V CONeGOV .

2009
Anais da Conferência Sul-Americana em Ciência e Tecnologia Aplicada ao Governo Eletrônico
17, 18 e 19 de Novembro de 2009 Florianópolis - Santa Catarina - Brasil

Anais da V Conferência Sul-Americana em Ciência e Tecnologia Aplicada ao Governo Eletrônico CONeGOV 2009

Hugo Cesar Hoeschl, Post. Doc. (org.) Tânia Cristina D’Agostini Bueno, Dra. (org.) Sonali Paula Molin Bedin, Msc. (org.)

Anais da V Conferência Sul-Americana em Ciência e Tecnologia Aplicada ao Governo Eletrônico CONeGOV 2009

Florianópolis Editora Digital Ijuris 2009

Copyright © 2009 i3G ISBN 978-85-89587-23-15

Projeto Gráfico e Editoração Marcos Carlson, M.Sc.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
———————————————————————————————— H699e Anais da V Conferência Sul-Americana em Ciência e Tecnologia Aplicada ao Governo Eletrônico – CONeGOV (5.: 2009: Florianópolis:Santa Catarina, SC) / HOESCHL, Hugo Cesar; BUENO, Tânia Cristina d”Agostini; BEDIN, Sonali Paula Molin (Orgs.). Florianópolis: Editora Digital Ijuris, 2009. ISBN: 978-85-89587-23-15 1. Governo Eletrônico 2. Inteligência Jurídica 3. Inteligência Artificial 4. Cidadania Digital 5. Redes Sociais I. Autor II. Título CDD659.3 ————————————————————————————————
Catalogação na Publicação elaborada por Sonali Bedin

Direitos desta edição reservados à EDITORA DIGITAL IJURIS Rua Lauro Linhares, 728 / 105 Trindade 88036-002 Florianópolis SC BRASIL +55 48 3025-6609 / +55 48 3025-5467 fax editora.digital@i3g.org.br www.i3g.org.br/editora
Biblioteca Nacional – no. 89587

PREFÁCIO

E

stes Anais contêm os artigos aprovados para a V CONeGOV – Conferência Sul-Americana em Ciência e Tecnologia Aplicada ao Governo Eletrônico, realizada em Florianópolis, SC, Brasil, em 17, 18 e 19 de novembro de 2009, organizada pelo i3G – Instituto de Governo Eletrônico, Inteligências e Sistemas em parceria com a UFSC – Universidade Federal de Santa Catarina, com apoios da Fundação Boiteux, EGC/UFSC – Programa de Pós-Graduação em Engenharia e Gestão do Conhecimento da Universidade Federal de Santa Catarina, CCJ/UFSC – Centro de Ciências Jurídicas da Universidade Federal de Santa Catarina, Universidade de FASTA, DGov – Diretoria de Governança Eletrônica do Governo do Estado de Santa Catarina e UDESC – Universidade do Estado de Santa Catarina e patrocínio do CNPq – Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, Capes – Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior e Fapesc – Fundação de Apoio à Pesquisa Científica e Tecnológica do Estado de Santa Catarina. Nossos objetivos se consolidam como foco de disseminação, difusão e extensão das atividades acadêmicas voltadas para o Governo Eletrônico e tem como objetivo reunir gestores públicos, cientistas, empresários, estudantes e cidadãos atuantes na indústria ou no Governo para apresentação de aplicações e soluções avançadas em e-Gov, bem como as tecnologias que as suportam. Além disso, realizada pelo quinto ano consecutivo, a CONeGOV agregou vários profissionais que, com dedicação e empenho, colaboraram na realização e sucesso do evento. Neste ano a Conferência Sul-Americana em Ciência e Tecnologia Aplicada ao Governo Eletrônico se realiza juntamente com o VII EleGov – Encontro Íbero-Latino-Americano de Governo Eletrônico e Inclusão Digital. Também foi introduzido como novidade no evento a apresentação de tutoriais, cujo conteúdo programático faz parte destes anais. Ainda, ampliando e rede científica em torno da temática, o evento conta como convidado especial o Dr. Timothy Waema, professor da School of Computing and Informatics, University of Nairobi – Kenia. Como temática principal da Conferência, as questões relativas às redes Sociais ultrapassaram o âmbito privado, pois os mecanismos utilizados pelos cidadãos para a formação das redes Sociais na Internet estão sendo utilizados pelos gestores públicos como importante ferramentas de e-Gov. A relevância da temática favoreceu a realização desta quinta edição na cidade de Florianópolis/SC, apoiada no grande interesse das instituições públicas nas questões discutidas na Conferência. Interesse este que mobilizou também a comunidade científica que vislumbra a possibilidade de integração, cooperação e conversão de conhecimentos imprescindíveis à consolidação e fortalecimento da região.
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Foram submetidos 56 artigos à V CONeGOV. O Comitê Científico é formado por 30 membros dos seguintes países: Brasil, Argentina, Espanha, França, Portugal, Peru e Estados Unidos da América. Cada artigo foi avaliado por dois revisores independentes, a fim de garantir a qualidade dos trabalhos aceitos. Para publicação foram aprovados 21 artigos em versão integral, 16 artigos em versão reduzida e 09 em versão poster. A Comissão Organizadora agradece aos autores que submeteram seus artigos e aos membros do Comitê Científico e revisores pela excelência do trabalho de avaliação. Em especial, a Comissão agradece aos palestrantes, a todos os estudantes, professores, pesquisadores e profissionais que se motivaram a comparecer e enriquecer o encontro. Por fim, a Comissão deseja a todos uma boa leitura dos artigos aqui disponíveis e que estes possam contribuir para o crescimento da comunidade científica brasileira. Hugo Cesar Hoeschl, Post Doc. Presidente do Comitê Científico Tânia Cristina D’Agostini Bueno, Dra. Vice-presidente do Conselho Científico Presidente do Instituto i3G

Sonali Paula Molin Bedin, M.Sc. Secretária Executiva Comissão Organizadora Florianópolis, 20 de novembro de 2009

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COMITÊ CIENTÍFICO
PRESIDENTE Hugo Cesar Hoeschl, Post Doc. i3G, Brasil VICE-PRESIDENTE Tânia Cristina D’Agostini Bueno, Dra. i3G, Brasil

MEMBROS Aires José Rover, Dr. UFSC, Brasil Janae Gonçalves Martins, Dra. UNIVALI, Brasil Jesus Cardeñosa, Dr. UPM, Espanha José Leomar Todesco, Dr. UFSC, Brasil Maria Alexandra Cunha, Dra. PUC, Brasil Marzely Gorges Farias, Dra. UDESC, Brasil Michel Menou, PhD. University College London, Reino Unido Olsen da Veiga, Dr. UFSC, Brasil Orides Mezzaroba, Dr. UFSC, Brasil Oscar Anselmo Ruiz, Dr. Fundación La Buardilla, Argentina Osny Taborda, Dr. UNISUL, Brasil Paulo de Tarso Mendes Luna, Dr. FURB, Brasil Roberto Giordano Lerena, Ing. Universidad FASTA, Argentina Sonali Paula Molin Bedin, M.Sc. i3G, Brasil Tânia Cristina D’Agostini Bueno, Dra. i3G, Brasil Thiago Paulo Silva de Oliveira, M.Sc. i3G, Brasil Timothy Moema Waema, Dr. University of Nairobi, Kenya

SADIO, Argentina
Américo Ricardo M. de Almeida, Dr. UNIRG, Brasil Ana Maria Pereira, Dra.

Alan March, Dr.

UDESC, Brasil

Andre Bortolon, Dr. i3G, Brasil Christianne C. de S. R. Coelho, Dra. UFSC, Brasil Clara Smith, Dra. UNLP, Argentina Claudia Marina V. Solórzano, M.Sc. Somece, México Dayna Maria Bortoluzzi, Dra. SED/SC, Brasil Divino I. Ribeiro Jr., M.Sc. UDESC, Brasil Eduardo Mattos, M.Sc. i3G, Brasil Ernesto Cuadros-Vargas. PhD. Universidade Católica San Pablo, Peru Fabrício Tadeu Donatti, M.Sc. i3G, Brasil Fernando Galindo, Dr. UNIZAR, Espanha Gabriel Baum, Dr. UNLP, Argentina Gregorio Varvakis, Dr. UFSC, Brasil Hipólito M. Rodriguez Casavilca, M.Sc. UNMSM, Peru

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Anais da V Conferência Sul-Americana em Ciência e Tecnologia Aplicada ao Governo Eletrônico

PROGRAMAÇÃO
V Conferência Sul-Americana em Ciência e Tecnologia Aplicada ao Governo Eletrônico
8º Encontro Íbero Latino-Americano de Governo Eletrônico e Inclusão Digital
Temática condutora: “Redes Sociais e Governo Eletrônico”
17, 18 e 19 de novembro de 2009 Auditório do Centro Sócio Econômico – CSE (Campus Trindade) Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC Florianópolis SC BR ASIL

Terça-feira, 17
V C ONe G OV 08:30 – 09:15 09:15 – 09:30 09:30 – 10:15 Credenciamento Cerimonial de Abertura Palestra de Abertura Hugo Cesar Hoeschl, Post Doc. Palestra II
SUCCESSES AND FAILURES OF E-GOVERNANCE IMPLEMENTATION: LESSONS FROM E-LOCAL GOVERNANCE RESEARCH IN AFRICA

Coordenador do Conselho Consultivo de Governo do Estado de Santa Catarina – CONSULT

10:15 – 11:15

Timothy Waema, Dr.

School of Computing and Informatics – University of Nairobi, Kenia

11:15 – 12:30

Mesa I
INTEROPER ABILIDADE

Vagner Diniz, Esp.

Gerente do Escritório Brasil W3C Secretário de Prevenção da Corrupção e Informações Estratégicas da Controladoria‑Geral da União da Presidência da República

Marcelo Stopanovski Ribeiro, MSc.

12:30 – 14:00

Intervalo

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CONeGOV 2009 | PROGRAMAÇÃO

14:00 – 15:15

Mesa II
INOVAÇÃO

Antonio Diomário de Queiroz, Dr.

Presidente da Fundação de Apoio à Pesquisa Científica e Tecnológica do Estado de Santa Catarina – FAPESC Presidente do Instituto de Governo Eletrônico, Inteligências e Sistemas – i3G Coordenadora da Coordenadoria de Inovação e Propriedade Intelectual da Universidade do Estado de Santa Catarina – UDESC

Tânia Cristina D’Agostini Bueno, Dra. Marzely Gorges Farias, Dra.

15:15 – 16:00

Palestra III Roberto Lerena, Ing.

Consultor del Centro de Transferencia Tecnológica y Consultoria de la Universidad FASTA, Mar del Plata, Argentina

16:00 – 16:30 16:30 – 17:15

Intervalo Palestra IV Hipolito M. Rodríguez Casavilca , MSc. Mesa III Paulo Luna, Dr. Hugo Cesar Hoeschl, Post. Doc. Roberto Giordano Lerena, Ing. Encerramento
E-GOV

Jefe de la Unidad de Virtualización de la Universidad Inca Garcilaso de la Vega, Lima, Perú

17:15 – 18:30

18:30 – 19:00

Quarta-feira, 18
8 º E NC ON T RO 08:00 – 09:00 09:00 – 10:30 Credenciamento Painel 1
PROJETOS DE GOVERNO ELETRÔNICO PAR A O CONTROLE DO ORÇAMENTO

Aires José Rover, Dr.
UFSC

APRENDIZAGEM VIRTUAL E GOVERNO ELETRÔNICO

Fernando Galindo, Dr.
Zaragoza/Espanha UFSC – Moderador

Luis Adolfo Olsen da Veiga, Dr.

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Anais da V Conferência Sul-Americana em Ciência e Tecnologia Aplicada ao Governo Eletrônico

10:30 – 12:00

Painel 2
INCLUSÃO DIGITAL E IDENTIFICAÇÃO

Manuel Vázquez, Dr.
Zaragoza/Espanha

ACESSO ELETRÔNICO A ADMINISTR AÇÃO PÚBLICA: CIDADANIA E O DESENVOLVIMENTO DEMOCR ÁTICO

Francisco Javier Garcia Marco, Dr.
Zaragoza/Espanha

Orides Mezzaroba, Dr. 12:00 – 14:00 14:30 – 16:00 Intervalo Painel 3

CPGD/UFSC – Moderador

PLATAFOR MAS E-GOV COMO SISTEMAS SOCIOTECNOLÓGICOS

Vinícius Medina Kern, Dr.
UFSC

EXPERIÊNCIAS DE GOVERNO ELETRÔNICO NA AMÉRICA LATINA

Ricardo Sebastián Piana, Dr.
Argentina

José Leomar Todesco, Dr.
UFSC – Moderador

16:00 – 18:30

Painel 4
PROCESSO ELETRÔNICO NA JUSTIÇA FEDER AL

Des. Sérgio Renato Tejada Garcia
Justiça Federal Uruguai

José Miguel Busquets, Dr.
O PROCESSO DIGITAL NO BR ASIL

Rubens Curado

Secretário Geral – CNJ PUC/PR – Moderador

José Renato Cella, Dr. 18:30 – 19:00 19:00 – 20:30 Coffee break Painel 5

A TV DIGITAL PÚBLICA INTER ATIVA PODE SER O CAMINHO MAIS CURTO PAR A A INCLUSÃO DIGITAL

André Barbosa Filho, Dr.

Assessor Especial da Casa Civil

A ADMINISTR AÇÃO TRIBUTÁRIA NA SOCIEDADE DA INFOR MAÇÃO E DO CONHECIMENTO: O PROCESSO DE MODERNIZAÇÃO DO FISCO CATARINENSE

Amery Moisés Nadir Júnior, M.Sc.

Gerente de Substituição Tributária e Comércio Exterior da Secretaria da Fazenda de Santa Catarina Coordenador Técnico dos Programas de Modernização da Gestão Fiscal Estadual – PROFISCO e PMAE UFSC – Moderador

Renato Dias Marques de Lacerda, M.Sc. Tarcísio Vanzin, Dr.

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CONeGOV 2009 | PROGRAMAÇÃO

Quarta-feira, 18
V C ONe G OV Tutorial A Antonio Carlos Tiboni Flávio Gomes da Silva Lisboa Luciana Campos Mota Tutorial B
PADRONIZAÇÃO E REUSO DE APLICAÇÕES COM DEMOISELLE FR AMEWOR K (8 HOR AS)

Thiago Paulo Silva de Oliveira Sonali Paula Molin Bedin Thais Garcia Tutorial C Marli Dias de Souza Pinto Sessões Técnicas 1 e 2 Apresentação de artigos

WEB 2.0 APLICADA AO GOVERNO ELETRÔNICO (4 HOR AS)

CONECTIVIDADE E GESTÃO DA INOVAÇÃO (4 HOR AS)

Quinta-feira, 19
8 º E NC ON T RO Apresentação de trabalhos V C ONe G OV 08:30 – 10:00 10:00 – 10:30 10:30 – 12:00 12:00 – 14:00 14:00 – 15:45 15:45 – 16:00 16:00 – 17:15 17:15 – 18:00 Apresentação de Artigos Sessão Técnica 3 Intervalo Sessão Técnica 4 Intervalo Sessão Técnica 5 Intervalo Sessão Técnica 6 Sessão de Encerramento Hugo Cesar Hoeschl, Post. Doc.

Presidente do Comitê Científico da V CONeGOV Vice Presidente do Comitê Científico da V CONeGOV Presidente do Instituto de Governo Eletrônico, Inteligências e Sistemas‑i3G

Tânia Cristina D’Agostini Bueno, Dra.

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Anais da V Conferência Sul-Americana em Ciência e Tecnologia Aplicada ao Governo Eletrônico

COMISSÃO ORGANIZADORA
Sonali Paula Molin Bedin Secretária Executiva

Ângela Iara Zotti Angélica Gorges Cesar Ramirez Kejelin Stradiotto Claudia de Oliveira Bueno Fabricio Tadeu Donatti Marcos Carlson Tarcisio Fischer Tânia Cristina D´Agostini Bueno Thiago Paulo Silva de Oliveira Vinicius O. Mirapalheta

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SUMÁRIO
FULL PAPERS O governo eletrônico no Brasil e algumas iniciativas de inclusão digital Ontologia para comunidades informacionais em e-gov, utilizando a ferramenta Ontokem Desenvolvimento de sistemas de gestão da segurança da informação através da integração das normas ISO/IEC 27001:2006 e ISO/IEC 21827 (SSE-CMM) E-gov e a educação: o exemplo da TV Escola Sistema Federal de Educação Superior na modalidade a distância: o papel do governo eletrônico Contribuições das tecnologias KDD e DW como ferramentas de gestão do conhecimento aplicadas ao processo de compras do governo eletrônico A importancia do CZRM para a implantação do e-gov Ciberincubadora: um modelo para o desenvolvimento regional Redes sociais de cooperação interorganizacional: o estudo de caso do Vale da Eletrônica – Minas Gerais Observatório de Resíduos Recicláveis e Reciclados do Distrito Federal O software livre e a padronização de sistemas no Governo Federal Participação democrática nos websites dos candidatos a prefeito das capitais da região Sul Universidade corporativa e aprendizagem organizacional: uma análise conceitual A importância das redes sociais virtuais para a gestão do conhecimento organizacional: o caso da Embrapa Escritório de propriedade industrial: estrutura de aproximação entre o trabalhador-inventor, o empregador e o INPI Contextualização jurídica da EAD no ensino superior 21 33 47

65 81 95

115 131 147 167 185 203 225 239 259 273

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Ciberdireito: uma formulação teórica para a legitimidade do governo eletrônico NIT Virtual do APL Madeira-Móvel do Alto Vale do Rio Negro: um modelo de gestão da inovação baseado na proteção da propriedade intelectual Educação e tecnologia: numa perspectiva de inclusão sócio-digital Commonkads para construção de sistema de conhecimento: uma solução para segurança pública de Santa Catarina Proposta de melhoria nos serviços de atendimento de TI com aplicação do Commonkads SHORT PAPERS O governo eletrônico como evolução da gestão pública: política pública participativa com os observatórios de segurança pública Redes sociais no governo eletrônico A atitude dos discentes no ensino superior a distância Política pública de inclusão digital: ampliando os horizontes no meio rural de Santa Catarina Advertmaps: um mashup dos dados de óbitos com um aplicativo de mapas para apoio ao governo eletrônico Democracia eletrônica no Brasil: princípios e perspectivas do uso das TICs pelo cidadão para participação no governo Proyecto guía de recomendaciones para usuarios de bienes y servicios informáticos Contribuição da tecnologia da informação para sustentação do modelo de assistência à saúde implementado no município de Curitiba Contribuição da tecnologia de informação para a construção de um banco de dados apto a gerar informações estratégicas para a área da epidemiologia Abordagem Design Centrado no Usuário para interface digital de e-gov Proteção jurídica ao trabalhador-inventor e ao empregador de parques tecnológicos

289 313

329 343 365

385 397 411 421 433 445 459 467 477

485 499

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CONeGOV 2009 | SUMÁRIO

Proposta de uso de RBC na gestão de risco de acidentes de trânsito na malha viária catarinense Um ensaio sobre as principais barreiras para a disseminação de ações de governo móvel no Brasil Avaliação do alinhamento estratégico de tecnologia da informação nas organizações Visão sistêmica na interoperabilidade dos sistemas para segurança pública: estudo do caso de Santa Catarina Município 2.0: uso de ferramentas colaborativas para participação popular e transparência pública RESEARCH ABSTR ACTS Sistemas sociais, tecnologias de controle e ciberespaço: um olhar pela teoria de Santiago Ontology Graphical Editor for Multilingual Document Search System Trabalhador-inventor e empregador e a gestão da inovação Gestão de contas de usuários e domínios de rede da Prefeitura Municipal de Curitiba Pregão eletrônico e tecnologia da informação: ferramenta relevante em tempos modernos de gestão pública TUTORIALS Padronização e Reuso de Aplicações com Demoiselle Framework WEB 2.0 Aplicada ao Governo Eletrônico Conectividade e Gestão da inovação

501 511 525 537 555

575 579 583 585 587

593 595 597

Índice de Autores

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Anais da V Conferência Sul-Americana em Ciência e Tecnologia Aplicada ao Governo Eletrônico

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FULL PAPERS

Anais da V Conferência Sul-Americana em Ciência e Tecnologia Aplicada ao Governo Eletrônico

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O GOVERNO ELETRÔNICO NO BRASIL E ALGUMAS INICIATIVAS DE INCLUSÃO DIGITAL
Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC
denisetmesquita@gmail.com

Denise do Socorro Costa Tavares Mesquita

Universidade Federal de Santa Catarina ‑ UFSC
jbosco@inf.ufsc.br

João Bosco da Mota Alves

RESUMO
Este artigo versa sobre as concepções de governo eletrônico e faz uma breve análise sobre a viabilidade do mesmo no Brasil, onde a utilização dos meios eletrônicos não pode ser um fim em si mesmo e precisa traduzir resultados que engrandeçam as pessoas e a cidadania. Também, aborda duas iniciativas de inclusão digital e social: os programas NAVEGAPARÁ e o REDE PIÁ.

PALAVRAS-CHAVE
Inclusão digital; Governo eletrônico; Globalização.

ABSTRACT
This paper presents the concepts of electronic government and makes a brief analysis on its feasibility in Brazil, where the use of electronic media can not be an end in itself, but it needs to translate results that enhance people and citizenship. It also points out about two initiatives concerning digital and social inclusion: the programs NAVEGAPARÁ and REDE PIÁ.

KEYWORDS
Digital Inclusion, E-Government; Globalization.

1. INTRODUÇÃO
A sociedade contemporânea é comumente denominada de ‘Sociedade da Informação’. Embora o termo seja impreciso e de caráter ideológico, a expressão
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visa descrever as novas configurações socioculturais que foram impulsionadas pela convergência tecnológica, iniciada nos anos 70 e consolidada nos anos 90, entre a informática, as telecomunicações e os diversos setores produtivos. O governo brasileiro está preocupado com esta questão, mas a ausência de modelos prejudica as ações. A inclusão digital pode ser uma facilitadora de outras inclusões, como a sócio-econômica, por exemplo. Neste tocante, é configuração dessa sociedade em rede trazer à baila necessidades política, social e cultural de inclusão de grande parte da população mundial à era da informação. Assim, este artigo faz uma breve análise sobre a viabilidade do governo eletrônico no Brasil e de duas iniciativas de inclusão digital e social: os programas NAVEGAPARÁ e o REDEPIÁ.

2. O GOVERNO ELETRÔNICO NO BRASIL
Dentro de uma perspectiva histórica e temporal, pode-se afirmar que a expressão governo eletrônico ou e‑gov começou a ser utilizada com mais frequência após a disseminação e consolidação da idéia de comércio eletrônico (e‑commerce), na segunda metade da década passada, assim, a partir daí ficou completamente associada ao uso das Tecnologias de Informação e Comunicação - TICs nos diversos níveis de governo (DINIZ, 2000). Neste sentido, as concepções sobre governo eletrônico, mesmo que associadas ao uso de tecnologia de informação no setor público, vão além desta fronteira. Em determinadas situações, estão vinculadas à modernização da administração pública por meio das TICs e na melhoria da eficiência dos processos operacionais e administrativos dos governos (OSBORNE, 1997). De acordo com Ronaghan (2002), em outros casos, está claramente associada ao uso de internet no setor público para prestação de serviços públicos eletrônicos. Em artigos recentes, alguns autores têm trabalhado no entendimento das fases da evolução do uso de TIC no setor público no Brasil. Com foco na estrutura do processo de informatização, Reinhard e Dias (2005) classificaram quatro grandes períodos do uso de TIC no setor público: o pioneirismo (dos anos 1950 até meados dos anos 1960), a centralização (de meados dos 1960 até o final dos 1970), a terceirização (anos 1980) e o governo eletrônico propriamente dito (a partir dos anos 1990). Segundo Agune e Carlos (2005), governo eletrônico pode ser entendido como um conjunto de ações modernizadoras vinculadas à administração pública, que começam a ganhar visibilidade no final de 1990. Assim, pode-se inferir que governo eletrônico vai além da simples automação dos processos e disponibilização de serviços públicos, por meio de serviços
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CONeGOV 2009 | FULL PAPERS

online na internet, mas infere na mudança da maneira como o governo, através da TIC, atinge os seus objetivos para cumprimento do papel do Estado. Tal situação provoca a melhoria dos processos da administração pública; aumento da eficiência; melhor governança; elaboração e monitoramento das políticas públicas; integração entre governos e democracia eletrônica, representada pelo aumento da transparência, da participação democrática e accountability (responsabilidade) dos governos (PRADO, 2004). A implantação do governo eletrônico, em uma gestão pública, nem sempre representa mais facilidade para a sociedade. Para Nogueira (2006), não se governa no vazio, em abstrato. Governa-se em uma comunidade, com ela e para ela. Além do mais, não se governa para alcançar maior eficiência, menores custos e mais agilidade. Como andam dizendo os trabalhadores ingleses, deve-se querer “governar para melhorar a vida dos cidadãos”. Com isso, a utilização dos meios eletrônicos não pode ser um fim em si mesmo e precisa se traduzir em resultados que engrandeçam as pessoas e a cidadania. Portanto, o governo precisa se combinar com a presença de uma comunidade preparada para assimilá-lo e, acima de tudo, controlá-lo. Assim, para que de fato ocorra a implementação efetiva de um programa de governo eletrônico no Brasil, esse processo precisa ser entendido como um composto de várias etapas que incorporam aspectos políticos, técnicos e organizacionais, desde a fase de concepção, implantação até a avaliação. Os principais atores, políticos e técnicos, responsáveis pela execução de cada uma das etapas descritas no modelo teórico apresentado, são elementos centrais no processo de construção e legitimação de projetos de e-gov. Na proposição do modelo, a influência sobre a execução de cada etapa é dada principalmente pelas características desses atores, que são influenciados por aspectos externos e por suas preferências. As interações deles ocorrem no âmbito da arena das políticas, variando entre consenso e conflito conforme o impacto da política em questão. Na concepção de Frey (2000), existem quatro tipos de políticas: as distri‑ butivas (geração de benefícios sem custos), as redistributivas (deslocamento de recursos), as regulatórias (ordens e proibições) e as constitutivas (estruturantes), as quais indicam que as políticas de caráter distributivo têm menor chance de gerar conflito, pois têm caráter consensual, ao contrário das políticas redistributivas, orientadas ao conflito. Já Pollit e Bouckaert (2000), ao incorporarem a visão dos atores em seu modelo de reforma da gestão pública, apontam que as ‘elites’, ao serem influenciadas, respondem com um pacote de políticas de implementação viável. Assim, conclui-se que a história do governo eletrônico no Brasil está diretamente ligada ao desenvolvimento dos serviços de informática pública,
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oferecidos pelas empresas estaduais e municipais de processamento de dados, iniciados nos primeiros anos da década de 1960. Como na área privada, o uso de TIC foi encabeçado pelo setor financeiro, onde as empresas de prestação de serviços de informática pública foram criadas inicialmente para processamento de dados e informações de natureza fiscal e, em geral, para a gestão de receitas e controle das despesas do governo. Agune e Carlos (2005) mostram que, a partir dessa demanda, a informática na gestão pública evoluiu ao longo do tempo para a entrega de serviços ao cidadão em vários canais de acesso. Embora essas empresas tenham se empenhado em acompanhar os avanços tecnológicos e de prestação de serviços, constata-se que o modelo de negócios adotado por elas é ineficiente e pouco competitivo. Isso talvez se reflita na falta de convergência entre os modelos de gestão das empresas de processamento de dados estaduais. Apesar disso, existem muitas iniciativas de sucesso nos três níveis de governo e em todos os poderes da República Federativa, conforme demonstrado por Chain (2004): nos níveis estadual e municipal, a adoção de recursos tecnológicos e de sistemas de informática pública permite muitos avanços sociais: sistemas para o agendamento de consultas médicas em hospitais e postos de saúde; sistemas automatizados de matrículas escolares, que acabaram com as filas na porta das escolas públicas; lojas (praças) de atendimento integrado que, complementados pela entrega de serviços por meio dos portais governamentais na internet, dispensam a necessidade da presença física do cidadão nos órgãos públicos.

3. OS TRÊS PILARES DA INCLUSÃO DIGITAL
A inclusão digital é sustentada por três pilares que possibilitam que ela aconteça, formando o tripé fundamental para que se torne realidade o acesso para todos: as tecnologias de informação e comunicação, ou simplesmente TICs, renda e educação (SILVA FILHO, 2004). Qualquer ação desenvolvida para promover a inclusão digital, com a ausência de qualquer um desses pilares, é ineficaz e fadada ao insucesso. Não é viável ter acesso às tecnologias e renda se não há educação, uma vez que um dos objetivos da inclusão digital é transformar um mero consumidor passivo de informações, em alguém que atue de maneira ativa e, portanto, passe a ser o produtor de informações, promovendo assim a inclusão social como demonstra a Figura 1. De acordo com Silva Filho (2004), é possível que a inclusão digital contribua para o processo de inclusão social. Mas, para que o processo de inclusão digital seja concretizado, é preciso haver inclusão social, visto que essa depende de dois fatores essenciais que compreendem renda e educação. Os dois fatores, por sua vez, juntamente com as TICs, constituem os pilares da inclusão digital.
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CONeGOV 2009 | FULL PAPERS

Figura 1. Inclusão Social para fazer Inclusão Digital.

Fonte: Silva Filho, 2004.

A tecnologia de informação e comunicação (TIC) se constitui em um dos pilares para que a inclusão digital ocorra e caracteriza-se por possibilitar a melhoria na qualidade em diversos aspectos dos negócios, tornando os ambientes empresariais mais competitivos cada vez que se deflagra com uma nova tecnologia, bem como são reduzidos custos e distâncias geográficas entre as pessoas, influenciando o planejamento das organizações. De acordo com Amaral e Bohadana (2008), no século XXI, as Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs) surgem como um determinante crítico para o desenvolvimento sóciopolítico e econômico dos países e indivíduos e para a integração de diferentes povos, uma vez que a habilidade em estabelecer uma relação com as tecnologias digitais tem ganhado notoriedade e os efeitos da sua utilização estão gerando uma verdadeira revolução nas organizações, inseridas no contexto da globalização. A renda é outro elemento que constitui o tripé da inclusão digital, já que permite o acesso às tecnologias de informação e comunicação pela aquisição de computadores. Um país que possui uma população com poder aquisitivo razoável e com distribuição de renda equitativa permite com mais facilidade o acesso às tecnologias de informação e comunicação, no qual o aumento mais significativo se deu em domicílios cuja renda familiar está compreendida entre três e cinco salários mínimos (AMARAL e BOHADANA, 2008). É notório que, quanto maior a renda e a escolaridade e quanto mais ricas as regiões, maior será o acesso dos cidadãos às tecnologias de informação e comunicação. Neste contexto, a realidade brasileira se mostra como um país de excluídos, uma vez que possui muitas regiões pobres, com difícil acesso à educação, assim como má distribuição de renda, refletindo diretamente no processo de inclusão digital. A baixa renda da maioria dos brasileiros inviabiliza a aquisição de equipamentos que permitam o acesso à rede mundial de computadores, uma vez
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que o seu alto custo acaba por dificultar a aquisição de TIC (AMARAL e BOHADANA, 2008). Por último, a educação é um dos pilares que sustentam as ações voltadas para que a inclusão digital seja uma realidade, uma vez que parte do processo de ensino fornece a educação continuada. Percebe-se, então, que a educação é um processo de real importância e a inclusão digital é elemento fundamental neste processo. Através da educação, de uma redistribuição de renda, o acesso às TICs é permitido e torna o indivíduo incluso no mundo digital, pois esse obtém informações e passa a ser um agente transformador do ambiente global no qual está inserido. Neste processo, a educação configura-se como o principal vetor capaz de mudar todos os paradigmas no que concerne à inclusão digital, pois a dinâmica da sociedade da informação exige que o indivíduo não somente acompanhe as mudanças tecnológicas, mas que tenha a capacidade de adaptação e inovação, a fim de garantir autonomia (AMARAL e BOHADANA, 2008). Brandão (1995, p. 7) ressalta que:
Ninguém escapa da educação. Em casa, na rua, na igreja ou na escola, de um modo ou de muitos, todos nós envolvemos pedaços da vida com ela: para aprender, para ensinar para aprender e ensinar. Para saber, para fazer, para ser ou para conviver, todos os dias, misturamos vida com educação.

Por conseguinte, conforme Takahashi (2000), educar na era da informação e das tecnologias de informação e comunicação exige investir na criação de competências que permitam a produção de bens e serviços, fundamentados no conhecimento.

4. INCLUSÃO DIGITAL E OS DESAFIOS DA ERA DA GLOBALIZAÇÃO
Segundo Castells (2002), estamos vivendo em um mundo globalizado, cada vez mais mediado pelas tecnologias digitais. Assim, a globalização serve para caracterizar a interdependência universal das nações, nas produções material, econômica e intelectual. Com a globalização, aumentou-se o intercâmbio de bens de consumo e produtos, gerando laços de interdependência e aproximação entre os povos, através dos intercâmbios comerciais. Por sua vez, isso gera toda uma necessidade de criação de normas culturais e universais para que aconteça da melhor forma.
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No entanto, há também o lado negativo, pois foram geradas trocas desiguais de riquezas entre as nações, aumentando ainda mais o fosso existente entre as sociedades dos países ricos e a dos países pobres. Houve um aumento de concentração de riquezas nas mãos da elite e dos países do Primeiro Mundo e um aumento da pobreza e das desigualdades sociais. Desse modo, Sorj (2003) enfatiza que, do mesmo modo que a globalização gerou desigualdades nas condições de vida no interior de cada sociedade e entre os povos, ela também fez com que o mundo refletisse e criasse condições para lutar contra essas desigualdades em escala global. A globalização das sociedades vem gerando uma opinião pública mundial que se une na defesa dos direitos humanos e do acesso a bens de consumo coletivos para todos. É comum que hoje muitas pessoas, independente de onde tenham nascido e de sua posição social, queiram ter acesso às melhores condições de vida, tendo como referência informações e modelos existentes em outras partes do mundo. Dessa forma, a globalização refere-se à democratização das sociedades em escala internacional e à criação de um espaço comum nas expectativas das pessoas (SORJ, 2003). Segundo Sacristan (2001), a globalização pode ser descrita como configurada pelos fenômenos, processos em curso, pelas realidades e tendências muito diversas que afetam diferentes aspectos da cultura, das comunicações, da economia e da vida cotidiana, cujo significado é pouco preciso. Esses são fenômenos típicos de um mundo globalizado, que pode ser descrito como um mundo em rede, onde as partes são interdependentes, constituindose uma rede de intercâmbios, de acordos de cooperação que adotam tipos de comportamento e modelos culturais de outros lugares. Outro aspecto que caracteriza a globalização refere-se à internacionalização dos recursos financeiros, à interdependência da economia e à mundialização dos mercados financeiros (SACRISTAN, 2001). Sacristan (2001) também defende que a globalização acelera processos existentes da dinâmica das culturas e como isso adquire novas dimensões. A comunicação entre as culturas, a adoção e absorção de elementos culturais procedentes de outros cantos do planeta, a imposição e universalização de certos tipos de pensamento, os comportamentos da civilização e a confrontação entre culturas distintas são elementos que não são novos na história da humanidade, mas que foram acentuados com o advento das novas tecnologias da informação e da comunicação no final do século XX. No entanto, pode-se inferir que por mais que a globalização seja um fenômeno que atinja a todos e unifique o mundo, apenas uma pequena parcela da população consegue se beneficiar dessa cultura da sociedade em rede, tão comum na globalização. O restante fica excluído do processo. Os que estão incluídos no processo, geralmente, fazem parte de uma classe que tem acesso às fontes
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de informação e que dominam os processos de conhecimento, transformando a informação em construção de conhecimento e produção de saber local. São pessoas que desenvolveram a capacidade de aprender a aprender. Essa competência é necessária para uma sociedade que se encontra cada vez mais interligada e em processo de mudança frequente. Com o intuito de aumentar a justiça distributiva e diminuir os efeitos maléficos da globalização, nesse mundo cada vez mais mediado pelas tecnologias digitais, vêm surgindo iniciativas que diminuem a brecha digital, com a ajuda de projetos sobre inclusão digital que visam não apenas dar acesso à tecnologia e à internet, mas fazer com que essas populações possam se beneficiar desses recursos da melhor forma possível. A exclusão digital refere-se à distribuição desigual entre os países e, dentro de uma mesma região, dos recursos relacionados à tecnologia da informação e da comunicação, e à brecha digital gerada pela falta de fluência tecnológica e falta de recursos humanos, tais como conteúdo, linguagem, alfabetização (problema do analfabetismo de crianças, jovens e adultos), metodologia e construção de uma estrutura institucional ou comunitária (WARSCHAUER, 2003).

5. EXEMPLOS DE EM INCLUSÃO DIGITAL: O REDE PIÁ E O NAVEGAPARÁ
Segundo Warschauer (2003), grande parte dos projetos de inclusão digital visa promover a mudança social pela disponibilidade das novas tecnologias digitais. Esse autor considera que a noção de que o simples acesso a computadores e à internet não é suficiente para a resolução de problemas sociais. O autor usa como exemplo o caso do projeto Hole in the Wall, na Índia. Esse projeto tinha como objetivo principal providenciar o acesso à internet para crianças de rua da cidade de Nova Deli. Para tanto, foram colocados quiosques com computadores dentro de uma caixa, em que monitores eram visualizados através de buracos na parede. Foram até criados joysticks especiais, assim como botões para substituir o mouse. Os computadores estavam conectados à internet pela linha discada. O que era peculiar nesse projeto, é que não havia professores nem instrutores que auxiliassem os usuários a utilizarem os equipamentos. De acordo com os idealizadores do projeto, eles trabalhavam com o conceito de educação minimamente invasiva, ou seja, as crianças poderiam aparecer em qualquer horário do dia e aprender no seu próprio ritmo, sem que necessariamente houvesse uma atividade direcionada por instrutores. Isso nos remete ao conceito de inclusão social, a participação plena dos indivíduos, famílias e comunidades na sociedade e no controle dos seus próprios destinos, levando em consideração aspectos como: recursos econômicos,
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emprego, saúde, educação, moradia, recreação, cultura e engajamento cívico (WARSCHAUER, 2003). Segundo Steward (2005 apud WARSCHAUER, 2003), a inclusão social tem a ver não só com a disponibilidade adequada de recursos, mas também com a participação nas possibilidades de escolhas tanto na vida individual, como coletiva. O conceito de inclusão social não ignora questões de classe, mas reconhece que existem outras variáveis que modelam como as forças de classe interagem. Assim, temos o conceito de inclusão social aplicado de forma significativa e contextualizada utilizando as tecnologias digitais, nos programas REDE PIÁ E NAVEGAPARÁ. O programa REDE PIÁ (Reciclagem Digital Educativa Pró-Infância e Adolescência) foi lançado no dia 30 de novembro de 2007, do estado de Santa Catarina e tem como objetivo transformar as máquinas caça-níqueis, apreendidas em operações de combate à contravenção penal no Estado, em equipamentos de informática para uso didático-pedagógico nas Escolas de Ensinos Básico e Médio das Redes Públicas Municipal e Estadual e nas organizações governamentais e não-governamentais de atendimento à comunidades carentes. Porém, a utilização desses equipamentos é direcionada exclusivamente para alunos matriculados nas referidas escolas e para pessoas dessas comunidades. Da mesma forma, parte dos equipamentos transformados será adaptada para uso por estudantes com deficiência. As máquinas adaptadas trazem jogos educativos auxiliares na alfabetização, no aprendizado da Matemática, de Ciências e outros setores. Esse programa é executado por parte das Instituições de Ensino Superior – IES ou do Estado de Santa Catarina, através das Secretarias de Desenvolvimento Regionais – SDR, com o apoio técnico e coordenação do Programa de PósGraduação em Engenharia e Gestão do Conhecimento da UFSC - EGC e da Rede de Laboratórios de Experimentação Remota – RExNet. Cada instituição da RExNet possui um Laboratório de Experimentação Remota - RExLab. A partir do Termo de Cooperação, os Promotores de Justiça em todas as Comarcas do Estado de Santa Catarina poderão estabelecer parceria com as universidades filiadas ao Sistema Acafe e à Associação de Mantenedoras Particulares de Educação Superior de Santa Catarina - AMPESC. Cerca de três mil máquinas caça-níqueis, apreendidas em SC, estão disponíveis atualmente para utilização pela Rede Piá. Como os jogos de azar são instrumentos para a execução de uma contravenção penal, o Código Penal prevê a perda do direito de propriedade. Portanto, todas os equipamentos apreendidos poderão ser convertidos à medida que o processo judicial for concluído. As máquinas que foram apreendidas em determinado local, voltarão convertidas para escolas da mesma cidade. A conversão dos equipamentos será custeada com parceiros que queiram aderir ao Projeto, bem como pelos recursos arrecadados em transações penais.
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A proposta do projeto Rede Piá é o de que parte da multa dada pelo Promotor de Justiça pague alguns equipamentos (como teclado e mouse), além da perda da máquina em favor do projeto, e também que ela seja usada no custeio da conversão para compra de teclado e mouse, que custam R$ 14,00 e R$ 10,00, respectivamente. Ademais, as empresas privadas que desejarem, poderão aderir ao projeto com seu patrocínio. No outro extremo do Brasil, no Estado do Pará, o programa Navegapará, além de otimizar a gestão pública a partir da interligação das principais instituições governamentais, busca garantir a inclusão digital do cidadão paraense à era do desenvolvimento e da tecnologia. A partir da implantação dos INFOCENTROS (Centros Públicos de Acesso à Internet), o Governo Popular disponibilizará, inicialmente, o acesso gratuito da população à internet e promoverá a capacitação em informática básica, além de oficinas e outras atividades que objetivam difundir a cultura das diferentes regiões do nosso Estado. Os referidos espaços são também um importante instrumento de desenvolvimento econômico e social, pois contribuem com a formação e a qualificação do cidadão. Os laboratórios de informática garantem a democratização do acesso às tecnologias de informação e comunicação em espaços públicos, equipados com microcomputadores e internet, onde é possível o acesso por meio de conexão de altíssima qualidade. O programa nasce a partir de dois convênios - com a Eletronorte e a Metrobel. Três áreas essenciais da gestão pública serão diretamente beneficiadas pelos convênios: saúde, segurança e educação. Nesse sentido, o chamado Terceiro Setor vem conquistando seu espaço, até mesmo como representante de alguns segmentos da sociedade civil organizada. A participação da comunidade é condição essencial para o sucesso do projeto. No infocentro, o envolvimento da população ocorre não só através do uso livre das Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) e da participação nos cursos e oficinas, mas também na gestão desse espaço público para sua preservação. Segundo o Governo do Pará (2007), o NAVEGAPARÁ possibilitará ao cidadão do interior o acesso tanto às ações básicas de medicina como às ações de média e alta complexidade. Será possível, em casos de urgência, conseguir um segundo diagnóstico à distância, o que salvará vidas, sobretudo no interior. São ações básicas do NAVEGAPARÁ: - Metrobel – Utilização da rede de fibra óptica Metrobel para interligar, por internet de alta velocidade, cerca de 300 unidades administrativas. Principais áreas beneficiadas: segurança, saúde e educação.
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- Infovias - Integração do Estado com a interligação dos principais órgãos públicos a partir de convênio para que sejam utilizados 1.800 quilômetros de fibra óptica da Eletronorte. As infovias são uma rede macro de transmissão, em que é necessário baixar o sinal para utilização em serviços públicos. - Cidades Digitais – Construção de pequenas redes para que se baixe o sinal da Eletronorte, interligando os principais órgãos públicos (federais, estaduais e municipais), como escolas, hospitais e delegacias. - Infocentros públicos – Serão construídos infocentros em 13 municípios, disponibilizando internet de alta velocidade para dois milhões de pessoas no interior. - Telecentros de negócios – Será realizada a capacitação e qualificação, além de seminários e debates à distância de setores produtivos. A Secretaria da Fazenda ampliará o projeto original, construindo telecentros de negócios nos principais pólos econômicos, para utilização por sindicatos, empresas, cooperativas e associações. (GOVERNO DO ESTADO DO PARÁ, 2007).

6. CONCLUSÃO
Não se pode negar que as facilidades trazidas pelas novas tecnologias da informação, aliadas à internet, são ferramentas indispensáveis às vidas das pessoas, das empresas e da gestão pública. Não devemos esquecer também que as eleições no Brasil, através das urnas eletrônicas, é um marco histórico no mundo. Mas, ainda falta fazer muito em termos de e-gov. No caso da gestão pública, é preciso que as ações através do e-government sejam utilizadas como um instrumento para o exercício da cidadania e para a promoção de ações sociais, não econômicas porque o povo brasileiro já trabalha três meses e meio somente para pagar impostos e taxas e não tem retorno em benefícios sociais. O e-government deve servir também para abrir novos espaços para a cidadania.

REFERÊNCIAS
AGUNE, R.; CARLOS, J. Governo eletrônico e novos processos de trabalho. In: LEVY, E.; DRAGO, P. (Orgs.). Gestão pública no Brasil contemporâneo. São Paulo: Fundap, 2005. CASTELLS, Manuel. A Sociedade em Rede. São Paulo: Paz e Terra, 2002. CHAIN, Ali E-gov.br: a próxima revolução brasileira. São Paulo Prentice Hall, 2004. FREY, K. Políticas públicas: um debate conceitual e reflexões referentes à prática da análise de políticas públicas no Brasil. Planejamento e Políticas Públicas, Brasília: Ipea, v. 21, p. 211-259, 2000.
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OSBORNE, D. Banishing bureaucracy: the five strategies for reinventing government. New York: Plume, 1997. PRADO, O. Governo eletrônico e transparência: a publicização das contas públicas das capitais brasileiras. 2004. 180 p. Dissertação (Mestrado em Administração de Empresas) - Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas, São Paulo, 2004. POLLIT, C.; BOUCKAERT, G. Public management reform: a comparative analysis. New York: Oxford University Press, 2000. RONAGHAN, S. Benchmarking e-government: a global perspective. Assessing the progress of the UN member states. United Nations Division for Public Economics and Public Administration & American Society for Public Administration May, 2002. SACRISTAN. Educar e convivir com la cultura global. Madri, Espanha: Morata, 2001. SORJ, A luta contra a desigualdade na era da informação. Rio de Janeiro, RJ: Jorge Zahar, 2003. WARSCHAUER, Technology of social inclusion, Cambridge: MIT 2003.

OUTRAS FONTES:
http://www.e.gov.br – E-gov - acesso em 21.05.2009. http://www.acessa.com/gramsci - Nogueira, Marco Aurélio - acesso em 21.05.2009. http://www socinfo.org.br – Sociedade da informação – acesso em 21.05.2009. http://www.navegapara.pa.gov.br/ acesso em 21.05.2009.

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ONTOLOGIA PARA COMUNIDADES INFORMACIONAIS EM E-GOV, UTILIZANDO A FERRAMENTA ONTOKEM
Professora da UNISUL Programa de Pós‑Graduação em Engenharia e Gestão do Conhecimento Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Bairro Trindade CEP 88040‑970 Florianópolis – SC – Brasil
joseane.miranda@unisul.br

Joseane Borges de Miranda

Professora da UFSM Programa de Pós‑Graduação em Engenharia e Gestão do Conhecimento Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Bairro Trindade CEP 88040‑970 Florianópolis – SC – Brasil
jucara@smail.ufsm.br

Juçara Salete Gubiani

Professor da UFAL Programa de Pós‑Graduação em Engenharia e Gestão do Conhecimento Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Bairro Trindade CEP 88040‑970 Florianópolis – SC – Brasil
mbraga@fapeal.br

Marcus de Melo Braga

Professor da UFSC Programa de Pós‑Graduação em Engenharia e Gestão do Conhecimento Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Bairro Trindade CEP 88040‑970 Florianópolis – SC – Brasil
hugo.hoeschl@ijuris.org

Hugo Cesar Hoeschl

RESUMO
O e-Gov possibilita a ampliação da prestação de serviços à comunidade e, por seu intermédio, o poder público aproximou-se do cidadão e das unidades produtivas da sociedade brasileira, principalmente com os recursos proporcionados pelo uso da internet. No seu estágio atual, há diversos graus de maturidade dos projetos de e-Gov,
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contribuindo para o aperfeiçoamento dos serviços prestados a população. A criação de Comunidades Informacionais aumenta a eficiência da interação entre e-Gov e o cidadão onde as discussões governamentais poderão ser centralizadas em um ambiente Web, possibilitando a ampliação da democracia. O objetivo deste artigo é o de propor uma ontologia para comunidades informacionais que possa ser utilizada em aplicações de e-Gov. A sua principal contribuição é o desenvolvimento de um protótipo de ontologia no domínio apresentado, utilizando as ferramentas ontoKEM e Protégé, que possa ser, posteriormente, ampliada e reutilizada em aplicações de e-Gov.

PALAVRAS-CHAVE
e-Gov; Ontologia; Comunidades; Engenharia do Conhecimento.

1. INTRODUÇÃO
A nova economia do conhecimento pautada em um fator de produção mais abstrato requer mudanças em toda a sociedade e na forma como a informação é tratada. Os três principais agentes econômicos, as famílias, as empresas e o governo precisam se adequar às novas formas de produção demandas do comércio após o desenvolvimento das TIC’s (Tecnologias de Informação e comunicação). Castells (2003) destaca a importância da informação para a nova organização da sociedade em rede. O conhecimento como fator competitivo nas organizações requer ação humana, como é trabalhado pelos autores de gestão do conhecimento, tais como, Terra, (2001), Davenport, (1998), Sveiby, (2001), Nonaka & Takeuchi (1997). Neste trabalho aborda-se a formação de comunidades informacionais, como opção de governo eletrônico e sua interação com os cidadãos dando dinamicidade a estas relações e maior possibilidade de resolução de problemas a partir da utilização de ciências cognitivas e inteligência artificial em prol da democracia e do crescimento econômico. O Governo Eletrônico conceitualmente baseia-se no uso da tecnologia da informação para auxiliar as ações governamentais em suas diferentes instâncias, G2G, G2C, G2B, segundo Hoeschl, (2005) e Rover, (2005). Nesse sentido, as ações no âmbito do governo para o cidadão encontram-se bastante limitadas a sites informacionais e prestação de serviços on-line, considerando que as tecnologias emergentes e disponíveis possibilitam um leque bastante amplo de aplicações indo ao encontro dos princípios do e-Gov. Nesse contexto, as comunidades informacionais apresentam-se como uma das possíveis formas de captar a opinião do cidadão. Esta interação objetiva construir informações que embasem políticas públicas de acordo com os anseios e necessidades dos cidadãos, bem como a transparência das ações. As Comunidades Informacionais em e-Gov, são espaços de discussão em ambientes na web, de acesso gratuito. As comunidades são estabelecidas para
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discussão de assuntos de interesse comum através da criação de ontologias. A intenção é a criação de fóruns sobre temáticas governamentais, enquetes e plebiscitos informais, bem como permitir o monitoramento das ações do governo. A ferramenta proposta resultante da ontologia tem como fontes de informação, órgãos governamentais de mídia eletrônica e fontes digitais comunitárias e livres. O objetivo deste artigo é propor o desenvolvimento de uma ontologia própria do contexto de Governo Eletrônico, a qual deverá ser mantida pelas comunidades que se integrarão ao projeto.

2. ONTOLOGIAS
O conceito mais amplo de ontologia, segundo Blanc (1998), está relacionado com a parte da filosofia que estuda a essência dos seres ou entes, ou seja, procura explicar e caracterizar o ser enquanto ser, transpondo sua intimidade, qualidades, e analisa as características que o tornam um ser único ou um ser comum. Na década de 90 o termo ontologia passou a ser intensamente utilizado na área de computação, especificamente em Inteligência Artificial. Nesse contexto, a ontologia é responsável por definir a estruturação básica para a representação de uma base de conhecimentos, objetivando assim facilitar sua compreensão e permitir seu compartilhamento. No entanto, segundo Moreira (2003), é necessário que haja uma clara compreensão dos comprometimentos ontológicos, ou seja, apenas o que é relevante ao domínio de estudo, para que possa ser representado em uma base de conhecimentos.
Figura 1. Modelo de desenvolvimento de ontologia.

(Adaptado de Gómez-Pérez, 1999.)

Segundo Grauber (1993) “uma ontologia é uma especificação formal explícita de uma conceitualização compartilhada”. Freitas (2004), classifica esta definição da seguinte forma: o termo formal significa que a representação é
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compreensível para sistemas computacionais; explícita denota que os elementos e suas restrições estão claramente definidos; conceitualização se trata de um modelo abstrato de uma área de conhecimento ou de um universo limitado de discurso; compartilhada, por tratar-se de um conhecimento consensual, seja uma terminologia comum da área modelada, ou acordada entre os desenvolvedores dos agentes que se comunicam. Para Freitas (2004), o desenvolvimento de ontologias envolve as etapas de desenvolvimento e suporte, conforme Figura 1. A etapa de desenvolvimento compreende atividades de: especificação – determina o propósito e escopo da ontologia a ser confeccionada, faz-se uma análise preliminar onde deve-se considerar se é possível o reuso de ontologias já existentes. Com relação ao escopo, sugere-se a elaboração de uma lista questões de competência Essa lista servirá para avaliar a ontologia durante o desenvolvimento. conceitualização – é a fase mais crítica, pois é a mais ligada à definição do conhecimento. Nela ocorre a maior parte das atividades de suporte de aquisição e avaliação. Usando a metodologias 101 (NOY e MCGUINNESS, 2001) essa fase compõe-se das seguintes sub-fases: 1. definição do escopo da ontologia; 2. verificação das ontologias existentes na área, para avaliar a possibilidade de reuso ou integração de ontologias; 3. enumeração dos termos importantes da ontologia; 4. definição das classes e a hierarquia das classes; 5. definição das propriedades das classes. implementação – transformará a ontologia em algo computável. Fará com que o conhecimento nela representado possa contar com o concurso de máquina para ser identificado e considerado para vários fins. Esta etapa corresponde à geração de arquivos em linguagens de representação do conhecimento. Já a etapa de suporte compreende atividades de: aquisição – corresponde à elicitação de conhecimentos necessários para a construção da ontologia; avaliação – verifica se a ontologia atende aos requisitos e propósitos planejados; documentação – todo o registro de requisitos, cenários e motivação, as descrições textuais da conceituação, a ontologia forma e os critérios de projeto adotados; integração – fusão com ontologias já existentes. Etapa de decisão: sugerir ou avaliar a possibilidade de integrá-la com outras ontologias disponíveis. Inúmeras vantagens têm sido apresentadas na literatura para a adoção de ontologias. Em principio elas não apresentam sempre a mesma estrutura, mas
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existem características e componentes básicos comuns presentes em grande parte delas. Mesmo apresentando propriedades distintas, é possível identificar tipos bem definidos Almeida e Bax (2003). Conforme (Gruber, 1996; Noy & Guinness, 2001) uma ontologia pode ser definida como as regras que regulam a combinação entre conceitos (organizados em uma taxonomia) e relações (i.e., o tipo de interação entre os conceitos) em um domínio do conhecimento e permite aos usuários formularem consultas a instâncias (elementos específicos, ou seja, os próprios dados) usando conceitos definidos pela ontologia. É possível identificar alguns benefícios do uso de ontologias em várias áreas do conhecimento. Já é possível encontrar repositórios de ontologias as quais permitem integração e reuso. Segundo Freitas (2004), algumas vantagens podem ser elencadas tais como: • especificar um vocabulário para representação exata do conhecimento, sem interpretações ambíguas; • permitir o compartilhamento do conhecimento entre homem e máquinas; • possibilitar uma mesma conceitualização em várias linguagens, através do mapeamento da linguagem da ontologia; • permitir aos desenvolvedores reusarem ontologias e bases de conhecimento, promovendo ganhos em termos de esforços, tempo e de investimentos. As ontologias, segundo Studer, Benjamins e Fensel (1998), são criadas a partir de um domínio de conhecimento consensual e são desenvolvidas num processo cooperativo envolvendo várias pessoas em diferentes localidades. Qualquer Sistema baseado em Conhecimento é composto, pelo menos, de duas partes fundamentais: conhecimento do domínio e conhecimento de solução de problemas. Ontologias podem exercer um papel fundamental na análise, modelagem e implementação de conhecimento de um domínio, além de terem influência sobre o conhecimento de resolução de problemas. Ontologias são opções interessantes para facilitar a comunicação entre indivíduos nas organizações, por proverem termos, significados, relações e restrições que devem ser aceitas por todas as pessoas envolvidas neste processo de comunicação. Ontologias, no ambiente da Internet, são alternativas interessantes para a melhoria da gestão do conhecimento (STUDER, BENJAMINS e FENSEL, 1998). Apesar de o termo ontologia ser amplamente usado na Engenharia do Conhecimento, há vários tipos de ontologias. Mesmo tendo em comum a idéia de capturar o conhecimento estático de certo domínio, elas variam consideravelmente. Segundo Studer, Benjamins e Fensel (1998), elas podem ser classificadas em quatro grupos: • Ontologias de Domínio – capturam o conhecimento válido num tipo particular de domínio;
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• Ontologias Genéricas – têm validade em vários domínios; • Ontologias de Aplicação – contém todo o conhecimento necessário para modelar um domínio particular; • Ontologias de Representação – não se atrelam a nenhum domínio particular; provêem entidades representacionais sem estabelecer o que deve ser representado. Um exemplo delas são as ontologias de frame. A Engenharia do Conhecimento também está relacionada com o conhecimento de resolução de problemas e, por isso existem as ontologias de métodos e de tarefas. Ontologias de tarefas provêem termos específicos para tarefas particulares e ontologias de métodos provêem termos específicos para Métodos de Solução de Problemas particulares (STUDER, BENJAMINS e FENSEL, 1998). Studer, Benjamins e Fensel (1998) afirmam que parte da pesquisa sobre ontologias está relacionada com a concepção e construção de tecnologias que possibilitem o reuso de ontologias em larga escala, a nível mundial. Construir uma ontologia para um domínio particular requer, basicamente, uma análise profunda, revelando os conceitos mais relevantes, os atributos, relações, restrições, instâncias e axiomas desse domínio. Essa análise do conhecimento resulta normalmente numa taxonomia de conceitos, uma espécie de hierarquia, com seus atributos, valores e relações. Informações adicionais sobre as classes e suas relações entre si, como também as restrições de valores dos atributos para cada classe são capturados nos axiomas. Quando um modelo satisfatório do domínio é construído duas coisas devem ser feitas, antes de ele poder ser considerado uma ontologia: 1) diferentes níveis de generalidade devem ser diferenciados em correspondência com diferentes níveis de reusabilidade; 2) o modelo de domínio deve refletir um entendimento comum ou um consenso desse domínio. Para Studer, Benjamins e Fensel (1998) muitas ontologias existentes são bons modelos de um domínio, mas não podem ser qualificadas como ontologias porque não satisfazem esses dois critérios. Os autores enumeram os princípios que devem ser considerados na construção de ontologias: • • • • • • • modularidade; coerência interna; expansibilidade; problemas de codificação mínimos; definições em torno de categorias; inclusões mínimas de teorias; comprometimento ontológico mínimo.

Uma ontologia é otimizada quando satisfaz, ao máximo, todos esses princípios, apesar de alguns deles serem contraditórios e, ao satisfazer um, viola-se outro. O ideal do reuso no desenvolvimento de ontologias prega a construção por meio de suas combinações. Existem diversos meios de combinar ontologias.
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Studer, Benjamins e Fensel (1998) apresentam os mais conhecidos: por inclusão, por restrição e refinamento de polimorfismo. A inclusão de uma ontologia em outra tem o efeito de estendê-las. A combinação de ontologias por restrição permite que uma ontologia adicionada à outra se aplique a um subconjunto restrito da primeira, para o qual ela é projetada. O terceiro modo de combinação, o refinamento de polimorfismo deriva das abordagens de orientação a objeto e tem uma aplicação equivalente. Para o propósito deste trabalho, sistemas gerenciadores de bancos de dados (SGBD) poderiam ser adotados, entretanto possuem algumas desvantagens sobre ontologias. No contexto desta pesquisa, a principal dificuldade em usar SGBD ao invés de ontologia reside no fato de que apesar da linguagem SQL permitir consultas, ela não possibilita inferências. As ferramentas utilizadas no desenvolvimento deste trabalho foram o ontoKEM e o Protégé. A principal motivação se resume na construção de uma ontologia que permita o resumo e a utilização estratégica das informações relativas a e-Gov que possam ser aglutinadas sob a forma de comunidades informacionais na web. O ontoKEM (RAUTENBERG et al., 2008), é uma ferramenta de engenharia do conhecimento desenvolvida pelo Laboratório de Engenharia do Conhecimento da Universidade Federal de Santa Catarina (LEC-UFSC), para construção de ontologias, baseado-se nas metodologias 101 (NOY e MCGUINNESS, 2008), On-to-Knowledge (FENSEL e HERMELEN, 1999) e METHONTOLOGY (GÓMEZ-PERÉZ et al, 2004).

3. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
Segundo (LÓPEZ, 1999), metodologias são desenvolvidas para buscar a sistematização na construção e a manipulação de ontologias. O uso de metodologias é importante, pois evita uma prática comum entre os desenvolvedores de ontologias que é passar diretamente da fase de aquisição do conhecimento para a implementação. Com o estudo da literatura, verifica-se que não existe ainda uma metodologia consensual que crie fases padronizadas para o desenvolvimento de ontologias, mas já existem várias propostas e métodos com fases e técnicas próprias que podem ser usados no desenvolvimento de ontologias. Neste trabalho optou-se por aplicar a metodologia proposta por Noy e McGuinness (2001), usada na ferramenta ontoKEM (RAUTENBERG et al. 2008). Na ferramenta ontoKEM, é possível implementar classes, relações e propriedades. Restrições e instâncias, neste trabalho, foram implementadas no ambiente do Protégé desenvolvido pela universidade de Stanford (GENNARI et al, 2003). O processo inicial do desenvolvimento da ontologia foi apoiado pela ferramenta ontoKEM. A ontologia foi modelada, suas classes e relacionamentos
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definidos para exportação das descrições do modelo de domínio para a linguagem de ontologia OWL (Ontology Web Language), padrão da W3C. Esta transcrição constitui uma das funcionalidades da ferramenta OntoKEM, que permite a exportação dos dados para um arquivo OWL, podendo assim, ser editada posteriormente por uma ferramenta de edição de ontologias como o Protégé, adotada nesta pesquisa. A plataforma Protégé suporta a modelagem de ontologias usando a linguagem OWL. O arquivo exportado foi salvo no padrão XML (Extensible Markup Language) e importado pelo Protégé como XML/RDF. Esse procedimento foi feito criando um novo projeto no Protégé e selecionando o arquivo salvo anteriormente no OntoKEM. A ferramenta ontoKEM fornece total interoperabilidade com a ferramenta Protégé por meio da importação direta do código na linguagem OWL. Após a importação do código OWL para o ambiente do Protégé, foram inseridas algumas instâncias, com o objetivo de responder questões relativas ao tema do presente trabalho. A abordagem Protégé, segundo Studer, Benjamins e Fensel (1998), dá suporte ao desenvolvimento de Sistemas Baseados em Conhecimento por meio de reuso de Métodos de Resolução de Problemas e Ontologias. O Protégé enfatiza a geração de ferramentas customizadas de aquisição do conhecimento por meio de Ontologias. O Protégé fundamenta-se numa estrutura de tarefa-método-decomposição. No Protégé a entrada e a saída de um método são especificadas numa Ontologia de Método que define os conceitos e relacionamentos que são usados pelo Método de Resolução de Problemas para prover a funcionalidade. Um segundo tipo, chamado Ontologia de Domínio, define uma conceitualização compartilhada de um domínio. Ambas as ontologias são componentes reusáveis para a construção de um Sistema Baseado em Conhecimento. Um terceiro componente, a Ontologia da Aplicação, estende a Ontologia de Domínio com os respectivos conceitos dos Métodos de Resolução de Problemas e seus relacionamentos. A Ontologia de Aplicação é associada à Ontologia de Método por meio de três mapeamentos dessas relações: Mapeamento de Tradução, Mapeamento de Filtragem e Mapeamento de Classes. No de Tradução (ou Renomeação) os termos específicos do Domínio são traduzidos em termos específicos do Método. No de Filtragem, busca-se selecionar um subconjunto das instâncias do Domínio como instâncias do respectivo conceito do Método. Finalmente, no mapeamento de Classes, buscam-se funções para computar as instâncias dos conceitos do Método a partir das definições dos conceitos da Aplicação em vez das instâncias da Aplicação. A abordagem do Protégé recomenda o reuso do conhecimento do Domínio somente nos casos em que os mapeamentos necessários possam ser relativamente simples. Uma das principais características do Protégé é que ele pode gerar ferramentas de aquisição de conhecimento a partir das ontologias de Domínio ou de Aplicação. O Protégé inclui componentes que possibilitam a partir de uma ontologia gerar uma ferramenta de aquisição que permita que os especialistas
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de um domínio insiram instâncias dos conceitos desse Domínio (STUDER, BENJAMINS e FENSEL, 1998).

4. RESULTADOS
Nesta seção serão apresentados os resultados obtidos até o momento. Cabe ressaltar que este é um trabalho ainda em desenvolvimento, portanto apresenta resultados preliminares. Na subseção seguinte, a ontologia desenvolvida neste trabalho é apresentada, utilizando-se os princípios de modelagem das ferramentas ontoKEM (RAUTENBERG et al. 2008) e Protégé (GENNARI et al, 2003). As perguntas de competência projetadas na modelagem feita no ambiente do ontoKEM, abrangem questões que abordam os diversos tipos de problemas a serem discutidos pelas comunidades, que variam de esfera administrativa à estância de e-Gov. Questões que norteiam os temas das possíveis enquetes, fóruns e blogs, também foram inseridas nesta primeira tentativa de construção da ontologia. A partir de trinta questões elaboradas inicialmente, estabeleceu-se alguns termos e relações sugeridas. Entre os mais relevantes podemos destacar as instâncias de e-Gov: G2G, G2B e G2C, os temas dos fóruns, enquete e plebiscitos, as esferas de governo: União, Estado e Município, os tipos de assuntos abordados tais como segurança, saúde meio ambiente. Na construção do vocabulário alguns termos foram descartados e/ou modificados, buscando-se uma melhor adequação ao tema proposto.
Figura 2. Exemplo de uma questão. 30) O tipo de problema envolve a instância G2B? Termos sugeridos: G2B; Relações sugeridas: tem_Gov;

As classes mais relevantes foram os vários assuntos, por exemplo, Assuntos da Indústria, Agricultura, Educação e assim por diante. Estas classes norteiam os temas e as relações com as instâncias de e-Gov. Todas estão ligadas a uma classe inicial (Thing). Outro grupo de classes se refere ao tipo de agente que participa das comunidades tais como: os empresários, os cidadãos e políticos, além dos tipos de discussões possíveis e os tipos de relações de e-Gov. Na ferramenta ontoKEM pode-se criar e descrever classes, o que facilita a sua documentação, e ao transportar em OWL todas essas descrições são mantidas. Nas classes criadas, algumas propriedades relevantes são: tem_nome; tem_tipo_de_agente; tem_problema; grau_de_importancia, dentre outras. O projeto não estabeleceu nenhuma restrição relevante. As principais relações
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estabelecidas foram funcionais, ou seja, o domínio esta ligado a apenas uma instância do range.
Figura3. ontoKEM.

Figura 4. Protégé.

Na ontologia proposta temos uma hierarquia de quatro classes: comunida‑ de informacionais, esfera administrativa, tipos de agentes que discutem tipos
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de discussões e tipos de relações de e-Gov. Em comunidades informacionais temos como subclasses todos os assuntos passíveis de discussão, tais como assuntos do judiciário. As subclasses de esfera administrativa são: a União, Estado e Município, e de tipos de discussão: plebiscito e fórum. O ontoKEM com a sua metodologia guiada pelas perguntas iniciais e pelo registro de relatórios que permitem ao usuário documentar todo o processo de criação de um projeto de ontologia e facilita o trabalho de desenvolvimento de ontologias. Com relação às classes, elas são facilmente identificadas depois da criação do vocabulário conforme podemos ver na figura 2. O mais importante na definição de classe é ter claro que ela define um conjunto de elementos do mesmo domínio dentro de um projeto de ontologia e que as subclasses devem ser um tipo pertencente à classe, na hierarquia, ou na herança de hierarquia quando associamos algumas propriedades podemos perceber se as classes estão bem definidas. Exportação para OWL: O ontoKEM possibilita a criação de um arquivo OWL, que permite a utilização de outras ferramentas de analise de ontologia garantindo interoperabilidade, neste caso com o Protégé. A figura 3 ilustra as classes do projeto no Protégé. O desenvolvimento da ontologia Comunidades Informacionais, contou inicialmente com o auxilio da ferramenta ontoKEM que facilitou a organização das questões de competência relevantes e produziu relatórios de todo o processo. As principais dificuldades encontradas foram em estabelecer a clareza do domínio e a identificação de suas respectivas classes e subclasses. A possibilidade de criar uma lista de questões de competência auxilia no alcance do objetivo geral da ontologia.

5. CONCLUSÃO
Este trabalho apresentou uma proposta de uma ontologia para modelar de maneira precisa o conhecimento no domínio de comunidades informacionais para que possa vir a ser consultado ou até mesmo reutilizado em novas aplicações em e-Gov. A aplicação da ontologia Comunidades Informacionais permitirá o acompanhamento das discussões dos problemas de e-Gov em suas várias esferas administrativas, possibilitando maior efetividade nas macro-políticas. No contexto desta pesquisa, a própria ontologia ao descrever o domínio já é um resultado importante em termos de avanço na área, cumprindo o objetivo inicial proposto, ou seja, de disponibilizar uma ferramenta computacional que possibilite a organização do conhecimento sobre o tema de comunidades informacionais, para a sua aplicação em e-Gov. Durante o desenvolvimento da ontologia apresentada, observou-se que a atividade de construção de uma ontologia não é algo trivial, principalmente em
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áreas em que se exige um nível de conhecimento elevado do domínio a ser modelado. Entretanto, a experiência com o uso das ferramentas de edição de ontologias do OntoKEM e do Protégé demonstrou a utilidade e a facilidade de tais ferramentas na construção de ontologias, permitindo o gerenciamento de todo o processo de desenvolvimento e obtendo-se um resultado num cenário muito próximo da realidade. A ontologia aqui apresentada pode vir a servir de base para trabalhos futuros que utilizem os conceitos de Web Semântica para sistemas de recuperação de informações. Na próxima etapa da pesquisa, além de instanciar a ontologia com objetos reais, pretende-se implementar algumas restrições e regras para que o conhecimento representado possa ser explorado por máquinas de inferência visando à geração de novos conhecimentos.

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DESENVOLVIMENTO DE SISTEMAS DE GESTÃO DA SEGURANÇA DA INFORMAÇÃO ATRAVÉS DA INTEGRAÇÃO DAS NORMAS ISO/IEC 27001:2006 E ISO/IEC 21827 (SSE-CMM)
Programa de Pós‑Graduação em Engenharia de Produção (PPGEP) ‑ Universidade Federal de Santa Maria (UFSM)‑ Santa Maria, RS ‑ Brasil
josi.unc@gmail.com

Josiane Kroll

Laboratório de Computação Aplicada (LaCA) – Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) ‑ Santa Maria, RS ‑ Brasil
marcosdornellas@gmail.com

Marcos C. d’Ornellas

Laboratório de Computação Aplicada (LaCA) – Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) ‑ Santa Maria, RS ‑ Brasil
lisandramf@gmail.com

Lisandra Manzoni Fontoura

RESUMO
As organizações estão cada vez mais buscando implementar sistemas de gestão da segurança da informação que estejam atrelados às normas de segurança. No entanto, se desconhece a relação existente entre as normas de segurança propostas pela literatura, e se essas podem ser usadas em conjunto de forma a trazer maiores garantias de proteção. Neste artigo serão analisadas duas normas de segurança, a ISO/IEC 21007:2006 e a ISO/ IEC 21827, que são recomendadas para o desenvolvimento da gestão da segurança da informação. Cada norma será descrita e discutida com o intuito de encontrar evidências que forneçam as organizações uma visão conjunta do propósito de implantação de cada norma. O artigo relaciona e integra as normas de forma a auxiliar as organizações no estabelecimento e manutenção de sistemas de gestão da segurança da informação que possam atender as necessidades organizacionais. Também será discutida a Instrução Normativa GSI Nº 1, de 13 de junho de 2008, que trata disciplina a Gestão de Segurança da Informação e Comunicações na Administração Pública Federal, direta e indireta, a fim de relacioná-la com a utilização das normas de segurança.

PALAVRAS-CHAVE
Gestão da Segurança da Informação; ISO/IEC 27001:2006; ISO/IEC 21827; ISO/IEC 17799:2005; Normas de Segurança; Instrução Normativa GSI Nº 1.
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1. INTRODUÇÃO
Há inúmeras razões para se desenvolver sistemas de gestão da segurança da informação (SGSI), dentre elas garantir a continuidade dos negócios, a boa reputação, a proteção dos ativos, o cumprimento de leis e regulamentações, o fortalecimento dos objetivos do negócio, a minimização dos riscos entre outras (WIANDER, 2007). Sem o SGSI, as organizações podem sofrer as consequências de violações causadas pela falta de segurança. A falta de segurança produz o descontentamento tanto dos clientes como dos próprios funcionários da organização, gerando danos financeiros e morais que em muitas situações são irreparáveis. Para o desenvolvimento das organizações e de suas soluções, a implementação da gestão da segurança da informação é um elemento fundamental para o sucesso (BEZERRA; NAKAMURA; RIBEIRO, 2006). As organizações que buscam desenvolver um SGSI procuram suporte nas documentações de segurança. Há várias ferramentas, métodos, checklists e normas para a construção de sistemas de gerenciamento da segurança da informação (WIANDER, 2007). A norma ISO/IEC 27001:2006 é uma referência para o desenvolvimento de SGSI e se estabelece como um guia para a organização (ABNT NBR ISO/IEC 27001, 2006). Outra norma que também é usada para o desenvolvimento de SGSI é ISO/IEC 21827 (SSE-CMM) que é voltada ao projeto de engenharia da segurança, sendo de grande valia para implementação de processos de segurança (SSE-CMM, 2003). Ambas as normas, são distintas e se desconhece a relação que uma norma de segurança possui com a outra e como ambas podem contribuir para garantir e fortalecer a segurança das informações. Neste artigo serão descritas e analisadas as normas ISO/IEC 27001:2006 e a ISO/IEC 21827(SSE-CMM) buscando relacioná-las de forma que se possa compreender o processo de implementação e estabelecimento de cada uma. O objetivo é verificar como essas normas podem ser integradas para o desenvolvimento de um SGSI que forneça maiores garantias de proteção. Também será analisada a abordagem e a estrutura que cada uma fornece para o seu desenvolvimento. Ainda serão evidenciados os benefícios que podem obtidos através da integração de normas de segurança. Este artigo está organizado da seguinte forma: na seção 2, são apresentados os aspectos de desenvolvimento de um SGSI. Na seção 3, são apresentadas as normas ISO/IEC 27001:2006 e ISO/IEC 21827 com suas estruturas e abordagens de implantação. Na seção 4, as normas são analisadas, discutidas e relacionadas. Na seção 5, é mostrado como as normas descritas podem ser integradas, quais os benefícios provenientes dessa combinação e também é feita uma discussão sobre a metodologia definida pela Instrução Normativa GSI Nº 1. Por fim, a seção 6 traz as conclusões obtidas com o desenvolvimento do estudo.
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2. O DESENVOLVIMENTO DE SISTEMAS DE GESTÃO DA SEGURANÇA DA INFORMAÇÃO (SGSI)
A necessidade de garantir a confidencialidade, integridade e disponibilidade das informações faz com que as organizações estabeleçam um SGSI (HERRERA, 2005). Um SGSI é uma maneira de proteger e de gerenciar as informações sobre uma abordagem de riscos do negócio, que estabelece, implementa, monitora, revisa, mantém e melhora a segurança da informação (HANASHIRO, 2007). A coleção de componentes de segurança requeridos para um sistema ser implementado cuidadosamente, evitando o ataque de ameaças e a exposição a riscos, é chamado de SGSI (DEY, 2007). O desenvolvimento de um SGSI não é uma tarefa fácil (DEY, 2007). As organizações devem analisar e projetar meios de assegurar a segurança para manter a continuidade dos negócios. Processos necessários devem ser definidos para proteger os ativos da informação e políticas e procedimentos de segurança devem ser estabelecidos. No desenvolvimento de um projeto de SGSI é aplicado um conjunto adequado de controles tais como políticas, processos, procedimentos, estruturas organizacionais e funções de software e hardware (HANASHIRO, 2007). Esse conjunto de controles de segurança é dado por normas e guias de segurança. A efetividade de um SGSI desenvolvido por uma organização está condicionada à efetividade dos controles de segurança da informação disponíveis (HERRERA, 2007). Sem a implementação adequada dos controles ou sem o apoio das normas de segurança, um SGSI pode não atender às necessidades de segurança organizacionais.

3. NORMAS DA SEGURANÇA
As normas de segurança fornecem uma abordagem de gerenciamento sistemática adotada para melhoria das práticas de segurança. Elas contribuem para quantificar um nível aceitável de risco e implementar medidas apropriadas de segurança que garantam a confidencialidade, integridade e disponibilidade das informações (DEY, 2007). Nesta seção serão apresentadas duas normas de segurança, a ISO/ IEC 27001:2006 recomendada pela Instrução Normativa GSI Nº 1 e a ISO/ IEC 21827 indicada para a melhoria dos processos de segurança organizacaionais. Essas normas terão descritos seus propósitos e estruturas de desenvolvimento.
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3.1 Norma ISO/IEC 27001:2006
A norma ISO/IEC 27001:2006 foi construída baseada na norma britânica BS7799 e na ISO/IEC 17799 (ABNT NBR ISO/IEC 27001, 2006). Seu objetivo é proporcionar um modelo para o estabelecimento, implementação, funcionamento, acompanhamento, revisão, manutenção e melhoria de um SGSI documentado dentro do contexto dos riscos de negócio globais da organização (FENZ et al, 2007). Ela pode ser aplicada em todos os tipos de organizações como por exemplo, empreendimentos comerciais, agências governamentais, organizações sem fins lucrativos, etc. Esta norma é adotada para o estabelecimento de estratégias de segurança pela organização e pode ser usada para avaliar a conformidade pelas partes interessadas internas e externas (ABNT NBR ISO/IEC 27001, 2006). O SGSI projetado pela norma assegura a seleção de controles de segurança adequados e proporcionados para proteger os ativos de informação e propiciar confiança às partes interessadas. Todos os controles de segurança recomendados pela norma ISO/IEC 27001:2006 são encontrados na norma ISO/IEC 17799:2005. A norma ISO/IEC 17799:2005 está contida na ISO/IEC 27001:2006, ou seja, a norma ISO/IEC 27001:2006 fornece um processo definido de implantação dos controles da norma ISO/IEC 17799:2005. A norma ISO/IEC 27001:2006 aplica um sistema de processos dentro de uma organização, junto com a identificação e interações destes processos. Essa abordagem de processos enfatiza a importância dos seguintes aspectos: • Entendimento dos requisitos de segurança da informação de uma organização e da necessidade de estabelecer uma política e objetivos para a segurança de informação; • Implementação e operação de controles para gerenciar os riscos de segurança da informação de uma organização no contexto dos riscos de negócio globais da organização; • Monitoração e análise crítica do desempenho e eficácia do SGSI; e • Melhoria contínua baseada em medições objetivas. A norma ISO/IEC 27001:2006 incorpora o ciclo Plan‑Do‑Check‑Act (PDCA), que é adotado em toda a estrutura dos processos do SGSI. O ciclo PDCA baseia-se no ciclo de melhoria continua que consiste em planejar (Plan – P), fazer (Do – D), checar (Check – C) e agir (Act – A). O ciclo PDCA é uma ferramenta importante para a análise e melhoria dos processos organizacionais contribuindo pra a tomada de decisões gerenciais e para o alcance das metas e objetivos da organização (KAJAVA et al, 2006).

3.2 Norma ISO/IEC 21827 (SSE-CMM)
A norma ISO/IEC 21827 ou modelo SSE-CMM (Systems Security Engineering Capability Maturity Model) foi desenvolvida pelo ISSEA
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(International Systems Security Engineering Association) em 1999. Esta norma descreve as características essenciais que um processo de engenharia da segurança da informação deve possuir para assegurar a boa segurança (SSE-CMM, 2003). A norma ISO/IEC 21827 não prescreve uma sequência ou um processo particular, mas captura as práticas que são geralmente observadas na indústria. Esta norma é designada para todos os tipos de organizações, sendo usada para a melhoria e avaliação da capacidade de maturidade dos processos de segurança (SG-SBP, 2008). A estrutura de desenvolvimento da norma ISO/IEC 21827 é dada por 22 PAs (Process Areas), divididas em dois grupos, Práticas Base de Segurança e Práticas Base Organizacionais e do Projeto. A estrutura de distribuição das PAs em seus grupos correspondentes pode ser vista na Tabela 1:
Tabela 1. Estrutura de distribuição da PAs da norma ISO/IEC 21827. PAs (Process Areas) PA01 - Administrar controles de segurança PA02 - Avaliar impacto PA03 - Avaliar riscos de segurança PA04 - Avaliar ameaças PA05 - Avaliar vulnerabilidades Práticas Base PA06 - Construir argumentos de segurança de Segurança PA07 - Coordenar a segurança PA08 - Monitorar a postura da segurança PA09 - Estabelecer a entrada de segurança PA10 - Especificar necessidades de segurança PA11 - Verificar e validar a segurança PA12 - Assegurar qualidade PA13 - Gerenciar a configuração PA14 - Gerenciar riscos do projeto PA15 - Monitorar e controlar esforço técnico PA16 - Planejar esforço técnico Práticas Base Organizacionais PA17 - Definir processos de engenharia de sistemas da organização e do Projeto PA18 - Melhorar processos de engenharia de sistemas da organização PA19 - Gerenciar evolução da linha do produto PA20 - Gerenciar ambiente de suporte a engenharia de sistemas PA21 - Promover habilidade e conhecimento progressivo PA22 - Coordenar com fornecedores Categorias

A norma ISO/IEC 21827 também define níveis de maturidade dos processos de segurança da organização que são ampliados após o estabelecimento e
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cumprimento das práticas da segurança (BATISTA, 2007). O processo mais “maduro” define uma organização cujos processos são melhores definidos e conduzidos. São seis níveis de maturidade definidos, onde cada um desses níveis consiste de um número de Práticas Genéricas - GP (Generic Practices) que suportam o desempenho das PAs. Os níveis de maturidade atribuídos pela norma ISO/IEC 21827 são: • • • • • • Nível 0 - Práticas base não são realizadas; Nível 1 - Práticas base são realizadas informalmente; Nível 2 - Práticas base são planejadas e monitoradas; Nível 3 - Práticas base estão bem definidas; Nível 4 - Práticas base são controladas quantitativamente; Nível 5 - Práticas base estão em contínua melhoria.

O processo de melhoria e maturidade organizacional da norma ISO/IEC 21827 é realizado por meio do modelo IDEAL que foi desenvolvido pelo SEI - Software Engineering Institute e é usado para definir ações que capacitem as organizações a melhorar seus processos. O modelo IDEAL serve como um guia para iniciar, planejar e implementar ações de melhoria. A palavra IDEAL é um acrônimo do inglês para Iniciar (initiating), Diagnosticar (diagnosing), Estabelecer (establishing), Agir (acting) e Aprender (learning). O modelo IDEAL forma uma infra-estrutura de cinco fases para guiar organizações no planejamento e na implementação de um efetivo programa de melhoria de processos (SSE-CMM, 2003).

4. ANÁLISE DAS NORMAS APRESENTADAS
Para que se possa compreender a relação entre as normas ISO/IEC 27001:2006 e ISO/IEC 21827 foram realizadas duas comparações. Na primeira comparação, as características da norma ISO/IEC 27001:2006 são comparadas com as norma ISO/IEC 21827. Na segunda comparação, são identificados os controles da norma ISO/IEC 17799:2005 que correspondem as PAs da norma ISO/ IEC 21827. As informações para critério de comparação foram obtidas dos documentos ABNT NBR ISO/IEC 27001:2006 (ABNT NBR 27001, 2006), ABNT NBR ISO/IEC 17799:2005 (NBR ISO/IEC 17799, 2005) e Systems Security Engineering Capability Maturity Model (SSE-CMM) Model Description Document vesion 3.0 (SSE-CMM, 2003). Com resultado da primeira comparacão, foi observado que as normas apresentam duas visões que estão permanentemente presentes antes e depois do SGSI ser implementado: a visão funcional e a visão de processos. A visão funcional é representada pela norma ISO/IEC 27001:2006 que fornece uma estrutura de recomendações que deve ser seguida para o desenvolvimento de um SGSI. Já a norma ISO/IEC 21827 representa uma visão de processos, que fornece as práticas que devem ser implementadas para a construção de um SGSI.
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Com relação ao ciclo de melhoria, que indica uma ferramenta de qualidade para o desenvolvimento da norma, verifica-se que a ISO/IEC 27001:2006 utiliza o ciclo de melhoria PDCA para a análise e melhoria dos processos organizacionais, enquanto a ISO/IEC 21827 utiliza o modelo IDEAL. Ambos os modelos consistem em um ciclo de atividades modelado para guiar a melhoria contínua e para desenvolvimento adequado de cada norma. Tanto a norma ISO/IEC 27001:2006 como a norma ISO/IEC 21827 podem ser adotadas por qualquer tipo de organização, seja ela de pequeno ou grande porte. Isso indica que não há restrições quanto ao uso das normas e a escolha de aderir a uma ou a outra norma de segurança, deve ser direcionada ao atendimento dos objetivos de segurança organizacionais. O desenvolvimento da norma ISO/IEC 27001:2006 está baseada na implementação dos controles de segurança contidos na ISO/IEC 17799:2005. Dessa forma, a ISO/IEC 27001:2006 implementa a ISO/IEC 17799:2005. Na ISO/IEC 21827 não há um documento de segurança complementar para o seu desenvolvimento. Ela é implantada por meio da implementação das PAs e é avaliada pelo método SSAM (SSE‑CMM Appraisal Method).
Tabela 2. Quadro comparativo de características das normas ISO/IEC 27001:2006 e ISO/IEC 21827. Normas ISO/IEC 27001:2006 ISO/IEC 21827 Estabelecer, revisar, Descrever características de Propósito da norma implementar, acompanhar, segurança de um processo manter e melhorar um SGSI Ferramenta de qualidade PDCA IDEAL Organização que Todas Todas podem fazer uso Norma de complemento ISO/IEC 17799:2005 Não apresenta Recursos de Controles da ISO/ Métricas gerenciamento IEC 17799:2005 Visão de implementação Controles de segurança Processos de segurança Controles da ISO/ Base de implementação Áreas do Processo (PAs) IEC 17799:2005 Pré-condição de Não apresenta Não apresenta implementação Fornecimento de um Melhoria dos processos Principal característica conjunto de recomendações de segurança de segurança Principais características

Uma característica importante da ISO/IEC 21827 é o uso das métricas para avaliar os processos de segurança e estabelecer níveis de maturidade. Essa
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característica está voltada ao gerenciamento da segurança. Já a norma ISO/IEC 27001:2006 foi projetada para permitir a uma organização alinhar ou integrar seu SGSI com requisitos de sistemas de gestão relacionados. As características da norma ISO/IEC 27001:2006 e da norma ISO/IEC 21827 mencionadas anteriormente podem ser vistas no quadro comparativo da Tabela 2. A segunda comparação foi realizada entre as normas ISO/IEC 21827 e ISO/ IEC 17799:2005. A norma ISO/IEC 17799:2005 está contida na norma ISO/ IEC 27001:2006, sendo que as recomendações de segurança da norma ISO/IEC 27001:2006 implicam na implementação dos controles da ISO/IEC 17799:2005. Para essa comparação foram selecionadas 11 PAs referentes as Práticas Base de Segurança da norma ISO/IEC 21827 e foram selecionados controles da norma ISO/IEC 17799:2005. O critério adotado para identificar os controles relacionados com as PAs foi baseado no atendimento dos objetivos e requisitos (Base Practice - BP) de cada PA. Também foi usado como critério de comparação a literatura relacionada as normas e nas publicações oficiais da ABNT e do SEI. Na Tabela 4 são apresentados os controles da ISO/IEC 17799:2005 que estão relacionados com as PAs da ISO/IEC 21827:
Tabela 3. Quadro comparativo das PAs da norma ISO/IEC 21827 com os controles da norma ISO/IEC 27001:2006. ISO/IEC 27001 Descrição das PAs ISO/IEC 17799:2005 Controles relacionados • Documento da política de segurança da informação; • Atribuição de responsabilidades para a segurança da informação; • Processo de autorização para os recursos de processamento da informação; • Recomendações para classificação; • Rótulos e tratamento da informação; • Papéis e responsabilidades; • Responsabilidades da direção; • Conscientização, educação e treinamento em segurança da informação; • Documentação dos procedimentos de operação; • Gestão de mudanças; • Gerenciamento de mudanças para serviços terceirizados; • Procedimentos para tratamento de informação; • Gerenciamento de privilégios; • Gerenciamento de senha do usuário; • Sistema de gerenciamento de senha; • Prevenção de mau uso de recursos de processamento da informação;

PA01 – Administração dos controles de segurança

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PA02 - Avaliação do impacto

• Apresentado no item 4 referente à Introdução da norma ISO/IEC 17799:2005; • Identificação dos riscos relacionados com partes externas; • Inventário dos ativos; PA03 - Avaliação dos • Proprietário dos ativos; riscos de segurança • Uso aceitável dos ativos; • Apresentado no item 4 referente à Introdução da norma ISO/IEC 17799:2005; PA04 - Avaliação • Apresentado no item 4 referente à Introdução de ameaças da norma ISO/IEC 17799:2005; PA05 - Avaliação de • Apresentado no item 4 referente à Introdução vulnerabilidades da norma ISO/IEC 17799:2005; PA06 - Construção • Identificando a segurança da informação, de argumentos quando tratando com os clientes; de garantia • Acordos de confidencialidade; • Identificando segurança da informação nos acordos com terceiros; PA07 - Coordenação • Segregação de funções; da segurança • Acordos para a troca de informações; • Procedimentos para controle de mudanças; • Conformidade com as políticas e normas de segurança da informação; • Comprometimento da direção com a segurança da informação; • Coordenação da segurança da informação; • Contato com autoridades; • Análise crítica independente de segurança da informação; • Gestão de capacidade; • Controles contra códigos maliciosos; PA08 - Monitoração • Controles contra códigos móveis; da postura da • Registros de auditoria; segurança • Monitoramento do uso do sistema; • Proteção das informações dos registros (log); • Registros (log) de administrador e operador; • Registros (log) de falhas; • Vazamento de informações; • Controle de vulnerabilidades técnicas; • Controles de auditoria de sistemas de informação; • Documento da política de segurança da informação; • Análise crítica da política de segurança da informação; • Processo disciplinar; • Políticas e procedimentos para troca de informações; PA09- Fornecer a • Política de controle de acesso; entrada segurança • Registro de usuário; • Restrição de acesso à informação; • Desenvolvimento e implementação de planos de continuidade relativos à segurança da informação;

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PA10 - Especificar as necessidades de segurança

PA11 - Verificação e validação da segurança

• Segurança da documentação dos sistemas; • Uso de senhas; • Autenticação para conexão externa do usuário; • Procedimentos seguros de entrada no sistema (log‑on); • Identificação e autenticação de usuário; • Análise e especificação dos requisitos de segurança; • Integridade de mensagens; • Incluindo segurança da informação no processo de gestão da continuidade de negócio; • Continuidade de negócios e análise/avaliação de riscos; • Estrutura do plano de continuidade do negócio; • Identificação da legislação vigente; • Direitos de propriedade intelectual; • Proteção de dados e privacidade de informações pessoais; • Proteção de ferramentas de auditoria de sistemas de informação; • Entrega de serviços; • Monitoramento e análise crítica de serviços terceirizados; • Cópias de segurança das informações; • Análise crítica dos direitos de acesso de usuário; • Validação dos dados de entrada; • Controle do processamento interno; • Validação de dados de saída; • Testes, manutenção e reavaliação dos planos de continuidade do negócio; • Verificação da conformidade técnica.

Foi observado que nem todos os controles da ISO/IEC 17799:2005 possuem uma relação direta com as PAs da ISO/IEC 21827. Os controles manuseio de mídias, serviço de comércio eletrônico, controles criptográficos, computação móvel e de trabalho remoto e alguns outros, não estão contidos na Tabela 3 por não terem ligação aparentemente direta com o objetivos da PAs. No entanto, a implementação de um projeto de SGSI recomendado pela norma ISO/IEC 27001:2006 está condicionado as necessidades de segurança organizacionais e portanto, nem todos os controles de segurança tem obrigatoriedade de implementação. Na norma ISO/IEC 21827, as PAs também são selecionadas objetivando atender as necessidades de segurança organizacionais e podem ser selecionadas PAs tanto da categoria de Práticas Base de Segurança como do grupo Práticas Base Organizacionais e do Projeto.

5. COMBINAÇÃO DAS NORMAS DE SEGURANÇA ISO/IEC 27001:2006 E ISO/IEC 21827 (SSE-CMM) 5.1 Modelo de referência para o desenvolvimento de SGSI
A Figura 1 apresenta a integração da norma ISO/IEC 27001:2006 e a norma ISO/IEC 21827 no modelo de referência, onde se pode observar:
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• Visão orientada por disciplinas funcionais: no modelo diferenciam-se seis disciplinas funcionais incluindo a segurança fundamental, segurança ambiental e de infra-estrutura, segurança dos sistemas, segurança em comunicações e redes, segurança física e segurança pessoal; • Visão orientada por processos: no modelo estão identificados oito sub-processos de segurança incluindo a gestão estratégica da segurança, cumprimento legal e padrões aplicáveis, identificação, classificação e avaliação de ativos, análise e avaliação de riscos de segurança, tratamento e gestão de riscos de segurança, gestão da segurança operacional, segurança das operações – condições normais e segurança das operações – condições anormais; • Segurança Fundamental: Observando a Tabela 4, podemos observar que a mesma contém um conjunto de controles e sub-processos definidos em ambas as normas ISO/IEC 21827 e ISO/IEC 27001:2006 que são imprescindíveis para que o processo de segurança exista não só na melhoria da sua capacidade, mas também das necessidades específicas de segurança em áreas concretas do negócio. Os controles e sub-processos indicados neste nível são comuns para o resto das áreas funcionais.
Figura 1. Integração da norma ISO/IEC 27001:2006 com a norma ISO/IEC 21827 no modelo de referência (HUMPHREYS, 2007).

Este modelo, em que se integram ambas as visões de segurança, deriva-se da base de conhecimentos Theoretical and Practical Knowledge Base (TPKB) produzida pelo International Systemas Security Professional Certification Scheme (ISSPCS), o qual colabora com o International Systems Security Engineering Association (ISSEA).
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Tabela 4. Distribuição de controles ISO/IEC 27001:2006 e Áreas de Processo SSE-CMM (ISO/IEC 21827) no modelo de referência do SGSI.
3. Identificação, Classificação e Avaliação de Ativos 1. Gestão Estratégica da Segurança 5. Tratamento e Gestão de Riscos de Segurança 4. Análise e Avaliação de Riscos de Segurança Processo de Segurança nas Organizações

Segurança Fundamental

A5 (completo) A6.1 (1,2,3,7) PA 06 PA 07 PA 09 PA 10 PA 11 PA 06 PA 07 PA 09 PA 10 PA 11 PA 02 A 12.1 PA 06 PA 07 PA 09 PA 10 PA 11

A 15.1 A 5.1.5 A 6.2.3 A 8.1.1.3 A 10.8.2 PA 10 PA 11

A 6.2.1 A7 A 14.1.2 (complePA 02 to) PA 03 PA 02 PA 04 PA10 PA 05

A 6.1.8 A 6.2.2 PA 03

A 9.1 A 10 (1,2,3) A 11.2 A 11.6 PA 01 PA 07 PA 08 PA 11 A 9.2 PA 01 PA 07 PA 08 PA 11 A 11.5 A 11.7 A 12.4 A 12.5 PA 01 PA 07 PA 08 PA 11 A 11.4 PA 01 PA 07 PA 08 PA 11 PA 09 PA 10 PA 01 PA 07 PA 08 PA 11 A 11.3 PA 01 PA 07 PA 08 PA 11

A 6.1 (4,6,7) A 10 (4,5,6) A10 (7,8,9) PA 07 PA 09 PA 10

A 13 (completo) A 14 (completo) PA 06 PA 10

Ambiental e Infraestrutura

PA 10 PA 11 PA 02

PA 02 PA 10 PA 09

PA 02 PA 03 PA 04 PA 05 PA 09

PA 03 PA 09 PA 10

PA 07 PA 09 PA 10

PA 06 PA 10 PA 07 PA 09

Disciplinas Funcionais

Segurança dos Sistemas

A 15.2 A 15.3 PA 10 PA 11

PA 02 PA 10

PA 02 PA 03 PA 04 PA 05

A 12.2 A 12.3 PA 03

A 12.6 PA 07 PA 09 PA 10

PA 06 PA 10

Segurança em Comunicações e Redes

PA 06 PA 07 PA 09 PA 10 PA 11 PA 01 PA 08 PA 06 PA 07 PA 09 PA 10 PA 11 PA 06 PA 07 PA 09 PA 10 PA 11

PA 10 PA 11 PA 02

PA 02 PA10

PA 02 PA 03 PA 04 PA 05

PA 03

A 10.10 PA 07 PA 09 PA 10

PA 06 PA 07 PA 10

Segurança Física

PA 10 PA 11

A9 (completo) PA 02 PA 10

PA 02 PA 03 PA 04 PA 05 A 8.1 PA 02 PA 03 PA 04 PA 05

PA 03

A 6.2 (1,2) PA 07 PA 09 PA 10 A 8.3 PA 07 PA 09 PA 10

PA 06 PA 10

Segurança Pessoal

PA 10 PA 11

PA 02 PA 10

A 8.2 PA 03

PA 06 PA 10

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8. Segurança em Operações – Anormais

7. Segurança em Operações – Normais

2. Concordância e Normas Aplicáveis

6. Gestão da Segurança Operacional

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5.2 A integração das normas ISO/IEC 27001:2006 e ISO/ IEC 21827 (SSE-CMM)
A relação da norma ISO/IEC 27001:2006 com a ISO/IEC 21827 está baseada no estabelecimento de maiores garantias de proteção. Cada norma fornece meios para assegurar o desenvolvimento da segurança de forma sistemática e contínua. A norma ISO/IEC 17799:2005 que fornece os controles recomendados pela norma ISO/IEC 27001:2006 foi comparada com as PAs da ISO/IEC 21827 para se verificar a similaridade de processos. A partir dessa comparação nota-se que alguns controles não estão diretamente ligados com a ISO/IEC 21827. Com isso, pode ser observado que a ISO/IEC 21827 é mais indicada para o gerenciamento de processos de segurança e não para a sua definição dos processos (controles) que serão implementados. A definição dos controles de segurança que serão implementados pelo SGSI seguem a estrutura de segurança organizacional, podendo alguns controles serem selecionados e outros não. O mesmo acontece com as PAs da ISO/IEC 21827, onde nem todas as PAs são selecionadas e procura-se fazer a seleção de acordo com a necessidade de segurança organizacional. Dessa maneira, os controles que são selecionados da ISO/IEC 17799:2005 recomendados pela ISO/IEC 27001:2006 podem ganhar níveis de maturidade por meio da implementação da ISO/IEC 21827. A integração das normas está no desenvolvimento em conjunto das normas. Ganhando níveis de maturidade, os controles da ISO/IEC 17799:2005 podem ser gerenciados e monitorados assegurando o aprimoramento da segurança organizacional. Cada organização pode definir seus objetivos de segurança selecionando controles e determinando níveis de maturidade que atendam suas necessidades de segurança. A integração das normas ISO/IEC 27001:2006 e ISO/IEC 21827 pode trazer benefícios para as organizações, onde se pode observar: • Melhoria nos aspectos de definição da segurança fundamental: em uma organização que não tenha definido o processo global de segurança, a primeira etapa deveria ser definí-lo, levando em consideração os subprocessos de segurança e controles que são propostos no modelo de referência; • Desenvolvimento de projetos SGSI específicos: em organizações científicas como laboratórios ou empresas de desenvolvimento de software com processos de negócio especializado os projetos de SGSI poderiam ser desenvolvidos com o objetivo de aprofundar as relações da norma ISO/IEC 21827. Este conhecimento é importante tanto para conhecer melhor as necessidades de segurança requisitadas por estes setores da economia, como também, as dificuldades inerentes aos setores
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facilitando a criação de padrões para o desenvolvimento de soluções de segurança setoriais; Determinação de níveis de maturidade para os processos de segurança: em um projeto de SGSI, deve-se exigir que o processo global de segurança projetado e implementado possa ser avaliado como nível maior de maturidade. Um SGSI de nível 1 teria deficiências. Com a utilização da ISO/IEC 21827 é possível estipular o nível de capacidade que se deseja alcançar; Atendimento dos requisitos legislativos: uma vez que tanto as leis quanto seus regulamentos levam em consideração os processos de segurança da informação, os projetos poderiam revisar as próprias leis conforme a visão de processos de segurança assim como identificar as falhas que a norma pode apresentar para compreendê-las, melhorá-las e aplicá-las; Redução de custos: com a implementação de controles monitorados pela ISO/IEC 21827, pode-se assegurar a redução de falhas de segurança e consequentemente a diminuição de recursos financeiros aplicados para reparação de danos; Definição de estratégias de segurança: o gerenciamento dos processos de segurança fornece uma visão do quadro de segurança atual da organização, fornecendo subsídios para a implementação de medidas preventivas que assegurem o bem estar organizacional; Reconhecimento organizacional: a certificação por normas reconhecidas no ambiente de segurança garante maior confiabilidade por parte de clientes, colaboradores e terceiros.

5.3 A abrangência das normas de segurança no contexto organizacional
Desenvolver um SGSI que forneça garantias de segurança não está atrelado apenas ao uso de uma norma. Uma norma de segurança pode satisfazer inúmeros requisitos de segurança, mas não pode abranger todos os aspectos que asseguram proteção. A Instrução Normativa GSI Nº 1, de 13 de junho de 2008 que trata disciplina a Gestão de Segurança da Informação e Comunicações na Administração Pública Federal, direta e indireta, têm o propósito de manter seguras as informações e orientar a condução de políticas de segurança da informação e comunicações pelos órgãos da Administração Pública Federal, direta e indireta. Cumprindo o art. 3 da Instrução Normativa GSI Nº 1, o Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República-GSI ficou responsável por orientar a condução da Política de Segurança da Informação e Comunicações. Ficou então definido pelo GSI, que a metodologia de gestão de segurança da informação e comunicações deve basear-se no processo de melhoria contínua, denominado ciclo “PDCA” (Plan‑Do‑Check‑Act), estabelecido pela norma ISO/IEC 27001:2006
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e todos os órgãos da Administração Pública Federal, direta e indireta, devem adotá-la. A escolha realizada pelo GSI levou em consideração três critérios: • Simplicidade do modelo; • Compatibilidade com a cultura de gestão de segurança da informação em uso nas organizações públicas e privadas brasileiras; e • Coerência com as práticas de qualidade e gestão adotadas em órgãos públicos brasileiros. No entanto, o GSI não leva em consideração que as organizações possuem necessidades de segurança diferentes. O que pode ser adaptado consideravelmente bem para uma organização, pode não ser tão bem adaptado para outra. Definir uma metodologia para a gestão da segurança da informação baseada na aplicação de apenas uma norma pode deixar lacunas na segurança, resultando em futuras falhas de segurança, danos financeiros e sociais. Além disso, uma norma não pode ser recomendada para todo e qualquer tipo de organização. As organizações são diferentes, possuem necessidades de segurança específicas e estão em outro contexto cultural. Em muitos casos, a relação de uma organização com uma norma de segurança não se completa. Isso ocorre não pela inconsistência da segurança fornecida por uma norma, mas pelo fato da organização possuir objetivos vinculados as necessidades de segurança próprias. A utilização de uma única norma de segurança pode trazer benefícios agregando mais proteção a organização, mas de fato, ela não preenche e nem se enquadra a todos os aspectos de segurança necessários para fornecer controle sobre todos os aspectos de segurança organizacional. As normas de segurança se complementam, de forma a fornecer maiores garantias de segurança. Com a integração das normas de segurança as organizações podem focar seus objetivos de proteção, prevenindo que incidentes de segurança ocorram. A integração das normas que se dá pela combinação da segurança pode adequar-se a maioria das organizações e se enquadrar em um contexto específico.

6. CONCLUSÃO
O presente trabalho discutiu o desenvolvimento de um SGSI através da integração das normas ISO/IEC 27001:2006 e ISO/IEC 21827. Buscou-se verificar como essas normas podem ser integradas de modo proporcionar maiores garantias de segurança as organizações. Pode-se observar que a norma ISO/IEC 27001:2006 fornece uma estrutura bem definida para a implementação de um SGSI, enquanto a norma ISO/ IEC 21827 pode ser usada para assegurar que os processos de segurança sejam
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desenvolvidos e mantidos em conformidade com a segurança, adquirindo níveis de maturidade. Neste sentido, a integração das normas ISO/IEC 27001:2006 e ISO/IEC 21827 pode ser utilizada com um modelo de referência para o desenvolvimento de processos de SGSI. Com a existência de vários documentos de segurança, destes incluem o NIST, CSE, BS 7799, ISO/IEC 13335 entre outros, a ISO/IEC 21827 pode ser entendida como um sistema para a descrição das características essenciais do processo de engenharia de segurança da organização, que sempre deve existir para assegurar a boa engenharia de segurança. As organizações de segurança podem usar o ISO/IEC 21827 para avaliar e refinar as práticas de engenharia de segurança; os clientes podem usá-lo para avaliar o recurso de engenharia de segurança de um dado sistema; e as organizações de avaliação de engenharia, para estabelecer valores organizacionais com base nos recursos. A ISO/IEC 21827 deve ser usada pelas organizações para examinar a maturidade de um processo de segurança de tecnologia da informação implementado em uma organização em comum acordo com a ISO/IEC 27007:2006 ou um dos documentos acima citados. Desta forma, a ISO/IEC 21827 pode e deve ser usada em conjunto com qualquer documento de segurança.

REFERÊNCIAS
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HUMPHREYES, Edward, 2007. Implementing the ISO/IEC 27001 Information Security Management System Standard. Artech House, Inc. Norwood, MA, USA. KAJAVA, Jorma; ANTTILA, Juhani; VARONEN, Rauno; SAVOLA, Reijo; RONING, Juha, 2006. Information Security Standards and Global Business. Industrial Technology, 2006. ICIT 2006. IEEE International Conference. NBR ISO/IEC 17799, 2005. Tecnologia da Informação. Código de Prática para a Gestão da Segurança da Informação. Rio de Janeiro. NBR ISO/IEC 27001, 2006. Tecnologia da Informação — Técnicas de segurança — Sistemas de gestão de segurança da informação — Requisitos. Associação Brasileira de Normas. Rio de Janeiro. SG-SBP, 2008. Recommendation for Creating a Comprehensive Framework for Risk Management and Compliance in the Financial Services and Insurance Industries. Information Technology Industry Council (ITI). Disponível em < www.incits.org/ tc_home/sbp.htm> Acessado em junho de 2009. WIANDER, Timo, 2007. ISO/IEC 17799 Standard’s Intended Usage and Actual Use by the Practitioners. 18th Australasian Conference on Information Systems. Toowoomba, 5-7.

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E-GOV E A EDUCAÇÃO: O EXEMPLO DA TV ESCOLA
Universidade Federal de Santa Catarina
marcieleberger@gmail.com

Marciele Berger Bernardes 1

Universidade Federal de Santa Catarina
pmariasantos@yahoo.com.br

Paloma Maria Santos2

Universidade Federal de Santa Catarina
aires.rover@gmail.com

Aires José Rover3

RESUMO
O presente artigo visa levantar as iniciativas do Governo Federal frente à disponibilização das Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) como ferramenta de apoio a educação, na era digital. Apresenta-se uma breve introdução sobre as principais teorias da educação e sua relação com as novas tecnologias, seguido de uma aplicação específica desenvolvida para este fim: o programa TV Escola. Utilizou-se a estratégia de estudo de caso com métodos qualitativos para levantamento e análise de dados, por meio de análise de documentos e entrevistas semi-estruturadas. A partir do estudo realizado, foi possível constatar que a teoria diverge muito da prática e que o fator humano, que deveria intermediar e facilitar o processo, acaba muitas vezes por criar barreiras para o uso eficiente das tecnologias dentro da educação.

PALAVRAS-CHAVE
Tecnologias de Informação e Comunicação, Educação, Governo, TV Escola.

1. INTRODUÇÃO
As últimas décadas vêm precedidas por um denominador comum: a mudança constante e sua valoração positiva. Vive-se um novo conceito de sociedade,
1 Mestranda em Direito pelo CPGD/UFSC. Bolsista CAPES. 2 Mestranda em Engenharia e Gestão do Conhecimento pelo EGC/UFSC. Bolsista CAPES. 3 Professor dos Programas CPGD e EGC/UFSC.
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uma sociedade em rede que modifica o âmbito social, econômico e tecnológico. O que caracteriza o atual contexto histórico, marcado pela revolução tecnológica, não é a centralidade da informação e do conhecimento, mas sim a aplicação desses para a geração de novos conhecimentos. As tecnologias da informação e comunicação (TICs), produzidas e consumidas numa velocidade como nunca antes se viu, produzem mudanças culturais que influenciam a maneira de comunicar e de interagir dos indivíduos e consequentemente promovem grandes mudanças no processo de ensino e aprendizagem como um todo. Assim, cumpre iniciar situando onde se busca a justificativa e a importância deste trabalho, indicando, a seguir, por onde se constrói seu objeto; se elege um método; se encontram as dificuldades e se apresentam, então, alguns resultados parciais, conclusões e agradecimentos. Como se percebe, o desenvolvimento acelerado da tecnologia está produzindo uma mudança na forma de pensar do ser humano, e esta mudança paradigmática já atinge também o processo de aprendizagem daquele. Dentro desse contexto de emergência das novas tecnologias - que está gerando novas perspectivas para a educação -, apresenta-se a relevante a indagação sobre como o uso efetivo da tecnologia da informação pode contribuir para a educação. A busca de uma resposta a tal indagação permite constatar que, a partir do desenvolvimento de novos modos de ensino, baseados na integração entre tecnologia e educação, o acesso promove o desenvolvimento econômico e cria condições para uma maior “tecnologização” da sociedade. É diante desse quadro que este trabalho sente-se inclinado a abordar como a informática e a internet estão transformando o aprendizado e o ensino, que nova educação é necessária para o uso da internet e quais iniciativas do governo estão sendo tomadas nesse sentido. A implementação de políticas de governo eletrônico, dentre elas, a de promoção de acesso igualitário às tecnologias de informação e comunicação, é um compromisso do governo – Ministério da Educação, Secretarias Educacionais - e dever do Estado4, rumo à consolidação/implementação da cidadania. Nesse sentido, elege-se como objeto nuclear, a análise da influência das tecnologias de informação e comunicação na educação, partindo das iniciativas propostas pelo Governo Federal, em especial, para o caso do programa TV Escola. Adota-se como metodologia, o modelo interdisciplinar, partindo do pressuposto que tecnologia, sociedade e educação são categorias multifárias e, como tal, condensam aspectos históricos, políticos, sociológicos, econômicos, filosóficos, etc., que impossibilitam seu monopólio ou sua apropriação unilateral por qualquer dos saberes.
4 Art. 205, CF: A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.
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Visando atingir tais objetivos, o trabalho está estruturado em seis tópicos, seguido de uma breve projeção dos novos desafios para a educação, no contexto das novas tecnologias. A partir de tais premissas, o segundo capítulo desse estudo faz uma introdução ao fenômeno da educação no contexto das tecnologias de informação e comunicação. No terceiro capítulo, são apresentadas as características das duas escolas do pensamento educacional. No quarto, é tratado o objeto nuclear do estudo, através da abordagem das iniciativas do Governo Federal frente à disponibilização de tecnologias para a prática da educação. A apresentação dos dados sobre a constituição do programa TV Escola, é feita no capítulo quinto. No sexto capítulo, são apresentados os resultados parciais, tendo em vista o método adotado. Por fim, no capítulo sétimo, tem-se as conclusões do estudo e uma seção de agradecimentos. O que se espera com esse trabalho é formar um pequeno aporte ao que nós próximos anos virá a compor uma mudança estrutural na seara educacional, com a chegada massiva das novas tecnologias, com destaque para o programa TV escola. Tais medidas, se devidamente conduzidas, constituirão efetivos locus de construção da cidadania, rompendo com tradicionais barreiras que separam os centros das periferias do Brasil. De forma a garantir a confiabilidade das informações relativas a este estudo de caso, utilizou-se métodos qualitativos para levantamento e análise dos dados. Foram analisados documentos disponíveis na internet e informações procedentes das entrevistas semi-estruturadas, aplicadas no mês de junho de 2009, ao coordenador do programa TV Escola para o estado de Santa Catarina e a responsável pelo Programa “Salto para o Futuro”, integrante da grade de programação da TV Escola. As limitações do estudo incluem o restrito tempo para a realização do levantamento de dados, não tendo sido exaustivo e estarem relacionados apenas ao estado de Santa Catarina, e a realização de entrevista semi-estruturada apenas com os responsáveis pela coordenação do programa, não tendo envolvido professores e gestores.

2. INTRODUÇÃO AO FENÔMENO DA EDUCAÇÃO NO CONTEXTO DAS TECNOLOGIAS DE INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO
Todo homem tem o direito de participar no progresso científico e dos benefícios que deste resultam 5

Partindo-se da premissa de que na evolução histórica da afirmação dos direitos humanos, o capítulo dedicado à cidadania merece destaque, e que sua pro5 ASSEMBLÉIA GERAL DAS NAÇÕES UNIDAS. Declaração Universal dos Direitos Humanos 1948. Art. 27, extrato.
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moção é a prioridade do governo eletrônico6, o objetivo deste artigo é analisar a influência das tecnologias de informação e comunicação na educação, haja vista o ritmo acelerado de evolução daquela e sua complexa gestão que, não raras vezes, afasta a teoria da prática. Nesse sentido, surge uma importante questão: Como adaptar a organização/método educacional, de forma a utilizar eficientemente todos os benefícios oferecidos pela incorporação dessas tecnologias? A resposta passa pela compreensão de que o acesso às TICs abrange muito mais do que meramente munir as instituições com equipamentos e acesso à internet. É preciso, antes de qualquer coisa, treinar os usuários e, principalmente, fazê-los perceber a importância que as tecnologias têm quando usadas como ferramentas de apoio ao processo de ensino aprendizagem. De acordo com Warschauer (2006), para proporcionar acesso significativo a essas tecnologias, fatores como o conteúdo, a língua, o letramento7, a educação, bem como as estruturas comunitárias e institucionais, devem ser considerados. Para Pierre Lévy, essas tecnologias estão remodelando certas atividades cognitivas. “A linguagem, a sensibilidade, o conhecimento, a imaginação inventiva, (..) e ensino e o aprendizado, reestruturados por dispositivos técnicos inéditos, estão ingressando em novas configurações sociais” (1998, p.17). Considerando que a capacidade de acessar, adaptar e criar novos conhecimentos a partir do uso das novas tecnologias é decisiva para o sistema educativo, é proposta a seguinte questão: Como as TICs podem contribuir para a educação? Para responder a essa interrogante, parte-se da análise de como a informática está transformando o aprendizado e o ensino, e que modelo de educação é necessário para o uso das novas tecnologias.

3. ESCOLAS DO PENSAMENTO EDUCACIONAL
Como o enfoque desse artigo é a relação entre tecnologia e educação, se torna indispensável fazer uma breve abordagem das duas escolas do pensamento educacional. No Brasil, o debate educacional foi dominado por duas escolas de pensamento: a instrucionista e a construtivista. A primeira, considera a educação
6 De acordo com Rover (2004), o Governo Eletrônico se traduz numa estrutura de comunicação entre órgãos públicos onde a tecnologia da informação e da comunicação é usada para melhorar a gestão pública e o atendimento ao cidadão. Em suma, trata-se de um governo ao alcance de todos, que busca a incrementação da participação cidadã. 7 De acordo com Warschauer, as ferramentas do letramento incluem: “a própria língua, assim como diversos artefatos físicos, como papiro, códice, livro, lápis, caneta, papel ou máquina de escrever” (2006, p. 153).
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como um processo de transmissão. Por este modelo, o conhecimento é transmitido para o aluno (o professor dita, o aluno copia; o professor decide e o aluno executa), ou seja, o alfabetizador considera que seu aluno nada sabe, e que ele tem que ensinar tudo. A isso, Freire (2000) chama de “educação bancária” (nesta o educador simplesmente deposita o seu conhecimento no aluno). Trata-se de uma abordagem que está, sem dúvida, em desacordo com os imperativos da era da informação, uma vez que o modo de reprodução e repetição gera um sujeito que renunciou o direito de pensar e, portanto, desistiu da capacidade de elaborar e se comunicar com o novo conhecimento a partir de diversas fontes de dados e, por conseqüência, desistiu de sua cidadania. Em contraposição à perspectiva da transmissão, passa a ser apontado, como alternativa, o construtivismo de Piaget (1986). Por esse modelo, busca-se não apenas transmitir ou reproduzir um conhecimento, mas transformar a ação humana, mediante novos métodos pedagógicos que instigam a reflexão e a participação do aluno. Para tanto, a discussão requer uma mudança de atitude dos professores, ou seja, uma constante adaptação e renovação de suas ações enquanto educador para se adaptar às transformações da sociedade globalizada. Os adeptos dessa teoria defendem a tecnologia educacional e, particularmente, o uso de programas de computadores, para estimular o aprendizado da descoberta. Aqui está o papel do professor da era digital, baseado na dinâmica da produção e construção do conhecimento. A partir disso, passa a ser relevante a compreensão do termo “Informática na Educação”, definida por Valente (1993), como a inserção do computador no processo de aprendizagem dos conteúdos curriculares de todos os níveis e modalidades de educação. Assim sendo, as abordagens instrucionista e construcionista permitem inferir que a informática pode ser usada na educação tanto como máquina de ensinar quanto como máquina para ser ensinada. O uso das novas tecnologias como máquina de ensinar consiste na informatização dos métodos de ensino tradicionais e não pode ser confundido com o paradigma construtivista moldado por Piaget, pois este se baseia no modelo de educação reforçada pela informática. A partir disso, faz-se necessária a compreensão de que a educação reforçada pela informática parte de uma premissa oposta, ou seja, como o próprio nome remete, a metodologia consiste em utilizar eficazmente a tecnologia para reforçar as finalidades educacionais mais amplas. Aqui se constata que o processo de aprendizagem não acontece simplesmente colocando o aluno na frente do computador ou da televisão, pois a tecnologia, sozinha, não modifica a natureza da educação escolar. Na melhor das hipóteses, ela amplifica os processos em andamento. Como se depreende da abordagem acima, o emprego da tecnologia para transformar a educação, ou mesmo melhorá-la, passa por dois caminhos. O
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primeiro, focaliza a educação por via da informática: uma técnica que é muito questionada uma vez que se baseia apenas no acesso restrito às TICs (disponibilização do equipamento eletrônico: computador, televisão, etc). Já o segundo, focaliza a educação reforçada pela informática: uma técnica onde o que está em jogo não é a mera questão da acessibilidade, no sentido de haver um computador/TV no local, mas sim a capacidade de saber utilizar os instrumentos para finalidades pessoal e socialmente significativas. Nas palavras de Silva (2002, p. 23), o papel desses novos recursos é ligar o que está separado; implica em aprender a lidar com as múltiplas informações, o que significa não ser tragado por elas, mas torná-las conhecimento. Em suma, o papel do professor da era digital não se restringe mais a transmitir o conhecimento de forma linear, dissociando o emissor do receptor, mas sim utilizar das novas tecnologias para a produção e construção do conhecimento. Apresentadas as duas escolas do pensamento educacional brasileiro, bem como a forma como as TICs devem ser absorvidas no contexto educacional, é chegada a hora de analisar os principais programas e projetos educacionais no Brasil que envolvem o governo federal, na trajetória da implementação das novas tecnologias no sistema de ensino. Esse é o enfoque do item seguinte.

4. GOVERNO ELETRÔNICO: EDUCAÇÃO MEDIADA PELAS NOVAS TECNOLOGIAS
Com o propósito de abordar a tecnologia educacional, no cenário da educação brasileira, convém tecer um breve apanhado histórico sobre a temática das novas tecnologias na educação brasileira. Nessa perspectiva, é importante atentar para as principais medidas adotadas pelo governo no sentido da promoção do acesso e garantia da cidadania. Sendo assim, convém lembrar que a utilização do computador no cenário educacional brasileiro, não é recente. De acordo com Andrade e Lima (1996), foi no ano de 1971 que se discutiu pela primeira vez o uso de computadores no ensino de Física (USP/São Carlos). Mas, foi na década de 80 que a temática da informática educativa veio à tona, impulsionada primeiramente pela absorção dessa tecnologia por outros setores da sociedade, e também pelos resultados de um seminário nacional em 19828 sobre o uso do computador como ferramenta auxiliar do processo de ensino-aprendizagem.
8 Em agosto de 1982, foi realizado o I Seminário Nacional de Informática na Educação, sob a coordenação da Secretaria Especial de Informática (SEI), do MEC e do CNPQ, onde a principal discussão gravitou em torno da conveniência ou não de se utilizar o computador como instrumento no processo de ensino aprendizagem (ALMEIDA, 1988, p. 15).
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Nos anos seguintes, importantes avanços ocorreram: - em 1984, foi lançado o Projeto EDUCOM9; - em 1986, o Programa10 de Ação Imediata em Informática na Educação de 1º e 2º graus (hoje ensino médio). Como conseqüência dessa trajetória, em 1989 foi instituído pelo MEC, através da Portaria Ministerial nº 549/89, o Programa Nacional de Informática na Educação - PRONINFE11. Os estudos realizados por Almeida (1988) demonstraram que esse programa gerou, em dez anos, uma cultura nacional de informática educativa centrada na realidade da escola pública, constituindo-se como o principal referencial das ações planejadas pelo Ministério da Educação. Dentre os principais resultados, durante esses dez anos de Proninfe, Almeida (1988) destaca: • Implantação de 44 centros de informática na educação, a maioria com conexão à internet; • Implantação de 400 subcentros, a maioria por iniciativas de governos estaduais e municipais, a partir do modelo de planejamento concebido inicialmente pelo Projeto EDUCOM/UFRGS (destes, 87 estão no Estado do Rio Grande do Sul); • Implantação de 400 laboratórios de informática educativa em escolas públicas, financiados por governos estaduais e municipais; • Mais de 10.000 profissionais preparados para trabalhar em informática educativa no país, incluindo um número razoável de pesquisadores com cursos de mestrado e doutorado. Com a proposta de reestruturar o modelo anterior, no ano de 1997, foi criado o Programa Nacional de Informática na Educação - PROINFO 12. Para Moraes (1997), a criação do PROINFO se justificou pelo diagnóstico da situação educacional brasileira e pela necessidade de minimizar os índices significativos de analfabetismo. A esses fatores, a autora acrescenta ainda a in9 O projeto EDUCON foi voltado para a criação de núcleos interdisciplinares de pesquisa e formação de recursos humanos nas universidades federais (Op. cit. p. 19). 10 Programa destinado a capacitar professores (Projeto FORMAR) e a implantar infraestruturas de suporte nas secretarias estaduais de educação (Centros de Informática Aplicada à Educação de 1o e 2o grau – CIED) (Op. cit. p. 21). 11 O PRONINFE teve como objetivo desenvolver a informática educativa no Brasil, através de atividades e projetos articulados e convergentes, apoiados em fundamentação pedagógica, sólida e atualizada, de modo a assegurar a unidade política, técnica e científica imprescindível ao êxito dos esforços e investimentos envolvidos (ALMEIDA, 1988). 12 O Ministério da Educação e do Desporto, através da Secretaria de Educação à Distância, é responsável pelo atual PROINFO para as escolas públicas do ensino fundamental e médio. Disponível em: http://www.proinfo.gov.br. Acesso em: março/2009.
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fluência do cenário internacional (transformações sócio-econômicas e culturais) que ocorreram no final do século XX, impulsionadas pelos avanços da ciência e da tecnologia, suas influências nas formas de pensar e no fazer educacional. O MEC, tendo em vista a não-universalização da alfabetização no século XX e o atendimento das demandas do cenário (inter) nacional, que passou a exigir uma alfabetização tecnológica, impulsionou o PROINFO numa política de governo para ampliação de acesso às TICs. É de se destacar que, em 2003, as ações do PROINFO ganharam novo fôlego com a implantação do programa do Governo Eletrônico - Sistema de Atendimento ao Cidadão (Gesac13), uma iniciativa do Ministério das Comunicações, com o apoio do Ministério da Educação. Diante desse quadro de investimentos pelo governo em implantação/aprimoramento das novas tecnologias na educação, é inegável que esses programas contribuem para a melhoria da educação brasileira. No entanto, não se pode negar os riscos da mudança do foco para uma alfabetização tecnológica, enquanto que problemas básicos, como analfabetismo primário, ainda não foram erradicados. Assim sendo, constata-se que, juntamente as mudanças no sistema educacional, é criada uma nova demanda formativa, que vem sendo chamada de alfabetização digital. Esse novo modelo educacional demanda mudança de postura das escolas que devem reinventar sua relação com o conhecimento. Esse cenário requer educadores e educandos com sólida formação básica, autonomia, capacidade de resolver problemas e expressar sua criatividade, com a visão de totalidade, integradas à formação de competências cognitivas e sociais. Tais atributos, segundo Silva (2002), são indispensáveis para que essas novas tecnologias não sejam subutilizadas. Ademais, se os paradigmas permanecerem os mesmos do ensino tradicional, o professor continuará controlando a produção e a transmissão do conhecimento e, apesar de dispor de ferramentas eficientes para otimizar o processo educacional, continuará considerando os alunos como recipientes de informações, repetindo o modelo de “educação bancária”. Assim, para além do modelo linear que aumenta o hiato entre a experiência cultural de onde falam os professores e aquela outra de onde aprendem os alunos, é preciso uma nova postura, que mescle os paradigmas e permita que os alunos transitem da condição de espectadores para a condição de sujeitos operativos e participativos.
13 O programa GESAC – Governo Eletrônico – Serviço de Atendimento ao Cidadão, do Governo Federal, teve como meta disponibilizar acesso à internet e mais um conjunto de outros serviços de inclusão digital às comunidades excluídas do acesso e dos serviços vinculados à rede mundial de computadores. Disponível em: http://www.idbrasil. gov.br/menu_interno/docs_prog_gesac/institucional/oqueegesac.html. Acesso em: Maio/2009.
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Na sequência, apresenta-se a TV Escola, uma experiência brasileira que avança nesse sentido e que permite o diálogo criativo, capaz de atender às demandas educacionais que se apresentam e concretizar uma mudança no panorama educacional.

5. A TV ESCOLA
Hodiernamente, em face do atual desenvolvimento tecnológico que vem alterando as formas e modelos de comunicação, alguns paradigmas são postos em discussão, dentre eles pode-se citar muitas formas de ensinar que hoje não se justificam mais. De acordo com Silva (2002), um típico exemplo desse processo é a nova geração de adolescentes do mundo digital, que já chegam nas escolas com o aparelho cognitivo modificado pela tela do computador (que se baseia na lógica da interatividade). A criança, acostumada com essas interfaces interativas, anseia pela participação, pelo papel de ator dentro do processo e não mais de mero espectador. Diante disso, o processo de ensino aprendizagem precisou ser repensado, exatamente pela necessidade de compreender e incorporar novas linguagens, desvendar os seus códigos. Nas palavras de Moran (1999, p.06): “é importante educar para usos democráticos, mais progressistas e participativos das tecnologias, que facilitem a evolução dos indivíduos”. Nesse sentido, o Governo Federal, com o objetivo de auxiliar no desenvolvimento profissional dos professores e gestores da rede pública de ensino brasileira, aprimorar a qualidade da educação e incentivar a aproximação entre a escola e a comunidade, lançou em março de 1996 um canal de educação chamado TV Escola. Dedicado a professores e alunos do ensino fundamental e médio, a proposta da TV Escola é a de contribuir para a melhoria da educação construída nas escolas, através do acesso e da utilização de programas e séries de vídeos educativos transmitidos diariamente. Segundo Neves (2004), as faixas de programação são orientadas para o currículo das escolas brasileiras e estão relacionadas a conteúdos para o ensino fundamental, ensino médio, capacitação dos educadores (Salto para o Futuro), cursos e uma programação voltada para a comunidade (Escola Aberta). Para habilitar o ambiente escolar a receber o sinal da programação da TV Escola, fez-se necessária a instalação de uma infraestrutura denominada de “kit tecnológico”, composto de uma televisão, um videocassete (para gravação dos programas) e uma antena parabólica. O sinal está disponível na Sky (satélite), na antena parabólica residencial padrão ou ainda na internet. Segundo Neves
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(2004), de 1996 a 2000, 57.395 escolas com mais de cem alunos em todos os estados do país foram beneficiadas com a instalação do kit. Atualmente, de acordo com informações do site14 da RNP (Rede Nacional de Ensino e Pesquisa), o sinal da TV Escola está presente em pouco mais de 39 mil escolas e transmite 17 horas de programação diária. Tendo em vista a formação dos educadores no uso pedagógico da linguagem audiovisual, também em 2000 deu-se início ao curso de extensão a distância chamado “Tv Escola e os desafios de hoje”, desenvolvido em parceria com o consórcio de 27 universidades que integram a Universidade Pública Virtual do Brasil (UniRede). De acordo com Neves (2004), o curso, que equivale a 180 horas e utiliza impressos e vídeos, tem como proposta básica trabalhar a perspectiva da educação apoiada no uso das tecnologias, motivando o educador a explorar criativamente o potencial da TV Escola e das outras mídias, no projeto político-pedagógico. Com o objetivo de facilitar a gravação dos programas e aproveitar a onda de digitalização sofrida pelas TICs, ao final de 2003, algumas escolas receberam receptores digitais, através dos quais tornou-se possível a gravação automática de até 7 dias de programação, Fusco (2003). Dessa forma, os conteúdos poderiam ser gravados posteriormente em CD ou DVD para serem assistidos na televisão ou no computador.

6. RESULTADOS PARCIAIS
O programa TV Escola, em sua concepção pelo Ministério da Educação, apresenta pontos relevantes, tais como: 1. A TV Escola abraça uma iniciativa muito importante de desenvolvimento e aprimoramento da educação nas escolas públicas de ensino. É de fundamental importância que se invista pesado na estruturação das condições para o melhor aprendizado dos jovens e das crianças, que são o futuro do país. 2. A disponibilização da programação via satélite faz com que não haja pontos de sombra (locais onde o sinal não chegue). O sinal, dessa forma, está disponível em todo e qualquer lugar em que seja possível “avistar o céu”. Não há barreiras para a chegada do sinal, o que não impede que em determinadas regiões o sinal seja mais forte do que em outras, devido a própria curvatura da Terra e ao posicionamento e cobertura do satélite em questão. 3. O investimento em programas de capacitação para os educadores é essencial do ponto de vista do esclarescimento sobre os papéis e responsabilidades dos professores e de como utilizar os conteúdos
14 Informações disponíveis no site: http://www.rnp.br/noticias/2009/not-090326.html
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e a tecnologia de maneira a aprimorar e diversificar o processo de ensino-aprendizagem. 4. As parcerias com outras instituições de ensino, consolidadas ao longo dos anos, dá maior visibilidade ao programa e amplia a rede de relacionamentos e possíveis trocas de experiências. 5. O material disponibilizado é produzido com a orientação do Ministério da Educação, o que dá segurança no quesito de qualidade ao mesmo. 6. A televisão costuma ser um equipamento de uso coletivo, contrariamente ao computador. Quando a programação é exibida no ambiente da sala de aula, cria-se a possibilidade de debater o conteúdo em grupo, facilitando o entendimento e o aprendizado e oferecendo aos alunos a chance de aprimorar suas habilidades de expressão e até mesmo negociação. O que se imagina vendo os pontos acima é que finalmente as escolas podem contar com uma ferramenta que veio para se tornar efetiva aliada ao processo de educação. Mas, a análise e os resultados deste estudo, feitos com base na metodologia anteriormente descrita e sugerida por Yin (2001), apontam para diversos pontos que ainda precisam ser incessantemente trabalhados, dentre eles, segundo os entrevistados, pode-se destacar: 1. A TV Escola é mantida com os recursos oriundos da arrecadação de impostos feita pela Governo. É indispensável que qualquer pessoa que queira, tenha acesso a números e resultados atuais sobre o uso do programa TV Escola promovido pelo Ministério da Educação. A transparência desse tipo de ação deve ser solucionada, afinal, como a comunidade vai se aproximar da escola se ela não sabe o que se passa lá dentro? 2. No estado de Santa Catarina, pode-se dizer que apesar 10% das 1300 escolas recebem, via satélite, o sinal da TV Escola, isso não garante ainda que as mesmas façam uso do programa. Esse número absurdo é resultado principalmente do sucateamento ocorrido nas antenas de recepção do sinal. De acordo com o coordenador do programa para o estado, devido a terceirização e muitas vezes “quarteirização” das instalações dos kits tecnológicos, os equipamentos tinham os códigos de funcionamento e bloqueio alterados pelos próprios “antenistas”, que visavam “amarrar” o cliente ao seu serviço, impedindo que qualquer manutenção fosse feita por outra empresa. Agrege-se a isso fatores ambientais que também contribuiram para a degradação dos equipamentos. 3. Outro fator decisivo refere-se a uma barreira15 tecnológica para a utilização da TV Escola levantada pelos professores e gestores, que muitas
15 De acordo com Silva (2002), a rejeição da televisão entre os educadores é sintomática e uma dos motivos dessa recusa certamente não é a natureza emissora da TV, mas sua estética incompatível com a concepção linear de conhecimento centrada na “lógica convencional”, na relação causa-efeito.
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vezes estão acomodados e não querem ter que mudar seus métodos de ensino, o que acaba privando os alunos dos benefícios oferecidos pelo programa. É fato que é preciso um certo tempo para a familiarização dos educadores com o sistema, mas deve partir deles a vontade de querer incorporar esses recursos a sua sistemática, independente ou não de ter recebido treinamento. 4. Além disso, os conteúdos audiovisuais apresentam pouca ou nenhuma interatividade16. A grande maioria deles tem caráter meramente informativo e não abre espaço para que quem assista colabore no aprimoramento do que está sendo transmitido. A exceção, diz respeito ao programa de formação de educadores “Salto para o Futuro”. Antes, conforme informações do portal do Ministério da Educação, os professores podiam participar em tempo real, em certas ocasiões, de debates sobre os diversos temas em análise. Para esse fim, o professor precisava se dirigir a um dos 600 telepostos distribuídos no Brasil para fazer sua colaboração. Hoje, isso já não é mais feito devido aos altos custos gerados para a realização dessa intervenção ao vivo. A participação dos educadores se resume a inferências feitas através de emails ou telefone. 5. O sinal da TV Escola é disponibilizado via satélite, que se trata de uma rede fechada (paga) de transmissão, via internet e via antena parabólica padrão domiciliar. Os usuários deste último se resumem a 20% da população. Quando na internet, falamos de 18%. O fato de o sinal da TV Escola não estar disponível na rede aberta, disponível a 97% da população, priva a maioria não agraciada pelas tecnologias pagas, de fazer parte desse contexto de aprendizagem e aproveitar os benefícios que a programação pode oferecer. 6. Para suprir a falta de acesso ao programa via satélite, devido ao sucateamento do parque de antenas instaladas, o Governo tem um projeto para até o fim de 2010 colocar internet banda larga em todas as escolas. Enquanto isso, os programas são gravados diariamente em DVDs e encaminhados a todas as escolas, que receberam também aparelhos leitores de DVDs. Apesar de essas mídias auxiliarem na estruturação de videotecas em cada uma das escolas, os programas já chegam
16 Silva (2003, p. 56-57) destaca que o termo interatividade tem sofrido certa banalização, pois tem sido usado para qualificar qualquer coisa, desde estratégias de propaganda de marketing, brinquedos eletrônicos e eletrodomésticos, até computadores e derivados. Na verdade, em que pese à banalização do termo, esse adjetivo interativo qualifica a modalidade comunicacional que emergiu no final do séc. XX, apresentandose como novo paradigma apto a substituir o modelo de transmissão próprio da mídia de massa. Assim, é a interatividade o divisor de águas que está redimensionando o papel de todos os agentes envolvidos com os processos de informação e comunicação, partindo de uma reforma de base, pois exige a modificação da sala de aula que não raras vezes é mais unidirecional que a própria mídia de massa.
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“atrasados” e qualquer inferência que pudesse ser feita no momento da recepção do mesmo, quando da sua primeira exibição, já não pode mais ocorrer. Sem contar a mão de obra imensa para fazer chegar os DVDs nas escolas e a não utilização dos mesmos quando em posse dos gestores. Conforme relato, em algumas escolas, o aparelho leitor de DVD se encontra “encaixotado” dentro do armário sem sequer ter sido aberto. 7. O último grande programa de capacitação aos educadores ocorreu em 2002. As pessoas precisam saber da importância e dos benefícios que essa nova tecnologia pode trazer a metodologia de ensino padrão, para então, querer utilizar. O incentivo deve ser diário e constante. 8. A rotatividade dos gestores escolares é apontada pelos entrevistados como o principal problema. Quando estes já incorporaram o “espírito” de utilização da TV Escola, saem das mesmas, devido as trocas de liderança, sem repassar o aprendizado para os que estão chegando.

7. CONCLUSÕES
O momento conclusivo desse trabalho não tem a pretensão de apresentar conclusões definitivas, mas sim, alguns indicadores que encaminhem para novas investigações na área. O interesse em estudar os desafios e perspectivas da educação na era tecnológica está baseado na rapidez e facilidade com que as informações são disponibilizadas pelos recursos tecnológicos e meios comunicacionais. Sendo assim, considerou-se necessária a identificação de importantes iniciativas do Governo Federal tendo em vista contribuir para o aprimoramento da educação através do uso das tecnologias de informação e comunicação. Neste sentido, constatou-se que, quando utilizada como ferramenta de apoio, as tecnologias podem aprimorar os métodos de ensino e aprendizagem, principalmente na sala de aula. A geração dos adolescentes virtuais, por seu constante relacionamento com as novas mídias, não se contenta mais com a metodologia arcaica, onde o professor fala e ele ouve, o professor dita, e ele copia. O aluno quer participar, que fazer parte, quer ter seu espaço. Talvez, com a disponibilização do sinal da TV Escola no canal de Educação reservado para o Governo Federal na Televisão Digital (sinal aberto), essa interação possa ser possível. A partir disso, foi possível verificar também que a teoria se distancia muito da prática. No caso da TV Escola, apesar de os objetivos delineados para o programa terem sido os melhores possível, a realidade do funcionamento é bem diferente. O fator humano infelizmente prejudica o processo, boicota o uso e priva os alunos de ter contato com novas formas de interação. Como dito antes, parte dos educadores a vontade de diversificar, de promover a criação
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do conhecimento, aproveitando as competências de cada aluno, fazendo com que estes compartilhem experiência e se relacionem de forma construtiva, interativa. Sendo assim, pode-se inferir que adaptações as metodologias lineares de ensino são urgentes na era digital, com objetivo maior de tentar diminuir a erradicação escolar e aprimorar a qualidade da aprendizagem. Vale registrar que os alunos, quando em ambiente agradável, que os estimule a pensar em conjunto, a debater, que os permita trocar e construir conhecimento de forma prazeirosa, dificilmente se esvaem da escola. Recomenda-se para estudos futuros a verificação e análise da mecânica de funcionamento do programa em outros estados, bem como envolver professores e gestores no processo de levantamento de dados.

AGRADECIMENTOS
Gostaríamos de fazer um agradecimento especial aos entrevistados do programa TV Escola, que gentilmente contribuíram para que pudéssemos atualizar os dados sobre o uso do sistema, além de nos passarem uma visão geral deste projeto proposto pelo Governo Federal. Estes, apesar de todas as dificuldades que encontram, são pessoas que acreditam que podemos ter um futuro melhor se investirmos na educação. Gostaríamos de agradecer também a CAPES Brasil, por financiar nossas pesquisas.

REFERÊNCIAS
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SISTEMA FEDERAL DE EDUCAÇÃO SUPERIOR NA MODALIDADE A DISTÂNCIA: O PAPEL DO GOVERNO ELETRÔNICO
Universidade Federal de Santa Catarina Doutorando do Programa de Pós‑Graduação em Engenharia e Gestão do Conhecimento
ecosta@ccs.ufsc.br

Edemir Costa

Universidade Federal de Santa Catarina Professor do Programa de Pós‑Graduação em Engenharia e Gestão do Conhecimento
Aires_egc@ufsc.br

Aires José Rover

Universidade Federal de Santa Catarina Professor do Programa de Pós‑Graduação em Engenharia e Gestão do Conhecimento
silvioserafim@bol.com.br

Silvio Serafim da Luz Filho

Universidade Federal de Santa Catarina Professor do Programa de Pós‑Graduação em Engenharia e Gestão do Conhecimento
spanhol@led.ufsc.br

Fernando José Spanhol

RESUMO
Seguindo a política de Governo Eletrônico, o Ministério da Educação instituiu o e-MEC com o objetivo de dinamizar e dar transparência aos processos de regulação da educação superior no Brasil. Com sua implantação, a tramitação dos processos regulatórios de instituições e cursos de graduação e sequenciais passaram a ser feitos exclusivamente por meio eletrônico no sistema e-MEC. Neste sentido o presente artigo procura mostrar a aplicação do sistema na modalidade da Educação a Distância onde, em razão de sua complexidade, as vantagens foram significativas tanto para o processo de credenciamento das instituições, quanto para sua aplicação e desenvolvimento. Com a utilização das modernas tecnologias de informação e comunicação por meio do e-MEC as instituições, além de contarem com um processo de credenciamento dinâmico e confiável, passaram a ser mais bem avaliadas no desenvolvimento de seus cursos à distância, permitindo a existência de uma expanção ordenada e legal, de forma a garantir a democratização da educação e a consequente formação responsável do cidadão, ampliando a possibilidade de sua inclusão social.
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PALAVRAS-CHAVE
Governo Eletrônico na Educação Superior. Governo Eletrônico. Educação Superior a Distância.

1. INTRODUÇÃO
A modalidade de ensino aplicada através da educação a distância corresponde apenas a uma das ações do Estado que se utiliza do Governo Eletrônico. A idéia de Governo Eletrônico, embora associada ao uso de tecnologia de informação no setor público, ultrapassa essa dimensão. Em alguns casos está vinculada à modernização da administração pública e à melhoria da eficiência dos processos operacionais e administrativos dos governos. (DINIZ, 2009). Segundo o Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão e o Ministério da Ciência e Tecnologia, o desenvolvimento de programas de Governo Eletrônico tem como princípio a utilização das modernas tecnologias de informação e comunicação (TICs) para democratizar o acesso à informação, ampliar discussões e dinamizar a prestação de serviços públicos com foco na eficiência e efetividade das funções governamentais. De acordo com Sanchez (2003), “o advento e utilização de novas tecnologias da informação sintetizada na chamada era digital, está modificando a forma de produzir, de comunicar-se e de relacionar-se entre os agentes sociais”. O programa de Governo Eletrônico brasileiro visa à transformação das relações do governo com os cidadãos, empresas e também entre os órgãos do próprio governo, de forma a aprimorar a qualidade dos serviços prestados, promover a interação com empresas e indústrias, e fortalecer a participação cidadã por meio do acesso à informação e a uma administração mais eficiente. Os níveis de relacionamento sustentados pelo e-gov ressaltam em si mesmos categorias de relacionamento entre o governo e a sociedade como um todo, as quais são caracterizadas por interações do tipo: a) G2C – Governo para Cidadão: refere-se às iniciativas relacionadas ao governo eletrônico voltadas para a promoção de informações e serviços aos cidadãos, em que é promovida uma interação entre ambos, com consequente inclusão digital. b) G2G – Governo para Governo: destinado às ações na área do governo eletrônico voltadas para a qualidade da integração entre os serviços governamentais, envolvendo ações de reestruturação e modernização dos processos e rotinas do próprio governo. c) G2B – Governo para Negócios: correspondente às ações no campo do governo eletrônico destinadas ao provimento de informnações e serviços para investimentos e negócios.
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Independentemente do tipo de interação promovido pelo sistema e-gov com a sociedade, podemos destacar alguns benefícios importantes, tais como a desburocratização da administração pública, a integração de soluções, a agilidade dos processos, a segurança, a redução de custo e a transparência, entre outros. Com base nos princípios dos programas de Governo Eletrônico descritos acima, a modalidade de educação a distância corresponde a uma transformação das relações do governo com os cidadãos no acesso à informação, bem como do governo com o próprio governo, em que o conjunto de práticas visam à modernização da gestão pública, caracterizando-se pela interação com diferentes agentes governamentais e com governos das diferentes esferas administrativas, permitindo o processamento de transações para o desenvolvimento de suas atividades de forma colaborativa. Além de possibilitar a ampliação do acesso à educação, essa transformação se tornou ainda mais necessária diante das dificuldades para a ampliação das estruturas físicas e dos recursos humanos imprescindíveis à educação presencial. A modalidade de ensino/aprendizagem a distância vem sendo aplicada em diversos países desde meados do século XIX. No Brasil, as considerações iniciais estão previstas no artigo 80 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação - Lei no 9.394/1996 e, nos últimos anos, essa modalidade de ensino passou a ter uma atenção especial por parte do governo com o objetivo de permitir a expansão, democratização e interiorização da educação. De acordo com o Decreto no 5.622, de 19 de dezembro de 2005, que regulamentou o artigo 80 da LDB, educação a distância é a modalidade educacional na qual a mediação didático-pedagógica nos processos de ensino/aprendizagem ocorre com a utilização de meios e tecnologias de informação e comunicação, com estudantes e professores desenvolvendo atividades educativas em lugares e tempos diversos. Para Neder (1999),
“A estrutura da EaD modifica o esquema de referência associado à pre‑ sença do professor e do estudante uma vez que compõe o ato pedagógico em dois momentos e dois lugares: e ensino é mediatizado, a aprendizagem resulta do trabalho do estudante, a reação do aluno face ao conteúdo vem indiretamente ao docente, através dos tutores e a interação em sala de aula é em grande parte reduzida”.

A complexidade na elaboração de seus projetos tem exigido a participação de um grupo de especialistas de diferentes áreas do conhecimento tanto pedagógico quanto tecnológico, além de um suporte jurídico consistente para permitir alcançar seus objetivos.
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No entanto, o avanço na área tecnológica nos últimos anos parece ser o fator que mais tem contribuído para essa mudança de comportamento do governo com relação à democratização da educação brasileira. Sob a ótica dessa abordagem, enfocaremos no artigo a educação superior no Brasil na modalidade a distância, e a importância das ações de Governo Eletrônico aplicadas através do Sistema e-MEC, como fatores de aprimoramento do processo da Educação a Distância.

2. CORPO DO ARTIGO 2.1 Modalidade de Educação a Distância (EaD)
Cada vez mais, a possibilidade de melhoria das condições sociais da população brasileira está diretamente relacionada com a capacidade de acessar e processar conhecimentos. O acesso às redes de informação e comunicação tem sido fundamental para a integração social em todos os segmentos, incluindo-se o da educação, independentemente da sua modalidade. A educação a distância teve seu início no mundo por volta de 1830, com a experiência da Suécia num curso de Contabilidade. Contudo, como ação institucionalizada, seu início deu-se apenas a partir da metade do século XIX. Naquele período, os meios utilizados limitavam-se aos serviços postais, considerados à época eficazes e acessíveis, permitindo aos alunos uma forma de ensino/aprendizagem diferente da tradicional. O início dessa modalidade de ensino ocorreu por volta de 1850. De acordo com Villardi e Oliveira (2000), o primeiro registro de experiências significativas de educação a distância no Brasil remonta à fundação do Instituto Rádio-Monitor, em 1939, e aos cursos por correspondência, de qualidade discutível, oferecidos até os anos 1970 pelo Instituto Universal Brasileiro. Somente em 1995 o Governo Federal cria a Secretaria de Educação a Distância, a qual passou a atuar em duas grandes frentes: o programa denominado “TV Escola” e o Programa Nacional de Informatização (PROINFO). Apesar da solução de continuidade, com as primeiras iniciativas de implantação da modalidade de educação a distância no Brasil, a criação de uma Secretaria específica na área trouxe consigo ações efetivas de interação do ensino com os programas de Governo Eletrônico.
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É importante lembrar que a criação da Secretaria de Educação a Distância deu-se na mesma época da implantação da Rede de Alcance Mundial no Brasil (Web). Em 1996, com a Lei no 9394/96 (LDB), pela primeira vez é previsto legalmente o ensino na modalidade a distância para todos os níveis de educação continuada de jovens e adultos. A referida lei recomenda, ainda, a adoção de programas de educação a distância para a qualificação dos docentes que atuam na educação básica sem formação superior. A legislação busca oferecer respostas adequadas às demandas sociais e econômicas, além de promover a articulação entre dois aspectos que, até então, se colocavam em constante conflito: a formação geral e a formação profissional. Apesar disso, as dificuldades para a implantação dos programas de educação a distância eram consideráveis. Os programas eram descontínuos, sem avaliação adequada dos resultados e, apesar da existência da Secretaria de Educação a Distância, eram organizados de forma desvinculada das reais necessidades do país. Por outro lado, a pouca divulgação dada aos cursos dificultava-lhes atingir uma participação social abrangente. As demandas da sociedade contemporânea exigem uma formação que articule com organicidade a competência científica e técnica, sem perder a identidade e a postura. Novas tecnologias devem ser compreendidas como elementos mediadores para a construção de uma nova representação da sociedade. (MARTINS, 2006). Segundo o histórico publicado pelo Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, em 2000 o governo brasileiro lançou as bases para a criação de uma sociedade digital através da implantação de um Grupo de Trabalho Interministerial encarregado de examinar e propor políticas, diretrizes e normas relacionadas com as novas formas eletrônicas de interação. A partir dessas ações, a educação a distância deixou de ser apenas uma alternativa ao ensino presencial para se tornar um importante instrumento na educação da população brasileira. Dados do Anuário Brasileiro Estatístico de Educação Aberta e a Distância (ABRAEAD) dão conta que, em 2005, mais de 1,2 milhão de pessoas estudaram a distância. Nesse mesmo ano foram levantados dados estatísticos que registram um número de 217 instituições atuando na modalidade de educação a distância de forma autorizada e credenciada no Sistema de Ensino. Esse total representa um crescimento de 30,7% em relação ao número de instituições credenciadas no ano anterior. Quanto ao número de alunos, o crescimento foi ainda mais expressivo. Em 2004 havia 309.957 alunos matriculados em cursos a distância, passando em 2005 para 504.204 alunos, o que representa um aumento de 62,6%.
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Mais recentemente, com a implantação da Universidade Aberta do Brasil (UAB), responsável pelo credenciamento das instituições de ensino federal, estadual e municipal no Ministério da Educação, para o desenvolvimento de cursos a distância, houve um avanço significativo dessa modalidade de ensino em nível superior. Atualmente estão credenciadas 88 instituições, para um total de 700 cursos que estão sendo desenvolvidos em 646 polos de ensino em todo o Brasil.

2.2 Educação Superior na Modalidade a distância no Brasil
De acordo com Moore e Kearsley (2007), a criação dos cursos de educação a distância deve seguir um modelo de Sistema de Instrução - Instructional Systems Design (ISD). Nesse modelo, aplicado também no Brasil, a elaboração dos cursos a serem desenvolvidos tanto pelas universidades públicas quanto pelas particulares passa pelos estágios de Análise, Elaboração, Desenvolvimento, Implementação e Avaliação. Cabe às instituições interessadas em oferecer cursos de educação a distância a análise de viabilidade do curso, seu planejamento e seu desenvolvimento, ou seja, a elaboração do projeto pedagógico a ser implementado. Somente após essas etapas, é que a instituição interessada submete o projeto ao Ministério da Educação para obter a autorização para o funcionamento. Segundo Almeida (2001), para os professores que atuam na Educação a Distância, participar de um ambiente virtual significa atuar nesse ambiente, expressar pensamentos, tomar decisões, dialogar, trocar informações e experiências e produzir conhecimentos A autorização ou credenciamento da instituição de ensino superior interessada na implantação de cursos de educação a distância dá-se de forma eletrônica, valendo-se do sistema de Governo Eletrônico. Entende-se por credenciamento o certificado que atesta que uma instituição de ensino ou curso cumpre um determinado padrão acadêmico. Segundo Ferreira (1999), credenciar é conferir poderes ou crédito, dar direito ou fazer merecedor, habilitar, capacitar e/ou qualificar. Assim, as instituições de ensino superior no Brasil, públicas e privadas, são submetidas a diferentes procedimentos de criação e de credenciamento. O credenciamento concedido pelo poder público, conforme o estabelecido na Lei no 9.394/1996, é temporário, havendo a necessidade do recredenciamento após as avaliações realizadas no contexto do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (SINAES).
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O SINAES prevê que a instituição de ensino, como um todo, deverá realizar o processo de avaliação interna, para depois ser submetida a uma avaliação externa conduzida pelo Ministério da Educação. O processo de credenciamento das instituições privadas é conduzido pela Secretaria de Educação Superior (SESu), pela Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica (SETEC), e pelo Conselho Nacional de Educação (CNE), do Ministério da Educação. As instituições estaduais e municipais estão subordinadas aos Sistemas Estaduais de Educação Superior, no que diz respeito ao credenciamento e recredenciamento, autorização e reconhecimento e renovação de reconhecimento, embora devam observar os dispositivos da LDB, assim como as diretrizes curriculares nacionais dos cursos superiores. Tratando-se da educação a distância, o ato de credenciamento considera como abrangência para atuação da instituição de ensino superior nessa modalidade a sede da instituição, acrescida dos endereços dos pólos de apoio presencial, mediante avaliação. A instituição pode requerer a ampliação da abrangência de atuação, por meio do aumento do número de polos, na forma de aditamento ao ato de credenciamento. Esse pedido, no entanto, somente poderá ser efetuado após o reconhecimento do primeiro curso a distância da instituição, exceto na hipótese de credenciamento para educação a distância limitado à oferta de pós-graduação lato sensu. Segundo informações contidas na página da Secretaria de Educação Superior do MEC, universidades e centros universitários que são credenciados para oferta de cursos superiores na modalidade a distância podem, de acordo com o Parecer CES/CNE 301/2003, no uso de sua autonomia, criar novos cursos superiores sem necessidade de autorização do MEC, estando submetidos apenas aos processos de reconhecimento (BRASIL, 2007c). Para obtenção do credenciamento no Ministério da Educação, o processo é analisado, em primeiro lugar, na Secretaria de Educação Superior (SESu), por uma comissão de especialistas na área do curso pretendido e em educação a distância, para então ser encaminhado ao Conselho Nacional de Educação, seguindo o mesmo trâmite aplicável aos cursos presenciais. Visando agilizar o trâmite dos processos de credenciamento dos cursos no MEC e, ao mesmo tempo, dar-lhes transparência, o Ministério da Educação, através da Portaria no 040/07, instituiu o e-MEC.

2.3 O Governo Eletrônico no Brasil
Dentro de uma perspectiva histórica e temporal, pode-se afirmar que a expressão Governo Eletrônico ou e-Gov começou a ser utilizada com mais
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frequência após a disseminação e consolidação da idéia de comércio eletrônico (e-commerce), na segunda metade da década passada (Diniz, 2000; Lenk e Traunmüller, 2002; Diniz, 2009) e, a partir daí, ficou completamente associada ao uso que se faz das TICs nos diversos níveis de governo. As ações do Grupo de Trabalho em Tecnologia da Informação (GTTI), formalizado através da Portaria no 23 da Casa Civil da Presidência da República, coadunaram-se com as metas do Programa Sociedade da Informação, coordenado pelo Ministério da Ciência e Tecnologia. Por orientação do Governo, o trabalho do GTTI concentrou esforços em três linhas de ação do Programa Sociedade da Informação: • Universalização de serviços • Governo ao alcance de todos • Infraestrutura avançada. Em julho de 2000, o GTTI propôs uma nova política de interação eletrônica do governo com a sociedade, apresentando um relatório preliminar contendo um diagnóstico da situação da infraestrutura e serviços do governo federal, as aplicações existentes e desejadas e a situação da legislação de interação eletrônica. Assim, foi estabelecido o Comitê Executivo de Governo Eletrônico, considerado um dos grandes marcos do compromisso do Conselho de Governo em prol da evolução da prestação de serviços e informações ao cidadão. O Comitê Executivo de Governo Eletrônico (CEGE) tem o objetivo de formular políticas, estabelecer diretrizes, coordenar e articular as ações de implantação do Governo Eletrônico e, atendendo a um plano de metas, apresentou o documento “Política de Governo Eletrônico”. Em outubro de 2003, a Presidência da República criou, através de decreto, oito Comitês Técnicos de Governo Eletrônico, a saber: • • • • • • • • Implementação do Software Livre; Inclusão Digital; Integração de Sistemas; Sistemas Legados e Licenças de Software; Gestão de Sítios e Serviços On-line; Infraestrutura de Rede; Governo para Governo - G2G, e Gestão de Conhecimentos e Informação Estratégica.

Essa estrutura dos Comitês Técnicos de Governo Eletrônico, através de ações inter-ministeriais, permitiu que as dificuldades existentes no planejamento dos cursos a serem criados e credenciados pelo governo fossem minimizadas. Atualmente o aporte tecnológico de informação e comunicação (TIC) entre os vários setores do governo e as iniciativas setoriais definidas no emprego das ferramentas de governo eletrônico a favor da melhoria da máquina
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do Estado pressupõem a construção e otmização de infraestruturas capazes de aproximar o cidadão do governo, dando-lhe qualidade no exercício da cidadania. Isso significa produzir e disponibilizar conteúdos que possam dar melhores condições à sociedade para o exercício do direito à informação, credibilidade e transparência. Conforme descrito na introdução deste trabalho, benefícios como a desburocratização da administração pública, a integração de soluções, a agilidade dos processos, a segurança, a redução de custo e a transparência, são resultados esperados com o emprego dessa nova forma de governança.

2.4 O Sistema e-MEC
O e-MEC é um sistema eletrônico de fluxo de trabalho e gerenciamento de informações relativas aos processos de regulação da educação superior no Sistema Federal de Educação. Com a implantação desse sistema, a tramitação dos processos regulatórios de instituições e cursos de graduação e sequenciais, do Sistema Federal de Educação Superior, passou a ser feita exclusivamente em meio eletrônico, no sistema e-MEC. Nele foram observadas as disposições contidas na Portaria no 040/07 e a legislação federal do processo administrativo, em especial os princípios da finalidade, motivação, razoabilidade, moralidade, interesse público, economia e celeridade processual e eficiência. Para as instituições públicas a ferramenta exige apenas o reconhecimento e a renovação das graduações. O acesso ao sistema para inserção de dados pelas instituições, pelo Conselho Nacional de Saúde e pelos conselhos nacionais de regulamentação profissional, enunciados nos art. 28, 36 e 37, do Decreto no 5.773/06, bem como por quaisquer outros agentes habilitados, dar-se-á pela atribuição de chave de identificação e senha de acesso, pessoal e intransferível, mediante a celebração de termo de compromisso. Para a oferta de cursos na modalidade a distância, o credenciamento deverá ser requerido por instituições de ensino superior já credenciadas no Sistema Federal de Educação, ou nos sistemas estaduais e do Distrito Federal, conforme determina o artigo 80 da Lei no 9.394/96, e o art. 9º do Decreto no 5.622/05, de acordo com o que prevê o art. 44, da Portaria Normativa que instituiu o e-MEC. Esse artigo estabelece as normas do credenciamento para a educação a distância em seus parágrafos:
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Parágrafo 1º – O pedido de credenciamento para EaD observará, no que couberem, as disposições processuais que regem o pedido de credenciamento. Parágrafo 2º – O pedido de credenciamento para EAD tramitará em conjunto com o pedido de autorização de pelo menos um curso superior na modalidade à distância, nos termos do art. 67 do Decreto no 5.773/06. Parágrafo 3º – O credenciamento para EaD tramitará em conjunto com o pedido de recredenciamento de instituições de educação superior. Parágrafo 4º – O credenciamento de instituições para oferta de cursos e programas de mestrado e doutorado na modalidade à distância se sujeita à competência normativa da CAPES e à expedição de ato autorizativo específico. (BRASIL, 2007b).

O pedido de credenciamento para a educação a distância, segundo o art. 46 da Portaria 040/07, será instruído de forma a comprovar a existência de estrutura física e tecnológica e recursos humanos adequados e suficientes à oferta da educação superior adistância, conforme requisitos fixados no Decreto no 5.622/05, e nos referenciais de qualidade próprios, com os seguintes documentos:
I – ato autorizativo de credenciamento para educação superior presencial; II – comprovante eletrônico de pagamento da taxa de avaliação, gerada pelo sistema, considerando a sede e os pólos de apoio presencial, exceto para instituições de educação superior públicas; III – formulário eletrônico de PDI (Planejamento do Desenvolvimento Institucional), no qual deverão ser informados os pólos de apoio presen‑ cial, acompanhados dos elementos necessários à comprovação da exis‑ tência de estrutura física, tecnológica e de recursos humanos adequados e suficientes à oferta dos cursos na modalidade a distância, conforme os requisitos fixados pelo Decreto no 5.622/05, e os referenciais de qualidade próprios. (BRASIL, 2007b).

Por meio de um cadastro, tanto a instituição quanto o Ministério da Educação movimentam o processo através de uma assinatura digital; ou seja, é possível consultar o andamento do processo e saber em que fase e setor ou departamento do MEC ele se encontra. O sistema e-MEC está dividido em dois menus principais: – Credenciamento; – Autorização do Curso. Depois de preencher os dados da mantenedora e da mantida, o representante da instituição acessa o menu “Credenciamento” cuja tela principal é a do PDI, onde serão solicitadas as seguintes informações: – perfil institucional; – projeto pedagógico;
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– implantação e desenvolvimento da instituição (programa de abertura do curso de graduação e seqüencial e de pós-graduação e extensão); – organização didático-pedagógica da instituição; – perfil do corpo docente; – organização administrativa da instituição; – infraestrutura e instalações acadêmicas; – demonstrativo de capacidade e sustentabilidade financeiras; – texto do regimento/estatuto; – situação legal; – regularidade fiscal; – demonstração do patrimônio. O outro menu principal do e-MEC corresponde à “Autorização do Curso”, cuja tela principal é a do Plano de Projeto do Curso (PPC), onde são requeridas as informações: – – – – – – – – – – justificativa da oferta do curso; perfil do egresso; representação gráfica de um perfil de formação; forma de acesso ao curso; sistema de avaliação do projeto do curso; sistema de avaliação do processo de ensino/aprendizagem; atividades de conclusão do curso; atividades complementares; estágio curricular; ato de credenciamento da IES.

Para que um pedido de credenciamento EaD seja efetivado, é necessário o pedido de, pelo menos, um curso de Autorização EaD. A Figura 1 mostra a página e-MEC do Ministério da Educação utilizada para a tramitação dos processos regulatórios das instituições e cursos de graduação e sequenciais, do Sistema Federal de Educação Superior. O pedido de credenciamento e recredenciamento da instituição de educação superior e de autorização, renovação e reconhecimento de cursos, além do pedido de modificação de processo, é feito eletronicamente através do e-MEC. Para acessá-lo é necessário o uso de uma senha e o CPF da pessoa autorizada pela instituição pleiteante. Na página inicial do sistema são observados vários ícones que, ao serem clicados, permitem orientações diversas. O primeiro deles corresponde ao “suporte”, no qual consta o número do telefone de apoio, o endereço eletrônico e o horário de funcionamento. Ao lado, encontra-se o ícone “perguntas frequentes”, onde existe um total de 66 perguntas e respostas, consideradas mais importantes e necessárias para a correta execução e acompanhamento do processo. Mais à direita encontrase o ícone “legislação”, ferramenta pela qual é possível ter acesso a toda a legislação pertinente ao processo. Ao lado situa-se o ícone “manuais”, através do qual o
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usuário pode obter todas as orientações de uso e navegação do sistema. Por último, à direita, encontra-se o ícone “Orientações Gerais”, que complementa as informações necessárias, incluindo o esclarecimento sobre o que é o e-MEC.
Figura 1. Sistema eletrônico de fluxo de trabalho e gerenciamento de informações, relativos aos processos de regulação da educação superior no Sistema Federal de Educação.

Fonte: http://emec.mec.gov.br/

Após acessar o sistema, o usuário irá entrar no menu “credenciamento” ou “autorização curso”, seguindo os passos previstos anteriormente no artigo. Por fim, todo o acompanhamento do trâmite do processo também se dá através dessa ferramenta.

3. CONCLUSÃO
A modalidade de educação a distância é, sem dúvida, uma das formas de promover a expansão da educação no Brasil. Com esse objetivo, o Ministério da Educação vem desenvolvendo ações para que a educação possa democratizar-se, levando o conhecimento àquele cidadão que não tem oportunidade de frequentar cursos e programas de aprendizagem no modelo presencial. É preciso, no entanto, que essa democratização seja feita de forma responsável, eficiente e com compromisso institucional, a fim de garantir a adequada formação do cidadão.
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O documento “Referenciais de Qualidade para Educação Superior a Distância” elaborado pela Secretaria de Educação a Distância do MEC dá mostras da preocupação do governo com a qualidade do ensino através dessa modalidade. Nele, são definidos princípios, diretrizes e critérios a serem utilizados como referência pelas instituições que ofereçam cursos a distância. Nos últimos anos a rápida expansão da modalidade de educação a distância, cuja abrangência de atuação da instituição inclui, além da sede, os polosde apoio presencial, obrigou o governo a criar mecanismos mais eficientes de controle e agilidade. Nesse sentido, o Ministério da Educação instituiu o sistema e-MEC através da Portaria Normativa no 040/07, visando não só agilizar o trâmite crescente de processos de credenciamento, mas também se preocupando em dar-lhes transparência. Nele serão observadas as disposições contidas na Portaria e na legislação federal do processo administrativo, com destaque para os princípios da finalidade, motivação, razoabilidade, moralidade, interesse público, economia e celeridade processual e eficiência. Como vimos anteriormente, o Programa de Governo Eletrônico tem como objetivo a transformação nas relações do governo com o cidadão, empresas e também entre os próprios órgãos do governo, de forma a aprimorar a qualidade dos serviços prestados. Desse modo, é preciso confiar na modalidade de educação a distância como uma forma eficiente para a formação do cidadão e acreditar que se trata essa modalidade de ensino/aprendizagem, de um investimento na inclusão social, com consequentes reflexos favoráveis à economia do país. Portanto, é possível considerar que o sistema e-MEC do Ministério da Educação, como parte do programa brasileiro de governo eletrônico, contribui com o aprimoramento dos cursos na modalidade de educação a distância, fortalecendo a participação cidadã por meio do acesso à informação, garantindo uma formação responsável do cidadão brasileiro.

REFERÊNCIAS
ABRAEAD (2008). Anuário brasileiro estatístico de educação aberta e a distância. 3. ed. Instituto Monitor, São Paulo, SP. BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil: promulgada em 5 de outubro de 1988. Página consultada a 2 de junho de 2009. <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constitui%C3%A7ao.htm>. BRASIL. Ministério da Educação. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Página consultada a 5 de junho de 2009. <http://portal.mec.gov.br/setec/arquivos/pdf1/proejalei9394.pdf>. BRASIL. Ministério da Educação. Portaria Nº 1.047 de 7 de novembro de 2007. Diretrizes para a elaboração, pelo INEP, dos instrumentos de avaliação para
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credenciamento de IES para a oferta de cursos superiores na modalidade a distância. 2007a. Página consultada a 5 de junho de 2009. <http://portal.mec.gov.br/ seed/arquivos/pdf/legislacao/dou_inep1-11.pdf>. BRASIL. Ministério da Educação. Portaria Normativa nº 40, de 12 de dezembro de 2007. Institui o e-MEC, sistema eletrônico de fluxo de trabalho e gerenciamento de informações relativas aos processos de regulação da educação superior no sistema federal de educação.2007b. Página consultada a 5 de junho de 2009. <http://www2. mec.gov.br/sapiens/portarias/port40.pdf>. BRASIL. Ministério da Educação. Portaria nº 1.047, de 7 de novembro de 2007. Diretrizes para a elaboração, pelo INEP, dos instrumentos de avaliação para credenciamento de IES para a oferta de cursos superiores na modalidade à distância. 2007c. Página consultada a 05 de junho de 2009. <http://portal.mec.gov. br/seed/arquivos/pdf/legislacao/dou_inep1-11.pdf>. BRASIL. Ministério da Educação. Referenciais de qualidade para educação superior a distância, agosto de 2007. 2007d. Página consultada a 6 de junho de 2009. <http:// portal.mec.gov.br/sesu/arquivos/pdf/referenciaisqualidadeead.pdf>. BRASIL. Ministério da Educação. Sistema eletrônico de fluxo de trabalho e gerenciamento de informações relativas aos processos de regulação da educação superior no sistema Federal de Educação. Página consultada a 6 de junho de 2009. <http://emec.mec.gov.br/>. BRASIL. Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. Histórico do governo eletrônico. Página consultada a 6 de junho de 2009. <http://www. governoeletronico.gov.br/o-gov.br/historico>. DINIZ, E.H. et al. O governo eletrônico no Brasil: perspectiva histórica a partir de um modelo estruturado de análise. Rev. Adm. Pública. Rio de Janeiro, RJ, v. 43, n. 1.FERREIRA, A.B.H. (1999). Novo Aurélio Século XXI: o dicionário da língua portuguesa. 3. ed. rev. e ampl. Nova Fronteira, Rio de Janeiro, RJ. MARTINS, O.B. (2006). Experiências em educação a distância no Brasil. Página consultada a 2 de julho de 2009. <http://www.nead.ufpr.br/conteudo/artigos/ experiencia_ead.pdf>. MOORE, M.; KEARSLEY, G. (2007). Educação a distância: uma visão integrada. Tradução de Roberto Galman. Thompson Learning, São Paulo, SP. NEDER, M.L.C.; LESSNAU, R. (1999). Curso de capacitação de tutores em educação a distância. UFPR/NEAD, Curitiba. SANCHEZ, O. A. (2003). O poder burocrático e o controle da informação. Lua Nova: Revista de Cultura e Política. São Paulo, SP, n. 58. VILLARDI, R.; OLIVEIRA, C.A. (2000). A política de educação a distância e a profissionalização: desafios. Revista de Administração Educacional, Recife, Pe. v. 2, n. 6, p. 37-47.

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CONTRIBUIÇÕES DAS TECNOLOGIAS KDD E DW COMO FERRAMENTAS DE GESTÃO DO CONHECIMENTO APLICADAS AO PROCESSO DE COMPRAS DO GOVERNO ELETRÔNICO
Departamento de Engenharia e Gestão do Conhecimento ‑ Universidade Federal de Santa Catarina
isamir.carvalho@serpro.gov.br

Isamir Machado de Carvalho

Departamento de Engenharia e Gestão do Conhecimento ‑ Universidade Federal de Santa Catarina
deniselcm@gmail.com

Denise L.C. Muñhoz

Departamento de Engenharia e Gestão do Conhecimento ‑ Universidade Federal de Santa Catarina
marcus.ferreira@unisul.br

Marcus Vinicius A. S. Ferreira

Departamento de Engenharia e Gestão do Conhecimento ‑ Universidade Federal de Santa Catarina
pmariasantos@yahoo.com.br

Paloma Maria Santos

Departamento de Direito e de Engenharia e Gestão do Conhecimento ‑ Universidade Federal de Santa Catarina
aires.rover@gmail.com

Aires José Rover

Departamento de Engenharia e Gestão do Conhecimento ‑ Universidade Federal de Santa Catarina
fapfialho@gmail.com

Francisco Antônio Pereira Fialho

RESUMO
O objetivo deste estudo é descrever as contribuições do uso das tecnologias Knowledge Discovery in Databases - KDD e Data Warehouse - DW como ferramentas de gestão do conhecimento aplicadas ao processo de compras do governo eletrônico. Explicase a gestão do conhecimento com foco em sua importância para a área pública e nas tecnologias adotadas. Adicionalmente, o processo de compras governamentais é abordado
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bem como o uso de sistemas tecnológicos e seu funcionamento no governo eletrônico. Utilizou-se a estratégia de estudo de caso com métodos qualitativos para levantamento e análise dos dados, por meio de análise de documentos e entrevistas semi-estruturadas. Foi possível constatar que no período de 2004 a 2009 houve evolução no uso de tecnologias cada vez mais refinadas. A partir das análises deste estudo observam-se evidências de que tecnologias de inteligência têm apoiado a tomada de decisão e contribuído para a transparência e a economicidade nas compras no âmbito do governo eletrônico no Brasil.

PALAVRAS-CHAVE
Governo Eletrônico, Compras Governamentais, Data Warehouse – DW, Knowledge Discovery in Databases – KDD, Data Mining, Gestão do Conhecimento.

1. INTRODUÇÃO
Um dos pontos de destaque da economia contemporânea tem sido o novo recurso: o conhecimento. Nas organizações da área pública e da área privada várias propostas de formas de gestão e tecnologias estão em constante discussão. Em especial, nas organizações públicas os mais importantes desafios estão na capacidade dos governos conseguirem rápida adaptação aos novos cenários, com o uso de tecnologias emergentes, e resposta de forma eficaz aos novos desafios de melhor servir aos cidadãos (SOARES JR e QUINTELLA, 2002). Assim, a motivação deste estudo teve base na dúvida quanto ao efetivo uso de tecnologias que envolvessem a descoberta de conhecimento para a melhoria dos serviços públicos. Este artigo tem por objetivo descrever as contribuições do uso de tecnologias como ferramentas de gestão do conhecimento aplicadas ao processo de compras do governo eletrônico. Para a identificação das contribuições foi buscada inicialmente fundamentação na literatura a respeito dos conceitos relativos a gestão do conhecimento, ao uso de ferramentas tecnológicas, aos conceitos de governo eletrônico aplicados aos processos de compras, inclusive a regulamentação brasileira de compras governamentais. Em seguida foram analisadas as experiências do uso das tecnologias Knowledge Discovery in Databases - KDD e Data Warehouse - DW, no caso o modelo de compras governamentais brasileiro – o portal ComprasNet, permitindo assim o vislumbre de algumas conclusões e recomendações.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 2.1 Gestão do Conhecimento
Muitas explicações a respeito da gestão do conhecimento podem ser encontradas na literatura, no entanto poucos autores a definem. Assim, a gestão do
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conhecimento pode ser entendida, segundo Drucker (1998), como “um modo ou sistema usado para capturar, analisar, interpretar, organizar, mapear e difundir a informação, para que ela seja útil e esteja disponível como conhecimento”. Para Santos et al (2001) a gestão do conhecimento é o processo sistemático de identificação, criação, renovação e aplicação dos conhecimentos que são estratégicos na vida de uma organização. Este autor defende que a administração dos ativos de conhecimento das organizações permite a elas saberem o que sabem, conduzindo-as a tomada de decisão com relação a melhor estratégia a ser adotada em relação aos seus clientes, concorrentes e ciclos de vida de produtos e serviços; a saberem identificar as fontes de informações; a saberem administrar dados e informações; e a gerenciarem seus conhecimentos. Trata-se da prática de agregar valor à informação e de distribuí-la. Por sua vez, Terra (2000) define gestão do conhecimento como “a capacidade das empresas em utilizarem e combinarem as várias fontes e tipos de conhecimento organizacional para desenvolverem competências específicas e capacidade inovadora, que se traduzem, permanentemente, em novos produtos, processos, sistemas gerenciais e liderança de mercado”. O autor sugere que a gestão do conhecimento requer a criação de novos modelos organizacionais (estruturas, processos, sistemas gerenciais); novas posições quanto ao papel da capacidade intelectual de cada funcionário; e uma efetiva liderança disposta a enfrentar as barreiras existentes ao processo de transformação. Conforme Santanna (2006), a gestão do conhecimento, no âmbito do Programa Brasileiro de Governo Eletrônico, é considerada um instrumento estratégico de articulação e gestão das políticas públicas. Dada a importância do tema, foi criado o Comitê Técnico de Gestão do Conhecimento e Informação Estratégica (CT-GCIE), compondo o Comitê Executivo de Governo Eletrônico. A missão deste comitê técnico é promover a gestão do conhecimento no âmbito do governo eletrônico na Administração Pública. Parte do pressuposto que o capital estratégico do Estado reside na experiência dos gestores públicos, o qual deve ser compartilhado em prol da sociedade brasileira. Para tanto, o comitê técnico atua no sentido de promover o uso dos princípios, conceitos, metodologias, ferramentas e práticas de gestão do conhecimento na administração pública. Assim, no âmbito do governo eletrônico, a gestão do conhecimento é compreendida como “um conjunto de processos sistematizados, articulados e intencionais, capazes de assegurar a habilidade de criar, coletar, organizar, transferir e compartilhar conhecimentos estratégicos que podem servir para a tomada de decisões, para a gestão de políticas públicas e para a inclusão do cidadão com produtor de conhecimento coletivo”. O autor explica que a gestão do conhecimento é fundamental para a difusão das boas práticas do Governo Eletrônico, pois permite aos funcionários públicos compartilharem práticas melhorando a relação entre os órgãos públicos, contribuindo para um governo mais transparente entre si e para a sociedade. Dentre os exemplos de soluções tecnológicas públicas desenvolvidas por meio de compartilhamento de boas práticas podem ser destacados: CACIC (Configurador Automático e Coletor de Informações
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Computacionais); Guia de Migração para Software Livre; e Pregão Eletrônico, disponível no ComprasNet, portal do processo de compras governamentais do governo brasileiro.

2.2 Ferramentas de gestão de conhecimento
Estudo realizado em 2005 pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA intitulado “Gestão do Conhecimento na Administração Pública” aponta algumas empresas estatais e ministérios que realizam processos de gestão do conhecimento, por meio de práticas e ferramentas, em diferentes níveis de adoção. Dentre as ferramentas adotadas destacam-se Data Mining e Data Warehouse, a seguir apresentadas.

2.2.1 Técnica Knowledge Discovery in Databases - KDD e Data Mining
O termo KDD, iniciais de Knowledge Discovery in Databases (descoberta de conhecimento em bases de dados), refere-se a um conceito geral de um processo de extrair conhecimento a partir de bases de dados, criado em 1989. Segundo Fayyad et al (1996), o “KDD é um processo, composto de várias etapas, não trivial, interativo e iterativo, para identificação de padrões compreensíveis, válidos, novos e potencialmente úteis a partir de grandes conjuntos de dados”. De acordo com o autor no processo de KDD o conhecimento útil é extraído e derivado de padrões de dados, inter-relacionados por tarefas funcionais, podendo auxiliar nas tomadas de decisões. O interativo diz respeito ao controle humano sobre o processo de KDD no sentido de analisar e interpretar os dados e padrões, e o iterativo significa a possibilidade de repetições integrais ou parciais do processo, a fim de aperfeiçoar e alcançar os resultados satisfatórios. O processo de KDD compõe-se por etapas operacionais organizadas em sequência, ilustrado na Figura 1.
Figura 1. Etapas do processo de KDD.

Fonte: Adaptado de Fayyad et al (1996).
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O processo de KDD é iniciado com o estabelecimento de objetivos e metas para sua aplicação, identificando quais conhecimentos relevantes devem ser tratados. Em seguida, a seleção de dados compreende a identificação de quais informações, dentre as bases de dados existentes, devem ser efetivamente consideradas durante o processo de KDD (Boente, 2008). A etapa de limpeza e pré-processamento de dados realiza operações como remover e corrigir dados errôneos ou inconsistentes, coletar informação necessária para modelagem, decidir estratégias para tratar campos perdidos, entre outros . Depois, a transformação de dados visa encontrar formas práticas para se representarem dados e métodos de transformação para reduzir o número efetivo de variáveis relevantes (Ferro, 2001). Logo, segue-se para a mineração de dados, ou Data Mining, quando ocorre a principal etapa do processo de KDD, isto é, efetua-se a busca por conhecimentos úteis no contexto da aplicação de KDD (Boente, 2008). Isso se dá pela aplicação de técnicas de Inteligência Artificial e algoritmos específicos para extrair padrões (modelos) de dados (Frawley, 1992). Podem-se tomar como exemplos de técnicas as redes neurais, algoritmos genéticos, modelos estatísticos e probabilísticos. Segundo Boente (2008), a escolha da técnica depende do tipo de tarefa de KDD a ser realizada, que, por sua vez, podem ser: descoberta de associação, classificação, regressão, clusterização, sumarização, detecção de desvios e descobertas de seqüências. Finalmente, a etapa pós-mineração de dados realiza o tratamento de conhecimento obtido e consiste na elaboração, organização e representação do conhecimento, para que haja interpretação e avaliação desse mesmo conhecimento pelo gestor, por exemplo, a fim de aplicá-lo em uma tomada de decisão (Fayyad et al,1996).

2.2.2 Data Warehouse - DW
O DW tem origem na necessidade de reunir dados oriundos de muitas fontes e de gerenciar um grande volume de informações. Seu conceito e aplicação evoluíram com o desenvolvimento de novas tecnologias de informação e metodologias. Segundo Inmon (1997), o DW é “um conjunto de dados baseado em assuntos, integrado, não volátil e variável em relação ao tempo, de apoio às decisões gerenciais”. De acordo com Han e Kamber (2001), na tecnologia de armazenamento de dados denominada “bancos de dados relacionais” os dados são modelados, relacionados e vistos em múltiplas dimensões, que representam as perspectivas sobre as quais a empresa deseja manter e tratar informações, tais como produtos, clientes, tempo de produção, entre outros. No entanto, para Inmon (1997), diferente de um produto acabado, um DW necessita adequar-se à organização, no sentido de configurar a realidade corporativa e dar suporte à análise e à tomada de decisões do negócio, como um banco de dados integrado com informações históricas, consistentes, orientadas ao assunto. Afirma que um modelo útil de DW deve ser capaz de responder às consultas avançadas de maneira rápida, sem deixar de mostrar detalhes relevantes à resposta. As principais etapas desse processo configuram-se em modelar os dados; extrair, tratar, limpar e inserir dados originais no DW; armazenar os dados (repositório
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das informações); criar ambientes de consultas; e, finalmente, analisar as informações disponíveis por meio de aplicações e ferramentas de tecnologia da informação, conforme ilustrado na Figura 2.
Figura 2. Arquitetura de Data Warehouse.

Fonte: Adaptado de INMON (1997).

Segundo Harison (1998), o DW alcançou uma importância relevante junto às empresas devido ao sucesso dos Sistemas de Gerenciamento de Banco de Dados Relacionais (SGBDR), à redução de custos e ao aumento do desempenho do hardware utilizado.

2.3 Governo eletrônico e processo de compras governamental
2.3.1 Governo eletrônico
O governo eletrônico, também denominado e-gov, tem por objetivo transformar a relação entre os governos, cidadãos e empresas, sobretudo em termos de agilidade e transparência dos processos. De acordo com Sanchez (1996), o e-gov visa o fomento aos valores democráticos, tais como a participação, a transparência, a atenção à dignidade humana, a representatividade e o controle, pela sociedade, sobre os agentes públicos. De modo semelhante, para Costa (2004) “há que se prover uma mudança de atitude do prestador de serviços, com o foco real nas necessidades dos cidadãos”. Assim, o egov tem base na utilização das tecnologias de informação e comunicação para democratizar o acesso à informação, ampliar discussões e dinamizar
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a prestação de serviços públicos com foco na eficiência e efetividade das funções governamentais. Hoeschl (2002) aponta os objetivos estratégicos do e-gov que incluem: melhoria da qualidade, segurança e rapidez dos serviços para o cidadão; simplificação dos procedimentos e diminuição da burocracia; avanço da cidadania; democracia da informação; transparência e otimização das ações do governo; educação para a sociedade da informação; facilidade de acessar o governo; integração das informações para o cidadão; geração de empregos na iniciativa privada; otimização no uso e aplicação dos recursos disponíveis; integração entre os órgãos do governo; aproximação com o cidadão; desenvolvimento do profissional do serviço público; aperfeiçoamento dos modelos de gestão pública; e universalização do acesso da informação. A definição de Governo Eletrônico, segundo Santos (2003) está relacionada ao uso da tecnologia da informação e da comunicação para promover maior eficiência e maior efetividade governamental, facilitando o acesso aos serviços públicos, permitindo ao grande público o acesso à informação, e tornando o governo mais accountable para o cidadão. Por sua vez, Grölund (2002) revisa definições de governo eletrônico destacando três objetivos comuns: tornar o governo mais eficiente, prover melhores serviços aos cidadãos e melhorar os processos democráticos. Grölund e Horan (2004) argumentam que as definições sobre governo eletrônico derivam da prática e não do suporte de desenvolvimento teórico consistente. Os autores afirmam que governo eletrônico está mais ligado à governança que a governo, considerando que o termo governança eletrônica é mais apropriado. Riley (2004) aponta a distinção entre governo e governança. Afirma que a função básica do governo é focar a sociedade para atingir os interesses públicos, enquanto que a governança é uma forma de descrever as ligações entre o governo e seu macro-ambiente, seja político, social ou administrativo. Acrescenta ainda que outra forma de descrever essa diferença seja que enquanto o governo se relaciona com certas atividades específicas e de curto prazo, a governança se relaciona com processos e resultados de longo prazo. O termo governo eletrônico assim, é mais usado pelos pesquisadores em sistemas de informação e o termo governança eletrônica é mais usado pelos cientistas sociais (Grölund e Horan, 2004). Hiller e Bélanger (2001) abordam classificações diferentes para os tipos de relacionamentos no âmbito do governo eletrônico, quais sejam: 1. Governo prestando serviços aos indivíduos (G2IS). Neste tipo de relacionamento, o governo estabelece maneiras de prestação de serviços ou de benefícios para os cidadãos, quando, por exemplo, é requerido um direito na agência de seguro social ou quando é solicitada uma informação para processar um benefício;
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2. Governo com os indivíduos como parte do processo político (G2IP). Esse é o relacionamento entre o governo e seus cidadãos como parte do processo democrático. A votação on line e a participação em pesquisas durante um processo de regulação são alguns exemplos; 3. Governo com os negócios no portal de compras (G2BMKT) e diretamente com o cidadão (G2BC). Trata-se do relacionamento do governo com os fornecedores (pessoas físicas e jurídicas), no qual as oportunidades de negócios no âmbito do Estado são exploradas, e com cidadãos que podem pagar por serviços especiais, em que a iniciativa privada pode participar como intermediária para a oferta de serviços que podem ser cobrados dos cidadãos (concessões e permissões); 4. Governo com agentes públicos (G2E). Este relacionamento se dá entre as agências governamentais e seus empregados ou servidores. Isso pode ser feito, por exemplo, mediante uma intranet que provê informações para seus empregados; 5. Governo com governo (G2G). Trata-se do relacionamento entre agências do governo colaborando umas com as outras em nível central e local, bem como com governos estrangeiros.

2.3.2 Processo de compras governamentais
No Brasil, a Lei n° 8666/199 rege o processo de compras e contratações no governo cuja finalidade é estabelecer normas gerais sobre licitações e contratos administrativos pertinentes a obras, serviços (inclusive de publicidade), compras, alienações e locações no âmbito dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios. Os princípios aplicados às aquisições governamentais envolvem: Isonomia, Economicidade, Legalidade, Impessoalidade, Moralidade, Igualdade, Publicidade, Probidade, Vinculação ao instrumento convocatório e Julgamento objetivo (REZENDE, 2006). Santos (2004) relata que o sistema de compras governamentais no Brasil, envolve três modalidades, de acordo com o valor dos negócios, quais sejam: modalidade para pequenas compras, dispensa licitação; modalidade convite; modalidade pregão eletrônico. O autor destaca que “as exigências legais para aquisição de materiais e serviços criam rotinas profundamente morosas para a manutenção da estrutura administrativa governamental”. Ressalta que, além da lentidão que perpassa o processo, muitas vezes envolve corrupção, falta de controle sobre os estoques e mais uma lista de outros problemas. Contudo, tornar o processo de compras governamentais um procedimento on line ajuda a resolver parte das dificuldades e traz mais transparência. 2.3.2.1 Portal de Compras do Governo Federal - ComprasNet Instituído pelo Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão – MP, o ComprasNet é um portal Internet que visa tornar disponível à sociedade
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informações relativas às licitações e contratações promovidas pelo Governo Federal e permitir a realização de processos eletrônicos de aquisição. Está disponível no sítio eletrônico www.comprasnet.gov.br (Figura 3) onde podem ser vistos os avisos de licitação, as contratações realizadas, a execução de processos de aquisição pela modalidade de pregão e outras informações relativas a negociações realizadas pela administração pública federal direta, autárquica e fundacional.
Figura 3. Portal de Compras do Governo Federal – ComprasNet.

Fonte: http://www.comprasnet.gov.br/

De acordo com Resende (2006), o ComprasNet foi instituído em 1997 para efetuar a publicação eletrônica dos avisos e editais de licitação nas suas diversas modalidades, bem como dos resumos dos contratos firmados pela Administração Pública Federal. Tem sido objeto de ajustes com o propósito de transformá-lo num efetivo Portal de Compras do Governo Federal. A autora explica que o ComprasNet é um módulo WEB do Sistema Integrado de Administração de Serviços Gerais - SIASG, composto por diversos subsistemas com atribuições específicas voltadas à modernização dos processos administrativos dos órgãos públicos federais integrantes do Sistema de Serviços Gerais – SISG, visando atender a sociedade, fornecedores e Administração Federal e suas informações estão distribuídas por áreas de conteúdo específico para cada público. Para a sociedade estão disponíveis informações que permite a qualquer cidadão acompanhar as contratações realizadas pela Administração e exercer o seu direito de fiscalização. Para os fornecedores disponibiliza informações
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relativas às licitações e contratações, além de facilidades que os auxiliam a efetuar e manter atualizado o seu registro cadastral que permitem o acesso a avisos e editais de licitação que possibilitam a participação em processos eletrônicos de contratação. Para os órgãos e entidades da administração federal direta, autárquica e fundacional, disponibiliza uma série de facilidades voltadas para o controle e execução dos processos de contratação. As facilidades geram muitos benefícios ao possibilitar a redução dos custos das contratações e tornar mais transparentes as compras governamentais. Assim, os principais objetivos do ComprasNet são: Dar total transparência e permitir o controle pela sociedade das ações e decisões que envolvam as compras públicas, no âmbito do Poder Executivo Federal e dos demais órgãos que aderirem ao SIASG; Dotar a Administração Pública de um conjunto de ferramentas voltadas à gestão das compras e contratos firmados pelas entidades governamentais com os fornecedores de bens e serviços; Dar aos fornecedores maior oportunidade de participação em processos licitatórios, em função do aumento da publicidade e da desburocratização do processo de cadastramento e de habilitação de fornecedores válido para toda a Administração Pública Federal, e; Reduzir custos e melhorar a qualidade das compras de bens e da contratação de serviços. No que se refere ao desempenho desta solução tecnológica, estudo realizado pelo Banco Mundial (BIRD, 2006) aponta que os processos de licitações eletrônicas realizados por meio do ComprasNet atingiram patamares máximos de eficiência nos indicadores que avaliaram a transparência na divulgação das licitações e de seus respectivos resultados e na utilização de métodos licitatórios competitivos. O estudo também mostra que o percentual das licitações eletrônicas do Governo Federal anuladas é de 0,89%, enquanto o limite satisfatório estabelecido pela análise foi de até 5%, evidenciando que a elaboração dos editais pelos servidores federais é bastante eficiente. No quesito agilidade, o sistema de compras eletrônicas do Governo Federal também se superou. Enquanto o BIRD recomenda um prazo de até 21 dias entre a publicação do edital e a abertura das propostas encaminhadas pelos fornecedores, o intervalo apresentado por aquele é de, em média, 13,24 dias.Comparando um processo de contratação por meio eletrônico e tradicional, o estudo do BIRD relata que, enquanto o pregão eletrônico leva cerca de 17 dias, desde a publicação do edital até o resultado final, no modelo tradicional, o processo mais ágil é o da carta-convite, que leva 22 dias, podendo chegar até 120 dias, no caso da concorrência. Observa-se, portanto, os relevantes ganhos de eficiência com a informatização do processo e o uso de tecnologias apropriadas.
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3. A IMPORTÂNCIA DE TECNOLOGIAS DE GESTÃO DE CONHECIMENTO PARA A TOMADA DE DECISÃO
Mintzberg e Quinn (1996) contribuem para a compreensão relativa à tomada de decisões estratégicas. Os autores defendem o “incrementalismo lógico” entendido como o processo de mudança estratégica numa organização para afirmar que ela dificilmente ocorre de forma racional e analítica, mas de forma “fragmentada, evolucionária e intuitiva”. Tal entendimento aponta que os gestores agem de forma flexível e experimental trabalhando com grandes idéias até o comprometimento com ações específicas. Os autores, considerando as decisões estratégicas, estimam a existência de fatores diversos que devem ser tratados em busca de um resultado. Acrescentam que limites cognitivos podem existir além dos limites do processo decisório. Estes limites estariam relacionados, principalmente, ao tempo e a seqüência das ações ao longo do processo decisório. Segundo Nonaka & Takeuchi (1997) a gestão do conhecimento inclui a determinação do que a empresa sabe ou deveria saber para atingir seus objetivos estratégicos. De acordo com os autores, o conhecimento passa a ser um ativo na organização que, como qualquer outro, necessita ser administrado, otimizado e utilizado em situações competitivas. Afirmam que na prática o conhecimento é matéria-prima para apoio às decisões gerenciais ou até mesmo subsídios para tomada de decisões em relação qualquer situação organizacional. Sendo assim, é possível perceber a ligação estreita entre dados, informações e conhecimentos gerados dentro das empresas decorrentes de tecnologias de gestão do conhecimento e boa gestão organizacional. E, por meio do uso de tecnologias de gestão do conhecimento para apoio à tomada de decisão, a organização pode dispor de armazenamento e de processamento de grandes volumes de dados. No âmbito da área publica “é preciso vislumbrar a gestão do conhecimento de forma ampla, já que estamos numa sociedade impulsionada pelas tecnologias da informação e comunicações”, afirma Santanna (2006). O autor explica que a informação é vital na construção da base cultural e comportamental de uma nova sociedade e de um novo modelo de gestão pública. Explica que o papel do Estado continua fundamental como agente estratégico para atendimento da demanda de participação direta dos cidadãos e, também, na tomada de decisões estratégicas. Entende que a transparência e a diminuição da burocracia se devem ao crescimento das informações em rede, implicando em maior controle social sobre o Estado, contribuindo para a democratização do processo decisório e efetividade da ação governamental. O autor também destaca que o desenvolvimento de uma política de Gestão do Conhecimento implica em conscientizar a alta gerência das organizações
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para sua incorporação nos processos. As novas tecnologias precisam ser conhecidas pelos tomadores de decisão do governo vislumbrando o potencial para a adoção de novas práticas que podem ajudar na diminuição da fragmentação da informação. Ainda, ressalta que “o Brasil não sabe o que sabe e é impossível para a sociedade brasileira saber o que o governo deveria estar informando, se a própria organização não se apropria do seu conhecimento interno e não o compartilha corretamente”. O autor afirma que ainda há um longo caminho que requer o desenvolvimento de práticas, gestores capacitados, utilização de ferramentas com eficiência, desenvolvimento de portais e metodologias que diminuam a fragmentação da informação do Estado, que aproximem os gestores, que criem comunidades de prática de interesse entre os diversos órgãos da federação, particularmente da União, e que troquem informações entre si.

4. MÉTODO ADOTADO
Foi utilizada, para fins de desenvolvimento deste estudo, a estratégia de estudo de caso com métodos qualitativos para levantamento e análise dos dados tendo sido realizada análise de documentos e entrevistas semi-estruturadas, conforme sugere Yin (2001), visando garantir a confiabilidade. O objeto de pesquisa escolhido foi o processo de compras governamentais incluindo a solução tecnológica ComprasNet, devido as características de evolução percebidas na literatura disponível. Foram analisadas informações relativas ao período de 2004 a 2008. O levantamento de dados foi feito em documentos disponíveis na internet e aqueles recebidos dos entrevistados durante o mês de abril e maio de 2009. O público entrevistado contou com a participação de gerentes de nível estratégico e tático-operacional da área de negócio do SERPRO (Serviço Federal de Processamento de Dados), empresa pública responsável pelo desenvolvimento da solução tecnológica ComprasNet. Assim, as entrevistas semi-estruturadas foram aplicadas a dois superintendentes (atual e anterior), um gerente e em analista (atuais). As limitações do estudo incluem o restrito tempo para a realização do levantamento de dados, não tendo sido exaustivo; não reaplicação da técnica de KDD; realização de entrevista semi-estruturada apenas com os responsáveis pelas tecnologias adotadas, não tendo envolvido clientes.

5. ANÁLISE DOS RESULTADOS
Os resultados deste estudo apontam as principais contribuições das tecnologias adotadas para o processo de compras governamentais, conforme apresentado na Tabela 1.
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Tabela 1. Principais tecnologias de gestão do conhecimento adotadas no processo de compras governamentais e suas contribuições, período de 2004 a 2009.. Tecnologias adotadas Contribuições com o uso das tecnologias

2004 Identificação de padrões que podem subsidiar um novo modelo de compras governamentais. Padrão 1 – Realização de aquisições por dispensa de licitação de um mesmo fornecedor destacando-se: Inexistência de competitividade; Favorecimento de fornecedores; Direcionamento de resultados; Não Técnica aplicação dos princípios relativos às compras governamentais. KDD Padrão 2 – Realização de aquisições por dispensa de licitação de um mesmo e Data material várias vezes em um mesmo ano destacando-se: Fracionamento de Mining Licitação; Não aplicação dos princípios relativos às compras governamentais. Padrão 3 – Realização de aquisições por dispensa de licitação de um mesmo material várias vezes em um mesmo ano de um mesmo fornecedor destacando-se: Inexistência de competitividade; Favorecimento de fornecedores; Direcionamento de resultados; Fracionamento de Licitação; Não aplicação dos princípios relativos às compras governamentais. 2005 e 2006 Melhora da eficiência e fiscalização do governo a partir do cruzamento de informações que caracterizam irregularidades ou melhores práticas. A partir da aplicação das tecnologias de Data Mining, Data Warehouse e de Data algoritmos bastante inovadores na área de paralelização do processamento. Warehouse Adoção do Tamanduá, sistema de inteligência organizacional, com a utilização do Data Mining em hardware comoditizado de baixo custo e de alto desempenho utilizando software livre e algoritmos para determinar regras não explícitas de comportamento. 2007 Implementação de novas funcionalidades que permitem visões de Compras, Fornecedores, Empenho e Ata do pregão: Quanto a Compras: visão do governo pelo Sistema SIASG. Foi contemplada a modalidade de compra Tomada de Preço, além das demais modalidades já existentes. Quanto ao Fornecedor: visão das pessoas físicas ou jurídicas que participam dos processos de compras do governo no papel de fornecedores de material ou serviços. Data Warehouse Quanto ao Contrato: visão dos contratos firmados entre o governo federal e os fornecedores, decorrentes de um processo de compra ou contratação de serviço. Quanto ao Empenho: visão dos registros pelas unidades administrativas (UASGs) interessadas, decorrentes de um processo de compra ou contratação. Quanto à Ata do Pregão: visão dos dados relativos ao processo de compras e/ou contratação de serviços firmados entre o governo federal e os fornecedores na modalidade pregão.

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2008 Cooperação entre usuários que utilizam soluções livres para tratar Data problemas. Warehouse Uso do sistema de inteligência Tamanduá com foco em demonstrar que as soluções livres possibilitam a cooperação dos usuários na resolução dos problemas, assim como na evolução qualitativa do sistema. 2009 Análises de informações que apóiam os processos decisórios de políticas Data de compras governamentais, fiscalizações e auditorias executadas pelos Warehouse órgãos de controle do Governo Federal (SFC, CGU e TCU), bem como negociações com o comércio exterior regidos pela ALCA e o MERCOSUL. Fonte: Dados coletados em documentos e entrevistas pelos autores.

Em 2004, o estudo de caso de Rezende (2006) mostra a adoção da técnica de KDD considerando valores gastos nas compras efetuadas, na modalidade de compras governamentais com dispensa de licitação, com aplicação da técnica de Data Mining (mineração de dados) para a descoberta de novos padrões. O estudo resultou em um modelo para a melhoria do processo de compras pelos gestores da Secretaria de Logística de Tecnologia da Informação, do Ministério do Planejamento (SLTI/MP), com a seguinte proposta: • Incentivar o uso de tecnologias que possibilitem o redesenho do processo de compras; • Implementar o uso de uma solução eletrônica de compras; • Recomendar o uso do Sistema de Cotação Eletrônica que automatiza os pedidos para compras governamentais com teto de R$ 8 mil; • Elaborar uma orientação normativa fixando um prazo, tratando as situações imprevisíveis como exceções, não passíveis de planejamento, desde que devidamente justificadas; • Garantir a obediência aos princípios constitucionais da legalidade, da impessoalidade, da moralidade, da igualdade, da publicidade e da probidade administrativa; • Instruir melhor os processos de dispensa; • Capacitar e treinar os envolvidos nos processos de aquisição para o Governo Federal. Deste modo, Rezende considera que a técnica de KDD é extremamente útil para a análise de comportamentos e poderia ser aplicada em várias situações relacionadas às ferramentas de Governo Eletrônico. Os resultados obtidos e os padrões identificados podem subsidiar o redirecionamento de diversas ações e melhorias dos processos. Afirma que não percebe restrições no uso desta técnica em aplicações de Governo Eletrônico, pois a utilização do KDD gera mais informações possibilitando melhor tomada de decisão. Todavia, julga importante fazer uma adequada seleção dos dados e definição do que se pretende estudar, para não correr o risco de obtenção de informações que não tenham utilidade.
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Em relação a 2005 e 2006, Santanna (2006) aponta o software Tamanduá, sistema de inteligência organizacional, como apoio importante à tomada de decisões capaz de vasculhar a base de dados de compras governamentais e determinar regras não explícitas de comportamento. Menciona que este sistema resultou de um projeto de cooperação, entre a Universidade Federal de Minas Gerais e a Universidade do Amazonas, que desenvolve este tipo de aplicação que permite melhorar a eficiência e a fiscalização do governo. Esclarece que o software Tamanduá varre diferentes bases de dados e cruza informações em busca de comportamentos que possam caracterizar irregularidades ou melhores práticas que podem ser estendidas para o conjunto dos órgãos públicos. Um exemplo é o teste realizado com esta ferramenta na análise das compras de cartuchos de tinta para impressoras HP na administração direta. O resultado mostrou que a forma mais eficiente de comprar é por Pregão Eletrônico e que a forma menos eficiente para se comprar é por Dispensa de Licitação. O autor afirma que foi possível descobrir que os compradores mais eficientes na compra de cartuchos HP também eram os mais eficientes na aquisição de outros produtos e vice-versa. Ainda, foi possível perceber que determinados órgãos compravam sempre da mesma empresa e que pagavam mais caro que os demais. Em 2007, um novo DW-SIASG, desenvolvido pelo SERPRO, ofereceu nova estrutura de armazenamento para os dados, novos módulos e um novo modelo lógico multidimensional, contemplando todas as bases de dados do SIASG de origem. Novas funcionalidades e características, tais como, recuperação dos dados, melhor navegabilidade, segurança, eficiência, rapidez e elaboração de consultas pré-formatadas, foram destaque para os usuários do alto escalão do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. Em 2008, o Congresso Internacional de Governo Eletrônico e Sociedade - Consegi 2008 - além de promover painéis, palestras e atividades culturais, contou com a 3ª Rodada de Compartilhamento de Softwares da Administração Pública que apresentou soluções tecnológicas com o objetivo de despertar o interesse de usuários e possíveis colaboradores. O foco foi demonstrar que as soluções livres possibilitam a cooperação dos usuários na resolução dos problemas, assim como na evolução qualitativa de ferramentas. Dentre eles foi destacado o software Tamanduá, já mencionado, sistema de plataforma de serviços de mineração de dados para apoio à gestão e decisão governamentais, em particular com relação a compras e contratações. Nota-se, deste modo, a continuidade do uso de tecnologias pela administração pública, em especial, no processo de compras governamentais. Em 2009, verifica-se no Portal ComprasNet a explicitação dos propósitos atuais do processo de compras governamentais. Além da declaração do objetivo do Sistema Integrado de Administração de Serviços Gerais - SIASG, destacase o item Informações Gerencias sobre Compras Governamentais (DW), cuja finalidade é “prover informações analíticas relativas às compras e contratações efetuadas pela Administração Pública Federal, assim como dos fornecedores do
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Governo Federal, sob gestão do Departamento de Logística e Serviços Gerais do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. Estas informações se baseiam nos critérios de quantidades e valores, permitindo que os usuários habilitados criem e executem relatórios que subsidiem os processos decisórios em suas áreas de atuação. As informações são atualizadas mensalmente, com dados extraídos do SIASG, garantindo a disponibilidade das informações do último dia do mês de atualização. Destacam-se entre os principais usuários o Departamento de Logística e Serviços Gerais do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão (MP), Tribunal de Contas da União (TCU), Secretaria Federal de Controle (SFC) e Senado Federal.” Portanto, observa-se, o uso de tecnologias de DW para o processo de tomada de decisão e controle dos processos pelos gestores públicos.

6. CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES
Neste estudo foram identificadas importantes contribuições do uso das tecnologias Knowledge Discovery in Databases – KDD e Data Warehouse – DW como ferramentas de gestão do conhecimento aplicadas ao processo de compras do governo eletrônico. Constatou-se intenso uso dessas tecnologias que propiciam condições para a gestão do conhecimento, especialmente no que se refere à descoberta de conhecimentos úteis para a tomada de decisão. Assim, os resultados deste estudo incluem: a) identificação de padrões que podem subsidiar um novo modelo de compras governamentais; b) melhora da eficiência e fiscalização do governo a partir do cruzamento de informações que caracterizam irregularidades ou melhores práticas; c) novas funcionalidades que permitem visões de Compras, Fornecedores, Empenho e Ata do pregão; d) cooperação entre usuários que utilizam soluções livres para tratar problemas; e) análises de informações que apóiam o processo decisório de políticas de compras governamentais, fiscalizações e auditorias. Foi possível verificar que durante o período pesquisado, de 2004 a 2009, houve evolução no uso de tecnologias cada vez mais refinadas. Observou-se o uso de técnicas de KDD, incluindo Data Mining e Data Warehouse, que gerou melhorias contínuas no processo de compras governamentais. Outrossim, observou-se o estabelecimento de parcerias que permitiram o desenvolvimento de soluções tecnológicas específicas, cuja adoção tem sido fundamental para o alcance dos objetivos do ComprasNet. A respeito do governo eletrônico, percebe-se que o Portal ComprasNet tem um tipo de relacionamento denominado G2BMKT, que se caracteriza por ter negócios em portal de compras e diretamente com o cidadão, envolvendo fornecedores. Também se percebe que as contribuições identificadas neste estudo apóiam o alcance dos objetivos do e-gov, principalmente no que se refere a: a) simplificação dos procedimentos e diminuição da burocracia; b) transparência e
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otimização das ações do governo; c) otimização no uso e aplicação dos recursos disponíveis; d) integração entre os órgãos do governo; e e) aperfeiçoamento dos modelos de gestão pública. Oportuno destacar que os resultados deste estudo são corroborados pelos propósitos apontados por Santanna (2006). O autor aponta que a gestão do conhecimento é fundamental para a interação do Estado com os cidadãos, organizações e empresas, principalmente em um mundo dominado pela tecnologia da informação e comunicações. Afirma que “ter informação é votar melhor, é fazer melhores negócios, é ter acesso a melhores oportunidades de emprego e oportunidades econômicas, é ter condições de participar politicamente”. Esclarece que a sociedade da informação pode diminuir a distância entre incluídos e excluídos, e entre países pobres e ricos, sendo necessário o repensar da distribuição social de riqueza. Ainda, Santanna (2006) ressalta a importância de compartilhar o conhecimento, a educação para onde o Estado está ausente. Explica que o desafio do Governo Eletrônico Brasileiro é o compartilhamento do conhecimento para a promoção da cidadania e redução das desigualdades sociais. Deste modo, entende ser possível a construção de uma sociedade mais justa e democrática. Portanto, as análises deste estudo apontam para evidências de que as ferramentas de gestão de conhecimento têm apoiado a tomada de decisão e contribuído para a transparência e a economicidade das compras governamentais no Brasil. Recomenda-se para estudos futuros verificar a evolução do DW no sentido de gerar análises de informações que efetivamente apóiem os processos decisórios de políticas de compras governamentais, fiscalizações e auditorias executadas pelos órgãos de controle do governo. Sugere-se também pesquisa que contemple a avaliação da percepção das partes envolvidas no processo de compras governamentais no ComprasNet.

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A IMPORTÂNCIA DO CZRM PARA A IMPLANTAÇÃO DO E-GOV
Professor Titular, Centro Universitário UnirG
ricardoalmeida@ricardoalmeida.adm.br

Américo Ricardo Moreira de Almeida

Professora Assistente, Centro Universitário UnirG
cejanaborges@hotmail.com

Cejana Marques Borges

Valdicleia Menezes Ferreira
valdicleiamenezes@hotmail.com

Administradora

RESUMO
Este artigo objetiva a compreensão do que vem a ser o governo eletrônico e os principais resultados que se deseja alcançar com a aplicação deste novo modelo de gestão. Esta tendência de administração pública apóia-se nos recursos tecnológicos disponíveis, proporcionando novas formas de interação com cidadão. Na busca de se obter resultados efetivos, é imprescindível a utilização do Citizen Relationship Management (CzRM). Para que se possa compreender a importância deste recurso, faz-se necessária a abordagem dos conceitos de Customer Relationship Management (CRM), uma ferramenta do marketing, empregada no setor privado que, no âmbito governamental, ganha o nome de CzRM. Ambos visam o melhor relacionamento com os clientes/ cidadãos, proporcionando aos mesmos a prestação de melhores serviços, uma vez que, conhecendo-os, é possível que empresa/governo trace estratégias para melhor atender as necessidades de seu público-alvo. Assim, acredita-se que, através desta nova forma de interação e relacionamento entre governo/cidadão seja possível atingir um modelo de gestão participativa, democrática, que resolva de modo eficaz, problemas existentes na sociedade contemporânea.

PALAVRAS-CHAVE
Governo eletrônico, Marketing, CzRM.

1. INTRODUÇÃO
No século XXI, a sociedade presencia um processo de mudança global do modelo de desenvolvimento, um modelo informacional, constituído de novas tecnologias, de um novo modelo econômico, político, organizacional e de
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gestão coletiva, através dos meios de telecomunicação alcançados mediante avanços tecnológicos. Estas mudanças ganharam novas nomenclaturas e, entre estas, podem ser citadas “Nova Economia”, “Economia Digital”, “Economia em Rede”, ou “Sociedade do Risco”, ou ainda, simplesmente “A Economia da Informação”. A tecnologia da informação e considerada primordial para a reestruturação socioeconômica, surgindo assim, o paradigma da “sociedade informacional” ou sociedade da informação distinguindo-se dos sistemas sociais anteriores, uma vez que, a informação, disseminada principalmente através da rede, abrange todas as esferas da sociedade, causando uma profunda mudança social e econômica. Neste contexto, surge o estabelecimento de novos modelos de negócios, novas formas de relação com o cliente e isso ocorre, não só no setor privado, mas, na esfera pública que também passa a adotar estas novas práticas de modo a adequar-se a esse paradigma da atual sociedade. No âmbito governamental, o público-alvo ou o cliente, é o cidadão, que, assim como o consumidor de bens e serviços, deseja obter um retorno do Estado que, desde sua concepção, tem como função primordial promover o bem-estar social, através da regulamentação, controle e gestão dos serviços primordiais para a comunidade. O presente artigo busca a compreensão de aspectos relacionados ao governo eletrônico, e as práticas que envolvem este processo, principalmente no que tange as ferramentas utilizadas para que o novo modelo de gestão do governo possa alcançar os resultados almejados. Com isso, faz-se necessária a abordagem dos conceitos de Customer Relationship Management (CRM), geralmente aplicado no setor privado e do Citizen Relationship Management (CzRM), no âmbito governamental, sendo que ambos objetivam o melhor relacionamento com os clientes/cidadãos, proporcionando aos mesmos a prestação de melhores serviços, uma vez que, conhecendo-os, e possível traçar estratégias para melhor atender suas necessidades.

2. GOVERNO ELETRÔNICO
O conceito de governo eletrônico é ainda emergente e a literatura ainda não consolidou o mesmo. Uma das dificuldades apontadas para tal definição e o caráter extremamente abrangente da prática que, nos dias atuais, é chamada de Governo Eletrônico (JOIA, 2002). Os autores Zweers e Planque (2001), explicam que o governo eletrônico tem por objetivos disponibilizar informações, serviços ou produtos aos cidadãos por meio eletrônico, para que se possa agregar valor a todos que se relacionam com a área governamental.
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De acordo com a definição de Balutisiv (1999), o Governo Eletrônico é constituído os seguintes elementos: Comércio Eletrônico; Customer Relationship Management (CRM); Supply Chain Management (SCM) e ainda, estão extremamente relacionados à Gestão do Conhecimento, ao Business Intelligence (BI) e as Tecnologias Colaborativas. Outro autor que discorre sobre este tema é Tapscott (1997), e afirma que a prática do governo eletrônico envolve tecnologia que liga, através da rede, os sistemas internos, e, desta forma, a informação e disponibilizada a todos, como os fornecedores, clientes comerciais, contribuintes, eleitores; bem como as demais instituições da sociedade, como as escolas, laboratórios, comunicação de massa, hospitais, até mesmo outros níveis de governo e outras nações em todo o mundo. Ainda, segundo o autor, isso possibilita a quebra de barreiras de tempo e distância, oferecendo ao cidadão, serviços de melhor qualidade, com custos reduzidos. Diante dos conceitos relacionados, o e-Government (e-Gov) utiliza as Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) para a comunicação e prestação de melhores serviços a sociedade. Este termo – o e-Gov – vem sendo empregado pela mídia aos novos portais ou websites governamentais devido ao surgimento destes novos canais de distribuiçãao de serviços públicos. Deste modo, o governo constitui uma relação mais próxima com o próprio governo, com empresas e com o cidadão. Para as transações no setor empresarial e no meio tecnológico, são empregadas terminologias para caracterizar os tipos de negócios realizados, por exemplo, a terminologia para transações entre empresas, B2B (Business to Business) e para transações entre empresas e cidadãos/clientes B2C (Business to Consumer). No âmbito das relações de Governo Eletrônico, apresenta-se basicamente três tipos de transações: a intra ou intergovernos, G2G; transações entre governos e fornecedores, G2B; e relações entre governos e cidadãos G2C. Podem ser realizadas através de computadores e internet, por meio de telefonia móvel, call centers e ainda, por meio de computadores pessoais, desde que estes tenham aplicativos compatíveis. Porém, FOUNTAIN (2001), afirma que a disponibilização de serviços on-line exige uma adequação das organizações governamentais abrangendo aspectos técnico-gerenciais, a reformulação dos processos e a implantação de um novo modelo de gestão. Para a autora, este certamente é o maior desafio do e-Gov, e que este processo deve contar com uma rede de agencias virtuais, envolvendo atores federais, estaduais, locais, sem fins lucrativos e privados, e serviços baseados na Web que conectam os websites de centenas de organizações. Para Diniz (2002), a atuação efetiva do governo eletrônico reformula a relação entre o governo e a sociedade, e representa também uma das principais
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formas de modernização do Estado, podendo resultar em um processo de democratização política, contribuindo para aumentar a legitimação de governos, e para o estabelecimento de novos modos de gerenciamento das atividades públicas. Quando se trata da relação governo-cidadão, outro aspecto a ser considerado, e o da utilização do marketing – segundo Kotler e Armstrong (1999), e a entrega de satisfação para o cliente em forma de benefício – na obtenção de resultados positivos, dependendo dos objetivos a serem alcançados na esfera pública. Neste sentido, há uma distinção entre marketing publico, marketing político e marketing eleitoral, apesar da inter-relação entre estes. Para Almeida (2006) no marketing público são utilizadas as ferramentas e os conceitos do Marketing a serviço do governo Federal, estadual e municipal como também das organizações públicas, que buscam a satisfação das necessidades e desejos de uma comunidade. Pensando assim, seria necessário apenas seguir o programa de governo colocado na campanha eleitoral, pois, afinal, a comunidade escolheu aquele programa, aquele candidato com quem se identificou, e que iria melhor representá-la, ou seja, que teria melhores condições para atender aos seus desejos e necessidades. No marketing político, as ferramentas e os conceitos do marketing estão a serviço dos partidos ou do indivíduo político, que deseja uma construção positiva de sua imagem. Para isso, pode-se lançar mão dos tradicionais conceitos de segmentação e posicionamento. É necessário saber exatamente quem o público (ou eleitor) deseja ter como líder. Busca-se então, “encaixar” o perfil desta pessoa ou partido frente a este desejo, ou melhor, deve-se perceber quais são as qualidades desta pessoa (candidato) que satisfaçam a esses desejos. Aqui o que mais conta é a história, a trajetória de vida. Suas ações no passado projetam seu futuro. (ALMEIDA, 2006) O marketing eleitoral faz uso das ferramentas e os conceitos do marketing para serem utilizados nas Campanhas Eleitorais. De fato, as ações são planejadas para acontecer em uma seqüência lógica, com objetivo de conquistar um cargo público. Para isso, e primordial conhecer as necessidades e desejos da comunidade envolvida. Na verdade, quem é profissional de marketing e não “marketeiro”, irá buscar, através do planejamento de uma campanha eleitoral, ações que busquem a satisfação comunidades, de modo a atender seus anseios. (ALMEIDA, 2006) Almeida (2006) afirma que apesar das definições e usos diferentes o marketing eleitoral, político e público, para essas variedades de marketing possam ter efetividade, devem possuir uma seqüência natural, ou seja, no marketing eleitoral se fará um discurso que vá de encontro às necessidades e desejos do eleitor. Isso irá consolidar a carreira política de uma pessoa pública e consequentemente, fortalecerá o seu marketing político. Quando esse político no exercício de uma função pública executa o exato discurso que o elegeu, além do fortalecimento
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de sua trajetória estará realizando a verdadeira essência do marketing público e proporcionando assim aos cidadãos as ações que são seus desejos e necessidades. Assim utilizadas essas três formas do marketing servem seguramente para consolidar a idéia democrática surgida na Grécia antiga. Desse modo, a filosofia do Citizen Relationship Management (CzRM) se torna ferramenta indispensável desse processo. O e-Gov através do CzRM ferramenta imperativa para a obtenção de informações que proporcionam o conhecimento do cidadão - poderá fornecer dados sobre população, necessários para a construção de um planejamento mais adequado que consiga maior alcance e resultados junto ao cidadão, de acordo com o que este, espera de seus governantes. A Figura 01 apresenta alguns dos resultados e benefícios que se pretende alcançar com a adoção desta nova ferramenta de relacionamento do governo eletrônico.
Figura 01. Nova forma de relacionamento do Governo eletrônico.

Fonte: Leão, Paulo Alcântara Saraiva, Painel CONIP 2006.

De acordo com a representação de Leão (2006), o governo eletrônico propiciará um aumento da transparência das ações do governo, o crescimento da disponibilização de informações na internet para a população e o aperfeiçoamento dos processos internos dos órgãos públicos. Com isso, haverá um aumento do controle social sobre o Estado, resultando na democratização do processo decisório e uma maior efetividade da ação governamental. Na busca de obter estes resultados com a implantação do governo eletrônico, o CzRM surge como instrumento necessário para o planejamento de estratégias que tem como objetivo atender de modo eficiente o cidadão, oferecendo serviços de melhor qualidade e promovendo maior interação com o mesmo. Essa ferramenta e uma adaptação e/ou uma evolução do Customer Relationship Management (CRM), por isso e necessário se entender primeiramente os conceitos originais para que se possa entender a importância dessa ferramenta na gestão de e-Gov.
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3. CRM – CUSTOMER RELATIONSHIP MANAGEMENT
Este capítulo aborda os conceitos e definições de Customer Relationship Management (CRM), para a devida compreensão desta ferramenta utilizada, de um modo geral, por empresas privadas, para que, no momento posterior, seja realizada a abordagem no Citizen Relationship Management (CzRM), prática do CRM no âmbito governamental. De acordo com Cardoso e Filho (2001), o CRM e decisivo para a sobrevivência da empresa no mercado atual, caracterizado pela competição acirrada causando um maior custo na conquista de consumidores. O CRM é um procedimento administrativo, onde há uma combinação de processos de negócios e tecnologia na busca constante de entender os clientes para proporcionar um melhor entendimento na empresa. Para isto, é necessário o conhecimento destes consumidores em diversos aspectos como: Quem são? O que fazem? E o que gostam de fazer? Segundo os autores anteriormente citados (p.40) “CRM pode ser também definindo como o planejamento, gerenciamento e operacionalização da experiência do cliente, aplicando-se as mais avançadas tecnologias da informação visando a fidelização e criação de valor”. Sob o mesmo ponto de vista, Kalakota e Robinson (2002), definem CRM “como uma estratégia integrada de vendas, marketing e serviços, que exclui o isolamento e que depende de ações coordenadas de toda a empresa”. De acordo com Filho (2001, apud Gartner e Group):
CRM e uma estratégia de negócio voltada ao entendimento e antecipação das necessidades dos clientes atuais e potenciais de uma empresa. Do ponto de vista tecnológico, CRM envolve capturar os dados do cliente ao longo de toda a empresa, consolidar todos os dados capturados interna e externamente em um banco de dados central, analisar os dados consoli‑ dados, distribuir os resultados dessa análise aos vários pontos de contato com o cliente e usar essa informação ao interagir com o cliente através de qualquer ponto de contato com a empresa.

Ainda sob visão de Filho (2001, apud Gartner e Group), o CRM é também chamado de Marketing de Relacionamento, Marketing em Tempo Real, Intimidade com o Cliente, entre outros. Para o autor, o CRM pode ser divido em: analítico, colaborativo e operacional. O primeiro, tem a função de identificar os diferentes tipos de clientes existentes em uma empresa, após esta etapa, ele e responsável pela determinação das estratégias mercadológicas para atender as necessidades destes consumidores. Já o segundo, é composto pela utilização da Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) que permite a conexão com todos os pontos de contato entre a empresa e o consumidor, de
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forma a interagir com o cliente. Enquanto que o terceiro também é a aplicação de TIC, porém, visando o aperfeiçoamento da comunicação entre a empresa e o cliente. Os autores consultados afirmam que o CRM possui três fases, também as denominam como ciclos de vida dos clientes. Para melhor abordagem, este tópico será subdividido em três etapas. Sendo elas: aquisição de novos clientes; aprimoramento da rentabilidade dos clientes existentes e retenção de clientes lucrativos para toda a vida, conforme mostra a figura 02.
Figura 2. As três fases do CRM.

Fonte: Kalakotas e Robinson, 2002, p. 170.

Conforme abordagens realizadas sobre o conceito e funções do CRM, busca-se nos subitens posteriores explorar aplicações desta ferramenta em aspectos específicos que, inclusive, elucidarão a figura acima, objetivando uma maior compreensão sobre o tema abordado neste item.
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3.1 Aquisição de novos clientes
No mercado atual, para conquistar novos clientes é preciso promover uma liderança de produtos e serviços, que possam atingir novos limites de desempenho, sempre respeitando a oportunidade e a inovação. Pois, para o consumidor, a proposição de valor é o produto oferecido juntamente com uma boa prestação de serviço. Em todo início de relacionamento, seja de negócios ou pessoais, há sempre insegurança, perturbação e certo medo. Para haver a conquista deste consumidor, a empresa deverá vencer tais obstáculos, baseando-se em um planejamento que resulte em uma experiência integrada entre todos os membros da organização. De forma que as respostas ao cliente sejam imediatas, satisfazendo as necessidades do mesmo. Aumentando assim, as possibilidades de efetivação da venda (CARDOSO; GONÇALVES FILHO, 2001). Colocar o vendedor diante de uma pretensão de compra de determinado cliente, e um dos objetivos do CRM. Este programa busca identificar os prospects como: nome, telefone, interesses específicos, costumes, preferência de compra e histórico das ultimas aquisições. Após estas assimilações a empresa utiliza sua habilidade com a comunicação dirigida e integrada para estas pretensões de compras por diferentes tipos de mídias, para comunicarse individual ou coletivamente com base nas informações do banco de dados (BRETZKE, 2006). Sob o ponto de vista de Kalakota e Robinson (2002), a possibilidade de efetivação da compra aumenta consideravelmente quando o cliente tem uma resposta imediata a sua solicitação de informação adicional ao produto. Os autores citam o exemplo de uma pessoa que navega na internet e solicita outras informações sobre determinado produto e a resposta vem entre um e três minutos. Esta estratégia de venda e serviço suaviza a incerteza do primeiro contato e cria uma suave mudança de possível cliente para cliente. Deste modo, as ações de CRM são voltadas para que a empresa possa obter informações que venham a auxiliar na elaboração de estratégias direcionadas não somente para efetuar uma venda, mas, para fazer com que ocorra o retorno do cliente à empresa, mediante ações direcionadas para o alcance desses objetivos.

3.2 Aprimoramento da rentabilidade dos clientes existentes
Bretzke (2006) diz que o CRM e um dos procedimentos mais sofisticados e competentes, que alteraram o jeito como as empresas podem alargar a rentabilidade dos clientes atuais. Para facilitar e viabilizar este método, a internet e usada como canal de relacionamento e de vendas. Embora praticado por poucas empresas, os resultados são amplamente compensadores para os clientes mais
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leais, criando maior satisfação com a marca, proporcionando também alto grau de proximidade entre as partes como nunca visto anteriormente. Neste contexto, e feito um gerenciamento de contato do cliente com a empresa, para que as respostas, tanto em relação às dúvidas quanto ao atendimento de qualquer solicitação de compra. A concorrência do mercado atual tem exigido dos empresários e de toda a equipe de trabalho, a necessidade de agregar valor a todos os aspectos da empresa, tanto para se manter no mercado como buscar novas posições perante os concorrentes (DIAS e DIAS, 2000). Ainda segundo os autores (p. 17): O atendimento superior oferece ao cliente uma organização focalizada no atendimento verdadeiro de suas necessidades e, ainda, proporciona-lhe momentos agradáveis, promovidos por colaboradores bem preparados, através de um sistema de atendimento planejado... Alem disso, possibilita a empresa um aumento do numero de clientes e da fidelidade dos mesmos, ou seja, a organização passa a ter uma facilidade maior para reter clientes atuais e atrair novos clientes. Sob a mesma linha de pensamento, Freemantle (1994) afirma que o investimento no atendimento se refere à melhoria da prestação de serviço, mas para isso, é necessário descobrir como seus clientes vêem a empresa e quais são suas expectativas e anseios em relação aos serviços por esta oferecidos. Observar também, quanto tempo, esforço e recursos estão dispostos para este investimento, o que e demonstrado no quadro a seguir. Que segundo o autor, isto significa:
Quadro 1. Quadro de investimentos no atendimento ao cliente. INVESTIR Incentivo a melhor prestação de serviço, visando atingir os mais altos padrões de atendimento ao cliente; Gerente e equipes confiáveis, voltados Formação (e seleção) para a satisfação das necessidades dos clientes internos e externos. Sistemas (informação, faturamento, Para assegurar que os compromissos feitos controle, distribuição, telefone, etc) aos clientes sejam sempre atendidos. Pequenos extras (adornos) Que façam os clientes vibrarem. Para que seja compatível com os altos Ambiente padrões de serviço que você quer que o cliente espere de você. Para que não possam ser igualados Produtos e serviços por seus concorrentes e que realmente seja valorizado pelo cliente. Isto significa investir num nível de recursos adequado (com reserva de capital suficiente) para efetuar a operação básica do negócio sem atraso ou prejuízo para o cliente. Treinamento Fonte: Baseado em Freemantle (1994, p.91).
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De acordo com o quadro acima, são mencionados aspectos pertinentes a adequação da empresa, no sentido de promover um atendimento que venha de encontro às necessidades do cliente. Assim, quando a empresa passa a conhecer as expectativas do deste em relação à empresa, são delineados par esta, os caminhos a serem seguidos de modo a promover a satisfação e consequentemente a fidelização deste cliente.

3.3 E-crm (customer relationship management)
Nos negócios de formato digital, o CRM tem igual importância para que se possa conhecer o cliente, uma vez que, na interação on-line, o mesmo também se relaciona com a empresa, e esta, deve buscar informações que forneça dados de modo possibilitar o estabelecimento de uma relação mais estreita com o cliente, buscando se antecipar, de acordo com suas preferências. Segundo Bezos, o e-CRM é uma personalização da internet, que permite a empresa melhor atender as necessidades/desejos dos consumidores, oferecendolhes um tratamento personalizado de acordo com as preferências e costumes de cada um. Permite a empresa antecipar-se aos anseios dos consumidores, conquistando assim a lealdade dos mesmos sem prejudicar a rentabilidade da organização, mesmo que esta tenha 20 milhões de clientes. O mercado digital, também demanda mudanças radicais no processo de marketing, envolvendo assim o CRM. Este sugere acolher cada cliente de maneira unificada, utilizando-se de diversos meios de comunicação (e-mail, mala-direta, telefone ou pessoalmente). Como dito anteriormente, a empresa utilizando-se do CRM visando interação com os consumidores e customização de seus produtos e serviços. O mesmo acontece com o e-CRM, ou seja, este último é a aplicação do primeiro, porem no mercado eletrônico. “As possibilidades nesta área são imensas, mas ainda existem erros nas estratégias de empresas, que muitas vezes reduzem sua atuação no envio de e-mails ou em publicações de paginas institucionais na internet”, (KALAKOTA e WHINSTON, 1997 apud TESTA, et al, 2006, p. 06). Para uma maior visualização desse contexto Luciano e Freitas (2004, p. 2 e 3) criam um exemplo de um cliente que ao acessar um site procurando um livro, só poderá efetivar a compra se houver uma interação entre os sistemas de informação da organização, seus fornecedores e parceiros. Em outras palavras, quando um cliente acessa um site e compra um determinado produto, essa compra só será possível se houver uma interação entre os sistemas de informação da empresa e, também entre a empresa e seus fornecedores e rede de parceiros. Esse consumidor pode ter encontrado o livro que necessitava justamente pelo resultado do trabalho de uma ferramenta de CRM (e-CRM). Essa ferramenta pode, através de um banco, ter buscado as características de perfil e preferências desse consumidor específico e assim ter sugerido o livro para aquisição. “Para que todos estes sistemas funcionem da velocidade demandada pelas transações via Internet eles precisam estar interligados – a empresa, fornecedor, parceiros e consumidor”. (LUCIANO E FREITAS, 2004, p. 3)
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Cardoso e Filho (2001) dizem que o operacional e/ou o estratégico devem ter uma visão geral do cliente dentro da organização, o que ainda não foi atingido. Os autores definem os principais desafios no oferecimento de um verdadeiro e-CRM: • Consistência para construir uma estratégia de canais interativa e integrada; • Equilíbrio entre as interações self‑service e os atendimentos pessoais; • Adoção da tecnologia certa no tempo certo; • Mudanças no gerenciamento; e • Avaliação das expectativas dos clientes quanta aos serviços com base na web. De acordo com as idéias e conceitos expostos sobre e-CRM, e de vital importância à adequação das ferramentas de marketing, quanta a interação com o cliente, de modo a conhecê-lo e adequar os produtos/serviços a suas necessidades, proporcionando um atendimento personalizado, mais eficiente, e faça com que este, mediante sua satisfação, gere inclusive, a captação de novos clientes.

4. CZRM: O CRM DO GOVERNO ELETRÔNICO
Este capítulo busca o entendimento sobre relação do governo eletrônico e as ferramentas de CRM que, no âmbito governamental, ganha o conceito de Citizen Relationship Management (CzRM) – Gestão de Relacionamento com o Cidadão – bem como, a importância desta prática, para que se possa alcançar bons resultados com a adoção deste novo modelo de gestão através de recursos tecnológicos disponíveis atualmente.

4.1 CzRM - citizen relationship management
Com as mudanças ocorridas em função dos avanços tecnológicos, as empresas, governos e comunidades passam por uma profunda transformação no modo de interação. Neste novo cenário que se apresenta, a velocidade, a flexibilidade e a inovação passam a ser fatores imprescindíveis. (CASTELLS apud BITTENCOURT FILHO, 2001). Na esfera governamental, um dos principais elementos do e-gov e um sistema de CzRM – Citizen Relationship Management (Gestão de Relacionamento com o cidadão), que proporciona uma gestão mais eficiente e facilita a interação com o cidadão. Através de uma plataforma de informação, onde são reunidos dados dos diversos órgãos de governo, é possível que o cidadão obtenha atendimento com maior rapidez, podendo interagir mediante diversos canais de comunicação.
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Segundo Santos (2006), a partir do CzRM torna-se possível a obtenção de informações sobre os cidadãos de modo a conhecê-los melhor. O atendimento por parte dos órgãos governamentais passa a ser realizado de modo mais consistente e o acesso à informação bem como dos serviços oferecidos por estes, são disponibilizados aos cidadãos de modo mais rápido e com segurança. Ainda, de acordo com o autor, é possível realizar o monitoramento das solicitações efetuadas pelos clientes e a medição da eficiência do atendimento prestado. De acordo a exposição de Xavier e Golveia (2004), na Conferencia IberoAmericana, a pratica do CzRM: “_ procura alcançar, na relação com os cidadãos, os benefícios que o CRM já demonstrou nas relações com os clientes; - auxiliar as entidades publicas a conseguir mais e melhor conhecimento dos cidadãos e, por essa via, satisfazer mais eficazmente suas necessidades; - melhoram o nível de serviço”. Para que o CzRM seja adotado com a obtenção de resultados positivos, e necessário que haja uma mudança cultural, uma reformulação nos processos, de modo que os objetivos estejam centrados no cliente. Deste modo, a aplicação de novas tecnologias, a reestruturação e integração dos processos, são fatores determinantes para a disponibilização de serviços online de forma a facilitar à comunicação, possibilitando novas funcionalidades que podem ser personalizadas de acordo com o perfil do usuário, com a devida atenção as necessidades individuais do mesmo. Ainda de acordo com Xavier e Golveia (2004), se faz necessária uma adequação do modelo de CzRM a região na qual será implantado, ou seja, nas cidades e regiões digitais (CDR), e afirma que: – o CzRM não e aplicável as situações em que as propostas de CRD não funcionam em torno do cidadão; – e indispensável em modelos de CRD que tenham como preocupação o espaço público de informação social, para o suporte a vida dos cidadãos, e cuja arquitetura contemple a ligação estreita, entre o digital e o espaço físico. Deste modo, a filosofia de CzRM deve considerar como ponto de partida a necessidade de capitação, satisfação e fidelização dos cidadãos. Assim, a melhoria na oferta de serviços, a redução de custos de interação, a personalização da relação e, a qualidade e volume de informações serão alcançados. Através da obtenção de informações que propiciem o conhecimento não só dos cidadãos, mas, de todos os stakeholders – todos os envolvidos num processo, por exemplo, colaboradores, investidores, fornecedores – tornam-se possível avaliação do contexto no qual o governo atua, norteando o planejamento e auxiliando na tomada de decisões, de modo a realizar ações de acordo com as condições do ambiente e das expectativas dos atores locais.
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5. CONCLUSÃO
Com o advento das Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs), a sociedade contemporânea tem a oportunidade de realizar, mais do que em qualquer tempo anterior da história, o ideal democrático oriundo da Grécia antiga. É natural que no sistema capitalista, as mudanças ocorram primeiramente no mercado, impulsionadas pela extrema concorrência que a evolução do sistema econômico impõe as organizações, porem, o Estado, para manter-se eficiente e eficaz e obrigado a utilizar destas mesmas ferramentas sob pena de não conseguir realizar suas funções básicas, como fazia anteriormente. Se hoje e imprescindível à utilização da ferramenta CRM para as organizações privadas, para que essas possam atrair e reter seus clientes, na esfera governamental, o CzRM também se mostra imprescindível pois, sem este recurso, o governo não conseguira elaborar um planejamento voltado a atender as necessidades/anseios da população, de forma mais efetiva. Através do CzRM a implantação de um sistema de e-Gov se apresentara completo, possibilitando a toda esfera governamental uma total interatividade com o cidadão. Dessa forma, as ações de governo podem ser realizadas seguindo os desejos e necessidades da população. A gestão dos processos ganha agilidade e confiabilidade, tornando transparentes todas as ações realizadas pelos órgãos públicos. Por tudo isso, fica claro que o CzRM e o e-Gov são duas filosofias que se completam e que fortalecem o sistema democrático, ou seja, são ganhos fundamentais para toda a sociedade.

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CIBERINCUBADORA: UM MODELO PARA O DESENVOLVIMENTO REGIONAL
Professor titular, Centro Universitário UnirG
ricardoalmeida@ricardoalmeida.adm.br

Américo Ricardo Moreira de Almeida

Acadêmico, Centro Universitário UnirG
jenilsoncirqueira@gmail.com

Jenilson Alves de Cirqueira

RESUMO
Apresentar uma nova proposta para o conceito de incubação de empresas é o principal objetivo desse artigo. Ressaltando os principais conceitos envolvidos no planejamento do desenvolvimento regional sustentável, bem como os modelos existentes de incubação e suas mais importantes bases conceituais, a pesquisa elege algumas das características da cibercultura para construir a idéia da ciberincubadora, que busca identificar as novas necessidades da sociedade contemporânea, para visualizar soluções aos atores envolvidos.

PALAVRAS-CHAVE
Cibercultura, desenvolvimento regional, incubadora de empresas.

1. INTRODUÇÃO
Ao focar sua discussão maior na questão da tecnologia da informação e comunicação dentro do contexto do desenvolvimento regional sustentável, o presente artigo não deixa de lado posicionamentos e questões importantes desse tema. Hoje, quando se pensa em desenvolvimento regional, a questão da sustentabilidade se apresenta como indispensável e indiscutível. Porém, muitos outros aspectos são totalmente discutíveis e, por isso estão longe de um consenso, como por exemplo, qual seria a melhor perspectiva para o desenvolvimento regional sustentável: endógeno ou exógeno? Outro ponto é a questão da influencia ainda existente do pensamento que se batizou de porteriano. Apesar das fortes críticas sofridas nos últimos anos é notório que o pensamento de Michel Porter ainda influencia e muito o planejamento e a gestão estratégica de organizações públicas e privadas. Deste modo, ao se planejar a implantação de um projeto junto a um município, Estado ou país se faz necessário observar esse fator. Ressalta-se que
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é por esse motivo, que são utilizadas algumas referências mais antigas sobre o tema, justamente por que se tornaram clássicas nesta discussão. Dentro desses contextos, o conceito de incubadoras de empresas como apoio ao desenvolvimento regional sustentável se apresenta já há algum tempo como uma solução saudável precisamente por possibilitar o nascimento e fortalecimento de micro, pequenas e médias empresas. A recente popularização das novas tecnologias possibilitou o surgimento de uma evolução no conceito de incubadora de empresa que aparentemente ainda se encontra em um estágio embrionário e que justamente por isso ainda se apresenta com diversas roupagens e vertentes, nominadas hora como incubadora digital hora como incubadora virtual. O artigo discutirá o estado da arte desses conceitos e também apresentará uma nova visão que nasce com o intuito de ser um novo instrumento para o desenvolvimento regional sustentável: a ciberincubadora. Esse novo modelo se utiliza das modernas tecnologias da informação e comunicação disponíveis, assim também como dos diversos e atuais conceitos que essas tecnologias envolvem.

2. A INOVAÇÃO E O EMPREENDEDORISMO
Tanto o conceito de desenvolvimento regional, quanto o de incubadora de empresas estão intimamente ligados aos conceitos de inovação e de empreendedorismo. A Organização de Cooperação para o Desenvolvimento Econômico (OCDE, 1996), afirma que a inovação se caracteriza pela transformação de uma idéia em um novo produto, de um processo operacional para a indústria ou para o comércio, ou ainda, em um novo método social. Schumpeter (1988) é o autor que mais trabalhou o tema e melhor define o conceito de inovação, fazendo pela primeira vez a distinção desse conceito com o da invenção, que antes era tradicionalmente usada como sinônimo. Schumpeter ensina que a invenção não possui um caráter necessariamente ligado ao desenvolvimento econômico ao contrário da inovação. Para Schumpeter (1988), a inovação deve ser vista como o impulso fundamental que, além de colocar, mantém a engrenagem da economia em movimento. Dessa forma, para esse autor o desenvolvimento econômico somente pode ocorrer em sua plenitude se existir a inovação como base. Neste mesmo sentido, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, IPEA (2005) define inovação tecnológica como a:
introdução no mercado de um produto (bem ou serviço) tecnologicamente novo ou substancialmente aprimorado ou pela introdução na empresa de um processo produtivo tecnologicamente aprimorado ou novo. A inovação tecnológica pode resultar de novos desenvolvimentos tecnológicos, de novas combinações de tecnologias existentes ou da utilização de outros conhecimentos adquiridos pela empresa.
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Com base na definição seguida pelo IPEA ou em outras definições, podemos perceber a tecnologia em dois aspectos: o físico e o social. As tecnologias físicas são as que normalmente são lembradas quando se usa esse termo. As tecnologias físicas são ligadas as ferramentas desde a pedra lascada de ontem até aos microchipes de hoje. É uma tecnologia muito importante e que colabora de forma significativa com o atual estágio do desenvolvimento econômico da sociedade contemporânea. Porém, não se pode esquecer o neologismo denominado como tecnologias sociais, que em um novo entendimento, estão ligadas as relações sociais, ao modo de como se organizam as pessoas, aos métodos utilizados nos processos que envolvem os indivíduos e naturalmente como esses indivíduos se relacionam17. Assim, o desenvolvimento regional deve ser planejado tendo a inovação como fator crucial. O IPEA (2005, p.46) demonstra no quadro 1, a importância que a inovação trás a uma sociedade em se comparando com aquelas economias que se baseiam na imitação.
Quadro 1. Imitadores, Inovadores e Competitividade.

Para Peter F. Drucker (1986, p.25) “a inovação é o instrumento específico dos empreendedores, o meio pelo qual eles exploram a mudança como uma oportunidade para um negócio diferente ou um serviço diferente”. Drucker explica que, assim como no Brasil nos Estados Unidos da América, o termo empreendedorismo também é usado de forma errônea para aquele empresário que abre seu negócio. Esse erro não deve ser cometido, pois pode levar ao entendimento que um empreendimento sem nenhuma inovação pode trazer a sociedade um resultado tão bom quanto aquele que carrega a inovação em seus princípios. Assim, não podemos nos permitir classificar como benéfico um empreendimento que apenas se baseia na imitação, pois como mostra o quadro 1, essa prática não consegue produzir a tecnologia social. Deve-se então reservar a classificação de empreendedor, para aqueles que realmente estão dispostos a investir no desenvolvimento de tecnologias físicas e/ou sociais.
17 Clemente de Nóbrega escreve sobre esse neologismo no artigo “Por que o Brasil é ruim de inovação?”, na Revista Época Negócios. <http://epocanegocios.globo.com/Revista/ Epocanegocios/0,,EDG79418-8374-8,00.html>
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3. O DESENVOLVIMENTO REGIONAL
Desenvolvimento regional está diretamente ligado à elevação da qualidade de vida de determinada população de determinada localidade, observada com a elevação da renda, a qual deve ser maior do que o crescimento demográfico. Contudo, a elevação do Produto Interno Bruto (PIB) per capita não significa, automaticamente, melhor distribuição de renda nem garantias para um crescimento futuro de produção. Dessa maneira, é imprescindível o crescimento sustentável. Isso quer dizer que, durante o processo de crescimento e desenvolvimento, cada fase, sequencialmente, propicia as condições necessárias à fase seguinte. Oliveira, et al (2003, p.31) comentam ainda que:
O desenvolvimento deve ser encarado como um processo complexo de mu‑ danças e transformações de ordem econômica, política e, principalmente, humana e social. Desenvolvimento nada mais é que o crescimento – in‑ crementos positivos no produto e na renda – transformado para satisfazer as mais diversificadas necessidades do ser humano, tais como: saúde, educação, habitação, transporte, alimentação, lazer, dentre outras.

Para Haveri (apud BUARQUE, 1999), seguindo o pensamento de Shumpeter, esse fenômeno está geralmente associado a iniciativas inovadoras, onde as comunidades se utilizam de suas características específicas que geram qualidades superiores para garantir um diferencial em relação a outras regiões e assim, seguindo agora Michel Porter, geram uma vantagem competitiva. Na visão das teorias clássicas, o desenvolvimento regional apresenta a existência de uma força exógena que possui a capacidade de mover as atividades econômicas de uma maneira geral e quase incondicionada. Para os autores que defendem esse conceito, essas forças são oriundas dos pólos centrais de um país ou região, baseando-se principalmente nas atividades exportadoras, como fundamento do crescimento e difusão do desenvolvimento. Dessa forma, as influências externas seriam maiores e mais decisivas que as forças internas. Na dialética dessa discussão existem os autores que defendem que as forças motrizes internas de uma região são capazes de, por si só, possibilitarem um desenvolvimento econômico que extrapola os limites regionais, causando um impulso para toda a sociedade local e influenciando outras regiões. São as forças endógenas colocadas como primordiais para o planejamento do desenvolvimento regional. Vários autores já discorreram sobre a forte dualidade que a nova economia ressaltou: o local e o global. Essas forças na verdade não se mostram contraditórias e sim complementares, pois o global só acontece a partir do local. Essa condição é potencializada através das novas tecnologias da informação e comunicação, pois elas possibilitam que diferentes processos que acontecem em
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diversos pontos do globo, possam interagir e se multiplicar com uma velocidade antes não imaginada. Para melhor compreensão desse novo contexto, que possibilita essa nova interação, pode ser citada a idéia do Efeito Moebius de Lévy (2005 apud ROVERONI 2008, p. 130), onde:
O Efeito Moebius, que é “outro caráter freqüentemente associado à virtu‑ alização: a passagem do interior ao exterior e do exterior ao interior”. Sob esse efeito sutil, quase imperceptível há um entrelaçamento sobre áreas que, até o surgimento da virtualização, pareciam estáveis e bem definidas: as relações entre privado e público, entre próprio e comum, subjetivo e objetivo, mapa e território, autor e leitor. Apenas para exemplificar rapidamente, comparemos as organizações tradicionais e as virtuais: o trabalhador clássico tinha sua mesa de trabalho, o participante da em‑ presa virtual, compartilha seu computador, sua casa, sua conexão com a rede de comunicação; o trabalhador da empresa habitual passa do espaço privado da sua casa, para o espaço público da empresa, o teletrabalhador transforma seu espaço privado em público e vice‑versa.

Dessa forma, percebe-se que mesmo se planejando um desenvolvimento exógeno é necessário se contar com fatores endógenos para que realmente o desenvolvimento regional aconteça de forma vigorosa. Pode-se dizer que o ideal do desenvolvimento, frente a essas novas condições existentes, em termos socioeconômicos e tecnológicos, é que se possa unir as forças endógenas e exógenas para que de sua síntese surja um resultado superior. O desenvolvimento local pode ser iniciado por diferentes atores da comunidade ou de fora dela, e por isso é diferenciado do desenvolvimento municipal, pois esse está diretamente ligado ao poder político-administrativo do município. Kotler, et al (1994) defende que um planejamento estratégico de marketing de localidades deve envolver em seu grupo de planejamento os cidadãos, a comunidade empresarial e o poder público local, estadual e nacional, pode-se sem dúvida alguma hoje incluir os poderes internacionais. Esse grupo de planejamento deve buscar envolver o maior número possível de atores da sociedade e terá entre suas atividades três tarefas básicas: 1) diagnosticar as reais condições da cidade e região, 2) elaborar as estratégias para solucionar os problemas a curto, médio e longo prazos, 3) desenvolver os planos de ação, com suas várias fases de investimento e transformação. Todos esses atores devem ter como fio condutor do planejamento regional a questão da sustentabilidade. Esse tema teve uma evolução histórica. Com certeza ainda encontra-se pensamentos baseados no positivismo e no modelo mecanicista, porém a mudança desses paradigmas é evidente e acontece mesmo antes do conhecido Clube de Roma com seu livro “Limites ao Crescimento”
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(MEADOWS, 1972), que evoluiu nos resultados da Eco-92 e desencadeou o estabelecimento do Protocolo de Kyoto. Naturalmente o resultado do documento de Kyoto, não tem ainda um apoio absoluto e nem pode ser considerado como as melhores proposituras, porém é um real avanço do pensamento capitalista original. O Relatório Brundtland apresenta o resultado do esforço da Comissão Mundial (da ONU) sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (UNCED) afirma que: “Desenvolvimento sustentável é desenvolvimento que satisfaz as necessidades do presente sem comprometer a capacidade de as futuras gerações satisfazerem as suas próprias necessidades”. (COMISSÃO MUNDIAL SOBRE MEIO AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO, 1988). A nova dinâmica internacional, esboçada em nossos dias, possibilita o aparecimento de atividades locais que realmente em ressaltando as características regionais possam ter uma melhor condição de visibilidade em outros espaços antes não alcançados. Porém, apesar da globalização ter remodelado as atividades comerciais e econômicas, transformando de forma considerável o mercado de todos os continentes, as mudanças que afetam o desenvolvimento das nações envolvem em geral apenas uma parcela de suas regiões, e neste cenário, ainda é possível observar a existência de regiões onde esse desenvolvimento social, econômico e tecnológico não aconteceu. Justamente sob essas novas condições, o conceito de incubadoras surge como uma possibilidade muito mais forte do que a originalmente pensada.

4. O CONCEITO DE INCUBADORAS
Não existe um consenso em relação ao surgimento do conceito de incubadora de empresas, principalmente quando se estuda as transformações que ocorreram em seus fundamentos. Porém, pode-se afirmar que elas se desenvolveram intimamente ligadas aos parques tecnológicos e as universidades. (IMASATO, 2005) Segundo Barbieri (1994), os chamados parques tecnológicos são derivados dos ingleses “science parks” ou dos franceses “technopolis” e tem como maior expoente mundial o caso californiano do Vale do Silício, ligado desde o seu nascimento a Universidade de Stanford. No Brasil o surgimento da primeira incubadora se deu em no ano de 1987 e se desenvolveu rapidamente chegando em 2006 a 377 unidades, conforme levantamento da Anprotec, organismo que representa as incubadoras de empresas, parques tecnológicos e empreendimentos inovadores no Brasil. Em terras tupiniquins pesquisadores apontam que mesmo sendo implantado por universidades, na maioria das incubadoras existentes há uma grande lacuna entre esses projetos, o ensino e a pesquisa.
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Furtado (1998, p. 25) conceitua incubadora como: “uma instalação orientada e estruturada para receber e desenvolver novas empresas”. Com base nas afirmações de Furtado (1998) se pode destacar que em um sentido amplo existem três tipos básicos de incubadoras atuantes ao redor do globo: 1– como um órgão estatal incumbido de planejar, dirigir e controlar a política industrial do país; 2– enquanto um local onde empresários (e/ou empreendedores) iniciantes tenham condições de desenvolver suas capacidades de analise, planejamento e gestão de negócios; 3– sendo um núcleo no interior de uma grande organização que instigue seus colaboradores a desenvolverem idéias que possam gerar inovações em produtos, serviços ou processos. Dessa forma, as organizações que criaram as incubadoras em nosso país, tinham como missão apoiar novas empresas ou empresas já constituídas com o objetivo principal de ajudar reduzir a alta taxa de mortalidade das empresas brasileiras. Para isso, se apoiariam em suas especialidades, prestando assessoria através de seus profissionais e de entidades parceiras como o SEBRAE. Essas atividades gerariam pesquisas e estimulariam o processo de transferência de tecnologia entre as universidades e a sociedade. Durante esses anos de evolução foram adotados alguns conceitos comuns entre as incubadoras existentes, entre eles destacam-se: • Empresas de Base Tecnológica: são aquelas comprometidas com o projeto, desenvolvimento e produção de novos produtos e/ou processos, caracterizando-se ainda pela aplicação sistemática de conhecimento técnico-científico. • Empresas Emergentes: são aquelas que se diferenciam pelas perspectivas de crescimento acelerado. • Graduação de Empresas: processo de saída de uma empresa da incubadora da qual é residente, uma vez que tenha alcançado desenvolvimento suficiente para entrar no mercado. • Incubação de Empresas: processo de apoio ao desenvolvimento de empresas nascentes e emergentes e promoção de condições específicas, através do qual empreendedores podem desfrutar de instalações físicas, ambiente instrucional e de suporte técnico e gerencial no início e durante as etapas de desenvolvimento do negócio. • Incubadora de Empresas de Base Tecnológica: estrutura de suporte gerencial que estimula a criação e apóia o desenvolvimento de micro e pequenas empresas onde a tecnologia dos produtos, processos ou serviços representa alto valor agregado, disponibilizando um conjunto de atividades de formação complementar para os empreendedores, bem como outros serviços especializados nas áreas de gestão tecnológica e empresarial.
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• Inovação Tecnológica em Tecnologia da Informação: desenvolvimento e introdução no mercado de produtos, serviços ou processos tecnologicamente novos ou de melhorias significativas em produtos, serviços ou processos existentes. • Plano de Graduação: projeto que detalha as atividades de suporte ao processo de graduação de uma empresa de base tecnológica residente em uma incubadora. • Plano de Incubação: projeto que detalha as atividades de suporte ao processo de incubação de uma empresa de base tecnológica residente em uma incubadora, ou em uma instituição sem fins lucrativos que possua finalidade similar, preparando-a para graduação. • Plano de Negócios: instrumento que define o planejamento da estratégia de uma empresa, visando identificar seu potencial de exploração comercial, econômica e empresarial, abordando os aspectos financeiro, organizacional, gerencial, comercial, jurídico de propriedade intelectual. • Pré-incubação: concepção de uma nova empresa para futura incubação, envolvendo um conjunto de atividades de suporte técnico e gerencial. • Projeto Inovador em Tecnologia com foco em mercado: projeto de pesquisa aplicada que apresenta potencial de exploração econômica, seja por meio da criação de uma empresa para esse fim, seja através da transferência da tecnologia para uma empresa já constituída. • Transferência de Tecnologia: conjunto de atividades que viabilizam a troca de conhecimentos e habilidades tecnológicas entre instituições de ensino superior e/ou de pesquisa e o setor empresarial. (UNESP, 2003) O apoio as empresas incubadas, como ressaltado, objetiva tornar essas empresas diferenciadas no mercado. Baseando-se além do apoio físico e estrutural, na assessoria para todos os setores da empresa, na qualificação dos profissionais, preparando estes para um mercado exigente e competitivo. O estreitamento das relações com o ambiente externo que influenciam o mercado e a empresa, objetiva contribuir diretamente para o crescimento das empresas, alicerçando-as no cenário competitivo. Vale ressaltar que no modelo tradicional de incubadora de empresas existem duas formas de incubar, uma considerada fechada e outra aberta. Na primeira, a empresa incubada possui um espaço determinado dentro do centro de incubação. Na segunda, a empresa não precisa estar dentro do espaço da incubadora fisicamente, mas recebe todos os serviços de suporte prestados pela incubadora. Em um levantamento sobre o panorama dessa modalidade no Brasil, Imasato (2005) faz um relatório preciso e encontra muitas iniciativas que criativamente expande o conceito original, porém, muitas delas fogem em sua prática da condição que consideramos básica na idéia original, que é a inovação e o empreendedorismo em suas características fundamentais.
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Além das incubadoras de base tecnológicas, Imasato (2005) baseando-se nas informações da Anprotec e do SEBRAE, cita a existência das seguintes modalidades: • Incubadora agroindustrial: para produtos e serviços agropecuários. • Incubadora cultural: para empreendimentos ligados a cultura. • Incubadora de artes: voltadas a organizações que visam apoiar as artes através de produtos e serviços. • Incubadora de cooperativas: apóia a formação do processo cooperativo. • Incubadora de empresas de setores tradicionais: abriga empresas ligadas a setores da economia que possuem tecnologias largamente difundidas, porém que estejam dispostas a absorver e colaborar no desenvolvimento de novas tecnologias. • Incubadora mista: incuba ao mesmo tempo empresas com base tecnológica e as de setores tradicionais. • Incubadora setorial: serve apenas um setor especifico da economia. • Incubadora social: para empreendimentos que tenham como base um projeto social, normalmente seu objetivo maior é a criação de emprego e renda. • Incubadora virtual: estabelece via internet, objetivando a criação de um amplo banco de dados que possa viabilizar novos empreendimentos18. Uma grande parcela das incubadoras brasileiras é voltada realmente para empreendimentos que possuam forte base tecnológica, entre outras, por exemplo, as ligadas a Incubadora de Empresas MIDI Tecnológico do SEBARE/SC ou a Incubadora de Base Tecnológica da UNESP - INCUNESP/ RC. Porém, como destacado acima, existem incubadoras que são voltadas ao apoio a empresas comuns, de setores tradicionais, como é o caso da Incubadora de Empresas do CEULP/ULBRA de Palmas ou do Centro de Incubação de Empresas de Gurupi (CIEG) do Centro Universitário UnirG, ambas no Tocantins. Essas incubadoras abrigam micro e pequenas empresas com atividades e gestão sem nenhuma base tecnológica ou características inovadoras em seu sentido mais profundo. No CIEG, por exemplo, no início das atividades, foram incubadas: uma fábrica de calçados, uma empresa de confecção de uniformes e uma empresa de serviços na área de limpeza. Um dos maiores problemas percebidos foi que, desde a seleção para a incubação, não se levou em conta a inovação e o empreendedorismo para a escolha definitiva. Isso poderia ser aceito se, na fase seguinte de implantação, o planejamento e a pesquisa previssem o desenvolvimento destes fatores fundamentais, o que não ocorreu.
18 Para conhecer mais sobre o conceito da incubadora virtual da Fapesp visite: <http:// iv.incubadora.fapesp.br/portal/sobre/o-que-e-a-incubadora>
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O problema inicial refletiu no desenvolvimento das empresas incubadas e como resultando, duas das três atividades mencionadas já encerraram suas atividades não somente pela ausência de gestão, planejamento e controle, mas também aqui, pelo distanciamento da área acadêmica. Como demonstração deste distanciamento, em quase oito anos de existência, o CIEG foi tema de apenas um trabalho de conclusão de curso do Centro Universitário UnirG. Dessa forma, essas iniciativas se afastam do princípio inicial dos conceitos de incubadoras ao não possuírem empresas que apresentem uma “novidade” em seus produtos e uma relevância nos esforços tecnológicos. Outro problema encontrado nessas incubadoras é a falta de entrosamento direto da área acadêmica das IES com a gestão desses empreendimentos, mesmo que ambos estejam ligados ao SEBRAE/TO, não favorecem, muitas vezes, a possibilidade do desenvolvimento de novas tecnologias. Mesmo nas incubadoras que elegeram a base tecnológica como foco de incubação, os resultados no Brasil não podem ser considerados bons. Em um estudo para mensurar a densidade de cooperação existente nas empresas de base tecnológica e seus agentes de fomento, Cortês, et al (2005) concluem que:
a adoção de mecanismos de cooperação é limitada e excessivamente concentrada nas relações com instituições acadêmicas, tendendo a ca‑ racterizar redes pouco densas e com ligações fracas entre os agentes, um tipo de arranjo que, em princípio, não é o mais favorável ao desempenho inovativo. Em compensação, os esforços de cooperação intensificam-se à medida que as empresas crescem e parecem sensíveis a estímulos prove‑ nientes de políticas públicas.

De acordo com o pensamento dos autores, um dos problemas se encontra na dependência excessiva existente entre os empreendimentos e a academia que, na verdade, forma uma rede pouco densa. Mas qual o motivo desta falta de densidade? Está no que foi classificado acima de distanciamento, pois, o que se percebe é que se formam apenas pequenos grupos dentro das academias que participam efetivamente destas iniciativas o que não propicia a flexibilidade e a transversalidade necessárias para implantação e gestão de um projeto de incubação. Essa pequena participação, por sua vez, se deve aos parcos recursos existentes, assim também como a problemas de projetos mal dimensionados que captam recursos insuficientes. Dessa maneira, pode-se perceber que existe um longo caminho para se percorrer no sentido de realmente garantir que a incubação seja uma boa solução para o planejamento regional. Para isso, se faz necessário corrigir algumas distorções e criar mecanismos que realmente proporcione um maior entrosamento das áreas de pesquisa acadêmica com as empresas incubadas, para que realmente aconteça a desejada transferência tecnológica. Além das definições apresentadas por Imasato (2005) ainda se encontra variações, na UNESP (2007) aparece outro conceito, o de incubadora digital:
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iniciativa de trabalho da equipe de Gestão de Conteúdos Digitais e EAD do GECD – Grupo de Estudos em Cultura Digital – orientada para a difusão e promoção das tecnologias da informação e comunicação na construção e gestão de conteúdos dinâmicos em rede. A INCUBADORA DIGITAL visa atuar de acordo com pontos conceituais fundamentais para a gestão de ambientes virtuais de ensino/aprendizagem que possibilite a construção de comunidades de aprendizado colaborativo.

Essa é uma utilização do conceito que mais se diferencia do normalmente utilizado, mais que por outro lado, demonstra como pode ser versátil o uso da filosofia da incubação. Com a evolução da tecnologia da informação e comunicação é natural que os conceitos adquiram novos contornos, assim como também é previsível que as incubadoras existentes e as que serão implantadas utilizem cada vez mais as novas tecnologias como facilitadoras de suas atividades. Algumas das incubadoras em funcionamento já utilizam a consultoria remota, feita através da internet, o ensino a distância para capacitação dos gestores e colaboradores, o banco de dados de idéias para gerar novos processos e/ou negócios entre outras atividades. Porém, nos formatos já experimentados de incubação não foi localizado um formato que baseasse totalmente suas atividades no mundo digital ou que se beneficiassem de maneira mais eficiente e eficaz dos aspectos da cibercultura.

5. UMA NOVA PROPOSTA: A CIBERINCUBADORA
Para Pierre Lévy (1999, p. 28-29) a inteligência coletiva é um dos principais motores da cibercultura, ela estabelece uma nova dinâmica no planejamento e na gestão das organizações sociais, o pensador afirma que a inteligência coletiva é:
o estabelecimento de uma sinergia entre competências, recursos e projetos, a constituição e manutenção dinâmicas de memórias em comum, a ativa‑ ção de cooperação flexíveis e transversais, a distribuição coordenada dos centros de decisão, opõem‑se à separação estanque entre as atividades, às compartimentalizações, à opacidade da organização social.

Com poucos ajustes esse pensamento poderia ser utilizado para se definir o que chamamos no presente artigo de ciberincubadora. Seria uma organização que utilizaria os melhores aspectos da cibercultura com a sua “universalidade sem totalidade”, que através da comunicação todos para todos, permite a total interconexão e justamente por isso um desenvolvimento muito mais democrático e assim mais saudável. A versatilidade do conceito de incubadoras, aqui já descrito, pode ser potencializado com a proposta da ciberincubadora, pois nela se conseguiria reproduzir todas as vertentes que hoje já existem, porém com algumas diferenças ainda não efetivadas. Ela pode ser específica para agronegócio, para projetos sociais,
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para as artes e/ou a cultura, banco de dados de idéias, como também pode somar todas essas atividades em uma só incubação, dependendo apenas das especialidades das entidades envolvidas, bem como das potencialidades que sejam benéficas se agruparem dependendo do contexto onde for implantada. A ciberincubadora estaria baseada em quase sua totalidade na rede mundial de computadores e ao se utilizar da filosofia web 2.0, torna possível a realização da maioria de suas atividades através da virtualidade. Para uma melhor visão do conceito apresentado, destacam-se os seguintes pontos: • Atividades virtuais: consultoria, desenvolvimento, divulgação, comercialização, planejamento, pesquisa, comunicação, plano de negócios, gestão, controle, recrutamento, treinamento, capacitação de pessoal e banco de dados. • Princípios básicos: inovação, empreendedorismo, desenvolvimento sustentável, pesquisa aplicada, transferência de tecnologia, ligação total entre grande grupo de professores pesquisadores e gestores das empresas incubadas. • Diferenciais: somatória das forças endógenas e exógenas, planejamento democrático, rompimento das fronteiras regionais tanto na incubação quanto na comercialização, rompimento das barreiras de tempo e espaço, construção coletiva, gestão cooperada, cooperação flexível e transversal, fortalecimento da cultura empreendedora e democratização na participação diversos atores. Para deixar mais claro as possibilidades imaginadas para o conceito de ciberincubadora, descrevemos um exemplo regional e que elege como base um produto que nos últimos anos, adquiriu um grande sucesso comercial, a partir do Estado do Tocantins: o capim dourado. Tento sua origem a região do Jalapão, a 180 km da capital Palmas, o capim dourado conseguiu proporcionar para alguns moradores da região uma melhor qualidade de vida, oriunda da exploração dessa matéria prima. Apesar dos apoios já recebidos do SEBRAE/TO, Governo do Estado entre outros organismos, pode-se perceber que a atividade ainda não possui um total controle e sofre com atravessadores, com a falta de uma real regulamentação, com um maior profissionalismo, com a baixa qualidade no design e por uma política de precificação que não considera em sua plenitude a raridade e a escassez da matéria prima, fator fundamental em se pensando desenvolvimento sustentável. Dentro desse contexto, poderia ser planejada a criação de uma ciberincubadora ligada ao Centro Universitário UnirG, na região sul do Tocantins. Essa ciberincubadora poderia ter um provedor contratado em qualquer outra região do globo. Mesmo não estando no mesmo município, seria possível se ter incubado nesse sistema, as cooperativas das artesãs das cidades do entorno da região do Jalapão.
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Através da rede mundial as cooperativas de artesãs receberiam total consultoria nas diferentes áreas das atividades referentes a produção, comercialização, gestão, capacitação, planejamento e demais necessidades referentes ao bom desempenho de suas atividades. Nessa mesma rede, um único portal através de diversas interfaces, possibilitaria o desenvolvimento da maioria das atividades necessárias pelos diversos atores envolvidos. As especificidades que o Centro Universitário UnirG não consiga atender, devido suas características, podem ser sanadas através de acordos cooperativos capazes de agregar outros atores. No caso específico, através de um acordo de cooperação com uma instituição especialista em design, que ficaria responsável pela criação das coleções exclusivas para as cooperativas de artesãs, agregando valor ao produto final e solucionando um problema hoje existente. No próprio portal seria possível também se realizar pedidos de peças customizadas, atendendo assim o gosto do cliente final e mais uma vez possibilitando uma valorização do produto. A criação de um selo de origem seria uma das ações possíveis para combater a pirataria e os produtos comercializados de forma irresponsável. Essa medida, ganha um contorno mais forte se for disponibilizado um controle de comprovação via web. Essas são algumas das ações possíveis dentro da imensa quantidade de possibilidades abertas pela utilização real das novas tecnologias da informação e comunicação. Mesmo nesse rápido exemplo, pode-se visualizar que a idéia da ciberincubadora, trás consigo a real utilização das modernas ferramentas, conceitos e praticas da cibercultura que acreditamos possibilitar a filosofia da incubação de empresas outros contornos até agora não explorados. Pode ser utilizada para uma gama muito grande de modelos e agrega em si características que permitem garantir um planejamento regional sustentável. Para se planejar os negócios nesse novo contexto é necessário se aprofundar nos contornos existentes e não se esquecer dos preceitos do Efeito Moebius. Na rede mundial de computadores o capitalismo se funde ao socialismo, basta lembrar os modelos de negócios citados por Spyer (2007, p.146) como o estabelecido pelos criadores do sistema operacional Linux, que é desenvolvido por milhares de programadores ao redor do globo, sem que esses tenham uma remuneração formal sobre sua produtividade, ou do Wikipédia, uma enciclopédia produzida por milhares de pessoas que também não obtém nenhum ganho financeiro ao realizar esse trabalho. Isso não quer dizer que não se possa produzir riquezas a partir na rede mundial, ao contrário, assim como a Google ou a Amazon.com, muitos já produziram e continuam a produzir. O planejamento de uma unidade da ciberincubadora deve levar em consideração todos os fatores descritos e com certeza pode adquirir uma forma maior do que a inicialmente imaginada, já que nos encontramos no instante inicial de sua propositura.
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6. CONCLUSÃO
Buscar alternativas saudáveis para o desenvolvimento regional deve ser um objetivo constante para todos que atuem nessa área. A proposta da ciberincubadora é uma tentativa de contribuição para essa importante questão econômico-social. O estudo realizado encontrou um cenário brasileiro em plena evolução, mas que necessita de um real aprimoramento e de uma prática mais próxima aos princípios básicos que fizeram do conceito dos parques tecnológicos e, por conseguinte das incubadoras de empresas sucessos em outros países. Incentivar o nascimento e o crescimento de atividades empreendedoras não pode jamais se afastar dos princípios da inovação. Para isso, a presença da pesquisa acadêmica se mostra fundamental. O envolvimento e a participação acadêmica devem ocorrer de forma contundente e permanente. A gestão desses organismos deve ser feita através de uma participação democrática das áreas acadêmicas fundamentais para a boa assessoria e condução do projeto. Exatamente por que o distanciamento e a falta de densidade de profissionais envolvidos das áreas acadêmicas das Universidades são aspectos que aparecem como problemas a serem resolvidos. Outro grande problema, percebido durante a pesquisa é o justamente o afastamento dos conceitos originais de inovação e empreendedorismo feito pelo organismo maior no Brasil: o SEBRAE. Essa questão é delicada e deve ser tratada entre as partes envolvidas e principalmente com base nas discussões dos resultados obtidos durante esses anos de experiência. Devemos discutir e rever o conceito norte americano de empreendedorismo, hoje aceito e inserido, sem adaptação em nossa cultura. Temos que perceber os contornos de nossos ambientes empresariais e difundir as reais concepções do verdadeiro espírito empreendedor. Caso contrário, estaremos comprometendo e engessando as incubadoras brasileiras e principalmente comprometendo o desenvolvimento da inovação e da tecnologia. Não podemos nos afastar desses conceitos para realmente conseguir construir um mercado competitivo e sustentável de maneira que atenda as necessidades atuais e viabilizem as futuras. A necessidade de criação de novos modelos organizacionais, como esse que hora se apresenta, vem de encontro com a potencialidade do campo virtual. Dessa forma, acreditamos que a ciberincubadora pode se transformar em uma boa perspectiva de inserção do Brasil na economia sem fronteiras. Em busca de algumas dessas soluções e na agregação dos conceitos da cibercultura e das novas tecnologias da informação e comunicação é que a proposta hora apresentada se mostra viável e de aplicação ampla e flexível. Com a visualização do Efeito Moebius o planejamento do desenvolvimento regional também adquire novos contornos e deve possibilitar o aproveitamento
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dessas novas condições para que os objetivos definidos possam ser plenamente alcançados. As discussões apresentadas que versam sobre a criação da ciberincubadora, é perfeitamente compatível com uma proposta de desenvolvimento sustentável, em um ambiente favorável às novas idéias, com um serviço prestado de qualidade no âmbito das universidades e, conseqüentemente, para a sociedade, permitindo a integração dos demais atores envolvidos em uma visão sistêmica e global sobre negócios empreendedores. Por ser uma proposta inicial, baseada em conceitos e no levantamento das experiências até agora realizada, e principalmente por ainda não ter sido colocada em prática, esse artigo sofre uma limitação natural, porém uma limitação que deve ser eliminada com a instalação da primeira ciberincubadora, cujo planejamento já se encontra em curso. Dessa forma, o objetivo central do artigo é registrar e socializar a idéia para que a partir dela se possa evoluir através da construção coletiva.

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REDES SOCIAIS DE COOPERAÇÃO INTERORGANIZACIONAL: O ESTUDO DE CASO DO VALE DA ELETRÔNICA – MINAS GERAIS
Soraia de Barros Alvarenga
soalvarenga@brfree.com.br

Centro Universitário UNA

RESUMO
No ambiente atual de negócios, percebe-se a tendência de as organizações atuarem de forma conjunta compartilhando recursos a partir da definição de estratégias de interesse comum. A cooperação entre as organizações tem sido aprimorada a partir de diferentes mercados e o desenvolvimento tecnológico global capacitando empresas a uma releitura das estratégias de gestão, ações conjuntas e desenvolvimento do conceito de cooperação. As redes de cooperação, como nova configuração organizacional, possuem a capacidade de reunir empresas com objetivos comuns, intensamente relacionadas, dispostas a desenvolver e manter resultados por meio de uma relação de troca e ganhos coletivos. O presente artigo tem por objetivo ressaltar os benefícios e dificuldades do Vale da Eletrônica tendo a cooperação como estratégia de gestão para a conquista das metas corporativas. Este trabalho está estruturado da seguinte forma: primeiramente a introdução como orientador temporal ressaltando a importância do tema nos dias atuais. Em segundo lugar trabalhar-se-á o conceito de cooperação por meio de temas como: as motivações para a cooperação interorganizacional, a governança e os resultados da cooperação interorganizacional. O terceiro item abordará a metodologia bem como as fases do desenvolvimento da pesquisa: desenvolvimento conceitual, delimitação da unidade de análise, coleta dos dados e análise e interpretação dos dados. O quarto item terá o Vale da Eletrônica, caracterização e forma de gestão encerrando este artigo com o quinto item de conclusões e considerações finais sobre o assunto proposto.

1. INTRODUÇÃO
Uma das características da economia no século XXI é a transição da eficiência individual para a eficiência coletiva. A competitividade está cada vez mais relacionada ao desempenho da cooperação interorganizacional e não a empresas que trabalham isoladamente (FLEURY; FLEURY, 2007). No ambiente atual de negócios, percebe-se a tendência de as organizações atuarem de forma conjunta, associada, compartilhando todos os tipos de recursos a partir da definição de estratégias específicas.
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O tema relativo à cooperação entre organizações tem evoluído constantemente desde a década de 1980. Devido ao nível de importância conquistado pela cooperação no cenário de estudos organizacionais, periódicos científicos internacionais têm conferido edições especiais, analisando um amplo escopo de aspectos relacionados à cooperação organizacional. Assim, revistas de alto conceito científico internacional como Organization Studies, Academy of Management Journal, Internactional Management, Administrative Science Quartely e American Sociological Review têm publicado centenas de artigos nessa área, nos últimos dez anos (PUFFAL; TONDOLO, 2008). No âmbito acadêmico, a cooperação tem despertado interesse entre alguns autores nacionais e estrangeiros, ressaltando as condições de entendimento e prosperidade dos negócios. Assim, os estudos internacionais de Todeva (2006) e Perrow (1992) descrevem as tipologias de cooperação. Provan e Kenis (2003) e Grandori e Cacciatori (2006), em seus estudos sobre governança dos sistemas relacionais de cooperação interorganizacional, fazem menção ao grau de confiança entre empresas. Castells (2000) estuda as redes sociais; Jarillo (1993), a estratégia cooperativa e custos de transação; e Oliver e Ebers (1998) apresentam os estudos em redes de cooperação. No Brasil, as estratégias de cooperação e seus resultados vêm sendo apresentados pelos seguintes autores: Balestrin e Verschoore (2008) apresentam o impacto nas estratégias coletivas; Garcia e Lima (2004), a análise estratégica das relações de cooperação entre instituições nacionais; Amato Neto (2000; 2005), a cooperação produtiva resultantes da inovação conjugada com densos vínculos entre organizações e eficácia operacional; e Casarotto Filho e Pires (1999), a preocupação do desenvolvimento local através da cooperação. Para iniciar este artigo, tratar-se-á primeiramente da cooperação ressaltando as motivações para a cooperação interorganizacional, a governança e os resultados relacionais. Em seguida abordar-se-á a metodologia utilizada para a confecção deste bem como as fases de desenvolvimento conceitual e metodológico, delimitação da unidade de análise, coleta de dados, análise e interpretação dos dados. No terceiro item apresentar-se-á o Vale da Eletrônica, suas características e a cooperação intrínseca na região do sul de Minas. As considerações finais arrematam o conteúdo deste artigo abordando o modo pelo qual a cooperação contribui para o resultado das PMEs.

2. COOPERAÇÃO
Neste item abordar-se-á primeiramente as motivações das PMEs que, por meio da cooperação, buscam resultados superiores ao trabalho isolado, apontando os benefícios proporcionados à PME aliada a essa nova configuração organizacional. Em seguida apresentar-se-á as principais tipologias de cooperação e a forma organizacional de governança estratégica colaborativa. Finalizar-se-á
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este item com os resultados que a PME pode alcançar, diante dos desafios do mercado, utilizando a cooperação como opção de estratégia de competitividade.

2.1 Motivações das PMEs para a cooperação interorganizacional
Os conceitos de cooperação entre as organizações vêm atrelados ao objetivo de obter soluções coletivas e têm recebido atenção nos estudos e práticas organizacionais das últimas décadas (NOHRIA; ECLES, 1992). Estratégias de colaboração entre empresas também são desenvolvidas com o objetivo de reduzir incertezas e riscos, organizando atividades econômicas a partir da coordenação e cooperação entre si. Para Powell (1998), as relações de cooperação são novas formas de organização social. As trocas econômicas, para este autor, estão associadas ao contexto particular da estrutura social, dependentes de conexões, interesses mútuos, reputação e pouco guiadas por uma estrutura formal de autoridade. Pode-se inferir, portanto, que as relações de cooperação são formas de associação por afinidade de natureza informal e que deixam cada uma das empresas responsável por seu próprio desenvolvimento, podendo tornar-se uma governança formal. É uma escolha de estrutura bem adaptada à PME, em que a sinergia de interesses contribui para o crescimento da empresa que dificilmente se manteria sozinha. A cooperação, segundo Johanson e Johanson (1999), pode ser entendida como o cominho trilhado pelas empresas envolvidas nas relações de cooperação, ou seja, é a performance e a sinergia de recursos a fim de garantirem benefícios mútuos através da parceria. Não existe uma regra de atuação e de vantagens para as PMEs manterem-se cooperando, mas alguns pontos são comuns à participação dessas - a interatividade, a especialização e o aprendizado -, que tornam as empresas diferenciadas entre si. Para os autores, interatividade ou conectividade alinham as empresas, preparando-as para a conquista de objetivos em comum. A especialização, a expertise da produção e o domínio do processo tornam-se ativos intangíveis da organização, e, por fim, o aprendizado, como ferramenta ou diferencial estratégico de gestão. Na estratégia de cooperação percebe-se a condição de complementaridade de recursos, pesquisa e desenvolvimento (P&D), tecnologia, produção, distribuição, dentre outros recursos necessários para a globalização da empresa. Segundo Brass et al. (2004), trata-se de uma união de interesses presentes nos cinco fatores: relação social, redução de custos e riscos, aprendizado e inovação, aumento de escala e poder de mercado, e acessibilidade às soluções. As motivações para a cooperação interorganizacional para Lagemann (2004) estão na formação de reputação e adaptabilidade para mudanças no mercado; no acesso a informações; na entrada em novos mercados; na
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difusão de tecnologia; na redução de custos de produção; na maior facilidade para a introdução de produtos no mercado; na superação de barreiras legais; nos ganhos de escala; no compartilhamento de riscos; na melhoria do material comprado; na manutenção da estabilidade de mercado; na aquisição de novas tecnologias; na diminuição da rivalidade ou ameaças contratuais; na aprendizagem organizacional; e na superação de barreiras à entrada em outros mercados. Um dos esquemas conceituais que facilitam as decisões de quando é mais vantajosa a estratégia de cooperação pode ser visualizado na Matriz CPC (Compra, Produz, Coopera), inicialmente desenvolvida por Child et al. (2005) e adaptada por Balestrin e Verschoore (2008). Tal matriz CPC auxilia os gestores a determinar a maneira mais adequada de conduzir as atividades e tomar as decisões de viabilidade de comprar do mercado, produzir internamente ou cooperar com um parceiro conforme ilustrado na figura 1. Assim, segundo os autores, há uma combinação de importância estratégica de uma determinada atividade e a competência da empresa em relação aos demais produtores para realizar qualquer atividade. A lógica dessa matriz CPC está associada ao entendimento de que nem mesmo a grande empresa pode executar todas as atividades produtivas internamente. A nova abordagem colaborativa vem auxiliar o desenvolvimento e a capacitação das PMEs, seja por conta própria, seja por meio de incentivos políticos que vêm sendo desenvolvidos por vários estados do Brasil para o fortalecimento dessas redes de cooperação.
FIGURA 1. Matriz CPC.

Fonte: CHILD et al., 2005, e adaptado por BALESTRIN e VERSCHOORE, 2008.
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Coletivamente, as firmas integrantes das relações de cooperação terão maior capacidade de adaptação às mudanças. Para Perrow (1992), as empresas, ao participarem de uma relação de cooperação, tornam-se mais seguras e passam a ser percebidas com distinção por parte do público, garantindo a legitimidade nas ações comerciais. Essas vantagens são importantes, pois apontam a cooperação como parte do cenário econômico atual. Dessa forma, observam-se múltiplos benefícios que as empresas encontram ao se organizarem de forma cooperativa. Diante dos argumentos apresentados até o momento, percebe-se que esse procedimento de cooperação consiste em um modelo eficaz para as empresas alcançarem competitividade nos mercados por meio de relacionamentos estabelecidos nas inter-relações ou laços estratégicos, contribuindo para ganhos intangíveis que se tornam mensuráveis quando analisados nos resultados financeiros da empresa.

2.2 Governança da cooperação interorganizacional
As evidências empíricas estudadas por Grandori e Cacciatori (2006) apresentam atividades interorganizacionais baseadas na cooperação, entretanto envolvem empresas em relações cujos procedimentos e trocas de experiências não são devidamente esclarecidos. Esse ambiente de incertezas provoca conflitos no intercâmbio de conhecimentos interfirmas, dificultando a disseminação e a perenidade da estratégia cooperativa interorganizacional. A governança da cooperação interorganizacional vem apresentar mecanismos de coordenação que regem as relações entre empresas. Para Provan e Kenis (2003), existem três tipos de governança interorganizacional que são identificadas como: autogestão (self- governed); governança a partir de uma empresa líder (lead-organization governed); e governança a partir de uma entidade administrativa (network administrative organization), que é representada pela reciprocidade das decisões, colaboração e envolvimento coletivo de indivíduos e empresas. Nas relações de cooperação, segundo Provan e Kenis (2003), a governança trabalha os conflitos de forma equilibrada, fazendo interface com os cooperados relacionais. A legitimidade é balanceada, levando em consideração as tensões internas e externas da relação de cooperação, promovendo um empate entre as forças. A governança formal, segundo Lorenzoni e Baden-Fuller (1995), é inflexível na medida em que não permite negociação após formalização. Os contratos, para os autores, limitam a criatividade dos envolvidos na cooperação e inibem futuras parcerias na base da confiança. O clima institucional é considerado um pilar de sustentação organizacional. Para os autores, criar um clima de confiança e reciprocidade é dinamizar a organização por meio das relações de bom senso entre as empresas envolvidas na cooperação.
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Por outro lado, Woolthuis et al. (2005) destacam três aspectos do contrato e a influência sobre governança. Primeiramente, o contrato apresenta-se como inibidor do oportunismo entre as organizações e motivador das oportunidades de negócios. Em seguida, os autores apresentam o contrato como redutor de conflitos interorganizacionais, uma vez que ambas as partes firmaram o acordo e concordaram formalmente com as condições negociadas, não há o que se discutir. E, em terceiro lugar, o cumprimento do contrato firmado gera satisfação aos envolvidos e desenvolve a credibilidade entre as empresas, tornando o contrato apenas um protocolo da negociação. A governança informal, pautada na confiança entre as empresas envolvidas na cooperação, permite interpretações diversas. Para Locke (2001), confiança é um atributo pessoal; algumas pessoas são confiáveis e outras não. Confiar em uma pessoa significa acreditar que, uma vez oferecida a chance, ela não se comportará de forma a prejudicar o outro. Portanto, segundo o autor, a confiança é situacional e/ou relacional, algo que se desenvolve entre dois ou mais indivíduos em um contexto ou relacionamento particular. Adicionalmente, os autores concordam que a confiança está presente nas relações de cooperação e que suas definições são numerosas e muitas vezes contraditórias. A ideia da confiança é bastante abordada por Humphrey e Schmitz (1998), por meio de conceitos de sanções e credibilidade. Trabalhos em conjunto formulam, segundo os autores, condições de relacionamento e cooperação dentro da rede. Isso torna a discussão sobre cooperação mais real sem partir do princípio de que os empresários vão preferir um comportamento de lealdade em vez de um comportamento oportunista. Sanções reduzem os riscos associados à confiança. A traição/deserção não provoca apenas a perda do negócio, mas também a sanção social. Mesmo assim, Meyer-Stamer (2001) lembra que é frequentemente o fracasso de experiências que tentam estimular a cooperação entre empresas, dado o problema da falta de confiança. Portanto, para se obter o tipo de comportamento colaborativo, precisam-se estabelecer sanções desde o nível macro (a partir das políticas do Estado) até o nível micro (formas de ações conjuntas entre as empresas que possibilitem o estabelecimento da confiança baseada em processo). A combinação dessas sanções, somadas às oportunidades que as empresas terão de trabalhar em conjunto, levará a um comportamento voltado para o relacionamento na direção de fortalecimento da cooperação em lugar de buscar comportamentos oportunistas. Espera-se que essa condição de envolvimento de todos, Estado e sociedade, leve a um círculo virtuoso em que as ações conjuntas tragam vantagens na eficiência coletiva, proporcionando o fortalecimento da confiança para a melhoria coletiva do desempenho. Balestro (2002) destaca que, quando se tem confiança em uma relação interorganizacional, há uma elevação de investimentos para maximizar retornos futuros, pois se tem uma predisposição para investir em ativos específicos na
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relação com aquele parceiro, tendo em vista o longo prazo da relação. Afirma o autor que existem casos de fornecedores que reestruturam todo o seu processo produtivo a fim de atender a um determinado cliente. A confiança está diretamente relacionada às trocas de informações e à motivação para a solução de problemas conjuntos, podendo propiciar, em um estágio extremamente negativo, o oportunismo entre firmas.

2.3 Resultados da cooperação interorganizacional
O aprendizado está intrínseco ao ganho relacional associado à baixa capacidade de recursos das PMEs, que, ao estabelecerem uma parceria colaborativa, compartilharão de experiências e tecnologias jamais alcançadas isoladamente. Segundo Human e Provan (1997), os resultados transformacionais são promovidos pela forma de gestão, por meio da aprendizagem interorganizacional. Os resultados transformacionais são mudanças de gestão e de conduta promovidas pelo aprendizado das empresas e indivíduos envolvidos, a fim de obterem ganhos que dificilmente seriam alcançados na condição isolada. O novo conceito de resultados transformacionais, sugeridos por Human e Provan (1997), agrega nos seus estudos de estratégias de cooperação, até então de resultados transacionais, que por meio de relação comercial se estabelece uma complementaridade de conhecimentos, enquanto os resultados transformacionais propõem completa ou parcial alteração na gestão proporcionada pelos ganhos relacionais vigentes. No entendimento de Perrow (1992), a cooperação interorganizacional de PMEs possui produção flexível, informações diretas, além do compartilhamento de pesquisa e desenvolvimento (P&D), pesquisas de mercado, marketing, treinamentos técnicos e transportes. Uma relação de cooperação promove acesso a informação, recursos, mercados e tecnologias, contribuindo para economia de escala e compartilhamento de riscos, segundo Gulati et al. (2000). Esses autores avaliam ainda as condições adequadas de produção, compra ou cooperação (make, buy or ally) entre as PMEs, associadas à realidade econômico-cultural bem como à condição de redução de custos e oportunismo. Human e Provam (1997) ressaltam que a confiança construída reduz o oportunismo e consequentemente o custo de transação envolvido nas operações de compra e venda de produtos. Inibidor do oportunismo a cooperação é, segundo Ebers e Grandori (1997), a forma de degradação da especificidade de ativos e os aspectos ligados à confiança, ou seja, a busca pela redução do custo de transação, custo imensurável financeiramente, que, se não for bem conduzido pelos colaborados, pode causar a fragilidade da relação, chegando à dissolução dos laços de cooperação entre as firmas. A evolução e os níveis de aprendizado interorganizacional são abordados por Knight (2002), além dos laços entre o indivíduo, o grupo de indivíduos,
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a organização e a interação nos grupos de organizações. O autor descreve o aprendizado desde a formação da cooperação até os resultados, performance e implicações das relações interoganizacionais. Cabe destacar, portanto, que as vantagens encontradas no ambiente de cooperação podem se tornar inviáveis para as PMEs que atuam de forma isolada, pois tais empresas, ao atuarem individualmente, dificilmente conseguirão obter uma ampla interação com seus concorrentes, tornando-se, dessa forma, mais difícil e custoso o acesso a novas informações e conhecimentos para a busca da inovação (POWELL, 1998). Com as estratégias de cooperação, Lorenzoni e Baden-Fuller (1995) apresentam ganhos de escala e poder de mercado, traduzindo-os no maior poder de negociação do aglomerado cooperativo para com seus fornecedores e clientes. É pelas estratégias de cooperação que as PMEs ampliam seu poder de mercado, benefício de que as PMEs isoladas não conseguiriam usufruir facilmente. Para as PMEs, as estratégias de cooperação permitem que elas tenham acesso a soluções para seus projetos de forma facilitada. Segundo Balestro (2004), as soluções apresentadas pelos aglomerados colaborativos assumem a forma de infraestrutura coletiva e de apoio a ações de maior amplitude. Tal ganho se traduz na entrada de novos mercados, acesso a tecnologias e qualificação de produtos, dentre outros aspectos. Ebers e Grandori (1997) apontam a redução dos custos e riscos como ganhos das relações de cooperação. Trata-se de dividir com os associados os custos e os riscos de determinadas ações e investimentos comuns aos envolvidos. Desse modo, não há uma receita formada para uma determinada empresa ou grupo (GULATI et al., 2000). Existe a avaliação criteriosa da organização e a ponderação estratégica. O melhor caminho é conhecer a empresa e suas ambições, trabalhar estrategicamente para conquistar os objetivos traçados pelos gestores, o que pode ser determinante no sucesso organizacional, proporcionando condições de constantes avaliações de desenvolvimento de recursos. O importante é o dinamismo, ou seja, a frequência de avaliação da empresa e sua capacidade adaptativa diante das novas condições e recursos, de acordo com Gulati et al. (2000). Finalizando o assunto teórico conceitual sobre cooperação, passar-se-á à metodologia utilizada no presente artigo como forma de aproximação do objeto estudado: o Vale da Eletrônica.

3. METODOLOGIA
O presente artigo responde por um estudo de caso exploratório com dados qualitativos coletados por meio de entrevistas em profundidade em empresas
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e instituições do sistema produtivo local (SPL) do Sul de Minas Gerais, conhecido como o Vale da Eletrônica. Tal SPL é composto por 132 PMEs, uma escola técnica, uma universidade e um instituto de pesquisa, governos (federal, estadual e municipal), instituições de fomento financeiro e demais instituições intermediadoras de negociações. Buscou-se, a partir da pesquisa de campo, identificar os atores-chave do SPL em entrevistas semiestruturadas, para se ter uma visão específica da estratégia de cooperação utilizada no Vale visando à internacionalização. A pesquisa foi subdividida em quatro fases a saber: desenvolvimento conceitual e metodológico; delimitação da unidade de análise, o Vale; coleta de dados; degravação, análise e interpretação dos dados. Fase 1: Desenvolvimento conceitual e metodológico A primeira fase teve por finalidade alinhar os conceitos teóricos ao problema de pesquisa, visando subsidiar o estudo de caso proposto na segunda fase. Visando à elaboração de uma pesquisa semiestruturada em profundidade, alinhada à proposta deste trabalho, desenhou-se o quadro síntese dos ambientes micro e meso, que serão explicados no próximo item (Fase 2), como integrantes do contexto institucional do Vale da Eletrônica, inseridos neste estudo de caso. Buscou-se a interpretação da problemática apresentada e dos objetivos específicos para pontuar a ordem lógica deste artigo. A pesquisa permitiu, de um modo geral, conhecer o perfil das empresas e dos gestores do Vale bem como identificar a estratégia utilizada na conquista de novos mercados, gerando informações de atuação, iniciativa e organização do SPL. Diante dessa exposição de conceitos e teorias, definiu-se o instrumento de coleta de dados a ser utilizado para compreender como as estratégias de cooperação têm sido desenvolvidas e quais os resultados para a internacionalização de PMEs. Fase 2: Delimitação da unidade de análise: O Vale da Eletrônica Na segunda fase buscou-se delimitar o ambiente a ser estudado. A pesquisa tem o Vale da Eletrônica como unidade de análise, ou seja, um aglomerado de PMEs, que, em cooperação, compõe o SPL participante do projeto estruturador da Secretaria de Ciência e Tecnologia do Ensino Superior do Estado de Minas Gerais (SECTES). O Vale da Eletrônica foi escolhido para protagonizar este estudo principalmente por apresentar um cenário característico da proposta inicial deste artigo: a relação de cooperação entre PME´s. Os SPLs são concentrações geográficas de empresas de um mesmo segmento ou de um mesmo complexo industrial. Eles funcionam como um conjunto de indústrias que trabalha de forma cooperada, com tecnologias de produção flexível. Existe também a articulação com órgãos de governo, entidades representativas do empresariado, instituições de crédito, de ensino e de pesquisa. Como resultado,
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elevam-se os patamares gerenciais e tecnológicos e é esperado um crescimento significativo, gerando novos empregos na indústria, e, como consequência, absorvendo mão-de-obra no comércio e na prestação de serviços (SECTES, 2008). Foram efetuadas periódicas visitas à Secretaria de Ciência e Tecnologia para acompanhamento da evolução do projeto estrutural no Vale. A coleta preliminar dos dados aconteceu em junho 2008, em dois encontros na Secretaria do Estado, entre o coordenador do projeto estrutural do governo, o orientador deste projeto e a autora. Dentro da amostra de 132 PMEs do Vale da Eletrônica, propõe-se estudar vinte empresas previamente selecionadas, seguindo os critérios: empresa associada ao Sindicato das Indústrias de Aparelhos de Elétricos Eletrônicos do Vale da Eletrônica (SINDVEL); empresa exportadora; limite mínimo de dez colaboradores; e tempo de existência superior a quatro anos. Entretanto duas dessas empresas, por incompatibilidade de agenda, não participaram da pesquisa, sendo entrevistadas dezessete delas. Com o objetivo de preservar a confidencialidade das empresas entrevistadas, nomearam-se, de forma fictícia, as empresas que compõem o ambiente micro como E1, E2, E3 ... a E17. Nessas entrevistas levou-se em consideração o ambiente micro da contextualização do Vale da Eletrônica. Com a ferramenta metodológica de pesquisa, as entrevistas semiestruturadas, estudou-se o ambiente micro na contextualização do Vale da Eletrônica. Para o ambiente meso foram entrevistadas quatro instituições, seguindo os critérios de capacitação técnica (INATEL), incentivo político e diplomático (Governo de Minas Gerais), incentivo profissionalizante (SEBRAE) e incentivo à cooperação e governança (SINDVEL). Em primeiro contato com o Vale da Eletrônica identificou-se o contexto institucional, conforme ilustrado na Figura 2. O ambiente micro emprega 9.500 colaboradores, disponibilizando mais de 11.000 produtos no mercado nas áreas de eletroeletrônica, telecomunicações, radiodifusão, informática, automação industrial, predial e comercial, segurança, tecnologia da informação, equipamentos industriais e prestação de serviços. Todo esse conjunto gera um faturamento bruto anual aproximado de R$ 780 milhões (SINDVEL, 2008). Diante do ambiente exposto, buscar-se-á um alinhamento do tema, a cooperação, e a realidade do Vale da Eletrônica conforme apresentado no item O caso do Vale da Eletrônica. Fase 3: Coleta de dados A coleta de dados deu-se em visitação in locus por meio de entrevistas semiestruturadas aos gestores do Vale da Eletrônica (SINDVEL, SEBRAE), à instituição de capacitação tecnológica da cidade (INATEL) e ao coordenador do projeto estrutural do Governo de Minas (SECTES), caracterizando o ambiente meso, e em visitas às PMEs do Vale da Eletrônica, buscando entender o ambiente micro. Participou-se ainda de feiras para melhor percepção da atuação das empresas no mercado e visitas à Secretaria do Estado.
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Foi efetuado um total de vinte e uma entrevistas, sendo dezessete às PMEs do Vale – ambiente micro - e quatro às instituições de apoio e governança – ambiente meso. Utilizou-se um gravador como ferramenta de apoio à captação integral da entrevista para melhor apuração e análise das respostas. A duração média de cada entrevista foi de aproximadamente 90 minutos totalizando, vinte e cinco horas e trinta minutos em 7 dias de estada em Santa Rita do Sapucaí. Fase 4: Análise e interpretação dos dados Os dados coletados em entrevista foram “degravados” inicialmente e interpretados de acordo com a relevância para esse estudo. Analisou-se a linearidade das respostas traduzindo as etapas propostas na pesquisa: características gerais das empresas, percepção de cooperação, a forma de atuação internacional e estratégias de cooperação para a internacionalização das PMEs entrevistadas. Diante das variáveis de verificações empíricas propostas no item de cooperação deste artigo buscar-se-á identificar as evidências detectadas na pesquisa de campo, trabalho que será detalhadamente apresentada no próximo item.

4. O CASO DO VALE DA ELETRÔNICA
À primeira vista parece mais uma típica cidade do interior mineiro, com paisagem de morros e plantações de café. Porém a verdadeira vocação de Santa Rita do Sapucaí, no sul de Minas Gerais, já há algum tempo, é desenvolver novas tecnologias. A agropecuária, ainda importante atividade econômica na região, foi cedendo espaço para os produtos tecnológicos. Dados do IBGE (2008) apresentam o resultado da indústria com 39% em relação ao PIB da região e uma receita orçamentária de aproximadamente R$ 29,5 bilhões. A população possui uma taxa de crescimento de 10% em média a cada cinco anos e a expectativa de faturamento para 2009 do Vale da Eletrônica está estimado em US$ 1,8 bilhão (SINDVEL, 2008). A cidade possui aproximadamente 35 mil habitantes, abriga mais de 130 PMEs nas áreas telecomunicação, informática, automação industrial, segurança, TI, equipamentos industriais e prestação de serviços. O polo eletrônico conta com o apoio de universidades e centros de pesquisa da região, destacando a Escola técnica de Eletrônica Francisco Moreira da Costa (ETE), a primeira da América Latina, o Instituto Nacional de Telecomunicações (INATEL), a Faculdade de Administração e Informática (FAI), o Serviço Social da Indústria (SESI) e o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI). O Sindicato das Indústrias de Aparelhos Elétricos, Eletroeletrônicos e Similares do Vale da Eletrônica (SINDVEL), além do Governo Federal e Estadual, APEX do Brasil, instituições de fomento financeiro, como BDMG, Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG) e Financiadora de Estudos e
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Projetos (FINEP), e SEBRAE proporcionam ao Vale a capacitação para o desenvolvimento da região em termos reais. Analisando-se, em profundidade, o contexto institucional do Vale da Eletrônica perceberam-se três níveis ambientais de negociação mercadológica: micro, meso e macro. O ambiente micro é formado de empresas que, em cooperação, buscam a internacionalização de seus produtos contando com a governança do SINDVEL, como empresa gestora do Vale. O ambiente meso constitui-se de entidades incentivadoras do projeto Vale da Eletrônica no aspecto técnico, financeiro e estrutural. Ilustrativamente apontaram-se as principais instituições atuantes no Vale, respeitadas as devidas segmentações educacionais (FAI, ETE, INATEL), Governos (Federal, Estadual e Municipal), apoio à internacionalização (APEX do Brasil), fomento financeiro (FINEP, FAPEMIG e BDMG), governança (SINDVEL, SEBRAE e FIEMG), conforme Figura 2. Por fim, o ambiente macro é caracterizado pelas relações entre o Vale da Eletrônica e os mercados doméstico e internacional conforme ilustrado na figura 2. Esse nível de ambiente não será avaliado na pesquisa de campo por não fazer parte da proposta deste estudo de caso.
FIGURA 2: Contexto institucional do Vale da Eletrônica.

Fonte: Elaborado pela autora.

As empresas que compõem o ambiente micro, foco deste artigo, são em sua maioria PMEs fabricantes de aparelhos eletroeletrônicos. Conforme apresentado na delimitação da unidade de análise da pesquisa, o ambiente micro foi escolhido como foco deste artigo de modo a atender aos objetivos iniciais deste trabalho: analisar a forma e os resultados das estratégias de cooperação das PMEs inseridas no Vale da Eletrônica, polo nacional de produtos eletroeletrônicos, localizado em Santa Rita do Sapucaí, sul de Minas Gerais.
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Finalizando a apresentação do foco deste artigo o próximo item trabalhará as características da cooperação no Vale da Eletrônica, a fim de identificar as contribuições que esta nova abordagem de gestão proporciona às PMEs do Sul de Minas.

4.1 Cooperação no Vale da Eletrônica
Para entender a dinâmica do funcionamento do Vale de Eletrônica bem como suas estratégias de cooperação, buscou-se identificar as motivações que levaram cada empreendedor a atuar na região do Sapucaí. As empresas pesquisadas valorizam a “política da boa vizinhança”, em que o bom relacionamento está no respeito mútuo e colaboração entre si. As estratégias de cooperação se evidenciam quando se avaliam a conectividade e a sintonia entre as empresas em aspectos de produção padronizada e os objetivos comuns. Perceberam-se situações de constante troca de produtos entre as PMEs na urgência de atendimento de um cliente. A competição é tratada com lealdade, respeitando os limites da empresa concorrente. A entrevista ao empresário da E1 comprova essa percepção: “[...] a cooperação existe na região para que Santa Rita seja ‘o Vale da Eletrônica’, contando com incentivos do governo, apoio das instituições de ensino e, sobretudo, objetivos comuns entre os empreendedores formando assim uma região de contínuo progresso [...].” No aspecto projetos de cooperação no Vale da Eletrônica, identificou-se forte trabalho do SINDVEL, proporcionando aos colaborados abrangência do mercado nacional e maior participação no mercado externo em feiras internacionais, missões e rodadas de negócios, treinamento e capacitação de empreendedores em negociações internacionais, participação no PSI, conquistando novas parcerias para o Vale da Eletrônica, destacando os estados de São Paulo e Rio Grande do Sul. Atualmente, segundo o Vice-Presidente do SINDVEL, o faturamento com as exportações chega a 8% do faturamento total do Vale. A meta para março de 2010 é de 15%. O percentual de matérias-primas importadas é normalmente de 60% de um produto, embora alguns componentes já estejam sendo desenvolvidos no Brasil. Quando a questão envolve disponibilidade das empresas em desenvolver novos projetos de interesse comum entre as empresas do Vale da Eletrônica e outros parceiros, percebe-se a unanimidade na resposta, e as empresas apresentam-se disponíveis às novas parcerias, desde que seja bom negócio para ambas as partes. A E3, representada pelo seu administrador, argumenta:
Acredito que a cooperação traz diferenciação no produto. Hoje em dia, com as empresas tão próximas fisicamente, pode-se criar um produto completo para a segurança comercial/industrial ou residencial [...] em nosso nicho de mercado buscamos oferecer o alarme fabricado em nossa empresa associa‑ do ao porteiro eletrônico que poderá ser monitorado pela central de PABX e fazer a captação de um porteiro eletrônico ou monitor alarme [...].
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O surgimento e a evolução das estratégias de cooperação no sul de Minas são consequência da maturidade organizacional em escolher o crescimento sustentável de seus empreendimentos. De acordo com depoimentos e apurações da pesquisa, pode-se inferir, portanto, que a cooperação está presente no Vale da Eletrônica como uma nova abordagem organizacional, visando à conquista de novos cenários de flexibilidade e agilidade na colocação de seus produtos no mercado externo. No próximo item, trabalhar se á as evidências de variáveis de verificação sobre a cooperação no Vale.

4.1.1 Evidências das variáveis de verificação sobre a cooperação no Vale
Notou-se em depoimentos retirados das entrevistas junto ao empresariado santa-ritense que a idéia de cooperação está claramente envolvida no negócio do Vale. Apresentar-se-á algumas citações para efeito ilustrativo da questão: Ganhos Relacionais “[...] percebemos que o SPL é um modelo. Nossa empresa tem contatos frequentes com outros SPLs e percebemos uma sinergia diferenciada no Vale da Eletrônica. As empresas interagem em busca de objetivos comuns, empresas menores parecem departamentos de outras empresas, tamanha é a integração. Até diante de nossos concorrentes dentro do Vale percebemos o espírito de ajuda, isto é a riqueza da relação de cooperação.” (E6) Aprendizado “As empresas são muito unidas, abertas ao trabalho em parcerias proporcionando a troca de experiências e conhecimento. [...] A competição é saudável fazendo com que as empresas saiam da zona de conforto e estejam em constante aprendizado buscando melhorias de produto, de atendimento e pós-venda.” (E10) Confiança versus Oportunismo “Nós temos uma parceria com outra empresa daqui do Vale da Eletrônica, onde nossos produtos somados ao produto desta parceira perfazem um produto atendendo às necessidades do mercado. Nesta parceria, a confiança é fundamental [...]” (E5) Complementaridade “Todos os nossos produtos são desenvolvidos com um grupo de parceiros daqui de Santa Rita de Sapucaí. Eu tenho poucos funcionários, utilizo apenas a inteligência do SPL” (E16) Matriz MBA “[...] vemos grandes oportunidades de parcerias no Vale da Eletrônica, e utilizamos algumas delas com empresas de menor porte. [...] reconhecemos ser a segunda maior empresa em eletroeletrônica do Vale e nem por isso conseguimos executar todas as nossas atividades produtivas sozinhos [...] escolhemos cooperar e somos beneficiados por esta estratégia” (E6) Informações benéficas à cooperação “Temos uma relação saudável entre as empresas do Vale, mesmo porque algumas empresas acabam conhecendo uma parte do produto da outra empresa ao montar ou desenvolver o seu produto.” (E11)
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Governança “Hoje o SINDVEL é responsável pela governança do Vale da Eletrônica e ele promove a maior parte das oportunidades de negócios organizando feiras, missões, é fantástico. A E14 é uma pequena empresa, mas temos conseguido grandes oportunidades por meio dos eventos promovidos pelo Vale. [...] E digo mais, a E14 é hoje uma empresa estruturada e atuante no mercado nacional e internacional graças ao excelente trabalho desenvolvido pelo SINDVEL [...].” (E14) Finalizando a parte prática deste estudo, passar-se-á para as considerações e conclusões finais, focando o diferencial identificado na região estudada.

5. CONCLUSÃO
Em se tratando de parcerias, percebe-se uma forte influência do espírito cooperativo, em que a conectividade, os objetivos comuns e a governança caracterizam o aglomerado do Vale da Eletrônica. Para o representante do SINDVEL, essa proximidade das PMEs está relacionada com o ambiente de nascimento do Vale, principalmente entre as instituições de ensino de Santa Rita do Sapucaí, representadas pelas incubadoras e as PMEs. Destaca ainda que, em um ambiente concentrado em eletroeletrônica, existem produtos similares em alguns setores como o de segurança eletrônica, havendo assim a competição. Mas tratase de uma competição saudável e respeitosa segundo o representante legal do SINDVEL. De modo geral, percebe-se que há colaboração entre as empresas, em que os produtos são complementares, daí a cooperação. Relações de cooperação entre as empresas superam as relações de boa vizinhança. Quando uma empresa precisa de um determinado material ou produto e não tem tempo hábil para fabricar, busca-o na empresa vizinha, relata o representante do SEBRAE. Assim é importante que as empresas mantenham um nível de qualidade de produto similar para que tenham padrão na negociação e nas trocas de mercadorias. Em se tratando da governança, tanto as empresas quanto as instituições entrevistadas reconhecem uma estruturada governança no Vale da Eletrônica composta pelos três pilares: público, privado e acadêmico. Conforme estudos de Provan e Kenis (2003), a governança do Vale está representada por uma entidade administrativa, network administrative organization, conforme ilustrado na Figura 3. Entretanto admitem necessitar de lapidação contínua desse “tripé relacional”, ou seja, o empresário precisa desenvolver uma visão macro do mercado que o cerca e não apenas focalizar seu negócio. Os setores públicos e acadêmicos devem desenvolver laços de confiança de forma a solidificar a base da região vivenciando o verdadeiro polo tecnológico em eletroeletrônica.
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Exemplificando, o setor público, na figura do Governo de Minas e seu projeto estruturador, visam diminuir as desigualdades regionais, levando desenvolvimento social e geração de emprego para todas as regiões do Estado. A FINEP, a FAPEMIG e o BDMG participam dessa governança do Vale por meio de incentivos financeiros em projetos de pesquisa e desenvolvimento de produtos.
FIGURA 3. Os três pilares da governança do Vale da Eletrônica.

Fonte: Elaborado pela autora

Com referência ao clima organizacional, concorda-se com os estudos de Lorenzoni e Baden-Fuller (1995), que dizem ser a lealdade e o respeito entre empresas e instituições a base de sustentação organizacional. No Vale, a postura do empresariado é de reciprocidade, fornecer à empresa vizinha a confiança necessária para promover a reciprocidade das relações organizacionais. O setor privado tem a participação do SINDVEL, que utiliza mecanismos de coordenação do Vale, viabilizando missões empresariais, rodadas de negócios internacionais, feiras e projetos compradores e vendedores, entre outros programas; do SEBRAE e seu projeto GEOR, conquistando o envolvimento do empresariado santa-ritense no desenvolvimento do Vale; da APEX do Brasil, na função de intermediadora de negociações internacionais, facilitando os projetos para a exportação; e, por fim, das empresas componentes do Vale, motivo principal do envolvimento de todas as instituições citadas com foco no negócio em eletroeletrônica. As relações de cooperação são identificadas nas negociações entre firmas, e, uma vez conquistadas a confiança do parceiro, as negociações se tornarão mais amigáveis. Confirmando esse posicionamento entre as organizações, Fukuyama (2000) coloca que agir honestamente em uma negociação torna-a duradoura e frequente. Ao passo que aquele que trapaceia será lembrado e desligado das negociações. A academia contribui com a capacitação técnica de futuros empreendedores e de mão- de-obra especializada, a geração de empresas em incubadoras, as contribuições em pesquisas e a formação de fundamentos teóricos para fomentar a
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prática em eletroeletrônica. Assim, FAI, INATEL e ETE atuam ativamente na consolidação técnica do Vale da Eletrônica como parceiros do conhecimento, da pesquisa e do desenvolvimento. Partindo-se para a forma, percebe-se na governança do Vale a presença dos dois tipos de laços: formais e informais. Os primeiros, por meio de contratos e acordos entre o SINDVEL e as PMEs, envolvem negociações nacionais e internacionais, vendas de produtos e compras conjuntas de matéria-prima. Já os laços informais são claramente identificados em palestra e encontros informais, em que se percebem trocas de experiências, dicas de abordagem de vendas no mercado externo, instruções administrativas, enfim, uma cooperação que se confunde com a vivência fraternal de cidade do interior. A confiança foi abordada pelos entrevistados de forma positiva e presente nas relações entre as empresas. Destaca-se que, até na concorrência entre as empresas do Vale, existe lealdade. Esse cenário é característico de uma convivência harmônica e respeitosa, envolvendo pessoas que se conhecem desde a infância ou adolescência e que acreditam no potencial de cada um, crescendo devido os próprios méritos e não prejudicando o próximo com oportunismo. Entretanto no Vale da Eletrônica não existe só a governança informal, existem também regras e contratos. Segundo Meyer-Stamer (2001), para se obter o tipo de comportamento colaborativo, precisam ser estabelecidas sanções e normas para os três níveis da governança bem como entre as empresas do SPL. Finalizando este estudo sobre o Vale da Eletrônica, identificou-se então que a estratégia de cooperação contribui para o desenvolvimento de seus produtos em diversos aspectos. De acordo com estudos de Brass et al. (2004), a união dos interesses em reduzir custos e riscos se traduz: na homologação e certificação dos produtos do Vale de forma conjunta, atendendo às normas nacionais e internacionais; no trabalho em parceria por meio da cadeia produtiva, dos projetos de inteligência, utilizando-se da capacidade técnica dos profissionais da região, ou elaborando produtos complementares; nas feiras, missões e projetos, cujo foco é conquistar mercados que isoladamente não teriam condições técnicas nem recursos para tal. As contribuições apresentadas neste artigo visam motivar, dentre vários ganhos relacionais proporcionados pelas redes de cooperação, reflexões específicas sobre a estratégia de cooperação entre PMEs. Como sugestão para pesquisas futuras, ressalta-se a compreensão e o aprofundamento da relação entre o ambiente macro, o mercado, com as PMEs, ambiente micro, incentivando os aspectos da cooperação para conquistar objetivos em comum. Sugere- se ainda que outras configurações de redes que possam ser estudadas visando ao complemento de aprendizado e buscando evidências possam contribuir com a presente pesquisa.
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OBSERVATÓRIO DE RESÍDUOS RECICLÁVEIS E RECICLADOS DO DISTRITO FEDERAL
Universidade de Brasília – Laboratório do Ambiente Construído, Inclusão e Sustentabilidade da Universidade de Brasília ‑ LACIS Universidade de Brasília – Centro de Desenvolvimento Sustentável – Doutorado em Política e Gestão Ambiental
marcelo.persegona@gmail.com

Marcelo Felipe Moreira Persegona

Universidade de Brasília – Laboratório do Ambiente Construído, Inclusão e Sustentabilidade da Universidade de Brasília ‑ LACIS
raquelblum@terra.com.br

Raquel Naves Blumenschein

Universidade de Brasília – Laboratório do Ambiente Construído, Inclusão e Sustentabilidade da Universidade de Brasília ‑ LACIS
vitferrari@gmail.com

Maria Vitória Ferrari Tomé

Universidade de Brasília – Laboratório do Ambiente Construído, Inclusão e Sustentabilidade da Universidade de Brasília ‑ LACIS
edmar.moretti@mma.gov.br

Edmar Moretti

Universidade de Brasília – Laboratório do Ambiente Construído, Inclusão e Sustentabilidade da Universidade de Brasília ‑ LACIS
andre.persegon@ipconsultores.com.br

André Luiz Moreira Persegona

Universidade de Brasília – Laboratório do Ambiente Construído, Inclusão e Sustentabilidade da Universidade de Brasília ‑ LACIS
luizafd@gmail.com

Luiza Franco Dias

RESUMO
A pesquisa tratou da criação de um ambiente computacional que permitisse disponibilizar e facilitar o acesso a grandes volumes de informações sobre resíduos recicláveis disponíveis em todo território nacional, que pudessem ser utilizadas para geração de novos conhecimentos. O Observatório da Cadeia de Resíduos Recicláveis e Reciclados do Distrito Federal (ObsR3DF) está composto de três módulos: um sistema de gestão do conhecimento da cadeia de resíduos recicláveis, um sistema de georreferenciamento e um sistema para representação da rede de agentes que
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tratam dessa questão. A integração dos softwares mencionados permite a coleta de informações, tratamento, armazenamento, disseminação e uso das informações pelo público, permitindo sua apresentação em diversos formatos, tais como: gráficos, página de internet, mapas geográficos temáticos, relatórios textuais, cruzamento de informações de diversas fontes e representação da rede de relacionamentos dos agentes na forma de árvore do conhecimento. Estas formas de representação dos dados permitem a captura, armazenamento, tratamento, análise e disponibilização de informações referenciadas geograficamente, agregando efetividade no processo de obtenção de conhecimento. Adicionalmente, apresenta vantagens como baixo custo no desenvolvimento, liberdade de acrescentar e retirar informações, realizar o cruzamento sem importar a origem dos dados, suporte fácil e amigável, tendo grande utilidade no foco de inclusão social.

PALAVRAS-CHAVE
Resíduos Recicláveis, Softwares livres, Sistema de Informação Geográfica, Árvore Hiperbólica, Google Maps, I3Geo.

1. INTRODUÇÃO
Este artigo apresenta os resultados obtidos no projeto de pesquisa aplicada do Observatório de Resíduos Sólidos Recicláveis e Reciclados (ObsR3DF) do Distrito Federal (DF). O ObsR3DF faz parte do Plano de Ação proposto pelo Laboratório do Ambiente Construído, Inclusão e Sustentabilidade (LACIS) da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) junto com o Centro de Desenvolvimento Sustentável (CDS) da Universidade de Brasília (UnB) para o fortalecimento da gestão dos resíduos sólidos reciclados e recicláveis no DF. O LACIS visa à pesquisa, ensino e extensão em diferentes áreas do conhecimento e tem como foco a sustentabilidade do ambiente construído, considerando a inclusão social e a Educação Ambiental com o fortalecimento do sistema de aprendizado de indústrias, cadeias produtivas e de outras organizações, o qual se constitui em um laboratório de criação, testes e compartilhamento de tecnologias que visam a sustentabilidade do ambiente construído, reunindo talentos e recursos por meio de pesquisa aplicada, educação ambiental e a constituição de redes para difusão tecnológica e inclusão social. O ObsR3DF é um projeto de pesquisa proposto com base nos resultados de outros dois projetos de pesquisa coordenados pelo LACIS: o Programa de Integração de Atores Sociais para Gestão de Resíduos Sólidos Urbanos (PROATOS-DF) e a cadeia de valor dos resíduos sólidos recicláveis e reciclados do DF que faz parte do estudo do Arranjo Produtivo Local (APL) de resíduos sólidos reciclados e recicláveis do DF. O projeto do ObsR3DF recebeu apoio financeiro da Secretaria de Ciência e Tecnologia para Inclusão Social do Ministério de Ciência e Tecnologia (SECIS/MCT).
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2. OS RESÍDUOS RECICLÁVEIS NO DISTRITO FEDERAL
Um dos maiores desafios da administração urbana atual é a gestão de resíduos sólidos. A verificação das estatísticas do volume de resíduos gerados, os custos do tratamento e da disposição final, o número de pessoas que vivem como catadores no Brasil impõem que as dimensões econômica, ambiental e social sejam consideradas na busca de soluções e de minimização de impactos. Faz-se necessário ainda reconhecer a importância de ferramentas de integração e disseminação de informação e conhecimento. No Distrito Federal são gastos, anualmente, em torno de R$300 milhões de Reais com a gestão de resíduos sólidos. A destinação inadequada desses resíduos causa impactos ambientais que potencializam vetores de doenças e poluição. Implantar o aproveitamento dos resíduos sólidos urbanos em processos de reciclagem fortalecendo a cadeia produtiva de resíduos reciclados e recicláveis, implica no fortalecimento dos agentes produtivos locais (como catadores e catadoras e micro empresas). O que traz como resultados o aumento da inclusão sócio-econômica, redução dos vetores de doenças, como a dengue e a lepstopirose, e economia de matérias primas retiradas da natureza. Diferentes agentes no DF, como a UnB e vários de seus departamentos e faculdades, setores do Governo do DF e do governo Federal, do setor produtivo e do terceiro setor, vêm desenvolvendo ações e projetos que visam contribuir e fortalecer a gestão de resíduos sólidos urbanos. A complexidade do problema, a ausência de instrumentos de planejamento e a falta de integração dos atores envolvidos no DF exigem o desenvolvimento de programas que fortaleçam e integrem as ações já existentes. O observatório é um projeto que resulta da análise do contexto atual da gestão dos resíduos sólidos no DF e da cadeia produtiva dos resíduos sólidos, por meio da elaboração e implementação do PROATOS e do APL de Resíduos Sólidos Reciclados e Recicláveis do DF. O APL de Resíduos Sólidos Recicláveis e Reciclados do DF (APLRS) teve início a partir das ações desenvolvidas no projeto Excelência das Empresas Coletoras de Resíduos de Obras do DF, no Geor/ Sebrae-DF. A parte mais importante dos agentes da cadeia de recicláveis no Distrito Federal está organizada em três estruturas agregadoras e promotoras do APLRS/DF: Associação das Empresas Coletoras de Entulho e Similares do Distrito Federal (ASCOLES), Associação dos Recicladores de Brasília e Entorno (ARECIBRAS) e Central de Cooperativas de Catadores de Materiais Recicláveis do Distrito Federal e Entorno (Centcoop/DF). O APLRS/DF aglomera agentes que estão envolvidos em todos os elos da cadeia de recicláveis no DF como: a coleta, a preparação, a comercialização, a reciclagem, o desenvolvimento de pesquisa e metodologias que fortalecem o sistema de aprendizado local.
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O Programa de Integração de Atores Sociais na Gestão de Resíduos Sólidos do DF (PROATOS) foi elaborado e é coordenado pelo LACIS/FAU/CDS/UnB, com o apoio financeiro da Fundação Banco do Brasil. O objetivo principal do PROATOS é contribuir para a Gestão Integrada de Resíduos Sólidos Urbanos no Distrito Federal, fortalecendo o fluxo de comunicação entre o Governo do Distrito Federal e a Centcoopdf, integrando agentes, ações e instrumentos e promovendo a geração de trabalho e renda por meio do adensamento da cadeia de recicláveis. Com o desenvolvimento do PROATOS ficou evidente a fragmentação das fontes de dados, assim como as limitações impostas pela dispersão das informações e desperdícios por sobreposições de ações de agentes desintegrados. A pesquisa para a criação do Observatório da Cadeia de Resíduos Recicláveis e Reciclados, tendo como piloto a região do Distrito Federal (ObsR3DF) é um instrumento de gestão do conhecimento da cadeia de resíduos recicláveis e reciclados com vistas a preencher as lacunas e gargalos identificados. Este observatório permite a coleta de informações, tratamento, armazenamento, formatação em diversos formatos (gráficos, página de internet, geração de mapas geográficos temáticos, relatórios textuais tabulares, cruzamento de informações de diversas fontes etc.), disseminação e uso das informações pelo público interessado pelo tema. O principal objetivo do ObsR3DF foi criar um sistema georreferenciado que permitisse a integração, interação e geração de conhecimento sobre reciclagem de resíduos sólidos no Distrito Federal, agregando valor para os agentes participantes da rede proposta pelo PROATOS-DF e aos agentes que constituem o APL de Resíduos Sólidos Recicláveis e Reciclados do DF, entre outros. Além de ser um ambiente integrador que possibilita o compartilhamento de dados, imagens, artigos técnicos, treinamentos, resultados de projetos, identificação de resíduos depositados irregularmente em tempo real, bolsa de negócios, o ObsR3DF proporciona a oportunidade de analisar a morfologia e a fisiologia da rede de atores sociais da cadeia de resíduos sólidos do Distrito Federal, tornando possíveis análises em cenários integrados, facilitando a tomada de decisões de gestores nos diversos níveis, assim como todas as organizações participantes. de: A justificativa para propor este ambiente está fundamentada na necessidade • disponibilizar e integrar informações relevantes aos agentes ligados à rede de resíduos sólidos no DF; • centralizar informações; • integrar informações agregando valor para os agentes; • contribuir com a estruturação da cadeia produtiva de resíduos recicláveis e reciclados do DF; • fortalecer a inclusão digital de agentes como cooperativas e micro empresários – inclusão digital além do aprendizado de manipular; utilizar ferramentas da informática, incluindo a oportunidade de participar efetivamente de um espaço de divulgação, amplo e irrestrito; e ter
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acesso à conhecimentos específicos e relevantes para o fortalecimento dos seus sistemas de aprendizado.

3. ANÁLISE DA CADEIA DE VALOR DOS RESÍDUOS SÓLIDOS NO DF
Há duas linhas de abordagem com relação ao resíduo sólido reciclável, e a sua gestão: de um lado têm-se os que acreditam que estamos consumindo os recursos naturais do planeta tão rapidamente que poderá faltar às gerações futuras; de outro lado, existem outros que olham para os resíduos e vêem um ativo que a cada dia se torna mais competitivo na economia, e que pode representar uma fonte de riqueza. Para assegurar que a riqueza gerada irá beneficiar a todos, uns diretamente e outros indiretamente, é preciso pensar no desenvolvimento sustentável dessa cadeia, sob pena de estarmos criando problemas futuros com as soluções que advogamos hoje. A sustentabilidade da cadeia de recicláveis, além da dimensão ambiental e a econômica destacadas acima, há também a social. Da perspectiva ambiental têm-se questões como sobrevivência, economia de recursos, redução de emissões, desperdícios e assim sucessivamente. O objetivo econômico tem que vir ao encontro do ambiental, enquanto busca a melhoria de resultados, está atento à competição e a economia de recursos. Do lado social tem-se a tarefa de pensar em tópicos como condições de trabalho, salários, informalidade, produtividade etc. Sem o equilíbrio destas questões a reciclagem é usada como roupagem para vestir questões que irão emergir de forma negativa. Fortalecer a capacidade de avaliação de ações e operações dos agentes atuando no setor ajuda na separação de caminhos sustentáveis. Inicialmente, por meio de questionários, a pesquisa deverá aprofundar na identificação dos objetivos e motivações das partes envolvidas, a forma como imaginam ser possível alcançar objetivos gerais, avaliar o grau de entendimento e limitações que estes têm da operação como um todo, e finalmente, como o somatório destas características se compõe para formar o cenário em que o ObsR3DF se desenvolve. Em um segundo momento, indicadores deverão ser pesquisados e selecionados, já adotados na economia para atividades similares, que são ou não utilizados na cadeia de resíduos sólidos recicláveis, mas que poderiam se adaptar ao contexto desta cadeia. Um terceiro passo é avaliar os dados disponíveis e compará-los a objetivos e motivações, e aos indicadores selecionados como pertinentes. Fazer a construção de interfaces e do relacionamento entre indicadores, ações, atores e empreendimentos. O resultado da análise destes aspectos será uma lista com três categorias: indicadores viáveis inicialmente; indicadores prioritários; e indicadores desejáveis.
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O objetivo desta parte do trabalho é fortalecer a capacidade de avaliação da sustentabilidade econômica de empreendimentos dentro da cadeia de recicláveis, e quais informações devem ter a disponibilização encorajada, como forma de acelerar o aperfeiçoamento da cadeia. A análise da sustentabilidade envolve principalmente três dimensões: ambiental, social e econômica. A ambiental está preocupada com o desempenho ambiental do processo e do produto objeto da atividade proposta. A social olha para o impacto da atividade sobre a qualidade do trabalho e de vida do trabalhador, e da comunidade na área de influência do empreendimento. O econômico visa avaliar se há suporte na realidade que justifique o investimento no empreendimento proposto. Desta forma, um empreendimento será dito sustentável, se oferecer uma alternativa ao mercado que não comprometa a capacidade das gerações futuras atenderem suas necessidades, melhore a qualidade de trabalho e vida da comunidade alcançada pelos resultados da atividade, e ainda ofereça uma taxa de retorno sobre o capital empregado superior às disponíveis para o investidor, de acordo com a sua percepção.

4. METODOLOGÍA UTILIZADA
Para a criação do ObsR3DF foi utilizado a integração de diversas funcionalidades existentes em vários programas livres (técnica de Mashup), entre eles está a API de mapas do Google, a Interface Integrada para Internet de Ferramentas de Geoprocessamento (I3Geo) do Ministério do Meio Ambiente (MMA) para a criação de mapas temáticos e a árvore hiperbólica de conhecimento da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA) para a criação da rede das relações dos agentes cadastrados. Também foi utilizado a linguagem de programação PHP, base de dados PostgreSQL com PostGIS, e o visualizador de dados geográficos Mapserver. O ObsR3DF está hospedado em <http://www.resisduos. reciclaveis.unb.br/obsr3df>. O projeto da infra-estrutura considerou o fato de que as aplicações seriam executadas na Internet e utilizadas por usuários de todo o Brasil, sem prejudicar os aspectos operacionais da solução proposta que exigiu disponibilidade, facilidade de uso e agilidade. A plataforma tecnológica utilizada obedeceu os seguintes requisitos: • o sistema deve dispensar a instalação de qualquer ferramenta na estação cliente, ou seja, deverá exigir apenas o browser instalado; • deve ser desenvolvido nas linguagens HTML, Javascript e PHP MapScript; • deve estar em consonância com as políticas e especificações técnicas constantes nos Padrões de Interoperabilidade de Governo Eletrônico – e-PING;
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• a base de dados centralizada para o acesso de todos os usuários em diferentes lugares do país; • Web Services devem ser empregados em pontos de interoperabilidade definidos; • o software não pode exigir que o cliente tenha que instalar qualquer tipo de plug-in; • os servidores de aplicação e de banco de dados devem ter a capacidade de serem processados em diferentes arquiteturas de hardware, tendo em vista a necessidade de manter o princípio de independência de fornecedor; • os servidores de aplicação, Web e banco de dados devem ser operáveis em ambiente GNU/LINUX, tendo em vista a necessidade de atender às diretrizes do Governo Eletrônico (e- Gov); • o módulo cliente deve ser operável por meio de interfaces gráficas intuitivas e passíveis de serem utilizadas por usuários não técnicos; • os dados devem ser acessíveis e contemplar múltiplos formatos, em especial os suportados por padrões ODBC e JDBC, tendo em vista a necessidade de garantir interoperabilidade entre ambientes; e • Portabilidade e Compatibilidade: o sistema deve ser projetado de forma a ser facilmente portado a outro banco de dados. A infra-estrutura de TI criada propicia que os gestores de informação e usuários possam realizar várias ações sobre as informações armazenadas, tais como: localizar, recuperar, tratar, armazenar, disseminar e usar. Por meio da gestão da informação que o sistema de georreferenciamento proposto realiza, os dados do banco de dados passam por um processo de tratamento que consiste na contextualização, categorização, análise, correção e condensação. Este processo é importante, porque permite determinar quais os dados serão armazenados e quais serão descartados, a fim de não haver redundância e inconsistência no banco. Isso permite a utilização das informações armazenadas de uma maneira mais eficiente. A gestão da informação e conhecimento em sistemas de georreferenciamento proporciona a análise de informações para obtenção de respostas rápidas para o processo de tomada de decisões (PERSEGONA et al, 2007). Outra conseqüência, da gestão da informação e do conhecimento com sistemas de georreferenciamento é o armazenamento e a seleção de informações que proporcionam no ambiente organizacional o compartilhamento de conhecimentos. A gestão do conhecimento permite que as organizações desenvolvam competências inovadoras, a fim de desenvolver novos produtos ou novos serviços de informações. A interatividade é outro ponto forte do sistema de georreferenciamento baseado em tecnologias Web, uma vez que permite ao usuário selecio173

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nar diversas camadas temáticas, cruzá-las e aplicar nelas diversas funções disponíveis.

5. RESULTADOS OBTIDOS
Como resultado da pesquisa do ObsR3DF, confeccionou-se três sistemas que foram integrados: um sistema para gestão do conhecimento da cadeia de resíduos recicláveis e reciclados, outro para a criação de mapas temáticos georreferenciados (Geo) e, por último, um sistema para a representação da rede de relacionamentos dos agentes cadastrados, que se ocupam da questão dos resíduos recicláveis e reciclados no Distrito Federal. Os sistemas de georreferenciamento e de rede de relacionamentos permitem a navegação pelos dados de forma gráfica. E o sistema de rede de relacionamento permite a navegação simultânea nos dados com o sistema de gestão do conhecimento.

5.1. Sistema para gestão do conhecimento da cadeia de resíduos recicláveis e reciclados
A Gestão do Conhecimento é um processo sistemático, articulado e intencional, apoiado na geração, codificação, disseminação e apropriação de conhecimentos, com o propósito de atingir a excelência organizacional, e pode ser entendida como sendo a gestão daquilo que já é conhecido, e para isso se vale do conhecimento interior do indivíduo (capital intelectual) e do conhecimento institucional acumulado nas organizações (capital organizacional). Na atualidade, existem várias definições para “conhecimento”, de uma forma informal, pode-se dizer que conhecimento é aquilo que já se conhece sobre algo ou sobre alguém. O conhecimento relaciona-se com algo existente no “mundo real” do qual se tem uma experiência direta e usa-se a Tecnologia da Informação (informática) para modelar um pedaço desse “mundo real”, para se obter uma melhor e maior compreensão desse pedaço da realidade. Para Sianes (2005, p. 259), conhecimento é definido como sendo “a informação agregada de valor. É um grupo de informações avaliadas quanto a sua relevância e confiabilidade e assimiladas pelo indivíduo ou pela organização, integrando-se ao saber anterior”. O sistema de gestão do conhecimento da cadeia de resíduos recicláveis e reciclados do Distrito Federal, é a concretização dos conceitos exposto em forma de um sistema que armazena informações textuais, arquivos, imagens, link e rede de relacionamento com capacidade de representar a rede de relacionamento do agente consultado na forma de mapas temáticos. Os agentes cadastrados estão classificados em seis categorias: cooperativa, financeiro, pesquisa, privado, público e terceiro setor. Na Figura 1 são identificadas as diversas funcionalidades do sistema de gestão do conhecimento que possibilitam ao usuário consultar as informações e realizar cruzamentos de dados.
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Figura 1. Sistema de gestão do conhecimento da cadeia de resíduos recicláveis e reciclados do Distrito Federal.

Os diversos componentes do sistema de gestão do conhecimento da cadeia de resíduos recicláveis e reciclados do Distrito Federal estão descritos abaixo: 1. Exibe informações sobre o Observatório de Cadeia de Resíduos Recicláveis e Reciclados do Distrito Federal. 2. Exibe um formulário para envio de crítica, sugestão ou pedido de esclarecimento. 3. Exibe o mapa do Observatório, o qual permite ao usuário visualizar o conteúdo integral Observatório. 4. Atalho que permite retornar à página principal. 5. Carrega a ferramenta de análise de dados georreferenciados. 6. Carrega a ferramenta de relacionamentos dos agentes cadastrados no Observatório, exibindo-os na forma de uma árvore hiperbólica. 7. Carrega a ferramenta de rotas, na qual o usuário pode definir a rota entre dois pontos de seu interesse. 8. Exibe o formulário envio de denúncias.
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9. Carrega a ferramenta de fórum, na qual podem ser enviadas perguntas, respostas e discussões sobre assuntos relacionados aos temas do Observatório. 10. Campo de preenchimento onde deve ser digitado o objeto de busca, ou seja, o que o usuário deseja encontrar. 11. Permite ao usuário acessar a ferramenta de pesquisa básica do Observatório para encontrar um conteúdo do seu interesse. 12. Permite ao usuário acessar a ferramenta de pesquisa avançada do Observatório para encontrar um conteúdo do seu interesse. Esta ferramenta exibe diversas opções de busca, filtrando os itens encontrados pelas áreas de interesse do usuário. 13. Menu de seleção de agentes cadastrados no Observatório classificados por tipo. 14. Menu de seleção de conhecimentos cadastrados no Observatório classificados por tipo. 15. Menu de seleção de instrumentos cadastrados no Observatório classificados por tipo. 16. Menu de seleção de produtos cadastrados no Observatório classificados por tipo. 17. Permite ao usuário acessar a ferramenta de comércio eletrônico, na qual o usuário pode procurar por produtos ou serviços de seu interesse e realizar contato com a outra parte interessado em fazer negócios. 18. Permite ao usuário acessar a ferramenta de envio do jornal eletrônico do Observatório por meio do preenchimento do campo de e-mail. Esta ferramenta se constitui em um instrumento de divulgação de informações dos temas tratados no Observatório. 19. Botão de envio do e-mail para cadastro de recebimento ou não, do Jornal Eletrônico do Observatório. 20. Ferramenta que permite ao usuário se cadastrar ou descadastrar do recebimento do Jornal Eletrônico do Observatório. 21. Botão de acesso à área de administração do Observatório. Na figura 2, é exibido um exemplo de consulta aos dados de um agente da cadeia de resíduos recicláveis. Para este agente, o sistema de gestão do conhecimento exibe cinco tipos de informações: a lista de agentes que se relacionam com o agente selecionado; arquivos cadastrados , que podem ser apresentações, planilhas eletrônicas, arquivos de texto, arquivos PDF, entre outros; imagens e fotografias; lista de links e um mapa com a localização dos agentes que compõem a rede de relacionamento do agente selecionado. Na janela de informações do agente, figura 2, no canto superior direito do mapa, está disponível um conjunto de ferramentas – – que possibilita ao usuário organizar as informações do agente em um formato para impressão, ou enviar o link desse conteúdo por e-mail, ou, ainda, acessar outras informações do agente no formato texto e, quando estiver neste último tipo de consulta, voltar ao modo mapa.
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Legenda dos ícones da tela de consulta dos agentes: Versão para impressão. Enviar para um amigo. Consulta textual aos dados do agente. Consulta na forma de mapa.
Figura 2. Consulta a informações sobre um agente da cadeia de resíduos recicláveis do DF.

5.2 Sistema de criação de mapas temáticos georreferenciados
A geo representação da informação pode ser utilizada na modelagem de um instrumento facilitador para compreensão das informações que constituem
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o mundo real, para isso, se utiliza de instrumentos computacionais da Ciência da Computação, e de técnicas da Ciência da Informação, Cartografia e Geografia para auxiliarem nesse processo de modelagem e representação das informações. O uso de um sistema de informação geográfica (SIG) permite ao usuário ler e analisar informações que no modo tradicional de relatórios textuais tabulares ou na forma de gráficos geométricos (pizza, barras ou linhas) não seria possível, devido ao grande volume de dados a serem analisados (PERSEGONA et al, 2006). Este tipo de sistema acrescenta à informação mais uma dimensão, a espacial, a qual permite correlacionar a informação com território a que ela se refere, permitindo ainda, sobrepor e acrescentar outras informações espaciais que agregam mais valor a informação original. O SIG possibilita entender o comportamento de cidades, regiões e países, pela representação visual dos dados em forma de mapas temáticos possibilitando a percepção de tendências e de informações que no formato textual não seriam percebidas. Este tratamento dado à informação, agrega maior qualidade e precisão à informação, permitindo maior presteza, efetividade e transparência nas análises realizadas. O sistema de criação de mapas temáticos georreferenciados do Observatório utiliza o software público I3Geo (Interface Integrada de Informações Georreferenciadas), o qual permite cruzar os dados dos sistemas de gestão do conhecimento com informações geográficas, conforme pode ser visto na figura 3. O acesso a este sistema se dá pelo link Análise de Dados na interface do sistema de gestão do conhecimento.
Figura 3. Sistema de criação de mapas temáticos georreferenciados.

O I3Geo utiliza principalmente o software Mapserver e PHPMapscript como motor para o processamento de dados geográficos e uma interface baseada na linguagem Javascript. A interação navegador-servidor é implementada via Ajax.
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A arquitetura adotada baseia-se na criação de um arquivo mapfile19 temporário, armazenado no servidor, que pode ser alterado conforme a demanda do usuário que está acessando o mapa interativo. Com base em um “armazém” de mapfiles temáticos, pré-definidos pelos administradores do I3Geo, o usuário da ferramenta tem acesso aos dados, podendo montar seu próprio mapa personalizado. Além do mais, o I3Geo possui um conjunto de ferramentas e funções que possibilitam ao usuário interagir com o mapa temático criado. Dentre essas ferramentas estão: mapa de referência, aproximação e afastamento de região do mapa; inserção de ponto e legenda; representação dos dados locais no Google Maps e Google Earth; exportação de dados; medidas de distâncias lineares e tamanho de áreas; geração de gráficos; consulta a banco de dados com relação ao ponto clicado; integração com Wikipedia; lupa de aumento; geração de mapas em 3D; inserção de legendas dos dados consultados; consulta a dados remotos (localizados em computadores de outros países).

5.3 Sistema de rede de relacionamentos
O sistema de rede de relacionamentos é uma ferramenta que implementa a técnica de árvore hiperbólica nos relacionamentos dos agentes que participam da cadeia de resíduos recicláveis do Distrito Federal, a qual utiliza a teoria das redes sociais para exibir os dados. Os agentes nesse sistema são agrupados em tipos com seus respectivos relacionamentos. A árvore hiperbólica é uma técnica “foco+contexto” baseada na geometria hiperbólica, usada na visualização de dados de grandes estruturas hierárquicas. O termo foi introduzido por John Lamping, Ramana Rao, and Peter Pirolli, em 1995, no artigo “A Focus+Context Technique Based on Hyperbolic Geometry for Visualizing Large Hierarchies”. A árvore hiperbólica, no contexto da ciência da computação, é uma estrutura de dados que herda as características das topologias em árvore, conceitualmente é diferente das listas encadeadas, em que os dados se encontram em uma seqüência, nas árvores os dados estão dispostos de forma hierárquica. A árvore é uma rede de nós que contêm informações que se desdobram em seus componentes hierarquicamente dependentes, representadas por seus nós filhos. Os nós permitem a inclusão de textos e qualquer outro tipo de informações adicionais. O sistema de relacionamento foi integrado com o sistema de gestão do conhecimento, onde a seleção de um nó gera uma consulta integrada no sistema de gestão do conhecimento.
19 O mapfile é um arquivo texto que possui os comandos necessários para representar uma camapfile mada de informação georreferenciada, na forma de mapa temático, no programa Mapserver, o qual interpreta esses comandos gerando uma figura que é exibida no programa I3Geo.
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Figura 4. Sistema de rede de relacionamentos.

Figura 5. Localização de um agente na rede de relacionamentos.

O elemento principal da árvore hiperbólica é chamado de raiz, o qual possui ligações para outros elementos, que são denominados de galhos ou filhos. Estes galhos levam a outros elementos que também possuem outros galhos. O elemento que não possui galhos é conhecido como folha ou nó terminal. O sistema de rede de relacionamento implementado segundo a técnica de árvore hiperbólica é interativo, permitindo ao usuário movimentar os agentes
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e seus relacionamentos para qualquer lado da área de trabalho, a fim de possibilitar uma visualização melhor dos dados, seja clicando em um dos galhos ou folhas caixas, seja arrastando o galho ou folha pela área de trabalho, exibindo desta maneira as informações, conforme figura 4. Também foi adicionado o recurso de busca por palavras-chave ao sistema de relacionamento, conforme destacado na parte superior da figura 5. Para utilizá-lo, o usuário digita os termos que deseja procurar e o sistema irá identificar onde ocorre esses termos na árvore hiperbólica, destacando as linhas do relacionamento na cor vermelha e marcando com um ponto vermelho a localização do termo.

6. CONCLUSÃO
O ObsR3DF tem como finalidade pesquisar, coletar, analisar, processar, armazenar, integrar e compartilhar dados, informações, conhecimento e tecnologias de toda a natureza que tenham correlação com resíduos sólidos recicláveis e reciclados e, ainda, subsidiem a elaboração de políticas, planos e programas de inclusão social. As etapas de concepção e desenvolvimento foram concluídas e a partir de abril de 2009 passou-se à fase de consolidação e ampliação do ObsR3DF. O que significa que o primeiro piloto já está em fase de implantação no DF e está pronto para ser disseminado para outras localidades do país. Em 2008 desenvolveuse o sistema e a infra-estrutura da tecnologia de informação. Neste processo algumas consideração referentes à dificuldades são relevantes, como: a) Acessar o conhecimento gerado pelas informações e dados contidos pelas organizações ligadas ao manejo de resíduos sólidos recicláveis; b) Convencer os parceiros a compartilhar dados, informações e conhecimento; c) Convencer os parceiros a utilizar o observatório como uma ferramenta informatizada de gestão do conhecimento A idéia de uma célula de inteligência única que seja capaz de centralizar informações de várias organizações é inovadora, ousada e requer um processo de convencimento pela demonstração, uso e experimentação. Esse trabalho demanda tempo e dedicação da equipe do ObsR3DF e tem requerido várias visitas às organizações parceiras, contatos contínuos para entrevistas, e coletas de dados e informações, que geralmente estão dispersos, ou não estão publicados. O processo de trazer os parceiros para dentro do ObsR3DF tem evoluído lentamente. Por outro lado, todas as vezes que o ObsR3DF foi apresentado houve um consenso de sua relevância para a gestão dos resíduos sólidos reciclados e recicláveis do DF. Além disso, há o reconhecimento de sua replicabilidade em todo o país e no exterior.
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Muitas organizações parceiras não possuem banco de dados, não possuem sistema integrado de gestão, e, ou tem dificuldade de usar ferramentas informatizadas de gestão. Um grande desafio a ser vencido é a postura pessoal e as culturas organizacionais, de que devem manter suas informações protegidas contra terceiros e a falta de percepção de que a melhor maneira de uma informação perpetuar, é que ela seja compartilhada. Percebe-se que a gestão informatizada, e mais a gestão do conhecimento informatizada ainda não é uma pratica usual, na maioria das organizações. Entrevistas têm demonstrado que as pessoas ‘acham muito interessante’, ficam entusiasmadas com a idéia, reconhecem o potencial e a importância do ObsR3DF, acreditam que é uma ferramenta importante, mas há um efeito de inércia no modus operandi tradicional, dificultando a mudança na postura de trabalho. Em 2009 o objetivo é institucionalizar o ObsR3DF, consolidando sua função maior a qual inclui: estimular a criação de redes visando o desenvolvimento de pesquisas aplicadas para a geração e o compartilhamento de tecnologias que fortalecem o aprendizado organizacional e a inclusão social; pesquisar sobre resíduos sólidos recicláveis e reciclados; produzir estatísticas sobre resíduos sólidos recicláveis e reciclados e comunicar resultados e oportunidades com a sociedade. Entre os objetivos permanentes do ObsR3DF a serem consolidados cita-se: 1. Estimular a criação de redes para o desenvolvimento e compartilhamento de tecnologias que promovam a aceleração do aprendizado de associações e cooperativas de catadores e micro empresas ligadas ao arranjo produtivo local de resíduos sólidos reciclados e recicláveis. 2. Centralizar e facilitar o acesso a todas as informações úteis sobre resíduos sólidos recicláveis e reciclados no Brasil e no exterior auxiliando planejamentos e execução de atividades. 3. Constituir-se em um banco de dados dinâmico, responsável pela integração e disponibilização de informações sobre resíduos sólidos recicláveis e reciclados e, ainda, de todas as informações destinadas a subsidiar atividades, eventos, programas e planos sobre o tema. 4. Localizar fontes, definir indicadores e coletar informações, determinando seu nível de confiabilidade e utilidade, de modo a torná-las compatíveis, comparáveis nacional e internacionalmente, e facilitadoras das ações de propor, orientar, coordenar, controlar e avaliar as atividades de planejamento, de estatística e de avaliação relacionadas com a área de atuação do ObsR3DF. 5. Oferecer meios técnicos e institucionais para coletar e disseminar informações nacionalmente, que permitam as atividades de gestão da Política Nacional para os Resíduos Sólidos Recicláveis, incluindo a formulação, elaboração, implementação, avaliação e retroalimentação desse processo.
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6. Permitir a troca de informações e experiências com pessoas, empresas, instituições e governos interessados no problema de resíduos sólidos recicláveis e reciclados, bem como a capacitação e a atualização à distância de seus técnicos, professores, alunos, funcionários e demais interessados nas matérias pertinentes. O projeto cumpre com a meta estratégica de fortalecer sistemas de aprendizados em gestão de resíduos sólidos contribuindo com a gestão urbana e com a cadeia produtiva de resíduos sólidos recicláveis e reciclados. Para desenvolver e aplicar novas estratégias, considera-se que o desafio social envolve coordenação e integração de esforços criando sinergia que permite avanços no desenvolvimento e capacidade de absorver tecnologias, na gestão do conhecimento, aprendizado organizacional e inovação gerencial com modelos adaptados à dinâmica de organizações com dificuldade de acessar recursos, informações, políticas, dados, conhecimentos, entre outros.

AGRADECIMENTO
Agradecemos ao Ministério da Ciência e Tecnologia, na pessoa do Sr. Joe Carlo Viana Valle - Secretário de Ciência e Tecnologia para Inclusão Social e a toda a sua equipe, pelo apoio recebido para realização da pesquisa do Observatório da Cadeia de Resíduos Recicláveis e Reciclados do Distrito Federal (ObsR3DF).

REFERÊNCIAS
BRASIL, 2007. I3Geo. Ministério do Meio Ambiente. Disponível em: <http:// pt.wikibooks.org/wiki/I3geo>. Acesso em: 08/07/2009. CAMPOS, K., 2007. Governo, sociedade e inclusão: o papel do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome na promoção e articulação de ações para inclusão social. Inclusão Social, v. 2; n.1. Open Journal Systems. IBICT. Disponível em <http://www.ibict.br/revistainclusaosocial> Acesso em: 08/03/2007. MAPSERVER, 2004. MapServer Documentation Project. . Disponível em: <http:// mapserver.cttmar.univali.br> Acesso em: 08/07/2009. OLIVIERI, L., 2002. A importância histórico-social das redes. In: Manual de redes sociais e tecnologia. São Paulo: CONECTAS/Friedrich Ebert Stiftung. PERSEGONA, M. F. M., 2008. Gestão de Recursos Naturais com o uso de Sistemas Geográficos. In: IV ENANPPAS - Encontro da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Ambiente e Sociedade, Brasília. PERSEGONA, M. F. M.; et al, 2007. Obtenção de conhecimento cognitivo por meio de mapas geográficos utilizando softwares livres. In: IV Conferência Sul-Americana em Ciência e Tecnologia Aplicada ao Governo Eletrônico - CONEGOV, Palmas.
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O SOFTWARE LIVRE E A PADRONIZAÇÃO DE SISTEMAS NO GOVERNO FEDERAL
Serviço Federal de Processamento de Dados
flavio.lisboa@serpro.gov.br

Flávio Gomes da Silva Lisboa

Serviço Federal de Processamento de Dados
luciana.mota@serpro.gov.br

Luciana Campos Mota

RESUMO
Este artigo trata sobre a padronização do desenvolvimento de sistemas utilizados pelo governo federal do Brasil. Em sua introdução, ele apresenta o cenário do Software Livre no contexto do governo, ao final da qual aponta a necessidade do uso de padrões. O desenvolvimento do artigo é o relato da criação de uma estratégia de governo para a área de tecnologia da informação, e de como isso culminou na criação de uma arquitetura de referência para aplicações e no desenvolvimento de uma infraestrutura de construção de software (um framework) livre e de código-aberto. São abordados o histórico do projeto do framework e uma visão geral sobre sua arquitetura e a das aplicações por ele geradas. A artigo também expõe de forma sucinta o desenvolvimento colaborativo em comunidade, os projetos relacionados e conclui com as vantagens oferecidas pelo uso do framework e seu impacto na sociedade.

PALAVRAS-CHAVE
Arquitetura, Framework, Integração, Java, Padronização, Software Livre.

1. INTRODUÇÃO
Segundo Pinheiro (2008), “o software livre há muito que extrapolou as fronteiras da Academia, sendo um dos sistemas preferenciais das grandes indústrias, devido a utilização de padrões, o reaproveitamento de códigos, a adequação de ferramentas, além da não necessidade de licença para cada aplicação da ferramenta. No governo federal, a cada dia assume uma posição ainda mais estratégica”. Para o Estado, o software livre apresenta diversas vantagens, de acordo com Almeida (2009): – garante o domínio sobre a tecnologia, o que é fundamental para o desenvolvimento do país, por abrir caminho para a inovação;
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– garante que as gerações futuras tenham acesso à informação pública hospedada no governo; – traz economia ao não enviar royalties ao exterior por direitos de licença; – torna as aplicações mais seguras, pois como o código está disponível, qualquer fragilidade pode ser rapidamente corrigida. A Administração Pública deve assumir em sua organização funções primordiais à coletividade, no interesse desta. De modo a regrar e viabilizar a execução de tais funções, buscando atingir da melhor maneira possível o interesse público visado, o artigo 37 da Constituição determina que a Administração Pública siga os princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência. Pelo princípio da legalidade, ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei. A lei 8666/03 estabelece as normas gerais sobre licitações e contratos administrativos pertinentes a obras e serviços prestados para a Administração Pública. No inciso I de seu parágrafo primeiro, essa lei veda aos agentes públicos a admissão, previsão, inclusão ou tolerância de “cláusulas ou condições que comprometam, restrinjam ou frustrem o seu caráter competitivo”. A competitividade de serviços de desenvolvimento e manutenção de sistemas de informação fica comprometida quando o acesso à tecnologia utilizada nos mesmos é restrita, o que ocorre em softwares proprietários. O princípio da impessoalidade, de acordo com Nogueira (2005), no prisma da relação com os administrados, significa que “a Administração Pública não poderá atuar discriminando pessoas de forma gratuita, a não ser que esteja presente o interesse público.” Ele está ligado aos princípios de finalidade, que se traduz na busca da satisfação do interesse público, e no princípio da isonomia, “que determina tratamento igual a todos perante a lei”. Segundo o citado, essa isonomia é meramente formal, havendo necessidade da atuação do Poder Público para garantir a isonomia material, concreta. Em relação aos sistemas de informação, não basta estabelecer editais de licitação se existe uma limitação de acesso tecnológico para os interessados. Ou seja, as regras podem ser iguais para todos, mas isso é insuficiente se nem todos têm acesso igual à tecnologia exigida na licitação ou na contratação. A imoralidade administrativa é uma forma de ilegalidade. A lei 8429/92 define os atos de improbidade administrativa e a responsabilização de seus agentes. Um dos exemplos de atos é o denominado superfaturamento, que consiste na aquisição de bens ou serviços acima do valor de mercado. O problema é que o valor de mercado pode ser afetado se a competitividade for restrita, no caso da existência de monopólios ou oligopólios de tecnologias de software. Isso torna o Estado refém de poucos fornecedores ou prestadores de serviço, o que pode até resultar em um problema de soberania nacional caso os mesmos sejam empresas pertencentes a outros países.
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O princípio da publicidade trata do dever que a Administração tem de dar transparência a todos os atos que praticar e fornecer as informações solicitadas pelos particulares. A regra geral é que nenhum ato administrativo pode ser sigiloso. Segundo Nogueira (2005), um dos conceitos de ato administrativo é o de “exteriorização da vontade de agentes da Administração Pública” com a finalidade de “atender ao interesse público”. A produção de sistemas de informação para o controle da Administração Pública se encaixa nesse contexto de forma que os sistemas de informação também devem ser transparentes, excluídas as exceções. Dessa forma, a não abertura do código-fonte dos sistemas impede o pleno seguimento desse princípio. O princípio da eficiência, introduzido pela emenda constitucional 19/98, visa “aperfeiçoar os serviços e as atividades prestados, buscando otimizar os resultados e atender o interesse público com maiores índices de adequação, eficácia e satisfação.” (Central Jurídica, 2009). Costabile (2003) ressalta que, “cada vez mais, os governos vivem o desafio de promover o desenvolvimento e de produzir melhores serviços públicos sem onerar o contribuinte com mais impostos”. A e-PING afirma que “um governo moderno, integrado e eficiente, exige sistemas igualmente modernos, integrados e interoperáveis, trabalhando de forma íntegra, segura e coerente em todo o setor público”. Por outro lado, Frid (2004) afirma que “existe ainda uma grande carência de processos informatizados em quase toda a Esplanada dos Ministérios” e que “uma das razões para o baixo rendimento das verbas aplicadas pelos ministérios em Tecnologia da Informação é a falta de um gerenciamento adequado dos recursos financeiros e humanos envolvidos”. Frid aponta que “as empresas (privadas) ganham contratos, porém, não os supervisionam, não definem critérios de produtividade ou qualidade dos seus empregados alocados. Com isso, ministérios e órgãos públicos ficam na dependência de pessoas que não exercem sua função como uma missão de Estado, mas como trabalho temporário. Isto é grave, porque se se afastam, levam consigo o conhecimento, e deixam o Estado vulnerável.” O problema de acesso à tecnologia utilizada no desenvolvimento de sistemas para o governo pode ser resolvida com a adoção de software livre, o que cumpre simultaneamente os princípios da legalidade e impessoalidade. Ele também atende ao princípio da moralidade, ao dificultar justificativas de gastos com licenças de software em tentativas de superfaturamento. O acesso ao código-fonte e sua livre execução, cópia e alteração permite um acesso mais amplo e igual para empresas que querem concorrer em licitações ou serem contratadas diretamente pelo governo. O aumento da concorrência tende a tornar os preços mais competitivos, desonerando o Estado e ajudando-o a se enquadrar no princípio da eficiência. Segundo Cassino (2009), o software livre impede que a questão do armazenamento de dados na Administração Pública fira o princípio da publicidade, pois ele

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permite que os mesmos estejam acessíveis durante décadas, uma vez que o domínio da tecnologia proporcionado pelo modelo livre garante a abertura das informações. A segurança nacional também é atendida, segundo Saleh (2004), pois “como o software livre é distribuído acompanhado dos códigos fontes, fica fácil para as organizações governamentais auditá-lo, e garantir que não há seções maliciosas, que poderiam eventualmente transmitir informações sem autorização ou quebrar dados confidenciais.” Sendo assim, o software livre parece ser a solução ideal para o desafio imposto pelos princípios constitucionais que regem a Administração Pública. Costabile (2003), entretanto, afirma que o software livre traz outro desafio, a padronização. Segundo ele, “se todo o governo resolver usar software livre sem padronizar” poderá “ter problemas de comunicação entre os sistemas, inviabilizando conquistas anteriores.” Ele ressalta que “não podemos esquecer que o programa de governo (da administração iniciada em 2003) recomenda a integração entre os órgãos como meio de se atingir a sinergia.” Ele alerta que “sem padrão não teremos comunicação, mas aumento da entropia.”

2. UMA SOLUÇÃO LIVRE PARA PADRONIZAÇÃO E INTEGRAÇÃO DE SISTEMAS 2.1 A estratégia
O alinhamento do governo federal com o movimento de software livre faz parte da estratégia do mesmo para sua área de tecnologia da informação (TI). Essa estratégia foi traçada a partir da ciência da diversidade de equipes, clientes, plataformas, demandas, pessoas e recursos envolvidas no desenvolvimento de sistemas para governo. O Serpro, empresa pública de tecnologia da informação do Ministério da Fazenda, a partir de sua experiência como principal provedor de soluções para o governo federal, considerou, para o estabecimento da estratégia de TI para governo os seguintes elementos de decisão: – Os atores institucionais dos sistemas de governo (servidor público, firmas e cidadãos) precisam de globalidade, conexão, mobilidade e facilidade de acesso. – A implementação de software baseada em conhecimento maduro é preferível às soluções ad hoc. – É necessário promover a integração entre os sistemas de governo, eliminando o insulamento provocado pela diversidade (citada anteriormente), permitir a busca e recuperação de informação em bases de dados diferentes e preservar a identidade e privacidade dos usuários.
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– Os sistemas de informação devem ter escalabilidade, o que significa que devem permitir a agregação de novos recursos, ou aumento da disponibilidade de serviços, sem perda de desempenho. – As aplicações de governo devem ser sustentáveis pelo mesmo, evitando aprisionamento tecnológico por parte de fornecedores e, consequentemente, evitando onerar o cidadão com custos de tecnologia da informação. O governo federal assumiu um papel de incentivador do software livre, tratando do uso de padrões abertos, licenciamento livre de softwares e formação de comunidades de usuários e desenvolvedores. Em consonância com esse papel, o Serpro estabeleceu como componente estratégico da área de TI a evolução da cultura de desenvolvimento de aplicações. A nova cultura deveria envolver um desenvolvimento compartilhado, integrado, produtivo e gerenciável, que fizesse uso de tecnologias abertas. Ao mesmo tempo, a estratégia estabelecida incluía que governo deveria ter a capacidade de manter e estender suas próprias aplicações. Para isso, era necessário definir uma infraestrutura tecnológica de aplicações. Os requisitos definidos para essa infraestrutura era que ela deveria ser distribuída, escalável e habilitada para a Web. Ela também deveria ter alta disponibilidade e ser preparada para contingência. E finalmente, essa base para aplicações deveria ter um baixo custo de propriedade. O Serpro criou uma arquitetura de referência para aplicações, que orientasse a construção da infraestrutura tecnológica de software. Essa arquitetura compõe-se de oito itens: – – – – – – – – Computação distribuída; Aplicações baseadas em componentes; Processos orientados a eventos; Acoplamento fraco de funções de negócio; Infraestrutura para suporte a decisões; Automação de processos; Acesso por Internet; Software livre.

2.1.1 Computação distribuída
A computação distribuída em uma infraestrutura de aplicações é necessária para o governo dado que: – O número de usuários de seus sistemas tende a crescer, assim como os dados a serem persistidos; – O escopo de funcionalidades das aplicações aumenta com o tempo; – As aplicações devem estar alinhadas a distribuição geográfica do governo; – As aplicações devem ter suporte para várias tecnologias e tem de estar baseadas em padrões de interoperabilidade para que trabalhem de forma integrada.
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2.1.2 Aplicações baseadas em componentes
O código-fonte produzido para as aplicações deve preferencialmente constituir-se em blocos de construção que sejam reusáveis, aderentes aos domínios de suas aplicações e que possam ser tratados em diferentes níveis de escopo. Essas características permitirão que esses blocos sejam integrados em outras estruturas de software, diminuindo o esforço na construção de aplicações ao longo do tempo e melhorando a manutenção.

2.1.3 Processos orientados a eventos
Este item de arquitetura refere-se à diminuição do emprego de transferência de arquivos e filas de entrada, de processos dinâmicos e desenho (projeto) simples de aplicações.

2.1.4 Acoplamento fraco
Este item refere-se a preocupação com operações assíncronas (que não ficam aguardo resposta), com a eliminação de gargalos do modo de operação síncrono (que espera resposta para prosseguir), e à separação de interfaces, regras de negócio e persistência (separação da aplicação em camadas).

2.1.5 Suporte à decisões
A infraestrutura de software deve gerar aplicações que forneçam ao servidor público, visto agora como um “trabalhador do conhecimento”, acesso às informações de que necessita para a tomada de decisões. A plataforma de construção de software deve facilitar a recuperação de informações de situação, exceções, registros históricos e qualquer conhecimento relevante ao servidor público, usuário do sistema. A infraestrutura deve criar meios para implementação de inteligência computacional, que capacite as aplicações a fazerem associações de dados e predição com base nos mesmos.

2.1.6 Automação de processos
A plataforma de construção de software deve facilitar o gerenciamento de processos de negócio, permitir transações de longa duração, possibilitar a integração com barramentos de serviços. A plataforma também deve permitir a composição de processos de negócio por meio de web services, seja por coreografia ou orquestração (Wikipedia, 2009).

2.1.7 Acesso por Internet
Dada a existência de um enorme legado de aplicações de governo, sendo que a possibilidade de migração é muito remota, a integração dos sistemas legados com interfaces Web é necessária para permitir melhor navegabilidade, usabilidade e consolidação de dados de fontes diversas, além do acesso a partir
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de qualquer lugar, por meio de conexão a Internet e disponibilidade de um navegador. O acesso por Internet também coloca para a infraestrutura de software os desafios de permitir a navegação baseada em semântica, por meio de aplicações sensíveis ao modo de navegação (Web 2.0) e ao contexto (Web 3.0). As aplicações podem ter interfaces baseadas em navegador, para acesso direto por usuários, ou interfaces de aplicações (web services) para integração com outros sistemas.

2.1.8 Software Livre
A infraestrutura de software deve ser constituída preferencialmente de software e deve ser licenciada como software livre de modo que proporcione: – – – – – – – Compartilhamento de soluções; Desenvolvimento em rede; Redução de custos; Simplificação de práticas de segurança; Gerenciamento compartilhado de conhecimento; Estímulo à inovação; Sustentabilidade em longo prazo.

No ano de 2008, segundo cálculo do Serpro (2009), o uso de software livre gerou uma economia de R$ 370 milhões para o governo federal do Brasil.

2.2 A implementação
Os funcionários do Serpro, ao longo dos anos, fizeram várias tentativas de criar uma plataforma de construção de aplicações padronizada, que servisse toda a empresa. Mas foi com a entrada do diretor- presidente Marcos Mazoni, que houve finalmente um patrocínio da diretoria para a concretização dessa idéia. Oriundo da Celepar, empresa paranaense de informática, da qual era presidente, Mazoni estabeleceu um intercâmbio entre as duas empresas, focando as soluções em software livre. A Celepar já havia criado a sua infraestrutura de aplicações, denominada Pinhão Paraná. O Serpro estudou a plataforma, para saber se poderia simplesmente adotá-la, mas chegou a conclusão de que deveria construir a sua própria. Assim, baseado em sua experiência interna e no compartilhamento de conhecimento com a Celepar, o Serpro iniciou em 2008 a construção do seu arcabouço de software. A tecnologia Java foi escolhida para constituir a base da plataforma, em virtude dos recursos oferecidos por ela, da experiência da empresa na mesma, e na consequente disponibilidade de mão-de-obra especializada. Em março de 2008, era lançada para consumo interno, a primeira versão (0.1) do framework JEE (Java Enterprise Edition) do Serpro. Alguns projetos
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foram selecionados para a utilizarem, e contribuirem com sua construção. Em abril do mesmo ano foi criada a equipe gestora do framework, lotada na regional Curitiba do Serpro. Trabalhando de forma colaborativa com as equipes de desenvolvimento, a equipe gestora conseguiu lançar uma segunda versão (0.2) em agosto de 2008, até que em dezembro do mesmo ano no Free Software Rio, foi anunciada oficialmente a versão 1.0, batizada de Demoiselle Framework. Após análise jurídica, em abril de 2009 o código-fonte foi liberado sob a licença LGPL 3, e hospedado no Sourceforge, um dos maiores repositórios de projetos de software livre do mundo, para ser mantido em comunidade. Em 14/07/2009, segundo levantamento feito pelos arquitetos de software regionais do Serpro, 26 projetos estavam utilizando o Demoiselle Framework.

2.3 A arquitetura da solução
A Figura 1 é a representação da arquitetura do Demoiselle Framework. Ela (a figura) é dividida em blocos retangulares, que representam as camadas de software que compõem a solução. A primeira camada inferior (OS) é o sistema operacional da máquina. O sistema operacional controla as operações básicas de hardware e gerencia os recursos do computador. Essa camada não é passível da imposição de padrão, porque a escolha do sistema operacional depende de vários fatores, como os tipos de aplicação que serão executadas, a necessidade de customização (adaptação do sistema) e a disponibilidade de recursos financeiros (para pagamento de licenças e contrato de suporte) ou s humanos (para manutenção do sistema por conta própria).
Figura 1. Arquitetura do Demoiselle Framework.

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Na construção da arquitetura, um dos requisitos elencados foi o da portabilidade das aplicações, ou seja, uma vez construídas, as aplicações deveriam ser capazes de rodar (serem executadas) em qualquer sistema operacional (ou pelo menos na maioria disponível/usada no mercado). Esse foi um dos itens que pesou para o uso de Java, pois a mesma implementa o conceito de máquina virtual, que constitui a segunda camada (de baixo para cima) do Demoiselle Framework. A máquina virtual é um software que simula um hardware genérico. Dessa forma, as aplicações são construídas não para rodar em um determinado sistema operacional, mas para rodar sobre a máquina virtual. Ela traduz as instruções dos programas para a linguagem do sistema operacional sobre a qual está baseada. Prosseguindo para as camadas superiores, o próximo bloco é da plataforma. Como a implementação atual do Demoiselle está direcionada a construção de aplicações Web, então a plataforma se constitui de servidores de aplicação Web. De forma a não prender as aplicações a um determinado servidor, foi estabelecido que as aplicações deveriam ser executáveis em servidores que seguissem o padrão JEE. O Serpro, em seus projetos, fez uso de JBoss e Tomcat, soluções abertas, e entregou para a comunidade a incumbência de testar o uso em outros servidores. A próxima camada, dos frameworks de fundamento, constitui-se da reunião de especificações da tecnologia Java que norteiam as implementações de software utilizadas pelo framework. A idéia é que as aplicações não fiquem presas a produtos de software específicos. A adoção dos padrões definidos pelas especificações garante uma certa liberdade na troca de tecnologias especialistas. As tecnologias especialistas, ou melhor, os frameworks especialistas, fazem parte da camada seguinte. Este é o ponto de mutação do Demoiselle Framework. Os frameworks especialistas são integrados pela última camada, o framework arquitetural, que constitui efetivamente o Demoiselle. O gerenciamento de mudanças deve se concentrar nessas duas camadas superiores, sendo que o framework arquitetural deve permanecer estável. A idéia é proteger as aplicações do impacto das mudanças, conservando a mesma interface para as classes e métodos utilizados, mas alterando os componentes que implementam as funcionalidades conforme for necessário. Em uma de suas aulas na Universidade Tecnológica Federal do Paraná, o professor Gustavo Alberto Gimenez Lugo afirmava que, com a tecnologia Java, finalmente alguém se preocupava com o desenvolvedor de software. Não vamos provar essa afirmação, mas usá-la como um ponto de referência. Considerando que ela seja verdadeira, o Demoiselle vem prosseguir no intento da tecnologia Java, e facilitar a vida do desenvolvedor, tirando a sua preocupação com as implementações de baixo nível, que constituem a infraestrutura de software, ou seja, a estrutura mínima que o software necessita para poder executar as tarefas desejadas pelo cliente.
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Todas as tecnologias integradas pelo Demoiselle podem ser perfeitamente usadas sem o framework. Porém, nesse caso, o desenvolvedor divide a sua preocupação com diversas estruturas, precisa gerenciar isso por conta própria e torna as aplicações dependentes de determinadas tecnologias, fortemente sujeitas à mudança. Ao programar para o Demoiselle Framework, o desenvolvedor consegue criar uma estrutura de software reutilizável, de duas formas. Primeiro, se algum framework especialista tiver de ser substituído, a aplicação irá ignorar essa mudança, pois sua interface com o framework permanecerá inalterada. A mudança ocorrerá na implementação do framework que faz a integração, sendo que o resultado final permanecerá o mesmo. Larman (2004), define um framework como “um conjunto coeso de interfaces e classes que colaboram para fornecer serviços para a parte básica e constante de um subsistema lógico”. O Demoiselle Framework encaixa-se nessa definição, mas a extrapola quando comparado com outras soluções similares, por integrar tecnologias em vez de implementá-las. Na verdade, segundo Macias (2008), “os frameworks podem ser classificados, quanto à forma onde são utilizados, ou seja, quanto ao seu escopo, em três categorias: dos frameworks de middleware de integração; dos frameworks de aplicação e dos frameworks especialistas”. O problema reside no uso desses últimos.
Figura 2. Integração de tecnologias Java sob o Demoiselle Framework.

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Na construção de software baseado em camadas, cada camada tem uma responsabilidade que pode ser implementada pelo uso de padrões de projeto e de frameworks de infraestrutura ou especialistas. Segundo Macias, “existe, no mercado, uma grande quantidade de frameworks open source disponíveis, que solucionam problemas de cada camada específica, tornando a escolha da implementação mais apropriada uma atividade onerosa e não padronizada”. De acordo com a autora, “ para solucionar esses problemas surgiu o conceito de Framework Integrador, que realiza a integração entre vários frameworks especialistas e garante a evolução, manutenibilidade e a compatibilidade entre cada um deles. Assim, facilita a construção de aplicações e o aumento de produtividade das equipes de desenvolvimento”. O Demoiselle Framework é um framework integrador, pois, baseando em especificações, ele agrega várias soluções já implementadas, definido as tecnologias a serem utilizadas e a estrutura das aplicações, padronizando a codificação e orientando as decisões dos projetos.

2.4 A arquitetura de referência para as aplicações
A Figura 3 representa uma aplicação construída com o Demoiselle Framework. Ela mostra as camadas que compõem a aplicação e os contextos acessados por essas camadas. Essa figura traz uma inovação na representação visual de aplicação em camadas, pois dispõe as camadas de forma vertical. Na verdade, na prática, as camadas estão uma sobre a outra, sendo que o usuário tem contato com a superior (no caso à da direita) enquanto a aplicação se comunica com o ambiente externo de software ou hardware pela camada mais inferior (no caso à da esquerda). Fowler (2006), defende um padrão de projetos chamado MVC, que propõe a divisão das aplicações em três partes, denominadas camadas, em uma metáfora de bolos e tortas. Essa divisão visa melhorar a manutenção das aplicações, permitir o desenvolvimento simultâneo de partes da aplicação e produzir componentes de sotware reutilizáveis. Um padrão de projetos, segundo Gamma (2000) é algo que “nomeia, abstrai e identifica os aspectos- chave de uma estrutura de projeto comum para torná-la útil para a criação de um projeto orientado a objetos reutilizável. O padrão de projetos identifica as classes e instâncias participantes, seus papéis, colaborações e a distribuição de responsabilidades. Cada padrão de projeto focaliza um problema ou tópico participar de projeto orientado a objetos. Ele descreve em que situação pode ser aplicado, se ele pode ser aplicado em função de outras restrições de projeto e as consequencias, custos e benefícios de sua utilização”.
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Figura 3. Arquitetura de aplicação em camadas.

O padrão MVC disseminou-se pelo mercado, produzindo uma gama de frameworks, em diversas linguagens, que facilitam sua implementação. Nesse padrão, a aplicação divide-se uma parte específica para cuidar da interface com o usuário (visão), uma para conter os dados manipulados pela aplicação (modelo) e finalmente uma que realiza o controle da aplicação, enviando para a visão os dados do modelo, após o adequado processamento. O Demoiselle propõe uma adaptação do MVC, da seguinte forma: no lugar da letra M (modelo), a camada Persistence que faz uso de dois padrões referentes a dados e sua recuperação, POJO e DAO; as letras VC (visão e controle) são fundidas em uma única camada chamada View & Controller, onde uma implementação JSF cuida da visão enquanto uma implementação Servlet faz o controle; entre essas duas camadas fica a Business, onde residem as regras de negócio da aplicação. Essa proposta vem resolver uma questão frequente em implementações MVC: onde ficam as regras de negócio?
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Permeando essas três camadas, estão os contextos da aplicação, classes que realizam o controle de funcionalidades referentes a mais de uma camada, como controle de mensagens, segurança e transações. O Demoiselle Framework oferece uma implementação de localizador de contexto, que permite um controle fácil e unificado dos contextos. Essa estrutura, na forma de diagrama de classes da UML está na figura 4.
Figura 4. Localizador de contextos e contextos.

A figura 3 ainda traz um bloco retangular permeando as camadas, chamado Aspect. Não é um contexto, como os outros, ele está assim disposto na figura para indicar que a injeção de dependências por meio de aspectos ocorre em todas as camadas. A orientação a aspectos é uma técnica que veio complementar a orientação a objetos na parte em que essa não consegue reutilizar e modularizar todo o código, permitindo a existência de blocos de código repetitivos em locais diferentes da aplicação. No caso do Demoiselle, a técnica foi utilizada para permitir a criação de referências indiretas quando da criação de objetos, por meio da combinação do uso de interfaces de classe com anotações. As interfaces de classe são definições de comportamento, que criam padrões de classe, sem definir a implementação das funcionalidades. As anotações são diretivas do Java que permitem o envio de instruções para o compilador, antes da geração do bytecode (o código intermediário que a máquina virtual traduzirá em código executável). Dessa forma, uma camada não sabe exatamente qual classe irá utilizar, até que o código seja compilado. Isso permite uma mudança rápida e fácil de implementação, já que os comportamentos são padronizados. Segundo Ximenes (2009), “esta técnica é chamada de injeção de dependência e tem como responsabilidade instanciar as classes concretas para prover a
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comunicação entre as camadas”. No Demoiselle, essa técnica é implementada a partir da anotação @Injection que deve ser colocada antes das propriedades a serem injetadas. O módulo Web do framework garante que a classe concreta só será instanciada caso realmente vá ser utilizada. Em vez de injetar diretamente a classe contreta, um proxy é injetado garantindo que ela será instanciada apenas na primeira vez que a propriedade for utilizada. Esse processo automatizado é possível pelo estabelecimento de uma convenção de nomes de classes e interfaces. No entanto, algumas aplicações precisam de um comportamento específico para a instanciação de seus objetos. Nesse caso, é necessário o uso de fábricas customizadas. Com o Demoiselle Framework é possível indicar qual será a fábrica utilizada na classe ou até mesmo em todo o pacote. Para isso basta utilizar a anotação @Factory sobre a classe ou dentro da classe package‑info.java. Dessa forma, o framework consegue evitar o chamado “engessamento” dos sistemas, ao combinar padronização com flexibilidade. “Engessamento” é um termo utilizado quando a estrutura de um sistema é tão fechada, que qualquer mudança torna-se complicada ou até impossível. Por isso, a adoção de padrões abertos e flexíveis torna-se necessária.

2.5 Desenvolvimento colaborativo em comunidade
Conforme descrito no item 2.2, o Demoiselle Framework está disponível como software livre, no Sourceforge pela URL http://sourceforge.net/projects/ demoiselle. Ocorre porém, que, pela sua proposta, o framework constitui apenas uma infraestrutura mínima de software, que deve ser o mais generalista possível. Dessa forma, funcionalidades específicas devem ser acopladas ao framework por meio de componentes que sigam seu padrão de implementação. Durante o desenvolvimento dos projetos no Serpro que fizeram, e ainda fazem, uso do Demoiselle, diversos componentes foram fabricados. Após a liberação do Demoiselle, esses componentes foram reunidos em um subprojeto denominado Demoiselle Components, também hospedado no Sourceforge. Em seu ambiente de desenvolvimento, o Serpro faz uso do IDE (Integrated Development Environment) Eclipse. Para facilitar a criação de projetos com a estrutura definida pelo framework, foi construído um plugin chamado Demoiselle Wizard, que faz geração automática de código pelo preenchimento de dados em telas intuitivas, que inclusive seguem os padrões de acessibilidade para governo eletrônico (e-MAG). Esse plugin também foi disponibilizado para uso no Sourceforge. Além da documentação disponível no site do projeto, tanto na forma de páginas Web como manuais e tutoriais em arquivos independentes, também foi desenvolvido um projeto com aplicações de exemplo. Ele nasceu durante
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os treinamentos realizados para capacitar os desenvolvedores no uso do framework. Inicialmente, ele constava de uma aplicação denominada escola, que traz em seu código os principais exemplos de uso do framework. Essa aplicação foi disponibilizada pelo subprojeto Demoiselle Samples, que tem por objetivo hospedar exemplos de aplicações que usam o framework para servirem de referência para os programadores. Hoje já existem várias aplicações de exemplo, além da escola, disponíveis. Finalmente, foi criado um subprojeto chamado Demoiselle Process, que pretende propor um processo de desenvolvimento utilizando o framework. A motivação para isso é a crença de que apenas deter a ferramenta não é o bastante, é necessário técnica. Os projetos Demoiselle estão todos hospedados no Sourceforge (http:// sourceforge.net), um web site que hospeda gratuitamente mais de 230 mil projetos de software de código aberto e conta com mais de 2 milhões de usuários registrados. O Sourceforge oferece um ambiente com ferramentas para o desenvolvimento colaborativo, como fóruns, listas de discussão, blog, wikipages, repositório de código-fonte com controle de versão e ferramenta de rastreamento de novas funcionalidades e registro de bugs, entre outras. Como cada projeto tem um site, o acesso a todos eles foi centralizado por meio de um portal, o www.frameworkdemoiselle.gov.br, que resume as principais informações sobre cada um deles, traz notícias e o calendário de eventos de promoção do framework. Segundo a ferramenta Piwik, disponível no Sourceforge, o projeto Demoiselle Framework contava em 05/10/2009 com mais de 6 mil e duzentos acessos no ano, provenientes do Brasil (esmagadora maioria), Estados Unidos da América, França e Portugal. A quantidade de downloads ultrapassava 3 mil. Um crescimento expressivo, considerando que o código-fonte foi liberado no mês de abril.

3. CONCLUSÃO
O propósito do Demoiselle Framework era criar uma infraestrutura de software que padronizasse as aplicações do governo. Para que isso se torne realidade, é necessário que todos os organismos do governo que trabalhem com desenvolvimento de TI adotem o Demoiselle como padrão. Também é necessário que o mercado e a academia adotem a plataforma, e contribua com ela, de modo que o governo consiga assimilar as experências e inovações trazidas por ambos. Aqui há um conflito entre a necessidade da padronização e o problema de impor um padrão. Obrigar o uso do framework não é uma solução satisfatória, visto que parte do sucesso de um projeto de software livre baseia-se na contribuição dos usuários, e se os mesmos forem obrigados a utilizá-lo, certamente não se sentirão motivados a contribuir.
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O documento de referência da e-PING informa que “a adoção dos padrões e políticas contidos na e-PING não pode ser imposta aos cidadãos e às diversas instâncias de governo, dentro e fora do país. O governo brasileiro, no entanto, estabelece essas especificações como o padrão por ele selecionado e aceito, ou seja, estes são os padrões em que deseja interoperar com as entidades fora do governo federal – Poder Executivo brasileiro. A adesão dessas entidades dar-se-á de forma voluntária e sem qualquer ingerência por parte da Coordenação da e-PING.” Uma motivação para aderir ao e-PING é a disponibilização de uma plataforma de desenvolvimento de software que siga seus padrões. O direcionamento tecnológico é extremamente importante, tanto para o governo quanto para as empresas privadas, que desejem trabalhar com ele ou não. Os interessados em prestar serviço para o governo podem se especializar nas tecnologias que foram definidas como o padrão a ser utilizado. Pequenas e médias empresas, ou até desenvolvedores ou consultores independentes que trabalhem como pessoa jurídica, podem participar de concorrências públicas junto com grandes empresas, pois todos terão acesso ao Demoiselle e às tecnologias relacionadas sem qualquer custo. A iniciativa privada ganha como um todo, pois a padronização dos sistemas democratiza a concorrência, evitando que um grupo de privilegiados tenha o mercado governo reservado para si. Essa é uma estratégia baseada na crença de que o melhor resultado virá quando todos do grupo fizerem o melhor para si mesmos e também para o grupo como um todo. Além disso, qualquer empresa pode utilizar a plataforma para desenvolver sistemas para qualquer cliente. E esse cliente terá a segurança de que não dependerá do criador da aplicação para mantê-lo. Não ficará refém ou prisioneiro, mas terá liberdade de tomar conta de seus sistemas de informação e de implementar funcionalidades sem ter que esperar por próximas versões. Tudo o que alguém precisará para fazer manutenção em uma aplicação desenvolvida pelo Demoiselle será conhecer os requisitos, o framework e a arquitetura de referência, sendo que somente os primeiros irão mudar a cada caso. E ainda se beneficiará de toda a experiência do Serpro. Para o governo, o direcionamento significa que todos os seus órgãos terão condições de compartilhar suas experiências, pois utilizam as mesmas tecnologias e seguem os mesmos padrões. A cooperação e reutilização não é possível quando cada um faz uso de padrões diferentes. O Demoiselle pode ser visto como uma imposição, com o intuito de criar uma reserva de mercado para empresas estatais, mas isso é um ledo engano. Costabile (2003) afirma que o Serpro tem de se colocar como entidade colaboradora e referencial no novo cenário do software livre. Ele diz que “isso não significa que todos terão que usar” os sistemas do Serpro, pois “o conceito de software livre não é criar um padrão e obrigar todos a usá-lo, mas ter um padrão e uma metodologia a ele vinculado.”
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O trabalho em comunidade também parece não ser novidade, já que o Serpro é uma das organizações que participam do desenvolvimento do Expresso, uma ferramenta de e-mail livre adotada pela empresa. A diferença é que o Expresso já é uma aplicação final, enquanto o Demoiselle é uma plataforma de desenvolvimento. O Serpro está oferecendo uma infraestrutura para a construção de aplicações, que concentra toda a experiência da empresa na tecnologia Java. A criação da comunidade do Demoiselle atende não só ao princípio da publicidade, pois o cidadão interessado a possibilidade de ver como os sistemas que administram seu país são construídos, como lhe dá o poder de participar mais diretamente das decisões tecnológicas do governo. Isso é inédito, pois o governo pode se beneficiar do trabalho cooperativo entre empregados de empresas públicas e qualquer cidadão que queira contribuir com os padrões e a arquitetura dos sistemas governamentais. É como se houvesse um acréscimo nos modos de exercício da soberania popular, descritos no artigo 14 da Constituição, específico para a tecnologia da informação. Tudo isso faz parte do esforço do Serpro em atuar de forma mais compartilhada com a sociedade e os demais órgãos do governo. Esse esforço é uma quebra do paradigma de construção de código de forma isolada e estabelece um “modelo novo de governança, baseado principalmente na filosofia de construção coletiva e cooperada” (Mazoni, 2002). Isso é possibilitado pela plataforma ser totalmente baseada em software livre.

AGRADECIMENTO
Queremos agradecer a todos os desenvolvedores do Serpro, cujo trabalho ao longo de anos culminou com o Demoiselle Framework. Em especial, aos que integraram o conhecimento de várias pessoas em um único projeto e aos que patrocinaram o Demoiselle.

REFERÊNCIAS
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COSTABILE, H. 2003, Entrevista. Tema, ano XXVIII, edição 168, julho/agosto 2003. Disponível em <http://www1.serpro.gov.br/publicacoes/tema/168/index.htm>. Acesso em 25/02/2009. FOWLER, M. 2006. Padrões de Arquitetura de Aplicações Corporativas. Bookman, Porto Alegre. FRID, A. 2004, Alugar gente não é terceirizar. Tema, ano XXVII, edição 174, julho/ agosto 2004. Disponível em <http://www.serpro.gov.br/imprensa/publicacoes/ Tema/tema_174/materias/alugar-gente-nao-e-terceirizar>. Acesso em 19/02/2009. GAMMA, E, et al. 2000. Padrões de Projeto: Soluções reutilizáveis de software orientado a objetos. Bookman, Porto Alegre. LARMAN, C. 2004. Utilizando UML e Padrões.2.ed. Bookman, Porto Alegre. MACIAS, A. 2008. Framework de desenvolvimento – visão geral. Disponível em <http://www.serpro.gov.br/clientes/serpro/serpro/imprensa/publicacoes/ tematec/2008/ttec92_a>. Acesso em 05/10/2009. MAZONI, M. 2009. O conhecimento é nossa principal ferramenta de trabalho. Tema, ano XXXII, edição 196, janeiro/fevereiro 2009. Disponível em <http://www. serpro.gov.br/imprensa/publicacoes/Tema/tema/materias/entrevista>. Acesso em 20/02/2009. NOGUEIRA. R. W. L. 2009, Noções introdutórias acerca do ato administrativo. Disponível em <http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=6722>. Acesso em 26/02/2009. PINHEIRO, W. MAZONI, M. GADELHA, A. 2008, Notícias do Serpro. Câmara discute SL e desafios tecnológicos do país. Disponível em <http://www.serpro. gov.br/noticiasSerpro/2008/dezembro/cultura- colaborativa-esta-na-base-dodesenvolvimento-tecnologico/?searchterm=demoiselle>. Acesso em 20/02/2009. SALEH. A. M. 2004, Adoção de Tecnologia: Um Estudo sobre o Uso de Software Livre nas Empresas. 2004. 75 f. Dissertação (Mestrado em Administração) – Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade, Universidade de São Paulo, São Paulo. SERPRO. 2009. Governo economiza R$ 370 milhões com sistemas operacionais de computador. Disponível em <http:// www.serpro.gov.br/serpronamidia/2009/ abril/governo-economiza-r-370-milhoes-com-sistemas-operacionais-decomputador/?searchterm=370>. Acesso em 01/10/2009. WIKIPEDIA. 2009, Orquestração e Coreografia. Disponível em <http://pt.wikipedia. org/wiki/Orquestra%C3%A7%C3%A3o_e_Coreografia>. Acesso em 20/07/2009. XIMENES, R. 2009. Injeção de dependência no framework demoiselle. Disponível em <http://sourceforge.net/apps/wordpress/demoiselle/2009/09/25/injecao-dedepenencia-no-framework-demoiselle/>. Acesso em 05/10/2009.

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PARTICIPAÇÃO DEMOCRÁTICA NOS WEBSITES DOS CANDIDATOS A PREFEITO DAS CAPITAIS DA REGIÃO SUL
Universidade Federal do Paraná (UFPR)
andressastf@gmail.com

Andressa Silvério Terra França

Universidade Federal do Paraná (UFPR)
alejandranicolas@gmail.com

María Alejandra Nicolás

Universidade Federal do Paraná (UFPR)
ssbraga@uol.com.br

Sérgio Soares Braga

RESUMO
O objetivo deste artigo é analisar a presença de espaços destinados à participação dos cidadãos nos websites dos candidatos a prefeito de Florianópolis, Curitiba e Porto Alegre nas eleições de 2008. Norteiam nosso trabalho as seguintes questões: Em que medida estes espaços foram utilizados pelos candidatos para interagir e se comunicar com os possíveis eleitores? Estes espaços representam uma ampliação da participação democrática em campanhas eleitorais? Nossa hipótese de trabalho é que os espaços de participação tais como, chat, fórum, enquetes, envio de comentários, dentre outros são utilizadas de maneira desigual pelos candidatos em seus websites, se comparado com outras ferramentas já de utilização mais homogênea.

PALAVRAS-CHAVE
Internet e política; eleições 2008; participação democrática.

1. INTRODUÇÃO20
O surgimento das novas Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) no final do século XX e seu posterior desenvolvimento e massificação nestes
20 A presente pesquisa foi desenvolvida no Núcleo de Pesquisa: “Democracia, Instituições Políticas e Novas Tecnologias”, do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Paraná. Uma versão preliminar deste artigo foi apresentada no XIV Congresso Brasileiro de Sociologia, realizado entre os dias 28 e 31 de julho de 2009, no Rio de Janeiro.
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últimos anos vem suscitando importantes debates acerca de seu papel nas sociedades contemporâneas e, mais particularmente, sobre a participação civil nas democracias liberais. Teóricos, políticos, governos e imprensa têm disseminado a idéia de que, essas novas tecnologias, principalmente a Internet, ao abrir canais de comunicação mais práticos e econômicos, tem modificado a forma como as pessoas se relacionam. A Política, como parte integrante do conjunto das relações sociais, também não deixaria de sofrer sua influência. Refletindo o interesse cada vez maior dos estudiosos sobre os impactos da internet nos processos de representação política e nos sistemas políticos contemporâneos de uma maneira geral, devemos mencionar a existência de uma bibliografia crescente, especialmente nos EUA e no continente europeu, sobre o uso de websites, blogs e redes sociais na Net nas campanhas eleitorais (DAVIS, 1999; IRELAND & NASH, 2001; BIMBER & DAVID, 2003; CORNFIELD, 2004; TRIPPI, 2004; COHEN, 2006; PARKIN, 2007; GAINOUS & WAGNER, 2007). Também neste sentido, começam a surgir no Brasil alguns estudos dedicados especificamente a analisar o papel da Internet na organização dos pleitos eleitorais. Podemos mencionar um primeiro tipo de estudos que partem da ótica da comunicação política, destacando-se a esse respeito os estudos de ALDÉ & BORGES (2004) sobre o papel das home pages dos candidatos presidenciais às eleições de 2002 na construção da pauta dos órgãos da grande mídia. BRANDÃO & BATISTA (2007) analisam o perfil dos eleitores que participaram dos debates políticos na internet durante a campanha presidencial de 2006, para isso utilizam os e-mails enviados aos candidatos em seus websites, a troca de mensagens nas comunidades mais importantes dos candidatos no site de relacionamento Orkut e também os websites dos candidatos. Um segundo grupo de estudos vem se desenvolvendo nos últimos anos no Brasil e influenciou mais de perto a elaboração deste trabalho, ou seja, aquele que parte da ótica do cientista político interessado nos múltiplos aspectos do uso da Internet por candidatos nas democracias representativas (FERNANDEZ, 2005; IASULAITIS, 2007; BRAGA et. al., 2007). Essa vertente de estudos visa à elaboração de estudos mais abrangentes sobre a utilização da web pelos candidatos, interessa-se em aprofundar a reflexão sobre as múltiplas dimensões da atuação política dos candidatos em seus blogs ou websites (navegação, informação, comunicação, participação, interação, comunicação vertical e horizontal, dentre outras dimensões), sem possuir necessariamente um viés estritamente “comunicacional”. O objetivo deste artigo é empreender uma reflexão no caminho aberto por essa vertente de estudos. Sendo assim, tem-se por intuito mapear os mecanismos de participação e interação que os candidatos a prefeito de Florianópolis, Curitiba e Porto Alegre utilizaram em seus websites durante a campanha eleitoral de 2008. Esse objetivo de ordem mais geral desdobra-se em dois objetivos específicos: a) Aplicar uma planilha de análise de conteúdo aos websites dos candidatos a prefeito da região sul visando avaliar o grau de presença das múltiplas dimensões de sua
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atuação política; b) Aplicar instrumentos teórico-metodológicos para a análise de tais dados, especialmente para a avaliação da participação democrática em campanhas eleitorais. Nossa hipótese de trabalho é que os espaços de participação tais como, bate-papos, fórum, enquetes, envio de comentários, dentre outros são utilizados de maneira desigual pelos candidatos em seus websites, se comparados a outras ferramentas já de utilização mais homogênea. Para cumprir estes objetivos, organizaremos nossa exposição da seguinte forma: 1) Inicialmente, faremos uma pequena revisão dos efeitos que o uso das TICs tem produzido nos sistemas políticos democráticos contemporâneos, principalmente no que se refere às seguintes dimensões: i) Navegabilidade/ Acessibilidade; ii) Informação; iii) Accountability; iv) Comunicação e Mídia; v) Participação e Interação; 2) Posteriormente, apresentamos a metodologia empregada; 3) Em seguida, examinaremos algumas evidências empíricas da pesquisa; 4) Por fim, encerraremos o artigo com uma análise qualitativa, destacando as principais experiências de participação e interação detectadas na web.

2. REVISÃO DE LITERATURA
Com efeito, diversos autores têm procurado analisar os impactos que o uso das Novas Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs)21, especialmente a internet, provoca e pode provocar sobre a democracia contemporânea. Estes novos meios possuem potencialidades técnicas de interação mais horizontais, quando comparados aos meios anteriores como a televisão, o rádio e a imprensa escrita. Diante deste potencial interativo, haveria agora novas possibilidades de melhorar a participação do cidadão nos negócios públicos, na tomada de decisão política e até mesmo, em alguns casos, de fazer com que a própria esfera civil tome as decisões até então restritas à esfera política (SILVA, 2005). Em princípio verificamos posições polarizadas entre os autores, que se dividem entre visões pessimistas, otimistas ou céticas sobre as potencialidades das TICs para revitalizar as democracias parlamentares e os partidos políticos contemporâneos. Alguns teóricos chegam a vislumbrar a emergência, por meio da Internet, de uma nova modalidade de democracia, a “democracia direta eletrônica”, sistema no qual os cidadãos se encontrariam em um ambiente virtual de deliberação sobre os temas de interesse comum: a “Ágora Virtual” (MORAES, 2000). Outros estudiosos “cyberpessimistas” ou “cybercéticos” reconhecem que a Internet tem um grande potencial democratizante, mas sem chegar aos extremos de instaurar, por si mesma, alguma variante de “democracia deliberativa” ou mesmo uma “democracia participativa direta” nas sociedades contemporâneas, e nem residiria aí necessariamente sua principal contribuição ao aperfeiçoamento do processo político.
21 As Tecnologias da Informação e Comunicação compreendem três áreas: as telecomunicações, as emissões radiais e televisas e a Internet (FRICK, 2006, p.175).
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Cabe destacar aqui os trabalhos de Pippa Norris (2000; 2001), que representa uma linha de estudos de visão mais moderada sobre as relações entre internet e política. A autora acima rejeita a idéia tanto de autores “cyberotimistas”, segundo os quais a Internet levará a uma democracia direta virtual ou “deliberativa”, como dos “cyberpessimistas”, que crêem que nada será mudado com a emergência da web, baseados no argumento de que as TICs apenas irão reforçar os padrões de comunicação (e de poder) existentes atualmente. As TICs podem, de fato, aproximar elites dirigentes e cidadãos comuns, mas tal fenômeno ocorrerá dentro dos quadros do modelo democrático representativo parlamentar. Norris desenvolve o argumento de que há duas principais influências da Internet sobre as democracias parlamentares modernas: ampliar os canais de informação pública acessíveis à população e dinamizar a comunicação da sociedade com as instituições políticas representativas. Cidadãos e grupos de interesse poderão participar mais ativamente do processo político em virtude das facilidades de comunicação, partidos políticos terão à frente novas condições para a competição, a sociedade civil poderá organizar mobilizações de modo mais fácil e a transparência do poder público será ampliada, devido à difusão de informações públicas. Os efeitos cumulativos desse processo poderão potencializar a consciência cívica dos cidadãos e eventualmente redundar na criação de “subsistema político virtual” que fortaleceria as instituições políticas mais relevantes e os atores políticos mais engajados (cidadãos esclarecidos, imprensa, movimentos sociais, grupos de interesse, partidos políticos, etc.), sobretudo nas democracias em processo de consolidação. Também dentro dessa linha representada por autores “cyberotimistas moderados”, podemos destacar o enfoque de EISENBERG (2002; 2003), que admite que a Internet produzirá impactos sobre a ação política e que poderá promover a ampliação da democratização nas sociedades contemporâneas, embora considere precipitada a visão dos otimistas de que a web criará uma “Ágora Virtual” ou de que será a solução para os problemas da legitimidade da democracia moderna, especialmente de alguns países desenvolvidos, tais como a apatia eleitoral e ou o desinteresse de segmentos consideráveis da população em relação à atividade política. A potencialidade de uma alta capacidade de interação entre receptor e emissor (o que não era possível ou, ao menos, era muito difícil, por meio das mídias tradicionais) propiciada pela Internet, é destacada pelo autor como a principal característica democratizante de tal ferramenta tecnológica, embora também sublinhe a existência de alguns riscos e aspectos negativos no uso da Internet, do ponto de vista da emergência de uma cidadania autenticamente “republicana”. Por fim, mais recentemente, acreditamos que vem surgindo outra vertente de estudos, formada por “cyberpessimistas moderados” que, embora reconhecendo alguns avanços propiciados pela internet no que se refere à ampliação do fluxo de informação e de comunicação entre os diferentes atores que interagem nos sistemas políticos democráticos contemporâneos, constatam o pouco
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espaço ocupado nos websites por linguagens mais inovadoras, fora dos limites das mídias tradicionais e do controle estrito dos dirigentes ou elites partidárias. Sobretudo, esses estudos buscam desafiar a idéia comum de “política como usual” , segundo a qual nada mudou com os impactos das TICs sobre os sistemas políticos contemporâneos. Dentro dessa linha podemos destacar a literatura crescente sobre campanhas políticas na internet, onde podemos mencionar os estudos de LUSOLI (2005a; 2005b) sobre a internet nas eleições parlamentares européias. Este autor contraria os argumentos de que a internet irá reverter a ignorância, a apatia eleitoral e o cinismo político; ou que a internet, em virtude de seu caráter descentralizador, necessariamente irá equalizar as disputas de poder entre os produtores de comunicação política nas democracias européias avançadas: “the ‘potential’ is on display, although on the shelf”. Essa nova tecnologia propicia estruturas complexas de ação política para um número crescente de atores, mas isso depende de uma série de fatores como: interesses individuais e coletivos, sistema e recursos organizacionais, cultura política, desenho institucional e eleitoral, desenvolvimento tecnológico e anseios políticos dos cidadãos. O autor ainda lembra que a internet não se limita à extensão da infra-estrutura física da campanha, mas representa um espaço de comunicação política/pública híbrida para uma gama mais ampla de comunicadores do que simplesmente partidos e candidatos, onde estratégias inovadoras e campanhas interativas podem ser experimentadas: “The internet does attract a younger audience and forces politicians to come to terms with the new medium. It provides structure to the election and to election issues. The electoral politics enacted through the internet is both ‘Machiavellian’ and discursive, as predicted by Blumler and Kavanagh”. (LUSOLI, 2005, p.160) Mais recentemente, podemos mencionar outras pesquisas empíricas como as de Lilleker & Jackson (2009), sobre a utilização das novas tecnologias da Web 2.0 (uso de blogs e sites de relacionamento – SNS) pelos parlamentares do Reino Unido. Os autores trabalham com o seguinte modelo de análise dos websites: Como observamos na Figura 1, a interatividade pode ser agrupada em seis grupos de acordo à direção da comunicação (uma via, duas e três), e pelo nível de controle que o parlamentar faz das ferramentas de interatividade, ou seja, dos instrumentos que propiciem uma “entrada” para o internauta. A Internet permite aos representantes políticos quer entrar em diálogo ou monólogo, dependendo da forma como eles usam a Internet e quem são os destinatários. O feedback direto dos visitantes por meio de questionários, sondagens, fóruns de discussão, petições etc. é um dos elementos centrais para definição do que o autor entende por interatividade. Na comunicação de duas vias (mutual discourse, responsive dialogue) se encoraja um retorno ou resposta dos visitantes, isto pode acontecer quando os internautas deixam comentários em notícias postadas pelos parlamentares (responsive dialogue), ou quando o parlamentar responde aos comentários dos internautas (mutual discourse). A terceira via de comunicação incentiva uma abordagem mais interativa, em que três ou mais pessoas participam de um
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fórum, por exemplo, debatem sobre um tema específico. No entanto, os resultados apresentados pelos autores alertam para o fato de que a internet tem sido utilizada mais como ferramenta para publicar do que para engajar (LILLEKER & JACKSON, 2009, p.21).
Figura 1. MODELO DE INTERATIVIDADE (adap. FERBER et. al., 2007.

Fonte: LILLEKER & JACKSON (2009)

Além destas visões distintas sobre a potencialidade política das TICs, é possível ainda localizar diferentes retóricas que disputam o modelo de democracia no ciberespaço. Como aponta Gomes (2005; 2007), a expressão “democracia digital” e outras que lhe são próximas ou correspondentes22, é cada vez mais extensivamente empregada por pesquisadores, políticos e militantes sociais e, enfim, pelo discurso público, no entanto, sem explicitar realmente o que significa “democracia digital” ou o que entendem pela expressão “democracia”. A questão levantada pelo autor é que todo o desenho de dispositivos, aplicativos, ferramentas para um portal ou um site político, pressupõe, antes de tudo, um conceito de democracia digital; e que por sua vez, por trás dela há sempre um modelo de democracia. Portanto, quem trabalha com questões da chamada democracia digital precisa levar em conta seriamente os balizamentos teóricos do que se entende por democracia para, a partir daí, analisar as variadas ferramentas que se encontram disponíveis na web, como adverte: “Acredito que, numa agenda conseqüente, distinguir entre a idéia de
22 Tais como “democracia eletrônica”, “ciberdemocracia”, “democracia virtual”, teledemocracia” e suas variantes “e-democracy”, “electronic democracy”, “virtual democracy” etc.
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democracia e os modelos e ênfases em que tal idéia se materializa, nos permitirá alcançar um patamar um pouco mais elevado na fundamentação da idéia de democracia digital” (GOMES, 2007, p.26). Os liberais clássicos, por exemplo, enfatizam basicamente o papel da informação que promova transparência, abertura e prestação de contas dos agentes políticos. A participação é um elemento importante, mas também o são, por exemplo, “a capacidade que a internet tem de produzir informação que promova a transparência, a abertura e a accountability das agências governamentais em níveis nacional e internacional, bem como a capacidade de fortalecer canais interativos de comunicação entre os cidadãos e as instituições intermediárias” (NORRIS, 2000, p. 5). Já os adeptos da idéia de uma democracia deliberativa incluem outros elementos importantes: oportunidades de participação pública e de engajamento cívico, canais de comunicação entre os cidadãos e instituições intermediárias etc. Uma perspectiva que nos auxilia sobre esta questão é saber qual o lugar e a que tipo de participação nos referimos, se direta ou representativa, se todos podem ser sujeitos dessa participação, ou se deve restringir ao nível local ou nacional, se todo tipo de decisão deve ser submetido à apreciação e ao crivo da opinião pública etc. Isto nos remete novamente à discussão acerca da teoria democrática e formas de participação civil nos negócios públicos. É importante destacar que os estudos sobre a relação entre democracia e participação possuem diferentes ênfases . Os modelos apontados seguem uma escala que vai crescendo em intensidade desde graus mais moderados de reivindicações até formas mais radicais de defesa da participação popular. Para HELD (1987), por exemplo, os modelos de democracia podem ser divididos em dois grandes tipos: a democracia direta ou participativa (um sistema de tomada de decisões sobre assuntos públicos no qual os cidadãos estão diretamente envolvidos) e a democracia liberal ou representativa (um sistema de governo que envolve “oficiais” eleitos que tomam para si a tarefa de ‘representar’ os interesses e/ou pontos de vista dos cidadãos dentro do quadro de referência do ‘governo da lei’). Discussões mais atuais trazem outros modelos de democracia como liberalindividualista, comunitarista, deliberacionista etc.23 Cabe destacar nesta discussão as contribuições de SILVA (2005) e GOMES (2005; 2007), sobre os graus de participação popular proporcionados pela infraestrutura da internet. Segundo estes dois autores, a participação na democracia digital seguiria de um pólo ao outro em cinco níveis, correspondentes à escala de reivindicação dos modelos de democracia participativa e sobre os quais os experimentos e discursos poderiam ser enquadrados: a) Primeiro grau de democracia digital – pode ser caracterizado pela ênfase na disponibilidade de informação e na prestação de serviços
23 A bibliografia sobre este tema é bastante vasta, entretanto, por questões de espaço, não nos será possível entrar extensivamente nesse debate aqui.
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públicos através da rede. As TICs e o ciberespaço (incluiu-se a internet) seriam instrumentos democráticos na medida em que circulam informações governamentais genéricas e melhoram a prestação de serviços públicos. b) Segundo grau de democracia digital – consiste no emprego das TICs para colher a opinião pública e utilizar esta informação para a tomada de decisão política. c) Terceiro grau de democracia digital – é representado pelos princípios da transparência e da prestação de contas (accountability), gerando uma maior permeabilidade da esfera governamental para alguma intervenção da esfera civil. d) Quarto grau de democracia digital – está baseado na “democracia deliberativa”. Consiste na criação de processos e mecanismos de discussão, visando o convencimento mútuo para se chegar a uma decisão política tomada pelo próprio público, definindo práticas mais sofisticadas de participação democrática. É o mais intenso do ponto de vista da participação civil nos negócios públicos. e) Quinto grau de democracia digital – neste último grau, as TICs teriam uma função fundamental: retomar o antigo ideal da democracia direta. A tomada de decisão não passaria por uma esfera política representativa, mas estaria centrada fundamentalmente nas mãos dos cidadãos. Os autores ainda lembram que esses graus não devem ser compreendidos como “excludentes” entre si. Também não devem ser vistos de forma rígida como parâmetros estanques. As experiências de democracia podem eventualmente situar-se entre graus, estando às vezes mais propensas a um determinado grau sob um aspecto e a outro grau sob outro. No entanto, o que se nota, é que existem níveis de participação bastante elementares, que levam ao predomínio de democracias digitais de primeiro grau:
Em suma, apesar das enormes vantagens aí contidas, a comunicação on‑line não garante instantaneamente uma esfera de discussão pública justa, representativa, relevante, efetiva e igualitária. Na internet ou “ fora” dela, livre opinar é só opinar. Além disso, com o predomínio de democracias digitais de primeiro grau, os sites partidários são em geral meios de expressão de mão única, e os sites governamentais se consti‑ tuem como meios de delivery dos serviços públicos mais do que formas de acolhimento da opinião do público com efeito sobre os produtores de decisão política. Assim, se por um lado, a internet permite que eleitores forneçam aos políticos feedbacks diretos a questões que eles apresentam, independentemente dos meios industriais de comunicação, por outro lado, não garantem que este retorno possa eventualmente influenciar a decisão política (GOMES, 2005, p.221).

Tendo em vista os pressupostos teóricos acima, que não se esgotam nos autores acima mencionados, busca-se examinar as experiências dos websites
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dos candidatos a prefeito de Florianópolis, Curitiba e Porto Alegre nas últimas eleições de 2008. A perspectiva presente neste trabalho parte de alguns pressupostos fundamentais que permeiam nossas análises: (i) há possibilidades distintas de mecanismos de informação, comunicação, accountability e participação dentro dos quadros das democracias representativas ou parlamentares, mas sem dar lugar a uma forma de democracia radicalmente nova (democracia “participativa”, “liberal” ou “delibetiva”), ou a modelos mutuamente excludentes de democracia (“comunitária”; “direta”, etc.). (ii) O que há são diferentes possibilidades de articulação entre essas várias dimensões do funcionamento das instituições democráticas, dentro dos quadros das democracias representativas contemporâneas. E ainda, (iii) o que é válido para as instituições de uma maneira geral, pode ser válido para os candidatos individualmente considerados que pleiteiam cargos eletivos. Com isso afirmamos que eles podem articular entre si com diferentes graus de intensidades estes elementos de democracia.

3. METODOLOGIA
Nossa metodologia estruturou-se no sentido de desenvolver instrumentos que possibilitassem uma análise comparativa da presença de espaços de participação e interação nos websites dos candidatos. Assim sendo, podemos dividi-la em dois momentos básicos: 1) Em primeiro lugar, na avaliação do grau de uso de cada dimensão especificada abaixo pelos candidatos em seus websites; 2) Em segundo lugar, a partir do modelo desenvolvido por Lilleker & Jackson (2009), analisaremos as experiências de participação e interação encontradas nos websites analisados. Embora nosso objetivo principal seja analisar a presença de mecanismos de participação e interação nos websites dos candidatos, o rendimento analítico desse objetivo de ordem geral complementa-se com a necessidade de mapear outras dimensões que consideramos relevantes na atuação política dos candidatos em seus websites e que dizem respeito a aspectos do funcionamento das instituições democráticas. Procuramos cumprir o primeiro momento de nossa metodologia através da elaboração e preenchimento de uma planilha específica com cerca de 60 itens empregados para a coleta e sistematização de informações sobre diversos aspectos ou variáveis passíveis de ser localizados em sites de candidatos. Com base na bibliografia pesquisada e através da consulta aos mapas dos sites de diferentes websites, listamos uma série de elementos presentes e que consideramos relevantes para os fins e enquadramentos teóricos da presente pesquisa. A pontuação máxima corresponde a um website hipotético que, em tese, conteria todos os itens classificados. Os elementos mapeados foram reagrupados em cinco categorias:
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1. Navegabilidade/acessibilidade: São recursos nos websites de candidatos que estimulam o primeiro contato do internauta com o site, ou seja, mecanismos de navegação oferecidos aos visitantes. 2. Informação: São informações básicas dos candidatos, que permitem ao internauta ter um conhecimento sobre o candidato. Incluímos desde a biografia, trajetória política, legenda partidária até informação sobre os comitês de campanha. 3. Accountability: São informações que dizem respeito à prestação de contas da candidatura, desde lista de doações até funcionários trabalhando na campanha. 4. Comunicação e mídia: Ferramentas de informação mais refinadas através de arquivos sonoros, vídeos e imagens. Também incluímos informação mais substantiva sobre a candidatura, desde material promocional até os programas de governo ou propostas. 5. Participação e interação: São dispositivos que possibilitam a participação dos internautas através de diversas ferramentas, e que incentivam a comunicação entre o candidato e os eleitores. Incluímos deste chat, fóruns, comunidade no site de relacionamento Orkut, enquetes de opinião até a possibilidade de ajudar na campanha do candidato. Os critérios adotados para pontuar as várias dimensões baseiam-se em metodologia desenvolvida pelo grupo de pesquisa , que já foram aplicados de forma um pouco distinta em estudos anteriores (BRAGA, 2007; BRAGA & NICOLÁS, 2008). Deve-se sublinhar ainda que, além de constatar a presença de cada item nos sites, testamos a funcionalidade de cada uma das variáveis analisadas, por isso atribuímos três códigos de preenchimento: i) Informação completa/satisfatória – o item funciona; ii) Informação incompleta/insatisfatória – há o link, porém funciona de maneira incompleta; iii) Não existe o item, as informações ou os links. O segundo momento da nossa metodologia consistiu na exemplificação das principais experiências que encontramos de participação e interação nos websites dos candidatos analisados, e será exposto no último item.

4. ANÁLISE E RESULTADOS
Nosso universo empírico se constituiu em 20 websites de candidatos a prefeito das capitais da região sul. A pesquisa foi realizada na última semana de campanha e a través de diferentes programas salvamos os sítios com o intuito de realizar pesquisas mais aprofundadas. Utilizamos como fonte a base de dados dos websites dos candidatos a prefeitos nas capitais dos estados no primeiro e no segundo turno da eleição de 2008, organizada pelo Núcleo de Pesquisa. A tabela a seguir apresenta a relação de websites analisados:
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Tabela 1. Websites dos candidatos a prefeito da região Sul, eleição 2008 – outubro 2008. Nº 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 CANDIDATO José Fogaça Luciana Genro Manuela Maria Do Rosário Marchezan Jr. Onyx Afrânio Boppré Angela Albino Cesar Souza Jr. Dário Esperidião Amin Nildão Bruno Meirinho Beto Richa Reitor Moreira Fabio Camargo Gleisi Lauro Rodrigues Mauricio Furtado Ricardo Gomyde ESTADO Porto Alegre Porto Alegre Porto Alegre Porto Alegre Porto Alegre Porto Alegre Florianópolis Florianópolis Florianópolis Florianópolis Florianópolis Florianópolis Curitiba Curitiba Curitiba Curitiba Curitiba Curitiba Curitiba Curitiba PARTIDO PMDB PSOL PCdoB PT PSDB DEM PSOL PCdoB DEM PMDB PP PT PSOL PSDB PMDB PTB PT PT do B PV PCdoB WEBSITE www.fogaca15.com.br www.psolrs.org.br/lucianagenro www.manuela65.com.br www.mariadorosarioprefeita.com.br www.marchezan.com.br www.onyx25.can.br www.afranio.org www.angela65.com.br www.cesarsouzajunior25.com.br www.dario15.can.br www.amin11.com.br www.nildao13.can.br www.brunomeirinho50.can.br www.betoricha45.can.br www.reitormoreira15.can.br www.fabiocamargo14.can.br www.gleisi13.can.br www.laurorodrigues70.can.br www.mauriciofurtado43.can.br www.gomyde65.can.br

Fonte: NPDIP

O Tribunal Superior Eleitoral, em Resolução Nº 22.718, estabeleceu diretrizes sobre a utilização da propaganda eleitoral na Internet nas eleições municipais de 2008:
Art. 18. A propaganda eleitoral na Internet somente será permitida na pá‑ gina do candidato destinada exclusivamente à campanha eleitoral. Art. 19. Os candidatos poderão manter página na Internet com a terminação can. br, ou com outras terminações, como mecanismo de propaganda eleitoral até a antevéspera da eleição (Resolução nº 21.901, de 24.8.2004 e Resolução nº 22.460, de 26.10.2006). § 3º Os domínios com a terminação can.br serão automaticamente cancelados após a votação em primeiro turno, salvo os pertinentes a candidatos que estejam concorrendo em segundo turno, que serão cancelados após esta votação. (TSE, Resolução nº 22.718, art.5)

Os candidatos tinham que registrar os websites no Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), e aqueles sites que tivessem terminações diferentes a can.br deviam ser retirados pelo candidato. Na próxima seção é apresentada a análise das cinco dimensões mais relevantes e que estão presentes nos vinte websites analisados.
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4.1 Navegabilidade/Acessibilidade
A primeira dimensão da análise trata dos mecanismos de “Navegabilidade/ acessibilidade” disponíveis ao público. Representa uma espécie de “porta de entrada” dos sites, onde ocorre o primeiro contato do internauta com os candidatos na web. Neste tópico, avaliamos as informações que constavam nas páginas iniciais dos websites e que buscavam facilitar e tornar mais atrativa a navegação do cidadão-internauta, tornando mais acessível seu contato com o candidato. Dentre os as ferramentas pesquisadas, podemos mencionar: existência de mecanismos de busca nos sites, existência de mapa do site e aumento/diminuição de letras. O gráfico a seguir oferece as porcentagens das informações contidas nos websites examinados sobre o item navegabilidade/acessibilidade.
Gráfico 1. Navegabilidade/Acessibilidade – outubro 2008.

Fonte: NPDIP

Com efeito, pelo gráfico acima podemos observar que dos itens analisados, o mecanismo de busca foi o item mais utilizado pelos candidatos (40%), seguido pelo cadastro para newsletter na página inicial e por link para página inicial, porém outras variáveis que poderiam facilitar a navegabilidade do cidadão-internauta, propiciando recursos básicos para uma navegação mais ativa foram quase que inexistentes. A dimensão de navegabilidade apresentou frequências relativamente baixas, pelo que nem a metade dos candidatos analisados se muniu destes itens em seus websites.

4.2 Informação
A dimensão “informação” abrange itens utilizados pelos candidatos para dar a conhecer sua candidatura, ou seja, informações básicas que permitem ao cidadão-internauta construir uma opinião sobre o candidato.
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As informações constantes nos websites sobre a dimensão “informação” dos websites dos candidatos analisados estão resumidas no gráfico abaixo:
Gráfico 2. Informação – outubro 2008.

Fonte: NPDIP

Pelo gráfico acima, constamos que, à diferença do gráfico anterior, a utilização destes itens é mais homogênea, e apresenta maiores porcentagens. Todos os websites (100%) ofereciam links sobre biografia/história de vida, e 90% dos websites possuíam informações sobre o perfil político do candidato e sobre o perfil do vice-prefeito, o que revela o uso já institucionalizado destes itens. Mais da metade dos candidatos disponibilizou informação sobre o partido e a coligação, e sobre os vereadores que integravam a coligação, porém por outro lado, somente um 25% dos websites possuía a relação dos endereços dos comitês eleitorais, o que evidencia o baixo interesse por parte dos candidatos em incentivar ou motivar o contato do internauta com os organizadores ou militantes do partido. E por último, somente 30% dos candidatos disponibilizou link para o site nacional do partido, e 10% para o site municipal do partido. Podemos correlacionar a fraca vinculação dos candidatos aos seus partidos e o peso do candidato nas eleições brasileiras, uma vez que o sistema de lista aberta vigente no país privilegia o voto no candidato em detrimento do partido.

4.3 Accountability
A dimensão “Accountability” abrange os itens utilizados pelos candidatos para divulgar a relação de gastos de campanha, doações, patrimônio e funcionários trabalhando na campanha. Como pode ser observado, pelo gráfico abaixo, foi quase inexistente a presença desses itens nos websites analisados, não superando a 5% dos candidatos (quando houve alguma informação). Dos itens analisados, somente o candidato Bruno Meirinho (PSOL) de Curitiba possuía em seu
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website o link com a relação de doações e gastos de campanha, o que revela o pouco interesse por parte dos candidatos em disponibilizar aos internautas estes tipos de informações.
Gráfico 3. Accountability – outubro 2008.

Fonte: NPDIP

4.4 Comunicação e mídia
A dimensão “Comunicação e Mídia” abrange os itens utilizados pelos candidatos para divulgar suas atividades e informações de campanha. Trata-se basicamente dos recursos destinados a potencializar as funções de comunicação e informação estabelecidas pelos candidatos com os eleitores de uma maneira geral, utilizando recursos de mídia (vídeos, imagens, arquivos de radio). Incluímos informações que propiciam a construção não somente da imagem do candidato, mas também a formação de uma opinião ancorada em manifestações e posturas do candidato. A presença dos diferentes itens na dimensão “comunicação e mídia” nos websites dos candidatos nós é informada pelo gráfico abaixo.
Gráfico 4. Comunicação E Mídia – Outubro 2008.

Fonte: NPDIP
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Com efeito, como pode ser observado pelo gráfico, 90% dos websites possuía arquivos de rádio de campanha, 85% acervo de fotos e 70% as propostas de políticas governamentais, notícias de campanha e matérias promocionais. Estes porcentagens revelam a vontade generalizada dos candidatos em disponibilizar na net a maior quantidade de informações sobre a campanha através de diferentes recursos. Como constatamos, em termos gerais, o uso dos itens dessa dimensão pelos candidatos foi bastante homogêneo, com exceção a artigos do candidato (20%), atualização de links (20%) e programas e ações já desenvolvidas (25%).

4.5 Participação e Interação
A análise desta dimensão é o foco do nosso estudo. Incluímos na dimensão “participação e interação” itens que dizem respeito a mecanismos oferecidos pelos candidatos que propiciem aos internautas a possibilidade de colocar suas opiniões ou manifestar seu apoio ao candidato. Pode-se observar que dos 22 itens que avaliamos nos websites dos candidatos, o de maior freqüência foi o link “contato por e-mail ou fale conosco” (80,0%) o que revela a vontade generalizada de disponibilizar um canal mínimo de comunicação para os eleitores se manifestarem. No entanto, como constamos, não foram utilizadas outras variáveis que permitiriam a participação mais ativa dos eleitores nos websites, tais como, sala de bate-papo e chat. Verificamos que o único website que oferecia link de chat e efetivamente funcionava foi o do candidato Ricardo Gomyde (PCdoB) de Curitiba24. Lembrando que as regras do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) foram imprecisas sobre a liberação do uso de sites de redes sociais, como Orkut e MySpace para realizar campanha. A recomendação do TSE foi que cada zona eleitoral julgasse os casos de maneira individual. Possivelmente, este vácuo na legislação pode ter contribuído para a pouca utilização deste tipo de recurso pelos candidatos. Segundo pesquisa realizada pelo Comitê Gestor da Internet sobre o uso das Tecnologias da Informação e da Comunicação no Brasil de 2008, 69% do total de entrevistados participava de sites de relacionamento como o Orkut. Este dado nos proporciona um indício sobre o uso generalizado de sites deste tipo no Brasil, ou seja, se pensarmos no alto acesso pelos internautas brasileiros, resulta evidente que fazer campanha no site Orkut, teria levado informação a uma parte considerável do público que acessa a internet. Os websites dos candidatos analisados apresentaram diversos mecanismos e ferramentas que permitem em grande parte a veiculação de informação e propaganda de campanha, pelo que foi constatado através das dimensões analisas de “informação” e “comunicação e mídia”. No entanto, o uso de mecanismos que possibilitam a participação dos internautas foi bastante baixo e desigual. Tendo
24 A candidata Manuela (PCdoB/PA) possuía os links de chat e fórum, porém estes não funcionavam.
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como referência o modelo de interatividade de Lilleker & Jackson (2009) exemplificado na primeira parte do trabalho, podemos evidenciar, a partir de nossa pesquisa, que os candidatos analisados se concentraram basicamente no grupo de uma via: monologue, ou seja, os candidatos colocaram informações básicas em seus websites (dimensões de “informação e comunicação”) e em raríssimos casos, que ilustraremos a seguir, aconteceu algum tipo de feedback ou dialogue no qual os internautas podiam participar ou emitir alguma opinião através das ferramentas disponibilizadas nos sites.
Gráfico 5. Participação E Interação – Outubro 2008.

Fonte: NPDIP

Ilustramos a seguir alguns destes mecanismos encontrados nos websites dos candidatos a prefeito das capitais da região sul.

5. PRINCIPAIS EXPERIÊNCIAS DE PARTICIPAÇÃO NA WEB
Aprofundando a análise dos principais instrumentos de participação política nos websites dos candidatos às eleições majoritárias nas cidades observadas,
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podemos partir para uma breve análise de conteúdo de algumas das principais experiências de participação política por nós observadas, à luz do Lilleker & Jackson (2009).

5.1 Envio de perguntas e respostas
O website do candidato Amin (PP) de Florianópolis, disponibilizou várias ferramentas para os internautas participarem, seja enviando sugestões de governo, denúncias sobre problemas que estivessem acontecendo nos bairros ou perguntas ao candidato. Na figura a seguir se ilustra o link “você pergunta, Amin responde”, os internautas enviavam perguntas e o candidato respondia em formato de áudio. Vale lembrar que a maioria dos candidatos possuía links do estilo “fale conosco”, também como foi mencionado, 80% dos candidatos ofereciam e-mail, porém somente o candidato Amin publicou as perguntas e respostas, convertendo-se numa experiência diferenciada de participação. Poderíamos classificar este exemplo, segundo o modelo de Lilleker & Jackson (2009) como “mutual discourse”, ou seja, os internautas enviaram perguntas ou questionamentos e o candidato postou as respostas no site.
Figura 2. Experiências de participação no website do candidato Amin (PP).

Fonte: http://www.amin11.com.br.
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5.2 Participar da campanha, enquete, depoimentos
Outro recurso de participação utilizado pelos candidatos foi a possibilidade de ajudar na campanha: divulgação do candidato pela internet, reuniões ou encontros com amigos, dentre outras opções que eram oferecidas nos sites. Outros desses recursos eram as enquetes sobre temas de campanha e depoimentos com fotos dos internautas. Em alguns casos, como o do candidato à reeleição de Curitiba, Beto Richa, o site oferecia a possibilidade de enviar um vídeo de apoio ao candidato. A candidata Manuela (PCdoB) de Porto Alegre disponibilizou enquetes sobre temas da campanha, assim como, críticas ao prefeito José Fogaça (PMDB), que tentava sua reeleição. Os eleitores podiam enviar depoimentos de apoio à candidata com fotos. O website também possuía o link: “participar da campanha”, com uma série de atividades nas quais os eleitores poderiam participar. As ferramentas disponibilizadas no site de Manuela ofereciam a possibilidade dos internautas emitirem algum tipo de opinião ou apoio à candidata, ou seja, existiu feedback direto dos visitantes.
Figura 3. Experiências de participação no website da Candidata Manuela (PCdoB).

Fonte: http://www.manuela65.com.br/novo.

O website da candidata Maria do Rosário (PT) de Porto Alegre também disponibilizou mecanismos de participação, e foi um dos poucos sites juntamente com os mencionados em que se ofereciam diversos mecanismos para os internautas emitirem suas opiniões, como pode ser observado abaixo. Podemos mencionar os seguintes mecanismos no site da candidata: “Boca no Trombone”: para realizar denuncias, “Doe Ideias”: enviar sugestões de temas e propostas de campanha, “Vem com Maria”: formas de apoiar e participar da campanha, “Depoimentos”: manifestações de apoio de políticos e internautas.
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Figura 4. Experiências de participação no website da candidata Maria do Rosário (PT).

Fonte: http://www.mariadorosarioprefeita.com.br. Figura 5. Website do Beto Richa (PSDB).

Fonte: http://www.betoricha45.can.br.
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Também no website do candidato Beto Richa (PSDB) de Curitiba, verificou-se o envio de vídeos com pequenos depoimentos que, na maioria das vezes, como ilustrado a seguir, eram depoimentos de crianças. Ainda assim não constatamos críticas aos candidatos, porém sublinhamos que não realizamos um estudo aprofundado sobre esses depoimentos.

6. CONCLUSÃO
Retomando os questionamentos que nortearam nosso trabalho, os mecanismos de participação e interação foram pouco utilizados nos websites dos candidatos, a exceção de alguns exemplos como ilustramos. Esse dado nos leva em direção à nossa hipótese inicial, ou seja, a de que os espaços de participação e interação, tais como bate-papos, fórum, enquetes, envio de comentários, dentre outros são utilizados de maneira desigual pelos candidatos em seus websites, se comparados a outras ferramentas de utilização mais homogênea. Como constatamos, as dimensões de “informação” e “comunicação” foram as mais utilizadas pelos candidatos. Mostra-se evidente que essas funções, que dizem respeito ao funcionamento das instituições democráticas representativas e consideradas básicas na relação candidato-eleitor, foram atingidas num grau satisfatório. Porém, outras dimensões-chave não atingiram esse nível, como já foi mencionado, o que demonstra que apesar das enormes vantagens contidas nestas novas tecnologias, a comunicação on-line ainda se caracteriza por um via de mão única (monologue), situando nossa experiência de democracia digital em nível ainda muito elementar. A partir da amostra analisada, podemos afirmar que os candidatos não utilizaram de maneira substantiva os mecanismos da Web 2.0. em seus sítios. Este termo se popularizou durante a campanha do democrata Barak Obama nos Estados Unidos (2008) e se relaciona com campanhas na Net que são participativas, na qual existe uma utilização intensiva de redes sociais, blogs, YouTube, entre outras ferramentas que disponibilizam interação e participação dos internautas. O presente estudo se constituiu numa primeira aproximação ao tema, acreditamos que estudos futuros que pudessem conciliar, por um lado, uma quantidade de websites de campanha significativos por regiões, e por outro, mecanismos mais sofisticados de avaliação do uso dos websites viriam a se constituir em importantes avanços para área de estudo, além de oferecer um panorama do grau de uso das ferramentas que os políticos do Brasil estão dispostos a utilizar em seus sítios de campanha.

REFERÊNCIAS
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UNIVERSIDADE CORPORATIVA E APRENDIZAGEM ORGANIZACIONAL: UMA ANÁLISE CONCEITUAL CORPORATIVE UNIVERSITY AND LEARNING ORGANIZACIONAL: A CONCEPTUAL ANALYSIS
Docente no Complexo de Ensino Superior da Santa Catarina – CESUSC, Fpólis, SC, Brasil Doutorando no Programa de Pós‑graduação em Engenharia e Gestão do Conhecimento. UFSC.
israelhn@click21.com.br

Israel Honorino Nunes

Enfermeira na Secretaria de Estado da Saúde de Santa Catarina, Fpólis, SC, Brasil
lu@saude.sc.gov.br

Lourdes de Costa Remor

Docente no Complexo de Ensino Superior Anita Garibaldi – CESAG Doutorando no Programa de Pós‑graduação em Engenharia e Gestão do Conhecimento. UFSC
rmsilveira@hotmail.com

Roberto Martins da Silveira

Docente no Instituto de Ciências da Informação, ICHI, Fundação Universidade de Rio Grande, Rio Grande, RS, Brasil Doutoranda no Programa de Pós‑graduação em Engenharia e Gestão do Conhecimento. UFSC
angelicam@furg.br

Angélica C. D. Miranda

Professor no Programa de Pós‑Graduação em Engenharia e Gestão do Conhecimento‑ EGC, na Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC, FPÓLIS, SC, BRASIL
neri@deps.ufsc.br

Neri dos Santos

Professora no Programa de Pós‑Graduação em Engenharia e Gestão do Conhecimento‑ EGC, na Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC, FPÓLIS, SC, BRASIL
andrea@stela.org.br

Andréa Steil

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RESUMO
O artigo aborda os conceitos de universidade corporativa e aprendizagem organizacional. Mostra a relevância da aprendizagem organizacional no processo de mudança das organizações, mostrando a visão dos autores referente à literatura atual. Ressalta que as empresas começam a perceber que o conhecimento é o grande diferencial competitivo, a educação passa a te um papel de destaque nas empresas. Destaca a importância nas universidades corporativas como estratégia de negócio. Aborda a relação existente entre aprendizagem organizacional e universidade corporativa e a interferência que a universidade corporativa exerce nos tipos de aprendizagem. Nas considerações finais os autores argumentam a importância e inter-relação dos termos citados.

PALAVRAS-CHAVE
Universidade Corporativa, Aprendizagem Organizacional, Conhecimento.

ABSTRACT
In this paper we will see the concepts of corporate university and organizational learning. Showing the relevance of the organizational learning in the process of change of the organizations, showing the authors’ vision regarding the current literature. The emphasizes of this companies begin to notice that the knowledge is the competitive differential. the education begins to have a prominence job in this companies. It shows the importance in the corporate universities as business strategy. It approaches the existent relationship among organizational learning and corporate university and the interference that the corporate university exercises in the learning types. n the final considerations the authors speaks about the interrelation of the mentioned terms argue.

KEYWORDS
Corporative university, Organizacional Learning, Knowledge.

1. INTRODUÇÃO
Diante das inúmeras mudanças que vêm ocorrendo no contexto social e econômico, as organizações sentem necessidade de se adaptar às novas exigências, isto é, a realidade atual está exigindo das empresas uma capacidade de aprendizagem cada vez maior. No âmbito das organizações, ao longo do tempo, a modernização do sistema produtivo vem requerendo agilidade no processo de qualificação dos profissionais. Como o sistema educacional tradicional não vem acompanhando na mesma velocidade o desenvolvimento de novos produtos e tecnologia, as empresas têm buscado desenvolver estratégias de aprendizagem organizacional
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que possibilitem conhecer a estrita relação entre o investimento realizado em educação e o sucesso da empresa. Uma das estratégias é a criação de universidade corporativa dentro das empresas. O presente trabalho tem como objetivo conceituar e discutir questões relativas a aprendizagem organizacional e a universidade corporativa, para tanto se utiliza da literatura corrente.

2. APRENDIZAGEM ORGANIZACIONAL
Há concepções diversificadas acerca do que vem a ser aprendizagem organizacional (AO). Tais variações ocorrem em virtude dos pressupostos dos quais utilizam os autores. Para Motta e Vasconcelos (2002), a importância conferida à aprendizagem no contexto da teoria das organizações não foi sempre tão grande quanto hoje em dia. Embora os estudos sobre o tema aprendizagem organizacional datem dos anos 70, quando Schön (1971) e Argyris (1976) lançaram as primeiras questões sobre aprendizado organizacional, foi a partir da divulgação dos trabalhos de Peter Senge (1990) sobre as chamadas organizações voltadas para a aprendizagem (learning organizations) que o assunto ganhou destaque, extrapolando o mundo acadêmico e o campo das ciências da educação. Dentre as várias definições de aprendizagem organizacional, algumas ressaltam a necessidade da mudança comportamental para a aprendizagem, outras apontam para novas formas de pensamento, enquanto outras ainda a descrevem como um processo que se desenvolve ao longo do tempo e associam-no com aquisição de conhecimento e melhora de desempenho. Estudiosos da área organizacional sugerem algumas definições. Para Argyris e Schön (1978), aprendizagem organizacional é o processo de detecção e correção de erros. Fiol e Lyles (1985) definem aprendizagem organizacional como o processo de melhorar as ações por meio do aumento do conhecimento e da compreensão. Para Swieringa e Wierdsma (1992), aprendizagem organizacional significa a mudança do comportamento organizacional. Já na visão de Dibella et al. (1996), aprendizagem organizacional é a capacidade (ou processo) de uma organização que mantém ou aumenta o desempenho baseado na experiência. O conceito inclui a aquisição, o compartilhamento e a utilização do conhecimento. Como o atual contexto organizacional tem influenciado as organizações na busca da aprendizagem, a temática aprendizagem organizacional, conforme Fleury (1997, p.151), “assume crescente relevância em razão dos processos de mudanças por que passam as sociedades, as organizações e as pessoas”. Daí a relevância como um locus possível para o processo de aprendizagem.
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Nesse contexto, na literatura atual, a abordagem conceitual da aprendizagem organizacional é considerada como uma vantagem competitiva com foco no desempenho dos negócios das empresas. Na visão de Morin (2002), precisamos redimensionar o aprendizado, talvez necessitemos compreender um pouco mais a conexão que existe hoje e as diferentes formas de apreender. Para López, Péon e Ordaz (2005, p. 228),
A aprendizagem organizacional pode ser definida como um processo dinâmico de criação, aquisição e integração do conhecimento visando o desenvolvimento dos recursos e das capacidades que contribuem para melhorar o desempenho organizacional.

Esses autores destacam que nos últimos anos a aprendizagem organizacional passou a ser vista como um fator determinante no desempenho dos negócios, afirmando que é considerada uma das fontes fundamentais da vantagem competitiva dentro do contexto da administração estratégica. De acordo com esse conceito, pode-se destacar que AO é o processo de aprendizagem na organização que se relaciona às pessoas e ao ambiente onde procura meios efetivos para sua melhoria. Corroborando essa visão, cita-se o dizer de Ortiz Laverde et al. (2003, p. 1):
Durante os últimos anos, houve um interesse crescente para a aprendiza‑ gem e os processos de criação de conhecimento. O resultado de tudo isso é o aparecimento de vários modelos teóricos que buscam explicar como o conhecimento organizacional é criado, transferido e cristalizado.

Conforme se percebe, os autores consideram que a aprendizagem é um componente crítico para o desenvolvimento estratégico dos recursos humanos. Afirmam que sem a aprendizagem não é possível acoplar as diferentes faculdades criativas dos indivíduos, das equipes e das organizações. Dessa forma, compreende-se que a AO conquista seu espaço a cada dia. As organizações direcionam esforços e passam a investir no potencial humano. Aprender significa sobreviver numa época de mudanças tempestuosas onde a moeda mais forte passa a ser o conhecimento.

2.1 Tipos de aprendizagem
Há discussão sobre o consenso em definir a conceituação de Aprendizagem Organizacional entre os estudiosos e corre também na literatura a divergência entre a conceituação dos tipos de aprendizagem. O foco deste artigo consiste em analisar os tipos de aprendizagem de Argyris e Schön (1978), Tipo I – Laço Simples (Single Loop Learning), Tipo II – Laço Duplo (Double Loop Learning) e Tipo III – Deutero (Deutero Learning).
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A Aprendizagem de Laço Simples (Single Loop Learning) tem por objetivo melhorar a capacidade das organizações de alcançar seus objetivos conhecidos e mesmo associados com aprendizagem de rotina e comportamento. O aprendizado é apenas operacional, ou seja, superficialmente seus problemas são resolvidos, não há mudanças significativas nas premissas da organização, e o comportamento é ajustado por metas, normas e pressupostos fixos. O Laço Simples se baseia na correção e detecção de problemas (diferença entre situação atual e desejada). O aprendizado de Single Loop Learning é a manutenção do aprendizado, ou seja, fazer melhor o que a empresa já sabe como fazer. Relaciona-se com o conceito de Eficiência Argyris e Schön (1978). A Aprendizagem de Laço Duplo (Double Loop Learning) avalia a natureza dos objetivos, dos valores e das crenças subliminares a elas. Essa aprendizagem envolve mudança da cultura organizacional. É preciso conhecer os problemas profundamente para resolver suas causas e sua natureza. O objetivo desse tipo de aprendizagem é enfatizar a experimentação e o fee‑ dback dentro de um contexto de revisão contínua sobre a forma como é realizada a definição, solução e análise do problema. Consiste em aprender como aprender. Nessa aprendizagem de Laço Duplo, metas, normas e pressupostos são também mutáveis. Se uma empresa ou organização quer evoluir para uma instituição duradoura, esse aprendizado transformador é necessário. É basicamente perguntar se nós estamos fazendo a coisa certa. Relaciona-se com o conceito de Eficácia de Argyris e Schön (1978). A aprendizagem Tipo III Deutero (Deutero Learning) é a construção de regras de mais alta ordem baseada em experiências e insight. As empresas necessitam aprender a colocar em prática o Single e o Double Loop Learning, resultando o Deutero Learning. Conforme Argyris & Shön (1978), quando uma organização acopla Deutero Learning seus membros aprendem sobre contextos precedentes para aprendizagem, criando-se estratégias para aprender (ARGYRIS e SCHÖN, 1978). No contexto organizacional, a aprendizagem Tipo I (Single Loop Learning), Tipo II (Double Loop Learning) e Tipo III Deutero (Deutero Learning) representam pontos de diferenciação e vantagem competitiva que devem ser fomentadas no modelo de Universidade Coorporativa.

3. HISTÓRICO DA UNIVERSIDADE CORPORATIVA
As Universidades Corporativas tiveram sua origem nos Estados Unidos. Uma das mais antigas faculdades corporativas nos Estados Unidos foi a General Motors Institute em 1919. Em 1945 o Conselho dos Regentes do Instituto aprovou uma
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proposta para a GMI de conceder um diploma em Engenharia, e os primeiros graduados receberam seus diplomas em 1946. Na concepção original da Universidade Corporativa, havia autorização para concessão de diplomas (THOMPSON 2000). Segundo Thompson (2000), “As mudanças dramáticas ocorreram no investimento corporativo em educação dos empregados nos Estados Unidos e no Canadá, desde o final da Segunda Guerra Mundial”. O autor cita ainda que os investimentos maciços em educação corporativa surgidos naquela época foram decorrentes da insatisfação com o conhecimento e as habilidades dos graduados do sistema educacional público e da necessidade de uma mão-de-obra educada para a competitividade em uma economia globalizada. O autor destaca que várias faculdades corporativas tinham sido criadas nos anos 40 e 50, mas a maioria ficou estabelecida nos anos 70 e 80. Teixeira (2001, p.29) afirma que “Nas décadas de 50 a 70, nos Estados Unidos, as empresa formaram grupos para melhorar as competências profissionais de seus trabalhadores”. Ainda o autor destaca que essas infra-estruturas educacionais dentro das organizações proliferaram em todo o país e ficaram conhecidas como universidades corporativas, institutos ou faculdades corporativas. A meta da educação corporativa era manter os profissionais a par dos acontecimentos, ou melhor, adiante deles. Assim, um número crescente de empresa percebeu a necessidade de transferir o foco de seus esforços de treinamento de eventos únicos em sala de aula, cujo objetivo é desenvolver qualificações isoladas, para a criação de uma cultura de aprendizagem contínua, em que os funcionários aprendam uns com os outros e compartilhem inovação e melhores práticas com o objetivo de solucionar problemas empresariais reais. O uso da expressão “Universidade Corporativa” é reflexo da tradução livre da expressão recorrente na literatura americana: corporate university. O uso do termo corporate é decorrente do fato de que essas instituições estão ligadas ou são controladas por empresas, revelando que, pelo menos a princípio, a prestação de serviços educacionais não constitui per se o seu objetivo fundamental. Por outro lado, a adoção do termo university é justificada pelos empresários de diferentes formas. Todas, porém, voltadas para denotar uma seriedade de propósitos em termos de comprometimento com os objetivos pretendidos. Meister (1999) destaca que também é considerado, como justificativa para uso do termo, o objetivo de criação de uma marca para os seus programas educacionais, materiais didáticos e processos. Em casos extremos é usado como apelo mercadológico.

4. UNIVERSIDADE NO AMBIENTE CORPORATIVO
A chamada concepção brasileira de Universidade Corporativa é a implantação do modelo americano em empresas brasileiras ou em empresas
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multinacionais no território brasileiro. Por meio de estudos de pesquisadores no Brasil, principalmente professores das universidades de educação superior, tais como USP, UFRGS, UFMG e diretores de educação corporativa, construiu-se uma concepção de universidade brasileira. Estudiosos como Tobin (apud EBOLI, 1999), Alperstedt (2001), Junnkeira e Vianna (2005), Rodriguez (2003), Eboli (2004), entre outros, procuram identificar as características das universidades corporativas brasileiras e indicar quais os caminhos para implantar essa estratégia de aprendizado organizacional. Para Eboli (2004), a Universidade Corporativa no Brasil ganhou espaço tanto na esfera pública quanto na privada. Outro ponto ainda que merece destaque é a forma como a Educação Corporativa contribui na criação de competências nas empresas. De acordo com Oliveira (2005, P. 23), “ O número de universidades corporativas no Brasil, que em 2004 era aproximadamente de 100, atualmente passa de 400.” Para Pires (2008, p. 2) “...há o aumento da demanda por serviços educacionais, que impulsiona a proliferação das, então denominadas, universidades corporativas”. Acredita-se que a necessidade de investimentos educacionais possa servir como mola propulsora dessa avanço. A literatura atual que discute as questões sobre Universidade Corporativa, sobretudo Alperstedt (2003), Eboli (2003), Loverro (2004) e Meister (1998), só para citar autores que discutem os prós e contras do assunto, leva a crer que cada caso tem que ser examinado segundo o contexto em que se insere. Não há receitas prontas. As abordagens de pesquisadores e especialistas em estratégia empresarial e educação de adultos apontam a Educação Corporativa (EC) como um forte e representativo elemento da Gestão do Conhecimento Organizacional, para criar e manter vantagens competitivas. (MEISTER, 1999; NONAKA, 1997; PORTER, 1999; SENGE, 1999; SOUZA, 2000). A Universidade Corporativa tem provocado uma série de discussões em torno do tema, e a primeira discussão que surge é a conceitual. O conceito apresentado por Meister (1999) diz que Universidade Corporativa:
é o guarda‑chuva estratégico para o desenvolvimento e educação de fun‑ cionários, clientes e fornecedores, com o objetivo de atender às estratégias empresariais de uma organização. Com ênfase no autogerenciamento, nas realizações individuais e de equipe e na identificação com o aperfeiçoa‑ mento da carteira de qualificações do funcionário, ou seja, o aprendizado permanente.

Eboli (2004, p. 48) destaca que Universidade Corporativa é um sistema de desenvolvimento de pessoas pautado pela gestão de pessoas por competências, evidenciando-se como mudança significativa em relação a ultrapassar centro de treinamento.
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Considerando-se essa questão, é necessário repensar o papel da educação dentro das empresas. Os moldes tradicionais de ensino, as metodologias e o próprio processo de aprendizado utilizado atualmente nos programas de treinamento empresariais não estão coerentes com as demandas deste cenário competitivo. Meister (1999) confirma esta posição:
O modelo da Universidade Corporativa para treinamento tornou‑se o ca‑ minho que elas encontraram para atualizar as qualificações de sua força de trabalho para atender a essas novas demandas. O tema comum que emana do currículo básico de inúmeras Universidades Corporativas é a necessidade de desenvolver trabalhadores que conheçam o retrato global da organização, tenham qualificações empresariais amplas, porém pro‑ fundas, e estejam bastante afinados com a identidade e missão estratégica da empresa.

Para a autora, um departamento de treinamento de empresa tende a ser reativo descentralizado e serve à ampla audiência, enquanto a Universidade Corporativa tem orientação pró-ativa e centralizadora para o encaminhamento de soluções de aprendizagem para cada negócio dentro da empresa. Esses departamentos propõem programas de treinamento à medida que estes se tornam necessários, sendo muitas vezes identificada a sua necessidade no contexto de um departamento específico. Já nas universidades corporativas, os programas de educação e treinamento são permanentes e orientados com visão de futuro. Nesse sentido, as universidades corporativas têm um escopo mais estratégico, enquanto os departamentos de treinamento são mais táticos. Para permitir uma melhor visualização das diferenças de paradigmas desses dois construtos, o centro de treinamento e a Universidade Corporativa, Eboli (1999) apresenta o comparativo a seguir (Tabela 1) com as principais características, que ilustra esse cenário.
Tabela 1. Mudança de paradigma de centro de T&D para Universidade Corporativa. Centro de Treinamento Tradicional Habilidades Aprendizagem individual Tático Necessidades individuais Interno Espaço real Aumento das habilidades —> Objetivo Foco Escopo Ênfase Público Local Resultado Universidade Corporativa Competências críticas Aprendizagem organizacional Estratégico Estratégias de negócios Interno e externo Espaço real e virtual Aumento do desempenho

Fonte: EBOLI, Marisa. Coletânea Universidade Corporativa, 1999, p. 115.
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A tabela acima evidencia a Universidade Corporativa com foco na aprendizagem organizacional, escopo mais estratégico, e destaca a ênfase nas estratégias de negócios com o objetivo de aumentar o desempenho das organizações.

5. A INTERAÇÃO ENTRE APRENDIZAGEM ORGANIZACIONAL E UNIVERSIDADE CORPORATIVA
Apresentamos a seguir uma análise conceitual, ou mais especificamente, as correlações entre a universidade corporativa e a aprendizagem organizacional, considerando para esta análise a classificação dos tipos de aprendizagem de Argyris e Shön (1978), aprendizagem tipo I ou Laço Simples, tipo II ou Laço Duplo e Tipo III – Deutero (Deutero Learning). Ao discutir a correlação entre Universidade Corporativa e a aprendizagem organizacional, cabe estabelecer as diferenças de abordagens. A aprendizagem organizacional é uma abordagem descritiva, com o objetivo de descrever e compreender processos e comportamentos. É a própria teoria. Essa abordagem trata a aprendizagem organizacional como um tópico de estudo dos pesquisadores acadêmicos, abrangendo uma visão de que a aprendizagem pode ser boa ou má, ligada ou não à efetiva ação ou aos resultados desejados. Já na Universidade Corporativa, a abordagem é prescritiva, não é teoria, é prático-orientada, comprometida com a agregação de valor. Analisando os três tipos de aprendizagem de Argyris e Schön (1978) e sua relação com a Universidade Corporativa, percebe-se que ela utiliza as teorias da aprendizagem organizacional e vem sendo adotada pelas empresas como uma estratégia voltada para resultados e alinhada à estratégia de negócio das empresas. Organiza e sistematiza uma política de aprendizagem organizacional voltada à realidade de mercado em busca de resultados imediatos e de longo prazo, capaz de criar uma cultura de educação continuada e permanente, com vistas a alcançar eficácia organizacional. Segundo Fialho et al. (2005, p. 81),
as Universidades Corporativas representam um modelo de unidade de negócio cujo compromisso é o de estabelecer um processo em que funcio‑ nários de todos os níveis estejam envolvidos em um aprendizado contínuo e permanente para melhorar seu desempenho no trabalho.

Na figura 01, são apresentadas as relações entre a aprendizagem organizacional e Universidade Corporativa integradora e articuladora desses conceitos.
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Figura 01. Relação entre aprendizagem organizacional e universidade corporativa.

Fonte: Os autores

Referente aos tipos de aprendizagem, percebe-se que a aprendizagem organizacional ocorre em todas as organizações, mas nem sempre ela agrega valor. Nesse caso específico, caracteriza-se o tipo de aprendizagem de Laço Simples. Nesse sentido, Kim (1998, p.61) corrobora com esta posição:
“Todas as organizações aprendem, tenham elas escolhido isso conscien‑ temente ou não – é um requisito fundamental para a sua existência sus‑ tentada. Algumas empresas deliberadamente promovem a aprendizagem organizacional, desenvolvendo capacitações que sejam consistentes com seus objetivos; outras não fazem esforços localizados e, portanto, adqui‑ rem hábitos contraproducentes. Seja como for, todas as organizações aprendem.”

Nesse contexto, a Universidade Corporativa influencia no tipo de aprendizagem de Laço Duplo – tipo II –, pois a aprendizagem em Laço Duplo depende de ser capaz de “olhar duplamente” a situação, questionando a relevância das normas de funcionamento. A aprendizagem de Laço Duplo busca “o porquê” da existência dos problemas. Envolve a revisão crítica da teoria em uso por meio do questionamento dos princípios e regras vigentes, que são então adequadamente alterados (ARGYRIS e SCHÖN, 1978). A Universidade Corporativa interfere à medida que cria uma cultura, valores e uma mentalidade que permeia toda a organização voltada para os interesses das organizações. Desta forma, as diferentes dimensões do processo
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de aprendizagem – de Laço Simples, de Laço Duplo e Deutero – influenciam positivamente na ação de resposta e nos resultados organizacionais. Pode-se deduzir também que, entre os diferentes níveis do processo de aprendizagem, a de Laço Duplo é a que apresenta a maior influência direta sobre a aprendizagem organizacional e, conseqüentemente, sobre o desempenho organizacional.

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A aprendizagem organizacional assume crescente relevância em razão do processo de mudança nas organizações. Na literatura atual, a abordagem conceitual da aprendizagem organizacional é considerada como uma vantagem competitiva com foco no desempenho dos negócios das empresas. Educar não é mais um tema restrito á academia. Na economia atual o sucesso das empresas está diretamente vinculado à capacidade do conhecimento, de inovação e de educação continuada. Educar continuadamente deixou de ser uma ação isolada do profissional, da empresa ou da universidade tradicional, cada vez mais uma ação conjunta de todos, a fim de formar um dos pilares de sustentação das vantagens competitivas. Neste contexto, surgem as Universidades Corporativas, como uma unidade de negócio com o objetivo de estabelecer um processo em que funcionários de todos os níveis estejam envolvidos em um aprendizado contínuo e permanente para melhorar seu desempenho no trabalho. O estudo demonstrou que a Universidade Corporativa interfere nos tipos de aprendizagem, Tipo I – Laço Simples (Single Loop Learning), Tipo II – Laço Duplo (Double Loop Learning) e Tipo III – Deutero (Deutero Learning), à medida que utiliza as teorias, sistematiza e organiza a aprendizagem organizacional, utilizando como uma estratégia voltada para resultados alinhados ao negócio das empresas.

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A IMPORTÂNCIA DAS REDES SOCIAIS VIRTUAIS PARA A GESTÃO DO CONHECIMENTO ORGANIZACIONAL: O CASO DA EMBRAPA
Mestranda na Pós‑Graduação em Engenharia e Gestão do Conhecimento – UFSC Analista de Sistemas – Embrapa Clima Temperado
eliana.quincozes@gmail.com

Eliana da Rosa Freire Quincozes

Mestre em Administração – UFSC Professora do Centro Educação Superior Única
giselytm@gmail.com

Gisely Jussyla Tonello Martins, M. Sc.

Doutor em Engenharia da Produção – UFSC Professor do Mestrado em Administração ‑ UFSC
mpereira@cse.ufsc.br

Maurício Fernandes Pereira, Dr.

RESUMO
Na atual sociedade o conhecimento vem sendo reconhecido como o principal fator de produção. Neste contexto, as organizações estão constantemente buscando formas de gerar, compartilhar e disseminar o conhecimento de modo a manteremse competitivas e atuantes no mercado. Em meio a este ambiente complexo surge a figura das redes sociais virtuais, nas quais o conhecimento é gerado a partir das interações sociais entre os seus membros, agora potencializadas pela internet. Diante desta realidade, este artigo tem por objetivo identificar de que maneira as redes sociais virtuais contribuem para a produção e disseminação do conhecimento nas organizações. Para atender este objetivo realizou-se uma revisão de literatura a respeito do tema e, posteriormente um estudo de caso em uma Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, a Embrapa. Os resultados deste estudo mostram exemplos de redes virtuais identificadas no contexto organizacional da Embrapa, onde foi possível observar o modo como se constituem as relações entre os indivíduos que delas participam e de que forma as interações entre eles contribuem para a construção do conhecimento organizacional. Desta forma, este trabalho poderá contribuir para o avanço das práticas e inovações nesta área.

PALAVRAS-CHAVE
Gestão do conhecimento; redes sociais; comunidades de prática; comunidades virtuais.
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1. INTRODUÇÃO
Na sociedade moderna, o conhecimento tem se constituído em um importante fator de transformação social, e o principal elemento de geração de valor (DAVENPORT e PRUSAK, 2003). Relacionado ao conhecimento está o fenômeno das redes sociais, cujo estudo pressupõe o entendimento de como se constróem as relações sociais na atual era do conhecimento. Neste ambiente de complexidade, as redes sociais atuam como agentes de geração e disseminação do conhecimento, uma vez que constituem múltiplas relações entre indivíduos, grupos e/ou organizações (TOMAÉL, 2007). Neste sentido, pode-se afirmar que o conhecimento é construído através da interação social que constitui as relações de determinado grupo. Isto se fundamenta no pressuposto de que o conhecimento nasce da colaboração, no contexto social da comunidade. Aliado a este cenário, está o fato de que, nos dias de hoje, as relações sociais têm sido mediadas por tecnologias da informação e têm encontrado um grande espaço de proliferação na internet, que constitui-se em uma nova forma de interações sociais da atualidade (UGARTE, 2009). Assim, é preciso que as empresas também se adaptem aos novos cenários oferecendo um espaço de colaboração entre seus empregados e parceiros. Este espaço deve proporcionar a troca de informações, conhecimentos, recursos e interação, onde as redes sociais passam a contar com o apoio das redes virtuais. Diante disto, o objetivo deste artigo é identificar de que maneira as redes sociais virtuais contribuem para a produção e disseminação do conhecimento nas organizações. Para atender este objetivo realizou-se uma revisão de literatura a respeito do tema e, posteriormente um estudo de caso em uma Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, a Embrapa. O trabalho está organizado em etapas: discute-se inicialmente a Gestão do Conhecimento Organizacional e as Redes Sociais Virtuais nas Organizações. Em seguida, descreve-se os procedimentos metodológicos utilizados para o desenvolvimento desta pesquisa. E, por fim, aborda-se o resultado do estudo de caso realizado na Embrapa onde são identificados exemplos de redes sociais virtuais que auxiliam no processo de gestão do conhecimento na empresa.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 2.1 A gestão do conhecimento organizacional
O mundo atual passa por um período de mudanças, em que o conhecimento está se tornando a principal fonte de valor no contexto social. A transição da era
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industrial para a era do conhecimento provoca inúmeras alterações na sociedade que acabam por afetar também o ambiente corporativo, onde é preciso que as organizações se adaptem a esta nova dinâmica de relações. A crescente complexidade do mundo dos negócios traz também consequências sobre a disseminação do conhecimento, sua importância e seu valor. O conhecimento se torna um valor indiscutível para as organizações quando se trata de buscar vantagens competitivas e garantir a sua posição no mercado e a sua sobrevivência (DAVENPORT e PRUSAK, 2003). Assim, na sociedade atual, o conhecimento é o único ativo capaz de diferenciar as organizações (NONAKA e TAKEUCHI, 1997). Surge então o conceito de organizações intensivas em conhecimento. Alvesson (2004) define as organizações intensivas em conhecimento como aquelas que oferecem ao mercado o uso de conhecimento razoavelmente sofisticado ou produtos (bens ou serviços) baseados no conhecimento. Neste tipo de organização, a maior parte da sua força de trabalho é baseada no capital intelectual de seus empregados. Desta forma, segundo Choo (2006), a organização baseada no conhecimento torna-se única por ser hábil em aprender e inovar constantemente, elementos importantes para a sobrevivência no mercado no atual mundo complexo. Dada esta nova realidade, Davenport e Prusak (2003) salientam sobre a importância de as organizações se ocuparem com a gestão do conhecimento, uma vez que nesta nova economia estarão aptas a sobreviver as empresas que forem capazes de gerenciar este seu importante ativo. Sveiby (1998, p.33) amplia e defende este ponto de vista a partir do argumento de que “a economia da era do conhecimento oferece recursos ilimitados porque a capacidade humana de gerar conhecimentos é infinita”. Sendo assim, as organizações encontram no conhecimento uma fonte de vantagem competitiva e de diferenciação, um caminho para o sucesso e o lucro. Isto se confirma no fato de que,
Quando uma empresa é formada em grande parte por profissionais qualifi‑ cados que utilizam sua criatividade para solucionar problemas complexos para seus clientes, essa empresa opera de uma forma especial que reflete as forças que influenciam e controlam a organização (SVEIBY, 1998, p. 63).

Neste sentido, gestão do conhecimento é um termo que possui uma conotação ampla, e vem sendo utilizado nas organizações para apontar processos ou práticas que buscam a apreensão, distribuição e uso do conhecimento com o fim de incrementar a performance organizacional (BORGHOFF, 1998 apud AKOUMIANAKIS, 2008). Na gestão do conhecimento, considera-se o conhecimento um ativo intangível capaz de originar produtos e serviços tangíveis desde que seja utilizado para
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o desenvolvimento de inovações capazes de gerar valor para os clientes e trazer vantagem competitiva para a organização (ROSSATTO, 2003). Segundo Duchessi (2001) a política de gestão do conhecimento motiva os indivíduos a contribuírem para as atividades, uma vez que possibilita o aumento do conhecimento pessoal, organizacional e da produtividade de todos. Além disso, os indivíduos que compartilham o conhecimento diretamente com outros permitem a transferência do conhecimento pessoal ao conhecimento coletivo. No contexto organizacional, o conhecimento pode ser explícito ou tácito (DUCHESSI, 2001). Segundo Melo (2003), o conhecimento explícito pode ser disseminado mediante técnicas estruturadas e o conhecimento tácito é incorporado ao indivíduo resultante de suas experiências e portanto, difícil de codificar. Para Sveiby (1998) o conhecimento tácito é individual, orientado para a ação, mutante e assentado em regras. É tácito porque fundamenta-se na experiência prática do indivíduo. E, sendo assim, é pessoal ou individual, de propriedade do indivíduo e não de uma coletividade ou mesmo de uma organização. O conhecimento também é orientado para a ação, uma vez que impele a uma ação dinâmica através do processo de saber que denota a capacidade do indivíduo de adquirir e gerar novos conhecimentos a partir de suas percepções sensoriais. Sua natureza mutante o transforma em impossível de ser expresso em palavras, uma vez que, o conhecimento que é expresso é menor do que o que se sabe como conhecimento tácito. Por fim, o conhecimento é sustentado por regras de procedimento que auxiliam na aquisição e aperfeiçoamento das habilidades, mas que por outro lado geram padrões um tanto fixos de resposta a diferentes situações. Probst, Raub e Romhardt (2002) salientam que “o conhecimento é o conjunto total incluindo cognição e habilidades que os indivíduos utilizam para resolver problemas”. Segundo ele, o conhecimento abrange tanto a teoria quanto a prática, incluindo as dicas sobre as formas de agir, e as instruções do dia-a-dia que relacionam-se sempre com as pessoas, os dados e as informações. Sendo assim, o conhecimento nasce no indivíduo e se desenvolve através de suas vivências e experiências, porém, a parte dele que é explicitada é infinitamente menor que o seu todo. Compreender a natureza do conhecimento é um desafio que transforma o modo como o mundo moderno lida com este ativo intangível, uma vez que não é possível apropriar-se dele ou mesmo moldá-lo, é possível apenas fornecer condições propícias para que ele se desenvolva e torne-se passível de ser transferido. Para o mundo organizacional esta situação não é diferente. Neste contexto, sob o ponto de vista das organizações,
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Administrar ou gerenciar o conhecimento não implica exercer controle di‑ reto sobre o conhecimento pessoal. Significa, sim, o planejamento e controle do contexto, ou ba; enfim, das situações nas quais esse conhecimento possa ser produzido, registrado, organizado, compartilhado, disseminado e utili‑ zado de forma a possibilitar melhores decisões, melhor acompanhamento de eventos e tendências externas e uma contínua adaptação da empresa a condições sempre mutáveis e desafiadoras do ambiente onde a organização atua. [...] Para Nonaka e Kono (1998, p. 40), ba “pode ser concebido como um espaço compartilhado para relacionamentos emergentes”. Esse espaço pode ser físico (por exemplo, escritórios), virtual (por exemplo, e‑mail, teleconferências) ou mental (experiências compartilhadas, idéias, ideais) ou qualquer combinação destes (BARBOSA, 2008, p.11).

Nesta nova dinâmica de relações sociais, a interação e a comunicação tornam-se parte do processo de construção do conhecimento, e, sendo assim, as organizações passam a fornecer espaços de criação de conhecimento, que permitem a interação entre seus membros e o compartilhamento de informações. É possível afirmar que o conhecimento organizacional resulta da combinação de pessoas, tecnologias e processos. Em relação às pessoas destacam-se suas competências individuais e os relacionamentos pessoais. As tecnologias incluem as funcionalidades técnicas e as interações entre seres humanos e máquinas. E os processos, compreendem aos procedimentos, manuais e padrões da produção (SANTOS et al., 1997). Como forma de permitir que o conhecimento flua através de sua estrutura e de seus processos, as organizações lançam mão de ferramentas diversas, com importante destaque para as virtuais, tais como, as comunidades virtuais e os ambientes de colaboração que serão abordados na próxima seção.

2.2 As redes sociais virtuais nas organizações
As profundas transformações que estão ocorrendo no mundo moderno estão de algum modo ligadas ao conceito das Redes Sociais, que já há muito tempo estão presentes no cotidiano das relações sociais, mas que no entanto, pouco são compreendidas (UGARTE, 2009). A atuação em redes de indivíduos, grupos e organizações há muito desperta o interesse de acadêmicos de várias áreas do conhecimento que procuram observar o modo como se configuram e quais suas implicações nos diversos ambientes em que se desenvolvem (AGUIAR, 2006). A busca de um maior entendimento sobre o ambiente complexo da atualidade via de regra passa pela compreensão dos conceitos de conhecimento e relações sociais. E, isto se dá pelo fato de que as redes sociais passam a se tornar importante instrumento de construção, compartilhamento e disseminação do conhecimento dentro de variados ambientes.
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Uma rede social é formada a partir de dois elementos: os atores (indivíduos, grupos ou instituições) e suas conexões (relações sociais que ligam os indivíduos a partir da interação social) (RECUERO, 2005). Segundo Tomaél, (2007), nas redes sociais é comum que o conhecimento e a informação se disseminem, pelo fato de que há uma maior aproximação entre os atores, por diversos tipos de relações sociais: profissionais, pessoais, comerciais, entre outras. Em especial nas organizações, o conceito de redes sociais vêm ocupando espaço nas análises da gestão do conhecimento. Para Sveiby (1998), a construção do conhecimento no contexto organizacional se dá a partir também das redes sociais, que referem-se às relações firmadas pelos indivíduos dentro da organização. Neste ambiente, as redes sociais podem se desenvolver através de relações de trabalho, de amizade ou simplesmente de interesses em comum, inclusive podendo exceder os limites organizacionais, invadindo o ambiente externo à organização. Segundo Ugarte (2009), atualmente dois novos elementos estão sendo incorporados ao antigo conceito das redes sociais: a internet e a disseminação de informações sobre o tema. A internet atua como plataforma de auxílio e potencialização do funcionamento da rede, enquanto que a exploração do tema das redes sociais só colabora para o seu maior entendimento e popularização. Neste trabalho interessa compreender a relação entre as redes sociais e o conhecimento, a partir desta nova esfera de relações sociais, a internet. As tecnologias da informação e comunicação têm contribuído para a expansão de novas formas de redes sociais na atual sociedade do conhecimento. Segundo Rheingold (1996 apud COSTA, 2005), uma comunidade virtual constitui-se em um meio para se atingir vários objetivos, através de um contrato social, sendo que, a sinergia das pessoas via web, em geral, pode ser multiplicada com sucesso. E, uma vez que o conhecimento cresce quando é compartilhado (SVEIBY, 1998), pode-se perceber a potencialidade do alcance das relações sociais através da internet, que conectam milhares de indivíduos todos os dias. Além disso, a utilização das tecnologias da informação e comunicação por funcionários de uma empresa é um dos fatores responsáveis pelo aumento da eficiência empresarial, pois a informatização das atividades possibilita também o aumento da eficiência técnica (Menéndez et al., 2009). Sendo assim, o uso pró-ativo destas ferramentas pelas empresas pode trazer grandes contribuições à produção e disseminação do conhecimento. Este trabalho analisa as redes sociais virtuais, a partir do processo de construção, compartilhamento e disseminação do conhecimento. Neste contexto, destacam-se as comunidades de prática no ambiente virtual como importantes ferramentas da gestão do conhecimento nas organizações.
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Comunidades de prática são grupos informais de indivíduos que regularmente dividem sua expertise e experiências; não são formuladas ou controladas pela gestão; escolhem seu próprio líder; e seguem sua própria agenda (BURK, 2000 apud BRAUN, 2002). Muitas das comunidades de prática são formadas por redes internas às organizações, entretanto, elas podem surgir também entre membros de diferentes organizações. Estas comunidades se constróem a partir de reuniões pessoais, email, redes de compartilhamento de conhecimento, intranets e conferências mediadas pela tecnologia (BRAUN, 2002). Segundo Akoumianakis (2008), as comunidades de prática colaboram com a gestão do conhecimento, uma vez que estimulam o compartilhamento dos conhecimentos. Este tipo de comunidade está se tornando um aspecto importante do aprendizado organizacional e da gestão do conhecimento (BRAUN, 2002). Convém observar que uma tarefa importante em uma organização baseada no conhecimento é a transferência deste conhecimento (SVEIBY, 1998) e, neste sentido, as comunidades de prática no ambiente virtual destacam-se como uma alternativa para a criação e transferência deste conhecimento. São as chamadas comunidades virtuais, ou grupos sociais mediados por computador. Segundo Rheingold (1993), “as comunidades virtuais são agregados sociais que emergem da Net, quando um número suficiente de pessoas realizam discussões públicas por um tempo suficiente, com suficientes sentimentos humanos, para formar redes de relacionamentos pessoais no ciberespaço”. Desta forma, as comunidades virtuais são lugares onde as pessoas se encontram, sendo que também atuam como ferramentas; e, neste sentido, os aspectos lugar e ferramenta se sobrepõem parcialmente (RHEINGOLD, 1993). A partir desta visão, observa-se que uma comunidade virtual caracteriza-se por ser um ambiente na internet onde ocorrem discussões públicas entre indivíduos, ao longo de um certo tempo, em geral permeadas por conteúdo emocional. Tem-se assim a idéia de inteligência coletiva (COSTA, 2005), uma vez que estas comunidades virtuais são compostas por diversos indivíduos que lidam diretamente com o conhecimento.
Uma vez que muitos membros das comunidades virtuais são trabalhadores cuja reputação é baseada naquilo que sabem, as comunidades virtuais podem ser instrumentos práticos. Se você precisa de uma informação específica ou uma opinião de um expert ou a localização de um recurso, uma comunidade virtual é como uma enciclopédia viva. As comunidades virtuais podem ajudar seus membros a lidarem com a sobrecarga de informação [...] (RHEINGOLD, 1993).

Assim, as comunidades virtuais funcionam também como filtros eficazes capazes de peneirar os dados que são úteis para cada membro da comunidade (RHEINGOLD, 1993).
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A combinação de todos estes elementos no ciberespaço formam as redes de relações sociais, que constituem as comunidades virtuais. Sendo que, “a comunidade virtual é, assim, um grupo de pessoas que estabelecem entre si relações sociais, que permaneçam um tempo suficiente para que elas possam constituir um corpo organizado, através da comunicação mediada por computador.” (RECUERO, 2005, p.12). Entretanto, no ciberespaço a interação social ocorre de um modo peculiar, uma vez que é mediada pelo computador, o que gera interações mútuas entre os atores ou reativas (no caso de links, por exemplo), o que pode causar grande impacto social (RECUERO, 2005).
A interação que acontece dentro de uma determinada rede é a base do estudo de sua organização. Ela pode ser cooperativa, competitiva ou geradora de conflito. A interação que é cooperativa pode gerar a sedi‑ mentação das relações sociais, proporcionando o surgimento de uma estrutura. Quanto mais interações cooperativas, mais forte se torna o laço social desta estrutura, podendo gerar um grupo coeso e organizado. Na organização da comunidade virtual, portanto, é necessário que exista uma predominância de interações cooperativas, no sentido de gerar e manter sua estrutura de comunidade (RECUERO, 2005, p.13).

É importante que as comunidades virtuais formadas nas organizações tenham por filosofia a cooperação em torno de objetivos comuns, que devem estar alinhados à gestão estratégica do conhecimento organizacional. Assim, estas comunidades poderão contribuir efetivamente e de modo sustentável para a criação e construção de conhecimento dentro da empresa. Embora a tecnologia seja uma grande aliada na disseminação de conhecimentos no ambiente empresarial, é importante ressaltar que estes recursos não geram conhecimentos, funcionam apenas como condutores, ou seja, meios de armazenagem que proporcionam a troca de conhecimentos (ROSSINI e PALMISANO, 2006). E, cabe à organização buscar a melhor forma de gerenciar o conhecimento que passará a ser gerado pelas interações sociais ocorridas nos ambientes virtuais, nas comunidades de prática online. Sendo assim, torna-se imprescindível que o ambiente virtual oferecido pela empresa seja capaz de gerar a interação e a colaboração espontâneas entre os seus usuários, de modo que o intercâmbio de informações flua naturalmente para a construção do conhecimento no ambiente organizacional. E, a forma como o produto final destas interações será administrado é o que irá determinar o sucesso do gerenciamento do conhecimento organizacional.

3. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
A pesquisa é caracterizada como um estudo descritivo, na forma de um estudo de caso, sendo analisada sob uma abordagem predominantemente
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qualitativa. O estudo de caso foi realizado na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – EMBRAPA. Após a revisão de literatura a respeito do tema, realizou-se a coleta de dados através da observação e análise documental. A observação permitiu interação do pesquisador com os informantes em seu ambiente de trabalho. Deste modo, conforme destaca Neto (1995), a importância da observação está na possibilidade de captar uma variedade de situações ou fenômenos os quais não são alcançados por meio de perguntas, pois são observados diretamente em sua realidade. Entre os documentos utilizados para a análise documental destacam-se o V Plano Diretor da Embrapa, o Manual do CATIR, o site da Embrapa, o site da Agência de Informação da Embrapa, o Manual do Gestor de Conteúdos da Agência de Informação da Embrapa, o site do Compartilhar, entre outros. A análise de dados foi um processo contínuo que começou juntamente com a coleta de dados até o término do trabalho. A análise de dados em um estudo de caso, segundo Merriam (1998) é “o processo de formar sentido, a partir dos dados de outro”. Esse processo envolveu identificação, organização e filtragem de informações importantes para atingir o objetivo do estudo.

4. ESTUDO DE CASO: APRESENTAÇÃO E DISCUSSÕES 4.1 A Embrapa
A Embrapa é uma Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). A Embrapa atua no Brasil por meio de suas unidades centrais localizadas em sua sede em Brasília – DF, além de 41 unidades descentralizadas distribuídas nas diversas regiões do Brasil. No exterior a empresa atua por intermédio de escritórios de negócios localizados na África (Gana), Venezuela (Caracas), bem como, laboratórios virtuais (labex) situados na Holanda, França e Estados Unidos. Neste contexto, a missão da Embrapa é:
Viabilizar soluções de pesquisa, desenvolvimento e inovação, entendidas como a introdução de novidade ou aperfeiçoamento no ambiente produ‑ tivo ou social, que resultem em novos produtos, processos ou serviços. A transferência de tecnologia faz parte do processo de inovação, o que confere aplicabilidade efetiva às tecnologias geradas (EMBRAPA, 2008).

Outro aspecto importante a ser destacado diz respeito aos valores da empresa, que, segundo seu V Plano Diretor (EMBRAPA, 2008), compreendem:
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Excelência em pesquisa e gestão; Responsabilidade socioambiental; Ética; Respeito à diversidade e à pluralidade; Comprometimento e Cooperação. Neste sentido, a visão da Embrapa é “ser um dos líderes mundiais na geração de conhecimento, tecnologia e inovação para a produção sustentável de alimentos, fibras e agroenergia” (EMBRAPA, 2008). A Embrapa destaca em seu V Plano Diretor que nas próximas décadas,
o conhecimento e a capacidade de inovar e operar com a informação serão cada vez mais determinantes para a geração de riqueza, para a capacidade de estabelecer relações de poder e para a criação de novos có‑ digos culturais. Assim, as tecnologias que facilitam o acesso à informação e aceleram a sua disseminação serão amplamente incorporadas de modo que contribuam para o desenvolvimento dos países (EMBRAPA, 2008).

Sendo assim, a Embrapa é uma organização intensiva em conhecimento, que atua no cenário Nacional e Internacional, e caracteriza-se principalmente por criar e disseminar o conhecimento através da pesquisa, desenvolvimento e inovação. Deste modo, muitas atividades desenvolvidas na Embrapa exigem a formação de equipes interdisciplinares que, geralmente estão espalhadas pelo Brasil ou até mesmo no exterior, pois as atividades de pesquisa, desenvolvimento e inovação não acontecem de forma isolada. Estes aspectos evidenciam a importância das redes sociais virtuais como ferramentas capazes de facilitar a interação entre as pessoas, contribuindo para a gestão do conhecimento na empresa. Diante disto, é importante ressaltar que existem diversas redes sociais virtuais no contexto organizacional da Embrapa. Porém, não foi objetivo desta pesquisa identificar todas essas redes virtuais, e sim, caracterizar algumas, visando identificar na prática de que maneira essas ferramentas contribuem para a gestão do conhecimento. Assim, as redes virtuais identificadas neste estudo foram o Catir, o Compartilhar e a Agência de Informação da Embrapa.

4.2 Catir
A utilização do sistema Catir na Embrapa, surgiu em consequência da aprovação de um projeto no final de 2004, cujo objetivo principal era de “fomentar o compartilhamento e a criação de conhecimentos pelos pesquisadores e técnicos, visando impactar positivamente o processo de geração de inovações tecnológicas da Empresa” (EMBRAPA, 2005). Uma das metas desse projeto era disseminar a utilização de comunidades virtuais na empresa, a fim de que pudessem contribuir para a gestão do conhecimento, proporcionando o compartilhamento de experiências, a realização de
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trabalhos e a criação de novos produtos, tecnologias e serviços para inovação (EMBRAPA, 2005). Diante disto, o Catir - Comunidades de Aprendizagem, Trabalho e Inovação em Rede “é um espaço virtual que visa facilitar a interação e a troca de conhecimento entre os participantes das diversas Comunidades de Prática formados com o intuito de apoiar a Embrapa na obtenção de seus objetivos e da sua missão” (CATIR, 2009). Deste modo, as pessoas interagem trocando informações relacionadas às várias temáticas em discussão neste ambiente, como projetos, pesquisas, entre outras. No contexto da Embrapa, um exemplo de utilização da comunidade de prática é a troca de informações entre componentes de um projeto de pesquisa, desenvolvimento e inovação - PD&I, o qual exige uma equipe interdisciplinar formada por pessoas de várias áreas do conhecimento e, por instituições parceiras. Neste sentido, a comunidade de prática caracteriza-se por ser um local onde as informações estão centralizadas, e todos os componentes trocam conhecimentos, em busca de um objetivo comum. No entanto, a contribuição de redes virtuais não facilita apenas a troca de conhecimentos entre as equipes de projetos de PD&I, mas sim, em qualquer área de interesse da empresa. São encontradas, atualmente, no Catir, mais de 30 comunidades de prática relacionadas aos mais variados temas, entre os temas destacam-se: Gestão do conhecimento, Gestão da informação técnico-científica, Software livre na Embrapa, Sistema integrado de apoio a projetos, Educação Ambiental, Biossegurança, entre outros. Estes aspectos evidenciam a importância das redes sociais e virtuais para a produção e disseminação do conhecimento. Neste sentido, “as CATIR, implementadas com o apoio de tecnologias da informação baseadas na Web e em Software Livre, podem ampliar o escopo, eficiência e efetividade dos processos de compartilhamento e geração de novos conhecimentos que ocorrem entre os membros dessas redes” (EMBRAPA, 2005). Diante disto, é importante ressaltar que a infra-estrutura tecnológica do sistema Catir baseia-se no OpenACS (Open Architecture Community System), que caracteriza-se por ser uma plataforma de aplicações web orientada à construção de comunidades virtuais de alta demanda, além de ser construída com software livre e open source. O servidor web utilizado é o AOLserver que é comumente usado quando o planejamento das aplicações envolve necessidade de escalabilidade e performance. E o banco de dados é o Postgresql (EMBRAPA, 2005). As comunidades de prática criadas no Catir podem contar com uma série de recursos para facilitar a troca de conhecimento neste ambiente, entre eles destacam-se: fóruns de discussão, calendário de reuniões, pasta de arquivos com assuntos de interesse, área de levantamento (que compreende a coleta de opiniões sobre determinado assunto), FAQs (perguntas e respostas frequentes) e mural de informações.
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Todos estes recursos facilitam a troca de informações em rede, sendo que os usuários muitas vezes estão dispostos em diferentes regiões geográficas do país. O acesso ao Catir deve ser autorizado pelo administrador do sistema, bem como, por moderadores das comunidades virtuais existentes no ambiente. Neste sentido, destacam-se dois níveis de acesso a saber: público e aos empregados da Embrapa. O acesso público é destinado a qualquer pessoa que se relacione com a Embrapa de alguma forma, seja através de parcerias nos projetos de PD&I, prestação de serviços, consultoria, entre outros, e, que tenha interesse em conhecer o Catir. Já o acesso aos empregados da Embrapa é destinado a todos os empregados da empresa os quais devem ter alguma relação ou interesse na temática da comunidade virtual que desejam participar. Além disso, existem dois tipos de acesso: Membro da comunidade ou Moderador (EMBRAPA, 2005). O membro de uma comunidade poderá participar de discussões, trocando informações e participando do processo de criação de novos conhecimentos. Já os moderadores, são os responsáveis por associarem as pessoas interessadas em participar da comunidade virtual da qual ele é moderador, além disso, cabe ao moderador fomentar o conteúdo e motivar os membros da comunidade para a troca de conhecimentos em prol da inovação. Dessa maneira, os recursos oferecidos pela comunidade são importantes para que o moderador consiga exercer o seu papel, entre os recursos mais utilizados por ele destacam-se os fóruns e os chats. Para a Embrapa as redes virtuais podem proporcionar a criação de valores tangíveis e intangíveis aos participantes das comunidades virtuais (EMBRAPA, 2005). Os valores tangíveis contemplam a aprendizagem, a ampliação das redes sociais, os conhecimentos adquiridos para a sua carreira profissional, entre outros. Já os valores intangíveis compreendem à confiança profissional nos seus colegas, a capacidade de indagação e a importância de pertencer a uma comunidade virtual.

4.3 Compartilhar
Outro exemplo de redes sociais virtuais, encontrado na Embrapa é o ambiente Compartilhar. Este é um ambiente interno à empresa cujo objetivo é “organizar os projetos da Embrapa em um único local, com infra-estrutura adequada para o seu gerenciamento e maior visibilidade da sua produção” (COMPARTILHAR, 2009).
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O Compartilhar facilita a comunicação entre os profissionais da área de tecnologia da informação da empresa, uma vez que, os projetos desenvolvidos por determinada equipe são disponibilizados neste ambiente, e, deste modo, todas as atualizações de determinado projeto são inseridas no Compartilhar. A utilização deste ambiente, evita a redundância de trabalhos desenvolvidos em busca de um objetivo comum, pois, quando um projeto é disponibilizado no ambiente do Compartilhar torna-se disponível para toda a Embrapa e suas unidades. Desta forma, é possível, que as demais unidades façam o download de determinado projeto e modifique-o de acordo com suas necessidades, o que está de acordo com a política de software livre implantada na empresa. Sendo assim, o Compartilhar possibilita “o desenvolvimento colaborativo entre as diversas unidades descentralizadas da empresa para a convergência de esforços e redução de retrabalhos” (COMPARTILHAR, 2009). Neste sentido, o Compartilhar promove a interação das pessoas e a colaboração em busca de um determinado objetivo, pois as unidades da Embrapa muitas vezes possuem demandas de desenvolvimento de sistemas semelhantes. Ao centralizar os projetos em desenvolvimento em um único ambiente, é possível unir esforços para que todos trabalhem em equipe. É importante ressaltar que o termo “projeto” no ambiente Compartilhar não refere-se apenas a projetos de tecnologia da informação, e sim, pode ser trabalhado de uma forma mais ampla, contemplando ações de pesquisa, experimentos de tecnologia, grupos de trabalho, entre outras (COMPARTILHAR, 2009). A tecnologia utilizada para a infra-estrutura do Compartilhar basea-se no GForge, uma distriuição livre construída na linguagem PHP e que utiliza o banco de dados PostgreSQL. O acesso aos projetos pode ser realizado por meio da intranet da Embrapa. Um cadastro no ambiente é necessário para que o usuário participe de uma equipe de projeto ou possa criar o seu próprio projeto. Cada projeto tem o seu administrador e a sua equipe. Os usuários do portal Compartilhar podem contar com uma série de recursos oferecidos como fóruns e listas de discussão, gerenciamento de atividades, registro de defeitos, registro de sugestões de evolução, suporte ao download de arquivos, suporte ao download de documentação e integração com ferramentas de controle de versão. Outro aspecto importante a ser destacado é a ferramenta Wiki disponível neste ambiente. Esta ferramenta permite a “edição colaborativa online de textos, e geralmente se apresenta na forma de um website cujo conteúdo pode ser editado diretamente pelos seus leitores, como a popular wikipedia e diversas áreas de documentação de projetos de software livre” (COMPARTILHAR, 2009). O Compartilhar utiliza o PHPWiki para a criação da Wiki.
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Todas essas funcionalidades caracterizam o Compartilhar como um ambiente organizado e facilitador para a troca, produção e disseminação de conhecimentos entre os empregados no contexto interno da empresa. Desta maneira, quando os indivíduos colaboram e interagem para a realização de uma tarefa, surgem espécies diferentes de conhecimentos os quais são compartilhados por todos (ROGERS, 1997), beneficiando assim a organização.

4.4 Agência de Informação Embrapa
A Agência de Informação Embrapa é outro exemplo importante de formação das redes sociais no contexto da Embrapa. “A Agência de Informação Embrapa é um sistema web que possibilita a organização, o tratamento, o armazenamento, a divulgação e o acesso à informação tecnológica e ao conhecimento gerados pela Embrapa e outras instituições de pesquisa” (AGENCIA DE INFORMAÇÃO EMBRAPA, 2009). É importante ressaltar que a Agência de Informação pode ser analisada sob dois aspectos: o ambiente externo e o ambiente interno. O ambiente externo compreende as informações e conhecimentos disponibilizados para a sociedade, através do site da Agência de Informação (www. agencia.cnptia.embrapa.br) onde o usuário pode escolher diferentes formas de navegação para a obtenção de conhecimentos. Assim, é possível navegar por meio da árvore hiperbólica (forma gráfica com nós e subnós da árvore do conhecimento), por hipertexto ou por meio do mecanismo de busca. No entanto, neste estudo, o foco está no ambiente interno da Agência de Informação, o qual caracteriza-se por envolver grandes redes sociais, todas unidas em prol de um objetivo comum: a organização do conhecimento. Na Agência de Informação da Embrapa “as informações estão organizadas numa estrutura ramificada em forma de árvore, denominada Árvore do Conhecimento, na qual o conhecimento é organizado de forma hierárquica” (AGENCIA DE INFORMAÇÃO EMBRAPA, 2009). Deste modo, a Agência de Informação reúne todas as árvores do conhecimento produzidas pelas unidades descentralizadas da Embrapa, sendo que para o desenvolvimento de cada árvore do conhecimento é necessária a formação de uma equipe chamada Equipe Editorial, conforme mostra Figura 1. A equipe editorial, responsável pelo desenvolvimento de cada árvore do conhecimento nas unidades da Embrapa, é uma equipe multidiscplinar que deve ser formada por profissionais das mais variadas áreas como informática, letras, jornalismo, biblioteconomia, e, pesquisadores especialistas na área do conhecimento em que a árvore será desenvolvida. Por exemplo, no desenvolvimento da
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árvore do conhecimento do pêssego, os autores dos textos serão pesquisadores com experiência na área do pêssego, e assim sucessivamente. Isto evidencia a necessidade e importância das redes sociais para que a Agência da Informação seja disponbilizada para a sociedade. Os membros da equipe se reunem para determinar quais conteúdos serão disponibilizados e de que forma, pois a Agência da Informação é um ambiente destinado a disseminação da informação para o público em geral, estudantes, produtores rurais, pesquisadores, extensionistas, professores, entre outros, conforme mostra Figura 1. Portanto, a Agência deve disponibilizar conteúdos em uma linguagem de fácil acesso, como também, conteúdos com informações técnicas mais aprofundadas. A catalogação dos recursos fica a cargo do bibliotecário e a adequação do texto para uma linguagem acessível a todos, a cargo do profissional de comunicação.
Figura 1. Organização da Agência da Informação.

Fonte: Santos et al. (2005).

Sendo assim, para o desenvolvimento das árvores do conhecimento, a Agência da Informação conta com um Gestor de Conteúdos, desenvolvido pela Embrapa Informática Agropecuária, disponibilizado por meio da internet e com acesso restrito às equipes editoriais.
O sistema Gestor de Conteúdo da Agência versão 2.0 utiliza os softwares Hipereditor e Hipernavegador ‑ árvore hiperbólica, desenvolvidos pela Embrapa Informática Agropecuária, para organizar informações de forma hierárquica. As ferramentas também são usadas por outras instituições, para a construção e visualização de conteúdo na internet (CNPTIA, 2009).
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Após a organização dos conteúdos realizada pelas equipes editorias, a árvore do conhecimento é submetida a uma auditoria realizada na Embrapa Informação Tecnológica e, posteriormente é publicada na Agência da Informação tornandose disponível para os seus usuários, conforme mostra Figura 1. Outro aspecto importante a ser destacado no desenvolvimento das árvores do conhecimento na Embrapa, é que em alguns casos, uma árvore do conhecimento é desenvolvida por mais de uma unidade ao mesmo tempo, sendo cada unidade responsável por determinados nós da árvore, o que evidencia a presença das redes sociais, neste caso envolvendo equipes de unidades diferentes da Embrapa. Além disso,
as Árvores do Conhecimento contêm informações validadas sobre todas as etapas da cadeia produtiva dos produtos (cultivo e criação) e sobre os temas diversos. Além dessas informações, a Agência de Informação Embrapa possibilita ao usuário o acesso a recursos de informação (artigos, livros, arquivos de imagem e som, planilhas eletrônicas etc.) na íntegra (AGENCIA DE INFORMAÇÃO EMBRAPA, 2009).

Deste modo, além das informações textuais disponíveis para cada nó da árvore do conhecimento, no site da Agência, o usuário pode ter acesso também a outros recursos de informações que estejam disponíveis sobre aquele conteúdo específico. Diante de todos estes aspectos é possível verificar de que maneira as redes sociais virtuais podem contribuir para o processo de produção e disseminação do conhecimento em uma organização, principalmente no que diz respeito ao conhecimento coletivo. Estas tecnologias possuem um papel estratégico, pois auxiliam o processo de criação do conhecimento coletivo, facilitando o compartilhamento de opiniões, dúvidas, expectativas e soluções entre as pessoas (ROSSINI e PALMISANO, 2006, p. 104-124).

5. CONCLUSÃO
O estabelecimento de laços entre as pessoas com objetivo de transformar o conhecimento pessoal em conhecimento organizacional resulta nos benefícios da gestão do conhecimento. Porém, esta interação só é evidente quando várias forças se movem para que ocorra a transferência do conhecimento, o que evidencia a importância das redes sociais nas organizações. Uma organização, ao ser compreendida como um sistema de significados compartilhados, pode aprender, mudar e evoluir ao longo do tempo através da interação social entre seus membros, entre si mesma e o ambiente (NONAKA,
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2000). Este processo contínuo de aprendizagem é fundamental para que ocorram as inovações de produtos e processos, e garanta que a empresa obtenha ganhos significativos de competitividade. Este estudo de caso realizado na Embrapa possibilitou compreender de que maneira as redes sociais auxiliam as interações entre os indivíduos desta empresa facilitando assim, a geração e a transferência do conhecimento na organização. A Embrapa utiliza as redes sociais a fim de que possa atingir suas metas e objetivos estratégicos. Mas, não basta apenas incentivar o desenvolvimento das redes sociais, é preciso oferecer tecnologias apropriadas para que a rede social se desenvolva. Assim, os mecanismos proporcionados pela aliança entre as tecnologias da informação e da comunicação, oferecem condições para a existência de um espaço próprio capaz de facilitar a interação das pessoas por meio da internet. Deste modo, a Embrapa investe no desenvolvimento de redes virtuais que são ambientes capazes de proporcionar a interação, a troca de conhecimentos e a produção de novos conhecimentos entre seus empregados e colaboradores e, posteriormente disseminá-los para a sociedade. Cabe ressaltar a existência de diversas redes sociais virtuais no contexto organizacional da Embrapa. Porém, não foi objetivo desta pesquisa identificar todas as redes virtuais da empresa, e sim, caracterizar algumas, visando identificar na prática a importância dessas ferramentas para a gestão do conhecimento. As redes virtuais identificadas nesta pesquisa foram o Catir, o Compartilhar e a Agência de Informação da Embrapa. Todos estes ambientes exigem a formação de redes sociais, onde a comunicação é considerada um recurso essencial. O exercício da comunicação proporcionado pelas redes sociais virtuais permite aos membros de uma equipe a criação de novas perspectivas, o questionamento das premissas existentes e a obtenção de novos conhecimentos (NONAKA e TAKEUCHI, 1997). Além disso, a utilização das tecnologias que envolvem a informação e a comunicação permite uma redução das distâncias, assim como uma acentuada diminuição do tempo necessário para o desenvolvimento das atividades. Estes aspectos são essenciais para auxiliar a comunicação em uma organização como a Embrapa que dispõe de 41 unidades espalhadas pelo Brasil, além de atuar também no cenário internacional. Os resultados deste estudo destacam a utilização das redes sociais virtuais como importantes ferramentas para o processo de criação e disseminação do conhecimento em uma organização baseada no conhecimento, o que poderá contribuir com o aprofundamento das práticas, experiências e inovações nesta área.
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ESCRITÓRIO DE PROPRIEDADE INDUSTRIAL: ESTRUTURA DE APROXIMAÇÃO ENTRE O TRABALHADOR-INVENTOR, O EMPREGADOR E O INPI
Instituto de Governo Eletrônico, Inteligências e Sistemas – i3G
claudiapomar@gmail.com

Cláudia Pomar

RESUMO
Independentemente da área de atuação, o trabalhador é capaz de inovar em termos de tecnologia passível de proteção industrial. Estes ativos têm potencial econômico e devem ser protegidos para evitar controvérsias e os correspondentes litígios onerosos, especialmente entre trabalhador-inventor e empregador ou tomador de serviços. Assim, entendendo que há muito a ser implementado no campo da gestão da propriedade intelectual a fim de que o trabalhador brasileiro tenha acesso a essa cultura de proteção de sua capacidade criativa, é que se vislumbra a concepção de um Escritório de Apoio à Propriedade Industrial. Propõe-se assim, uma inovadora estrutura de atendimento ao trabalhador-inventor (tanto àquele que tem o trabalho intelectual como objeto do contrato como aquele cujo trabalho intelectual não tenha relação com o contrato de trabalho) e também ao empregador ou tomador de serviços, que se constitui num atendimento especializado, oferecido sob a forma de um Escritório de Apoio à Propriedade Industrial que aproxime os atores deste processo do Instituto Nacional da Propriedade Industrial – INPI.

PALAVRAS-CHAVE
Propriedade industrial, propriedade intelectual, INPI.

1. DIMENSÃO CONCEITUAL DA TEMÁTICA PROPRIEDADE INDUSTRIAL
As discussões teóricas acerca da estrutura conceitual de propriedade intelectual se alongariam de forma interminável, especialmente porque há tantas conceituações quanto autores que tratam do assunto. Aspecto positivo, vez que a variabilidade de conceitos amplia as evidências do fenômeno.
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O resultado da justaposição entre propriedade e produção do intelecto é previsto pela Lei nº 9.610, de 19 de fevereiro de 1998, art. 7º, que cita textualmente em seu caput:
Art. 7º. São obras intelectuais protegidas as criações do espírito, expressas por qualquer meio ou fixadas em qualquer suporte, tangível ou intangível, conhecido ou que se invente no futuro, como. I - os textos de obras literárias, artísticas ou científicas; II ‑ as conferências, alocuções, sermões e outras obras da mesma natureza; III ‑ as obras dramáticas e dramático‑musicais; IV - as obras coreográficas e pantomímicas, cuja execução cênica se fixe por escrito ou por outra qualquer forma; V ‑ as composições musicais, tenham ou não letra; VI ‑ as obras audiovisuais, sonorizadas ou não, inclusive as cinematográficas; VII - as obras fotográficas e as produzidas por qualquer processo análogo ao da fotografia; VIII - as obras de desenho, pintura, gravura, escultura, litografia e arte cinética; IX - as ilustrações, cartas geográficas e outras obras da mesma natureza; X - os projetos, esboços e obras plásticas concernentes à geografia, enge‑ nharia, topografia, arquitetura, paisagismo, cenografia e ciência; XI ‑ as adaptações, traduções e outras transformações de obras originais, apresentadas como criação intelectual nova; XII ‑ os programas de computador; XIII ‑ as coletâneas ou compilações, antologias, enciclopédias, dicionários, bases de dados e outras obras, que, por sua seleção, organização ou disposição de seu conteúdo, constituam uma criação intelectual. § 1º Os programas de computador são objeto de legislação específica, observadas as disposições desta Lei que lhes sejam aplicáveis.

No entender de Antonio Grillo Neto25, propriedade intelectual, trabalho intelectual e capital intelectual são sinônimos, seja sob a forma de uma tecnologia de ponta que toma forma coerente pelas mãos e idéias do homem, seja sob a forma de remédios oriundos do conhecimento tradicional indígena, ou ainda, aquele plus que torna um advogado especial e procurado por clientes – também
25 GRILLO NETO, 2005, p.6.
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conhecido por expertise, [...]. Juan Farina26 declara que propriedade intelectual e direito intelectual são sinônimos. Outras manifestações da propriedade intelectual, não abrangidas pelos diplomas legais anteriormente citados, foram incluídas: as novas variedades vegetais ou cultivares27, a proteção a topografias de semicondutores28, os registros de programas de computador (software)29 e a proteção aos direitos oriundos dos conhecimentos tradicionais relativos à biotecnologia e à biodiversidade, bem como as manifestações folclóricas, dentre outros. Com o correr da história, algo de novo adentra o conteúdo da propriedade intelectual, que é variável no tempo e no espaço: é a “multiplicidade do uno”.30 Nas conceituações supracitadas, constata-se não ter sido estabelecida uma necessária distinção: propriedade intelectual e propriedade industrial, não são sinônimas. A propriedade intelectual é gênero de que são espécies os direitos autorais e conexos (em tempos remotos, parte do Direito Civil), e, neste universo, inscreve-se também o direito à propriedade industrial (anteriormente, parte do Direito Comercial). As espécies que o constituem, e que possuíam autonomia, é que se aglutinaram. A convergência dos direitos autorais e conexos, que em tempos remotos eram parte do Direito Civil, e do direito à propriedade industrial, anteriormente, parte do Direito Comercial, em um só megameio, deram origem ao Instituto da Propriedade Intelectual, acontecimento de grande envergadura que veio agregar valor ao cenário mundial. No que concerne aos direitos autorais, há limitações legais, antes que conceitos. Assim, a Lei n.º 9.610/98, ao tratar dos direitos do autor preconiza no artigo 22 pertencerem ao autor tantos os direitos morais como os patrimoniais
26 FARINA, 1997, p. 633. 27 São protegidas no Brasil pela Lei n.º 9.456 de 25 de abril de 1997, a chamada Lei de Proteção de Cultivares (LPC). O órgão governamental encarregado dos registros é o Serviço Nacional de Proteção de Cultivares – SNPC, vinculado ao Ministério da Agricultura e Abastecimento. 28 Os semicondutores vão muito além da eletrônica de consumo e da informática. Encontram-se em inúmeros ramos de atividade, como as telecomunicações, controles industriais, indústria aeroespacial, saúde, agropecuária e aplicações militares. 29 Os registros de tais obras intelectuais são regulados no Brasil pela Lei n.º 9.609 de 19 de fevereiro de 1998, e o regime de proteção é o mesmo conferido às obras literárias pela legislação de direitos autorais e conexos vigentes na Lei 9.610/98. No Brasil, os programas de computador tem tutela de direitos assegurada pelo prazo de cinqüenta anos, contados a partir de 1º de janeiro do ano subseqüente ao da sua publicação, ou na ausência desta, da sua criação. 30 Expressão utilizada por Bergson. In: PINTO FERREIRA, Luiz. Princípios gerais do Direito Constitucional Moderno. 6. ed., 2 volumes. São Paulo: Saraiva, 1983, p. 12.
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da obra que criou. E, tratando dos direitos morais do autor, o artigo 24, em seus incisos, cita os seguintes: o de conservar a obra inédita (inciso III), o de modificar a obra, antes ou depois de utilizada (inciso V) e o de retirar de cir‑ culação a obra ou mesmo suspender qualquer forma de utilização já autori‑ zada, quando a circulação ou utilização estiverem afrontando sua reputação e imagem (inciso VII). O artigo 27 da mesma lei, adita: Os direitos morais do autor são inalienáveis e irrenunciáveis. Acrescente-se o artigo 28, in verbis: Cabe ao autor o direito exclusivo de utilizar, fruir e dispor da obra literária, artística ou científica. Tratando-se do perfil conceitual de propriedade industrial, o que transparece nas análises, também é um enfoque restritivo. Não há, na literatura concernente, discussões teóricas acerca de sua estrutura conceitual. Não há definições. Os conceitos resumem-se a delimitações do campo de atuação. Neste sentido delimitativo, a Convenção de Paris31 determinou o conteúdo da propriedade industrial, prescrevendo, in verbis:
Art. 1.º (...) A proteção da propriedade industrial tem por objeto as patentes de in‑ venção, os modelos de utilidade, os desenhos ou modelos industriais, as marcas de fábrica ou de comércio, as marcas de serviço, o nome comercial e as indicações de proveniência ou denominações de origem, bem como a repressão da concorrência desleal.

Mas observe-se que este ramo do Direito não se resume às criações industriais propriamente ditas, aplicando-se também ao comércio, às indústrias agrícolas e extrativas e a todos os produtos manufaturados ou naturais. Neste sentido, sua designação é questionada pelo Instituto da Propriedade Industrial da Argentina32:
Se podrá pensar que la expresión “propiedad industrial” no es estricta‑ mente lógica puesto que, únicamente en lo que respecta a las invenciones, el principal segmento de la economía que se interesa en ellas es la indus‑ tria. De hecho, en una situación normal, las invenciones se explotan en plantas industriales. Pero las marcas de fábrica o de comercio, las marcas de servicio, los nombres y designaciones comerciales, son de interés no sólo para la industria sino también, y principalmente, para el comercio. A pesar de esta falta de lógica, la expresión “propiedad industrial” ha adquirido, al menos en los idiomas europeos, un significado que abarca claramente no sólo las invenciones sino también todos los objetos que se acaban de mencionar.
31 A Convenção da União de Paris (CUP), de 1883, deu origem ao hoje denominado Sistema Internacional da Propriedade Industrial, e foi a primeira tentativa de uma harmonização internacional dos diferentes sistemas jurídicos nacionais relativos a propriedade industrial. 32 site do INPI argentino.
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A Lei de Propriedade Industrial brasileira, Lei 9.279 de 15 de maio de 199633, instituiu:
Art. 2° ‑ A proteção dos direitos relativos à propriedade industrial, consi‑ derado o interesse social e o desenvolvimento tecnológico e econômico do País, se efetua mediante: I ‑ concessão de patentes de invenção e de modelo de utilidade; II ‑ concessão de registro de desenho industrial; III ‑ concessão de registro de marca; IV - repressão às falsas indicações geográficas; e V ‑ repressão à concorrência desleal.

O elenco exposto não é taxativo, vez que deixou de abarcar a totalidade dos objetos da propriedade industrial, previstos na legislação de outros Estados, e resultantes de novas relações econômicas. Frisada uma compreensão básica geral do fenômeno propriedade intelectual, e determinado o critério diferenciador de suas categorias, passamos a colocar a situação num termo mais específico: os direitos de propriedade industrial e o contrato de emprego. A intenção é estreitar a abrangência da temática, particularizando-a, até que se evidencie o foco do trabalho.

2. DIREITOS DE PROPRIEDADE INDUSTRIAL E CONTRATO DE EMPREGO
O ordenamento jurídico que regulamentava os direitos de propriedade intelectual do trabalhador-inventor e do empregador ou tomador de serviços – a CLT, foi revogado pelo Código de Propriedade Industrial – Lei n. 5.772/71, o qual veio a ser revogado pela Lei de Patentes – Lei n. 9.279/96. O Código de Propriedade Industrial preconiza em seu art. 2º que os direitos de propriedade industrial se efetivam através da concessão de privilégios de invenção, de modelo industrial e de desenho industrial; da concessão de registros de marca e industrial e de comércio ou de serviço, e de expressão ou sinal de propaganda; e ainda, repressão a falsas indicações de procedência e repressão à concorrência desleal. Aduz ainda o supracitado código, em seu art. 3º, que “As disposições deste Código são aplicáveis também aos pedidos de privilégios e de registros
33 Atualmente, a matéria relativa aos direitos de Propriedade Industrial é balizada pela Lei n.º 9.279 de 14 de maio de 1996, cujos efeitos só entraram em vigor em 15 de maio de 1997, seguindo uma tendência mundial da harmonização legislativa, de acordo com os preceitos contidos no Acordo sobre Aspectos de Direitos de Propriedade Intelectual Relativos ao Comércio – TRIPS. Veio a substituir a Lei 5772, de 20 de dezembro de 1971.
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depositados no estrangeiro e que tenham proteção assegurada por tratados ou convenções de que o Brasil seja signatário, desde que depositados no País”. O art. 40, mais especificamente, trata do invento ocorrido na vigência de contrato de trabalho ou de prestação de serviços, determinando:
Art. 40. Pertencerão exclusivamente ao empregador os inventos, bem como os aperfeiçoamentos, realizados durante a vigência de contrato ex‑ pressamente destinado a pesquisa no Brasil, em que a atividade inventiva do assalariado ou do prestador de serviços seja prevista, ou ainda que decorra da própria natureza da atividade contratada. § 1° Salvo expressa disposição contratual em contrário, a compensação do trabalho ou serviço prestado será limitada à remuneração ou ao salá‑ rio ajustado. § 2º Salvo ajuste em contrário, serão considerados feitos durante a vigên‑ cia do contrato os inventos, bem como os aperfeiçoamentos, cujas patentes sejam requeridas pelo empregado ou pelo prestador de serviços até um ano depois da extinção do mesmo contrato.

Acrescente-se ainda a Lei de Patentes, que, no capítulo referente à invenção e ao modelo de utilidade realizado por empregado ou prestador de serviço, vaticina:
Art. 88. A invenção e o modelo de utilidade pertencem exclusivamente ao em‑ pregador quando decorrerem de contrato de trabalho cuja execução ocorra no Brasil e que tenha por objeto a pesquisa ou a atividade inventiva, ou resulte esta da natureza dos serviços para os quais foi o empregado contratado. § 1º Salvo expressa disposição contratual em contrário, a retribuição pelo trabalho a que se refere este artigo limita‑se ao salário ajustado. § 2º Salvo prova em contrário, consideram‑se desenvolvidos na vigência do contrato a invenção ou o modelo de utilidade, cuja patente seja requerida pelo empregado até 1 (um) ano após a extinção do vínculo empregatício. Art. 89. O empregador, titular da patente, poderá conceder ao empregado, autor de invento ou aperfeiçoamento, participação nos ganhos econômi‑ cos resultantes da exploração da patente, mediante negociação com o interessado ou conforme disposto em norma da empresa. Parágrafo único. A participação referida neste artigo não se incorpora, a qualquer título, ao salário do empregado.

Neste mesmo sentido, o § 4º do art. 40 do Código de Propriedade Industrial: “A circunstância de que o invento ou o aperfeiçoamento resultou de contrato, bem como o nome do inventor, constarão do pedido e da patente”. O ilustre jurista Maurício Godinho Delgado34 esclarece que o permissivo legal para que “a exploração industrial e comercial do invento e modelo de uti34 DELGADO, 2009.
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lidade mantenha-se exclusivamente com o empregador não transfere a este a autoria da invenção, que, obviamente, preserva-se com o empregado inventor”. Adita o autor que a autoria intelectual é direito personalíssimo. O art. 41 da Lei 5.772/71 e o art. 90 da Lei de Patentes normatizam a situação de invento ocorrido fora da vigência de contrato de trabalho ou de prestação de serviços. Neste sentido, preconiza o art. 41, do Código de Propriedade Industrial que: “Pertencerá exclusivamente ao empregado ou prestador de serviços o invento ou o aperfeiçoamento realizado sem relação com contrato de trabalho ou prestação de serviços ou, ainda, sem utilização de recursos, dados, meios, materiais, instalações ou equipamentos do empregador”. Neste giro, a determinação do art. 90 da Lei de Patentes: “Pertencerá exclusivamente ao empregado a invenção ou o modelo de utilidade por ele desenvolvido, desde que desvinculado do contrato de trabalho e não decorrente da utilização de recursos, meios, dados, materiais, instalações ou equipamentos do empregador”. No que concerne aos inventos do trabalhador efetivados fora da previsão contratual, mas propiciados pelo instrumental empregatício, é possível determinar que tal hipótese também está prevista no ordenamento jurídico pátrio em diferentes dispositivos. O Código de Propriedade Industrial faz esta previsão em seu art. 42, ao determinar:
Salvo expressa estipulação em contrário, o invento ou aperfeiçoamento realizado pelo empregado ou pelo prestador de serviços não compre‑ endido no disposto no artigo 40, quando decorrer de sua contribuição pessoal e também de recursos, dados, meios, materiais, instalações ou equipamentos do empregador, será de propriedade comum, em partes iguais, garantido ao empregador o direito exclusivo da licença de exploração, assegurada ao empregado ou prestador de serviços a remuneração que for fixada.

Aduz ainda o § 1º: “A exploração do objeto da patente deverá ser iniciada pelo empregador dentro do prazo de um ano, a contar da data da expedição da patente, sob pena de passar à exclusiva propriedade do empregador ou do prestador de serviços o invento ou o aperfeiçoamento”. Tal entendimento é complementado pelo § 2°: “O empregador poderá ainda requerer privilégio no estrangeiro, desde que assegurada ao empregado ou prestador de serviços a remuneração que for fixada”. No mesmo sentido, o art. 91 da Lei de Patentes: “A propriedade de invenção ou de modelo de utilidade será comum, em partes iguais, quando resultar da contribuição pessoal do empregado e de recursos, dados, meios, materiais, instalações ou equipamentos do empregador, ressalvada expressa disposição contratual em contrário”.
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O § 2º deste mesmo artigo atenta para o fato de que: “É garantido ao empregador o direito exclusivo de licença de exploração e assegurada ao empregado a justa remuneração”. Neste sentido, importante ressaltar que, face a invenção do empregado, lhe é devida uma retribuição a qual não constitui verba trabalhista em sentido estrito e, sublinhe-se, muito menos salarial. Corroborando com tal assertiva, preconiza Delgado:
“É que, embora ambos os (sic) textos legais valham‑se do vocábulo remune‑ ração, na verdade estão referindo‑se a uma retribuição por título jurídico não trabalhista, isto é, um contrato paralelo ao contrato empregatício e a este acoplado. Isso fica claro ao se saber que o pagamento pelo invento seria feito mesmo que o inventor não fosse empregado, mas mero prestador autônomo de serviços. Desse modo, o pagamento tem como causa o invento e não a prestação de serviços ou o conteúdo contratual trabalhista”.

A natureza jurídica não salarial dessa retribuição está sedimentada no art. 89, parágrafo único da Lei de Patentes: “A participação referida neste artigo não se incorpora, a qualquer título, ao salário do empregado”.

3. ESCRITÓRIO DE APOIO À PROPRIEDADE INDUSTRIAL COMO INSTITUTO DE APROXIMAÇÃO ENTRE O TRABALHADOR-INVENTOR, EMPREGADOR, TOMADOR DE SERVIÇOS E O INPI
Independentemente da área de atuação, o trabalhador é capaz de inovar em termos de tecnologia passível de proteção industrial. Estes ativos têm potencial econômico e devem ser protegidos para evitar controvérsias e os correspondentes litígios onerosos, especialmente entre trabalhador-inventor e empregador ou tomador de serviços. Assim, entendendo que há muito a ser implementado no campo da gestão da propriedade intelectual a fim de que o trabalhador brasileiro tenha acesso a essa cultura de proteção de sua capacidade criativa, é que se vislumbra a concepção de um Escritório de Apoio à Propriedade Industrial como estrutura propícia a: • Fomentar a proteção jurídica do produto do intelecto do trabalhador-inventor; • Intensificar a aproximação entre o trabalhador-inventor e o mercado; • Orientar o trabalhador-inventor e o empregador ou tomador de serviços quanto aos contratos de trabalho que envolvam direitos de Propriedade Industrial; • Fortalecer a conexão entre proteção intelectual do trabalhador e mercado; • Aproximar trabalhador-inventor e empregador ou tomador de serviços do INPI.
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Propõe-se assim, uma inovadora estrutura de atendimento ao trabalhadorinventor (tanto àquele que tem o trabalho intelectual como objeto do contrato como aquele cujo trabalho intelectual não tenha relação com o contrato de trabalho) e também ao empregador ou tomador de serviços, que se constitui num atendimento especializado, oferecido sob a forma de um Escritório de Apoio à Propriedade Industrial que aproxime os atores deste processo do Instituto Nacional da Propriedade Industrial – INPI. A intenção é aproveitar a estrutura de atendimento do INPI fundamentada num ambiente virtual que consiste no portal WEB, utilizando, inclusive, os sistemas e-INPI, que se consubstancia num sistema eletrônico para requisição de serviços ao INPI, onde atualmente são disponibilizados o sistema e-Marcas e a Guia de Recolhimento Eletrônica.

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Propõe-se um escritório que tenha como meta prestar a trabalhadores/inventores, empregadores e tomadores de serviço, assistência técnica - a fim de verificar da maturidade do invento e a melhor maneira de encaminhar ao INPI; e assistência jurídica - em questões relativas à proteção da propriedade intelectual e seus desdobramentos. Em conformidade com as normas do Instituto Nacional da Propriedade Industrial - INPI, este Escritório fará o acompanhamento preliminar das inovações, encaminhando pedidos de concessão de patente, registro de softwares, marcas, contratos de transferência de tecnologia, entre outros, vez que o registro dos direitos referentes à propriedade intelectual é indispensável. O Escritório de Apoio à Propriedade Industrial objetiva auxiliar trabalhador-inventor do setor produtivo, empregador e tomador de serviços, a elaborarem com precisão e clareza a redação dos pedidos de concessão de patentes, registro de marcas e de programas de computador, pois considera alto o número de indeferimento entre as empresas nacionais: dos pedidos de patentes encaminhados junto ao INPI, em média somente 20% são de companhias ou trabalhadores nacionais e, desses, menos de 10% são aprovados pelos avalistas do INPI. A deficiência na redação é a grande motivadora de recusa dos pedidos pelo INPI, por isso é premente que o trabalhador/inventor seja auxiliado na confecção dos requerimentos direcionados ao órgão.35 O processo no Instituto Nacional da Propriedade Industrial é extenso e lento, perfazendo um total de aproximadamente 3 anos para registro de marca e de 5 a 8 anos para concessão de patente.36 Assim, um pedido indeferido por falha na redação pode gerar grandes prejuízos ao inventor, afinal, ficará retardada por mais um longo tempo a concessão ou registro que poderia ter sido obtida caso a redação dos pedidos tivessem contado com experiência de profissionais especializados. Para atender a essa necessidade o Escritório de Apoio à Propriedade Industrial pressupõe uma equipe de profissionais externos, qualificados na redação de pedidos de registros de marcas, patentes, desenhos industriais, programas de computador e nomes de domínio. E ainda, pretende utilizar-se da consulta aos bancos de patentes do INPI como ferramenta para diminuir o indeferimento dos pedidos. Preliminarmente, o Escritório de Apoio à Propriedade Industrial indicará que não se divulgue ou dê publicidade à nova tecnologia que se quer proteger a fim de que não venha a cair em domínio público. Posteriormente, o Escritório fará a busca prévia em banco de dados de patentes, no propósito de verificar se
35 Dados retirados do site do Instituto Nacional da Propriedade Industrial – INPI. www. inpi.gov.br. Acesso em 05.12.2009. 36 Dados retirados do site do Instituto Nacional da Propriedade Industrial – INPI. www. inpi.gov.br. Acesso em 05.12.2009.
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já não há concessão ou registro anterior, e ainda, de utilizar-se da pesquisa como fonte de informações tecnológicas, vez que permite o conhecimento do estado da técnica naquela área que se aborda. Na seqüência, realizadas a análise e a avaliação, será emitido parecer sobre a conveniência ou não da proteção pretendida. Julgado procedente o parecer, constituir-se-á uma banca avaliadora composta por experts externos, que após assinarem Termo de Compromisso de Sigilo e Confidencialidade, serão apresentados à nova tecnologia pelo pesquisador/inventor que a desenvolveu. Deste processo, resultará novo parecer, que indicará a viabilidade de se proteger a tecnologia junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial. As tecnologias aprovadas pelo Escritório de Apoio à Propriedade Industrial serão depositadas no INPI, e terão o andamento do pedido acompanhado pelo Escritório, que viabiliza ainda, contratos de transferência de tecnologia; acordo de cooperação técnica e financeira; termos de sigilo e confidencialidade; licença de exploração de patentes; licença de uso de marcas; e licença de uso de programas de computador.

4. CONCLUSÕES
Entendendo que há muito a ser implementado no campo da proteção da propriedade intelectual, é que se vislumbra a concepção de um Escritório de Apoio à Propriedade Industrial como estrutura propícia a fomentar a proteção jurídica de tecnologias inovadoras desenvolvidas no ambiente laboral e a orientar o trabalhador-inventor e seu empregador ou tomador de serviços quanto aos contratos de trabalho que envolvam direitos de Propriedade Industrial resultantes do capital intelectual auferido no decorrer da relação de trabalho. Pretende-se que o Escritório conforme-se como ambiente apto a fortalecer a conexão entre o trabalhador-inventor, o empregador e a proteção jurídica do capital intelectual gerado nesta ambiência. Na intenção de confirmar a originalidade da pesquisa, é possível acrescentar que, destacado número de obras científicas, de evidente cunho teórico, versam sobre o conteúdo da propriedade intelectual, compondo interessante referencial deste âmbito. No entanto, tem-se a intenção de estabelecer neste trabalho, além de interpretações desta ambiência, um projeto concreto no propósito de que a práxis fundamente-se na teorização e a ultrapasse. Nestes termos, a presente pesquisa torna-se justa pela intenção diferencial de concentrar uma proposição de natureza concreta, em complementação à reflexão teórica, e que se consubstancia num projeto de Escritório de Apoio à Propriedade Industrial abarcante de uma infraestrutura física que se utiliza da virtual-tecnológica oferecida pelo INPI.
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Esta objetividade determina uma pesquisa com possibilidade concreta de execução, e ainda, produtiva e contemporânea, com interesse científico, e aplicabilidade no contexto social, especialmente naquele concernente às relações de trabalho.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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CONTEXTUALIZAÇÃO JURÍDICA DA EAD NO ENSINO SUPERIOR
Instituto de Governo Eletrônico, Inteligências e Sistemas – i3G
claudiapomar@gmail.com

Cláudia Pomar

RESUMO
Pretende-se, neste artigo, apontar determinados aspectos significativos do processo de normatização da Educação a Distância no ensino superior, quando enfocar-se-a sua organização legal, apreciando-se o conteúdo das leis, decretos, portarias e regulamentos que foram responsáveis por sua construção jurídica no Brasil.

PALAVRAS-CHAVE
EAD, normatização da EAD.

1. INTRODUÇÃO
Tendo constatado, no decurso de nossas atividades no Laboratório de Ensino a Distância (LED) do Programa de Engenharia de Produção (PPGEP) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), uma total escassez de referências bibliográficas no que se refere aos problemas de alcance jurídico e de processos de instrumentalização de análise no âmbito da temática Educação a Distância, especialmente no ensino superior, concluímos ser oportuna a elaboração de prévia contextualização da temática. Demonstramos ainda nossa preocupação com as instituições de ensino superior que se propõe a investir nesta importante modalidade educacional, uma vez que a dificuldade de acesso a bibliografias especializadas nesta esfera reflete a inconstância da normatização, e principalmente, a imaturidade com que o assunto vem sendo tratado no âmbito político, aspectos que obstacularizam a concretização da Educação a Distância no ensino superior.

2. CONTEXTUALIZAÇÃO JURÍDICA DA EAD NO ENSINO SUPERIOR
É a Educação a Distância um fenômeno que por ser constantemente atingido pelos movimentos hipervelozes das novas tecnologias comunicacionais, a
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cada dia impõe seu espaço e dita novos parâmetros, imprimindo seu ritmo ao contexto educacional, e neste sentido, uma legislação fixa e rígida não atenderia aos seus pressupostos. Na primeira Lei de Diretrizes e Bases para a Educação no Brasil, Lei 4.024/61, a EAD foi apresentada como um paliativo, sendo oferecida através de cursos supletivos por “rádio, televisão, correspondência e outros meios de comunicação que permitam alcançar o maior número de alunos” (art. 25, § 2º). No entanto, passadas quatro décadas, e após veementes críticas lançadas contra a LDB, ela retorna repensada junto ao cenário da ordem jurídico-educacional sob a forma da Lei nº 9.394/96. Começaria assim a delinear-se a legislação da EAD no Brasil, especialmente através do artigo 80 da LDB _ que declarou ser a Educação a Distância válida e equivalente para todos os níveis de ensino, devendo desenvolver-se e ampliar-se sob o respaldo do Poder Público _ e que viria a ser regulamentado pelo Decreto 2.494, de 10 de fevereiro de 1998,o qual teve alterados seus artigos 11 e 12 pelo Decreto 2.561, de 27 de abril de 1998, entremeando-se a estes a Portaria Ministerial n. 301, de 7 de abril de 1998, onde são indicados os procedimentos para o credenciamento de instituições para a oferta de cursos a distância. Tais regulamentações tiveram como pontos relevantes a definição de Educação a Distância, a certificação, a delegação de competência para os conselhos estaduais de educação no que concerne a credenciamento de instituições e da autorização de programas de EAD para o ensino básico, para a educação de jovens e adultos e para a educação profissional de nível técnico. Esta declaração inicial de confiabilidade na EAD foi seguida por especificações outras que impuseram restrições à autonomia do processo impedindo que o mesmo se superasse e conquistasse mais espaço, restringindo as possibilidades para o processo, especialmente nos programas de mestrado e doutorado. Em se tratando de ensino superior, apenas os cursos de graduação, nas modalidades bacharelado e licenciatura e de formação de tecnólogos, haviam sido regulamentados. Somente com a Portaria n. 301/98, em seu artigo 2º, contemplou-se a pós-graduação stricto sensu. Muito embora o Decreto n. 2.494/98, em seu art. 2º §2, determine o credenciamento apenas para instituições do sistema federal de ensino, esta exigência se estende também aos cursos a distância oferecidos por instituições de ensino superior dos sistemas estaduais. Quanto aos cursos superiores seqüenciais, de extensão e pós-graduação lato sensu, não houve exigência expressa de credenciamento específico para EAD, no entanto, as instituições de ensino devem estar credenciadas pela União para sua oferta. Finalmente, em abril de 2001 homologou-se a resolução CES/CNE n. 1/2001, a qual especifica que os cursos de pós-graduação stricto sensu, mestrado e doutorado, presenciais ou a distância, devam ter autorização, reconhecimento
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e renovação de reconhecimento concedidos por tempo determinado pela Câmara de Educação Superior do Conselho Nacional de Educação, através de parecer fundado em avaliação da CAPES. Esta norma determina que tais cursos a distância sejam ofertados por instituições credenciadas para este fim pela União. Prevê-se nesta resolução a exigência, para os cursos a distância, de presencialidade para provas, atividades, exames de qualificação e defesa de trabalho de conclusão de curso, dissertação ou tese. Foram contemplados ainda nesta norma os cursos de graduação lato sensu, inclusive os Master Business Administration (MBA) ou equivalentes, os quais, diferentemente do preconizado pelo artigo 80 da LDB para os cursos a distância, independem de autorização, reconhecimento e renovação de conhecimento, sendo condição pétrea o credenciamento da instituição pela União. Não estabeleceu-se nesta resolução critérios e procedimentos para o credenciamento, mas estabeleceu-se que os cursos stricto sensu sejam avaliados periodicamente pela CAPES na intenção de garantir equivalência de qualidade entre educação presencial e a distância.

3. LEI DE DIRETRIZES E BASES DA EDUCAÇÃO
A normatividade da Educação a Distância (EAD) ampliou-se com o advento da Lei nº 9.394/96, Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). No entanto, existe um universo de temas adstritos à EAD para os quais não há resposta na estrutura formal normativa, são “situações para as quais as respostas oficiais até aqui vigentes não são suficientes, materializando notórias lacunas axiológicas do direito pátrio [...] . Tratam-se de questões para as quais o modelo tradicional de soluções jurídico-normativas não encontra mecanismo de incidência” (Hoeschl, 1999). Dentre esta diversidade de problemas em EAD, para as quais não houve solução, pode-se destacar a regulamentação para o ensino superior a distância. Na primeira Lei de Diretrizes e Bases para a Educação no Brasil, Lei 4.024/61, a EAD foi apresentada como solução atenuante para as dificuldades impostas pela distância através de cursos supletivos por “rádio, televisão, correspondência e outros meios de comunicação que permitam alcançar o maior número de alunos” (art. 25, § 2º).
A Educação a Distância deixa de ser, por força de sua inclusão nas Disposições Gerais da Lei 9.394/96, a esporádica freqüentadora das ses‑ sões de órgãos normativos dos sistemas de ensino dedicadas aos projetos experimentais; ou a solução paliativa (proclamada como panacéia) para atender as demandas educativas de jovens e adultos excluídos do acesso e permanência na escola regular, na idade própria; ou o alvo preferido de preconceitos à direita e à esquerda, (...) ou ainda, como projetos peregrinos ao sabor de momentâneas e despóticas arbitrariedades, definindo sobre continuidades e interrupções, repasses ou cortes de verbas, manutenção
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ou dispersão de equipes, criação ou demolição de instituições (Lobo Neto, 1998).

No entanto, foi somente através da Lei nº 9.394/96 que a Educação a Distância conseguiu imprimir uma parcela significativa do seu caráter inovador, ficando a exigência de presencialidade limitada a avaliação da aprendizagem: “A validação dos modelos de EAD está em função da performance apresentada pelos alunos na saída, que deve ser equivalente à dos alunos de cursos presenciais, uma vez que os dois sistemas se equivalem perante a LDB” (Vianney et al., 2003). Hoeschl (1999) manifesta-se acerca da necessidade da avaliação da EAD ser presencial:
Ocorre que, embora estejam sendo oferecidos cursos nacionais à nível de mestrado, baseados em tecnologia e filosofia de proa, a normatividade nacional vigente impede que o ciclo seja aperfeiçoado, pois, nos momentos decisivos, volta‑se aos moldes tradicionais, com os alunos preenchendo manualmente respostas em folhas de papel para que possam obter a res‑ pectiva certificação. O ordenamento jurídico educacional não consegue formular uma solução para o problema e isso impede a realização plena do ensino a distância (idem).

A regulamentação da Educação a Distância no Brasil até o advento da Lei 9.394/96 estava restrita ao ensino médio, secundário e profissionalizante. A nova LDB estendeu sua incidência sobre a Educação a Distância, ao determinar em suas Disposições Gerais, que sua abrangência se estenderia a todos os níveis e modalidades de EAD, o que incluiria o ensino superior, tendo o legislador tratado especificamente desta questão no art. 80, in verbis:
Art. 80. O Poder Público incentivará o desenvolvimento e a veiculação de programas de ensino a distância, em todos os níveis e modalidades de ensino, e de educação continuada. § 1º. A educação a distância, organizada com abertura e regime especiais, será oferecida por instituições especificamente credenciadas pela União.

O projeto da LDB, após tramitar na Câmara dos Deputados e no Senado Federal por oito anos, introduziu parcela de inconstitucionalidade com o parágrafo supracitado, quando destinou à União competência para credenciamento da Educação a Distância em todos os seus âmbitos. Como solução paliativa, optou-se pela “delegação de competência” para os Estados, com as normas sendo expedidas pelo Governo Federal às instituições de ensino superior (IES) mantidas pela União, e às instituições privadas. As IES, mantidas pelos Estados ou Municípios, têm legislação definida pelos Estados. Quanto ao ensino básico, compreendido como infantil, fundamental e médio, encontra-se este sob responsabilidade exclusiva dos Estados e Municípios, exceção feita às escolas públicas vinculadas à União, como é o caso das escolas técnicas.
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§ 2º. A União regulamentará os requisitos para a realização de exames e registro de diploma relativos a cursos de educação a distância. § 3º. As normas para produção, controle e avaliação de programas de edu‑ cação à distância e a autorização para sua implementação, caberão aos respectivos sistemas de ensino, podendo haver cooperação e integração entre os diferentes sistemas.

Este parágrafo 3º atribui ao órgão normativo do sistema de ensino estadual a competência para definir normas para produção, controle e avaliação dos programas, e para autorizar sua implantação, observadas as diretrizes do Conselho Nacional de Educação. Enquanto que o parágrafo 4º, num claro incentivo à EAD, oferece vantagens a este instituto no que se refere aos canais de transmissão. No entanto, tais políticas não foram implementadas:
§ 4º. A educação à distância gozará de tratamento diferenciado, que incluirá: I ‑ custos de transmissão reduzidos em canais comerciais de radiodifusão sonora e de sons e imagens; II - concessão de canais com finalidades exclusivamente educativas; III ‑ reserva de tempo mínimo, sem ônus para o Poder Público, pelos concessionários de canais comerciais.

Outros artigos da Lei de Diretrizes e Bases da Educação fazem referência à educação a distância: “Art. 32 § 4º. O ensino fundamental será presencial, sendo o ensino a distância utilizado como complementação da aprendizagem ou em situações emergenciais”. Há aqui uma determinação no sentido de que o ensino fundamental seja presencial, restringindo a educação a distância nesta área, conferindo-lhe caráter de suporte ao ensino convencional, desempenhando apenas função complementar.
Art. 37. A educação de jovens e adultos será destinada àqueles que não tiveram acesso ou continuidade de estudos no ensino fundamental e médio na idade própria. § 1º. Os sistemas de ensino assegurarão gratuitamente aos jovens e aos adultos, que não puderam efetuar os estudos na idade regular, oportunida‑ des educacionais apropriadas, consideradas as características do alunado, seus interesses, condições de vida e de trabalho, mediante cursos e exames.

Lobo Neto (1998) vê neste art. 37 uma alusão implícita à educação a distância. Este artigo destaca como clientela trabalhadores que não adentraram ou não complementaram seus estudos no ensino fundamental e médio na idade regular, prevendo a estes gratuidade no acesso aos sistemas de ensino.
Art. 47. Na educação superior, o ano letivo regular, independente do ano civil, tem, no mínimo, duzentos dias de trabalho acadêmico efetivo, excluído o tempo reservado aos exames finais, quando houver.
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§ 3º. É obrigatória a freqüência de alunos e professores, salvo nos progra‑ mas de educação a distância.

A Lei 4.024 de 1961, antiga LDB, determinava a obrigatoriedade de 75% de freqüência às aulas, o que se define como incoerência em se tratando de Educação a Distância. Com relação ao ensino supletivo esta contraditoriedade foi superada através da Lei 5.692/71, pois esta permite a realização de exames supletivos oficiais sem a exigência de freqüência. No entanto, permaneceu como condição na Lei 5.540 do mesmo ano, que regulamentava o ensino superior. Tal inflexibilidade é superada com a instituição do Art. 87 que em seu § 3º deixa de imprimir caráter de exigibilidade no que se refere a critérios de presencialidade ou à sua quantificação.
Art. 87. É instituída a Década da Educação, a iniciar‑se um ano a partir da publicação desta Lei. § 3º. Cada Município e, supletivamente, o Estado e a União, deverá: II – prover cursos presenciais ou a distância aos jovens e adultos insufi‑ cientemente escolarizados; III ‑ realizar programas de capacitação para todos os professores em exer‑ cício, utilizando também, para isto, os recursos da educação a distância; § 4º. Até o fim da Década da Educação somente serão admitidos professo‑ res habilitados em nível superior ou formados por treinamento em serviço.

O artigo 87, que em seu caput institui a Década da Educação, contempla no § 3º a educação a distância, numa clara referência a sua possibilidade de atingir jovens e adultos e de concretizar o objetivo central que é capacitar todos os professores em exercício. Neste ponto, a Lei prevê que a formação dos professores se dê em nível superior, admitindo, no entanto habilitação em magistério, no nível médio, para o exercício profissional nas séries iniciais do Ensino Fundamental. E ainda, que parte dos recursos financeiros destinados à remuneração dos profissionais do magistério seja investida na capacitação de professores leigos em atuação no Ensino Fundamental. O § 4º determina que até o ano de 2006 somente serão admitidos professores habilitados em nível superior ou formados por treinamento em serviço. Esta determinação resultou numa enorme procura por cursos de licenciatura, e considerando-se o volume desta demanda, as dimensões continentais do País, e a dispersão de sua ocupação geográfica, conclui-se mais uma vez que a solução é a Educação a Distância.

4. DECRETO 2.494, DE 10 DE FEVEREIRO DE 1998
O Decreto 2.494, sobrevém à LDB, definindo o entendimento do Ministério de Educação e Cultura (MEC) sobre EAD, e disciplinando as normas operativas gerais. O relatório preambular do decreto incluía os programas de mestrado e
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doutorado a distância. No entanto, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), demonstrando hegemonia, fez prevalecer junto ao MEC sua intenção de excluir estes programas do decreto:
Art. 1º Educação a distância é uma forma de ensino que possibilita a auto‑aprendizagem, com a mediação de recursos didáticos sistematica‑ mente organizados, apresentados em diferentes suportes de informação, utilizados isoladamente ou combinados, e veiculados pelos diversos meios de comunicação.

O legislador deixa de acompanhar as inovações da EAD ao reproduzir na definição de EAD o conceito de auto-aprendizagem, desconsiderando a figura do tutor de educação, ator que revigora as relações interativas entre a instituição de ensino e o educando.
Parágrafo Único – O cursos ministrados sob a forma de educação a distância serão organizados em regime especial, com flexibilidade de requisitos para admissão, horários e duração, sem prejuízo, quando for o caso, dos objetivos e das diretrizes curriculares fixadas nacionalmente. Art. 2º Os cursos a distância que conferem certificado ou diploma de con‑ clusão do ensino fundamental para jovens e adultos, do ensino médio, da educação profissional, e de graduação serão oferecidos por instituições públicas ou privadas especificamente credenciadas para esse fim, nos termos deste Decreto e conforme exigências pelo Ministro de Estado da Educação e do Desporto.

No caso de oferta de cursos de graduação e educação profissional em nível tecnológico, o processo será igual ao aplicável aos cursos presenciais. A instituição tem seu credenciamento efetuado junto ao Ministério de Educação e Cultura. O processo será submetido à apreciação da Secretaria de Educação Superior (SESU), por uma Comissão de Especialistas na área do curso e por especialistas em Educação a Distância, quando por fim, será encaminhado ao Conselho Nacional de Educação (CNE).
§ 1º A oferta de programas de mestrado e de doutorado na modalidade a distância será objeto de regulamentação específica.

Os critérios para reconhecimento desses cursos ficaram a cargo da Câmara de Educação Superior do Conselho Nacional de Educação, que para tanto veiculou a Resolução n. 1, de 3 de abril de 2001. Tal regulamentação específica, em seu art. 3º § 1º, repetiu o verbo do artigo 80 da LDB, que em seu § 1º determina que os cursos de pós-graduação stricto sensu a distância serão oferecidos exclusivamente por instituições credenciadas para tal fim pela União. Preconiza ainda a Resolução, que sejam obedecidas as mesmas exigências de autorização, reconhecimento e renovação de reconhecimento estabelecidas determinadas por aquela Lei. A Resolução supracitada regulamentou também a questão das provas, importante requisito que havia ficado indeterminado pelo § 2º do art. 80, indicando
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que os cursos de pós-graduação stricto sensu a distância devem incluir provas e atividades presenciais. Regulamentou ainda que os exames de qualificação e as defesas de mestrado e doutorado dos cursos de pós-graduação stricto sensu oferecidos a distância sejam presenciais, e que a banca examinadora constitua-se de pelo menos um membro externo. Fica determinado também pelo art. 3º da Resolução n. 1 que a avaliação feita pela CAPES dos cursos em questão “se utilizará de critérios que garantam o cumprimento do preceito de equivalência entre a qualidade da formação assegurada por esses cursos e a dos cursos presenciais” (Art. 3º § 4º). O artigo 48 §3º da LDB permite o reconhecimento do diploma estrangeiro. Decorre disto que a determinação de limitar a educação a distância, expropriando-lhe o direito à pós-graduação, está abrindo espaço para as universidades internacionalizadas. As posições conservadoras assumidas pela SBPC e por lideranças do meio acadêmico talvez não possam ser facilmente revertidas. Dentro da própria SBPC, 6 meses após a bateria de críticas e pressões contrárias à regulamentação da pósgraduação pela modalidade de EAD, o grupo de Pesquisadores do Ciberespaço propõe a criação de uma rede nacional de comunicação, para coordenar programas de pós-graduação a distância. Com uma única condição: que os programas sejam gerenciados pela própria SBPC (Barcia et alii, 1998). No que se refere aos cursos de pós-graduação lato sensu, ou seja, às especializações, estas eram independentes de autorização para funcionamento ou reconhecimento do MEC. No entanto, com o advento do Parecer n.º 908/99, aprovado em 02/12/98 e da Resolução n.º 3 de 05/10/99, da Câmara de Educação Superior do Conselho Nacional de Educação, fixou-se condições de validade dos certificados de cursos presenciais de especialização, o que determinou que a Secretaria de Educação a Distância estabelecesse uma regulamentação para tais cursos na modalidade a distância.
§ 2º O Credenciamento de instituição do Sistema Federal de Ensino, a autorização e o reconhecimento de programas a distância de educação profissional e de graduação de qualquer sistema de ensino, deverão observar, além do que estabelece este Decreto, o que dispõem as normas contidas em legislação específica e as regulamentações a serem fixadas pelo Ministro de Educação e do Desporto.

Podem oferecer cursos de graduação a distância instituições públicas ou privadas legalmente credenciadas para o ensino superior, através de Parecer do Conselho Nacional de educação, homologado pelo Ministro da Educação por meio de Portaria publicada no Diário Oficial, nos termos da Lei 9.394/96, do Decreto 2.494/98 e da Portaria MEC n. 301/98. A instituição de ensino superior interessada em credenciar-se para oferecer cursos de graduação a distância deverá apresentar o pedido à Secretaria de
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Educação Superior do Ministério, a ser encaminhada ao Protocolo Geral do MEC. A solicitação de credenciamento, juntamente com o projeto e informações sobre a instituição de ensino e sua mantenedora, deverá incluir obrigatoriamente os projetos de cursos a distância a serem autorizados. Ao credenciamento de IES a distância, aplicam-se ainda, os procedimentos determinados pela Portaria MEC n. 670/97, de acordo com a Portaria MEC n. 301/98. À autorização de cursos superiores a distância também se aplicam, no que couber, as orientações das Portarias MEC n. 640/97 e 641/97. Devendo ser ainda observados os padrões de qualidade para cursos de graduação a distância, bem como as diretrizes curriculares e padrões de qualidade definidos para os cursos de graduação, em cada área.
§ 3º A autorização, o reconhecimento de cursos e o credenciamento de instituições do Sistema Federal de Ensino que ofereçam cursos de edu‑ cação profissional a distância deverão observar, além do que estabelece este Decreto, o que dispõem as normas contidas em legislação específica. § 4º O credenciamento das instituições e a autorização dos cursos serão limitados a cinco anos, podendo ser renovados após a avaliação. § 5º A avaliação de que trata o parágrafo anterior, obedecerá a procedi‑ mentos, critérios e indicadores de qualidade definidos em ato próprio, a ser expedido pelo Ministro de Estado da Educação e do Desporto. § 6º A falta de atendimento aos padrões de qualidade e a ocorrência de irregularidade de qualquer ordem serão objeto de diligências, sindicân‑ cia, e, se for o caso, de processo administrativo que vise a apurá‑los, sustentando‑se, de imediato, a tramitação de pleitos de interesse da instituição, podendo ainda acarretar‑lhe o descredenciamento.

Este parágrafo § 6º decorre do exposto no parágrafo 2º.
Art. 3º A matrícula nos cursos a distância do ensino fundamental para jovens e adultos, médio e educação profissional será feita independente‑ mente de escolarização anterior, mediante avaliação que define o grau de desenvolvimento e experiência do candidato e permita sua inscrição na etapa adequada, conforme regulamentação do respectivo sistema de ensino. Parágrafo Único – A matrícula nos cursos de graduação e pós‑graduação será efetivada mediante comprovação dos requisitos estabelecidos na legislação que regula esses níveis. Art. 4º Os cursos a distância poderão aceitar transferência e aproveitar créditos obtidos pelos alunos em cursos presenciais, da mesma forma que as certificações totais ou parciais obtidas em cursos a distância poderão ser aceitas em cursos presenciais.

A Lei admite a igualdade entre educação presencial e a distância, fato que dá suporte para a consecução de Educação a Distância no Brasil e confere
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crédito às certificações expedidas pelas instituições nacionais que desenvolvem esta modalidade de educação.
Art. 5º Os certificados e diplomas de cursos a distância autorizados pelos sistemas de ensino, expedidos por instituições credenciadas e registrados na forma da lei, terão validades nacional. Art. 6º Os certificados e diplomas de cursos a distância emitidos por instituições estrangeiras, mesmo quando realizados em cooperação com instituições sediadas no Brasil, deverão ser revalidados para ge‑ rarem efeitos legais, de acordo com as normas vigentes para o ensino presencial.

A fim de que gerem efeitos legais, há exigência de revalidação dos diplomas expedidos por instituições estrangeiras, mesmo quando em parceria com instituições sediadas no Brasil. Não existe aqui intenção de preservar o mercado nacional, mas sim de garantir que o Ministério da Educação exerça controle “sobre os cursos e a uniformidade dos procedimentos e currículos” Rodrigues (1998). Tal exigência não se estende à certificação e validade jurídica da instituição estrangeira, pois esta deriva da soberania do país de origem, importando apenas certificar-se se a instituição está constituída conforme àquela lei. Esse é o princípio vigente no Brasil, encontrando-se disposto na Lei de Introdução do Código Civil, in verbis:
Artigo 11. As organizações destinadas a fins de interesse coletivo, co‑ mo as sociedades e as fundações, obedecem à lei do Estado em que se constituírem. §1º. Não poderão, entretanto, ter no Brasil filiais, agências ou estabele‑ cimentos antes de serem os atos constitutivos aprovados pelo Governo brasileiro, ficando sujeitas à lei brasileira.

Os diplomas e certificados emitidos pelas universidades americanas sujeitam-se ao exame da validade jurídica no exterior, no que se refere ao registro e reconhecimento destes. Assim, quando reconhecidos ou revalidados pelas universidades brasileiras, legalmente ou através de acordos internacionais, terão validade em todo território brasileiro. A política interna de reconhecimento de diplomas nos EUA é diferenciada da brasileira, pois este documento não é reconhecido em todo território americano, apenas nos Estados em que foi conferido, ou entre aqueles que mantêm acordos educacionais. Há distinção também, quanto à autonomia: as universidades americanas não estão subordinadas a órgãos do governo, enquanto que no Brasil existe a figura do MEC como órgão responsável por este processo. Preti faz uma análise dos tipos de universidade americanas e suas especificidades quanto à certificação e currículo:
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Tabela 4. Modelos organizacionais emergentes em educação superior. Tipos de UNIVERSIDADES 1. Extensão de instituições tradicionais 2. Particular, centrada na formação de adultos 3. Educação a Distância - base tecnológica 4. Corporativas 5. Alianças universidade/ indústria 6. Certificação por competência 7. Multinacionais CERTIFICAÇÃO A mesma da instituição à qual pertence Oficial por região. Programas específicos ou disciplinas também são certificados Oficial por região. Muitas ainda sem reconhecimento formal Oficial por região. Muitas sem reconhecimento formal A universidade traz sua certificação para os programas Oficial por região. Muitas ainda sem reconhecimento formal Parcerias com instituições locais CURRÍCULO Estável, pode ser mais flexível Foco nas oportunidades do mercado de trabalho. Orientada para adultos Currículo mais flexível, voltado para competência e desenvolvimento da força dde trabalho Voltado para as competências e filosofia da empresa Desenvolvimento e competência da força de trabalho Gera o certificado com base na experiência e competência dos alunos, sem oferecer cursos Restrições no currículo. Ênfase em áreas sem especificidades culturais

Fonte: Preti (2000, p. 168)

Preti (idem) observa ainda que “uma questão permanece sem solução definitiva em todas as opções que não envolvam uma instituição formal ou que adotem um modelo que busque performances já consolidadas no mercado: a certificação.” Aduz o autor que o estabelecimento de critérios da avaliação padronizados seria adequado para a obtenção de aval junto às organizações responsáveis pela certificação. E ainda, que os critérios devem ser iguais aos do curso presencial, ou aceitos pelo sistema educacional vigente. E mais, sugere uma padronização internacional destes critérios. A determinação da SBPC, em fazer prevalecer uma regulamentação restritiva para a pós-graduação scricto sensu a distância no Brasil, está contribuindo para a abertura do mercado brasileiro às universidades internacionalizadas. Como uma estratégia de defesa obliterada, argumenta-se que o Ministério da Educação (MEC) não reconhece as titulações a distância oferecidas por instituições estrangeiras. No entanto, tal medida não é abrangente: “(...) Na prática, apenas o mercado de contratação de professores está subordinado à chancela do MEC quanto à pós-graduação. Ou seja, a restrição para a contratação de pós-graduados por universidades de outros países está limitada ao ambiente acadêmico (Barcia, et alii 1998, p.61)”.
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O propósito definido no artigo 7º é de garantir a autenticidade dos diplomas e evitar a sua comercialização. A instituição responsável pode criar centros de atendimento nos locais para onde estende seu programa, ou estabelecer parceria com outras instituições.
Art. 7º A avaliação do rendimento do aluno para fins de promoção, certifi‑ cação ou diplomação, realizar‑se‑á no processo por meio de exames pre‑ senciais, de responsabilidade da Instituição credenciada para ministrar o curso, segundo procedimentos e critérios definidos no projeto autorizado. Parágrafo Único: Os exames deverão avaliar competência descritas nas diretrizes curriculares nacionais, quando for o caso, bem como conteúdos e habilidades que cada curso se propõe a desenvolver.

A avaliação deve obedecer as diretrizes curriculares nacionais, e os conteúdos e habilidades próprios de cada curso.
Art. 8º Nos níveis fundamental para jovens e adultos, médio e educação profissional, os sistemas de ensino poderão credenciar instituições exclu‑ sivamente para a realização de exames finais, atendidas às normas gerais da educação nacional.

Regulamenta o credenciamento das instituições para a realização dos exames finais.
§ 1º Será exigência para credenciamento dessas Instituições a construção e manutenção de banco de itens que será objeto de avaliação periódica. § 2º Os exames dos cursos de educação profissional devem contemplar conhecimentos práticos, avaliados em ambientes apropriados. § 3º Para exame dos conhecimentos práticos a que refere o parágrafo anterior, as Instituições credenciadas poderão estabelecer parcerias, con‑ vênios ou consórcios com Instituições especializadas no preparo profis‑ sional, escolas técnicas, empresas e outras adequadamente aparelhadas.

O art. 9º determina a divulgação, pelo Poder Público, das instituições credenciadas e dos cursos autorizados.
Art. 9º O Poder Público divulgará, periodicamente, a relação das Instituições credenciadas, recredenciadas e os cursos ou programas autorizados.

Observe-se ainda os artigos 10º e 11º:
Art. 10º As Instituições de ensino que já oferecem cursos a distância deve‑ rão, no prazo de um ano da vigência deste Decreto, atender às exigências nele estabelecidas. Art. 11º Fica delegada competência ao Ministro de Estado da Educação e do Desporto, em conformidade ao estabelecimento nos art. 11 e 12 do Decreto‑Lei nº 200 de 25 de Fevereiro de 1967, para promover os atos
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de credenciamento de que trata o § 1º do art. 80 da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, das Instituições vinculadas ao sistema federal de ensino e das Instituições de educação profissional e de ensino superior demais sistemas.

O artigo 12º regula a promoção dos atos de credenciamento de instituições, delegando-os ao Ministro de Estado da Educação e do desporto, ou às autoridades integrantes dos demais sistemas de ensino, conforme for o caso.
Art. 12º Fica delegada competência às autoridades integrantes dos demais sistemas de ensino de que trata o art. 80 da Lei 9.394, para promover os atos de credenciamento de Instituições localizadas no âmbito de suas respectivas atribuições, para oferta de cursos a distância dirigidos à educação de jovens e adultos e ensino médio.

Lobo Neto (1998) doutrina no sentido de que o Decreto não foi suficiente para definir a situação das instituições que desenvolvem programas de Educação a Distância. Há questões essenciais, cuja definição está sendo remetida para regulamentações mais específicas, de alçada do Ministro de Estado da Educação e do Desporto, quais sejam: • o credenciamento institucional obedecerá a “exigências a serem estabelecidas em ato próprio” do Ministro de Estado (Art. 2º caput); • dependem de “regulamentações a serem fixadas pelo Ministro de Estado”, tanto o credenciamento de instituições do sistema federal de ensino, quanto a autorização e reconhecimento de programas a distância de educação profissional e de graduação de qualquer sistema (Art. 2º §2º); • a avaliação para recredenciamento e renovação de autorização de cursos, terão seus procedimentos, critérios e indicadores de qualidade definidos em ato próprio, a ser expedido pelo Ministro de Estado (Art. 2º §5º).

5. DECRETO 2.561, DE 27 DE ABRIL DE 1998
Sucessivamente ao Decreto 2.494/98, o Ministério da Educação publica a Portaria 301 em 7 de abril de 1998, determinando os procedimentos para o credenciamento de instituições para a oferta de cursos por Educação a Distância; e que é imediatamente retificado pelo Decreto 2.561, de abril do mesmo ano, no que se refere às competências estaduais e federais para o credenciamento de cursos. No que tange a cursos a distância geridos à educação fundamental de jovens e adultos, ensino médio e educação profissional de nível técnico, o Decreto 2.494/98 veio a ser alterado pelo Decreto 2.561/98, o qual delegou competência às autoridades integrantes dos sistemas de ensino - municipal ou estadual - de que trata o artigo 8º da LDB, para promover o credenciamento de instituições localizadas no âmbito de suas respectivas atribuições, exceção feita às instituições vinculadas ao sistema federal de ensino, cujo credenciamento está a cargo do Ministério da Educação.
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Art. 8º A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios organiza‑ rão, em regime de colaboração, os respectivos sistemas de ensino. § 1º Caberá à União a coordenação da política nacional de educação, articulando os diferentes níveis e sistemas e exercendo função normativa, redistributiva e supletiva em relação às demais instâncias educacionais. § 2º Os sistemas de ensino terão liberdade de organização nos termos desta Lei.

O Decreto n.º 2.561 de 27 de abril de 1998, altera a redação dos artigos 11 e 12 do Decreto n.º 2.494 de 10 de fevereiro de 1998, que regulamenta o disposto no artigo 80 da LDB, ficando estes com a seguinte redação:
Art. 11. Fica delegada competência ao Ministro de Estado da Educação e do Desporto, em conformidade ao estabelecido nos arts. 11 e 12 do Decreto‑Lei nº 200, de 25 de fevereiro de 1967, para promover os atos de credenciamento de que trata o §1º do art. 80 da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, das instituições vinculadas ao sistema federal de ensino e das instituições de educação profissional em nível tecnológico e de ensino superior dos demais sistemas. Art. 12. Fica delegada competência às autoridades integrantes dos demais sistemas de ensino de que trata o art. 8º da Lei nº 9.394, de 1996, para pro‑ mover os atos de credenciamento de instituições localizadas no âmbito de suas respectivas atribuições, para oferta de cursos a distância dirigidos à educação de jovens e adultos, ensino médio e educação profissional de nível técnico.

6. CONCLUSÕES
Em nenhum outro momento da história da política educacional a sensibilidade do legislador foi tão exigida para a regulamentação de um instituto como o tem sido no que concerne a Educação a Distância no Ensino Superior. Neste sentido, várias questões devem ser rediscutidas no campo jurídico, dentre as quais a mais evidente é a necessidade de suprimir o credenciamento específico para que as instituições já autorizadas para atuar presencialmente, possam atuar a distância. Seria suficiente que se constituíssem mecanismos para o controle das atividades desenvolvidas neste meio que ao invés de reguladores fossem regulamentadores. Esta proposição baseia-se no fato de que o atual quadro normativo da educação no Brasil, na tentativa de delimitar o escopo da EAD, acabou por restringir-lhe a abrangência e o sentido, enquanto que seria suficiente que se regulamentassem suas especificidades, aquelas inerentes ao seu caráter de desterritorialização e atemporalidade. Tal processo seria determinante na superação das reticências iniciais, e contribuiria para sua acepção qualitativa.
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Fixou-se através destas análises a proposição de que a Educação a Distância, apesar de encontrar resistência em diversos níveis, é um processo irreversível, e que resta-nos decidir se iremos acompanhar a curva ascendente que ela vem traçando, ou se vamo-nos postar à margem do processo. Ela deixou de ser potencial à medida que já foi criada, está implantada, e em franca disseminação, tanto internamente como de forma supranacional. Não é um “por vir”, é uma realidade efetiva e atual. Ela tem formato e é real, obrigando àqueles que se debatem sobre o assunto a buscar soluções inéditas para este desafio inovador. Assim, o Sistema Jurídico Nacional, que representa o modo de regulação dos Estados, tem sido alvo de questionamentos em torno do surgimento de uma ordem jurídica dirigida especificamente à Educação a Distância, e consoante seus interesses, pois a normatividade brasileira e seus mecanismos de aplicação encontram-se em atraso com relação à sociedade contemporânea, efetivando-se uma desconformidade entre estas. A construção jurídica da EAD precisa ser redefinida, seus delineamentos absolutos reconfigurados, pois seu contorno se tornará mais aparente e preciso à medida que forem reavaliados conceitos anteriormente sedimentados.

BIBLIOGRAFIA
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CIBERDIREITO: UMA FORMULAÇÃO TEÓRICA PARA A LEGITIMIDADE DO GOVERNO ELETRÔNICO
Acadêmico de Direito, Centro Universitário UnirG – Gurupi/TO
adriano@unirg.edu.br

Adriano de Oliveira Resende

Acadêmico de Direito, Centro Universitário UnirG – Gurupi/TO
andsempr@hotmail.com

Andrey Cesar Marques Ferreira da Silva

Mestre em Direito, Centro Unisal – Lorena/SP
aroveroni@gmail.com

Antonio J. Roveroni

RESUMO
O artigo enfoca, na perspectiva epistemológica do e-Gov, e à luz da Filosofia do Direito e da Teoria Geral do Estado, o problema da legitimidade das ordens de comando editadas pelo Governo para a consecução de seus objetivos. Seu pressuposto é que, sem um direito legítimo, a aceitação das normas jurídico-administrativas, por parte dos cidadãos administrados se torna excessivamente conturbada. No sentido de formular um modelo teórico que sirva de embasamento para uma relação pacífica nesse cenário, o artigo discorre sobre as origens do poder estatal e as conexões entre o direito, a ética e a política, sempre sob o paradigma da sociedade do conhecimento. No seu desenvolvimento, propõe a necessidade de institucionalização, pelo governo eletrônico, de ágoras virtuais que se consubstanciem em comunidades ideais de deliberação, tendo por base a ética do discurso (APEL) parametrizada pelo agir comunicativo (HABERMAS) como forma de resgatar o ideal rousseaniano de interesse dos cidadãos pela participação responsável nos atos do poder público e na fiscalização da vida pública, fundamentos da legitimidade do governo, por aproximação da vontade geral.

PALAVRAS-CHAVE
Democracia. Discurso. Entendimento. Direito. Ética. Política.

1. INTRODUÇÃO
Construído desde os primórdios da civilização por um sistema de valores, normas e regras, o Direito se consubstancia em uma tecnologia requintada e de fundamental importância para convivência da espécie política que é a humanidade.
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Buscando suas fontes na Moral, erigindo seus vetores através da Ética Prática e tendo por objeto o homem na, e pela, sociedade, o Sistema Jurídico garante aos grupos e indivíduos segurança de conduta frente à alteridade, norteando toda espécie de atos práticos e recobrindo-lhes de garantias através de um sistema de “normas de ação” comissivas e omissivas (direitos e deveres). Na perspectiva de que é impossível ignorar o impacto técnico-histórico na sociedade, em matéria de soluções institucionais, o sistema jurídico é estudado no presente trabalho como um elemento estrutural do Estado, sob o paradigma da cibercultura, da sociedade do conhecimento e dos “sistemas inteligentes”, auxiliares do governo eletrônico. O objetivo do artigo é propor uma solução institucional para o que podemos chamar de Ágoras Virtuais, ou Espaços Públicos Estatais de Deliberação, ou seja: como o governo eletrônico pode produzir suas normas de ação, partindo da idéia de que o Estado tem uma causa instrumental, que é o direito por ele produzido e garantido, este mesmo direito que, num efeito de retroalimentação, tem supremacia sobre o Estado, limitando-lhe o poder e conferindo-lhe legitimidade, pela participação democrática pluralista. Isto porque, diferente dos insetos, que formam comunidades que absorvem seus indivíduos em amálgamas indistintos, a comunidade política humana é formada por seres únicos, livres e iguais, que são capazes de criar universos morais (verdades), em razão da incidência de vetores éticos construídos pela experiência histórico-cultural de cada um, logo, a exigência civilizada de convivência pacífica através da busca das condições que devem ser satisfeitas para uma participação satisfatória em argumentações, bem como a formulação de bases teóricas para atingir tal desiderato, é a justificativa. Como recursos, utilizamos a exploração bibliográfica, e o método é o dialético, buscando a síntese das deduções frutificadas na pesquisa. Nas conclusões, fazemos proposições e indicamos possíveis vetores de modelização de sistemas especialistas gestores de ágoras virtuais no sentido de o governo eletrônico poder configurar-se como forma de solução legítima para os problemas advindos da convivência social de nosso tempo.

2. O DIREITO COMO CAUSA INSTRUMENTAL DO ESTADO
A forma de pensar e de agir do ser humano nos dias atuais tem provocado profundos impactos no convívio social, sobretudo, por meio da evolução tecnológica da informação e comunicação, que aproxima, em tempo real, os universos morais de diferentes comunidades. Como conseqüência de tais avanços, é o surgimento de inéditos desafios para o Estado e o direito, na manutenção da sociedade.
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Com a evolução das tecnologias associadas à Ciência, antigas fronteiras foram quebradas, possibilitando a formação de uma civilização global, na qual, a vida de cada ser humano se encadeia em uma interconexão de todas as comunidades. Esta interconexão de todas as regiões do planeta se dá através do uso em massa de uma malha de redes, criando assim uma realidade planetária global, intermediada por uma realidade virtual, que podemos chamar de ciberespaço37. Neste panorama, as ações do homem contemporâneo sofrem mudanças incomensuráveis em todo o prisma da vida social. A vida cotidiana tem sido cada vez mais interrelacionada com a política e a economia, em nível global, em relações de causa e efeito: “Essas profundas mudanças científico-tecnológicas implicam mudanças profundas no homem e na realidade humana e a tal ponto que se fala do surgimento do homus ciberneticus como o sucessor do homus sapiens” (COSTA, 2006, p. 164). Em decorrência de tais avanços, essa atração entre comunidades proporciona vários choques, entre outros, os mais notados, de culturas, costumes, política e crenças, cujas conseqüências para a humanidade e a vida planetária, como um todo, são, apenas parcialmente conhecidas. É, sem dúvida, um momento histórico sem precedentes, pois, é somente com o ciberespaço, que nos encontramos na inédita situação de poder ver a informação difundir-se livremente sem nenhuma intermediação para fundir-se, deduzir-se e, num constante movimento de ação e retroação, construir-se coletivamente em renovado conhecimento. Entretanto, vale aqui a advertência de Pierre Lévy:
Mas compreendam bem: Não quero dizer que todas as novas dominações de um meio de comunicação determinam automaticamente o regime polí‑ tico correspondente, mas sim que certas mudanças políticas só se tornam possíveis – pensáveis até – pela via da existência de media apropriados. De resto, parece‑me que os regimes políticos arcaicos não conseguem manter-se eternamente quando uma proporção significativa da população que subjugam acede a novos meios de comunicação38. O receio que as ditaduras têm pela imprensa livre, pelos media audiovisuais planetários
37 O termo ciberespaço, estudado, entre outros, por LÉVY (2004, 2002, 2001 e 1999) e CASTELLS (2006 e 2003), foi criado pelo escritor William Gibson no livro Neuromancer (1984), é entendido, para os efeitos deste trabalho, como: espaço-tempo eletrônico criado pelas redes de comunicação e as interconexões entre seres humanos, comunidades, dispositivos e computadores multimídia (LQES, 2009). 38 Interessante notar que temos fatos diários corroborando com esta última afirmação. Para exemplificar, citamos: (1) as imagens veiculadas, por telefones celulares, sobre a explosão de violência após as eleições presidenciais no Irã (FOLHA, 2009); e (2) o bloqueio, pelo governo chinês, ao acesso à Loja Online “iTunes”, da Apple, após a página de crítica do álbum Songs for Tibet ter atraído intenso debate entre ativistas pró-Tibete e nacionalistas chineses (BBC, 2008).
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difundidos por satélite e pela Internet é perfeitamente justificado (2002, p. 36 ‑ grifamos).

Essa conjuntura permitiu ao citado Autor formular a tese de que passamos a viver em um novo “espaço antropológico39”, que denominou “espaço do saber”, e que nos impõe admitir que passamos a habitar um universo ético transformado pelo saber e pela inteligência coletiva (2007, p. 24). A constatação desse novo espaço se dá por vários fatores: velocidade, pois jamais a evolução das ciências e das técnicas foi tão rápida; massa, pois se tornou impossível reservar o conhecimento a classes de especialistas; e ferramen‑ tas, pela existência de instrumentos (motores de busca) para filtrar a informação pertinente e efetuar comparações segundo significações e necessidades: “A informática comunicante se apresentaria então como a infra-estrutura técnica do cérebro coletivo ou do hipercórtex de comunidades vivas” (LÉVY, 2007, p. 25). Nesse sentido, o laço social passa a estar imbricado com a relação com o sa‑ ber, onde as dimensões éticas e estéticas são tão importantes quanto os aspectos tecnológicos e organizacionais. E isto, sem dúvida, favorece a idéia de igualdade, possibilita o diálogo multicultural e facilita o entendimento. Para esclarecer melhor essa idéia, Pierre Lévy exemplifica com o que chama de “Governação Democrática através do Mercado”, sem, antes, advertir:
A causa parece óbvia: o capitalismo somente procura “ganhar” sempre mais numa corrida sem fim em que a moeda, a informação e a mercadoria, já quase indissociáveis, se geram reciprocamente sem finalidade humana atribuível, cavando sempre mais o fosso entre os abastados e os excluídos. Este processo cego apenas seria limitado pelas relações de força impostas por movimentos sociais ou pelas restritivas leis decretadas pelos governos sob a pressão dos povos. Por um lado, a “lei dos lucros”, insensível, uni‑ camente preocupada com o cálculo econômico; pelo outro, a democracia, a lei da cidade, que faz prevalecer o interesse comum, a vida concreta da comunidade e os valores humanos. Num caso, pelo que se diz, a pretensa “liberdade” neoliberal transforma‑se em “ditadura dos mercados”, em poder do dinheiro, em opressão e em exploração dos mais fracos. No outro, em contrapartida, do lado certo, encontra‑se o cuidado por solidariedade, fraternidade e igualdade, que não pode ser apenas formal (2002, p. 147).

Por este ponto de vista, a “mundialização” através do ciberespaço, representaria o “triunfo do mercado sobre a democracia”, uma vez que o direito, por ser predominantemente nacional, não consegue mediar – e compensar – as desigualdades. Contudo, LÉVY nos lembra que a conexão mundial dos computadores, sob o paradigma do Espaço do Saber, abre justamente a perspectiva de
39 [...] um sistema de proximidade (espaço) próprio do mundo humano (antropológico) e, portanto, dependente de técnicas, de significações, da linguagem, da cultura, das convenções, das representações e das emoções humanas (2007, p. 22).
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governo democrático mundial, tendo a economia como locomotiva. Exemplos utilizados pelo Autor, sob a orientação desse novo espaço antropológico, são bastante esclarecedores. Primeiro, se partirmos do princípio que sabemos, logo, sabemos que, hoje, a economia se move pelo consumo, e não pela oferta:
Cada um dos atos de consumo contribui para orientar a economia. Favorecer esta ou aquela evolução só depende de nós. Por conseguinte, proponho esta conversão do olhar: em vez de considerar o mercado e, particularmente, o em linha, como um ditador antidemocrático, olhemo‑lo como um instrumento de pilotagem, um vasto sistema eleitoral permanente no seio do qual todo e qualquer ato de compra representa um voto. Quanto mais considerarmos o mercado – e, particularmente, o cibermercado, mais transparente que o clássico – desta forma, mais ele se tornará um instrumento de pilotagem da economia com fins cívicos ou ecologistas (2002, p. 149).

Segundo. Da mesma forma, se sabemos, logo, sabemos que a maioria dos capitais que nutrem as empresas – e também boa parte das receitas dos governos –, hoje, são provenientes das poupanças de pessoas físicas (os fundos de pensão geridos por sindicatos são um bom exemplo). Nesse sentido, ao decidirmos sobre uma aplicação de longo prazo, e nos comprometemos com um investimento socialmente responsável, chegaremos à conclusão de que raciocínios éticos e econômicos coincidem, uma vez que: “Num mundo cada vez mais interligado, deteriorar o seu meio ambiente natural e humano não constitui um comportamento são”:
Por esta ordem de idéias, certos grupos de acionistas movidos por obje‑ tivos éticos, políticos ou ecologistas podem ter acesso aos conselhos de administração das grandes companhias e desempenhar um papel muito ativo na determinação de suas políticas. É o movimento do shareholder activism40 (2002, p. 151) .

E é nesse sentido, que concordamos com Pierre Lévy, quando diz:
O cidadão do mundo e o profissional que pratica a inteligência coletiva em linha são a mesma pessoa. Por conseguinte, não existe “capitalismo” de um lado e “democracia” do outro. Nós fabricamos, constantemente e juntos, o mundo em que vivemos. A solução dos grandes problemas, as guerras, a miséria, as catástrofes ecológicas, também pode ser coorde‑ nada e aplicada no exercício das nossas responsabilidades profissionais, não somente pela via das eleições. Com a Internet, a política torna‑se um assunto doméstico: estamos “entre conhecidos” numa sociedade mundial transparente cujos agentes estão cada vez mais estreitamente interligados. Pensamos todos juntos na mesma rede: a da inteligência coletiva (2002, p. 153, grifos nossos).
40 Ativismo dos Acionistas (N. dos A.: eventuais traduções do inglês constantes deste ensaio são feitas pelos A., utilizando o DICIONÁRIO MICHAELIS – UOL [S.d.]).
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Com isso, fica claro que o saber se torna uma infra-estrutura, pois nunca a prosperidade de nações, regiões, empresas e indivíduos dependeram tanto de sua capacidade de se adaptar e navegar neste espaço. Estas relações de comunidades “híbridas” trazem à tona, a necessidade de se pensar numa nova forma de estruturação do Estado e sua Administração, com vistas na compreensão da democracia desse novo tempo. Nesse sentido, ZUGMAN: “no início do século XXI, é inaceitável que as pessoas tenham de perder horas e dias para fazer, de maneira presencial, o que se pode ser feito a distância com auxilio da eletrônica” (2006, p. 12). Neste cenário, o Governo Eletrônico que se diga “Democrático”, na formulação de modelos para seu desenvolvimento, e principalmente na regulação social, não pode prescindir do Direito, com todo seu arcabouço de normas de ação e omissão resolutórias de juízos práticos, como elemento estrutural para alcançar soluções justas e eficientes para os cidadãos. E todo esse contexto provoca o rejuvenescimento da Teoria Geral do Estado, principalmente, em suas bases jusfilosóficas, que, no dizer de SOUZA JUNIOR, abrem em leque os temas de base do direito público, como a posição dos direitos fundamentais, os valores norteadores do ordenamento, e a institucionalização, divisão e o controle dos poderes e dos atos das autoridades, porque “as instituições jurídicas não podem ser isoladas do contexto sóciopolítico e cultural de origem, nem dos fundamentos axiológicos do convívio humano” (2002, p. 18-19). Conforme deduzimos da afirmação de MIRANDA: “a essência do político encontra-se, sobretudo, na dialética do grupo humano e do poder”. O grupo hu‑ mano empresta enquadramento ao poder, pelo fator cultural, que modela os homens que o exercem e, dessa maneira, reconhece legitimidade no poder. Por sua vez, o poder político gera um modo próprio de agir que, no Estado, chamamos de “autonomia” – ou poder de mando. Logo, o Estado é a “institucionalização do poder” (2007, p. 1-3). Ora, tendo por certo que o modelo de Estado que nos apresentam os tempos hodiernos da civilização ocidental é o Estado Democrático de Direito41, importa na conclusão de que o direito assume status de elemento estruturante do Estado, uma vez que, se este é “comunidade e poder juridicamente organizados”, somente o “Direito permite passar, na comunidade, da simples coexistência à coesão convivencial e, no poder, do facto à instituição” (MIRANDA, 2007, p. 3). Reconhecemos que é sobremaneira difícil a apreensão da idéia de Estado, por isso, socorremo-nos de João Baptista Machado:
41 Entendemos despiciendo citar mais que a “queda do Muro de Berlim”, como marco histórico para a hegemonia da cultura democrática atual. Sem embargo, na contramão, há notícias de resistências totalizantes, que tomamos a liberdade de encarar com “raríssimas exceções” que sequer gozam da mínima credibilidade entre a diplomacia, q.v. in Golpe em Honduras 'não vai durar 2 ou 3 meses', diz Amorim (BBC, 2009).
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[...] o Estado não parece ser uma realidade com assento exclusivo na esfera do cultural, mas representa uma realidade de ordem mediadora entre dois mundos – entre o mundo ideal da cultura (universo cultural) e o mundo da faticidade social empírica, o mundo das necessidades, dos interesses e das forças que impulsionam a sociedade (apud MIRANDA, 2007, p. 3, Nota 10).

Daí forçoso concluir que o homem está imbricado nesse ambiente, sobretudo por consubstanciar-se em um ser político, que depende de uma ordem de convivência, uma ecologia, “onde todos e cada um encontrem espaços abertos e seguros para a busca da felicidade pessoal” (SOUZA JUNIOR, 2002, p. 24-25). E por que o Direito é fundamental nesse processo? Qual sua relação com a política e, sobretudo, com a ética? Antes de nos aprofundarmos nessa seara, é importante ressaltar que não podemos confundir essas três esferas. Inicialmente, temos que a política – em cuja essência, como vimos, está a relação mando-obediência – ocupa-se primordialmente da realização prática de um “bem comum” erigido pela consciência ética de uma dada comunidade em um dado momento histórico; para tanto, indubitável requerer – a política – autonomia legítima (a que podemos chamar justiça) para a criação e manutenção concreta de uma ordem segura de convívio (direito). Ensina-nos SOUZA JUNIOR, que vários Autores atribuem a MAQUIAVEL a descoberta da autonomia do político frente ao ético, ou, mais precisamente, que há o mundo do Estado e o mundo pessoal, socorrendo-se em FREUND para sintetizar o pensamento do ilustre Secretário Florentino:
Qual é, então, o papel da ordem política? Não é o de ser, em primeiro lugar, justa, mas o de ajudar os seres humanos a viver juntos, oferecendo as condições para que cada um busque realizar aquilo que se sinta capaz. Importa, pois, que a ordem harmonize as desigualdades, para atenuar seus efeitos, suscitando o consentimento a outras desigualdades. Nenhum dos regimes escapa a este destino: diferem entre eles porque transigem, cada vez, sobre desigualdades diferentes (2002, p. 29, Nota 24).

E, a partir da constatação de que ética e política não podem ser colocadas no mesmo plano ontológico, SOUZA JUNIOR nos explica que os teorizadores do Estado e do Direito passaram a contribuir para a construção e renovação de um consenso político sobre valores éticos; estes, que deveriam ser postos em uma Constituição, se convertendo, então, em instrumento último e fundamental para garantir e presidir a supremacia de uma ordem jurídica atenta à governabilidade, sem perder de vista os imperativos éticos revelados pela História: “Deste esforço vem resultando uma convergência prática impressionante, em torno da arquitetura tradicional do Estado Democrático constitucional pluralista de nossos dias (2002, p. 35-36). É, no mesmo sentido, a constatação de HABERMAS:
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[...] é possível mostrar que determinadas estruturas da consciência moral devem ter desempenhado um papel importante na simbiose entre direito e poder do Estado. Um papel semelhante é desempenhado pela consciência moral, na passagem do direito tradicional para o profano, através do direito positivo colocado à disposição do legislador político. Esse momento de indisponibilidade, que no direito moderno forma um contrapeso evidente à instrumentalização política do medium do direito, resulta no entrelaçamento entre política, direito e moral (2003b, p. 234).

Daí, temos que, ao invés de perdermo-nos em confusão, podemos extrair a relação entre direito, ética e política, que se inicia no momento em que:
Na experiência concreta da História, a política questiona, dia a dia, no trato dos assuntos públicos, às vezes muito delicados, a consciência ética da comunidade. Essa, lastreada no lado bom do ser humano – que é capaz de criticar suas próprias misérias e, a partir daí, de aspirar aper‑ feiçoamento na direção do bem vai propondo, em resposta, desafios éticos (SOUZA JUNIOR, p. 36, grifos do A.).

Na passagem, temos que o direito enfrenta esses desafios éticos e, segundo várias condicionantes, dentre as quais, as econômicas, sociais, políticas, históricas etc. – que são da própria sociedade e da política nela praticada – “recortaos”, transmudando o substrato, pela técnica normativa, em “preceitos jurídicos legislados”, que “são executados, pelo aparelho político estatal, visando produzir, na comunidade de destino, os avanços éticos-sociais esperados” (SOUZA JUNIOR, 2002, p. 36-37, grifos do A.). A comunidade, por sua vez:
[...] vai se adaptando às mudanças, em diálogo circular cumulativo com os preceitos jurídicos inovadores. Nessa relação, novos questionamentos e novos desafios são levantados pela consciência ética ao poder político estatal, gerando intervenção do direito. Diálogos bipolares abrem‑se a trílogos. E o ciclo continua e avança (SOUZA JUNIOR, 2002, p. 37, grifos do A., sublinhados nossos).

Vemos aqui, que SOUZA JUNIOR se demonstra otimista ao concluir que a incidência dialética da História sobre a maquinaria Estatal produz um processo ascendente de filtragem, depuração e enriquecimento dos valores éticos, no que não somos, de inteiro, de acordo42. Contudo, impossível não concordar com o
42 Particularmente, preferimos manter certa precaução quanto a um “avanço ético ascendente”, ficando mais ao estilo de SOROKIN e sua “teoria das flutuações dos supersistemas socioculturais” (conf. GUSMÃO, 1972). Sobretudo, porque ultrapassa os limites deste ensaio perquirições no que concerne à influência negativa ainda pretensamente totalizante das mídias tradicionais – embora em visível derrocada, q.v. in Estatísticas, dados e projeções atuais sobre a Internet no Brasil (TO BE GUARANY!, 2009) – entendemos por bem, deixar aqui apenas esta pequena nota de advertência.
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Autor, quando adverte: “onde a consciência ética enfraquece, o próprio direito se enfraquece” (2002, p. 38). De qualquer maneira, fica evidente a relação estrutural no Estado entre a política, a ética e o direito, concebendo, este último, como uma escolha política, ou, mais precisamente, pelo:
[...] sentimento humano profundo do direito: o de ponte que interliga ética e política, respeitando a autonomia de ambas. O direito vem a ser, em síntese, a arte ou a techne devotada à dificílima e crucial missão de aproximar e harmonizar o ético e o político [...] (SOUZA JUNIOR, 2002, p. 33‑34, sublinhado nosso).

E essa harmonia surge na fenomenologia, diante do caso concreto, pela incidência da razão prática, que é o universo tecnológico do direito. Ora, temos, portanto, que, ao mesmo tempo em que o direito necessita do Estado – como institucionalização do poder – para ter força cogente (obrigatória), o Estado, por sua vez, não pode prescindir do direito, para institucionalizar-se e operar. Em outras palavras: o direito é causa instrumental do Estado, porque direito e Estado estão ligados por um nexo de operacionalização da ação. Pois bem! Diante de tudo que se colocou até agora, desde a constatação da interconexão mundializante em tempo real dos universos morais particulares, via ciberespaço, até a imbricação operacional entre Estado – e, a reboque, Governo e Administração – e o direito na realização ética através da política, temos por certo, então, que essa realidade altera mundialmente a forma dessa “governação” gerir suas relações internas e externas, requerendo a edificação de critérios na criação de normas legítimas que estejam de acordo com estas concepções. Desse modo, a “governança eletrônica” – que tomamos, aqui, para designar toda esta complexa maquinaria43, para atender à demanda por justiça política de uma sociedade cada vez mais inteligente no todo, deve ir além dos procedimentos meramente formais, se faz impreterível a necessidade de ser observada a validade material das normas que produz e, para se alcançar esse objetivo, o governo precisa atentar para a necessidade de se pensar em um relacionamen‑ to discursivo aberto e amplo para a produção de leis, pois, como nos lembra HABERMAS, “o processo legislativo forma no sistema do Direito o lugar próprio da integração social” (2003a, p. 48-63). É sobre algumas premissas possíveis para esse ambiente é que nos debruçamos, a seguir.
43 Logo, não se confundindo, scricto sensu, com os sentidos técnicos de governo e administração – e muito menos com a simplória gestão administrativa via implantação de sistemas leitores de bancos de dados do Estado Tecnoburocrático.
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3. PARÂMETROS PARA A LEGITIMIDADE DO CIBERDIREITO
Entendemos por bem iniciar este item, trazendo para nossa época, o debate de ROUSSEAU sobre a legitimidade do Governo que, se resultou em duvidas a mais de 200 anos, hoje encontra outras condições para se desenvolver. Ao falar da política, o famoso genebrino já alertava sobre os problemas de comunicação gerados pela relação entre governados e governantes, na qual, estes, que deveriam ser subordinados à vontade geral do povo, acabavam, ao contrário, subordinando aqueles ao seu governo. O debate atual não é diferente do iniciado por ROUSSEAU no século XVIII, nossos governantes continuam, mesmo em um ambiente e época marcada pela evolução da democracia, mantendo comportamentos indiferentes ao princípio democrático, permanecendo, o povo, com um mera participação formal na escolha de seus “representantes”. No desenvolvimento de sua teoria política ROUSSEAU já observava a perda do estado natural e a transformação do estado civil em um ambiente dominado por governos que governavam para si e não para o povo: “[...] os direitos do povo face ao poder não podem ser defendidos por aqueles que se acham comprometidos com esse mesmo poder” (apud OLIVEIRA, 2000, p. 63). O que faz OLIVEIRA concluir:
O princípio moderno de representação resulta, inevitavelmente, num aumento progressivo do poder do Estado sobre a sociedade, uma vez que torna débil e inibe continuamente os poderes intra‑sociais que tornam efe‑ tivas a independência e o caráter consistente da sociedade. A ambivalên‑ cia da representação está em que o poder representativo tem a tendência a dominar, sozinho, a sociedade que ele apenas deveria “representar”. Assim, um sem número de vezes não nos sentimos representados, mas oprimidos por um Estado que deveria apenas expressar nossa vontade (2000, p. 104‑105).

E fazia o próprio ROUSSEAU dizer:
Desde que o serviço público deixe de constituir a atividade principal dos cidadãos e eles preferem servir com sua bolsa a servir com sua pessoa, o Estado já se encontra próximo da ruína. Se lhes for preciso combater, pagarão tropas e ficarão em casa; se necessário ir ao conselho, nomearão deputados e ficarão em casa. À força de preguiça e de dinheiro, terão, por fim, soldados para escravizar a pátria e representantes para vendê-la (1997, p. 185).

Diante disto, sobrevivem questões sobre a possibilidade de se extrair do “direito político” regras para a convivência e para a unidade social. Ou, em outras palavras: se é possível o poder legítimo na organização social?
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Sob este prisma, e considerando tudo o que foi colocado até agora, sobretudo com relação à idéia de um homo ciberneticus legislador, podemos afirmar que a norma legítima será aquela que garante a cada ser social as mesmas liberdades. Assim como leis morais, que, em sua essência, possuem essa condição, não obstante, as normas jurídicas precisam ser assim constituídas pelo legislador político sem negligenciar o princípio democrático. Dessa maneira, as leis criadas por estes novos legisladores devem procurar alcançar a vontade dos indivíduos, que as aceitam por estarem de acordo com suas necessidades, uma vez que o legislador tem a função política de representar a vontade do povo, assim como afirmava ROUSSEAU: “O indivíduo é livre, não somente porque a lei o protege contra arbitrariedades de vontades individuais, mas sobretudo porque ele mesmo passa a desempenhar o papel de autor das leis” (apud OLIVEIRA, 2000, p. 84). Para isso, esse novo legislador deve ser capaz de encontrar a verdadeira função da comunicação pela linguagem, que é produzir o entendimento mais universal possível, abstendo-se de agir como um ente privado que busca seu sucesso pessoal, conforme postulado de HABERMAS: “[...] os legisladores não são autorizados a agir na posição estratégica de sujeitos privados que buscam seu próprio sucesso [...]” (apud LUCHI, 2009, p. 57). E há várias vantagens para que a ação humana seja norteada por regras, máxime porque estas são “normativas” conforme, na esteira de WITTGENSTEIN, nos esclarece HABERMAS (2002b, p. 94): a) “coagem” a vontade, de modo que os sujeitos agentes procuram evitar possíveis choques com elas (seguir uma regra significa a abstenção a uma “transgressão”); b) quem segue uma regra pode cometer erros e se expõe à crítica sobre possíveis erros (em oposição ao conhecimento prático, o modo como se segue uma regra exige o juízo a respeito de se um dado comportamento está correto, um saber explícito da regra); c) fundamentalmente, aquele que segue uma regra deve poder justificarse perante uma crítica; d) com isto, ninguém pode seguir uma regra solipsisticamente, apenas para si (o domínio prático de uma regra significa a capacidade de participação social em uma prática familiar, na qual os sujeitos já se encontram, tão logo mutuamente se certifiquem reflexivamente de seu conhecimento intuitivo em relação aos objetivos da justificação). Além disso, para o universo epistêmico do governo eletrônico, pensar em comportamento segundo regras é usar a linguagem binária do direito, que é também a da tecnologia digital (0 e 1), conforme podemos deduzir do filósofo de Frankfurt:
Wittgenstein esclarece a generalidade de sentido de Frege com a “concor‑ dância” já mantida dos participantes em uma prática comum. Por aí se
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expressa o reconhecimento intersubjetivo implícito das regras seguidas. Diante de um tal fundamento, podem os participantes “tomar” uma conduta particular como exemplo de uma regra, ou compreendê‑la como “satisfação” de uma regra. Porque fundamentalmente se pode chegar a controvérsias sobre a correção de uma conduta determinada, o “sim” ou “não” implicitamente em jogo, de um possível crítico, pertencem ao sen‑ tido de validez normativa de uma regra. Com a codificação binária como “verdadeiro” ou “ falso”, é introduzido simultaneamente um mecanismo de autocorreção no próprio comportamento guiado por regras (2002b, p. 94‑95).

Assim, como preceituava ROUSSEAU: “A vontade geral, como regra suprema ou princípio regulador, exigirá a mediação da lei para se manifestar concretamente, pois esta é nada mais que a declaração daquela. A lei é um “ato”, o meio, o veículo de expressão dessa vontade” (apud OLIVEIRA, 2000, p. 86). Logo, fica claro que a questão da legitimidade não se encerra apenas na esfera formal – vencer uma eleição44 significa ter o privilégio de exercer o poder ditando normas pelo tempo de um mandato – nem muito menos em um simples reconhecimento das pessoas dos governantes, mas, como diz MIRANDA: “Trata-se também do projecto ou desígnio que pretendem realizar e dos mecanismos institucionais em que se inserem” (2007, p. 19).
Não se trata só de adesão ou de consentimento de facto (que pode assumir diferentes graus, desde o meramente aclamatório às formas complexas de representação política). O problema da legitimidade é um problema de Direito, da ideia de Direito, de um conjunto de valores que, de uma forma ou de outra, liguem governantes e governados (MIRANDA, 2007, p. 19).

Nesse sentido – como vimos a pouco – se o direito funciona como uma ponte entre a ética e a política, as normas jurídicas não podem estar dissociadas do universo moral a que se destinam – ou, ao qual pretendem governar – elas devem provir do “projeto político” da comunidade, que passou pela forma do direito, ou seja, sobreviveram a critérios de adequação à realidade (possibilidade, cabimento, aceitação, não rejeição etc.) e receberam a dose de poder origi‑ nário do Estado (coação) que, por sua vez, foi instituído pelo direito. Como diz MIRANDA: “[...] legitimar o poder equivale a limitá-lo de acordo com os fins correspondentes à legitimidade” (2007, p. 22). Desse modo a legitimidade só pode ser garantida pela aceitabilidade, ou seja, inserção do princípio democrático da norma, no qual cada cidadão, sem coação aceita as regras jurídicas que lhe são apresentadas em razão destas estarem intimamente ligadas ao consenso de liberdade. É o princípio kantiano, resgatado por HABERMAS: “uma norma é legítima quando os
44 Sabe-se lá com que técnicas de propaganda política.
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cidadãos a aceitam como se eles a tivessem dado a si mesmos” (2003a, p. 49). E qual o caminho para a produção desse direito legítimo? Qual o lugar desse “espaço dialogal”? Para SOUZA JUNIOR:
A democracia é o ideal contemporâneo de organização institucional do Estado que, pressupondo e envolvendo todo o processo de representação e de participação da comunidade na esfera do poder, consegue substan‑ tivamente respeitar a autonomia da ética e da política, articulando‑se de forma legítima (2002, p. 41‑42)

Para MIRANDA:
A menção da democracia na Constituição incorpora uma regra prescri‑ tiva, não uma regra negativa ou proibitiva. Obriga que na expressão e na organização políticas se observem as regras inerentes a uma ordem constitucional democrática, obriga a que se siga o “método democrático” de acção política, e não qualquer método assente na subversão ou na violência (2007, p. 34‑35).

Porém, cabe a advertência deste último, ao ensinar que por sistema de go‑ verno “democrático” podemos entender tanto no sentido de favorável à democracia (sendo antidemocrático o que propugna um sistema político não democrático) quanto no sentido de conforme à democracia (sendo antidemocrático o que utiliza métodos não democráticos de acção política para realizar o seu programa, democrático ou não) (2007, p. 33). Como vemos, buscar esse caminho sem esquecer os paradigmas culturais e, sobretudo, as possibilidades colocadas na primeira parte deste ensaio, conduz a uma liberdade política que, inexoravelmente, desemboca no pluralismo:
A livre formação e a livre comunicação de idéias e opiniões conduz ao reconhecimento de existência de diversas correntes políticas ou politicamente relevantes, bem como a possibilidade de organização dos cidadãos para a crítica dos governantes e para sua substituição pacífica, maxime através de partidos políticos (MIRANDA, 2007, p. 28).

Por fim, para alcançarmos, na atual realidade, a efetiva realização da soberania de uma democracia participativa e solucionar os questionamentos de ROUSSEAU sobre a possibilidade de um poder legítimo, há a necessidade de se pensar em uma nova linguagem em que o indivíduo possa ter uma participação nas deliberações do poder público de forma mais presente do que a mera formalidade de se escolher um representante. Só assim poderemos alcançar uma democracia participativa e legítima, admitindo-se que existam, hoje, necessidades diferentes de cidadãos e comunidades de cidadãos.
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Na sua teoria política ROUSSEAU, afirma, ainda, a necessidade da estruturação do poder político e apresenta uma dinâmica participativa entre o governante e o governado de forma educativa e democrática, como esclarece OLIVEIRA:
Esta dinâmica revela, na verdade, um duplo caráter educativo da teoria política rousseaniana, que forma como que um círculo de implicação mútua entre educação e participação política. Tomando‑se a relação numa das direções, e sabendo‑se que a vontade geral é a essência da soberania, estará implícito que tanto menos permanecerá muda e mais vigorosamente se manifestará, quanto mais continuamente for exercida (2000, p. 87‑88).

Desta forma, a vontade geral como essência da soberania do povo, tende a ser exercida se for manifestada expressivamente pelo princípio da democracia participativa e, o cidadão dos dias atuais, poderá ter a ferramenta que proporcionará essa efetiva participação nas deliberações da gestão da máquina pública. Esse quadro pressupõe, então, direitos de comunicação e expressão nunca antes experienciados na construção das normas editadas pelo governo “tradicional”, mas que não são nada estranhas ao governo eletrônico. Em outras palavras: temos diante de nós a condição de apreender, em toda sua plenitude, a afirmação de que: “[...] todos os seres humanos são livres e iguais que devem ser titulares de direitos políticos e, assim, interferir conjuntamente, uns com os outros, na definição dos rumos do Estado e da sociedade em que têm de viver” (MIRANDA, 2007, p. IX). Do exposto, uma formulação de sistema de comunicação para uma efetiva participação popular na elaboração de um corpo normativo, que se aproxime de um consenso de liberdade e de materialização do princípio democrático das Ágoras Virtuais, pode tomar por base o que APEL chama de comunidade ideal de comunicação, pois o surgimento do ciberespaço traz consigo a necessidade da humanidade pensar em uma nova sociedade, com um novo modelo discursivo, em âmbito global. É impossível negar que a incorporação de tecnologias de informação e comunicação, como a inteligência artificial e a realidade virtual, condicionam a existência de uma sociedade voltada para uma relação discursiva desprendida de crenças e paradigmas, até então tidos como verdades absolutas. Esta comunidade ideal de comunicação seria, portanto capaz de uma deliberação universal de todas as pretensões, pois a discussão argumentativa substituiria as visões particulares por um consenso coletivo dotado de uma ética normativa, pressuposto básico para, através da reciprocidade discursiva, fundar um ciberdireito dotado de legitimidade. Nas palavras de Karl Otto Apel: “Com a suposição a priori necessária, de uma comunidade ideal de comunicação [...] também a validade intersubjetiva de uma ética normativa da comunidade ideal
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de comunicação já deve ser sempre suporte e subjacente” (apud COSTA, 2006, p. 168). Significa dizer que o avanço da tecnologia da informação atingindo amplamente todo o planeta, traz a necessidade de se pensar em um novo modelo de comunicação argumentativa, dentro do âmbito do ciberespaço para alcançar uma ética normativa dotada de legitimidade no espaço do ciberdireito. Assim como COSTA, baseando-se na teoria da comunidade de argumentação de APEL afirma: “O a priori da comunidade de argumentação implica na pressuposição de uma ética comunicativa intersubjetiva ou ética do discurso” (2006, p. 168). Como a rede planetária também traz problemas e riscos com alcance planetário, temos que ir além de crenças e paradigmas individualistas para buscar uma resposta à altura desses novos desafios. Há, portanto a necessidade de alcançar um resultado ético voltado para a responsabilidade de cada ser humano em prol de um todo, apontando para uma cooperação solidária. Assim, nesse sentido:
A ética do discurso, como ética da responsabilidade intersubjetiva so‑ lidária, aponta, pois, para a institucionalização dos discursos práticos como mediação necessária da cooperação racional voluntária planetária de todos os indivíduos humanos corresponsáveis e de tal modo que os in‑ divíduos enquanto membros da comunidade de comunicação, capacitados para o discurso, se coloquem em última instância, com a competência de decidir e deliberar racionalmente, isto é, de forma intersubjetivamente vinculante, frente às escolhas humanas e frente às instituições (COSTA, 2006, p. 167).

Essa comunidade ideal de comunicação baseada na ética do discurso aponta, então, para o futuro da sociedade global, para uma idéia de avanço no sentido moral e jurídico, podendo alcançar uma democracia participativa em seu sentido mais amplo, tendo como conseqüência um poder político que resulta em normas legítimas atendendo a vontade geral da sociedade, e por fim sanando os questionamentos de ROUSSEAU, já apresentados. Essa comunidade ideal de comunicação, então, com base na teoria discursiva argumentativa de uma ética do discurso prático, somente pode ser constituída em um ambiente de deliberação livre de repressão, que é o ciberespaço, pois é a tecnologia da informação e comunicação a ferramenta para se alcançar esse ambiente de forma igualitária, de acesso a todos, que por essa interconexão estão ligados em uma rede global de informação que pode se transformar, por conseqüência, numa comunidade de deliberação. É nesse sentido que caminha COSTA:
Esta instituição de deliberação universal, planetária, está implícita no a priori da comunicação e deve ser vista não só como meta‑instituição de
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todas as instituições sociais contingentes surgidas na história, mas como a instância de legitimação e de deslegitimação de todas as instituições de fato existentes ou a serem criadas (2006, p. 169).

Dentro desse âmbito deliberativo há a necessidade de se pensar em uma responsabilidade solidária entre os membros da sociedade conciliando todos os interesses individuais com os interesses de todos. Neste horizonte APEL afirma: “A exigência da responsabilidade solidária dos seres humanos deve ser cumprida, embora que as condições de possibilidade de seu cumprimento nem sequer tenham sido constituídas” (apud COSTA, 2006, p. 169). A essa altura, temos que as “condições de possibilidade” não visualizadas por APEL para a sua comunidade ideal de comunicação, se tornam realidade a partir do momento em que seus pressupostos são possíveis quando aceitamos o ambiente técnico-cultural do e-GOV, onde Ágoras Virtuais consubstanciam-se em espaços do saber (LÉVY), máxime de observados os pressupostos do processo de discussão racional (HABERMAS), no ciberespaço. Isto nos permite formular a hipótese que é plenamente possível se pensar na existência de comunidades ideais de deliberação, como modelo teórico de espa‑ ço do saber‑fazer democrático, norteador da produção de sistemas especialistas de governança eletrônica. Nesse contexto, é importante trazer para as Ágoras Virtuais, os pressupostos de HABERMAS para que haja a participação satisfatória em argumentações. Estes exigem: publicidade e inclusão cada vez maior; igualdade de direitos comunicativos; exclusão de enganos e ilusões; e, por fim, não‑coação (2002b, p. 20). Tais pressupostos, que podem ser tomados como regras básicas para a elaboração de instruções de cruzamento de dados, bem como para a inclusão ou exclusão de participantes naqueles espaços democráticos, caso haja adequação ou inadequação as mesmas, são esquematizados na Tabela 1. Como se vê, a observação destes pressupostos torna o processo de argumentação um procedimento autocorretivo. No dizer de HABERMAS: “Neste momento se percebe quando novos argumentos, sob os aspectos das vozes excluídas ou maginalizadas, devem ser levados a sério (2002b, p. 68-69, grifos do A.). E justifica: “Qualidades procedimentais do processo de argumentação fundamentam a esperança racional de que as informações e fundamentos decisivos sejam “postos na mesa” e “venham à tona” (2002b, p. 69).
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Tabela 1. O Processo de Discussão Racional Comunicativa. Pressuposição Enunciado Ninguém que, à vista de uma exigência de validez contro‑ versa, possa trazer uma contribuição relevante, deve ser excluído a todos são dadas as mes‑ mas chances de se expressar sobre as coisas a comunicação deve estar livre de restrições, que impedem que o melhor argumento venha à tona os partici‑ pantes devem pretender o que dizem (porque nos discursos práticos os participantes são simultaneamente os envolvidos) Finalidade evitar que o círculo de participantes não seja suficientemente representativo considerar igualmente os interesses e orientações de valores de cada envolvido Consequências ampliação da agenda e aperfeiçoamento da base da informação Função estabelece as regras do processo de argumentação (procedimen‑ to), tornando-o autocorretivo

1. Publicidade e Inclusão

2. Igualdade de Direitos Comunicativos

idem

Idem

3. Não-coação

Garantir liberdade de opinião ibidem e evitar fundamentalismos Abertura hermenêutica. Sensibilidade crítica ao autoengano (tanto em relação à autocompreensão, como à compreensão do mundo dos outros)

Ibidem

4. Exclusão de Enganos e Ilusões

Ponderação correta e imparcial dos argumentos

dar condições para que as expressões linguísticas possam manter o mesmo significado

FONTE: Os Autores, com base em (HABERMAS, 2002b, p. 67-74).

O Autor é mais claro nesta passagem:
As qualidades formais da argumentação ganham relevância na considera‑ ção da diferença entre assertabilidade e verdade. Porque “no último instan‑ te” evidências concludentes e argumentos convincentes falham e opiniões mesmo tão bem fundamentadas podem ser falsas, somente a qualidade do processo discursivo de certificação da verdade fundamenta a esperança ra‑ cional de que as melhores informações e fundamentos a cada vez acessíveis estejam realmente disponíveis e, no final, também “contem”. Inconsistências percebidas, que despertam a suspeita “de que aqui sobretudo não se
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argumenta” se manifestam primeiramente quando participantes evidente‑ mente relevantes são deixados de fora, contribuições relevantes são reprimi‑ das, e tomadas de posição de sim e não são manipuladas ou condicionadas através de influências de outro tipo (2002b, p. 69, grifos nossos).

Em outra passagem, mais claro ainda:
[...] objeções sempre novas, desde fóruns sempre mais amplos, perante um público sempre mais competente e maior. Esta dinâmica construída na prática da argumentação põe em movimento uma descentralização de perspectivas singulares de interpretação sempre mais ampla, na qual não se trata de certificação de exigências de verdade, porém na construção e do uso competente de normas morais (e do direito) (2002b, p. 70).

Como vemos, o filósofo de Frankfurt parte da perspectiva de que a sociedade civil, antes de entregar-se a “verdades” transcendentais pré-estabelecidas, é capaz de influir constantemente sobre si mesma através de processos discur‑ sivos instituídos inteligentemente e, na esteira de PREUS, afirmar que: “Uma sociedade é constituída a partir do momento em que for capaz de confrontar‑se consigo mesma em formas institucionais adequadas e em processos normativos de adaptação, de resistência e de auto‑correção” (2003b, p. 189, grifos do A.). E, dessa forma, atingir um “processo de argumentação que não deve perder o seu sentido”, onde:
[...] a forma de comunicação dos discursos deve ser constituída de tal modo, que todos os esclarecimentos e informações os mais relevantes possíveis sejam verbalizados e de tal forma ponderados, que a tomada de posição do parti‑ cipante possa ser motivada intrinsecamente apenas através da capacidade revisora dos fundamentos flutuando livremente (HABERMAS, 2002b, p. 66).

É pertinente esclarecer, que as pressuposições constantes na Tabela 1, fazem parte de um universo bem maior, que é a Teoria do Agir Comunicativo, de HABERMAS. Pela referida teoria, tais pressuposições, por sua vez, partem de três pressupostos pragmático-formais, que são: (1) suposição comum a respeito de um mundo objetivo; (2) racionalidade que os sujeitos supõem reciprocamen‑ te; e (3) validez incondicional dos atos de fala. Partindo de tais pressupostos, os parceiros da comunicação conseguem se entender vencendo dos limites dos mundos da vida divergentes45, porque eles,
45 O mundo vivido (lebenswelt) é o lugar das relações sociais espontâneas, das certezas pré-reflexivas, dos vínculos que nunca foram postos em dúvida. Ele tem três componentes estruturais: cultura, sociedade e personalidade. A cultura é o estoque de saber da comunidade, que contém os conteúdos semânticos da tradição, onde os indivíduos se abastecem dos modelos de interpretação necessários ao convício social. A sociedade, stricto sensu, é composta dos ordenamentos legítimos pelos quais os membros da comunidade regulam suas solidariedades. A personalidade é um conjunto de competências que qualificam um indivíduo para participar da vida social (ROUANET apud MOREIRA, 2004, p. 44-45, Nota 50).
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com visão de um mundo objetivo comum, se orientam pela exigência da verdade, isto é, da validade incondicional de suas afirmações. Dessa forma, o agir co‑ municativo requer uma amplitude considerável de fundamentos: (a) epistêmicos, para a verdade das asserções; (b) pontos de vista éticos, para a autenticidade de uma escolha de vida; e, experiências estéticas, explicações narrativas, padrões de valores culturais, exigência de direitos, convenções, etc., como (c) indicadores para a sinceridade das declarações (HABERMAS, 2002b, p. 46-49). Desta maneira, nenhum procedimento que proteja qualquer argumento pode ser aceito racionalmente: “O processo de argumentação como tal deve permanecer aberto para todas as objeções relevantes e para todos os aperfeiçoamentos das circunstâncias epistêmicas” (HABERMAS, 2002b, p. 59). Com isso:
Podemos apresentar o processo de aprendizagem moral como o alarga‑ mento inteligente e a limitação recíproca do mundo social, que ainda não se recompôs suficientemente, em um caso de conflito dado. Os partidos litigantes aprendem a se incluir mutuamente em um mundo comum, cons‑ truído de tal modo que podem julgar e resolver consensualmente as ações controversas à luz de padrões e valores concordantes (HABERMAS, 2002b, p. 64).

Temos, portanto, que o processo de discussão racional somente vem acrescentar vantagens ao universo moral:
À vista de que exclusivamente sob pontos de vista morais as normas que são igualmente boas para todos ganham reconhecimento, o discurso ra‑ cional se oferece como o processo apropriado para a solução de conflitos, porque representa um procedimento que assegura a inclusão de todos os envolvidos e a consideração eqüitativa de todos os interesses aludidos (HABERMAS, 2002b, p. 65).

De todo o exposto, podemos postular que a instituição de Ágoras Virtuais em sistemas de e-GOV, que atentem para os pressupostos ora colocados, são condições de possibilidade para a cidadania participativa e responsável. Sobretudo em nosso caso, dadas às atuais perspectivas de vida existentes para o cidadão brasileiro comum, onde a maioria concebe a política como um processo falido, distante e irreversível, num cenário desanimador. Não será inoportuno lembrar que a plena participação popular nos rumos da política brasileira pelos cidadãos sempre encontrou óbice na burocracia disfuncional estabelecida e herdada desde o tempo colonial trazida pelos portugueses, conforme explica FAORO:
[...] o estado, português, diferente de outros países da Europa, inerentemen‑ te feudalista, possui um histórico patrimonialista. O rei, senhor das terras, administrava o país como sua propriedade. O estamento, um grupo político de origem aristocrática, atuava ao lado do rei recebiam cargos e salários
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da monarquia, de uma forma que o Estado era sistematicamente explorado por esse grupo. O objetivo dos membros do estamento e da monarquia era alcançar o máximo de proveito próprio (apud ZUGMAN, 2006, p.23).

Essa cultura reflete diretamente na Administração Pública que, apesar do inexorável avanço tecnológico e a iminente modernização da estrutura pública, ainda depara-se com duas correntes distintas: as modernizantes, que buscam trazer as modernas teorias de administração e gestão para prática burocrática; e as moralizantes que, formalistas e centralizantes, procuram frear o processo, pois obtém vantagens com a opacidade da máquina pública (ZUGMAN, 2006, p. 19). A comunidade ideal de deliberação seria uma resposta aos problemas acima apontados, uma vez que a tecnologia da informação e comunicação é uma ferramenta indispensável para a interação entre governantes e governados. Por meio desta, haveria uma maior transparência nos atos dos representantes, na forma da lei constituídos, permitindo a efetividade do princípio democrático: “será a materialização daquilo que alguns autores gostam de chamar de fishbowl policy, a política do aquário, metáfora que compara a gestão pública a um aquário permanentemente sob a observação do seu dono” (ZUGMAN, 2006, p. 11). Com a implementação pelos governos eletrônicos de ágoras virtuais baseadas em comunidades ideais de deliberação, é real a possibilidade do ressurgimento de uma maior participação da grande massa de cidadãos na troca de informações e valores através de trílogos com seus representantes, em períodos juridicamente estabelecidos. De forma simultânea, haveria uma participação maior possível nos rumos e diretrizes da política nacional, na qual uma efetiva realização do princípio democrático e a presunção das liberdades individuais estariam estampados no corpo das normas legítimas provenientes desse contato.

4. CONCLUSÃO: POR UM DIREITO CIBERDEMOCRÁTICO46
Conforme todo o apresentado, podemos afirmar, nesse momento, que a institucionalização de ágoras virtuais, nos termos em que foram colocados no desenvolvimento, fortalece o pluralismo democrático, uma vez que, na perspectiva da política do aquário, os parâmetros para que a comunidade ideal de deliberação possa chegar a pontos de convergência, se apoiando na dialética dos valores confrontantes, é uma forma possível de legitimação do poder político que nosso tempo oferece. Nesses ambientes, observadas as regras procedimentais de discussão racional (HABERMAS), a convivência de fundamentos das teorias políticas
46 Convém lembrar que Norbert Wiener (1968, p. 15), criou o termo cibernética, derivando-o do grego kubernetes (piloto do navio), esta mesma que chegou até nossos dias como raiz da palavra “governador”.
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modernas, como, por exemplo, as de RAWLS e DWORKING, que defendem a visão liberalista e postulam pela rigidez na conservação da liberdade sedimentada nas garantias constitucionais, impondo limites à esfera pública e procurando assegurar a autonomia privada do individuo frente ao Estado, podem, civilizadamente, dialogar com os fundamentos do comunitarismo de TAYLOR, que partem de uma posição antagônica, pois determinam como ponto primordial o bem comum, num sentido teleológico, para orientar os princípios constitucionais, adaptando o texto normativo de acordo com a realidade histórica. Logicamente, se faz necessário pensar em uma comunidade ideal de co‑ municação (APEL) habitando o espaço do saber (LÉVY) para, num movimento progressivo, com os pressupostos procedimentalistas de discussão racional (HABERMAS), evoluirmos finalmente no sentido de que Ágoras Virtuais sejam comunidades ideais de deliberação. Temos, portanto, como válida a proposta de que a incorporação da tecnologia da informação e comunicação na máquina pública, por meio do governo eletrônico, se revela um modelo de discussão democrática em Rede que está em consonância com o nosso tempo. Temos, também, clara consciência de que a presente proposta postula por um universalismo bastante inclusivo e é altamente idealizadora. Por isso, antes que qualquer pretensão totalizante venha nos impingir a pecha de ser “idealista demais”, entendemos dever enfatizar que, ao propormos que do encontro do particularismo de cada comunidade de linguagem, possa brotar o direito legítimo, não estamos avançando além dos limites da própria função original da linguagem, que é fazer o entendimento. Por outro lado, não será de todo desarrazoado, pensar que estes novos paradigmas são apenas “condições de possibilidade47” para começarmos a procurar entender o que pode ser uma democracia presentativa como uma forma de atração do cidadão para a esfera pública e, dessa maneira, repensarmos a utilidade da figura da “representação” como “única” tecnologia ainda disponível para a democracia. Certamente não se trata de tarefa fácil a edificação de Ágoras Virtuais nos termos em que são aqui propostas. Contudo, convém ressaltar que o desenvolvimento de redes sociais cada vez mais eficientes é uma realidade que não podemos ignorar. Ademais, nunca foi “fácil” o convívio democrático, essa forma de governo tão cheia de defeitos e, no entanto, preferível a todas as outras por todos aqueles que se encontrem convivendo em uma sociedade formada por seres únicos, livres e iguais. De qualquer maneira, admitir a possibilidade de que o governo eletrônico se utilize de “decisões em tempo real”, não pode nunca se descuidar de que o direito, como causa estruturante do Estado, não se distancia de seu outro vetor,
47 Condicionantes, sobretudo de ordem técnica, de que ROUSSEAU não dispu-

nha em seu tempo.

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que é a segurança, base da formação etimológica da palavra jurisprudência. Nesse sentido, cabe aqui a advertência que os limites deste ensaio não nos permitem avançar além da formulação das preposições contidas em seu bojo, e que, certamente, novas e extensas investigações se impõem.

AGRADECIMENTO
Entendemos por bem deixar registrados nossos sinceros agradecimentos aos Profs. Mscs. Gomercindo Tadeu Silveira e Adriano Fernandes Moreira, pelo sempre renovado incentivo na busca pelo conhecimento e por nos fornecer o trabalho do Prof. Dr. Cezar Saldanha de Souza Junior, que deitou luzes sobre nossas idéias, quando ainda embrionárias.

REFERÊNCIAS
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NIT VIRTUAL DO APL MADEIRA-MÓVEL DO ALTO VALE DO RIO NEGRO: UM MODELO DE GESTÃO DA INOVAÇÃO BASEADO NA PROTEÇÃO DA PROPRIEDADE INTELECTUAL
Angélica Gorges1; Claudia O. Bueno1; Fabrício T. Donatti1; Tânia C. D. Bueno1; Iara Zotti1; Sonali Bedin1; Thiago Paulo Silva de Oliveira1; Aline Junckes1; Marzely G. Farias2; Grasiela Gruber2; Sabrina Monteiro2; Marli Pinto2; Sarah Linke2.
1

{angelica.gorges; claudia.bueno; fabricio.donatti; tania.bueno; sonali. bedin; thiago.paulo; aline.junckes; iara.zotti}@i3g.org.br.
2

I3G ‑ Instituto de Governo Eletrônico Inteligências e Sistemas, Florianópolis, SC,Brasil, +5548 30256609, CEP 88036‑002

r2mgf@hermes.udesc.br; grasi.gruber@gmail.com; sabrina.udesc@gmail.com; sah_linke@hotmail.com; marli@marlidias.pro.br.

UDESC– Universidade do Estado de Santa Catarina, Florianópolis, SC, Brasil

RESUMO
O NIT Virtual é uma estrutura composta em meio eletrônico dos processos e procedimentos orientados, convencionalmente, por seus escritórios físicos de inovação tecnológica. A criação de Núcleos de Inovação Tecnológica - NIT é resultado da implantação da Lei de Inovação Federal e Estadual nos últimos anos em Santa Catarina e visa incentivar a identificação do potencial inovador e difundir a cultura inventiva e de proteção de propriedade intelectual de processos e produtos originados em pesquisas científicas nas diversas áreas de atuação de instituições de ensino e pesquisa e o setor produtivo brasileiro. Em particular, neste trabalho será apresentado o modelo de Gestão da Inovação, baseado na proteção da Propriedade Intelectual do NIT Virtual gerido pela UDESC/i3G/FETEP que tem por missão a prospecção e salvaguarda de inovações no Arranjo Produtivo Local Madeira Móvel do Alto Vale do Rio Negro, no Estado de Santa Catarina. Desta forma, faz-se uso dos elementos da web 2.0, gestão do conhecimento e inteligência aplicada para ampliar a capacidade de processamento e gestão de inovações.

PALAVRAS-CHAVE
Núcleos de inovação tecnológica; desenvolvimento regional; arranjo produtivo local; gestão da inovação; ferramentas tecnológicas.
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1. INTRODUÇÃO
Desde a promulgação da Constituição da República Federativa do Brasil em 1988 iniciou-se o processo de reforma político-administrativa, na qual o Estado central, que historicamente concentrou competências e funções, começa a devolvê-las aos governos locais. Nesse novo cenário, uma nova forma de gestão pública descentralizada vem sendo construída em um intenso processo de transformação. Para acompanhar a modernização da administração pública, os Núcleos de Propriedade Intelectual e de Transferência de Tecnologia (NITs) deixaram os limites das fundações públicas, consolidando a atividade de pesquisador público, concedendo assim, direitos a proteção de suas criações. Amparado pela política Nacional de Inovação e de Desenvolvimento Tecnológico os Núcleos de Inovação Tecnológica (NIT) vem sendo criados para ser um elo profissional nas interações universidade – empresa - governo, observando a tríplice hélice do Manual de Oslo48, que é a principal fonte internacional de diretrizes para coleta e uso de dados sobre atividades inovadoras da indústria. A Lei de Inovação federal 10.973/2004 e a Lei do estado de Santa Catarina 14.328/2008; e o Decreto 2.372/2009, tratam de promover uma política de incentivo ao desenvolvimento tecnológico e econômico de interesse social no país. Atendendo a este objetivo, criaram-se algumas diretrizes para identificação de resultados de pesquisas que podem ser protegidos dando os encaminhamentos necessários para a efetivação dessa proteção. Nesse contexto, a consolidação do NIT instalado em São Bento do Sul, vem ao encontro dos anseios da Política Nacional de Inovação e de Desenvolvimento Tecnológico, cujos objetivos, organizar as instituições públicas e privadas de pesquisa para se integrarem mais efetivamente com os Arranjos Produtivos Locais – APLs. Assim, na intenção de atender as indicações supracitadas, e considerando a importância do papel do NIT nesse processo e resultados, se faz presente identificar resultados de pesquisas que podem ser protegidos dando os encaminhamentos necessários para a efetivação dessa proteção. Tais encaminhamentos têm como principal motivador o acelerado processo de internacionalização da economia em que se encontra o País, resultante da eficiência e da velocidade da inovação tecnológica. Esta produção encontra respaldo na Propriedade Industrial, que se configura na garantia da segurança jurídica e econômica das tecnologias desenvolvidas através dos serviços prestados pelo sistema nacional ou internacional, como pedidos de patentes, registros de marcas, contratos de transferência de
48 Disponível em: <www.finep.gov.br/imprensa/sala_imprensa/manual_de_oslo.pdf>. Acesso em: 18 maio 2009.
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tecnologia, desenho industrial, registro do software, e que se constituem em formas de assegurar os direitos de exclusividade na produção, uso e comercialização da criação. Evidencia-se ainda a Propriedade Industrial como instrumento de política tecnológica e industrial que regulamenta as negociações no comércio tecnológico. No entanto, muitas tecnologias inovadoras encontram-se restritas em nível acadêmico, dificultando sua identificação e, conseqüentemente, criando um déficit no mercado. O NIT é um órgão de incentivo à inovação e pesquisa científica e tecnológica para o ambiente produtivo, nas atividades relacionadas à criação, adaptação e absorção, fomentando a integração mais efetiva com os Arranjos Produtivos Locais – APLs que nesse contexto, são os aglomerados de empresas no ramo de madeira móvel localizas na região do Alto Vale do Rio Negro, no Estado de Santa Catarina, Brasil. Diante desta realidade, objetivando ampliar fronteiras e estimular a integração com o mercado nacional e internacional, além do escritório do NIT desta APL, localizado em São Bento do Sul/SC, buscou-se utilizar com sucesso a ferramenta da mídia virtual, instalando-se assim o primeiro NIT Virtual do Brasil. O NIT e a Universidade do Estado de Santa Catarina - UDESC com este projeto piloto procuram estar em sintonia com a política de incentivo ao desenvolvimento tecnológico e econômico de interesse social no país. Este trabalho esta organizado da seguinte forma: no item 2, está contextualizado o tema da inovação com a propriedade intelectual no estado de Santa Catarina, no item 3, núcleo de inovação tecnológica o modelo de gestão de PI, no item 4, considerações finais e no item 5, bibliografia.

2. CONTEXTUALIZAÇÃO DO TEMA DA INOVAÇÃO E PROPRIEDADE INTELECTUAL
Mas o que é afinal a inovação? Ela é realmente necessária para a manutenção da competitividade empresarial? Conforme a Lei de Inovação nº 10.973/ 2004 em seu art. 2º, inovação é a introdução de novidade ou aperfeiçoamento no ambiente produtivo ou social que resulte em novos produtos, processos ou serviços. Traduzindo o conceito, inovação está vinculada não apenas na produção de conhecimento científico, mas principalmente na sua conversão em tecnologia útil para a sociedade e para o setor produtivo. A empresa para se tornar líder em seu setor ou mesmo conseguir sobreviver nesta economia globalizada precisam desenvolver a capacidade de inovar - diferenciar seus produtos (bens e serviços) e beneficiar-se de processos produtivos mais eficientes e também, criar novos mercados, exportar e empreender novos negócios.
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Para que as empresas realizem inovações é necessário, em primeiro lugar, a consciência da importância de inovar no cenário competitivo vigente, entendendo o que é inovação, qual a sua dinâmica para em seguida, definir uma estratégia em relação à inovação na qual deve estar alinhada com a estratégia geral da empresa e com a sua visão de futuro. Para desenvolver e internalizar ferramentas de gestão do processo de inovação deve ser levado em consideração entre os vários fatores, o tamanho da empresa, o setor de atuação, a cultura e a estrutura organizacional, o sistema de agentes no qual ela está inserida, a visão de futuro e suas ambições. Segundo a Organização Mundial da Propriedade Intelectual (2008)49 no Brasil são registradas somente 2,7 patentes para cada bilhão de dólares do PIB, contra 22 da Alemanha, 103 do Japão e 129 da Coréia do Sul. Entre 2004 e 2006, o Brasil obteve apenas 304 patentes. Em 2007, o Brasil ficou em 72º lugar entre 131 países no índice de competitividade do Fórum Econômico Mundial. A inovação e a educação, mais do que nunca, são agora decisivas para a competitividade internacional. Uma economia baseada no conhecimento depende de um sistema econômico ágil e regras institucionais sólidas; de uma população educada e criativa; de uma infra-estrutura dinâmica, e de sistemas de inovação eficientes. Ao encontro desta política, diz a Lei de Inovação n. 10.973/200450 no seu Art. 1o “estabelece medidas de incentivo à inovação e à pesquisa científica e tecnológica no ambiente produtivo, com vistas à capacitação e ao alcance da autonomia tecnológica e ao desenvolvimento industrial do País, nos termos dos arts. 218 e 219 da Constituição. ” As empresas que tem como valores a qualidade dos processos e resultados precisam ter presente à criação de algumas diretrizes para identificação de resultados de pesquisas que podem ser protegidos dando os encaminhamentos necessários para a efetivação dessa proteção. O acelerado processo de internacionalização da economia em que se encontra o País é resultante da eficiência e da velocidade da inovação tecnológica. Esta produção encontra respaldo na Propriedade Industrial, que se configuram na garantia da segurança jurídica e econômica das tecnologias desenvolvidas através dos serviços prestados pelo sistema nacional ou internacional, como pedidos de patentes, registros de marcas, contratos de transferência de tecnologia, desenho industrial, registro do software, e que se constituem em formas de assegurar os direitos de exclusividade na produção, uso e comercialização da
49 A Propriedade Intelectual Disponível em: http://www5.inpi.gov.br/menu-superior/ imprensa/clipping/marco-2009-1/2-03-2009/impressao_view >. Acesso em:22 abr. 2009. 50 Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2004-2006/2004/Lei/ L10.973.htm. Acesso em: 22 abr. 2009.
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criação. Hoeschl51 evidencia ainda a Propriedade Industrial como instrumento de política tecnológica e industrial que regulamenta as negociações no comércio tecnológico.

2.1 A interação Universidade/Empresa frente ao desenvolvimento regional
Outro aspecto muito importante levantado por Oenning52 esta na “necessidade de minimizar o distanciamento entre o mercado e os centros geradores de conhecimento em Santa Catarina. Os centros geradores de conhecimento catarinense têm potencial para figurar como fortes produtores de tecnologia inovadora, fator de competitividade nos mercados corporativos e de desenvolvimento sócio-econômico.” Ressalta-se, portanto, a necessidade de garantir acesso a serviços de apoio à proteção de tecnologias a uma parcela considerável de usuários que ainda conta com um serviço precário e insuficiente. Por isso surgiu à necessidade de criar um Núcleo de Inovação Tecnológica - NIT, para apoiar a desenvolvimento de soluções aos problemas relacionados à produção, melhorando a eficiência, a qualidade dos produtos e processos, a fim de aperfeiçoar recursos, reduzir custos e desperdícios, contribuindo para a competitividade da organização. Nesse contexto a presença de um NIT – núcleo de inovação tecnológica é medida imprescindível à regularidade da empresa, atendendo aos anseios da Política Nacional de Inovação e de Desenvolvimento Tecnológico.

2.2 O Panorama do estado de Santa Catarina
O Estado de Santa Catarina tem como política pública estadual promover o desenvolvimento econômico regional sustentável. A indústria catarinense participa do cenário nacional com uma grande diversidade produtiva. Esta diversidade, além de impulsionar movimentos migratórios internos, impulsiona o desenvolvimento econômico diferenciado das regiões do Estado. Acompanhando os mercados internacionais e, ciente das necessidades de aperfeiçoamento e atualização para fazer frente à concorrência, a indústria catarinense tem se fortalecido como um setor competitivo apoiado muitas vezes em profundas transformações estruturais, descentralização administrativa e estratégias de expansão. Esta força produtiva garante o desenvolvimento do estado apoiado nas suas especificidades locais.
51 HOESCHL, Hugo C. et. al. Núcleo catarinense de tecnologia da informação: uma estratégia de aproximação entre universidades e mercado. Disponível em: www.cori. unicamp.br/.../Nucleo%20Catarinense%20de%20Tecnologia%20da%...> Acesso em: 22 abr. 2009. 52 OENNING, Gláucia, et al. SERPI - sistema de registro de produção de propriedade industrial. Disponível em: <http://www.buscalegis.ufsc.br/revistas/index.php/buscalegis/article/view/6290/5859> ou Anais CONEGOV 2004. Acesso em: 23 abr. 2009.
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O Estado de Santa Catarina apresenta diversificação econômica e com pólos regionais bem consolidados. O destaque fica por conta da Região do Alto Vale do Rio Negro, que está compreendida pelos municípios de São Bento do Sul, Rio Negrinho e Campo Alegre. Muitos projetos, desenvolvidos por esta equipe de pesquisa vem sendo desenvolvidos para consolidar esse pólo econômico, fortalecendo o NIT, salvaguardando, assim as inovações no arranjo produtivo local madeira móvel do Alto Vale do Rio Negro, para ilustrar cita-se: • projeto Núcleo Catarinense de Tecnologia da Informação- NECATI aprovado e apoiado pelo CNPq/ 2003-2005; • projeto NECATI aprovado pela FAPESC em 2003-2005, projeto Programa de Gestão da Propriedade Intelectual – Apoio a Núcleos de Inovação Tecnológica e Propriedade Intelectual - PROGEPI aprovado pela FAPESC/ 2006-2007 • projeto Capacitação e atividades de apoio para construção de modelos de gestão da informação para o desenvolvimento tecnológico do APL Madeira Móveis do Alto Vale do Rio Negro aprovado pelo CNPq/ 2008-2009.

2.3 Caracterização do APL Madeira Móvel do Alto Vale do Rio Negro
O APL Madeira Móveis do Alto Vale do Rio Negro congrega empresas da região do Planalto Norte Catarinense com o objetivo de fortalecer as empresas de toda a cadeia produtiva garantindo o acesso às informações relevantes para o setor, aproximando as indústrias das inovações desenvolvidas nas Universidades, dos mercados interno e externo e das ações governamentais, que apóiam os APLs no Brasil. A característica forte da região do Alto Vale do Rio Negro está na capacidade exportadora de móveis residenciais, em especial de madeira maciça. Seus principais mercados de comercialização dos produtos são os Estados Unidos da América, o Canadá, a Austrália e os países Europeus. A indústria de móveis da Região do Alto Vale do Rio Negro responde por aproximadamente 40% da exportação brasileira de móveis gerando uma necessidade direta junto a essas empresas e sua cadeia produtiva, de terem nível de competitividade internacional. Desenvolver o arranjo produtivo local é fundamental para a sobrevivência e melhoria da competitividade das empresas do ramo moveleiro e de sua cadeia produtiva madeira móveis possibilitando através do aumento da produtividade e da competitividade gerar emprego e renda para a comunidade local.
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3. NÚCLEO DE INOVAÇÃO TECNOLÓGICA - O MODELO DE GESTÃO DE PI
O Núcleo de Inovação Tecnológica – NIT53 é uma unidade de uma Instituição Científica e Tecnológica - ICT, que é constituído com a finalidade de orientar as atividades de inovação de interesse interno ou da sociedade. Sua existência permite a articulação entre os atores e a difusão dos mecanismos para promover a inovação tecnológica no setor de madeira móvel, que tem papel fundamental na integração entre os fatores econômicos, sociais e ambientais na empresa, pois será a partir das inovações que serão propostos novos modelos de desenvolvimento regional sustentável com a utilização racional de recursos, bem como, as condicionantes, que interferem no processo de difusão e implementação de uma nova tecnologia. A implantação do NIT é uma imposição da Lei de Inovação (Lei Nº. 10973/2004), ratificado pela lei de inovação catarinense (Lei Nº. 14.328/2008), que prevê em seu Art. 16, que toda Instituição Científica e Tecnológica - ICT deverá dispor de um Núcleo de Inovação Tecnológica com a finalidade de gerir sua política de inovação e sua política de propriedade intelectual. Além do NIT físico instalado na Fundação de Ensino Tecnologia e Pesquisa-FETEP em uma sala no centro de gestão empresarial com toda a infra-estrutura necessária, desenvolveuse o NIT virtual54, projeto piloto brasileiro que por utilizar-se de um ambiente virtual permite integrar e ampliar sua atuação para outros NITs no país. É fato também, que a utilização do meio virtual e de tecnologias acessíveis ao cidadão, amplia consideravelmente o canal de comunicação e de transparência, pois o escritório virtual permite disponibilizar informações públicas as mais diversas além da economia de tempo e rapidez de retorno à informação solicitada pelo interessado. Para consolidar o NIT no estado de SC, a UDESC, através da coordenadoria de propriedade intelectual, vem executando um conjunto de ações voltadas a geração de inovação e propriedade intelectual. O Núcleo de Inovação Tecnológica, cujo programa de implantação teve inicio em janeiro de 2008 com a aprovação e liberação dos recursos financeiros em dezembro de 2007 do Edital 10/2006 do PROGEPI - Programa de Gestão da Propriedade Intelectual da FAPESC - Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de Santa Catarina – FAPESC como parte da política pública estadual para implementação e estruturação dos núcleos de inovação tecnológica descritos conforme a Lei de Inovação Federal nas Instituições de Ensino Superior do Estado de Santa Catarina I.E.S. no total de 05 NIT’s distribuídas por cada mesoregião do Estado, que deverão prestar serviços à comunidade na área de inovação e propriedade intelectual.
53 Disponível em: http://nitvirtual-sbs.blogspot.com/2009/04/conceito-de-nit-nucleo-deinovacao.html> Acesso em: 22 abr. 2009. 54 <http://nitvirtual-sbs.blogspot.com/2009/04/conceito-de-nit-nucleo-de-inovacao.html>.
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Figura 1. Sistema de registro de propriedade intelectual.

A UDESC, em parceria com a FETEP55 – Fundação de Ensino, Tecnologia e Pesquisa de São Bento do Sul e o Instituto i3G, foram contemplados na mesoregião norte do estado de Santa Catarina-SC com o APL madeira móveis do Alto Vale do Rio Negro – área de atuação do CEPLAN – Centro de ensino Planalto norte da UDESC. Complementar ao Projeto FAPESC PROGEPI foi apresentado o projeto de pesquisa institucional, que propõe o “Desenvolvimento de um Modelo de Gestão para a implantação do NIT na UDESC com estudo de caso no APL madeira Móveis do Alto Vale do Rio Negro”, que incluiu um estágio na CIPI no período de agosto de 2006 a março de 2007 supervisionado pelo Pró-Reitor de Planejamento da UDESC e Professor da ESAG - Prof. M.Sc. Arlindo Carvalho Rocha. Como resultado estão sendo apresentados: (1) modelo de gestão organizacional do NIT da CIPI da UDESC; (2) Ferramentas tecnológicas para a gestão da informação em inovação e Propriedade intelectual; e, (3) Modelo para a regulamentação Jurídica de Inovação e propriedade intelectual da UDESC. A Estrutura Organizacional da coordenadoria de propriedade intelectual possui atualmente o Escritório de Direitos Autorais - EDA em fase de
55 LEI Nº 5.329, de 30 de junho de 1977, Art. 1º Fica declarada de utilidade pública a Fundação de Ensino, Tecnologia e Pesquisa de São Bento do Sul – FETEP, com sede e foro na cidade de São Bento do Sul
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revitalização e o NIT, que abraçam as seguintes áreas: Setor de apoio a gestão de PI e o Setor de apoio a Gestão do Conhecimento em Inovação e PI. O foco de atuação está integrando as seguintes ações: (1) Capacitação: elaboração de ementas de disciplinas para os cursos de graduação e pós-graduaçào da UDESC, bem como elaboração e organização de seminários e cursos de curta duração à distância e presencial para os pesquisadores e gestores da UDESC e das instituições parceiras nas mesoregiões do estado de Santa Catarina.
Figura 2. Página inicial do curso de Propriedade Intelectual a distância.

Disponível em: <.http://www.i3g.org.br/ead/>

(2) Regulamentação: definição e consensualização de procedimentos e normas sobre propriedade intelectual, transferência de tecnologia e proteção dos conhecimentos tradicionais conforme exigência da lei; (3) Articulação: participação no Fórum Nacional de Direitos Autorais e em redes de NIT’s como o FORTEC – Fórum Nacional de Gestores de Inovação Tecnológica e de Transferência de Tecnologia para promover o intercâmbio de experiências de gestão da inovação e da propriedade intelectual, bem como da tansferência da tecnologia. Intercâmbio de experiências e desenvolvimento de projetos em conjunto;
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(4) Informação e Prospecção Tecnológica: Difundir os conceitos de informação e prospecção tecnológica nas atividades complementares, de extensão e de disciplinas de inovação e propriedade intelectual nos cursos da UDESC; promover a identificação de material com potencial de; e dar suporte técnico e administrativo, conforme exigência da lei, à Pró-Reitoria de Pesquisa e de Pós-Graduação na análise para a aprovação de propostas de projetos de pesquisa, que tenham como resultado inovação e propriedade intelectual; (5) Informação: criação e manutenção de página na internet para a difusão de informações e troca de experiência entre instituições de CT&I sobre propriedade intelectual e a proteção do conhecimento, além de assistência ao autor e ao pesquisador inovador;
Figura 3. Site de divulgação do Núcleo de inovação tecnológica - NIT- UDESC.

Disponível em: <http://www.i3g.org.br/testenit/>

(6) Estímulo ao Empreendedorismo Sustentável: Apoiar mecanismos novos ou já existentes como, por exemplo, o Programa FAPESC Sinapse da Inovação, para incentivar à transformação do conhecimento gerado nas pesquisas e trabalhos de conclusão de curso em todos os níveis em substrato para a geração de novos negócios e novos empreendimentos de base tecnológica; e,
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(7) Transferência de Tecnologia: prospecção de investidores para os novos empreendimentos e de empresas interessadas em utilizar as tecnologias desenvolvidas pela UDESC, como fonte de receita externa e para a difusão do conhecimento em prol da geração de mais empregos e renda e de produtos e serviços, que melhorem a qualidade de vida do homem nas regioes do Estado de Santa Catarina. São atribuições do NIT, segundo os termos da legislação de inovação federal e estadual e do Estatuto e Regimento Geral da UDESC: • Zelar pela manutenção da política institucional de estímulo a proteção das criações, à inovação, ao licenciamento e outras formas de transferências de tecnologia; • Avaliar e classificar os resultados de atividades e projetos de pesquisa para o atendimento das disposições da lei de incentivo à inovação e à pesquisa científica e tecnológica no ambiente produtivo; • Avaliar os pedidos de adoção de invenção apresentados por inventor independente; • Opinar pela conveniência e promover a proteção das criações desenvolvidas no âmbito da Universidade; • Opinar quanto à conveniência de divulgação das criações desenvolvidas no âmbito da Universidade, passíveis de proteção intelectual; • Acompanhar o processamento dos pedidos e a manutenção dos títulos de propriedade intelectual da Universidade; • Identificar e incentivar, no ambiente produtivo, oportunidades de realização de projetos de inovação, que poderão ser executados em conjunto com a Universidade; • Opinar quanto à celebração de contratos e convênios envolvendo a inovação e a propriedade intelectual e a pesquisa científica e tecnológica, que incluem cláusulas de propriedade intelectual e de segredo; • Divulgar amplamente os resultados obtidos com os projetos de inovação e desenvolvimento no âmbito da Universidade, resguardando o dever de segredo previsto em contratos e convênios firmados.

3.1 O registro de propriedade intelectual - NUGESCO
O Núcleo para Gestão do Conhecimento - NUGESCO faz parte do NIT. O encaminhamento da tecnologia ao mercado que tem como escopo fomentar negócios relativos à Gestão do Conhecimento com maior foco em Tecnologias da Informação. O NUGESCO desenvolve planejamento estratégico, analisando os negócios sob os enfoques comercial, econômico-financeiro, de recursos humanos e de marketing e faz uma prévia análise da viabilidade econômica e da maturidade da pesquisa, identificando as tecnologias inovadoras com projeção econômica.
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A consultoria prestada pelo Núcleo compreende: avaliação, definição e seleção de soluções de TI; avaliação da estrutura tecnológica; gerenciamento de riscos tecnológicos; planejamento Estratégico da Tecnologia da Informação, englobando diagnóstico do estado atual, análise das alternativas de solução, com aplicativos de mercado, desenvolvimento próprio e terceirização, definição de ambientes de gestão, sistemas e tecnologia, adequação de processos, determinação do plano estratégico e cronograma de implementação; business Intelligence: realinhamento de processos para adequá-los à estratégia de negócios, promovendo o aumento da produtividade e a redução dos custos; transferência de Tecnologia (produtos e serviços) que possam ser viabilizados pelo núcleo e destinadas a comercialização da tecnologia. Esta metodologia do NUGESCO se fundamentará em etapas que compreendem: formação de grupo de especialista, cadastramento, análise de mercado, metodologia para desenvolvimento tecnológico, a fim de validar métodos para avaliação e validação de softwares em T I.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O primeiro Núcleo de Inovação Tecnológica da UDESC foi criado para ser um elo profissional nas interações universidade – empresa - governo, observando a tríplice hélice do Manual de Oslo. Na UDESC, a coordenadoria de Propriedade Industrial Intelectual, desde 2006, tem por objetivo estabelecer uma rede de relacionamentos com a sociedade para incrementar as atividades de pesquisa, ensino e avanço de conhecimento. (UDESC. Relatório de gestão. 2008). A UDESC vem cumprindo plenamente sua missão institucional e apoiando, de forma decisiva, o aprimoramento dos setores produtivos: público e privado, e colaborando conseqüentemente, para o desenvolvimento do APL Madeira-Móvel do Alto Vale do Rio Negro fortalecendo o estado de Santa Catarina no cenário nacional. O NIT Virtual veio consolidar a interação das ICTs com as empresas do Arranjo Produtivo Local madeira móvel do Alto Vale do Rio Negro, através da gestão da informação estruturada pelo NIT da UDESC. Essa ferramenta virtual associada ao presencial integra ainda mais o conglomerado das indústrias do APL Madeira móveis, possibilitando principalmente a melhoria da produtividade e a recuperação da competitividade das empresas do ramo madeira móveis da região do Alto Vale do Rio Negro no mercado global de móveis.

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EDUCAÇÃO E TECNOLOGIA: UMA PERSPECTIVA DE INCLUSÃO SÓCIO-DIGITAL
Aluna do PPGEGC – UFSC – Universidade Federal de Santa Catarina
carlasbohn@hotmail.com

Carla Silvanira Bohn

RESUMO
A criação de um ambiente sócio - educativo tecnologicamente adequado que atenda as necessidades e as transformações sociais vivenciadas no dia a dia, pressupõe desenvolver um programa que integre toda a comunidade, garanta acessibilidade, sustentabilidade e continuidade do mesmo. Não obstante as dificuldades no âmbito financeiro, regulatório ou tecnológico, a montagem de redes municipais de acesso a novas mídias e formas de comunicação multiplica-se por todo país, na maioria dos casos, apontam melhoria nos indicadores sociais, educacionais e econômicos. Pautado em exemplos tanto embrionários como já vigentes de Cidades chamadas Digitais, apresenta-se a implantação e implementação das Novas TICs como ferramenta de inclusão sócio – educativa, tendo como foco principal e seu catalisador, a comunicação e desenvolvimento cognitivo, através de seus corpos docentes, discentes e suas famílias. Nessa ótica, intencionado um protótipo e modelagem tecnológico-pedagógico, busca-se com um programa de Inclusão Digital, uma interpretação da realidade tecnológica com perspectiva de alavancagem e estímulo, tornando assim possível visualizar o ensino em sua excelência, socializando, externalizando, combinando e internalizando saberes através da gestão do conhecimento - cognição e mídias, mediando com eficiência à construção do conhecimento.

PALAVRAS-CHAVE
Ambiente Sócio-Educativo – Sustentabilidade – Inclusão Digital – Construção do conhecimento.

ABSTRACT
The creation of a social educational environment technologically adjusted to the needs and social transformations observed daily, means to develop a program integrating the whole community granting accessibility, support and continuity of itself. Despite the financial, technological or regulatory difficulties the assembly of municipal nets of access to the new medias and forms of communication are multiplied for all country, in the majority of the cases, showing improvement in the social, educational and
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economic factors. Based in effective embryonic examples as already seen on so called digital cities, presents it implantation and implementation of the New ITCs as tool of social educative inclusion, having as main focus and its catalyzer, the communication and cognitive development, through its faculties, students and its families. Thru this point of view, intentioned an archetype and technological-pedagogical modeling, we search within a program of Digital Inclusion, an interpretation of the technological reality with leverage perspective and stimulation, thus becoming possible to visualize education in its excellency, socializing, externalizing combining internalizing and to know through the management of the knowledge - cognition and medias, mediating with efficiency to the construction of the knowledge.

KEY WORDS
Social-Educative environment - Sustainability - Digital Inclusion – Building knowledge.

1. INTRODUÇÃO
A dinâmica do fluxo de informações nos dias atuais, através da acessibilidade por novas mídias, fenômeno da sociedade contemporânea, entendido por “globalização”, remete a uma constante busca pelo aprimoramento dos conhecimentos nas mais diversificadas áreas de concentração do conhecimento. A velocidade em que os meios de comunicação avançam, transformam o cotidiano dos indivíduos e promovem mudanças de comportamento e padrões sociais pré-estabelecidos. Com a evolução das contradições modernas entre o desenvolvimento tecnológico e as relações humanas, a educação em seus diferentes níveis, tem um papel de fundamental importância, compreender, e, visando diminuir as adversidades, incluir tanto alunos e suas famílias, quanto professores a esta nova era, de maneira que oportunize e promova uma aliança propositiva e positiva entre as novas tecnologias e a prática pedagógica docente. Percebe-se claramente a necessidade de não se ignorar a presença positiva do novo “homem virtual” e conseqüentemente a tecnologia trazida por ele, inclusive para a educação. Mas paralela a esta posição, a dificuldade de aceite nas escolas para o uso de novas tecnologias ainda é, sobremaneira, proporcionada pela impotência diante das máquinas. Professores e alunos enfrentam diariamente dificuldades, por um lado, suas restrições financeiras, que acabam impedindo o uso direto dos equipamentos aos quais somente a escola é sua porta de acesso, por outro se deparam com sério agravante, inevitavelmente encontram àqueles que dominam fácil e habilmente as ferramentas e este conflito torna ainda mais complexa a integração de alunos e professores ao processo, pois se sentem à deriva, incapazes frente ao computador, seja por desestímulo de ordem pessoal ou falta de capacitação e atualização profissional. Esta realidade está presente nos bancos escolares.
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Neste contexto, a implantação de um programa de Inclusão Sócio Educativo Digital Municipal converge às necessidades atuais, e, se bem estruturado e organizado torna-se um forte aliado no processo de construção do conhecimento. Partindo do pressuposto que a educação pertence ao âmbito imaterial, das idéias, conceitos, símbolos, atitudes, hábitos e habilidades é mais do que significativo e coerente adicionar às suas práticas cotidianas um ambiente moderno e virtualmente educativo. A influência das novas tecnologias na educação no tocante ao desenvolvimento do aluno como ser social é indiscutível, mediante a isso se faz necessário à educação considerar a relevância, a significância, a representatividade, a variabilidade e a confiabilidade desse processo no que tange o comportamento e atinge diretamente seus discentes. Nesta prática, visando uma mediação significativa, é possível direcionar a reflexão sobre o uso dos equipamentos e delimitar, como e quando serão utilizados, ponderando o tempo em que o aluno disponibilizará para cada efetiva atividade, seja nas relações familiares, sociais, pessoais e não obstantes, seu tempo ocioso, ao qual exige maior cautela, visto que, no espaço virtual não existem fronteiras, ou amarras que coíbam o acesso. Aliando-se a tecnologia, a educação estará proporcionando ao docente e ao educando uma interpretação do mundo mais abrangente, permitindo que tanto um quanto o outro transformem o conhecimento adquirido em competência, apropriando-se daquilo que realmente é adequado, construindo uma visão mais crítica e seletiva, aperfeiçoando a prática pedagógica e conquistando com êxito o processo de ensino aprendizagem. Considerando essa “nova” gênese da educação, e tentando encontrar caminhos que norteiem esta aliança, educação e tecnologia, sob o ponto de vista da cognição, inclusão e construção do conhecimento, este artigo discorre fazendo referência a autores como, GARDNER (1995) que aponta as ciências cognitivas como uma nova forma de compreender e explicar a cognição, como um empreendimento contemporâneo que busca base empírica para responder a importantes questões epistemológicas sobre a natureza, origem, desenvolvimento e emprego do conhecimento pelo homem.

2. EDUCAÇÃO NO CONTEXTO SÓCIO-DIGITAL
Partindo do princípio de que, segundo MARIOTTI, “a vida é um processo de conhecimento” (apud MATURANA, 2007, p. 07) e também se espelhando em HANDY (apud NONAKA & TAKEUCHI, 2008, p.17) “quanto mais turbulentos os tempos, quanto mais complexo o mundo, mais paradoxos existem”, é de fundamental importância que a educação interceda interpretando e traduzindo as relações sociais, enfrente os paradoxos e assuma efetivamente seu papel na construção e estímulo ao desenvolvimento cognitivo do indivíduo.
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Assumir uma postura ética e justa em um âmbito coletivo não é tarefa fácil, discutindo e refletindo neste aspecto ELIAS (1994, p. 17) afirma:
“Na vida social de hoje, somos incessantemente confrontados pela questão de se e como é possível criar uma ordem social que permita uma melhor harmonização entre as necessidades e inclinações pessoais dos indivíduos...”.

Como resistir ao sedutor mundo da informação que envolve a sociedade num estímulo constante pelo consumo, criando necessidades artificiais, deturpando mentes em busca incessante pelos apelos da mídia do “belo” da “perfeição”, situação esta perigosa, mas real e extremamente tentadora no mundo virtual. O cenário globalizado é um fenômeno da sociedade contemporânea e que atinge diretamente o dia-a-dia dos indivíduos, modificando relações e abrangendo praticamente todas as áreas: a economia, as finanças, a ciência, a tecnologia, as comunicações, a política e é claro, afetando diretamente a educação. Citando a educação, já mencionado anteriormente seu papel, é relevante acrescentar, que segundo AGUILAR (2003, p.10) “conhecimento é nada, ou quase nada se não soubermos usá-lo adequadamente, apropriadamente e corretamente nas mais variadas situações da vida pessoal e profissional”, portanto, encontrar meios que promovam a qualificação do ensino é o desafio constante dos educadores, que comprometidos a sua função, buscam atualmente nas TIC uma maneira de aperfeiçoar o processo e garantir competência no exercício de suas funções. Neste aspecto, SANCHO aborda que, “as escolas devem integrar os novos meios para todos os alunos em todos os aspectos do currículo (...) é preciso revisar as visões sobre o currículo, assim como nossas convicções sobre como propiciar os melhores processos de ensino e aprendizagem”. (SANCHO, 2006, P. 28) Introduzir as TIC num ambiente educacional favorável às necessidades emergentes, e não como uma disciplina isolada, é um dos grandes desafios da educação, a inserção de um programa de Inclusão Digital no coletivo requer um minucioso trabalho investigativo e incentivador, porque não é possível prever as reações e/ou aceitações no cotidiano social, visto que, as intenções podem não estar voltadas aos interesses de toda uma comunidade, ao qual muitas vezes desconhece os benefícios dos recursos tecnológicos. Segundo DANTAS, “Os diferentes modelos de cidade digital – inteiramente público, inteiramente privado ou mediante parcerias público-privadas (PPP) – têm se multiplicado pelo país, com resultados surpreendentes em alguns casos.” (2008, p.11). E ancorando aos mais diversos exemplos já existentes, afiguram-se muitas dificuldades, entre elas: são inteiramente inclusivos?; atendem as necessidades específicas de toda população?; transforma em sua totalidade informação em conhecimento?; maximizam o processo ensino-aprendizagem?; garantem a sustentabilidade e continuidade?
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Mediante a todos esses questionamentos, as adversidades convergem para uma reflexão mais apurada e delicada, situação esta que LEVY (2001, p. 48) compreende como
“nova forma de apreensão dos conflitos”, onde a cada segundo geram-se disparidades, e ademais, geradas pelo próprio homem e que tendem a tornarem‑se cada vez mais profundas, pois suas necessidades aumentam dia após dia e acrescenta ainda, “os homens têm um extraordinário apetite para a interconexão (...) indícios apontam para um futuro cada vez mais marcado pelo mercado capitalista, ciência e a técnica” (LEVY, 2001, p. 57).

Portanto, pensar em “como” aliar este novo espaço definido pelo autor como “ciberespaço” é provocante, e para a educação um desafio. Na medida em que a intervenção se processa e rompe o tradicional, o indivíduo adere e incorpora ao seu cotidiano as mudanças, estabelecendo conexão em seus aspectos culturais e tornando-as corriqueiras a sua vivência diária. Este é o momento oportuno para que a escola intervenha no intuito de “propiciar sistematicamente a interpretação das mensagens veiculadas nos meios de comunicação eletrônicos e a familiarização com a estética, a linguagem e o funcionamento das tecnologias em geral”. (SAMPAIO, 1999, p. 62) Neste sentido a intervenção da escola num plano tecnológico-pedagógico, pode promover uma releitura das relações interpessoais e uma interpretação mais coerente quanto às informações e valores transmitidos via tecnologia. LEVY (2001, p.152) interpreta a intervenção da tecnologia à cultura social como “cibercultura” e acrescenta que, o ciberespaço será o principal ponto de apoio de um processo ininterrupto de aprendizagem e de ensino da sociedade por si mesma (...) todas as instituições humanas irão se entregar e convergir para uma inteligência coletiva sempre capaz de produzir e explorar novas formas. (LEVY, 2001, p.152). Nessa convergência, a utilização de ambientes informáticos de aprendizagem tem que estar atrelados a uma filosofia de educação que ajude a superar o processo de exclusão escolar intramuros que atualmente acontecem em nosso país. E garantindo que propostas pedagógicas sejam realizadas, evidentemente, os computadores e seus aplicativos por si só não trarão mudanças efetivas, se não vierem acompanhados de propostas metodológicas que valorizam a construção do conhecimento e de sua importância na realidade social do aluno. Numa perspectiva de aprendizagem flexível e aberta às Novas TIC, a implantação de um ambiente tecnologicamente favorável às necessidades pedagógicas existentes, responde as expectativas de fazer uso da tecnologia no intuito de promover o desenvolvimento econômico e social. Intenções como esta, já vem sendo aplicada e multiplicada por todo país, em projetos como “Cidade Digital”, que visam à inclusão sócio-digital, e que
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mesmo enfrentando uma série de obstáculos, dificuldades no âmbito financeiro, regulatório ou tecnológico, a montagem de redes municipais de acesso à internet aponta melhoria nos indicadores sociais, educacionais e econômicos. Perfil este desejado por municípios de pequeno porte, de baixa arrecadação, pois, fortalecendo indicadores, conseqüentemente remete-se a análise positiva da implantação de programas tecnológicos e acabam, por conseguinte, atraindo mais recursos para o município. Neste aspecto, DIAS (2007, p. 12) aponta que dispor de uma infra-estrutura de comunicação faz tremenda diferença para a economia dos municípios e cita o projeto Piraí Digital como um excelente modelo a ser repicado pelo país, reconhecido internacionalmente como o mais bem sucedido projeto de inclusão digital e premiado recentemente, tanto pela estrutura, quanto pelo projeto pedagógico. Bem articulado e bem sucedido em suas parcerias o projeto ainda enfrenta um entrave: a questão da sustentabilidade, tendo em vista que num município de pequeno porte acaba inevitavelmente gerando despesas onerosas e “desatar o nó da sustentabilidade requer uma fórmula legal que permita às prefeituras cobrar de quem pode pagar, ou seja, o cliente residencial”. (DIAS, 2007, p.11) A solução para problemas como este não se apresenta em uma “fórmula”, e se a intenção é promover integração, acessibilidade e conexão a toda sociedade, é preciso ponderar as dificuldades e pensar estratégias que assegurem a conectividade, pois não somente no âmbito econômico, existe ainda o problema topográfico, ao qual assola grande parte do território brasileiro. Os acidentes geográficos encontrados na maioria das cidades localizadas nas proximidades das serras brasileiras comprometem a qualidade do sinal da rede e dificultam a freqüência, é o caso de Mangaratiba (RJ), DANTAS aponta o programa do município, implantado em 2005, como um desafio, por suas características geográficas:
“localizado entre a Serra das Araras e Baía de Sepetiba, o município abriga muitos morros, um litoral recortado e diversas ilhas. (...) hoje, a infra-estrutura sem fio da cidade é formada por cinco torres e seis antenas WiMAX, 35 antenas Wi‑Fi, oito rádios WiMAX, 50 rádios Wi‑Fi, dois roteadores e 260 computadores.” (DANTAS, 2008, p. 13)

Analisando este exemplo, que mesmo com obstáculos naturais atende escolas, tele centros comunitários, postos de saúde, centros de informação turística órgãos da administração municipal e subprefeituras, e vitoriosa no ponto de vista inclusivo, outros projetos também estão em expansão e despontam à possibilidade de promover a tão desejada mudança significativa. Mangaratiba Digital não se consolidou definitivamente em termos de cobertura total ao município, mas garante que não há risco de descontinuidade, “pois a tecnologia já se incorporou à rotina do cidadão, que utiliza nos tele centros, nas escolas, nos postos de saúde e em suas residências”. (Lemelle apud DANTAS, 2008 p.13) Planejar a Inclusão Digital, neste sentido, terá sua ancora efetivada na educação, porque a partir do momento em que se pensar em mudança, incorporar
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a tecnologia na rotina do cidadão, conseqüentemente afetará a mudança de padrões e comportamentos dos cidadãos, o que perpassa a reflexão: inclusão digital começa com a palavra cidadania. Independente de classe social, localização geográfica, dificuldades de acesso, é providencial incluir o maior número de pessoas possível na sociedade da informação. Na holística da sociedade de consumo LEVY descreve que,
“as classes sociais não existem senão no reino da concupiscência. A idéia de classe social é um impasse tanto quanto a idéia de nação. Não há senão seres em formação. A identificação de classe (...) é um retraimento da consciência, um fechamento na sufocante prisão da consciência dividida.” (LEVY, 2001, p.159)

Portanto, objetivando promover a interpretação da realidade tecnológica numa perspectiva de transformação e construção do conhecimento, faz-se necessário esclarecer que sociedade pretende-se construir, que caminho orientar, se diariamente confronta-se ao estímulo do gozo material. Alimentado pela mídia, o cidadão busca incessantemente a inovação de padrões, em contrapartida diariamente produz-se uma massa de excluídos, um público que não consegue acompanhar o processo e inerente as suas condições financeiras, isola-se e por interiorizar sua impotência passa a dividir-se em classes. Numa perspectiva educacional, de transformação e construção, o “aprender a apreender” pode ser mediado, do ponto de vista do docente e pautado em ações mais dinâmicas e interativas, com o “aprender a empreender”, direcionando e estimulando sua atividade em uma prática focada em resultado e não tentativas de sucesso mal sucedidas. Criar um ambiente estimulante, atrativo e dinâmico requer uma análise mais apurada, que imerso em uma visão organizacional converge para a prática empreendedora, na capacidade de criação e inovação, ao qual na abordagem neo-shumpeteriana (apud VALE, 2008) define como “agente de inovação”, que por excelência, é o agente detentor dos mecanismos de mudança. Na concepção de Schumpeter (apud VALE, 2008) o empreendedor é o responsável pelo processo de destruição criativa, é aquele que destrói a ordem econômica existente pela introdução de novos produtos e serviços, pela criação de novas formas de organização ou pela exploração de novos recursos e materiais. O que demonstra, a viabilidade de aplicar a gestão empreendedora como agente ativo e criativo no processo de ensino-aprendizagem. Neste contexto, a ação empreendedora permite por sua capacidade de inovação e criatividade, a resolução de problemas, sejam de ordem econômica, social ou educacional. E como agente inovador pode promover no âmbito educacional o impulso e estímulo para que espontaneamente ocorra um insight, que o processo de construção do conhecimento efetivamente aconteça e seja a o despertar pelo interesse e sagacidade da busca pelo saber.
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Fazendo um adendo ao processo de criação, Amábile (apud ANGELONI, 2008), considera criatividade como produção de idéias novas e apropriadas por um indivíduo ou grupo pequeno que trabalhe em conjunto, portanto, promover a simbiose entre criatividade, empreendedorismo, tecnologias e processo ensino-aprendizagem é salutar, visto a necessidade de encontrar agentes que facilitem a mediação. Além do estímulo e da busca por agentes facilitadores, a autora preconiza que a tecnologia possibilita novos comportamentos ligados ao conhecimento. Salienta ainda que,
“a tecnologia desempenha papel essencial na Era do Conhecimento, consistindo na adoção de ferramentas e métodos que objetivam facilitar a captação, a estruturação e a disseminação do conhecimento anteriormen‑ te desestruturados e disperso na organização ou restrito a poucas pessoas por meio de manuais e normas complexos, tendo em vista a sua utilização de forma estratégica e racional por todos os colaboradores.” (ANGELONI org., 2008 p. 247)

Se o advento da era digital impulsionou e permitiu maior velocidade e agilidade na comunicação e tendo em vista que é essencial para a Era do Conhecimento, o campo educacional deve prover de mecanismos que associem a dinâmica de seu entorno com suas práticas diárias, para que no cerne da aprendizagem seu público alvo, que vem sedento pelo conhecimento, não se depare com uma realidade completamente aquém de capacidade cognitiva. Entre os desafios diários e a necessidade de mudança, é de fundamental importância pensar em ações conjuntas, sincronizar a prática docente como potencializador do processo criativo e cognitivo, mediar sua prática numa ótica de ação – inovação, como empreendedor na gestão do conhecimento, aliar-se as TIC´s numa perspectiva de alavancagem e estímulo, tornando assim possível visualizar o ensino em sua excelência, socializando, externalizando, combinando e internalizando saberes.

2.1 Relação da gestão do conhecimento – cognição e mídias no processo ensino-aprendizagem
Entender a gestão do conhecimento, a cognição e as mídias no processo de ensino-aprendizagem remetem-nos a pensar em como uma organização será o agente facilitador e/ou potencializador do processo, pois, segundo Aguiar (2006), “as organizações, enquanto meio social no qual os indivíduos estão inseridos, exercem uma função estimuladora ou bloqueadora do desenvolvimento cognitivo”. Nesse sentido o processo de aprendizagem nas organizações está intimamente ligado à cognição, sendo essa individual, mas que gera nas organizações um processo de aprendizagem coletiva. Segundo Fleury & Fleury (2007), “a aprendizagem é um processo neural, que leva a construção de memória, aquilo que se aprender depois de esquecer é como se nunca tivesse aprendido” (p. 39).
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Porém antes de falarmos sobre o processo de aprendizagem e a cognição existe uma fase anterior que envolve a informação. Bastos (2007) diz que:
“O processamento de informação envolve uma seqüência serial de opera‑ ções simbólicas que incluem capturar, codificar, comparar, transformá-las e armazená‑las atualizadas. Tais ciclos captura‑opera‑armazena ocorrem em uma escala temporal compatível com as demandas ambientais (tempo real), dentro de um postulado de linearidade e aditividade”. (p. 87)

Assim o processo de informação também está diretamente ligado à aprendizagem, pois ambos possuem uma relação direta com a cognição. São inúmeras as formas de aprender e cada pessoa é única nesse processo, pode-se aprender lendo, ouvindo, errando, na prática, vivenciando e observando entre outras.
“... a conjugação de situações de aprendizagem que podem propiciar a transformação do conhecimento em competência, essa transformação, só acontece em um contexto profissional específico, pois a realização da competência deverá não apenas agregar valor ao indivíduo, mas também a organização.” (Fleury & Fleury, 2007 p. 41).

No cerne deste processo, as mídias, independente da sua forma de expressão, ou veículo de condução da informação, geram nos indivíduos, desejos, curiosidades, anseios, e afloram necessidades latentes, seja por cor, odor, forma, calor, tempo, visualização, que reportam na ancoragem emocional a memória seletiva. Assim, tanto pelo senso comum, como pelo formador de opinião podem direcionar o consumo de produtos e serviços. As formas de expressar das mídias são focadas para cada tipo de público e se classificam, por renda, idade, sexo, costumes, culturas, comportamentos e outros subgrupos de classificação. Especificamente na condição de ensino–aprendizagem, independentemente do ambiente interno ou externo (dentro ou fora da escola) as mídias disponibilizadas hoje são as mesmas de qualquer ambiente social. Isso permite ao aluno um senso crítico maior, no entanto, ao mesmo tempo em que o torna mais crítico o torna mais vulnerável, pois o volume de informação e a diversidade ofertada a ele sem uma orientação docente qualificada e atualizada, o coloca a mercê do mercado, seja ele qual for. A escola, como facilitadora na formação do caráter do aluno, gestora, e mediadora do conhecimento tem a responsabilidade solidária de orientar o melhor caminho, e assim agir, inferir, intervir, prever, se antecipar e se adequar nesse processo.. Neste sentido, fazendo um adendo ao ambiente virtual, observa-se a dinamicidade e velocidade da comunicação como um agente não apenas modificador, mas também capaz de pluralizar e acelerar as competências do educando no que diz respeito à atratividade e interatividade do meio educacional. Percebendo a inquietude do corpo discente, o termo “ciberespaço” defendido por LEVY é definido por LEMOS (apud FREIRE, 2008) como “hipertexto
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mundial interativo auto - organizante” e por sua multiplicidade de ações, “é o ambiente de circulação de discussões pluralistas, reforçando competências diferenciadas e aproveitando o caldo de conhecimento que é gerado dos laços comunitários, podendo potencializar a troca de competências, gerando a coletivização dos saberes”. (FREIRE, 2008 p.81) O autor acrescenta ainda que “a escola contemporânea precisa ser problematizadora, desafiadora, agregadora de indivíduos pensantes que constroem conhecimento colaborativamente e de maneira crítica”. (FREIRE, 2008 p.73) No que tange o processo de aquisição de conhecimento é clara a relação entre a gestão do conhecimento, as ciências cognitivas e as mídias no processo ensino-aprendizagem. Nas instituições educacionais a relação dos mesmos também fica evidente, como já foi mencionado o processo de aprendizagem acontece tanto pelo indivíduo, quanto pelas relações que o mesmo estabelece com as relações sociais, e as escolas devem ser ambientes facilitadores desse processo de aprendizagem. Isso por que segundo Aguiar (2006) sem esse estímulo, muitos indivíduos jamais atingirão realmente sua capacidade mental. Aguiar (2006) diz ainda que:
“As organizações podem, portanto, controlar o desenvolvimento cognitivo de seus membros, à medida que selecionam as ações do indivíduo e as orientam em dada direção desejada por ela. Para que o indivíduo, em da‑ do contexto social, possa desenvolver seu processo de perceber e pensar, é necessário que os instrumentos para esse desenvolvimento lhe sejam possibilitados”. (AGUIAR, 2006 p. 259)

Perante a necessidade de ordenação e estruturação de uma organização sócio-digital, a utilização de ferramentas contempla e dinamiza o processo, promovendo mais facilmente a transformação e estímulo às habilidades mentais dos grupos de indivíduos. Nesta ótica, podemos perceber que, numa perspectiva cognitivista, a utilização e implementação de um ambiente virtualmente educativo atende a necessidade de compreensão e interiorização do conhecimento. O uso das redes eletrônicas, como uma nova forma de interação no processo educativo, amplia a ação de comunicação entre aluno e professor e o intercâmbio educacional e cultural e, desenvolvendo suas habilidades de maneira dinâmica e estimulante, fazendo da prática pedagógica um ambiente atrativo onde o aluno é capaz, através da auto-aprendizagem e de seus professores, tirar proveito na sua preparação para a vida e para o trabalho. Neste contexto, fazendo referencia a interpretação de NONAKA E TAKEUCHI (2008, p.39),
“em uma economia onde a única certeza é a incerteza, a fonte de van‑ tagem competitiva duradoura é o conhecimento. Quando os mercados
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transformam‑se, as tecnologias proliferam, os competidores multiplicam‑ se e os produtos tornam‑se quase obsoletos quase toda noite, as empresas bem sucedidas são as que criam consideravelmente novos conhecimentos, disseminam‑no amplamente pela organização e o incorporam rapidamen‑ te em novas tecnologias e produtos. Essas atividades definem a empresa como “criadora do conhecimento”, cujo negócio principal é a inovação constante.” NONAKA E TAKEUCHI (2008, p.39)

No tocante da reflexão, cabe a nós projetarmos a eficiência da utilização da TI como ferramenta potencializadora do processo de ensino-aprendizagem, crer em uma nova dimensão qualitativa para o ensino, através da qual se coloca o ato educativo voltado para uma visão mais internacionalizada e colaborativa, onde a mediação possa além de permitir, disseminar a partilha do conhecimento.

3. CONCLUSÃO
Percebendo a partir dos pilares já conhecidos – aprender a conhecer, a fazer, a conviver, e a ser – que um novo conceito desponta e vem quebrando estruturas e rompendo paradigmas educacionais pré-estabelecidos, o “aprender a empreender”, remete a uma nova discussão no ambiente educacional, onde o professor deve contribuir como gestor do conhecimento, mediando o processo sendo o facilitador cognitivo. A proposta apresentada neste trabalho foi, de fazer uma revisão da literatura, procurando descrever os aspectos a respeito das TIC, a relação entre a gestão do conhecimento, as mídias, e ensino-aprendizagem no processo cognitivo, e a atuação das mesmas frente às modificações e exigências ao novo processo educativo. A partir dessa revisão fica clara a relação entre esses temas no que tange a necessidade de buscar instrumentos facilitadores que promovam uma mediação significativa. As instituições educacionais são responsáveis pelo estímulo aos indivíduos, pois só a partir deste, é que, o processo de criatividade remete ao desenvolvimento da cognição. Mesmo sabendo que se pode aprender individualmente, a aprendizagem é maior nos contextos sociais, pensados e defendidos aqui no âmbito da inclusão digital. Assim sendo, elucidamos que o tema não se esgota aqui, que a pesquisa bibliográfica nos remete a identificação do quanto é vasto o campo do estudo da aceleração do processo de ensino-aprendizagem numa perspectiva cognitiva tecnológica, objetivando impulsionar e potencializar o desenvolvimento do processo de interiorização e posterior partilha do conhecimento. Neste contexto percebendo a relevância da discussão sobre o tema apresentado, o artigo visa provocar uma reflexão de forma a nortear o estudo, percebendo a atual conjuntura, ampliando a ótica educacional, onde, os segmentos
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participantes, absorvam as oportunidades que lhe são ofertadas, permitindo assim, os encaminhamentos e direcionamentos de alavancagem do processo de ensino e aprendizagem.

AGRADECIMENTO
Agradeço sinceramente ao PPGEGC, pela luz irradiada, ao qual tem me oportunizado viajar no mundo do conhecimento. Aos meus dois amores, meu companheiro Walter e meu filho Arthur, pela paciência, amor e carinho.

REFERÊNCIAS
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LEVY, Pierre. O que é virtual? Tradução Paulo Neves. São Paulo: Editora 34, 1996. MATURANA, Humberto R. ; VARELA, Francisco J. A Árvore do Conhecimento: as bases biológicas da compreensão humana. São Paulo: Palas Atenas, 2001. NONAKA, I.; TAKEUCHI, H.; tradução Ana Thorell. Gestão do Conhecimento. Porto Alegre: Boockman, 2008. PELLANDA, Nize M. C. e Eduardo C. (org.). Ciberespaço: um hipertexto com Pierre Lévy. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 2000. SAMPAIO, Marisa Narcizo. Alfabetização Tecnológica Do Professor. Petrópolis: Vozes, 1999. SANCHO, Juana Maria (org.). Para uma Tecnologia Educacional. Porto Alegre: ArtMed, 1998. SANCHO, Juana Maria. Tecnologias para Transformar a Educação. Porto Alegre: ArtMed, 2006. VALE, G. M. V. Empreendorismo, inovação e redes: uma nova abordagem. Vol.7 n.1. RAE Eletrônica. http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S167656482008000100008&lang=pt acesso em 19/08/2009. VOSGERAU, Dilmeire S. R. A Tecnologia Educacional Face à Evolução das Correntes Educacionais: as contribuições da psicologia cognitiva. Contrapontos, Itajaí, UNIVALI, v. 7, n. 2, p. 269-281, mai/ago. 2007.

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COMMONKADS PARA CONSTRUÇÃO DE SISTEMA DE CONHECIMENTO: UMA SOLUÇÃO PARA SEGURANÇA PÚBLICA DE SANTA CATARINA
Secretaria de Segurança Pública de Santra Catarina Programa de Pós‑Graduação em Engenharia e Gestão do Conhecimento – EGC/UFSC
edsoneconomia@gmail.com

Edson Rosa Gomes da Silva

Instituto de Governo Eletrônico Inteligências e Sistemas‑i3G Programa de Pós‑Graduação em Engenharia e Gestão do Conhecimento – EGC/UFSC
Sonali.bedin@i3g.org.br

Sonali Paula Molin Bedin

Instituto de Governo Eletrônico Inteligências e Sistemas‑i3G
thiago.paulo@i3g.org.br

Thiago Paulo Silva de Oliveira

Programa de Pós‑Graduação em Engenharia e Gestão do Conhecimento – EGC/UFSC
aires.rover@gmail.com

Aires José Rover

Programa de Pós‑Graduação em Engenharia e Gestão do Conhecimento – EGC/UFSC
pacheco@egc.ufsc.br

Roberto Carlos dos Santos Pacheco

RESUMO
O problema de criminalidade se faz presente na maior parte do globo e afeta todas as classes sociais. A maneira de atuar no controle, na prevenção e no combate para coibir seus malefícios é que vai ditar as regras para cercear suas ações e seu crescimento. Para que ocorra esse cerceamento os governos devem seguir as mais modernas formas para seu enfrentamento. A sociedade do conhecimento propicia através da engenharia e gestão do conhecimento as técnicas e métodos necessários. Entretanto é de vital importância seguir uma metodologia para realizar a explicitação do conhecimento humano através de sistemas de conhecimento. A metodologia CommoKads é utilizada, neste artigo, pois está na vanguarda das metodologias, focando primordialmente nos sistemas intensivos de conhecimento. Neste artigo, ela é utilizada para auxiliar o desenvolvimento de um sistema de conhecimento para a Segurança Pública do Estado de Santa Catarina.

PALAVRAS-CHAVE
Segurança Pública. Interoperabilidade. Modelagem de Conhecimento. CommonKads. Governo Eletrônico.
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1. INTRODUÇÃO
A criminalidade não é um problema exclusivo dos países em desenvolvimento, como pode parecer à primeira vista, mas sim um fenômeno global que toma, cada vez mais, grandes proporções. A capacidade de organização e estruturação das facções criminosas aliadas ao seu grande poder econômico tem favorecido sobremaneira a prática de crimes tidos como tradicionais e também o surgimento de novas formas de ação. Como forma de aplacar as ações dos criminosos, o poder público se volta, aos poucos, à utilização de tecnologias pautadas em um novo paradigma da sociedade do conhecimento, que busca utilizar de forma eficiente a tecnologia a serviço do cidadão. Esta nova sociedade, exposta a todo tipo de desenvolvimento, se modernizou e globalizou em todos os aspectos, exigindo que uma eficiente defesa social seja apoiada em estratégias eficazes, que garantam a segurança pública. Estas estratégias, por sua vez, devem utilizar todos os recursos tecnológicos disponíveis, além de priorizar análises técnicas e cruzamento de dados e informações para produzir conhecimento. A adoção de sistemas inteligentes se configura em aplicação de premissas de governo eletrônico, onde as tecnologias da informação (TI) são postas a serviço do cidadão, neste caso, para contribuir para a sua segurança pública. Para fazer frente a esta nova realidade, a Secretaria de Segurança Pública (SSP) de Santa Catarina tem se empenhado em modernizar suas instituições, garantindo aos órgãos atuantes tecnologias inteligentes para uso e aplicação em todas as esferas. Assim, este artigo pretende discorrer sobre o assunto segurança e a utilização da TI como forma de produzir conhecimento para subsidiar a tomada de decisão dos agentes públicos, visando à prevenção e o combate à criminalidade. Para isso, pretende-se dar primeiramente um contexto organizacional, com adoção de uma metodologia para buscar uma visão holística da organização em estudo e suas atividades. Assim, será utilizada a conceituação de sistemas apresentada por BUNGE [3], através de seu modelo CESM (Composition – Environment – Structure – Mechanism) e, para uma modelagem mais descritiva, os processos da metodologia CommonKads. Aplicando conceitos de governo eletrônico e recursos de engenharia do conhecimento, juntamente com a utilização da metodologia referenciada para a representação da temática, pretende se demonstrar que é possível o desenvolvimento de um sistema de conhecimento com o cruzamento das informações das instituições da Secretaria de Segurança Pública. Também pretende se evidenciar como a integração das bases de dados com suporte de ferramentas computacionais e técnicas de engenharia auxilia no processo de busca através da criação de ontologias em um domínio, por facilitar a análise e interpretação das informações e posterior estratégia de ação.
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2. GESTÃO DO CONHECIMENTO NA SEGURANÇA PÚBLICA
Gerir as informações produzidas em larga escala se configura como um grande gargalo em todas as áreas governamentais. Além de serem dotadas de confiabilidade, estas informações devem ser precisas e corretas para garantir a sua utilização. Nos projetos de políticas públicas ou privadas, há consenso que os melhores recursos estratégicos são as informações produzidas [11]. No caso da SSP, a tomada de decisão ou a modelagem de uma estratégia de ação é imperativamente definida a partir da análise dos dados disponíveis. E, sob este aspecto, pelo bem do cidadão, não é possível errar ou falhar. Importante lembrar que podem ocorrer problemas com a geração de um número muito grande de informações, pois a utilização sem os cuidados devidos no armazenamento pode inviabilizar o acesso e o reaproveitamento. Aprimorar as tecnologias existentes não é tarefa fácil, pois a utilização das tecnologias de informação não garante, por si só, o sucesso e o alcance dos objetivos, mas sim a combinação inteligente com base nas competências organizacionais, ou seja, a excelência nos processos de trabalho; dinâmica na relação com a comunidade; valorização e motivação do capital humano; simplificação dos métodos gerenciais; conhecimento do domínio de atuação; conhecimento dos processos organizacionais; das atividades intensivas de conhecimento e disseminação rápida dos conhecimentos que irão fomentar as estratégias, além de trazer benefícios para o governo e para a sociedade como conseqüência. Rocha [14] menciona que Estados e Municípios não alcançarão seu inteiro desenvolvimento se não usarem informações precisas, atualizadas e de forma rápida sobre os melhores meios de otimizarem os recursos gerados em sua sociedade. Sob este aspecto, é sabido que os obstáculos enfrentados na gestão da segurança pública são cada dia mais complexos. Segundo Melo [11]: “A criminalidade do fim do século se caracteriza por ser complexa; e é este o atributo que vai direcionar a forma precisa e eficiente de combatê-la ou controlá-la”. Podemos perceber que há uma necessidade clara da utilização de um sistema intensivo de conhecimento para dinamizar o processo de análise das informações, mas não parece ser uma tarefa simples. O filósofo Argentino, Mário Bunge [3], afirma que qualquer sistema pode ser modelado através da quádrupla do modelo CESM (Composition – Environment – Structure – Mechanism). Ele acredita que para se conceber um sistema é necessário saber a composição (coleção de todas as partes do sistema), ambiente (coleção de itens que não pertencem ao sistema e atuam ou sofrem a ação por algum ou todos os componentes do sistema), estrutura (coleção de relações, em particular ligações (bonds), entre os componentes do sistema ou entre esses e seu ambiente) e mecanismo (coleção de processos que fazem o sistema se comporta da maneira que tem de se comportar). Apresentamos a seguir o
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enfoque do sistema de conhecimento para segurança pública na visão proposta. Como contextualização, podemos dizer que o Sistema Integrado é subsistema do Sistema de Segurança Pública, tendo a função de fiscalizar, controlar e desenvolver mecanismos de atendimento ao cidadão pelas autoridades de segurança, que fazem parte da Secretaria de Segurança Pública. As autoridades necessitam de automatização dos processos de análise das informações contidas nas bases de dados institucionais por meio de representações multifacetadas do conhecimento implícito. Para isso, podemos utilizar a visão do modelo CESM na Tabela 1.
Tabela 1. Revisão do sistema de conhecimento segundo o modelo CESM. Composição Ambiente Estrutura Mecanismo Agentes, sistemas de recuperação de informação, autoridades, policiais civis e militares, interoperabilidade, elementos da sociedade, cultura, estrutura de comunicação, imprensa. A Secretaria de Segurança Pública, os sistemas das instituições e o governo. Policiamento, prestação de serviços a comunidade, monitoramento da criminalidade e análise. As inferências dos analistas sobre as informações dos vários sistemas das instituições com foco a gerar conhecimento para ser usado nas políticas de segurança e enfrentamento da criminalidade.

3. ASPECTOS CONTEXTUAIS DO SISTEMA SEGUNDO A METODOLOGIA COMMONKADS
O sistema de gestão do conhecimento na SSP consiste na seleção dos dados relevantes nos vários sistemas das instituições que a compõem, a saber: • Informações da Polícia Militar; • Informações da Polícia Civil; • Informações do Instituto Geral de Perícias, em especial do Instituto de Identificação; • Informações do Sistema Prisional; • Informações do Departamento de Trânsito e • Informações do Corpo de Bombeiros Militar. Este é, sem sombra de dúvidas, um sistema complexo e vamos observar seu desenvolvimento através do suporte da metodologia CommonKads, que será apresentada por planilhas que são propostas por esta metodologia. Antes porém, é necessário fazer algumas considerações a respeito da metodologia CommonKads. A metodologia CommonKads é uma metodologia voltada ao desenvolvimento de sistemas intensivos em conhecimento e segue uma
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criteriosa e profunda análise organizacional visando identificar a viabilidade do sistema de conhecimento, ou seja, a melhor técnica de engenharia do conhecimento a ser empregada e a direção para o desenvolvimento. A utilização da metodologia, através da primeira planilha, Tabela 2, vislumbra o Modelo de Organização (Planilha OM-1), e apresenta os problemas e oportunidades da organização para adoção de um sistema.
Tabela 2. Modelo da organização, planilha OM-1: Problemas e Oportunidades. Modelo da organização Organização: Secretaria de Segurança Pública Planilha OM-1 Problemas e Oportunidades * O crescente aumento do índice de criminalidade e a sensação de insegurança na sociedade. * A cobrança da sociedade, através da opinião pública, por soluções efetivas contra a criminalidade. * As sofisticadas formas de atuação das organizações criminosas com planejamento nas ações. * A utilização do enfrentamento direto através de operações mal planejadas das autoridades que visa apenas ao combate da criminalidade. * A pouca atuação na prevenção que necessita de formas mais eficazes para dar suporte as ações. * O pouco investimento nas TICs. * A não utilização dos bancos de dados e informações de forma compartilhada. * A utilização de sistemas transacionais estanques nas instituições. Missão: * Dotar as instituições da SSP com meio de controlar, combate e prevenir a criminalidade. * Dar suporte financeiro as suas instituições para realizar suas missões constitucionais. * Criar as políticas necessárias para nortear as ações das instituições da SSP. * Realizar os convênios necessários para alcançar a finalidade de suas instituições. * Planejar as macro ações de segurança pública. * Acompanhar os índices criminais e os apresentar mensalmente para o Governo Federal e publicar em diário oficial do estado. * Observar os preceitos legais. * Realizar a interoperabilidade dos sistemas das instituições da SSP para ter uma visão mais abrangente das informações contidas nos sistemas. * Fomentar o planejamento com base no cruzamento das informações (Inferências) das instituições, como forma de alcançar um retorno das ações mais eficiente. * Apresentar as informações em forma multivariada com a utilização de relatórios dinâmicos, geoprocessamento e rede de relacionamentos. * Criar um ambiente computacional facilitador para apoiar a tomada de decisão das autoridades. * Inserir no ambiente recursos computacionais automáticos para apoiar as ações de combate, prevenção e controle da criminalidade.

Soluções

Contexto organizacional

Problemas e oportunidades

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A segunda planilha retrata os aspectos de mudança criados pela solução proposta (Planilha OM-2), a Tabela 3 mostrando o as possíveis soluções.
Tabela 3. Aspectos de mudanças da solução proposta. Organização: Secretaria de Segurança Pública Planilha OM-2 Aspectos de mudança criados pela solução proposta Vide Figura 1 Vide Figura 2 * Recursos humanos para análise das informações; * Infra-estrutura tecnológica - Servidores, Recursos Computadores, Infra-estrutura de Rede; * Software de gestão - Rede de Relacionamento, Text Mining, Data Mining. * Cruzamento das informações gerando novas formas de observar e analisar os cenários apresentados; Conhecimento * Visão multifacetada dos problemas de segurança; * Utilização dos dados de várias instituições fomentando a troca de informação e o cruzamento para gerar novos conhecimentos. * As instituições geralmente não querem compartilhar as informações de suas instituições; * As instituições têm papeis definidos pela constituição e estão em constantes brigas; Cultura & * As ações de atendimento aos cidadãos são divididas, mas as poder instituições executam atividades que não são de suas esferas; * As regras nas políticas de segurança são de responsabilidade de SSP, mas as instituições criam algumas também; * Não há uma visão sistêmica das informações para gerar conhecimento. Modelo da organização Estrutura Processo Pessoas

Na Figura 1 podemos perceber uma estrutura que visa analisar a estrutura organizacional para entender do seu processo interno. As figuras 4 e 5 abordam o trâmite dos dados para as instituições e o fluxo sintetizado das informações internas às instituições respectivamente. A Figura 1 apresenta a estrutura da SSP e mostra as ações em cada camada estratégica. Na Figura 2 podemos verificar o processo primário e secundário, onde o primeiro é a recepção das informações e o segundo a análise das informações. Os dados repassados pelos cidadãos introduzidos nos sistemas transacionais das instituições e arquivados nos bancos de dados como vemos na Figura 3. Pois esse processo, os dados são acessados pelos analistas de segurança no processo secundário, para realizar os cruzamentos (inferências) necessários para gerar os conhecimentos.
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Figura 1. Estrutura da SSP.

Figura 2. Processo das instituições da SSP.

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Figura 3. Fluxo sintetizado das informações.

A planilha OM-3, Tabela 4, apresenta as principais tarefas do processo desenvolvido nas instituições e verifica-se as atividades intensivas em conhecimento, e que devem e podem ser automatizadas através das técnicas de engenharia do conhecimento. Nessa tabela podemos verificar que foram identificadas três tarefas intensivas em conhecimento. Pôde se verificar que embora as tarefas apresentem a mesma necessidade de inferência, elas são utilizadas por aplicações distintas, ou seja, visando diferentes fins.
Tabela 4. Principais tarefas do processo de negócio. Modelo da organização Nº 1 2 3 Tarefa Solicitação de atendimento Atendimento Registro do acontecimento no sistema Análise das informações para traçar estratégias Organização: Secretaria de Segurança Pública Planilha OM-3 Principais tarefas do processo de negócio Executada por Ativo de conhecimento Intensivo? Informar o problema ocorrido Cidadão a instituição responsável Não pelo atendimento Enquadramento da Servidor Não Público solicitação no processo Servidor Público Sttaf da Instituição e gerentes Conhecimento de uso de computadores Analisar as informações de sua instituição e das outras instituições para aumentar as eficiências nas ações de segurança Não

4

Sim

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5

Análise das informações para traçar políticas públicas de segurança Utilização das informações de outras instituições para solucionar problema em sua instituição

6

Capacidade crítica e analítica de informações Diretorias multifacetadas das instituições da SSP e assessores do através das inferências secretário dos analistas e geração do conhecimento fundamental Consultar nos bancos de dados de outras instituições e ter a capacidade de análise para Servidor Público cruzar as informações e extrair soluções para problemas específicos na instituição.

Sim

Sim

Na Tabela 5 podemos visualizar os ativos do conhecimento e verificar a parte do processo e os envolvidos no seu desenvolvimento, as atividades, bem como sua execução no local correto, no tempo certo e com a qualidade pretendida, que se espera do ativo de conhecimento produzido.
Tabela 5. Ativos de conhecimento. Organização: Secretaria de Segurança Pública Planilha OM-4 Ativos de conhecimento Possuído Forma Ativo de conhecimento Qualidade correta? por correta? Depende da pessoa Informar o problema ocorrido Às (o servidor utiliza técnica à instituição responsável Cidadão vezes de entrevista para obter as pelo atendimento informações necessárias) Enquadramento da Servidor Sim Sim solicitação no processo Público Depende do Servidor Conhecimento de uso Servidor Sim (Alguns necessitam de computadores Público de treinamento) Analisar as informações de Depende da informação Sttaf da Não sua instituição e das outras na base de dados Instituição instituições para aumentar a (O sistema deve analisar e gerentes eficiências nas ações de segurança inconsistências) Capacidade crítica e analítica Dificilmente, pelo Diretorias de informações multifacetadas tempo necessário Não da SSP e das instituições através das (Através da engenharia do assessores inferências dos analistas e geração conhecimento é possível do secretário do conhecimento fundamental melhorar a qualidade) Consultar nos bancos de Não dados de outras instituições (Devido a não integração Não e ter a capacidade de análise Servidor das informações e para cruzar as informações e Público a não obtenção de extrair soluções para problemas acesso aos sistemas de específicos na instituição. outras instituições) Modelo da organização

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A Tabela 6 é apresentada como um “divisor de águas”, ou seja, ela verifica se há viabilidade de desenvolver o sistema baseado em conhecimento de acordo com as informações fornecidas pelas planilhas anteriores. Mas, embora se tenha a resposta da viabilidade, ainda é necessário escolher qual técnica de engenharia do conhecimento ou quais delas são necessárias para a construção destes sistemas.
Tabela 6. Check-list da decisão de viabilidade. Modelo da organização Viabilidade do negócio
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Organização: Secretaria de Segurança Pública Planilha OM-5 Check-list da decisão de viabilidade Tendo em vista que os dados necessários para realizar o cruzamento das informações estão nos sistemas transacionais das instituições da SSP é correto afirmar a viabilidade do negócio, que exige, apenas a elaboração de um projeto de engenharia do conhecimento para possibilitar as inferências necessárias. Desta forma, auxiliando o processo de inteligência da SSP e garantindo ações mais céleres e eficazes frente ao aumento da criminalidade. Com os avanços das TICs e da engenharia do conhecimento é possível viabilizar tecnicamente o cruzamento de informações com base no conhecimento dos analistas e disponibilizar um ambiente integrado de consulta e agregar ferramentas para dar suporte a tomada de decisão das instituições da SSP. Além da engenharia do conhecimento, o avanço tecnológico se traduz na existência de poderosos hardwares, essenciais ao sistema, pela existência de uma vasta base de informações e pela necessidade da realização de inferências entre elas. O projeto se justifica pela redução do tempo necessário ao acesso em bases de informações das várias instituições da SSP, além da rapidez no processo de inferência entre as informações das bases. Além desse fator, há uma redução do número de recursos humanos necessários, possibilitando a alocação de servidores em outras áreas da instituição. O projeto também possibilita o cruzamento das informações que poderão ser reutilizadas com o emprego de ferramentas analíticas (geoprocessamento, relatórios dinâmicos e gráficos estatísticos) para auxiliar na tomada de decisão das autoridades nas estratégias de enfretamento e políticas de segurança pública. Além desses fatores, a prioridade de programas do governo na área de segurança permite a utilização de recursos financeiros do governo federal para o planejamento e execução de projetos Desenvolver um modelo de cruzamento de informações utilizando o conhecimento dos analistas de segurança para dar suporte nas ações desenvolvidas na SSP e suas instituições. Verificar as ferramentas analíticas para incorporar no sistema e automatizar a produção dos conhecimentos necessários à utilização da confecção do planejamento das ações de segurança pública. Criar os critérios de acesso as informações nos vários níveis estratégicos da SSP e suas instituições.

Ações propostas

Viabilidade do projeto

Viabilidade técnica

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Da Tabela 7 em diante vamos analisar apenas uma das tarefas intensivas de conhecimento, porque o objetivo aqui não não é detalhar a explicação, mas mostrar a utilização da metodologia CommonKads. Assim, vamos utilizar a atividade de conhecimento n° 5 que é a análise das informações para traçar estratégias. Lembrando que na construção de um sistema de conhecimento seria necessário abordar todas as atividades intensivas de conhecimento nesta planilha.
Tabela 7. Análise da tarefa escolhida para ser trabalhada. Modelo da Organização: Secretaria de Segurança Pública organização Planilha TM-1 Análise da tarefa Tarefa 5. Análise das informações para traçar estratégias Tarefa desenvolvida no processo de análise estratégica. Organização Realizada pelo analista de segurança em vários sistemas, provavelmente terá grande alívio em tê-la automatizada. Garantir uma visão geral das informações das instituições de Objetivo forma cruzada para apoio a tomada de decisão. Diminuição do e valor tempo de análise e planejamento de ações de forma mais efetiva. * Tarefas de entrada: Relatórios com informações relevantes fornecidas pelos cidadãos e análise com emprego de técnicas de referencia cruzada. Dependência e fluxo * Tarefas de saída: Análise critica dos analistas sobre os problemas encontrados nas instituições por bairro, município e no Estado. * Objetos de entrada: Informações sobre efetivo, viaturas, número de delitos por local e por necessidade, recursos disponíveis e recursos futuros, dados de servidores prestados. * Objetos de saída: Relatório correlacionando variáveis, previsão Objetos manipulados de emprego de recursos e efetivo, aumento do número de viaturas por local de atendimento (demanda X oferta de serviço). * Objetos internos: Dar eficiência nos serviços prestados e reduzir a criminalidade. A análise será realizada por um pequeno número de analistas capacitados, mas que permitirá a análise de um número de informações muito grande. O controle do tempo pode ser auferido pela redução Controle no tempo das investigações policiais que necessitem de informações de tempo, fornecidas pelo serviço de inteligência da SSP. A pré-condição pré e necessária está na capacidade analítica dos gestores e na confiabilidade pósdas informações fornecidas ao sistema. As pós-condições são condições relacionadas a agilidade na análise da informações e emprego efetivo dos conhecimento gerados na prestação do serviço público, nas ações de segurança, na política de segurança e no planejamento. Na situação antiga: Pelos analistas de segurança sem suporte e de forma Agentes manual. Na nova situação: Com auxílio do sistema de conhecimento. Conhecimento em análise de dados e informações das instituições de Conhecimento segurança, processo internos, além de conhecimento multidisciplinar e competência socioeconômica de problemas correlatos a criminalidade.

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Recursos

Qualidade e desempenho

Na situação antiga: Bancos de dados estanques, falta de interoperabilidade, tabulação das informações, inferências sobre os dados, interpretação dos resultados a verificação no contexto do ambiente, geração de relatórios. Na nova situação: Hardwares, Softwares de gestão e de relacionamento e recursos humanos capacitados à análise relatórios dinâmicos. Frente os problemas fracionados ou gerais é necessário a análise estrutural e conjuntural das variáveis e a utilização do conhecimento na adoção de forma eficientes de atuação para coibir e neutralizar as ações anti sociais. Quanto à qualidade, tem que atender aos requisitos e preferências explicitados conforme o problema apresentado.

Com base na análise da planilha, podemos escolher uma tarefa que acreditamos necessária antes da aplicação das inferências (cruzamento) das informações para gerar o conhecimento. Podemos perceber que, como há um grande número de informações recebidas nos sistemas, umas das dificuldades encontradas pelos analistas e, sem sobra de dúvidas, as recuperações das informações dos sistemas transacionais das instituições da SSP. Servidores com diferentes perfis, executando atividades distintas e em situação heterogenias utilizam jargões diferentes, ou seja, as informações nos bancos de dados podem ter conteúdo semântico diferente, embora a única diferença seja a sua representação. Assim, a utilização da engenharia de ontologia, técnica da engenharia do conhecimento, pode auxiliar no processo de obtenção dos dados relevantes para analise dos especialistas. Outras inferências se fazem necessárias no sistema pretendido, mas por hora vamos nos concentrar nas ontologias.

4. MODELO DE COMUNICAÇÃO NO CONTEXTO DA SSP
Uma exemplificação simples de interdependência das ações no universo da segurança pública está no estabelecimento de linha hierárquica de ação que deve abastecer a base com soluções, procurando aumentar a eficiência. Contudo, para que ocorra o fornecimento destas soluções, a base deve alimentar a equipe de comando com informações relevantes das demandas a serem sanadas. Assim, acontece um processo de realimentação constante do fluxo das informações que são usadas em prol da instituição, a fim de atenuar possíveis erros de concepção na gestão da informação e na conversão desta, em conhecimento reutilizável. Esse fluxo hierárquico de informação pode ser denominado como sendo o modelo de comunicação. O conhecimento produzido ou a informação devem ser transferidos para outras partes que os utilizam na realização de sua própria tarefa. Assim, o modelo de conhecimento especifica procedimentos de troca de informação para realizar a transferência de conhecimento entre agentes. A Figura 4 apresenta o processo de comunicação entre os níveis dentro das instituições. Entretanto, o retorno deveria
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ser dado através das inferências (cruzamento) das informações dentro dos sistemas das instituições, coisa que acontece muito precariamente devido a falta de processos de engenharia e gestão do conhecimento dentro de muitas instituições públicas.
Figura 4. Processo de comunicação entre os níveis dentro das instituições.

A Figura 5 dá uma idéia mais precisa do modelo de comunicação na visão geral dos sistemas que compõem o todo nas organizações, onde há um processo de comunicação interno e externo entre os sistemas, aferindo as informações e verificando inconsistências entre os dados armazenados. Um ponto importante a esclarecer é que a base operacional da SSP é composta pelas instituições que pertencem a ela, pois a SSP é um órgão meramente administrativo e gerencial nas ações de segurança pública.
Figura 5. modelo de comunicação na visão geral dos sistemas.

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5. MODELO DE CONHECIMENTO
O sistema de gestão do conhecimento na SSP consiste na seleção dos dados relevantes nos vários sistemas das instituições que a integram por um grupo de coordenação do processo, sendo armazenado em uma base de estagiamento e tratamento das informações. Essa Base de estagiamento foi adotada devido a disparidade de tecnologias encontradas nas instituições, onde algumas dificultavam o acesso direto às informações. Outro ponto importante é que o acesso direito às bases de dados deixaria, de certa forma, engessada a evolução dos sistemas, pois qualquer mudança da estrutura na base de dados seriam necessárias alterações na base de inferências (cruzamento) das informações. Assim podemos optar pela transferência de um arquivo de texto (XML) e a leitura automatizada das informações pelo sistema, e realizar a carga de dados para a base. Na base, as informações são armazenadas em tabelas do banco de dados e o sistema realiza o tratamento das inconsistências, organizando os dados para posterior consulta. Devido à disparidade encontrada nas tecnologias existentes, como mencionado, alguns sistemas foram desenvolvidos e outros reestruturados para se moldar à filosofia da gestão do conhecimento adotada. Para garantir a segurança no processo, a Diretoria de Informação e Inteligência gerencia o processo de gestão do conhecimento e os disponibiliza inter instituições e realiza o controle nos acesso as informações, valendo-se da legislação vigente da atividade de inteligência. O sistema realiza a leitura na base de dados de acordo com a solicitação, pois esta pode ser uma solicitação estática ou dinâmica, ou seja, o conhecimento pode ser acessado simultaneamente das várias instituições ou necessitar de cruzamentos (inferências) entre as instituições para alcança o conhecimento pretendido. Assim, se faz a apresentação dos dados de forma organizada, gerando valor agregado às informações que são cruzadas entre as instituições. O sistema evita que um analista de segurança tenha que entrar em vários sistemas e realize o cruzamento dos dados de forma manual. Tudo é realizado de forma automatizada graças as inferências que foram incutidas no sistema e fazem com que apenas as informações relevantes para o emprego na tomada de decisão sejam cruzadas, já que metodologia de cruzamento das informações foi modelada com base no conhecimento dos analistas. A visualização pode ser feita através de relatórios, redes de relacionamentos, mapas geo-estatísticos, relatórios gráficos e uma série de formas de representação do conhecimento. A Figura 6 apresenta uma idéia sucinta. Para facilitar a interoperabilidade das informações foram desenvolvidos os alicerces necessários que são três os pilares (Figura 7): a) Índice de pessoas; b) Índice de logradouros; c) Padronização de dados.
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Figura 6. Estrutura das Informações para Inferências.

Figura 7. Alicerces do SISP (Sistema Integrado de Segurança Pública).

Esta interoperabilidade vem reforçar a necessidade de compreensão da interdependência de ações dos vários subsistemas que compõem a sociedade. a) O índice de pessoas é um dos principais controles do sistema, pois é através deste controle que é garantido o critério de unicidade de pessoa nos sistema da SSP. O índice consiste basicamente na adoção de uma base onde são inseridos os nomes das pessoas que fazem parte dos sistemas de registros e processos de órgãos da SSP.
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Quando um sistema da SSP vai realizar a abertura de um procedimento interno, o sistema começa a inserção através da consulta na base de índice para verificar a existência do nome na base de dados. Uma consulta através da digitação do nome da pessoa no sistema é realizada, onde o computador verifica as pessoas que têm o nome com a mesma grafia digitada, e também com a utilização de fonética. Depois da verificação o sistema devolve o resultado da pesquisa e o funcionário verifica na lista a pessoa certa a ser localizada. O critério de aferição ocorre através da triangulação de dados, que é chamado de verificação do onomástico, para diminuir o número de respostas quando o nome for muito comum. A verificação do onomástico é a verificação de algumas variáveis como o nome da pessoa com a correta grafia ou fonética, nome da mãe, data de nascimento e local de nascimento. Caso o funcionário, por alguma razão tentar, inserir um nome já existente na base, o sistema, através do controle do onomástico, informa que o individuo está cadastrado na base do índice, e fornece uma mensagem perguntando se ele deseja inserir realmente o nome daquela pessoa. Caso o funcionário resolva inserir é disparada uma mensagem contendo a data, hora e local da inserção do nome no sistema. O controle de acesso remete o nome da pessoa responsável pela inserção errônea e essas informações são enviadas para o setor de controle do índice, que toma as medidas necessárias para realizar a junção da pessoa duplicada na base. A verificação de onomástico é muito importante, pois garante a unicidade de pessoas no sistema e faz com que todos os sistemas da SSP trabalhem com as mesmas pessoas da base de índice. Por estar relacionado com pessoas o instituto de identificação é o responsável pelo controle do índice de pessoas. b) O índice de logradouros é um catálogo de endereços que vai auxiliar na integração das informações, facilitando a utilização do geoprocessamento das ocorrências das instituições e facilitando a representação em mapa dos atendimentos e os delitos registrados entre outras informações. Desta forma cada instituição poderá acompanhar as ocorrências por tonalidade e realizar o planejamento das ações de segurança com base nas informações de todas as instituições da SSP, e não apenas de sua organização. Por exigir mobilidade para verificação dos endereços antigos e inserção de novos a Polícia Militar será responsável pelo controle da base de logradouro. c) O Controle de tabelas é outro ponto importante, já que ao optar por um sistema integrado, as informações de um sistema devem possuir uma tabela similar no outro sistema. Pode parecer injustificada essa afirmação, devido a especificidade do serviço de atendimento em alguns sistemas da SSP, mas não basta apenas ter as informações tabeladas, pois elas podem ser subdivididas em informações especificas em seus sistemas, tem de ocorrer a utilização das informações de forma descentralizada. Entretanto é necessário que as tabelas tenham ligações entre seus códigos para que seja possível extrair relatórios cruzando as informações e podendo gerar estatísticas confiáveis.
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Entretanto, devemos mencionar que o tripé do SISP não é suficiente para garantir a recuperação das informações de forma satisfatória nas bases de dados das instituições como já mencionamos, é preciso ter mecanismos para garimpar as informações nos domínios distintos. A ontologia é uma técnica de engenharia do conhecimento que faz a “descrição explícita de conceitos e relações referentes a determinado domínio. Essa conceitualização refere-se ao conjunto de conceitos, relações, objetos e restrições que são definidos para um modelo semântico de algum domínio de interesse.” LUTOSA [9].

6. A REPRESENTAÇÃO DAS INFORMAÇÕES NA BASE DE CONHECIMENTO
A grande produção e disseminação de informação fizeram surgir mecanismos voltados ao registro dos dados de forma uniforme e com estrutura bem definida. Estes mecanismos têm como objetivo garantir a indexação, recuperação, cruzamento e utilização dos dados que fazem parte das bases de conhecimento. McGarry [12] afirma que: “A informação deve ser ordenada, estruturada ou contida de alguma forma, senão permanecerá amorfa e inutilizável. [...] A informação deve ser representada para nós de alguma forma, e transmitida por algum tipo de canal.” Pesquisas recentes têm indicado que grandes volumes de informação são recuperados, porém nem sempre atendendo às expectativas de buscas, considerando que os conteúdos produzidos e indexados em robustos sistemas informacionais esbarram na complexidade dos próprios sistemas. Segundo Bedin [1], “Indexar os conteúdos e recuperá-los de maneira satisfatória envolve práticas e caminhos que incluem sempre o binômio: homens e máquinas, usuários e sistemas.” Assim, a linguagem de representação e recuperação das informações exerce papel fundamental como elo entre o usuário e o sistema. No planejamento das estratégias de buscas, considerando que as linguagens adotadas nos sistemas são consideradas “artificiais”, precisam ser inseridas também, etapas de estudo sobre a dificuldade de representação do conhecimento e a linguagem a ser adotada para esse fim. Para Bueno [2], a melhor forma de resolver esta complexidade é a adoção de linguagens chamadas ontologias. Estas linguagens têm se apresentado como uma alternativa na resolução de problemas semânticos prejudiciais à recuperação de informação. Construída em linguagem natural, apresenta possibilidade de aproximação entre o usuário e o sistema aumentando a eficiência das buscas.
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Por ser mais flexível e passível de avaliação constante, seus recursos acompanham o desenvolvimento dos SRIs (Sistemas de Recuperação de Informação) e das expectativas dos usuários, agregando as evoluções lingüísticas correntes. Bedin [1] Tradicionalmente, quando se pretende definir ontologia, busca-se na Filosofia que diz “o estudo do ser enquanto ser” ou a “teoria do ser”, e estuda as coisas como elas existem ou como são. Pode-se dizer que as ontologias favorecem ou permitem o entendimento de como as ligações se estabelecem no mundo. Sua adaptação para a Ciência da Computação adiciona ao termo taxonomia às especificações das relações entre as entidades mais um conjunto de regras automáticas de inferência e ações associadas. Parreiras [13] Na Gestão do Conhecimento, Guillén, Moreno e Badaya [6] afirmam que:
[...]as ontologías se encasillana dentro de las LISTAS RELACIONADAS, como tipo de sistema de ORGANIZACIÓN DEL CONOCIMIENTO. Una ONTOLOGÍA define el vocabulario de un área mediante un conjunto de términos básicos y relaciones entre dichos conceptos, así como las reglas que combinan términos y relaciones [...]La GESTIÓN DEL CONOCIMIENTO está desarrollando ontologías como modelos de conceptos específicos. Pueden representar relaciones complejas entre los objetos, e incluyen las reglas y los axiomas que faltan en los tesauros.

Na Inteligência Artificial (IA), as ontologias se apresentam como linguagens ou formas de representação do conhecimento que possibilitam a comunicação entre os SRI e os usuários, além de favorecer o entendimento dos conteúdos pelo compartilhamento do conhecimento, representado nos termos ou expressões construídos com base nos conceitos. É uma forma de representar e organizar, considerando os princípios semânticos. Voltados para a estruturação e representação do conhecimento, Swartout [20] se refere a ontologia como um conjunto de termos estruturados que descrevem algum domínio e são a estrutura para uma base de conhecimento.

7. UMA ONTOLOGIA PARA A SSP
Ontologias construídas com objetivo de representação do conhecimento, de acordo com suas características, buscam abranger todo um domínio alvo de representação. Os termos utilizados nesta construção pretendem um entendimento comum de seus conceitos e suas respectivas relações. Neste sentido, Gómez-Pérez [5] diz que as ontologias fornecem um vocabulário comum de uma área e definem – com diferentes níveis de formalismo – o significado dos termos e as relações entre eles.
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No caso específico da SSP aqui apresentado, a idéia é apresentar uma ontologia que permita a representação do conteúdo inserido no sistema para utilizálos no SISP (Sistema Integrado de Segurança Pública), contribuindo para a recuperação, interpretação e gestão do conhecimento. Dentro do domínio Segurança Pública, monitorados e analisados pelo SISP, encontram-se subdomínios: Polícia Militar, Polícia Civil, Instituto de Identificação, Sistema Prisional, Detran e Corpo de Bombeiros. Como domínio, entende-se a área onde se pretende trabalhar, ou seja, o tema que se vai representar. Sendo aqui a Segurança Pública o domínio do SISP, os subdomínios se caracterizam como as subdivisões que compõem o sistema, conforme Figura 8. Para exemplificar a representação do conteúdo através da linguagem ontológica, o subdomínio escolhido foi o da Polícia Civil. Nele foi identificado o maior motivador de crimes contra o cidadão, e para o qual foi construída a ontologia composta de um termo principal e suas relações de sinônimo, de associação e de parte e tipo. Estas relações obedecem aos princípios da lei da qualidade, lei da proximidade, lei das partes e lei da atração entre idéias, respectivamente de acordo com Bueno [2]. Assim, foi construída a ontologia a partir do termo “Organização Criminosa”, conforme figura 9. Na construção dos termos para o subdomínio “Organização Criminosa”, são considerados os conceitos comuns a todos os membros da equipe da SSP que vai interagir entre si e utilizar o sistema para análise e definição de estratégias Considerando que todos os sistemas das instituições são interligados no SISP, a definição de termos que encerrem conceitos comuns é fundamental para o sucesso das atividades.Para cada subdomínio é possível construir ontologias, com expressões indicativas que tenham a abrangência de todo o conteúdo inserido no sistema.
Figura 8. Domínio SSP-SISP.

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Figura 9. Exemplo de Ontologia com o termo Organização Criminosa.

8. CONSIDERAÇÕES
É inquestionável a importância de um sistema de conhecimento para ser utilizado nas atividades de inteligência das instituições da SSP, desta forma, os sistemas devem ter inteligência incorporada para subsidiar a área de segurança pública, voltadas ao combate da criminalidade e garantia da segurança ao cidadão. As funcionalidades modeladas para o SISP trazem em seu escopo a condição de permitir o intercâmbio de dados, informações e conhecimento de todas as instituições que compõem a segurança pública catarinense. O sistema pretende a partir de uma base de conhecimento única de todas as atividades praticadas pelas equipes das instituições, subsidiar análise e desenvolvimento de estratégias pela equipe de inteligência e as autoridades da SSP. Aqui se pretendeu mostrar uma iniciativa de Governo Eletrônico que se consolida em um sistema voltado a otimizar e garantir a qualidade da gestão da informação em uma área tão sensível atualmente. O sucesso da adoção sistemática desta prática, pioneira no país por iniciativa do governo do Estado de Santa Catarina, poderá ser replicado em todos os estados brasileiros. O caso apresentado pretendeu apresentar também, sob a temática da necessidade de interação entre usuário e sistemas, uma alternativa de modelagem de linguagem de representação dos conteúdos, a partir de conceitos de amplo conhecimento dos agentes de inteligência envolvidos nos processos de análise. Por fim, a partir da demonstração das funcionalidades do sistema, se espera que novos estudos sejam empreendidos na tentativa de ampliar conhecimento de gestão inteligente na área de Segurança Pública e ações de e-Gov, objetivando o bem estar do cidadão.
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REFERÊNCIAS
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PROPOSTA DE MELHORIA NOS SERVIÇOS DE ATENDIMENTO DE TI COM APLICAÇÃO DO COMMONKADS
Doutorando do Programa de Pós‑Graduação em Engenharia e Gestão do conhecimento, Universidade Federal de Santa Catarina – EGC/UFSC Analista de Sistemas ‑ Tribunal de Justiça do Estado de Rondônia (TJ/RO)
almir@tjro.jus.br

Almir dos Santos Albuquerque

Analista de Sistemas ‑ Tribunal de Justiça do Estado de Rondônia (TJ/RO)
tarik@tjro.jus.br

Tárik Kamel de Oliveira

RESUMO
No fluxo de informação que ocorre nas atividades dos serviços de atendimento relacionados a TI, são utilizados conhecimentos tácitos que ficam em poder dos expertises. É importante explicitar, disseminar e multiplicar esses conhecimentos, para o bom desempenho da equipe de TI. Este trabalho apresenta uma proposta de melhoria nos serviços de atendimento de TI do Tribunal de Justiça do Estado de Rondônia, utilizando a metodologia CommonKADS com o foco na Gestão do Conhecimento.

PALAVRAS-CHAVE
Fluxo de informação, Gestão do conhecimento, CommonKADS, TI.

1. INTRODUÇÃO
O TJRO (Tribunal de Justiça do Estado de Rondônia) tem como objetivo geral a prestação jurisdicional de forma célere, eficaz e eficiente. Nesse contexto, ao longo dos quase 30 anos de existência do Poder Judiciário de Rondônia, os investimentos em ações para atender tal finalidade tem contribuído para destacálo no cenário nacional. Em uma vertente dessas ações estão os investimentos em tecnologia. Desde 1997 a alta administração do TJRO tornou a equipe de informática independente de fornecedores de mercado no tocante a conduta dos seus sistemas de informação.
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A essa postura devemos o cenário atual de uma renomada equipe de TI (Tecnologia da Informação) que vem gerenciando toda propriedade intelectual aplicada aos sistemas de informações judiciais do TJRO. Contudo, a perspectiva de mapear esse conhecimento tácito vem sendo o grande desafio dessa equipe ao longo dos anos. Com a evolução e anos que se passaram cabe a atual equipe o desafio de armazenar todo o conhecimento daqueles pioneiros do judiciário de Rondônia para dotar todos os sistemas legados do conhecimento tácito daqueles que logo se aposentarão e todo conhecimento explicito das boas práticas adquiridas. Nos últimos anos a TI vem buscando mapear todo o conhecimento para melhorar o fluxo de informações dos sistemas e adquirir o nível de excelência descrita em seus objetivos estratégicos. A equipe de TI através de treinamentos, atendimentos (presencial e remoto) e ferramentas de controle gerencial vem colaborando de forma substancial nessa expectativa. Cabe, à equipe de atendimento em TI a função primordial de documentar, coletar e repassar todo o conhecimento através da identificação e melhoria do fluxo de informações dos processos. Claramente observa-se que o atual fluxo de informações não atende a contento os atendimentos presenciais e remotos, já que há necessidade de uma melhoria no fluxo de informações para que o conhecimento seja explicitado e portanto, possa efetivar a gestão do conhecimento (GC). Permanece, porém, a questão: que mudanças, melhorias ou ações deverão ser feitas para otimizar o fluxo de informações na perspectiva de efetivar a GC nos serviços de TI no Poder Judiciário de Rondônia? O objetivo deste artigo é elaborar uma proposta de melhoraria nos fluxos de informação dos serviços de atendimento ao usuário de TI do TJRO, com foco na GC.

2. REFERENCIAL TEÓRICO 2.1 A informação como recurso estratégico
Para Bio (1989), o constante crescimento das organizações geralmente implica no afastamento dos gestores da supervisão direta das operações de trabalho, tornando cada vez mais crítico o recurso da informação, já que as decisões se tornam mais complexas e delicadas, e os volumes de dados, em muitos casos, aumentam exponencialmente. Esse autor, considera que a informação é simultaneamente a base e o resultado das ações gerenciais. A informação disponibilizada aos gestores deve possibilitar-lhes a verificação da eficiência dos
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resultados das operações da empresa no seu todo, viabilizando o planejamento futuro, enquanto que, nos níveis intermediários da organização, a informação deve permitir o controle de áreas específicas. Seguindo as recomendações de Choo (1998), a informação deve ser utilizada pelas organizações para dar sentido às mudanças do ambiente externo, para gerar novos conhecimentos por meio do aprendizado e para tomar decisões importantes. Afirma ainda o autor que criar significado, construir conhecimento e tomar decisões, constituem processos interligados. A percepção da informação sobre o ambiente da organização propicia a construção do seu significado e orienta os processos de construção do conhecimento, que por sua vez, deve ser compartilhado entre os indivíduos e a organização, para que possa ser transformado em inovação. Portanto, para fazer o uso eficiente da informação, a organização deverá ser capaz de integrar eficientemente os processos de criação de significado, construção do conhecimento e tomada de decisão.

2.2 Gestão da informação e gestão estratégica da informação
Para Freitas (1992), ao lado das funções tradicionais (tais como produção, comércio, pesquisa, finanças e pessoal), surgiu uma função nova e fundamentalmente transversal: a função informacional, que não se limita aos muros da empresa mas, pelo contrário, atravessa a empresa de departamento em departamento, para ligá-los ao ambiente externo. Segundo Rezende e Abreu (2006), o nível gerencial das empresas não pode ignorar como a organização utiliza a informação, quais são seus principais fluxos de informação, qual é a necessidade de informação de cada nível hierárquico e a competência de seu corpo gestor em administrar os recursos informacionais. Para esses autores, a utilização e a gestão da informação favorecerão as decisões, as soluções e a satisfação dos clientes (externos e internos). Na visão de Bergeron (1996), a gestão da informação é uma estratégia utilizada pelas organizações, visando a solução dos seus problemas informacionais através da disponibilização de informações corretas para uma determinada pessoa ou grupo de pessoas, no momento e na forma adequados. Desta forma, a qualidade das decisões tomadas pelos gestores é diretamente afetada pela disponibilidade de informações completas, atualizadas e relevantes para a solução dos problemas da organização. A visão de Beal (2004), está baseada em uma perspectiva mais tecnológica, afirmando que a expressão gestão estratégica da informação deve designar a administração dos recursos informacionais de uma organização,
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a partir de um referencial estratégico. Segundo a autora, adotar uma gestão estratégica da informação não implica abandonar a perspectiva permanente da gestão da informação (voltada para a coleta, o tratamento e a disponibilização de informação que dê suporte aos processos organizacionais, tendo em vista o alcance de seus objetivos permanentes), mas adicionar a ela a perspectiva situacional (cujo foco é a informação direcionada para a consecução dos objetivos estratégicos estabelecidos para um determinado período). Portanto, a gestão estratégica da informação para a autora, exige o estabelecimento de definições, formatos, estruturas, domínios e regras que permitam tratar a informação como um recurso a ser administrado, com responsabilidades claras com relação a provimento, padronização, distribuição, acesso, armazenamento e proteção.

2.3 Tecnologia da informação e sistemas de informação
De acordo com Balarine (2002), a tecnologia da informação diz respeito a objetos (hardware) e veículos (software) destinados a criar sistemas de informação. Cruz (2002) define tecnologia da informação como um conjunto de dispositivos individuais, como hardware, software, telecomunicações ou qualquer outra tecnologia que faça parte ou gere tratamento da informação ou, ainda, que a contenha. O’Brien (2001) define os sistemas de informação como um conjunto de componentes inter-relacionados e interdependentes que, através de insumos (entradas) produzem resultados (saídas) em um processo de transformação de informação, visando ao atendimento de uma meta estabelecida. Freitas et al. (1997) entende que os sistemas de informação são instrumentos que devem ser utilizados para fornecer informações para qualquer uso que se possa fazer delas. Rezende e Abreu (2006) observam que a finalidade dos sistemas de informação deve ser a de auxiliar os processos de tomada de decisão na organização, ou seja, deve estar direcionado para otimizar o negócio da empresa. Um sistema de informação eficiente pode ter um grande impacto na estratégia corporativa e no sucesso da empresa, gerando benefícios tais como: fornecimento de suporte ao processo de tomada de decisão, geração de valor agregado aos produtos e serviços, produção de melhores serviços e vantagens competitivas, geração de produtos de melhor qualidade, apoio na identificação de oportunidades de negócio e aumento da rentabilidade, geração de informações mais seguras, com menos erros e mais precisas, redução da carga de trabalho, de custos e desperdícios, fornecimento de maior controle das operações e outros.
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2.4 Transferência da Informação e do Conhecimento
Davenport e Prusak (1998) afirmam que a tarefa de transferência de conhecimento nas organizações se resume simplesmente em descobrir maneiras eficazes de permitir que os indivíduos conversem e escutem o que se tem a dizer. Acrescentam ainda que quando precisamos transferir conhecimento, o método utilizado deve ser sempre compatível com a cultura da organização em questão. Transferências cotidianas são localizadas e fragmentadas, visto que quanto maior e mais complexa a organização, menor a probabilidade de se encontrar o melhor conhecimento. Sugerem ainda os autores que existe uma profusão de conhecimento na organização, mas a sua existência não assegura o uso.

2.5 Gestão do Conhecimento (GC)
O conhecimento é o único meio para ampliar as capacidades do principal componente existente em qualquer ambiente: o ser humano. O capital intelectual que as pessoas possuem e representam é a força motriz de uma organização, portanto, a maneira de se compartilhar o conhecimento é de grande relevância. De acordo com Davenport et al. (1996), a expressão gestão do conhecimento assume significados diversos, de acordo com o contexto em que se aplica. Com o avanço das TIC’s (Tecnologia da informação e comunicação) e com o avanço nas práticas de gestão organizacional, a GC tem sido entendida sob a forma de diferentes estratégias, a partir das quais as organizações lidam com o conhecimento, interna e externamente, para obter vantagens competitivas. Sveiby (2003) apresenta a seguinte classificação para abordar o campo da GC, tanto em termos das áreas do conhecimento, que a compõem, quanto em relação aos níveis de percepção, que caracterizam o processo: Áreas do conhecimento: • gestão de pessoas: envolve as áreas de filosofia, psicologia, sociologia e administração, para o entendimento da dinâmica dos processos de criação e difusão de conhecimento tácito; • gestão da informação: envolve as áreas de tecnologia e ciência da informação, para a construção da base de conhecimento codificado. Níveis de percepção: • perspectiva individual: inclui as motivações e as capacidades dos indivíduos; • perspectiva organizacional: inclui os recursos e as competências essenciais das organizações.
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Salim (2001), define a GC como um processo articulado e intencional, destinado a sustentar ou a promover o desempenho global de uma organização, tendo como base a criação e a circulação de conhecimento. Para Davenport e Prusak (1998, p.130), “a gestão do conhecimento deve ser parte do trabalho de cada um dos membros da empresa”. Então, GC é a gestão dos ativos intangíveis baseada, sobretudo, na competência dos colaboradores de uma determinada organização.

2.6 Modelagem de Sistemas de Conhecimento
Segundo Schreiber et al (2002), o CommonKADS originou-se da necessidade de se construir sistemas de conhecimento com qualidade em larga escala, de forma estruturada, controlável e replicável. É uma metodologia para desenvolvimento de sistemas baseados em conhecimento, resultante do projeto ESPRIT-II (P5248) e KADS II (Knowledge Analisys and Documentation System, posteriormente Knowledge Analisys and Design Support) iniciado em 1990 e terminado em 1994. É um instrumento útil para dividir e estruturar o processo de engenharia do conhecimento, visando o contexto da organização, seus conceitos e construção de artefatos (aplicativos). Possui um conjunto predefinido de modelos, onde cada um foca um aspecto específico, mas fornecendo no conjunto uma visão compreensiva do projeto. Os modelos são: a) Modelo da Organização - apóia a análise das maiores características da organização, a fim de descobrir problemas e oportunidades para sistemas de conhecimento, estabelecer sua viabilidade e acessar o impacto na organização das ações de conhecimento pretendidas; b) Modelo de Tarefa - tarefas são subpartes relevantes de um processo de negócio. Esse modelo analisa o layout da tarefa global, suas entradas, saídas, pré-condições e critérios de performance, bem como recursos e competências necessárias; c) Modelo de Agente - agentes são executores de uma tarefa. Um agente pode ser humano, um sistema de informação ou qualquer outra entidade capaz de realizar uma tarefa. Esse modelo descreve as características dos agentes, em particular suas competências, autoridades e restrições para agir. Além disso, relaciona os links de comunicação entre agentes necessários para executar uma tarefa; d) Modelo de Conhecimento - o propósito desse modelo é explicar em detalhes os tipos e estruturas de conhecimentos utilizados para realizar uma tarefa. Permite uma descrição independente de implementação do perfil dos diferentes componentes de conhecimento na resolução de problemas, de uma forma que seja compreensível por seres humanos. Isso o torna, um importante veículo para
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comunicação com especialistas e usuários sobre os aspectos da resolução do problema de um sistema de conhecimento, durante tanto desenvolvimento como execução; e) Modelo de Comunicação - dado que muitos agentes podem estar envolvidos em uma tarefa, é importante modelar a transação de comunicação entre os agentes envolvidos. Isso é feito por esse modelo, de forma independente de implementação ou de conceito, como ocorre no modelo de conhecimento; f) Modelo de Projeto - os modelos anteriores podem ser vistos como constituintes dos requisitos de especificação de um sistema de conhecimento, dividido em diferentes aspectos. Com base nesses requisitos, esse modelo fornece a especificação técnica do sistema em termos de arquitetura, plataforma de implementação, módulos de software, representações e mecanismos computacionais necessários para implementar as funções descritas nos modelos de comunicação e conhecimento.
Figura 1. Conjunto de modelos CommonKADS (SCHREIBER et al, 2002).

3. METODOLOGIA
O TJRO tem uma representatividade substancial junto à sociedade, portanto urge a necessidade da construção de um Poder Judiciário mais célere e condizente com os anseios da população que deposita neste, sua confiança na solução das questões mais complexas da sociedade democrática em que vivemos. Nessa conduta durante dois anos consecutivos o TJRO tem o reconhecimento do CNJ (Conselho Nacional de Justiça) como o tribunal estadual com a menor
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taxa de congestionamento de processos judiciais do país (CNJ, Gráficos – Justiça em Números 2008, p. 30). Uma das contribuições para tão louvável reconhecimento são os investimentos e ações em TI. Esse estudo busca descrever um modelo de comunicação do fluxo de informações para efetivar a GC no Judiciário com o diagnóstico e proposição dos processos de melhoria na comunicação entre a equipe dos serviços de atendimento de TI do TJRO, visando a efetiva Gestão do Conhecimento tão buscada por este egrégio. Para tanto, muitas atividades foram realizadas ao longo dessa pesquisa, dentre as quais destacamos: • Mapeamento dos processos de atendimento dos serviços de TI. • Análise do f luxo de informações tácitas e explícitas dos processos de atendimento dos serviços de TI do TJRO, visando suas melhorias. • Proposição de ações para efetivar a otimização dos fluxos de informações. • Aplicação da metodologia CommonKADS para explicitar o conhecimento no atual fluxo de informações tácitas dos serviços de atendimento de TI, em especial o processo de comunicação.

3.1 Coleta de Dados
No que tange ao delineamento desta pesquisa, a mesma se caracteriza como qualitativa, descritiva e exploratória, sendo desenvolvida através de um estudo de caso. Para Yin (2001), a coleta de dados para a realização de um estudo de caso pode se basear em inúmeras fontes. Assim, no presente estudo combina-se registros em arquivos, entrevistas e documentação (memorandos e CIs). Os dados baseados de registros em arquivos foram coletados através de verificação de chamados (solicitações) de usuários num período de 06 meses. Os dados das entrevistas foram coletados dos usuários do Sistema de Atendimento ao Usuário – HelpDesk e os dados coletados da documentação foram oriundos de documentação interna do TJRO.

3.2 Análise dos Dados
Os dados foram analisados realizando-se uma leitura e análise minuciosa no material coletado, em seguida foram analisadas as estatísticas geradas no sistema de Atendimento ao Usuário – Help-Desk On-line, com uma amostra extraída do período de novembro/2009 a abril/2009.
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4. PROPOSTA 4.1 Atividades de Modelagem
A aplicação dos modelos do CommonKADS numa organização, dependerá da necessidade e da experiência que o engenheiro do conhecimento possui. Os modelos são independentes, não sendo necessário que todos sejam aplicados. Os mesmos têm ainda, o objetivo de responder três questionamentos principais, através dos quais serão definidos os caminhos a serem seguido e as soluções a serem escolhidas. De acordo com Schreiber et al, 2002, estes questionamentos são da seguinte forma: a) Por quê? – Porque um sistema de conhecimento é uma solução em potencial? Para quais problemas? Que benefícios, custos e impactos organizacionais ele terá? O entendimento do ambiente e do contexto organizacional é o ponto mais importante deste questionamento. b) Qual? – Consiste em entender qual é a natureza e estrutura do conhecimento envolvido, bem como a natureza e estrutura de comunicação correspondente. Obter a descrição conceitual do conhecimento utilizado na realização de uma tarefa é um dos pontos chaves deste questionamento. c) Como? – Como o conhecimento deve ser implementado no sistema computacional? E como deve ser a infra-estrutura tecnológica necessária para a construção e execução do sistema? Os aspectos técnicos da implementação é o principal foco neste questionamento.

4.2 Modelando os serviços de atendimento de TI do TJRO no aspecto da melhoria do fluxo de informação
Por motivos de síntese, nos próximos subitens serão apresentados apenas alguns documentos (planilhas) que são utilizados nos modelos da metodologia CommonKADS.

4.2.1 Domínio do conhecimento
O domínio do conhecimento que compreende esse Modelo está baseado no conhecimento tácito e explícito utilizados pelos colaboradores da COINF, no atendimento aos usuários de TI do TJRO.
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4.2.2 Modelo da Organização
Tabela 1. Aspectos organizacionais variados (planilha OM-2). Modelo organizacional Aspectos organizacionais variados (OM-2)

Estrutura

Processos

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• Os papéis de cada agente envolvido estão representados nos diagramas de processos (Atividades) acima. Computacionais: • Ferramentas de e-mail, mensagens instantâneas e edição de texto, navegador web, software para gerenciamento de chamados técnicos, banco de dados, servidor web, repositório de documentos e equipamentos (servidor, rede intranet, computadores pessoais). Recursos Humanos: • Habilidades e competências pessoais, conhecimentos técnicos em TI. Documentais: • Os protocolos de troca de mensagens instantâneas, de manipulação de e-mails, padrões de formatação de documentos, armazenamento, recuperação e indexação dos dados requeridos. Conhecimento sobre as competências requeridas (Expertise); • Conhecimento das tarefas da equipe; Conhecimento • Habilidades de extrair informações sobre o conhecimento dos colaboradores; • Habilidades de atendimento ao público. Considerando tratar-se de um processo relação humana/profissional é possível que hajam alguns reflexos no comportamento das pessoas envolvidas, como por exemplo: • Inadequação da formação interpessoal no que se refere ao Cultura envolvimento com os usuários durante/após o atendimento; e poder • Os valores éticos a serem observados; • Preferências por um determinado atendente ou usuário; • Usuários insatisfeitos pela falta de uma solução imediata e/ou demora no atendimento/solução. Pessoas

4.2.3 Modelo de Tarefas
Tabela 2. Análise de Tarefa (planilha TM-1). Modelo de tarefa Análise de Tarefa (TM-1) Tarefa 1 – Solicitar chamado técnico. Organização Usuário • Tem como objetivo organizar as ações relativas às necessidades do Usuário quanto à procura de atendimento técnico, visando a solução de um problema; Objetivo ou valor agregado • O valor agregado concentra-se na organicidade do Usuário possibilitando um direcionamento adequado do Técnico para atendimento. • Tarefa Precedente: Nenhuma Dependências e Fluxo • Tarefa de Continuação: 2 - Realizar triagem. • Objeto de Entrada: Telefone, email e Software de Help_Desk. Objetos manuseados • Objeto de Saída: Chamado técnico registrado.

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Tempo e Controles Agentes Conhecimento e competência Recursos Qualidade e Performance

• Considerando todas as variáveis envolvidas e as peculiaridades de cada problema técnico, o atendimento pode ser de acordo com a conveniência do Usuário e disponibilidade de Técnicos. • Os controles serão baseados nas limitações dos objetos de entrada. • Usuário, Técnico e Software de Help-Desk. • Os conhecimentos exigidos para esta atividade são de natureza tácita/ operacional, envolvendo a compreensão dos objetos manuseados para o efetivo atendimento, como também conhecimento em TI. • Tempo disponível de acordo com as necessidades do Usuário e gravidade do seu problema. • A métrica mais indicada é decorrente da cronometragem entre a fase inicial e final de cada tarefa executada pelos agentes envolvidos. Tabela 3. Itens de Conhecimento (planilha TM-2).

Modelo de tarefa Nome: Pertence: Usado em: Domínio: Natureza do Conhecimento Empírico, Rigoroso Empírico, quantitativo Heurístico, Regras Altamente especializada Baseado em experiência Baseado em atividades Incompleto Incerto, pode estar incorreto Mudando rapidamente Difícil de verificar Tácito, difícil de transmitir Formato do conhecimento Mente Papel Formato eletrônico Habilidade da ação Outros Disponibilidade do conhecimento Limitações de tempo Limitações de espaço Limitações de acesso Limitações de qualidade Limitações de forma

Itens de Conhecimento (TM-2) Noções básicas de TI Usuário 1 – Solicitar chamado técnico Necessidades do Usuário Afirmativa Gargalos/Melhorias Não Aplicação de treinamento específico Sim Não Não Sim Sim Sim Sim Sim Não Sim/Não Afirmativa Gargalos/Melhorias Sim Aplicação de treinamento específico Sim/Não Utilizar documentação padronizada Sim/Não Sim Afirmativa Gargalos/Melhorias Sim Aplicação de treinamento específico Sim/Não Não Sim Sim

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4.2.4 Modelo de Agentes
Tabela 4. Agentes (planilha AM-1.1). Modelo de Agentes Nome Organização Está envolvido em Comunica-se com Conhecimento Outras competências Responsabilidades e Restrições (Regras) Agentes (AM-1.1) Usuário Este agente é humano. É a pessoa (Usuário) que tem um problema de TI e procura o Técnico para resolvê-lo. 1 – Solicitar chamado técnico Técnico/Atendente Habilidades técnicas em TI Capacidade de comunicação, operar aparelho telefônico ou computador pessoal. Atender chamados e solucionar problemas técnicos. Tabela 5. Agentes (planilha AM-1.2). Modelo de Agentes Nome Organização Está envolvido em Comunica-se com Conhecimento Outras competências Responsabilidades e Restrições (Regras) Agentes (AM-1.2) Técnico Este agente é humano. É a pessoa (Técnico) que solucionará o problema de TI do Usuário. 1 – Solicitar chamado técnico, 2 - Realizar triagem, 3 Verificar problema, 4 - Emitir parecer técnico, 5 - Simular problema, 6 - Corrigir/Solucionar problema, 7 - Testar solução. Usuário. Noções básicas de TI Capacidade de comunicação, operar aparelho telefônico ou computador pessoal. Solicitar atendimento técnico.

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4.2.5 Modelo de Conhecimento
Figura 2 - Diagrama do Esquema de Domínio.

4.2.6 Modelo de Comunicação
4.2.6.1 Diagrama de Comunicação As transações entre os agentes estão representadas no diagrama abaixo. Obtidas do modelo de conhecimento, mais especificamente do esquema de domínio.
Figura 3. Diagrama de comunicação.

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Tabela 6. Descrição de Transação (planilha CM-1). Modelo de Comunicação Transação 1 Objeto de informação Agentes envolvidos Plano de comunicação Restrições Especificação das informações transferidas Descrição da Transação 1 (CM-1) Solicitação de chamado Descrição do problema Usuário, Atendente/Técnico Registro detalhado do chamado Meio de comunicação utilizado para registro do chamado Diálogo verbal, ou via telefone, ou via email, ou via software de Help-Desk, ou via documentação.

Tabela 7. Especificação das informações transferidas (planilha CM-2). Modelo de Comunicação Transação 1 Agentes envolvidos Itens de informação Especificação das mensagens Controle da mensagem Especificação das informações transferidas – (CM-2) Solicitação de chamado 1 – “sender”: Usuário 2 – “receiver”: Atendente/Técnico Diálogo verbal, ou via telefone, ou via email, ou via software de Help-Desk, ou via documentação. 1 – Tipo de comunicação: verbal 2 – Conteúdo: “desejo abrir um chamado técnico” 3 – Referência: Jargão da TI Registro no Software de Help-Desk

5. RESULTADOS E DISCUSSÃO
Atualmente ainda é escassa a literatura que aborde especificamente o fluxo de informação em TI com foco na GC. De acordo com Rossetti & Morales (2007), provavelmente essa lacuna decorre da falta da clara distinção entre TI e GC, de modo que a interação adequada entre ambas aumente substancialmente o desempenho organizacional, permitindo às empresas posição de destaque no mercado. Os resultados deste estudo propiciaram a implementação de um modelo onde buscou-se convergir a gestão do fluxo de informação à GC, utilizando como ferramenta a metodologia CommomKADS. Este modelo pode ser ainda aperfeiçoado a partir da sua efetiva utilização nos serviços de atendimento de TI do TJRO. Com a aplicação do modelo proposto, até julho/2009, chegou-se aos resultados apresentados abaixo.
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Figura 4. Tabela de estatística mensal de solicitações de atendimento.

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS
É importante ressaltar que este estudo alinha o fluxo de informação à GC tendo como suporte a metodologia CommomKADS. Pretendeu-se a criação de um modelo para melhoria nos serviços de atendimento de TI do TJRO, focando para a GC. Portanto, o esforço principal, ao propor um modelo conceitual de fluxo de informação voltado para o ambiente de TI do Poder Judiciário, foi delinear e estabelecer a convergência entre os dois tópicos de estudo visando a implementação do modelo. Um dos resultados desse esforço foi a estruturação do fluxo de informação no ambiente de TI da organização. Para o efetivo sucesso desse trabalho, algumas ações deverão ser implementadas no futuro, tais como: avaliação periódica e ajustes do modelo (em especial o modelo de comunicação), disseminação e replicação do modelo para outras unidades do TJRO.

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O GOVERNO ELETRÔNICO COMO EVOLUÇÃO DA GESTÃO PÚBLICA: POLÍTICA PÚBLICA PARTICIPATIVA COM OS OBSERVATÓRIOS DE SEGURANÇA PÚBLICA
Universidade Federal de Santa Catarina Mestrando do Programa de Pós‑Graduação em Engenharia e Gestão do Conhecimento Secretaria de Segurança Pública de Santa Catarina
edson@egc.ufsc.br

Edson Rosa Gomes da Silva

Universidade Federal de Santa Catarina Professor do Programa de Pós‑Graduação em Engenharia e Gestão do Conhecimento
Aires.rover@gmail.com

Aires José Rover

RESUMO
Este artigo procura abordar e a evolução da gestão pública na sociedade brasileira e apresentas suas diferenças ou longo do processo de maturidade administrativa governamental. Mostra o governo eletrônico como uma possível forma de atingir e manter a tão esperada maturidade na gestão pública, através dos seus componentes que evoluíram e estão cada vez mais procurando uma maior interação com o cidadão e o governo. Expõe os resultados de uma pesquisa bibliográfica e análise da pesquisa exploratória em site da internet para evidenciar como a sociedade está se mobilizado para participar na constante melhoria e aperfeiçoamento da segurança pública, com a criação dos observatórios de segurança. Frisa que esses observatórios procuram coletar, armazenar e difundir conhecimentos e boas práticas de segurança pública e realizar vários estudos para pontuar os problemas e procurar as melhores soluções com a participação dos cidadãos. Por fim, fomenta a utilização, por parte do governo das tecnologias de informação e comunicação para receber informações e produzir conhecimentos profícuos para as políticas de segurança pública.

PALAVRAS-CHAVE
Governo Eletrônico; Segurança Pública; Gestão pública; Políticas Públicas.

1. INTRODUÇÃO
A gestão pública brasileira passou e vem passando por grandes transformações, essas transformações visam, sobretudo, aumentar a eficácia, a eficiência e a
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efetividade nos serviços prestados ao cidadão, que galga a prerrogativa de ter seus anseios satisfeitos, através de uma boa prestação de serviço pelos órgãos públicos. Entretanto para se chegar a este nível de maturidade, que estamos procurando atingir hoje, ocorreu uma enorme escalada para mudar a forma de administrar a coisa pública. Pode se fazer uma pequena verificação em algumas formas de gestão pública que foram empregadas em nossa sociedade. Não vamos fazer aqui juízo de valor, tampouco versar sobre quão certo ou errado foi sua utilização, mas vamos apresentar a evolução da visão do administrador público ao longo do tempo. Claro que os tipos de gestão estão intrinsecamente ligados ao momento histórico que a sociedade vivia. Entretanto, apenas com uma análise criteriosa da gestão pública, vamos evoluir para alcançar a primazia na oferta dos serviços públicos de qualidade e fugir dos erros do passado. Fazendo assim, que estas antigas formas de gestão pública não floresçam de forma dissimulada. Como forma de análise foi utilizada a pesquisa bibliográfica e através de consultas a site da internet. Com uma verificação empírica nos sites, vislumbraram-se as formas de interessam entre o governo e a sociedade pautada em ferramentas tecnológicas.

2. A EVOLUÇÃO DA GESTÃO PÚBLICA
Para começar vamos verificar as formas de atuação da gestão publica e suas denominações ao longo da procura pela excelência na prestação de serviço a sociedade. Para começar, citamos o Coronelismo que segundo Carvalho (1997, p 01) é:
[...] um sistema político nacional, baseado em barganhas entre o governo e os coronéis. O governo estadual garante, para baixo, o poder do coronel sobre seus dependentes e seus rivais, sobretudo cedendo‑lhe o controle dos cargos públicos, desde o delegado de polícia até a professora primária.

Desta forma, a gestão pública se fundamentava em interesses pessoais das pessoas que trabalhavam no governo e eram envolvidas na administração pública, e das minorias procurando auferir vantagens da administração pública, neste caso os coronéis. O patrimonialismo, por sua vez se caracterizava por um Estado que não possui distinções entre os limites do público e os limites do privado. Como menciona Durante e Zavataro (2009, p. 02) a “principal função do estado patrimonial era garantir emprego e sobrevivência dos funcionários públicos por meio de prebendas e sinecuras”. Os critérios de tomada de decisão dos gestores públicos eram pessoais e não existia nenhuma preocupação com os resultados que deveriam ser alcançados pela administração pública.
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A Burocracia se caracteriza por um forte sistema hierárquico, que tem alta divisão de responsabilidade e seus membros executam invariavelmente regras e procedimentos padrões. Esta forma de gestão tinha premissas que bem aplicadas resolveriam problemas gerados pelas formas de gestão públicas acima mencionadas. Como coloca Durante e Zavataro: • Agir buscando a promoção de uma mudança cultural reforçando a separação das esferas pública e privada, principalmente no tocante ao patrimônio; • Estabelecimento de rotinas formalizadas que controlam a atuação dos funcionários públicos segundo regras definidas a priori; • Valorização da impessoalidade e neutralidade do corpo de funcionários no sentido da separação entre o ocupante e o cargo, estabelecendo que o burocrata deve reagir, não como pessoa, mas como ocupante do cargo; • Valorização da seleção meritocrática dos funcionários e da profissionalização da carreira administrativa; • A Institucionalização do controle legal como critério de avaliação da ação administrativa e a eficácia como principio norteador da racionalidade; e • Rígida divisão entre a ordem política e burocratas e o estabelecimento de uma hierarquia funcional vertical no interior do órgão público. Entretanto, o que poderia ser um avanço, tornou-se, na maioria dos casos, um problema para a administração pública, devido as distorções causadas por interpretações equivocadas, fazendo com que os processos sofressem morosidades nos trâmites institucionais. Assim, ficou fácil o surgimento do clientelismo que se parece muito com o coronealismo, porém acontecem muitas vezes devido a fragilidade que certas pessoas, que desconhecem seus direitos, uma vez que recebem vantagens e proteção em troca do fornecimento de apoio político. Já o gerencialismo puro que segundo Durante e Zavataro, envolveu principalmente a adoção de instrumentos de racionalização orçamentária e de avaliação de desempenho organizacional. Nesta concepção, se propunha a necessidade de uma significação clara dos objetivos organizacionais, visando sua importância e não analisando somente enquanto processo administrativo. Desta forma, seria necessária a valorização dos gerentes em função da suas habilidades e criatividades para encontrar novas soluções aos problemas dando celeridade aos processos. Entretanto, novas formas de ajudar a controlar e fiscalizar a prestação de serviços públicos com eficiência e transparência veio com a utilização do governo eletrônico que vem sendo empregado ainda de forma muito incipiente pelo governo. Contudo, podemos ter mais retornos através das tecnologias da informação e comunicação que podem e estão sendo empregadas gradativamente na
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esfera pública, primeiramente no nível operacional, tático e agora cada vez mais no nível estratégico. Vejamos o governo eletrônico no contexto da gestão pública.

3. GOVERNO ELETRÔNICO COMO FERRAMENTA DE GESTÃO PÚBLICA
O Governo necessita de uma estrutura para atender o cidadão, por maior ou menor que essa estrutura. Assim, atender o cidadão é um papel vital para a manutenção do Estado moderno de direito e essa estrutura tende a ser afetada nos dias de hoje pela tecnologia da informação. Uma definição de Governo, segundo Hoeschl:
[...] é a gestão do poder público, em suas esferas e funções. Suas funções são consideradas a partir da clássica tricotomia “legislativo”, “executi‑ vo” e “ judiciário”. Suas esferas, referenciadas pelo pacto federativo e pe‑ lo contexto constitucional, são a “municipal”, a “estadual” e a “ federal”. Um importante ponto a ser esclarecido preliminarmente é a necessidade de não se confundir a expressão “governo” com “poder executivo federal” (Hoeschl, 2003).

O relatório e-readness da organização das Nações Unidas (United Nations) (2004) os governos dos países subdesenvolvidos começam a perceber os ganhos provenientes da sinergia entre a interação das novas tecnologias da informação e comunicação, a educação da população e um ambiente propício para o desenvolvimento tecnológico. Essas relações econômicas que compõe a circulação de recursos na sociedade podem ser categorizadas, basicamente, em comércio eletrônico (e-commerce) e governo eletrônico (e-government ou abreviadamente e-gov). Nessa divisão básica há uma separação entre o setor privado e o setor governamental. As Nações Unidas, por sua vez, apresentam uma definição de governo eletrônico ampla, caracterizando o conceito como qualquer serviço prestado pelo governo por meio da Internet. Segundo as nações unidas o governo eletrônico tem abrangido serviços de informação e prestação de serviços aos cidadãos, empresários, e entre órgãos do governo por meio eletrônico. O governo eletrônico pode ser ainda considerado, segundo essa instituição como o uso da tecnologia da informação para aumentar a eficácia das agências governamentais. Rover (2005) apresenta uma visão genérica:
De uma forma mais genérica, o governo eletrônico é uma forma de or‑ ganização do conhecimento que permetirá que muitos atos e estruturas meramente burocráticas simplesmente desapareçam e a execução de tarefas que exijam uma atividade humana mais complexa seja facilitada (Rover, 2005).
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A respeito ainda sobre as relações entre instituições no meio digital, há ainda uma classificação bastante usual, exposta por O’Braian (2004), que categoriza as relações econômicas da economia digital, conforme os agentes envolvidos nas relações econômicas, que podem ser basicamente: empresaa-consumidor, do inglês “bussines-to-consumer”, ou abreviadamente B2C; empresa-a-empresa, do inglês Business-to-business ou abreviadamente B2B; consumidor-a-consumidor (do inglês Business-to-consumer ou abreviadamente C2C), e o Governo-ao-cidadão, (do inglês Government-to-Citizen ou abreviadamente G2C), que trata de atividades voltadas para o provimento de informações e serviços aos cidadãos, assim como de interação entre o cidadão e o governo. Adicionalmente ainda há a circulação de informação entre órgãos do governo, Governo-a-governo, do inglês Government-to-government, ou abreviadamente G2G. Embora se utilize esta classificação o governo eletrônico se substancia com a utilização das tecnologias da informação e das telecomunicações, integradas em rede, a fim de prover serviços e informações para toda a sociedade, a qualquer hora e em qualquer lugar, fortalecendo a democracia. Visto isto, podemos dizer que o governo eletrônico tem seus componentes, sendo apresentados da seguinte forma: • e-Administração = Administração Eletrônica • e-Serviços = Serviços Eletrônicos • e-Negócios = Negócios Eletrônicos Contudo esta visão sofreu alterações no cenário internacional, e essa mudança não foi acompanhada pelas organizações Brasileiras no tocante ao governo eletrônico. O Relatório Organização das Nações Unidas (ONU) Un E-Government Survey 2008: from e-government to connected governance, faz uma crítica a postura de muitos paises que caíram no ranking mundial do governo eletrônico. O próprio Brasil amargou uma queda de 12 posições em 2008 comparado com o ano de 2005. A mudança ocorreu, sobretudo, na forma de interação e prestação de serviços à sociedade. Novos componentes que estão no foco são as seguintes formas de interação com a sociedade: • E-Participação = Participação Eletrônica Uso de TIC´s no processo de contribuição da melhoria da qualidade de vida e estimulo ao envolvimento da população na identificação de problemas e procura de soluções. • E-Cidadania = Cidadania Eletrônica Uso de TICs para aproximar o gestor público do cidadão, com base na transparência, na eficiência e na melhora do bem estar do cidadão. Bem como o uso de TICs para auxiliar e mobilizar o cidadão no exercício da cidadania.
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• E-Democracia = Democracia Eletrônica Compreendida como a emergência das TICs e da participação direta do cidadão na política mediante o uso das novas tecnologias. É uma opção ao processo existente, não necessariamente um substituto. É a facilidade, comodidade e a redução de custos para que a população participe de plebiscitos e eleições. Outro ponto que deve ser mencionado é a utilização da internet 2.0 (WEB 2.0). A WEB 2.0 é considerada a segunda geração dos serviços de internet, dotada de maior interação, criação de comunidades e redes de relacionamento (Gregório e Bolliger, 2008). Segundo a wikipedia, que é um aplicativo da WEB 2.0 “a regra mais importante é desenvolver aplicativos que aproveitem os efeitos de rede para se tornarem melhores quanto mais são usados pelas pessoas, aproveitando a inteligência coletiva”. Neste sentido as TICs podem ser empregadas em uma gestão pública mais profícua, através do governo eletrônico na prestação, na interação, na participação e na busca por uma cidadania mais efetiva. Rocha (2000), menciona que Estado e Municípios não alcançam seu inteiro desenvolvimento se não usarem informações precisas, atualizadas e de forma rápida sobre os melhores meios de otimizarem os recursos gerados em sua sociedade. Acreditamos que o governo federal tem papel importante nesse processo e deva ser o órgão fomentador. Entretanto, a gestão pública tem que se preparar para essas formas de buscar a interação e motivar a sociedade a participar efetivamente interagindo com a administração. Alguns setores da administração pública estão procurando interatuar com os cidadãos, buscando retornos para desenvolver suas políticas públicas. A segurança pública por ser mais conservadora e adotar métodos mais convencionais de trabalhar com a criminalidade deve aderir gradativamente as novas formas de interação. Até por que a sociedade está procurando jeitos de ajudar a segurança pública. Caso da iniciativa do site que foi desenvolvido em WEB 2.0, o nome utilizado é Wikicrimes. Este site mapeia, de forma colaborativa, crimes praticados no Brasil, permitindo que qualquer pessoa com acesso a internet marcar em um mapa o local onde foi vítima de um crime. Outras iniciativas podem ser utilizadas, pois existe vários site, alguns de Organizações Não Governamentais (ONGs), que recebem informações sobre assuntos de segurança pública. O governo pode incentivar a adoção de ferramentas via internet, celular e outras para interagir com a sociedade e ter informações que subsidiem a criação das políticas publicas.
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4. A PARTICIPAÇÃO DA SOCIEDADE PARA MELHORAR A SEGURANÇA PÚBLICA
A sociedade está se sentindo insegura e cobra das autoridades solução para o problema da falta de segurança, principalmente nos grandes centros. Formas arcaicas de fazer segurança pública, que não procuram diagnosticar as causas e efeitos, verificar a incidência e apontar os gargalos para agir na prevenção, repressão e combate ainda são empregadas pelos governos. Vendo este desencontrar de ações a sociedade se organiza para auxiliar as autoridades a corrigir os erros de aplicação dos recursos públicos em segurança. Entretanto, os órgãos públicos, na sua maioria, não estão preparados para receber o auxilio de sociedade. Muitos se querem estão atuando dentro deste novo contexto da sociedade da informação. Não utilizam as tecnologias da informação e comunicação - TIC para implantar um governo eletrônico que satisfaça os anseios da comunidade. Segundo Silva (2006, p 26) com os avanços espantosos das tecnologias nas áreas mais significativas da esfera global, os grupos de criminosos utilizam as novas formas de comunicação e transporte. Saindo assim na frente dos governos, utilizando técnicas avançadas de gerenciamento, controle de produção e distribuição. Este é o caso dos cartéis de drogas no mundo. As ações do governo se resumem as páginas na internet dos órgãos de segurança, algumas possuem Net denúncia, ou seja, disponibiliza um espaço as pessoas encaminharem e-mail sobre denúncias, mas sem se preocupar com dúvidas e sugestões. Outras disponibilizam registro de ocorrências através da web para perda de documento. Estes órgãos não estão preocupados, com raríssimas exceções, na opinião da sociedade para formular suas políticas de segurança de forma participativa. Quando o estado não desempenha suas atribuições de forma satisfatória surgem ações nas duas vertentes maniqueístas para resolver o problema. Por um lado os criminosos com sua política assistencialista recebendo a demanda da sociedade carente e procurando sanar esta demanda para poder legitimar suas ações e camuflar seus interesses de obter lucro com a exploração de atos ilícitos. Caso da distribuição de sextas básicas transporte para doentes, fornecimento de remédios e até proteção contra furtos e roubos. Segundo Melo (1999): “A criminalidade do fim do século se caracteriza por ser complexa; e é este o atributo que vai direcionar a forma precisa e eficiente de combatê-la ou controlá-la”. Outro lado é a sensibilização da sociedade que procura criar organizações não governamentais para monitor, estudar, armazenar e difundir boas práticas implantadas. Estas ações são boas e devem ser analisadas e copiadas pelos
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governos. É caso dos observatórios que estão ganhando terreno nos estados. O verbo que dá origem a palavra em si vem do latim: observare; que no nosso idioma gerou o verbo observar que adquiriu vários sentidos os quais necessariamente teremos de compreender para definir o significado correto de um observatório - local de onde se observa: O primeiro deles é examinar minuciosamente; olhar com atenção; estudar. Portanto um Observatório deverá possuir instrumentos que permitam examinar minuciosamente a realidade que cerca os fatos e atos da órbita do objeto a que se destina. Outro significado para observar é espiar, espreitar; ver sem ser visto é um atributo da observação que é complementar ao seu próprio sentido, quem observa não interfere naquilo que observa, pois necessita compreender o fato para entendê-lo. Também é significado de observar cumprir ou respeitar as prescrições ou preceitos de alguma instituição ou acordo; obedecer a estas prescrições; praticar o que foi estabelecido entre as partes. Um observatório deverá constituir um protocolo claro de ações para cumprir com as partes envolvidas no procedimento de observar. Mas observar também é notar, advertir alguém ou alguma organização ou instituição por uma falha cometida ou por um procedimento errado ou inadequado. Esta interpretação do sentido de observar pode produzir uma sensação de incoerência entre ver sem ser visto e a ação de advertir. Porém neste sentido não existe aí contraditório, trata-se de temporalidade, só pode advertir aquele que observou com atenção, que ponderou os pesos e medidas do ato ou fato e pode, assim, exarar sua advertência. Os observatórios pesquisados neste artigo são referentes a segurança pública, abaixo estão os links de acesso as páginas web. As informações disponíveis vão desde noticias de jornais, denúncias, noticias da mídia e apresentação de entrevistas e vídeos. Entre as informações disponíveis, podemos destacas as melhores práticas de segurança, que são focos de alguns destes sites. Alguns dos sites disponibilizam espaço para interação com o cidadão e procuram montar uma base sólida para aprofundar análise sobre vitimização e ações de segurança. Verificamos os seguintes observatórios de segurança: • Observatório Interdisciplinar de Segurança Pública do Território Bahia; • O Observatório das Violências Policiais-SP; • O Observatório de Segurança Pública da UNESP – OSP; e • O Observatório de Favelas;
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Como o próprio observatório do território da Bahia destaca o papel do observatório que versar para:
Acrescentam‑se as qualidades de uma observação ou de um observatório a capacitação advinda da interdisciplinaridade ou de várias áreas do conhecimento, permitindo‑se a construção a partir dos fatos observados, de conhecimento além e acima do que se esperaria de uma única fonte de análise ou de um único procedimento de análise. À análise sociológica ‑ compreensão dos fatos sociais ‑ é acrescida a análise regional ‑ sócio‑ econômica ‑ e a análise sob a ótica da administração estratégica ‑ a gestão ‑ produzindo‑se novos conhecimentos acima e além da pura e simples observação ‑ coleta dos dados. (Observatório do Território da Bahia, acesso em: 22/10/2008).

Enquanto alguns portais procuram dar voz à comunidade, contra os abusos cometidos pelos agentes de segurança pública, outros disponibilizam informações sobre segurança pública. Boas práticas em programas de segurança também são alvos da divulgação. Outros observatórios são mais atuantes e tem seu foco em direções mais ousadas como o caso do Observatório de Favelas que “é uma organização social de pesquisa, consultoria e ação pública dedicada à produção do conhecimento e de proposições políticas sobre as favelas e fenômenos urbanos”. Muitas iniciativas destes tipos estão surgindo, mas resta saber por que o governo não utiliza o governo eletrônico como meio de comunicação entre a sociedade e o governo para procurar alinhar as ações de segurança pública e até mesmo subsidiar na construção das políticas de segurança públicas. Diniz (2003, p. 5) esclarece que uma das principais formas de modernização do estado é resultado do uso estratégico e intensivo das tecnologias de informação e comunicação (TIC), nas relações internas dos próprios órgãos de governo e também das relações do setor público com os cidadãos e as empresas. Este é sem dúvidas um desafio às autoridades governamentais para buscar uma segurança pública participativa, que trate a sociedade como protagonista nas ações implementadas pelo governo para segurança pública.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Embora haja a preocupação e se procure evoluir e melhorar a gestão pública há sempre pessoas que não achem que a adoção de novas formas de atuação perante problemas pontuais, como o caso da administração pública e mais precisamente falando da segurança pública. Estas ações devem ficar a cargo apenas dos administradores públicos e políticos numa espécie de monopólio administrativo e político. No Brasil, as ações para separar a máquina pública de interesses pessoais, vêm sendo desenvolvidas ao longo das décadas e atingiu pontos inimagináveis, mas ainda está um pouco longe o ideal.
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Algumas poucas pessoas sejam pelas facilidades que encontram retirar vantagens indevidas, por comodidade ou até para manutenção de sua posição, relutam em adotar meios mais eficiente de interagir com a sociedade e buscar soluções de forma conjunta. O governo eletrônico tem obtido sucesso em muitos países, pois utiliza as tecnologias de informação e comunicação para buscar a participação do contribuinte. Com estas TICs o governo atende de forma mais efetiva os cidadãos que procuram auxiliar o governo com a identificação dos problemas, a busca pelas soluções e nas prioridades de aplicação dos recursos. Os observatórios de segurança pública são uma clara demonstração de que as TICs podem ajudar nas estratégias de prevenção e combate a criminalidade. A sociedade está ávida por soluções e quer participar de forma efetiva nas políticas de segurança pública. Portanto, basta o governo se preparar para interagir com seus cidadãos e o governo eletrônico é a forma ideal para que se mude drasticamente o jeito de governar.

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REDES SOCIAIS NO GOVERNO ELETRÔNICO
Professora do Instituto de Ciências Humanas e da Informação da Universidade Federal do Rio Grande Doutoranda do Programa de Pós‑Graduação em Engenharia e Gestão do Conhecimento da Universidade Federal de Santa Catarina
giseledziekaniak@yahoo.com.br

Gisele Dziekaniak

RESUMO
Aborda a comunicação através das redes sociais eletrônicas como possibilidade ao cidadão ter voz e vez em processos e decisões sociais, políticas, culturais e econômicas de seu país. Este novo modus operandi, que vem a ser o uso das redes sociais para trocas simbólicas, está se consolidando sobretudo devido às possibilidades permitidas pela internet. Para melhor avaliar e promover a disseminação deste recurso enquanto canal efetivo de comunicação, as redes sociais precisam ser estudadas e, principalmente assumidas pelo Estado, como uma possibilidade de interação significativa para propostas de desenvolvimento de governo eletrônico na utilização destas tecnologias visando à promoção da sociedade do conhecimento. Neste sentido o artigo busca discutir e apresentar algumas possibilidades pelas quais a prática da disseminação e fomento de redes sociais não é bem utilizada no âmbito do governo eletrônico e discutir brevemente questões relacionadas à cidadania. Pretende-se apontar possíveis razões que denotam por que o governo ainda resiste em utilizar as tecnologias da informação, como é o caso das redes sociais, para desenvolver e envolver o cidadão no universo político, tornando-o partícipe e igualmente responsável por suas decisões, considerando o cidadão um ator efetivo na gestão governamental. Acredita-se que a promoção do uso de redes sociais pelo governo seja um catalisador para que o cidadão comum se desenvolva intelectual e socialmente, fornecendo a ele instrumental que o torne apto ao exercício da cidadania e ao amplo acesso às informações que possibilitará ser a sociedade do conhecimento, uma realidade para todos.

PALAVRAS-CHAVE
Redes sociais; governo eletrônico; e-cidadania; sociedade do conhecimento.

1. INTRODUÇÃO
As denominadas tecnologias de informação e comunicação (TICs) oportunizaram e possibilitaram novos formatos de comunicação e trocas simbólicas entre indivíduos. Barreiras geográficas foram rompidas e serviços on-line 24/7
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(vinte quatro horas por dia durante os sete dias da semana) estão a cada dia mais comuns e de uso corrente. Grandes mudanças ocorreram na sociedade contemporânea, as quais trouxeram consigo o emblema de uma nova sociedade, a sociedade do conhecimento. Contudo, sabe-se que esta mudança não se deu, nem se dá de forma homogênea em todos os continentes do mundo nem mesmo dentro de um mesmo país. O Brasil, por exemplo, apesar de contar com grandes pesquisas de ponta, consideráveis investimentos em P&D (pesquisa e desenvolvimento), e sediar empresas nacionais que operam com grande volume de exportação, ainda falta muito para se caracterizar como sendo uma sociedade do conhecimento. O que mais chama a atenção na promessa da sociedade do conhecimento é o axioma defendido quanto ao crescimento do conhecimento quando compartilhado. Este novo paradigma, obscurecido pelo ideal capitalista de acúmulo de conhecimento para geração de riqueza, vem à tona nos discursos dos defensores desta nova ideologia de sociedade. As atividades humanas, na promessa desta nova sociedade, deixam de ser individualizadas e passam a ser colaborativas em um devir acerca do ofertar para receber. No entanto, grande parcela de sua população permanece alheia à informação e principalmente alheia ao conhecimento. Paradoxalmente, de acordo com os últimos dados disponibilizados pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI), por meio da Pesquisa TIC Domicílios 2007, mais da metade da população brasileira já teve acesso a computador e, cerca de 40% possui pelo menos um em sua residência. A pesquisa revela que cerca de 34% da população afirmou ter navegado na internet nos últimos três meses à época da pesquisa. Diante desta realidade, se percebe a capacidade que o país possui e, que comportaria, de melhor direcionar os serviços públicos através da internet, facilitando o atendimento das demandas da sociedade por permanente interação e comunicação 24/7 entre os cidadãos e o Estado (G2C) e, gerando canais de comunicação entre os próprios cidadãos (C2C). Isto, porém, não vem acontecendo com a devida intensidade, deixando de responder a um dos novos modus operandi de comunicação entre as pessoas: as redes sociais. Esta nova tendência facilitadora da comunicação em tempo real e sem fronteiras gera nos cidadãos a perspectiva de ser cada vez mais possível ter voz e vez, independente do lugar em que se esteja. E, quando se fala em “lugar”, não está se referindo somente à localização geográfica espacial, mas principalmente acerca do lugar social, político, cultural e econômico que o indivíduo ocupa na sociedade. Outra característica que as redes sociais possibilitam e fomentam diz respeito à capacidade de tomada de decisão em diversos fóruns de discussões e opiniões espalhados pelo ciberespaço. Ambientes que vêm se consolidando e que
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servem de escola ao cidadão nos processos próximos se não plenos, ao menos próximos, do exercício da cidadania. Estes novos costumes e tendências estão se consolidando, sobretudo pela internet na sociedade brasileira, e necessitam ser estudadas e assumidas pelo Estado, como possibilidades de interação significativa para propostas de desenvolvimento de governo eletrônico na utilização destas tecnologias, visando a promoção da sociedade do conhecimento. Fleury (2003 apud OLIVEIRA, 2008, p. 17) classifica a Era do Conhecimento e da Informação como uma:
Sociedade caracterizada por alto nível de intensidade de informação no cotidiano da maioria dos cidadãos, empresas e locais de trabalho, pelo uso de tecnologia comum e compatível para um amplo espectro de ativi‑ dades pessoais, sociais, educacionais e empresarias; e pela capacidade de transmitir, receber e trocar dados digitais rapidamente entre locais distintos, independentemente da distância entre os mesmos.

Sociedade esta que tem como uma de suas características a valorização da disseminação de informações, capacitando o cidadão a ser seu próprio representante na estrutura do Estado. Representação legitimada pela consistência intelectual e moral desenvolvida pelos indivíduos através das trocas simbólicas, também permitidas e estimuladas pelos fóruns eletrônicos (redes sociais eletrônicas). Esta reunião de coletivos e o apontar de algumas possibilidades para a ausência do estímulo para fomento desta estrutura de redes de comunicação no âmbito governamental, tanto entre cidadãos como entre governo e cidadão, é o objeto de estudo deste texto que visa demonstrar, antes de tudo, a importância da reunião de atores como governo e cidadãos com o foco no interesse social através das redes sociais eletrônicas e desvelar alguns motivos pelos quais as redes sociais não são ainda uma realidade efetiva no governo eletrônico.

2. REDES SOCIAIS ELETRÔNICAS OU E-REDES SOCIAIS
Como um dos maiores fenômenos mundiais da prática da comunicação à distância, as redes sociais eletrônicas vem ganhando terreno, influenciadas pela internet alterando assim o modus operandi da sociedade contemporânea. Tal prática favorece a comunicação sem fronteiras e a existência de coletivos, reunidos virtualmente em prol de objetivos comuns, formando e consolidando identidades de grupos sociais. De acordo com Wasserman e Faust (1998) “Uma rede social (do inglês so‑ cial network) consiste de um ou mais conjuntos finitos de atores [e eventos] e todas as relações definidas entre eles”.
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As redes sociais existem sob diversos interesses e atendem a distintos objetivos. Existem redes especializadas em identificar a árvore genealógica e auxiliar as pessoas na construção de suas árvores, como é o caso da MeusParentes, rede social que conta com mais de 30.000.000 de membros em vários lugares do mundo. Para quem deseja formar sua rede de relacionamentos sociais, existe o Orkut, o MySpace e o Facebook americano, dentre outros,. Estes três contam juntos com mais de 308.000.0001 de usuários no mundo todo. Além destas redes existem as redes que interessam a esta discussão: as redes sociais com o objetivo de favorecer a promoção do desenvolvimento cultural, social, político e econômico, visando uma sociedade mais igualitária, que se distancie cada vez mais da exclusão social, cultural e digital. Estas redes, preocupadas também em atingir a e-democracia e a e-participação, primam por tornar horizontais as “relações de poder” e os círculos de decisão na sociedade contemporânea, oportunizando, a todos os cidadãos interessados, a participarem efetivamente de decisões de interesse comum da sociedade. Por tal movimento de comunicação, denominado de e-participação, se pode compreender o fenômeno tecnológico oportunizado pelos canais de tecnologia de informação e comunicação que, teoricamente, possibilitam a participação dos cidadãos, via ambiente eletrônico (internet, celular). Estas vias de comunicação prestam-se em ofertar ou receber informações e favorecer a troca de conhecimento entre os cidadãos interessados nas mesmas temáticas ou com os mesmos objetivos. Para tanto, no estágio atual da sociedade brasileira, marcada por profunda heterogeneidade social, cultural e econômica, ações em torno de estimular os cidadãos a participarem destes canais são fundamentais. Atingir-se-á a plena e-cidadania no país (se é que isso um dia será possível), quando os cidadãos se tornarem conscientes de seus direitos e deveres sociais e, isto pode ser oportunizado pelo estímulo a e-participação, uma vez que é ela quem possibilita às pessoas, não precisarem teoricamente se deslocar de casa para discutirem e decidirem temas de seu interesse, sobre sua cidade, bairro ou, sobre os horários em que a biblioteca do Senado estará aberta para receber e auxiliar o seu público na busca por informações. Quanto à e-cidadania, esta pode ser concebida como um dos modelos ideais do exercício cidadão. Em dias atribulados como os que vivenciam a sociedade contemporânea torna-se complicado encontrar espaço para sair do trabalho para eleger ou decidir in loco sobre uma pauta de votação na prefeitura da cidade. Os serviços denominados “e” (abreviação de eletrônico) favorecem e possibilitam
1 O Orkut conta com aproximadamente 120.000.000 de usuários, o MySpace com 30.000.000 e o Facebook com cerca de 58.000.00 usuários nos Estados Unidos. (Fonte: WIKIPÉDIA, Nov. 2008)
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esta comunicação e participação à distância, inserindo (ainda que na teoria, por enquanto) o cidadão nas decisões da sociedade. Mas como se pode perceber, a e-cidadania não é só uma possibilidade adicional de se exercer a cidadania. O movimento que se está tentando realizar através dela é fazer o que a busca pela cidadania tradicional não conseguiu dar conta: oportunizar e estimular a criação de canais formais de comunicação efetivos, para que os cidadãos possam exercê-la junto à sua comunidade, sociedade e poderes legislativos e executivos. Inclusive despertar nas pessoas a consciência pela importância do exercício desta cidadania, compreendendo o que a mesma vem a ser e, aquilo que ela pode agregar à sociedade, quando várias consciências se reúnem como medida de política social. Por outro prisma, não se pode reincidir no que Carvalho (2008) denominou de “ingenuidade no entusiasmo”, quando devido ao fim da ditadura militar no Brasil em 1985, políticos, intelectuais, jornalistas, associações e os cidadãos comuns, passaram a acreditar que a democratização das instituições traria a “felicidade nacional”. Segundo o referido autor: “a manifestação do pensamento é livre, a ação política e sindical é livre. De participação também.” (CARVALHO, 2008, p. 7). Porém essa participação e liberdade de pensamento, segundo ele, não garante a resolução dos problemas sociais. Até mesmo porque, essa liberdade de pensamento não permite automaticamente a apropriação de outros direitos como segurança ou a resolução de mazelas sociais. Pensamento sofisticado acerca de uma das problemáticas da possibilidade do exercício de cidadania foi posto por Boaventura (1997), ao expor que a renovação da teoria democrática não estaria confinada apenas ao direito ao ato do voto. Mas sim na articulação entre a democracia representativa e a participativa, o que implica na necessidade de que o campo político seja ampliado. Uma vez que, para Boaventura (1997), a própria teoria liberal modificou o espaço político em uma dimensão especializada da práxis social; confinando o espaço da cidadania ao Estado. Através disso, “todas as outras dimensões da prática social foram despolitizadas e, com isso, mantidas imunes ao exercício da cidadania.” (BOAVENTURA, 1997, p. 271). Mesmo vislumbrando de modo não ingênuo as facetas sobre as dimensões da cidadania, ainda assim é preciso exercitar formas de compreendê-la, não negá-la como projeto possível, para bem implementá-la. Neste contexto, discute-se a importância das redes sociais, não as compreendendo como o resumo de tudo que de melhor e ímpar se pode construir e estabelecer para se constituir a cidadania, mas como uma das tantas oportunidades dentre o conjunto das melhores práticas para o seu exercício, no âmbito da comunicação-ação. Nesta mesma linha, Jacobi (2002, p. 143) faz a seguinte afirmação:
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A construção da cidadania no Brasil, num contexto crescente de desigual‑ dades, implica necessariamente a superação das formas de dominação de uma cultura política baseada na tutela, no clientelismo e no patrimonia‑ lismo político. Cumpre subsidiar as práticas sociais existentes por novas formas de relação que tenham na participação um componente essencial. (...) O desafio que se impõe é construir novos hábitos, neutralizar o clien‑ telismo e aproximar o cidadão do processo decisório.

Neste sentido pode-se considerar como uma das principais contribuições das redes sociais, a união e articulação dos indivíduos, de certo modo não tutelados, autores autônomos, os quais através destas redes, se organizam de maneira igualitária, práxis que favorece a potencialização da realização do desenvolvimento social, cultural, econômico e político. Participar de uma rede social é um exercício, sobretudo político. De acordo com Santaliestra (2007, p. 13-14), sob o aspecto histórico da existência das redes sociais, ele aborda que:
Ainda no contexto de reconstrução da nossa democracia, muitos outros grupos sociais se organizaram em redes, em torno de idéias, identidades e causas. Desde o início dos anos 1990, novas redes sociais surgiram e, depois, redes de redes, constituindo um movimento rico e desafiador, que tem envolvido cada vez mais pessoas, e que vem criando novos padrões de relação entre sociedade civil e Estado.

As redes sociais devem ser entendidas como instrumento de agregação de valor às relações entre a sociedade civil organizada e o Estado, no fomento pelo desenvolvimento social, econômico e cultural de uma nação.

3. GOVERNO ELETRÔNICO (E-GOV)
Pretende-se a partir da discussão das redes sociais identificar a importância do governo fazer uso destas redes como ferramenta de apoio para a comunicação na busca pela satisfação das demandas sociais e intelectuais da sociedade em geral. Uma sociedade conectada necessita de um governo também conectado e preocupado em oferecer serviços e produtos em rede. De mesma relevância torna-se a importância do surgimento de redes sociais que viabilizem a existência do e-Gov participativo, por meio da análise de alguns fatores considerados como pontos focais para a resistência ao fomento de canais efetivos de comunicação entre o governo e o cidadão, sempre com um olhar que torna parceiros governo e cidadão. Para isso importante se faz compreender quais seriam as melhores práticas de uso e aplicação de redes sociais pelo governo. Entendendo este como o provável facilitador e promotor destes canais. O chamado governo eletrônico, entendido muitas vezes apenas como a governança pública via tecnologias de informação e comunicação, precisa se
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revitalizar e incorporar em sua filosofia de desenvolvimento e atuação, o fomento a projetos de redes sociais e, igualmente, fazer uso delas para, junto com os cidadãos, chegar a melhores práticas de democracia e participação popular em busca das melhores decisões governamentais de modo plenamente democrático. Apesar de existirem projetos governamentais pelos quais se torna reduzida a carga de impostos de computadores visando sua aquisição pelas classes sociais menos favorecidas, estes programas não contemplam “o que fazer com estes computadores”. Há ainda o Programa Banda Larga nas Escolas, mas o mesmo ronda em torno da disponibilização e apenas sob os termos do como usar e não do por que usar?, ou ainda, para que usar? Tais perguntas precisam estar atreladas à filosofia de um Estado que visa não somente aparelhar, mas também e, principalmente favorecer a educação via tecnologia da informação preparando a população para a entrada na sociedade do conhecimento (não só com o conhecimento tecnológico). Prova de quando uma nação quer, ela consegue, este programa mencionado, acerca da diminuição dos impostos nas vendas dos computadores, alavancou de tal modo o consumo de computadores, que acabou tornando o Brasil o maior mercado de computadores da América Latina (SANTOS, 2008). Quanto às redes sociais, elas podem ser utilizadas para potencializar o governo eletrônico, uma vez que elas estão inseridas em um contexto relativamente novo, talvez com a mesma idade do próprio governo eletrônico, que é o contexto da comunicação eletrônica e à distância, fomentando novas práticas sociais junto ao cidadão. De acordo com Ribas e Ziviani (2008, p.3), acerca das possibilidades das redes sociais, pode se compreender que
O grande potencial existente no contexto das redes se refere ao fato de que a informação não se encontra mais centralizada, o seu detentor não é mais uma única pessoa, ou seja, ampliam‑se as fontes de informação. Nesse sentido, o seu poder de circulação é muito maior e dinâmico e a tecnologia trabalha justamente em prol dessa disseminação.

Com isso amplia-se o poder de interação social do cidadão comum, bem como se expande a possibilidade de todo e qualquer cidadão que desejar participar das discussões que são focadas pela rede (ou até mesmo propor novos temas para discussão) assim o faça independente de onde esteja fisicamente. Quando se vislumbra boas práticas de e-Gov deve estar incluída nesta discussão, a filosofia da transparência, da confiabilidade, e do direito a privacidade do cidadão, além da possibilidade de comunicação real time, onde a relação G2C (government to citizen), que é a relação constituída entre governo e cidadãos, é priorizada e tornada capaz de fluir e acontecer sem que o governo caia no descrédito por ausência de respostas em tempo hábil às demandas da sociedade.
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De acordo com Carvalho (2007) a democracia e a descentralização das ações públicas compõem uma substantiva mudança exigindo da governança pública “a participação dos diversos sujeitos do fazer social: o Estado, a sociedade civil, a iniciativa empresarial [o mercado], a comunidade e o próprio públicoalvo da ação pública.” (CARVALHO, 2007, p.4). E, quanto à apropriação das tecnologias da informação e comunicação no âmbito do Governo, elas possibilitam que esta organização saia do plano tácito, e passe a atuar no plano estratégico, oferecendo, quando bem utilizadas, informações privilegiadas aos gestores públicos, como é o caso das informações acerca de demandas sociais importantes e pontuais em diferentes níveis de complexidade. A seguir discutem-se prováveis motivos para as precárias condições de comunicação entre governo e cidadão via ciberespaço.

4. REFLEXÕES ACERCA DOS MOTIVOS PARA NÃO OCORRER COLABORAÇÃO EFETIVA ENTRE GOVERNO E SOCIEDADE ATRAVÉS DO E-GOV E DAS REDES SOCIAIS
O que se tem hoje, em termos de iniciativas na utilização de ferramentas para o desenvolvimento de redes sociais no âmbito governamental e o estímulo realizado pelo governo para a promoção de espaços coletivos para discussões, decisões e a efetiva comunicação entre os cidadãos e entre o governo e os cidadãos, pode ser considerado como irrelevante diante das possibilidades que as TICs oferecem, inclusive por meio da filosofia de software livre. O cidadão já aprendeu a se comunicar eletronicamente, ele possui hábitos já mapeados de acesso a internet; logo, a problemática está em por que o governo ainda resiste em utilizar desse saber-fazer para desenvolver e envolver o cidadão no universo político? Torná-lo partícipe e igualmente responsável por suas decisões, sendo ele uma espécie de gestor auxiliar nas decisões do governo. De acordo com o Comitê Gestor da Internet no Brasil, em outubro de 2009 havia um total de 1.866.261 de domínios registrados somente no Brasil entre pessoas físicas, jurídicas, profissionais liberais, universidades e domínios genéricos. O que denota grande utilização da Internet por brasileiros. Algumas possibilidades se revelam sobre a ausência da existência de canais de comunicação férteis e efetivos entre o governo e o cidadão, em que a prática do uso de redes sociais estimularia o cidadão a exercer a e-cidadania. Acreditase que a maioria destas causas estejam relacionadas ao desinteresse governamental para que as redes sociais obtenham sucesso. E, mais ainda, acredita-se que este desinteresse não seja tão desinteressado assim.
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Em princípio, entende-se que falta ao Estado compreender os motivos e demandas que levariam o cidadão a deixar seus fazeres e responsabilidades particulares diárias para se dedicarem ao exercício da e-participação. Em outras palavras o Estado talvez ainda questione se vale à pena investir nestes canais. Se haveria foro efetivo com amplo acesso e disseminação de boas práticas, em contrapartida aos investimentos realizados pelo Governo. Isso ainda ocorre por conta da desatualização deste seguimento acerca das práticas culturais e sociais, uma vez que a Internet é uma realidade consolidada e as relações sociais se dão cada vez mais neste âmbito. Outra possibilidade da lacuna comunicacional seria o desinteresse por parte do governo em envolver o cidadão em consultas, o que de fato daria poder decisório à população. O culto à manutenção da representatividade dentro dos governos é algo existente no cenário político mundial e é um dos fatores a impedir a distribuição de decisões entre a população. Ao mesmo tempo, quando a idéia é divulgar notícias de programas e projetos que deram certo no âmbito do Governo, este parece compreender que vale à pena investir em divulgação e comunicação via Internet como o faz através do Blog do Planalto, lançado em abril de 2009. O qual infelizmente deixa de ser um canal de comunicação aberto, dado o fato de que o cidadão não pode interagir neste blog. Ele apenas recebe informações, mas não pode manifestar-se sobre elas. Porém tal ausência de dados não pode servir de justificativa para a omissão das esferas governamentais acerca da importância desta prática tão presentes no cotidiano do brasileiro, que vem a ser a comunicação via Internet. Muito pelo contrário, devem ser realizadas pesquisas junto à sociedade pelo Governo, as quais devem servir para desvelar os hábitos de acesso atualizados a fóruns de discussões pelos cidadãos. Por outro lado, o fator dependência por colaboração, que vem a ser o tônus das redes sociais, (para uma rede funcionar, é preciso que os indivíduos se manifestem, troquem informações, divulguem idéias, abram pautas para discussões e pleitos) pode ocasionar por vezes o desestímulo à sua perpetuação. Uma vez que, o cidadão precisa mantê-la, alimentá-la. Ele é o ator e o fator principal de sucesso ou fracasso desta estrutura. Caso o cidadão deixe de atuar neste espaço, a rede fenece. Igualmente é temerário a muitos governos prestar contas das decisões para as quais seus representantes públicos foram eleitos, talvez porque algumas dessas decisões não sejam de real interesse a ninguém, exceto a quem a tomou. Logo, melhor para alguns, se torna a prática da decisão representativa, onde o representante civil decide pelo povo, teoricamente optando pela melhor decisão, aquela que agradaria a população a quem ele deveria servir e representar (muitas vezes isso somente ocorre no campo da retórica enquanto na prática as decisões acabam por desagradar o povo e este tem que fórum público para reclamar ou questionar?).
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Outra possível razão para a existência do gap na comunicação eletrônica entre governo/cidadão seria diagnosticar o desinteresse do cidadão em participar ao não encontrar espaço para isso. O governo na maioria das vezes não oportuniza, não fomenta e não mantém efetivamente estes espaços. Crê-se que um dos principais motivos que impedem ou dificultam o cidadão de participar ativamente de fóruns eletrônicos governamentais populares para opinar e tomar decisões, seja o fato de que o cidadão tem o sentimento de que suas demandas não seriam respondidas. Em outras palavras há um sentimento de descrédito enraizado, possivelmente desde quando a sociedade percebeu que o final da ditadura militar não garantiu efetivamente os seus direitos sociais. O cidadão não preza por fóruns apenas representativos, ele deseja ter espaço privilegiado como indivíduo, para defender e, principalmente, eleger seus interesses, quer coletivos, quer pessoais (por que se deve sempre esquecer os interesses pessoais em prol do coletivo se, de certo modo, o próprio governo estimula a livre negociação financeira e um mercado globalizado, onde o que vale é a liberdade de escolha por boas ofertas e, concede aos mais favorecidos economicamente, poder de barganha?) Quanto à descentralização da informação e do conhecimento, possibilitado pela geração de discussões profícuas entre cidadãos através de redes sociais, é outro fator gerador de medo por parte dos governantes. Ao se descentralizar o acesso ao conhecimento, está se descentralizando o poder de acesso à tomada de decisões coerentes, com argumentação bem sustentada, ferramentando o cidadão comum, com habilidades já citadas neste texto, para escolhas conscientes, inclusive no pleito eleitoral. Crê-se que o principal fator para o e-Gov não se valer do fomento a redes sociais diz respeito às redes sociais serem formadoras de opiniões. Elas tornam cidadãos comuns “formiguinhas com alto falantes”. Todos envolvidos na mesma rede, ao discutirem temas específicos, acabam por eleger uma resposta ao possível problema tratado, ou seja, os sujeitos apontam caminhos a serem percorridos, decisões a serem tomadas, seguidas e estimuladas pela sociedade civil, ou ao menos, pelo grupo partícipe da rede. Esta atitude é geralmente coletiva, o pensamento se unifica, toma o poder de desestabilizar estruturas tradicionais, até então irrevolvidas e inquestionadas. Porém, apesar de haver uma grande demanda para tais práticas sociais e no geral, serem identificas pequenas iniciativas, se percebe algumas alterações em certos Estados brasileiros, como Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, onde iniciativas no âmbito do governo eletrônico estão oportunizando ao cidadão comum um espaço maior para diálogo entre governo e sociedade, iniciativas apresentadas neste texto, inclusive pelo desenvolvimento de redes sociais ativas, as quais potencializam a voz do sujeito, através de coletivos.
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5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Entende-se que as redes sociais eletrônicas podem contribuir para fomentar a sociedade do conhecimento, a e-participação e a e-cidadania no cenário do governo eletrônico. Entretanto, a realidade social aponta lacunas existentes na comunicação Estado-Sociedade. Por conta disto o texto procurou, além de defender a possibilidade de trabalhar com o foco no desenvolvimento social através das redes sociais, buscou igualmente apontar alguns fatores que estão dificultando o amplo acesso às redes sociais com fins políticos-sociais pelo cidadão comum, em busca do diálogo governo-sociedade. Em contrapartida não defende que as redes sociais sejam a única saída para o exercício da cidadania ou da e-cidadania, uma vez que a cidadania possui dimensões complexas e não necessariamente proporcionais, à medida que, a liberdade de expressão concedida, pelas redes sociais, não abona à priori, a garantia a outros direitos sociais como é o caso do direito à segurança ou ao voto consciente. As reflexões propostas pretenderam possibilitar a identificação das redes sociais como facilitadoras, as quais podem permitir, facilitar e instrumentalizar o cidadão ao exercício da democracia direta, aquela em que cada um tem voz e vez, sem a habitual total representatividade que ocorre no cenário político das sociedades contemporâneas. Sem dúvida ainda há carência de estudos acerca das melhores práticas sobre redes sociais eletrônicas e sobre as demandas sociais e as soluções que essas redes já proveram e atenderam. Bem como interessante seria elaborar estudos sobre o prisma de uma rede das redes sociais a fim de identificar uma matriz sobre elas e diagnosticar a realidade acerca de sua implementação no âmbito governamental uma vez que ainda há quem não faz uso deste importante instrumento político, educativo e social, além do que, este mapeamento teoricamente demonstraria o perfil destas redes bem como suas características. Ao mesmo tempo em que a grande parcela da população não possui acesso à internet, por outro lado têm-se os governos omitindo-se da responsabilidade em prover acesso a ela, uma vez que, ao conceber a existência, ou pelo menos uma tendência à sociedade do conhecimento, marcada pela ampla disseminação da informação e o seu acesso sem fronteiras é preciso oportunizar aos cidadãos comuns, ofertas de acesso a esta informação, para que a sociedade do conhecimento não seja o que hoje representa apenas a parcela dos indivíduos envolvidos com o governo, o ensino e a iniciativa privada. Quanto à disponibilização de acesso à informação, essa pode se constituir pela criação de novos e muitos terminais conectados à rede (telecentros), ou pelo acesso gratuito a sites de ensino, do governo e de redes sociais via aparelho celular ou ainda através de terminais de auto-atendimento bancário, onde se pode aproveitar a estrutura de conexão já existente para promover acesso a informações que instrumentalizem e capacitem o cidadão a ser um agente atuante em canais sociais.
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Não basta crer que a sociedade do conhecimento é uma realidade, se esta realidade existe apenas para poucos. A sociedade já pensa em rede, se comunica por redes, faz uso de muitas tecnologias de informação e comunicação em seu cotidiano. Questiona-se então o que está faltando para que o cidadão passe a ser um agente capacitado para exercer a cidadania e ele mesmo ser apto a participar na construção desta infovia em busca do desenvolvimento cultural, do exercício político e social. Estudos e considerações entre o que se tem e o que se almeja atingir para a promoção da sociedade do conhecimento, através de ambientes colaborativos, como é o caso das redes socias, devem ser estimulados. Acredita-se que o compartilhamento de aplicações e a explosão de idéias vindas destes ambientes de comunicação em tempo real (as redes sociais), sem fronteiras geográficas, onde coletivos, reunidos virtualmente em prol de objetivos comuns se aliam e discutem idéias, seja um dos pilares da sociedade do conhecimento e do fomento ao exercício cidadão. Por fim, entende-se como necessário e urgente, o repensar acerca de uma possível superação da filosofia de representação e participação popular nas sociedades ditas democráticas. A própria filosofia existente na sociedade do conhecimento, rumo ao qual se espera estar-se indo em direção, favorece a liberdade de escolha, de expressão e de decisões, baseados no acesso ao conhecimento sem barreiras, gerando um círculo virtuoso acerca do participar aprendendo e aprendendo a participar. Obviamente isto ainda é uma utopia diante da realidade social, econômica, intelectual, científica e principalmente política que vivencia o Brasil, porém uma utopia que não encontra barreiras tecnológicas. Sendo assim, é possível por este veio questionar a ausência de projetos para tornar a sociedade do conhecimento uma realidade para a sociedade brasileira, a qual possui demandas legítimas em tantos segmentos ainda não contemplados.

REFERÊNCIAS
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A ATITUDE DOS DISCENTES NO ENSINO SUPERIOR A DISTÂNCIA
Professora da UNISUL Programa de Pós‑Graduação em Engenharia e Gestão do Conhecimento Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Bairro Trindade CEP 88040‑970 FLORIANÓPOLIS – SC – Brasil
joseane.miranda@unisul.br

Joseane Borges de Miranda

jfusinato@gmail.com

Professor do CEDUP

Joni Fusinato

Alexandre Carvalho dos Reis Lima
prof.alexandre.lima@gmail.com

Professor do CEDUP

Professora da UFSC Programa de Pós‑Graduação em Engenharia e Gestão do Conhecimento Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Bairro Trindade CEP 88040‑970 FLORIANÓPOLIS – SC – Brasil
hugo.hoeschl@ijuris.org

Hugo Cesar Hoeschl

RESUMO
O artigo investigou as atitudes dos discentes em um curso de graduação ofertado na modalidade de ensino a distância (EAD) com relação as diferentes categorias de análise tais como professor, flexibilidade e conveniência, ambiente de aprendizagem, material didático, satisfação e comprometimento com o curso de graduação escolhido. A investigação foi realizada através de pesquisa exploratória, de natureza descritiva e quantitativa. Responderam ao questionário 97 discentes matriculados entre os anos de 2007 e 2008 na disciplina de Finanças Internacionais. A análise geral mostra o predomínio de atitudes positivas dos discentes frente às categorias supracitadas sendo que, a flexibilidade espaço-temporal proporcionada pela educação a distância, assim como o uso de diferentes suportes tecnológicos para mediar o processo de ensino aprendizagem foram ressaltados. Pode-se afirmar que os resultados obtidos estão em consonância com pesquisas similares na área de educação à distância.

PALAVRAS-CHAVE
Educação a distância, discente, atitude.

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1. INTRODUÇÃO
Com a revolução das tecnologias de comunicação e informação a modalidade de educação a distância cresceu significativamente. Dependendo das características do acadêmico envolvido neste processo temos resultados de maior interação ou não. Este artigo descreve os resultados obtidos de uma pesquisa exploratória que investigou as atitudes dos discentes com relação a um curso de graduação à distância. Os discentes estavam matriculados na disciplina de Finanças Internacionais de uma universidade privada do sul do Brasil. A pesquisa teve como objetivo encontrar elementos que sugerissem a aderência ou não à proposta de ensino a distância por parte dos discentes, assim como colaborar com a inclusão de novas informações a pesquisas similares. O artigo está dividido em três partes: em primeiro lugar se apresenta um marco contextual para situar o leitor sobre os conceitos no qual se baseia o artigo tais como: ensino à distância e atitude dos discentes. Na seqüência será apresentado o questionário e as tabelas usadas para a coleta de dados. Para finalizar são apresentadas as respostas dadas pelos discentes e considerações feitas pelos autores dessa pesquisa partindo dos questionários que foram respondidos e auxiliados pela literatura especializada sobre o assunto.

2. EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA 2.1 Marco contextual
A educação a distância (EAD) não é uma alternativa de ensino recente e também não surgiu ao acaso, apresentando uma longa história de sucessos e fracassos. “Desde as cartas de Platão, chegando a educação por correspondência no final do século XVIII, com sua evolução acelerada a partir de meados do século XIX, culminando com o avanço tecnológico do século XX, a educação a distância passou por varias experiências e desenvolvimento até chegar aos nossos dias” (Spanhol, 1999). Por não ser recente, encontra-se certo consenso na literatura especializada que diferencia momentos importantes na educação a distância atrelada a inclusão de novos suportes de comunicação como mediadores do processo educativo a distância. Esses momentos diferenciados são chamados de geração. As informações apresentadas a seguir foram construídas a partir de anotações de aula dos professores Fernando Spanhol e Araci Catapan, da disciplina de “Introdução a Educação a Distância”, no Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Gestão do Conhecimento da UFSC (2008):
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1ª Geração – final do século XIX até meados do ano de 1970, tem como característica principal o material impresso, normalmente um guia de estudos, com tarefas e outros exercícios enviados pelo correio. No Brasil ficaram popularizados e conhecidos os cursos do Instituto Universal Brasileiro. 2ª Geração – Compreendido entre os anos de 1970 e 1990, destacam-se nesse período a transmissão de cursos com aulas via televisão, complementadas por material impresso, rádio, fitas de áudio e vídeo. A interação é basicamente via telefone e/ou carta. No Brasil a Fundação Roberto Marinho reformula os modelos de telecurso desenvolvidos desde 1978 e lança o Telecurso 2000 e em 1996 entra em operação o canal da TV Escola. 3ª Geração – Evidencia-se a partir do ano de 1990, sendo fortemente caracterizada pelo uso intensivo de tecnologias da informação e comunicação de base digital, Internet e videoconferência. Para Spanhol (2008) alguns marcos importantes dessa geração no Brasil foram: a oferta de cursos de pós-graduação a distância com uso de sistema de videoconferência, na UFSC (1996), a criação do projeto Virtus, na UFPE, para uso de Internet na EAD (1996), cursos de extensão em Turismo, Marketing e Administração, via Internet, pela Universidade Anhembi-Morumbi (1997); cursos de graduação a distância oferecidos pela Unisul com tutoria somente on-line (2006) e os cursos do sistema Universidade Aberta do Brasil (UAB) oferecido pela UFSC (2007). Portanto a idéia de educação a distância é basicamente: professores e alunos estão em locais diferentes durante todo ou em grande parte do tempo em que aprendem e ensinam. Estando em locais distintos, eles dependem de algum tipo de tecnologia que permita a mediação e/ou interação entre eles (Dohmen, 1967; Peters, 1973; M. Moore, 1973; Keegan, 1991; Moore e Kearsley, 2007, entre outros). Os avanços tecnológicos e entre eles, os dos meios de comunicação ocorridos nas últimas décadas, assim como a crescente necessidade por mão de obra qualificada e o acirramento da competitividade tanto entre organizações como entre profissionais formam um cenário favorável à educação continuada. Entre as possibilidades de educação continuada, a educação à distância, particularmente a de 3ª geração, apresenta características que permitem conciliar satisfatoriamente a crescente demanda por formação continuada aos diversos níveis de educação com as limitações oriundas do campo profissional e/ou pessoal. São características dessa modalidade de ensino: flexibilidade de tempo dedicado ao estudo, formas de interação síncrona e assíncrona entre professor/aluno e aluno/aluno através de diferentes meios de comunicação, economia de tempo com idas menos freqüentes a instituição de ensino se comparado a um curso presencial, o que em cidades com trânsito lento devido aos constantes engarrafamentos podem representar um substancial aproveitamento do tempo para outras atividades, entre outras. Essa possibilidade de conciliar estudos e trabalho tem sido considerada mais
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dinâmica e flexível por parte dos discentes do que as encontradas nos cursos presenciais fazendo com que um número crescente de estudantes optem pela EAD e estimulam a criação de novos cursos em diferentes níveis de educação na modalidade a distância no Brasil. Segundo o Anuário Brasileiro Estatístico de Educação Aberta e a Distância (AbraEAD, 2008) 2,5 milhões de brasileiros estudaram em cursos dos mais diversos níveis com metodologias a distância só no ano de 2007. No que tange especificamente os cursos de graduação de acordo com os dados do Censo (INEP, 2007), 97 instituições ofereceram, em 2007, cursos de graduação a distância, sendo 19 instituições de ensino superior (IES) a mais em relação às registradas no ano de 2006. Comparado ao ano de 2006, foram criados 59 novos cursos a distância, representando um aumento de 16,9% no período. O número de vagas oferecidas em 2007 chegou a quase o dobro das oferecidas em 2006, com um aumento de 89,4%, ou seja, uma oferta de 727.520 vagas a mais. Esse fenômeno também tem sido observado em diversos países, entre eles, Estados Unidos, Inglaterra e México (Rodrigues, 2008). As inovações que foram introduzidas na Educação a distância de 3ª geração despertou o interesse de muitos pesquisadores buscando compreender as atitudes de estudantes e professores frente à adoção de inovações educacionais (Steil, Pillon, Kern, 2005, Berge, 2002, McGorry, 2002). A atitude pode ser entendida como “disposições mentais para avaliar um objeto psicológico, expressas em dimensões de atributos, como bom/mau, agradável/desagradável, etc.” (Steil, et al. 2005, p. 254). Para os autores Alexander (2001) e Valenta (2001) respostas rápidas ( feedback) e a facilidade de interação entre alunos e professores estão entre os atributos que afetam positivamente as atitudes dos alunos para com o ensino a distância. Da mesma forma que a educação mediada pela tecnologia permite a adoção de novas estratégias de ensino-aprendizagem e a oferta de cursos à distância, para o discente concluir um curso a distância também é necessário atitudes tais como: assumir a responsabilidade em administrar o seu horário de estudo, seguir os prazos estabelecidos para as atividades propostas, adquirir hábitos de estudo que minimizem as distrações e saber trabalhar de maneira assíncrona. Moore e Kearsley (2007) apontam como sendo os hábitos e as aptidões de estudo dos alunos que determinam, em grande parte, o sucesso das aulas, características essas encontradas com freqüência no público adulto. Para os referidos autores: “Alunos que planejam seu tempo de estudo e estabelecem horários para concluir o curso têm maior possibilidade de obter sucesso na educação a distância (Moore e Kearsley, 2007, p. 187)”. Finalizando pode-se inferir que os cursos de ensino a distância favorecem discentes que buscam autonomia nos seus estudos, maduros e dispostos a enfrentar desafios na busca pelo conhecimento mediado por ambientes de aprendizagem que facilitem a interação entre os atores envolvidos no processo de ensino-aprendizagem.
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2.2 Método usado na pesquisa
A pesquisa investigou as atitudes dos discentes em um curso de graduação ofertado na modalidade de ensino a distância (EAD) com relação as diferentes categorias de análise tais como professor, flexibilidade e conveniência, ambiente de aprendizagem, material didático, satisfação e comprometimento com o curso de graduação escolhido. A investigação foi realizada através de pesquisa exploratória, de natureza descritiva e quantitativa. O público alvo foram 455 alunos matriculados na disciplina de Finanças Internacionais entre os anos de 2007 e 2008 na modalidade à distância. O curso é ofertado por pela Universidade do Sul de Santa Catarina (UNISUL), Brasil. A disciplina de Finanças Internacionais é obrigatória, com quatro créditos (60 horas/aula). O único encontro presencial ocorre para a realização da avaliação. Ao longo da oferta da disciplina o aluno tem o apoio técnico de monitores e apoio acadêmico de um professor tutor. Este professor é formado na área afim da disciplina e possui titulação de mestre ou doutor. As aulas à distância demandam participação de fóruns de discussão orientados pelo professor tutor, resolução de exercícios e interação entre os discentes/discentes e discentes/professor/ através dos fóruns e chats. Para a coleta de dados foi usado um questionário formatado no Google Docs. A ferramenta usada não registrou nome, e-mail ou qualquer outra forma de identificação do respondente, apenas a hora e data, garantindo assim o anonimato. O questionário investigou a atitude dos discentes com relação as diferentes categorias de análise e foi dividido em tabelas. Na Tabela 1 investiga-se as atitudes dos discentes pesquisados com relação à categoria professor (tutor). A Tabela 2 investiga as atitudes dos discentes com relação à flexibilidade e conveniência. Já a tabela 3 investiga as atitudes dos discentes com relação ao ambiente de aprendizagem. Na Tabela 4 investiga-se as atitudes dos discentes com relação ao material didático e finalizando a Tabela 5 investiga as atitudes dos discentes com relação à categoria dinâmica do grupo no fórum. Com relação às escalas de graduação para a resposta do questionário, foram apresentadas questões com cinco opções de resposta: (1) discordo plenamente; (2) discordo; (3) neutro; (4) concordo e (5) concordo plenamente. Antes de se aplicarem os questionários foi feito um teste tanto operacional como de validação semântica. Após a validação do teste o questionário foi enviado por e-mail aos 455 alunos. Na primeira chamada 6% dos e-mails retornaram por problemas de sistema, tais como caixa cheia, e-mail inexistente ou aviso de que o aluno estava ausente. Uma semana após o primeiro envio, o mesmo questionário foi reenviado. Ao todo, 97 questionários foram respondidos. A população efetivamente alcançada foi bem menor do que o alvo inicial. A expectativa inicial admitia um erro amostral de 5% (Barbetta, cap. 3, 2003). Com o recebimento de 97 questionários o erro amostral aproximou-se de 10%. Embora elevado, não invalidada os resultados, mas reduz o intervalo de confiança das respostas.
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Para se analisar o grau de homogeneidade nas respostas, utilizou-se o coeficiente de variação (CV), que segundo Lapponi, (2000) é determinado pela razão entre o desvio-padrão e a média da série o que expressa a dispersão das respostas em termos relativos, tirando a influência da ordem de grandeza da variável. O questionário foi elaborado com base no artigo publicado por Steil, Pillon e Kern (2005).

2.3 Apresentação e discussao dos resultados
A população estudada é formada predominantemente por adultos e 90% deles estavam empregados no momento da matrícula. Essa característica confirma o que muitos autores, entre eles Moore e Kearsley (2007) destacam como freqüentes do público que estuda em cursos a distância. Na seqüência serão apresentadas e comentadas as tabelas com as médias das respostas por questões levantadas e os coeficientes de variação. As médias foram alcançadas após a tabulação da freqüência simples de cada opção de resposta. A partir da escala utilizada, as médias mais próximas de 5 (cinco) referem-se à concordância máxima com a questão e as médias próximas de 1 (um) a máxima discordância.
Tabela 1. Atitudes dos alunos pesquisados com relação à categoria professor (tutor). Questões 1. De maneira geral, o professor tem auxiliado efetivamente o grupo a aprender. 2. O tutor tem encorajado a aprendizagem dos alunos por meio de questionamentos, desafios e críticas. 3. O tutor tem promovido um ambiente de aprendizagem agradável e estimulante. 4. O tutor tem respondido às questões encaminhadas por e-mail ou pelo ambiente de aprendizagem on-line em, no máximo, 24 horas. Fonte: pesquisa de campo Média 3,77 3,78 3,54 3,24 CV 0,23 0,23 0,26 0,41

Na Tabela 1, no que tange ao desempenho do professor, a opinião dos alunos manteve-se próximo do concordo. Para os alunos, o professor auxilia no aprendizado do grupo (média 3,77), assim como os questionou e os encorajou com desafios e críticas (média 3,78). Ambas as questões apresentam alto grau de homogeneidade, ou seja, um baixo coeficiente de variação. Também é a positiva a avaliação dos alunos quanto a forma com que o tutor da disciplina conduz os trabalhos, considerado agradável e estimulante (média 3,54). A questão que ficou mais próxima da neutralidade no conjunto de questões que procuraram avaliar o desempenho do professor tutor foi a que abordava o tempo de resposta aos questionamentos dos alunos, a variabilidade das respostas neste item também é bem maior em comparação aos
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outros aspectos levantados, isso pode ser motivado pelo fato que nem todos os entrevistados tenham precisado de auxilio via ferramenta tutor ou via e-mail, o que impossibilitaria a avaliação por parte de alguns. Estes resultados estão de acordo com estudos que apontam para valorização dos alunos no que tange um feedback rápido e o auxilio do professor no processo de ensino aprendizagem assim como facilitação da interação entre alunos e professores afeta de forma positiva as atitudes dos alunos para com o ensino a distância. Então apesar da quase neutralidade quanto ao tempo de resposta do professor tutor pode-se inferir que as atitudes dos alunos são positivas quando destacam o auxilio e o encorajamento do professor tutor em seu aprendizado.
Tabela 2. Atitudes dos alunos pesquisados com relação à categoria flexibilidade e conveniência de se estudar à distância. Questões 5. O fato do curso ser a distância faz com que eu possa aprender em meu próprio ritmo 6. O curso na modalidade a distância está sendo conveniente para mim, pois aumenta a minha flexibilidade. Fonte: pesquisa de campo Média 4,42 4,72 CV 0,20 0,10

Na Tabela 2, referente a flexibilidade e conveniência de se fazer um curso à distância, os resultados indicam uma atitude positiva dos alunos pesquisados, convergindo com estudos já publicados, que apontam para um consenso de que a educação a distância possibilita aos alunos terem maior flexibilidade sobre seu processo de aprendizagem uma vez que podem planejar o seu horário de estudo conforme seu ritmo. Percebe-se um baixo grau de variabilidade, apenas 10%, na questão sobre conveniência e o reflexo desta conveniência no aumento da flexibilidade, ou seja, a média próxima da categoria 5 (concordo plenamente) apresenta alto grau de homogeneidade.
Tabela 3. Atitudes dos alunos pesquisados com relação à ambiente de aprendizagem. Questões 7. O ambiente de aprendizagem on-line é estável e de fácil utilização 8. Eu posso acessar o curso de qualquer lugar onde tenha um computador e acesso à internet 9. Os chats têm auxiliado a minha aprendizagem. 10.O ambiente de aprendizagem on-line facilita a integração com o professor e com os colegas Fonte: pesquisa de campo
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Média CV 4,16 0,20 4,75 2,96 3,31 0,11 0,36 0,29

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Na Tabela 3, a categoria ambiente de aprendizagem contém uma questão sobre usabilidade e outra sobre flexibilidade. A usabilidade diz respeito à capacidade que um sistema interativo oferece ao seu usuário, em um determinado contexto de operação, para a realização de tarefas de maneira eficaz, eficiente e agradável (ISO 9241, 1999). Fato muito importante no estímulo a educação a distância. Em relação a esses aspectos, os alunos reconhecem como positivo o fato de poderem acessar o curso em qualquer lugar com acesso à internet (média 4,75), e concordam que o ambiente de aprendizagem on-line é estável e de fácil utilização, ou seja, é amigável. A atitude dos alunos entrevistados em relação aos chats com auxilio da aprendizagem ficou próxima da neutralidade tendendo a uma avaliação negativa, isso pode ser justificado pelo fato que o chat é uma ferramenta síncrona, o que dificulta a participação de alguns dado a diversidade de horários disponíveis. As características dos alunos de EAD, ou seja, uma maioria de adultos com família e que trabalham, muitas vezes, mais de oito (8) horas diárias é uma barreira para efetiva participação em chats.
Tabela 4. Atitudes dos alunos pesquisados com relação à categoria material didático. Questões 11. O material didático on-line está adequadamente formatado para o estudo a distância. Fonte: pesquisa de campo Média 4,04 CV 0,20

Na Tabela 4, as atitudes dos alunos em relação ao material didático foram positivas (média 4,04). Quanto ao material didático o maior cuidado está na não adaptação de material de cursos presenciais para a modalidade a distância e sim, no desenvolvimento de materiais apropriados, com uma escrita amigável e muitos recursos gráficos.
Tabela 5. Atitudes dos alunos pesquisados com relação à categoria dinâmica do grupo no fórum. Questões 12. O formato da disciplina tem facilitado a minha interação com os meus colegas de sala 13. A discussão do grupo no fórum tem auxiliado a minha compreensão da disciplina 14. Eu contribuo regularmente nas discussões do fórum 15. Eu aprendi com outros alunos durante as discussões no fórum Fonte: pesquisa de campo
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Média 2,88 3,31 3,09 3,18

CV 0,33 0,30 0,34 0,35

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Na Tabela 5, a atitude dos alunos com relação a categoria dinâmica de grupo, obteve uma média geral próxima da neutralidade (média 3,12). Os alunos admitiram que não contribuíram regularmente nas discussões do fórum (média 3,09). Já que o fórum é criado pelo professor tutor e este foi bem avaliado (ver Tabela 3), podemos inferir que os resultados da tabela 5 não são influenciados por falta de estímulo do professor, mas possivelmente porque o fórum, nesta disciplina, não faz parte das atividades obrigatórias para aprovação.

3. CONCLUSÃO
De maneira geral podemos destacar que os resultados das tabelas de 1 a 5 mostram que os discentes pesquisados possuem uma atitude positiva diante da maioria das categorias investigadas e os resultados obtidos se somam a outras pesquisas e estudos publicados usados como referência (Alexander, 2001; Valenta, 2001, Steil, Pillon e Kern, 2005; Moore e Kersley 2007). Contudo, a tabela 5, referente às “Atitudes dos alunos pesquisados com relação à categoria dinâmica do grupo no fórum” apresenta média próximo ao neutro (3). Esse resultado diferiu do que é apresentado na literatura especializada. Possíveis motivos para divergência encontrada podem ser que a participação nos fóruns não fazem parte da avaliação nesse curso ou que as técnicas de ensino usada pelo professor não enfatizaram o uso do fórum ou ainda que esse não se fez necessário mediante a estratégia de ensino adotada. A flexibilidade de horário e de local proporcionados pelas tecnologias informacionais impulsionam o ensino a distância, atendendo um público cada vez maior que encontra nessa modalidade a possibilidade de formação e estudo que de outra forma dificultaria ou mesmo impossibilitaria sua continuidade. Essa flexibilidade demanda, por parte do aluno, uma autonomia e disciplina em seus estudos e, por parte da instituição que oferece os cursos, um planejamento rigoroso das atividades e investimentos em tecnologias. Finalizando, recomenda-se um estudo focado na questão de “dinâmicas do grupo no fórum”, nesta instituição de ensino, para investigar como o fórum poderia ser usado de maneira mais efetiva do que está sendo usado até o presente momento.

REFERÊNCIAS
ABRAEAD - Associação Brasileira de Ensino a Distância. Consulta realizada em 19/06/2009 disponível no site <http://www.abraead.com.br/noticias.cod=x1.asp>. Alexander, S.(2001) E-learning developments and experiences. Education + Trading, 43(4/5). BARBETTA, P. A.(2003) Estatística aplicada às ciências sociais. Florianópolis: UFSC.
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BERGE, Z. L. (2002). Obstacles do distance training and education in corporate organizations. Journal of Workplace Learning, 14(5), 182-189. Commonwealth of Learning (2003). Virtual university for small states of the commonwealth. Retrieved July, 2004 from <http://www.col.org>. ISO 9241 – International Standards Organisation. part 10 to 17. (softwere aspects), 1999. LAPPONI, J. C. (2000) Estatística usando Excel. São Paulo: Lapponi Treinamento. Ministério da Educação. (2008) Censo da Educação Superior – 2007. Resumo técnico. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. Consulta realizada em 19/06/2009. Disponível no site: <http://www.inep.gov.br/download/ superior/censo/2007/Resumo_tecnico_2007.pdf>. McGORRY, S. Y. (2002). Online, but on target? Internet-based MBA courses. A case study. Internet and Higher Education, 5,167-175. MOORE, Michel G., Kearsley G.(2007) Educação a distância: uma visão integrada [tradução Roberto Galman] São Paulo, Thonson Learning. RODRIGUES, R. S. (2008) Anotações de aula da disciplina Tecnologias de Informação e Comunicação na Educação Superior (PCI 3215) do Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Gestão do Conhecimento, UFSC, Florianópolis. SPANHOL, F. J.(1999) Estruturas tecnológica e ambiental de sistemas de videoconferência na educação a distância: estudo de caso do Laboratório de Ensino a Distância da UFSC. 1999. Dissertação (Mestrado em Engenharia de Produção) – Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Produção, UFSC, Florianópolis. SPANHOL, F. J; CATAPAN, Araci.(2008).Anotações de aula da disciplina Introdução a educação a Distância (EGC 8003), 11 de junho de 2008, do Programa de PósGraduação em Engenharia de Gestão do Conhecimento, UFSC, Florianópolis. SteiL A. V., Pillon A. E., Kern V. M., (2005) Atitudes com relação a educação a distância em uma universidade, Psicologia em Estudo, Maringá, v.10 n. 2, p. 253-262, mai/ ago. Valenta A., Therriault, D., Dieter, M. e Mrtek, R. (2001) Identifying student attitudes and learning styles I distance education. Journal of Asynchronous Learning Networks, 5(2).

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POLÍTICA PÚBLICA DE INCLUSÃO DIGITAL: AMPLIANDO OS HORIZONTES NO MEIO RURAL DE SANTA CATARINA
Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina ‑ EPAGRI
feliciano@agricultura.sc.gov.br

Antonio Marcos Feliciano2

Universidade Federal de Santa Catarina ‑ UFSC
edismafra@gmail.com

Edis Mafra Lapolli3

Universidade Federal de Santa Catarina ‑ UFSC
inara.antunes@gmail.com

Inara Antunes Vieira Willerding4

Universidade Federal de Santa Catarina ‑ UFSC
vitbraga@hotmail.com

Vitória Augusta Braga de Souza5

RESUMO
O presente estudo apresenta o Programa de Inclusão Digital Beija-Flor, ação pública em atividade no meio rural catarinense. Partindo do pressuposto de que a inclusão digital amplia os horizontes pelo acesso e disseminação do conhecimento, no bojo da argumentação são apresentados, dados estatísticos sobre inclusão digital abordando o cenário mundial e brasileiro, também são explicitados alguns resultados de uma pesquisa realizada em 2008, no âmbito do Programa estudado, que dentre outros, dimensiona suas ações e os impactos sobre as comunidades rurais de Santa Catarina. A abordagem teórica, mais do que nortear o estudo, aponta desafios futuros e a complexidade da inserção social 2 Mestre em Engenharia e Gestão do Conhecimento (PPGEGE/UFSC). Graduado em Ciências Sociais (UFSC). Pesquisador da Epagri. Professor de Sociologia. 3 Doutora e Mestre em Engenharia de Produção pela UFSC com Pós-Doutorado em Sistemas de Informação pela Université de Montpellier - França. Engenheira Civil. Pesquisadora e Professora do Programa de Pós-Graduação em Engenharia e Gestão do Conhecimento da UFSC e dos cursos de Pós-Graduação da FGV Management. 4 Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Engenharia e Gestão do Conhecimento (PPGEGC/UFSC). Graduada em Administração de Empresas (FEAN) – Florianóplis - Brasil. 5 Mestre em Engenharia de Produção – UFSC – Florianópolis – Brasil.
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e digital em um país como o Brasil. Permite também reflexões sobre o surgimento de oportunidades que se descortinam às organizações e às pessoas, pelo uso das ferramentas de tecnologia da informação e comunicação (TICs), como meio para exercício da cidadania e para a produção e disseminação do conhecimento.

PALAVRAS-CHAVE
Inclusão Digital. Políticas Públicas. Sociedade do Conhecimento.

1. INTRODUÇÃO
Na história da humanidade alguns adventos contribuíram para a ideia de que uma das saídas para as crises sociais e econômicas passa, necessariamente pela adoção de medidas que visem oportunizar aos excluídos acesso à informação e ao conhecimento. Nesse início de século XXI, o acesso ao conhecimento, por meio do domínio das tecnologias da informação e comunicação (TICs) caracteriza um importante diferencial competitivo individual e coletivo. Antes de outras linhas, que sejam feitas algumas perguntas a fim de suscitar reflexões: Quantos excelentes profissionais não conseguem colocação devido à exclusão digital? Quanto de conhecimento perdeu-se pela exclusão social e digital? Quanto de informações o setor público deixa de agregar às suas ações pela inexistência de canais de comunicação tão próximos dos cidadãos? Quanta solução criativa e tecnologicamente consistente seria encontrada se tivéssemos uma ampla e inclusiva rede de comunicação disponível à sociedade? Levy (1993) argumenta que novas maneiras de pensar e de conviver estão sendo elaboradas no mundo das telecomunicações e da informática. As relações entre as pessoas, o trabalho, a própria inteligência dependem da metamorfose incessante de dispositivos informacionais de todos os tipos. Para Waiselfisz (2007), o atual momento da sociedade mundial é caracterizado pela relação muito próxima entre as atividades humanas e as tecnologias digitais, onde os marginalizados encontram-se na periferia do conhecimento. Castells (2003) argumenta que pensar em desenvolvimento sem a internet seria o equivalente à industrialização sem eletricidade na era industrial. É por isso que a declaração frequentemente ouvida sobre a necessidade de se começar com os problemas reais do terceiro mundo, designando com isso: saúde, educação, água, eletricidade, dentre outros, antes de chegar à internet, revela uma profunda incompreensão das questões atuais relativas ao desenvolvimento, porque sem uma economia e um sistema de administração baseados na internet, qualquer país tem poucas chances de gerar recursos necessários para suprir suas necessidades de desenvolvimento num terreno sustentável. O analfabetismo digital a que estão submetidas atualmente as famílias do campo é um importante fator de exclusão social. A inclusão digital dos cidadãos
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menos favorecidos, como os agricultores, possibilita melhoria na qualidade de vida e inclusão social, enquanto permite acesso a informação e ao conhecimento. Agregar valor aos não incluídos passa pela implantação de ações que disponham recursos tecnológicos e processos educacionais integrados que, associados ao uso intensivo de práticas de gestão do conhecimento, modificam positivamente o comportamento de instituições e indivíduos. Bhatt (2001) defende que, para expandir o conhecimento coletivo é necessário utilizar todos os esforços visando desenvolver interações bem sucedidas entre as práticas comunitárias. Afirma que os equipamentos técnicos são responsáveis por organizar dados, cabendo às pessoas a garantia da capacidade de interpretação das informações, produção e aplicação dos conhecimentos. As políticas públicas de inclusão digital permitem a criação de um dinâmico canal de comunicação, no qual os cidadãos passam da passividade do recebimento de informações à condição de produtores críticos e sugestivos. Nesse sentido, há a possibilidade real de as organizações do setor público atuar estratégicamente na perspectiva melhor aproveitar e potencializar os conhecimentos originados dessa interação, principalmente quando tais conhecimentos possibilitam o desenvolvimento de novos projetos, pesquisas, produtos e/ou serviços.

2. INCLUSÃO DIGITAL 2.1 Visão contextual, conceitos e definições
De forma geral, a inclusão digital é entendida como uma atividade inserida em contextos sociais estimulando e permitindo a democratização da informação e a promoção do espaço de inclusão digital como um meio para produção de conhecimento, práticas comunitárias pluriativas e exercício da cidadania. A inclusão digital é fenômeno relativamente recente, datando seus primeiros registros, do último quartel do século passado. Naquele momento, a internet era restrita à academia, uso militar e uma ínfima fração da sociedade, que se conectava por rede telefônica (linha discada) que, além de manter ocupado o telefone, possuía custo elevado e oferecia baixa velocidade de transferência e navegação. Além desses fatores, os computadores tinham baixo desempenho para processamento e elevado custo financeiro. Por outro lado, os centros de inclusão digital eram vistos como simples escolas de informática para atendimento às comunidades de baixo poder aquisitivo ou de risco social. Nesse sentido, pode-se considerar que, apesar dos desafios, a inclusão digital abria uma janela de oportunidades para o mundo, ampliando os horizontes de seus usuários.
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De Masi (2000) argumenta que com a popularização das TICs o achatamento do mundo passa a ser inevitável. O avanço desse processo deverá produzir informação e conhecimentos em profundidade e quantidade sem precedentes na história humana. A exclusão digital não significa apenas que as políticas públicas de inclusão social falharam, ou que em dado momento deveriam ter atuado de forma mais consistente no sentido de melhor priorizar o cidadão. A exclusão digital é também mais uma consequência das macro desigualdades sociais, econômicas e políticas que caracterizam a divisão de poder e renda na sociedade. Balboni (2007) afirma que a exclusão digital refere-se à distribuição desigual dos recursos relacionados às TICs entre os países e dentro de uma mesma região. Além desse aspecto, pode ser vista como uma das formas de manifestação da exclusão social, considerando que os acessos, sobretudo à internet, podem reduzir o desequilíbrio social. Perceber o potencial social das TICs no mundo moderno possibilita potencializar ações pluriativas e permite usos de conhecimentos ainda não explorados. Os conceitos e definições podem balizar o atual momento, contudo, a capacidade criativa e empreendedora da sociedade possui dimensões ainda desconhecidas ou inexploradas. Silveira (2001) define inclusão digital como “a universalização do acesso ao computador conectado à internet, bem como ao domínio da linguagem básica para manuseá-lo com autonomia”. Gasparetto (2006) entende que o analfabetismo digital, ao afetar a capacidade de aprendizado, a conectividade e a disseminação de informações, gera consequências virtualmente em todos os campos da vida do indivíduo. A transformação de informações em conhecimentos pelo usuário permitirá configurar um verdadeiro mapa de oportunidades políticas de informação digital. Segundo o Digital Divide Network, publicado pela União Internacional de Telecomunicações – (ONU/UIT-2005), inclusão digital se refere à brecha existente entre aqueles que conseguem efetivamente acessar as tecnologias da informação e comunicação, tais como a internet, e aqueles que não conseguem. O Instituto de Tecnologia Social – ITS (2008) entende que a tecnologia social compreende o conjunto de técnicas e metodologias transformadoras, desenvolvidas e/ou aplicadas na interação com a população e apropriadas por ela, que representam soluções para inclusão social e melhoria das condições de vida das pessoas. Inúmeros são os sentimentos que afloram quando o debate gira em torno dos temas exclusão social e digital. Fica claro, pelo mencionado, que há necessidade
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de integração dos esforços entre as pessoas e instituições que atuam em torno do tema, bem como há um razoável entendimento sobre o que é e quais os objetivos da inclusão digital.

2.2 Números sobre inclusão digital no Brasil e no mundo
A ausência de estatísticas sobre inclusão digital deixou de ser um problema, hoje há diversas agências produzindo e publicando informações acerca do tema. Os números mundiais de acesso à internet surpreendem pela magnitude, tanto pela quantidade de usuários conectados, como pelo expressivo percentual da população mundial sem acesso. Conforme dados do Internet World Stats (2009), a comunidade mundial de internautas está composta por 1,59 bilhões de pessoas ou 23,8% da população global. Desses: 41,2% estão na Ásia; 24,6% na Europa; 15,7% na América do Norte; 10,9% na América Latina e Caribe; 3,4% na África; 2,9% no Oriente Médio e, 1,3% residem na Oceania. O percentual de penetração da Internet na população de cada região é o seguinte: 74,4% na América do Norte, 60,4% na Oceania, 48,9% na Europa, 29,9% na