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A leitura, os diferentes textos e a obra poética – atualizada em 19-04-06

Manuel Antônio de Castro


www.travessiapoetica.blogspot.com

Na perspectiva da língua, todo pensamento é um texto. Um texto é um


sistema de signos em que alguns sempre de novo recorrem numa
cadência regular.

De texto de um língua, o pensamento se faz viagem da Linguagem de


ser e não ser no tempo.
Emmanuel Carneiro Leão. Aprendendo a pensar II.
A leitura e as leituras
O jornal O Globo, no dia 9 de setembro de 2005, publicou à página 11 do
primeiro caderno uma pequena reportagem, cujo título era: “De 15 a 64 anos, 75% dos
brasileiros lêem mal – nessa faixa, apenas cerca de 26% da população dominam
plenamente a leitura; 68% são analfabetos funcionais”. Depois a reportagem dá outras
percentagens e a sua distribuição por classes. Até a percentagem de desempregados
segundo a capacidade de leitura.
O que pensar disso? Como interpretar esses dados? O que essa pesquisa prova e
não prova? Para que ela serve? Como reagir a essa situação calamitosa? O que de fato
podemos fazer? O que se busca com o domínio da leitura?
Fique logo claro que o amplo domínio de leituras é o mais desejável e
importante para cada ser humano. Porém, a reportagem sobre a pesquisa da leitura nada
fala de que leitura se trata, isto é, que textos foram usados para fazer a pesquisa. Pois há
diferentes leituras segundo os diferentes textos e discursos, assim como de um mesmo
texto pode haver diferentes leituras, segundo também diferentes discursos e capacidade
de interpretação. E como pré-condição: os paradigmas.
Comecemos pelo começo: Há discursos orais e escritos. Por isso há leituras orais
e escritas. Acontece que hoje as sociedades se estruturam em torno da escrita e da
imagem. Em vista disto, o mundo pós-moderno exige, para a pessoa ser funcionalmente
incluído nele, um grande domínio não só da escrita, mas também dos diferentes
paradigmas ou discursos. E estes se tornam cada vez mais difíceis e especializados. O
grande volume de pesquisas produz uma renovação do conhecimento rapidamente.
Além disso a internet difunde esses conhecimentos instantaneamente para todos. E isso
demanda mais estudo, tempo e dinheiro. O que a maioria dos brasileiros não tem. E aí
se gera um círculo vicioso.
Antes de tratar de alguns desses discursos, cabe uma observação essencial. A
preparação funcional para o domínio da leitura é feita tendo em vista uma sociedade
dominada pela tecnologia, seus conhecimentos e produtos. Mas será que tudo na vida de
cada pessoa tem de ser tecnológico e se resolve através da tecnologia? Esta produz hoje
a sociedade do conhecimento e das imagens. Mas será que o conhecimento tecnológico
também produz sabedoria? E como alguém pode ser feliz sem ser sábio? E, nesse
sentido, a arte não pode nem deve competir com o conhecimento funcional e
globalizado.
Para além dos conhecimentos técnicos há também e em primeiro lugar o sentido
da vida, a busca da realização do que cada um é. E aí ocorre um fato muito simples: a
pessoa pode ignorar os discursos técnicos e saber ler, distinguir e entender o que é
essencial para a busca e realização do sentido da vida. Para este não basta saber ler, é
necessária muita reflexão e vida interior. Isso está ao alcance de cada um: é o famoso

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princípio de Sócrates: Conhece-te a ti mesmo. Este, os discursos científicos e técnicos
não ensinam. Onde aprender? Com os mitos, os textos religiosos e as obras de arte,
desde que estas não sejam objetos das nomenclaturas críticas e científicas, isto é,
vítimas dos paradigmas.
Nada disso é fácil. Simplesmente porque até o vocabulário oral, sem falar no
escrito, pode-se tornar muito amplo, variado e difícil. Além disso, a circulação dos
conhecimentos históricos e da vida cotidiana, por causa da escrita, cada vez mais dilui a
presença e importância do que antigamente era transmitido pelas tradicões. As palavras
estão sofrendo um profundo esvaziamento pelos meios de comunicação e pelo uso de
novas palavras de origem científica e até estrangeira.
Hoje, todo esforço de aprendizado e de compreensão da leitura se centraliza em
discursos técnico-científicos, sejam comunicativos, político-ideológicos, científicos,
“artísticos” e religiosos. É o império dos paradigmas. As especializações vocabulares
tornam, por isso mesmo, a leitura muito difícil. Aliás, falar em leitura é algo irreal. Só
se deveria falar em leituras.

O texto, a rede e o silêncio


Texto vem do verbo tecer. Uma boa imagem para texto é rede. Olhando uma
rede, nota-se logo um conjunto de linhas que se entre-laçam através dos nós. O entre-
laçamento de palavras e orações forma um discurso. Este transmite idéias e
conhecimentos, porque as palavras reunidas em orações vão formando um sistema de
conceitos: um paradigma. Os diferentes textos ou discursos se estruturam na medida
em que formam diferentes sistemas de conceitos. A dificuldade em ler e compreender
está no desconhecimento dos conceitos por parte do leitor.
Muitas vezes, até a maioria das palavras são semelhantes e as mesmas. O que
muda? Cada passo na rede é complexo, porque ele sempre se bifurca, daí surgem
diferentes sintaxes e conceitos. As palavras passam a ser altamente ambíguas. Tudo isso
dificulta a compreensão da leitura. A rede da vida, hoje, está repleta de paradigmas.
Além das linhas e nós, há também os buracos da rede. Eles indicam a fluidez e
ambigüidade das palavras, pois elas se movem dentro de vazios e silêncios. Isso é o
mais difícil de perceber por parte de um leitor não habituado à reflexão e a muita leitura.
Dependendo do discurso conceitual há uma ambigüidade crescente. O comunicativo é o
menos ambígüo e o mais é o poético. É que, neste, os conceitos são substituídos pelas
questões. Estas oferecem múltiplas possibilidades de leitura, todas válidas e produtivas,
e neste sentido, verdadeiras, se resultam de um diálogo com a obra.
Então, em relação aos diferentes textos, a palavra chave é discurso ou sistema
discursivo. Também podemos notar que um sistema discursivo pode-se diferenciar de
outros por um universo vocabular e conceitual próprio, pelo fundamento do seu
paradigma.
Na rede, não há apenas circulação comunicativa, de acordo com os diferentes
discursos e universos vocabulares. A rede tem uma dimensão horizontal e outra vertical.
As duas são sustentadas pela memória, a qual gera contínuos metabolismos auto-
poéticos.
Há, por isso, uma variedade muito grande de textos. Daí surge a questão básica:
Quando um texto, um discurso é artístico? Não há uma resposta pronta, definitiva, mas
podemos estabelecer diferenças entre os textos e assim encaminhar uma compreensão
mais adequada da ambigüidade em que toda obra de arte se dá.

A linguagem e o discurso instrumental

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Os conhecimentos conceituais são transmitidos através da palavra escrita e do
discurso oral, porque hoje, com as gravações em cds e dvds, ele se torna cada vez mais
presente. Se bem notarmos, esse processo apresenta duas facetas, duas dimensões: de
um lado, o discurso proposicional, de outro, o conhecimento que ele transmite. As
proposições se transformam num discurso instrumental. Quanto mais precisa a palavra
(isto é, menos ambígua) para expressar o conceito, melhor se apreende o conhecimento.
A palavra na sua densidade e existência própria deve se anular, sumir, tornar-se mero
instrumento, meio comunicativo e conceitual. Então, toda a atenção se concentra no
conceito e só prestamos atenção aos conhecimentos que eles transmitem. Mas a
linguagem manifestada em palavras tem existência, sabedoria e verdade próprias.
Nessa dimensão, a linguagem é o real se manifestando como verdade. Ela é o sentido
do real acontecendo. Ela não é meio de nada, muito menos de mensagens, porque o
real não pode ser reduzido a mensagens. É esta linguagem que distingue todas as
manifestações artísticas. Então não vamos mais ter conceitos, só questões. É por isso
que as questões nunca se podem tornar um discurso instrumental nem serem meio para
nada, nem transmitirem nada, nem serem úteis ou inúteis. Elas precedem essas
categorias conceituais. Nas obras de arte, a linguagem é a poesia, palavra vinda do
grego que diz o sentido de todo agir.
A leitura das obras de arte se torna mais difícil por isso mesmo: as questões não
podem ser reduzidas a conceitos. O interessante é que quanto mais o leitor exercita a
leitura das questões, maiores condições tem ele de captar os conceitos. Neste sentido, a
arte não é útil, é utilíssima e imprescindível. Dela nos advém um profundo auto-
conhecimento e a sabedoria em que se tece a busca do sentido da vida (ser feliz).
Será que nos testes da pesquisa foram avaliados os textos com linguagem
instrumental e os textos de linguagem poética e manifestativa? Será que foram
avaliados só os conhecimentos ou também a sabedoria?

Os diferentes textos

O texto informativo. Vivemos hoje numa sociedade onde predominam os meios


de comunicação, as infovias e as info-imagens. Nela, todo esforço consiste na
conquista do leitor através de uma variação quase infindável de publicações e de
assuntos, usando textos informativos, feitos num discurso objetivo, direto, claro, em
geral pobre, que esteja de acordo com o universo vocabular médio dos consumidores
aos quais se destina. A busca desenfreada de leitores ou espectadores tem um motivo
claro e um preço: fazer dele um consumidor. Por sua vez, o leitor busca as informações
que preencham o seu cotidiano e possibilitem acompanhar o mundo em que está
inserido, seja local, seja internacional, e conhecimentos gerais sobre os mais diversos
assuntos. A informação é uma mercadoria determinada pelo possível preço de venda.
Em geral, as publicações e seus textos são redigidos tendo já bem definidos os seus
públicos-alvo (os compradores e leitores potenciais). Os assuntos, o vocabulário, as
ilustrações se dirigem a um público já socialmente determinado (nível econômico e
cultural). A leitura deve ser fácil e a publicação deve dar a impressão de que passa
informações (em geral, em nível superficial e generalizante) que elevam o nível cultural
de seus leitores. Há uma enorme variedade de assuntos, que se fazem presentes nos
jornais diários ou até em revistas especializadas, passando pela política, a moda, o
esporte, a programação cultural etc. Enumerá-los todos é impossível e também
desnecessário. Um bom modo de medir o valor e importância destas publicações e o
saber que elas divulgam se consegue através da sua duração: todas elas depois de um
certo tempo perdem a atualidade e só lhes resta o desinteresse e o abandono.

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Mas essas publicações têm o seu atrativo, porque mantêm o público leitor em dia
com o que está acontecendo, infelizmente um acontecer circunstancial e passageiro,
impossibilitando, em geral, aos leitores estabelecerem uma visão mais crítica do que
acontece e da realidade. É claro que algumas publicações têm os cadernos especiais. Até
estes têm como parâmetro fundamental: o serem acima de tudo comunicativos e
informativos. Como a realidade é muito dinâmica, perdem logo a atualidade. Nesta
leitura, predomina a informação digerível e não exige do leitor nenhum esforço
significativo que o faça refletir, crescer. O leitor está sempre voltado para algo externo,
para uma realidade que o atrai, que lhe é oferecida como um contínuo espetáculo, alegre
ou triste, porém que não é a dele, mas que, no íntimo, gostaria (talvez) que fosse. Isto o
leva, em geral, a querer viver uma outra realidade que não a dele, gerando diferentes
formas de alienação (alienus, do latim, outro). Nestes textos, procura-se eliminar o mais
possível toda ambigüidade das palavras, não restando senão aquela inerente a toda e
qualquer linguagem, pois, no fundo, em toda palavra sempre resta algum dado
equívoco. As leituras tendem a serem uniformizadas, embora provoquem reações
diferentes em cada pessoa, mas, em geral, sem maiores conseqüências.
No texto informativo, predomina a comunicação. A imagem-questão rede
mostra bem este aspecto. As linhas são meios de comunicação que geram diferentes
percursos e conjugam diferentes idéias. Mas estas são limitadas pela própria
necessidade de comunicação. Na medida em que as linhas da rede são meios, nela a
linguagem é sempre instrumental.

O texto publicitário. Nessas publicações, destaca-se um outro tipo de texto: o


publicitário. Constituídos de textos e imagens (estas têm um impacto muito forte), estes
são mais sutis e bem mais elaborados, embora não exijam do leitor um grande esforço
de compreensão. Dirigem-se preferencialmente à parte emotiva e pessoal dos leitores.
De alguma maneira procuram sensibilizá-los e, em última instância, persuadi-los a se
tornarem consumidores. Para poderem atingir melhor as emoções (paixões, auto-
afirmação, ideais, sonhos, diferenciação), são textos em que de um modo ou de outro se
faz sempre presente uma ambigüidade (que a opção por um determinado produto
desfaz). Por trabalharem diversos recursos retóricos, eles exigem dos leitores um maior
esforço, mas que não visa ao seu crescimento, mas ao envolvimento para levá-lo, em
última instância, ao consumo. Ressalte-se que estes textos também são informativos,
mas suas informações se tornam um meio de convencimento e persuasão. Junto com a
emoção, o leitor exerce uma certa reflexão, mas que está de antemão direcionada ao
objeto de consumo e não contribui para a sua libertação e auto-afirmação. É, pois, uma
leitura mais sutil e rica do que a anterior, mas que ainda faz do leitor
predominantemente um objeto, um número na multidão de consumidores. Embora
surjam diferentes leituras, na medida em que cada um interpreta o texto a partir de sua
realidade e desejos, a persuasão que leva à aquisição do produto, objeto da publicidade,
acaba por desfazer a ambigüidade.
Embora os publicitários-sofistas usem muitas imagens retóricas, neste texto
predomina a linguagem instrumental.

O texto científico. Há um outro texto, bem mais complexo e importante. É


aquele usado na instituição escolar. O leitor sai do seu universo aparentemente singular
e independente e fica submetido a um sistemas, a paradigmas, onde a leitura pressupõe
um diá-logo de conhecimento-científico. Ele se dá na relação professor/aluno. No
lugar da informação, passa a predominar o conhecimento. O que o distingue da
informação, em geral, é que este é portador de um valor que irá ter influência direta na

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vida do leitor enquanto paradigma de verdade da realidade. Neste caso, o ato de ler sai
do âmbito do consumidor e se centraliza no próprio conteúdo da leitura, que irá
determinar o modo de ser social e profissional do leitor. Este texto é portador de
conhecimentos que independem tanto do professor (emissor) quanto do aluno
(receptor).
De um lado, têm um estatuto de verdade que lhe vem da ciência e, de outro,
possibilitam àqueles que deles se apropriam o exercício de uma profissão, daí a leitura
estar em função do conhecimento. Aqui, de novo, entra a duração, e o que agora vai
acontecer é que estes conhecimentos resistem ao tempo (daí se dizerem científicos). O
que caracteriza, pois, estes conhecimentos é uma “certa” permanência. Baseiam-se num
estatuto de verdade que lhe advém dos métodos objetivos de sua produção, tendo como
características uma certa permanência e universalidade, pois os conhecimentos
pretendem ser fundados em princípios universais. Isto quer dizer que, aparentemente,
independem de tempo e conjuntura. Hoje em dia sabe-se que estes conhecimentos
também mudam e, algumas vezes, até com bastante rapidez, mas nem por isso ainda
deixaram de serem considerados verdadeiros e objetivos: científicos. Certamente, a
objetividade vai depender do paradigma ou dos paradigmas. E este mudam realmente.
Então, a pretensa objetividade é altamente questionável. E, sabe-se hoje, o observador
influi nos resultados das experiências. O que, no fundo, caracteriza estes textos é que o
centro não é nem o emissor nem o receptor, mas o próprio conhecimento. Isto faz da
relação leitor/conhecimento uma relação impessoal, ou seja, uma tal leitura leva cada
um à aquisição de conhecimentos ditos objetivos, que caracterizam uma profissão.
Nesta, o mais importante é o profundo conhecimento do assunto e não o que
cada um é. Se alguém está doente, não vai escolher o médico pela sua beleza, pela
idade, pela cor, pelas convicções políticas ou coisa semelhante, mas pela confiança na
sua capacidade e na solidez e amplitude de seus conhecimentos profissionais (embora
de um bom profissional se exija mais do que conhecimentos objetivos). Porém, não
esqueçamos que há diferentes médicos, segundo o paradigma de formação: medicina
ocidental, oriental etc. Neste tipo de texto, a linguagem discursiva está totalmente a
serviço do conhecimento, procurando desfazer e evitar todo e qualquer tipo de
ambigüidade ou equívoco através de definições prévias dos termos, num jogo conceitual
o mais preciso possível. Daí a proximidade da linguagem científica com a matemática.
O conceito surge desde o momento em que algo pode ser submetido a uma “medida”
dentro de um padrão teórico ou paradigma teórico. Como medir o “silêncio”? Mas
pode-se medir o som e até lingüisticamente a fala, mas não e jamais o “sentido” de uma
palavra, de um verso. Porém toda “medida” depende de um limiar. Se este é medido no
seu limite, surge o conceito. Se este é apreendido no seu não-limite, surge a questão. O
conhecimento científico só trabalha com conceitos paradigmáticos, nunca com questões.
Com estas trabalha a arte e o mito.
No entanto, é impossível evitar a ambigüidade total, mesmo nos conceitos, em
relação ao real, porque a realidade, toda realidade é sempre de alguma maneira ambígua
e maior do que os paradigmas que geram os conceitos. Por isso, o conceito só nos
mostra sempre uma realidade parcial. Isto fica cada vez mais comprovado pela física
quântica, onde o conhecimento da natureza se baseia em probabilidades e na
complementaridade dual de partículas e ondas. Hoje, a ciência já prefere falar de
complexidade, frente ao real enigmático. O sonho de um conhecimento objetivo
absoluto se desfez, ainda que expresso matematicamente. Hoje se sabe que somos todos
espectadores e atores do grande drama da vida.
Contudo, o modelo de conhecimento e verdade inaugurados pela ciência no
século XIX ainda continua vigente popularmente e se tornou o parâmetro predominante

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na determinação do que é real e verdadeiro. É um modelo tão forte historicamente que
extrapolou as ciências naturais e passou a determinar os conhecimentos históricos, ou
como se dizia então, as ciências do espírito. A antropologia, a etnografia, a arqueologia,
a sociologia, a história, as diferentes histórias (da música, da literatura, da arte etc.), a
teoria literária etc. foram sendo constituídas e realizadas tendo como modelo
metodológico o conhecimento objetivo e universal das ciências da natureza. Não
compreenderam que estes são fenômenos vivos que exigem uma outra postura mais
aberta e dinâmica para darem conta das suas transformações como tempo e no tempo.
Em tais fenômenos, não há apenas conhecimentos, mas também o sentido como verdade
da realidade. Não basta ter conhecimentos racionais, é necessário partir da
compreensão. Como o conhecimento científico trabalha com conceitos e estes se fazem
a partir de “medidas”, o alcance de sua realidade e veracidade estará dependendo do
modelo paradigmático e matemático que as origina. Mas o “real’ é mais do que
qualquer modelo paradigmático e matemático, até porque não passam de paradigmas ou
modelos.
O sentido e a compreensão extrapolam o conhecimento objetivo analítico-
matemático. Como dizem respeito a diferentes culturas no tempo e no espaço, acabaram
por submeter todas as diferenças culturais ao modelo científico ocidental, oriundo da
leitura metafísica da realidade. Hoje se tomou consciência de que um tal conhecimento
e análise se baseiam numa identidade generalizante abstrata e ideológica, fundada tão
somente em paradigmas racionais, sem a compreensão. O modelo ocidental se impõe
em detrimento das diferenças culturais. Por isso, o conhecimento analítico científico,
ainda que persistente, tende a entrar em crise e a dar lugar e vez às diferenças e a uma
metodologia que substitua a análise pela interpretação hermenêutica, no que diz respeito
à vida em sua complexidade.
Pela absoluta necessidade de tudo transformar em conceitos, a ciência é a que
mais torna a linguagem algo meramente instrumental. A expressão máxima desta
insturmentalidade é a gramática e a matemática.

O texto mítico. Os mitos se perdem no fundo da memória e são inerentes a todos


os povos. Por diversas circunstâncias histórias, foram sendo relegados a um segundo
plano, mas jamais deixaram e deixarão de existir. O processo de afirmação da
Modernidade consistiu na negação e superação do pensamento e poesia míticos,
tornando-se, contraditoriamente, a razão um novo mito. Há uma memória mítica que
persiste em todas as culturas e em todo ser humano. Os mitos, hoje em dia, na sua
maioria, nos chegam através da escrita. Com isso algo da sua dinâmica constitutiva já se
perde. É que os mitos tinham como contraface os ritos. Os ritos eram a concretização
dos mitos, enquanto manifestação e interpretação da realidade, na medida em que os
ritos eram o real se manifestando como linguagem. Nesse sentido, o mito é a realidade
se manifestando como linguagem, na medida em que seus personagens ou assuntos e
temas são essencialmente imagens-questões. Ler e interpretar uma mito consiste
basicamente em perguntar pelas questões que tal narrativa, tal personagem, tal assunto
ou tema nos propõe. Um exemplo simples: Édipo. Seria descabido querer saber onde e
quando ele viveu etc. Tudo muda, se nos perguntamos: Quais as questões que o mito de
Édipo nos propõe?
Nada mais estranho ao mito do que lhe atribuir uma explicação causal de
fenômenos naturais ou psíquicos. Isso já é uma interpretação cientificista e metafísica
do mito, pois elas constituem o conhecimento na medida em que estabelecem causas e
conseqüências. O mito realiza um conhecimento manifestativo e não causal. O seu
tempo é circular e dinâmico, e não linear, como no conhecimento racional. A verdade

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do mito não pode, pois, ser avaliada a partir do modelo científico de verdade. O mito
enquanto rito sempre expressou e manifestou as vicissitudes históricas de cada povo, de
cada cultura, ou seja, é a força instaladora de uma ordem e suas questões. Isso
provocava diferentes versões do mesmo mito, que nos chegaram muitas vezes através
da escrita. Elas já são sinal da profunda riqueza e ambigüidade da realidade. Uma tal
ambigüidade ocasionou sempre múltiplas interpretações. O texto mítico é um texto
ambíguo, questionante. Em suas transformações históricas, os mitos dão origem às
religiões e às artes. Por isso é que os objetos do culto e dos ritos se constituíram nas
mais genuínas obras de arte, incluindo os textos discursivos orais ou escritos, as artes
visuais e a arte musical. Toda verdadeira arte nunca perde as raízes míticas. O mito em
sua essência se funda no sagrado e é este o que estabelece a relação profunda entre as
religiões e as artes. O mito se presta a múltiplas leituras não só religiosas e artísticas,
mas também de diferentes disciplinas ditas científicas. Isto apenas assinala o vigor do
mito como linguagem, verdade e saber, ou seja, como questão.
A linguagem mítica é profundamente poético-manifestativa e jamais
instrumental.

O texto religioso. Hoje conhecemos diferentes religiões, sejam monoteístas,


sejam ainda politeístas. Há múltiplos paradigmas religiosos em torno do sagrado. Em
geral as grandes religiões se fundam em torno de textos sagrados. São vários. Eles são
frutos de revelações. Todas reivindicam uma epifania de Deus como palavra. Em geral,
essa palavra é essencialmente ambígua e constituída de imagens-questões. Destas se
originaram as parábolas. Ora, estas têm a mesma etimologia de palavra. Isto mostra
apenas o sentido poético dos textos sagrados.
O que caracteriza as religiões é se constituírem em torno de um sistema de
normas e princípios com forte propensão para a regulamentação da vida das pessoas
através de princípios morais ou paradigmátiacos. As religiões apresentam sempre uma
interpretação do que seja a realidade imanente em relação como uma outra realidade
transcendente. Os textos sagrados, apesar de seu caráter de revelação divina, apresentam
dados históricos bem nítidos, resultantes não só do uso da língua mas também das
circunstâncias e do momento em que foram escritos. Isso levou à necessidade de se
proceder a uma interpretação simbólica ou alegórica desses dados, posto que novas
povos e novas realidades históricas e até lingüísticas tinham em tais textos as suas
referências religiosas. Aí se fazem presentes diferentes paradigmas: cultural, lingüístico,
religioso. A partir de qual paradigma determinar a identidade? Os textos religiosos são
em si essencialmente ambíguos. Ocorre que tal ambigüidade tende a ser interpretada
levando em conta a coerência do sistema ou paradigma que constitui a religião. Isso é
compreensível, pois uma dispersão das interpretações tenderia a anular o sistema
religioso ou a questioná-lo, anulando o paradigma. Isso muitas vezes acontece. Outras
se constituem em tendências dentro de um mesmo sistema religioso. Surgem sub-
paradigmas. O que podemos notar, em todos esses multifacetados sistemas religiosos, é
que os textos religiosos radicam numa ampla ambigüidade. Isso apenas acentua a
múltipla riqueza da realidade e do ser humano. O sagrado, em última instância, é uma
manifestação da linguagem, não fosse a linguagem nessa perspectiva a própria
divindade. A leitura, embora ambígua, tende a ser parametrada pelo sistema religioso.
A hermenêutica religiosa é muito antiga e recebeu o nome de exegese.
Em si, os textos religiosos são linguagem poético-manifestativa e esta jamais se
presta a qualquer uso instrumental se deixarem que ela aja em seu vigor. São
portadoras de uma profunda sabedoria. Muitas vezes, as interpretações e exegeses é que
lhe dão um sentido moral-instrumental.

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O texto jurídico. A idéia de justiça tem também um fundo mítico-religioso. A
aplicação da justiça bem como o fundamento das próprias normas jurídicas tinham
como origem os próprios deuses ou seus representantes divinos, os reis e/ou sacerdotes.
A norma jurídica tem um caráter geral e abstrato, mas a sua aplicação é singular
e concreta. E esta realidade singular e concreta varia muito e apresenta aspectos muito
diferentes de caso para caso. A passagem da norma para a aplicação concreta exige
sempre uma interpretação conceitual. Além desta relação interpretativa, há também o
fato de que a formulação das leis se dá através de um discurso e este, como toda
linguagem, é fonte de permanentes e diversificados equívocos e ambigüidades, embora
haja um esforço muito grande de redução e estabelecimento de conceitos precisos.
A leitura e aplicação da lei dá, porém, origem a diferentes interpretações. A
ambigüidade propriamente termina quando a lei é aplicada. Uma tal aplicação varia
muito de acordo com o fundamento que se toma como parâmetro. Há casos famosos na
história, mas o mais duradouro e pertinente nos vem da área artística através da famosa
tragédia de Sófocles: Antígona. A aplicação, por isso, finda num determinado processo
ou caso, mas não desfaz o horizonte da ambigüidade do texto jurídico.
A hermenêutica jurídica tem raízes muito antigas e é já muito tradicional. A
passagem de um fundamento religioso para um fundamento secular racional lhe trouxe
muitos desafios. Hoje se debate no redimensionamento de uma postura epistemológica
para uma postura ontológica.
O texto jurídico tem como escopo maior a aplicação prática e cotidiana através
das sentenças. Isto o reduz sempre a uma linguagem instrumental.

O texto filosófico. O texto filosófico tende, como o religioso, a dar origem a um


sistema conceitual ou paradigma. E aí surge uma inversão: o texto que deu origem ao
sistema conceitual passa a ser interpretado a partir das linhas gerais desse mesmo
paradigma e seus conceitos. É um círculo vicioso dentro do qual se anula todo o vigor
de pensamento das obras dos grandes pensadores. Isso ocorre muito nas histórias da
filosofia, que falam da obras em linhas gerais ou acentuam traços marcantes, onde as
nuances e ambigüidades se perdem. No entanto, as grandes obras, quando lidas por um
outro grande pensador, motivado por um impulso criativo de pensamento e atendendo
ao impulso histórico de novos desafios, dão origem a novas interpretações e novas
formulações. Um exemplo famoso seria Aristóteles e S. Tomás de Aquino. Outro seria
Heidegger e os Pensadores Originários Heráclito e Parmênides. O pensamento se move,
portanto, numa ambigüidade que radica na própria ambigüidade do real. O texto
filosófico, nesse sentido, é tanto mais filosófico quanto mais move os leitores a se
empenharem na aventura do pensamento e a empreenderem uma caminhada de
descoberta e invenção da realidade. A leitura dos textos filosóficos, quando não
manietada pelas normas e conceitos dos sistemas e paradimas com suas verdades pré-
estabelecidas, se mostra rica de ambigüidade e fonte de uma experienciação muito
radical da realidade.
Ao longo dos séculos se foi estabelecendo uma postura epistemológica que se
formalizou em procedimentos científicos. E aí ocorreu algo totalmente hilário: a
filosofia se tornou uma disciplina científica. Ocorre que o saber da ciência não se pode
fundar a si mesmo nem estabelecer os seus fundamentos, pois senão deixa de ser ciência
e passa a ser pensamento filosófico. Talvez a maior contradição esteja na sociologia do
saber, onde ela não pode fundar o saber da sociologia. Por isso a verdade e a ética de
um tal saber só o são na medida da sociologia do saber. Mas desde quando a ciência
funda ética?

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Uma outra tradição foi sendo desenvolvida e que manteve acesa a chama da
filosofia como aventura do pensamento, aproximando-se muito da poesia. É a famosa
proximidade de pensamento e poesia. Unindo-os, a ambigüidade da realidade, de ser e
não ser.
A densidade do pensamento está na densidade da palavra e esta surge da
linguagem como linguagem.
A conceituação filosófica se concentra nela mesma, enquanto tem como
horizonte um ou mais paradigmas, e procura abandonar toda e qualquer ambigüidade,
fazendo da linguagem um instrumento.

A obra poética.

Cada palavra é, segundo sua essência, um poema.


Guimarães Rosa (Entrevista a Günter Lorenz).

A caracterização da obra poética é muito complexa. A denominação como texto


é apenas operacional, numa primeira instância, e, numa segunda, diz muito mais a
estrutura subjacente à obra. A obra é o corpo vivo. Para melhor entender isto, é
importante que o leitor diante da obra se pergunte: O que é “isto” que está diante de
mim? Uma coisa, um utensílio, um objeto? É uma obra e não e jamais um objeto, muito
menos um utensílio. Só aparentemente a obra está diante de nós como um objeto para
ser analisado e explicado. O que a obra é, em seu sentido, jamais pode ser objeto de uma
análise. Porém, obra é o que opera, isto é, o real se manifestando como verdade é a obra
operando. Quem opera no obra é a verdade. E, concretamente, como opera? Na medida
em que nos abrimos para a fala da obra e, a partir da escuta, nos dispomos a um diálogo
com ela.
Há, porém, uma denominação que precisa de uma distinção: obra ficcional. Esta
denominação inclui obras artísticas e não artísticas. O termo ficção vem do particípio
latino fictum, do verbo fingere, que tem quatro significados básicos: fingir, mentir;
formar; educar; imaginar. Ficção traduz o termo grego mythos. Do ponto de vista
teológico, o mito era algo não verdadeiro, produto da fantasia humana, daí a acepção
predominante da ficção como algo fingido, falso. Como se vê, a verdade teológica não é
necessariamente a verdade do mito, até porque esta nunca é “lógica”: é manifestativa
do real. Já do ponto de vista da ciência, a ficção corresponde a mundos possíveis, mas
não reais, ou seja, são aparentes, ilusórios, imaginários. O que é “real”? Por que o “real”
da ciência é mais “real” do que o “real” da ficção (arte)? Evidente que o “real” varia de
acordo com as teorias, as religiões, as filosofias, enfim, os paradigmas. O “real” real é
um enigma. E uma das experienciações mais radicais e ricas desse real é a ficção (arte).
O texto poético ou literário é ficcional, mas nem toda ficção é literária, isto é,
poética (assim como nem todo verso é poesia). Poderíamos distinguir uma ficção-de-
imagens-questões e uma ficção-ilusão. O imaginar é o contraponto do formar. O formar
como formar, estabelecendo sempre limites, origina os conceitos. O contraponto indica
a presença da tensão do limite e do ilimitado, do discurso e da linguagem, do homem e
do ser. São as questões. Quando tal acontece teríamos o texto poético. Já na ficção-
ilusão, teríamos, por parte do leitor, um envolvimento mais externo. Nela predominam
os valores já estabelecidos e onde a linguagem é manipulada e escolhida porque faz
parte de um discurso-código decodificável a partir de um sistema de significados já
inerentes a um ou mais paradigmas. Não há invenção de sentidos. Funda-se na
linguagem de comunicação cotidiana. Em tais obras, a linguagem é trabalhada ao nível
da ambigüidade semântica, que se faz portadora do aparente jogo dos valores

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ideológicos. Estes acabam por substituir a ambigüidade manifestativa da obra poética
por um jogo de oposições binárias, necessárias ao funcionamento do sistema, onde uma
faceta exclui e se opõe à outra: sensível e inteligível, emocional e racional, imaginação e
realidade, verdadeiro e falso, matéria e espírito, exterior e interior, indivíduo e
sociedade, existência e essência, vida e morte etc.
Tal separação binária tende também a opor realidade vigente a realidade
imaginária, envolvendo o leitor num jogo no qual ele se torna espectador passivo. Esse
envolvimento causa prazer ao leitor, porque o retira de sua realidade e o projeta numa
outra, onde as suas questões não se fazem presentes. Uma tal suspensão temporária
alivia o leitor, porque o liberta aparentemente da pressão da realidade da vida e não o
pressiona a experienciar a sua vida. Há aí uma aparente catarse. Na realidade, houve
uma suspensão e esta, pelo alívio, traz a sensação de prazer. Mas retomado o fio da
vida cotidiana, não se faz nenhuma ligação com as experiências vividas pela obra lida,
não tendo, por isso mesmo, conseqüências naquilo que cada um é. O poder poético da
linguagem manifestativa não se faz presente e ao fim da experiência da leitura o mundo
se desenha dentro do mesmo horizonte, porque, na realidade, este horizonte não entrou
em tensão ambígua, não questionou o paradigma, apenas foi suspenso. Daí o caráter de
di-versão de uma tal literatura. É o caso da maioria absoluta dos filmes americanos. Mas
eles são feitos intencionalmente com esses significados: reproduzir os paradigmas da
cultura de divertimento americanos. No di-vertimento, a realidade se verte, se realiza
dicotomicamente em realidade imediata e ilusória. O prazer surge dessa sensação
narcótica. Passado o envolvimento e o efeito, recai o leitor na realidade cotidiana, que
acaba por lhe provocar ainda um maior desencanto e vazio.
A ilusão atua em detrimento do imaginário poético e suas questões. Estas só o
texto poético pode ativar. O ilusório não impulsiona a consciência crítica nem a crítica
da consciência, mas expõe e impõe um discurso e uma ordem de valores que se
justificam por si, ratificando o sistema ideológico e paradigmático vigente, não
instigando a crítica da ordem dominadora imposta pelos paradigmas. Ao fim da leitura,
não há questões, instigamentos, dúvidas, esperanças, possibilidades futuras, mas um
certo vazio, uma estrada sem horizontes, sem novos desafios. O ilusório não é o
possível como no texto poético, mas a sensação de irrealidade e desligamento de um
grande esvaziamento. No texto poético, pelo contrário, a realidade comparece em toda
sua densidade e plenitude, onde não há externo e interno, mas na qual cada um se
percebe e experiencia sendo, se realizando, e uma verdadeira sensação de liberdade
toma aquele que é envolvido pelo poder manifestativo da poesia, quando faz desta uma
experienciação de vida e uma aprendizagem.
No texto poético, a palavra comparece em todo o seu poder e densidade, e a
separação entre língua e realidade é artificial e abstrata, pois a língua é a realidade se
manifestando concretamente, de tal maneira que não é possível falar em significante e
significado sem falar em velamento do que, na fala, se desvela. O significado, a idéia, é
o significante se fazendo realidade como linguagem, ou seja, sentido e verdade,
engendrados pelo vazio e pelo siêncio. É o som se fazendo música fundada no silêncio.
Desta concretude, surge o fato de que no texto poético cada palavra é única e
insubstituível, dando origem às dificuldades da tradução e à necessidade de uma
verdadeira re-criação. O ritmo, a melodia, enfim, a musicalidade se tornam uma
dimensão fundamental da linguagem poética, pela qual a realidade se manifesta em sua
plenitude. Na e pela palavra poética, o som se faz linguagem. O discurso poético não se
apresenta como a mediação de um emissor e um receptor nem as palavras têm qualquer
função: não há mensagem na poiesis, apenas a realidade se processando e
presentificando como palavra. Toda grande obra é portadora de um ritmo e melodia

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único e inimitável. É nisso tudo que o texto poético se distingue de todos os outros
textos. Mas para apreender melhor a extensão da presença e do vigor do texto poético, é
necessário abordar outros aspectos, que serão vistos e tratados nesta poética da leitura.
A palavra poética dá corpo ao texto. Corporificar diz aí o quê? Como a palavra,
quando é poética, corporifica? O que é um “corpo”? E será que cabe numa definição
conceitual? Não certamente, pois é, foi e será uma questão.
A palavra não poética exerce uma ação inversa: esvazia, empobrece, clicheriza,
generaliza, conceitua, torna-se conhecimento comunicacional transitório e descartável.
Nos textos e filmes de ação, em que predomina o enredo, como Aristóteles já assinalou
na sua Poética, ela se constitui em algo linear, com fim previsível. As ações não trazem
algo de novo e denso, apenas confirmam, no final, idéias e conceitos já previstos e
valores já estabelecidos, em que uns personagens querem negar (mal) e os outros
querem defender e reafirmar (bem). Ou então um amor ideal que nunca se realiza. Ou
ainda uma ascensão social que um amor paixão teima em realizar e em que as classes
sociais se opõem ou platonicamente se realiza. São situações repetidas, fórmulas já
fixas. Há ainda os livros e filmes “históricos”, com muita ação e dificuldades.
Dificilmente há um desfecho trágico, pois desagrada ao leitor e desse modo não vende.
Em tais textos, a palavra é apenas um meio de enunciar a ação e as ações
confirmam as palavras (e até reduplicam, de tal maneira que, muitas vezes, nem é
necessário ver as ações, só escutar o falatório contínuo). Nada aí acontece de novo, de
denso, de inaugural, de enigmático (tudo ao final é explicado racionalmente), de
ambíguo. E justamente isto é que caracteriza as obras poéticas. Por isso é melhor, neste
caso, falar em obras e não em textos, pois a obra é obra na medida em que sempre
opera, manifesta o real. E o que significa aí o manifestar? Nada mais do que o real se
dando como verdade. Por isso, o que opera na obra de arte é a verdade, de tal maneira
que a arte é a verdade operando, isto é, o real se manifestando, aparecendo, se doando,
se fazendo presente.
Uma palavra poética é densa quando nela o silêncio fala como sentido e sentidos
dos sons. Já no texto não poético dá-se exatamente o inverso. Não há densidade, porque
as palavras se tornam instrumento e veículo comunicativo, onde a palavra é tanto mais
comunicativa quanto mais o silêncio se torna ausente, tornando-as leves, fáceis, bem
assimiláveis e compreensíveis, e descartáveis. É o caso também dos filmes sensação e
pipoca. Os piores são os que pretensamente querem passar uma “mensagem”. Para quê?
Para doutrinarem e “fazerem a cabeça” dos leitore ou espectadores? O ser humano
precisa de “mensagens” (sejam políticas, sejam de auto-ajuda) ou de um auto-
conhecimento profundo? Nelas o tempo não se faz presente, porque não perduram. Têm
a duração da novidade de que são portadores. E só. O leitor ou espectador nunca é
provocado a mergulhar e a experienciar o seu tempo enquanto o que ele é, a iniciar
uma viagem de auto-conhecimento, de encontro consigo mesmo, de auto-diálogo.
O rito da leitura da obra poética demanda um tempo próprio, um lento apropriar-
se das questões em que cada um se move e vive, se experiencia, se descobre, dando
lugar ao recolhimento e à reflexão, a um saborear um saber que se torna densamente
saboroso e sabedoria, que se realiza num metabolismo que eclode em corporeidades
plenificantes, sem separações e sem divisões entre o corpo que se passa a ter e o corpo
que se passa a ser.
A densidade da palavra exige leitores que se abram para esse atuar e operar em
leituras de escuta da densidade e do vigor do silêncio, que se presentifica e corporifica
na ambigüidade de toda palavra poética. É o fazer da leitura da obra poética o lento
tempo de maturação do que lhe é próprio, do que cada um desde sempre já é em sua
identidade.

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Quando tal acontece, temos a poiesis da linguagem poética desabrochando. Por
isso dá-se-lhe o nome de linguagem poético-manifestativa, porque nela o leitor em seu
ler, em seu agir se dá o sentido que lhe é próprio e lhe foi dado. Só assim poderá tornar-
se feliz.

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