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A TEORIA PARADOXAL DE MUDANÇA 111

CAP1TULO 6 pretação ou quaisquer outros meios desse gênero. Pelo


contrário, a mudança pode ocorrer quando o paciente
abandona, pelo menos de momento, aquilo em que gos-
taria de se tornar e tenta ser aquilo que é. A premissa
A Teoria Paradoxal de Mudança que a pessoa deve permanecer em seu lugar, a fim de
ter um terreno firme para se deslocar, e que é difícil
ou impossível qualquer movimento sem essa base sólida.
ARNOLD R. BEISSER
A pessoa que procura mudanças recorrendo à tera-
pia está em conflito com, pelo menos, duas facções in-
DURANTE CERCA de meio século, a maior parte de sua trapsíquicas que se guerreiam. Ela está-se deslocando
vida profissional, Frederick Perls esteve em conflito com constantemente entre o que "deveria ser" e o que pensa
as instituições psiquiátrica e psicológica estabelecidas que "é", nunca se identificando plenamente com uma
Trabalhou intransigentemente em sua· própria direção· nem outra. O gestalt-terapeuta pede à pessoa para in-
o que envolveu, com freqüência, a luta com os represen'. vestir-se totalmente em seus papéis, um de cada vez.
tantes de concepções mais convencionais. Nos últimos Seja qual for .o papel por onde começa, o paciente de-
anos, porém, Perls e a sua Gestalt-Terapia acabaram pressa muda para outro. O gestalt-terapeuta solicita,
encont~do ha~onia nwn setor cada vez mais amplo simplesmente, que ele seja o que é nesse momento.
da teona de saude mental e da prática profissional. O paciente acode ao terapeuta porque deseja ser
A mudança que ocorreu não foi devida a que Perls mo- mudado. Muitos psicoterapeutas aceitam isso como
dificasse a sua posição, embora sua obra tenha sofrido objetivo legítimo e dispõem-se, por vários meios, a tentar
algumas modificações, mas porque as tendências gerais mudá-lo, estabelecendo aquilo a que Perls chamou a
e os conceitos do campo se aproximaram mais dele e dicotomia "dominador/dominado". Um terapeuta que
de seu trabalho. pretende ajudar um paciente abandonou a posição igua-
O conflito pessoal de Perls com a ordem vigente litária e tornou-se um hábil especialista, com o paciente
contém as sementes da teoria de mudança. Ele não de- desempenhando o papel da pessoa impotente; entretan-
lineou explicitamente a sua teoria de mudança, mas esta to, o seu objetivo é que ele e o paciente deveriam se
encontra-se subentendida em grande parte de sua obra tornar iguais. O gestalt-terapeuta acredita que a dico-
e está implícita na prática das técnicas Gestalt. Eu tomia dominador/dominado já existe no intimo do pa-
chamo-lhe a teoria paradoxal da mudança por motivos ciente, com wna parte tentando mudar a outra, e que
que se tornarão óbvios. Em poucas palavras, consiste o terapeuta deve evitar ver-se preso num desses papéis.
nisto: -a mudança ocorre quando uma pessoa se torna Ele tenta evitar essa armadilha -encorajando o paciente a
o que é, não quando tenta converter-se no que não é. aceitar ambos, wn de cada vez, como seus.
A mudança não ocorre através de wna tentativa coer- Em contraste, o terapeuta analítico usa recursos tais
civa por parte do individuo ou de wna outra pessoa para como os sonhos, livre associação, transferência e inter-
mudá-lo, mas acontece se dedicarmos tempo e esforço pretação para obter a introvisão' que, por seu turno,
a ser o que somos - a estarmos plenamente investidos possa redundar em mudança. O terapeuta behaviorista
em nossas posições correntes. Ao rejeitarmos o papel recompensa ou pune o comportamento para modificá-lo.
de agente de mudança, tornamos possível a mudança O gestalt-terapeuta acredita etn encorajar o paciente a
significativa e ordenada. penetrar e tornar-se seja o que for que ele estiver expe-
Os gestalt-terapeutas rejeitam o papel de "transfor, rimentando nesse momento. Acredita, com Proust, que
madores", pois a sua estratégia consiste em encorajar, "para curar wn sofrimento é preciso experimentá-lo até
a~é insistir, que o paciente seja - onde e o que é. Acre- o âmago".
ditam que a mudança não acontece por "experimenta- O gestalt-terapeuta também acredita que o estado
ção", coerção ou ·persuasão, nem por introvisão, inter- natural do homem é como wn ser único e total - não
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fragmentado em duas ou mais partes opostas. No es- vida individual é superior à extensão de tempo nec~ssá-
tado natural existe mudança constante, baseada na tran- ria para que ocorram importantes mudanças sociais e
sação dinâmica entre o eu e o meio. culturais. Além disso, a rapidez com que tais mudanças
Kardiner observou que, ao desenvolver a teoria es- acontecem está-se acelerando.
trutural dos mecanismos de defesa, Freud converteu os Aqueles terapeutas que se orientam para o passado
processos em estruturas (por exemplo, negar em nega- e para a história individual fazem-no no pressup~sto de
ção). O gestalt-terapeuta vê a mudança como .uma pos- /!' que, se um individuo resolve uma v~z as questoes em
sibilidade quando ocorre o inverso, isto é, quando as torno de um acontecimento traumático pesso.al, usual-
estruturas são transformadas em processos. Quando mente na infância, ele estará preparado para _sempre
isso ocorre, o individuo está aberto ao intercâmbio par- para enfrentar o mundo; pois o mundo é considerado
ticipante com o seu meio. uma ordem estável. Hoje, porém, o problema passou
Se os eus alienados, fragmentárias, num individuo a ser o de discernir em que I?osição estamos, !lm rela-
assumem papéis distintos, compartimentados, o gestalt- ção a uma sociedade em rápida mudança. Diante ~e
terapeuta encoraja a comunicação entre os papéis; pode, um sistema pluralista, multifacetado e cambiante, o m-
realmente, pedir-lhes que falem um com o outro. Se o dividuo fica entregue aos seus próprios recursos para
paciente objetar a isso ou indicar a existência de um encontrar a estabilidade. Ele deve fazê-lo através de
obstáculo, o terapeuta pede-lhe, simplesmente, que' se uma abordagem que lhe permita mover-se dinâmica e
invista totalmente na objeção ou no agente do bloqueio. flexivelmente com os tempos, embora conservando algum
A experiência demonstrou que, quando o paciente se giroscópio central para guiá-lo. Ele não pode continuar
identifica com os fragmentos alienados, ocorre uma in- a fazer isso com ideologias, que se tornaram obsoletas,
tegração. Assim, sendo aquilo que é - plenamente - mas deve fazê-lo com uma teoria de mudança, seja ex-
a pessoa pode se tornar uma outra pessoa. plícita ou implícita. A meta da terapia passou a ser
O próprio terapeuta é um individuo que não busca não tanto o desenvolvimento de um bom e fixo caráter
mudança mas procura apenas ser quem ele é. Os es- mas a capacitação do individuo pa~ . mud9:r ?~m o
forços do paciente para ajustar o terapeuta a um de tempo, ainda que retendo alguma estabilidade mdividual.
seus próprios estereótipos de pessoas, como um assisten- Além da mudança social, que colocou as necessida-
te ou um dominador, criam conflito entre eles. O ponto des contemporâneas em harmonia com essa teoria da
final é alcançado quando cada um pode ser ele próprio, mudança, a própria obstinação de Perls e a sua relu-
embora mantendo ainda um contato íntimo com o outro. tância em ser o que não era permitiram-lhe estar pronto
O terapeuta também é levado a mudar quando procura para a sociedade quando esta estava pronta para ele.
ser ele próprio com uma outra pessoa. Essa espécie Perls tinha de ser o que era, apesar - ou talvez até por
de interação mútua leva à possibilidade de que um te- causa - da oposição da sociedade. Contudo, em sua
rapeuta seja mais eficaz quando muda o máximo, pois própria vida, Perls acabou por ser integrado a muitas
quando está aberto à mudança terá maiores probabilida- das forças profissionais em seu campo, do mesmo modo
des de exercer um grande impacto sobre o seu paciente. que o individuo pode tornar-se integrado com partes
O que foi que aconteceu nos últimos cinqüenta anos alienadas dele próprio, através de uma terapia eficaz.
para tornar aceitável, corrente e valiosa esta teoria de O campo de interesse da psiquiatria ampliou-se
mudança, implícita na obra de Perls? Os pressupostos agora além do indivíduo, quando se tornou evidente qu!l
de Perls não mudaram, mas a sociedade sim. Pela pri- a questão mais crucial diante de nós é o desenvolvi-
meira vez na história da humanidade, o homem em;on- mento de uma sociedade que apóie o individuo em sua
tra-se numa posição em que, em vez de precisar adaptar- individualidade. Acredito que a mesma teoria de mu-
se a uma ordem vigente, deve estar capacitado a adaptar- dança aqui esboçada também é aplicável aos s~temas
se a uma série de ordens em mudança. Pela primeira sociais, que a mudança ordenada dentro dos s1St:emas
vez na história da humanidade, a extensão do prazo de sociais se realiza na direção da integração e do holismo;
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creio ainda que o agente de mudança social tem como


s1;1a ~unção principal trabalhar com (e ~m) uma orga-
.ruzaçao, para que esta possa mudar sistematicamente
com as variações no equilíbrio dinâmico, dentro e fora
da organização. Isso requer que o sistema se torne
cônscio dos fragmentos alienados internos e externos>
para poder integrá-los nas principais atividades funcio-
nais por processos semelhantes à identificação no indi-
víduo. Primeiro, existe uma conscientização, dentro do
sistema, de que existe um fragmento alienado; em se-
guida, esse fragmento é aceito como uma conseqüência
legítima de uma necessidade funcional que é então ex-
plícita e deliberadamente mobilizada e recebe energia
para poder operar como uma força explícita. Isso, por
sua vez, leva à comunicação com outros subsistemas e
facilita um desenvolvimento integrado e harmônico de
todo o sistema.
Com a aceleração da mudança num ritmo exponen-
cial, é decisivo para a sobrevivência da humanidade que
se encontre um método ordenado de mudança social.
A teoria de mudança àqui proposta tem suas raízes na
psicoterapia. Foi desenvolvida como um resultado de
relações terapêuticas diádicas. Mas propõe-se que os
mesmos princípios são igualmente relevantes para a
mudança social, que o processo de mudança individual
nada mais é do que um microcosmo do processo de
mudança social. Elementos díspares, desintegrados e
conflitantes apresentam uma ameaça de vulto para a
sociedade, tal como o são também para o indivíduo.
A compartimentação de pessoas idosas, gente jovem,
pessoas ricas, gente pobre, negros e brancos, intelec-
tuais e burocratas etc;, cada compartimento separado
dos outros por hiatos de geração, de · geografia, de sócio-
economia etc. constitui uma ameaça à sobrevivência da
humanidade. Devemos encontrar os meios adequados
para relacionar entre si todos esses fragmentados com-
partimentos, como níveis de um sistema participante e
integrado de sistemas.
A teoria paradoxal de mudança social, aqui propos-
ta, baseia-se nas estratégias desenvolvidas por Perls em
sua Gestalt-Terapia. Elas são aplicáveis, no juízo deste
autor, à organização da comunidade, ao desenvolvimen-
to da comunidade e a outros processos de mudança
coerentes com o quadro político-democrático.