeito, em larga escala, à supressões de várias figuras
críticas na vida de Jung. A terceira omissão consiste, simplesmente, em um pequeno
detalhe, ainda que suas implicações para a compreensão da gênese do pensamento de
Jung seja, talvez, não menos significativo. Numa passagem em Memórias que atraiu
muita atenção, Jung descreve sua experiência de ouvir a voz de uma paciente falando
com ele, informando-o que suas atividades eram, de fato, arte e a qual ele batizou,
famosamente, como a voz da anima. Depois da publicação de Uma Secreta Simetria de
Aldo Carotenuto, presume-se, geralmente, que essa paciente não era outra senão Sabina
Spielrein.

O argumento mais extenso sobre isso ocorre em Um Método Muito Perigoso, de John
Kerr, onde forma uma parte crucial da tese de que as mais importantes influências
intelectual e emocional sobre Jung foram Freud e Spielrein. Kerr afirma: "A primeira
menção da 'anima' a ocorrer nos escritos de Jung veio em seu volume Tipos Psicológicos,
de 1920."37 (Entretanto, como notificado anteriormente pelos editores das obras
completas, Jung já tratou da anima em "A Estrutura do Inconsciente"38, de 1916 e Tipos
Psicológicos foi publicado realmente em 1921). Kerr afirma que Jung "imortalizou"
Spielrein sob o nome de anima, argumentando que os dois indícios, dados por Jung,
sobre a identidade da mulher - que ele se correspondia com ela e que rompeu coma
mesma entre 1918-19, apontam a Spielrein. Entretanto nas transcrições, onde ele
realmente chama Spielrein pelo nome, Jung simplesmente insinua que perdeu contato
com ela quando ela foi para a Rússia. Kerr afirma que: "Talvez a maior pista ... seja o
debate sobre ciência versus arte."39 Entretanto, para fazer com que essa última pista
aponte para Spielrein, Kerr afirma, sem nenhum suporte textual, que a voz teria dito
realmente, "Não é ciência. É poesia."40 A suposição de Kerr que a voz era de Spielrein
leva-o a "corrigir" o registro histórico de forma a apoiar sua reivindicação, formando um
argumento circular. Kerr também afirma que a pedra talhada por Jung, em Bollingen, de
um urso rolando uma bola, representa Spielrein e conclui que "a 'anima' de Jung, 'aquela
que deve ser obedecida', acabou sua carreira como uma freudiana"41, daí
substancializando sua leitura freudocêntrica da gênese da psicologia de Jung. Entretanto,
há razões para afirmar que a pedra talhada não representa Spielrein. Roger Payne diz

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MEMÓRIAS, SONHOS, OMISSÕES – Sonu Shamdasani

que "Franz [Jung] disse que o urso freqüentemente discutido, que 'põe a bola para rolar'
em seu entalhe de Bollingen era realmente Emma [Jung]."42

Nas transcrições, Jung acrescenta um pequeno, mas, decisivo detalhe - que a mulher em
questão era holandesa. A única holandesa no círculo de Jung à essa época era Maria
Moltzer.43 A proximidade de sua relação com Jung foi confirmada por Freud. Em 23 de
dezembro de 1912, em resposta à carta de Jung de 18 de dezembro, na qual afirma ter
sido analisado, e portanto não seria neurótico, diferente de Freud que não o foi,44 Freud
escreveu a Ferenczi: "O mestre quem o analisou somente poderia ser Fräulein Moltzer e
ele está tão tolo quanto orgulhoso, quanto ao trabalho de uma mulher com quem está
tendo um caso."45 A afirmação de Freud é comprovada por Jolande Jacobi, que afirma
em uma entrevista: "Ouvi de outras pessoas que, antes dele encontrar Toni Wolff, ele teve
um caso de amor lá, em Burgholzli, com uma jovem - qual era seu nome? Moltzer."46 Em
uma carta não publicada de 1º de agosto de 1918, Moltzer escreveu a Fanny Bowditch
Katz, que foi sua paciente,

Sim, eu renunciei ao Clube. Eu não poderia mais viver naquela


atmosfera. Estou feliz por ter feito isso. Acho, que daqui a
algum tempo, quando realmente tornar-se algo, o Clube sentir-
se-á agradecido por eu ter feito isso. Minha renúncia teve
efeitos silenciosos. Silenciosos, pois parece que, isso pertence
ao meu caminho, eu não terei reconhecimento ou apreciação
abertamente pelo que fiz para o desenvolvimento do
movimento analítico como um todo. Eu sempre trabalhei no
escuro e sozinha. Esse é o meu destino e assim deve ser
esperado.47

Jung, em seguida, fez um agradecimento a ela, embutido em uma nota de rodapé, nos
Tipos Psicológicos, onde afirma: "O crédito por ter descoberto a existência desse tipo [o
intuitivo] pertence a Srta. M. Moltzer."48 Dado que Jung via a si próprio como sendo
desse tipo, tal confirmação está dada. Tomadas em conjunto, eu poderia supor que a voz
ter sido de Moltzer é, significativamente, mais forte do que ter sido de Spielrein.

No presente momento, não fica claro quem foi o responsável por essa omissão
específica.49 Entretanto, pode-se contrapor que se Jung aprovou as mudanças, como
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MEMÓRIAS, SONHOS, OMISSÕES – Sonu Shamdasani

Jaffé nos leva a acreditar, essas questões não seriam de grande importância. Um
esclarecimento crucial da atitude de Jung para com o texto foi emitido num memorandum
não publicado, escrito por Richard Hull, intitulado "Uma lembrança de Eventos
precedentes à Publicação da Autobiografia de Jung, como vistas por R. F. C. Hull". Hull
narra que, em fevereiro de 1960, Jaffé informou-o que Jung desejava vê-lo até o final do
mês. Hull escreve:

O velho homem apareceu ... disse que queria conversar e


falou solidamente por mais de uma hora sobre a autobiografia.
Eu concluí que havia controvérsias sobre a "autenticidade" do
texto. (Até esse momento, não o tinha vista ainda) Ele afirmou,
com a maior ênfase, que tinha dito o que queria dizer em sua
própria maneira - um pouco rude e cru algumas vezes - e que
ele não queria que seu trabalho fosse tantifiziert ("titiazado" ou
"velhificado" [N.T.: os termos em inglês são: 'auntified' e
'oldmaidified' que parecem significar uma modificação tal qual
fosse feita por uma tia ou por uma velha dama] na feliz
expressão de Jack). "Você verá o que quero dizer quando
apanhar o texto", ele disse. Falou extensamente sobre a
prática de "ghost-writing" pelo editores americanos. Inferi que o
"Tantifierung" poderia ser feito por Kurt. Em seguida, perguntei
a Jung se poderia ter a autorização de "des-velhificar" o texto
entregue, a mim, por Kurt. "Em todo caso", ele disse, "os
canhões entrarão em ação", apontando-se a si próprio. Achei
tudo isso um tanto complicado, porque Kurt tinha dito
anteriormente que, especialmente nos três primeiros capítulos,
o impacto encontrava-se precisamente no tom altamente
pessoal e falado de maneira não-ortodóxica, que deveria ser
preservado a todo custo.50

Hull, então, leu o texto e começou a rever a tradução. Ele recorda:

Tornou-se claro que as alterações eram todas de um tipo que


abrandavam e "velhificavam" o texto original escrito por Jung.

15
MEMÓRIAS, SONHOS, OMISSÕES – Sonu Shamdasani

Como algumas passagens excluídas pareciam-me


extremamente importantes para uma compreensão adequada
da narrativa subseqüente, restaurei-as da versão de Winston,
junto com um número de referências críticas a família de Jung
e alguns comentários que não poderiam chocar a ninguém,
exceto à burguesia suíça, incluindo um uso altamente
dramático da palavra "merda". Suspeitei que a "tia" foi
encontrada não no Hotel Esplanade em Locarno, mas perto da
casa em Kusnacht, e que era Aniela Jaffé.51

Parece que antes de que Jung, o "canhão", pudesse entrar em ação, ele morreu. Depois
de sua morte, Hull associou-se diretamente a Jaffé. Com referência à exclusão proposta,
ele escreve:

Poderia chamar de exclusão - e escolhi minha palavra


cuidadosamente - censura, uma coisa que Jung teria
desgostado e detestado... Quatro vezes você disse não ser
capaz de ser objetiva. Em um caso de vital importância, cara
sra. Jaffé, é seu dever recuperar sua objetividade: foi em suas
mãos e de ninguém mais que Jung confiou a responsabilidade
pela versão final de seu testemunho de vida... Você imagina
que se a Pantheon fosse obrigada a lançar uma edição
expurgada, toda essa evidência explosiva iria acabar
inutilmente? ... Todos meus argumentos enfraquecem e
diminuem em comparação a um pensamento dominante: por
que o velho homem se deu ao trabalho de vir me ver e falar tão
ardentemente sobre o livro, e por que ele o confiou às suas
mãos? Devo deixá-la encontrar a resposta.52

Entretanto, o próprio Hull foi reticente o quanto ele estaria disposto em "des-tititizar" o
texto. Em uma seção, Jung diagnosticou sua mãe como histérica. Isso foi omitido. Em
uma carta a Gerald Gross, Hull escreve:

Aniela escreveu que a Sra. Niehus insitiria em sua remoção. E


esta era a condição da Sra. N. para a confiança final de Aniela
16
MEMÓRIAS, SONHOS, OMISSÕES – Sonu Shamdasani

... Sentiu que seria um disparate antagonizá-la para lutar pela


palavra "histérica"; para ser franco, não estou disposto a
arriscar minhas relações com ela, em prol de um futuro
trabalho, por sua causa. Sugeri, por isso, a palavra "nervosa"
como um compromisso, e Aniela, gratamente, aceitou-a. Ao
mesmo tempo assinalei, novamente, que essa pequena
censura familiar provavelmente apareceria no final...53

O significado dessas mudanças é que elas dizem respeito ao manuscrito de seções de


Memórias que Jung realmente escreveu - e que foram a base de um caminho sem fim de
psicobiografias.

A questão final é aquela de relacionar o livro como uma autobiografia de Jung. Hull
esclarece o significado dessa questão:

... Há toda diferença do mundo entre um livro chamado "A


Autobiografia de C. G. Jung" e um livro de memórias de Jung,
editado por Aniela Jaffé (de quem poucos ouviram falar). Um é
automaticamente bestseller, o outro não.54

Como poder-se-ia esperar, a editora inglesa de Jung, a Routledge, claramente quis


publicar o livro. Em uma carta de 18 de dezembro de 1959, Cecil Franklin escreveu para
Jung:

Creio que a história desse livro é que ele começou como um


trabalho de Aniela Jaffé, que ela poderia ter escrito com sua
ajuda próxima; mas ele cresceu para além disso e tornou-se,
de fato, sua autobiografia ... Examinamos nosso acordo de
1947 e achamos que se isso é sua autobiografia ... os direitos
de publicação seriam nossos ... Nós aguardamos para quando
possamos publicar sua autobiografia... Iria preocupar-nos
muito e poderia abalar nossa reputação sermos considerados
os editores somente de seus livros estritamente técnicos...55

17
MEMÓRIAS, SONHOS, OMISSÕES – Sonu Shamdasani

Entretanto, Jung nunca viu o livro como sua autobiografia. Em 5 de abril de 1960,
escreveu para Walter Niehus-Jung, seu genro e testamenteiro literário:

Quero agradecê-lo por seus esforços em nome de minha então


chamada "Autobiografia" e confirmar uma vez mais que não
considero esse livro como meu empreendimento, mas
expressamente como um livro que Frau A. Jaffé escreveu... O
livro poderia ser publicado com seu nome e não com o meu,
uma vez que ele não representa uma autobiografia composta
por mim.56

Em 25 de maio de 1960, Herbert Read escreveu a John Barret sobre o livro:

Agora parece que ele terá um título como:

Aniela Jaffé

"Reminiscências, Sonhos, Pensamentos"

Com contribuição de C. G. Jung.57

Seguindo essas negociações, uma resolução da Comitê Editorial das Obras Completas
de Jung foi redigida, permitindo que o livro fosse publicado fora dos contratos exclusivos
com a Bollingen Foundation e a Routledge & Kegan Paul. Ela contém a seguinte
afirmação:

C. G. Jung sempre afirmou que não considerava esse livro


como um empreendimento próprio, mas expressamente como
um livro escrito pela Sra. Jaffé. Os capítulos escritos por Jung
eram para ser considerados como sua contribuição ao trabalho
da sra. Jaffé. O livro seria publicado em nome da sra. Jaffé e
não no nome de C. G. Jung, por que ele não representava uma
autobiografia composta por C. G. Jung (carta de C. G. Jung a
Walter Niehus datada de 5 de abril de 1960).

18
MEMÓRIAS, SONHOS, OMISSÕES – Sonu Shamdasani

Em uma conversa realizada em 26 de agosto entre Prof. C. G.


Jung, sr. John Barret, srta. Vaun Gillmor, sr. Herbert Read, sr e
sra. W. Niehus-Jung e sra. Aniela Jaffé, C. G. Jung confirmou
novamente que ele considerava estritamente esse livro como
um empreendimento da sra. A. Jaffé, ao qual ele somente deu
algumas contribuições... O Comitê Editorial decide pelo
presente formalmente que não aprovará qualquer decisão do
Subcomitê Executivo que gostaria de adicionar o livro da sra.
A. Jaffé às Obras Completas.58

Daí, parece que era precondição para a realização contratual do livro que o mesmo
aparecesse como uma biografia de Jung, feita por Aniela Jaffé e não como a autobiografia
de Jung. Em julho de 1960, Kurt Wolff demitiu-se da Pantheon, a qual foi comprada
imediatamente pela Random House. Em 6 de junho de 1961 Jung morreu. No ano
seguinte, extratos de Memórias apareceram em Die Weltwoche e na Atlantic Monthly. O
primeiro extrato em Die Weltwoche era intitulado simplesmente "A autobiografia de C. G.
Jung". O livro mesmo apareceu em 1962, em alemão e inglês. Em outubro desse ano,
Kurt Wolff morreu num acidente de carro. Uma edição francesa apareceu em 1966
intitulada, Minha Vida: Memórias, Sonho e Pensamentos.59

O que era, realmente, uma biografia extraordinária, foi lida, erroneamente, como uma
autobiografia. Desafortunadamente, parece que quando ativeram-se ao significado da
confissão da "equação pessoal" de Jung, seus esforços estavam em parte direcionados
para determinar a forma que ela deveria ter, quais memórias e sonhos omitir - modelando
Jung em seus próprios gostos, fazendo-o o portador de seus "mitos pessoais". Agora
poderia ser o tempo de des-titiazar?

1 Agradeço a Michael Whan por esse título.

2 Richard Hull para John Barret, 4 de maio de 1960, Bollingen Archive, Library of
Congress. A carta de Hull foi citada com a permissão da sra. Birte-Lena Hull.

3Gerhard Adler, "The Memoirs of C. G. Jung", The Listener, 18 de julho de 1963, 85.

19
MEMÓRIAS, SONHOS, OMISSÕES – Sonu Shamdasani

4 Barbara Hannah, Jung: His Life and Work, A Biographical Memoir (London: Michael
Joseph, 1976), 7.

5 Ibid., 8.

6 Jung, "Freud and Jung: Contrasts", CW 4, 336.

7 Jung, Analytical Psychology: Notes of the Seminar gives im 1925, CW volume


suplementar.

8 Ibid., 32-3

9 Henri Flournoy para Jung, 8 de fevereiro de 1953, Jung Archives, E. T. H., Zürich.

10 Jung para Henri Flournoy, C. G. Jung Letters, vol.2: 1951-61, ed. Gerhard Adler e
Aniela Jaffé (London: Routledge & Kegan Paul, 1976), 106, tradução modificada. Em uma
nota dedicada a uma coleção de seus trabalhos não publicados por Jürg Fierz, Jung
simplesmente escreveu: "Eu próprio tenho aversão por autobiografia". 21 de dezembro de
1945, C. G. Jung Letters, vol. 1: 1906-50 (London: Routledge &Kegan Paul, 1973, 404.

11 Jung para Gustave Steiner, 30 de dezembro de 1957, C. G. Jung Letters, vol. 2, 406,
tradução modificada

12 Jung para J. M. Thorburn, 6 de fevereiro de 1952, C. G. Jung Letters, vol. 2: 1951-61,


38-39.

13 Kurt Wolff, "On Luring Away Authors, or How Authors and Publishers Part Company",
Kurt Wolff: A Portrait in Essays and Letters, ed. M. Ermarth (Chicago, University of
Chicago Press, 1991), 21.

14 Richard Hull, "A record of events precending the publication of Jung's auto-biography,
as seen by R. F. C. Hull", 27 de julho de 1960, Bollingen Archive, Library of Congress.
Citado com permissão da sra. Birte-Lena Hull. Em sua introdução para Memórias, Aniela
Jaffé afirma que foi Jolande Jacobi quem sugeriu esse papel para ela. A analogia
Eckermann-Goethe não estava perdida em Jung; em uma carta para Kurt Wolff, ele
escreveu, "Que Deus me ajude, quando li Conversações de Eckermann até Goethe

20
MEMÓRIAS, SONHOS, OMISSÕES – Sonu Shamdasani

pareceu-me um empertigado peru" Jung para Kurt Wolff, 1º de fevereiro de 1958, C. G.


Jung Letters, vol. 2, 453.

15 Kurt Wolff para Herbert Read, 27 de outubro de 1959, Bollingen Archive, Library of
Congress.

16 C. G. Jung, Memories, Dreams, Reflections (London: Flamingo, 1983), 7.

17 Henri Ellenberger, "La Psychologie de Carl Gustav Jung: à propos de son


autobiographie", L'Union Médicale du Canada, vol. 93, agosto de 1964, 993, tradução
minha.

18 Aniela Jaffé, From the Life and Work of C. G. Jung (Einsiedeln: Daimon 1989), 133.

19 O primeiro a fazer essas analogias foi Arthur Calder-Marshall em seu estudo, "Jung:
the Saint of Psychology", Time and Tide, 11-17 de julho de 1963, em que ele afirma: Esse
volume ... está destinado a ser um clássico como Confessions de Rousseau". 24.

20 Kathleen Raine, "A Sent Man", The Listener, 22 de agosto de 1962, 284.

21 Hans Eysenck, "Patriarch of the Psyche", The Spectador, 19 de julho 1963, 86.

22 Edward Edinger, The Creation of Counsciousness: Jung's Myth for Modern Man
(Toronto: Inner City Books, 1984), 12-13.

23 Aniela Jaffé, "Interview with Gene Nameche", Jung Oral History Archive, Countway
Library of Medecine, Harvard Medical Library, Boston, 11.

24 Ibid.

25 Jung, Memories, Dreams, Reflections, 9.

26 Suzanne Wagner, "Remembering Jung: Through the Eyes of Aniela Jaffé",


Psychological Perspectives, vol. 26, 1992, 109.

27 Dr. Richard Wolff, a quem gostaria de agradecer por facilitar minha pesquisa, informou-
me que um dos editores, envolvidos na publicação, vendeu-o a um livreiro. Foi, então,
comprado pelo Dr. James Cheatham e doado a Harvard Medical Library em maio de
21
MEMÓRIAS, SONHOS, OMISSÕES – Sonu Shamdasani

1979. Possuía correções feitas por várias mãos, algumas das quais foram identificadas
por Alan Elms: Gerald Gross, Aniela Jaffé (através de Richard Winston), Richard Hull,
Wolfgang Sauerlander, Richard Winston, junto com notas rotuladas "CGJ", mas não pela
caligrafia de Jung.

28 Aniela Jaffé para o autor, carta datada de janeiro de 1991. Todas as afirmações de
suas cartas e dos manuscritos, esboços e transcrições foram dados em paráfrase, pois a
permissão para citá-las não foi concedida pelo testamentário literário de Jaffé.

29 As transcrições, junto a alguma correspondência sobre seu destino, foram restringidas


oficialmente até 1993. Agradeço a William McGuire e a Princenton University Press por
me permitirem consultá-las durante a Páscoa de 1991.

30 Aniela Jaffé para William McGuire, 1981, Bollingen Archive, Library of Congress

31 Countway ms., 1.

32 Laurens van der Post, Jung and the Story of Our Time (London: Penguin, 1976), 172.

33 Ibd., 176.

34 Tributo de Jung a Flournoy foi publicado em inglês em Theodore Flournoy, From India
to the Planet Mars: A Case of Multiple Personality with Imaginary Languages , ed. Sonu
Shamdasani (Princenton: Princenton UP, 1994). O tributo de Jung para Flournoy e
Zimmer também foi publicado na edição francesa de Memórias.

35 Countway ms., 197.

36 Quanto à relação de Jung com William James ver Eugene Taylor, "William James and
Jung", Spring, 1980. Quanto a uma crítica complementar da leitura freudocêntrica de
Jung, ver seu "Jung in His Intellectual Setting: The Swedenborgian Connection", Studia
Swedenborgiana, vol. 7, 1991.

37 John Kerr, A Most Dangerous Method: The Story of Jung, Freud and Sabina Spielrein
(New York: Knopf, 1993), 503. É curioso que Kerr não se deteve na história do caso de
Spielrein, apesar do fato de já ser de domínio público desde 1992 em "Sabina Spielrein:
Jung Patietin am Burghoelzli" de Bernard Minder (dissertação de doutorado, University of
22
MEMÓRIAS, SONHOS, OMISSÕES – Sonu Shamdasani

Bern, 1992). Agradeço a Hans Israëls por alertar-me para isso e fornecer-me uma cópia.
Desnecessário dizer que esse material, junto à correspondência entre Bleuler, Jung e a
família de Spielrein, que Minder recuperou, ocasionou uma completa reavaliação do
relacionamento de Jung-Spielrein. O rascunho da carta de referência de Jung para Freud
sobre Spielrein em 1905 que Minder recuperou (Jung an Freud 1905: Ein Bericht über
Sabina Spielrein, Gesnarus, vol. 50, 1993), confirma a recosntrução de Peter Swales em
"What Jung Didn't Say", Harvest: Journal for Junguian Studies, vol. 38.

38 CW 7, 295,n. 21

39 Op. Cit., 506.

40 Cit., 507.

41 Ibid.

42 Roger Payne, "A Visit to 228 Seestrasse", Harvest, vol. 39, 1993, 137

43 William McGuire forneceu as seguintes informações biográficas sobre Moltzer: "Mary


ou Maria Moltzer (1874 - 1944), filha de um destilador holandês, tornou-se enfermeira
como um protesto contra o abuso do álcool. Fez análise didática com Jung e depois de
1913 continuou como psicóloga analítica". The Freud/Jung Letters, ed. William McGuire
(London: Hogarth/Routledge, 1974), 351-2. Para o papel de Moltzer como assistente de
Jung, ver Eugene Taylor, "C. G. Jung and the Boston Psychopathologists, 1902-12",
Voices, vol. 21, 1985.

44 Ibid., 535

45 The Correspondence of Sigmund Freud and Sándor Ferenczi , eds. E. Brabant, E.


Falzeder & P. Giampiere-Deutsch, vol, 1, 1908-14 (Cambridge: Harvard UP, 1993), 446.

46 Jolande Jacobi, entrevista com Gene Nameche, Jung Oral History Archive, box 3, 110,
Countway Library of Medecine, Harvard Medical Library, Boston.

47 Maria Moltzer para Fanny Bowditch Katz, 1º de agosto de 1918, Countway Library of
Medecine, Harvard Medical Library, Boston, citada com permissão

23
MEMÓRIAS, SONHOS, OMISSÕES – Sonu Shamdasani

48 CW 6, 454.

49 Esse tema foi excelentemente explorado em Alan Elms, "The Auntification of Jung", em
One Life at a Time: Explorations in Psychobiography (forthcoming, Oxford UP), que
complementa a discussão aqui.

50 Hull, "A record of events", 1-2.

51 Ibid., 2.

52 Richard Hull para Aniela Jaffé, 9 de setembro de 1961, Bollingen Archive, Library of
Congress.

53 Richard Hull para Gerald Gross, Bollingen Archive, Library of Congress.

54 Hull, "A record of events", 4.

55 Cecil Franklin para C. G. Jung, 19 de dezembro de 1959, Bollingen Archive, Library of


Congress.

56 Jung para Walther Niehus-Jung, 5 de abril de 1960, C. G. Jung Letters, vol. 2, 550,
tradução modificada.

57 Herbert Read para John Barrett, 25 de maio de 1960, Bollingen Archive, Library of
Congress.

58 "Resolution of Editorial Commitee for 'The Collected Works' of Prof. C. G. Jung",


Bollingen Archive, Library of Congress, assinada por Jung em 29 de novembro de 1960 e
por John Barrett em 13 de dezembro de 1960.

59 "Die Autobiographie von C. G. Jung" Die Weltwoche, 31 de agosto de 1962. O título


alemão difere do inglês: Erinnernungen, Träume, Gedanken von C. G. Jung ,
aufgezeichnet und herausgegeben von [recolhida e editada por] Aniela Jaffé (Olten:
Walter Verlag, 1988). Outros ítens na edição alemã que desapareceram nas edições
inglesas foram uma carta de Jung a um "jovem estudante", o posfácio de seu Livro
Vermelho, e "Detalhes sobre a Família de C. G. Jung" por Aniela Jaffé. O último ítem foi
publicado em inglês na Spring 1984. Há muitas discrepâncias entre a edição alemã e a

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MEMÓRIAS, SONHOS, OMISSÕES – Sonu Shamdasani

inglesa, notadamente numerosas passagens da primeira que desapareceram na edição


inglesa. Algumas, mas não quer dizer todas, foram publicadas em inglês por Shoji
Muramoto, "Completing the Memories: The Passages Omitted or Transposed in The
English and Japanese Versions of Jung's Autobiography", Spring, 1987. Entretanto, uma
vez que o texto foi traduzido para o inglês como foi compilado, não é possível considerar
uma ou outra como a versão original. A edição francesa era Ma vie. Souvenirs, rêves,
pensées, recueilles et publiés par [recolhidos e publicados por] Aniela Jaffé (Paris:
Gallimard, 1966), traduit par [traduzido por] Roland Cahen et Yves Le Lay. Detalhes sobre
Kurt Wolff vieram de William McGuire, Bollingen: An Adventure in Collecting the Past
(Princeton: Princeton UP, 1982), 273-4. Agradeço a Charles Boer por chamar minha
atenção para isso.

25