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SOCIEDADE,

CULTURA E
CIDADANIA

Pablo Rodrigo Bes


Arranjos familiares
diferentes
Objetivos de aprendizagem
Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:

 Descrever principais tipos de arranjos familiares presentes na socie-


dade atual.
 Explicar como os diversos estilos de paternagem e as variadas situações
familiares afetam o desenvolvimento educacional dos filhos.
 Desenvolver alternativas para minimizar os danos causados no de-
senvolvimento educacional de crianças e adolescentes devido ao
preconceito relacionado aos arranjos familiares.

Introdução
A sociedade passou por inúmeras reconfigurações nas últimas décadas,
nas áreas econômicas, políticas, culturais e sociais. Entre essas mudanças,
está a do conceito de família. O modelo nuclear heterossexual constituído
na Modernidade, com a figura do pai, da mãe e dos filhos, deu lugar aos
mais diversos arranjos possíveis na contemporaneidade. Essas novas
configurações familiares algumas vezes despertam preconceitos e geram
discriminações por parte da sociedade. Nesse contexto, cabe à escola
zelar para que seus alunos não sofram discriminações e preconceitos
no ambiente escolar pelo fato de suas famílias não se encaixarem no
modelo normalizado.
Neste capítulo, você vai conhecer os diferentes arranjos familiares
existentes na atualidade. Também vai verificar se esses arranjos podem
afetar de alguma forma o desenvolvimento educacional dos filhos. Por
fim, você vai conhecer algumas alternativas para minimizar os precon-
ceitos em relação a essa questão dentro da escola.
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Os arranjos familiares na sociedade atual


A sociedade mudou, está mais tolerante e mais aberta à diversidade. Conse-
quentemente, as famílias também se modificaram. As lutas pela afirmação das
diferentes identidades, iniciadas na década de 1960, com certeza influenciaram
essas mudanças. Você pode considerar o movimento negro norte-americano e o
movimento feminista como precursores da discussão e da contestação das estru-
turas sociais que haviam sido engessadas no projeto civilizador moderno. Esses
movimentos iniciais abriram espaço para a possibilidade de afirmação do gênero
feminino em condições de igualdade com o gênero masculino. Houve, por exemplo,
a entrada e a ascensão da mulher no mercado de trabalho, com a conquista de uma
carreira profissional. Da mesma forma, esses movimentos permitiram que outras
identidades, como as homossexuais, buscassem seu espaço de aceitação. Essas
mudanças, naturalmente, afetam o contexto familiar pós-moderno.

Para vários autores que se dedicam aos estudos culturais, a Pós-Modernidade é o período
em que se colocam em dúvida as grandes narrativas que procuravam trazer um sentido
totalizante para a vida na Modernidade. Como exemplo dessas narrativas, você pode
considerar a ciência e suas verdades inabaláveis, ou ainda as configurações familiares
socialmente aceitas e vistas como normais, ou seja, heterossexuais, patriarcais e com filhos.

É importante você notar que o conceito de família é uma produção social e,


dessa maneira, está sujeito aos eventos que ocorrem em cada época, em cada fase
da vida cultural da humanidade. Dessa forma, eventos históricos como as guerras
mundiais, a ascensão do capitalismo como sistema econômico hegemônico e as
mudanças advindas da globalização no mundo do trabalho, por exemplo, acabam
contribuindo para o surgimento de famílias diferentes das ditas tradicionais ou
normais.A seguir, você pode ver alguns tipos de arranjos familiares presentes
na sociedade contemporânea (MARTINS-SUAREZ e FARIAS, 2016).

 Nuclear
 Monoparental
 Reconstituída
 Unipessoal
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 Amorfa
 Homoafetiva

Os normais são aqueles que habitam a norma. Segundo o filósofo Michel Foucault
(2005, p.45) “[...] a norma é entendida como o elemento que circula entre o disciplinar
e o regulamentador, tendo como função, desta maneira, a capacidade de controlar
e disciplinar o corpo e acontecimentos de uma sociedade [...]”. Ou seja, existe uma
produção social daquilo que é instituído e aceito como normal. Quando situações
ou sujeitos fogem a essa norma, costumam ser vistos com estranhamento, podendo
colher julgamentos preconceituosos e atos hostis.

A família nuclear remete ao arranjo conhecido também como família


nuclear burguesa, que corresponde às características conceituais propostas por
Lévi-Strauss (1972). Tal família é um grupo social que se origina no casamento
e que se constitui pelo marido, pela esposa e pelos filhos provenientes dessa
união. Borsa e Nunes (2011, p. 32) acrescentam que:

O modelo da família nuclear, constituído por pai, mãe e filhos(as), tem sido
privilegiado na concepção construída historicamente sobre o grupo familiar
— concepção prevalente que corresponde ao modelo hegemônico da família
tradicional burguesa, monogâmica e patriarcal, oriunda da união de um casal
por laços legais e legítimos.

Outro aspecto importante a ser considerado diz respeito aos papéis sociais
que são assumidos pelo pai e pela mãe na família nuclear. Associa-se ao pai o
papel de provedor, de principal responsável pela materialidade da vida familiar,
pela busca do trabalho e do sustento. O papel da mãe, nesse contexto familiar
nuclear, remete à maternidade, à educação moral e comportamental dos filhos
e aos cuidados com o marido. Vem dessa visão a ideia de que a mulher não
deveria trabalhar e sim preocupar-se com os afazeres do lar. Essa noção é
combatida pelo movimento feminista ao propor uma relação de igualdade
entre os gêneros em todos os aspectos da vida.
A família monoparental é aquela que, na sua formação, possui somente o
pai ou a mãe, que se encarrega de todas as atribuições junto aos filhos. Essa
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família pode se configurar assim desde o início de sua formação, ou, ainda, ser
fruto de casamentos desfeitos. No Brasil, segundo dados do Conselho Nacional
de Justiça (CNJ), com base no Censo Escolar de 2011, há cerca de 5,5 milhões
de crianças sem registro do pai na certidão de nascimento. Isso significa que as
mães dessas crianças foram abandonadas pelos pais ainda durante a gestação e
os filhos foram abandonados antes mesmo de seu nascimento. Esses são dados
alarmantes sobre a irresponsabilidade social de, ao menos, 5,5 milhões de
homens que não assumiram a paternidade no Brasil. Assim, essas famílias são
monoparentais e estão sob inteira responsabilidade das mães (FARIELLO, 2015).
A família reconstituída é aquela que acolhe sobre o mesmo teto pai e mãe
que já tenham tido uma experiência conjugal com filhos e que agora se unem
para viver em família pela segunda vez. Nesse caso, o lar passa a ser o espaço
desses filhos de casamentos anteriores. Com o aumento do número de divórcios
na atualidade, este tipo de arranjo familiar tem se tornado comum. Por sua vez,
a família unipessoal é formada unicamente por uma pessoa que decide viver
sozinha, sem cônjuge nem filhos, priorizando sua independência ou desejo
de viver só. As famílias amorfas são aquelas em que as pessoas se reúnem
para viverem juntas, inclusive ocupando a mesma residência, porém sem a
existência de vínculos sexuais. Por exemplo, irmãos, primos ou outros parentes
e até mesmo amigos podem morar juntos constituindo esse arranjo familiar.
As famílias homoafetivas, por sua vez, são aquelas constituídas por duas
pessoas do mesmo sexo, que tanto podem ser homens quanto mulheres. Esse
arranjo familiar costuma ser o que mais encontra preconceitos em virtude de
quebrar o modelo heterossexual dominante nas famílias nucleares. Isso causa
reações da sociedade, uma vez que entra em choque com “[...] definições
cristalizadas de família socialmente instituídas pelos dispositivos jurídicos,
médicos, psicológicos, religiosos e pedagógicos, enfim, os dispositivos disci-
plinares existentes em nossa sociedade [...]” (SARTI, 2004, p. 16). O conceito
de família cristalizado, citado pela autora, é aquele visto como normal e, logo,
o único aceito socialmente.
Cabe aos profissionais da educação conhecer as mudanças sociais ocorridas
nas últimas décadas, que alteraram os arranjos familiares dos alunos que fre-
quentam as escolas. Isso é importante sobretudo para que não se cometam erros
primários ou falhas no planejamento de atividades cotidianas que envolvam
a família, assim como para a análise de conflitos que possam existir e para o
próprio ato de conhecer os alunos e suas particularidades.
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Ao atuar em sala de aula, você deve lembrar-se de que “[...] uma caracte-
rística da família em nossa sociedade é que, em muitos casos, ela está distante
do protótipo pai + mãe + filhos biológicos. São cada vez mais comuns as
famílias que passaram por uma separação ou divórcio, as monoparentais, as
adotivas, as crianças criadas por parentes, os pais ou mães homossexuais,
etc.” (PANIAGUA; PALÁCIOS, 2007, p. 212). Você precisa (re)conhecer essa
mudança na realidade para coibir atos de preconceito, bullying ou possíveis
discriminações no interior da escola, valendo-se do diálogo e de projetos junto
à comunidade escolar. A ideia é esclarecer que não é o tipo de arranjo familiar
que se reflete no desenvolvimento educacional das crianças, e sim as relações
existentes dentro da família entre os adultos e as crianças.

Como você sabe, o mundo mudou nas últimas décadas. A mulher se inseriu e hoje
se consolida no mercado de trabalho. Porém, os papéis sociais referentes ao pai e à
mãe, em muitos casos, não se alteraram. Dessa forma, a mulher acumula os papéis de
mãe, profissional, esposa e dona de casa, enquanto o pai continua como sempre foi
dedicado apenas ao trabalho. Esses assuntos devem ser discutidos e problematizados
para que o pai se envolva mais nos aspectos relacionados à educação dos filhos, pois
essa tarefa é responsabilidade de ambos, pai e mãe.

Composições familiares: fatores que repercutem


no desenvolvimento educacional dos filhos
O arranjo familiar — ou seja, o tipo de família a que a criança pertence e
na qual é criada — não é tão importante quanto a maneira como a criança
percebe as relações que existem entre os adultos da família e deles com ela.
Dessa forma, as crianças que são criadas em ambientes familiares violentos,
com pai e mãe agressivos, por exemplo, tendem a manifestar na escola atos de
violência e agressividade. Isso é fruto da vivência familiar a que se encontram
expostas. Ou seja, as interações que a criança presencia em seu lar e das quais
participa fazem parte significativa de sua formação e de seu desenvolvimento.
Assim, podem afetar a maneira como ela aprende e se desenvolve. Paniagua e
Palácios (2007, p. 212) reforçam esse argumento ao comentar que:
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[...] para o desenvolvimento infantil, o importante não é o tipo de família em


que é criado — mais ou menos tradicional em sua composição —, mas, sim,
o tipo de relações existentes na família entre os adultos e entre os adultos e a
criança. Portanto não é a estrutura que importa, e sim as relações e as interações.

Ao considerar as formas como as relações parentais ocorrem na família,


independentemente de sua constituição, você deve levar em conta os estilos
de paternagem adotados para conduzir as interações e ações do dia a dia com
os filhos. Maccoby et al. (1983) propõem quatro estilos mais comumente
percebidos no interior das famílias:

1. autoritário;
2. democrático;
3. permissivo;
4. negligente.

Os pais autoritários são aqueles que costumam ser os mais exigentes.


Eles procuram controlar os comportamentos de seus filhos por meio do esta-
belecimento de padrões rígidos a serem adotados cotidianamente. Também
vivenciam experiências em que a comunicação costuma ser escassa entre pais
e filhos. Maccoby et al. (1983 apud BEE; BOYD, 2011, p. 370) comentam que
“[...] crianças criadas nessas famílias vão menos bem na escola, são tipicamente
menos hábeis com seus pares e têm autoestima mais baixa do que crianças
de outros tipos de famílias [...]”. Essas crianças também podem manifestar
agressividade na escola como forma de manifestação do conflito que vivenciam
em casa. Pantoni (1988, p. 170) explica que “[...] outra forma de ser autoritário
é dar pouca ou nenhuma liberdade à criança, nunca permitir que ela se suje,
que faça barulho ou bagunça [...]”, ou, ainda mais grave, “[...] ser afetivo com o
filho apenas quando ele se comporta bem [...]”. O autoritarismo causa traumas
e marca definitivamente a vida futura da criança.
O tipo permissivo se associa aos pais que tudo permitem aos filhos, não se
preocupando em estabelecer padrões mínimos de controle, regras ou limites.
Embora esses pais possam ser afetivos e carinhosos com seus filhos, ainda
assim, pela postura que assumem, podem ocasionar prejuízos no desenvolvi-
mento das crianças. Maccoby et al. (1983) destacam em seus estudos que essas
crianças podem apresentar comportamentos agressivos caso os pais tenham
atitudes permissivas em relação a isso. Além disso, elas se mostram menos
independentes e com menor probabilidade de assumir responsabilidades.
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Os pais negligentes são aqueles que mais produzem resultados negativos


ao desenvolvimento dos filhos, pois agem como se não se importassem com a
condição de paternidade, sem comprometimento algum, o que é percebido pela
criança e produz marcas nos seus relacionamentos futuros. Bee e Boyd (2011, p.
371) acrescentam que “[...] na adolescência, por exemplo, jovens de famílias negli-
gentes são mais impulsivos, antissociais e muito menos orientados à realização na
escola [...] têm muito mais probabilidade de se tornarem delinquentes e de iniciar
a atividade sexual precoce [...]”. Boa parte da capacidade dos sujeitos de lidar com
sentimentos e emoções é produzida a partir dos primeiros contatos familiares, das
fases de apego com aqueles que os criam, das trocas afetivas existentes nessas
interações. Pais negligentes, que não se importam com essas questões, criam filhos
com lacunas emocionais que vão acompanhá-los no decorrer da vida.
A paternagem democrática é aquela em que existe um equilíbrio saudável entre
os controles necessários na criação dos filhos e o afeto. Ou seja, é caracterizada
por um lar em que sejam estabelecidos limites de forma clara e objetiva e em que,
ao educar, ao dizer “não”, exista a compreensão do processo de desenvolvimento
em que a criança se encontra e a contrapartida de amor e carinho. É comum,
no Brasil, principalmente nos pais da primeira geração pós-ditadura militar, a
existência de uma confusão entre o conceito de autoridade e autoritarismo. Na
paternagem democrática, os pais assumem sua posição de adultos, de autoridade
frente à condução do processo educativo, porém o fazem sem as características
típicas do autoritarismo, que normalmente se relacionam à violência e às agressões.
Você deve compreender que “[...] limites claros e que tenham sentido ajudam
a criança a saber como agir. Eles são de fundamental importância para a sua
educação. Baseada neles, a criança aprende o que se espera dela e o que pode
esperar dos outros. Isso traz uma sensação de segurança à criança, mesmo
quando ela aparenta discordar do limite dado [...]” (PANTONI, 1988, p. 170).
Logo, estabelecer limites é necessário, saudável e favorece o desenvolvimento
dos filhos. Os pais precisam estabelecer sua posição de autoridade e criar um
ambiente de segurança para que os filhos percebam quem de fato lidera. Porém,
deve haver espaços de escuta e participação na medida em que as crianças
vão crescendo. Bee e Boyd (2011, p. 370) acrescentam que:

Crianças criadas nessas famílias em geral mostram autoestima mais elevada.


Elas são mais independentes, mas ao mesmo tempo têm maior probabilidade
de obedecer aos pedidos dos pais, e podem mostrar mais comportamento
altruísta. Elas são autoconfiantes e orientadas à realização na escola e tiram
notas melhores no ensino fundamental, no ensino médio e na faculdade.
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Como você pode perceber, ser criado em um ambiente de autoridade de-


mocrática no arranjo familiar produz um desenvolvimento mais adequado
para a criança, o que repercute também em seu desempenho escolar. Porém,
convém observar que “[...] nem este é o único estilo educativo que pode ser
psicologicamente saudável para meninos e meninas, nem é um estilo que
responde de maneira igualmente adequada às necessidades de todos eles [...]”
(PANIAGUA; PALÁCIOS, 2007, p. 213). Ou seja, mesmo os pais democráti-
cos têm maneiras diferentes de agir e lidar com seus filhos; alguns são mais
afetivos e comunicativos, já outros nem tanto. Portanto, da mesma forma como
os arranjos familiares são diversos, também os estilos educativos presentes
podem ter diferentes constituições. Cabe a você, enquanto professor, observar
os seus alunos e a convivência com eles e com suas famílias, percebendo como
essas relações ocorrem em cada contexto particular.
Além dos estilos de paternagens, existem outros fatores que podem inter-
ferir no desenvolvimento educacional das crianças, como o divórcio. Porém,
é necessário que você perceba que existem fases na desconstrução de uma
família, conforme aponta Grunspun (2000). São elas: “I — desilusão de uma
das partes, II — a manifestação de insatisfações, III — a decisão de se divor-
ciar, IV — agindo na decisão, V — aceitação crescente [...]” (GRUNSPUN,
2000, p. 73). Durante essas fases, que podem durar anos, principalmente antes
da separação de fato, existem muitos conflitos, sofrimentos, discussões e
desequilíbrios de emoções. Os filhos participam desses episódios, que podem
afetar o seu desenvolvimento educacional.
É comum que um professor sensível e experiente perceba mudanças no
comportamento de seus alunos na escola. Frequentemente, tais mudanças se
associam a conflitos entre os pais das crianças, que afetam diretamente seu
controle emocional e a forma como se relacionam na escola. Sales (2007, p. 149)
acrescenta que “[...] quando a separação torna-se irreversível, algumas pessoas
ficam depressivas, isolando-se do mundo exterior. Neste estágio, alguns não
querem manter contato com o ex-cônjuge ou com a sua família do mesmo. Em
alguns casos a relação com os próprios filhos é sacrificada, principalmente por
parte do pai [...]”. Esse fator ocorre porque, na grande maioria das vezes, os
filhos permanecem sob a tutela da mãe, o que dificulta o convívio cotidiano
dos pais com os filhos e ainda pode levar à alienação parental.
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A alienação parental ocorre quando o alienador procura desmerecer o outro genitor


para o filho, desvalorizando-o e menosprezando-o, como se ele não possuísse qua-
lidades como ser humano. Ao mesmo tempo, o alienador pode impedir e colocar
obstáculos ao convívio entre o alienado e os filhos. Como, em grande parte das vezes,
os filhos ficam com as mães no rompimento do casamento, é mais comum que ela
adote essa prática. Hoje existe uma lei que versa sobre esse tema, a Lei nº. 12.380/2010.

Bee e Boyd (2011, p. 378), ao analisarem o efeito possível do divórcio sobre


o desenvolvimento educacional de crianças em idade escolar, alertam que “[...]
o divórcio não é uma variável unitária; as crianças são provavelmente afetadas
por uma quantidade de fatores relacionados ao divórcio: conflito parental,
pobreza, ruptura da rotina diária [...]”. Ou seja, além dos conflitos psicológicos
relacionados ao fato de presenciarem brigas, discussões e violências entre os
pais, o divórcio normalmente acarreta diminuição do padrão de vida. Isso
ocorre devido à divisão dos bens existentes anteriormente e à quebra das
tradições familiares e dos hábitos de convívio diários que existiam entre aquele
que se retira e os filhos. Nos primeiros anos do divórcio, segundo Bee e Boyd
(2011), as crianças apresentam declínio no desempenho escolar, mostrando-se
mais agressivas, desafiadoras, negativas e deprimidas.
Como você pode perceber, existem muitos fatores que podem ter reflexos no
desenvolvimento educacional dos alunos em sala de aula. Assim, é necessário
um olhar atento, uma vez que cada ser é diferente e único, produzido a partir
de suas relações culturais desenvolvidas com aqueles com quem convive.
Entre os grupos sociais a que os sujeitos pertencem ao longo de sua vida,
particularmente na infância, a família continua sendo importante para o seu
desenvolvimento e a sua formação.

Os vínculos afetivos são importantes na aprendizagem. Eles podem favorecê-la quando


positivos e bem estruturados. Da mesma forma, podem produzir empecilhos e obstá-
culos ao aprendizado quando negativos. Você já deve ter tido alguma experiência em
sua vida escolar em que percebeu que é mais fácil e interessante aprender quando se
gosta de quem ensina, não é mesmo? Tanto na família quanto na escola, e em todos
os grupos sociais, o afeto influencia a aprendizagem.
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Como lidar com o preconceito na escola


A sociedade se reconfigurou. Hoje, as pessoas hoje podem lutar pela afirmação
de suas identidades culturais com mais propriedade do que o faziam décadas
atrás. Os direitos humanos, aliados aos movimentos culturais em busca de
equidade e igualdade de direitos entre os “diferentes”, estão gradativamente
permitindo que novos contextos familiares surjam e se afirmem ao lado da
tradicional família nuclear, vista como a “normal”. Mas quem é o diferente?
Como ele é nomeado? Como se constitui? Louro (2011, p. 65) responde a esses
questionamentos esclarecendo que:

[...] a diferença é sempre atribuída e nomeada no interior de uma determinada


cultura. E, é claro, ela é atribuída a partir de uma posição que se toma como
referência. No contexto da sociedade brasileira, ao longo de sua história, foi
sendo produzida uma norma a partir do homem branco, heterossexual, de
classe média urbana e cristão.

Dessa forma, aqueles que fogem à referência — como as mulheres, todas


as etnias não brancas (negros, índios, orientais, etc.), os homossexuais, os
pobres e aqueles pertencentes a religiões não cristãs — são vistos como dife-
rentes. Isso significa que você, enquanto professor, vai receber no ambiente
escolar, em sua sala de aula, inúmeros alunos que possuem as mais diferentes
características e origens. Araújo (1988, p. 44) aconselha que:

[...] a escola precisa abandonar o modelo no qual se esperam alunos homo-


gêneos, tratando como iguais os diferentes, e incorporar uma concepção
que considere a diversidade tanto no âmbito do trabalho com os conteúdos
escolares quanto nas relações interpessoais [...].

Dessa forma, alunos devem ser vistos como seres únicos, singulares, por
isso diferentes, com suas particularidades. Eles se desenvolvem a partir das
relações entre os vários grupos culturais dos quais participam (família, escola,
religião, redes sociais, amigos, etc.), em que interagem e aprendem.
Se os profissionais da educação continuarem entendendo que todos são
iguais, que o aprender funciona da mesma maneira para todos, desconside-
rando os diferentes tipos de habilidades, o ritmo, o interesse e a motivação
para aprender de cada um, podem não perceber quando os alunos precisarem
de auxílio para lidar com situações adversas, como os conflitos cotidianos
que enfrentam na escola.
Arranjos familiares diferentes 11

No Quadro 1, a seguir, você pode ver os conceitos de racismo, preconceito


e discriminação.

Quadro 1. Preconceito, discriminação e racismo

Preconceito Discriminação Racismo

É uma opinião É a ação baseada no É a ideia de que os


preconcebida, um preconceito. Acontece indivíduos de cada raça
pensamento ou quando membros de possuem características,
sentimento formado determinado grupo são habilidades ou
sobre uma pessoa tratados de forma dife- qualidades específicas
ou um grupo sem rente, com base em fatores dessa raça. Portanto,
que haja experiências como o seu status, o grupo pressupõe que
ou fatos relevantes ao qual pertencem ou a algumas raças são
para comprová-lo. sua categoria. Geralmente superiores às outras.
essa distinção acontece de
modo negativo, e o fato
de alguém ser tratado pior
do que outros por algum
motivo arbitrário já é con-
siderado discriminação.
Fonte: 7 Graus (c2019, document on-line).

A forma como as crianças tratam aqueles que apresentam características


diferentes da “normalidade”, em relação a si próprios ou suas famílias, pode
ocasionar preconceito, bullying e discriminações. Cabe à instituição educa-
cional agir para minimizar essas situações. Carvalho (2002, p. 70) esclarece
que “[...] pensar em respostas educativas da escola é pensar em sua respon-
sabilidade para garantir o processo de aprendizagem para todos os alunos,
respeitando-os em suas múltiplas diferenças [...]”. Para coibir o preconceito
e amenizar os danos ao desenvolvimento educacional dos alunos-vítimas, a
escola pode implementar projetos que discutam e problematizem os conceitos
de diversidade, multiculturalismo e inclusão escolar. O objetivo disso é a
mudança de comportamento dos alunos agressores.
Esses assuntos são tão importantes para o desenvolvimento das ações edu-
cacionais no interior da escola, que o próprio Ministério da Educação possui
uma secretaria responsável por propor programas e ações em torno deles. É
a Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão
(SECADI). Segundo o portal da SECADI (BRASIL, 2018, documento on-line):
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Para orientar políticas públicas educacionais que articulem a diversidade hu-


mana e social aos processos educacionais desenvolvidos nos espaços formais
dos sistemas públicos de ensino, devem ser consideradas as questões de raça,
cor, etnia, origem, posição econômica e social, gênero, orientação sexual,
deficiências, condição geracional e outras que possam ser identificadas como
sendo condições existenciais favorecedoras da exclusão social.

O sistema educacional brasileiro, que envolve todas as redes de ensino (públi-


cas e privadas), da educação básica (e todas as suas modalidades educacionais)
e do ensino superior, deve atentar para essas questões. A ideia é monitorar esses
aspectos e agir no caso de situações que causem prejuízos aos alunos por quais-
quer atos negativos que se relacionem à diversidade ou à inclusão. As escolas
devem desenvolver uma educação multicultural, ou seja, ensinar aos seus alunos
que os aspectos culturais que lhes constituem devem ser respeitados. Em síntese,
é preciso uma convivência pacífica e harmônica entre todos, independentemente
de como se estruturam os arranjos familiares aos quais pertencem.
Gadotti (1992, p. 21) reforça que:

[...] a escola que se insere nessa perspectiva procura abrir os horizontes de


seus alunos para a compreensão de outras culturas, de outras linguagens e
modos de pensar, num mundo cada vez mais próximo, procurando construir
uma sociedade pluralista [...].

É dever da escola, além de perseguir todas as demandas curriculares que


dizem respeito aos conteúdos e conhecimentos produzidos pela cultura humana,
desenvolver plenamente o ser humano, o que passa também pela educação nos
direitos humanos.

Um bom exemplo de como a escola vem lidando com os diversos arranjos familiares
de seus alunos são as atividades realizadas nas tradicionais datas comemorativas
alusivas ao Dia dos Pais e ao Dia das Mães. Ambas vem sendo substituídas pelo Dia
da Família. Assim, se fornecem condições para que todos se sintam representados e
participantes ativos da escola. Além disso, isso serve para a ampliação do conceito de
família junto à comunidade.
Arranjos familiares diferentes 13

O portal do projeto Respeitar é Preciso, da rede municipal de ensino do


estado de São Paulo, em seu manual on-line intitulado “Diversidade e discri-
minação”, comenta que:

Outra característica familiar que costuma ser alvo de discriminação é o fato


de estas serem formadas por casais em relação homoafetiva. Assim como
acontece com as alunas lésbicas, os alunos gays, bissexuais, transexuais e
transgêneros, os que são filhos de casais homoafetivos são discriminados e
correm o risco de terem sua vida escolar muito prejudicada, inclusive no que
diz respeito à participação dos pais nos espaços de convivência da escola,
às discussões e deliberações de assuntos da comunidade escolar (como os
conselhos escolares), bem como à participação efetiva na vida escolar de seus
filhos (RESPEITAR É PRECISO, 2018, documento on-line).

As escolas devem comprometer-se em discutir junto à comunidade escolar


sobre os aspectos que possam trazer prejuízos ao desenvolvimento educacional
de seus alunos. Outro aspecto que merece destaque ao se lidar com preconceitos
e discriminações ocasionadas no interior da escola diz respeito à atividade do
orientador educacional. Ele deve mediar os conflitos ocorridos entre alunos e seus
colegas, ou entre estes e seus professores, bem como os conflitos envolvendo os
pais, sempre que for necessário. Segundo Grinspun (2005, p. 93), “[...] a Orienta-
ção Educacional deve ser vista como a área que pode caminhar junto com todos
que buscam uma educação de melhor qualidade e, se possível, numa dimensão
mais ampla de um mundo melhor [...]”. Nesse caso, você pode considerar que um
mundo melhor é aquele onde todos sejam respeitados e aceitos independentemente
de suas diferenças. Tal objetivo pode ser atingido com a participação da escola.
Para resolver conflitos no interior da escola, os profissionais da educação
devem exercitar a sua capacidade de mediação, que é realizada a partir do diálogo
amistoso, procurando as causas das animosidades e um acordo que solucione a
situação indesejada. Você deve ter em mente que os conflitos são necessários
e favorecem o crescimento e o desenvolvimento das crianças e adolescentes.
Porém, eles precisam ser administrados sempre que atentarem contra os direitos
humanos e violarem a integridade física ou moral dos estudantes. Galano (1999,
p. 111) reforça essa ideia ao definir que “[...] quando o conflito é visto como um
problema a ser solucionado pelas partes e não criado pela outra parte, permite-se
potencializar os recursos, as habilidades das pessoas para encontrar caminhos
mais satisfatórios”. No mundo inteiro, ações de mediação têm sido utilizadas no
interior das escolas para solucionar conflitos. No Brasil, segundo Sales (2007),
essas ações têm feito parte de programas e políticas educacionais que objetivam
diminuir a violência nas escolas e promover uma cultura de paz.
14 Arranjos familiares diferentes

Como você viu, a escola pode e deve agir na implementação de projetos


junto à comunidade escolar que visem à inclusão e ao respeito pela diversidade.
Isso envolve também a aceitação das diversas famílias e de suas diferenças.
Agindo assim, os profissionais da educação e a instituição escolar contribuem
para a consolidação de um mundo melhor, mais equitativo e justo para todos.

Para conhecer melhor a mediação realizada nas escolas, assista ao vídeo, disponível
no link a seguir, “Mediação de conflitos na escola”.

https://goo.gl/LQvchm

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Leitura recomendada
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