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MODIFICAÇÃO E CARACTERIZAÇÃO DAS SUPERFÍCIES DOS AÇOS: SAE-

4140, DIN16MnCr5 E AISI-420C

M.F. Zambom (1); F.A.P. Fernandes (2); A. Santos (3); L.C. Casteletti (2); P.A.P.
Nascente (4)

(1) R. Fioravante Sicchieri, 1271, CEP: 14160-770, Sertãozinho, SP

e-mail: marcel_zambon@yahoo.com.br

(1) PPG-CEM/UFSCar; (2) EESC/USP; (3) CCDM/UFSCar; (4) DEMa/UFSCar

RESUMO

Nitretação a plasma é uma técnica de modificação superficial para melhorar a


dureza, a resistência ao desgaste e à fadiga. Neste trabalho, amostras de aços
SAE-4140, DIN16MnCr5 e AISI-420C foram tratadas termicamente formando
microestrutura martensítica e em seguida submetidas à nitretação a plasma.
Inicialmente, as amostras foram limpas com gás argônio por trinta minutos em
temperaturas cinquenta graus menores que as de nitretação e em seguida foram
nitretadas por cinco horas em temperaturas de 400, 450 e 500°C, com pressão
5mbar por 5 horas, e uma mistura de gases hidrogênio e nitrogênio. As amostras
foram caracterizadas por ensaios de microdureza, microscopia óptica e microscopia
eletrônica de varredura.

Palavras-chaves: nitretação a plasma, engenharia de superfície, AISI-420C, SAE-


4140, DIN16MnCr5, modificação de superfícies de aços.

INTRODUÇÃO

Os aços carbono e inoxidáveis são largamente empregados em diferentes


áreas na produção da indústria moderna, em particular devido à resistência à
corrosão dos aços inoxidáveis. Muitos desses materiais trabalham sobre condições
de alta abrasão e altas cargas. O desenvolvimento de melhorias em processos
tribológicos e triboquímicos tem causado uma maior resistência à corrosão e ao
desgaste dos componentes de aço. Vários tratamentos de modificação de
superfícies têm sido propostos e a nitretação a plasma aparece como uma opção
bem sucedida.

A nitretação é usada para aumentar a dureza dos aços, a qual melhora a


resistência ao desgaste e diminui a fadiga e o atrito. O processo consiste na
introdução por difusão do nitrogênio na superfície do aço após o bombardeio por
íons e nêutrons. A utilização do plasma destaca-se pelo bom controle das
espessuras das camadas, baixa temperatura de nitretação na ordem de 350 a
500°C, baixíssimas distorções na peça acabada, além de não haver danos
ambientais (o gás do processo é uma mistura de H2 e N2), diferenciando-se assim
dos processos convencionais [1-4]. Esses benefícios estão relacionados à formação
de uma camada dura e resistente à abrasão, chamada de austenita expandida ( γ N)
ou fase S, supersaturada em nitrogênio [5-7]. Em geral a nitretação por plasma
produz sobre a superfície do material tratado uma camada (camada nitretada)
composta por duas regiões. A mais externa é conhecida por camada branca ou de
compostos. Logo abaixo se encontra a camada de difusão. A camada de difusão,
onde o nitrogênio se encontra na forma intersticial ou na forma de nitretos de ferro
ou de elementos de liga finamente dispersos, é caracterizada pelo perfil de
composição do elemento nitrogênio ao longo da profundidade da mesma [8].

A presente pesquisa objetiva estudar os efeitos da nitretação a plasma em


diferentes temperaturas (400°C, 450°C e 500°C) e suas modificações em
propriedades dos materiais nos aços de grande utilização na fabricação de correntes
industriais (SAE-4140, DIN16MnCr5 e AISI-420C). A caracterização das amostras foi
feita por ensaios de microdureza, microscopia óptica (MO) e microscopia eletrônica
de varredura (MEV)

MATERIAIS E MÉTODOS

As ligas utilizadas foram: aço carbono de baixa liga SAE-4140 e DIN16MnCr5


e aço inoxidável martensítico AISI-420C, aços utilizados na fabricação de correntes
industriais. Na tabela 1 apresentam-se as composições químicas dos aços utilizados
nesse trabalho.

Tabela 1 - Composição química dos aços (% em peso).


Aços C Si Mn P S Cr Ni Mo Outros
SAE-4140 0,40 0,25 0,87 0,030 0,040 0,95 - 0,20 -
DIN16MnCr5 0,16 0,25 1,15 0,035 0,040 0,95 - - -
AISI-420C 0,30-0,40 1,00 1,00 0,040 0,030 12,0-14,0 - - -

Estes materiais foram tratados termicamente conforme padrão de fabricação


dos componentes do produto, sendo assim:

O material SAE4140, que é utilizado na fabricação de pinos, foi temperado em


banho de sal por trinta minutos, e resfriado em salmoura. Um alívio de tensões foi
realizado em um revenimento por duas horas e trinta minutos. A dureza resultante
foi de 42-36 HRC. Em seguida foi realizada a têmpera por indução, a qual
proporciona dureza na superfície de 62-58 HRC. Outro processo de revenimento foi
realizado.

O material DIN16MnCr5, utilizado na fabricação de buchas, foi primeiramente


cementado em banho de sal por 9 horas e resfriado ao ar livre para, em seguida, ser
temperado em banho de sal por trinta minutos. O resfriamento foi realizado em
martêmpera por dois minutos. Após lavar e resfriar em salmoura, as peças foram
revenidas, obtendo-se uma dureza superficial de 62-58 HRC e de núcleo de 42-36
HRC.

O material AISI-420C foi beneficiado e temperado em forno com ambiente


controlado, revenido e temperado por indução e, então, revenido seguindo as etapas
do processo de fabricação do aço SAE-4140. As durezas obtidas para esse material
foram: 55-50 HRC (superfície) e 42-36 HRC (núcleo).

Nesses materiais estavam presentes camadas superficiais endurecidas com


espessuras em torno de 1,0 a 2,0 mm, dependendo do diâmetro da peça.

Amostras cilíndricas de 5,0mm de espessura são retiradas e preparadas


através de lixamento e polimento das superfícies. Para o tratamento de nitretação,
utilizou-se uma mistura gasosa de 80% de hidrogênio e 20% de nitrogênio a pressão
de 5 mbar.
As amostras inicialmente foram limpas por “sputtering” com gás argônio a
uma temperatura de 50°C inferior a do processo de nitretação por trinta minutos. Na
nitretação utilizaram-se três diferentes temperaturas, 400°C, 450°C e 500°C, para a
realização do processo com tempo de duração de cinco horas sendo resfriadas
dentro da câmara de vácuo.
As camadas nitretadas formadas foram caracterizadas por microscopia óptica,
microscopia eletrônica de varredura e medidas de microdureza. As análises
microestrutural foram realizadas em um microscópio ótico Leica – Leitz Laborlux
12ME S utilizando a técnica de contraste após o ataque com ácido Nital. As medidas
de microdureza Vickers (HV) foram realizadas usando um durômetro SHIMADZU –
HMV2 com sistema CAMS (Computer assisted microhardness system) com uma
carga de 50 gf. Nas análises por microscopia eletrônica de varredura (MEV) utilizou-
se o equipamento Quanta 400 com filamento de tungstênio.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A análise de microdureza constatou as seguintes durezas superficiais nas


amostras que são mostradas na tabela 2:
Tabela 2 - Durezas superficiais (HV) nas amostras.
Durezasuperficial (HV)
SAE-4140 DIN16MnCr5 AISI-420C
Semnitretação 700 660 560
Nitretadasa400°C 647 745 1172
Nitretadasa450°C 704 620 1264
Nitretadasa500°C 410 610 1108

O resultado do teste indica que o aço inoxidável atingiu valores de dureza


elevados para todas as temperaturas processadas (400°C, 450°C e 500°C). Na
temperatura maior de 500°C foi verificada a presença de CrN, este fator afetará a
resistência a corrosão, de acordo com Xi et al [9], já para a temperatura de 400°C a
mobilidade do cromo se torna restrita e apenas a “fase S” ou austenita expandida é
formada. Na figura 1, observa-se a camada de difusão de nitrogênio. O alto teor de
Cr evita a saturação da matriz devido a precipitação de CrN.
Para os aços de baixa liga, SAE-4140 e DIN16MnCr5, as durezas obtidas não
mostram muita variação em relação à matriz não nitretada, porém como a dureza
superficial desses materiais é alta, a temperatura utilizada para a nitretação promove
um revenimento na amostra, diminuindo sua dureza para a faixa de 400 a 600 HV,
variando com a temperatura do processo, e somente há um aumento na dureza
devida à presença de uma maior quantidade de nitrogênio na fase S e precipitados
de CrN [10].
A figura 1 mostra as micrografias obtidas por MEV do corte transversal das
amostras de aço AISI-420C nitretadas a plasma para as diferentes temperaturas.
Pode-se observar uma mudança na morfologia da superfície e também na
espessura da camada nitretada devido às diferentes temperaturas de tratamento.
Verifica-se que a camada nitretada a 500°C equivale a aproximadamente 0,071 mm.
Com a diminuição da temperatura de processo, a camada nitretada se mostra
menor, aproximadamente 0,046 mm para a temperatura de 450°C e 0,015mm para
temperatura de 400°C.

(a) (b)
Figura 1. Micrografias de MEV do aço inoxidavel AISI-420 nitretado a plasma a
(a) 500°C e (b) 400°C.

As análises por MEV (figura 2) mostram a superfície do aço SAE-4140


nitretado a plasma a 500 e 400°C. Dois tipos de camada estão presentes: Uma
camada de compostos no topo (1,54 µm para 500°C) e uma camada de difusão de
nitrogênio abaixo (0,075 mm para 500°C) em uma matriz martensítica. Para
temperatura de 400°C, foi obtida uma camada de compostos de 0,92 µm e uma
camada de difusão com 0,022 mm.

A figura 3 apresenta as micrografias obtidas por MEV do aço DIN16MnCr5


nitretado a plasma em temperaturas de 500°C e 400°C, mostrando a presença do
substrato martensítico com uma fina camada nitretada no topo, semelhante ao aço
SAE-4140. As camadas de compostos encontradas não se alteram com a
temperatura de tratamento, sendo 2,96 µm (500°C) e 3,1 µm (400°C). Porém as
camadas de difusão são diferentes: aproximadamente 0,05 mm (500oC) e 0,02 mm
(400°C).

(a) (b)
Figura 2. Micrografias de MEV do aço SAE-4140 nitretado a plasma a (a) 500°C
e (b) 400°C.

(a) (b)
Figura 3. Micrografias de MEV do aço DIN16MnCr5 nitretado a plasma a (a)
500°C e (b) 400°C.

CONCLUSÕES

Os resultados apresentados mostram que é possível produzir uma camada


endurecida no aço inoxidável AISI-420C utilizando o processo de nitretação a
plasma a baixas temperaturas (400°C, 450°C e 500°C) com valores acima de 1000
HV. Os aços carbono de baixa liga também apresentaram uma camada nitretada
porém com menor dureza e menor espessura do que o aço inoxidável. A
temperatura de nitretação utilizada no processo estava além da temperatura de
revenimento recomendada para a dureza anterior a nitretação, ocorrendo assim a
redução da dureza.

Uma relação entre a temperatura e a espessura da camada é verificada.


Quanto maior a temperatura de nitretação utilizada, maior foi a espessura da
camada nitretada produzida. Os resultados indicam o potencial de tratamento de
nitretação a plasma no aumento do desempenho do aço inoxidável.

AGRADECIMENTOS

Este trabalho contou com auxílio financeiro parcial das agências FAPESP e
CNPq, além da Ello Correntes.

REFERÊNCIAS

[1] Alphonsa, I.; Chainani, A.; Raole, P.M.; Ganguli, B.; John, P.I. A study of
martensitic stainless steel AISI 420 modified using plasma nitriding. Surface and
Coatings Technology, v. 150, p. 263-268, 2001.

[2] Gontijo, L. C. Estudo das camadas formadas sobre ferro e aços inoxidáveis
por nitretação iônica. 2002, 159p. Tese (Doutorado) – Universidade Federal de
São Carlos, São Carlos.

[3] Figueroa, C. A.; Wisnivesky, D.; Alvarez F. Nitretação de metais a plasma:


princípios, comparações com as técnicas convencionais e aplicações. Máquinas e
metais, v. 492, p.116-123, Janeiro 2007.

[4] Casteletti, L. C.; Lombardi Neto, A.; Totten, G. E. Nitretação à plasma de aços
inoxidáveis. Industrial Heating, Editora SF, p.20-24, Janeiro 2009.
[5] Ichii, K; Fujimura, K; Takase, T. Structure of the ion-nitrided layer of 18-8 stainless
steel. Technology Reports of Kansai University, v. 27, p. 135-144, 1986.

[6] Gontijo, L.C.; Machado, R.; Miola, E.J.; Casteletti, L.C.; Alcântara, N.G.;
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stainless steel. Materials Science and Engineering A, v. 431, p. 315-321, 2006.

[7] Gontijo, L.C., Machado, R., Casteletti, L.C., Kuri, S.E., Nascente, P.A.P. X-ray
diffraction characterisation of expanded austenite and ferrite in plasma nitrided
stainless steels. Surface Engineering, v. 26, n. 4, p. 265-270, 2010.

[8] Alves Júnior, C. Nitretação a plasma: Fundamentos e aplicações. Ed. Natal


EDUFRN, 2001.

[9] Xi, Y.T.; Liu, D.X.; Han D. Improvement of corrosion and wear resistances of AISI
420 martensitic stainless steel using plasma nitriding at low temperature. Surface
and Coatings Technology, v. 202, p. 2577-2583, 2008.

[10] Li, X.Y. Low temperature plasma nitriding of 316 stainless steel – nature of S
phase and its thermal stability. Surface Engineering, v. 17, n. 2, p. 147-152, 2001.

MODIFICATION AND CHARACTERIZATION OF THE SAE-4140, DIN16MnCr5,


AND AISI-420C STEELS’ SURFACES

ABSTRACT

Plasma nitriding is a surface modification technique used for improving hardness,


wear resistance, and fatigue. In this work, samples of SAE-4140, DIN16MnCr, and
AISI-420C steels were heat treated, forming martensitic structures, and then were
submitted to plasma nitriding. Initially the samples were cleaned by using argon for
30 minutes at temperatures 50oC lesser than the nitriding temperatures, and then
they were nitrided for 5 hours at 400, 450, and 500 oC, under a hydrogen and nitrogen
gas mixture having a pressure of 5 mbar. The samples were characterized by
hardness tests, optical microscopy, and scanning electron microscopy.
Key-words: nitriding, surface engineering, surface modification, AISI-420C, SAE-
4140, DIN16MnCr5.