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Marie Curie foi uma grande cientista que contribuiu de forma decisiva para a

ciência. Foi ganhadora de um prêmio Nobel de Química e outro de Física além


de muitos outros prêmios.
Para conhecer a vida de Marie Curie e saber quais suas principais descobertas,
assista o documentário (MARIE CURIE) disponível em:

https://www.youtube.com/watch?v=dhQsU0QDYew&t=2583s
Documentário: Marie Curie A Mãe da Radiação (Completo e ...
http://www.youtube.com

Leia o texto 1: Martins, R. de A. "As primeiras investigações de Marie Curie sobre


elementos radioativos." Revista da Sociedade Brasileira de História da Ciência,
São Paulo 1.1 (2003): 29-41.

Leia o texto 2: Xavier, Allan Moreira, et al. "Marcos da história da radioatividade


e tendências atuais." Química Nova 30.1 (2007): 83.

Construa um texto, com suas próprias palavras, descrevendo as principais


contribuições de
Marie Curie para a Ciência e incluindo um breve histórico da vida da cientista.
AS PRIMEIRAS INVESTIGAÇÕES DE MARIE CURIE SOBRE
ELEMENTOS RADIOATIVOS

ROBERTO DE ANDRADE MARTINS

RESUMO – Durante os primeiros anos de investigação do fenômeno que


chamamos de “radioatividade”, ainda não havia uma teoria propriamente dita
desses fenômenos. Durante essa fase pré-teórica, o trabalho de investigação
científica era guiado por analogias e conjeturas. As técnicas experimentais
utilizadas tinham também grande influência, limitando aquilo que podia ser
observado ou testado. O trabalho inicial de Marie Curie, em 1898, dependeu
fortemente do método elétrico de medida da radiação que ela utilizava. No
entanto, o prosseguimento de seu trabalho dependeu basicamente da adoção da
nova hipótese de que a emissão de radiação pelo urânio era um fenômeno
atômico. Este artigo apresenta uma reconstrução do caminho seguido por Marie
Curie nessa fase, discutindo especialmente as hipóteses e conjeturas
orientadoras de sua pesquisa.
ABSTRACT – In the early years of research of the phenomenon we call
“radioactivity”, there was no theory of those phenomena. Research was guided
by analogies and conjectures during this pre-theoretical stage. The chosen
experimental method had also a strong influence since it constrained what could
be observed or tested. Marie Curie’s early researches, in 1898, was strongly
dependent on the electric method of measurement she employed. However, the
development of her work was chiefly dependent on the adoption of a new
hypothesis: the assumption that the emission of uranium radiation was an
atomic process. This paper presents a reconstruction of the steps followed by
Marie Curie during this phase of her work. Special emphasis is given to the
hypotheses and conjectures that directed her research.

Introdução

Usualmente considera-se que a radioatividade foi descoberta por Henri Becquerel,


em 1896, e que a principal contribuição de Marie Curie foi a descoberta de novos
elementos radioativos (tório, polônio e rádio) em 1898. Essa contribuição é apresentada
como uma conseqüência do trabalho de Becquerel, uma vez que depois da descoberta da
radiação do urânio seria “natural” procurar se outros elementos também emitiam
radiações do mesmo tipo. Este artigo apresentará, no entanto, uma nova interpretação do
trabalho realizado por Marie Curie no início de 1898. Com a utilização de um método
elétrico para obtenção de medidas quantitativas da radiação, ela foi inicialmente capaz
de diferenciar os fenômenos que atualmente chamamos de ‘radioatividade’ de uma série
de outros fenômenos espúrios. Por outro lado, guiada por duas conjeturas a respeito da
natureza atômica do próprio fenômeno de emissão de radiação, conseguiu orientar de
forma bem sucedida uma busca de novos elementos radioativos.
As primeiras investigações de Marie Curie 2

Para permitir uma compreensão adequada do trabalho de Marie Curie, será feita uma
breve descrição do período anterior (1895 a 1897), desde a descoberta dos raios X até o
final das pesquisas de Becquerel1.

A descoberta dos raios X

No final de 1895, Wilhelm Conrad Röntgen descobriu a existência de um novo tipo


de “raios” (coisas que se propagam em linha reta, como a luz), a que deu o nome
utilizado para as incógnitas da álgebra, por desconhecer sua natureza (RÖNTGEN,
1895; NITSKE, The life of Wilhelm Conrad Röntgen; JAUNCEY, 1945; MARTINS,
1998a, 1998b). Tratava-se de uma radiação penetrante, capaz de atravessar materiais
opacos à luz e às outras radiações conhecidas (raios catódicos, raios ultravioletas e
infravermelhos). Era emitida por tubos de alto vácuo, quando os mesmos eram
percorridos por uma descarga elétrica de alta voltagem.
A radiação foi estudada por Röntgen que, em poucas semanas, determinou muitas de
suas principais propriedades. Ela produzia luminescência em certos materiais
fluorescentes (esse foi o fenômeno que levou à sua descoberta), sensibilizava chapas
fotográficas, era invisível ao olho humano, não parecia sofrer refração, nem reflexão,
nem polarização. Não se tratava de luz (por ser invisível e atravessar grandes espessuras
de madeira ou papel), não era igual aos raios catódicos (não sofria desvio com ímãs e
tinha poder de penetração muito superior), nem raios ultravioletas ou infravermelhos
(pelo seu poder de penetração).
A divulgação da descoberta dos raios X, no início de 1896, teve uma enorme
repercussão na comunidade científica (MARTINS, 1997a). No mesmo ano, foram
publicados cerca de 1.000 artigos sobre a nova radiação – principalmente sobre suas
aplicações médicas. Muitos investigadores se voltaram imediatamente para a pesquisa
de novas propriedades dos raios X e o campo se desenvolveu muito rapidamente. Por se
tratar de um fenômeno que não havia sido previsto teoricamente nem era compreendido
com base nas teorias da época, a descoberta de que existia uma radiação estranha, que
devia estar presente nos laboratórios de física há muitos anos mas que não havia sido
notada antes levou à procura de outras radiações desconhecidas (que poderiam
igualmente estar presentes sem terem sido percebidas) e de outros processos de emissão
de raios X.
Essa busca foi guiada, em grande parte, por uma hipótese apresentada por Henri
Poincaré em 20 de janeiro de 1896 (POINCARÉ, 1896). De acordo com o primeiro
trabalho de Röntgen sobre os raios X, a radiação saía do ponto da parede de vidro do
tubo de descarga que era atingido pelos raios catódicos, e essa parte do vidro se tornava
luminosa. Poincaré conjeturou que poderia haver alguma relação entre a própria
luminescência e a emissão dos raios X, sugerindo que talvez todos os materiais
luminescentes emitissem esse tipo de radiação.
A conjetura de Poincaré foi imediatamente testada por diversos pesquisadores, que
descreveram experimentos que pareciam confirmá-la. Charles Henry e Gaston
Niewenglowski disseram ter detectado a emissão de radiações penetrantes, semelhantes
aos raios X, por substâncias fosforescentes comuns (sulfeto de cálcio e sulfeto de zinco).
Algum tempo depois, foi descrita a emissão de radiações penetrantes por vaga-lumes e
por bactérias luminescentes. Por fim, como até mesmo algumas substâncias comuns são

1Uma boa descrição histórica sobre esse período pode ser encontrada nos artigos: JAUNCEY 1946 e
BADASH 1965. Ver também MARTINS, 1990.
As primeiras investigações de Marie Curie 3

fracamente fosforescentes, foram testadas muitas outras substâncias, e descrita a


emissão de radiações penetrantes por papel, madeira, açúcar, giz, diversos metais e
outras substâncias. O mundo parecia estar repleto de corpos que emitiam radiações
invisíveis, capazes de atravessar papel opaco à luz e de sensibilizar chapas fotográficas
(STEWART, 1898; MARTINS, 1990).

A hiperfosforescência

Foi em meio a esses trabalhos que Henri Becquerel descreveu que uma certa
substância fosforescente (sulfato duplo de uranila e potássio) emitia radiações
penetrantes semelhantes a raios X (BECQUEREL, 1896a, 1896b). Tratava-se
aparentemente de uma nova confirmação da conjetura de Poincaré, embora possua hoje
um outro significado para nós, pelos desenvolvimentos ocorridos posteriormente.
Independentemente de Becquerel, o físico inglês Silvanus Thompson descreveu um
fenômeno semelhante, para o nitrato de urânio (THOMPSON, 1896a, 1896b).
Tanto Becquerel quanto Thompson acreditaram que os compostos de urânio
estudados emitiam algo semelhante à radiação ultravioleta (ondas eletromagnéticas com
pequeno comprimento de onda). Uma das hipóteses sobre os raios X era que se tratava
de radiação semelhante à ultravioleta, porém com maior poder de penetração. As
observações pareciam indicar que a emissão de radiação pelo urânio se tornava mais
forte após colocar seus compostos ao Sol (ou seja, parecia um tipo de fosforescência).
No entanto, nos fenômenos luminescentes comuns, a radiação emitida tem um
comprimento de onda maior do que o da radiação absorvida (“lei de Stokes”) e os raios
luminosos não deveriam, por isso, produzir a emissão de radiação ultravioleta. Tanto
Becquerel quanto Thompson acreditaram por isso tratar-se de um caso de violação da lei
de Stokes. Na época, isso não parecia de modo nenhum absurdo, pois haviam sido
relatados casos em que a lei de Stokes não era obedecida. Becquerel dispunha até
mesmo de uma hipótese teórica que lhe permitia antecipar que tal tipo de violação
deveria ocorrer particularmente no caso dos compostos do urânio (MARTINS, 1997b).
Aquilo que atualmente chamamos de “radioatividade” é um fenômeno no qual certos
tipos de núcleos atômicos se desintegram espontaneamente, emitindo radiações
penetrantes (alfa, beta e gama), de alta energia, e se transformando em núcleos
diferentes. Não foi isso, no entanto, que Becquerel descobriu em 1896, ao perceber que
certos compostos do urânio emitiam radiações penetrantes. No final do século XIX,
ninguém pensava que os átomos tinham um núcleo. Becquerel não imaginou que estava
diante de algum tipo de fenômeno de transformação atômica, nem percebeu que havia
diferentes tipos de radiações. No período estudado no presente artigo, não se conhecia a
natureza das radiações emitidas pelo urânio, nem se sabia da existência de diferentes
tipos de radiação (α, β e γ), que só foram identificadas nos anos seguintes.
Becquerel afirmou ter confirmado experimentalmente que a radiação do urânio era de
natureza eletromagnética, semelhante à luz (refração, reflexão, polarização) e que a
emissão diminuía lentamente no escuro, como uma fosforescência invisível de longa
duração (BECQUEREL, 1896c, 1896d, 1896e, 1896f)2. Thompson aceitou os resultados

2 Antes de 1898, apenas dois aspectos do trabalho de Becquerel haviam sido criticados: a polarização dos
raios de urânio e a excitação dessa radiação pela luz. Gustave le Bon foi o primeiro a colocar em dúvida a
polarização da radiação do urânio, em maio de 1897. Quanto à excitação por luz, Julius Elster e Hans
Geitel, em 1897, notaram que a emissão de radiação pelo urânio não aumentava quando ele era
submetido à luz solar, e permanecia constante no escuro, durante vários meses (ELSTER & GEITEL
1897).
As primeiras investigações de Marie Curie 4

de Becquerel e propôs para o fenômeno o nome de “hiperfosforescência”, que se


popularizou rapidamente3. Becquerel, por sua vez, chamava essa radiação de “raios do
urânio”, pois pensava que se tratava de um fenômeno específico dos compostos desse
elemento. O nome “radioatividade” foi proposto pelos Curie, em meados de 1898 4.
Um ano após a descoberta dos raios X ainda não havia certeza sobre sua natureza,
mas a opinião mais aceita era a de que se tratava de ondas eletromagnéticas transversais
de altíssima freqüência, ou seja, radiação ultravioleta de pequeno comprimento de onda.
Não havia sido observada reflexão, refração, difração nem polarização dos raios X, mas
isso poderia ser devido ao comprimento de onda excessivamente pequeno. Por outro
lado, como Becquerel aparentemente havia mostrado que a radiação do urânio era de
natureza eletromagnética e podia ser refletida, refratada e polarizada, podia-se supor que
se tratava de radiação intermediária entre os raios X e a radiação ultravioleta comum:

É impossível discutir aqui o que os raios de Röntgen são realmente, mas


talvez seja permissível dizer que um grande número de físicos está agora
inclinado a adotar a opinião de que, afinal, estamos tratando com vibrações
transversais do éter muito distantes e além do ultravioleta com o qual já estamos
familiarizados há muito tempo. Se assim for, não existe razão para assumir que
há uma lacuna entre o ultravioleta e os raios X; e realmente Becquerel
recentemente nos deu prova da existência de raios emanados do urânio e de seus
sais que sugere a possibilidade de que alguns deles já tenham sido descobertos
(MACINTYRE, 1897, p. 282).

Após um ano de estudos, a investigação da radiação do urânio não proporcionava


mais nenhum resultado interessante. Pouquíssimas pessoas se interessaram pelo assunto
– um deles sendo o jovem físico Georges Sagnac, que terá um papel curioso descrito
posteriormente (SAGNAC, 1896). O próprio Becquerel foi se desinteressando pelo
assunto e nunca chegou a fazer uma busca sistemática de outros materiais que tivessem
propriedades semelhantes aos compostos do urânio. Em 1897, ele começou a se dedicar
a um novo tema de pesquisa que estava em moda na época – o “efeito Zeeman”
(ROMER, 1970). A própria atitude de Becquerel mostra que não era “natural” procurar
outros elementos que emitissem radiações como as do urânio. Procurar ou não procurar
outros elementos dependia das expectativas que o pesquisador tivesse – e, para
Becquerel, que acreditava que o urânio era um elemento sui generis, essa busca não
tinha sentido (MARTINS, 1997b).

Os efeitos elétricos da radiação

Logo após a descoberta dos raios X, diversos pesquisadores, independentemente uns


dos outros, notaram que a nova radiação era capaz de descarregar eletroscópios e que
isso ocorria porque o ar atingido pelos raios X se tornava condutor de eletricidade
(CHILD, 1897). O primeiro a divulgar tal descoberta foi o físico inglês Joseph John
Thomson, em trabalho apresentado no dia 27 de janeiro de 1896 à Cambridge
Philosophical Society (THOMSON, 1896a, 1896b). Na reunião da Academia de

3 Weill atribuiu erroneamente a invenção do nome “hiperfosforescência” a Henri Poincaré (WEILL 1970,
p. 498).
4 A palavra aparece pela primeira vez no título do artigo “Sobre uma nova substância radio -ativa contida
na pechblenda” (CURIE & CURIE, 189 8).
As primeiras investigações de Marie Curie 5

Ciências de Paris de 3 de fevereiro, Benoist e Hurmuzescu informaram uma descoberta


equivalente (BENOIST & HURMUZESCU, 1896), e em 9 de março Röntgen publicou
um trabalho em que descrevia o mesmo fenômeno (RÖNTGEN, 1897; MARTINS,
1997a).
Foram J. J. Thomson e seus colaboradores de Cambridge (especialmente J. A.
McClelland e Ernest Rutherford) que fizeram um cuidadoso estudo quantitativo do
fenômeno, propondo alguns meses depois a explicação que aceitamos ainda hoje: os
raios X rompem as moléculas neutras do ar e produzem íons positivos e negativos,
capazes de conduzir a eletricidade (THOMSON & RUTHERFORD, 1896; FEATHER
1958). No entanto, esses íons de sinais opostos se atraem e tendem a se recombinar, por
isso o ar volta a se comportar como um isolante pouco tempo depois que cessa a ação
dos raios X sobre ele. O modelo desenvolvido por Thomson permitia prever e explicar
muitas características do fenômeno, como a relação entre pressão do gás e sua
condutividade, relação entre a corrente elétrica produzida e a distância entre duas placas
paralelas, a existência de uma corrente elétrica de saturação, etc.
Guiado pela semelhança entre os raios X e os raios emitidos pelo urânio, Becquerel
também investigou se seus raios tornavam o ar condutor, e confirmou essa nova
semelhança (BECQUEREL, 1896d). O estudo da condutividade do ar sob efeito dos
raios do urânio foi desenvolvido, em seguida, por Lord Kelvin e colaboradores (Lord
KELVIN et al., 1897a, 1897b), e em 1898 foi aprofundado por Ernest Rutherford,
utilizando a mesma teoria empregada para descrever a ionização produzida pelos raios
X.
Logo se tornou claro que os efeitos elétricos da radiação eram muito mais úteis do
que o uso da fotografia na investigação científica das radiações, pois o estudo da
ionização do ar permitia medir a radiação, sendo por isso superior ao uso de chapas
fotográficas. O método fotográfico, utilizado por Becquerel nos seus principais estudos,
não permitia medidas, sendo puramente qualitativo. A intensidade das manchas
fotográficas dependia evidentemente do próprio material fotográfico utilizado (e as
chapas variavam muito de sensibilidade), assim como do processo de revelação, sendo
impossível fazer uma comparação adequada entre duas fotografias obtidas em épocas
diferentes. Além disso, o processo fotográfico é influenciado pela temperatura, umidade,
pressão e por muitas substâncias químicas, por isso o surgimento de uma mancha em
uma placa fotográfica podia ocorrer tanto por influência de radiações penetrantes como
por outros motivos. Pode-se atribuir exatamente a efeitos desses tipos as “descobertas”
acima referidas de tantas substâncias que pareciam emitir radiações penetrantes.
Enquanto as chapas fotográficas eram o processo principal de detecção de radiação,
ficava impossível distinguir as radiações do urânio de todos os outros efeitos espúrios.
Dois dos investigadores franceses que se dedicaram ao estudo de descargas elétricas
produzidas pelos raios X foram Jean Perrin e Georges Sagnac. Quando os raios X
atravessam o ar entre duas placas metálicas que formam um capacitor, esse ar se torna
condutor de eletricidade, como já foi dito. Se os raios X atingirem as próprias placas
metálicas, o efeito se torna maior do que se ele passar apenas pelo ar. Perrin estudou
esse fenômeno e imaginou que os raios X agiam diretamente sobre o metal, produzindo
algo semelhante ao efeito fotoelétrico (PERRIN, 1897).
Georges Sagnac, pelo contrário, estudando os metais atingidos pelos raios X notou a
emissão de raios secundários, que possuíam a característica de serem mais fortemente
As primeiras investigações de Marie Curie 6

absorvidos do que os raios X incidentes (SAGNAC, 1898a)5. Esses raios secundários


(ou raios S)6 produziam forte ionização do ar. Uma espessura de poucos milímetros de
ar já produzia uma absorção significativa desses raios secundários, enquanto os raios X
podiam atravessar espessuras de vários metros de ar. Em metais, a absorção desses raios
secundários era cerca de 100 vezes maior do que a dos raios X incidentes. Não se tratava
de um mero espalhamento da radiação e sim de um fenômeno semelhante à
fluorescência. Perrin logo aceitou os resultados de Sagnac (PERRIN, 1898).
Prosseguindo seus estudos, Sagnac logo notou que uma fina placa metálica atingida por
raios X emitia raios secundários para os dois lados (SAGNAC, 1898b). Indicou que
embora a placa só absorvesse uma fração muito pequena dos raios X, transformando-os
em raios secundários, esses raios secundários produziam fortes efeitos em chapas
fotográficas, painéis fluorescentes e eletroscópios.
Essa transformação de raios X em raios S dependeria do material utilizado
(SAGNAC, 1898d). Comparando o ar, a água, o alumínio, o cobre, o zinco e o chumbo,
Sagnac notou que os raios secundários eram cada vez menos penetrantes, ou seja, havia
uma maior transformação dos raios X. Os raios secundários produzidos pelo zinco e
pelo chumbo, em particular, eram menos penetrantes do que os raios X emitidos por
qualquer tubo existente na época.
Como veremos mais adiante, esse trabalho de Sagnac teve forte influência sobre os
Curie.

A contribuição de Gerhard Schmidt

Em janeiro de 1898, Gerhard Carl Nathaniel Schmidt (1865-1949) deu uma grande
contribuição para o estudo daquilo que denominamos ‘radioatividade’ (SCHMIDT,
1898; BADASH, 1966). Ele utilizou o método elétrico para estudar diversas supostas
radiações e percebeu que os materiais fosforescentes comuns não ionizavam o ar –
portanto, não emitiam raios X nem nada parecido. Da mesma forma, os vaga-lumes e
outras substâncias que supostamente emitiam radiações penetrantes não produziam
nenhum efeito sobre a condutividade do ar. O urânio ionizava o ar, e o fósforo também
tinha uma propriedade semelhante, que já havia sido descoberta alguns anos antes, mas
no caso do urânio todos os seus compostos, qualquer que fosse o estado físico ou
químico em que se encontrasse, emitiam essas radiações, enquanto no caso do fósforo o
efeito dependia das condições químicas, existindo o efeito apenas para o elemento puro
e não ocorrendo para os seus compostos. Não se tratava, portanto, de um fenômeno
associado a um determinado elemento químico, como no caso do urânio.

5 Os resultados obtidos por Sagnac não eram totalmente novos. Logo após a descoberta dos raios X,
Röntgen e outros pesquisadores haviam investigado se essas radiações podiam ser refletidas por metais e
outras substâncias. Os primeiros resultados indicavam que não havia reflexão regular, mas que ocorria
aparentemente uma difusão de raios X, ou seja, uma parte dos raios X incidentes era espalhada para todos
os lados quando atingiam uma superfície metálica. No entanto, estudando essa radiação difundida,
Dwelshauvers-Dery notou que ela era menos penetrante do que os raios X incidentes
(DWELSHAUVERS-DERY, 1896). Concluiu que “a reflexão difusa, constatada por diversos físicos, é
devida, pelo menos em parte, à produção de raios diferentes dos raios X na substância; não é portanto
uma reflexão propriamente dita” (DWELSHAUVERS -DERY, 1896, p. 487).
6 Atualmente nós nos referimos a raios X primários e raios X secundários. Sagnac utilizava uma
nomenclatura um pouco diferente. Ele não se referia aos raios secundários como sendo um tipo de raios
X, mas dava-lhes um nome diferente (raios S), o que parece indicar que ele imaginava tratar-se de
radiação de um outro tipo. Ele também não se referia aos raios X incidentes como raios “primários”.
As primeiras investigações de Marie Curie 7

Schmidt procurou outras substâncias que tivessem efeitos semelhantes ao do urânio e


encontrou que o tório também emitia radiações penetrantes, capazes de ionizar o ar e de
penetrar através de papel opaco, sensibilizando placas fotográficas. Pode-se dizer que,
pelo método elétrico, Schmidt conseguiu diferenciar as radiações do urânio de efeitos
espúrios e descobriu a emissão de radiação pelo tório. No entanto, o trabalho de Schmidt
não trouxe outras contribuições importantes – de fato, seu nome está associado, na
história da radioatividade, apenas a esse passo (STUEWER, 1970). O método elétrico
foi útil, mas ele sozinho não levou à descoberta do polônio e do rádio.

O início das pesquisas de Marie Curie

Independentemente de Schmidt, Marie Sklodowska Curie (1867-1934) também


descobriu a emissão de radiações penetrantes pelo tório, logo no início de suas pesquisas
(CURIE, 1898). Com 30 anos de idade, Marie Curie era, nessa época, uma pessoa
diplomada em física e matemática7, com uma curta experiência de pesquisa de caráter
tecnológico – o estudo da magnetização de diversos tipos de aços industriais8. Estava
casada desde 1895 com Pierre Curie (1859-1906), um físico mais experiente e 8 anos
mais velho do que ela. No final de 1897, época do nascimento de sua primeira filha
(Irène), Marie decidiu iniciar uma pesquisa para obtenção do título de doutoramento em
física. Nessa época, o título era obtido pela defesa direta de tese, já que não existiam
cursos de pós-graduação.
O tema escolhido para a tese foi o estudo das radiações do urânio, através do método
elétrico. O que motivou essa escolha, numa época em que ninguém dava atenção a esse
fenômeno? Não o sabemos, mas há alguns elementos que ajudam a compreender isso.
Um dos motivos parece ter sido prático: o estudo da condutividade do ar produzida
pelos raios do urânio poderia ser feito com uma aparelhagem muito simples,
desenvolvida por Pierre Curie e seu irmão Jacques, empregando um eletrômetro e um
cristal piezoelétrico9. Por outro lado, é possível que Jean Perrin e Georges Sagnac –
amigos do casal Curie – tivessem alguma influência na escolha, já que ambos haviam
pesquisado a condutividade do ar produzida pelos raios X, e Sagnac havia escrito a
respeito da radiação do urânio10. Nessa época, o estudo da radiação de Becquerel era um

7 Embora muitas vezes se associe Marie Curie à química (ver por exemplo WYART 1970, p. 507: “Marie
Curie, por outro lado, tinha sido treinada principalmente como química...”), ela nunca teve qualquer
título nessa área. Em 1893, Marie foi aprovada e classificada em primeiro lugar no concurso de
licenciatura em física pela Sorbonne. No ano seguinte, foi aprovada em segundo lugar no concurso de
licenciatura em matemática. Para informações biográficas sobre Marie Curie, ver: CURIE, Eve, Madame
Curie; REID, Marie Curie.
8 Esse primeiro estágio de pesquisa da vida de Marie Curie foi obtido graças a seu ex-professor, Gabriel
Lippmann, que foi também quem apresentou à Academia de Ciências de Paris o primeiro artigo de Marie
sobre a radiação do tório.
9 Quando certos cristais são comprimidos ou distendidos, surgem cargas elétricas e produz-se uma
diferença de potencial entre suas faces. Isso ocorre, por exemplo, no caso do quartzo. Esse tipo de
fenômeno foi descoberto e investigado por Pierre e Jacques Curie (WYART 1970, p. 504), e tem hoje
diversas aplicações práticas, como certos acendedores de fogão que soltam uma faísca quando se aperta
um botão. Na época, era muito difícil medir pequenas correntes elétricas com precisão. O efeito
piezoelétrico permitia produzir cargas elétricas sempre iguais e reguláveis, aplicando-se ao cristal uma
força sempre igual. Medindo-se cargas elétricas e o tempo, podia-se determinar com grande precisão e de
modo reprodutível as pequenas correntes elétricas envolvidas no fenômeno. Como já estava familiarizado
com esse fenômeno, Pierre Curie logo pensou em utilizá-lo na investigação das radiações do urânio.
10 Marie Curie utilizou em seus primeiros estudos uma câmara de ionização de placas paralelas, muito
semelhante à utilizada por Perrin e por Sagnac anteriormente.
As primeiras investigações de Marie Curie 8

assunto pouco explorado (havia menos de 20 artigos sobre esses raios), não muito
importante, porém curioso – um tema adequado para uma tese de uma pesquisadora
principiante. Não havia a expectativa de fazer nada de excepcional. A pesquisa
planejada inicialmente era um estudo padrão, de reproduzir para os raios do urânio o
mesmo tipo de estudo que já fora feito para os raios X. A justificativa apresentada pela
própria Marie Curie para o uso da técnica elétrica era que ela permitia obter resultados
mais rápidos do que o método fotográfico e fornecia medidas numéricas, comparáveis
entre si:

Em geral, utilizou-se nesses estudos o método elétrico, quer dizer, o método


que consiste em medir a condutibilidade do ar sob a influência dos raios que se
estuda. Esse método possui, de fato, a vantagem de ser rápido e de fornecer
números que podem ser comparados entre si (CURIE, 1899, p. 41).

Marie Curie não pertencia a nenhuma instituição científica, na época. Seu marido,
Pierre, era professor de uma escola de engenharia, a École Municipale de Physique et de
Chimie Industrielles, de Paris. O diretor da escola, Charles Schützenberger, autorizou
Marie a utilizar um canto de uma sala que servia de casa de máquinas e depósito. Era
uma sala úmida e fria11, mas foi o único local disponível para seu trabalho.
Costuma-se descrever a pesquisa inicial de Marie Curie como uma busca sistemática
por outros elementos, além do urânio, que fossem capazes de emitir radiações
semelhantes (ver, por exemplo, WEILL 1970, p. 498). A própria Marie escreveu, em
1899:

Após os trabalhos do Sr. Becquerel, era natural perguntar-se se o urânio é o


único metal que desfruta de propriedades tão particulares. O Sr. Schmidt estudou
sob esse ponto de vista um grande número de elementos e de seus compostos;
ele encontrou que os compostos do tório são os únicos dotados de uma
propriedade semelhante. Fiz um estudo do mesmo tipo, examinando compostos
de quase todos os corpos simples atualmente conhecidos [...]; cheguei ao mesmo
resultado que o Sr. Schmidt (CURIE 1899, pp. 41-2).

Essa versão, que se apoia também no texto do primeiro artigo publicado por Marie,
não parece corresponder à realidade histórica. De um modo geral, é preciso analisar cum
grano salis as versões apresentadas pelos próprios cientistas em seus trabalhos
publicados, e nesse caso em particular dispomos de documentos que nos permitem
desvendar o caminho seguido por Marie Curie no início de suas pesquisas.
Foram conservados os três cadernos de laboratório dos Curie em que são descritos os
experimentos realizados a partir de 1897 a 1900 12. A partir desses cadernos, é possível
verificar que Marie Curie iniciou seus experimentos com radiações no dia 16 de
dezembro de 1897. Suas primeiras atividades consistiram em testes preliminares e
familiarização com o aparelho – certamente sob a orientação de Pierre Curie. A
manipulação do aparelho não era muito simples – exigia uma certa prática para regular

11 Uma famosa anotação de Marie Curie nos cadernos de laboratório, no dia 6 de fevereiro de 1898,
indica que a temperatura ambiente era de 6°.
12 Esses cadernos, contaminados e fortemente radioativos como muitos outros documentos dos Curie,
foram descritos por Irène Curie. Vamos nos basear nessa descrição (JOLIOT-CURIE, 1940), indicando as
datas dos experimentos mais importantes, de tal forma a facilitar a verificação das informações em
qualquer outra edição dessa obra.
As primeiras investigações de Marie Curie 9

manualmente a força exercida sobre o cristal piezoelétrico. Os primeiros experimentos


mediram a condutividade do ar sob ação tanto de raios X quanto do urânio metálico13. A
seguir, vamos descrever uma reconstrução historiográfica do trabalho de Marie Curie,
alertando os leitores que, em muitos pontos, os documentos disponíveis não permitem
afirmar com certeza o que Marie pensava sobre o que estava fazendo e observando.

Dezembro-Janeiro de 1898
Durante os dois primeiros meses de trabalho, a maior parte das medidas era
simplesmente uma reprodução de experimentos já realizados a respeito da condução do
ar produzida por raios X: mudava-se a distância entre as placas, o sinal das cargas, a
tensão aplicada, colocava-se placas metálicas finas sobre o urânio, etc., construindo-se
curvas com os dados experimentais14. No entanto, em meio a esse trabalho de rotina,
Marie registrou alguns resultados importantes:
• aquecimento não aumenta a intensidade da radiação do urânio (1° de janeiro)
• iluminação e irradiação com raios X não aumentam a radiação do urânio15 (5 de
janeiro)
O que estava guiando esses primeiros experimentos? As anotações do caderno de
laboratório não indicam o que Marie Curie estava pensando, mas sim o que ela estava
fazendo. Aparentemente, os primeiros experimentos se destinavam a testar se a emissão
de radiação pelos urânio era um tipo de fosforescência invisível, como Becquerel e
Thompson acreditavam. A intensidade da luz emitida por materiais fosforescentes é
fortemente influenciada pelo aquecimento e também aumenta quando o material é
colocado sob luz forte, diminuindo lentamente depois, no escuro. Mesmo submetendo o
urânio a raios X, isso não influenciava a emissão de radiação, por isso provavelmente
não se tratava de um fenômeno semelhante à fosforescência16. Os primeiros resultados
levavam, por isso, a questionar o conceito de hiperfosforescência.
Outro resultado obtido nesse período foi que a absorção dos raios do urânio pelo
alumínio era mais forte do que a dos raios X. Nem todos os raios X possuem igual poder
de penetração: sabia-se que suas propriedades dependiam do tubo empregado e da
voltagem das descargas que estimulavam a emissão. Os raios X mais penetrantes eram
chamados de “raios X duros” e os menos penetrantes eram os “raios X moles”. A
radiação do urânio se comportava como raios X moles. Marie Curie associou essa forte
absorção aos raios secundários que haviam sido estudados por Sagnac:

O fraco poder penetrante dos raios urânicos e tóricos conduziu a compará-los


aos raios secundários que são produzidos pelos raios Röntgen, e cujo estudo foi
feito pelo Sr. Sagnac, em vez de aos próprios raios Röntgen (CURIE, Marie,
Recherches sur les substances radioactives, p. 8).

Fevereiro de 1898

13 O urânio metálico foi preparado pela primeira vez em 1896 por Henri Moissan, que foi quem forneceu
amostras para Becquerel e depois aos Curie.
14 É provável que Marie Curie estivesse se baseando na tese de doutoramento de Jean Perrin sobre raios
X (PERRIN, 1897).
15 Evidentemente, como os próprios raios X produzem efeitos de ionização do ar, os experimentos eram
feitos irradiando-se o urânio e, depois de desligados os raios X, medindo-se a ionização produzida pelo
urânio.
16 Marie Curie aceitou como provado conclusivamente por Elster e Geitel que a radioatividade não pode
ser aumentada pela luz (CURIE, 1899).
As primeiras investigações de Marie Curie 10

O segundo grupo de resultados obtidos por Marie Curie, em fevereiro, referia-se ao


estudo de diferentes substâncias, comparando-as com o urânio. A partir de 10 de
fevereiro, ela examinou um grande grupo de metais (cobre, zinco, chumbo, estanho,
platina, ferro, ouro, paládio, cádmio, antimônio, molibdênio, tungstênio) e observou que
nenhum deles produzia condutividade no ar. Depois (17 de fevereiro) examinou um
mineral de urânio (pechblenda17 ou uraninita), que produziu efeitos semelhantes ao
urânio puro, como se previa. No entanto, notou um fato estranho: a corrente elétrica
observada com a pechblenda era maior do que no caso do urânio metálico puro. Ora,
Becquerel havia observado que a radiação do urânio metálico era mais intensa do que de
qualquer de seus compostos, e esperava-se portanto que a pechblenda mostrasse uma
atividade18 inferior à do urânio metálico. A primeira reação de Marie Curie foi a de que
poderia ter ocorrido um erro experimental. O caderno de laboratório mostra que ela
examinou a aparelhagem, fez testes, refez as medidas – e confirmou os resultados
iniciais.
Havia algo de estranho. Teria Becquerel se enganado? O caderno de laboratório
mostra que Marie Curie fez logo depois medidas utilizando vários compostos de urânio
(óxido de urânio, uranato de amônio) e notou que todos eles tinham radiação menos
intensa do que urânio metálico, enquanto a pechblenda, repetidamente testada, teimava
em se mostrar mais ativa (18 e 19 de fevereiro).
Este foi um ponto decisivo da pesquisa de Marie Curie. Ela poderia simplesmente
não ter dado atenção a essa anomalia da pechblenda e ter continuado sua pesquisa de
rotina, para terminar rapidamente sua tese. Mas sua atenção foi capturada pelo
fenômeno imprevisto e isso redirecionou toda sua pesquisa. Provavelmente a partir
dessa época ela começou a suspeitar que a pechblenda, além do urânio, continha alguma
outra substância que também emitia radiações ionizantes e que não havia sido ainda
detectada.

Fevereiro-março de 1898
Logo depois Marie Curie examinou muitas substâncias diferentes (aparentemente ao
acaso), disponíveis na Escola de Física e Química Industriais, e nenhuma delas emitia
radiações ionizantes. Esses testes devem ter convencido Marie de que, se havia algum
outro elemento que emitia radiações como as do urânio, tratava-se de um elemento raro.
A pechblenda contém, além de óxido de urânio, várias outras substâncias em
pequena quantidade – incluindo tório. Talvez por causa disso Marie tenha examinado
em seguida um mineral de tório e nióbio, que não contém urânio (24 de fevereiro), e
logo notou que ele emitia radiação ionizante. Examinou então minerais que continham
nióbio e notou que não mostravam atividade. Testando separadamente os elementos
presentes nesse mineral, observou que apenas o tório emitia radiações (26 de fevereiro).
Analisando em seguida diversos minerais de urânio e de tório, notou que todos eles
emitiam radiação ionizante, e testando várias outras substâncias, não encontrou
nenhuma outra ativa (2 de março).

17 O nome “pechblenda” é simplesmente um aportuguesamento de “pechblende” (em inglês, pitchblende)


e não tem nenhum significado óbvio. No entanto, “pech” ou “pitch” significa pixe, e o min eral recebeu
esse nome por ser negro e ter uma aparência semelhante à do pixe. A tradução correta seria, portanto,
“pixeblenda”, mas como essa palavra não existe nos dicionários, vamos utilizar o termo absurdo
tradicionalmente empregado por todos.
18 Não existia ainda a palavra “radioatividade”, mas desde o início de suas pesquisas Marie Curie
utilizava a expressão “atividade”.
As primeiras investigações de Marie Curie 11

Estava, assim, estabelecida a existência de um segundo elemento – o tório – com


propriedades semelhantes às do urânio. O que Marie Curie não sabia é que Schmidt já
havia feito e publicado a mesma descoberta, algumas semanas antes.

Uma propriedade atômica?

Nesse momento, a pesquisa de Marie Curie variava entre o estudo de minerais


naturais e de compostos químicos puros. Examinando alguns compostos de laboratório
do tório e do urânio, Marie notou que a emissão de radiação parecia ser
aproximadamente proporcional à quantidade do metal presente, não dependendo da
presença de outras substâncias inativas, que atuavam apenas absorvendo a radiação.
Nesta época, provavelmente, Marie Curie adotou a hipótese de que a emissão de
radiação penetrante é uma propriedade atômica, no seguinte sentido:
• depende da presença de alguns elementos químicos particulares
• a intensidade da radiação é proporcional à porcentagem desses elementos químicos
nos compostos estudados (descontando-se a absorção produzida por elementos
inertes)
• não depende de propriedades moleculares (outros elementos químicos inativos não
alteram a emissão de radiação)
Note-se que não havia sido feita ainda nenhuma suposição de que estivesse
ocorrendo alguma transformação dos átomos (eles eram considerados imutáveis).
A hipótese da propriedade atômica explicava muitos fatos, mas conflitava com as
observações sobre alguns minerais, já que a radiação de alguns minerais, como a
pechblenda e a calcolita, era mais forte do que dos seus componentes. Marie Curie fez
repetidas comparações desses minerais com o urânio metálico (21-28 de março), o que
parece mostrar que essa anomalia incomodava muito a pesquisadora. Era importante
verificar se a hipótese estava correta ou não, e explicar essa discrepância.
A calcolita é um mineral que contém principalmente fosfato duplo de urânio e de
cobre. A amostra examinada por Marie Curie tinha uma atividade muito superior à do
urânio ou do tório puros. Seria possível que a associação do urânio com outros
elementos pudesse, pela combinação química, alterar suas propriedades e aumentar a
radiação? Ou haveria alguma impureza no mineral que era responsável pela anomalia?
Para tentar esclarecer esse ponto, Marie Curie sintetizou o fosfato duplo de urânio e de
cobre, a partir de substâncias químicas puras. A calcolita artificial assim produzida era
menos ativa do que o urânio metálico puro, ou seja, comportava-se do modo “normal”,
como os outros compostos de urânio (31 de março). Esse resultado confirmava a
hipótese de propriedade atômica e sugeria que havia na calcolita natural algum outro
elemento desconhecido, mais ativo do que o urânio.
A partir desse instante, a hipótese da propriedade atômica conduziu as pesquisas do
casal Curie, levando pouco depois à descoberta do polônio e do rádio.
O papel das pesquisas de Marie Curie tem sido interpretado a partir de uma visão
bastante diferente, como se os passos decisivos tivessem sido devidos apenas ao uso de
um novo tipo de aparelhagem, à obtenção de dados quantitativos (ver WYART 1970, p.
507) e ao exame sistemático dos elementos (ver BADASH 1965, p. 134). Em vez dessa
versão com sabor positivista, um artigo mais recente enfatizou a existência de aspectos
teóricos no trabalho de Marie Curie (DAVIS 1995, p. 329) mas não indicou nenhuma
influência das suas hipóteses como orientadoras do trabalho de pesquisa.
De acordo com a interpretação aqui aventada, pode-se dizer que os elementos básicos
que contribuíram para o sucesso da pesquisa dos Curie foram:
As primeiras investigações de Marie Curie 12

• uso do método elétrico, que era rápido, além de proporcionar resultados


quantitativos, e permitiu eliminar efeitos espúrios;
• papel do acaso, que permitiu encontrar minerais mais ativos do que urânio puro;
• a atitude de dar atenção às anomalias (os Curie poderiam não ter se preocupado com
o caso da pechblenda);
• imaginar, testar e utilizar a hipótese de que a emissão de radiações ionizantes era uma
propriedade atômica.
Este último ponto é aquilo que distingue os Curie dos demais investigadores da
época. Para nós, que fomos educados dentro de uma determinada visão da
radioatividade, essa hipótese pode ter aparência de algo que deveria surgir naturalmente,
mas não parece ter ocorrido de forma clara no trabalho de outros pesquisadores da
época. De onde ela pode ter saído?
Essa hipótese não foi, certamente, uma generalização tirada a partir dos
experimentos. Afinal de contas, ela conflitava com alguns resultados, como os obtidos
pelo estudo dos minerais. A seguir, será proposta uma nova interpretação: a de que,
apesar de conflitar com alguns resultados, essa hipótese era considerada como plausível
e merecedora de investigação pelos Curie porque era reforçada por outra hipótese,
baseada em semelhanças entre radiações do urânio (e do tório) e raios X secundários.

Hipótese da emissão secundária

Como já foi descrito, quando um material é atingido por raios X, ele emite outros
raios menos penetrantes (raios secundários) que foram estudados por Sagnac. Esses
raios secundários são absorvidos mais facilmente pela matéria (são menos penetrantes)
mas produzem efeitos fotográfico e de ionização mais fortes do que os primários (sendo,
por isso, mais fáceis de detectar)19. Os estudos de Sagnac haviam indicado que a
produção desses raios secundários é mais forte quando os raios X atingem substâncias
contendo os elementos de maior peso atômico, como o chumbo. Ora, o urânio era o
elemento de maior peso atômico conhecido e o tório era o elemento seguinte, na escala
decrescente de pesos atômicos; além disso, a radiação do urânio era semelhante aos
raios X moles. Não haveria alguma relação entre todos esses fatos?

Analogia com os raios secundários dos raios de Röntgen – As propriedades


dos raios emitidos pelo urânio e pelo tório são muito análogas [très analogues]
às dos raios secundários dos raios de Röntgen, estudados recentemente pelo Sr.
Sagnac. Constatei além disso que, sob a ação dos raios de Röntgen, o urânio, a
pechblenda e o óxido de tório emitem raios secundários que, do ponto de vista da
descarga dos corpos eletrizados, produzem geralmente mais efeito do que os
raios secundários do chumbo. Entre os metais estudados pelo Sr. Sagnac, o
urânio e o tório estariam colocados ao lado e além do chumbo (CURIE, 1898, p.
1103).

19 A correlação entre essas propriedades pode ser compreendida facilmente em termos de trocas de
energia. Uma radiação pouco penetrante é aquela que é absorvida facilmente e cuja energia, portanto, é
facilmente transmitida a outros materiais. Essa energia absorvida pelas substâncias é que produz efeitos
observáveis e, portanto, uma absorção mais fácil indica uma maior produção de efeitos observáveis.
Inversamente, uma radiação muito penetrante é mais difícil de ser detectada (pensem, por exemplo, nos
neutrinos atuais).
As primeiras investigações de Marie Curie 13

Para explicar a emissão de radiações pelo urânio e pelo tório, Marie Curie formulou
uma nova hipótese. Poderia existir em todo o espaço uma radiação desconhecida, difícil
de ser detectada, semelhante aos raios X duros (porém muito mais penetrantes). Essa
radiação poderia passar por chapas fotográficas e por outro materiais praticamente sem
ser absorvida e, por isso, sem ser notada. No entanto, ela seria absorvida e transformada
em radiação secundária menos penetrante ao atingir os elementos de maior peso
atômico. A emissão de radiação pelo urânio, pelo tório e seus compostos poderia ser um
fenômeno desse tipo, semelhante à fluorescência.

Para interpretar a radiação espontânea do urânio e do tório poder-se-ia


imaginar que todo o espaço está constantemente atravessado por raios análogos
aos raios de Röntgen porém muito mais penetrantes e que só poderiam ser
absorvidos por certos elementos de grande peso atômico, tais como o urânio e o
tório (CURIE, 1898, p. 1103).

Essa hipótese da emissão secundária tinha pequena fundamentação, não havendo


qualquer evidência de que existisse tal tipo de radiação “cósmica” 20. No entanto, ela
conduzia naturalmente à idéia de que apenas alguns elementos (de alto peso atômico)
seriam ativos como o urânio, apoiando portanto a hipótese da propriedade atômica.
Essas duas hipóteses, embora sem fundamentação experimental, reforçavam-se
mutuamente, e conduziram o pensamento de Marie Curie, sendo responsáveis em
grande parte pelo sucesso de suas investigações iniciais. Posteriormente, no entanto, a
hipótese da emissão secundária tornou-se um obstáculo, pois cessou de levar a novas
descobertas e impediu os Curie de desvendarem a natureza da radioatividade.
Aparentemente essa hipótese estava dirigindo o trabalho de Marie Curie logo após o
teste da calcolita artificial, pois no dia seguinte (1° de abril) ela realizou testes para
verificar se o urânio e o tório (ou seus compostos) emitiam uma radiação mais intensa
enquanto estavam sendo irradiados com raios X, procurando detectar uma radiação
secundária. A descrição desses experimentos não é muito precisa, mas de qualquer
modo confirma que a hipótese da emissão secundária estava guiando essa investigação.
Logo em seguida, Marie Curie se sentiu suficientemente segura para escrever seu
primeiro artigo sobre o assunto. Essa comunicação (um trabalho curto, com apenas 3
páginas) foi lido diante da Academia de Ciências de Paris por Gabriel Lippmann21. O
trabalho continha, essencialmente, os resultados obtidos durante esses primeiros meses
de pesquisa, dando maior ênfase à descoberta da radioatividade do tório. Esse artigo e os
que o sucederam (descoberta do polônio e do rádio) não serão descritos aqui. Eles serão
objeto de análise detalhada em um outro estudo, a ser publicado futuramente.

Conclusão

Quando se analisa o desenvolvimento do trabalho inicial de Marie Curie, a partir de


seus cadernos de laboratório e levando em conta o contexto da época, verifica-se que
seu trabalho experimental não foi guiado por uma mera busca empírica de novos

20 Aquilo que atualmente chamamos de radiação cósmica somente foi descoberto posteriormente, e não
tem semelhança com aquilo que Marie Curie imaginava.
21 Os trabalhos lidos diante da Academia de Ciências só eram apresentados pelos seus próprios autores
quando eles eram membros da Academia. Nos outros casos, era preciso que um membro da Academia se
tornasse avalista do trabalho, apresentando-o.
As primeiras investigações de Marie Curie 14

elementos radioativos, mas sim por uma série de hipóteses, e uma forte influência pelos
estudos de Sagnac sobre a radiação secundária emitida por metais atingidos pelos raios
X.
Já no seu primeiro artigo, publicado após poucos meses de investigação, Marie Curie
apresenta a hipótese da natureza atômica da radiação, que guiou suas pesquisas
posteriores. Em grande parte, o sucesso do trabalho dos Curie foi devido a essa hipótese
que não tinha fundamentação experimental, mas que era reforçada por uma outra
conjetura (a hipótese de emissão secundária) que também não era fundamentada.

Agradecimentos

O autor agradece o apoio recebido da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do


Estado de São Paulo) e do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e
Tecnológico), sem o qual teria sido impossível a realização desta pesquisa.

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22 Esta foi a tese de doutoramento de Marie Curie.


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23 Este artigo reproduz a tese de doutoramento de Perrin.


24 Publicado sob forma de separata com o título: Eine neue Art von Strahlen. Würzburg: Verlag und
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25 Publicado sob forma de separata com o título: Eine neue Art von Strahlen. II. Mittheilung. Würzburg:
Verlag und Druck der Stahel’schen K. Hof - und Universitäts- Buch- and Kunsthandlung, 1896.
Reproduzido também em: Annalen der Physik und Chemie [3] 64 (1): 12-7, 1898.
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__________________________

Roberto de Andrade Martins é doutor em Lógica e Filosofia da Ciência pela UNICAMP. É professor do
Departamento de Raios Cósmicos e Cronologia do Instituto de Física “Gleb Wataghin”, UNICAMP.
Endereço: Grupo de História e Teoria da Ciência, UNICAMP, Caixa Postal 6059, CEP 13081-970
Campinas, SP, Brasil. Endereço eletrônico: rmartins@ifi.unicamp.br
Quim. Nova, Vol. 30, No. 1, 83-91, 2007

MARCOS DA HISTÓRIA DA RADIOATIVIDADE E TENDÊNCIAS ATUAIS

Revisão
Allan Moreira Xavier, André Gomes de Lima, Camila Rosa Moraes Vigna, Fabíola Manhas Verbi, Gisele Gonçalves
Bortoleto, Karen Goraieb, Carol Hollingworth Collins e Maria Izabel Maretti Silveira Bueno*
Departamento de Química Analítica, Instituto de Química, Universidade Estadual de Campinas, CP 6154, 13084-971 Campinas - SP, Brasil

Recebido em 18/5/05; aceito em 14/2/06; publicado na web em 30/8/06

LANDMARKS IN THE HISTORY OF RADIOACTIVITY AND CURRENT TENDENCIES. The first days of radioactivity, the
discoveries of X-rays, radioactivity, of α- and β- particles and γ- radiation, of new radioactive elements, of artificial radioactivity, the
neutron and positron and nuclear fission are reviewed as well as several adverse historical marks, such as the Manhattan project and
some nuclear and radiological accidents. Nuclear energy generation in Brazil and the world, as an alternative to minimize environmental
problems, is discussed, as are the medicinal, industrial and food applications of ionizing radiation. The text leads the reader to
reflect on the subject and to consider its various aspects with scientific and technological maturity.

Keywords: the history oh radioactivity; nuclear accidents; beneficial uses of radioactivity.

AS DESCOBERTAS Becquerel, foi chamada de radioatividade pela polonesa Marie S.


Curie, em 18985,6, e logo passou a ser investigada por importantes
A descoberta dos raios-X nomes da época, tais como J. J. Thomson, e também por vários cien-
tistas em começo de carreira.
Na noite de 8 de novembro de 1895, o físico alemão Wilhelm C. Dessa forma, em 1900, pouco tempo após as descobertas de
Röntgen trabalhava em uma sala totalmente escura, utilizando uma Becquerel, o físico neozelandês Ernest Rutherford e o físico francês
válvula com a qual estudava a condutividade dos gases. A certa Pierre Curie identificaram, de forma independente e quase simulta-
distância da válvula, havia uma folha de papel tratada com neamente, dois tipos distintos de emissões oriundas dos elementos
platinocianeto de bário usada como tela. Röntgen viu com espanto radioativos. Essas radiações foram denominadas de partículas alfa
a tela brilhar, emitindo luz1. Achou que esta luz não poderia ser (α) e beta (β). No mesmo ano, o físico francês Paul U. Villard iden-
proveniente da válvula, pois a mesma estava coberta por uma car- tificou outra espécie de radiação eletromagnética, que também era
tolina negra e nada (luz ou raio catódico) poderia ter vindo dela. emitida por esses elementos, que denominou radiação gama (γ) 6.
Surpreso, fez várias investigações. Virou a tela, expondo o lado Em 1903, Rutherford propôs a existência do núcleo atômico e
sem o revestimento de platinocianeto de bário, e esta continuava a verificou-se posteriormente que a radioatividade, com suas emissões
brilhar. Colocou diversos objetos entre a válvula e a tela e viu que α, β e γ, era um fenômeno que ocorria com os núcleos instáveis de
todos pareciam transparentes, mas não demorou a ter uma surpresa alguns elementos químicos. Este fenômeno ficou conhecido como
maior, quando sua mão escorregou em frente à válvula e viu seus decaimento radioativo, onde os átomos do elemento original eram
ossos na tela. Registrou em chapas fotográficas suas observações e eventualmente transformados em novos elementos7. Também foi des-
só então teve certeza de que estava diante de algo novo. Em 28 de coberto que a velocidade do decaimento por unidade de massa é fixa
dezembro de 1895, Röntgen entregou à Sociedade Físico-Médica para qualquer radioelemento específico, não dependendo de sua com-
de Wurzburg, Alemanha, um relatório preliminar de sua descober- posição química ou de seu estado físico; porém, varia drasticamente
ta, descrevendo as pesquisas que fizera nas sete semanas anterio- de um radioelemento para outro. O decaimento poderia ser expresso
res: os objetos tornavam-se transparentes diante dos novos raios em termos de meia-vidas, que é o tempo que leva para a atividade de
que, por serem desconhecidos, chamou-os de raios-X 2. Em 1901, um radioelemento decair à metade do seu valor original.
Röntgen foi laureado com o primeiro Prêmio Nobel da Física. Mais Em 1913, os físicos F. Soddy, A. Russell e K. Fajans, em traba-
recentemente, seu nome foi dado ao novo elemento 111. lhos independentes, elaboraram uma generalização sobre as emis-
sões α e β, que ficou conhecida como Lei do Deslocamento: “Quan-
A descoberta da radioatividade: as partículas α e β e os raios γ do uma partícula alfa for emitida, o novo átomo será deslocado duas
casas à esquerda na Tabela Periódica. E quando for emitida uma
Antoine H. Becquerel, membro de uma família de quatro gera- partícula beta, o novo átomo estará deslocado uma casa à direita na
ções de físicos de renome, tinha grande interesse pelas áreas de Tabela Periódica”7. Os radioelementos que caíssem na mesma posi-
fosforescência e fluorescência moleculares. A descoberta de Röntgen ção da tabela periódica seriam quimicamente idênticos. Soddy pro-
o levou a fazer observações para verificar se substâncias fosforescentes pôs, para os elementos deste último caso, o nome de isótopos1,8.
ou fluorescentes emitiam raios-X. Seus primeiros resultados foram
negativos3. Com experimentos adicionais utilizando urânio, Becquerel As descobertas de novos elementos radioativos6,9
chegou à conclusão de que a radiação penetrante era originária do
próprio elemento e não tinha relação com o fenômeno da fluorescên- Em 1895, a polonesa Marya Sklodowska, que já adotara o nome
cia4. Esta radiação, que inicialmente ficou conhecida como raios de francês Marie, casou-se com Pierre Curie. Aparecia assim, para o
mundo científico, o casal Curie, dois dos pesquisadores mais notá-
*e-mail: bell@iqm.unicamp.br veis de todos os tempos. À procura de um tema para sua tese de
84 Xavier et al. Quim. Nova

doutorado, Marie interessou-se profundamente pelos trabalhos do A descoberta do pósitron


físico Antoine H. Becquerel. Marie e Pierre Curie começaram en-
tão a pesquisar de onde eram provenientes as radiações observadas Prevista teoricamente por P. A. M. Dirac em 1928, foi comprova-
por Becquerel no minério de urânio. Para isso, instalaram, em um da a existência do “elétron positivo” por C. D. Anderson em 1932,
lugar úmido da Escola de Física e Química em Paris, alguns instru- em estudos das interações dos raios cósmicos em uma câmara de
mentos de detecção, incluindo alguns construídos por Pierre e seu nuvens (“cloud chamber”), que também sugeriu o nome “pósitron”
irmão, Jacques. Usando um eletroscópio e, mais tarde, o seu novo para esta nova entidade. O pósitron, similar às partículas α e β, é
piezoeletrômetro, o casal Curie conseguiu medir tais radiações, afir- encontrado nas desintegrações de radionuclídeos artificiais12.
mando que eram uma propriedade intrínseca do elemento urânio.
Sua intensidade era proporcional à quantidade de urânio presente A descoberta da fissão nuclear
na substância, não dependendo da combinação química, da fase de
agregação, nem das condições exteriores. Por volta de 1934, o físico italiano Enrico Fermi notou que o
O casal Curie descobriu ainda que o urânio não era o único bombardeamento do núcleo de certos átomos com nêutrons de
elemento que apresentava essa propriedade. Os sais de tório emiti- velocidade moderada fazia com que o núcleo capturasse o nêu-
am radiações semelhantes. tron. Isso levou Fermi a concluir que o bombardeamento do urâ-
Como resultado de todo esse longo trabalho, iniciado pelo físi- nio (Z=92) com nêutrons moderados deveria produzir elementos
co alemão Röntgen, que teve prosseguimento com os trabalhos de transurânicos (Z>92), até então desconhecidos. Ele e sua equipe
Becquerel e de Pierre e Marie Curie, nasceu o estudo do fenômeno fizeram algumas experiências nesse sentido, sem isolar nenhum
da radioatividade. Por suas descobertas, Becquerel, Pierre e Marie elemento novo13.
Curie foram laureados com o prêmio Nobel de Física em 1903. Realizando experiências similares, os químicos Otto Hahn e Fritz
Pierre e Marie Curie foram ainda mais longe: em uma comuni- Stassmann, em 1938, detectaram a presença de bário (Z=56), após o
cação à Academia de Ciências, em 12 de abril de 1898, anuncia- bombardeamento do urânio com nêutrons moderados. A explicação
ram que a pechblenda – um minério contendo óxido de urânio - era para o fato foi dada por uma cientista da equipe, a física austríaca
bem mais radioativa que o urânio metálico isolado. Isso significa- Lise Meitner, e por seu sobrinho, o físico Otto R. Frisch: “O núcleo
va que o minério continha, além do urânio, outro elemento radioa- do átomo de urânio é instável e, ao ser bombardeado com nêutrons
tivo. Conseguiram do governo austríaco uma tonelada de moderados, rompe-se praticamente ao meio, originando dois núcleos
pechblenda, proveniente das minas de Joachimstal e, em julho de de massa média e liberando 2 ou 3 nêutrons, além de mais energia”.
1898, anunciaram que haviam conseguido isolar da pechblenda um A esse fenômeno foi dado o nome de fissão nuclear14.
metal que, na tabela periódica, seria vizinho do bismuto. Em ho- Durante muitos anos, Meitner foi indicada para o prêmio Nobel,
menagem à pátria de Marie, este novo elemento foi chamado de mas nunca recebeu essa homenagem. Mas, em 1998, a IUPAC con-
polônio. No final do mesmo ano, anunciaram a descoberta de outro firmou o nome Meitnério para o elemento 109. Alguns consideram
elemento radioativo isolado da pechblenda – o rádio. essa homenagem maior e mais justa que um Nobel7.
Marie Curie passou mais quatro anos trabalhando com a
pechblenda, até conseguir isolar uma quantidade significativa de OUTROS MARCOS NA HISTÓRIA DA RADIOATIVIDADE
rádio, determinar a massa atômica (226) e algumas de suas propri-
edades, como o fato de ser 1,4 milhões de vezes mais radioativo O projeto Manhattan15-17
que o urânio. Em 1911, recebeu seu segundo Nobel, agora de Quí-
mica, por essas últimas descobertas. O desenvolvimento da indústria nuclear começou com a Segunda
Pierre Curie morreu, tragicamente, em 1906, após ter sido atro- Guerra Mundial. Em uma carta ao presidente Franklin Roosevelt
pelado. Marie Curie morreu de leucemia com 67 anos, em 4 de enviada em agosto de 1939, o físico Albert Einstein, ganhador do
julho de 1934, provavelmente vítima das radiações a que ficara Prêmio Nobel de física em 1921, afirmava que os EUA deveriam
exposta durante grande parte de sua vida. priorizar o desenvolvimento de uma bomba baseada em energia nu-
clear, antes que os alemães a fizessem, pois já estavam tentando pu-
A descoberta da radioatividade artificial rificar o 235U. Dessa forma, em outubro de 1939, Roosevelt autorizou
o governo a custear a pesquisa atômica através da “Advisory
Em janeiro de 1934, o casal Irène Curie e Frédéric Joliot, filha e Committee on Uranium”, presidida por Lyman Briggs. Em fevereiro
genro de Marie Curie, respectivamente, descobriram a radioativida- de 1940, esta comissão concedeu a Enrico Fermi e Leo Szilard um
de artificial. Através do bombardeamento de uma folha de alumínio- contrato para iniciar a construção de uma pilha nuclear (um tipo de
27 com partículas α, observaram a criação de um novo isótopo radi- reator nuclear subcrítico), na Universidade de Columbia.
oativo, ou radioisótopo, o fósforo-30. Este experimento mostrou ser Na Universidade de Chicago, Arthur Compton observava o pro-
possível fabricar radioisótopos que não existiam na natureza, através gresso da pesquisa com grande interesse, pois tinha por objetivo
do bombardeamento de um núcleo estável. Por esta descoberta, fo- estabelecer um laboratório de pesquisa em física atômica naquela
ram laureados em 1935 com o prêmio Nobel de Química9,10. universidade. Usando seus contatos com importantes cientistas,
Compton assegurou a participação da Universidade de Chicago nas
A descoberta do nêutron pesquisas pioneiras sobre energia nuclear.
Compton também estava determinado a concentrar os estudos
Nos anos 20, Rutherford, na Inglaterra, W. D. Harkins, nos EUA, e de reação em cadeia em um único lugar. Assim, Fermi e Szilard,
Orme Masson, na Austrália, propuseram, de forma independente, a junto com Eugene Wigner, Glenn Seaborg e vários outros pesquisa-
possível existência de uma outra partícula, sem carga, que chamaram dores juntaram-se na Universidade de Chicago, para comprovar a
de “nêutron”, que resultaria da combinação de um elétron (negativo) e viabilidade da reação nuclear auto-sustentável. Para isto, empilharam
um próton (positivo). Somente em 1932, James Chadwick, na Inglater- blocos de grafite intercalados com barras de urânio natural metáli-
ra, comprovou a existência do nêutron, após irradiação de uma folha de co, purificado, em uma velha quadra de “squash”, em baixo do es-
berílio com partículas α, oriundas do decaimento do polônio11,12. tádio “Stagg Field” da Universidade de Chicago. Dessa forma, em
Vol. 30, No. 1 Marcos da história da radioatividade e tendências atuais 85

dezembro de 1942, surgia o primeiro reator nuclear auto-sustentá- O governo dos Estados Unidos justificou-se, alegando que essa era a
vel, chamado de “Chicago Pile 1” (CP-1). forma mais rápida de encerrar, de uma vez por todas, a Segunda
Nesse mesmo ano, surgia o “Projeto Manhattan”, que tinha por Guerra Mundial. Mesmo após seis décadas, este debate continua.
objetivo desenvolver e construir armas nucleares. Tal projeto foi
assim chamado por estar ligado ao Distrito de Engenharia de O acidente de Windscale
Manhattan, do Exército dos EUA, e porque boa parte da pesquisa
inicial foi realizada neste distrito da cidade de Nova York. Em 1957, fogo em um reator moderado por grafite e resfriado
O sucesso não tardou e, no dia 16 de julho de 1945, no estado por gás carbônico permitiu a liberação de mais de 700 terabequeréis
do Novo México nos EUA, a primeira bomba atômica da história, (700 x 1012 Bq) de radionuclídeos, principalmente 131I e 137Cs. Por
conhecida como “Gadget”, foi detonada. J. R. Oppenheimer foi o um período, a venda de leite oriundo dos rebanhos locais foi proibi-
responsável por convidar um grupo de cientistas americanos, junto da. Felizmente, devido ao decaimento natural da radiação deposita-
com alguns refugiados europeus, para Los Alamos, e dirigir o proje- da, a terra hoje não apresenta contaminação detectável1.
to. Esta bomba era composta de duas pequenas bolas de plutônio,
recobertas por níquel e em cujo centro estava um núcleo de berílio O acidente de Three Mile Island
e urânio. A explosão experimental, chamada “Trinity”, foi produzi-
da pela união das duas bolas por explosivos convencionais Em março de 1979, a usina nuclear americana de Three Mile
(“implosão”) e aconteceu no meio do deserto do Novo México, a Island, na Pensilvânia, foi local de um acidente nuclear causado por
cerca de 100 km da cidade de Alamogordo, região habitada apenas falha de equipamento e erro operacional em avaliar as condições do
por formigas, aranhas, cobras e escorpiões. reator. A falha de equipamento causou uma perda gradual de água de
resfriamento no núcleo do reator, o que resultou em fusão parcial das
Hiroshima e Nagasaki15,18,19 varetas do elemento-combustível, com liberação de material radioa-
tivo no interior do edifício, inclusive gases, principalmente Xe, Kr e
Na manhã de 6 de agosto de 1945, em Hiroshima, Japão, um traços de iodo, também liberados à atmosfera. Nenhuma radioativi-
avião americano B-29, chamado Enola Gay, soltou uma bomba dade foi encontrada depositada no solo. Embora não tenham sido
atômica denominada “Little Boy”, que detonou 580 m acima do registradas doenças ou mortes devido a este acidente, gerou grande
centro da cidade. “Little Boy”, assim chamada em alusão a Franklin preocupação em relação à segurança das usinas nucleares de potên-
Roosevelt, tinha 3,2 m de comprimento, 74 cm de diâmetro, pesava cia por parte do público norte-americano. Como resultado, nenhum
4,3 t e tinha uma potência equivalente a 12,5 mil t de TNT, provido novo reator de potência foi instalado nos EUA desde este período20.
de uma bala de 2,26 kg de 235U, disparada em um alvo de 7,71 kg de
235
U. Quando as duas peças se encontram, ocorre uma reação em O acidente nuclear de Chernobyl
cadeia. Como resultado do ataque, pela liberação intensa de calor e
ocorrência de incêndios, a cidade de Hiroshima foi destruída e 90 Em 26 de abril de 1986, ocorreu o mais grave acidente nuclear
mil pessoas morreram naquele mesmo dia. da história, em Chernobyl, na atual Ucrânia. A explosão de um dos
Três dias após destruir Hiroshima, outro avião B-29 atacou a ci- quatro reatores da usina nuclear soviética de Chernobyl, localizada
dade de Nagasaki. A bomba utilizada, chamada de “Fat Man” em a 129 km ao norte de Kiev, lançou na atmosfera uma nuvem radio-
alusão a Winston Churchill, consistia de dois hemisférios de plutônio ativa de 3,7x1018 Bq, desencadeada por uma reação em cadeia fora
unidos por explosivos convencionais, tinha 3,25 m de comprimento e de controle. A força da explosão liberou uma nuvem radioativa que
1,52 m de diâmetro, pesava 4,5 t e tinha uma potência equivalente a atingiu a parte oeste da antiga União Soviética, hoje os países de
22 mil t de TNT. O ataque resultou em mortes imediatas de 40 mil Belarus, Ucrânia e Rússia, e todo o norte e centro da Europa21,22.
pessoas. As conseqüências não foram maiore porque o terreno mon- Três dias após a explosão, nenhum comunicado ainda havia sido
tanhoso protegeu o centro da cidade. Os estragos materiais foram feito pelo governo soviético a respeito do acidente nuclear em
menos arrebatadores que em Hiroshima, mas, 12 h depois, era visí- Chernobyl. As autoridades soviéticas só assumiram o ocorrido após
vel o fogo em Nagasaki, a mais de 320 km de distância. Nagasaki, na o governo da Suécia ter detectado altos níveis de radiação no sul de
verdade, era o objetivo secundário; foi atingida porque as condições seu país, correlacionando com a direção do vento, e ter anunciado
meteorológicas de Kokura, o alvo principal, impediriam que os efei- que um grave acidente havia ocorrido em algum lugar da União
tos destrutivos da bomba fossem verificados. Soviética. Um satélite americano varreu a região da Ucrânia, en-
Até o final de 1945, 145 mil pessoas tinham morrido em contrando uma usina com o teto destruído e o reator ainda em cha-
Hiroshima e 75 mil em Nagasaki. Milhares de pessoas sofreram mas, com fumaça vertendo do interior. Mas, Mikhail Gorbáchov,
ferimentos sérios. Devido aos efeitos da radiação, várias mortes então presidente, demorou 18 dias para comentar o acidente, só o
ocorreram nos anos seguintes, e causaram também nascimentos de fazendo em 14 de maio22. O total oficial de mortos diretamente re-
bebês com má formação genética. lacionado ao acidente no reator foi de 31 pessoas, devido à partici-
A maioria das vítimas afetadas pelas bombas atômicas de pação direta no combate aos incêndios da unidade. Outros 237 tra-
Hiroshima e Nagasaki era civil, sendo que aquelas que estavam balhadores foram hospitalizados com sintomas da exposição aos
mais próximas do epicentro das explosões foram incineradas, en- altos níveis da radiação ao redor do reator. Muitas destas vítimas
quanto que as mais distantes receberam a radiação em altas doses, apresentaram queimaduras e outros tipos de lesões21.
o que provocou mortes dolorosas. Mesmo hoje, mais de seis déca- Mais de 40 radionuclídeos diferentes escaparam do reator em
das após o ataque com bombas nucleares, os sobreviventes ainda conseqüência do incêndio nos primeiros 10 dias após o acidente,
sofrem com as lembranças dos ataques. entre eles elementos e compostos altamente voláteis, como iodo (I-
Assim como as pessoas e as estruturas físicas das duas cidades 131), sais de césio (Cs -137) e estrôncio (Sr-90). Césio radioativo,
sofreram conseqüências graves com a radiação das bombas atômi- com meia-vida de 30 anos, foi o isótopo disperso mais perigoso,
cas, o meio ambiente também foi inteiramente afetado. tendo contaminado uma região entre 125.000 e 146.000 km2 22.
A ação americana foi considerada por alguns como uma demons- Baseado em dados oficiais, estima-se que 8.400.000 pessoas em
tração desnecessária de crueldade contra a população civil japonesa. Belarus, Ucrânia e Rússia foram expostas à radiação. Aproximada-
86 Xavier et al. Quim. Nova

mente 155.000 km2 do território desses três países foram contamina- formar o público, um aspecto cuja importância foi particularmente
dos, o que equivale a quase metade do território total da Itália22. Na evidenciada durante o acidente e seus resultados25.
Ucrânia, 35.000 km2 de florestas foram contaminadas, 40% do total23. Outra lição, de importância política, diz respeito à reclamação
Com a ajuda de helicópteros, começou-se a jogar sobre o reator das terras contaminadas. A contaminação, particularmente em meios
toneladas de uma mistura de areia, argila, dolomita (bicarbonato de florestais, tende a alcançar uma estabilidade ecológica. Inicialmente,
cálcio e magnésio), boro e chumbo. Após a extinção das chamas, a pensou-se que os níveis de radiação declinariam devido a processos
unidade 4 do reator foi selada com aço e concreto, através da constru- de remoção natural, porém, isto não provou ser a regra. Pelo fato da
ção de paredes externas e de um teto, sob a forma de uma tampa. persistência de contaminação, a importância do envolvimento da par-
Apesar disso, essa estrutura não é resistente e atualmente há planos te interessada no desenvolvimento de projetos relacionados à vida
para sua reconstrução. Aproximadamente 200.000 pessoas em territórios contaminados foi destacada, sendo que as pessoas mais
(“liquidators”) de todas as partes da antiga URSS se envolveram no afetadas devem ser diretamente envolvidas nas decisões, para que as
trabalho de cobertura e limpeza do local da explosão, recebendo altas mesmas sejam aceitáveis no convívio com a contaminação25.
doses de radiação. Em abril de 2002, a Comissão de Segurança Radi- De qualquer modo, a comunidade internacional demonstrou uma
oativa do governo ucraniano informou que os níveis de radioativida- notável capacidade de aprender e estimar as lições extraídas deste
de em Chernobyl estavam aumentando. O sarcófago de concreto em evento, de modo que estará mais bem preparada para lidar com
que é mantido o que resta do combustível nuclear da usina estava, desafios futuros desta natureza, de uma forma mais flexível25.
inclusive, tendo aumento em sua temperatura24.
Após 36 h do acidente, toda a população de Pripyat, cidade onde O acidente radioativo de Goiânia6,26
moravam os trabalhadores do complexo de reatores, começou a ser
evacuada, alcançando um raio de 10 km da planta da usina. Em 4 de Em 13 de setembro de 1987, uma cápsula de césio-137, abandona-
maio, foi feito um cerco em um raio de 30 km (2.800 km2) ao redor de da há 2 anos nos escombros do antigo Instituto Goiano de Radiologia
Chernobyl, conhecido como zona de exclusão, o que elevou o número (IGR) – desativado depois de sofrer uma ação de despejo – foi removi-
de evacuados para 116.000. Nos anos seguintes ao acidente, a zona da por dois sucateiros, violada e vendida como ferro-velho. Entre a
de exclusão foi modificada e estendida para 4300 km2 24. retirada da cápsula da clínica em ruínas e a descoberta do fato pelas
Além das mortes diretamente ligadas ao acidente, verifica-se um autoridades, dezenas de moradores de Goiânia conviveram com um
aumento comprovado e contínuo no número de casos de câncer, prin- material radioativo cuja periculosidade era desconhecida. Atraídos pela
cipalmente de tireóide, especialmente nas pessoas que eram crianças intensa luminescência azul do sal do césio-137, adultos e crianças o
ou jovens na época do acidente. Parte deste problema foi relacionado manipularam e distribuíram entre parentes e amigos. Os primeiros sin-
à falha do governo da União Soviética em não admitir a ocorrência do tomas da contaminação (náuseas, vômitos, tonturas e diarréia) apare-
acidente em tempo hábil, impedindo assim a distribuição de compri- ceram algumas horas após o contato com o material. O saldo dessa
midos de iodeto de potássio, que é a melhor maneira de se evitar a experiência foi a morte de 4 pessoas, a amputação do braço de outra e
presença de iodo radioativo na tireóide. Tais comprimidos foram dis- a contaminação, em maior ou menor grau, de mais de 200 pessoas. Um
tribuídos na Polônia e outros países da Europa, fazendo com que complexo encadeamento de fatos resultou na contaminação de três de-
nesses lugares, o número de casos de câncer relacionados ao acidente pósitos de ferro-velho, e diversas residências e locais públicos. As pes-
de Chernobyl tenha sido desprezível. soas contaminadas procuraram farmácias e hospitais, sendo posterior-
Outra conseqüência, ainda presente, é a distribuição da radioa- mente medicadas como vítimas de alguma doença infecto-contagiosa.
tividade pelo efeito das chuvas e inundações da primavera, quando Somente em 29 de setembro, aqueles sinais foram identificados
a neve derrete. O material radioativo ainda presente no solo da como característicos da síndrome da radiação. Alguns pacientes já
zona de exclusão pode se espalhar ainda mais, através da erosão tinham sido recebidos pelo Hospital de Doenças Tropicais de Goiânia
pelo vento, incêndios na floresta e transporte pelos rios23. (HDT) e um dos médicos consultou a Secretaria de Saúde de Goiás,
As lições que puderam ser aprendidas com o acidente foram nu- cabendo ao físico Walter M. Ferreira, que ali trabalhava, dar o alar-
merosas e em várias áreas, incluindo a segurança do reator e admi- me. Ferreira obteve da agência local da NUCLEBRÁS um cintilômetro
nistração em caso de acidentes severos, critérios de intervenção, pro- e foi até a sede da Vigilância Sanitária, onde uma peça da cápsula
cedimentos de emergência, comunicação, tratamento médico das pes- tinha sido posta sobre uma cadeira; o medidor confirmou a hipótese,
soas irradiadas, métodos de monitoramento, processos radioecológicos, ali estava a origem de tudo. Com esta evidência, desencadeou-se uma
supervisão da região e da agricultura, informação pública, etc25. grande operação para tratar as pessoas contaminadas com o 137Cs,
De qualquer forma, a lição mais importante foi a de que prova- avaliar a extensão da contaminação e, posteriormente, remover todos
velmente um acidente nuclear grave teria implicações não só in os traços da radioatividade dos locais contaminados. Este procedi-
loco ou em países vizinhos, mas suas conseqüências poderiam afe- mento foi realizado com sucesso, sob a supervisão de funcionários da
tar, direta ou indiretamente, muitos países, a grandes distâncias do Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN).
local do acidente. Por isso, foi estabelecido um esforço extraordi-
nário para expandir e reforçar a cooperação internacional em di- ENERGIA NUCLEAR
versas áreas, tais como a comunicação, harmonização dos critérios
de administração de emergência, informação, coordenação de ações Reatores de potência
protetoras e mecanismos internacionais de cooperação25.
Muitos países foram induzidos a estabelecer planos de emer- Os primeiros reatores nucleares foram construídos com a finali-
gência, nas áreas científicas e técnicas, junto a novas pesquisas com dade de produzir o plutônio-239, a partir da reação de um nêutron
relação à segurança nuclear, especialmente no gerenciamento de com o urânio-238, para uso em bombas atômicas. Por outro lado,
acidentes nucleares sérios. Este novo clima levou à expansão dos desde a comprovação da reação nuclear auto-sustentável controla-
conhecimentos sobre os efeitos prejudiciais da radiação e seus tra- da, o uso da energia produzida pela reação nuclear para a produção
tamentos médicos, além de revitalizar a pesquisa radioecológica e de energia elétrica foi considerado plausível. Inúmeros conceitos
programas de monitoramento ambiental. Foram alcançados melho- para tais reatores de potência foram propostos, com diferentes
ramentos substanciais na definição dos critérios e métodos para in- modelos sendo construídos. Alguns, como os de água pressurizada,
Vol. 30, No. 1 Marcos da história da radioatividade e tendências atuais 87

enfatizam a produção de energia, enquanto outros, por ex., os com


moderador de grafite, têm a dupla função de produzir energia elé-
trica com um rendimento maior de plutônio (combustível para a
fabricação de bombas de fissão)1.
O desenvolvimento da indústria de reatores de potência foi ace-
lerado a partir da crise do petróleo em 1973, para diminuir a de-
pendência energética dos países ocidentais em relação ao mundo
árabe15. Atualmente, 18% da eletricidade consumida no mundo é
proveniente de reatores nucleares (principalmente nos Estados
Unidos, Rússia, França e Japão), sendo que cerca de 438 reatores
de grande porte estão em funcionamento. A eletricidade produzida
em usinas hidroelétricas, no mundo todo, é também aproximada-
mente de 18%. O restante é gerado pela queima de carvão, gás
natural e derivados de petróleo27.

Usinas nucleares no Brasil


Figura 1. Pesquisa realizada na “Web of Science” em setembro de 2004,
Os primeiros trabalhos registrados no Brasil em pesquisa cien- utilizando as palavras-chave descritas no gráfico acima
tífica nuclear datam de 1934, na Universidade de São Paulo, com a
entrada de cientistas estrangeiros que formaram os primeiros físi- a atenção da população mostrando o avanço da ciência no que diz
cos voltados ao estudo da constituição básica da matéria. Nos anos respeito ao uso da radiação e energia nuclear, deixando de lado a
seguintes, foram feitas pesquisas em São Paulo e na Guanabara burocracia, que pode estar impedindo avanços tecnológicos, por má
(então Distrito Federal), quando muitos estudantes brasileiros fo- interpretação de informações e uso inadequado dessas técnicas.
ram se especializar no exterior, criando posteriormente centros de
pesquisas nacionais nesta área15. APLICAÇÕES DA RADIAÇÃO E RADIOATIVIDADE
No Brasil, o programa nuclear teve início em 1969, quando o
governo assinou contrato com a “NUS Corporation”, para Considerações gerais
assessoramento na implantação de uma usina nuclear. Em junho de
1970, Furnas convidou empresas estrangeiras para propor a instala- Pode-se dizer que a potencialidade do uso de radiação, radionu-
ção da nova usina nuclear e, no ano seguinte, os projetos foram ana- clídeos e energia nuclear foi marcada por alguns períodos. O pri-
lisados. A usina de Angra l, do tipo água pressurizada, foi comprada meiro período de estudo da radioatividade é direcionado estrita-
da Westinghouse (EUA), com capacidade de produção de 626 MW mente à descoberta de novos elementos radioativos e ao entendi-
(5% da capacidade instalada de Itaipu), sem haver transferência de mento das leis principais que regem o comportamento das espécies
tecnologia. A usina foi instalada em Angra dos Reis na praia de Itaorna, radioativas. No segundo período, que engloba os anos 40 a 50, as
que significa “pedra-podre” em tupi-guarani. Angra I foi apelidada investigações radioquímicas foram focalizadas para utilização prá-
de “vagalume”, tal é a incidência de problemas técnicos que obriga tica da energia nuclear, estudo das propriedades químicas dos ele-
que seja desligada com uma freqüência maior que a normal15. mentos artificialmente obtidos12, desenvolvimento de tecnologia de
Em 1975, o Brasil assinou um acordo nuclear com a Alemanha, processamento de energia nuclear como combustível e resolução de
através da Siemens. Previa-se, inicialmente, a construção de oito usi- problemas ligados a aterros de lixo radioativo31. Pode-se dizer que
nas, com transferência de tecnologia. Apenas as obras de Angra ll e estes aspectos ainda estão em constante estudo, embora outros tam-
lll foram iniciadas e somente a usina Angra II foi concluída15,28. Angra bém tenham surgido, como será abordado mais adiante.
II começou a operar somente em 200015,29, após quase 20 anos de Nos anos 50, o desenvolvimento intenso da técnica analítica
construção, a um custo de cerca de US$ 10 bilhões. O Conselho Na- baseada na análise por ativação com nêutrons foi fortemente esti-
cional de Política Energética (CNPE), através da resolução nº 8 de 17 mulado, devido à necessidade de se empregar novos materiais para
de Setembro de 2002, autorizou a Eletronuclear a adotar as medidas a tecnologia nuclear (carbono de alta pureza, berílio, zircônio e
necessárias à retomada do empreendimento de Angra III28. outros). Considerando a tecnologia em desenvolvimento naquele
período, a análise por ativação com nêutrons propiciou a detecção
A energia nuclear e o meio científico de impurezas nestes materiais, devido a sua maior detectabilidade,
em comparação aos métodos analíticos convencionais. Nos anos
Para se ter um panorama geral de como a comunidade científica 60 a 70, foi dada atenção especial para a análise de diferentes
tem se portado com relação ao emprego da energia nuclear nas dife- semicondutores (germânio, gálio, telúrio, entre outros), que são
rentes áreas do conhecimento, foi realizada uma pesquisa na “Web empregados em detectores e materiais geológicos31.
of Science”30, com algumas palavras-chave (Figura 1). A partir dos anos 60, observa-se uma gradual conscientização das
Analisando esta figura, é possível notar que os números relativos conseqüências do uso da matéria radioativa. A atenção principal foi
de publicações científicas na área de interesse deste trabalho têm voltada para o desenvolvimento sustentável, incluindo alguns aspec-
aumentado após o acidente de Chernobyl, ocorrido em 1986. Ainda tos: recuperação de territórios poluídos, estudo dos radionuclídeos
se pode observar que, com exceção do uso da energia nuclear como a naturais, redução da quantidade inevitável de lixos radioativos (para
terceira fonte de energia (comparada aos combustíveis), o avanço nas a tecnologia nuclear atual) e desenvolvimento de tecnologia para
pesquisas ocorreu exatamente a partir de 1987, o que parece estar de estocagem de lixo radioativo por um longo prazo31.
acordo com o avanço da tecnologia. Também é interessante ressaltar As inúmeras aplicações da radioquímica estão correlacionadas
que, atualmente, a medicina nuclear é a área que mostra o maior com o emprego dos radionuclídeos como ferramentas em análises
interesse na utilização da energia nuclear, seguida da área química e, e controle de processos. As razões para o uso desta tecnologia são
por fim, da área física. De qualquer forma, seria conveniente chamar uso econômico de materiais puros e melhorias na segurança
88 Xavier et al. Quim. Nova

operacional. Estes fatores foram válidos desde aproximadamente cos para determinados ligantes. Essas descobertas trazem avanços
os anos 50. No entanto, a partir do final da década de 70, percebe- significativos para a medicina, no que diz respeito a diagnósticos
se a estagnação no desenvolvimento de novas aplicações. Vogg32 mais eficientes, considerando a seletividade. De qualquer forma,
acredita que houve um ceticismo generalizado, no qual o emprego inovações importantes estão em constante aperfeiçoamento no que
da radioatividade foi relacionado a algo sem propósito. Além dis- se refere ao avanço do uso de radionuclídeos e radiação ionizante
so, o autor acredita que a dificuldade maior para emergir se deveu voltada para área médica.
muito mais à necessidade de melhoria nos sistemas de medidas A radioterapia teve origem na aplicação do elemento rádio pelo
das técnicas. Isto foi atribuído ao fato de que as medidas estavam casal Curie, para destruir células cancerosas, e foi inicialmente conhe-
restritas muitas vezes às condições de operação, como ex., tempe- cida como “Curieterapia”26. Posteriormente, outros radioisótopos pas-
ratura e falta de estabilidade por tempos longos. saram a ser usados, apresentando um maior rendimento. Sempre exis-
Nos dias de hoje, a maioria destes problemas foi sanada e uma tiu uma grande preocupação em reduzir a quantidade e o poder de
ampla faixa de aplicações de radiação e radiatividade é encontrada na penetração da radiação utilizada, devido principalmente à grande con-
literatura. Alguns exemplos são apresentados nos parágrafos a seguir. trovérsia que envolve a radiação, que ora é a causadora de doenças e
ora é utilizada no tratamento terapêutico dessas mesmas doenças.
Medicina Nesse contexto, uma aplicação muito interessante do
radionuclídeo 90 Y 3+, na forma de [ 90Y-DOTA 0,Tyr 3]octreotide
Como já foi observada na Figura 1, uma das grandes áreas que (OctreoTher®), está descrita no trabalho realizado por Breeman e
mostram o uso de radiação e material radioativo é a medicina. Um colaboradores39 que visa redução do acúmulo de radionuclídeos em
dos ramos da medicina nuclear é chamado de cintilografia, uma das ossos. Pacientes que se submetem a determinadas doses de radiação,
grandes tendências atuais. A cintilografia pode ser considerada como geralmente maiores que 3 x 1010 Bq, podem acumular radioisótopos
uma das técnicas mais eficientes para obtenção de diagnóstico de nos ossos. A presença de DTPA (dietileno-triamina-pentacetato) nas
patologias, por avaliar o funcionamento fisiológico de determinadas soluções injetadas possibilitou a excreção desse elemento com cinética
estruturas, diferentes das demais (radiografia, tomografia, ultra- longa, evitando assim seu acúmulo nos ossos. Isso ressalta a comple-
sonografia)33. A técnica de investigação por imagens geralmente em- xidade que existe nos estudos dos métodos terapêuticos baseados em
prega a chamada Câmara Gama, para detectar a radiação γ proveni- radionuclídeos, que devem também ter atenção voltada para a forma
ente das substâncias radioativas (chamadas de “traçadores”), que e velocidade de eliminação desses isótopos.
são ingeridas pelos pacientes e atraídas para órgãos específicos. A Recentemente, Kato e colaboradores40 relataram resultados dos
detectabilidade avançada permite observar alterações na função de primeiros estudos envolvendo íons carbono acelerados para atuar
órgãos, antes mesmo que o problema esteja em estágio muito avan- em carcinomas hepáticos, como em sessões de radioterapia, salien-
çado. Hoje, os radiofármacos usados em medicina nuclear no Bra- tando a importância do uso desse elemento que se mostra seguro e
sil são, em grande parte, produzidos pelo Instituto de Pesquisas eficiente. De qualquer forma, o grande mérito desse artigo está vol-
Energéticas e Nucleares (IPEN), da CNEN34 em São Paulo. tado para uma nova alternativa na radioterapia, baseada em ele-
A medicina nuclear concentra uma variedade de exames que po- mentos não radioativos. A partícula acelerada tem se mostrado pro-
dem ser feitos através da aplicação do material radioativo, sendo que missora, considerando os resultados alcançados nesse trabalho, de
os radionuclídeos 99mTc e o 125I são os mais freqüentemente utilizados. forma que o método se apresentou bastante eficiente na destruição
111
In, 201Tl, 18F, 67Ga, 11C, entre outros também são empregados35. Os do carcinoma estudado.
diagnósticos mais comuns são localização e acompanhamento do de-
senvolvimento de câncer, principalmente de mama e próstata; con- Química
trole evolutivo em tratamentos cirúrgicos; estudos de áreas cardíacas
isquêmicas, ventilação e perfusão pulmonar; pesquisas de nódulos Considerando o uso da radioatividade em diferentes áreas da
tireoidianos, infecções e lesões do sistema músculo-esquelético, fo- química, é interessante ressaltar novamente a ambigüidade do ter-
cos epilépticos e diagnóstico de morte cerebral. As cintilografias mais mo, voltada aqui para a contradição: contaminação versus uso em
comuns são: óssea, pulmonar, de perfusão miocárdica, cerebral, de técnicas analíticas.
tireóide, hepato-esplênica, vias biliares, vias linfáticas, lacrimais, No que se refere à contaminação por elementos radioativos, a
pesquisa de hemorragias digestivas, refluxo gastro-esofágico, esvazi- tendência atual em química e, mais especificamente em química ana-
amento gástrico, renal estática, renal dinâmica, avaliação de trans- lítica, é a descoberta e monitoramento de contaminação e o desenvol-
plante renal e pesquisa de infecções. Até mesmo o corpo inteiro pode vimento de métodos e aperfeiçoamento de técnicas que visem a de-
ser monitorado através de cintilografia35,36. terminação de radioisótopos com segurança no laboratório.
Um trabalho recente mostra a versatilidade da técnica de No que se refere à segurança destes laboratórios, é interessante
cintilação37, no qual é feito um monitoramento dos efeitos do PEG comentar o trabalho de Arikan e colaboradores41, que estão pro-
(polietilenoglicol) sobre a polietilenimina (PEI), empregando imagem pondo o estabelecimento de um sistema de qualidade para labora-
nuclear com uma câmera gama e o radioisótopo 99mTc, considerando tórios analíticos nucleares. Hoje, nos programas de controle e ga-
que a PEI é um agente extensivamente investigado como antivírus. rantia de qualidade, é considerada uma política de qualidade, orga-
Nesse caso, o estudo revela uma melhora na especificidade do marcador nização, métodos e registros de laboratórios analíticos nucleares,
com o aumento de substituições do PEG na PEI, além de proporcionar necessários para melhorar a produtividade, performance, credibi-
estudos de otimização, visando minimizar interações não específicas. lidade e reputação desses laboratórios. Nesses casos, segue-se um
Em 2004, Courtyn e colaboradores38 sintetizaram e avaliaram a manual de qualidade e trabalha-se de acordo com a ISO 17025,
11
[ C]-acetilomotaurina como um novo agente de imagens para o es- com fiscalização externa, seja de clientes ou de auditores. Os auto-
tudo de propriedades farmacodinâmicas, ilustrando assim o com- res estabelecem um sistema modelado no projeto da Agência Inter-
portamento fisiológico de fármacos. Os autores apresentaram o uso nacional para Energia Atômica (IAEA), que possibilita uma auto-
do 11C como radionuclídeo marcador, o que não é tão trivial quanto avaliação de segurança, qualidade e credibilidade pelo próprio cor-
o uso de 131I e 99Tc, devido a sua meia-vida de apenas 20 min. Além po nacional. Isto parece ser de grande valia para a comunidade de
disso, enfatizaram a busca por novos agentes de imagens, específi- energia nuclear. Entretanto, ainda deve ser bastante discutido antes
Vol. 30, No. 1 Marcos da história da radioatividade e tendências atuais 89

de ser implementado, principalmente em países que aparentam não autores, proporciona um futuro promissor para a NAA, principal-
ter maturidade suficiente para lidar com este novo tipo de regra. mente por estar baseada em radioatividade, o que ao invés de ser
Considerando agora o aspecto da contaminação por radionuclí- considerado um ponto fraco é, o ponto chave da técnica.
deos, recentemente, no Brasil, foi detectada uma região de alta ex- Além destas, outras técnicas radioanalíticas também merecem
posição a radônio, Rn, em minas de carvão42. As medidas das con- destaque no que diz respeito à sua eficiência e importância para a
centrações desse elemento e das de seus produtos de decaimento comunidade analítica. Uma publicação de 2002 mostra a credibi-
alfa foram feitas diretamente dentro das minas, de modo a estimar a lidade em pesquisas que envolvem o aperfeiçoamento de técnicas
estequiometria do Rn no ambiente de estudo. Para isso, foi utiliza- radioanalíticas46. Os autores propõem uma hifenação entre técni-
do um monitor portátil, sensível para partículas alfa, ressaltando cas. A aplicação estaria voltada para estudos ambientais, de alta
nesse trabalho as grandes vantagens em se desenvolver técnicas especificidade para radionuclídeos, e ultratraços tóxicos. Este é
que permitam a realização de análises in situ. Os trabalhadores e as um trabalho que merece atenção por incentivar adequadamente a
minas de carvão foram monitorados com o auxílio de dosímetros e complementaridade que deveria existir entre as técnicas analíticas,
os resultados da pesquisa mostraram que todos os valores obtidos, aproveitando as vantagens únicas que cada uma delas oferece, e
considerando os resultados desta análise, estão acima dos valores não a competitividade que tem sido observada nos dias de hoje.
recomendados pela Comissão Internacional de Proteção Radiológi-
ca. Dessa forma, fica evidente que o Brasil necessita de uma me- Estudos de datação
lhor avaliação destas áreas de risco, principalmente no que se refe-
re à prevenção da contaminação por radioatividade. Isto é muito O 14C resulta da absorção contínua dos nêutrons dos raios cós-
importante, se considerarmos que a população brasileira apresenta micos pelos átomos de nitrogênio, nas altas camadas da atmosfera.
uma tendência contrária ao uso da energia nuclear, aparentando es- Esse isótopo radioativo do carbono se combina com o oxigênio,
tar a par dos acontecimentos e inovações do uso dessa forma de formando o 14 CO 2, que é absorvido pelas plantas durante a
energia. Neste caso, os autores mostraram o desconhecimento e fotossíntese. Considerando que os animais se alimentam de plan-
despreocupação dos órgãos do Brasil com relação a este tipo de tas, todos os seres vivos terrestres mantêm um ciclo de 14C durante
contaminação, que atinge vários trabalhadores. Este fato provavel- a vida, sendo que a incorporação só cessará com a morte do organis-
mente se estende a outros problemas originados pela exposição a mo. A partir desta, a quantidade de 14C começa a diminuir47.
radioisótopos naturais. Fósseis de madeira, papiros e animais contêm 14C, cuja meia-vida
Ainda nesse contexto, é interessante citar o trabalho de Maslov é de 5.730 anos. Isso significa que, a cada 5.730 anos, a atividade do
e colaboradores43, que visa a quantificação de Th em amostras de 14
C é reduzida à metade. Medindo-se a proporção de 14C que ainda
solos, usando a reação nuclear e a espectrometria de raios-X. O existe nesses materiais, é possível saber a “idade” deles. Foi assim,
referido estudo foi baseado na necessidade de quantificação desses por ex., que se determinou a idade dos Pergaminhos do Mar Morto47.
elementos radioativos de meia-vida (t1/2) longa. Neste estudo, foi Desde 1950, quando o método de datação utilizando 14C foi co-
mostrada uma das tendências da química radioanalítica atual, con- locado em prática, tornou-se a principal ferramenta para a deter-
siderando que os métodos radioquímicos utilizados para quanti- minação cronológica de 40 a 50.000 anos passados. Em 1960, o
ficação de Th são pouco sensíveis e requerem várias horas ou dias desenvolvimento desse método deu a Willard F. Libby o Prêmio
para obtenção dos dados. Assim sendo, os mesmos autores propuse- Nobel em Química9 e hoje é tão importante que se admite que
ram um novo método de análise, altamente sensível, que emprega a muito dos estudos em cronologia na ciência arqueológica depende
radiação gama para gerar o 231Th a partir do 232Th e Fluorescência dos resultados de datação com o radioisótopo em questão.
de Raios-X (XRF) para detecção do elemento. O grande mérito do Atualmente existem diversas aplicações desse radionuclídeo, de
trabalho está na simplicidade do procedimento proposto, que se ba- forma que a palavra radiocarbono já é bastante utilizada para desig-
seia na evaporação da amostra em solução sobre um filme, seguida nar o emprego de 14C em análises radioativas. Considerando esses
da etapa de irradiação com raios γ e quantificação do analito por aspectos, um trabalho de Scott e colaboradores48 avaliou a precisão e
XRF. Dessa forma, foi possível quantificar o elemento em amostras exatidão das metodologias de datação com 14C. Os resultados obti-
de referência, evidenciando que essa é uma alternativa viável para dos, por comparação com métodos dendrocronológicos, mostraram-
determinação de concentrações reais de tório em amostras de solo. se mais eficientes, embora utilizem cálculos mais complexos.
Vasconcelos e colaboradores44, em publicação recente, também Mendonça e Godoy49 descreveram a utilização do 14C para es-
relatam a aplicação da energia nuclear em química, voltada para aná- tudos de arqueologia. O método proposto baseia-se no preparo da
lises ambiental e biológica. Essa publicação apresenta diferentes li- amostra, de forma que a detecção do 14C seja feita por absorção de
nhas de pesquisas que envolvem o uso de um reator nuclear, o de CO2. A contribuição deste trabalho se dá por sua simplicidade para
IPEN/CNEN-SP, construído especificamente para pesquisa baseada a determinação do elemento, embora deva ser questionado o uso
essencialmente em análises por ativação com nêutrons (NAA). A téc- de técnicas destrutivas para análises de amostras “preciosas”, como
nica proporcionou a determinação de vários elementos químicos em as arqueológicas.
diferentes tipos de amostras, mostrando sua versatilidade. Foram No Brasil, um importante laboratório de datação por 14C, locali-
obtidas informações valiosas a respeito de contaminações e doenças, zado no CENA/USP (Piracicaba – SP), foi implantado no início de
de modo que a técnica se mostra adequada para muitas análises. 1990 e teve sucesso em estudos de intercomparações de resultados
Abordando ainda o uso da análise por ativação com nêutrons como com laboratórios do exterior (Canadá e Estados Unidos), coordena-
técnica radioanalítica, o trabalho de Steiness45, intitulado “Neutron das pela IAEA, com a participação de mais de 68 grupos de pesqui-
activation analysis in the geosciences: Lost territory, or New Deal?”, sa. Os equipamentos básicos para a datação das amostras constitu-
nos dá uma boa indicação de como está o uso e quais são as perspec- em uma linha de síntese para a transformação da amostra sólida em
tivas da técnica. Os autores mencionam a necessidade de se usar benzeno e três espectrômetros de cintilação líquida de baixo nível
NAA em certas análises e comentam principalmente suas vantagens. de radiação de fundo para as contagens do 14C natural50.
Ainda deixam claro que o fato da técnica ser baseada em princípios A principal linha de pesquisa deste laboratório consiste na apli-
físicos propicia a obtenção de informações úteis e únicas, diferente- cação dos isótopos do carbono dos solos nos estudos de paleo-
mente de outras como ICP-MS, ICP-OES, AAS, etc. Isto, segundo os vegetações, desde a região sul do Brasil até a região amazônica.
90 Xavier et al. Quim. Nova

Estão sendo desenvolvidos estudos da caracterização isotópica (δ indo para a diminuição da produtividade das lavouras. Além disso, é
13
C) e botânica das plantas e da composição isotópica (13C, 14C) do um organismo que se alimenta de outras plantas, como sorgo, arroz e
CO2 do solo, visando informações sobre as dinâmicas de formações cevada, podendo causar prejuízos nestas culturas. Geralmente, o méto-
desses solos, assim como estudos das variações de δ 13C e da ativi- do mais utilizado contra pragas é o controle químico, cuja limitação é
dade do 14C em anéis de crescimento de Araucária angustifólia levar os insetos a adquirirem resistência. Por este motivo, os autores
(dendrocronologia), desde os últimos 200 anos até o presente. utilizaram a radiação gama em pupas da lagarta-do-cartucho, visando a
Vale ressaltar que estudos de datação também podem ser reali- esterilização das mesmas. Os autores irradiaram, com o uso de uma
zados com outros elementos radioativos, como 210Pb, 137Cs e outros. bomba de 60Co, pupas com cinco dias de idade (tanto de machos como
Estes radioisótopos foram considerados por Guevara e Arribére51, de fêmeas) com doses de radiação gama de 50 a 200 Gy. Os adultos
que realizaram registros históricos, baseados em correlações entre emergidos foram cruzados com adultos normais, em um total de cinco
as quantidades de 137Cs após alguns testes nucleares realizados nos casais por tratamento. Observou-se que a dose necessária para levar à
anos 50 e 60 e, principalmente, antes e depois do acidente de esterilização foi de 125 Gy para as fêmeas e de 200 Gy para os machos,
Chernobyl, em 1986. O interessante é que os altos índices desses mostrando a maior radioresistência dos machos. O trabalho mostra uma
elementos, hipoteticamente provindos destes testes e do acidente alternativa viável ao uso de produtos químicos, destacando mais uma
de Chernobyl, estão sendo negligenciados em muitos estudos de vez a vantagem da radiação de alta energia.
datação. Estas informações nos fazem concluir que uma
monitoração e reavaliação desses métodos sejam importantes para Indústria47,54
que sejam efetuadas correções nos resultados.
A aplicação de radioisótopos é muito importante industrial-
Preservação de alimentos mente pelo fato de estar voltada a várias áreas diferentes, tais como
desenvolvimento de processos e irradiação com aceleradores in-
A irradiação de alimentos geralmente é feita com irradiadores de dustriais de elétrons e irradiadores gama, radioesterilização, desin-
cobalto-60. Esses equipamentos consistem em uma fonte de 60Co ins- festação e preservação de alimentos e produtos agrícolas, benefi-
talada em uma câmara, cujas paredes são blindadas com concreto. Os ciamento e análise de pedras preciosas irradiadas, tratamento de
alimentos a serem irradiados (na forma in natura ou industrializada) efluentes industriais e lixo hospitalar, desenvolvimento de
são colocados em recipientes especiais e, através de um monotrilho, irradiadores, equipamentos e dispositivos de irradiação, desenvol-
são conduzidos para o interior da câmara de irradiação, onde rece- vimento de detectores e sensores de radiação, análise e caracteri-
bem uma dose de radiação gama programada, por um tempo pré- zação de materiais poliméricos, cura, reticulação, enxertia,
fixado. É uma técnica eficiente na conservação dos alimentos, pois processamento e desenvolvimento de novos materiais poliméricos
reduz as perdas naturais causadas por processos fisiológicos por meio de modificações induzidas pela radiação, desenvolvimento
(brotamento, maturação e envelhecimento), conseqüentemente au- de embalagens para alimentos processados por radiação, desenvol-
mentando o tempo de vida do alimento. O método também elimina vimento e produção de fontes radioativas para radioterapia, pro-
ou reduz a proliferação de microorganismos, parasitas e pragas, sem cesso de radioesterilização para banco de tecidos biológicos, apli-
causar prejuízo ao alimento. O processo de irradiação acarreta altera- cação de radioisótopos na hidrologia e no controle de processos
ções químicas mínimas nos alimentos, nenhumas das quais nocivas industriais, dosimetria industrial, produção de fontes radioativas
ou perigosas, motivo pelo qual a Organização Mundial de Saúde seladas para gamagrafia industrial, entre outras atribuições54.
(WHO, da sigla em inglês) recomenda sua aplicação e uso50.
Como a irradiação é um processo pós-colheita, ela não pode subs- CONCLUSÕES
tituir os agrotóxicos utilizados no campo, mas pode substituir aditivos
químicos usados para desinfecção de frutas após a colheita como, Os marcos da história da radioatividade descritos nesse trabalho,
por ex., o brometo de metila, cujo uso está condenado50. sem dúvida alguma, colocam a radiação e a energia nuclear como
Um exemplo de irradiação em alimentos foi proposto por uma ferramenta extremamente útil. Por outro lado, o mau uso dessa
Grégoire e colaboradores52, para uso de raios-X de alta energia em ferramenta na construção de bombas atômicas, que ameaçam a popu-
carnes vermelhas. Neste trabalho, foi usada carne moída de boi, a lação mundial até hoje, é um exemplo da falta de maturidade e res-
qual foi irradiada com raios-X de 7,5 MeV (“Bremsstralung”), a peito ao ser humano e ao meio-ambiente por parte de certos órgãos.
uma dose de 15 kGy, duas vezes maior que a permitida pelo FDA As conseqüências dos desastres foram muito graves, considerando-se
para irradiação de carne, para assim avaliar o efeito da radiação. as mortes e os danos físicos e psicológicos a toda uma população,
Ainda foram analisados quais os radioisótopos que estavam presen- entre outros problemas, como impactos ambientais que alteram o
tes na carne antes e após a irradiação e, depois, foi feita a compara- equilíbrio de toda uma ecologia. Assim, era de se imaginar que a
ção entre elas para se estabelecer qual a margem de segurança do radiação e a energia nuclear fossem banidas do nosso meio.
alimento irradiado. Foi verificado que a carne não-irradiada con- Felizmente, existem grupos que usufruem os benefícios que essa
tém naturalmente uma pequena quantidade de isótopos radioativos, forma de energia oferece e, como pode ser observado, a energia nuclear
entre eles o 40K, levando a uma dose baixa de exposição. A carne continuou sendo utilizada após os acidentes e incidentes. O avanço em
após ser irradiada com o “Bremsstralung” não teve sua radioativi- pesquisas que a envolvem em diversas áreas, como medicina, química,
dade natural aumentada e, por isso, o risco para indivíduos que arqueologia, alimentícia, industrial, etc. também foi ampliado.
ingerem alimentos irradiados por raios-X, gerados por elétrons com A energia nuclear em alguns países é a única fonte de energia
energia nominal tão alta quanto 7,5 MeV, é desprezível. elétrica viável. Atualmente, a energia nuclear atende 17% da de-
Outro exemplo de utilização da irradiação está em trabalho reali- manda mundial de eletricidade28. Assim, é possível dizer que, embo-
zado por Arthur e Aguilar53 que, sabendo do sucesso do uso de moscas ra existam fatores que vão contra o uso dessa forma de energia, exis-
irradiadas e inférteis, utilizaram a radiação gama objetivando induzir a tem aqueles favoráveis, os quais parecem estar ganhando mais força
esterilização nos adultos da Spodoptera frugiperda, conhecida popu- a cada dia. Este crescente desenvolvimento deve estar fundamenta-
larmente como lagarta-do-cartucho. Esta lagarta foi escolhida devido do nos interesses de grupos seletos que pensam na sua utilização de
ao fato de ser uma das principais pragas da cultura de milho, contribu- forma segura, em prol do bem dos seres vivos de uma maneira geral.
Vol. 30, No. 1 Marcos da história da radioatividade e tendências atuais 91

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