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O Que é Ser Angolano?

Angola. Do harmonioso rufar oriundo dos tambores bakongos à margem do rio


Chiluango, às dedilhadas de Hungu dos Ovambo, nas bordas do rio Cunene, se materiali
em carne e espírito a essência de um ser individual, de uma sociedade agrupada num
espaço geográfico histórico, independente em dependência, denominado angolano.

Reitero. De Cabinda ao Cunene, movido pelo dinamismo costumeiro e excessiva


aculturação, ismos aqui e acolá, sorridente, despreocupado, criativo, supersticioso,
“mixeiro”, machista e muitos outros adjectivos que se podem amontoar a esse sujeito
peculiar, largado ao disparate sob o azul do céu, a mercê das calamidades sociais aonde
não basta a escassez de recursos para se assegurar, mas ainda há ele como o seu próprio
veneno. Não mencionarei as hecatombes coloniais, pois estas se perderam na
independência que dividiu o povo e subjugou a sâ consciência de alguns que partiram
para caminhos longos de ganância, “criando uma ideia” do que é colectivo para
amamentarem os seus caprichos e as “mangas de dez”, enriquecerem sem justa causa, e
ainda assim, se dizem angolanos. Os outros que lamentam a desgraça, por fome, por
falta de água, por doenças, “excesso de zelo policial”, por falta de condições
hospitalares e outros factores ignorados, conseguem mesmo assim, gargalhar perante a
toda essa situação, clamando a “Nzambi” por dias melhores que talvez não virão...
“Somos angolanos”.

O que é ser angolano? Me pergunto se é só estar ligado por nascença a terra


angolana, carregar um nome do dialecto local, cantar o Hino Nacional com a mão no
peito ou ter um documento que reconhece a nacionalidade ou mesmo saber dizer
“inuvê”, “buluzento” e outras expressões da gíria. Não!

Deste presente até ao futuro, ser angolano é muito mais que arrecadar esses
requisitos porque nem tudo que cai assim é digno de entusiasmo e respeito, e essa
exortação tão pouco extenua a definição do que é ser angolano. Então, se nos
“magoelarmos” nas honrosas acções na proporção dos seus méritos, poderia dizer como
se de uma matéria se tratasse, que ser angolano detém um sentido ambíguo porque se
ramifica de pessoa a pessoa, de coração aberto e vivente, transmitindo para quem vê,
ouve, sente, a satisfação do que é ser “nós” no dia-a-dia poeirento e solar, barulhento e
de variados eflúvios como por exemplo avistar um Luaty Beirão manifestando os seus
direitos dentro das suas valências, ouvindo “Njila Ia Dikanga” de Paulo Flores e Yuri
Da Cunha, se sensibilizar com factos sociais, querer fazer alguma coisa para que
desenvolvamos todos, amar a nossa rica cultura linguística, vestuária, cerimonial, dar
valor a grandes autores como Uanhenga Xitu, Ndunduma We Lépi e muitos outros que
na andança contemporânea fazem valer o poder uno “mwangolé”, de acordo com as
suas habilidades e realidades.

Ser “da banda” é intenso e acarreta um emaranhado de sensações emanadas


através de muitas áreas e que de certa forma, se apreciamros com atenção, estimulam o
sorriso que de tão luminoso, cativa qualquer outro.

Nós somos muita coisa! Até “Cuca” somos!

Por isso, não existem palavras para nos delimitar. Aliás, que povo pode ser
definido, visto que são todos frutos das vivências modificáveis e finitas? E há grande
beleza nisso!

Nesse ínterim, o “ser angolano” não é um percurso certo, mas sim um ideal,
meramente utópico, que unifica o nosso pensamento em luta, resiliência, perseverança e
esperança do que pode vir a se melhorar na nossa terra e apesar de todos os apesares,
consubstanciam a nossa essência, a nossa paz e a nossa pátria, construída com sangue,
mantida nele e desenvolvendo através dele. Posto isto, talvez isso é que é ser angolano.

Telúrio Roronoa Ginguba

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