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Encarnação
Gordon Haddon Clark

Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto


Revisão: Rogério Portella
Título Original: The Incarnation

Monergismo.com – “Ao Senhor pertence a salvação” (Jonas 2:9)


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Conteúdo
Prefácio ..................................................................................................................................... 3
1. Introdução ............................................................................................................................. 5
2. As Heresias ............................................................................................................................ 9
3. A Falha Fatal........................................................................................................................ 13
4. A Idade Média e a Reforma ................................................................................................ 15
5. O Século Dezenove ............................................................................................................. 18
6. Algumas Conclusões ........................................................................................................... 32
7. Análise Resumida ............................................................................................................... 35
8. Pessoa Divina e Humana .................................................................................................... 40
9. A Conclusão ......................................................................................................................... 46

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Prefácio

Durante o quarto e quinto século, a igreja foi perturbada por muitas controvérsias, mas
a mais proeminente parece ter sido o debate sobre Cristo. Quem, precisamente, foi Jesus
Cristo? Era Cristo tanto Deus como homem? Era ele a primeira de todas as criaturas? Era ele
Deus em carne? Era ele um dos modos de Deus o Pai? Era ele meramente um homem? Era
ele duas pessoas, Jesus de Nazaré e a Segunda Pessoa da Trindade? O debate foi vigoroso e
acrimonioso.

Em adição ao uso de poderes pacíficos de persuasão, alguns membros da igreja


hierárquica também contaram com poderes persuasivos de coerção. Os debates teológicos
levaram a exílios, perseguições, e ao uso liberal de força política. Alguns escritores da
história da igreja teriam nos feito crer que a formulação do Concílio de Calcedônia, de 451
d.C., sobre a Encarnação, encerrou todo o debate, mas ele não o fez. Uma fonte mais antiga
nos informa que “a decisão de Calcedônia não parou a controvérsia, e exigia uma declaração
suplementar com respeito às duas vontades de Cristo, correspondentes às duas naturezas”.
Essa declaração suplementar foi formulada por outro concílio no sétimo século depois de
Cristo.

Agora, nos séculos dezenove e vinte, há um interesse renovado em Cristo, e a


formulação de Calcedônia está sob novo ataque. Em 1977 um assalto frontal à Encarnação
apareceu intitulado The Myth of God Incarnate. Um dos contribuidores desse volume, John
Hick, manteve na seqüência, Incarnation and Myth: The Debate Continued, que “certamente
nenhuma escola da teologia cristã já foi capaz de explicá-la [a doutrina da Encarnação]
coerentemente. Se Jesus tinha duas naturezas completas, uma humana e outra divina, e,
todavia, era uma pessoa indivisa, como pode essa pessoa ser genuinamente humana?” 1 Outro
contribuidor, Frances Young, ataca a utilidade da linguagem: “ultimamente a verdade sobre
Deus não está aberta para análise e investigação da mesma forma como os itens no universo
criado. Os Pais que insistiram que Deus é inexpressível e incompreensível, que todo
conhecimento de Deus e linguagem sobre ele é indireta, eram pelo menos salvos do tipo de
fundamentalismo teológico que imagina que estamos tratando com verdades que podem ser
precisamente declaradas, com significados que podem ser plenamente elucidados. Nessa área,
a linguagem para a qual não podemos dar nenhum conteúdo “literal” pode bem conter e
transmitir uma verdade de outra forma inexpressível... Estamos usando a linguagem do ‘mito
religioso’ que transmite uma verdade cujo mistério está além do entendimento e
incomunicável através de qualquer modo de expressão além do parabólico”. 2

As respostas a esses argumentos a partir do grupo “ortodoxo” têm sido abismais. Uma
contestação típica é semelhança a essa: “A doutrina da encarnação [é] paradoxal, e assim ela
deve ser, se palavras humanas hão de ser usadas... Os paradoxos são um sinal de que temos
parado de pensar antropologicamente; e eles são uma ferramenta para o pensamento teológico

1
Michael Goulger, editor, Incarnation and Myth: The Debate Continued (Grand Rapids, Michigan: Eerdmans,
1979), p. 83.
2
Ibid., p. 62. A similaridade entre as visões dessa mulher que nega que Cristo era Deus e as visões que emanam
dos assim chamados semináarios conservadores é mais do que coincidência. Os professores de seminário, tanto
“liberais” como “conservadores”, têm se unido no ataque sobre linguagem, lógica, precisão em pensamento e
definições.

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sobre aquele que não podemos ‘compreender’ com termos inequívocos bem definidos”. 3
Outra resposta “ortodoxa” sugere que temos que descartar nossa noção de Deus como
impassional, pois o autor argumenta que a Segunda Pessoa da Trindade sofre”.4

Em contraste com essas respostas enganosas e anti-escriturísticas, e em resposta ao


desafio de apresentar uma doutrina coerente da Encarnação, a reconstrução logicamente
rigorosa de Gordon Clark da doutrina da Encarnação está preocupada em defender ambas as
doutrinas: a de um Deus imutável e a da linguagem como um veículo adequado para a
revelação proposicional divina. Construindo sobre a definição de Calcedônia, Clark
meticulosamente classifica e organiza a informação bíblica sobre Cristo. O resultado é uma
apresentação ainda mais coerente do ensino da Escritura de que Cristo era tanto Deus como
homem, não Deus num corpo, como alguns modernos crêem, nem uma figura meramente
humana.

É de se lamentar que Clark não viveu para participar ainda mais dos debates
cristológicos desse século. Na época em que ele estava mortalmente enfermo em Fevereiro de
1985, ele estava escrevendo o presente volume, o qual ele intitulou Concerning the
Incarnation. Ele não terminou totalmente o livro, pretendendo adicionar mais uns poucos
parágrafos sumarizando suas centenas de páginas de análise e argumentação, de forma que
ele pediu a esse escritor para terminar para ele. Embora eu tenha ficado grandemente honrado
pelo seu pedido, fiquei relutante de fazer quaisquer adições significantes; eu adicionei apenas
dois parágrafos às suas palavras. O argumento de Clark é claro e direto. Ele elimina alguns
dos problemas que têm atormentado a discussão da Encarnação por séculos. Naturalmente,
será impopular para aqueles que desprezam a precisão na linguagem teológica e angariam as
maravilhas da ignorância. Mas para aqueles que desejam conhecer a verdade, A Encarnação
é um grande passo no desenvolvimento da doutrina cristã.

John W. Robbins
29 de Abril de 1988

3
Ibid., p. 61.
4
Norman Anderson, The Mystery of the Incarnation (Downers Grove, Illinois: Intervasity Press, 1978), p. 151.
A idéia de que Deus sofre não é uma idéia nova; ela tem uma longa e herética história. Mais recentemente, a
Igreja de Unificação de Sun Moon é construída sobre a idéia de que o papel do homem é reduzir o sofrimento de
Deus.

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1. Introdução

Quando alguém pára para considerar — embora nessa era decadente e anti-intelectual,
poucos parem para considerar algo de importância acadêmica e especialmente religiosa —, a
Encarnação da Segunda Pessoa da Trindade foi um milagre estupendo, imponente e
enigmático, sobrepujando em muito a fuga de Moisés pelo Mar Vermelho e até mesmo o
caminhar de Cristo sobre o Lago da Galiléia. Alguém está interessado nele?
A população dessa era se divide em três grupos. O maior grupo contém aqueles que
vivem para esportes e enchem os estádios com centenas de milhares nas tardes de Domingo.
Entre eles há as mães que têm assassinado seus bebês, os viciados em drogas, e uma multidão
de pessoas mais ou menos indescritíveis. A característica unificadora deles é uma indiferença
a qualquer religião reconhecível. O segundo grupo, muito menos numeroso, inclui os liberais
religiosos, que com sua Neo-ortodoxia controlam as grandes denominações “principais”. O
primeiro grupo nunca ouviu falar da Encarnação; esse segundo tenta reduzi-la à mitologia.
Agora, ignorando os católicos romanos por ora, mas somente por ora, o terceiro grupo, a
quem ignoraremos mais completamente, é composto de secularistas explícitos, cujo
cientificismo arrogante — não ciência — os leva a não ter nenhum interesse, mas somente
ódio, pela Bíblia, por Cristo e pela Encarnação. Dificilmente digno de contar é um grupo de
sete mil que não têm se ajoelhado diante de Baal, a quem Cristo disse: “Não temas, ó
pequeno rebanho, porque a vosso Pai agradou dar-vos o Reino”.
Esse pequeno grupo tem publicado algumas coisas da melhor forma que podem.
Ocasionalmente alguns deles escreveram um livro de valor justo. Mas em geral, uma
comparação entre a publicação cristã dos séculos dezesseis e dezessete (por exemplo, aquelas
de Lutero, Calvino, Turretin, George Gillespie, John Gill, Owen, culminando na Confissão de
Wesminster) com aquelas do século vinte, restringindo nossa visão para os autores
relativamente conversadores dos nossos dias, 5 indica tristemente a ignorância, a
incompetência e a falta de interesse extremo em setenta e cinco por cento da verdade bíblica.
Evidência para suportar esse comentário cáustico é facilmente descoberta se alguém
examinar essas publicações religiosas populares desse século e descobrir a pobreza de
material sobre a doutrina da Encarnação.
Quanto aos secularistas arrogantes, além de vários cientistas competentes que se
desviam nessa direção, umas poucas considerações podem ser permissíveis antes de despedi-
los como contribuindo em nada para o tópico principal. Essencialmente eles são ateus e
behavioristas. 6

5
O Cristianismo bíblico tem seus altos e baixos. Talvez sua era mais desolada não seja a Neo-ortodoxia
moderna, mas antes, o século dezoito na Alemanha. Morto e sem influência agora, ele ainda é mais do que
simplesmente uma curiosidade. Sua crueza pode, esperamos, nunca ser repetida novamente, mas sua devastação
é uma advertência desastrosa àqueles que a conhecem. Reimarus (morto em 1768) acusou Cristo de rebelião,
ambição e visões políticas. Vários outros explicaram seus milagres como sendo truques. Paulus explicou a
ressurreição de Cristo sobre a teoria de que Jesus não morreu na cruz, mas meramente desmaiou. Rohr foi
menos ousado. Ele retrata Cristo como um homem com um grande fardo, com educação e sabedoria, e
elaborando a religião do Antigo Testamento, ele tentou produzir uma religião universal. Ele alegou que os
milagres de cura foram o resultado de um conhecimento de medicina mais completo do que o dos médicos
judeus. Mas até mesmo esses julgamentos gentis sustentam o cristianismo ortodoxo apesar disso.
6
Compare Clark, Behaviorism and Christianity (Jefferson, Maryland: The Trinity Foundation), 1982.

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Negando a alma e usando a palavra mente para designar algumas atividades físicas
pobremente definidas, eles naturalmente vêem a Escarnação como a superstição de uma era
primitiva ignorante. Estivéssemos interessados principalmente em refutar esse cientificismo,
seria necessário defender a existência da alma ou espírito. Platão fez isso muito bem em seu
Phaedo, Theaetetsus, e outros diálogos. Aparentemente, Agostinho foi o primeiro cristão a
escrever um tratado com esse objetivo. 7

Mas deixando de lado essas questões mais filosóficas, tomando por certa a existência de
Deus e da alma humana, de fato aceitando a Bíblia como revelação inerrante da verdade
divina, nos aproximamos do tópico principal: a encarnação da segunda pessoa da Trindade. A
aproximação, contudo, requer o enunciado do problema. Visto que Deus é onipotente, a
questão não é como esse acontecimento estupendo pôde ser possível, mas, antes, o que
precisamente ele é.

As afirmações da Escritura são suficientemente claras até o ponto em que elas vão. No
evangelho de João (1:14) lemos: “O Logos se fez carne”. João também disse: “Jesus Cristo
veio em carne [...] todo espírito que não confessa que Jesus Cristo veio em carne não é de
Deus, mas este é o espírito do anticristo”. Paulo também, em 1 Timóteo 3:16, insiste que
“Deus se manifestou em carne”. Quase todos os versículos dos evangelhos pressupõem a
encarnação. Similarmente as epístolas de Paulo: Filipenses 2:6-8; também 1 Pedro 1:19, e por
clara inferência, dezenas de outros.

Mas, (você percebe?) embora a carne, ou o corpo de Jesus, seja tão freqüentemente
mencionado, esses versículos não dizem nada sobre sua mente ou alma. Que Deus quis nos
impressionar com o fato de que a segunda pessoa assumiu um corpo é perfeitamente claro;
mas ele também quis obscurecer o fato de o Cristo encarnado ter uma mente humana? Cristo
ter assumido um corpo não causa nenhuma dificuldade para quem crê na Bíblia; mas entender
como a segunda pessoa pode possuir a alma humana e ser uma pessoa humana (o que quase
todos os cristãos ortodoxos negam), e como essa mente ou alma estava relacionada com a
pessoa divina seja, talvez, o problema mais difícil de toda a teologia. Nenhum católico,
calvinista ou ateu pode negar que a Bíblia ensina a encarnação. Mas a “empsicação”
perturbou os pais da igreja por mais de quatrocentos anos. Os resultados de seus labores são,
no máximo, incompletos. Todavia, não há melhor forma de começar o assunto que traçar sua
história.

A pregação do Evangelho precisa de algumas declarações sobre quem Cristo era. Os


judeus tinham vários conceitos discordantes a respeito da natureza do Messias vindouro. O
problema se tornou mais agudo para eles na conversão. Os gregos não tinham qualquer
conhecimento prévio sobre o assunto. Todavia, os primeiros cristãos tinham de dizer algo, e a
igreja, tão logo quanto possível, responderia algumas questões pertinentes. Várias
explicações foram tentadas, e hoje podemos fazer pouco progresso, ou nenhum, sem
considerar os resultados negativos provenientes delas. Que, então, ou o que, então, era esse
Cristo?

7
Agostinho defende a realidade da alma e sua superioridade sobre o corpo em A Magnitude da Alma. Embora
uma obra primitiva, com alguma dependência embaraçosa de uma teoria peculiar dos estéticos, e, portanto,
requerendo algumas correções em suas próximas produções mais maduras, ela contém alguma argumentação
valorosa. O Initiation à la Philosophie de S. Augustin, de F. Cayre (Paris 1947) dá atenção insuficiente aos
desenvolvimentos posteriores, e, por exemplo, toma De libero arbítrio como a declaração definitiva de
Agostinho sobre o assunto.

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Mesmo antes da primeira e fundamental doutrina do cristianismo, a Trindade, ter sido


esclarecida por Atanásio no Credo niceno de 325, com uma frase adicionada em 381, a
controvérsia sobre a pessoa de Cristo já começara.

Essa controvérsia, cujos detalhes principais descreveremos um pouco mais tarde, foi
esclarecida pelo Concílio de Calcedônia em 451. Embora cronologicamente a decisão do
Concílio seja colocada fora de lugar nesse ponto, pode ser mais fácil seguir a história se já
soubermos o resultado. Embora o texto do Credo possa ser facilmente localizado em qualquer
biblioteca de seminário, ele será citado aqui integralmente por conveniência.

Todos nós, perfeitamente unânimes, ensinamos que se deve confessar um só e mesmo Filho,
nosso Senhor Jesus Cristo, perfeito quanto à divindade, perfeito quanto à humanidade,
verdadeiro Deus e verdadeiro homem, constando de alma racional [psychēs logikēs] e de corpo;
consubstancial ao Pai, segundo a divindade, e consubstancial a nós, segundo a humanidade;
“em todas as coisas semelhante a nós, excetuando o pecado”, gerado segundo a divindade antes
dos séculos pelo Pai e, segundo a humanidade, por nós e para nossa salvação, gerado da Virgem
Maria, mãe de Deus;

Um só e mesmo Cristo, Filho, Senhor, Unigênito, que se deve confessar, em duas naturezas,
inconfundíveis e imutáveis, conseparáveis e indivisíveis;8 a distinção da naturezas de modo
algum é anulada pela união, mas, pelo contrário, as propriedades de cada natureza permanecem
intactas, concorrendo para formar uma só pessoa e subsistência [en prosopon kai mian
hypostasin]; não dividido ou separado em duas pessoas. Mas um só e mesmo Filho Unigênito,
Deus Verbo, Jesus Cristo Senhor; conforme os profetas outrora a seu respeito testemunharam, e
o mesmo Jesus Cristo nos ensinou e o credo dos padres nos transmitiu.

Note aqui também que o credo do Sexto Concílio Ecumênico, contra os monotelistas,
em 680, adicionou a definição dogmática da posse de Cristo de duas vontades distintas — na
qual a vontade foi considerada atributo da natureza, e não da pessoa.

A Fórmula de Calcedônia, entretanto, não foi citada meramente por conveniência. Ele
é a fonte mais importante de informação sobre as primeiras teorias heréticas. Alguém poderia
esperar que as obras freqüentemente volumosas de Eusébio, Cassiano, Cirilo de Jerusalém,
Gregório de Nazianzo, ou até mesmo Hilário de Poitiers, contivessem análises detalhadas dos
conceitos condenados. Mas esse não é o caso.

Qual, então, é a história da heresia que levou à Fórmula de Calcedônia?

Ela é um documento relativamente pequeno, do qual não pode esperar quaisquer


explicações prolongadas. Mas se havemos de entendê-la, explicações prolongadas são
necessárias. A maior dificuldade é a imprecisão de termos como humanidade, alma racional,
consubstancial, natureza, pessoa e subsistência. Até hoje os teólogos citam essas palavras
sem explicá-las, e, suspeitamos que eles não as entendam. Ainda que cada uma deva ser
definida, caso alguém deseja usá-las, o termo mais importante é o vocábulo pessoa. O que é
uma pessoa? Como Cristo pode ser perfeito em humanidade, com uma vontade humana
diferente da vontade divina, com uma alma racional “consubstancial” conosco e
verdadeiramente homem, sem ser uma pessoa humana?

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O resto do Credo realmente contradiz esta última frase, por negar que Cristo era uma pessoa humana.
Obviamente, algo que não é absolutamente um ser humano, não pode ser “em todas as coisas semelhante a nós”.

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Para entender a declaração da Fórmula, deve-se começar por algum lugar. Deve haver
um pou sto, um point d’appui [ponto de apoio], uma concordância básica ou um termo
fundamental. De outra forma, afundaremos no oceano de ambigüidades. Nenhuma escolha é
melhor que o termo niceno hypostasis. O mais antigo dos credos afirma que a Divindade é
mia ousia e tres hypostaseis. O termo ousia é um substantivo particípio do verbo existir; a
tradução comum é ser. O cachorro é um ser, a rocha é um ser; mas se ousia significar
simplesmente uma forma do verbo ser, existir [sou, és, é, ser], então, visto existirem sonhos,
eles são: os sonhos são seres. Algumas vezes o termo realidade é usado. Mas sonhos,
especialmente sonhos ruins, são reais: eles são sonhos ruins e reais. Platão afirmou que
“idéias” são realidades: A “Idéia da Justiça”, a “Idéia de Homem”, a “Idéia de Cavalo”, e a
“Idéia de Número” são realidades. Portanto, o termo ousia não é tão bom quanto o termo
básico hypostasis.

Outra forma do verbo “existir” é existência ou essência. O termo pode ser útil, se
definido. Para ilustrar: alguém vê uma nova máquina, ou um animal nunca observado antes, e
pergunta: “O que é isso?”. Um amigo responde: “Este é um tipo de máquina ou este tipo de
animal”. Nas conversas comuns a resposta é geralmente incompleta, mas se o amigo for um
pouco inteligente, fornecerá parte da definição. A resposta completa à pergunta “O que é
isto?” é uma definição. Agora, se os teólogos tivessem se contentado, ou sido capazes, de
usar os termos de uma maneira não ambígua, grande parte da confusão teria sido evitada.
Essência é definição. A essência do triângulo plano é uma área delimitada por três linhas
retas. A expressão “ele é da essência...” significa: ele é parte da definição.
Desafortunadamente, muitos teólogos não dizem isso de forma explícita, mas o negam, não
raro, mediante o uso. Na análise histórica, contudo, o autor deve reproduzir os erros
grosseiros das pessoas citadas.

Uma dificuldade, um erro grosseiro, adivindo dessas discussões nas igrejas ocidentais
é a tradução latina “uma ousia e três hypostaseis” por “uma substância e três pessoas”.
Tivessem os latinos traduzido corretamente, nossos credos diriam agora que Deus é uma
essência e três substâncias. Dizer que Deus é uma essência significaria que a Divindade, a
despeito de quantas pessoas haja nela, tem uma definição simples. Nessa, ou sob essa,
definição há três “substâncias”, pois hypo é sub ou sob, e stasis é permanência ou posição.
Por agora, contudo, e apesar do fato que hypostasis no grego clássico ser intoleravelmente
ambíguo (como mostraremos um pouco mais tarde), presumiremos que hypostasis seja o
termo menos ambíguo pelo qual começar. Seja qual for seu significado, há três deles na
Deidade.

Um dos problemas a ser enfrentado é a questão de o Jesus humano ser, ou não, uma
hypostasis. Um estudioso relativamente recente argumenta que a personalidade é uma idéia
alheia à Antigüidade, e foi inventada inicialmente por Descartes, como um “Ford modelo T”
que trabalhara duro para se tornar um respeitável “Thunderbird”. Isso significa que muitas de
nossas perguntas nunca passaram pela mente dos santos pais.

Mas antecipamos um futuro muito distante. Retornemos e vejamos as heresias que


demandaram a convocação do Concílio de Calcedônia.

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2. As Heresias

Se listarmos os movimentos heréticos cronologicamente, Paulo de Samosata (c. 250)


pode razoavelmente encabeçar a lista. O volumoso autor Eusébio (265-340)9 menciona-o
diversas vezes em seu História Eclesiástica, mas ele nos diz mais sobre seu caráter
desagradável (Bk. VII, capítulo 30) do que sobre sua teologia. Ele deixa perfeitamente claro
um ponto de maior importância: “Paulo de Samosata... sustentava, contrário ao ensino da
Igreja, visões baixas e degradantes de Cristo, a saber, que em sua natureza ele era um homem
comum” (p. 312; VII, xxvii). Em V, xxviii (p. 246) há uma menor ainda: “A heresia de
Artemo, que Paulo de Samosata tentou reviver... a heresia acima mencionada de que o
Salvador era um mero homem”. Que isso é uma negação da deidade de Cristo, e uma heresia
a ser fortemente condenada, é perfeitamente claro; mas ela não nos dá nenhuma pista de
como esse Paulo expôs e defendeu sua visão.
Aproximadamente no mesmo tempo, pois ele foi condenado em 263, Sabélio propôs o
que pode ser chamado de uma trindade modal: isto é, há apenas uma Pessoa que é Deus.
Quando ele se engaja em certas ações, ele é chamado Pai; numa forma diferente de atividade
ele aparece e é chamado de Filho; e similarmente para o título Espírito Santo. Nos tempos
modernos, Karl Barth tem sido acuso de modalismo. Cornelius Van Til é um dos muitos que
fazem essa crítica. G. C. Berkouwer, por outro lado, em The Triumph of Grace in the
Theology of Karl Barth (Eerdmans, 1956, pp. 386-388), promove algumas possíveis defesas
de Barth.
Um pouco antes, Horace Bushnell, de uma maneira estranha e confusa, parece misturar
Trinitarianismo e Sabelianismo. Pode haver uma Trindade real, ele parece dizer, mas nós
conhecemos apenas uma trindade modal. O problema é que se podemos conhecer somente
uma trindade modal, não há razão para assumir outra Trindade desconhecida. De qualquer
forma, uma pessoa pode concluir que as heresias antigas não são questões completamente
mortas.
Apolinário (310-390) pode servir como o próximo heresiarca. Influenciado sem dúvida
por muitas declarações do Novo Testamento de que Jesus era Deus em carne, com nenhuma
menção de uma alma humana,10 e também pelo desejo louvável de promover o conhecimento
cristão, Apolinário concluiu que Jesus era um corpo humano habitado pelo Logos divino.
Essa visão é claramente invunerável contra qualquer acusação do Arianismo que estava sendo
rejeitado pelo Concílo Niceno.
Embora o leitor já saiba que a igreja mais tarde condenou essa teoria, não foi tão fácil,
naquele tempo de confusão, fazer um caso bem definido para a humanidade de Jesus. A
confusão reversa ocorre hoje. Tão acostumado é o nosso século em considerar Jesus como
um “verdadeiro homem”, bem como o Filho de Deus, que alguns teólogos que escrevem
sobre o assunto usam argumentos irrelevantes e ilógicos. Por exemplo, Baker’s Dictionary of
Theology (pub. 1960), tem um breve artigo sobre a “Humanidade de Cristo”, escrito por
Philip Edgcumbe Hughes. Quase todas as suas referências se aplicam ao corpo de Jesus. Ele
até menciona uma ressurreição corporal (itálico dele) e um retorno corporal, nenhum dos

9
Os textos desses teólogos primitivos foram traduzidos na série de Ante and Post-Nicene Fathers.
10
Mateus 26:38 e Marcos 13:34 registram Jesus como dizendo: “Minha alma está cheia de tristeza até a morte”;
mas Apolinário ainda podia argumentar que essa alma era divina.

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quais faz algo para mostrar que Jesus tinha uma mente, alma ou vontade humana. Estranho
como possa parecer, é difícil mostrar que a Encarnação foi algo mais do que uma “em-carne-
ação” [in-carne-tion]. Hebreus 10:5 diz: “Um corpo me preparaste”. Onde no Novo
Testamento é dito: “Uma mente ou alma me preparaste”?
Contudo, a igreja achou essa teoria não satisfatória. Embora o Novo Testamento mais
frequentemente mencione “a carne”, ele também se refere ao “o homem, Cristo Jesus” (1
Timóteo 2:5). Então, também, Lucas 2:52 diz: “Jesus crescria em sabedoria... ”. Se sua mente
tivesse sido o Logos, sua sabedoria nunca poderia ter crescido. Por tais razões, a Teoria do
Logos de Apolinário foi condenada em 381.
A próxima heresia foi aquela de Nestório, que morreu um tempo depois de 440 d.C.
Mesmo que os registros se apliquem mais aos seus discípulos do que a ele, sabemos mais
sobre ele do que sobre os outros hereges, pois Cassiano (360-432?) escreveu sessenta e nove
páginas de colunas duplas (no Post-Nicene Fathers) sob o título Os Sete Livros de João
Cassiano sobre a Encarnação do Senhor, Contra Nestório. Mas embora endividados dessa
forma para com ele, não podemos confiar plenamente nele, pois, como os outros Pais, ele
usou muitas injúrias. No começo do seu tratado ele descreve Nestório como uma hidra, que
assobiava contra nós com línguas mortais. Livro VI, Capítulo vi, começa com “ó seu herege...
seu louco miserável” e continua em V, ix com “O que você está vomitando?” Ao qual
adiciona: “sua criatura miserável, insana e obstinada” (VI, xviii).
Há outra e menos desonrável razão para se ler Cassiano, e os outros Pais, com algumas
suspeitas. Desafortunadamente isso se aplica a todos autores. Mesmo quando estudiosos
modernos documentam os estudos deles, é sempre possível que eles entendam incorretamente
algumas das citações. Mas esse perigo é maior quando o assunto é novo, não familiar e
caótico. O presente escritor selecionará agora o que ele pensa ser as referências mais
importantes de Cassiano à teologia de Nestório. Mas o que se segue não é fácil: irrelevâncias
e falácias nos cercam.
Nestório, então, ensinou que Cristo nasceu como um mero homem (I, iii). Uma nota de
rodapé em II, vi (p. 561, Nicene Fathers) diz: “Nestório manteve que ‘aquele que nasceu no
ventre de Maria não era o próprio Deus’ ”. Mas isso não é heresia. A Segunda Pessoa da
Trindade não foi formada em Maria. O Logos nunca foi formado, de forma alguma. Ele é
eterno. Por conseguinte, o argumento contra Nestório, neste ponto, é uma falha. Até mesmo a
frase de I,iii é não-objetável, embora talvez muito facilmente mau compreendida. Cristo
realmente nasceu como meros homens nascem, se isso significa a partir de um ventre de
mulher. Mas sua concepção não foi aquela de um bebê humano ordinário. O problema é que a
linguagem é descuidada, e Cassiano mui facilmente decide uma interpretação. Uma pessoa
não deveria se surpreender com isso. Quando um grupo de homens começa a discutir um
assunto extremamente novo, a terminologia está confinada a ser imperfeita.
Cassiano continua: “Não foi Deus quem sofreu, mas Deus se uniu com a carne
crucificada” (Fragmento em Marius Mercator, p. 789, ed. Migne). Bem, isso dificilmente é
heresia, pois as Pessoas imutáveis da Trindade não podem sofrer. Foi pela declaração
seguinte que Nestório é customariamente acusado de heresia: “Assim, ele fez com que em
Cristo houvesse duas Pessoas”.
Cassiano também registra (Nicene Fathers, p. 581) que Nestório argumentou:
“Nenhuma mulher jamais deu nascimento a alguém que existia antes dela”. Essa declaração
está sujeita a duas interpretações. Assumindo que o Logos habitou a criança não-nascida,
Maria deu nascimento à combinação. Mas estritamente, o Logos, sendo eterno, nunca nasceu.

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Defendendo o que se tornou mais tarde a doutrina ortodoxa, Cassiano estabelece um


bom ponto na p. 608, VII, vii, fazendo um apelo à Escritura: “Paulo um apóstolo, não de
homens, nem por homem, mas por Jesus Cristo” (Gálatas 1:1). Paulo certamente não queria
ensinar que Cristo não era um homem; mas ele certamente implicou que Cristo era Deus. Isso
é ainda mais claro em 1 Corintios 2:8, “o Senhor da Glória”; ao qual pode ser adicionado: “a
plenitude corporal da divindade” (Colossenses 2:9). E uma consideração conclusiva do
próprio Cassiano: “Pois Paulo não nega que Jesus é homem, mas ainda confessa que o
homem é Deus”. De fato, o tratado é cheio de argumentos provando a divindade de Cristo,
mas o objetivo aqui tem sido apenas ilustrar sua descrição de Nestório.
Nos relatos comuns do Nestorianismo dados na literatura pós-Reforma, o ponto
enfatizado é que essa heresia sustentava que Cristo tinha duas pessoas. Os editores do Nicene
Fathers introduziram o Livro IV de Cassiano, capítulo vi, com o subtítulo “Que há em Cristo
apenas uma Hypostasis (isto é, ser pessoal)”. Um estudante deve ler entre as linhas para
encontrar tal argumento ali. O que os teólogos protestantes vêem como o ponto mais
importante, Cassiano parece ignorar. Geralmente, mas não inteirmaente: em V, vii há uma
consideração incomum: “Nenhum tipo de paixão pode acontecer a uma natureza que é
impassional, nem pode o sangue de alguém senão um homem ser derramado, nem alguém
senão um homem morrer; e, todavia, a mesma Pessoa de quem é dita como morta, foi
chamada acima de a imagem do Deus invisível... O apóstolo toma toda precaução... de que o
Filho de Deus, sendo unido com o Filho do homem, poderia vir por interpretações loucas ser
transformado em duas Pessoas, e assim... ser transformado numa dupla Pessoa em uma
natureza”. A frase final dessa citação provavelmente representa incorretamente Nestório, mas
pra variar, de qualquer forma, Cassiano relata que Nestório sustentava que Jesus Cristo era
duas pessoas.
Por algum tempo o Nestoriansmo teve considerável apelo. Seus missionários lideraram
e organizaram igrejas orientais, mesmo na China, que duraram por alguns séculos. Com o
passar do tempo, contudo, parece que a teologia deles experimentou algumas alterações. As
duas Pessoas foram unidas numa personalidade mais alta. Mas como pode o Logos, já
deidade, ser algo combinado com algo maior? Esses desenvolvimentos pós-calcedônicos,
difíceis de se documentar com exatidão, não são particularmente relevantes para a nossa
teologia ocidental. De qualquer forma, Nestório foi condenado em 431.
Uma heresia adicional completará a presente descrição. É uma teoria de uma–pessoa e
pode, portanto, parecer mais plausível, pelo menos a princípio, do que uma teoria de duas
pessoas.
O último movimento herético que precisa ser discutido aqui é aquele de Eutico, um
estudioso da primeira metade do quinto século. Reconhecendo que Cristo tinha que ser uma
pessoa, ele tinha poucas alternativas disponíveis. Mas se ele era uma pessoa, como Cristo
pôde algumas vezes parecer divino e algumas vezes humano? A solução de Eutyches,
colocada de uma forma simples, caracterizou Jesus como nem humano nem divino: a união
da Segunda Pessoa da Trindade com o ser humano Jesus resultou em algo diferente de
ambos. Uma ilustração rude seria duas partes de gases hidrogênio e uma parte de gás
oxigênio resultando num líquido. Agora, pressumivelmente um ser humano poderia, pela
onipotência de Deus, ser transformado num anjo não-humano; mas parece não ser tanto uma
impossibilidade física quanto uma impossibilidade lógica a de Deus se desdivinizar. Ou para
colocar de uma forma um pouco diferente: uma mistura de divindade e humanidade, de
forma que Cristo não seria nem Deus nem homem é auto-contraditória. Ou a pessoa é
onipotente ou não é. Todavia, o eutoquianismo prosperou no oriente por um tempo, embora
tenha desaparecido rapidamente no ocidente.

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O Concílio de Calcedônia condenou todas essas visões como heréticas. Mas que
possibilidade permanece após alguém rejeitar a teoria das duas-pessoas, e também rejeitar um
tipo de mistura “química” das duas “naturezas”? Essa questão tem realmente sido respondida,
mas nunca completamente. O Concílio, reunido em 451 para determinar o assunto, foi apenas
meio bem-sucedido. Com justa clareza ele conseguiu decidir o que a Encarnação não era, mas
em parte alguma chegou perto de definir o que foi a Encarnação. A terminologia positiva do
Credo foi e permanece ambígua e sem sentido. Os labores recomendáveis dos bispos, embora
longe de exautivos, foram tão cansativos que poucos tentaram completá-los.
A Reforma forçosamente tinha que dizer algo e em seu apêndice a Confissão de
Westminster diz mui enfaticamente, embora as definições necessárias estejam ausentes. Em
1880 o teólogo alemão I. A. Dorner publicou seu System of Christian Doctrine, o terceiro
volume do qual fez uma boa tentativa.
De longe a discussão mais completa, repleta de várias definições, é a de Charles Hodge
(Systematic Theology, Vol. II, pp. 378 ff.). Visto que as primeiras páginas desse tratado são
apenas uma análise histórica, a discussão séria vem mais tarde. A própria análise termina com
a tentativa de B. B. Warfield. Embora sua erudição cintile em sua discussão notável do
Perfeccionismo, ela é lamentavelmente fraca em seu artigo “As ‘Duas Naturezas’ e a
Especulação Cristológica Recente” (Christology and Criticism, Oxford University Press,
1929, pp. 259-310). Todavia, por tudo isso, tentativas de desenvolver uma doutrina
satisfatória da Encarnação deve ser construída sobre as conclusões inadequadas de
Calcedônia.

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3. A Falha Fatal

Está na hora de identificar a falha fatal no Símbolo de Calcedônia, ou, mais


amplamente, enfrentar as próprias dificuldades reais na formulação de uma teoria da
Encarnação que seja tanto bíblica como inteligível. O grande defeito no Credo é a ausência de
definições. Seus autores-bispos não explicam, e provavelmente nem eles conhecem os
significados de “alma racional”, “consubstancial”, “natureza”, “subsistência”, e, acima de
tudo, “pessoa”. Isso foi dito umas poucas páginas atrás, mas precisa de ênfase constante.
Façamos uma comparação odiosa. Um dos termos acima é natureza. No português
moderno, natureza pode significar árvores, montanhas e furacões. A linguagem popular se
move de um significado para outro. Mas filósofos competentes são mais particulares. Na
antiguidade, Aristóteles definiu o termo com grande exatidão em seu Physics, II, 192b20-22:
“A natureza é o princípio e a causa do movimento e descanso naquele corpo no qual ele é
imanente per se e não per accidens”. Ninguém, certamente, está forçado a se restringir a essa
definição, exceto o próprio Aristóteles. Assim, lendo Aristóteles, sabemos o que ele quer
dizer. Mas os bispos não nos deram nenhuma dica do que eles queriam dizer. Para traçar a
história e comentar sobre ela, seria necessário, contudo, ou pelo menos conveniente, usar o
termo. Mas o uso será somente coloquial. Uma discussão de várias visões sustentadas desde a
antiguidade até o presente não pode evitar o uso de tal termo antes que alguém possa discutir
uma visão mais inteligível que não use o termo ou que o define como cuidadosamente
Aristóteles o fez.
Natureza não é o único termo vago. Talvez o mais vago de todos seja substância, usado
sozinho ou no composto consubstancial. O menos ambíguo, embora não muito, é hypostasis.
Isso não é mera questão de tradução. A tradução é baseada numa ignorância do significado.
Os latinos confundiram toda a teologia traduzindo hypostasis como persona, quando ele
deveria ter sido traduzido como sub-posição. De qualquer forma, Liddell e Scott usam cinco
ou seis linhas de pormenores para explicar o uso da palavra no grego clássico. Os
significados são: “permanecer sob, suportar, entrar numa cilada, sedimento, abscesso, sopa
espessa ou gelada, duração, origem, fundação, assunto, argumento, propósito, condifência,
coragem, promessa, substância, realidade, riqueza, título de propriedade”. O inferior Arndt e
Gingrich dá: “natureza substancial, essência, ser real, realidade, confidência, convicção,
estabilidade”.
Isso não sugere que qualquer pessoa que use o termo, exceto quando no desembaraço de
conversações casuais, deve clarificar o significado?
Outro dia um amigo me pediu que traduzisse algumas instruções em alemão que
estavam num equipamento que ele tinha importado. As poucas linhas continham a palavra
Postfach. Em Boon, 11 uma senhora a quem fui apresentado, me perguntou: “Wass ist Ihr
Fach?”. 12 Certamente, respondi: “Filosofia Antiga”. Mas esse significado certamente não
tem nada a ver com as instruções que vieram com o equipamento. O dicionário então me
informou do que eu não sabia: A palavra Fach pode significar uma gaveta, e a instrução era
para enviar dúvidas e reclamações para um número de gaveta de correio ou caixa de correio

11
Nota do tradutor: Cidade localizada no oeste da Alemanha; antiga capital da Alemanha Ocidental.
12
Nota do tradutor: ‘Qual é a sua Especialidade?’ em alemão.

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como a chamaríamos [ficou cruel aqui.... acho que ‘post-drawer’ e ‘postbox’ é a mesma coisa
pra nós].
Agora, o problema com o Credo não é que ele contenha uma palavra ambígua. O
problema é que há muitas delas. Se psychēs logikēs causa dificuldade mínima, como
traduziremos ommousion, phuseon, a máscara latina teatral persona, e especialmente
prosopon? Nem é a tradução a dificuldade principal. Se upostasis ou persona significa
pessoa, ainda devemos formar uma definição de pessoa. Alguma pessoa pode ter duas
vontades e dois intelectos? Cristo é comumente dito ter tido duas vontades, embora sua
vontade humana não o tornasse uma pessoa. O que, em adição à vontade e intelecto, é
necessário para fazer de um corpo humano uma pessoa humana? A “natureza” humana de
Cristo é suposta ter carecido de uma característica essencial de uma pessoa. O que era isso
que ele não tinha? Como ele pode ser um homem verdadeiro sem ser uma pessoa humana?
Merriam Webster define pessoa como um caráter numa cena de ação, um tipo especial de
caráter individual, um ser caracterizado pela apreensão racional, racionalidade, e um senso
moral, um ser humano individual. Jesus era alguma dessas descrições, ou nenhuma? Não é
plausível que os pais da Igreja não entenderam o que eles estavam dizendo? Não é desejável,
portanto, dar algumas sérias atenções à Encarnação? E embora nem todas as pessoas sejam
homens, todos os homens são pessoas.

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4. A Idade Média e a Reforma

Os historiadores frequentemente dividem o assunto escolhido em mais ou menos


períodos limitados. Certamente Henry VII governou sobre a Inglaterra onde as condições
eram vastamente diferentes daquelas precedentes. E certamente esse é o caso com William e
Mary. A história da Igreja também pode ser assim dividida. Lutero e Calvino iniciaram a
Reforma. Com respeito à Encarnação, contudo, essas divisões não funcionam muito bem. É
de certa forma cômico ver I. A. Dorner, após discutir o “Primeiro Período até 381 d.C.” (Vol.
III, p. 199), datar o “Segundo Período, 381-1800”. Pelo menos ele poderia ter datado-o como
451-1800. Mesmo assim, reconhecendo 451 como uma data importante, é ridículo estender a
nova era até 1800 como se nada tivesse acontecido no intervalo. Há outra declaração credal
sobre a Encarnação em 681, mas nenhuma era foi determinada através disso. Então também,
como um pedaço de informação quase inútil, alguém pode se referir ao terceiro livro de Peter
Lombard, Sentences (século doze); mas Pedro mostra pouca originalidade, embora como um
livro-texto seu uso continuou até o final do século dezesseis.
Contudo, Tomás de Aquino mais certamente iniciou uma nova era no século treze.
Embora ele discuta a Encarnação em detalhe considerável, a mudança teológica e filosófica
foi muito maior. Até e incluindo Bonaventura (1217-1274), o Cristianismo tinha sido
basicamente Agostiniano e Platônico. Tomás de Aquino foi capaz de destruir tudo isso e
substituir o Aristotelianismo, que naqueles dias caracterizava o Romanismo oficial e um
grande segmento do Protestantismo ortodoxo também.
A Reforma sob Lutero e Calvino marca outra era, embora nenhuma grande mudança
tenha ocorrido no Romanismo. Antes de discutir as atitudes da Reforma com relação à
Encarnação, podemos dizer que essa era alcançou seu ápice com a formulação da Confissão
de Fé de Westminster em 1644-1647. Desde então o Cristianismo tem constantemente
deteriorado, lentamente ao princípio, então mais rapidamente até que no século vinte somente
uns poucos sustentem a posição oficial de Lutero ou Calvino.
Mas retornemos à doutrina da Encarnação. O ponto em questão era a relação entre a
natureza divina de Cristo e sua natureza humana. Parece impossível que o divino e o humano
possam existir num único corpo, ou uma pessoa, sem um afetar o outro. O Credo de
Calcedônia, juntamente com as palavras imutavelmente, indivisivelmente, e
inseparavelmente, também disse inconfundivelmente. É esse último termo que causou o
problema. Alguém pode simpatizar com a tentativa de preservar a natureza divina de
qualquer desdivinização. Nem pode um cristão negar, para usar o exemplo freqüente, que
Jesus se emocionou, se cansou e sentiu sede. Mas não havia conexão, influência, relação
entre as duas “naturezas”?
Durante os primeiros anos da Reforma, embora o problema tenha sido reconhecido pelo
próprio Lutero quanto a isso, havia muitas outras preocupações imperativas. A perseguição
cruel era uma. Mas além de tal perigo físico, a reavaliação e reconstrução completa de todas
as doutrinas precisava de atenção imediata. A segunda geração, contudo, desfrutou de maior
liberdade de escolha, e os Luteranos e Calvinistas se engajaram num vigoroso debate sobre o
nosso presente interesse. Os últimos sustentaram firmemente uma posição. Os Luteranos,
todos reconhecendo algum tipo de relação íntima entre as duas naturezas, produziram duas
principais teorias, ou dois graus de consistência? Os teólogos principais eram Brentz e
Chemnitz. Pode ser grosseiro chamar o primeiro de pugnaz, mas vigoroso é muito fraco

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também. Para o seu crédito intelectual ele produziu, lógica e consistentemente, as


implicações da doutrina luterana da communicatio idiomatum, que significa que os atributos
divinos estavam anexos às duas naturezas, e os atributos humanos da mesma forma.
Chemnitz foi um indivíduo muito gentil, disposto a fazer concessões aos Calvinistas. De fato,
ele fez tantas concessões que ele chegou perigosamente perto de aceitar a posição completa
deles. Desafortunadamente, isto é, desafortunadamente para o Cristianismo, o interesse
intenso morreu e nunca foi novamente renovado.
Até o presente dia os Luteranos nunca foram capazes de concordar entre si quanto a
todos os detalhes. Eles certamente não aceitam todo jota e til de Brentz. Nem eles estão muito
felizes com as concessões de Chemnitz aos Calvinistas. Portanto, para caracterizar a época de
certa forma imprecisamente, consideraremos apenas Chemnitz.
Chemnitz foi um homem de caráter bondoso, grande conhecimento e extrema
sinceridade. Seus gestos conciliatórios não devem ser entendidos como uma mancha em seu
caráter. Seu problema não era moral, mas parcialmente lógico e parcialmente um desejo
sincero de unidade. Mas essas virtudes estimáveis o levaram à confusões e inconsistências.
Seu estímulo original vem de sua convicção de que a visão reformada da natureza dupla de
Cristo era muito parecida com duas coisas sendo simplesmente juntadas. Elas não deveriam
ser tão severamente separadas sobre a base de apenas uma palavra ambígua no Credo de
Calcedônia. Como pode então existir uma relação íntima entre as duas? Se a forma extrema
do communicatio idiomatum, pela qual todos os atributos de cada natureza estão anexos à
outra, é inaceitável, pelo menos deve existir uma mistura mais íntima de naturezas do que os
Calvinistas permitem.
Chemnitz seguiu essa linha de raciocínio, embora com menos plausibilidade, para o
caso dos santos ressurretos no retorno de Cristo. Após a ressurreição de todos os cristãos,
eles, como Cristo em seu corpo ainda humano, terão corpos, os quais, embora espirituais,
ainda serão materiais. Como algo pode ser tanto material como espiritual é embaraçoso, pois
parece ser impossível ocupar o espaço e não ocupar o espaço ao mesmo tempo. A ilustração
de Chemnitz do fogo penetrando o ferro não é de nenhuma ajuda. Podemos pensar bem dele
por sua piedade e por sua esperança de entender os enigmas incompreensíveis da Encarnação
na vida futura. Mas na presente vida, ele foi seriamente confuso.
Visto que o presente escritor é um Calvinista rigoroso inflexível, com nenhuma diluição
pelo empirismo aristotélico, um leitor pode suspeitar a partir desse material que o objetivo é
depreciar os Luteranos. Dificilmente: O material calvinista sobre a Encarnação é tão ruim e
algumas vezes pior. Por exemplo, Peter van Mastricht pontificou: a união hipostática “é nada
mais do que uma certa relação inefável da pessoa divina com a natureza humana, pela qual
essa natureza humana é peculiarmente a natureza humana da segunda pessoa da Divindade”.
Podem palavras serem mais sem sentido?! Inefável indica um assunto para o qual nenhuma
palavra se aplica. Nem pensamento, sequer. Eu duvido que ele tivesse qualquer idéia de
pessoa. Ele usa natureza três vezes, mas tudo do que alguém pode estar certo é que ele não
usa o significado de Aristóteles. E a única palavra que não é peculiar é peculiarmente.
Para continuar a história agora, até onde diz respeito à Encarnação, o período de
Chemnitz até Dorner oferece pouco. Alguém pode ter dito que Dorner ressuscitou a doutrina
e estimulou Powell a escreve The Principle of the Incarnation e A. B. Bruce a escrever The
Humiliation of Christ (Segunda Edição, Hodder and Stoughton, sem data). Ambos,
particularmente o último, tiverem outros estímulos também, até mesmo entre os
relativamente conservadores sete mil, Dorner pode dificilmente ser chamado de o pai de uma
nova era. Todavia, ele merece atenção.

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Dorner observa que o Credo de Calcedônia teve como seu ponto de partida a suposição
de que Cristo tinha duas naturezas, mas que suas fórmulas com respeito à relação delas são
todas negativas. “Ele não diz que a natureza humana estava unida à pessoa do Logos, ou
unida à sua hypostasis... mas as duas naturezas... são pensadas estarem em movimento uma
para com a outra (não a hypostasis divina meramente em movimento para com a natureza
humana) [uma frase que é até menos clara que o Credo]; mas com suas idiotes é pensado
estar incorporado na pessoa una completa, Jesus Cristo, o resultado da união, que é chamado
upostasis ou prosopon”. Todavia, o Credo de nenhuma forma clarifica a maneira da
unificação. “Nem ele diz que a hypostasis do Logos é o Ego dessa pessoa. De fato, ele não dá
um relato de como cada uma das duas naturezas contribui para a unidade da pessoa” (Vol. III,
p. 217).
Alguns desenvolvimentos se seguiram mais tarde, em que a unidade da pessoa divina-
humana foi enfatizada. A hypostasis do Filho não somente produz a unidade pessoal: Ela é a
pessoa do Deus-homem. O Logos é a pessoa. Isso requer duas suposições não encontradas no
Credo de Calcedônia. Primeiro, o Logos assume o lugar do Ego para o lado humano de
Cristo. Segundo, ele pressupõe a humanidade de Jesus, mas nega sua personalidade. De outra
forma, se o Logos é uma pessoa, e se o Jesus humano é uma pessoa, o Nestorianismo é o
resultado. Portanto, a natureza humana de Cristo é impessoal. Isso se tornou a visão
comumente aceita, mas ela envolve uma grande dificuldade. Aparte do fato que para a
maioria das pessoas uma “natureza humana pessoal” é uma esquisitice, para dizer o mínimo,
a visão oscila entre sua tendência de se tornar Nestoriana e sua igualmente clara tendência de
se tornar Apolinariana. Se a natureza humana não tem nenhuma vontade humana, ela é
dificilmente uma natureza humana, e, portanto, a visão reverte para o Apolinarianismo. Mas
se a humanidade de Jesus inclui uma vontade humana e é, assim, um ser humano completo,
temos o Nestorianismo novamente. A Cristologia antiga nem a moderna escaparam desse
dilema. Pode nascer na mente também que a Trindade tem três Pessoas, mas somente uma
vontade.
Nem a igreja Católica Romana, nem as igrejas Protestantes resolveram o problema. A
igreja Grega não é muito melhor. Por conseguinte, a Cristologia foi abandonada por outros
interesses.

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5. O Século Dezenove

Dorner tinha apenas uma boa razão muito duvidosa para estender o período Medieval
para incluir o século dezoito. O período da Reforma (1517-1647) estendeu e intensificou a
discussão da Encarnação. Após 1647, vários protestantes escreveram sobre o assunto, mas
eles foram amplamente repetitivos. O leitor pode permitir alguém dizer que essa repetição
culminou em Charles Hodge e W. G. T. Shedd, ambos dos quais serão inclusos nessa seção.
Contudo, embora isso possa violar a cronologia de certa forma, H. C. Powell, Oriel College,
Oxford, em 1896, publicou The Principle of the Incarnation (Longmans, Green and Co., pp.
483). Não somente ele frequentemente se refere a Dorner, mas ele analizou as visões
primitivas e consequente mente tentou investigar e avaliar os significados de pessoa e a
história do Ego.
Há deveras uma grande quantidade de material escriturístico tanto nos primeiros como
nos últimos capítulos; mas aqui estamos interessados em como ele usa a filofosia moderna ao
definir pessoa. Uma falha, contudo, deve ser guardada em mente. Powell dá a impressão de
que os vários filósofos modernos produziram teorias de personalidade, ponto final! Ele não
considera o fato que Descartes era um racionalista, Locke um empirista, e Kant um
kantiniano. Ele ignora o fato que as epistemologias básicas deles controlam os seus interesses
subsidiários. Outro defeito é a inexplicável omissão de qualquer referência a Leibniz, pois ele
certamente tinha algo a dizer sobre mônadas e pessoas. Qualquer pessoa que deseje usar as
percepções brilhantes e interessantes de Powell deve, portanto, ajustá-las para se adequar às
suas próprias pressuposições lógicas.
As páginas seguintes agora sumarizarão, analizarão e criticarão o material de Powell. O
leitor pode não favorecer o criticismo, mas o contraste pode dificilmente falhar em ser
instrutivo. Num assunto complicado como esse, todas as interpretações (exceto as
extremamente estúpidas) têm algum valor.
Powell introduz seu assunto (Capítulo V, p. 139) afirmando que “o saber de Deus e o
conhecimento do homem são distintos por diferenças não somente de grau, mas de tipo”.
Note a peculiar mudança de palavra de saber [knowing] para conhecimento [knowledge].
Certamente o saber de Deus, sua psicologia, se alguém ousa usar o termo com referência a
Deus, diferere do saber do homem. Deus nunca aprende algo. Se um homem nunca aprendeu
as formas apriori da mente, pelo menos ele tem que aprender algo mais. Mas esse não é o uso
de palavras de Powell. Alguém deve, portanto, perguntar: o conhecimento de Deus difere do
conhecimento do homem, não em quantidade somente, mas em objeto e conteúdo? Deus
sabe, sem aprender, que Davi foi Rei de Israel. O homem sabe isso? Esse é um pedaço de
informação comum tanto à mente divina como à humana? Se essa proposição, ou alguma
outra, não é comum a ambas as mentes, o homem não pode conhecer nada, pela simples
razão que Deus conhece tudo. Conquanto minúsculo seja a quantidade de conhecimento do
homem, ou até mesmo o máximo possível, o objeto conhecido, uma proposição particular,
deve ser comum tanto a Deus como ao homem. Esse ponto deve também ser mantido na
discussão sobre a relação entre o conhecimento humano de Jesus e o conhecimento divino do
Logos.
As implicações não são triviais. O garoto Jesus deve ter sido humano, pois ele não
conhecia tudo. Lucas 2:52 diz que Jesus não somente crescia em estatura — que é puramente
físico — mas também em sabedoria, que é intelectual. Uma pessoa pode também lembrar sua

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discussão com os doutores em Lucas 2:46. Esses dois versículos não afirmam qualquer
onisciência: de fato eles a negam. É totalmente humano adquirir conhecimento, mas adquirir
sem os efeitos devastadores do pecado sobre o uso da lógica e do raciocínio. Portanto, de uma
forma ou de outra, ele deve ter tido duas consciências, estritamente separadas. Powell insiste
sobre esse ponto (pp. 141-142), mas com material adicional não necessário no momento.
Mas como pode algum homem sano ter duas consciências? Há casos de múltipla
personalidade, mas esses não apenas são anormais, eles não são simultâneos. Há, então, duas
pessoas num corpo? A pessoa ausente “existe” durante a aminésia? Se soubéssemos, ainda
seria de pouca ajuda na explicação da personalidade do Deus-homem. O primeiro
requerimento é definir uma pessoa. O que é isso em virtude do que uma pessoa é uma
pessoa? Powell mantém que a igreja primitiva careceu da idéia de uma personalidade
individual ou Ego. Ele aponta que até mesmo Aristóteles nunca tentou definiu pessoa. É
verdade que ele usa o nothingness da matéria para transmutar uma espécie mais baixa num
indivíduo físico desconhecido. Mas isso nos desvia do nosso assunto principal.
Powell também mantém que os judeus tinham um entendimento melhor, ou uma
insinuação melhor de individualidade do que os pagãos tinham. Possivelmente isso é verdade,
mas não muito útil. Mais pertinentemente, o Cristianismo com sua forte ênfase sobre a
salvação, traz indivíduos, se não a individualidade, num foco distinto. Mas ao tentar defini-la,
os Pais da igreja enfatizaram o que ela não é, antes do que ela é. Uma certa quantia desse
conhecimento era essencial para a formulação da doutrina da Trindade. Mas naquela era
primitiva a terminologia não era suficientemente refinada ou definida. Devemos simpatizar
com eles, pois até mesmo nos dias de hoje muitos teólogos repetem algumas distinções não
explicadas entre pessoa, natureza e essência. Na antiga terminologia teria havido alguma
diferença entre pessoa e natureza, pois se não houvesse nenhuma, não haveria diferença entre
a divindade de Cristo e sua humanidade; e nesse caso ele não poderia ter sido um homem. Na
melhor das hipóteses voltaríamos ao Apolinarianismo novamente. Mas o que são pessoa,
natureza, essência, homem? Tudo isso permanece obscuro.
Para lidar com esses antigos enigmas, Powell, não importa quão atrapalhado possa
parecer para nós, começa com Descartes, que de acordo com ele foi a primeira pessoa a ter
pelo menos uma noção elementar de uma pessoa. À medida que a linha de investigação
procede para e além de David Hume, uma pessoa deve sempre estar ciente da questão: “O
Ego é o fenômeno da própria consciência, ou não sabemos nada sobre o Ego?” Veremos um
pouco mais tarde que Charles Hodge opta por nada. Embora isso possa soar surpreender a
princípio, e embora a disjunção entre fenômeno e nada possa parecer incompleta, em breve se
tornará evidente que o Ego é ou não é ciente de si mesmo.
Embora Descartes tenha iniciado o estudo moderno do Ego ou pessoa, Powell pensa
que ele não merece muita atenção. Ao contrário, John Locke foi o primeiro a fazer real
progresso. Dele Powell diz: “A primeira escola confunde o Ego, o Eu, o Ser Pessoal com o
fenômeno de percepção e consciência. Locke certamente dá o exemplo... Ele confunde
identidade pessoal com a consciência dela” (p. 158). Se essa declaração não é completamente
falsa, ela é pelo menos estranhamente confusa. Alguém não pode ver a visão de Locke em
sua inteireza sem levar em conta sua teoria de substância.
O termo substância tem desempenhado tal papel importante na história da teologia que
uma ou duas observações preliminares são necessárias antes de se examinar o seu uso em
Locke. Primeiro, até onde o português ordinário vai, ela é uma palavra perfeitamente boa e
útil com um significado reconhecível. Por exemplo, uma Presidente recentemente eleito
profere o discurso inaugural, e amigavelmente os jornais, se eles não imprimi-lo em sua

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inteireza, dão a substância do discurso. Isto é, eles reportarão as idéias principais da


mensagem. Mas isso está removido do uso filosófico e teológico. Agora ouçam Locke.
“Mas por que ouvir Locke?”, alguém perguntará; estamos interessados em teologia e
nos Pais da Igreja, não em filosofia britânica. Bem, há uma resposta simples para a questão
natural, de fato duas. A primeira é que Locke estava interessado em teologia e escreveu sobre
o assunto. A segunda e mais importante resposta é que Locke dá um relato detalhado do que
substância é e como os seres humanos chegaram ao seu conceito. Isso é o que os Pais da
Igreja deveriam ter feito, mas não o fizeram.13 Portanto novamente, ouçamos Locke.
Uma das passagens mais pertinentes sobre substância ocorre no Livro II, xxiii, 1-5 de
seu Essay Concerning Human Understanding. A passagem começa com as idéias simples de
sensação (e reflexão) tais como vermelho, ruidoso, áspero, etc., sobre as quais todo o
conhecimento está fundamentado. Para citar:
A mente sendo... fornecida com um grande número das idéias simples [vermelho, verde,
duro, suave, etc.] transmitida pelas sensações, como elas são encontradas em coisas exteriores,
ou pela reflexão sobre suas próprias operações, observe, também, que certo numero dessas
idéias simples vão constantemente juntas; o que é presumido pertencer a uma coisa.. são
chamadas... pelo nome.. porque... não imaginando como essas idéias simples podem subsistir
por si mesmas, somos acostumados a supor algum substrato em que elas subsistem... que,
portanto, chamamos de substância.
[Se] alguém examinasse com respeito a sua noção de substância pura em geral,
descobriria que não possui dela nenhuma outra idéia, excetuando apenas a suposição de não
saber o que ... A idéia... a qual damos o nome geral de substância [é] nada senão o suposto,
mas desconhecido, suporte daquelas qualidades que descobrirmos existir, as quais imaginamos
que não podemos subsistir sine re substante, “sem algo para suportá-las...”
A mesma coisa acontece com respeito às operações da mente, isto é, pensamento,
raciocínio, medo, etc., as quais nós, concluindo não subsistirem de si mesmas... somos aptos a
pensar dessas ações de [não corpos, mas] de alguma outra substância, que chamamos espírito...
uma substância na qual o pensamento, o conhecimento, o duvidar... subsiste, temos tão clara
uma noção da substância como temos do corpo... (com igual ignorância do que ele é).... o
substrato daquelas operações que experimentamos dentro de nós mesmos.

Sem dúvida Locke era frequentemente inconsistente. Por conseguinte, duas críticas
podem ser corretas, embora seus relatos sejam conflitantes. Se eles não podem escrever
volumes extensos discutindo cada detalhe menor, cada um deve, com reconhecimentos
apropriados, escolher a interpretação que ele pensar ser melhor e não importunar seus alunos
(sophomores) com material muito difícil para estudantes graduados. Além do mais, não é o
objetivo desse estudo traçar a história da filosofia moderna. O objetivo é reunir sugestões a
partir de qualquer fonte, o bom Bispo Berkeley ou o anti-cristão Hume, que ajudarão na
formulação de uma cristologia mais completa do que a igreja tem conhecido até aqui. Uma
conclusão já tem sido traçada, e será agarrada pelo material roubado de Locke. A conclusão
é: O termo substância deve ser totalmente descartado.
Para um argumento menos erudito contra a substância, um que possa ser utilizado com
teólogos que conhecem pouca filosofia, ou mais apripriadamente um que possa ser
direcionado contra aqueles que pararam de estudar quando deixaram o seminário, é possível
perguntar umas poucas questões não muito profundas. Qualquer objeto pequeno servirá como
uma ilustração: uma bola de baseball, um cachorro; um livro, ou um frasco de tinta. A
13
Os Pais da Igreja não o fizeram; mas alguns filósofos do século quatroze sim, e.g., Nicholas de Autrecourt.
Veja Medieval Philosophy de F. C. Copleston (Methuen, 1952; Harper, 1961, pp. 141-145).

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questão é: A substância de uma bola de baseball é esférica? A substância do cachorro é latir?


A substância de um livro é 6 x 11 x 2? A substância da tinta é preta ou líquida? A resposta
para essas questões, se estamos falando de teologia antes do que de discurso inaugural, é a
última frase no parágrafo precedente: “O termo substância deve ser totalmente descartado”.
Embora alguns historiadores, mais peculiarmente, negem que o Ego de Locke fosse
uma substância, poderia ser tanto uma pessoa pequena sem uma substância espiritual como
um objeto estendido sem sua substância material. Alguma das fraseologias em II, xxvii, 9 é:
Para descobrir do que as identidades pessoais consistem, devemos considerar o que [a
palavra] pessoa significa para... um ser inteligente pensante.. Por essas [nossas sensações
presentes] todo mundo é para si mesmo o que ele chama de eu, não sendo considerado... se o
mesmo eu é continuado na mesma ou diversas substâncias... A consciência sempre acompanha
o pensamento, e ela é o que faz todo mundo ser o que ele chama de eu...

Essa página é tão confusa como qualquer outro autor poderia produzir. Sua última frase
não é o seu pior erro, mas é sintomática. “A consciência sempre acompanha o pensamento”, ele
diz. Ele fala de duas coisas acompanhando cada outra; mas eles não são duas coisas, antes o
pensamento é uma forma de consciência. Além do mais, se esse par singular é o eu, a teoria se
aproxima da de Hume, que será discutida uma ou duas páginas mais adiante, a saber, o eu é a coleção
de idéias. A passagem citada também implica que essa coleção de idéias pode pular de uma substância
para outra. Para um empirista isso é muito peculiar. Se a substância é incognoscível, algo que eu sei
que não é, como Locke chega a saber que seu eu fez o pulo?
O próximo parágrafo, contudo, Seção Dez, intitulado “A Consciência faz Identidade Pessoal”,
modifica o precedente. Ele diz,
É adicionalmente inquirido se ele [o antecedente de ele tem que ser o eu, a coleção de
sensações, no parágrafo nove] é a mesma substância idêntica. Isso, poucos pensariam que eles
tinham razões para duvidar, [embora o esquecimento e o sono levantem dúvidas]... se somos a
mesma coisa pensando, isto é, a mesma substância, ou não... Pois é ser a mesma consciência
que faz com que um homem seja ele mesmo para si mesmo, a identidade pessoal depende disso
somente, seja anexada somente a substância de um indivíduo, ou possa ser continuada numa
sucessão de substâncias diversas (II, xxvii, 10).

O que deveria ser claro, e o que Lock não ousa admitir, é que o empirismo, se ele inclui
substância, possivelmente não pode responder essas questões. Se então alguém deseja
permanecer um empirista, ele deve se dirigir a Hume.
Contudo, antes de começarmos a examinar a visão de Hume de que a mente, o Ego, ou
pessoa é precisamente o complexo de “impressões e idéias”, a conclusão dogmática brusca de
Powell deveria ser de algum pequeno interesse: “O veredito do senso comum da humanidade
é que dentro de nós exite um Ego, ou Eu ou Ser Pessoal distinguível de todas nossas
percepções e sentimentos” (p. 166). Alguém então pode se lembrar que o senso comum da
humanidade por séculos sustentou que a terra era achatada. Para continuar: “As tentativas de
destruir... esse veredito geral simplesmente recua para aqueles que as fazem”.
Q. E. Dogmatismo! O próprio Powell é forçado a admitir, “A Consciência testifica a
existência de um Ego, um Eu, dentro de nós”. Hume certamente insistira que a conciência
não testifica. Uma pessoa é consciente de percepções, idéias e conceitos. E até mesmo Powell
nessa próxima linha reconhece, “mas quando perguntamos adicionalmente: O que é esse Eu?
O que é Personalidade? Nenhuma resposta se apresenta” (p. 169). Aparentemente o senso
comum (p. 166) e a consicência (p. 169) contradizem um ao outro. Terminemos então com o
senso comum e tentemos usar a inteligência incomum.

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A dificuldade mais penetrante e importuna que pragueja todo esse assunto é a


deficiência na definição. Os substantivos (não conceitos) cruciais são ambíguos, ou realmente
sem significado. Na página 149 Powell declara: “O ponto principal que foi estabalecido com
respeito tanto ao Espírito Santo como a... Encarnação, foi que uma diferença real tinha que
ser reconhecida entre essência, ou natureza, e personalidade. Se não há tal diferença real,
então a concepção sabeliana de Deus deve ser verdadeira”. O leitor deve ser lembrar que o
Sabelianismo é a teoria de uma trindade unitariana modal. Agora, se essência significa
definição, que é o seu único significado apropriado, é difícil ver como definir o Pai para
incluir personalidade evita que alguém inclua personalidade numa definição de certa forma
diferente do Filho. O argumento de Powell implica que todos os indivíduos humanos são um
indivíduo porque cada um deles é uma pessoa.
Powell vai mais adiante. Continuando na página 149 ele argumenta, ou antes, afirma,
“se não há distinção entre pessoa e natureza [natureza, ele tinha previamente identificado
com essência], pareceria suceder que não poderia haver nenhuma separação em nosso Senhor
Encarnado entre sua Divindade e sua humanidade, em cujo caso ele não poderia ter sido
realmente homem, como nós somos”.
Em primeiro lugar, contudo, de acordo com a doutrina ortodoxa, Cristo na era
realmente homem como nós somos, pois nós somos pessoas e Cristo era somente uma
“natureza”. Em segundo lugar, Powell quer definir pessoa duma forma e natureza de outra,
embora ele tivesse identificado anteriormente natureza com essência, ou definição. Como
isso evita que separemos a divindade da humanidade, como ele diz que o faz, não está de
forma alguma claro. As definições são explicitamente diferentes. Condense seu argumento: A
menos que pessoa e natureza sejam distintas, a definição de divindade é precisamente a
definição de humanidade.
Se o leitor está cansado de tais confussões, assim está também o escritor. Retornaremos,
potanto, como prometido, a David Hume.
Hume foi, certamente, um empirista britânico e, portanto, consideramos sua filosofia
inaceitável. Todavia, pode ser possível ajustar sua visão do eu para alguma forma de
apriorismo. Se bem sucedido, teremos feito um grande ganho. Mas por ora, tomemos Hume
assim como ele é. Assim como ele é? Powell deseja susntentar que Hume, em publicações
posteriores, fez certas retratações. A declaração é: “Ele escreveu, algum tempo depois da
publicação de seu Tratado da Natureza Humana [Treatise of Human Nature] um apêndice
para ele. Ele é da natureza de uma retratação”. Isso, creio, é de certa forma um exagero.14
O Apêndice como um todo, e a última parte dele, à qual Powell se refere, descreve
várias dificuldades que Hume teve que enfrentar, mas que naquele momento ele ainda não
poderia explicar. Antes do que uma retratação, ela é mais um programa para estudo adicional.
Num caso, um leitor poderia concluir que todas as referências de Hume causam e questionam
sua teoria original. Realmente não há razão para supor que Hume quer dizer causa em
qualquer outro lugar do que no anteriormente atribuído a ele.
O ponto de partida de Hume não é a mente branca imaginária de Locke. É
“impressões”, ou o que ordinariamente chamaríamos de sensações simples. Essas são
seguidas por “pensamentos ou idéias”, a qual a psicologia moderna provavelmente chamaria
de imagens. As duas são distintas pela grande vivacidade da primeira. Essa distinção,
contudo, não é tão evidente porque “aquela idéia de vermelho, que formamos no escuro, e
14
Compare Fuller e MacMurrin, A History of Philosophy, terceira edição, pp. 363, 364, ou alguma outra história
padrão de filosofia (moderna).

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cuja impressão, que ataca nossos olhos na luz do sol, difere somente em grau, não em
natureza. [De fato,] quando fecho meus olhos e penso no meu quarto, as idéias que formo são
exatas [!] representações das impressões que sinto; nem há qualquer circunstância de uma,
que não seja encontrada na outra” (Tratado da Natureza Humana, I, i, 1).
Esse não é o lugar mais conveniente para mencionar o gênio psicologita, Francis
Galton. Através de um extenso questionário, enviado para um grande número de pessoas bem
instruídas — professores de universidades, homens literatos, homens com altas posições no
governo, cientistas — ele descobriu que muitos deles não tinham memória de imagens de
forma alguma. Um deles relatou que ele sempre tinha considerado tal linguagem como
meramente figurativa. Assim, Galton coletou abundante evidência empírica para mostrar a
falsidade, não somente da reivindicação extrema de Hume de imagens corretas, mas de todas
imagens. Assim, a filosofia de Hume desintegra numa refutação ad hominem. Todavia,
muitos, tais como Bertrand Russel, embora empiristas, ainda insistem na universalidade das
imagens. O problema é que esses empiristas não têm para onde ir, exceto para suas próprias
experiências privadas. Eles não têm nenhum conhecimento da mente de outra pessoa. A
indução empírica deles é: “Isso é como eu penso; portanto, todas as outras pessoas pensam da
mesma forma”. O presente escritor não está ciente de quaisquer imagens de forma alguma,
especialemtne de um vermelho iguamente brilhante na luz do sol e na sombra escura. Se
Hume e Russel tentassem descrever completamente minha mente, estaria disposto a conceder
que eles têm imagens. Mas eu nego vigorosamente que todo conhecimento dependa delas.
Agora, de acordo com Locke, após combinar varias impressões simples numa coisa, e
similarmente produzir outras coisas, a mente começa a atividade de abstrair, pela qual idéias
gerais são formadas, e então mais gerais, até que o mais alto grau de abstração seja alcançado
em “algo que não sabemos o que é”. Hume aboliu todas as idéias abstratas, mesmo as
menores. Ele estendeu seu argumento a uma extensão maior do que a citação favorece; mas
no Livro I, Seção vii, há frases tais como essas:
Em terceiro lugar, esse é um princípio geralmente recebido na filosofia, que tudo na
natureza é individual, e que é extremamente absurdo supor um triângulo realmente existente
[um grau menor de abstração] que não tenha proporção precisa de lados e ângulos... É
impossível formar uma idéia de um objeto, que é possuído de quantidade e qualidade, e todavia
é possuído de nenhum grau preciso de ambos... Idéias abstratas são, portanto, em si mesmas
individuais... A imagem na mente é somente aquela de um objeto particular.

e não abstrata no sentido que Locke e outros tinham usado o termo.


Obviamente isso se relaciona com a natureza do Eu. Novamente as citações devem ser
resumidas, mas o estudante pode consultar o Livro I, Parte iv, Seção vi.
Há alguns filósofos, que imaginam que somos a cada momento intimamente conscientes
do que chamamos nosso EU... A sensação mais forte, a paixão mais violenta, ... somente a fixa
mais intensamente... Por azar, todas essas afirmações positivas são contrárias a essa própria
experiência, que é defendida por eles, nem temos qualquer idéia do eu segundo a maneira que
ele é explicada aqui. De qual impressão essa idéia pode ser derivada? Essa questão é impossível
de ser respondida sem uma manifesta contradição e absurdo... Ela deve ser alguma impressão,
que se levanta a cada idéia real. Mas o eu ou a pessoa não é alguma impressão, mas aquilo a que
nossas diversas impressões e idéias são supostas ter uma referência. Se alguma impressão
levanta a idéia do eu, essa impressão deve continuar invariavelmente a mesma... Mas não há
nenhuma impressão constante e invariável... Consequentemente não há tal idéia.

Hume continua afirmando que percepções “não tem necessidade de qualquer coisa para
suportar sua existência”. Qualquer tentativa de distinguir o eu termina “sobre alguma

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percepção particular ou outra... Eu nunca posso capturar o meu eu em qualquer momento sem
uma percepção, e nunca posso observa algo sem a percepção”. Os seres humanos, portanto,
“não são nada senão um pacote ou coleção de diferentes percepções... A mente é um tipo de
teatro, onde várias percepções fazem sua aparição... A comparação do teatro não deve nos
enganar. Elas são percepções sucessivas apenas, que constituem a mente...”.
Não importa quão convincente o argumentum ad hominem de Galton possa ser, há outra
refutação, absolutamente básica e fatal. Hume, como Locke, devem combinar impressões,
(sensações) e suas imagens para produzir coisas. Uma árvore não é meramente verde, ela é
também marrom, dura, alta, e talvez com um odor suave. Tudo isso deve ser combinado. Mas
ao mesmo tempo podemos também ter as impressões da umidade de Abril, uma sensação fria
do nordeste, e várias cinzas nebulosos numa configuração semelhante a de uma ovelha
[sheep-like]. Com talvez duas ou três dúzias de impressões ao mesmo tempo, como e possível
selecionar seis e chamá-la de árvore? Por que não selecionar o cinza, o duro, o suave, e
chamá-la de algum outro nome?
Agora, há duas formas de fazer isso. Nas ilustrações acima todas as impressões da
árvore e da umidade de Abril ocorreram ao mesmo tempo. Algumas outras ilustrações
envolveriam tempos diferentes, mas pelo menos essa passa por ora. Além do mais, na
ilustração acima, todas as impressões são necessárias para compor uma árvore ocurred pretty
much in the same place. O cinza (sheep) estava há jardas de distância. Agora, se o esquema
de Hume falha nessa simplicidade de situação, claramente ele não pode tratar com os casos
muito mais numerosos onde o espaço e o tempo são mais distantes [farther apart]. De
qualquer forma, para compor uma árvore, uma pessoa deve fazer uso do tempo e espaço.
Mas tempo e espaço não podem ser vistos, cheirados ou tocados. Eles não são
impressões simples tais como verde e duro. Por essa razão, tanto Berkely com Hume falam
dessas idéias como idéias de comparação entre coisas. Mas se é assim, uma pessoa deve ter as
coisas antes que ela possa produzir a idéia da relação; e o problema é que ela deve ter as
relações antes que ela possa produzir as coisas. O Empirismo falha no próprio princípio. Ele
clandestinamente fornece sua mente branca desmobiliada com espaço e tempo para começar
e então manufatrá-las num estágio posterior no processo de aprendizagem. Conclusão: Insista
sobre a mente branca, e o aprendizado nunca começará.
Isso nos traz para o apriorismo de Immanuel Kant. Para tornar o conhecimento possível,
ele fornece a mente com duas séries de fatores apriori. Uma série é as duas intuições de
espaço e tempo para tornar a percepção possível; a segunda é as doze categorias do
entendimento para tornar o pensamento possível.
Com o desastre de Hume diante de nós, é desnecessário dizer muito sobre espaço e
tempo. Citemos meramente duas das sentenças de Kant: “O espaço é uma representação
apriori necessária que serve para o fundamento de todas as intuições externas.... O espaço não
é nenhuma discussão ou ... conceito geral das relações de coisas, mas uma pura intuição”
(Adicker, editor, pp. 72, 73).
É necessário ser dito mais sobre as Categorias ou Concepções Puras do Entendimento,
pois Hume não fornece nada pelo qual antecipá-las. Observando seu próprio processo mental
Kant percebe que ele está usando formas lógicas que o empirismo não pode produzir. O
exame adicional lhe revelou uma lógica transcendental. Essa lógica foi removida para ser
baseada nas doze categorias apriori, das quais a unidade, pluralidade, causalidade e
necessidade são exemplos. Assim como as intenções puras tornam a percepção impossível,
assim somente por meio dessas categorias alguém pode pensar.

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Nem as intuições somente nem as categorias somente dão conhecimento. Ambas são
necessárias. As categorias sem intuições necessárias são vazias, e intuições sem categorias
são cegas. Por essa razão todos os argumentos para provar a existência de Deus são falaciosos
porque eles não têm nenhum conteúdo sensorial. Toda causa é o efeito de uma causa anterior.
Não pode haver uma primeira causa. É entranho como três apologistas recentes propõem uma
defesa kantiana, isto é, causal, da existência de Deus. Impossível. Deus, liberdade e
imortalidade são apenas princípios heurísticos. O conhecimento sempre deve ter um conteúdo
sensorial e a natureza é completamente mecanistica. So much for Kant. Eu diria, em vista de
sua grande importante, so little for Kant.
Para o alívio dos leitores esse sumário de filosofia terminará com umas poucas linhas
sobre Hegel. Após Hegel veio o positivismo lógico, do qual nem a menor pista útil sobre
teologia pode ser encontrada. Quanto a Hegel, segundo Kant, podemos dizer que ele
reintegrou algum tipo de religião. Não que ela tenha sido de alguma grande ajuda para o
Cristianismo, pois ela foi a iniciação do modernismo. Contudo, ele fez um bom parágrafo
conclusivo, pois como Platão, ele faz conceitos, não proposições, os objetos do
conhecimento. O presente tratado continuará com verdades, que são proposições. Seis,
justiça, gravidade, gato e beleza não fornecem nenhum conhecimento. Mas “seis é mais do
que cinco”, “a gravidade foi inventada por Sir Issac Newton”, e “gatos são belos” deve ser
verdadeiro ou falso. Os objetos do conhecimento são sempre proposições.
O jovem teólogo, recentemente graduado na faculdade, onde ele se especializou em
inglês — um assunto bom o suficiente para usar na preparação de sermões — e talvez ainda
mais o velho professor de seminário agora coloca em seus caminhos, pode ser convencido
que temos perambulado demais no assunto da Encarnação. Cristo simplesmente retirou-se da
nossa visão. Para desiludir essas almas atormentadas, algumas referências bíblicas muito
explícitas mostrarão quão próximas à teologia todas essas discussões são. De fato isso foi
envidenciado mui claramente nas reações sobre Hume e Kant.
Contudo há outros itens, de maiores ou menores importância, onde a filosofia e a
teologia se sobrepõem. Ou talvez deveríamos dizer que esses itens básicos aparecem na
formas menos técnicas, mais populares, nos livros de postura menos acadêmica. Esses livros
podem ser romances e devocionais. Um exemplo do último é o Catecismo de Crianças. Em
sua linguagem simples ele pergunta: “Quem é Deus?”. A resposta é: “Deus é um espírito e
não tem um corpo como os homens”. Ele não tem olhos com retinas, embora a Bíblia
indulges in the figurative language that the eyeballs of the Lord run to and fro throoughout
the world on tiny chipmunk feet. Menas figurativa é a frase: “Tu, Deus, me vês”. Então
também Deus não tem tímpanos, mas ele “ouve” nossas orações. Ele não tem nariz, embora
ele “sintia” o odor suave dos sacrifícios do Antigo Testamento. Ou, em geral, ele não tem
percepção geral de forma alguma. Agora, se a verdade consiste de combinações de vermelho
e azul, duro e suave, áspero e macio, Deus não pode conhecer nenhuma verdade. Bem, ele
pode conhecer geometria, pois seus objetos são invisíveis. Mas como um humano empirista
poderia conhecer geometria? Um ponto não tem dimensões e uma linha não tem largura. Se
então Deus é onisciente, se ele conhece tudo, então as experiências sensoriais não podem ser
a base do conhecimento. Deus conhece toda verdade, e nenhuma delas depende de órgãos
corporais. Ou esses empiristas e neo-kantianos pensam que nós conhecemos muitas coisas
das quais Deus é ignorante?
Há outra referência bíblica pertinente. Moisés viveu aproximadamente 1500 anos antes
de Cristo. Ele morreu no topo de uma montanha e Deus enterrou seu corpo. Mas ele foi para
o céu. Durante o tempo de vida de Cristo, Moisés apareceu no Monte da Transfiguração e
discutiu a doutrina da Expiação com o Cristo refulgente. Cristo podia ter seu corpo normal,

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rodeado por luz. Mas Moisés não tinha nenhum corpo, pois a ressureição do corpo ainda é
futura. Seu conhecimento dificilmente pode ter sido, possivelmente não poderia ter sido o que
ele aprendeu 1500 anos antes. Sem um corpo ele tinha aprendido, ninguém sabe quanto, mas
muito mais do que ele previamente tinha aprendido, sem pelo menos a mistura de olhos,
ouvidos, nariz e garganta.
Há outra passagem — sem dúvida há várias — que é digna de ser inserida aqui. Numa
ocasião Paulo foi levado ao terceiro céu. Ele não sabe se ele estava em seu corpo ou fora de
seu corpo. Afinal, seu corpo era somente uma casa ou tabernáculo onde ele usualmente vivia.
Nesse terceiro céu Deus revelou certas coisas para ele, que, apesar de tudo, Deus ordenou que
ele não revelasse às pessoas na terra. O próprio Paulo, portanto, era distinto de seu corpo, e as
verdades que ele aprendeu não tinham nenhuma base em empirismo puro ou combinação
kantiana.
Esse material escriturístico deveria ser suficiente para responder àqueles que pensam
que o tratado se afastou da esfera bíblica. O objetivo em discutir Locke e Hume é aprender a
partir de nossos inimigos, e algumas vezes aprender lições valiosas. Deveria ser claro que o
presente escritor não tem intenção de contruir uma pessoa de Cristo, ou qualquer outra
pessoa, a partir de sensações. De fato, de certa forma guardando a visão de outro anti-cristão
vigoroso, o brilhante professor de Yale, Brand Blanshard, que concedeu que bebês, pelo
menos nos primeiros meses de suas vidas, têm sensações, embora nenhuma mais tarde, mas
mais em guardando Agostinho,15 que negou que alguém em algum tempo tenha uma sensação
como a palavra é usada coloquialmente hoje, esse tratado manterá que não existem tais
coisas.
Essa seção cinco foi suposta descrever o século dezenove, mas parece ter recuado ao
século cinco e tocado o vinte. Nós repararemos isso, mas talvez mais do que reparar,
concluiremos o século dezenove com um relato de Charles Hodge.
É dificilmente qualquer exagero dizer que a exposição e defesa de Charles Hodge da
teoria de Westminster sobre a Encarnação, no Volume II, pp. 378 em diante de sua Teologia
Sistemática (184), é a discussão mais ponderada e mais vigorosamente expressa do assunto já
completada desde 451 d.C. Talvez um pouco vigorosa também. Mas ele remedia a maioria
dos defeitos evidentes nesses aproximadamente 1500 anos. Ele define seus termos. A
definição não garante a concordância. Contudo, se consistente, ela torna o assunto
compreensível.
Hodge começa definindo susbtância. Na história precedente o termo substância foi
usualmente sem sentido. Locke o definiu como “algo que eu não sei o que é”, pela qual
somos advertidos que nem todas as definições são úteis. A definição de Hodge pelo menos
soa melhor. Na página 378 ele afirma: “Por substância, entende-se aquilo que existe... É
aquilo que continua e permanece imutável sob todos os diferentes fenômenos dos quais pode

15
Primeiro, veja meu artigo “Plotinus’ Theory of Sensation” (The Philosophical Review, Julho de 1942). Para
Agostinho, que a modificou, a sensação não é uma ação do corpo e da alma, mas antes uma modificação do
corpo e da alma. A ação está inteiramente na alma. O corpo não pode afetar a alma, pois nenhum objeto inferior
pode afetar algum objeto superior. Um dos exemplos de Agostinho é que o ar em movimento produz não produz
nenhum efeito sobre a alma. A sensação é, portanto, a atividade da alma em governar o corpo. De fato, a assim
chamada sensação já é um ato de pensamento. Agostinho interessantemente analisa nosso “ouvir” de uma linha
de música ou poesia. Essa não é tanto uma questão de ouvir quanto de memória. Uma linha tem ritmo, para
perceber o qual devemos lembrar a primeira barreira ou silaba a medida que o fim se aproxima. Não há nenhum
ritmo num simples som. Até mesmo uma simples silaba toma tempo e, portanto, requer memória, e a memória é
mais intelectual do que a mera sensação. Supor que um corpo pode afetar a alma é com dizer que Aldebarã feriu
o Deus Sírio e o lançou em Las Vegas.

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ser o sujeito... Esse é o primeiro fato universalmente admitido com respeito à constituição de
nossa natureza”.
Essa tentativa de definir substância não é sem dificuldade. Se a primeira sentença citada
tem algum status independente — como parece ter — então um sonho é uma substância, pois
um sonho é. Mas se um sonho não é uma substância, a primeira sentença de Hodge é inútil.
Isso se aplica não somente a sonhos, mas ao teorema de Pitágoras e um caso de difteria.
Hodge cometeu o erro muito comum de usar o verbo ser de outra forma que não uma copula.
A segunda sentença citada apresenta um problema diferente. Alguém deve perguntar:
“Existe alguma coisa — exceto Deus — que não mude? Talvez o número dois nunca mude,
embora o sistema de números tenha frequentemente mudado. É, então, o numero dois uma
realidade imutável incorporada numa matemática em constante desenvolvimento? As
palavras da definição são facilmente entendidas, mas elas se aplicam a algo, e especialmente
a algo no ser nascido e em crescimento de Jesus?
A última sentença citada é simplesmente falsa. Certamente Hodge não poderia ter
previsto o behaviorismo do século vinte, mas ele deveria ter conhecido sobre Heráclito,
Protágoras, e especialmente Carneades, Arnesidemus, e Sextus Empiricus.
Na mesma página Hodge adiciona: “Alma e copo consituem um indivíduo, ou pessoa
humana”. Mas a Escritura explicitamente, e diversas vezes, contradiz essa sentença.
Lembres-e que Paulo numa ocasião deixou o corpo por um tempo, todavia, ele permaneceu
ele mesmo. Moisés, a pessoa, seu corpo desintegrado há 1500 anos, falou com Cristo no
Monte da Transfiguração. O próprio Jesus e o ladrão na cruz, com seus corpos sepultados,
entraram no paraíso naquele anoitecer. Como Hodge pode ter esquecido tanto a Escritura? A
resposta a essa questão, como me parece, é que ele foi controado epistemologicamente pela
filosofia escocesa do “Senso Comum”. Ele se sentiou compelido a ajustar a revelação divina
a um dos itpos mais imcompetentes de filosofia na história do assunto.
Continuando a insistir que alma e corpo constituem um homem individual, Hodge
novamente contradiz as Escrituras ao adicionar que “a união é uma mera habitação... A alma
não habita no corpo como um homem habita numa casa...” (p.378-379). Esta asserção escapa
da falsidade formal, pois ela é uma metáfora menos uma explicação de como se aplica. Um
leão, por exemplo, pode representar beleza, força ou ferocidade. O Messias que viria foi
chamado de leão da tribo de Judá, e Satanás como um leão procurando a quem pudesse
devorar. Hodge rejeita a comparação “como um homem habita numa casa”. Todavia, a
comparação é bíblica. Paulo usou a figura de linguagem de que este corpo era seu
tabernáculo, mas ele não disse que sua casa tinha uma cozinha, sala de jantar e sala de estudo.
Assim, em certos aspectos Hodge pode dizer “a alma não habita no corpo como um homem
habita numa casa”. Mas em outro aspecto, Paulo em 2 Coríntios 5.1 diz: “Porque sabemos
que, se a nossa casa terrestre deste tabernáculo se desfizer... temos de Deus... uma casa...
eterna, nos céus”. Paulo então implica, e Agostinho enfatiza, a visão de que o corpo é uma
ferramente que a alma usa. Mas não iremos chamá-la de formão.
Chegando perto de uma descrição da Encarnação, Hodge na página 381 diz: “Tais elementos,
um verdadeiro corpo e uma alma racional, constituem uma natureza humana perfeita,
completa, e assim fica demonstrado que ela faz parte da composição da pessoa de Cristo”.

Agora, na minha opinião, deveria ser muito mais enfatizado do que os teólogos estão
acostumados a fazer, que Jesus tinha uma alma racional. Como ele surpreendeu os sábios
mestres quando tinha doze anos de idade! Mas isso prova, como Hodge diz, que a natureza

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humana completa de Jesus “entrou na composição da pessoa de Cristo”? Decididamente não.


O Credo da Calcedônia diz “inconfundivelmente, imutavelmente... o caráter próprio de cada
uma das naturezas foi preservado”. A pessoa de Cristo era divina, e as limitações de um
garoto de doze anos não podem ser elementos que compõem a Segunda Pessoa da Trindade.
A Segunda Pessoa, sendo eterna e imutável, não mudou nem um pouco como resultado da
Encarnação. Isto é particularmente evidente na posição básica de Hodge, pois ele insiste que
há somente uma Pessoa, e ela é Deus. Como pode o esforço de um garoto para aprender, não
importa o quão brilhante, ser um atributo ou atividade da Deidade? Jesus era ignorante de
muitas coisas quando ele questionou os fariseus. Mas ignorância, repetindo, não é um atributo
divino.

Hodge definiu substância na página 378. Então, na página 387, ele adiciona “por
natureza, neste contexto, se quer dizer substância... onde os atributos são incompatíveis, as
substâncias devem ser diferentes e distintas”. Aqui, Hodge faz substância e natureza
idênticas. Um resultado disso é fazer Jesus Cristo duas substâncias, e uma dessas substâncias
é a natureza humana de Cristo. Mas se isto é assim, o homem Cristo Jesus é tão humano
quanto qualquer pessoa é. A próxima frase corrobora isto: “atributos não podem existir
distintos e separados da substância”. Se é assim, substância, natureza e atributos são
idênticos em significado. Ele baseia sua conclusão na premissa de que “caso contrário,
poderia haver extensão sem nada estendido”. Mas isto é precisamente o que o espaço é. É
claro, nos dias de Hodge, supunha-se que luz era um movimento de onda de um meio
universal. Mas agora, esse meio evaporou e o espaço vazio permanece, deixando os cientistas
intrigados com o que a luz é. Se, agora, substância, natureza, e atributos caracterizam o
homem Cristo Jesus, diferentes substância, natureza e atributos caracterizam o Logos.
Quando ele adiciona, na mesma página e a seguir, que o “seu Filho [foi] revestido... coim
uma alma... ele era um homem verdadeiro”, é difícil negar que ele era uma pessoa humana.
Natureza, mais atributos, mais substância, mais alma não fazem uma pessoa? Hodge parece
implicar isso, pois ele adiciona que Cristo era “não um complexo de propriedades sem
substâncida da humanidade”. Também: “duas naturezas ou substâncias distintas”. Assumindo
isso, que a Pessoa que caminho de Jerusalém à Galiléia eram duas substâncias, como ele
poderia ser somente uma pessoa, como Hodge sustentou anteriormente?

Então Hodge continua na mesma linha: “Como a inteligência, a sensibilidade e a


vontade são propriedades da alma humana... segue-se que a alma humana de Cristo reteve
inteligência, sensibilidade e vontade” (p.389). Além disso, uma vez que Jesus tinha “duas
vontades” (p.390), como ele não poderia ser uma pessoa humana?

Mas, a despeito dessas implicações óbvias, de fato asserções óbvias, como alguém
pode consistemente continuar como se segue? “Foi uma pessoa divina, não meramente uma
natureza divina, a que assumiu a humanidade, ou a que encarnou”. Sim, certamente, de fato e
repetido.

Portanto [supostamente uma conclusão lógica ] segue-se que a natureza humana [natureza e
substância são sinônimos] de Cristo, considerada separadamente, é impessoal. [Jesus não era
realmente um homem porque todos os homens são pessoais.] A isso, aliás, se objeta que a
inteligência e a vontade constituem personalidade, e que enquanto estas pertencem à natureza
[e substância] humana de Cristo, não sei pode negar personalidade a ela. Não obstante, uma
pessoa é um suppositum intelligens [claro!], porém a natureza humana de Cristo não é um
suppositum ou subsistência [como todo mundo sabe]... Portanto, a natureza humana, ainda
que dotada de inteligência e vontade, pode ser, e de fato o é na pessoa de Cristo, impessoal.

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Então, finalmente “a união das naturezas... não é uma habitação, nem um simples
controle da natureza divina sobre as operações da humana, mas uma união pessoal”
(p.391,392). Isto é, o Jesus impessoal forma uma união pessoal como o Logos pessoal.

Este escritor não pensa que estas críticas à Hodge sejam de alguma forma exageradas,
mas há mais para contar. Hodge continua sua exposição com uma extensiva exegese das
Escrituras. Seu uso do material escriturístico é magistral, e alguém frequentemente, mas não
sempre, encontra argumentos aparentemente sem respostas.

Ainda assim, um exame mais próximo revela certas falhas. Por exemplo, na página
383 lemos que “a natureza humana nunca se distingue da divina como pessoa distinta. O
Filho de Deus nunca se dirige ao Filho do Homem como uma pessoa diferente deke mesmo”.
Estas duas sentenças implicam que, se Cristo tivesse sido duas pessoas, os Evangelhos nunca
teriam registrado conversações entre elas. Nenhuma é registada, portanto a natureza humana
de Cristo é impessoal. Isto é uma erro lógico embaraçoso. Primeiramente, o apóstolo João
conclui o seu Evangelho dizendo “Há, porém, ainda muitas outras coisas que Jesus fez; e se
cada uma das quais fosse escrita, cuido que nem ainda o mundo todo poderia conter os livros
que se escrevessem”. O argumento de Hodge é baseado no silêncio. Por esta razão, podemos
dizer que talvez o Logos e Jesus tiveram algum tipo de conversação. Ou é possível que
nenhuma conversação fosse necessária: o Logos era onisciente e não era prerrogativa de
Jesus saber tudo – a data de sua volta, por exemplo. Além disso, mesmo que não houve
“conversação”, vieram da boca de Jesus pelo menos algumas afirmações que o homem Cristo
Jesus por si mesmo nunca poderia ter dito. Portanto o argumento de Hodge ignora a Escritura
e viola a lógica.

Outro exemplo, seja de má lógica ou, o que é o mesmo, de omissão de premissas,


ocorre na página 384, em que Hodge enumera dez pontos do primeiro capítulo de João e
então retira uma conclusão irrelevante. Resumidamente, (1) João ensina que o Logos existia
na eternidade; (3) que Ele era Deus; (9) Ele se fez carne, i.e., assumiu nossa natureza... “Aqui
temos toda a doutrina da encarnação, ensinada nos termos mais explícitos”. Toda a doutrina?
Em termos explícitos? A doutrina toda da Encarnação não inclui o nascimento virgina? E
mais, se o ponto 9 pretende ser exaustivo, significando a natureza como distinta da
personalidade, insere uma idéia, que mesmo sendo verdadeira, não pode ser derivada do
texto.

Outro exemplo depende da tradução errônea do grego. Lê-se que “Em Romanos 1.2-5,
o Apóstolo diz que o Evangelho trata do... nosso Senhor Jesus Cristo, o qual no tocante à
natureza divina, kata sarka, é o Filho de Davi, porém, no tocante à natureza divina, kata
pneuma, é o Filho de Deus. Aqui também se anunciam claramente as duas naturezas e
personalidade única do Redentor” (p.385). O problema é que sarka não quer dizer natureza, e
nem pneuma. O argumento de Hodge é, portanto, falho por um mau uso do grego. Alguém
também pode se perguntar, a medida que Hodge claramente fracassa, se ele caiu na antiga
falta de sentido de natureza e se esqueceu de sua identificação com substância.

O relato da teologia do século dezenove é longo, mas, primeiro, ela merece uma
delonga se alguém deseja estudar a Encarnação seriamente; e, segundo, seria desonrar um
grande homem se W. G. T. Shedd não fosse incluído. Seus dois volumes entitulados Teologia
Dogmática foram publicados em 1888, quatorze anos depois dos três volumes de Hodge. As
doutrinas ou afirmações confessionais que Shedd defende são as mesmas de Hodge; mas a
filosofia por trás dos argumentos, de fato claramente visível nos argumentos, é tão diferente

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do Senso Comum Escocês quanto possível. É uma forma extrema de Platonismo que, eu
suspeito, teria irritado Platão profundamente. Esta é nossa vantagem, pois encontramos
argumentos e interpretações que Hodge nunca teria usado. Assim, vemos a Encarnação de um
ponto de vista muito diferente, e isto é instrutivo.

Devemos sempre ter em mente que a epistemologia de um teólogo controla sua


interpretação da Bíblia. Se sua epistemologia não é cristã, sua exegese será distorcida de
forma sistemática. Se ele não tem epistemologia nenhuma, sua exegese será distorcida de
forma não-sistemática. Shedd é notavelmente consistente, e dele podemos aprender muito.

O material de Shedd começa na página 278 do volume dois. Lá ele diz “o Deus-
homem era uma nova pessoa”. Uma vez que Shedd negará que o homem Jesus era uma
pesoa, essa asserção implica em mudanças e alterações na Segunda Pessoa da Trintade. De
fato ele é muito específico, pois na página 281 adiciona “A própria Trindade não é alterada
ou modificada pela Encarnação. Somente a Segunda Pessoa é modificada”. Vindo de um
cristão inteligente e bem-educado, isto é surpreendente. A Segunda Pessoa da Trindade é tão
imutável como as outras duas. Além disso, se a Segunda Pessoa sofreu alteração, isto
modificaria a Trindade como um todo. A Trindade, se posso usar a linguagem, é um
complexo de três Pessoas. Claramente, se um muda, o complexo muda. Terão constituintes
diferentes. Certamente isto viola a doutrina cristã básuica e destrói toda a confinça no que
pode ser dito da Encarnação.

De muito menos importância, mas prosseguindo página por página, Shedd comete um
erro encontrado anteriormente em outros. Referindo-se a Hebreus 2.44, ele traduz sperma
como natureza (p.284), e na página 285 faz de natureza e substância sinônimos. Então
pessoa torna-se uma subsistência. Agora, termos técnicos são uma necessidade. Não existe
uma simples palavra na Bíblia que signifique Trindade. O termo tinha de ser cunhado.
Onipotente ocorre somente uma vez na Bíblia (KJV), e onipotência é facilmente entendido.
Mas o jardão escolástico é melhor evitado. É de nenhuma ajuda dizer que o General Grant e o
Lord Mountbatten foram subsistências antes do que substâncias. Bem, certamente, Shedd não
é o único culpado. Ms ele é um deles, pois as páginas 286-287 não transmitem nenhum
significado.

Visto que Shedd queria instruir seus estudantes na doutrina da igreja, ninguém pode
objetar à sua repetição dos temas tradicionais. Por exemplo, “Wollebius (I, XVI) diz que
‘Cristo assumiu não o homem, mas a humanidade’ ” (p. 289). Se ele deseja meramente
mostrar sua concordância com os teólogos anteriores, ele é bem sucedido.

Mas então há suas próprias contribuições também. Considere essas duas, das páginas
289 e 291. “Uma natureza humana [é] uma substância real [a qual quero dizer uma Idéia
Platônica]....Como uma substância material pode existir sem ser moldada numa maneira
particular, assim um natureza human pode existir sem ser individualizada”. Essa última frase
é uma forma de Platonismo. Em oposição ao materialismo e sofismo, Platão apresentou um
Mundo de Idéias, cujos itens eram verdadeiramente reais. Cubos ou dados num reino
sensorial eram cópias imperfeitas de um padrão perfeito. Antes de Demiurgo formar um
espaço caótico no relativamente organizado mundo sensorial, a padrão ou Idéias existiam,
com Shedd diz, “sem ser individualizado. Assim, o Homem existiu antes dos homens”. Mas a
frase “capaz de se tornar uma pessoa humana” estraga a teoria. A Idéia Homem munca se
torna um homem ou diversos homens. A comparação de Shedd é também defeituosa: “Como
uma substância material pode existir sem ser moldada nuam maneira particular” é mais

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obscuratório do que explanatório. Nenhuma “substância” material pode existir semalguma


forma ou outra. Quem já viu uma rocha que não tinha nenhuma forma?

A página 294 supre outro item. “Visto meramente como a substância, o ‘sangue’ e a
‘semente’ da Virgem anteriormente à sua concepção, era impessoal. Ele não poderia ser
distinguido como esse homem particular, Jesus de Nazaré, até sua concepção miraculosa o
tivesse individualizado. Como a mera semente da Virgem não tinha nada para distingui-la da
substância ou semente de qualquer outro homem, ou da própria Maria, que poderia ter
concebido ainda outros filhos por geração ordinária”.

Isso é muito supreendente e obscuro. O sangue da Virgem — visto que a semente é


inapropriada — antes de sua concepção pelo Espírito Santo era qualitativamente similar ao
sangue de qualquer mulher — ou homem, nessa questão. Sem dúvida uma quartilho ou
quarto de sangue tudo por si mesmo é impessoal. Mas disso não se segue que a semente
implantada pelo Espírito Santo era impessoal. Em nossa luta do século vinte contra o aborto
reivindicamos que a pessoa humana começa na concepção. Naturalmente no caso de Maria,
ninguém poderia olhar para o seu ventre e distinguir o bebê com Jesus de Nazaré, mas até
mesmo Shedd parece concordar que a concepção miraculosa produziu uma não-pessoa
individualizada. Por conseguinte, a frase “anteriormente à sua concepção” é inaplicável. Essa
frase parece implicar que Maria de alguma forma concebeu e um minuto ou dois depois o
Espírito assumiu o controle do embrião. Mas o Espírito não assumiu nada; ele produziu um
bebê.

Agora, eu não tenho nenhum desejo de representar incorretamente Shedd. Estou sendo
tão exato como eu posso ser. Mas sua linguagem parece tão vaga que eu posso muito bem tê-
lo mal representado. Por o que pode ser digno, contudo, Shedd parece querer dizer que a
Idéia Platônica do Homem não-individualizada foi implatada em Maria, assim como a mesma
Idéia é implantada em toda mãe, e subseqüente a isso, a Idéia universal se torna um
indivíduo. Isso não é um bom Platonismo, para não dizer bíblico e cristão. Em Platão um
objeto visível, um cubo, um cavalo, uma árvore são resultados de um processo moldador pela
qual Demiurgo constrói objetos visíseis a partir do espaço caótico. Nenhum cubo visível é
realmente um cubo porque o espaço ou matéria não pode suportar linhas retas
matematicamente.

Um item final: Na página 305 ele diz: “Ela [Maria] foi a mãe de sua alma humana
assim como de seu corpo humano”. Muito bom. Mas se Jesus tinha uma alma humana,
derivada como traducianismo a deriva,16 como Jesus poderia ter sido uma pessoa humana?

Não importa o quanto queiramos evitar o Nestorianismo, pelo menos o último


Nestorianismo, devemos insistir que Jesus era um homem: “o homem Cristo Jesus”. Em
nenhum lugar a Bíblia diz que ele era somente uma “natureza”.

16
É sempre sábio, e nesse caso muito concordável, temperar a crítica com algumas observações completamares.
Quando chega à origem das almas humanas, o traducianismo de Shedd demone completamente o criacionismo
de Hodge.

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6. Algumas Conclusões

Leitores impacientes, como aqueles que começam na última página de um romance


policial para ver “quem fez aquilo”, se eles sobreviveram aos detalhes precedentes desse
estudo estão, sem dúvida, se retorcendo em dor na ausência de conclusões. Aqueles que são
mais seguros nas ladeiras escorregadias do Monte Blanca percebem que ninguém pode reunir
coisas antes que ele tenha tais coisas. Mas eventualmente algumas conclusões aparecerão.
Mesmo assim, o material precedente é tão complexo, cada parte relacionada com outra
parte de uma maneira mais intrínseca do que um torneio de xadrez para o campeonato
mundial, que um arranjo claramente lógico de conclusões é quase impossível. Esse é o
porquê, com a notável exceção de Tomás de Aquino, dificilmente algum teólogo desde 700
d.C. a 1500 d.C. deu séria atenção à doutrina da Encarnação.
Em todo assunto, em sociologia bem como em matemática, o requerimento básico é a
consistência, isto é, isenção de auto-contradição. Afortunadamente — e esse é
aproximadamente o único pedaço afortunado no complexo todo — os Pais da Igreja, e
mesmo aqueles teólogos conservadores contemporâneos que confinam suas considerações em
uma ou duas páginas, consideram esse requerimento o mais fácil de se satisfazer. Talvez eles
caiam em auto-contradição ocasionalmente, particularmente se eles se tornam prolixos, mas o
real problema deles reside em outro lugar. O requerimento mais intratável, mais exigente, e
também mais irritante é substituir as expressões ininteligíveis e a terminologia indefinida por
pensamento claro. O Credo Niceno não é tão ruim; as declarações negativas do Credo de
Calcedônia são aceitáveis; mas desde então, incluindo o Credo Atanasiano, as expressões
ininteligíveis e sem sentido têm caracterizado essas discussões até agora. Até mesmo a De
Trinitade de Agostinho poderia ser aprimorada aqui e ali. Tão claramente necessário quanto a
inteligibilidade é, os teólogos parecem tê-la esquecido dois ou um-e-meio segundos após
reconhecê-la.
Por conseguinte, a primeira conclusão é a necessidade de excluir termos sem sentido
tais como substância e subsistência, e deletar ou definir essência, natureza, pessoa, ser e
qualquer outro termo ambíguo o qual submeteremos à definição. Por exemplo, se ser é
entendido como uma forma do verbo ser, existir, e se o último é propriamente usado como a
cópula (o gato é preto), a palavra será liberada de toda ambigüidade.
O Breve Catecismo de Westminster merece congratulações por nunca perguntar: “Deus
existe?” ou “Há um Deus?”. A questão é: “O que é Deus?”. A razão para evitar o verbo
existir, ou o não-cópula é, reside no fato que alucinações, falsidades, bem como a raiz
quadrada de menos um — tudo — “existe”. O verbo, e o substantivo verbal ser, são sem
sentido porque eles se encaixam em qualquer sujeito. Agora, se o predicado é tão amplo que
ele pode ser anexo a qualquer substantivo no dicionário, ele não tem significado, pois ele não
distingue uma coisa da outra. Uma palavra que significa tudo não significa nada. Portanto,
neste ponto cumprimentamos o Breve Catecismo de Westminster por evitar palavras sem
sentido. A primeira conclusão, consequentemente, é que as doutrinas bíblicas não devem ser
desfiguradas por palavras sem sentido.
Dois outros exemplos reforçam o ponto, a saber, substância e pessoa. Mas elas não
reforçam o ponto da mesma forma. Algumas páginas atrás dispensamos, de uma vez por
todas, a sílaba sem sentido substância. Ela deve ser completamente banida da teologia. O

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outro termo, pessoa, deve ser retido, mas somente se claramente definido. Isso é
precisamente o que Hume fez. Recomendamo-lo por abolir substância e por definir pessoa.
Isso não é dizer que sua definição de pessoa como um complexo de sensações é de alguma
forma aceitável. É a tentativa que é digna de louvor. Mas sua rejeição de substância, “algo
que eu não sei o que é”, uma palavra que não tem nenhum significado de forma alguma, é
uma lição que os teólogos cristãos não deveriam ignorar. Postular um suporte incognoscível
para algo, e especialmente se o objeto não precisa de suporte, é fantasia inútil.
Pelo menos um teólogo contemporâneo descobriu essa verdade. Considere a seguinte
citação de Carl Henry:
Eu rejeito a visão realística de que o ser humano é um substrato no qual os atributos são
inerentes, uma substância subjacente que suporta suas qualidades ou predicados. Atanásio, no
quarto século, fez um ponto importante sobre substância. Tivessem os filósofos e teólogos
cristãos prestado atenção a isso, eles teriam evitado muitas das dificuldades criadas pela
orientação aristotélica do termo, pelos acréscimos dos escolásticos, e pelas modernas
modificações lockeanas. Em sua Defense of Nicene Council... e sem sua epístola On the Synods
of Arminum and Seleucia... Atanásio declarou que a frase substância de Deus é simplesmente
uma forma enfática de dizer Deus.... Ela não significa um elemento ao qual as qualidades são
adicionadas para fazer um composto. 17

O outro termo causa maior dificuldade porque ele não deve ser descartado. Ele deve ser
definido. Colocado de uma forma simples, a questão é: O que é uma Pessoa? Essa questão se
levanta não somente com respeito à Trindade, mas também com respeito à psicologia
ordinária. De fato, o público americano é tão depravado que a questão agora diz respeito ao
assassinato de bebês mortos por suas mães cruéis. Eles dizem que os bebês não são pessoas.
Lembre-se da insistência de Powell de que ninguém antes de Descartes teve qualquer
idéia clara do que fosse uma pessoa individual. Mas uma doutrina insistindo que Jesus Cristo
foi uma pessoa divina e de nenhuma forma uma pessoa humana falha sem tal definição. Uma
razão para incluir tanta filosofia secular nas páginas anteriores foi a esperança de encontrar
alguma ajuda para esse termo essencial.
Esse autor suspeita que a maioria das pessoas esteja tão ocupada com seus corpos que
elas têm pouco ou nenhum entendimento do espírito. Eles pensam que pensam com seus
cérebros, ou com todos os seus músculos, como sustentava John Dewey. 18 Algo invisível,
intangível, todavia inteligente, que não ocupa nenhum espaço está além do poder de
apreensão deles. Quão antibíblico esse materialismo é, é claramente visto na conversação de
Moisés com Cristo no Monte da Transfiguração. E para generalizar, o que eles, se são
cristãos, supõem ir para o céu quando um cristão morre? Lembre-se que Cristo disse ao
ladrão sobre a cruz: “Hoje tu estarás comigo no paraíso”. Anjos apareceram enganosamente
para Balaão em Números 22:22-35 e para Pedro em Atos 12:7-10. Por enganosamente quero
dizer que eles assumiram uma aparência humana para o propósito imediato deles.
A menos que os cristãos rejeitem o secularismo contemporâneo, estudem a Bíblia e
desenvolvam algum senso de espiritualidade, eles permanecerão incapazes de entender várias
partes da Bíblia, e, acima de tudo, a Encarnação.

17
Carl F. H. Henry, God, Revelation, and Authority, (Waco, Texas: Word Books, 1982). Vol. V, p. 119.
18
Compare meu Dewey (Nutley, New Jersey: Presbyterian and Reformed Publishing Co., 1960), especialmente
página 53 em diante; e Behaviorism and Christianity (Jefferson, Maryland: The Trinity Foundation, 1982),
especialmente pp. 79-106.

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Portanto, visto que Deus é a Verdade, devemos definir pessoa, não como uma
composição de impressões sensoriais, como Hume fez, mas, rejeitando com ele o termo sem
sentido substância, definiremos pessoa como uma composição de verdades. Um pouco mais
exatamente, visto que todos os homens cometem enganos e crêem em algumas falsidades, a
definição deve ser uma composição de proposições. Como um homem pensa em seu
(figurado) coração, assim ele é. Um homem é o que ele pensa.
Visto que os termos técnicos são usados para evitar ambigüidade, e visto que a Trindade
consiste de três Pessoas, as definições falharam se não foram aplicadas à Deus. Que ela se
aplica aparece mais ou menos claramente nos versículos que chama Deus de a Verdade.
Deuteronômio 32:4, “um Deus de verdade”. Salmo 25:5,10, “Guia-me na tua
verdade...Todas as veredas do SENHOR são misericórdia e verdade”. Salmo 31:5,
“SENHOR, Deus da verdade”. Salmo 108:4, “A tua verdade ultrapassa as mais altas nuvens”.
Isaías 25:1, “Os teus conselhos antigos são verdade e firmeza”. Isaías 65:16, “o Deus da
verdade... o Deus da verdade”. João 1:14, “...cheio de graça e de verdade”. João 4:23-24,
“adorarão o Pai em espírito e em verdade...importa que os que o adoram o adorem em
espírito e em verdade”. João 14:6, “Eu sou ... a verdade”. João 15:26, “O Espírito da
verdade”. João 16:13, “O Espírito da verdade”. 1 João 5:6, “O Espírito é a verdade”.
Fora as objeções que imediatamente se levantarão contra essa conclusão incomum, os
teólogos irão se queixar que isso reduz a Trindade a uma Pessoa pois, sendo onisciente, eles
todos têm, ou são, o mesmo complexo. Essa objeção é baseada numa cegueira para com certa
informação escriturística definida. Eu não estou no momento me referindo somente à eterna
geração do Filho e a eterna processão do Espírito. Eu estou me referindo ao complexo de
verdades que formam as Três Pessoas. Embora elas sejam igualmente oniscientes, todas elas
não conhecem as mesmas verdades. Nem o complexo de verdades que chamamos de Pai nem
aqueles que chamamos de Espírito, tem a proposição: “Eu estava encarnado”. Essa
proposição ocorre somente no complexo do Filho. Outros exemplos estão implicados. O Pai
não pode dizer: “Eu andei de Jerusalém até Jericó”. Nem o Espírito pode dizer: “Eu gerei o
Filho”. Por conseguinte, a Divindade consiste de três Pessoas, cada uma onisciente sem ter
precisamente o mesmo conteúdo. Se isso for assim, nenhuma dificuldade pode ser levantar
quanto a distintividade das pessoas humanas. Cada uma é um complexo individual. Cada um
é sua mente ou alma. Quer as proposições sejam verdadeiras ou falsas, uma pessoa é as
proposições que ela pensa. Eu espero que alguns pensem ser a substância um subterfúgio.
Essa então é a primeira conclusão desse estudo: substância e alguns outros termos são
sem sentido, e mui poucos podem ser salvos pela definição. O slogan é: Descarte ou Defina!

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7. Análise Resumida

Isso é o máximo que poderia ser concluído de maneria racional e compreensível a partir
dos dados precedentes. Conclusões adicionais devem esperar uma análise adicional. A
discussão, com suficiente exegese da Escritura, considerará agora um termo que não é uma
sílaba sem sentido. A questão é mais substantiva; é a questão se certo termo bem-entendido
pode ser apropriadamente aplicado a Deus. Visto que a Encarnação pressupõe a doutrina da
Trindade, ela deve fazer uso de alguns dos seus termos. Um desses termos é infinito. Se Deus
é infinito, o Logos Encarnado deve ser. Mas para deixar o problema complicado tão simples
quanto possível, consideraremos primeiro Deus, não como Três Pessoas, mas como
simpliciter.
Tem sido um longo costume falar de Deus como infinito. Estranho como possa parecer
para os teólogos contempâneos, o Cristianismo primitivo não fez essa afirmação. Tomás de
Aquino, no século treze, parece ter sido o primeiro cristão a chamar Deus de infinito. Em sua
Suma Theologica, Parte I, Questão 7, Primeiro Artigo (Pegis edition, 1944, pp. 52 ff.), ele
defende a atribuição com um argumento muito complexo para ser examinado aqui. Alguns
jesuítas sem dúvida o estudaram, mas eu suspeito que muitos bispos, incluindo o Bispo de
Roma, não o fizeram.
Depois de Tomás de Aquino houve vários filófosos-teólogos que avançaram a
discussão. Persumivelmente, o mais competente desses foi Nicolas de Cusa (falecido em
1464). Sua obra pode ser descrita como uma combinação de escolasticismo e misticismo.19
A princípio a Reforma não aceitou essa novidade, mas a razão pode ter sido a
necesidade de fazer outras coisas primeiro, tal como pregar a justificação pela fé somente —
para não mencionar sobreviver à perseguição. De qualquer forma, a Confissão de Augsburgo
(1530) tem a frase “de infinito poder, sabedoria, bondade”, que fica apenas levemente longe
de infinidade absoluta. O termo é ausente na A Fórmula de Concórdia. Pelo contrário, ela se
queixa da ambigüidade impregante. O Artigo I, seção xii (Philip Schaff, Creeds of
Christendom, p. 104) refere-se a “vários significados da palavra natureza”, detalhando
alguns. Infinidade não parece ser mencionada, mas podemos suspeitar que os autores
poderiam inclui-la numa lista mais longa. Zwinglio também, em seus Sessenta e Sete Artigos,
parece ter evitado infinidade.
Calvino foi um autor infatigável, e a maioria dos leitores me escusarão por não ter lido
todos os seus muitos volumes apenas para ver se a palavra infinito está ali. O máximo que eu
posso dizer é que embora as Institutas, I, xiii, 1-5 discuta uma grande quantidade de
terminologia ambígua, eu não encontrei nenhuma ocorrência do neologismo Católico
Romanos. Nem o termo ocorre na Primeira Confissão Helvética de 1536 d.C., nem na
Segunda, 1566, a menos que immensum seja assim traduzido. Todavia, essa palavra significa
com maior probabilidade imensurável do que infinito, como uma referância à inabilidade
humana de alcançar o conhecimento e poder de Deus.
O primeiro uso protestante do termo infinito, até onde eu saiba, ocorre na Confissão
Francesa de 1559: “Un seul Dieu qui est… infinie” [sic]. As Confissões Belgas (1561, 1619)
também têm o termo infini, citando Isaías 34:6, que não contém nenhuma menção de

19
Compare F. C. Copleton, Medieval Philosophy (Harper Torchbooks, 1952, 1961), pp. 159-165.

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infinidade. A Confissão Escocesa de 1560 tem infinito [sic]. Tanto Os Trinta e Nove Artigos
como os Os Artigos Irlandeses da Religião têm “de infinito poder”.
A Confissão de Fé de Westminster, e seus dois catecismos, abandoram todo
comedimento. Em seu segudo capítulo a Confissão afirma que “Há apenas um Deus vivo e
verdadeiro, que é infinito em ser e perfeição”. O Catecismo Maior responde a questão 7
declarando que “Deus é espírito, em si e por si infinito em seu ser”. Naturamente o Breve
Catecismo diz a mesma coisa, embora as questões sejam mais breves para o benefício dos
adolescentes.
Devemos repetir que o termo ser é sem sentido? Infinito não é.
O Catecismo de Fisher (1753) também tem esse propósito mais elementar em vista.
Não deixando nada para a hipótese não-instruída, ele pergunta de quinze a cinqüenta sub-
questões, de fato às vezes mais de cem, em cada questão no Breve Catecismo. A resposta
inicial à sua questão, “O que é ser inifito para Deus?” é “É ser absolutamente sem todas as
fronteiras e limites em seu ser e perfeição, Jó xi, 7-9”.20
Atenção deve ser agora direcionada para o texto-prova, Jó 11:7-9, pois a Confissão e o
Catecismo usam-no, bem como Fisher. Esses versículos são palavras de Zofar, que tinha
acabado de chamar Jó de mentiroso no versículo 3. Mas mesmo que esse falso amigo, a quem
Deus condena em 42:7, tivesse falado a verdade uma vez, os versículos não dizem nada sobre
infinidade. O ponto é que uma pesquisa empírica não pode contribuir muito para a teologia.
É inexplicável como os homens da Assembléia de Westminster, devotados e instruídos
como eles eram, possam ter deliberadamente escolhido esses versículos em Jó para suportar a
adição tomista deles à Confissão. A ação deles aqui foi tão leiga e enganosa como qualquer
outra coisa possa ser.21
Impreganada como a doutina da infinidade de Deus tem agora se tornado, sua base
bíblica é precária ou pior. A versão King James usa a palavra infinito [infinite] precisamente
três vezes; duas dessas traduções de uma palavra hebraica, e a outra de uma diferente palavra
hebraica, nenhuma das quais significa infinito. Jó 22:5 reporta Elifaz fatigando Jó ao lhe
perguntar perguntas retóricas: “Porventura, não é grande a tua malícia; e infinita, as tuas
iniqüidades?”. Agora, mesmo que Elifaz tivesse avaliado corretamente o caráter de Jó, ele
não poderia ter contado como infinidade; nem Jó tinha vivido o suficiente para ter agido,
justamente, iniquamente, ou ambos, um número infinito de vezes. De qualquer forma, o
termo não é aplicado a Deus.
A segunda ocorrência da palavra infinito no inglês é Salmo 147:5: “Grande é o nosso
SENHOR... seu entendimento é infinito” (ARC). Essa não é a mesma palavra hebraica usda
em Jó. Ela, contudo, se aplica a Deus, e os tradicionistas são aptos para exclamar: “Veja,
Deus é infinito!”. À essa objeção duas respostas são pertinentes. Primeiro, é uma regra
padrão da teologia nunca basear uma doutrina num único versículo. Teólogos não são

20
Mais tarde se tornará mais claro que Fisher et. al. não entende a Bíblia tão bem como seu inimigo Spinoza.
21
Circunstâncias extenuantes podem requerer de nós que suavizemos nossas críticas a esses teólogos. Eles não
eram matemáticos e não sabiam o que estavam falando. Mesmo assim, eles conheciam ou deveriam conhecer os
argumentos do Eleatic Zeno. Mas eles não reconheceram que quando x = ∞, 2x = ∞ também? Eles poderiam ter
aprendido de Galileu que a aceleração é proporcional à distância percorrida — isto é, um corpo caindo
livremente cai cada vez mais rápido — sua velocidade seria infinita de forma que ele poderia estar num ponto x
e abaixo no ponto y simultaneamente. Mas se eles conhecessecem um pouco sobre física, eles seriam experts em
interpretação bíblica. Eles sabiriam hebraico, grego e latim de trás para frente. Todavia, eles estavam rudemente
enganados no uso deles de Jó 11.

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infalíveis; eles de certa forma frequentemente se equivocam; e, por conseguinte, para uma
doutrina ser incluída num credo oficial, ou mesmo num tratado teológico, ela deve ser
sustentada por vários versículos. Visto que esse versículo é o único na Bíblia que parece
atribuir infinidade a Deus, a idéia não merece mais do que uma breve nota de rodapé. Mas,
segundo, a breve nota de rodapé na margem corretamente traduz o versículo assim: “o seu
entendimento não se pode medir” (ARA). Mispar não significa infinito; ela é simplesmente
numerar.
Possivelmente o versículo significa que um ser humano no tempo de uma vida não pode
contar o número de proposições que Deus conhece (assumindo, certamente, que ele tenha
acesso a todas elas, o que Deuteronômio 29:29 nega). Mas isso é um assunto secundário. O
ponto principal é que Salmo 147:5 não atribui infinidade a Dus.
A terceira das referências da King James é Naum 3:9. Ela é a mesma palavra que ocorre
em Jó. Lemos no versículo: “Etiópia e Egito eram a sua força, e esta era infinita”. Se essa
fosse a tradução correta e se fosse verdadeira, Egito e Etiópia teriam sido tão poderosas
quanto Deus. Obviamente isso é impossível. Visto então que a palavra não significa infinito,
nem a palavra de fato, Deus não é infinito, ou pelo menos a Bíblia não diz que ele seja.
A presente seção desse tratado, seção 7, “Análise Resumida”, não está incluída sob
“Algumas Conclusões”, pois dados adicionais foram primeiramente requeridos. Esses dados
com sua análise tem agora permitido uma conclusão adicional. Mas ao invés de ser “Deus
não é infinito, ou pelo menos a Bíblia não diz que ele seja”, a conclusão completa é que a
Bíblia definidamente diz que ele não é.
Spinoza apresenta, não apenas uma informação adicional interessante, mas o argumento
irrespondível. Ele deseja distinguir seu Deus do Deus cristão. A sexta definição em sua Ethics
é: “Por Deus, eu quero dizer um ser absolutamente infinito — que é um ser consistindo de
atributos infinitos”. Na nota sobre a Proposição X ele adiciona: “um ser absolutamente
infinito deve necessariamente ser definido como consistinto de atributos infinitos”. Spinoza
reconhece que podemos conhecer somente dois desses, a saber, pensamento e extensão. Mas
o Deus cristão, Spinoza insiste, é infinito, não absolutamente, mas somente “segundo seu
tipo, pois, de uma coisa infinita somente segundo seu tipo, atributos infinitos podem ser
negados”. Claramente assim, pois o Cristianismo nega a extensão para Deus.
Presumivelmente se conhecéssemos o que os outros atributos spinozisticos desconhecidos
eram, encontraríamos diversos outros inaplicáveis a Jeová.
Nenhuma universidade americana, até onde eu saiba, está sem um Departamento de
Religião. Eles são principalmente devotados à destruição do Cristianismo bíblico.22 Somente
ocasionalmente pode o estudo das várias visões da universidade fornecer material de muita
ajuda ao mesmo interesse numa pulicação tal como essa. Contudo, de vez em quando há uma
exceção. Uma seção dessa filosofia da religião moderna tem um bearing on nosso argumento.
Essa seção sustenta que Deus não pode ser uma pessoa porque Deus é infinito e uma pessoa,
por definição, deve ser finita. Que seja. O Deus da Bíblia consiste de três Pessoas, e nem
individualmente ou coletivamente eles são infinitos.
Uma razão pela qual os calvinistas dos séculos dezenove e vinte afirmam a infinitude de
Deus é que eles conhecem muito pouco sobre infinidade. Provavelmente B. B. Warfield teria
bufado se alguém tivesse lhe dito que existem tantos números primos quanto existem

22
O adjetivo é inserido porque uma seção notável da sociedade pensa que o Cristianismo pode descartar um
pouco, muito, ou quase tudo da Bíblia.

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números. Pouquíssimos desses teólogos, eu suponho que nenhum, já ouviu falar de Aleph-
nulo.23 24
Talves um ou dois contemporâneos estão começando a reconhecer as difuldades. Carl
F. H. Henry, God, Revelation and Authority, Vol. V, pp. 220 ff., tem diversas páginas
defendendo a atribuição de infinidade à Deus. Todavia, parece-me que ao invés de atribuir
infinidade a Deus, ele está alternado o significado de infinito para algo que não é infinito. Por
exemplo: “O infinito conhecido na religião bíblica não é um abraçar totalmente todas as
finitudes” (p. 225). Essa sentença e o seu contexto realmente afirmam que Deus não é
infinito.
Que seja reconhecido, contudo, que quando negamos a infinitude à Deus, não negamos,
mas de fato afirmamos, que ele é onisciente. Ele é a verdade. Não há verdade senão aquela
que constitui a mente de Deus. O tema é freqüente na Escritura, várias facetas cintilando com
as cores do arco íris. Êxodo 34:6, “O Senhor Deus... abundante em bonadde e verdade”.
Deuteronômio 32:4, “Um Deus da verdade”. Salmo 31:5, “Ó Senhor Deus da verdade”. João
14:7, “O Espírito da verdade”.25
Alguém pode se pergutar se as verdades da matemática, diferentemente das verdades da
história, são infinitas em número. Cada ano algum professor brilhante adiciona mais uma ou
duas. Os teoremas parecem ser possíveis sem fim. Então a onisciência não faria Deus ser
infinito? Há duas réplicas. Primeiro, se os teoremas são infinitos em número, nem Deus nem
o homem podem conhecer todos eles, pois com respeito à infinidade não há um “tudo” para
ser conhecido. A infinidade não tem um termo final, e o conhecimento de Deus seria tão
incompleto quanto o do homem. Sombras de Zeus! Mas, ainda mais, se todos os teoremas
possíveis da matemática puderem ser conhecidos, o conhecimento de Deus deles não o torna
mais infino do que tornaria um matemático humano infinito. Além da matemática há botânica
e xadrez.
Assim como a onisciência, a negação da infinidade a Deus está longe de negar sua
onipotência. Nós desdenhamos responder a tola e auto-contraditória questão: “Deus pode
criar uma pedra tão pesada que ele não possa levantar?” Então há o barbeiro que barbeia
todos aqueles, mas somente aqueles, que não barbeiam a si mesmos. Tais paradoxos são bons
para incitar uns poucos estudantes que caem no solo na aula de lógica elementar.
Com relação à onipotência, o Catecismo de Crianças tem uma resposta interessante. A
questão é: “Deus pode fazer todas as coisas?”. A resposta foge um pouco fazendo a
declaração perfeitamente verdadeira: “Deus pode fazer toda a sua santa vontade”. Mas talvez
o Catecismo não fuja. Suponha que perguntemos: “Deus poderia ter criado um número maior,
ou menor, de moquistos que esse mundo possa importunamente conter? Seu plano eterno
para o universo especifica um número fixo total das coisas inôomodas. Esse número é um
elemento da onisciência de Deus. Para algumas almas devotas um argumento sobre
mosquitos parece uma instrusão indigna e irreverente em assuntos sagrados. Mas se a Bíblia
pode inserir um versículo sobre o número de cabelos sobre a cabeça de um homem,
mosquitos não podem ser irrelevantes. De fato o princípio, se não o exemplo, é um dos
pontos teológicos mais importantes que alguém pode encontrar. Esqueça o cabelo e os
mosquitos e pergunte se Deus pode mudar o número dos eleitos. Ele pode predestinar um

23
Compare The World Of Mathematics editado por James R. Newman (Simon and Schuster, 1956), Vol. III, p.
1594, ou qualquer outra declaração elementar.
24
Nota do tradutor: O menor número transfinito cardinal. Também chamado de aleph-zero.
25
Outros versículos são Salmo 25:5, 10; 43:3; 100:5; 108:4; 117:2; João 1:14; 4:23; 15:26; 16:13; Efésios 5:9, I
Timóteo 3:15; I João 4:6; 5:6.

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pouco mais ou um pouco menos de pessoas do que ele decidiu no começo? Mas até mesmo o
termo no começo representa Deus errôneamente. Sobre essa base, portanto, Deus teria que
alterar seu caráter para criar algo que ele nunca intentou criar. Mas onipotência não inclui
mais poder de auto-alteração do que inclui a capacidade de criar uma pedra pesada demais
para Deus levantar. A Escritura ensina claramente que Deus é eterno e imutável.26
As últimas poucas páginas discutiram a alegada infinitude de Deus, e visto que o
Cristianismo é um sistema lógico — não um arranjo desconexo de proposições não-
relacionadas — teria sido necessário incluir material que algumas pessas não perceberiam.
Houve a distinção nítida de Spinoza entre seu Deus verdadeiramente infinito e a negação
escriturística de tal. Houve a contenção filosófica menor de que um infinito não pode ser
pessoal. Então por causa da confusão com respeito à infinidade, pareceu necessário apontar
que uma negação da inifidade para Deus não é uma negação de Deus onisciência ou
onipotência. Para enfatizar a importância de tudo isso, com os mosquitos zunindos ao redor
dos nossos ouvidos, a seção concluiu com uma afirmação da eleição e predestinação. Poderia
ser bom repetir e enfatizar o ponto de Spinoza de que a alegada infinidade de Deus necessita
sua extensão num espaço tridimensional.
Talvez esse sumário permita a inserção de uma consideração subsidiária sobre os
atributos divinos que seria mais estranha em outro lugar do que aqui. É a visão honrável de
que todos os atributos são idênticos em Deus, e algumas vezes visíveis assim na história; pois
quando Deus demoliu os muros de Jericó, a simples ação foi tanto uma exemplo de graça
como de ira. Em maior generalidade, conhecimento é poder, onipresença é onisciência,
misericórdia e verdade se encontram, e justiça e paz beijam uma a outra.

26
Sobre imutabilidade, considere I Samuel 15:29, onde o escritor diz que Deus nunca muda sua mente: nunca se
arrepende. Salmo 102:27, “Eles mudarão, mas tu és o mesmo”. Malaquias 3:6, “Eu sou o Senhor, eu não
mudo”. Compare Romanos 11:29 e Hebreus 1:10-12. Sobre a eternidade de Deus considere Deuteronômio
32:40, “Eu vivo para sempre”, e 33:27, “o Deus eterno”. Salmo 90:2, “de eternidade a eternidade tu és Deus”.
Salmo 102:12, 27, “Tu, Ó Senhor, permanecerá para sempre... tu és o mesmo [imutabilidade] e teus anos não
têm fim”. Compare Isaías 41:4, João 17:24, I Timóteo 6:16, I Timóteo 1:9, Apocalipse 4:8-10, e especialmente
Judas 25, “ao único Deus, Salvador nosso, por Jesus Cristo, nosso Senhor, seja glória e majestade, domínio e
poder, antes de todos os séculos, agora e para todo o sempre. Amém!”.

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8. Pessoa Divina e Humana

Algumas páginas atrás, pessoa foi definida como um complexo de proposições. Um


homem é o que ele pensa, pois como um homem pensa em seu coração, assim ele é. Essa
definição também permitiu a Trindade consistir de três pessoas diferentes, embora muito
mais intimamente relacionadas do que quaisquer três pessoas humanas, todavia, totalmente
distintas, contrário à heresia de Patripassionismo. Como isso estabelecido, a pergunta se
torna: Jesus era uma pessoa humana ou divina, ou talvez ambas? Quando a Segunda Pessoa
se tornou homem, ela reteve sua mente e atividades divinas, ou ela se tornou uma pessoa
difernte,ldeixando de lado algumas de suas prerrogativas? Eu não gastarei tempo sobre os
extremos da teoria do Kenosis; mas alguns dos teólogos mais ortodoxos sustentam que Cristo
deixou de lado várias de suas atividades trinitarianas. Se esse fosse o caso, teríamos
dificuldade em pensar que ele era a mesma pessoa. Mas pior do que isso, haveria
repercussões cósmicas. Não somente João diz que Cristo criou o universo, mas Hebreus 1:3
declara que Cristo sustenta todas as coisas pela palavra do seu poder. Se ele cessasse de assim
o fazer, o mundo teria cessado no dia do seu nascimento. Teria ele o recriado trinta anos
depois? Nessa programação ele poderia não ter encontrado a mulher samaritana no poço. De
fato, poderia não haver madeira para uma cruz sobre a qual crucificá-lo. Colossenses 1:17
reforça esse ponto: “por ele todas as coisas subsistem”, o sistema solar e até mesmo o
Império Romano. Um ou mais teólogos tentam evitar essas conclusões pela frase peculiar de
que Cristo sobre a terra deixou de lado o “uso independente” dos seus atributos divinos. Mas
isso destrói a doutrina ortodoxa da Trindade pois, totalmente fora das possibilidades
anteriores, nunca haveria quaisquer usos independentes dos seus atributos divinos. Cristo
como a Segunda Pessoa, antes da sua Encarnação, nunca fez algo independentemente do seu
Pai. João 1:13 declara que Cristo criou todas as coisas sem exceção. Mas assim o fez o Pai. A
criação é atribuída a ambos. Primeira Coríntios 8:6 diz: “Um Deus, o Pai, de quem são todas
as coisas”. Efésios 3:9: “Deus, que criou todas as coisas por Jesus Cristo”. Pressumivelmente
Apocalipse 4:8,11 é muito pertinente também: “Santo, santo, santo, Senhor Deus Todo-
poderoso... tu és digno, ó Deus... pois tu criates todas as coisas”. Compare Apocalipse 10:6.
Embora a Trindade seja mormente oculta no Antigo Testamento, todavia, há dicas. Jó
26:13 sugere que o Espírito cooperou na criação. Salmo 104:30 faz a mesma sugestão:
“Envias o teu Espírito, e são criados, e assim renovas a face da terra”. E embora os judeus
nunca tenham suposto-a, todas as três Pessoas são referidas em Salmo 33:6: “Pela Palavra do
SENHOR foram feitos os céus; e todo o exército deles, pelo Sopro da sua boca”. A última
palavra hebraica é Ruach;27 também Jó 33:4: “O Espírito de Deus me fez; e a inspiração do
Todo-Poderoso me deu vida”.
Uma declaração considerável da cooperação entre as três pessoas aparece em 1 Pedro
1:2: “Eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a
obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo”. Há outras referências, mas essas deveriam
ser suficientes para descartar aqueles teólogos que falam sobre o exercício indepentente dos
atributos de Cristo.
Ninguém pode questionar o fato de que a Bíblia ensina a Encarnação de Deus o Filho.
Todas tentativas de fazer uma exegese da Escritura de outra forma, se é que alguém tem se

27
Compare Harris, Archer, Waltke, Theological Wordbook of the Old Testament (Chicago: Moody Press, 1980),
Vol. II, pp. 836-837, especially p. 837, Col. 1.

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aventurado a fazer, são fracassos evidentes. Mas a divindade do Filho Encarnado é


precisamente o que nos coloca em problema. Não devemos afirmar que a Segunda Pessoa foi
deprovida de sua onipotência, embora possamos imaginar algum tipo de localização no corpo
de Jesus. Mas quanto mais enfatizamos a divindade, mais somos surpreendidos pelo “homem
Cristo Jesus”.
Uma explicação parcial de nossa perplexidade é o fato de que nós, como seres
humanos, somos criaturas de espaço e tempo; então, segundo, nessa presente era, as escolas e
sociedades públicas em geral — livros, revistas, televisão — tem nos doutrinado no
behaviorismo que podemos somente com grande dificuldade conceber seres espirituais tais
como Deus e anjos. O empirismo prevalecente que baseia todo conhecimento na experiência
sensorial protege até mesmo nós, cristãos, de demônios, fantasmas e Deus. Um filósofo
solitário aqui e ali pode crer nas Idéias Platônicas ou no Um Plotínico, mas tais seguidores
inofensivos nunca são encontrados nos jogos de futebol.
Essa sociedade secularizada opera contra toda espiritualidade. Todavia, essa não é a
única ou a principal razão do por que os cristãos têm problemas com a Encarnação. A real
dificuldade com a Encarnação é sua dificuldade real.
Os credos e os volumes sobre teologia, antenciosos das heresias antes de 451 d.C.,
negam que Cristo fosse uma pessoa humana. Eles usam a frase “duas naturezas distintas e
uma Pessoa para sempre”. Com grande uniformidade eles recusam definir natureza. Agora,
isso leva à dificuldades extremas.
Se Jesus não era uma pessoa humana, quem ou o que sofreu na cruz? A Segunda Pessoa
não poderia ter sofrido, pois a divindade é impassível. Uma das heresias das eras primitivas,
como mencionado anteriormente, era o Patripassionismo. Substituindo uma trinidade modal
pelas três Pessoas distintas, a teoria requer que o Pai tenha sido crucificado. Mas requerer que
a Segunda Pessoa, como tal, sofra, é igualmente impossível. A Confissão de Westminster a
descreve como “um espírito puríssimo, invisível, sem corpo, membros ou paixões” (II, 1). Se
então a Segunda Pessoa não podia sofrer, poderia uma “natureza” sofrer? Talvez alguns
poucos leitores tenham ouvidos o hino de Issac Watts, não tão popular, com sua inferência
com respeito à criança. Suas duas primeiras linhas são:
Cachorros se deleitam em latir e moder

Pois esta é a natureza deles.

Se, então, a teologicamente indefinida natureza são certas qualidades ou características,


tal como susceptibilidade a fadiga, apitão para aprendizado, alegria, tristeza, ou, para estender
a lista além de Cristo, inveja, irascibilidade, mau humor — se a natureza são tais qualidades,
alguma delas pode sofrer dores? Se esse é o caso, um cadáver pode sofrer. Pelo contrário,
somente um espírito, uma alma (incluindo as almas dos animais), ou uma pessoa pode sofrer.
Aparentemente os demônios podem sofrer (Lucas 8:31; Mateus 8:29, onde deve-se notar a
palavra tomento), todavia, eles não têm corpos.28

28
Para contra-atacar a influência materialística das escolas públicas e as pressões de uma sociedade secularista,
o leitor deve considerar o seguinte. Primeiro, o relato famoso da contestação de Cristo ao diabo (Mateus 4:1-11).
Depois, Mateus 15:22-25, onde uma garota foi “dolorosamente atormentada” por um demônio. Um “espírito
impuro” estava atormentando um homem em Marcos 1:23-27. Lucas 11:14-26 descreve um evento e adiciona
dezenas de versículos nos quais está a explicação de Cristo. Em 1 Coríntios 10:20 Paulo afirma que os
sacrifícios pagãos são feitos aos demônios. Então, também, os demônios ensinam suas próprias doutrinas (1
Timóteo 4:1). Para que o raio de luz possa brilhar através da escuridão do secularismo, lembre-se que “orou
Eliseu e disse: SENHOR, peço-te que lhe abras os olhos para que veja. O SENHOR abriu os olhos do moço, e

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Para repetir a questão então: Se meras qualidades não podem sofrer e morrer, e se o
Logos é eternamente imutável, a morte de quem propiciou o Pai, sofrendo a penalidade que
merecíamos soferer? As Escrituras dizem que foi a morte do homem Cristo Jesus. Os credos
da Reforma, e os teólogos que os aceitaram, dizem que foi ele foi um homem. Quando John
Gill (Body of Divinity, V, 1, Sovereign Grace ed., p. 382, col. 1) diz: “Não tivesse ele uma
alma humana, ele não seria um homem perfeito”, ele implica que Jesus era um homem
perfeito. A. A. Hodge (Outlines of Theology, p. 380, #7) primeiro diz que “Ele é também
verdadeiro homem” e umas poucas linhas abaixo ele torna isso impossível adicionando:
“Cristo possui ao mesmo tempo na unidade de sua Pessoa dois espíritos com todos os seus
atributos essenciais, uma consciência, mente, coração e vontade humanas”. Perguntamos:
Como pode uma consciência, mente, coração e vontade humanas não ser uma pessoa? Tudo o
que Hodge pode replicar é: “Não nos diz respeito tentar explicar” tudo isso. Em outras
palavras, a doutrina é baseada na ignorância. Os credos e os teólogos afirmaram “um
verdadeiro homem” e as explicações deles negaram a afirmação.
Isso se torna ainda mais evidente porque os teólogos ortodoxos geralmente chamam a
natureza humana de Cristo de “impessoal”. Como um X com uma vontade humana e um
intelecto humano, quem ou o qual cresce em sabedoria, pode ser destituído de personalidade,
requer algumas explicações inexistentes. Atormentando por tal absurdo, um dos teólogos
mais ortodoxos, um verdadeiro prescrutador de cada detalhe, insiste que a natureza humana
de Cristo não é impessoal porque ela está unida à sua natureza divina. Em outras palavras, a
Segunda Pessoa da Trindade é ignorante de algo, a Pessoa se cansa, e a Pessoa morre na cruz!
Em contraste com essas impossibilidades, a Escritura, como observado anteriormente, fala do
“homem Cristo Jesus” (1 Timóteo 2:5). Como pode um homem ser um homem ser ser uma
pessoa humana?
Visto que as dificuldades são enormes, é necessário ver o problema a partir de
diferentes ângulos, mesmo sob o risco de alguma repetição. Tomemos como certo que Deus
não pode morrer. Agora, se Cristo fosse uma pessoa divina, nenhuma pessoa foi crucificada e
morreu. O que então morreu na cruz? Uma “natureza”? Até este ponto o autor achou
conveniente usar o termo natureza numa forma descuidada e popular. Contudo, se desejamos
explicar a Encarnação, os termos técnicos devem ser usados, isto é, termos cuidadosamente
definididos. Mas nenhum credo, nenhum grande teólogo até onde eu saiba, jamais a definiu.
Admitidamente Hodge tentou fazê-lo, mas não é suficiente meramente dizer que natureza e
substância são sinônimos. Se a pessoa, sendo o Logos, não podia ser crucificada, nossa
salvação foi realizada pela morte alegada de uma natureza impessoal? Pois vimos, há apenas
uns poucos parágrafos atrás, que as qualidades humanas não podem ser atributos de Deus.
Por causa do anti-intelectualismo contemporâneo e de uma religião de emoção e
experiência, com pouca ou nenhuma verdade envolvida, e visto que desejamos olhar para o
problema de todos os ângulos, o próximo ou os dois parágrafos divergerão do argumento
teológico — muito menos do que alguns suporiam — e estudaremos alguns dos materiais da
Escritura. Afinal, o material da Escritura é a nossa única autoridade. Embora isso possa ser
mais facilmente entendido do que um jargão teológico, sua significância algumas vezes
precisa de atenção considerável.

ele viu que o monte estava cheio de cavalos e carros de fogo, em redor de Eliseu”. Quanto tempo faz que um
visitante regular da igreja não ouve um sermão sobre anjos? Todavia, os ministros do Evangelho devem
supostamente declarar “todo o conselho de Deus”.

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Atos 2:27, citando Salmos 16:8-11, declara que Deus “não deixará minha alma no
inferno”. A palavra não é Gehenna, contudo, mas Hades. Isso deveria trazer à mente a
promessa de Cristo ao ladrão na cruz: “Hoje estarás comigo no paraíso”. Mas a palavra para a
qual a atenção é agora direcionada é alma. Parece absurso que a Segunda Pessoa da Trindade
fosse para o Gehenna, e certamente peculiar se fosse para o Hades,29 esse último porque a
Segunda Pessoa não pode morrer. Ele era o eterno e imutável Filho de Deus. Por conseguinte,
visto que “o homem Cristo Jesus” é a única outra possibilidade, aquele que morreu sobre a
cruz era um homem, ele tinha ou era uma alma, ele era um ser humano, uma pessoa.
Mateus 27:46 e Marcos 15:34 apoiam essa visão: “Meu Deus, meu Deus, por que me
desamparastes?” Visto que um divisão dentro das eternas e imutáveis Pessoas da Trindade é
absolutamente impossível, Jesus está falando aqui como hum homem. Uma “natureza”
humana impessoal não pode falar. Nem há muita inteligibilidade em se supor que o Pai
poderia esquecer uma “natureza”. Aquelas palavras de Salmos 22:1 eram as palavras de um
verdadeiro homem, um ser humano real, a quem o Pai esqueceu, impondo assim a penalidade
da propiciação pela qual somos redimidos.
Outro evento pertinente apóia essa posição geral. Na epístola de Tiago (1:13)
aprendemos que “Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a ninguém tenta”. Mas
Jesus foi tentado. Visto que o indefinido e, portanto, sem significado, termo natureza não
pode ser tentado, Jesus deve ter sido um homem. P. C. Johnson, em seu artigo “Temptation of
Christ” (Zondervan Pictoral Encyclopedia of the Bible, Vol. V, p. 671), faz uma observação
muito digna de ser citada:
A primeira tentação foi no nível de sua natureza física, um apelo para tranformar as pedras em pão
em vista de sua óbvia fome após quarenta dias de jejum (Mateus 4:1-4). Esse foi um teste básico... da
realidade da encarnação... Ele apenas parecia ser um homem...? Ele tinha se tornado total e
completamente homem.

Antes, obviamente a Segunda Pessoa nunca tinha sentido fome, sendo um espírito puro
e assim por diante, e nunca poderia ser tentada em tranformar pedras em pães. Então, para
reforçar o ponto, alguém pode adicionar Hebreus 4:15: “porém, como nós, em tudo foi
tentado”;
Embora a grande batalha contra a incredulidade se centre na divindade de Cristo, a
humanidade de Cristo também é essencial no plano da salvação. Uma pessoa não deve supor
nem por sequer um momento que a ênfase sobre Cristo ser um homem enfraqueça de alguma
forma a afirmação de sua divindade. Quando dizemos, Deus se tornou carne, tanto Deus
como o homem são essenciais.
Portanto, para continuar com a evidência da Escritura, alguém pode, em adição aos
poucos parágrafos anteriores, citar João 8:40: “Mas, agora, procurais matar-me a mim,

29
Visto que o Cristianismo é um sistema de doutrina e não um agregado aleatório de proposições não-
relacionadas, uma determinada doutrina sempre lança mais ou menos luz sobre outra. Portanto, uma nota de
rodapé é pelo menos apropriada, e deveras quase necessária para aqueles que no culto do Dia do Senhor repetem
“ele desceu ao inferno”. A grande maioria das pessoas que recitam o Credo dos Apóstolos não estão cientes de
que ele não é o credo oficial de nenhuma igreja (até onde eu saiba); nem eles estão cientes do fato que ele foi
recitado em quatro formas diferentes, sendo que pelo menos duas delas estão em uso hoje. A primeira forma
inclui, a outra exclui, “ele desceu ao inferno”.
A inclusão depende de uma interpretação indefensável de 1 Pedro 3:18-20, “... vivificado pelo Espírito, pelo
qual ele foi e pregou aos espíritos em prisão... nos dias de Noé”. A forma comum do Credo dos Apóstolos
assume que “em prisão” significa “no inferno”. Essa suposição não tem nenhuma base. Além do mais, a
pregação ocorreu nos dias de Noé, não em 33 d.C.. Para uma exegese mais completa, veja meu livro Peter
Speaks Today.

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homem que vos tem dito a verdade”. Ao que podemos adicionar: “Jesus, o Nazareno, homem
aprovado por Deus” (Atos 2:2). Note especialmente 1 Timóteo 2:5: “e um só Mediador entre
Deus e os homens, o homem Cristo Jesus”. Que Jesus tinha ou era uma alma, previamente
mencionado, é suportado também por Mateus 26:38: “A minha alma está profundamente
triste”. Não “minha natureza” está profundamente triste. Note também: “Agora, está
angustiada a minha alma” (João 12:27). Isso tinha que ser uma alma humana, visto que nada
perturba o imutável Deus. E no final, sobre a cruz, “inclinando a cabeça, rendeu o espírito”
(João 19:30). Como isso pode se ajustar com uma natureza humana impessoal é um enigma
insolúvel que a maioria dos teólogos recusam discurtir ou sepultam em seis pés de
excentricidades sem significado. De qualquer forma, passagens suficientes da Escritura já
foram dadas para privar um anti-intelectualismo contemporâneo de seu preconceito contra a
teologia formal. Precisamos mais dela, não menos.
A lista de dificuldades não está de forma alguma completa. Quer alguém aceite a visão
comum de que Jesus não era um ser humano ou quer alguém insista que Jesus era
verdadeirmente um homem, essa pessoa deve dizer algo sobre o relacionamento entre o
divino e o humano. A onisciência de um estava relacioanda com a ignorância real do outro
essencialmente da mesma forma como a onisciência divina está relacionada com a ignorância
de qualquer um? Se não, isso foi devido inteiramente à impecabilidade de Jesus contrastada
com nossa depravação, ou de alguma outra forma mais profunda? É difícil crer que o
conhecimento divino do Filho encarnado não tivesse nenhum efeito sobre ou relação com o
conhecimento humano de Jesus; mas é igualmente difícil decidir o que era essa relação. De
fato é difícil determinar quando, se alguma fez, a onisciência é exemplificada nas palavras de
Jesus.
Certamente ele sempre falava a verdade. Mas um profeta meramente humano, Eliseu ou
Isaías, por revelação divina, não poderia ter dito tudo o que Jesus disse? Bem, não
exatamente: há algumas coisas que Eliseu não poderia ter dito, tais como: “Eu e o Pai somos
um”. Mas por outro lado, Jesus não poderia ter dito isso através de sua “natureza” humana?
Provavelmente não, mas é muito difícil determinar claramente quais declarações vieram
através de qual natureza. Visto que os profetas em algumas ocasiões produziam milages
(Josué 3:13-17, o travessia do Jordão; Josué 6:6-20, o muro de Jericó; A comida de Eliseu e o
azeite multiplicado, 1 Reis 17:14-16), o acalmar da tempestade por Cristo poderia ter sido
produzido através de sua natureza humana. Uma das declarações mais claras de Cristo que
não poderia ter vindo através de sua natureza humana é Mateus 11:27: “Ninguém conhece o
Filho, senão o Pai; e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser
revelar”. Isso, certamente, remove Moisés, Eliseu, e o restante de nós. Mas mesmo assim,
não é claro que isso nos ajude a entender como as duas naturezas se relacionam uma contra a
outra.
Uma declaração muito claramente não é uma declaração do Logo. Sobre a cruz Jesus
disse: “Tenho sede”. Nenhuma Pessoa trinitariana poderia ter dito isso, pois as Três Pessaos
são espíritos incorpóreos puros e a sede é um fenômeno de um corpo. Há outra razão pela
qual o Logos não poderia ter sentido sede, uma razão que teólogos tradicionais têm
esquecido. Experimentar sede é, entre outras coisas, uma mudança de uma condição de não-
sede. Mas o Logos, a Segunda Pessoa da Trindade, é tão imutável quanto o Pai. Por outro
lado, nem poderia uma natureza impessoal ter sentido sede. Seres humanos reais — alguém
poderia adicionar plantas e animais — sentem sede. Quem então, ou o que, sentiu sede sobre
a cruz?
Uma segunda declaração, tão claramente identificável como uma declaração do Logos
em Mateus 11:27, é João 17:5: “Agora, glorifica-me tu, ó Pai, junto de ti mesmo, com aquela

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glória que tinha contigo antes que o mundo existisse”. Muito provavelmente esse é o caso
também com João 15:26: “Quando, porém, vier o Consolador, que eu vos enviarei da parte do
Pai...”. Todavia, muitas das declarações que vieram dos lábios de Jesus, excluindo aquelas
sobre fome, fadiga, e sede, poderiam ser classificadas de qualquer forma. Tais são os
detalhes, que é muito difícil para nós formularmos uma visão detalhada — uma visão geral já
é difícil o suficiente — da relação entre as duas “naturezas”. Mas quando um concílio, ou um
papa, ou um teólogo usa os teermos natureza, pessoa, substância, e se senta de braços
cruzados, com uma sensação de satisfação dogmática, lembro-me de um time de futebol que
reivindica um touchdown quando a bola ainda está na décima-terceira ou trigésima jarda.
Mas os times de futebol geralmente não são tão cegos.
As complicações continuam. Sobre a base do fato que o Logos é onisciente, e, portanto,
não somente conhece todas as coisas que a pessoa humana conhece, e conhece que isso é
conhecimento humano, não pode esse fato explicar a relação entre as duas “naturezas” de
Cristo? O conhecimento de um inclui o outro. Desafortunadamente, essa consideração é sem
valor, pois ela permanece entre Cristo e todo ser humano. Cristo conhece completamente o
que você e eu sabemos ou pensamos. O que precisamos é uma relação que obtém em outro
lugar além daquela entre a deidade de Cristo e a sua humanidade. Isso não é fácil de
determinar. Contudo, uma conclusão deve aparecer em algum tempo, e penso que todos os
fatores necessários para uma conclusão foram examinados, mesmo os itens menos pertinentes
das últimas poucas páginas. Ela não pode, portanto, ser prorrogada.

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9. A Conclusão
Alguns críticos não amigáveis intantaneamente estigmatizarão a seguinte defensa da
humanidade de Cristo como a heresia do Nestorianismo. Nestório, lembre-se das primeiras
páginas desse estudo, ensinou, ou é suposto ter ensinado, que a Encarnação do Logos resultou
em duas pessoas. Essa visão de Nestório, com sua condenação seguinte, não pode ser
sustentada logicamente ou historicamente. Quanto à história, vários estudiosos assinaram a
visão herética dos seus seguidores, que supostamente desenvolveram suas sugestões além de
sua aprovação. Nem pode a acusação de heresia ser logicamente stantiated. A razão deveria
ter se tornado óbvia várias páginas atrás. Nem Nestório nem seus oponentes tinham qualquer
idéia clara do que uma pessoa é. Eles usaram a palavra, mas não atribuíram nenhum
signficado a ela. Na discussão e nos escritos deles o termo foi tão sem sentido quanto as
sílabas substância e natureza. Não importa quão desagradável isso possa ser para aqueles
estudantes cujo conhecimento está confinado a cinqüenta minutos de uma palestra ampla de
Teologia Sistemática — e mais desagradável ainda ao professor que conhece pouco mais do
que aqueles cinqüenta minutos — eles devem ser forçados a reconher que os bispos de
Calcedônia e os teólogos posteriores estavam falando coisas sem sentido, pois os termos
deles não tinham nenhum sentido.
Para remediar essa situação desagradável, eu não somente denunciei e expurgei o uso
do termo substância, mas numa tentativa de ser ocasionalmente positivo, ofereci uma
definição do termo pessoa. A maioria das pessoas achará isso esquisito. A maioria dos
teólogos a acharão inaceitável. Muito bem, que eles formulem e proponham uma definição
diferente. Essa é a coisa honesta e lógica a se fazer. Então haverá um assunto inteligível de
discussão. Uma pessoa pode razoavelmente supor que poderia existir uma definição melhor
do que a minha. Mas mesmo que não haja, ela não pode se estigmatizada como absurdo sem
sentido.
Porque quinhentos anos de recitação sem sentido produz um hábito impregnado, uma
nova idéia tem um tempo difícil para fazer progresso. Uma das objeções mais comuns contra
se definir uma pessoa como um complexo de pensamentos ou proposições30 parece
imediatamente fluir como um gêiser. Quantas vezes eu ouvi isso! Isso, eles dizem, faz de sua
esposa apenas uma proposição. Isso, suponho, é esperado me causar vergonha. Realmente é
difícil pensar numa refutação mais estúpida.
Certamente os misóginos, que pensam que a tagarelice das mulheres não tem fim,
ficariam felizes em encontrar tal definição de uma mulher, se não do homem.
Mais substancial é a consideração, que parece nunca ter ocorrido para os meus críticos,
que se eu mesmo sou um complexo de pensamentos, não estou em momento algum
grandemente perturbado em ter uma esposa que se pareça tanto comigo. Seria o caso deles
não desejaram que suas esposas pensassem?
Algumas páginas atrás, as implicações dessa definição de pessoa foram aplicadas à
Trindade. Isso parece justificar a unidade da Deidade e as distinções entre as Pessoas. Se esse

30
Uma proposição não é precisamente uma sentença declarativa. “O garoto chutou a bola” e “a bola foi chutada
pelo garoto” são duas sentenças distintas. Os seus sujeitos são diferentes; seus versos não estão na mesma voz, e
a frase preposicional está ausente de um deles. Mas elas são as mesmas proposições, pois uma proposição é o
significado de uma sentença declarativa.

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é o caso, seu uso para resolver o problema da Encarnação se torna muito mais plausível e não
pode ser descartado como patentemente ridículo.
O tratamento usual do problema é tão auto-contraditório que quase todo escape parece
promissor. Após declarar que Jesus foi um homem, um homem “verdadeiro”, os teólogos
continuam argumentando que ele não foi um homem de forma alguma — ele foi apenas uma
“natureza”. Para eles o garoto no templo e o ajudante de carpinteiro em Nazaré era algumas
séries de qualidades anexadas à Segunda Pessoa. Ele é tanto onipotente como frágil; ele é
tanto onipresente como localizado; ele é onisciente, mas ele é ignorante de algumas coisas.
Em segundo lugar, intimamente relacionado com o primeiro, as características de um homem
ordinário não pode possivelmente ser anexa à divindade. O Logos nunca ficou cansado ou
teve sede; o Logos nunca cresceu em estatura ou sabedoria. O Logos é eterno e imutável.
Como podem então essas características humanas serem possivelmente características de
Deus? Mas por irresponsavelmente atribuir tais qualidades a Deus, os teólogos contradizem
suas outras declarações de que Jesus foi um homem verdadeiro. Até mesmo a palavra
verdadeiro traí a fraqueza da posição deles. Que o vosso sim seja sim e que o vosso não seja
não. A Escritura simples e claramente diz: “O Homem Cristo Jesus”.

G.H.C.

O manuscrito termina aqui por causa da doença final do autor.

A relação que existe entre o Logos, a Segunda Pessoa da Trindade, e Jesus é única,
diferentemente daquela entre o Logos e todo outro homem que vem ao mundo (veja João
1:9). O Logos não foi meramente a luz e a mente de Cristo; o próprio Logos estava
plenamente em Cristo. Cristo pôde, portanto, dizer: “Eu sou o Caminho, a Verdade, e a
Vida”. Nenhum mero profeta poderia ter feito tal reivindicação impressionante. Os profetas,
inspirados por Deus, possuíam algumas das proposições divinas. Cristo, contudo, possuía
todas elas, como o autor de Hebreus arguementa em seu primeiro capítulo. Todos os tesouros
da sabedoria e do conhecimento estão em Cristo, pois nele habita corporalmente toda a
plenidade da divindade.
Se, como parece ser o caso, temos agora uma solução para o problema da Encarnação,
uma solução que evita as contradições e as palavras sem sentido das formulações tradicionais,
uma solução que é suportada pela própria Escritura, somos obrigados a aceitá-la. Jesus Cristo
foi e é tanto Deus como homem, uma pessoa divina e uma pessoa humana. Negar uma das
duas é cair em erro. Uma vez que os termos chaves estão definidos e claramente entendidos, a
Encarnação é um milagre ainda mais estupendo e imponente que a Igreja tem até aqui
expressado.
J. W. R.

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