Você está na página 1de 11

1

AINDA SOBRE A FALTA DE CITAÇÃO DO RÉU

Alencar Frederico
Mestre em Direito pela Universidade Metodista de Piracicaba; Pós-graduado em Direito
Processual Civil e em Direito Tributário pela Faculdade de Direito de Itu; Advogado,
consultor e parecerista; Autor de diversas obras jurídicas e articulista em revistas
especializadas nacionais e estrangeiras (Portugal e Itália); Membro honorário da
Academia Brasileira de Direito Processual Civil; Membro do Núcleo de Pesquisas Jurídicas
da OAB subsecção Campinas/ SP; Membro do Conselho Editorial da Millennium Editora;
Membro do conselho editorial da editora Setembro; e Coordenador da coleção Cadernos
de pesquisas em direito, da editora Setembro. Tem experiência na área de Direito
Processual Civil, atuando principalmente nos seguintes temas: alterações legislativas,
morosidade da prestação jurisdicional, comunicação dos atos processuais, processo
eletrônico e processos coletivos.

Sumário. 1. Ressalva introdutória; 2. Quaestio; 3. Nosso desenvolvimento; 3.1.


Julgados; 3.2. A competência para a ação de nulidade da sentença ou para a
ação declaratória de inexistência jurídica; 4. A querela nullitatis no direito
processual civil canônico; 5. Alguns livros que tratam do assunto; 6. Finalizando.

1. Ressalva introdutória.

O professor Sérgio Luiz Monteiro Salles, seguindo a tradição e cultura dos


grandes mestres, reunia [graciosamente] alguns de seus alunos, antes do
horário convencional das aulas na pós-graduação em Direito Processual Civil, na
Faculdade de Direito de Itu, para estudar e debater diversos temas de Direito
Processual. Tive a oportunidade e a honra de participar desses seletos colóquios
[denominado Privatissimum Examinatorium].

Como tudo na vida passa, aquele momento passou.

O Dr. Fábio Cenci Marines, com vontade de estudar direito processual e baseado
naqueles nossos colóquios, reuniu um outro grupo de pessoas em seu escritório
[Sorocaba/ SP], para debater temas de direito processual.

Feito essa breve “ressalva introdutória”, não percamos mais tempo.

2. Quaestio.

Num desses colóquios, foi apresentado pelo colega Dr. Fábio Cenci Marines a
seguinte quaestio:
2

Tício propõe ação pelo rito ordinário em face de Gaio com pedido de tutela
antecipada; O juiz monocrático nega a antecipação de tutela; Tício apresenta
recurso de agravo de instrumento, este julgado sem a oitiva de Gaio, vez que
ainda não efetivada sua citação; O agravo de instrumento é provido; Os autos do
agravo, após o trânsito em julgado, "baixam", onde o juízo monocrático
determina o cumprimento do V. Acórdão (concessão da tutela antecipada); Gaio
é intimado da concessão da tutela antecipada concedida pelo TJ; Como
Advogado de Gaio, qual providência (se existe) deve ser tomada para
impedir/obstar/reformar o Acórdão que concedeu a antecipação de tutela pedida
por Tício.

3. Nosso desenvolvimento.

Cumpre-nos inicialmente lembrar que a citação1 é ato indispensável para a


validade do processo.

CPC, art. 214. Para a validade do processo é indispensável a citação inicial do


réu.
[...]

E sua importância é tanta que, não havendo citação ou sendo nula, nenhum
efeito produzirá a sentença eventualmente proferida em tal processo.

Ensina Alfredo Buzaid – “A citação, que é o ato pelo qual o réu é chamado para
se defender na ação que lhe move o autor, representa um pressuposto de
constituição válida da relação jurídica processual”2.

Nesse sentido, observa Enrico Tullio Liebman – “primeiro e fundamental


equilíbrio para a existência de um processo sempre foi, é, e sempre será, a
citação do réu, para que possa ser ouvido em suas defesas. Sem esse ato
essencial não há verdadeiramente processo, nem pode valer a sentença que vai
ser proferida. Um cidadão não pode ser posto em face de uma sentença que o
condena, quando não teve oportunidade de se defender”3.

“A ausência de citação é caso de nulidade absoluta do processo, a qual pode ser


argüida a qualquer momento e decretada até mesmo de ofício, não gerando,
portanto, a preclusão. [...] Tratando-se de nulidade ipso iure, não há que se
falar, portanto, em verificação de ocorrência ou não de prejuízo à parte, quando
caracterizado o vício”. [STJ, 1ª T., Resp 649.949/SP, rel. Min. Francisco Falcão, j.
07/12/2004].

1
“Citação é o ato pelo qual se chama a juízo o réu ou o interessado, a fim de defender-
se”. ROSA, Eliézer. Novo dicionário de processo civil. Rio de Janeiro: Freitas Bastos,
1986. p. 64.
2
BUZAID, Alfredo. Estudos e pareceres de direito processual civil. Notas de adaptação ao
direito vigente de Ada Pellegrini Grinover e Flávio Luiz Yarshell. São Paulo: Revista dos
Tribunais, 2002. p. 296.
3
LIEBMAN, Enrico Tullio. Estudos sobre o processo civil brasileiro. Araras: Bestbook,
2001. p.141-146.
3

Sobre os diversos tipos de vícios (nulidade absoluta, relativa e irregularidades)


anota o prof. Sérgio Luiz Monteiro Salles:

“O ato pode ser inexistente, isto é, falta o ato: o processo pode até ter toda
aparência de validade mas é, juridicamente, inexistente, v.g., a falta do
instrumento de mandato ao advogado, eis que, segundo a lei (CPC, parágrafo
único do art. 37), todos os atos praticados por quem se obrigou a exibir
instrumento de mandato e não o fez são havidos por inexistentes, devendo o Juiz
declarar o vício, de ofício, que é insanável”.

“Neste exemplo, i. é, falta de procuração, a conseqüência é que a relação


processual não se constitui, extinguindo-se o processo sem julgamento de
mérito, por sentença terminativa que deve ser fundamentada ainda que de forma
concisa, pena de nulidade (CPC, art. 162, § 1º, c/c art. 165, e C.R., art. 93, IX);
a extinção não impede a renovação do processo, suprida a falha”.

“Para se distinguir as nulidades absolutas das relativas, adota-se o critério


teleológico, indagando-se qual a finalidade da lei”.

“Diz-se absoluta a nulidade se houver, na feitura do ato, violação aos fins ditados
pelo interesse público. Assim, v.g., (exemplo fornecido por E. D. Moniz de
Aragão), se o Juízo é absolutamente incompetente, faltando-lhe a competência
funcional originária ou hierárquica, a nulidade é insanável, devendo ser declarada
de ofício, anulando-se todos os atos decisórios praticados pelo Juízo
incompetente e remetidos os autos para o Juízo competente (CPC, art. 113 e §
2º)”.

“No exemplo dado o pressuposto do Juízo competente inscreve-se entre os de


validade e, se for declarada, o processo não se extingue, mas deve ser refeito.
Nos atos que são postos em benefício da parte, se ocorrer o descumprimento do
comando normativo processual, diz-se que a nulidade é relativa”.

“Assim, v.g., a falta de representação, assistência ou autorização; são regras


colocadas no interesse da parte, daí decorrendo a faculdade do Juiz ordenar o
saneamento (CPC, art. 284), que, se for desobedecido, acarreta a extinção do
processo sem julgamento de mérito, por ausência de um pressuposto de
desenvolvimento válido e regular do processo (CPC, art. 267, VI, c/c art. 301,
VIII)”.

“Mas há normas cogentes voltadas para o interesse da parte, v.g., incompetência


relativa (ratione loci aut valoris = em razão do lugar ou do valor); essa nulidade
depende da iniciativa daquele a quem aproveita e se não for argüida prorroga-se
a competência do Juízo (CPC, art. 114). Diz-se que essa nulidade é relativa”.
“As irregularidades são de duas ordens: algumas podem ser reparadas pelo
próprio Juízo, independente de provocação, v.g., correção de inexatidão material
ou erro de cálculo na sentença (art. 463, I) ou, ainda, a ausência da rubrica do
Escrivão nas folhas dos autos (CPC, art. 167)”.

“Mas irregularidades há que estão espalhadas pelo CPC, v.g., ultrapassagem de


prazo pelo Juiz para proferir os despachos ou as decisões; excesso de prazo para
julgar, no Tribunal, as causas de rito sumário, ou para a conferência do v.
4

acórdão (CPC, arts. 189, 550, 563), mas que podem ser elididas pela justificativa
(CPC, art. 187)”. In SALLES, Sérgio Luiz Monteiro. Anotações de aula. 2003.

“No direito processual civil brasileiro, alguns dos casos de nulidade absoluta
estão expressamente indicados na lei (‘nulidades cominadas’): v.g., arts. 84;
113, §2º; 214; 485, incs. I-IV, VI e VIII. Tais não são, no entanto, os únicos
casos de nulidade absoluta. [...]”. CINTRA, Antonio Carlos de Araujo; GRINOVER,
Ada Pellegrini; DINAMARCO, Cândido Rangel. Teoria geral do processo. 20ª ed.
São Paulo: Malheiros, 20044.

“Muito embora com o despacho da petição inicial já exista relação angular entre
autor e juiz, para que seja instaurada, de forma completa, a relação jurídica
processual é necessária a realização da citação. Portanto, a citação é pressuposto
de existência da relação processual, assim considerada em sua totalidade (autor,
réu, juiz). Sem citação não existe processo. Em suma, pressuposto de existência
da relação processual: citação”. [NERY JÚNIOR, Nelson; NERY, Rosa Maria de
Andrade. Código de processo civil comentado e legislação extravagante. 10ª ed.
São Paulo: Revista dos Tribunais, 2007.].

Na referida quaestio, se não fosse a falta de citação do réu [Gaius], “a


antecipação dos efeitos da tutela concedida em tribunal pode assumir duas
feições: a) ou é concedida monocraticamente por um membro do tribunal, cuja
decisão pode ser impugnada por agravo interno (art. 39, Lei Federal n.
8.038/1990; b) ou é concedida por acórdão, com o qual não cabe recurso
extraordinário por força do enunciado n. 735 da súmula da jurisprudência
predominante do STF, mas cabe recurso especial, para discutir os pressupostos
do art. 273 do CPC [STJ, 1ª T., Resp n. 816.050/RN, rel. Min. Teori Albino
Zavascki, j. em 28.03.2006, publicado no DJ de 10.04.2006, p. 163]”5.

Entretanto, o réu [Gaius] não foi citado, ocasionando, sem sombras de dúvidas,
nulidade absoluta do processo, desta forma, cogitamos a possibilidade do réu
pleitear a nulidade da sentença através da ação declaratória de inexistência
jurídica6, visto que não se trata de reformar ou anular uma decisão defeituosa, e
sim de reconhecer de nenhum efeito um ato juridicamente inexistente; ou propor

4
No mesmo sentido: SANTOS, Valdeci dos. Teoria geral do processo. 2ª ed. Campinas:
Millennium, 2007. p.202.
5
In DIDIER JR., Fredie; BRAGA, Paulo Sarno; OLIVEIRA, Rafael. Curso de direito
processual civil. Salvador: Jus Podivm, 2007. Vol. 2, p. 570.
6
Fundamento legal da ação declaratória de inexistência:
CPC, art. 4º O interesse do autor pode limitar-se à declaração:
I - da existência ou da inexistência de relação jurídica;
II - da autenticidade ou falsidade de documento.
Parágrafo único. É admissível a ação declaratória, ainda que tenha ocorrido a violação do
direito.
Fundamento legal da ação declaratória de inexistência incidental:
CPC, art. 5º Se, no curso do processo, se tornar litigiosa relação jurídica de cuja
existência ou inexistência depender o julgamento da lide, qualquer das partes poderá
requerer que o juiz a declare por sentença. [Redação dada pela Lei n. 5.925, de 1973].
5

ação de nulidade da sentença [querela nullitatis], buscando a desconstituição dos


efeitos da sentença.

Cumpre observar, que sem prejuízo do réu [Gaius], poderá argüir a falta ou
nulidade da citação no momento da defesa, seja na contestação, seja na
impugnação ao cumprimento de sentença [CPC, art. 475-L7] ou nos embargos a
execução contra a Fazenda Pública [CPC, art. 7418], independentemente da
possibilidade da proposição de ação rescisória [CPC, art. 4859].

7
CPC, art. 475-L. A impugnação somente poderá versar sobre: (Incluído pela Lei nº
11.232, de 2005)
I – falta ou nulidade da citação, se o processo correu à revelia; (Incluído pela Lei nº
11.232, de 2005)
II – inexigibilidade do título; (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
III – penhora incorreta ou avaliação errônea; (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
IV – ilegitimidade das partes; (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
V – excesso de execução; (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
VI – qualquer causa impeditiva, modificativa ou extintiva da obrigação, como pagamento,
novação, compensação, transação ou prescrição, desde que superveniente à sentença.
(Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
§ 1º Para efeito do disposto no inciso II do caput deste artigo, considera-se também
inexigível o título judicial fundado em lei ou ato normativo declarados inconstitucionais
pelo Supremo Tribunal Federal, ou fundado em aplicação ou interpretação da lei ou ato
normativo tidas pelo Supremo Tribunal Federal como incompatíveis com a Constituição
Federal. (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
§ 2º Quando o executado alegar que o exeqüente, em excesso de execução, pleiteia
quantia superior à resultante da sentença, cumprir-lhe-á declarar de imediato o valor que
entende correto, sob pena de rejeição liminar dessa impugnação. (Incluído pela Lei nº
11.232, de 2005)
8
CPC, art. 741. Na execução contra a Fazenda Pública, os embargos só poderão versar
sobre: (Redação dada pela Lei nº 11.232, de 2005)
I – falta ou nulidade da citação, se o processo correu à revelia; (Redação dada pela Lei
nº 11.232, de 2005)
II - inexigibilidade do título;
III - ilegitimidade das partes;
IV - cumulação indevida de execuções;
V – excesso de execução; (Redação dada pela Lei nº 11.232, de 2005)
VI – qualquer causa impeditiva, modificativa ou extintiva da obrigação, como pagamento,
novação, compensação, transação ou prescrição, desde que superveniente à sentença;
(Redação dada pela Lei nº 11.232, de 2005)
VII - incompetência do juízo da execução, bem como suspeição ou impedimento do juiz.
Parágrafo único. Para efeito do disposto no inciso II do caput deste artigo, considera-se
também inexigível o título judicial fundado em lei ou ato normativo declarados
inconstitucionais pelo Supremo Tribunal Federal, ou fundado em aplicação ou
interpretação da lei ou ato normativo tidas pelo Supremo Tribunal Federal como
incompatíveis com a Constituição Federal. (Incluído pela Lei nº 11.232, de 2005)
9
CPC, art. 485. A sentença de mérito, transitada em julgado, pode ser rescindida
quando:
I - se verificar que foi dada por prevaricação, concussão ou corrupção do juiz;
II - proferida por juiz impedido ou absolutamente incompetente;
III - resultar de dolo da parte vencedora em detrimento da parte vencida, ou de colusão
entre as partes, a fim de fraudar a lei;
IV - ofender a coisa julgada;
V - violar literal disposição de lei;
6

Ressalta-se que a argüição da nulidade deve ser feita na primeira oportunidade


em que o interessado falar no processo10.

Nesse sentido, observa:

Enrico Tullio Liebman – “A nulidade pode ser alegada em defesa contra quem
pretende tirar da sentença um efeito qualquer; assim como pode ser pleiteada
em processo principal, meramente declaratório”11.

Francisco Cavalcanti Pontes de Miranda: “A sentença proferida em processo, em


que não houve citação, nem o réu compareceu, ou a citação foi nula ou revel foi
o réu, é sentença nula de pleno direito, e não só rescindível. Por isso mesmo, o
revel é autorizado a pedir-lhe a decretação da nulidade, fora da ação rescisória,
nos simples embargos do devedor; ou, antes em actio nullitatis, ou em exceptio
nullitatis”12.

3.1. Julgados.

Súmula 7 do TJSC (processo que correu a revelia): “A ação declaratória é meio


processual hábil para se obter a declaração de nulidade do processo que tiver
corrido à revelia do réu por ausência de citação ou por citação nulamente feita”
[RT 629/206].

“Cabe ação declaratória: [...] para a declaração de nulidade de citação [JTA


106/248] [...].” In NEGRÃO, Theotonio; GOUVÊA, José Roberto Ferreira. Código
de processo civil e legislação processual em vigor. 39ª ed. São Paulo: Saraiva,
2007. Notas e comentários ao artigo 4º. p.123.

“Na ação declaratória de nulidade, por falta ou vício de citação, o juiz decidirá se
ocorreu ou não a correta citação do reu na ação anterior; se foi citado

VI - se fundar em prova, cuja falsidade tenha sido apurada em processo criminal ou seja
provada na própria ação rescisória;
VII - depois da sentença, o autor obtiver documento novo, cuja existência ignorava, ou
de que não pôde fazer uso, capaz, por si só, de lhe assegurar pronunciamento favorável;
VIII - houver fundamento para invalidar confissão, desistência ou transação, em que se
baseou a sentença;
IX - fundada em erro de fato, resultante de atos ou de documentos da causa;
§1º Há erro, quando a sentença admitir um fato inexistente, ou quando considerar
inexistente um fato efetivamente ocorrido.
§2º É indispensável, num como noutro caso, que não tenha havido controvérsia, nem
pronunciamento judicial sobre o fato.
10
CPC, art. 245. A nulidade dos atos deve ser alegada na primeira oportunidade em que
couber à parte falar nos autos, sob pena de preclusão.
Parágrafo único - Não se aplica esta disposição às nulidades que o juiz deva decretar de
ofício, nem prevalece a preclusão, provando a parte legítimo impedimento.
11
Nulidade da sentença proferida sem citação do réu. In Estudos sobre o processo civil
brasileiro. Araras: Bestbook, 2001. p.146.
12
In Comentários ao Código de Processo Civil. Rio de Janeiro: Forense, 1997. Vol. III, p. 102.
7

validamente, se improcedente a ação declaratória de inexistência da relação


jurídica resultante da sentença na ação anterior; se nula a citação, será
renovado o processo da demanda anterior, a partir da “in jus vocatio” [RSTJ
81231; v. p. 251, voto do Min. Athos Carneiro].

PROCESSO CIVIL – COISA JULGADA – AÇÃO CIVIL PÚBLICA: ADEQUABILIDADE


– LEGITIMIDADE DO MINISTÉRIO PÚBLICO. 1. Os defeitos processuais das
decisões judiciais são corrigidos por via da ação rescisória, mas os defeitos da
base fática que retiram da sentença a sua sedimentação, tornando-a nula de
pleno direito ou inexistente, podem ser corrigidos, como os demais atos
jurídicos, pela relatividade da coisa julgada nula ou inexistente. 2. Se a sentença
transitada em julgado, sofre ataque em sua base fática por parte do Estado, que
se sente prejudicado com a coisa julgada, pode o Ministério Público, em favor do
interesse público, buscar afastar os efeitos da coisa julgada. 3. O ataque à coisa
julgada nula fez-se incidenter tantun, por via de execução ou por ação de
nulidade. Mas só as partes no processo é que têm legitimidade para fazê-lo. 4. A
ação civil pública, como ação política e instrumento maior da cidadania, substitui
com vantagem a ação de nulidade, podendo ser intentada pelo Ministério Público.
5. Recurso Especial conhecido e provido. [STJ, 2ª T., Resp 445.664 – AC, rel.
originário Min. Peçanha Martins – Rel. Min. Eliana Calmon. Jul. 15/04/2004 e
publ. 07/03/2005].

AÇÃO DECLARATÓRIA DE NULIDADE DA CITAÇÃO. POSSIBILIDADE.


PRECEDENTES DA CORTE.1. A "falta de citação compromete a sentença, que por
isso não transita em julgado, devendo o vício ser atacado por ação ordinária"
[REsp n. 113.091/MG, 3ª Turma, Relator o Senhor Ministro Ari Pargendler, DJ de
22/5/00]. 2. Recurso especial conhecido e provido" [STJ - 3ª Turma, REsp n.º
331.850/RS, Rel. Min. Carlos Alberto Menezes Direito, J. à unanimidade em
21.03.2002, DJ de 06.05.2002].

PROCESSO CIVIL. AÇÃO RESCISÓRIA. SENTENÇA PROFERIDA EM PROCESSO


NULO POR FALTA DE CITAÇÃO. A sentença proferida em processo nulo por falta
de citação deve ser atacada pela ação prevista no artigo 486 do Código de
Processo Civil; mas, sem prejuízo da ação rescisória proposta equivocadamente,
o Tribunal pode, nos próprios autos desta, declarar a nulidade da indigitada
citação. Precedente” [STJ – 3ª Turma, REsp n. 113.091/MG, Rel. Min. Ari
Pargendler, J. à unanimidade em 10.04.2000, DJ de 22.05.2000].

PROCESSUAL CIVIL - NULIDADE DA CITAÇÃO [INEXISTÊNCIA] - QUERELA


NULLITATIS. I - A tese da querela nullitatis persiste no direito positivo brasileiro,
o que implica em dizer que a nulidade da sentença pode ser declarada em ação
declaratória de nulidade, eis que, sem a citação, o processo, vale falar, a relação
jurídica processual não se constitui nem validamente se desenvolve. Nem, por
outro lado, a sentença transita em julgado, podendo, a qualquer tempo, ser
declarada nula, em ação com esse objetivo, ou em embargos a execução, se for
o caso. II - Recurso não conhecido" [STJ - 3ª Turma, Rel. Min. Waldemar
Zveiter, J. à unanimidade em 08.10.1991, DJ de 04.11.1991].

Ação declaratória de nulidade de sentença por ser nula a citação do réu revel na
ação em que ela foi proferida. Para a hipótese prevista no artigo 741, I, do atual
CPC - que é a da falta ou nulidade de citação, havendo revelia - persiste, no
direito positivo brasileiro – a querela nullitatis, o que implica dizer que a nulidade
8

da sentença, nesse caso, pode ser declarada em ação declaratória de nulidade,


independentemente do prazo para a propositura da ação rescisória, que, em
rigor, não é a cabível para essa hipótese. Recurso extraordinário conhecido,
negando-se-lhe, porém, provimento” [STF – Tribunal Pleno, RE n. 97.589/SC,
Rel. Min. Moreira Alves, DJ de 03.06.83].

Para conferir mais julgados sobre a matéria verifique nota 05 do artigo 486 [p.
615] feita por NEGRÃO, Theotonio; GOUVÊA, José Roberto Ferreira. Código de
processo civil e legislação processual em vigor. 39ª ed. São Paulo: Saraiva,
2007.

3.2. A competência para a ação de nulidade da sentença ou para a ação


declaratória de inexistência jurídica.

A competência para a ação de nulidade da sentença ou para a ação declaratória


de inexistência jurídica será do juízo que proferiu a decisão nula, seja o juízo
monocrático, seja o tribunal.

Pois de acordo com Enrico Tullio Liebman – “porque não se trata de reformar ou
anular uma decisão defeituosa, função esta reservada privativamente a uma
instância superior; e sim de reconhecer simplesmente como de nenhum efeito
um ato juridicamente inexistente”13.

Observam ainda, Fredie Didier Jr. e Leonardo José Carneiro da Cunha – “É


possível imaginar, porém, situação que a competência para a querela seja do
tribunal, mesmo tendo ele atuado com competência derivada. Imagine a
hipótese de uma apelação contra sentença que indefere a petição inicial. O
tribunal, ao julgá-la, dá-lhe provimento, reformando a sentença e, não obstante
a não-citação do réu, julga procedente o pedido do autor. Cogite, ainda, de
acórdão que julgou recurso interposto contra sentença proferida em processo em
que não foi citado litisconsorte necessário unitário. Parece que a competência
para futura querela nullitatis, em ambos os casos, é do tribunal que proferiu a
decisão que pretende desconstituir, por uma questão de respeito à organização
hierarquizada da função jurisdicional. Poderia objetar-se essa conclusão com a
regra dos arts. 475-L, I e 741, I do CPC, que prevê a competência da querela
nullitatis para o juízo da sentença. Essa regra, porém, somente cuida dos casos
em que houve sentença de procedência contra réu não-citado e, portanto,
também não houve apelação. A competência do tribunal, nesses casos, é
implícita: se é dele a competência para rescindir os próprios julgados, também
será dele a competência para invalidá-los, não sendo razoável atribuir a um juízo
de primeira instância a competência para desconstituir julgado de um tribunal”14.

4. A querela nullitatis no direito processual civil canônico.

13
In Nulidade da sentença proferida sem citação do réu. In Estudos sobre o processo civil
brasileiro. Araras: Bestbook, 2001. p. 146.
14
DIDIER JR., Fredie; CUNHA, Leonardo José Carneiro da. Curso de direito processual
civil. 4ª ed. 2ª tiragem. Salvador: Jus Podivm, 2007. Vol. 3. p. 371.
9

Título VIII
Da impugnação da sentença

Capítulo I
Da Querela de nulidade contra a sentença

Cân. 1.619. Salvo os cânones 1.622 e 1623, as nulidades de atos estabelecidas


pelo direito positivo que, sendo conhecidas pela parte que propõe a querela, não
tiverem sido denunciadas ao juiz antes da sentença, são sanadas pela própria
sentença, sempre que se trata de causa referente ao bem de particulares.

Cân. 1.620. A sentença é viciada por nulidade insanável, se:


1º foi proferida por juiz absolutamente incompetente;
2º foi proferida por alguém destituído do poder de julgar no tribunal em que a
causa foi definida;
3º o juiz proferiu a sentença coagido por violência grave;
4º o juízo foi feito sem a petição judicial mencionada no cân. 1.501, ou não foi
instaurado contra alguma parte demandada;
5º foi proferida entre as partes, das quais ao menos uma não tinha capacidade
de estar em juízo;
6º alguém agiu em nome do outro sem mandado legitimo;
7º foi negado a alguma das partes o direito de defesa;
8º a controvérsia não foi definida nem sequer parcialmente.

Cân. 1.621. A querela de nulidade, mencionada no cân. 1.620, pode ser


proposta, como exceção, sempre; como ação, diante do juiz que proferiu a
sentença, no prazo de dez anos desde a publicação da sentença.

Cân. 1.622. A sentença é viciada de nulidade sanável, se:


1º foi proferida por número não-legitimo de juizes, contra a prescrição do cân.
1.425, §1;
2º não contém os motivos ou as razões da decisão;
3º não traz as assinaturas prescritas pelo direito;
4º não traz a indicação do ano, mês, dia e lugar em que foi proferida;
5º está baseada em ato judicial nulo, cuja nulidade não tenha sido sanada, de
acordo com o cân. 1.619;
6º foi proferida contra uma parte legitimamente ausente, de acordo com o cân.
1.593, § 2.

Cân. 1.623. Nos casos mencionados no cân. 1622, a querela de nulidade pode
ser proposta no prazo de três meses após a notícia da publicação da sentença.

Cân. 1.624. Da querela de nulidade julga o próprio juiz que proferiu a sentença;
se a parte recear que o juiz, que proferiu a sentença impugnada por querela de
nulidade, tenha ânimo predisposto, e portanto o julgar suspeito, pode exigir que
outro juiz o substitua, de acordo com o cân. 1.450.

Cân. 1.625. A querela de nulidade pode ser proposta junto com a apelação,
dentro do prazo estabelecido para a apelação.
10

Cân. 1.626. §1. Podem interpor querela de nulidade não só as partes que se
julgam prejudicadas, mas também o promotor de justiça ou o defensor do
vínculo, sempre que lhes couber o direito de intervir.
§2. O próprio juiz pode ex officio retratar ou corrigir a sentença nula por ele
proferida, dentro do prazo de ação estabelecido pelo cân. 1623, a não ser que,
nesse ínterim, tenha sido interposta apelação junto com querela de nulidade, ou
a nulidade tenha sido sanada por decurso do prazo mencionado no cân. 1.623.

Cân. 1.627. As causas de querela de nulidade podem ser tratadas segundo


normas do processo contencioso oral.

5. Alguns livros que tratam do assunto.

BUZAID, Alfredo. Estudos e pareceres de direito processual civil. Notas de


adaptação ao direito vigente de Ada Pellegrini Grinover e Flávio Luiz
Yarshell. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2002.

____________. A ação declaratória no direito brasileiro. São Paulo:


Saraiva, 1943.

CALAMANDREI, Piero. La casacion civil. Tradução de Santiago Sentis Melendo.


Buenos Aires: Editorial Bibliografia Argentina, 1961. Vol. 1, T. 1.

CÓDIGO DE DIREITO CANÔNICO. 5ª ed. Tradução da Conferência Nacional dos


Bispos do Brasil. Notas, comentários e índice analítico de Pe. Jesús Hortal. São
Paulo: Loyola, 2005.

CORREIA, André de Luizi. A citação no direito processual civil brasileiro. São


Paulo: Revista dos Tribunais, 2001.

DIDIER JR., Fredie; CUNHA, Leonardo José Carneiro da. Curso de direito
processual civil. 4ª ed. 2ª tiragem. Salvador: Jus Podivm, 2007. Vol. 3.

FABRÍCIO, Aldroaldo Furtado. Réu revel não citado, querela nullitatis e ação
rescisória. Ensaios de direito processual. Disponível em
<http://www.fabricioadvogados.com.br/Artigos/art6.htm>. Acesso em 30 de
janeiro de 2009.

LIEBMAN, Enrico Tullio. Notas às Instituições de Direito Processual Civil de


Giuseppe Chiovenda. 2ª ed. Tradução da 2ª ed. italiana “Instituzioni di diritto
processuale civile” por Paolo Capitanio. Campinas: Bookseller, 2000. Vol. III.
Nota 92. É um belíssimo histórico sobre a querela nullitatis.

____________. Manual de direito processual civil. 3ª ed. Tradução e notas de


Candido Rangel Dinamarco. São Paulo: Malheiros, 2005. Vol.I.

____________. Nulidade da sentença proferida sem citação do réu. In Estudos


sobre o processo civil brasileiro. Araras: Bestbook, 2001. p. 141-146.

MARQUES, José Frederico. Instituições de direito processual civil. Vol. II. Saraiva.
11

____________. Manual de direito processual civil. São Paulo: Saraiva, 1974. Vol.
II.

MIRANDA, Francisco Cavalcanti Pontes de. Comentários ao Código de Processo


Civil. 3ª ed. Rio de Janeiro: Forense, 1997. Vol. III.

NEGRÃO, Theotonio; GOUVÊA, José Roberto Ferreira. Código de processo civil e


legislação processual em vigor. 39ª ed. São Paulo: Saraiva, 2007. Notas e
comentários ao artigo 486. p.613-615.

ROSA, Eliézer. Novo dicionário de processo civil. Rio de Janeiro: Freitas Bastos,
1986.
SILVA, Ovídio A. Batista da. Sobrevivência da querela nullitatis. In Revista
Forense 333/115.

SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA: banco de dados. Disponível em:


<http://www.stj.jus.br>. Acesso em 30 de janeiro de 2009.

TORNAGHI, Hélio. Comentários ao código de processo civil. 2ª ed. São Paulo:


Revista dos Tribunais, 1976. Vol. 1.

TUCCI, José Rogério Cruz; AZEVEDO, Luiz Carlos de. Lições de processo civil
canônico. Revista dos Tribunais.

WAMBIER, Teresa Arruda Alvim. Os agravos no CPC brasileiro. 4ª ed. São Paulo:
Revista dos Tribunais, 2005.

____________; MEDINA, José Miguel Garcia. O dogma da coisa julgada –


hipóteses de relativização. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2003.

YOSHIKAWA, Henrique de Oliveira. Falta ou nulidade de citação, vício de


sentença e meios de impugnação após o trânsito em julgado. Revista Dialética de
Direito Processual 41/15.

6. Finalizando.

Assim, estas linhas ficam dirigidas aos colegas estudantes e profissionais do


Direito. Nosso cordial Vale.