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Brasil, pátria empreendedora: a eleição de 2018 e as propostas dos

presidenciáveis para fomentar o empreendedorismo

Brazil, an entrepreneurial homeland: the 2018 election and


presidential proposals to foster entrepreneurship
Por: Leandro Ramires Comassetto

Resumo
O Brasil, embora desponte como o terceiro país em número de empreendedores e tenha
parte significativa de sua economia alicerçada nos pequenos negócios, carece de políticas
públicas sólidas e programas que favoreçam o empreendedorismo. Ainda que
reconheçam a vulnerabilidade do setor, os agentes públicos pouco têm feito para melhorar
o ambiente dos negócios. As discussões não têm se traduzido em ações efetivas para
equacionar os obstáculos, de forma a estimular os investimentos. Em 2018, por conta da
eleição presidencial e do consenso de que o país precisa voltar a crescer, depois de um
período de crise e estagnação econômica, o papel do empreendedorismo esteve outra vez
no centro dos debates, permeando os programas de governo. Partindo da ideia de que o
fomento à atividade empreendedora passa pela definição e implantação de políticas
públicas, este artigo procurou analisar se as propostas dos candidatos estão coerentes com
os anseios manifestados pelos empreendedores na mais recente pesquisa GEM sobre
empreendedorismo no Brasil.

Palavras-chave
Empreendedorismo; políticas públicas; eleições 2018; programas de governo

Summary
Brazil, although it is the third country in terms of number of entrepreneurs and has a
significant part of its economy based on small businesses, lacks solid public policies and
programs that favor entrepreneurship. While recognizing the vulnerability of the industry,
public agents have done little to improve the business environment. The discussions have
not translated into effective actions to address the obstacles, in order to stimulate
investments. In 2018, due to the presidential election and the consensus that the country
needs to grow again, after a period of crisis and economic stagnation, the role of
entrepreneurship was again at the center of the debates, permeating government
programs. Based on the idea that the promotion of entrepreneurial activity involves the
definition and implementation of public policies, this article sought to analyze if the
candidates' proposals are consistent with the wishes expressed by the entrepreneurs in the
most recent GEM survey on entrepreneurship in Brazil.

Key words
Entrepreneurship; public policy; elections 2018; government programs
1. Introdução
Pela importância que exerce na economia, funcionando como um catalisador do
desenvolvimento econômico e da redução das desigualdades sociais, o
empreendedorismo passou a ser tema central nas discussões econômicas e merecido cada
vez mais a atenção dos políticos nas propostas e debates eleitorais.
Para se ter uma ideia da importância das iniciativas empreendedoras nos dias
atuais basta citar que as micro, pequenas e médias empresas representam atualmente
“mais de 98% do total de empresas, mais de 60% do emprego formal e aproximadamente
50% do Produto Interno Bruto nas economias desenvolvidas” (GOMES et al., 2013, p. 9-
10). A presença de menos empresas de pequeno e médio porte, por sua vez, é uma
característica de países menos desenvolvidos. Nestes, as MPMEs respondem por apenas
10% do PIB e 30% da força de trabalho. No Brasil, que pode ser classificada como uma
nação a meio caminho do estágio de desenvolvimento, estas já respondem por 27% do
PIB e 52% dos empregos com carteira assinada no setor privado, e os números tendem a
crescer, visto que 80% dos novos empregos, nos últimos dois anos, foram gerados por
empresas dessa natureza.
Apesar do viés empreendedor e do crescente número de empresas de pequeno e
médio porte, o Brasil é um país que ainda tenta se encontrar em termos de políticas
públicas voltadas para o ambiente dos negócios. Reclama-se, entre outros fatores, da
elevada carga tributária, do excesso de burocracia, da falta de financiamento público e de
programas educativos e de capacitação para o empreendedorismo. Ou seja, embora a
temática venha recebendo uma atenção maior no campo das discussões, isso não tem se
traduzido em ações práticas de estímulo e fomento à atividade empreendedora, gerando
apreensão e insegurança aos que se arriscam em busca de novas oportunidades de geração
de renda.
Em 2018, após um período de crise e instabilidade econômica, o Brasil passou por
uma nova eleição presidencial. E a estagnação da economia associada ao crescente índice
de desemprego estiveram no centro dos debates. Os candidatos viram-se impelidos a
apresentar propostas para equacionar a crise e, fatalmente, os programas de governo
contemplaram pontos considerados como vitais ao desenvolvimento dos negócios.
Partindo do princípio de que a melhoria das condições para fomentar a atividade
empreendedora é um desafio a ser enfrentado pelos governantes, este artigo propôs-se a
analisar e discutir as propostas dos programas de governo direta ou indiretamente voltadas
ao empreendedorismo e verificar se elas estão de acordo com o anseio dos empresários e
especialistas no setor. Como parâmetro, recorreu-se à pesquisa GEM (2017), onde foram
explicitados os principais gargalos ao empreendedorismo no Brasil. Antes, porém,
procurou-se discutir a relevância e importância do que se entende como políticas públicas
nesse cenário.

2. O que são políticas públicas


Já virou lugar comum falar em políticas públicas e essas ocupam lugar central no
mundo dos governos, independente da esfera (federal, estadual ou municipal) em que é
exercida a gestão. Mas nem sempre foi assim. Até pouco tempo atrás, segundo Spink (in.
GOMES et al., 2013), a expressão soava como um palavrão mesmo em países
desenvolvidos como França e Espanha. A exceção era os Estados Unidos, que concentra
a maior parte da produção acadêmica sobre o tema e onde o termo foi alçado a público
nos anos 1950. No Brasil, só recentemente, no fim dos anos 1990, a expressão começou
a ganhar popularidade.
Para Spink, “o uso da expressão política pública traz a expectativa de uma ação
governamental contínua, coerente tecnicamente e coordenada com a mobilização dos
recursos necessários para produzir impactos positivos sobre assunto em foco” (p. 43). Em
suma, pode-se dizer que
A expressão “política pública” se refere a uma postura assumida por um
conjunto de pessoas publicamente responsável e com autoridade
institucional legítima (por exemplo um ministro e sua equipe) em
relação a algo que é uma preocupação pública. Traz a ideia de que algo
será feito de maneira séria, prolongada, com um ordenamento de
esforços e uma distribuição ou redistribuição de recursos (SPINK, in
GOMES et al., 2013, p. 48).

Esclarece o autor, quando da implantação de uma “política pública”, presume-se


que, para tal, haja uma intencionalidade, ou seja, que as pessoas em posições de
autoridade pública querem que isso aconteça, com um ou mais objetivos determinados,
“e que as decisões tomadas e ações introduzidas serão frutos de discussão e conhecimento
técnico” (p. 48).
Embora os governos sejam, atualmente, reconhecidos e legitimados
principalmente por suas políticas públicas, as quais também justificam os recursos
necessários à execução das tarefas, o processo de políticas públicas é, segundo Wu et al.,
em muitas ocasiões, “repleto de irracionalidade, inconsistências e falta de coordenação”,
que podem tornar-se grandes fontes de tensão e sofrimento para os agentes públicos.
Dizem os autores que, em particular quando há falta de familiarização com a natureza e
o funcionamento do processo das políticas, estas “podem não ser capazes de elaborar
estratégias eficazes para influenciar sua direção e garantir que resulte em um conjunto
integrado de resultados” (2014, p. 14).
Não é objetivo discutir aqui a complexidade do processo de implementação das
políticas públicas, visto que estamos trabalhando no campo das intenções e propostas de
governo. É preciso levar em conta, porém, que a própria formulação de políticas públicas
envolve um conjunto de etapas e fatores, de natureza não apenas política e administrativa,
mas também econômica e social. E não só o consenso sobre a necessidade de
determinadas políticas é difícil de ser alcançado, como também há sempre interesses,
tanto favoráveis quanto contrários, envolvidos nas prioridades elencadas. De qualquer
forma, é praxe que todo e qualquer postulante a uma representação pública tenha e torne
público um rol de propostas que considere essenciais ao desenvolvimento, sobretudo
econômico e social, do coletivo que se propõe a representar.
A definição de uma agenda de prioridades é o primeiro passo a ser dado pelo
gestor e, no caso de políticas públicas governamentais em sociedades democráticas, esta
é uma tarefa que começa ainda durante o período eleitoral com a apresentação de
plataformas elaboradas pelos candidatos e suas agremiações, considerando não apenas
problemas elencados pela sociedade mas também questões emergentes e vitais que visem
ao bem comum, ainda que possa não haver consenso sobre a necessidade ou não de sua
implementação ou mesmo que determinadas prioridades sejam consideradas impopulares
por alguns segmentos. Obviamente que, no caso de um processo eleitoral, os partidos,
como enfatizam Wu et. al., trabalham apresentando “estratégias inovadoras para ganhar
as eleições, incluindo a preparação de pacotes de políticas para atrair eleitores”. Esses
pacotes, segundo os autores, “formam uma fonte vital para as agendas de políticas
públicas, que os gestores devem estar preparados para abordar após a eleição”. No
entanto, pela posição que ocupam, devem também ser capazes de identificar políticas
emergentes antes que essas venham a se tornar problemas públicos difíceis de solucionar
posteriormente. A definição da agenda implica, portanto, “reconhecer que um problema
é uma questão ‘pública’ digna de sua atenção” e que este não é meramente um processo
político, mas também técnico e que envolve interesses sociais e estatais em meio a
contextos institucionais e ideológicos (p.30-32).

2.1. Por que políticas públicas de fomento ao empreendedorismo?


Como destacado na introdução, partimos do pressuposto de que o
empreendedorismo, tal qual consideram muitos autores, sobretudo numa perspectiva
schumpeteriana, é o elemento verdadeiramente impulsionador do crescimento e do
desenvolvimento econômico e social, contribuindo para a geração de empregos e a
diminuição das desigualdades. Temática praticamente alijada das grandes discussões
nacionais até o alvorecer dos anos 1980, quando os reflexos da globalização e automação
dos meios de produção desencadearam um processo de maior competitividade e redução
dos empregos diretos nos setores primário e secundário da economia, o
empreendedorismo tem ganhado importância e vem sendo tratado como uma atividade
vital ao desenvolvimento do país. Por sua relevância, virou até disciplina obrigatória no
currículo de algumas escolas e universidades e o próprio MEC sugere que a questão seja
tratada, ao menos, como matéria transversal desde o ensino fundamental.
Em termos de políticas de governo, embora nunca tenha sido tratado como
prioridade, o fomento ao empreendedorismo, pelo menos, tem passado pelas discussões
das administrações públicas em todas as esferas governamentais e se beneficiado de
algumas leis de incentivo a micro e pequenas empresas e à inovação. Todavia,

Parece ainda não haver no Brasil um conhecimento explícito e ações


coordenadas sobre o estímulo ao empreendedorismo, nos encontramos
em um momento de experimentação, como se tentando descobrir o que
é mais adequado para a realidade brasileira. Entretanto, há sim um
conhecimento, mas este ainda se encontra em um nível tácito. (...) Em
sua maioria, cada nível de governo possui diversas políticas que focam
um desafio específico para a promoção do empreendedorismo,
entretanto, essas ações são desarticuladas, não se coordenam,
constituindo um plano de ação para criar um ambiente mais propício ao
empreendedorismo (GOMES et al., 2013, p.11).

Ao discutir a necessidade de se criar políticas públicas de fomento ao


empreendedorismo, Sarfati (in. GOMES et al., 2013) aponta a correlação positiva entre a
incidência da atividade empreendedora e o crescimento da economia, aumento do
emprego, diminuição da desigualdade social, entre outros fatores. Mas, na análise
comparativa que faz de cinco países, incluindo o Brasil, pondera que, quando se fala em
políticas públicas, é preciso antes diferenciar a necessidade de escopo dessas políticas,
visto que nem todas fomentam um empreendedorismo de alto impacto, com forte geração
de emprego. No seu estudo, diferencia políticas públicas para as MPMEs (Micro,
Pequenas e Médias Empresas), que “envolvem programas que apoiam o empreendedor
estilo de vida”, que, claro, têm também efeitos macroeconômicos positivos na criação de
empregos e efeitos microeconômicos colaterais de economias de escala, de políticas
propriamente de empreenderismo, que “visam fomentar empreendedores (indivíduos)
altamente inovadores que possam gerar um alto impacto no crescimento econômico
movendo a economia para produtos e serviços com maior valor agregado” (p. 17-42).
No caso brasileiro, o que tem se observado é uma preocupação apenas muito
recente com políticas de incentivo à inovação capazes de fomentar ganhos de escala e
forte geração de emprego sobretudo em empresas de maior porte e, portanto, de efeitos
mais positivos sobre o crescimento econômico. Na classificação dos estágios de
desenvolvimento sugerida por Porter (1989), pode-se dizer que o Brasil se encontra ainda
numa fase de transição entre o chamado estágio movido por fatores de produção e o que
é movido pela eficiência, mas distante ainda do estágio movido pela inovação. Conforme
resumido por Sarfati, tomando por base a definição de Porter,

O estágio de fatores é marcado por uma economia agrícola e


empreendedores estilo de vida. Neste estágio o país é caracterizado pela
produção de commodities e produtos com baixo valor agregado e
grande parte das empresas são manufatureiras e pequenas de serviço.
Já no estágio de eficiência o país tem que explorar economias de escala,
o que favorece a concentração industrial. Finalmente, no estágio
movido a inovação, a economia passa a ser fortemente caracterizada por
atividades intensivas em conhecimento, o que fortemente caracteriza a
atividade empreendedora (SARFATI, in. GOMES et al., 2013, p. 19).

Ainda segundo o autor, no estágio de fatores, conforme a observação do Global


Entrepreneurship Monitor (GEM), de 2009, a preocupação básica é muito centrada no
provimento de serviços básicos, como saúde, educação etc., e só quando “o país ganha
estabilidade econômica e infra-estrutura, passa a se notar uma relação positiva entre
crescimento econômico e atividade empreendedora” (p. 19).
Embora tenha ainda muito por fazer na melhoria dos serviços básicos e no
provimento de infraestrutura, é inegável que o Brasil, gradativamente, vem apresentando
avanços em questões relativas à liberdade econômica, uso da internet, combate à
corrupção e melhoria dos índices de desenvolvimento humano, que são características
próprias de países inseridos no chamado estágio da eficiência. A transição para a
economia da inovação, por sua vez, demanda acentuado “desenvolvimento da educação
superior, disponibilidade das últimas tecnologias, ambiente inovativo, P&D, venture
capital e diminuição da percepção do risco de falhar” (p. 20-21).
O Brasil, até bem dizer o início dos anos 1990, pouco fez pelo fomento ao
empreendedorismo e mesmo para criar um ambiente mais favorável às MPMEs.
Descontadas iniciativas como a de criação do Sebrae, que desde a década de 1970, em
seus já 700 pontos espalhados pelo país, orienta e presta consultoria à criação de micro e
pequenas empresas, as mudanças mesmo em termos de política pública deram-se a partir
de 1996, quando da criação da Lei 9.317/96, conhecida como Lei Federal do Simples,
que ordena tratamento tributário diferenciado às micro e pequenas empresas, e da Lei
9.841/99, que institui o Estatuto da Micro e Pequena Empresa, ambas substituídas em
2006 pela Lei Complementar nº 123/06, que instituiu o Estatuto Nacional da
Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte e que estabelece tratamento diferenciado
às microempresas e empresas de pequeno porte em nível federal, estatual e municipal.
Podem ser citadas ainda a chamada Lei do Bem (11.196/05), que trata de incentivos
fiscais às iniciativas de inovação, e a Política Industrial, Tecnológica e de Comércio
Exterior, que prioriza os chamados Arranjos Produtivos Locais (APLs) ou clusters
produtivos, numa crença de que “os clusters podem trazer desenvolvimento econômico
ao mesmo tempo em que as desigualdades regionais são diminuídas” (p. 37).
Se, por um lado, portanto, o país, implantou algumas iniciativas, que, sobretudo
do ponto de vista regulatório e da complexidade tributária, favoreceram as MPMEs,
carece o Brasil ainda de uma verdadeira política de empreendedorismo, que fomente, por
exemplo, entre outros fatores, a promoção de uma cultura e educação empreendedora,
iniciativa que já vem sendo experimentada por alguns municípios e que, com o tempo,
pode resultar num empreendedorismo realmente inovador de alto impacto.
Resumindo, pode-se concluir que, em se tratando do caso brasileiro,

a temática do fomento ao empreendedorismo se encontra muito


incipiente. Sim, é possível identificar pessoas, secretarias, agências,
universidades, empresários, oficinas, profissionais que - teoricamente -
são parte de algo que podemos chamar de campo do fomento de
empreendedorismo, mas sabemos que na prática há muito pouca
vinculação entre as ações, muito menos clareza sobre onde e o que
precisa ser discutido, em contraste, por exemplo, à área da saúde, onde
as principais componentes de sua agenda são relativamente claras
(SPINK, in. GOMES et al., 2013, p.43-44).

Spink também observa que o fomento ao empreendedorismo não é efetivamente


propagado e ensinado e o país ainda está longe de apresentar uma cultura empreendedora.

3. O Brasil frente a uma nova perspectiva empreendedora


O Brasil, embora ainda sinta os reflexos da crise econômica que se abateu no país
em 2014, com queda da produção industrial, dos salários reais e do PIB, vive um
momento que se pode dizer de esperança em relação à recuperação da economia. A volta
do otimismo deve-se em parte às eleições e às expectativas para com um novo governo,
mas é importante observar que já desde 2016, quando passou a haver uma sinalização
mais forte da necessidade de reformas econômicas e estruturais no campo do trabalho e
da previdência, com a consequente redução do déficit público, o cenário, antes pessimista,
começou a mudar. E o próprio relatório da pesquisa GEM (Global Entrepreneurship
Monitor), que é o maior estudo unificado de atividade empreendedora do mundo, em sua
edição de 2016, já sinaliza nesse sentido. A pesquisa, que tem por objetivo identificar as
atitudes, atividades e aspirações dos empreendedores, bem como avaliar as características
do ambiente, tais como finanças, políticas e programas governamentais, educação e
treinamento, transferência de tecnologia, infraestrutura de suporte, entre outros, registra,
por exemplo, estar havendo um aumento das iniciativas empreendedoras por
oportunidade em relação ao empreendedorismo por necessidade, que está relacionado à
falta de opção de trabalho e renda, bem como maior presença feminina nos
empreendimentos em estágio inicial e brasileiros mais jovens apostando em iniciativas
empreendedoras (GEM, 2017).
O relatório da pesquisa é taxativo em afirmar que a recuperação da economia
brasileira “passa, necessariamente, pelo empreendedorismo, e que é preciso que o
governo crie mecanismos que facilitem e incentivem os pequenos negócios”, tendo em
vista a capacidade do brasileiro para empreender e a grande quantidade de oportunidades
que o país oferece (p. 15). Um dos pontos da pesquisa procurou, na visão de
empreendedores e especialistas, retratar o ambiente atual para empreender no Brasil,
incluindo a visão dos entrevistados sobre as políticas governamentais. Antes, porém, de
apresentar os resultados, convém contextualizar um pouco do cenário atual do
empreendedorismo no país.
O Brasil tinha, em 2016, 48.239.058 empreendedores, o equivalente a 36% da
população adulta economicamente ativa (18 a 64 anos), dos quais, pouco mais da metade
(26 milhões) era de empreendedores iniciais (nascentes e novos) e 22 milhões de
estabelecidos. Dos empreendedores iniciais, a pesquisa constatou que 57 de cada 100
estão empreendendo por oportunidade, uma característica dos países impulsionados pela
inovação. Claro que ainda se está longe do desejável e distante de outros países também
situados no chamado estágio de eficiência, como Chile, Colômbia e Arábia Saudita, onde
o percentual de empreendedorismo por oportunidade apresenta, respectivamente, índices
de 75, 86 e 92%. Nos países já impulsionados pela inovação, o empreendedorismo por
oportunidade apresenta índice de 85% na Itália, 87% nos Estados Unidos e 89% na
Suécia.
Considerando o gênero dos novos empreendedores, as mulheres, em 2016,
superaram os homens em 3%, mas o percentual de homens ainda é 16% maior entre os
empreendedores estabelecidos. Outra característica que vem mudando diz respeito à faixa
etária dos empreendedores, cada vez mais jovens. Vinte por cento dos empreendedores
iniciais encontra-se na faixa etária dos 18 aos 24 anos, e a maioria (23%) tem entre 25 e
34 anos. Também o índice de escolaridade tem apresentado avanços, considerando que
29% dos novos empreendedores têm experiência em nível de pós-graduação.
Segundo o setor da atividade econômica, os serviços orientados para o consumidor
são os que têm apresentado maior crescimento, representando 69% dos novos
empreendimentos, contra 24% da indústria de transformação, 5% dos serviços orientados
para negócios e 2% do setor extrativo. Um fator negativo apresentado pela pesquisa diz
respeito ao potencial de inovação das novas empresas. Na comparação com outros quatro
países emergentes, os que integram o denominado BRICS, o Brasil é o penúltimo
colocado, com índice de apenas 20,4% e acima apenas da Rússia (17,5%). Na ponta da
inovação está a China, com 76,9% de potencial inovativo, seguida da Índia (62,6%) e da
África do Sul (47,9%). Não por acaso, China e Índia são os países que mais têm crescido
no cenário econômico mundial, o que comprova a eficácia dos investimentos em pesquisa
e desenvolvimento. O Brasil também apresenta resultado medíocre na utilização de
tecnologias. Apenas 4% entre os novos empreendedores, contra índices que superam os
50% em países como Índia e África do Sul, o que demonstra que o país carece de
investimento em ciência, tecnologia, inovações e comunicações. Este fator ajuda a
explicar por que, em termos de inserção no mercado internacional, o Brasil é tão pouco
representativo. Enquanto os novos empreendedores nacionais têm apenas 1,8% de seus
clientes no exterior, países como Estados Unidos, Alemanha e África do Sul apresentam
clientela que corresponde, respectivamente, a 85,1%, 68,1% e 53,1%. Conforme observa
o relatório, este número deve-se, sobretudo, a dois fatores: “a baixa inovação e o uso de
tecnologia obsoleta, que culmina em baixa competitividade global” e “pode também ser
um reflexo das políticas de importação e exportação do país, bem como da sua imagem
internacional” (GEM, 2017, p.74).

3.1 O ambiente para empreender


A pesquisa GEM de 2016 ouviu de 93 especialistas quais os fatores favoráveis e
limitantes ao empreendedorismo no Brasil em comparação com outros países emergentes.
O Brasil saiu-se melhor nos itens que se referem à abertura de mercado, com o fim das
barreiras econômicas, e à capacidade empreendedora do povo brasileiro, mas, no que
tange às políticas governamentais, o país é o último colocado na comparação com Índia,
Rússia, África do Sul e China. Enquanto neste último país 69,2% dos especialistas
elogiam as políticas governamentais, no Brasil a visão favorável a essas políticas alcança
apenas 14%. Na índia, Rússia e África do Sul, o índice positivo é de 25,5, 28,1 e 49%,
respectivamente. O Brasil sai-se um pouco melhor na avaliação dos programas
governamentais para o empreendedorismo, vistos de forma positiva por 24,7% dos
especialistas, índice superior aos da China e África do Sul, mas atrás da Rússia e Índia.
Importante observar que, enquanto as políticas governamentais referem-se mais
ao campo regulatório (legislação e regras) e à construção de um ambiente macro de
estímulo ao empreendedorismo definido como política de governo, os programas são
mais específicos e pontuais, a partir ou não de políticas. Na avaliação da pesquisa GEM,
tomando como referência os dados apresentados, “os agentes econômicos conseguem
um desenvolvimento maior quando o governo adota políticas de longo prazo, mais
estáveis, do que com programas públicos, que podem ser alterados ao sabor de mudanças
na chefia do executivo” (p. 88). Os especialistas brasileiros também apontaram que outro
fator prejudicial ao empreendedorismo no país “é o baixo nível de educação e
capacitação”. Quase um terço dos entrevistados (31,2%) apontou esse item como
limitante à abertura e manutenção de novos negócios (p.89).
A percepção dos empreendedores, todavia, refere-se a itens mais pontuais e
imediatistas, o que reflete a falta de uma visão macroestrutural de fomento ao
empreendedorismo. A maioria absoluta (58,6%) dos empreendedores entrevistados
apontou a falta de acesso a recursos financeiros (empréstimos e financiamentos) como o
principal problema para incrementar seu potencial empreendedor. Mas a questão da
legislação e impostos (leis e carga tributária), que pode ser regulada por política
governamental, foi apontada por 44,8% como o segundo fator mais desfavorável, índice
que bate na casa dos 50% quando se trata da percepção apenas dos empresários
estabelecidos, com mais tempo de convívio com o sistema tributário brasileiro.
Numa comparação que procurou atribuir notas ao ambiente para empreender, o
Brasil posiciona-se mal frente aos demais países. Em termos de políticas governamentais
(em âmbito federal, estadual e municipal) e efetividade das políticas públicas, o país, na
visão dos especialistas, superou apenas a Rússia, com nota de 3,5 numa escala de 0 a 9.
Os russos ficaram com 3,3, contra 4,8 da África do Sul, 5,2 da China e 5,6 da Índia. Em
termos de burocracia e impostos, o Brasil é último colocado, com nota 2,2. No que se
refere a programas governamentais, o Brasil aparece melhor que Rússia e África do Sul,
com nota 3,4, mas abaixo de Índia e China, com notas 4,3 e 4,7, respectivamente. Nosso
país também deixa a desejar no que se refere ao nível de educação empreendedora no
ensino fundamental e médio, aparecendo na última posição com nota 2,2. Sai-se um
pouco melhor, todavia, na avaliação do nível de educação empreendedora no ensino
técnico e superior, com nota 4,1, à frente da África do Sul, mas atrás de Rússia, Índia e
China.
Não por acaso, entre as recomendações dos especialistas para melhorar as
condições para empreender no país, os principais fatores são a implantação de políticas
governamentais (75%) e educação e capacitação (49,5%). Na sequência aparecem a
necessidade de maior apoio financeiro (31,2%) e o estabelecimento de programas
governamentais (24,7%). Conclui o relatório GEM que o Brasil, portanto, “ainda tem
muito que avançar na área das políticas governamentais. Consequentemente, se tais
políticas forem acertadas, o Brasil tem as melhores oportunidades de melhoria no
ambiente de negócios para empreendedores” (p. 99).

4. A eleição presidencial de 2018 e as propostas para o empreendedorismo


Elencamos aqui as propostas dos candidatos à presidência da República
explicitadas nos programas de governo apresentados ao TSE (Tribunal Superior
Eleitoral). Além das propostas específicas e que se referem diretamente ao
empreendedorismo, procuramos elencar também pontos relacionados ao que se pode
deduzir como condições para a criação de um ambiente favorável ao empreendedorismo,
incluindo políticas e reformas macroestruturais.

Tabela 1 - Propostas dos principais candidatos à presidência da República1

Candidatos Propostas

1
Foram considerados os candidatos que marcaram pelo menos 4 (quatro) pontos percentuais na pesquisa
de intenção de voto do Ibope de três de outubro (última sondagem do instituto de pesquisa antes do primeiro
turno da eleição).
Jair Bolsonaro O candidato defende a criação de um ambiente favorável ao
(PSL) empreendedorismo, valorizando talentos nacionais e atraindo
outros do exterior para gerar novas tecnologias, emprego e
renda. Defende que o jovem saia da faculdade pensando em
abrir uma empresa e cita como exemplo países em que o
empreendedorismo foi vital para o crescimento econômico,
como Japão e Coreia do Sul. Especificamente, propõe:
- Criação de um ambiente favorável ao empreendedorismo no
Brasil, implementando o estudo do empreendedorismo nas
universidades, em todos os cursos, de modo que o jovem saia
da faculdade pensando em como transformar o conhecimento
obtido em produtos, negócios, riqueza e oportunidades e que
deixe de ter uma visão passiva sobre seu futuro.

Relacionado ao que se pode deduzir como condições para a


criação de um ambiente favorável ao empreendedorismo, o
plano de governo cita que:
- O Brasil precisa implementar medidas que acelerem a
modernização de sua estrutura produtiva, com desenvolvimento
e fortalecimento do mercado de capitais, estímulos à inovação e
ao investimento em novas tecnologias por meio de políticas “do
lado da oferta”, tais como depreciação acelerada e abertura
comercial imediata a equipamentos necessários à migração para
a indústria 4.0, ampla requalificação da força de trabalho para
as demandas da “nova economia” e tecnologias de ponta (4ª
revolução industrial), e apoio a “startups” e “scale-ups” de alto
potencial, sempre em parceria com instituições privadas do
mercado de capitais.

O plano do candidato defende ainda reformas macroestruturais


que teriam consequências positivas para o empreendedorismo,
tais como:
- Maior liberalismo econômico, com facilitação ao comércio
internacional, para “gerar crescimento, emprego e
oportunidades”;
- Saneamento da dívida pública, juros baixos e estímulo a
investimentos;
- Redução da carga tributária, controle de gastos e programas
de desburocratização e privatizações.

Fernando Haddad O candidato propõe ampliar o empreendedorismo e o crédito


(PT) cooperado com as seguintes propostas:
- Incluir jovens, trabalhadores de meia idade e mulheres em
oportunidades de trabalho decente;
- Apoio às micro e pequenas empresas, “fundamentais para o
desenvolvimento do país e para a retomada do crescimento
econômico”;
- Aperfeiçoamento do Simples (Sistema de Tributação
Simplificada), o que representa a “sobrevivência no mercado”;
- Implantação de uma forte política de incentivo ao crédito para
micro e pequenas empresas, utilizando, para isso, o BNDES e a
Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), instituições de
microcrédito e também cooperativas;
- Parcerias estratégicas com o Sistema S, notadamente o
Sebrae, para capacitar os empreendedores e estimular a criação
de startups, fomentando a cultura empreendedora desde o
ensino fundamental e incentivando o empreendedorismo
também por meio de universidades e cursos profissionalizantes;
- Remontar o Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e
Inovação, associando universidades e centros de excelência
para estimular a produção de pesquisas, gerando inovação em
áreas como manufatura avançada, biotecnologia,
nanotecnologia, fármacos, energia e defesa nacional.

Relacionado ao que se pode deduzir como condições para a


criação de um ambiente favorável ao empreendedorismo, o
plano de governo propõe ainda:
- Redução dos juros e difusão do crédito;
- Investimentos em inovação e ciência;
- Elaboração de um novo estatuto do trabalho, priorizando
orientação e preparação para a qualificação profissional.

O plano do candidato defende ainda reformas macroestruturais


que teriam consequências positivas para o empreendedorismo,
tais como:
- Nova política macroeconômica e reforma tributária, com
inflação controlada, juros baixos e crédito disponível.

Ciro Gomes Para alavancar o que chama de “empreendedorismo vibrante”


(PDT) do Brasil, o candidato propõe:
- Revisão das atuais leis trabalhistas, de modo a adaptá-las às
novas tendências do mercado de trabalho;
- Incentivo a empresas e trabalhadores para realizar contratos
de trabalho mais longos, de forma a estimular aumentos na
produtividade e diminuir a insegurança jurídica;
- Criação de um plano nacional de ciência e tecnologia, com
destaque para a indústria de alta tecnologia;
- Apoio a pequenas e médias empresas com negócios
inovadores na área de sustentabilidade, em especial os que
estimulem uma cadeia produtiva ambientalmente correta;
- Linhas de crédito específicas, financiamento com bolsas e
acesso a capital para negócios que promovam a inovação;
- Criação de fundos de investimento que financiem, de forma
não reembolsável, startups e iniciativas inovadoras que não
contem com segurança econômica suficiente no começo de
suas trajetórias;
- Políticas de incentivo à inovação e sustentabilidade
financiadas pelo BNDES e bancos privados;
- Vínculo com a política de ciência e tecnologia por meio da
criação de estímulos à atuação conjunta de universidades,
empresas e instituto de pesquisas no desenvolvimento de
produtos e tecnologias;
- Uma política de inserção internacional que fomente o setor
produtivo, com especial destaque para a indústria manufatureira
de alta tecnologia e para serviços intensivos em conhecimento;
- Retomada do protagonismo do BNDES na concessão de
crédito ao investimento, pesquisa e inovação, através da criação
de novas formas de captação de recursos.

O plano do candidato é bastante detalhado no tocante a


reformas macroestruturais que teriam consequências positivas
para o empreendedorismo, prevendo:
- Reforma previdenciária, fiscal e tributária, com desonerações
tributárias, isenção de tributos na aquisição de bens de capital,
redução de imposto de renda de pessoa jurídica, redução de
impostos sobre consumo (PIS/Cofins e ICMS), simplificação
da estrutura tarifária de importações, redução da burocracia
para abertura e fechamento de empresas;
- Redução da taxa de juros para estimular a retomada dos
investimentos privados;
- Defesa de uma taxa de câmbio competitiva;
- Uma nova política de crédito, com estímulo à disseminação
do cadastro positivo.

Geraldo Alckmin Para o candidato, o fomento do empreendedorismo é


(PSDB) fundamental para promover o que denomina “desenvolvimento
da indústria 4.0”, da economia criativa e da indústria do
conhecimento. Destaca a inovação, cultura, turismo e
agroindústria e promete transformar o Brasil no país mais
atrativo para empreender e investir na América Latina.

Propõe:
- Inserir o empreendedorismo no aprendizado escolar desde o
ensino fundamental, apoiando a formação de empreendedores
pelo setor de ensino;
- Revisar peças legislativas que influenciam a inovação, como a
Lei de Informática e a Lei do Bem - que concede incentivos
fiscais às empresas que investem em pesquisa e
desenvolvimento de inovações tecnológicas;
- Instituir um Sistema Brasileiro de Inovação para modernizar o
processo de registro de patentes;
- Adoção de programas de apoio às startups no Brasil, visando
principalmente a melhora da administração pública.

Relacionado ao que se pode deduzir como condições para a


criação de um ambiente favorável ao empreendedorismo, o
plano de governo propõe ainda:
- Abertura da economia, fazendo com que o comércio exterior
represente 50% do PIB;
- Transformação do Brasil no país mais atrativo para
empreender e investir na América Latina.

As reformas macroestruturais propostas pelo candidato, com


possíveis consequências positivas para o empreendedorismo,
são:
- Simplificação do sistema tributário pela substituição de cinco
impostos e contribuições por um único tributo: o Imposto sobre
Valor Agregado (IVA);
- Criação de um sistema único de aposentadoria, com redução
do déficit público e estímulo ao investimento.

Marina Silva A candidata critica os custos elevados para empreender no


(Rede) Brasil e diz que o empreendedorismo é uma alternativa para
mulheres e para o público LGBTI se emanciparem na
sociedade. Para isso, promete dar acesso a crédito, microcrédito
e capacitação. O plano também afirma que estimular o
empreendedorismo é o caminho para a criação de cidades mais
sustentáveis. Propõe:
- Implantação da reforma tributária, de modo a reduzir a
complexidade e a insegurança jurídica, que dificultam o
estabelecimento de um ambiente favorável aos negócios e ao
empreendedorismo;
- Usar linhas de crédito do BNDES para financiar projetos
inovadores, e utilizar microcrédito para pequenos
empreendedores e projetos locais de impacto socioambiental;
- Facilitar o acesso ao microcrédito e promover a capacitação e
orientação de empreendedores para a gestão de negócios;
- Desburocratização de processos, com ampliação de serviços
integrados eletronicamente;
- Criação e fortalecimento de políticas que estimulem
uma economia colaborativa e inovadora, a exemplo
da economia compartilhada, em que pessoas dividem o uso de
produtos e serviços, valorizando a experiência no lugar da
posse; da economia solidária, em que atividades de produção,
distribuição, consumo, poupança e crédito são organizadas sob
a forma de autogestão, promovendo o desenvolvimento local;
da economia criativa, que reúne atividades ligadas ao campo da
cultura e do conhecimento, e na qual hoje se destacam as
startups, com o uso das novas tecnologias; e da economia
circular, uma indústria reversa que transforma resíduos em
matéria prima e energia.

Relacionado ao que se pode deduzir como condições para a


criação de um ambiente favorável ao empreendedorismo, o
plano de governo propõe ainda:
- A abertura da economia, realizada de forma programada e
organizada, e a integração com as cadeias produtivas
internacionais;
- Incentivo ao aumento da capacidade de exportação, com
redução de tarifas e obstáculos de natureza burocrática;
- Melhoria do ambiente de negócios, com facilitações para a
abertura e fechamento de empresas;

As reformas macroestruturais propostas pela candidata, com


possíveis consequências positivas para o empreendedorismo,
são:
- Reforma tributária, com revisão do atual sistema de tributação
da pessoa jurídica;
- Reforma fiscal, com revisão das renúncias fiscais;
- Reforma da previdência, visando ao equilíbrio das contas
públicas e ambiente favorável ao investimento.

Fonte: elaboração própria

A atenção dos candidatos com a questão empreendedora fica evidenciada nos


planos de governo. Ainda que nem sempre sejam explicitadas propostas específicas para
fomentar o empreendedorismo, observa-se uma preocupação com a criação de políticas,
programas e ações que, de alguma forma, proporcionem um ambiente mais favorável a
iniciativas que favoreçam os negócios e, consequentemente, maior geração de emprego e
renda.
Este artigo não teve por intenção fazer um estudo comparativo das propostas dos
candidatos, emitindo juízo de valor sobre os pontos elencados nos programas. Também
não houve preocupação em comparar as propostas atuais com as de candidatos que
concorreram em eleições anteriores. A ideia central era simplesmente verificar se, tendo
em vista que o Brasil coloca-se cada vez mais como um país empreendedor, ocupando a
terceira posição mundial em número de empreendedores (atrás apenas de China e EUA),
está se construindo um ambiente favorável a iniciativas dessa natureza, tidas como
fundamentais para o desenvolvimento econômico e social do país.
Assim, tendo como parâmetro as preocupações apontadas pelos especialistas e
empreendedores na pesquisa GEM de 2016, constatou-se que todos os candidatos,
embora nem sempre façam uma relação direta com o empreendedorismo em pontos
específicos de seus programas, explicitam a necessidade de políticas governamentais que
favoreçam os negócios e, consequentemente, estimulem iniciativas empreendedoras, tais
como a reforma fiscal e tributária e revisão da legislação trabalhista. A simplificação do
sistema tributário, a redução de impostos e a eliminação da burocracia principalmente
para se abrir ou fechar empresas, direta ou indiretamente, aparecem em todos os planos.
Parte dos candidatos também cita a reforma previdenciária como forma de equilibrar as
contas públicas e criar um ambiente econômico mais credível e propício aos
investimentos. Também aparece, em menor ou maior grau, dependendo da linha
ideológica do candidato, a defesa de políticas econômicas mais liberais, abertura da
economia e facilitação com o comércio internacional, o que poderia fomentar as
exportações. Candidatos mais comedidos neste sentido defendem, por sua vez, a criação
de programas que favoreçam a economia solidária, compartilhada e cooperativas,
visando, sobretudo, ao desenvolvimento local.
Todos os candidatos estão cientes da necessidade de o Brasil investir mais em
tecnologia e inovação, de modo a tornar nossas empresas mais inovadoras e competitivas.
Defendem a parceria com universidades e pregam também a necessidade de programas
que fomentem a educação empreendedora, em alguns casos, desde o ensino fundamental.
A educação e a capacitação para o empreendedorismo é um dos gargalos apontados pelos
especialistas e empreendedores brasileiros.
Outra preocupação evidenciada pela pesquisa GEM é a disponibilização de crédito
para investimento e abertura de empresas, o que, nos planos de governo, mereceu a
atenção de todos os candidatos. Nesse sentido, eles defendem uma maior atuação de
instituições como BNDES e Finep na concessão de crédito para investimento em micro e
pequenas empresas e também para pesquisa e inovação. Salientam que o controle da
inflação e a redução da taxa de juros são fundamentais para estimular a retomada dos
investimentos privados.

Considerações finais
Até a entrada do século XXI um país onde iniciativas empreendedoras davam-se,
principalmente, de forma impulsiva diante da falta de empregos ou de melhores
perspectivas financeiras, o Brasil vem aos poucos firmando-se como uma nação convicta
de que o empreendedorismo pode, de fato, traduzir-se em uma fonte estável de geração
de renda, promovendo a ascensão econômica e social daqueles que ousam empreender.
Num período de 20 anos, o percentual de brasileiros que se lançam ao desafio
empreendedor por ver nessa iniciativa uma real oportunidade passou de 40 para 60%. Até
então, a maioria dos que se arriscavam nesse caminho o fazia por necessidade, muitas
vezes por desespero, sem qualquer conhecimento, preparo ou capacitação para lidar com
o empreendimento e, portanto, com chances menores de fazer disso uma escolha exitosa.
O Brasil, claro, ainda é um país de grandes incertezas, por conta, principalmente,
da instabilidade econômica. Empreender aqui continua sendo um desafio e mesmo os
empresários mais convictos de suas ideias e iniciativas vivem num estágio que se pode
dizer de vulnerabilidade. Todavia, é inegável o amadurecimento havido no campo
empreendedor, sobretudo a capacidade dos novos empreendedores para se adaptar e
driblar as adversidades, o que, em muito, deve-se a uma preocupação cada vez maior com
o preparo e qualificação para as atividades que exercem.
O mesmo não se pode dizer, porém, das medidas governamentais até então levadas
a efeito no sentido de favorecer e fomentar o empreendedorismo. Parte das poucas ações
desencadeadas deu-se no campo da experimentação, “de forma ainda a tentar descobrir o
que é mais adequado para a realidade brasileira”, como observam Gomes et al. (2013, p.
11). Entretanto, diante dos resultados que vem proporcionando em termos de
empregabilidade e geração de renda, é imperativo que o Brasil se veja forçoso a olhar
com maior atenção para o empreendedorismo, com políticas e programas mais efetivos e
consistentes, que não apenas deem mais segurança a quem já está estabelecido, mas
sirvam de estímulo ao surgimento de novos empreendedores.
É prematuro ainda afirmar que o Brasil vai adentrar à terceira década do novo
século convencido de que o desenvolvimento econômico passa por medidas que
efetivamente proporcionem um ambiente mais salutar e convidativo ao
empreendedorismo. Mas, a julgar pela última eleição presidencial, considerando os
programas de governo dos candidatos que disputaram o pleito, verifica-se a existência de
propostas, embora pouco detalhadas, que contemplam os principais gargalos a serem
superados para um cenário mais favorável aos negócios e que estão de acordo com os
anseios dos empreendedores, seja em termos de políticas regulatórias ou de programas de
incentivo e de promoção de uma cultura empreendedora.
Muito parecidos em suas prioridades, os programas abordam a necessidade de
reforma fiscal e tributária, redução da burocracia, simplificação e redução de impostos,
flexibilização das políticas de trabalho, disponibilização de recursos para investimento
com juros baixos, aumento de incentivos para a inovação, priorização à educação
empreendedora, melhoria da capacitação profissional, fomento à construção de
comunidades de startups e aglomerados produtivos locais.
Como se vê, portanto, os programas são bem intencionados. Resta saber se, de
fato, traduzir-se-ão em ações que melhorem o ambiente dos negócios, fazendo do Brasil
uma verdadeira pátria empreendedora.
Referências

WU, Xun et al. Guia de políticas públicas: gerenciando processos / Xun Wu, M.
Ramesh, Michael Howlett, Scott Fritzen; traduzido por Ricardo Avelar de Souza. –
Brasília: Enap, 2014.

GEM – Global Monitor Entrepreneurship. Empreendedorismo no Brasil – 2016.


Curitiba: Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade no Paraná, 2017.

GOMES et al. Políticas públicas de fomento ao empreendedorismo e às micro e pequenas


empresas. São Paulo: FGV, 2013.

PORTER, M. A vantagem competitiva das nações. São Paulo: Campus, 1989.

TSE. Eleições 2018 - Propostas de governo dos candidatos ao cargo de presidente da


República. Disponível em: < http://www.tse.jus.br/eleicoes/eleicoes-2018/propostas-de-
candidatos>. Acesso em 18 fev. 2019.

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