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A África Ocidental no período pré-colonial

1- A evolução da História Africana: Pressupostos…

“ (…) Os intelectuais europeus convenceram-se de que os objetivos, os conhecimentos, o poder e a


riqueza de sua sociedade eram tão preponderantes que a civilização europeia deveria prevalecer sobre
todas as demais. Consequentemente, sua história constituía a chave de todo conhecimento, e a história
das outras sociedades não tinha nenhuma importância. Esta atitude era adotada sobretudo em relação à
África. De fato, nessa época os europeus só conheciam a África e os africanos sob o ângulo do
comércio de escravos, num momento em que o próprio tráfico era causador de um caos social cada vez
mais grave em numerosas partes do continente.

Hegel (1770-1831) definiu explicitamente essa posição em sua Filosofia da História, que contém
afirmações como as que seguem: “A África não é um continente histórico; ela não demonstra nem
mudança nem desenvolvimento”. Os povos negros “são incapazes de se desenvolver e de receber uma
educação. Eles sempre foram tal como os vemos hoje”. É interessante notar que, já em 1793, o
responsável pela publicação do livro de Dalzel julgara necessário justificar o surgimento de uma
história do Daomé. Assumindo claramente a mesma posição de Hegel, ele declarava:

“Para chegar a um justo conhecimento da natureza humana, é absolutamente necessário preparar o caminho
através da história das nações menos civilizadas (…) (Não há nenhum outro) meio de julgar o valor da cultura, na
avaliação da felicidade humana, a não ser através de comparações deste tipo”.

Ainda que a influência direta de Hegel na elaboração da história da África tenha sido fraca, a opinião
que ele representava foi aceita pela ortodoxia histórica do século XIX. Essa opinião anacrônica e
destituída de fundamento ainda hoje não deixa de ter adeptos. Um professor de História Moderna na
Universidade de Oxford, por exemplo, teria declarado:

“Pode ser que, no futuro, haja uma história da África para ser ensinada. No presente, porém, ela não existe; o que
existe é a história dos europeus na África. O resto são trevas… e as trevas não constituem tema de história.
Compreendam-me bem. Eu não nego que tenham existido homens mesmo em países obscuros e séculos obscuros,
nem que eles tenham tido uma vida política e uma cultura interessantes para os sociólogos e os antropólogos; mas
creio que a história é essencialmente uma forma de movimento e mesmo de movimento intencional. Não se trata
simplesmente de uma fantasmagoria de formas e de costumes em transformação, de batalhas e conquistas, de
dinastias e de usurpações, de estruturas sociais e de desintegração social…”
(obs: textos adaptados da História Geral da África, Vol. 1, UNESCO)

2- O lugar da História na sociedade africana

“(…) O homem é um animal histórico. O homem africano não escapa a esta definição. Como
em toda parte, ele faz sua história e tem uma concepção dessa história. No plano dos fatos, as
obras e as provas de sua capacidade criativa estão aí sob nossos olhos, em forma de práticas
agrárias, receitas de cozinha, medicamentos da farmacopeia, direitos consuetudinários,
organizações políticas, produções artísticas, celebrações religiosas e refinados códigos de
etiqueta. Desde o aparecimento dos primeiros homens, os africanos criaram ao longo de
milênios uma sociedade autônoma que unicamente pela sua vitalidade é testemunha do gênio
histórico de seus autores. Essa história engendrada na prática foi, enquanto projeto humano,
concebida a priori. Ela é também refletida e interiorizada a posteriori pelos indivíduos e pelas
coletividades. Torna -se, portanto, um padrão de pensamento e de vida: um “modelo”. (Idem)

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3- A organização social e económica do Oeste Africano pré-colonial

A ausência de investigações relativas à história africana durante muito tempo -período


colonial, principalmente - levou muitos europeus (historiadores, filósofos,
sociólogos…) a afirmarem que a África não tinha história antes da chegada dos
europeus, que a sua população não era civilizada e que estava no estádio primitivo de
desenvolvimento.

Entretanto, investigações realizadas por estudiosos africanos durante o período “ da


febre das independências” (década de 50/60 do século XX) e não só, demonstram-nos o
contrário: "A África tem uma História", como sublinha o grande historiador Joseph Ki-Zerbo,
(nascido em Burkina Fasso).
A configuração das sociedades africanas em termos políticos, económicos, sociais, era
diversa.

Existiam sociedades em que as relações sociais dominantes eram a família e o


parentesco associados ao comunitarismo. Existiam outras em que as relações sociais
eram mais complexas contando já com diversos aparelhos de administração e
organização política e social. As práticas religiosas eram também diversas. O nível
cultural de algumas civilizações estava já bastante desenvolvido.

a) As vias de Comunicação

Na maioria das sociedades, a agricultura era a actividade principal. A terra era o


principal meio de produção e era propriedade de grupos, famílias ou clãs ( conjunto de
famílias com um antepassado comum, que se sentem solidarizadas por esse vínculo). Todo o
trabalho era realizado numa base familiar e os terrenos de caça e pesca eram também
utilizados por toda a comunidade (O Comunitarismo). Para a melhor produção agrícola
recorria-se a técnicas apropriadas como construção de terraços, rotação de culturas,
mais tarde, utilização do esterco dos animais, pousio. Cada família era uma unidade de
produção, auto-suficiente (desenvolveram a manufactura, produzindo artigos de uso
doméstico, ferramentas agrícolas, tecidos e armas).

Existiam sociedades em que o comércio estava bem desenvolvido, aliás, isto nos
é apresentado por alguns escritos deixados que nos mostram o grau de desenvolvimento
do comércio das referidas sociedades.
Segundo Ki-Zerbo, é difícil apreender a vida económica na África pré colonial
devido sobretudo a falta de dados estatísticos, no entanto, graças a alguns factores
como: as escavações arqueológicas, ao facto das estruturas económicas do oeste
africano não terem sofrido muitas modificações ao longo dos séculos (estabilidade das
técnicas), o estudo da vida económica torna-se possível. Não obstante as dificuldades,
deu-se no oeste africano factos importantes que convém salientar: selecção de novos
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géneros agrícolas, elaboração e difusão de técnicas novas em matéria de artesanato,
transformação gradual das trocas comerciais a partir do século XVI, substituição das
rotas do deserto pelos do litoral.
O nível de desenvolvimento económico que o oeste africano atingiu entre os anos 700 e
1400 foi notável. Segundo nos diz Basil Davidson, na Europa no referido período,
formaram-se novos estados, fundaram-se novas cidades, desenvolveram-se novas
técnicas. Contudo, durante grande parte desse período de crescimento inicial, embora
tenha sido importante, os europeus foram superados pelos vizinhos africanos. Os
grandes centros de permuta e das finanças estavam em África e não na Europa.
Nenhuma das novas cidade europeias se podia comparar em riqueza e magnificência, no
poder dos seus mercados ou na qualidade das mercadorias manuseadas, com principais
cidade em África

Em relação às vias de comunicação, elas estavam, em alguns reinos, muito


desenvolvidos, conseguiram alcançar um notável grau de segurança, condição
fundamental para a efectivação das trocas comerciais (o caso do Mali por exemplo,
mesmo não tendo exército permanente devido ao custo que isso representava).
As vias transarianas foram os primeiros laços de contacto do oeste africano com o
exterior. Eram vias meridionais, cujo desenvolvimento estava ligado ao das caravanas
de camelos.

Rotas mais importantes


- Rota de Teghazza
- Rota de Fezãnia
- Rota Dorob el Arbair (rota das quarenta dias)

Géneros utilizados nas transações


- Do Norte: Tecidos, barras e braceletes metálicos, os couros a marroquinaria (
- Do Sul: Ouro, noz de cola, marfim e os escravos

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