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Biologia e 11

*511011401*

ano
C. Produto
Geologia

Geologia
Biologia e Geologia

Biologia e
11
ano

Planeta com Vida  BIOLOGIA (Volume 1)

Planeta com Vida

Planeta com Vida  BIOLOGIA (Volume 1)


Componentes do projecto:
Livro do aluno (2 volumes) BIOLOGIA (Volume 1)
Caderno de actividades
Cristina Carrajola, Maria José Castro e Teresa Hilário
Consultores Científicos: Ana Isabel Correia e Rui Gomes

A Santillana publicou a obra Biologia e Geologia 11.o ano


em 2 volumes para reduzir o peso a transportar pelos alunos.
Os dois volumes não podem ser vendidos separadamente.

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11

ano
Geologia
Biologia e
Planeta com Vida BIOLOGIA (Volume 1)

Cristina Carrajola, Maria José Castro e Teresa Hilário


Consultores Científicos: Ana Isabel Correia e Rui Gomes
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MODELO DIDÁCTICO
Na disciplina de Biologia e Geologia, os conteúdos serão explo-
rados em dois manuais.
Para mais facilmente perceber como poderá tirar partido deste
manual, fazemos agora uma breve apresentação da sua estrutura.
No manual são desenvolvidas quatro unidades, organizadas da seguinte
forma:

11 11
ano

ano
Geologia

Geologia
Biologia e

Biologia e
Planeta com Vida BIOLOGIA (Volume 1) Planeta com Vida GEOLOGIA (Volume 2)

Cristina Carrajola, Maria José Castro e Teresa Hilário Jorge Ferreira e Manuela Ferreira
Consultores Científicos: Ana Isabel Correia e Rui Gomes Consultor Científico: Carlos Ribeiro

Unidade
A apresentação dos conteúdos inicia-se com a
exploração de imagens e uma actividade de diagnóstico.
Na página seguinte apresenta-se um texto introdutório,
que destaca ideias fundamentais para a exploração dos
conteúdos da unidade.
Ao texto associa-se uma imagem, que comple-
menta ou ilustra a informação transmitida.

Páginas informativas
O texto informativo apresenta uma linguagem sim-
ples e clara, sem nunca perder o rigor científico.
É complementado com fotografias ou ilustrações que
facilitam a compreensão dos conteúdos.
Os conceitos fundamentais são resumidos na sec-
ção «A RETER», sob a forma de texto ou esquema.

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Páginas informativas
No desenvolvimento da unidade propõem-se activi-
dades que visam a aplicação dos conhecimentos adqui-
ridos, actividades experimentais e saídas de campo.

Páginas informativas
Apresentam-se também curiosidades e aprofundam-
-se alguns temas, promovendo o debate e facilitando
a compreensão dos conteúdos.
Os termos fundamentais são traduzidos para inglês,
como forma de ajudar na realização de pesquisas e na
investigação a partir de outras fontes de informação.

Palavras-chave e síntese
No fim de cada unidade, apresentam-se os termos
mais importantes, de acordo com o programa, e uma
síntese dos respectivos conteúdos.
Actividades
As actividades iniciam-se com um diagrama de con-
ceitos, cujo grau de dificuldade aumenta progressiva-
mente ao longo do manual.
Os exercícios propostos, desenvolvidos a partir da
exploração de fotografias e gráficos, entre outros docu-
mentos, relacionam diferentes conteúdos da unidade.

Jogo de simulação e CTSA


Nestas páginas, são propostas actividades de explo-
ração e discussão de documentos e situações reais
que evidenciam a importância do desenvolvimento da
Ciência e da tecnologia, no dia-a-dia, na sociedade e
no ambiente.

3
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ÍNDICE

BIOLOGIA
A vida e os seres vivos

unidade 5 Crescimento e renovação celular p. 8

5 1 Crescimento e renovação celular p. 12


5 1 1 DNA e síntese proteica p. 12
5 1 2 Mitose p. 37
ACTIVIDADES p. 45

5 2 Crescimento e renovação
dos tecidos versus diferenciação celular p. 48
ACTIVIDADES p. 55
CTSA p. 56

unidade 6 Reprodução p. 58

6 1 Reprodução assexuada p. 62
6 1 1 Estratégias reprodutoras p. 62
ACTIVIDADES p. 73

6 2 Reprodução sexuada p. 75
6 2 1 Meiose e fecundação p. 76
6 2 2 Reprodução sexuada e variabilidade p. 85
ACTIVIDADES p. 92

6 3 Ciclos de vida: unidade e diversidade p. 94


ACTIVIDADES p. 105
JOGO DE SIMULAÇÃO p. 108
CTSA p. 109

4
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unidade 7 Evolução biológica p. 112

7 1 Unicelularidade
e multicelularidade p. 116
ACTIVIDADES p. 128

7 2 Mecanismos de evolução p. 129


ACTIVIDADES p. 159
JOGO DE SIMULAÇÃO p. 163
CTSA p. 164

unidade 8 Sistemática dos seres vivos p. 166

8 1 Sistemas de classificação p. 170


8 1 1 Diversidade de critérios p. 177
8 1 2 Taxonomia e nomenclatura p. 183
ACTIVIDADES p. 191

8 2 Sistema de classificação
de Whittaker modificado p. 193
ACTIVIDADES p. 211
CTSA p. 214
ANEXOS p. 216
GLOSSÁRIO p. 220
BIBLIOGRAFIA p. 223

5
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BIOLOGIA
A vida e os seres vivos

Como explicar a grande diversidade


dos seres vivos?
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unidade 5

8 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


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Crescimento
e renovação celular

5 1 Crescimento
e renovação celular 12

5 2 Crescimento e renovação
dos tecidos versus
diferenciação celular 48

Que processos são responsáveis


pela unidade e pela variabilidade celular?
Como explicam o crescimento dos seres vivos?
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Crescimento
unidade
A
5 e renovação celular
B C

O que permitirá explicar a diversidade de formas e funções de células de um mesmo organismo?

D E F

Às vezes, a observação de uma determinada célula, durante um curto período de


tempo, pode revelar grandes mudanças no seu interior. O que se estará a passar?

G H

De que modo se relaciona a informação


contida no DNA com o aspecto de um ser vivo?

O QUE JÁ SABE, OU NÃO...

1. Classifique as afirmações seguintes como verdadeiras (V) ou falsas (F).


A — O DNA de um indivíduo altera-se ao longo do tempo.
B — O DNA de um indivíduo é igual em todas as suas células, excepto nas reprodutoras.
C — A produção de proteínas na célula não depende do seu DNA.
D — Na Natureza, existe clonagem.
E — No ser humano, a divisão celular termina no final da adolescência.
F — Uma célula pode manter-se viva sem DNA, contudo não se divide.
G — Todas as células com núcleo têm capacidade de divisão.
H — O DNA tem um papel fundamental na manutenção da vida da célula.
I — A constituição e a estrutura do DNA são diferentes nos seres procariontes e nos eucariontes.
J — O crescimento dos seres vivos implica a ocorrência de divisão celular.

10 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


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INTRODUÇÃO

Um dos desafios que os cientistas têm vindo a enfrentar é o de explicar como é que,
a partir de uma única célula inicial, o ovo, se origina um indivíduo adulto multicelular,
diferenciado e funcional.
A história da Biologia do século XX, e certamente a do século XXI, procura responder
claramente a questões como:
— Onde e de que forma se encontram registadas as instruções para a construção da
célula?
— O que determina e comanda as divisões celulares?
— Por que razão, à medida que o indivíduo acumula células, estas, apesar de serem
cópias umas das outras, se tornam cada vez mais diversas e se organizam em órgãos, que,
no seu conjunto, formam seres dinâmicos, coordenados e funcionais?
— O que fará com que algumas células deixem de cumprir regras estipuladas, dando
início ao desenvolvimento de tumores?

Embora ainda não exista resposta exacta para todas estas questões, não há
dúvida de que uma molécula muito especial ocupa um papel central no processo
de crescimento e renovação celular — o DNA (Fig. 1). Sabe-se, hoje, que cabe a
esta molécula a responsabilidade tanto da divisão celular como do controlo da
actividade da própria célula.

Fig. 1 No núcleo das células dos eucariontes, o DNA está localizado nos cromossomas, que, em determinados
momentos da vida celular, são bem visíveis.

unidade 5 Crescimento e renovação celular 11


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5 1 Crescimento
e renovação celular
[…] uma dupla totalmente ignorante da química dos nucleótidos,
desejosa de encaixar o DNA numa hélice. […] Ao pensar nos anos suados
na preparação de ácidos nucleicos e nas horas sem conta gastas na sua
análise, não pude deixar de me sentir desconcertado.
ERWIN CHARGAFF, acerca de Watson e Crick

5 1 1 DNA e síntese proteica

Apesar de, já em 1869, Miescher, após ter trabalhado com gló-


bulos brancos de pus humano, ter identificado uma molécula
exclusiva do núcleo, constituída por C, H, O, N e P, que designou
por nucleína e que não é mais do que o actualmente conhecido
DNA, só muitos anos mais tarde vieram a ser atribuídos a esta
molécula os papéis que hoje lhe conhecemos.

Como se chegou ao modelo do DNA


e ao conhecimento da sua importância?

Nas décadas de 20 e 30 do século passado, os bioquímicos, além


de já conhecerem o DNA, sabiam que no núcleo das células exis-
tiam cromossomas (Fig. 2); sabiam que estes continham DNA e pro-
teínas; sabiam, ainda, que o metabolismo celular resultava da
actuação equilibrada de enzimas e que estas eram produzidas
a partir de informações contidas no núcleo, melhor dizendo, nos
cromossomas. Inferiram, então, ainda que não houvesse comprova-
ção experimental, que o núcleo deveria conter exemplares de cada
enzima/proteína da célula. À medida que a célula necessitasse,
seriam feitas cópias. Ao DNA caberia a função de proporcionar
uma estrutura sobre a qual se dispunha a «colecção» de proteínas.
A inversão destas suposições ficou a dever-se a uma série de
experiências científicas.

A B

Centrómero

Cromatídeo

Fig. 2 Aspecto de um cromossoma humano fotografado ao ME (A) e montagem


fotográfica de microscopia óptica do cariótipo (conjunto dos cromossomas)
de uma célula humana (B).

12 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


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ACTIVIDADE

EXPERIÊNCIA DE GRIFFITH (1928)

1. Analise a experiência realizada por Griffith, em 1928, e responda às questões.


Interessado em conhecer o modo de actuação dos pneumococos, bactérias que provocam a pneumonia,
e sabendo da existência de duas estirpes distintas da espécie Streptococcus pneumoniae, a forma R
(com aspecto rugoso e não virulenta) e a forma S (de aspecto liso e altamente virulenta), Griffith idealizou
a experiência seguinte:

Método

A B C D

Formas S vivas Formas R vivas As formas S virulentas foram As formas R vivas foram misturadas com
(virulentas). (não virulentas). mortas pelo calor. formas S mortas.

Resultados

A B

O rato morre. O rato sobrevive.


Foram encontradas Não foram encontradas bactérias
bactérias S vivas no sangue. C no sangue. D

O rato sobrevive. O rato morre.


Não foram encontradas bactérias no sangue. Foram encontradas bactérias vivas
no sangue.
Fig. 3 Experiência do microbiólogo britânico Frederick Griffith.

1.1 Com base nos dados da figura, justifique as designações de:


a) virulenta, atribuída à forma S;
b) não virulenta, atribuída à forma R.
1.2 Griffith concluiu, a partir da análise dos resultados desta experiência, que existia nas bactérias S um
«princípio transformante» capaz de alterar as bactérias R. Comente as suas conclusões.
1.3 É possível identificar, com base na interpretação desta experiência, a molécula responsável pela
determinação das características da célula? Justifique a sua resposta.

Griffith provou com a sua experiência que, algures numa célula,


existe uma substância química que permanece intacta após a morte
celular e que é capaz de determinar o destino (as características) da
mesma. Porém, continuou por identificar a natureza química deste
«princípio transformante».

unidade 5 Crescimento e renovação celular 13


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ACTIVIDADE

EXPERIÊNCIA DE AVERY, MAC LEOD E MAC CARTHY (1944)

1. Dando continuidade à experiência de Griffith, Avery e os seus colaboradores conceberam e aplicaram


a experiência seguinte. Analise-a e responda às questões.

Método Resultados

A Streptococcus pneumoniae R
vivas
+
Princípio transformante(1)
sujeito a actuação prévia
de protéases(2)

O rato morre.

B Streptococcus pneumoniae R
vivas
+
Princípio transformante(1)
sujeito a actuação prévia
de polissacarases(3)

O rato morre.

C Streptococcus pneumoniae R
vivas
+
Princípio transformante(1)
sujeito a actuação prévia
de protéases(2)
e de polissacarases(3)

(1)
O rato morre.
O princípio transformante foi obtido a partir de bactérias da estirpe S mortas
e sujeito a métodos de extracção à base de álcool, que destrói os lípidos da célula.
(2)
As protéases são enzimas que destroem as proteínas.
(3)
As polissacarases são enzimas que destroem os polissacáridos.

Fig. 4 Experiência de Avery, Mac Leod e Mac Carthy.

1.1 Identifique o objectivo de Avery e seus colaboradores ao executar esta experiência.


1.2 Para cada uma das montagens, A, B e C:
a) identifique as biomoléculas presentes no inoculado;
b) refira a hipótese que se pretende testar.
1.3 Qual é a conclusão que pode ser tirada desta experiência?

Apesar de os resultados obtidos por Avery, Mac Leod e Mac Carthy,


em 1944, não deixarem dúvidas quanto ao papel da molécula de
DNA, a evidência obtida é apenas indirecta, por exclusão de par-
tes.
A comunidade científica da época não estava preparada para
elevar o DNA à categoria de molécula responsável pelo comando
da vida celular. Foram necessários mais alguns anos, novos conhe-
cimentos e novas experiências para tal ocorrer.
14 BIOLOGIA A vida e os seres vivos
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ACTIVIDADE

EXPERIÊNCIA DE HERSHEY E CHASE (1952)

1. Analise a experiência seguinte, leia atentamente os dados fornecidos e resolva as questões propostas.

Método
Dados:
A Os fagos cresceram em B Os fagos cresceram em A — O modelo biológico usado nesta
meio contendo P radioactivo. meio contendo S radioactivo.
experiência foram os fagos, vírus que
infectam as bactérias e se replicam
dentro destas, acabando por as destruir
passado pouco tempo.
B — Os vírus são observáveis só ao
microscópio electrónico. São constituídos
apenas por proteínas e por um ácido
Os vírus marcados nucleico, normalmente o DNA.
infectaram as bactérias.
C — Os fagos injectam o seu DNA na célula
hospedeira, deixando a sua cápsula
proteica de fora. O material que penetra
na bactéria utiliza as moléculas desta
para fazer várias cópias suas.
Após pouco tempo de
centrifugação, os restos D — As proteínas contêm S, além de C, H, O
dos vírus foram e N, enquanto o DNA contém P, além
separados das bactérias de C, H, O e N.
infectadas.
E — A utilização de átomos radioactivos
permite acompanhar o seu percurso
na célula.

Por centrifugação,
obtiveram-se dois
estratos: no fundo,
as bactérias infectadas,
e, por cima,
o sobrenadante com
os restos virais.

Resultados

CURIOSIDADE
Fluido sobrenadante A experiência de Hershey e Cha-
Depósito se ficou conhecida pela marca
de uma batedeira, Warning, por-
A maior parte do P radioactivo A maior parte do S radioactivo
aparece no depósito das bactérias. aparece no fluido sobrenadante.
que, na ausência de material
laboratorial muito sofisticado, foi
Fig. 5 Experiência de Hershey e Chase. esta batedeira de uso doméstico,
emprestada por um colega de
1.1 Justifique a utilização de meios contendo alternadamente S ou P
laboratório, que lhes permitiu
radioactivos.
separar os vírus (sobrenadante)
1.2 Interprete os resultados obtidos por Hershey e Chase, comparando-os das bactérias (sedimento).
com os que foram obtidos por Avery e seus colaboradores.

Com as experiências de Hershey e Chase, foi definitivamente


aceite pela comunidade científica que o DNA é a molécula que con-
tém a informação para a organização e o funcionamento da célula.
Estava-se, contudo, ainda longe de saber de que forma os constituin-
tes desta molécula (já todos conhecidos na época) se organizam.
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Em 1950, Chargaff, após a realização de experiências extrema-


mente rigorosas, tinha conseguido isolar e quantificar as bases azo-
tadas de amostras de DNA de organismos diferentes. Das suas
experiências pôde concluir aquilo que ficaria conhecido por Regras
de Chargaff, e que, resumidamente, são:
• o DNA de indivíduos diferentes apresenta quantidades dife-
rentes de cada uma das bases azotadas (adenina, timina, gua-
A RETER nina e citosina);
Na molécula de DNA, a
• em todas as moléculas de DNA, a quantidade de bases púri-
quantidade de bases púricas cas (bases de duplo anel, guanina e adenina) é igual à quan-
(adenina e guanina) é igual à tidade de bases pirimídicas (bases de anel simples, timina
das bases pirimídicas (timina
e citosina).
e citosina), sendo a quantidade de adenina igual à de timina,
e a quantidade de citosina igual à de guanina.
Não tendo um impacto imediato, as conclusões de Chargaff
são, contudo, a base para a explicação dos processos vitais coman-
dados pelo DNA — a sua própria replicação e a síntese proteica.
Mais ou menos na mesma altura, a jovem física Rosalind
Franklin (Fig. 6) dedicava-se a fotografar biomoléculas com técnicas
de difracção de raios X. Utilizando amostras extremamente purifi-
cadas de DNA, obteve fotografias do mesmo, que ajudaram a per-
ceber a natureza helicoidal da estrutura desta molécula.

A B

Fig. 6 Rosalind Franklin (A), cientista que obteve as fotografias por difracção de raios X
da molécula de DNA (B).

Em 1953, o biólogo James Watson e o físico


e bioquímico Francis Crick (Fig. 7), apoiados nas
conclusões obtidas por Chargaff, Franklin e outros,
propuseram, em trabalho publicado na revista
Nature, um modelo para a molécula de DNA —
a dupla hélice: duas cadeias polinucleotídicas
com as estruturas de fosfato e açúcar viradas para
o exterior, e as bases complementares, unidas
por ligações por pontes de hidrogénio, a ocupar
o interior da hélice. Pela publicação do seu traba-
lho, viriam a receber, em 1962, o Prémio Nobel
Fig. 7 Watson e Crick, ao lado do modelo de DNA por eles
de Fisiologia e Medicina, dando início a uma
idealizado. nova era na Biologia.
16 BIOLOGIA A vida e os seres vivos
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ACTIVIDADE DNA DNA


RNA RNA
OS CONTRIBUTOS PARA OS TRABALHOS nucleótido nucleotide
DE WATSON E CRICK ribose ribose
1. Analise o texto e comente a necessidade de haver um desoxirribose deoxyribose
intercâmbio de informação científica acerca das várias matérias base azotada nitrogenous base
actualmente em estudo.
«Crick e Watson não eram verdadeiros especialistas em
nenhuma das áreas da Ciência que se juntaram para dar uma
imagem da dupla hélice. Donohue sabia mais acerca das
formas das moléculas e sobre as pontes de hidrogénio; Franklin
era melhor em cristalografia dos raios X; Chargaff compreendeu
as relações entre as bases, e assim por diante. Mas, em
particular, a contribuição de Watson consistiu na capacidade
de ver o aspecto do conjunto, de reunir o que era necessário,
proveniente de várias disciplinas especializadas, e aparecer
com algo de novo, que era maior do que a soma das partes
e que nenhum dos especialistas foi capaz de compreender,
pois viam apenas as árvores sem se aperceberem da floresta.»
JOHN GRIBBIN, À Procura da Dupla Hélice (adaptado)

Ácidos nucleicos — constituição


Os ácidos nucleicos, DNA e RNA, são polímeros constituídos
por monómeros denominados nucleótidos. A RETER
Os nucleótidos (Fig. 8) são constituídos por um açúcar (uma Os ácidos nucleicos são
pentose), ligado pelo carbono 5 a um ácido fosfórico e pelo carbo- formados por nucleótidos que
no 1 a uma base azotada. A um nucleótido sem o grupo fosfato possuem um açúcar (pentose),
um ácido fosfórico e uma base
(conjunto formado pela pentose e pela base azotada) é atribuída a azotada.
designação de nucleósido.

Base
azotada
O–
5'
Fosfato –O P O CH2 O β

O 4'
H H 1' Pentose
H H
3' 2'
OH OH
Fig. 8 Configuração geral de um nucleótido.

Nos nucleótidos de RNA, a pentose encontrada é a ribose, A RETER


enquanto nos nucleótidos de DNA é a desoxirribose. É a presença O açúcar (pentose) do RNA
destas pentoses distintas que justifica os nomes atribuídos aos áci- é a ribose, e o açúcar do DNA
é a desoxirribose.
dos: ácido ribonucleico (RNA) e ácido desoxirribonucleico (DNA).
Existem cinco tipos de bases azotadas agrupadas em duas
categorias: as bases púricas, de duplo anel, e as bases pirimídi-
cas, de anel simples.
unidade 5 Crescimento e renovação celular 17
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No DNA e no RNA encontram-se duas bases púricas diferentes,


A RETER
a adenina e a guanina, e duas bases pirimídicas:
As bases azotadas do RNA são
a adenina, a citosina, a guanina
• citosina e timina, no DNA;
e o uracilo. No DNA, podem • citosina e uracilo, no RNA.
encontrar-se as três primeiras
e, ainda, a timina.
É possível encontrar oito tipos diferentes de nucleótidos (Fig. 9)
(quatro em cada tipo de ácido nucleico).

NH2 NH2 O NH2


A
CH3
N N HN N
N HN

N N H2N N N O N O N

O– O– O– O–
–O P O CH2 O –O P O CH2 O –O P O CH2 O –O P O CH2 O

O H H O H H O H H O H H
H H H H H H H H

OH H OH H OH H OH H
Desoxirribonucleótido de adenina. Desoxirribonucleótido de guanina. Desoxirribonucleótido de timina. Desoxirribonucleótido de citosina.

B NH2 O O NH2

N N HN N
N HN

N N H2N N N O N O N

O– O– O– O–
–O P O CH2 O –O P O CH2 O –O P O CH2 O –O P O CH2 O

O H H O H H O H H O H H
H H H H H H H H

OH OH OH OH OH OH OH OH
Ribonucleótido de adenina. Ribonucleótido de guanina. Ribonucleótido de uracilo. Ribonucleótido de citosina.
Fig. 9 Diversidade de desoxirribonucleótidos (A) e de ribonucleótidos (B).

Os vários nucleótidos ligam-se entre si formando cadeias


polinucleotídicas (Fig. 10). Estas ligações de natureza covalente
designam-se por ligações fosfodiéster e envolvem o carbono 3 de
um nucleótido e o carbono 5 do nucleótido seguinte.

Base azotada
G
C
A

Pentose
Ácido fosfórico

Nucleótido

Cadeia
A C T G T polinucleotídica

Fig. 10 Aspecto de uma cadeia polinucleotídica.

18 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


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DNA — ácido desoxirribonucleico


No DNA, uma cadeia polinucleotídica emparelha (liga-se) com
uma outra, formando uma estrutura em dupla cadeia. A união A RETER
entre as duas cadeias é estabelecida através de ligações por pontes Na molécula de DNA, ocorre
de hidrogénio entre as bases complementares de cadeias opostas emparelhamento de bases:
adenina com timina, e citosina
(a adenina estabelece duas ligações com a timina, e a guanina esta- com guanina.
belece três ligações com a citosina).
Para que o plano de complementaridade das bases seja estabe-
lecido, as cadeias apresentam-se orientadas em sentido oposto, isto
é, são antiparalelas. Assim, enquanto uma cadeia apresenta o car-
bono 5 (C5 ou extremidade 5’) livre numa extremidade da molé-
cula, a outra cadeia apresenta o carbono 3 (C3 ou extremidade 3’)
livre, passando-se o inverso na extremidade oposta do DNA.

ACTIVIDADE

A ESTRUTURA DA MOLÉCULA DE DNA

1. Analise a figura, que representa o modelo de DNA como hoje é aceite, e responda às questões.

– CH3
OPO3 OH H
O
– C H N H O 3’ As ligações por pontes
O P O C
HC N de hidrogénio (representadas
O
T N H
C C CH H H
N N H H a vermelho) entre as bases
H2C 5’ O
C A N N complementares mantêm
C O H2C 5’
O N as duas cadeias unidas.
H H H
H H O
3’
H –
O O P O
N H
– HC O H O
O P O H
C C N
N H 3’
O C H H
G N C C H H
H
H2C 5’ O N N C


C CH O H2C 5’
H H N H C N
H H
O
O Cada fosfato liga-se
3’ H
H
– ao C3 de um açúcar
T A O H O P O
N
e ao C5 de outro açúcar.
G C – HC N O
O P O H H
C C O 3’
A T N CH2 H
O C H
C G A N C C H H
H2C 5’ O N H
N
C T CH O H2C
H H H C 5’
N O
H H
– 3’ O
OH OPO3 H –
O H H O P O
3’ 5’

N H
O P O C O H O
C
HC N 3’
O C N C H H
C CH
N H H H
N
H2C 5’ O
C G N N
C O H2C 5’
O N
H H H
H N O
H
3’
Fig. 11 Aspecto da dupla cadeia H –
O H O P O
do DNA.

1.1 Apresente uma justificação para:


a) as regras de Chargaff;
b) o diâmetro constante do DNA;
c) o facto de no DNA, molécula viscosa, a viscosidade diminuir quando é sujeita a aquecimento,
sabendo que este mesmo método destrói ligações por pontes de hidrogénio;
d) o facto de a uma maior quantidade de guanina, numa molécula de DNA, corresponder uma
maior quantidade de energia necessária para separar as duas cadeias.
1.2 Estabeleça uma relação entre a posição ocupada pelas bases azotadas na molécula de DNA
e o seu carácter hidrofóbico.

unidade 5 Crescimento e renovação celular 19


919354 U5_p008-035 18/1/08 16:35 Page 20

O DNA tem uma estrutura tridimensional, como as fotografias


de Franklin demonstraram. O ângulo de ligações entre as bases
azotadas obriga a molécula a «torcer-se», adquirindo, assim, a
forma de uma hélice (Fig. 12).
As moléculas de DNA são únicas na sua composição geral e na
A RETER estrutura. Nas várias células somáticas de um mesmo indivíduo,
A molécula de DNA é formada elas são, em condições normais, exactamente iguais. Em diferentes
por duas cadeias indivíduos, o DNA pode variar no número de nucleótidos, na per-
polinucleotídicas, antiparalelas
e enroladas em hélice. centagem relativa das quatro bases e na sequência com que estas se
apresentam.

5’ 3’

C G
A T
C G

G C
T A
C G
T A
3,41 nm
A
G C
T A
C G

G C
0,34 nm
A T
C G
5’
3’
2 nm

Fig. 12 Estrutura tridimensional do DNA, onde é visível o seu aspecto de hélice.

RNA — ácido ribonucleico


As moléculas de RNA são sintetizadas no núcleo, por comple-
mentariedade, a partir do molde de uma cadeia do DNA. Esta
síntese é possível porque existe complementaridade entre as bases
dos nucleótidos do RNA e as do DNA (A-U/T-A/G-C).
Nas células, podemos encontrar três tipos diferentes de RNA: o
RNA mensageiro (mRNA), o RNA ribossómico (rRNA) e o RNA
de transferência (tRNA).
O mRNA é uma molécula de cadeia simples e de vida curta. É
sintetizado no núcleo, a partir de uma porção de DNA (gene), que
é transcrita e em seguida migra para o citoplasma, onde participa
na síntese de uma dada proteína e se desintegra depois. Durante
a vida da célula existem pelo menos tantos mRNA quantos os tipos
A RETER de proteínas que a mesma produz.
Existem três tipos diferentes O rRNA é uma molécula de cadeia simples que se apresenta
de RNA: o mensageiro (mRNA), enrolada e juntamente com proteínas, constitui os ribossomas,
o de transferência (tRNA)
e o ribossómico (rRNA).
organitos citoplasmáticos onde ocorre a etapa final da síntese pro-
teica.
20 BIOLOGIA A vida e os seres vivos
919354 U5_p008-035 18/1/08 16:35 Page 21

O tRNA apresenta uma estrutura tridimensional que resulta de anticodão anticodon


a sua única cadeia se enrolar e, em determinados locais, estabelecer núcleo nucleus
ligações por pontes de hidrogénio entre bases complementares de membrana nuclear nuclear envelope
nucleótidos inicialmente afastadas (Fig. 13).
Local de ligação A
C
ao aminoácido, C
sempre CCA.

Pontes de hidrogénio
entre bases
complementares.

Anticodão, constituído por


três bases, local de ligação
ao mRNA.

Fig. 13 Representações do tRNA.

Há vários tRNA no citoplasma das células, tendo cada um deles


capacidade de se ligar a um único aminoácido.
A estrutura típica de um tRNA apresenta dois locais característi-
cos: a extremidade 3’, que termina em todos os tRNA com a sequência
CCA, através da qual este se liga ao aminoácido; um conjunto de três
nucleótidos, designados por anticodão, diferentes em cada tRNA,
e que determina o aminoácido a que este se pode ligar. É através do
anticodão que o tRNA emparelha temporariamente com mRNA.
É possível estabelecer um quadro comparativo dos ácidos
nucleicos:

ÁCIDOS NUCLEICOS

Características DNA mRNA, rRNA e tRNA


Pentose Desoxirribose Ribose
Bases azotadas A, T, G, C A, U, G, C
Percentagem das bases A=T e G=C Variável
Estrutura Cadeia dupla Cadeia simples
Três tipos:
Variedade Um só tipo
mRNA, tRNA e rRNA
Núcleo, mitocôndria
Localização Núcleo e citoplasma
e cloroplasto
Período de duração Longa Curta

Nos últimos anos foram identificados novos tipos de moléculas


de RNA, globalmente conhecidos por pequenos RNA devido às
suas dimensões. Sabe-se que desempenham um papel fundamental
na regulação da expressão dos genes. No entanto, continua por
esclarecer o seu modo específico de actuação.

DNA — localização e organização do DNA na célula


Nas células eucarióticas, o DNA encontra-se no núcleo. Este
organito celular é envolvido por uma dupla membrana — membra-
na nuclear — que apresenta continuidade com as restantes mem-
branas da célula, nomeadamente com o retículo endoplasmático.
unidade 5 Crescimento e renovação celular 21
919354 U5_p008-035 18/1/08 16:35 Page 22

cromossoma chromosome A dupla membrana nuclear é atravessada por poros — poros


centrómero centromere nucleares —, que facilitam a circulação de algumas moléculas entre
cromatídeo chromatid o núcleo e o citoplasma. A membrana nuclear, estável na maior parte
cariótipo karyotype da vida celular, desintegra-se, contudo, quando a célula se prepara
para se dividir, reconstituindo-se no final da divisão celular.
Dentro do núcleo é possível observar ainda uma estrutura típi-
ca, o nucléolo (Fig. 14), que está implicado na formação dos ribos-
somas, e um fluido rico em substâncias variadas, o nucleoplasma.

Dupla hélice Retículo endoplasmático


de DNA (2 nm rugoso
de diâmetro)

Membrana
nuclear
Histonas

Núcleo Nucléolo

Nucleossoma Fig. 14 Núcleo de uma célula visto ao microscópio electrónico.


(10 nm de diâmetro)

O DNA é uma molécula muito grande e encontra-se dentro do


núcleo, que é relativamente pequeno (por exemplo, estima-se que
o DNA humano meça cerca de 2 m, enquanto o núcleo das respec-
tivas células mede 0,5 ␮m de diâmetro). Este facto só pode ser
explicado se o DNA se encontrar densamente compactado. No
núcleo, esta molécula está associada a proteínas específicas, as his-
tonas, formando a cromatina. As histonas desempenham um
papel fundamental, oferecendo uma estrutura que, por um lado,
assegura o compactamento do DNA (Fig. 15) e, por outro lado, esta-
biliza as suas cargas negativas, conferidas pelos ácidos fosfóricos,
dado que estas proteínas apresentam cargas positivas.
700 nm
Cromossoma
Em determinados momentos da vida das células, relacionados


com o processo de divisão celular, a cromatina sofre uma forte con-







densação. Nessa altura é possível observar que ela é composta,


dependendo do organismo, por uma ou mais entidades distintas,
denominadas cromossomas.
Cromatídeo
Centrómero A cromatina pode ser constituída apenas por uma molécula de
DNA; contudo, para preparar a divisão celular, esta cadeia dupla forma
Fig. 15 Organização do DNA no interior uma cópia de si própria. Inicialmente, as duas moléculas mantêm-se
das células eucarióticas. unidas, ligadas por proteínas, as coesinas. Em determinado momento
do ciclo celular, as coesinas são removidas quase na totalidade, fican-
do restrita a um pequeno local — o centrómero. Esta constrição
primária do cromossoma mantém unidas as duas moléculas de
A RETER DNA, que, nesta fase, se encontram altamente condensadas. É, então,
A molécula de DNA pode possível observar nitidamente os cromossomas (ao MOC), constituí-
encontrar-se no núcleo, dos por dois braços — os cromatídeos — unidos pelo centrómero.
associada a proteínas,
formando a cromatina.
O conjunto de todos os cromossomas de uma célula constitui o
cariótipo.
22 BIOLOGIA A vida e os seres vivos
919354 U5_p008-035 18/1/08 16:35 Page 23

O DNA das células procarióticas é mais pequeno, mais simples


e, normalmente, restringe-se a uma única molécula circular, não
associada a histonas.
Nas células eucarióticas, além do DNA nuclear, é possível encon-
trar ainda DNA no interior das mitocôndrias e dos cloroplastos,
designando-se respectivamente por DNA mitocondrial e DNA plasti-
dial. Estas moléculas, apesar de se encontrarem no interior de células
eucarióticas, são em tudo semelhantes ao DNA dos procariontes.

ACTIVIDADE LABORATORIAL

EXTRACÇÃO DE DNA DA BANANA


Não se esqueça de:
Material • usar bata;
• cumprir as regras de
• Banana. • Caixa de Petri.
segurança do laboratório.
• Sal de cozinha. • Banho-maria.
• Água destilada. • Espátulas.
• Álcool comercial a 96º. • Vidro de relógio.
• Pacote de 250 mL de sumo de ananás. • Vareta de vidro.
• Detergente líquido para loiça • Pipetas de 5 e 20 mL.
(preferencialmente incolor). • Frigorífico com congelador.
• Gobelés de 250 mL. • Bisturi.
• Provetas de 10, 20, 50 e 100 mL. • Tubo de ensaio grande.
• Gaze. • Suporte de tubos de ensaio.
• Funil.

Procedimento
1 — Coloque o álcool no frigorífico para que arrefeça bem.
2 — Pese 50 g de banana cortada em rodelas numa caixa de Petri.
3 — Com uma espátula, macere a banana.
4 — Pese 3 g de sal num vidro de relógio.
5 — Num gobelé de 250 mL, coloque 90 mL de água destilada aquecida a 60 ºC.
6 — Dissolva o sal na água e adicione 10 mL de detergente, mexendo lentamente.
7 — Junte a banana macerada à solução salina com detergente e mexa lentamente durante alguns
minutos.
8 — Coloque a gaze num funil e filtre
o preparado obtido para um
gobelé (Fig. 16).
9 — Ao filtrado obtido (120 mL),
adicione 25 mL de sumo de
ananás.
10 — Meça 20 mL do preparado
anterior para um tubo de ensaio.
11 — À solução filtrada adicione, muito
lentamente, 20 mL de álcool frio,
com o tubo de ensaio ligeiramente
inclinado. Deve distinguir-se uma
fase alcoólica (sobrenadante)
e uma fase aquosa (inferior).
12 — Deixe repousar cerca
de 5 minutos.
13 — Começará a ver um novelo
branco a formar-se no Fig. 16 Etapa 8 do procedimento: Fig. 17 Etapa 13 do
sobrenadante alcoólico (Fig. 17). filtração. procedimento: o DNA
É o DNA! sobre a mistura efectuada.

unidade 5 Crescimento e renovação celular 23


919354 U5_p008-035 18/1/08 16:35 Page 24

Discussão
1 — Que substância foi adicionada, no decurso da experiência, para neutralizar a carga negativa
do DNA e facilitar a extracção?
2 — O que se fez para ajudar a quebrar mecanicamente as membranas das células?
3 — Que substância, contendo enzimas, foi adicionada para ajudar à destruição da bicamada
fosfolipídica das membranas celulares?
4 — Qual é a substância em que o DNA é insolúvel e que, por isso, provoca a sua precipitação
e visualização?
5 — Que aspecto apresenta o DNA extraído?

Nota: Este protocolo poderá aplicar-se, com obtenção de resultados evidentes, noutro tipo de matéria vegetal
(cebola, ervilhas, morango e favas) ou, ainda, em matéria animal (salmão, fígado e timo).

PESQUISAR E DIVULGAR

O conhecimento cada vez mais profundo da estrutura e do funcionamento da molécula de DNA tem permitido
ao Homem perceber que o pode manipular e utilizar na resolução de inúmeros problemas da vida quotidiana.

• Descubra algumas das aplicações das tecnologias relacionadas com a manipulação do DNA, recorrendo
a fontes variadas (jornais, revistas e livros) e/ou aos sítios da Internet a seguir sugeridos (ou a outros que achar
interessantes):

http://www.sobresites.com/ciencia/dna.htm
http://www.iq.usp.br/disciplinas/dbq/dnata/apresentacao/patern.htm
http://orbita.starmedia.com/jurifran/ajdna.html

• Apresente as suas pesquisas sob a forma de um cartaz, a afixar fora da sala de aula, onde deve referir:
a técnica, a aplicação da mesma e as fontes bibliográficas ou da Internet. Poderá contribuir para que os seus
colegas aprofundem os seus conhecimentos sobre este assunto, desenvolvido em inúmeras séries televisivas,
a que provavelmente muitos gostarão de assistir.

24 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


919354 008-035_U5 09/03/27 12:54 Page 25

Quais são as funções do DNA? replicação replication

O DNA é a molécula que contém a informação para todas as


actividades da célula. Uma vez que as células se dividem, é necessá-
rio que a molécula de DNA consiga transmitir às células-filhas a
informação que possui. Por outro lado, é esta molécula que permite
a obtenção das diferentes proteínas necessárias para a constituição A RETER
e o funcionamento celulares. A molécula de DNA é capaz
O processo de duplicação da molécula de DNA, designado por de se duplicar em duas,
exactamente iguais —
replicação, origina, no final, duas moléculas exactamente iguais à replicação.
molécula-mãe (pois só desta maneira é preservada a informação).

Replicação
Quando Watson e Crick propuseram o seu modelo para a
molécula do DNA (em dupla hélice), propuseram também um
mecanismo simples para a duplicação da molécula do DNA.
Teoricamente, este processo poderia ocorrer por três métodos
diferentes: a replicação poderia ser semiconservativa, conservativa
e dispersiva.

ACTIVIDADE

EXPERIÊNCIAS DE MESELSON E STAHL

1. Em 1957, dois investigadores, Meselson e Stahl, realizaram uma série de experiências na tentativa
de descobrir o processo da replicação. Analise os dados e os resultados obtidos e responda às questões.

Hipótese 1 Hipótese 2 Hipótese 3


Replicação semiconservativa Replicação conservativa Replicação dispersiva

Molécula parental

1.ª geração de
moléculas-filhas

2.ª geração de
moléculas-filhas

Fig. 18 As hipóteses para o processo da replicação.

unidade 5 Crescimento e renovação celular 25


919354 008-035_U5 6/16/08 3:05 PM Page 26

Estes investigadores utilizaram, como material biológico, bactérias da espécie Escherichia coli.
Um grupo de bactérias foi cultivado durante várias gerações em meio com 14N, e outro grupo, num meio
contendo 15N (um isótopo pesado de N). Ao isolarem e centrifugarem o DNA das duas amostras,
Meselson e Stahl confirmaram a existência de duas bandas diferentes (Fig. 19A) no tubo da centrífuga.
As bactérias do meio com 15N foram transferidas, em seguida, para um meio de cultura contendo azoto
leve (14N), onde permaneceram durante o tempo necessário à sua divisão. Quando isolaram
e centrifugaram o DNA dessas células, os investigadores verificaram que este apresentava densidade
intermédia no tubo da centrífuga (Fig. 19B).
As bactérias permaneceram ainda durante outra geração no meio de cultura com 14N, tendo depois sido
isolado e centrifugado o seu DNA (Fig. 19C).

A B C

14
14
N14N N14N

15
15
N14N N14N

15
N15N

DNA 14N14N e 15N15N centrifugado. Ao fim de uma geração DNA Ao fim de duas gerações.
15 14
N N centrifugado.

Fig. 19 Resultados da experiência de Meselson e Stahl.

1.1 Refira as diferenças existentes entre os modelos apresentados na figura 18.


1.2 Como se apresentam, no tubo da centrífuga, as bandas das cadeias de DNA formadas depois
da segunda divisão?
1.3 Represente os resultados que seria previsto obter ao fim de outra geração.
1.4 Identifique a hipótese de replicação que é apoiada pelos resultados apresentados nos tubos
da centrífuga.

A RETER Ao observar atentamente os resultados obtidos pelos investiga-


Os resultados das experiências dores, verifica-se que aqueles estão de acordo com a hipótese semi-
indicam que o DNA se duplica conservativa, que refere que, numa molécula de DNA, cada cadeia-
por síntese semiconservativa.
-mãe serve de molde para a síntese de uma cadeia-filha.

B C

B C

Ao fim de uma replicação. No fim da segunda replicação.

Fig. 20 Replicação do DNA: cadeias pesadas (A); cadeias intermédias (B); cadeias leves (C).

26 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


919354 008-035_U5 09/03/27 12:57 Page 27

Qual é o mecanismo
de replicação do DNA?

O processo de replicação do DNA é bastante complexo e envol-


ve a participação de várias enzimas, pois a molécula tem de sofrer
desenrolamento, separação de cadeias e construção das novas cadeias.
A DNA polimerase é a enzima mais importante neste processo,
promovendo:
CURIOSIDADE
• a formação de ligações por pontes de hidrogénio entre bases
complementares (A com T e G com C); O DNA humano replica cerca
de 50 bases por segundo.
• a ligação do açúcar de um nucleótido com o fosfato do
nucleótido seguinte;
• a correcção de erros que possam existir.
Cada cadeia-mãe serve de molde para a replicação, sendo os
nucleótidos adicionados por complementaridade de bases e sempre
inseridos no sentido 5’–3’.
Devido ao antiparalelismo da cadeia de DNA parental, as
cadeias-filhas não crescem da mesma forma: a cadeia que copia
a cadeia 3’–5’ forma-se de modo contínuo; a cadeia que copia a
cadeia 5’–3’ forma-se de modo descontínuo, em pequenas porções,
que são depois ligadas pela enzima DNA ligase (Fig. 21).

Cadeia-filha

DNA polimerase
DNA ligase

Cadeias Extremidade 3’
complementares (termina em 3’ hidroxilo)

Extremidade 5’
(termina em 5’ fosfato)

DNA polimerase

Cadeia-filha
Extremidade 5’

Extremidade 3’

OH P P P P P P P P

5’
3’

A G A G A C A T

T C T C T G T A

3’
5’
P P P P P P P P OH

Fig. 21 Replicação do DNA.

A replicação do DNA assegura que todas as células somáticas


de um ser vivo pluricelular tenham a mesma informação genética.
unidade 5 Crescimento e renovação celular 27
919354 U5_p008-035 18/1/08 16:35 Page 28

gene gene Como é que, a partir do DNA,


genoma genome se obtêm proteínas?
transcrição transcription

Pouco depois de Watson e Crick terem publicado a estrutura


da molécula do DNA, descreveram a relação entre os ácidos nuclei-
Replicação
cos e as proteínas como um fluxo de informação na célula —
«Dogma Central» da Biologia.
DNA
A sequência de nucleótidos que contém a informação para sinte-
Transcrição tizar uma proteína ou uma molécula de RNA é designada por gene.
RNA O conjunto de todos os genes de um ser vivo é o seu genoma,
permitindo este a constituição e o funcionamento do mesmo.
Núcleo
Tradução O DNA não consegue sintetizar a proteína directamente. No
Proteína
núcleo, no início do processo, forma-se uma molécula de mRNA
Citoplasma que transporta a informação contida no gene até ao citoplasma,
mais especificamente até ao ribossoma, onde a mensagem é trans-
Fig. 22 Do DNA às proteínas. formada em cadeia polipeptídica (Fig. 22).

Transcrição
O mRNA forma-se no núcleo, por complementaridade, a partir
da informação contida na molécula de DNA. Este processo, a que
se dá o nome de transcrição, só se realiza na presença de uma enzi-
ma, a RNA polimerase.
Na transcrição, a molécula de mRNA é formada a partir de uma
das duas cadeias da molécula de DNA (cadeia-molde). O mRNA é
polimerizado exclusivamente no sentido 5’–3’, e as bases empare-
lham-se por complementaridade, ocupando o uracilo o lugar da
timina (U emparelha com A) (Fig. 23).
DNA

3’
T G T C A T T C G G

5’
3’

G U C A U U C G G
5’
U
A C A G T A A G C C
3’
C
U Cadeia-molde de DNA
5’ G
U
RNA
Fig. 23 Transcrição.

A RNA polimerase liga-se ao promotor, zona inicial do gene


RNA polimerase
(Fig. 24), promovendo a separação pontual da dupla hélice do DNA
e a polimerização dos ribonucleótidos que vão constituir a molécula
de mRNA. Esta, à medida que vai sendo fabricada, liberta-se da
Gene
 cadeia-molde de DNA, que vai recuperando a sua estrutura original

Promotor (em dupla hélice). Quando a RNA polimerase atinge uma sequên-
do DNA
cia de DNA designada por local de terminação, liberta-se desta
Fig. 24 Início da transcrição. molécula, que retoma a sua estrutura original (Fig. 25).
28 BIOLOGIA A vida e os seres vivos
919354 U5_p008-035 18/1/08 16:35 Page 29

Local de terminação tradução translation




RNA em crescimento

A RETER

A transcrição é a passagem
da informação do DNA para
o RNA.
A formação do mRNA
RNA polimerase
é o primeiro passo da síntese
RNA
proteica.
Fig. 25 Fim da transcrição.

Nas células eucarióticas, a molécula de mRNA que acabou de


ser replicada (transcrito primário) sofre um processo de maturação
antes de sair do núcleo. A fase seguinte — tradução — realiza-se
no citoplasma.
Na molécula de mRNA imatura existem porções — os intrões
— que não contêm informação para a síntese da proteína e que,
antes de a molécula passar para o citoplasma, são removidas.
As porções que permanecem — os exões — são expressas na fase
seguinte, originando uma proteína. É o conjunto dos exões que
deixa o núcleo através de um dos poros da membrana nuclear
(Fig. 26). O processo de remoção dos intrões é designado por matu-
ração, processamento ou splicing.

Cadeia 3’ 5’
molde de Exão A Intrão 1 Exão B Intrão 2 Exão C
DNA
Transcrição

pré-mRNA Exão A Intrão 1 Exão B Intrão 2 Exão C

Maturação NÚCLEO

mRNA Exão A Exão B Exão C


A RETER
CITOPLASMA
Membrana nuclear Transporte através de um poro
Nos eucariontes, o mRNA
abandona o núcleo depois
de sofrer maturação.
Fig. 26 Os processos de transcrição e de maturação do mRNA.

Nos seres procariontes, a molécula de mRNA não sofre matura-


ção e todas as fases da síntese proteica ocorrem no mesmo local,
dado que não há núcleo individualizado nas células destes seres.

Tradução
A tradução permite que a mensagem contida no mRNA seja
descodificada e utilizada para fabricar uma proteína. As proteínas
são constituídas por aminoácidos (nos seres vivos, existem 20 ami-
noácidos diferentes), unidos por ligações peptídicas.
unidade 5 Crescimento e renovação celular 29
919354 U5_p008-035 18/1/08 16:35 Page 30

código genético genetic code Para que se sintetize uma proteína, é indispensável um código
codão codon que estabeleça a ponte entre a informação contida no mRNA (que,
por sua vez, se formou a partir do DNA) e os aminoácidos necessários
A RETER para constituir essa proteína. Como estará codificada a informação
no DNA? Será que uma determinada sequência de nucleótidos
ETAPAS DA SÍNTESE determina a incorporação de um aminoácido específico?
PROTEICA

Transcrição Tradução Como combinar 4 tipos de ribonucleótidos


Maturação para codificar 20 aminoácidos diferentes?

Se fosse utilizado 1 ribonucleótido para 1 aminoácido, existi-


riam apenas, nas proteínas, 4 aminoácidos diferentes.
Se fossem utilizados 2 ribonucleótidos, existiriam 16 combina-
ções (42), e nas proteínas haveria apenas 16 diferentes aminoácidos.
Associando 3 ribonucleótidos, obtém-se 64 diferentes combinações
(43), valor suficiente para codificar os 20 diferentes aminoácidos
que existem nas proteínas.
O código genético é constituído por tripletos de ribonucleóti-
dos, designados por codões (obtidos por transcrição de tripletos
de desoxirribonucleótidos, por vezes, designados por codogenes).
Cada codão codifica um aminoácido, e alguns aminoácidos são,
inclusivamente, codificados por mais do que um codão; por exem-
A RETER plo, os codões UUU e UUC codificam ambos o aminoácido fenila-
O código genético é um conjunto lanina (diz-se, nestes casos, que o código genético é degenerado,
de codões (três ribonucleótidos) e estes codões denominam-se sinónimos). O codão AUG é o codão
e a sua correspondência com
os aminoácidos. iniciador, correspondendo ao aminoácido metionina, e os codões
UAA, UAG e UGA são codões de terminação.
Todas as espécies de seres vivos utilizam o mesmo código gené-
tico — o código genético é universal —, evidenciando uma origem
comum (à excepção de alguns codões utilizados nas mitocôndrias e
em certos protozoários ciliados). Muitos trabalhos foram efectua-
dos até se decifrar o código genético.

ACTIVIDADE

COMO DECIFRAR O CÓDIGO GENÉTICO?


EXPERIÊNCIAS
1. Leia com atenção a descrição seguinte e responda às questões.
Molécula Sequência
Marshall Nirenberg e Heinrich Matthaei, em 1961, elaboraram uma série mRNA UUUUUUUUUUUU…
de experiências que levaram à decifração do código genético. Utilizaram
Polipéptido Fen-Fen-Fen-Fen-…
moléculas de mRNA, sintetizadas em laboratório, e todas as substâncias
mRNA AAAAAAAAAAAA…
químicas e estruturais necessárias à tradução foram extraídas da bactéria
Polipéptido Lis-Lis-Lis-Lis-…
Escherichia coli. Depois de sintetizada a molécula de mRNA, os
mRNA CCCCCCCCCCCC…
investigadores colocaram-na no meio de cultura, onde obtiveram os
polipéptidos que se encontram no quadro apresentado à direita. Polipéptido Prol-Prol-Prol-Prol-…
mRNA AUAUAUAUAUAU…
1.1 Identifique, justificando, os codões que codificam os aminoácidos
Polipéptido
fenilalanina (Fen), lisina (Lis) e prolina (Prol).
1.2 Que codões existem na molécula de mRNA sintetizada na quarta experiência?
1.3 Consultando o código genético representado na página 31, complete o quadro.

30 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


919354 U5_p008-035 18/1/08 16:35 Page 31

Na decifração do código genético participaram ainda muitos anticodão anticodon


outros investigadores, que desenvolveram experiências semelhantes
às de Nirenberg e Matthaei.
No código genético, os codões sinónimos diferem uns dos outros,
muitas vezes, pela base existente na terceira posição.
A degenerescência do código protege os organismos de altera-
ções que possam ocorrer no DNA e que substituem um codão por
outro sinónimo, não se modificando, desta forma, a sequência de
aminoácidos da proteína.
No processo da síntese proteica, a molécula de mRNA não faz
o reconhecimento directo dos aminoácidos que constituirão a pro-
teína. Nesta síntese há a participação do RNA de transferência A RETER

(tRNA). A tradução é uma etapa da


síntese proteica em que as
Na molécula de tRNA, existe um tripleto de bases complemen- moléculas de tRNA que
tares do codão do mRNA — anticodão — e também o local de transportam os aminoácidos
ligação do tRNA ao aminoácido correspondente a esse anticodão. correctos são recrutadas
e associam estas moléculas
Por exemplo, uma molécula de tRNA com o anticodão CCU é com- ao péptido em formação.
plementar do codão GGA e tem ligado a si o aminoácido glicina.

CÓDIGO GENÉTICO

SEGUNDA BASE
U C A G
UUU (Phe/F) UCU (Ser/S) UAU (Tyr/Y) UGU (Cys/C)
U
Fenilalanina Serina Tirosina Cisteína
UUC (Phe/F) UCC (Ser/S) UAC (Tyr/Y) UGC (Cys/C)
C
Fenilalanina Serina Tirosina Cisteína
U
UUA (Leu/L) UCA (Ser/S)
UAA (Stop) UGA (Stop) A
Leucina Serina
UUG (Leu/L) UCG (Ser/S) UGG (Trp/W)
UAG (Stop) G
Leucina, iniciação Serina Triptofano
CUU (Leu/L) CCU (Pro/P) CAU (His/H) CGU (Arg/R)
U
Leucina Prolina Histidina Arginina
CUC (Leu/L) CCC (Pro/P) CAC (His/H) CGC (Arg/R)
C
Leucina Prolina Histidina Arginina
C
CUA (Leu/L) CCA (Pro/P) CAA (Gln/Q) CGA (Arg/R)
A
Leucina Prolina Glutamina Arginina
PRIMEIRA BASE

TERCEIRA BASE

CUG (Leu/L) CCG (Pro/P) CAG (Gln/Q) CGG (Arg/R)


G
Leucina, iniciação Prolina Glutamina Arginina
AUU (Ile/I) ACU (Thr/T) AAU (Asn/N) AGU (Ser/S)
U
Isoleucina, iniciação Treonina Asparagina Serina
AUC (Ile/I) ACC (Thr/T) AAC (Asn/N) AGC (Ser/S)
C
Isoleucina Treonina Asparagina Serina
A
AUA (Ile/I) ACA (Thr/T) AAA (Lys/K) AGA (Arg/R)
A
Isoleucina Treonina Lisina Arginina
AUG (Met/M) ACG (Thr/T) AAG (Lys/K) AGG (Arg/R)
G
Metionina, iniciação Treonina Lisina Arginina
GUU (Val/V) GCU (Ala/A) GAU (Asp/D) GGU (Gly/G)
U
Valina Alanina Ácido aspártico Glicina
GUC (Val/V) GCC (Ala/A) GAC (Asp/D) GGC (Gly/G)
C
Valina Alanina Ácido aspártico Glicina
G
GUA (Val/V) GCA (Ala/A) GAA (Glu/E) GGA (Gly/G)
A
Valina Alanina Ácido glutâmico Glicina
GUG (Val/V) GCG (Ala/A) GAG (Glu/E) GGG (Gly/G)
G
Valina, iniciação Alanina Ácido glutâmico Glicina

unidade 5 Crescimento e renovação celular 31


919354 008-035_U5 6/2/08 12:44 Page 32

5080 bases de RNA Os ribossomas são constituídos por uma subunidade maior e
(2 a 3 moléculas) 49 proteínas
por outra menor (Fig. 27). No processo da tradução, a sequência de
codões do mRNA dá origem à síntese de uma proteína nos ribosso-
Subunidade maior mas. Nos seres eucariontes, estes organitos encontram-se associa-
dos ao retículo endoplasmático rugoso, para onde a proteína vai ser
lançada.
Subunidade menor
A tradução inicia-se com a ligação do mRNA à subunidade
1900 bases de RNA menor do ribossoma, e com o reconhecimento do codão iniciador
(1 única molécula) 33 proteínas
(AUG) pelo tRNA correspondente (anticodão UAC, com o aminoá-
Fig. 27 Constituição de um ribossoma.
cido metionina — met). Todos os péptidos começam por uma
metionina, salvo raras excepções. Em seguida estabelece-se a liga-
ção da subunidade maior (Fig. 28). Nesta subunidade, existem dois
locais importantes: o local P, onde se encontra ligado o tRNA com o
aminoácido metionina, e o local A, onde se liga o tRNA seguinte,
complementar do segundo codão.

A Met B Met
tRNA iniciador Local A
Local P
Grande
subunidade
de ribossoma
Codão iniciador
U A C U A C
A U G A U G
Pequena subunidade
de ribossoma
mRNA

Fig. 28 Fase de iniciação da tradução.

RIBOSSOMAS
A metionina e o aminoácido, transportado pelo tRNA ligado ao
Além dos locais A e P,
local A do ribossoma, estabelecem entre si uma ligação peptídica,
actualmente considera-se a
existência de um terceiro local e o ribossoma avança na molécula de mRNA.
no ribossoma — o local E — No local P fica o tRNA que transporta o segundo aminoácido,
correspondente ao local e ao local A liga-se um novo tRNA. Após ocorrer outra ligação
de saída do tRNA. peptídica entre os aminoácidos, o ribossoma volta a progredir na
molécula de mRNA, que assim é lido em sequência, dando origem
a um novo polipéptido (Figs. 29 e 30).

Polipéptido
Subunidade maior

Moléculas de tRNA

mRNA Subunidade menor

Fig. 29 Ribossoma em funcionamento.

32 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


919354 008-035_U5 31/1/08 14:38 Page 33

A Aminoácido



 Anticodão

mRNA
  3’
Codões
5’

D Reconhecimento do codão.
B

Nova ligação
peptídica
Local A

 3’
3’
Codão stop 5’
5’

Ocupação do local P. Formação da ligação peptídica.


Polipéptido
C

Local P

3’

5’

Deslocação do mRNA.

Fig. 30 Crescimento (alongamento ou elongação) do polipéptido.

É de notar que a mesma molécula de mRNA pode ser traduzida


em simultâneo por mais do que um ribossoma, havendo assim a
formação de várias proteínas iguais (Fig. 31).

3’

5’ mRNA

Ribossoma

Polipéptido

Proteínas
estabilizadoras

Fig. 31 Síntese simultânea de vários péptidos a partir do mesmo mRNA.

unidade 5 Crescimento e renovação celular 33


919354 U5_p008-035 18/1/08 16:35 Page 34

mutação génica genic mutation A síntese da proteína termina quando surge no mRNA um dos
codões de terminação ou stop (UGA, UAG ou UAA), pois não há
tRNA correspondentes a esses codões. O último tRNA liberta-se do
A RETER
ribossoma, separando-se as suas subunidades (que podem depois
Para a formação de uma ser reutilizadas), e a proteína é libertada, adquirindo a sua estrutura
proteína, são necessários:
ribossoma, mRNA e vários tRNA tridimensional (Fig. 32).
associados a aminoácidos.

B
G C U
G U A A G
A C G A U A
A

Arg
Lys
Cys
Gly Met

Fig. 32 Conclusão da síntese proteica (A). Os diferentes componentes separam-se (B).

E se ocorrerem erros
durante estes processos?

A possibilidade que a célula tem de manter a informação do


seu DNA nas células-filhas é extremamente importante, pois, desta
forma, as características dos seres vivos são preservadas por várias
gerações. No processo da replicação do DNA, a DNA polimerase
revê a sequência formada e tem a capacidade de corrigir a maior
parte dos erros que possam ter ocorrido durante o processo.
A RETER
Mas, apesar desta revisão, por vezes existem erros que perma-
Mutações génicas são necem. Estes, designados por mutações génicas, afectam a sequên-
alterações na sequência
de bases do DNA. cia do DNA e, consequentemente, podem afectar a sequência de
aminoácidos da proteína fabricada a partir do gene alterado.
Um exemplo típico de mutação diz respeito à alteração que ocor-
re no gene humano que codifica a molécula de hemoglobina das
hemácias, dando origem à anemia falciforme (Fig. 33). A substituição
de um único nucleótido provoca uma alteração na sequência pro-
teica (o aminoácido ácido glu-
Alelo normal que codifica a hemoglobina Alelo mutante que codifica a hemoglobina
tâmico — Glu — é substituído
DNA DNA
por valina — Val). Esta altera-
C T T C A T
ção tem como consequência a
modificação da conformação da
molécula de hemoglobina, que
mRNA mRNA
por sua vez altera a forma das
G A A G U A hemácias (facto que teve rele-
vância na origem do nome desta
doença). Esta característica pro-
Hemoglobina normal Hemoglobina mutante
voca uma diminuição da capa-
Glu Val
cidade de transporte de oxigé-
Fig. 33 Mutação génica que ocorre na anemia falciforme. nio no indivíduo (Fig. 34).

34 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


919354 U5_p008-035 18/1/08 16:35 Page 35

A B

Fig. 34 Hemácia normal (A)


e hemácia alterada (B).

Existem vários tipos de mutações génicas. Há casos de substi-


tuição de base (ou nucleótido, como no exemplo anterior), mas
também existem situações de deleção de bases (em que uma ou A RETER
mais bases são suprimidas) ou de inserção de bases (em que uma A alteração de nucleótidos no
ou mais bases são acrescentadas) (Fig. 35). Todas estas alterações DNA origina alelos diferentes,
que podem afectar a sequência
vão afectar a transcrição e podem afectar ou não a tradução, depen- de aminoácidos na proteína.
dendo do local e do tipo da alteração.

Gene normal

T A C T T C A A A C C G C G T

A U G A A G U U U G G C G C A
mRNA

Met Lys Phe Gly Ala


Substituição de uma base

T A C T T C A A A T C G C G T

A U G A A G U U U A G C G C A
mRNA

Met Lys Phe Ser Ala

Deleção de uma base A

T A C T T C A A C C G C G T A

A U G A A G U U G G C G C A U
mRNA
Fig. 35 Mutações
Met Lys Leu Ala His
génicas.

Quando há codões sinónimos, a mutação pode não provocar


qualquer alteração na cadeia de aminoácidos. Também são possí-
veis modificações num único aminoácido, não alterando significati-
vamente o funcionamento da proteína. Outros casos, como o da
anemia falciforme, provocam danos graves nos indivíduos que as
possuem. As mutações podem também consistir na adição, na
remoção ou no rearranjo de sequências de nucleótidos, afectando
regiões mais extensas de DNA.
A RETER
Embora algumas possam ser bastante prejudiciais, as mutações As mutações podem ser
são responsáveis por pequenas alterações nos seres vivos de uma prejudiciais ao ser vivo que
espécie, permitindo a existência de variabilidade, essencial para a as sofre ou vitais para
a sobrevivência da espécie.
evolução das espécies, como veremos mais tarde, na Unidade 7.
unidade 5 Crescimento e renovação celular 35
919354 U5_p036-057 18/1/08 16:36 Page 36

interfase interphase De que modo as células asseguram


mitose mitosis a sua continuidade?
citocinese cytokinesis
ciclo celular cell cycle
Sendo a célula a unidade básica da estrutura e da função de
qualquer ser vivo, é de esperar que nela se encontre a resposta
CURIOSIDADE
quando se pretende descobrir o modo como esses seres asseguram
• O homem tem cerca de 1012 de
células por altura do nascimento.
a sua integridade e a manutenção da espécie.
• O ciclo celular das células me- A célula enfrenta o grande desafio de realizar a divisão celular, ori-
ristemáticas da raiz do feijoeiro ginando duas células-filhas, cujos núcleos possuem toda a informação
dura cerca de 19 horas, mas contida no DNA da célula-mãe e com citoplasma suficiente para
o das células embrionárias do
desempenhar as suas funções futuras. A grande maioria dos tecidos de
ouriço-do-mar fica completo
em duas horas. um organismo adulto possui células diferenciadas, que se dividem e
originam células-filhas, com características semelhantes entre si.
Nas células somáticas dos organismos multi-
I N T E R FA S E
celulares eucariontes, a interfase, a mitose (divi-
são nuclear) e a citocinese (divisão do citoplas-
ma) constituem o ciclo celular (Fig. 36), que
Cada célula-filha G1 S possibilita o crescimento, a reposição das células
inicia a interfase. Intervalo de crescimento
da célula.
Intervalo em que mortas e a reparação dos tecidos. Por vezes, em
ocorre replicação
(Os cromossomas ainda do DNA. alguns organismos, este processo também permi-
não estão duplicados, (Os cromossomas
porque ainda não ocorreu ficam duplicados te originar clones, reproduzindo-se assim o indiví-
replicação do DNA.) no final deste período.) duo por formação de cópias exactas dele próprio.
Citocinese
G2
O ciclo celular tem uma duração muito apro-
fase
Teló ximada em células do mesmo tipo, podendo
se Intervalo após a
áfa se
MI

An a replicação do DNA, variar bastante entre células de tecidos diferentes.


áf
et em que a célula se
e
TO

M
as

prepara para se
A interfase (com as fases G1, S e G2) corres-
óf

dividir.
Pr

E
S

Final da interfase ponde ao período de crescimento de uma nova


da célula-mãe.
célula, que pode ser cerca de 90% do tempo de
duração de um ciclo completo e em que ocorre
Fig. 36 Representação esquemática do
actividade metabólica intensa.
ciclo celular: interfase, mitose
e citocinese. Os triângulos vermelhos Durante a interfase, em G1 (G de «gap» — intervalo), a célula
assinalam pontos de controlo do ciclo. pode permanecer durante bastante tempo até atingir o tamanho
adequado e as condições propícias à divisão. Nesta fase, a célula
A RETER sintetiza enzimas e outras moléculas necessárias para assegurar o
seu funcionamento, assim como sistemas de membranas e variados
Fase G1
organitos.
CICLO CELULAR

Interfase Fase S No período S (S de «synthesis» — síntese), ocorre a replicação


Mitose Fase G2
de todo o DNA presente no núcleo, assim como a síntese de proteí-
nas a ele associadas. Os cromossomas são agora constituídos por
Citocinese dois cromatídeos unidos pelo centrómero.
O principal papel da fase G2 é confirmar que a replicação dos
cromossomas está completa e, ainda, que os eventuais «estragos»
A RETER provocados na molécula de DNA estão reparados. A síntese protei-
• Durante a interfase, a célula ca é intensa neste período.
prepara-se para a divisão
nuclear. No final da interfase, as células que possuem centríolos (todas
• Em G1, cada cromossoma é as eucarióticas, à excepção das que constituem os fungos e a maio-
composto por um cromatídeo
ria das plantas) apresentam-nos agora duplicados. As células ani-
e em G2, por dois cromatídeos.
mais possuem centrossomas, onde estão localizados os centríolos.
36 BIOLOGIA A vida e os seres vivos
919354 U5_p036-057 18/1/08 16:36 Page 37

5 1 2 Mitose prófase prophase


metáfase metaphase

Após a fase G2, a célula está apta para dar início à divisão defi- anáfase anaphase

nitiva do seu material nuclear. No seu núcleo existem agora cro- telófase telophase

mossomas que se duplicaram na fase S, ou seja, cada um deles está


associado a uma cópia, rigorosamente igual, de si próprio, sendo
composto por dois cromatídeos.
A mitose decorre em quatro estádios: prófase, metáfase, aná-
fase e telófase.

MITOSE

Nesta etapa, a mais longa da mitose, os cromossomas Par de


centríolos
assumem, progressivamente, um aspecto mais curto
Membrana
e espesso, que se deve ao facto de ocorrer uma condensação
nuclear
da cromatina (DNA e proteínas associadas). Começam
agora a visualizar-se os dois cromatídeos-irmãos, ou seja,
Prófase

duas moléculas de DNA rigorosamente iguais, unidas por


uma região de cromatina muito condensada — o centrómero.
Os centrossomas, já duplicados, começam a migrar para pólos
opostos da célula e iniciam o desenvolvimento de microtúbulos
(filamentos de proteínas globulares). Por outro lado, o
nucléolo dissipa-se até desaparecer, e a membrana nuclear A célula possui o DNA duplicado
desorganiza-se, assumindo a forma de pequenas vesículas. e prepara-se para a divisão nuclear.

No decorrer desta fase, a célula encontra-se sem membrana


nuclear, e os microtúbulos vão crescendo a partir dos
centrossomas, localizados em pólos opostos da célula.
Quando um microtúbulo, vindo de um dos pólos, estabelece
Metáfase

ligação com um dos cromatídeos, o microtúbulo que


cresceu do pólo oposto fixa-se ao cromatídeo-irmão do
primeiro. Forma-se assim, ocupando toda a célula, um fuso
acromático (formação de microtúbulos, fusiforme), que,
no momento em que todas as fibras atingem o mesmo
comprimento, obriga a um posicionamento dos cromossomas
no plano equatorial do fuso (placa equatorial ou mitótica). Os microtúbulos formam
Placa equatorial ou mitótica
o fuso acromático.

É a etapa mais curta da mitose, mas inclui acontecimentos


determinantes no sucesso deste processo, já que assegura
uma separação definitiva e rigorosa dos cromatídeos-irmãos.
A anáfase inicia-se, abruptamente, com a separação
Anáfase

simultânea de todos os cromatídeos-irmãos, devido à perda


de coesão gerada pela desorganização do centrómero. Estes
são então puxados pelos microtúbulos do fuso acromático,
efectuando a ascensão polar, ao mesmo tempo que a célula
se alonga ligeiramente, aumentando a distância entre
os pólos do fuso (centrossomas).
Ocorre a ascensão polar.

Quando os dois conjuntos de cromossomas atingem


os pólos opostos da célula, inicia-se a telófase.
Nesta altura, os cromossomas descondensam-se, devido
Telófase

à descompactação do DNA, a membrana nuclear


reorganiza-se e os nucléolos reaparecem.
Logo que os núcleos estão completamente formados,
a telófase termina. Fica, assim, concluído o processo
da mitose.

unidade 5 Crescimento e renovação celular 37


919354 U5_p036-057 18/1/08 16:36 Page 38

A RETER No entanto, o processo de divisão da célula não está concluído,


já que é necessário separar completamente as duas células-filhas,
MITOSE
tornando-as independentes. Assim, de um modo continuado, segue-
Prófase -se a redistribuição equitativa dos organitos celulares e a clivagem
do citoplasma.
Metáfase

Anáfase OS CENTRÓMEROS

Telófase Após a replicação do DNA, os dois cromatídeos-irmãos permanecem


ligados, espaçadamente, ao longo dos braços cromossómicos, por acção
de proteínas (coesinas), que na metáfase são removidas na quase
totalidade. Contudo, na região do centrómero é mantida a coesão até
ao início da anáfase, quando uma enzima faz a hidrólise destas
proteínas, e estas, ao serem degradadas, libertam os cromatídeos-irmãos.

Metáfase Anáfase
Prófase Cromatídeos-irmãos Cromossomas-filhos
Proteína
que promove
a coesão
Condensação
dos cromossomas

Citocinese
A citocinese, divisão do citoplasma, depende da formação de
um anel de contracção (estrutura composta por filamentos de acti-
na e miosina, proteínas estruturais) ligado à face citoplasmática da
membrana plasmática e a meio da distância entre os dois centrosso-
mas (Fig. 37). Durante muitos anos assumiu-se que estes filamentos se
dispunham paralelamente em relação ao plano de divisão da célula
e que, à custa de energia da molécula de ATP, se contraíam, puxan-
do a membrana plasmática, a que estavam ligados, para o interior
da célula, até que o citoplasma fosse dividido em duas porções.

A B

Fig. 37 Citocinese. Representação esquemática (A); imagem de microscópio


electrónico (B).
Fig. 38 As células-filhas, resultantes da
citocinese, podem entrar em interfase Na realidade, permanece ainda por esclarecer a orientação efectiva
logo que estão formadas (após a
divisão do citoplasma). São células
dos filamentos no anel de contracção, mas sabe-se que o citoplas-
com o mesmo número de ma não se limita a ser estrangulado para originar duas células-filhas
cromossomas que a célula-mãe. (Fig. 38). Na citocinese animal, a contracção do anel de actina e
38 BIOLOGIA A vida e os seres vivos
919354 U5_p036-057 18/1/08 16:36 Page 39

miosina é acompanhada pela adição de membrana plasmática por


fusão de vesículas golgianas. (Durante muitos anos pensou-se que esta
actividade vesicular ocorria apenas na citocinese das células vegetais.)
No caso das células que apresentam parede celular, a força de
contracção dos filamentos de actina não é suficiente perante a rigi-
dez dessa estrutura.
Nesta situação forma-se a placa celular, a partir da disposição,
na região mediana da célula, de vesículas golgianas que se fundem
do centro para a periferia. Estas vesículas contribuem para a forma-
ção das novas secções da membrana plasmática e, simultaneamente, A RETER
libertam os materiais de construção da parede celular (hemicelulose, No caso da célula vegetal,
pectina e glicoproteínas). A placa celular cresce até se fundir com a a citocinese tem de ser
acompanhada da formação
membrana plasmática da célula inicial, formando agora duas célu- da nova parede celular.
las distintas (Fig. 39).

A B

Fig. 39 Representação esquemática da citocinese em células vegetais (A),


destacando-se uma imagem de microscópio óptico (B) onde se pode observar
a formação da placa celular.

DIFERENÇAS NO CICLO CELULAR

CÉLULAS MITOSE CITOCINESE


Formação do anel de contracção, dividindo
Existência de centrossoma, estrutura formada
Animais o citoplasma em duas porções semelhantes.
pelos centríolos, que organiza o fuso acromático.
Existe adição de membrana plasmática.
Formação da placa celular, que permite
Ausência de centrossoma: a função deste
Vegetais a constituição de membrana plasmática e também
é desempenhada por estruturas similares.
de parede celular.

ACTIVIDADE

AS FASES DA MITOSE

1. Considere as fotografias, obtidas no microscópio óptico, de uma célula em mitose e responda às questões.

A B C D E F

Fig. 40 Célula em mitose.

1.1 Faça a legenda de cada uma das imagens, indicando a fase da mitose correspondente.
1.2 Ordene as imagens de modo a indicar a sequência correcta destas fases da mitose.
1.3 Refira as fases em que os cromossomas se poderão encontrar constituídos por dois cromatídeos.
1.4 Que factos observáveis nas fotografias permitem afirmar que se trata de uma célula vegetal?

unidade 5 Crescimento e renovação celular 39


919354 U5_p036-057 18/1/08 16:36 Page 40

Qual é o destino
das novas células?

As células-filhas, formadas a partir da divisão nuclear mitótica,


asseguram não só a continuidade da célula-mãe mas ainda a manu-
tenção das características hereditárias desta, já que cada uma delas
possui uma quantidade e uma qualidade de DNA exactamente
iguais às do DNA da progenitora.
A RETER Após a mitose e a citocinese, as células podem seguir diferentes
Após terminar a divisão celular, processos:
a célula pode continuar • diferenciação e maturação (é o que acontece com as hemá-
a dividir-se, manter-se em fase
G1 ou diferenciar-se
cias que, após a sua formação, deixam de cumprir o ciclo
e especializar-se. celular) (Fig. 41A);
• entrada em fase G1 prolongada (também chamada G0, ocorre
em células com longo período de vida e que raramente se
dividem, como é o caso de algumas células do fígado), entran-
do mais tarde em fase de síntese e mitose (Fig. 41B);
• início de uma nova fase de síntese e preparação para uma
nova mitose (como acontece no ovo ou zigoto) (Fig. 41C).

A
B

Fig. 41 Ciclo celular e os possíveis percursos pelos quais as células-filhas podem


enveredar após a conclusão da mitose.

Controlo da divisão celular


As células possuem mecanismos que lhes permitem assegurar
que certas condições foram garantidas antes de passar à fase
seguinte do processo de divisão celular. Estes mecanismos são de
extrema importância, já que regulam todo o ciclo celular (Fig. 42) e
impedem a progressão do fenómeno antes de estarem asseguradas
as bases para que o objectivo de cada fase seja cumprido.
40 BIOLOGIA A vida e os seres vivos
919354 U5_p036-057 18/1/08 16:36 Page 41

Controlo metáfase
Através da mitose e da citocinese,
MITOSE
os dois conjuntos de cromossomas
estão separados, e as células-filhas
Controlo G2 DIVISÃO
completaram a sua formação.

G2
G1

Controlo G1
INTERFASE

S
Controlo S

Fig. 42 Fases do ciclo celular e principais pontos de controlo do mesmo.

Existem proteínas, organizadas em sistemas, responsáveis pela


progressão do ciclo celular através da sua activação e da sua inacti-
vação sucessivas.
Perto do final da fase G1, actua um destes sistemas de controlo,
determinando se a célula permanece nesta fase ou passa para a fase S.
No final de G2, o controlo verifica se a fase S ocorreu de modo
correcto e se a célula está em condições de realizar a mitose.
A RETER
Outro controlo ocorre na transição metáfase-anáfase, atrasando-
Os pontos de controlo asseguram
-a no caso de alguns cromossomas não estarem correctamente liga- o sucesso da divisão celular.
dos ao fuso acromático.

O que acontece quando estes pontos


de controlo não cumprem a sua função?

O crescimento e a reprodução dos seres vivos multicelulares


dependem do controlo da divisão celular e do ritmo da morte celular.
O ciclo celular possui pontos de controlo, constituídos por
proteínas que verificam se a replicação do DNA foi completa e cor-
recta, e até se os nutrientes presentes na célula são os necessários e
suficientes para o seu desenvolvimento. O sucesso da célula na
identificação e na correcção de problemas depende desta vigilância.
Após o estudo da síntese proteica, ficou claro que a formação
das proteínas existentes nas células é da responsabilidade do DNA
— isto é, das informações nele contidas sob a forma de genes. Se o
controlo do ciclo celular é feito por complexos proteicos, então
alterações nos genes codificantes destas proteínas poderão traduzir-
-se num ineficaz controlo do ciclo celular e, consequentemente, em
transformações nas células.
De facto, mutações em genes responsáveis pela síntese de proteí-
nas envolvidas no controlo do ciclo celular podem levar a que estas
permitam a continuação da divisão celular em células com o DNA
danificado e não reparado, ou que a anáfase ocorra antes de todos os
cromatídeos se encontrarem correctamente ligados aos microtúbulos
do fuso. Qualquer uma destas situações originará erros que poderão
comprometer não só o desenrolar do ciclo, mas também o normal
funcionamento da célula e do organismo a que esta pertence.
unidade 5 Crescimento e renovação celular 41
919354 U5_p036-057 18/1/08 16:36 Page 42

O que acontece à célula quando todos


os mecanismos normais de controlo falham?

Quando estes mecanismos de controlo se encontram compro-


metidos, a célula perde a capacidade de regular o seu próprio ciclo
de divisões. Nesta situação, pode verificar-se um crescimento des-
controlado da célula devido à sucessão ininterrupta de divisões,
a replicação de cromossomas com erros ou, ainda, a ocorrência da
morte fora da altura prevista de acordo com a sua função no orga-
nismo.
Formam-se então massas anormais de células (tumores) que per-
deram o controlo dos seus ciclos celulares. Se estas massas crescem
lentamente e as células se mantêm no seu tecido habitual, o tumor é
benigno (Fig. 43A). No caso das células cancerosas, verificam-se alte-
rações nas suas membranas celulares e no seu metabolismo; as
células saem dos tecidos habituais e entram nos vasos sanguíneos
ou linfáticos, fazendo-se transportar com os fluidos que aí cir-
culam. Mais tarde, instalam-se noutros tecidos, invadindo-os e ini-
ciando aí novos tumores — metástases (Fig. 43B e 43C).
Estas células podem desenvolver-se a partir de qualquer tecido
e dentro de qualquer órgão, através de complexos processos de
transformação.
Hoje, já são conhecidas muitas substâncias químicas, denomi-
nadas carcinogéneas, que se reconhecem como capazes de induzir
a formação de cancro. Algumas destas substâncias são de uso
industrial, como o benzeno; outras estão associadas ao estilo de
A RETER
vida, como o álcool ou o alcatrão dos cigarros, e outras, ainda, são
O descontrolo do ciclo celular
pode resultar em cancro.
utilizadas em experiências laboratoriais. Mas também as radiações
ou a luz solar são consideradas potenciais agentes carcinogéneos.

A C D

Tumor benigno

Tumor maligno

Fig. 43 Esquema de um tumor benigno em que não ocorre saída das células do tecido habitual (A). Representação de tumores
malignos e a sua forma de actuação (B) e (C). Fotografia de microscopia electrónica de uma célula cancerosa (D).

42 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


919354 U5_p036-057 18/1/08 16:36 Page 43

ACTIVIDADE LABORATORIAL

OBSERVAÇÃO DAS DIFERENTES FASES DA MITOSE


Não se esqueça de:
Material • usar bata;
• cumprir as regras de
• Microscópio óptico composto. • Agulha de dissecação.
segurança do laboratório.
• Lâminas. • Vidro de relógio.
• Lamelas. • Papel de filtro.
• Bisturi. • Papel de limpeza.
• Pinça. • Carmim acético ou orceína acética.
• Conta-gotas. • Meristemas caulinares de ervilha, feijão ou cebola.

Nota: A utilização de preparações definitivas, com tecidos vegetais em mitose, será de grande utilidade
para a comparação com as preparações extemporâneas realizadas ou mesmo como alternativa
à elaboração destas.

Procedimento
1 — Alguns dias antes da actividade de microscopia, prepare o material biológico de modo a obter
os meristemas necessários.
2 — Corte aproximadamente 1 cm da extremidade do vértice radicular do material biológico escolhido
e coloque-o num vidro de relógio.
3 — Numa lâmina, coloque duas gotas de carmim acético.
4 — Com a pinça, retire o ápice radicular do vidro de relógio e deposite-o sobre o carmim acético.
5 — Coloque a lamela e dissocie o tecido, pressionando sobre esta com o cabo de uma agulha
de dissecação. Espere um minuto.
6 — Elimine o excesso de corante da preparação com o papel de filtro.
7 — Observe o material ao microscópio óptico.
8 — Elabore esquemas das fases do ciclo celular observadas.
9 — Legende os esquemas e identifique as fases observadas.
10 — Elabore o relatório desta actividade.

A B

Fig. 44 Preparação dos meristemas. Montagem inicial (A); resultado após quatro dias (B).

Discussão
1 — Justifique a identificação atribuída por si a cada um dos esquemas.
2 — Compare o aspecto das células observadas à medida que se afasta da extremidade radicular
relativamente a:
a) fase do ciclo celular em que se encontram;
a) dimensão das células.

unidade 5 Crescimento e renovação celular 43


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Conceitos/Palavras-chave

Necessários Essenciais Complementares

• Núcleo • Cariótipo • Anticodão • Adenina


• Membrana nuclear • Cromossoma • Codogene • Guanina
• RER • Cromatídeo • Código genético • Timina
• Ribossoma • Centrómero • Gene • Citosina
• Citoplasma • DNA • Genoma • Uracilo
• Centríolo • RNA • Mutação génica • Cromatina
• Complexo de Golgi • Nucleótido • Ciclo celular • Fase G1
• Parede celular • Bases azotadas • Interfase • Fase S
• Nucléolos • Ribose • Mitose • Fase G2
• Desoxirribose • Prófase • Microtúbulos
• Replicação • Metáfase • Placa equatorial
• Transcrição • Anáfase • Placa celular
• Tradução • Telófase • Fuso acromático
• Codão • Citocinese

Síntese de conhecimentos

• Os ácidos nucleicos (DNA e RNA) são constituídos por unidades


denominadas nucleótidos. Estes, por sua vez, são constituídos por
uma pentose, um fosfato e uma base azotada.
• O DNA apresenta uma estrutura em dupla hélice, constituída por duas
cadeias antiparalelas ligadas por pontes de hidrogénio entre bases complementares.
• O DNA e o RNA diferem na constituição, na estrutura e na função.
• Na célula, o DNA encontra-se no núcleo, associado a proteínas, constituindo
a cromatina.
• O processo de duplicação da molécula de DNA é designado por replicação e origina no final
duas moléculas exactamente iguais à molécula-mãe.
• A sequência de nucleótidos que permite sintetizar uma proteína ou uma molécula de RNA
é designada por gene. O conjunto de todos os genes de um ser vivo é o seu genoma.
• Na síntese proteica, há a considerar a transcrição (formação de uma molécula de mRNA
por complementaridade, a partir da informação contida na molécula de DNA), a maturação
do mRNA (onde são eliminados os intrões) e a tradução (formação do polipéptido,
no ribossoma).
• Mutações génicas são alterações que podem ocorrer na sequência do DNA (substituição, deleção
ou inserção de bases), capazes de modificar a proteína fabricada a partir desse gene.
• O ciclo celular é constituído por interfase, mitose e citocinese, que garantem a divisão celular com
formação de duas células-filhas exactamente iguais à célula-mãe.
• Na interfase ocorre a replicação de todo o DNA da célula-mãe e a preparação para a mitose, na qual
ocorre a divisão do núcleo, seguida de citocinese (a divisão do citoplasma).
• A célula possui mecanismos de controlo do ciclo celular, e, quando estes mecanismos falham,
podem ocorrer doenças no indivíduo, como, por exemplo, cancro.

44 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


919354 U5_p036-057 18/1/08 16:36 Page 45

ACTIVIDADES

Crescimento e renovação celular


1. Construa um mapa de conceitos para cada um dos conteúdos seguintes:
a) ácidos nucleicos;
b) ciclo celular.

2. Classifique como verdadeiras (V) ou falsas (F) as afirmações que se seguem, referentes
ao DNA.
A — A adenina e a timina são bases púricas.
B — Nos nucleótidos do DNA, o açúcar é a ribose.
C — O fosfato e a pentose, devido ao seu carácter hidrofílico, ocupam o interior da molécula
de DNA.
D — As ligações entre dois nucleótidos de cadeias opostas são estabelecidas por pontes
de hidrogénio.
E — As moléculas de DNA são sintetizadas no núcleo.

3. Estabeleça a correspondência correcta entre as letras da chave e as afirmações seguintes,


considerando que se referem a um fragmento de DNA constituído por 244 nucleótidos.

CHAVE AFIRMAÇÕES

A — Igual a 244 I. Número de desoxirriboses.


B — Superior a 244 II. Número de adeninas.
C — Inferior a 244 III. Número de ligações por pontes de hidrogénio.
IV. Número de ligações fosfodiéster.
V. Número de bases pirimídicas.
VI. Número de ácidos fosfóricos.

4. Considere o fragmento de ácido nucleico expresso na figura e responda A—U


às questões apresentadas. U—A
4.1 Seleccione a opção que completa correctamente a frase. C—G
C—G
O ácido nucleico representado é…
G—C
A — … o DNA. C — … o mRNA.
B — … o tRNA. D — Nenhum dos anteriores.
4.2 Dos locais da célula apresentados, seleccione aqueles em que é possível encontrar esta
molécula.
A — Nucléolo. D — Citoplasma.
B — Cromatina. E — Núcleo.
C — Ribossomas.

5. Estabeleça a correspondência correcta entre as letras da chave e as afirmações seguintes.

CHAVE AFIRMAÇÕES

A — DNA I. Pode ser encontrado no núcleo.


B — RNA II. Possui ribose.
C — Os dois ácidos nucleicos III. Nunca contém uracilo.
D — Nenhum dos ácidos IV. Contém guanina.
nucleicos V. Tem vida curta.
VI. É constituído por aminoácidos.
VII. Possui uracilo e adenina.
VIII. O número de bases púricas é sempre igual ao das pirimídicas.

unidade 5 Crescimento e renovação celular 45


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ACTIVIDADES

6. Estabeleça a correspondência correcta entre as letras da chave e as afirmações seguintes.

CHAVE AFIRMAÇÕES

A — Centrómero I. Porção de DNA associada a proteínas, altamente condensada.


B — Cariótipo II. Conjunto de todos os cromossomas de uma célula.
C — Cromatídeo III. Local por onde se mantêm unidos os dois cromatídeos.
D — Cromossoma IV. Cada uma das partes do cromossoma após a replicação do DNA.
E — Cromatina V. Associação entre DNA e proteínas nucleares com um baixo grau
de condensação.

7. Observe o esquema da figura e responda às questões.


7.1 Qual é o ácido nucleico representado?
2 A 4 G
7.2 Seleccione a opção que completa correctamente a frase. C 3 T
O processo representado designa-se por… A G G
1
A — … tradução. C — … transcrição. 2 A 4 G
C 3 T
B — … replicação. D — … duplicação.
7.3 Seleccione a opção que completa correctamente a frase.
Os números 1, 2, 3 e 4 representam, respectivamente, …
A — … citosina, guanina, uracilo e adenina.
B — … guanina, citosina, adenina e timina.
C — … citosina, guanina, timina e adenina.
D — … adenina, citosina, guanina e uracilo.
7.4 Complete a frase, seleccionando a opção correcta.
O processo representado encontra-se numa célula em fase…
A — … G1 C — … G2
B—…S D — … mitose

8. Seleccione a(s) opção(ões) que completa(m) correctamente a frase.


A replicação…
A — … ocorre da mesma maneira em ambas as cadeias da dupla hélice.
B — … produz sempre três cópias da molécula de DNA.
C — … utiliza a enzima DNA polimerase.
D — … envolve complementaridade de bases.
E — … utiliza desoxirribonucleótidos.
F — … produz muitos erros.
G — … origina duas moléculas iguais.

9. A sequência de bases num gene que permite a formação do péptido X é:


TACAACGTTGTAGGACTA
9.1 Represente o mRNA formado a partir deste gene.
9.2 Como se designa o processo em que se forma o mRNA?
9.3 Usando o código genético que se encontra na página 31, identifique a sequência
de aminoácidos do péptido X.

10. A sequência de bases de um codogene é ATG. Identifique, no processo da tradução, o anticodão


do tRNA correspondente a esse codogene.

11. Qual é o número mínimo de bases do gene que codifica uma proteína que apresenta
1360 aminoácidos?

46 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


919354 U5_p036-057 18/1/08 16:36 Page 47

12. Observe a figura, que representa células do vértice vegetativo da raiz de cebola.
12.1 Refira a razão pela qual se pode afirmar que se está
perante um tecido em crescimento.
12.2 Construa a legenda da figura, identificando as fases 3
assinaladas pelos números de 1 a 4.
12.3 As células de 1 a 4 representam etapas do ciclo
celular. Estabeleça a ordem correcta dos
acontecimentos e identifique a fase que não se
1
encontra representada na figura.
12.4 As células na fase representada por 1 são difíceis
de visualizar (aparecem raramente).
Isto deve-se ao facto de esta fase…
4
A — … nem sempre ocorrer.
B — … ser mais rápida do que as outras.
C — … ser mais longa do que as outras.
D — … ser aquela em que ocorrem fenómenos 2
menos importantes.
12.5 Estabeleça a correspondência correcta entre as afirmações que se seguem e os números,
que na figura representam fases de mitose.
A — Termina a formação do fuso acromático.
B — Os cromossomas dispõem-se na região mediana da célula.
C — Reorganiza-se a membrana nuclear.
D — Os cromossomas encontram-se em condensação.
E — A distância entre cromatídeos-irmãos é crescente.
F — Ocorre a divisão do centrómero.
G — Forma-se a placa equatorial.
H — Antecede a fase G1.
12.6 Indique, de entre os números representados na figura, aquele que corresponde ao estádio
da célula que escolheria se pretendesse obter um cariótipo deste indivíduo. Justifique a sua
resposta.
12.7 Considerando que a colchicina é uma substância que inibe a polimerização das proteínas do
fuso acromático, infira sobre o que poderia acontecer ao tecido representado, depois de
exposto àquele agente despolimerizador de microtúbulos.

13. No gráfico pode observar-se o que acontece à quantidade de DNA ao longo do ciclo celular.
Analise-o e responda às questões.
Q2
Quantidade de DNA

13.1 Indique a fase do ciclo celular a que correspondem


os intervalos:
a) [0-1]; b) [1-2]; c) [4-5]. Q1

13.2 Como se poderá explicar o traçado vertical do gráfico


em 5?
13.3 Considere que o núcleo da célula cujo ciclo celular 0 1 2 3456 7
Tempo
aqui se representa tem seis cromossomas. Indique
o número de cromossomas e de cromatídeos-irmãos presentes na célula nos intervalos:
a) [3-4]; b) [5-6]; c) [6-7].

14. Refira a importância da fase S na manutenção das características nas células-filhas.

15. Como se pode justificar a existência de um sistema de controlo do ciclo antes da ocorrência
da fase representada pelo intervalo 4-5?

unidade 5 Crescimento e renovação celular 47


919354 U5_p036-057 18/1/08 16:36 Page 48

5 2 Crescimento e regeneração
de tecidos versus
diferenciação celular
Os exemplos de desenvolvimento que a Natureza oferece por toda a
parte aos nossos olhos fizeram precisar que os fetos talvez já estivessem
contidos e completamente formados dentro de cada ovo.
KASPAR WOLFF (século XVIII)

A mitose nos seres multicelulares


Se, para os seres unicelulares, mitose significa reprodução, para
os seres multicelulares tem um significado distinto. Nestes seres,
a mitose está implicada nos processos de crescimento, renovação
de células, reparação de tecidos e, em alguns casos, renovação de
órgãos.
Considerando que o crescimento de um ser multicelular se faz,
entre outros fenómenos, por acréscimo do número de células, torna-
-se evidente o contributo da mitose no processo de crescimento.
Há seres vivos com crescimento ilimitado, como, por exemplo,
as plantas. Nestas existem tecidos em constante divisão — os teci-
dos meristemáticos —, responsáveis pela produção contínua de
novas células, que, após diferenciação, integram os vários órgãos da
planta.
A RETER Já nos animais o crescimento é limitado, terminando quando o
A mitose pode estar relacionada indivíduo atinge a idade adulta. Apesar disso, as mitoses conti-
com a reprodução do ser vivo nuam naturalmente a acontecer, dado que, mesmo em situações
ou ocorrer para assegurar normais, existem células que estão constantemente a ser renovadas.
o crescimento e a
renovação/regeneração celular. Exemplo deste facto são as células humanas da epiderme e do san-
gue. As primeiras resultam de mitoses sucessivas de células da
camada basal da epiderme, que vão migrando para a superfície e
substituindo as que morrem; as segundas resultam da divisão
de células da medula óssea e, por terem um tempo de duração
determinado (por exemplo, as hemácias duram cerca de 120 dias),
renovam-se com regularidade.
Em situações de lesões sofridas em tecidos, cujas células em
condições normais não se dividem, ocorrem mitoses nas células
vizinhas da zona afectada, o que permite, ao fim de algum tempo,
a reparação do tecido lesionado. É de realçar que a capacidade
de reparação dos tecidos varia entre estes, existindo alguns (como,
por exemplo, o tecido nervoso) em que tal fenómeno não se ve-
rifica.
Em alguns seres vivos permanece, mesmo enquanto adultos,
a capacidade de renovação de órgãos. Esta não se verifica em
humanos, sendo, contudo, observável noutras espécies de animais.
Exemplos disso são o crescimento da cauda de alguns répteis após
amputação e o crescimento de braços perdidos em estrelas-do-mar
(Fig. 45). Nas plantas, esta capacidade é muito frequente. É possível
Fig. 45 Estrela-do-mar em regeneração. a uma planta, através de mitoses, seguidas de diferenciação, regenerar,

48 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


919354 U5_p036-057 18/1/08 16:36 Page 49

a partir de um pequeno segmento do indivíduo original, raízes, cau- clone clone


les e folhas. Este facto é aproveitado pelo Homem na agricultura, clonagem cloning
para reproduzir espécies favoráveis. célula especializada specialized cell

Assim sendo, mesmo para os seres multicelulares, a mitose célula indiferenciada undifferentiated
cell
também pode corresponder a reprodução. Quando tal acontece,
obtemos indivíduos geneticamente iguais entre si — os clones —,
A RETER
e o processo que permite obtê-los designa-se por clonagem.
A clonagem é um processo que,
através de divisão celular por
Diferenciação celular mitose, assegura a obtenção
de seres vivos geneticamente
Os seres multicelulares diferenciados são constituídos por
iguais ao progenitor.
variadíssimas células resultantes da divisão de uma célula inicial —
o ovo ou zigoto. Este contém a informação genética do novo indiví-
duo, sendo uma célula indiferenciada ou totipotente (tem a
capacidade de originar as múltiplas células com características varia-
das de um mesmo organismo).
As células resultantes das sucessivas mitoses do ovo, a partir de
determinada altura, transformam-se em células especializadas,
isto é, células com morfologia e fisiologia específicas.
O processamento da diferenciação celular pode ser comparado
à utilização de um único livro de receitas (DNA original) que todas
as células recebem, mas a partir do qual confeccionam apenas algu-
mas receitas (Fig. 46), de acordo com o tecido e o órgão a que per-
tencem e a função que desempenham.

Células
embrionárias Neurónio
Célula do pâncreas do cristalino

Gene das enzimas da glicólise

Gene do cristalino

Gene da insulina

Gene da hemoglobina

Gene inactivo Gene activo

Fig. 46 Expressão génica em diferentes células do mesmo indivíduo.

unidade 5 Crescimento e renovação celular 49


919354 U5_p036-057 18/1/08 16:36 Page 50

A regulação da expressão génica é complexa e ainda não total-


mente conhecida.
Nos eucariontes, este fenómeno parece ser mais complexo do
que nos procariontes. Tal facto resultará de factores como: maior
quantidade de informação genética nos eucariontes (as bactérias
A RETER possuem, geralmente, um único cromossoma com um número de
A diferenciação celular
genes que não ultrapassa as centenas, enquanto as células humanas
depende da expressão génica, têm cerca de 30 000 genes); compartimentação da célula eucariótica,
que é controlada por podendo a regulação ocorrer em locais diferentes da mesma; multi-
mecanismos de regulação
da síntese proteica.
celularidade de alguns eucariontes, obrigando as várias células a
diferenciar-se em sentidos diferentes.
Considerando que uma célula é caracterizada pelas proteínas
funcionais que possui, será de esperar que a regulação ocorra em
qualquer etapa da produção dessa mesma proteína (Fig. 47).

DNA

Exão Intrão

Pré-RNA mensageiro

Os intrões são retirados


Núcleo

Os exões são ligados

RNA mensageiro
maturado Poro nuclear

Citoplasma Polipéptido

Aminoácidos

Ribossoma

tRNA

Fig. 47 Expressão génica em eucariontes. A expressão pode ser regulada durante


a transcrição, o processamento e a tradução.

50 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


919354 U5_p036-057 18/1/08 16:36 Page 51

Nos seres eucariontes, a regulação da expressão dos genes pode


ocorrer durante várias fases:
• Transcrição dos genes. As células diferenciadas transcre-
vem apenas alguns dos muitos genes que possuem. Este
facto está relacionado com o próprio processo de compacta-
ção do DNA, que dificulta o acesso à transcrição de certos
genes, e com a presença de proteínas específicas — factores
de transcrição — que determinam quais são os genes a
serem expressos em cada célula.
• Processamento do mRNA. O resultado da transcrição de
um gene é um mRNA imaturo constituído por intrões e
exões. Durante o processamento, são extraídos os intrões e
ligados os exões. O mRNA maturo dará origem a um poli-
péptido diferente do que resultaria da forma imatura do
mesmo RNA.
Podem mesmo formar-se diferentes mRNA a partir de um
mesmo mRNA transcrito (Fig. 48).

Exões

DNA

RNA transcrito

ou

mRNA

Fig. 48 A expressão génica pode ser regulada durante o processamento, podendo


formar-se dois mRNA a partir de um só mRNA transcrito.

• Tradução. O tempo de vida das moléculas de mRNA poderá


ser uma forma de controlar a produção de determinadas
proteínas. Por exemplo, nas bactérias, o mRNA dura apenas
alguns minutos, o que poderá justificar a capacidade destes
seres de alterarem rapidamente a quantidade das suas proteí-
nas, em resposta a variações do meio; já em hemácias de
alguns vertebrados, o mRNA que contém a informação para
a síntese da hemoglobina tem um período de duração igual
ao da própria célula, ou seja, esta proteína está continua-
mente a ser produzida. Outra forma de controlar a tradução
é a utilização de inibidores (Fig. 49).
unidade 5 Crescimento e renovação celular 51
919354 U5_p036-057 18/1/08 16:36 Page 52

Presença
do grupo heme

Inibidor inactivo
Polipéptidos
Tradução de hemoglobina

Molécula de
hemoglobina
Hemes
Heme

Ausência
do grupo heme

O início da
tradução é
bloqueado.
Não há tradução.

Inibidor activo

mRNA

Fig. 49 Controlo durante a tradução: o papel do inibidor e do grupo heme no início da


síntese da hemoglobina.

• Pós-tradução. Mesmo após ter terminado a tradução, é pos-


sível controlar a expressão dos genes, removendo porções de
um dado polipéptido, transformando-o e tornando-o, final-
mente, funcional. Tal facto parece ocorrer com a insulina: esta
é produzida no pâncreas, mas só se torna funcional — isto é,
só adquire as suas propriedades de hormona — quando lhe
é removida a porção central da cadeia polipeptídica (Fig. 50).
S
S

S
S

Corte
S
S

S
S

S S S S

Corte
Polipéptido inicial Insulina (hormona activa)

Fig. 50 Controlo após a tradução: a remoção de parte do polipéptido torna a insulina


activa.

Nos procariontes, o processo de regulação génica parece estar


essencialmente restrito à transcrição.
Nos eucariontes, além dos genes que codificam proteínas, o DNA
possui inúmeras sequências nucleotídicas cujo produto final são pe-
quenas moléculas de RNA que regulam a expressão de outros genes.
52 BIOLOGIA A vida e os seres vivos
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Que agentes ambientais podem afectar


os processos de diferenciação celular?

Todos os agentes ambientais capazes de provocar alterações no


DNA acabam por afectar a expressão dos genes iniciais de uma
célula. Dentro destes agentes, salientam-se as radiações, algumas
drogas e algumas infecções virais.
Sabe-se, actualmente, que as radiações ionizantes e as radia-
ções ultravioletas (UV) são capazes de induzir danos no DNA,
nomeadamente em genes envolvidos no controlo do ciclo celular,
na reparação do DNA e na apoptose (morte celular geneticamente
programada). Está também provado que, para determinados valo-
res de dose de radiação, praticamente todas as mitoses dos órgãos
em constante regeneração são inibidas. As radiações podem, por-
tanto, ser nocivas, e actuar como agentes mutagénicos.
Determinadas drogas, como, por exemplo, a talidomida, podem
impedir a correcta transcrição de alguns dos genes envolvidos na
angiogénese (formação de novos vasos sanguíneos num tecido
vivo) dos membros ou de órgãos internos, provocando efeitos tera-
togénicos (ausência de diferenciação correcta de alguns órgãos)
(Fig. 51).

Fig. 51 Angiogénese.

Alguns vírus são também agentes que influenciam e/ou regulam


a expressão dos genes das células que parasitam. Para tal, após intro-
A RETER
duzirem o seu material genético no interior das células e o integra-
rem no genoma do hospedeiro, usam a maquinaria enzimática destas Existem factores do ambiente
que interferem na estrutura do
células para expressar os genes virais. As células passam a expressar DNA e dos seus genes e, por
assim genes que não são seus. Exemplos destes vírus, parasitas da isso, podem alterar a síntese
espécie humana, são, entre outros, o vírus da imunodeficiência proteica e a diferenciação
celular.
humana (HIV) (Fig. 52) e o vírus do papiloma humano (HPV).

Fig. 52 Vírus da
imunodeficiência
humana (HIV).

unidade 5 Crescimento e renovação celular 53


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Conceitos/Palavras-chave

Necessários Essenciais Complementares

• Transcrição • Célula indiferenciada • Factores de tradução


• Tradução • Célula especializada • Apoptose
• Maturação • Clone • Angiogénese
• Clonagem • Agentes mutagénicos

Síntese de conhecimentos

• Nos seres multicelulares, a mitose tem um papel fundamental nos processos:


— de crescimento;
— de renovação de células;
— de reparação de tecidos lesionados;
— de regeneração de órgãos.

• O desenvolvimento de um ser multicelular envolve, além do crescimento, fenómenos


de diferenciação celular.
• Nos seres eucariontes, o controlo
da expressão génica pode ocorrer:
— durante a transcrição;
— durante o processamento ou maturação
do mRNA;
— durante a tradução;
— na pós-tradução.

• A diferenciação celular pode ser afectada por agentes ambientais, como,


por exemplo:
— as radiações;
— os vírus;
— as drogas.

54 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


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ACTIVIDADES

Crescimento e regeneração de tecidos versus


diferenciação celular
1. Leia atentamente o texto seguinte, adaptado de um artigo publicado no Jornal de Notícias
de 27 de Novembro de 2006.
No portuense Instituto de Engenharia Biomédica desenvolvem-se biomateriais e métodos
de diagnóstico não invasivos e estudam-se aplicações médicas para as nanotecnologias
(investigação e aplicação ao nível da molécula).
Os biomateriais podem parecer um pouco distantes da nossa realidade quotidiana, mas, se
pensarmos que aquilo com que o dentista nos restaura um dente tem de ser compatível
com o nosso organismo, percebemos que os biomateriais são mais vulgares do que julgamos.
«Trata-se de materiais que são colocados na fractura e actuam como ponte, ligando as duas
partes que se partiram e promovendo o crescimento de novo tecido. Não se trata de uma
mera substituição. Estes materiais promovem a regeneração dos tecidos e depois
degradam-se no organismo», explica o director do INEB.
Se a regeneração óssea já é uma realidade, o mesmo ainda não é possível com lesões
nervosas.
1.1 Classifique como verdadeiras (V) ou falsas (F) as frases que se seguem.
A — Os biomateriais estimulam a mitose das células com as quais contactam.
B — Na regeneração, ocorre formação de células diferentes das que lhe dão origem.
C — Quanto maior é o grau de diferenciação de uma célula, maior é a sua
capacidade de regeneração.
D — Os neurónios regeneram-se facilmente.
E — As células ósseas são células indiferenciadas.
1.2 Comente a frase seguinte, relacionando-a com a importância dos trabalhos referidos
no texto.
«A regeneração de tecidos e órgãos é uma capacidade de todos os seres multicelulares.»

2. A mitose desempenha um papel essencial para os seres vivos. Seleccione a(s)


opção(ões) que não se relaciona(m) com processos em que a mitose desempenha
um papel importante.
A — Crescimento.
B — Regeneração de órgãos.
C — Diferenciação celular.
D — Reparação de tecidos.

3. Seleccione a opção que completa correctamente as frases seguintes.


A formação de uma célula especializada a partir de uma célula indiferenciada faz-se por
(…). Nos (…), este processo é mais complexo, o que pode resultar, entre outros fenómenos,
do facto de esses seres apresentarem (…).
A — diferenciação celular […] procariontes […] compartimentação da célula
B — clonagem […] eucariontes […] maior quantidade de informação genética
C — mitose […] procariontes […] menor quantidade de informação genética
D — diferenciação celular […] eucariontes […] maior quantidade de informação genética

4. Refira as diferenças existentes entre procariontes e eucariontes na regulação da expressão


génica.

5. Comente a afirmação seguinte.


«Nem todos os fumadores desenvolvem cancro do pulmão; no entanto, há maiores
probabilidades de estas pessoas contraírem esta doença.»
5.1 Identifique alguns agentes carcinogéneos com que habitualmente convivemos.

unidade 5 Crescimento e renovação celular 55


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CiênciaTecnologiaSociedadeAmbiente

DOC. 1 Fenilcetonúria
Descrita pela primeira vez em 1934, a fenil- fenilcetonúricos não tratados chega aos 30 mg/dl
cetonúria (PKU), um dos erros hereditários mais e, por vezes, ultrapassa estes valores.
comuns, é uma alteração genética do metabo- O tratamento da PKU é dietético: o objecti-
lismo da fenilalanina que causa atraso mental. vo é manter os níveis de fenilalanina plasmática
Está associada a mutações no braço longo do abaixo dos valores considerados. A taxa de inci-
cromossoma 12 (12q22-12q24.1), no gene que dência da fenilcetonúria é de 1/10 000 recém-
codifica a fenilalanina hidroxilase (PAH); dado -nascidos.
que a fenilcetonúria possui um modo de trans-
Já foram identificadas mais de 328 muta-
missão recessivo, apenas os indivíduos que
ções no gene da PAH. A primeira foi a modifica-
apresentam ambas as cópias do alelo mutado
ção de uma única base (GT para AT).
manifestam os sintomas. Esta enzima catalisa,
no fígado, a transformação da fenilalanina (ami- Actualmente, é possível anular o efeito da
noácido presente nos alimentos e essencial à não funcionalidade desta enzima, retirando
nossa nutrição) em tirosina. Desta insuficiência para análise umas gotas de sangue do bebé
bioquímica vai resultar uma acumulação de feni- («teste do pezinho»), antes de este atingir a
lalanina no sangue, que é posteriormente trans- idade em que, no caso de possuir a deficiência,
formada em ácido fenilpirúvico, inibidor do desen- o cérebro pode ser atingido.
volvimento cerebral, provocando um atraso mental Se a análise que deve ser realizada nos pri-
muito grave em crianças não tratadas. Assim, meiros dias de vida da criança — diagnóstico
enquanto os níveis normais de fenilalanina no precoce — for positiva (se revelar acumulação
sangue são de, aproximadamente, 1 a 3 mg/dl, de fenilalanina), o bebé terá de ser sujeito a um
os níveis de fenilalanina plasmática em doentes regime alimentar pobre nesse aminoácido. Esta
dieta deve ser fornecida à criança desde o nas-
cimento até aos 14 anos, quando o seu sistema
nervoso já não é afectado pelo excesso de feni-
lalanina.
Contudo, é necessário ter em atenção que
o excesso de fenilalanina no sangue das mães
com fenilcetonúria influencia o feto. A fenilala-
nina afecta o sistema nervoso em desenvolvi-
mento, com a probabilidade de as crianças nas-
cerem com microcefalia e atraso mental, a não
ser que a progenitora seja sujeita a uma dieta
pobre em fenilalanina.
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/entrez/
dispomim.cgi?id=261600
http://www.fenilcetonuria.com.br/fenilcetonuria.html
PAH
Fenilcetonúria http://www.cienciaviva.pt/projectos/concluidos/
genomahumano/artigos/
index.asp?lang=pt&accao=showTexto3&projecto=22
Cromossoma 12 http://hdl.handle.net/1822/6246
Fig. 53 Localização do gene PAH no cromossoma 12.

ACTIVIDADES

1. Retire do texto dados que comprovem que a fenilcetonúria é determinada por mutações génicas.
2. Quais são as possíveis consequências deste tipo de mutação génica na vida de uma criança não sujeita
ao «teste do pezinho»?
3. Discuta a importância do Programa Nacional do Diagnóstico Precoce.
4. Informe-se sobre outras doenças metabólicas detectadas pelo «teste do pezinho».

56 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


919354 U5_p036-057 18/1/08 16:36 Page 57

DOC. 2 Talidomida — passado negro,


futuro promissor
Em 1956, a talidomida foi introduzida no (formação de novos vasos sanguíneos num tecido
mercado. Devido às suas características farmaco- vivo) dos membros ou de órgãos internos. Assim,
lógicas, foi largamente utilizada por grávidas no as crianças que, durante o seu desenvolvimento
combate a insónias, ansiedade e enjoos matinais. embrionário, contactaram com esta droga viram
Sendo um medicamento não sujeito a receita prejudicado o alongamento ou a formação dos
médica, o seu consumo espalhou-se rapidamente. seus membros e/ou órgãos internos, como, por
Apesar de este medicamento ter sido testado exemplo, os ouvidos.
previamente, os procedimentos, na época, não Um dos grandes desafios da medicina actual
eram tão exigentes como os actuais. A talidomida é o combate ao aparecimento e à propagação do
tinha sido testada em vários animais, tendo-se cancro. Estudos relativamente recentes provaram
manifestado atóxica. (Mais tarde, veio a descobrir- que a metástase (migração de células tumorais
-se que ela manifestava toxicidade, especialmente para zonas distantes) é precedida de um fenómeno
em coelhos e humanos.) de angiogénese. Nos tumores malignos, as células
No final da década de 50, começam a apare- endoteliais encontram-se dormentes durante algum
cer relatos de crianças com anomalias teratogéni- tempo, podendo, quando sujeitas a determinados
cas, isto é, com malformações que incluíam a factores e estímulos, iniciar fases de crescimento
ausência ou o encurtamento de braços, pernas e activo e a consequente neovascularização.
dedos, além de perturbações no desenvolvimento Conhecendo o modo de funcionamento da
de órgãos internos. talidomida, considerou-se a hipótese de começar
Só em 1961 se estabeleceu a relação directa a administrá-la em doentes com tumores, a fim
entre o nascimento de crianças teratogénicas e o de impedir a sua progressão. A administração da
consumo de talidomida pelas suas mães durante a talidomida é feita, hoje, de forma extremamente
gravidez. Até ser retirada do mercado, estima-se restrita, e os pacientes são obrigados a utilizar méto-
que tenham nascido entre 10 000 e 15 000 crian- dos contraceptivos eficazes, bem como a controlar
ças com estas malformações. regularmente uma possível gravidez.

A talidomida foi alvo de estudos profundos, A talidomida é também usada no combate a


sabendo-se hoje que é uma molécula com carac- infecções graves e aos efeitos da quimioterapia
terísticas químicas semelhantes às das bases púricas nos pacientes a ela submetidos.
do DNA (adenina e guanina). Quando em solução, http://www.ff.up.pt/toxicologia/monografias/ano0506/
talidomida/histria.htm
liga-se rapidamente à guanina, intercalando-se no
DNA em regiões ricas nesta base. Embora a talido- http://www.ff.up.pt/toxicologia/monografias/ano0506/
talidomida/terato.htm
mida não possua efeitos mutagénicos, sabe-se,
http://www.mni.pt/guia/index.php?file=guia-artigo&cod=56
contudo, que é capaz de impedir a correcta trans-
crição de alguns genes envolvidos na angiogénese

ACTIVIDADES

1. Identifique o modo de funcionamento da talidomida que justifica não só os efeitos catastróficos


causados no passado, mas também as esperanças da sua utilização no futuro.
2. Discuta a necessidade de sujeitar os medicamentos a introduzir no mercado a várias fases de
experimentação, devendo passar obrigatoriamente por primatas e, sempre que possível, por humanos.
3. Critique a afirmação seguinte.
«A venda livre de medicamentos, isto é, a não sujeição a receita médica obrigatória, pode ter
consequências negativas para a saúde pública.»
4. Identifique a razão pela qual se exige um rigoroso plano de contracepção aos actuais pacientes
consumidores de talidomida.
5. Apoiando-se em dados do texto, especule sobre a probabilidade de os indivíduos que nasceram vítimas
da talidomida transmitirem as suas malformações aos descendentes.

unidade 5 Crescimento e renovação celular 57


919354 U6_p058-085 18/1/08 16:37 Page 58

unidade 6

58 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


919354 U6_p058-085 18/1/08 16:37 Page 59

Reprodução

6 1 Reprodução assexuada 62

6 2 Reprodução sexuada 75

6 3 Ciclos de vida:
unidade e diversidade 94

Que processos são responsáveis


pela unidade e pela variabilidade celulares?
Reprodução e variabilidade — que relação?
919354 U6_p058-085 18/1/08 16:37 Page 60

unidade
A
6 Reprodução
B C

Quais serão as diferenças na reprodução destes seres vivos?

D E

Serão estes seres vivos da mesma espécie?

F G

O que haverá de comum entre


os fenómenos representados?

O QUE JÁ SABE, OU NÃO...

1. Classifique as afirmações seguintes como verdadeiras (V) ou falsas (F).


A — Todos os seres vivos se reproduzem.
B — Todos os seres vivos possuem células sexuais.
C — Na reprodução assexuada, os descendentes são iguais entre si.
D — Nas plantas, não há reprodução sexuada.
E — Nos animais, a reprodução é sempre sexuada.
F — Na reprodução sexuada, há sempre a intervenção de dois indivíduos.
G — Sempre que os seres se reproduzem, o número de cromossomas do descendente duplica.
H — O grão de pólen é o gâmeta masculino das plantas.
I — Nos animais, os gâmetas têm metade do número de cromossomas das outras células.
J — O ovo é a primeira célula de todos os seres vivos que se reproduzem sexuadamente.

60 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


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INTRODUÇÃO

A reprodução é a capacidade que todos os seres vivos possuem de originar descenden-


tes, idênticos a si, perpetuando, desta forma, a espécie.
Será que todos os seres vivos têm o mesmo tipo de reprodução?
Nos seres vivos, existem dois tipos de reprodução: a reprodução sexuada e a reprodu-
ção assexuada.
Na reprodução sexuada, os progenitores produzem células sexuais, que se unem, ori-
ginando a primeira célula do novo ser: o ovo ou zigoto (Fig. 1).
Na reprodução assexuada, não existe união de células sexuais, sendo o novo ser origi-
nado a partir de um único progenitor.
Quais serão as vantagens e as desvantagens de cada um destes tipos de reprodução?

Todos os seres vivos se reproduzem e podem adoptar diferentes estratégias


para o conseguir.

Fig. 1 Fecundação: a origem de um ovo humano.

unidade 6 Reprodução 61
919354 U6_p058-085 18/1/08 16:37 Page 62

reprodução assexuada asexual 6 1 Reprodução assexuada


reproduction
bipartição binary fission Todos os seres derivam de outros seres, mais antigos, por transfor-
mações sucessivas.
Afirmação atribuída a Anaximandro de Mileto (610-546 a. C.)

Na reprodução assexuada, existe um único organismo pro-


genitor que se divide por mitose e que pode originar, num curto
A RETER
espaço de tempo, um grande número de descendentes. Todos estes
A mitose é o processo de seres são exactamente iguais entre si, denominando-se, por isso,
divisão celular da reprodução
assexuada.
clones. Podem, no entanto, ocorrer mutações espontâneas, que,
desta forma, originam variações nos descendentes.

6 1 1 Estratégias reprodutoras

Existem seres de diversos grupos que se reproduzem assexua-


damente, dos mais simples, os procariontes (bactérias), a alguns de
dimensões consideráveis, como certas plantas e inclusive animais.
Este tipo de reprodução existe igualmente nos protozoários e nos
fungos.
Todos estes seres vivos apresentam diversos tipos de reprodu-
ção assexuada.

Bipartição
No processo da bipartição, que ocorre nos
seres vivos unicelulares, nas bactérias (Fig. 2)
e nos protozoários (Fig. 3), a célula replica o seu
DNA e separa-se em duas células-filhas de dimen-
sões muito semelhantes, geralmente de menores
dimensões do que as do progenitor.
Um processo muito idêntico também ocor-
re em seres de maiores dimensões, como as
anémonas-do-mar (Fig. 4). Neste caso particular
desta estratégia reprodutiva assexuada, ocorre a
divisão longitudinal do organismo.
Fig. 2 Bactérias em bipartição.

Fig. 3 Amebas em bipartição. Fig. 4 Anémonas-do-mar em divisão longitudinal.

62 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


919354 U6_p058-085 18/1/08 16:37 Page 63

Divisão múltipla fragmentação fragmentation

Neste processo, o núcleo do ser divide-se várias vezes, ocor-


rendo a divisão do citoplasma no final. A divisão múltipla pode
ocorrer em alguns protozoários, como o Plasmodium, causador da
malária (Fig. 5).

Fig. 5 Sangue de um indivíduo afectado com malária. Células infectadas com o


endoparasita, que sofreu divisão múltipla (os pontos negros no interior das hemácias
são os núcleos do plasmódio). Quando ocorre a divisão do citoplasma, as células
rompem-se e libertam os parasitas. É a destruição sincronizada de muitas
hemácias que produz a febre e o frio característicos da doença.

Fragmentação
Na fragmentação, o indivíduo divide-se em várias porções,
que originam, cada uma delas, um novo ser. É possível observar
este processo de reprodução na planária (Fig. 6).
O mesmo fenómeno também pode acontecer nas estrelas-do-
-mar, em algas filamentosas ou em fungos (Fig. 7).

Fig. 6 Numa planária, cada fragmento origina, por sua vez, Fig. 7 Fragmento de estrela-do-mar a regenerar o indivíduo
uma nova planária. completo.

unidade 6 Reprodução 63
919354 U6_p058-085 18/1/08 16:37 Page 64

gemulação budding Gemulação


partenogénese parthenogenesis
O processo de gemulação ocorre em leveduras (fungos unice-
lulares) e em cnidários (Figs. 8 e 9). Este processo inicia-se com o
aparecimento de uma pequena protuberância (gema, gémula ou
gomo), que vai crescendo com a mesma aparência que o indivíduo
adulto, até à sua separação.
Este novo indivíduo tem geralmente menores dimensões do
que o progenitor, atingindo as dimensões de adulto já na sua vida
independente.

Fig. 8 Hidra de água doce em


gemulação.

Fig. 9 Anémona-do-mar em gemulação.

Partenogénese
A partenogénese é um processo em que o gâmeta feminino
(óvulo) de algumas espécies de animais se desenvolve, formando
um novo ser, sem que tenha havido fecundação. Por este processo
podem ser originados indivíduos diplóides(1), pela divisão do ovó-
cito (sem que tenha ocorrido formação completa do gâmeta) ou
pela divisão do resultado da fusão do glóbulo polar(1) com o óvulo.
Podem ainda ser originados indivíduos haplói-
des(1) quando se desenvolvem a partir da divisão
do óvulo. Nas abelhas, Apis mellifera, as abelhas-
-rainhas, fêmeas férteis, produzem óvulos haplói-
des que podem ou não ser fecundados pelos
espermatozóides dos zângãos, machos férteis:
• Os óvulos não fecundados, haplóides,
desenvolvem-se por partenogénese e ori-
ginam zângãos haplóides.
• Os óvulos que são fecundados dão origem
a fêmeas, obreiras ou rainha, conforme a
alimentação que tiverem.
Existem muitas outras espécies que se repro-
duzem por partenogénese, como alguns anfíbios,
peixes, répteis (Fig. 10) e até aves.
Fig. 10 Dragão-de-komodo que nasceu por partenogénese
(1)
num jardim zoológico britânico. Nota: Consulte o glossário existente no fim deste manual.

64 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


919354 U6_p058-085 18/1/08 16:37 Page 65

Esporulação esporulação sporulation


esporo spore
O processo de esporulação assexuada ocorre em algumas
multiplicação vegetativa vegetative
espécies de fungos, em que os esporos são originados através do
propagation
processo mitótico.
O processo de esporulação realiza-se na extremidade de hifas
especializadas, dando origem a exósporos (Fig. 11), ou no interior
de estruturas especializadas, os esporângios (Fig. 12), formando-se
os endósporos.

Fig. 11 Exósporos de Penicillium.

Fig. 12 Esporângio de Rhizopus nigricans.

Multiplicação vegetativa
Nas plantas, existe também a possibilidade de obter, por mul-
tiplicação vegetativa, novos indivíduos a partir de diferentes par-
tes do progenitor. Seguem-se alguns exemplos de várias dessas
estratégias reprodutoras.
• Rizomas — caules subterrâneos horizontais, que armaze-
nam substâncias de reserva, podendo, a espaços regulares,
produzir raízes, folhas e flores (Fig. 13). Se houver separação
do rizoma em várias partes, resultam plantas-filhas; é o que
acontece, por exemplo, nos fetos e no trevo.
• Estolhos — caules aéreos, finos, que possuem crescimento
horizontal e originam novas plantas, a espaços regulares,
em cada nó (Fig. 14). Até ao desenvolvimento completo da
planta-filha, esta é alimentada pela planta-mãe. Quando a
planta-filha consegue produzir os seus compostos orgânicos,
o estolho seca e degenera, tornando-a independente; é o que
se verifica, por exemplo, no morangueiro.
Fig. 13 Rizoma.

Fig. 14 Estolhos
de morangueiro.

unidade 6 Reprodução 65
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• Tubérculos — caules subterrâneos entumecidos, como, por


exemplo, a batata (Fig. 15), ricos em substâncias de reserva,
que possuem «olhos» ou gemas, saliências que vão originar
novas folhas e uma nova planta.

Fig. 15 A batata é um tubérculo.

• Bolbos — caules subterrâneos verticais, de forma cónica,


com várias escamas carnudas, podendo cada uma delas ori-
ginar uma nova planta; é o caso da cebola, do alho (Fig. 16) e
dos gladíolos.

Fig. 16 O bolbo do alho (Allium sativum) é constituído por bolbilhos. Cada bolbilho
pode originar uma nova planta.

• Réplicas — pequenas plântulas que são originadas nas extre-


midades das folhas de algumas plantas, como o Bryophyllum
(Fig. 17). Quando formadas, as pequenas plantas caem no
solo e formam raízes, ficando independentes da planta-mãe.
Na agricultura, existe também a possibilidade de propagar as
plantas, nomeadamente as árvores, utilizando processos artificiais.
Estes permitem manter as boas características da planta ou melho-
Fig. 17 Réplicas de Bryophyllum. ram a produção ou a qualidade dos frutos, por exemplo.

66 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


919354 U6_p058-085 18/1/08 16:37 Page 67

A multiplicação de plantas por via vegetativa artificial pode ser


feita de várias maneiras, adaptando-se cada espécie melhor a umas
do que a outras. Estes processos são: estacaria, mergulhia, alpor-
quia e enxertia.

Multiplicação vegetativa artificial


O processo de estacaria consiste em enterrar um ramo de uma
planta, desprovido da maior parte das folhas, que sofreu um corte
na diagonal na zona a enterrar, de maneira a criar raízes (Fig. 18).

Fig. 18 Parreiral obtido por estacaria.

A estacaria pode ser realizada com caules (Fig. 19A), com folhas
(Fig. 19B) ou com raízes (Fig. 19C).

A B C

Fig. 19 Estacaria.

O processo de mergulhia consiste no enraizamento de uma


parte da planta que se pretende propagar. Após a criação de raízes,
procede-se ao destacamento da mesma para obtenção da muda.
unidade 6 Reprodução 67
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A mergulhia é realizada utilizando ramos flexíveis, que se


dobram e enterram parcialmente, ficando a extremidade do ramo
no exterior (Fig. 20).

Fig. 20 Mergulhia.

A alporquia é um processo que ocorre quando não existem


ramos flexíveis que possam ser enterrados. Assim, o ramo é envol-
vido em solo, que se cobre com um plástico, até aquele ganhar raí-
zes (Fig. 21).

Fig. 21 Alporquia.

A enxertia é uma técnica que permite reproduzir e melhorar as


plantas. Na enxertia, promove-se a união dos tecidos de duas plan-
tas, geralmente da mesma espécie, passando a formar-se uma planta
com duas partes: o enxerto e o porta-enxerto. O enxerto é a parte
de cima, que vai produzir os frutos da variedade desejada; o porta-
-enxerto é o sistema radicular, que tem como funções básicas o
suporte da planta, o fornecimento de água e de nutrientes e a adap-
tação às condições do solo, ao clima e às doenças.
A enxertia pode ser realizada por encosto, por borbulha ou por
garfo.
No encosto, aproxima-se do ramo a enxertar uma planta enrai-
zada, que vai servir de porta-enxerto. Desbastam-se ambos os
ramos e põem-se em contacto essas duas zonas até que se unam.
Corta-se depois o ramo enxertado abaixo do enxerto, permanecendo
este unido ao porta-enxerto (Fig. 22).
68 BIOLOGIA A vida e os seres vivos
919354 U6_p058-085 18/1/08 16:37 Page 69

Fig. 22 Enxertia de encosto.

Na enxertia de borbulha utiliza-se uma porção da planta a pro-


pagar (borbulha ou gema) que vai ser fixada ao porta-enxerto, após
o corte de parte do mesmo (abertura em forma de T, que pode ser
normal ou invertido). Por último, ligam-se as duas regiões para que
se mantenha o contacto (Fig. 23).

Gema
A B
Xilema Ráfia
e floema

Borbulha

Porta-enxerto
Enxerto

Fig. 23 Enxertia de borbulha (A); borbulha no porta-enxerto (B).

Na enxertia de garfo utiliza-se um ramo da planta que se pre-


tende enxertar e que vai ser inserida numa fenda do porta-enxerto A RETER
(Fig. 24).
REPRODUÇÃO
Enxerto (garfo) ASSEXUADA
A B
Bipartição

Divisão múltipla

Fragmentação

Ráfia Gemulação

Partenogénese

Multiplicação
vegetativa
Porta-enxerto

Fig. 24 Enxertia de garfo. Esporulação

unidade 6 Reprodução 69
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Vantagens e desvantagens da reprodução


assexuada
A reprodução assexuada é um processo natural de clonagem,
método de replicação do organismo parental através do qual, por
mitoses, se obtêm cópias geneticamente iguais às do progenitor —
os clones. Uma das vantagens deste processo é os seres vivos que
não se deslocam para outros locais ou que vivem isolados poderem
reproduzir-se sem necessidade de encontrar um parceiro e sem
gasto de energia na produção de gâmetas e na fecundação. Outra
vantagem é a possibilidade de um rápido crescimento populacio-
nal, por exemplo, nas bactérias (que se reproduzem em menos de
três horas, cerca de trinta minutos em algumas espécies), se existi-
rem condições favoráveis, obtêm-se populações de milhões de seres
em pouco mais de vinte e quatro horas.
Na agricultura, a possibilidade de as plantas se propagarem
vegetativamente proporcionou, ao longo do tempo, a produção de
grande número de plantas, com um mínimo de esforço e despesa.
Na realidade, muitas das árvores de fruto e ornamentais foram pro-
pagadas assexuadamente a partir de caules ou folhas de uma planta
com boas características. Muitas outras plantas são propagadas a
partir de fragmentos de raízes ou caules subterrâneos (por exem-
plo, as batatas).
As plantas também podem ser multiplicadas em laboratório,
utilizando técnicas de cultura de células (Fig. 25). A partir de frag-
mentos de um único exemplar (progenitor), os cientistas isolam
células e promovem o seu desenvolvimento em novos indivíduos.
Com estas técnicas, é possível chegar a um número ilimitado de
seres geneticamente iguais e, desta forma, obter-se plantas de
reprodução lenta (por exemplo, coqueiros) ou plantas com caracte-
rísticas especiais (por exemplo, flores grandes, como as orquídeas).
Esta técnica produz um elevado número de plantas todas iguais,
Fig. 25 Planta em crescimento numa num período de tempo reduzido (Fig. 26).
cultura de células. Cada uma destas
células, se isolada das restantes Podem ainda ser utilizadas técnicas de engenharia genética,
e em meio nutritivo propício, pode que melhoram as características originais das plantas, introduzindo
originar uma planta completa.
genes com interesse nas células que vão ser clonadas.
Estas técnicas são aplicadas para obter mono-
culturas, grandes áreas com uma única variedade
de planta que apresenta grande interesse, do
ponto de vista económico, para o Homem.
A grande desvantagem da reprodução asse-
xuada é o facto de todos os descendentes do
mesmo progenitor serem geneticamente iguais
(a população é uniforme). Se as condições
ambientais do local se modificarem e deixarem
de ser propícias a esses indivíduos, estes podem
desaparecer. Numa população com variabilidade
genética, porém, alguns seres conseguem sobre-
Fig. 26 Planta de macieira obtida por cultura de células, em viver nas novas condições ambientais e, por isso,
meio nutritivo propício. manter-se.
70 BIOLOGIA A vida e os seres vivos
919354 U6_p058-085 18/1/08 16:37 Page 71

ACTIVIDADE LABORATORIAL

OBSERVAÇÃO MICROSCÓPICA DE LEVEDURAS EM GEMULAÇÃO


Não se esqueça de:
E DE BOLORES EM ESPORULAÇÃO
• usar bata;
Material • cumprir as regras de
segurança do laboratório.
• Glucose. • MOC. • Água destilada.
• Pipeta de Pasteur. • Agulha de dissecação. • Estufa.
• Lamelas. • Caixa de Petri. • Laranja madura.
• Proveta. • Matraz. • Pão.
• Fermento de padeiro. • Lâminas. • Pinça.

Procedimento
Observação 1
1 — Coloque num matraz 80 mL de água destilada.
2 — Dissolva 10 g de glucose e perfaça 100 mL de solução.
3 — Adicione 10 gramas de fermento de padeiro.
4 — Tape e coloque o matraz na estufa a 25 ºC. Aguarde 40 minutos.
5 — Com a pipeta, retire um pouco do conteúdo do matraz e monte-o
entre a lâmina e a lamela.
6 — Observe a preparação ao MOC, utilizando objectivas de ampliação
diferente. Procure encontrar leveduras em divisão. Fig. 27 Leveduras.
7 — Faça um esquema legendado das observações efectuadas.
8 — Registe, se possível, o tempo que uma levedura leva a dividir-se (para tal, foque uma levedura no início
do processo de divisão e, sem mexer na preparação, observe-a até à separação das duas células).
Observação 2
1 — Corte rodelas de laranja, coloque-as numa caixa de Petri e deixe-as
expostas ao ar durante 24 horas.
2 — Cubra a caixa com papel de alumínio.
3 — Coloque-a num local húmido e quente durante cerca de uma semana.
4 — Observe a laranja à lupa e esquematize o que vê.
5 — Retire, com a ajuda da pinça e da agulha, uma pequena porção
do micélio formado sobre a laranja. Monte-a sobre uma gota de água
destilada, entre a lâmina e a lamela. Fig. 28 Penicillium
6 — Observe a preparação ao MOC em várias ampliações. (exósporos).
7 — Faça um esquema legendado das observações efectuadas.
Observação 3
1 — Coloque um pouco de pão humedecido noutra caixa de Petri
e deixe-o exposto ao ar durante 24 horas.
2 — Cubra a caixa com papel de alumínio.
3 — Conserve-a num local húmido e quente durante cerca de uma semana.
4 — Observe o pão à lupa e esquematize o que vê.
5 — Retire, com a ajuda da pinça e da agulha, uma pequena porção
do micélio formado sobre o pão e monte-a sobre uma gota de água
Fig. 29 Bolor do pão
destilada, entre a lâmina e a lamela.
(endósporos).
6 — Observe ao MOC utilizando diferentes ampliações.
7 — Faça um esquema legendado das observações efectuadas.

Discussão
1 — Descreva o processo global de divisão das leveduras.
2 — Quais são as características dos descendentes relativamente ao progenitor?
3 — Mencione algumas vantagens do processo de reprodução assexuada na manutenção das espécies.
4 — Calcule ao fim de quanto tempo existirá uma colónia de aproximadamente 1000 leveduras, tendo
em conta o tempo de divisão das mesmas.
5 — Caracterize o processo de formação de esporos no pão e na laranja.
6 — Quantos serão os cromossomas dos esporos em relação à célula-mãe dos esporos?
7 — Caracterize os seres formados por este processo de reprodução assexuada.

unidade 6 Reprodução 71
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Conceitos/Palavras-chave

Necessários Essenciais Complementares

• Mitose • Bipartição • Divisão múltipla


• Fragmentação
• Gemulação
• Partenogénese
• Multiplicação vegetativa
• Esporulação
• Esporo

Síntese de conhecimentos

• Todos os seres vivos se reproduzem.


• Na reprodução assexuada, há um único ser vivo progenitor, que, por mitose, pode originar
grande número de descendentes num curto espaço de tempo.

EXISTEM DIVERSOS TIPOS DE REPRODUÇÃO ASSEXUADA

Bipartição Divisão múltipla Fragmentação Gemulação

Partenogénese Multiplicação vegetativa Esporulação

• A reprodução assexuada é um processo natural de clonagem, permitindo obter


descendentes geneticamente iguais ao progenitor, os clones.
• As vantagens da reprodução assexuada são:
— a obtenção de descendentes sem necessidade de um parceiro;
— ausência de gasto de energia na produção de gâmetas e na fecundação;
— um rápido crescimento populacional.
• A desvantagem da reprodução assexuada é a existência de uniformidade genética em todos
os descendentes. A uniformidade genética pode provocar o desaparecimento rápido da totalidade
dos descendentes, se existirem modificações ambientais e as novas condições forem
desfavoráveis.

72 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


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ACTIVIDADES

Reprodução assexuada
1. Observe as imagens seguintes e responda às questões.

A B

1.1 Identifique os processos de reprodução assexuada representados nas imagens.


1.2 Quais são as principais diferenças existentes entre os processos A e B?
1.3 Fundamente a afirmação seguinte.
«A Natureza pode ser colonizada muito facilmente com processos deste tipo.»
1.4 Justifique a afirmação seguinte.
«Na reprodução assexuada, o progenitor e os descendentes possuem as mesmas
características genéticas.»

2. Classifique como verdadeiras (V) ou falsas (F) as afirmações seguintes.


A — Na reprodução assexuada, os descendentes são diferentes do progenitor.
B — A reprodução assexuada pode ser considerada um processo de clonagem.
C — Na reprodução assexuada, podem ocorrer muito frequentemente mutações génicas.
D — A reprodução assexuada implica uniformidade entre os descendentes e o progenitor.
E — O processo de divisão celular que ocorre na reprodução assexuada é a mitose.

3. Observe as imagens seguintes e responda às questões.

A B

3.1 Identifique os processos de reprodução assexuada representados nas imagens.


3.2 Explique os processos representados, indicando as diferenças e as semelhanças entre
eles.
3.3 Qual é o processo de divisão nuclear que ocorre neste tipo de reprodução assexuada?

unidade 6 Reprodução 73
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ACTIVIDADES

3.4 Os corais são, na sua maioria, provenientes de reprodução assexuada. Quais são as
possíveis consequências de alterações ambientais que ocorram eventualmente nos
recifes de coral?

4. Seleccione a opção que completa correctamente a afirmação.


Um exemplo de processo de multiplicação vegetativa…
A — … é a bipartição.
B — … é a gemulação.
C — … é a fragmentação.
D — … são os estolhos.
E — … é a partenogénese.

5. Observe a figura e responda às questões.


5.1 Fundamente a afirmação seguinte.
«As réplicas que se encontram na extremidade
desta folha de Bryophyllum são clones.»
5.2 Seleccione a opção que completa
correctamente a frase.
No tipo de reprodução representado existe…
A — … mitose.
B — … meiose.
C — … síntese proteica.
D — … síntese de DNA.
E — Duas das opções anteriores.
F — Três das opções anteriores.

6. Seleccione a opção que completa correctamente a afirmação seguinte.


A partenogénese é o desenvolvimento de um embrião a partir de…
A — … um óvulo fecundado.
B — … um ovo.
C — … um óvulo não fecundado.
D — … um espermatozóide.
E — … uma célula somática.

7. Estabeleça a relação correcta entre a chave e as expressões.

CHAVE

A — Vantagem da reprodução assexuada


B — Desvantagem da reprodução assexuada

EXPRESSÕES

I. Rápida colonização.
II. Ausência de variabilidade genética.
III. Inexistência de gasto de energia na procura de parceiro.
IV. Baixa resistência a alterações ambientais.

8. Refira as vantagens económicas e sociais para o Homem, da reprodução assexuada


de algumas espécies vegetais.

9. Pesquise a existência de desvantagens para o ambiente, da utilização massiva pelo Homem


de métodos de reprodução assexuada de espécies vegetais.

74 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


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6 2 Reprodução sexuada gâmetas gametes

E há mais. Para tornar fecunda uma perdiz, basta que ela se encon-
tre sob o vento: muitas vezes bastou mesmo ouvir o canto do macho num
tempo em que estivesse disposta a conceber, ou que o macho tivesse passado
voando por cima dela e ela tivesse respirado o odor que ele exalava.
ARISTÓTELES

Ao observarmos atentamente o mundo vivo à nossa volta,


torna-se evidente a semelhança entre os descendentes e os seus
progenitores, independentemente da espécie em causa. Facilmente
nos apercebemos também de que, embora ocorra uma imensa
diversidade, existem muitas características comuns entre todos os A RETER
indivíduos da mesma espécie. Na reprodução sexuada ocorre
a união de duas células sexuais
Por outro lado, faz parte das concepções fundamentais da Biolo- para a formação de um ovo
gia, já desde o século XIX, a ideia de que todas as células provêm de ou zigoto.
outras, preexistentes, assim como se sabe já há bastante tempo que
alguns seres vivos se reproduzem sexuadamente, ou seja, necessitam
de promover a união de duas células especializadas para concretiza-
rem a sua perpetuação em novos indivíduos.
Estas duas células especialmente diferenciadas, os
gâmetas, unem-se numa única nova célula, o ovo ou
zigoto, através de um processo designado por fecun-
dação (Fig. 30). É este fenómeno que leva a questionar
o processo de formação destas células sexuais. Teori-
camente, se os gâmetas fossem produzidos por mitose,
o ovo ou zigoto resultante da fecundação deveria pos-
suir o dobro dos cromossomas de cada gâmeta. Uma
alteração tão drástica no número de cópias de cada
gene deveria acarretar diferenças significativas de gera-
ção para geração. Foram estes factos que tornaram
evidente que deveria existir um mecanismo especial
de divisão celular que permitisse reduzir para metade Fig. 30 Na formação de um ovo (animal) há união
o número de cromossomas destas células. de um óvulo com um espermatozóide.

ACTIVIDADE
N.º DE PARES DE
NÚMERO DE CROMOSSOMAS DE VÁRIAS ESPÉCIES SER VIVO
CROMOSSOMAS
Mosca 06
1. Observe e analise o quadro ao lado, que se refere ao número de pares
de cromossomas de várias espécies, animais e vegetais, e responda Arroz 12
às questões que se seguem. Sapo 13
Macaco 21
1.1 Apresente uma hipótese para explicar o facto de se verificar
Homem 23
sempre, para qualquer espécie com reprodução sexuada,
um número par de cromossomas. Batateira 24
Cavalo 32
1.2 Se os gâmetas do sapo possuíssem um número de cromossomas
Cão 39
igual ao representado, qual seria o número de cromossomas
Cabra 52
de uma célula somática deste animal ao fim de quatro gerações?
1.3 Qual deverá ser o número de cromossomas dos gâmetas do cavalo para assegurar a manutenção
da quantidade de cromossomas na espécie?

unidade 6 Reprodução 75
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meiose meiosis 6 2 1 Meiose e fecundação


diplóide diploid
haplóide haploid A reprodução sexuada envolve a ocorrência, alternada, de
divisão reducional reduction division fecundação e meiose, um tipo de divisão nuclear que ocorre ape-
divisão equacional equational division nas em células diplóides especializadas, em alturas particulares da
vida de um organismo, e que difere da mitose, pois assegura a
redução do número de cromossomas para metade.
Esta divisão nuclear acontece quando um determinado tipo de
célula diplóide (2n), ou seja, com a quantidade de cromossomas
característica das células somáticas da espécie, necessita de criar
células sexuais — gâmetas — com um número de cromossomas
reduzido a metade — célula haplóide (n).
A divisão celular meiótica é um fenómeno observável em
alguns tipos de tecidos específicos, como, por exemplo, aqueles
que pertencem aos órgãos sexuais, responsáveis pela produção das
células sexuais (gamêtas ou esporos).

FORMAÇÃO DE GÂMETAS
As células somáticas são todas as células diplóides de um organismo,
com excepção dos gâmetas e das células que lhes deram origem.
As células germinativas encontram-se nos órgãos sexuais, são diplóides
e têm capacidade de sofrer meiose para originar gâmetas (haplóides).
As células sexuais são células haplóides especializadas na reprodução.

Gâmetas
Ovo

n
Meiose

Fecundação n
2n

Fig. 31 Por cada par de cromossomas existente nas células somáticas,


um cromossoma será de origem materna, e o outro, de origem paterna.

Meiose
Este tipo de divisão nuclear faz parte de um ciclo celular espe-
cial em que ocorrem várias etapas até à formação das células-filhas:
a interfase pré-meiótica, a meiose e a citocinese.
Embora possa parecer que este tipo de ciclo é em tudo seme-
lhante ao anteriormente estudado, e em que a divisão do núcleo
acontecia por mitose, existem profundas diferenças, pois a meiose
implica duas divisões celulares que originam quatro células haplóides:
• a primeira (meiose I) é uma divisão reducional — produz
A RETER duas células haplóides a partir da célula diplóide inicial;
Através da meiose, uma célula • a segunda (meiose II) é uma divisão equacional — separa
diplóide (2n) forma quatro
os cromatídeos-irmãos das células haplóides anteriormente
células-filhas haplóides (n).
formadas.
76 BIOLOGIA A vida e os seres vivos
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O processo inicia-se com a interfase, ao longo da qual ocorre o cromossomas homólogos homologous
chromosomes
crescimento da célula germinativa e a replicação do DNA. Como na
crossing-over crossing-over
mitose, também aqui se consideram três etapas:
• a fase G1, em que se inicia o crescimento celular;
• a fase S, em que o DNA duplica;
• a fase G2, em que termina a preparação para a meiose com A RETER
a síntese de proteínas e a conclusão do crescimento celular. Na meiose acontece uma
Após este período, tem lugar a meiose, que consiste em duas divisão reducional (meiose I)
logo seguida de uma divisão
divisões celulares sequenciais e complementares (podendo ocorrer, equacional (meiose II). Antes
ou não, um período de separação, muito breve, entre ambas) com destas fases, ocorre uma única
uma única duplicação no DNA (na já referida fase S da interfase replicação do DNA durante
a interfase.
inicial).

Meiose I (divisão reducional)


Compreende quatro fases distintas: prófase I, metáfase I, aná- A RETER
fase I e telófase I.
MEIOSE I
A prófase I é uma fase longa, em que ocorrem fenómenos
complexos e extremamente importantes. Em alguns organismos Prófase I
pode ter a duração de vários anos. Metáfase I
Os cromossomas, agora já duplicados devido aos fenómenos
Anáfase I
da fase S, iniciam a sua condensação. Apresentam-se então muito
finos, havendo dificuldade em distinguir os dois cromatídeos- Telófase I
-irmãos, mas ao longo do processo vão ficando mais espessos e
mais curtos.
CURIOSIDADE
Nas células diplóides, como na célula germinativa original,
cada cromossoma aparece representado duas vezes, sendo cada um Na mulher, a formação de gâme-
tas inicia-se durante o desenvol-
dos elementos do par proveniente de um dos progenitores. Assim, vimento embrionário. Porém, a
nesta fase da meiose, e devido ao espessamento dos cromossomas, meiose I fica bloqueada na pró-
é possível a visualização dos dois cromossomas do mesmo par — fase I, e o processo é retomado e
cromossomas homólogos. concluído só quando a rapariga
atinge a adolescência.
Verifica-se, então, um emparelhamento dos cromossomas homó-
logos (Fig. 32), designado por sinapse. Nesta fase, o termo «bivalente»
pode ser utilizado para referir o par de homólogos, e o termo «tétra-
da», para designar os quatro cromatídeos que compõem um par.
Durante este período, ocorre uma aproximação tão estreita
entre os dois cromossomas homólogos, que pode promover a troca
de fragmentos entre os seus cromatídeos — crossing-over.

Crossing-over

A RETER

Na prófase I há emparelhamento
dos cromossomas homólogos,
e os seus cromatídeos trocam
Fig. 32 Na prófase I ocorre fragmentos através de
emparelhamento dos crossing-over.
cromossomas homólogos.

unidade 6 Reprodução 77
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CROMOSSOMAS
Numa célula diplóide da espécie humana, à excepção do par de cromossomas sexuais, que pode possuir
dois cromossomas diferentes (XY no caso do homem), todos os outros possuem dois cromossomas
(homólogos) com forma, tamanho e informação genética equivalentes.
Os dois cromossomas de um par de homólogos encontram-se durante a fecundação, tendo um origem materna,
e o outro, origem paterna.
As células somáticas humanas possuem 46 cromossomas,
ou seja, 23 pares de cromossomas homólogos. Assim,
diz-se que, no homem, as células somáticas são diplóides
(2n=46) e os gâmetas são haplóides (n=23).

Fig. 33 No caso da mulher, o par de cromossomas


sexuais é constituído por dois cromossomas X.
Como cada um deles provém de um dos
progenitores, as informações contidas nos seus
genes, embora equivalentes, podem ser
diferentes (exemplo: surdez versus audição
normal).

ACTIVIDADE

CROSSING-OVER

1. Analise a figura seguinte, que representa esquematicamente o crossing-over, e responda às questões.

Origem Origem
A B
paterna materna

Par de cromossomas
homólogos
Fig. 34 Na prófase I, ocorre crossing-over, uma interacção entre cromatídeos
de um par de homólogos que origina novas combinações de genes.

1.1 Compare os cromatídeos-irmãos do cromossoma A, antes e depois do crossing-over, e indique o que


se verifica relativamente a:
a) forma e dimensões;
b) origem do material genético.

O crossing-over promove uma recombinação do material genéti-


co por meio da ruptura, e posterior ligação, de porções análogas
de cromatídeos-irmãos, de forma recíproca, devido ao seu empare-
lhamento íntimo. Originam-se, assim, dois cromatídeos (de um
mesmo par de cromossomas homólogos) que, apesar de completos,
possuem alelos (formas alternativas da existência de cada gene)
diferentes das combinações alélicas originais.
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Os cromossomas homólogos começam, então, a repelir-se


lentamente, e os seus quatro cromatídeos são agora bem visíveis.
O número de crossing-overs que ocorrem por meiose e entre cada
par de homólogos é, em regra, reduzido.
Por fim, o nucléolo e a membrana nuclear dissociam-se, e os
centrossomas, contendo cada um deles um par de centríolos (no
caso das células animais), já divididos, afastam-se para pólos opos-
Placa equatorial
tos e iniciam a formação dos microtúbulos.
Fig. 35 Na metáfase I, os cromossomas
Durante a metáfase I, o fuso acromático diferencia-se comple- homólogos dispõem-se na placa
tamente, e os bivalentes alinham num plano mediano na célula, equatorial.
entre os dois pólos, constituindo a placa equatorial.
Os dois cromossomas homólogos de um par alinham-se na A RETER
placa equatorial em posições paralelas (um mais perto de um pólo Na metáfase I, cada par
e o outro mais perto do pólo contrário). Encontram-se ligados aos de cromossomas homólogos
dispõe-se paralelamente na
microtúbulos do fuso pelos centrómeros e estão posicionados de placa equatorial, sendo
forma que cada um deles está mais próximo de um dos pares de aleatória a posição ocupada
centríolos (pólos do fuso). por cada elemento do par.

ACTIVIDADE

NÚMERO DE COMBINAÇÕES POSSÍVEIS NA SEGREGAÇÃO DE CROMOSSOMAS

1. Se, numa determinada célula diplóide, existirem três pares de cromossomas homólogos, estes poderão
colocar-se na placa equatorial, durante a metáfase I, em quatro disposições diferentes. Assim, poderão
surgir nos gâmetas oito combinações diferentes entre os cromossomas maternos e paternos (23 ⫽ 8).
A fórmula geral é 2n, em que 2 é o número de alelos, materno e paterno, de cada gene, e n é o número
de pares de cromossomas.
Analise a imagem e responda à questão.

ou

1 2 3

Combinações possíveis

ou
ou

Fig. 36 A disposição dos homólogos na placa equatorial vai condicionar o património


genético das células-filhas, já que, na ascensão polar, os cromossomas vão migrar
para os pólos de acordo com a posição que aqui ocupam.

1.1 Considerando que, numa célula germinativa humana (diplóide), existem 23 pares de cromossomas
homólogos, calcule o número de combinações possíveis aquando da formação de um gâmeta
(haplóide).

unidade 6 Reprodução 79
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Na anáfase I, os microtúbulos encurtam e cada um dos cro-


mossomas homólogos migra para um dos pólos opostos. Ocorre,
assim, a segregação dos homólogos, sem que tenha havido separa-
ção dos centrómeros (Fig. 37). Os diferentes pares de cromossomas
separam-se, dirigindo-se para um dos pólos da célula. Esta ascen-
são polar acontece de forma aleatória, sendo possível qualquer
combinação desde que os dois elementos do par se desloquem para
pólos opostos. Os cromossomas homólogos paternos e maternos
são, assim, repartidos pelos dois pólos por recombinação intercro-
mossómica.

A RETER

Na anáfase I, deverá ocorrer


separação dos homólogos,
deslocando-se cada elemento
do par para um dos pólos.
Fig. 37 Segregação dos homólogos durante a anáfase I.

Na telófase I, os cromossomas, constituídos por dois cromatí-


deos-irmãos, voltam a alongar-se, descondensando o seu material
genético, tornando-se menos visíveis. O nucléolo reaparece, assim
como a membrana nuclear. Volta a ocorrer síntese proteica, e, por
fim, o citoplasma sofre divisão. Estão agora formadas duas células
haplóides, cada uma delas com um cromossoma de cada um dos
pares de homólogos (Fig. 38).

A RETER

Na telófase I, os cromossomas
chegam aos pólos da célula e
completa-se a primeira divisão
da meiose.
Fig. 38 No final da telófase I formam-se duas células haplóides.

Meiose II (divisão equacional)


Esta segunda divisão pode ou não iniciar-se imediatamente a
seguir à telófase I. No entanto, em qualquer uma das situações,
nunca ocorrerá nova síntese de DNA.
Na prófase II, o par de centríolos volta a dividir-se, e estas
novas estruturas encaminham-se para pólos opostos.
80 BIOLOGIA A vida e os seres vivos
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O nucléolo e a membrana nuclear voltam a sofrer desorganiza-


ção e desaparecem. Os microtúbulos iniciam a formação do fuso
A RETER
meiótico.
Entre a meiose I e a II não
Os cromossomas, cada um constituído por dois cromatídeos- ocorre replicação do DNA.
-irmãos ligados pelo centrómero, iniciam a sua condensação.
A metáfase II começa com a deslocação dos cromossomas para
a região mediana da célula, entre os dois pólos.
O fuso meiótico fica então formado, e cada um dos cromosso-
mas fica posicionado de tal forma que cada cromatídeo-irmão esta-
belece ligação firme apenas com os microtúbulos que emanam de
um dos pólos. Esta fase termina com a formação da placa equato-
rial, em que os cromatídeos permanecem ligados ao fuso.
Na anáfase II, o centrómero de cada um dos cromossomas A RETER
sofre divisão longitudinal, fazendo com que os dois cromatídeos- Na anáfase II acontece
-irmãos se libertem, podendo deslocar-se para pólos opostos devi- a separação dos
do a proteínas motoras e a interacções dos centrómeros com os cromatídeos-irmãos,
deslocando-se os elementos
microtúbulos em encurtamento. Cada cromatídeo passa agora a ser do par para pólos opostos.
considerado um cromossoma, pois ganha individualidade.
A meiose finaliza-se com a telófase II, durante a qual os cro-
mossomas terminam a migração para os pólos e os núcleos são
reconstituídos com a diferenciação do invólucro nuclear e do
nucléolo, formando-se assim quatro núcleos haplóides (Fig. 39).

Fig. 39 Na meiose II ocorre divisão equacional e formam-se quatro células-filhas


haplóides.

O fenómeno de citocinese, que teve o seu início na anáfase II,


A RETER
conclui-se logo que termina a migração dos cromossomas para os
pólos. Todas as estruturas e organitos são distribuídos equitativa- MEIOSE II
mente pelas células-filhas, ocorre a formação de um anel contráctil
de microfilamentos de actina e miosina (proteínas) e, como na Prófase II
mitose, o processo termina quando as novas células estão comple- Metáfase II
tamente individualizadas.
Anáfase II
No caso das células vegetais, o modo de formação da parede
celular é semelhante ao que foi descrito na mitose. Telófase II

unidade 6 Reprodução 81
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mutação cromossómica chromosome Regulação da meiose


mutation
Também durante este tipo de divisão celular, em que o núcleo
se divide por meiose, existem mecanismos moleculares reguladores.
Com os avanços na biologia molecular foi possível obter mui-
tos dados sobre estes mecanismos reguladores. Conhecem-se já
inúmeras proteínas que interagem para assegurar que a progressão
do fenómeno ocorra dentro da normalidade. A finalização da fase
G1 e o início da fase S, a entrada da célula em divisão nuclear (meiose),
o estado dos cromossomas na prófase I ou os acontecimentos da
metáfase II são exemplos de alguns momentos-chave para o sucesso
do fenómeno e que são regulados por estes complexos proteicos.
A RETER Ainda em relação a esta progressão das células germinativas ao
Durante a divisão celular
longo do ciclo celular meiótico, pode dizer-se que outros factores,
(interfase e meiose), existem extracelulares, são também responsáveis pelo decorrer das diferen-
vários pontos de controlo. tes etapas. No entanto, apesar de muitos pontos de controlo asse-
gurarem o sucesso deste fenómeno, por vezes podem subsistir
erros que vão originar, no final, gâmetas com deficiências quanto
ao número ou à morfologia dos cromossomas.
As células formadas, haplóides, deverão ter um número de cro-
mossomas correspondente a metade daquele que existia numa
célula somática. Na anáfase I, a segregação tem de ocorrer entre os
pares de homólogos, para que cada nova célula receba um repre-
sentante de cada par. Se este fenómeno não decorrer dentro da nor-
malidade, é possível que, no final, os gâmetas tenham um número
de cromossomas diferente ao esperado (Fig. 40). Um fenómeno
semelhante pode resultar de anomalias na anáfase II.
Também através do crossing-over, descrito na prófase I, poderão
ocorrer alterações que levem à perda, à troca ou à repetição de por-
ções de DNA (um ou vários genes) (Fig. 41).
Estas alterações, mutações cromossómicas, podem afectar
o número de cromossomas (como no primeiro caso) ou a sua
Fig. 40 A síndrome de Down é causada
morfologia (quando existe alteração na sequência de genes). No
pela trissomia do par 21 (três entanto, em ambas as situações se formam gâmetas que, se vierem
cromossomas em vez dos dois a ser utilizados numa fecundação, originam uma célula, o ovo,
habituais). com uma carga genética diferente do normal, o que, provavelmen-
te, resulta no desenvolvimento de um organismo com algum tipo
de deficiência.

Duplicação Deleção
Porção de
cromossoma
removida

Porção de cromossoma
duplicada

Fig. 41 A alteração na estrutura dos cromossomas dos gâmetas, tanto por perda como
por duplicação de porções destes (onde se encontram inúmeros genes), são
mutações que levam a deficiências no novo ser.

82 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


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ACTIVIDADE LABORATORIAL

OBSERVAÇÃO DE FASES DA MEIOSE

Teoria Que alterações ocorrerão Conclusão


Reprodução sexuada — meiose. numa célula durante
a meiose?
Princípios

Conceitos Resultados

Procedimento
1 — Observe ao microscópio, na objectiva de menor ampliação, as preparações definitivas da meiose,
conseguindo uma perspectiva geral do material.
2 — Utilize a objectiva de ampliação média, seleccionando regiões que lhe parecem conter células
em meiose. Recorra à imagem seguinte como auxílio no seu trabalho e consulte o manual para
esclarecer as suas eventuais dúvidas.
3 — Esquematize, legendando, as diferentes fases da meiose que for observando. Atente em todas
as fases da meiose I e da meiose II.
4 — Apresente uma justificação para a designação que atribuiu a cada uma das fases.
5 — Responda à questão central desta actividade.

B B1

C D E F

Fig. 42 Fases da meiose em Lilium


grandiflorum. Prófase I (A); metáfase I (B);
G H I metáfase I, em corte longitudinal (B1);
anáfase I (C); telófase I (D); prófase II (E);
metáfase II (F); anáfase II (G); telófase II (H);
citocinese (I).

unidade 6 Reprodução 83
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PESQUISAR E DIVULGAR

Algumas anomalias genéticas podem ser detectadas antes do nascimento. Para isso, os médicos recorrem a vários
exames, dos quais se salientam a amniocentese e a colheita de amostras de vilosidades coriónicas (protuberâncias
minúsculas da placenta). A obtenção de uma amostra de sangue do cordão umbilical (análise percutânea
de sangue umbilical) é também útil para fazer análises rápidas de cromossomas, sobretudo no final da gravidez,
quando na ecografia se tiverem detectado anomalias no feto. Muitas vezes, os resultados obtêm-se em 48 horas.

Fig. 43 A amniocentese e a colheita de amostras de vilosidades coriónicas são métodos


que ajudam a detectar anomalias no feto.

ALGUMAS DOENÇAS GENÉTICAS DETECTÁVEIS ANTES DO NASCIMENTO

Doença Incidência
Fibrose quística 1 em cada 2500 pessoas de etnia caucasiana
Distrofia muscular de Duchenne 1 em cada 3300 nascimentos masculinos
Hemofilia A 1 em cada 8500 nascimentos masculinos
Doença de Huntington 4 a 7 em cada 100 000
Drepanocitose 1 em cada 400 pessoas de etnia africana nos EUA
http://www.manualmerck.net/?url=/artigos/%3Fid%3D268%26cn%3D1759 (adaptado)

Além destas tecnologias, que podem auxiliar na resolução de problemas relacionados com a reprodução humana,
existe hoje uma grande variedade de métodos para ultrapassar obstáculos que impedem um casal de conseguir
a formação de gâmetas, a fecundação ou mesmo a gestação.
A investigação na manipulação da reprodução humana é uma das áreas de estudo em relevo no panorama
científico da actualidade. A lei portuguesa (Lei n.º 32/2006, de 26 de Julho) define já o que é lícito praticar-se,
em Portugal, no âmbito da Procriação Medicamente Assistida (PMA).

• Recolha outras informações sobre doenças genéticas detectáveis antes do nascimento.


• Analise o texto apresentado à direita, sobre uma mulher que foi mãe aos 64 anos, e pesquise sobre o assunto.
Algumas sugestões de orientação da pesquisa:
— O que é a fertilização in vitro?
— Em que situações é aplicada? CURIOSIDADE
— É praticada no nosso país? Uma turca de 64 anos foi mãe, tendo-se
• Organize um pequeno dossier sobre estes temas (diagnóstico tornado a segunda mulher mais velha
pré-natal e PMA), onde poderá arquivar os artigos de interesse que a dar à luz. Memnune Tiryaki tentava
encontrou sobre o assunto. engravidar havia 35 anos. O seu desejo
• Escreva um pequeno artigo exprimindo a sua opinião, devidamente concretizou-se graças à fertilização in vitro.
fundamentada, e discuta-o com a turma.

• Consulte, por exemplo, os sítios seguintes:


— http://jn.sapo.pt/2006/01/03/sociedade/contaminacao_dna_fertilizacao_in_vit.html
— http://saude.sapo.pt/gP9B/295111.html
— http://www.igc.gulbenkian.pt/static/medpub_docs/media/dna/definicoes.html

84 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


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6 2 2 Reprodução sexuada e variabilidade

Devido ao facto de, na meiose, ocorrerem duas divisões conse-


cutivas com uma única duplicação do DNA, o resultado final é a
formação de células haplóides capazes de participar no processo de
fecundação, originando um ovo com o número de cromossomas
característico das células somáticas da espécie. Assim, unindo-se os
gâmetas (n) masculino e feminino, é reposta, na nova célula diplói-
de (2n), a quantidade de DNA.
Quantidade de DNA
A quantidade de DNA duplica na fase S da
interfase (Fig. 44A), é reduzida a metade durante a
A B C
anáfase da primeira divisão da meiose (Fig. 44B) 4Q
e volta a diminuir na anáfase da segunda divisão
da meiose (Fig. 44C). Durante a fecundação, a jun-
ção dos dois gâmetas vai permitir que a quanti-
2Q
dade de DNA volte ao valor 2Q.
No entanto, a grande importância da meiose Q
não fica reduzida a este aspecto, pois as conse-
quências genéticas deste fenómeno são vitais
Tempo
para a existência de tão grande variabilidade Fig. 44 Variação da quantidade de DNA durante a meiose.
entre os seres vivos.
Na prófase I, o crossing-over é um mecanismo responsável pela
recombinação genética, pois permite a reorganização do material
presente nos cromossomas provenientes dos progenitores (recom-
binação intracromossómica).
Posteriormente, na metáfase I, a orientação dos bivalentes na
placa equatorial, que ocorre de forma aleatória, volta a aumentar as
hipóteses de novas combinações, uma vez que esta posição deter-
mina os cromossomas que vão ascender a cada pólo na anáfase I
(recombinação intercromossómica). Também na anáfase II, com a
segregação dos cromatídeos-irmãos e a repartição ao acaso dos
vários cromatídeos pelos pólos, separação ao acaso dos cromatí-
deos, se multiplicam as hipóteses de diversidade.
Devido a estes factores, ao contrário da mitose, que permite
manter as características das espécies sem quaisquer variações,
a meiose é o fenómeno responsável pela diversidade verificada
mesmo entre os descendentes e os progenitores. É esta variedade
que possibilita, em condições adversas, a sobrevivência dos indiví-
duos da espécie que melhor se adaptam às variações ocorridas.

REPRODUÇÃO SEXUADA

Vantagens Desvantagens
• Grande variabilidade de • Processo lento;
características nos descendentes; • Grande consumo de energia pelos
• Maior capacidade de adaptação seres vivos, pois tem de ocorrer:
e de sobrevivência dos indivíduos — formação de gâmetas;
perante alterações ambientais; — encontro dos gâmetas;
• Maior possibilidade de evolução dos — fecundação.
seres vivos (facilita o aparecimento
de novas formas).

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As principais diferenças entre mitose e meiose (Fig. 45) encontram-


-se resumidas no quadro seguinte.

DIFERENÇAS ENTRE MITOSE E MEIOSE

Mitose Meiose
Após a duplicação do DNA, ocorre Após a duplicação do DNA, ocorrem
uma divisão nuclear que origina duas duas divisões nucleares que originam
células diplóides, geneticamente quatro células haplóides,
idênticas. geneticamente diferentes.
O número de cromossomas
O número de cromossomas das
de cada célula-filha é metade
células-filhas é igual ao da célula-mãe.
do da célula-mãe.
Pode ocorrer em células haplóides
Ocorre apenas em células diplóides.
ou em células diplóides.
Não há, normalmente, emparelhamento
de cromossomas homólogos Há emparelhamento de cromossomas
(cada cromossoma comporta-se homólogos.
independentemente do outro).
Há crossing-over entre cromatídeos
Geralmente, não ocorre crossing-over.
de cromossomas homólogos.
As células-filhas podem sofrer várias As células-filhas não podem sofrer
divisões mitóticas seguidas. nova divisão meiótica.
Em cada ciclo celular formam-se
Em cada ciclo celular formam-se
duas células, diplóides ou haplóides
quatro células haplóides (gâmetas
(com o mesmo número
ou esporos).
de cromossomas que a célula-mãe).
Os centrómeros dividem-se
Centrómeros dividem-se
longitudinalmente apenas
longitudinalmente na anáfase.
na anáfase II.

Mitose Telófase

Prófase (início) Prófase (final) Metáfase Anáfase

Telófase (final)

Meiose
Prófase I (início) Prófase I (final) Metáfase I Anáfase I Anáfase II

Fig. 45 Localização das principais diferenças entre mitose e meiose.

86 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


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ACTIVIDADE LABORATORIAL

REPRODUÇÃO SEXUADA VERSUS VARIABILIDADE

Material
• 18 peças de lego (2x2) amarelas. • 18 peças de lego (2x2) verdes.
• 18 peças de lego (2x2) vermelhas. • 18 peças de lego (2x2) azuis.

Procedimento
1 — Comece por distribuir as peças entre si e o seu parceiro, de modo que cada um fique com
a totalidade das peças de duas cores.
2 — Cada um dos parceiros deverá, com as peças de uma determinada cor, construir torres de 6, 5,
4 e 3 peças, respectivamente. Desta forma, simula-se a construção dos cromossomas herdados
de um dado progenitor.
3 — Repita o procedimento com as peças da outra cor. Acabou de obter os cromossomas herdados
do outro progenitor.
4 — Faça pares com os cromossomas das mesmas dimensões.
5 — De forma aleatória, troque peças (em número igual) entre pares de cromossomas.
6 — Separe os pares em dois grupos, de modo que cada um seja portador de um exemplar de um
dado cromossoma.
7 — Junte um dos seus conjuntos com um outro obtido pelo seu colega.
8 — Disponha os conjuntos aos pares, por ordem crescente de tamanho.
9 — Registe os resultados sob a forma de desenho ou fotografia.
10 — Repita os procedimentos 7 e 8 para os conjuntos que tinham sobrado.
11 — Repita os procedimentos de 2 a 10.
12 — Compare os seus resultados (esquemas ou fotografias) com os dos restantes grupos de alunos
da turma.

Fig. 46 Desenvolvimento da actividade experimental.

Nota: Este trabalho deverá ser realizado por um grupo de dois alunos.

Discussão
1 — Identifique o que se pretende simular nos passos:
a) 4; b) 5; c) 6; d) 7.
2 — O que representam os grupos obtidos no passo 8?
3 — O que pode concluir quando compara os resultados obtidos dentro do seu grupo e entre o seu grupo
e os restantes?
4 — Tire conclusões quanto ao contributo da meiose e da fecundação para a variabilidade conseguida
durante a reprodução sexuada.

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gónada gonad Que estratégias de reprodução sexuada


gametângio gametangium adoptam os seres vivos?
fecundação fertilization
hermafrodita hermaphroditi
A reprodução sexuada, apesar de exigir um maior dispêndio de
energia, revelou-se mais eficaz para as espécies que a adoptam,
dado que assegura maior diversidade e, consequentemente, maior
capacidade de sobrevivência a variações no meio.
A reprodução sexuada implica a produção de células sexuais, a
promoção do seu encontro e, finalmente, a sua fusão — fecundação.
Nos animais, as únicas células sexuais são os gâmetas. Existem
dois tipos diferentes de gâmetas — os masculinos (espermatozói-
des) e os femininos (óvulos). Ambos resultam de processos de
meiose, que ocorre em estruturas especializadas, as gónadas (tes-
tículos, gónadas masculinas, e ovários, gónadas femininas).
Nas plantas, além dos gâmetas, encontram-se também outras
células sexuais, os esporos, que resultam de meiose e são produzidos
em estruturas designadas por esporângios. Os gâmetas nas plantas
resultam de mitoses. Como nos animais, é possível distinguir
gâmetas femininos (oosferas) e gâmetas masculinos (anterozóides),
formados, respectivamente, nos arquegónios e nos anterídios.
Estes últimos, porque correspondem aos órgãos da planta onde se
formam os gâmetas, recebem a designação de gametângios.
Alguns indivíduos, animais ou plantas, conseguem produzir os
dois tipos de gâmetas, designando-se por hermafroditas.
Em alguns casos, a produção de gâmetas é simultânea e pode
ocorrer autofecundação, denominando-se hermafroditismo sufi-
ciente. Nestas situações, um único progenitor reproduz-se sexuada-
mente. Este processo, aparentemente pouco eficiente, dado que não
assegura um grande acréscimo de diversidade, é a única solução
que algumas espécies encontram para se reproduzir. Os animais
que parasitam internamente outras espécies, como a ténia, têm
uma probabilidade mínima de se cruzar com outro indivíduo da
mesma espécie e do sexo oposto, e algumas espécies de plantas,
como a ervilheira, possuem flores cujas peças reprodutoras estão
isoladas do exterior pelas pétalas e pelas sépalas, apresentam her-
mafroditismo completo (Fig. 47).

A B

Fig. 47 A ténia, endoparasita, apresenta hermafroditismo completo (A), como a ervilheira, que apresenta as peças reprodutoras
encerradas no perianto (B).

88 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


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Noutros casos, apesar da dupla produção de gâmetas, a autofe-


cundação não é possível (Fig. 48). Tal facto pode ser atribuído, por
exemplo, a uma incompatibilidade anatómica de contacto entre os
gâmetas. Na minhoca, os locais de libertação de ambos os gâmetas
são distantes, e, como tal, a autofecundação torna-se impossível,
necessitando estes animais de recorrer à dupla fecundação. Cada
animal age simultaneamente como macho e fêmea, libertando
espermatozóides que fecundarão o óvulo do parceiro e, simultanea-
mente, recebendo deste espermatozóides que irão fecundar os seus
óvulos. A descendência possui, assim, cromossomas de ambos os
progenitores. Um fenómeno semelhante pode ocorrer em plantas
cujas flores apresentam anteras a um nível inferior ao carpelo. Mais
uma vez, a autofecundação fica interdita.
A impossibilidade de um hermafrodita se auto-reproduzir
acaba por apresentar vantagens, pois a necessidade de recorrer a
um parceiro garante a diversidade da descendência.

A B

Estigma

Anteras

Fig. 48 A minhoca, apesar de possuir


ambos os aparelhos reprodutores,
necessita de recorrer a uma
fecundação cruzada (A), como
algumas flores cujas anteras
se situam abaixo do estigma (B).

Para que exista fecundação, é necessário sincronismo na pro-


dução de gâmetas por parte dos dois progenitores, o que pode
resultar quer de estímulos ambientais (em animais e plantas) quer
de estímulos sociais (exclusivamente em animais). É de notar que
as paradas nupciais, por um lado, ou a percepção do acasalamento
de outros indivíduos da mesma espécie, por outro, promovem a
libertação de gâmetas.
Finalmente, a fusão das células sexuais — fecundação — tam-
bém tem de estar em harmonia com o próprio ser vivo e com o seu
habitat.
Assim sendo, é possível falar de fecundação externa (Fig. 49),
quando o encontro dos gâmetas ocorre no meio ambiente. Tal tipo
de união de gâmetas restringe-se apenas ao meio aquático e, como CURIOSIDADE

tal, às espécies que aí se reproduzem (algas e animais aquáticos). O salmão percorre grandes dis-
Esta fecundação exige uma produção maciça de gâmetas, dado que tâncias para encontrar as condi-
ções ambientais ideais para a
a probabilidade de estes se encontrarem é baixa, bem como uma libertação dos seus gâmetas.
produção simultânea dos mesmos.
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Fig. 49 Fecundação externa: os gâmetas encontram-se na água, fora do corpo dos animais.

No meio terrestre, é necessário uma fecundação interna, pois,


se assim não fosse, quer a mobilidade dos gâmetas quer a hidrata-
ção do ovo (ou zigoto) estariam comprometidas.
Como vantagem deste processo, podemos registar a poupança
energética na produção de gâmetas. Algumas espécies, como, por
exemplo, a humana, restringem a produção de gâmetas femininos a
um único por ciclo sexual.
A fecundação interna exige que se crie uma forma de deposi-
tar um tipo de gâmetas no interior do organismo do sexo oposto
(Fig. 50). Esta exigência foi ultrapassada, na maioria dos animais,
com o desenvolvimento de um órgão copulador nos machos — o
pénis — e, nas plantas mais evoluídas, com o crescimento de um
tubo polínico — estrutura que resulta da germinação de um grão
de pólen — que assegura o depósito dos anterozóides perto da
oosfera.

A B

Fig. 50 Os animais terrestres (A) recorrem à fecundação interna, como as plantas


angiospérmicas (B).

90 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


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Conceitos/Palavras-chave

Necessários Essenciais Complementares

• Interfase • Meiose • Tétrada


• Fase G1 • Divisão reducional • Bivalente
• Fase S • Divisão equacional
• Fase G2 • Haplóide
• Prófase • Diplóide
• Metáfase • Cromossomas homólogos
• Anáfase • Crossing-over
• Telófase • Mutação cromossómica
• Fuso acromático • Fecundação
• Placa equatorial • Gâmetas
• Citocinese • Gónada
• Ovo ou zigoto • Hermafrodita
• Cromossomas
• Cromatídeos-irmãos

Síntese de conhecimentos

• A reprodução sexuada envolve dois fenómenos que ocorrem alternadamente: meiose e fecundação.
• Antes da meiose ocorre a interfase, em que a célula se prepara para a divisão,
crescendo, sintetizando proteínas e replicando o seu DNA.
• Na meiose, ocorrem duas divisões celulares consecutivas (meiose I e meiose II),
com apenas uma duplicação do DNA (realizada na interfase), que transformam
uma célula diplóide (2n) em quatro haplóides (n).

• A primeira divisão da meiose é reducional — formam-se duas células-filhas


haplóides a partir de uma célula-mãe diplóide — e acontece em quatro fases:
prófase I, metáfase I, anáfase I e telófase I.
• A prófase I é uma fase longa durante a qual ocorrem fenómenos de extrema importância para garantir
a variabilidade genética (crossing-over).
• A segregação dos homólogos na anáfase I e a separação dos cromatídeos-irmãos na anáfase II são
outros fenómenos que contribuem para gerar diversidade de características.
• Existe controlo dos fenómenos da meiose, mantido por complexos proteicos que actuam em
determinados momentos do processo.
• Os fenómenos de crossing-over, de segregação dos homólogos e de separação dos cromatídeos
podem, se ocorrerem alguns erros, originar alterações na estrutura ou no número de cromossomas
e levar ao aparecimento de mutações cromossómicas.
• A meiose assegura a variabilidade genética, o que é vantajoso para as espécies por aumentar a sua
capacidade de subsistência em condições adversas.

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ACTIVIDADES

Reprodução sexuada
1. Elabore um mapa de conceitos relativo à reprodução sexuada.

2. Considerando que os fenómenos evidenciados na imagem seguinte ocorrem na mesma divisão


da meiose, refira:
a) a designação das fases A e B; A B
b) a ordem pela qual ocorrem estas etapas;
c) o fenómeno evidenciado em B.
2.1 Qual é a consequência do
acontecimento representado em A?
Justifique a sua resposta.
2.2 Por que razão não se pode confundir
a fase A com uma fase da mitose?

3. Estabeleça a correspondência correcta entre as afirmações que se seguem e as letras da chave.

CHAVE AFIRMAÇÕES

A — Meiose I. Ocorre duas vezes a duplicação do DNA.


B — Mitose II. A célula inicial pode ser haplóide.
C — Ambos os processos III. A interfase precedente inclui as fases G1, S e G2.
D — Nenhum dos processos IV. Há alteração da ploidia da célula inicial.
V. Envolve o fenómeno de replicação do DNA.
VI. Aumenta a variabilidade na espécie.
VII. Há alteração do número de cromossomas.
VIII. Formam-se duas células-filhas.
IX. Está na base dos fenómenos de reprodução assexuada.
X. As células-filhas têm metade do número de
cromossomas da célula-mãe.

4. A imagem seguinte esquematiza uma das divisões consecutivas que acontecem durante a meiose.
Analise-a e responda às questões.

I II III IV V

4.1 Qual é a divisão representada? Justifique com dois dados da imagem.


4.2 Faça a legenda dos números da imagem referentes às fases que se sucedem ao longo deste
processo.

92 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


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4.3 Apresente uma explicação para as diferentes designações utilizadas em IV e V.


4.4 Qual é o fenómeno, que ocorre nos cromossomas, que permite o acontecimento evidenciado
em III?
4.5 Se uma célula possuir 20 cromossomas no momento em que inicia a divisão celular, refira
o número de cromossomas que possuirá quando atingir a fase representada na imagem com:
a) o número I;
b) o número V.

5. Identifique a divisão da meiose (I, II ou ambas) em que ocorre cada um dos fenómenos
seguintes:
A — Dá-se a formação do fuso acromático.
B — Os cromossomas homólogos dispõem-se na região mediana da célula.
C — Precede a citocinese.
D — Os cromatídeos ascendem aos pólos.
E — Os cromossomas sofrem descondensação.
F — A distância entre cromatídeos-irmãos é crescente.
G — Visualizam-se os bivalentes.
H — Ocorre crossing-over.
I — Há ruptura do centrómero.
J — A célula passa de diplóide a haplóide.

6. Analise atentamente o gráfico seguinte e responda às questões.

Quantidade de DNA
B C D

4Q

A
2Q

Tempo

6.1 Refira a fase da divisão celular a que correspondem os períodos marcados no gráfico com
as letras A, B e C.
6.2 Identifique, justificando, o fenómeno que terá ocorrido no momento assinalado com D.
6.3 Seleccione a opção que permite completar o texto, de modo a criar uma afirmação correcta
sobre o gráfico.
«Se uma célula somática, com 30 cromossomas, entrar em divisão celular e sofrer meiose,
apresentará, na metáfase I, (…) pares de cromossomas e (…) cromatídeos-irmãos.
Quando for atingida a fase C, deverão ascender a cada um dos pólos (…) cromatídeos-irmãos.»
A — 15 […] 30 […] 15
B — 15 […] 60 […] 15
C — 15 […] 30 […] 30
D — 30 […] 60 […] 30
E — 15 […] 30 […] 60

7. Refira alguns dos erros que podem ocorrer durante o processo da meiose, enumerando também as
possíveis consequências.

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ciclo de vida life cycle 6 3 Ciclos de vida:


alternância de fases nucleares
alternation of nuclear phases
unidade e diversidade
Uma das características inerentes aos seres vivos é a sua capaci-
dade de reprodução. Os seres vivos com reprodução sexuada pas-
sam por processos específicos.
O conjunto de etapas por que passa um indivíduo desde a sua
formação até à concepção de outro organismo semelhante a si
denomina-se ciclo de vida (Fig. 51).

Esporófito
Mitose (2n)

Zigoto
(2n)

Fase diplóide
Fecundação Meiose
Fase haplóide

Gâmetas Esporos
(n) (n)

Mitose Gametófito Mitose


(n)

Fig. 51 Ciclo de vida geral de todas as plantas.

O que há de comum
em todos os ciclos de vida?

Os ciclos de vida de todos os seres vivos apresentam aspectos


comuns, nomeadamente:
• a ocorrência de meiose, que permite, em determinado momen-
to do ciclo, formar células haplóides (n), contribuindo para a
diversidade da espécie;
• a ocorrência de fecundação, que corresponde à fusão de
gâmetas, repondo a diploidia no ciclo celular e contribui
também para a variabilidade da espécie;
• a presença de células sexuais, células especializadas que são
sempre haplóides, podendo ser gâmetas (comuns a todos os
A RETER
ciclos) ou esporos (presentes apenas em alguns ciclos);
CICLOS DE VIDA • a presença de ovo ou zigoto, célula inicial de todos os seres
TÊM EM COMUM
vivos quando recorrem à reprodução sexuada, que é sempre
Meiose
diplóide;
• a alternância de fases nucleares (apesar de estas poderem
Fecundação ter durações variadas), existe em todos os ciclos uma fase
Células sexuais haplóide (que, no mínimo, se resume aos gâmetas) e uma
fase diplóide (que, no mínimo, é representada pelo zigoto);
Ovo ou zigoto
a passagem da fase haplóide para a fase diplóide é da respon-
Alternância de sabilidade da fecundação, enquanto a passagem da fase
fases nucleares diplóide para a fase haplóide se deve à meiose.
94 BIOLOGIA A vida e os seres vivos
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Em que diferem os ciclos de vida?

A principal diferença entre os ciclos de vida está relacionada


com o momento em que ocorre a meiose. Esta pode dar-se em três
momentos diferentes, o que tem implicações na caracterização do
ciclo. Assim sendo, podemos considerar:
• Meiose pré-gamética — a meiose ocorre para que se dê a
formação dos gâmetas (Fig. 52A). Como antecedem a fecun-
dação, estas células são, nestes casos, as únicas entidades
haplóides. O ciclo designa-se por diplonte.
Exemplos de seres vivos onde ocorre este tipo de ciclo são os
animais e algumas algas.
• Meiose pós-zigótica — a meiose ocorre logo após a forma-
ção do zigoto (Fig. 52B). Assim sendo, o zigoto é a única estru-
tura diplóide do ciclo, que, por isso, se designa por haplonte.
Indivíduos com este tipo de ciclo são, por exemplo, algumas
algas e fungos.
• Meiose pré-espórica — a meiose ocorre para que se dê for-
mação dos esporos (Fig. 52C). Acontece só em indivíduos que
apresentem dois tipos de células sexuais (gâmetas e esporos).
Nestes seres existe uma geração produtora de esporos (gera-
ção esporófita ou esporófito) e uma geração produtora de
gâmetas (geração gametófita ou gametófito). A RETER
A geração esporófita inicia-se com o ovo ou zigoto e termina
LOCALIZAÇÃO
com a meiose, que leva à produção de esporos; assim, todas DA MEIOSE
as células das estruturas desta geração são diplóides, existindo
correspondência entre a geração esporófita e a fase diplóide. Meiose
A geração gametófita inicia-se com os esporos e termina com pós-zigótica
a fecundação. Todas as células das estruturas desta geração são Meiose
haplóides, sendo possível estabelecer uma correspondência pré-espórica
entre a geração gametófita e a fase haplóide. Os ciclos de Meiose
vida destes indivíduos designam-se por haplodiplontes. pré-gamética

A B

Gâmetas + Gâmeta – Gâmeta


– +
Fecundação
Células + Gâmeta – Gâmeta
– +
haplóides Fecundação
Meiose Zigoto

Meiose Zigoto

Esporos + Gâmeta – Gâmeta


– +
Fecundação

Meiose Zigoto
Fig. 52 Meiose pré-gamética (A);
meiose pós-zigótica (B);
meiose pré-espórica (C).

unidade 6 Reprodução 95
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ACTIVIDADE

CICLOS DE VIDA

1. Observe e analise os esquemas e as figuras que se seguem.

Adulto (n)
A

Gâmetas (n)
Esporo (n)
Masculino Feminino

Fase haplóide (n)


MEIOSE FECUNDAÇÃO
Fase diplóide (2n)

Ciclo haplonte Zigoto (2n) Algumas algas e fungos.


Gametófito
B (n)

Esporo (n) Gâmetas (n)


Masculino Feminino

Fase haplóide (n)


MEIOSE FECUNDAÇÃO
Fase diplóide (2n)

Esporângio (2n) Zigoto (2n)

Esporófito
Ciclo haplodiplonte (2n) Todas as plantas.
Gâmetas (n)
C Masculino Feminino

Fase haplóide (n)


MEIOSE FECUNDAÇÃO
Fase diplóide (2n)

Zigoto (2n)

Adulto
Ciclo diplonte Todos os animais.
(2n)
Fig. 53 Os seres vivos apresentam ciclos de vida diferentes, que se podem organizar em três tipos:
haplonte, haplodiplonte e diplonte.

1.1 Justifique a designação atribuída a cada um dos ciclos.


1.2 Identifique as estruturas e os fenómenos comuns aos três ciclos.
1.3 Refira o nome das estruturas pertencentes à geração gametófita, no ciclo B.
1.4 Identifique o fenómeno responsável por:
a) reduzir a metade o número de cromossomas; b) repor a diploidia.
1.5 Comente a afirmação seguinte.
«Em qualquer dos ciclos representados, os descendentes serão necessariamente diferentes entre si
e diferentes dos seus progenitores.»
1.6 Procure uma explicação plausível que justifique que os indivíduos com mais sucesso evolutivo
tendam a ter, nos seus ciclos de vida, fases diplóides prolongadas.

96 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


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Como se processa a reprodução sexuada


em Chlamydomonas?

Chlamydomonas é uma alga verde, unicelular e biflagelada.


Raramente recorre à reprodução sexuada, multiplicando-se, por
norma, por bipartição. Contudo, quando os níveis de azoto no
meio são escassos, ou quando as condições de luminosidade são
adversas, a Chlamydomonas opta pela reprodução sexuada.
Nestas situações, as células vegetativas (haplóides) formam
vários gâmetas (de 4 a 32), por mitoses sucessivas. Estes são iguais
às células vegetativas, ainda que mais pequenos, e morfologica-
mente idênticos entre si. Apesar de não se distinguirem morfologi-
camente, os gâmetas têm comportamentos diferenciados, nunca
ocorrendo fecundação entre dois gâmetas com origem na mesma
célula vegetativa.
Durante a fecundação, por fusão de dois gâmetas, forma-se um
zigoto (primeira e única estrutura diplóide do ciclo). Este possui
inicialmente quatro flagelos, mas rapidamente os perde. Envolve-se
numa espessa e resistente parede celulósica, recebendo a designa-
ção de zigósporo. Este caracteriza-se pela sua elevada resistência
a temperaturas extremas e a situações de pouca humidade. A RETER
Quando as condições ambientais se tornam favoráveis, o zigoto
Meiose Pós-zigótica
germina, ocorrendo uma meiose (Fig. 54). Cada zigoto forma quatro
Ciclo Haplonte
novos indivíduos haplóides. Estes, inicialmente mais pequenos, Externa
acabam por crescer, completando o ciclo de reprodução sexuada da Fecundação e dependente
alga (Fig. 55). da água

Gâmeta +
Célula
vegetativa
Gâmeta –

Fase haplóide

MEIOSE FECUNDAÇÃO

Fase diplóide

Ovo/
/zigoto

Fig. 54 Localização da meiose e da fecundação no ciclo de vida de Chlamydomonas.

unidade 6 Reprodução 97
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FASE DIPLÓIDE

Tipo +

MEIOSE

Tipo –

Zigósporo
(2n) FASE HAPLÓIDE

Zigoto Gâmetas + (n)


(2n)
FECUNDAÇÃO

Gâmetas – (n)

Fig. 55 Esquema do ciclo de vida de Chlamydomonas.

ACTIVIDADE

CICLO DE VIDA DE CHLAMYDOMONAS

1. Sabendo que a Chlamydomonas é um dos seres vivos que


podem optar pela reprodução sexuada ou pela reprodução
assexuada, responda às questões.
1.1 Enumere vantagens, para esta alga, do recurso
à reprodução:
a) assexuada;
b) sexuada.
1.2 Refira uma vantagem da ausência de fecundação
entre gâmetas provenientes da mesma célula
vegetativa.

98 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


919354 U6_p086-111 18/1/08 16:39 Page 99

Como se processa a reprodução sexuada


no musgo?

No musgo, o gametófito é multicelular e fotossintético; tem


uma vida independente e corresponde à geração dominante. No
gametófito diferenciam-se os órgãos produtores de gâmetas — os
gametângios.
Cada gametângio feminino (arquegónio) produz, por mitose,
um único gâmeta feminino — oosfera. Este é imóvel e fica encerrado
no gametângio.
Os gametângios masculinos (anterídios) produzem, por mito-
se, vários gâmetas masculinos — os anterozóides, pequenas células
com dois flagelos. Estes abandonam os anterídios e deslocam-se em
direcção ao gametângio feminino, para aí penetrarem e se fundirem
com a oosfera. A fecundação é interna e dependente da água, ini-
ciando uma nova geração — a geração esporófita.
Da fecundação resulta uma célula diplóide (2n) — ovo ou
zigoto —, que, por mitoses sucessivas, origina um esporófito. Este
inicia a sua formação dentro do arquegónio e, portanto, ligado ao
gametófito. A ligação permanece ao longo de toda a vida do espo-
rófito. O esporófito é temporário, heterotrófico e dependente do
A RETER
gametófito.
Na extremidade do esporófito diferencia-se a cápsula (esporân- Meiose Pré-espórica
gio), órgão produtor de esporos. Os esporos são produzidos por Ciclo Haplodiplonte
Geração
meiose; por essa razão, a meiose é designada por pré-espórica dominante
Gametófita
(Fig. 56). Características Temporária,
Quando as condições ambientais são favoráveis, a cápsula liberta da geração heterotrófica
não dominante e dependente
os esporos, os quais, por mitoses sucessivas, originam um gametó- Interna
fito jovem — protonema. Este continua a crescer, transformando- Fecundação e dependente
-se num gametófito (Fig. 57). da água

Anterídio Anterozóide
MUSGO/
ESPORO PROTONEMA
/GAMETÓFITO
Arquegónio Oosfera

Fase haplóide — geração gametófita

MEIOSE FECUNDAÇÃO

Fase diplóide — geração esporófita

Ovo/
Esporângio Esporófito
/zigoto

Fig. 56 Localização da meiose e fecundação no ciclo de vida do musgo.

unidade 6 Reprodução 99
919354 086-111_U6 31/1/08 14:41 Page 100

Opérculo

Esporângio Esporos
Peristoma

Esporos
(n)

MEIOSE

Esporos a
Cápsula germinar

Esporófito
FASE DIPLÓIDE FASE HAPLÓIDE
(2n)

Seda

Protonema

Gametófito
feminino Gametófito
Esporófito masculino
jovem

FECUNDAÇÃO Arquegónio Anterídio

Embrião

Anterozóide

Ovo
Oosfera

Oosfera

Arquegónio

Fig. 57 Ciclo de vida do musgo.

100 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


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ACTIVIDADE LABORATORIAL

OBSERVAÇÃO DE ESTRUTURAS DO CICLO DE VIDA DO MUSGO

Teoria Quais são Conclusão


as características
do ciclo de vida
do musgo?

Princípios Discussão
A — Relacione as cores apresentadas
pelas gerações gametófita
e esporófita com a forma
de obtenção de alimento.
B — Relacione a posição da cápsula
com a função por esta
desempenhada.
C — Procure uma justificação para
a ligação que o esporófito mantém
com o gametófito.
D — Justifique a classificação atribuída
a este ciclo de vida.

Conceitos Resultados

Procedimento
1 — Seleccione musgos com hastes finas.
2 — Com a ajuda de uma pinça, retire um musgo e observe-o à lupa.
3 — Faça um esquema legendado da observação.
4 — Retire a cápsula a um musgo. Coloque-a sobre uma lâmina, esmague-a, faça uma preparação
microscópica e observe-a ao MOC.
5 — Esquematize e legende a observação.
6 — Observe ao MOC preparações definitivas de protonemas de musgo. Esquematize-as.
7 — Observe ao MOC preparações definitivas de arquegónios e anterídios. Esquematize os resultados
obtidos.

unidade 6 Reprodução 101


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Como se processa a reprodução sexuada


nos animais?

Apesar da diversidade de estratégias reprodutoras, todos os


animais apresentam ciclos de vida com um padrão comum (Fig. 58).
Todas as células somáticas dos animais são diplóides, possuindo
cromossomas oriundos de ambos os progenitores. Os animais têm
órgãos especializados onde são produzidos os gâmetas: as gónadas
(os testículos são as gónadas masculinas, e os ovários, as gónadas
femininas). Nestes órgãos existem células germinativas que sofrem
processos de meiose, dando origem a gâmetas. Os gâmetas masculi-
A RETER nos, espermatozóides, são flagelados e têm pequenas dimensões,
Meiose Pré-gamética.
enquanto os gâmetas femininos, óvulos, têm maiores dimensões e
Ciclo Diplonte. são imóveis. Da junção de um espermatozóide e de um óvulo resul-
Variável. ta um zigoto, que originará um novo indivíduo diplóide (Fig. 59).
Nalgumas O ciclo de vida dos animais apresenta, como os outros ciclos de
espécies de
vida aquática
vida, alternância de gerações. A fase haplóide fica restrita apenas
pode ser aos gâmetas, pertencendo todas as outras estruturas à fase diplóide,
Fecundação
externa. pelo que o ciclo recebe a designação de diplonte.
Em todas
as espécies Existem também outros seres vivos, mais simples, que apresen-
terrestres tam o mesmo tipo de ciclo de vida — por exemplo, o Fucus, alga
é interna.
castanha.

Espermatozóides

Óvulos

Fase haplóide

MEIOSE FECUNDAÇÃO

Fase diplóide

Ovários
Indivíduo Ovo/
adulto /zigoto
Testículos

Fig. 58 Localização da meiose e da fecundação no ciclo de vida de um animal.

102 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


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Tubo seminífero

Espermatozóides

Testículos

Ovário MEIOSE

Óvulo

Folículo

FECUNDAÇÃO

Zigoto

FASE DIPLÓIDE FASE HAPLÓIDE

Fig. 59 Ciclo de vida de um animal.

unidade 6 Reprodução 103


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Conceitos/Palavras-chave

Necessários Essenciais Complementares

• Meiose • Ciclo de vida • Ciclo haplonte


• Fecundação • Alternância de fases • Ciclo diplonte
• Gametângio nucleares • Ciclo haplodiplonte
• Gónada • Meiose pré-espórica
• Espermatozóide • Meiose pré-gamética
• Óvulo • Meiose pós-zigótica
• Esporófito
• Gametófito
• Anterozóide
• Oosfera

Síntese de conhecimentos

• O ciclo de vida é o conjunto de etapas por que passa um indivíduo desde a sua formação até
à concepção de outro organismo semelhante a si.
• Em todos os ciclos de vida ocorre meiose e fecundação, tendo como consequência a alternância
de gerações.
• Em todos os ciclos de vida existem gâmetas (haplóides) e zigoto (diplóide).
• Os ciclos distinguem-se pelo momento em que ocorre a meiose.

MEIOSE

Pré-espórica Pré-gamética Pós-zigótica

Quando ocorre
Para produção de esporos. Para produção de gâmetas.
na germinação do zigoto.

• De acordo com o momento em que ocorre a meiose, existem três tipos de ciclos de vida:
— ciclos haplontes (meiose pós-zigótica);
— ciclos diplontes (meiose pré-gamética);
— ciclos haplodiplontes (meiose pré-espórica).
• Os ciclos haplontes são característicos dos fungos e de algumas algas.
• Os ciclos diplontes são característicos dos animais.
• Os ciclos haplodiplontes são característicos das plantas.

104 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


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ACTIVIDADES

Ciclos de vida
1. Elabore um mapa de conceitos relativo à reprodução dos seres vivos.

2. Observe atentamente as imagens seguintes e responda às questões.

2
A B C
3 — Gâmetas

Fase Y Fecundação
Meiose
Fase X

5 Mitose

2.1 Faça as legendas dos elementos assinalados com os números de 1 a 5.


2.2 Identifique as fases X e Y.
2.3 Identifique o modo de divisão celular responsável pelo processo Z.
2.4 Seleccione a opção que completa correctamente a frase.
As estruturas 1 distinguem-se das estruturas 3…
A — … pelo número de cromossomas.
B — … pelo tipo de cromossomas.
C — … pela autonomia na germinação.
D — … pelo cariótipo.
2.5 Seleccione a opção que completa correctamente a frase.
O ciclo representado na figura é…
A — … haplonte. C — … diplonte.
B — … haplodiplonte. D — Nenhuma das opções anteriores.
2.6 Em B e C estão representadas fases de determinados processos de divisão celular
do mesmo indivíduo. Analise as afirmações e seleccione a opção que melhor as define.

CHAVE

A — Todas as afirmações são verdadeiras.


B — Todas as afirmações são falsas.
C — Apenas as afirmações 1 e 2 são verdadeiras.
D — Apenas as afirmações 2 e 3 são verdadeiras.

AFIRMAÇÕES

I. B pode ser observada durante a produção das estruturas 1.


II. C foi observada durante o processo Z.
III. C foi observada durante a formação da estrutura 3.

unidade 6 Reprodução 105


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ACTIVIDADES

3. Estabeleça a correspondência correcta entre os elementos da chave e as afirmações que se lhes


seguem.

CHAVE

A — Verdadeiro para todos os ciclos de vida.


B — Verdadeiro para alguns ciclos de vida.
C — Falso para todos os ciclos de vida.

AFIRMAÇÕES

I. O zigoto é haplóide.
II. Os gâmetas são haplóides.
III. Estão presentes gâmetas.
IV. Estão presentes esporos.
V. Os gâmetas resultam de meiose.
VI. Ocorre alternância de gerações.
VII. Os gâmetas são morfologicamente distintos entre si.
VIII. A fase haplóide inicia-se com o zigoto.

4. Analise as três afirmações sobre ciclos de vida e seleccione a opção que melhor as caracteriza.

CHAVE

A — Todas as afirmações são verdadeiras.


B — Todas as afirmações são falsas.
C — Apenas as afirmações 1 e 2 são verdadeiras.
D — Apenas as afirmações 1 e 3 são verdadeiras.

AFIRMAÇÕES

I. O zigoto é sempre diplóide, independentemente do ciclo.


II. Os gâmetas são, em todos os ciclos, resultado directo de meiose.
III. Há alternância de fases nucleares em todos os ciclos.

5. Seleccione a opção que apresenta a sucessão de estruturas num ciclo haplodiplonte.


A — Gâmetas; zigoto; gametófito; esporos; esporófito.
B — Zigoto; gâmetas; gametófito; esporos; esporófito.
C — Zigoto; esporófito; gâmetas; gametófito; esporos.
D — Gâmetas; zigoto; esporófito; esporos; gametófito.

6. Analise o texto que se segue e responda às questões.


«O Fucus é uma alga castanha que cresce nas praias rochosas. As suas características especiais
permitem-lhe viver em meios com luminosidade variável, podendo sobreviver fora de água durante
períodos consideráveis. A alga adulta, diplóide, apresenta locais específicos — os conceptáculos —
onde se produzem anterozóides e oosferas. Estes são libertados na água. Os anterozóides, pequenos
e flagelados, deslocam-se até à oosfera, maior e imóvel, consumando a fecundação. O zigoto fixa-se
numa rocha e completa o ciclo de vida.»
6.1 Seleccione a opção que permite preencher os espaços de modo a obter uma afirmação
correcta.
Os conceptáculos são os (…) do Fucus, e nestes ocorre (…).
A — gametângios […] mitose C — gametângios […] meiose
B — esporângios […] mitose D — esporângios […] meiose

106 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


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6.2 Seleccione a opção que permite preencher os espaços de modo a obter uma afirmação correcta.
O ciclo de vida do Fucus é (…), e, portanto, semelhante ao (…).
A — haplonte […] da Chladmydomonas
B — haplodiplonte […] do musgo
C — haplodiplonte […] da Chlamydomonas
D — diplonte […] dos animais
E — haplonte […] do musgo

7. Analise os gráficos, referentes a diferentes ciclos de vida, e responda às questões que se seguem.

A B

2n 3 4 2n 7

1 2 5 6
n n

tempo tempo

2n 9

8
n

tempo

7.1 Estabeleça a correspondência correcta entre os números da figura e os termos que se seguem.
A — Gametófito
B — Esporófito
C — Gâmetas
D — Esporos
E — Zigoto
7.2 Classifique os ciclos A, B e C.
7.3 Seleccione a opção que permite preencher os espaços de modo a obter uma afirmação correcta.
Entre 2 e 3 ocorre a (…), e entre 4 e 5 ocorre a (…).
A — fecundação […] meiose
B — mitose […] meiose
C — fecundação […] mitose
D — meiose […] mitose

8. Comente a afirmação seguinte.


«Os animais terrestres possuem obrigatoriamente fecundação interna.»
8.1 Refira as vantagens da fecundação interna relativamente à fecundação externa.
8.2 Refira os «obstáculos» que os seres vivos que recorrem a este tipo de fecundação tiveram
de ultrapassar.

9. Explique por palavras suas as diferenças que podem existir entre o hermafroditismo
e a autofecundação.
9.1 Enumere alguns exemplos representantes das duas situações.

unidade 6 Reprodução 107


919354 U6_p086-111 18/1/08 16:39 Page 108

JOGO DE SIMULAÇÃO
Questões centrais:
• Será lícito experimentar a clonagem humana?
• Que razões levam a que a investigação sobre células estaminais
para fins regenerativos (a chamada «clonagem terapêutica») tenha
suscitado polémica por questões éticas e morais?

• Tendo como base estas questões centrais e as notícias que se


seguem, organize um debate (com investigação prévia) com
as personagens sugeridas ou outras que considerar interessantes.

Schwarzenegger apoia o financiamento da investigação


sobre células estaminais
Proposta para canalizar 2500 milhões de direitos de doentes que poderiam beneficiar de
euros para experiências nesta área vai a votos terapias baseadas nas células estaminais.
na Califórnia em 2 de Novembro. Entre estes, encontram-se várias pessoas
O governador da Califórnia apoia a investi- célebres, como os filhos do ex-presidente Ronald
gação sobre células estaminais embrionárias. Reagan, que foi vítima da doença de Alzheimer,
[…] A manifestação de apoio à Proposta 71, e o actor Christopher Reeve, que estava parali-
como é conhecida, comporta riscos políticos sado do pescoço para baixo havia nove anos
para Schwarzenegger, eleito pelo Partido Repu- e faleceu recentemente. […]
blicano, pois a posição do presidente George Público, 22 de Outubro de 2004 (adaptado)
W. Bush é a de limitar o financiamento de
experiências com células estaminais a culturas
[…] O propósito de criar uma cópia geneti-
estabelecidas antes de 9 de Agosto de 2001,
camente idêntica de um ser humano é consis-
quando anunciou essa decisão à nação. O pro-
tente com o termo «clonagem humana reprodu-
blema reside no facto de estas células serem
tiva»; porém, o de criar células estaminais para
colhidas em embriões com cerca de seis dias
medicina regenerativa não deve ser definido
de desenvolvimento, quando não são mais do
como clonagem terapêutica. É que o objectivo
que bolinhas microscópicas, embora impliquem
desta última técnica não é fazer uma cópia do
a destruição dos embriões. Mas como têm o
tecido do receptor, mas antes de criar um teci-
potencial de se transformar em vários tipos de
do geneticamente compatível com o deste. […]
células, são vistas como possíveis tratamentos
Bert VOGELSTEIN, Bruce ALBERTS, Kenneth SHINE —
para doenças hoje incuráveis, como a doença Science, vol. 295, 15 de Fevereiro de 2002 (adaptado)
de Parkinson ou a diabetes.
As limitações estabelecidas por Bush são
criticadas pelos cientistas e por activistas dos

Fontes bibliográficas:
Para construir a sua personagem, recorra às informações que se encontram no manual
escolar sobre clonagem e pesquise na biblioteca da Escola. Poderá ainda consultar
os seguintes sítios:
• http://www.juntospelavida.org/clon-vita.html
• http://www.prof2000.pt/users/secjeste/recortes/Ciencia/Clonag01.htm
• http://www.mni.pt/destaques/?cod=1743&MNI=71f7fc57352973b73beaa27adb3ea48e

Personagens:
Moderador, médico, biólogo, representante da Associação de Defesa dos Direitos Humanos,
representante dos Activistas dos Direitos dos Doentes e representante da Igreja.

108 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


919354 086-111_U6 7/2/08 13:06 Page 109

CiênciaTecnologiaSociedadeAmbiente

DOC. 1 A clonagem na agricultura moderna


A clonagem na agricultura resulta na pro- multiplicação dos órgãos que possam regenerar
dução de tecidos vegetais a partir de uma a planta a propagar (fase 2).
pequena amostra de uma planta, que é coloca- A fase 3 consiste no enraizamento dos
da num recipiente de vidro com um meio nutri- rebentos já micropropagados, enquanto a últi-
tivo adequado. ma fase passa pela aclimatização das plântulas
Clones perfeitos de plantas são produzidos já desenvolvidas. Depois de um período de
em estufas esterilizadas e com um controlo crescimento em estufa, as plantas são finalmen-
cuidado da luminosidade, da temperatura e da te transferidas para o terreno, não sem antes
humidade. A técnica é utilizada na indústria de existir uma rigorosa caracterização fisiológica.
plantas de interiores e em florestação. No caso A metodologia de propagação in vitro é prá-
da florestação, a micropropagação fornece tica comum na Europa e nos Estados Unidos —
resultados imediatos, ao passo que a obtenção a maior parte das plantas importadas e vendi-
de sementes de árvores geneticamente homo- das em viveiros foi germinada com base neste
géneas pelos meios tradicionais levaria mais de processo.
cem anos. http://www.barlavento.online.pt/index.php/
Enciclopédia Mundial Multimédia On-Line noticia?id=12734&tnid=2
(adaptado)

Fig. 60 Multiplicação de plantas por micropropagação.

Um processo de propagação in vitro pode


subdividir-se normalmente em cinco fases, pas-
sando a fase zero pela recolha dos ramos de
árvores seleccionadas, que são submetidos a
tratamentos químicos.
A fase 1 contempla a iniciação das culturas
em condições de assepsia, a que se segue a Fig. 61 Estufa.

ACTIVIDADES

1. Em que tipo de reprodução se baseia a micropropagação?


2. Que vantagens para a sociedade apresenta esta técnica?
3. Que desvantagens poderão advir, para uma espécie, se a sua multiplicação deixar de ocorrer
naturalmente e ficar reduzida a este método?

unidade 6 Reprodução 109


919354 U6_p086-111 18/1/08 16:39 Page 110

DOC. 2 Clonagem: onde termina a realidade


e começa a ficção?
• Em Julho de 1999, na revista BioEduca- haverá problema de rejeição: o DNA das novas
ção, publicação da Associação Portuguesa de células será igual ao do receptor.»
Biólogos / Ordem dos Biólogos, podia ler-se num http://epoca.globo.com/nd/20011126ct_a.htm
artigo, sobre clonagem, do Professor Mário Sousa: (adaptado)

[…] A totipotência, a diferenciação, a divi-


são, a apoptose e a imortalidade celular depen-
dem da expressão de certos genes e do silen-
ciamento de outros, num equilíbrio delicado e
muito complexo, em que as inter-relações celu-
lares (por contacto directo e por via de produtos
de secreção) e com a matriz extracelular são
determinantes. As tentativas in vitro de reverter
a diferenciação das células somáticas, de modo
a readquirirem a capacidade embrionária, foi
sempre o sonho dos biólogos — por um lado,
para se conhecerem os mecanismos que permi-
tem a totipotência (estado indiferenciado), os
que desencadeiam e mantêm o estado de dife-
renciação num ou noutro tecido, os da apoptose
Fig. 62 Células estaminais.
e os da imortalidade celular; por outro lado,
para que, dominando esses mecanismos, se
pudesse gerar in vitro, e de novo, a totipotência • No dia 1 de Fevereiro de 2002, a agên-
a partir de células adultas diferenciadas. Uma cia Lusa divulgou uma notícia, que viria a ser
vez induzida a indiferenciação, e graças ao seu publicada na revista Science dessa mesma
potencial mitótico, poderia obter-se uma enor- semana, sobre resultados de trabalhos realiza-
me população de células, a que de seguida se dos na empresa ACT, referida no artigo anterior,
induziria uma diferenciação celular específica, da qual se extraiu o texto seguinte:
para assim se conseguirem tecidos e órgãos Michael West […] afirmou que a sua equi-
para transplante. Apesar de todos os avanços pa utilizou químicos para transformar um óvulo
da biologia actual, este controlo é, ainda hoje, de macaco em embrião, um processo chamado
impossível. […] partenogénese. A partenogénese é um processo
• Em 26 de Novembro de 2001, a em- especial de reprodução dos seres vivos, que
presa Advanced Cell Technology (ACT), de pode ser normal ou provocado, no qual inter-
Worcester (Massachusetts), publicou no Journal vém um só gâmeta, não havendo, portanto,
of Regenerative Medicine um relato do qual se fecundação. Em seguida, os cientistas extraíram
destaca o excerto seguinte: células estaminais deste embrião para as culti-
Uma empresa americana anunciou ter rea- varem, de forma a desenvolverem-se em teci-
lizado, neste domingo, clonagem humana e dos especializados.
partenogénese (em que um óvulo dá origem […] West acredita que a produção de
a um embrião sem necessidade de esper- embriões por partenogénese pode ultrapassar as
matozóide). As experiências são consideradas objecções éticas levantadas por muitos dos que
extremamente polémicas e potencialmente revo- se opõem à clonagem terapêutica. Ao contrário
lucionárias. da clonagem reprodutiva, que visa produzir uma
Em nenhum dos dois casos o objectivo é pessoa, a clonagem terapêutica consiste no
dar origem a bebés, mas é extrair células esta- desenvolvimento de embriões até apenas alguns
minais de embriões — células que dão origem a dias de vida, de forma a obterem-se células esta-
qualquer órgão ou tecido. No futuro, essas célu- minais destinadas a tratamentos médicos.
las podem servir como matérias-primas na obten- […] No estudo, West e a sua equipa expu-
ção de órgãos para transplante. Se a origem das seram 77 óvulos de macacos a químicos que
células for a clonagem ou a partenogénese, não causaram
Fig. o seu das
16 Evoluções desenvolvimento
plantas. em embriões.

110 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


919354 U6_p086-111 18/1/08 16:39 Page 111

«Os químicos fazem com que o ovo “pense”


que contactou o esperma, transformando-se em
embrião», explicou. Segundo o investigador,
28 dos 77 ovos iniciais desenvolveram-se em
embriões, mas apenas quatro conseguiram alcan-
çar um estádio avançado de pré-implantação,
chamado blastócito.
A partir destes blastócistos, os investigado-
Fig. 63 Em laboratório foi já possível a obtenção
res conseguiram extrair com sucesso um único de embriões de macaco a partir de um óvulo
grupo de células embrionárias. Estas células, não fecundado.
a que os cientistas chamaram Cyno-1, contêm
a totalidade dos genes, todos pertencentes ao tempo» até às origens, para se tornarem em
macaco-fêmea que produziu o óvulo. Na repro- tudo semelhantes às CEE(1) verdadeiras.
dução «normal», um embrião recolhe metade Já se sabia, desde Agosto do ano passado,
dos genes da mãe e outra metade do pai. que bastava activar quatro genes nas células
Em seguida, os investigadores utilizaram da pele de ratinhos adultos para elas voltarem
químicos para induzir as células estaminais a a ser pluripotentes (resultados obtidos pelos
desenvolverem-se em células altamente espe- autores de um dos artigos da Nature). E o que a
cializadas, incluindo cardíacas, musculares e equipa de Plath fez agora, com a ajuda de vírus
cerebrais. que infectam as células de ratinho, foi activar
A produção de células estaminais por par- esses quatro genes (chamados Oct4, Sox2,
tenogénese já tinha sido obtida em ratos, mas c-Myc e Klf4). A dificuldade foi seleccionar ape-
esta é a primeira vez que se concretiza em pri- nas as células onde a activação dos genes se
matas não-humanos. […] tinha verificado — cerca de uma em cada mil.
http://www.mni.pt/destaques/?cod=1743&MNI= O passo seguinte consistiu numa bateria de
71f7fc57352973b73beaa27adb3ea48e testes que provou, de forma convincente, que
as células reprogramadas conseguem dar ori-
gem a todas as células e tecidos de ratinho.
• Em 6 de Junho de 2007, surgiu no jor-
nal Público um artigo intitulado «Cientistas Uma outra equipa relata na Nature que
obtêm células estaminais embrionárias sem conseguiu mesmo fazer nascer ratinhos a partir
recorrer a embriões», baseado em artigos publi- do ADN das células reprogramadas. Plath e os
cados nas revistas Nature e Cell Stem Cells, e seus colegas estão a tentar recriar o fenómeno
do qual se destacaram alguns excertos: em células humanas — o que poderá demorar
ainda alguns anos.
[…] No artigo principal, publicado na Cell
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1296074
Stem Cells, a equipa de Kathrin Plath, da Uni- (adaptado)
versidade da Califórnia, e colegas de Harvard
(1)
anunciam que conseguiram, através de mani- Células estaminais embrionárias (CEE), com capacidade de
gerar células beta do pâncreas para tratar a diabetes; células
pulações genéticas, reprogramar células da pele
estaminais do sangue contra as leucemias; neurónios motores
de ratinhos adultos, obrigando-as a «recuar no contra a doença de Parkinson, etc.

ACTIVIDADES

1. De que modo a análise destes artigos contribui para que encaremos a Ciência como uma área do saber
em constante construção?
2. Em que difere a clonagem terapêutica da clonagem reprodutiva humana?
3. Que problema de ordem ética, relativamente à clonagem terapêutica, poderá vir a ser ultrapassado com
estas novas descobertas?

unidade 6 Reprodução 111


919354 U7_p112-143 18/1/08 16:40 Page 112

unidade 7

112 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


919354 U7_p112-143 18/1/08 16:40 Page 113

Evolução biológica

7 1 Unicelularidade
e multicelularidade 116

U7P113H1 7 2 Mecanismos de evolução 129

Como é que a Ciência


e a sociedade têm interpretado
a grande diversidade dos seres vivos?
919354 U7_p112-143 18/1/08 16:40 Page 114

unidade
A
7 Evolução biológica
B C D

Seremos mesmo parentes?

E F G

Será possível estabelecer uma origem comum para estes seres vivos?

H I

Qual foi o contributo destas ilhas e deste


homem para o pensamento biológico?

O QUE JÁ SABE, OU NÃO...

1. Classifique as afirmações seguintes como verdadeiras (V) ou falsas (F).


A — Todos os seres multicelulares são diferenciados.
B — Todos os seres procariontes são unicelulares.
C — As bactérias em contacto prolongado com um antibiótico tornam-se resistentes ao mesmo.
D — As mutações podem beneficiar os indivíduos.
E — Todos os seres eucariontes são multicelulares.
F — Os seres vivos com reprodução sexuada não são os únicos seres que podem sofrer mutações.
G — Quem evolui é a população, e não o indivíduo.
H — De tanto se alimentarem das folhas das árvores mais altas, as girafas conseguiram aumentar o seu
pescoço.
I — A evolução biológica ocorreu das formas mais simples para as mais complexas.
J — Uma borboleta colorida tem sempre vantagem em qualquer ambiente.

114 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


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INTRODUÇÃO

A Terra ter-se-á formado há cerca de 4600 milhões de anos, e centenas de milhões de


anos mais tarde a vida terá surgido à superfície do Planeta. Desde então, e até à actualida-
de, as formas de vida têm vindo a sofrer alterações, pelo que uma grande diversidade de
seres vivos povoa hoje os ambientes aéreos, terrestres e aquáticos, inclusive os mais inós-
pitos e com condições aparentemente pouco propícias à existência de vida.
Desde há muito tempo que o Homem se tem questionado sobre a origem da vida e
das inúmeras espécies, tentando perceber a grande diversidade de organismos. Os avanços
da Ciência e o desenvolvimento da tecnologia têm trazido respostas às inúmeras questões
apresentadas e, por vezes, têm contribuído para a reformulação, ou completa mudança, de
teorias que, ao longo dos séculos, têm sido apresentadas, na tentativa de responder a estas
interrogações.

A evolução das células procarióticas, relativamente simples, para células


eucarióticas, com maior complexidade, e dos seres unicelulares para seres plu-
ricelulares está associada a um conjunto de acontecimentos extremamente
importante na história da Terra.
A grande diversidade de seres vivos (Fig. 1) é hoje explicada pelas teorias
evolutivas, que, embora tenham alguns opositores, continuam a ser as que melhor
respondem às questões levantadas.

A B

Fig. 1 Diversidade. Ser unicelular, ameba (A); colónia de bactérias (B); seres multicelulares, algas (C).

unidade 7 Evolução biológica 115


919354 112-143_U7 6/16/08 3:09 PM Page 116

7 1 Unicelularidade
e multicelularidade
No princípio criou Deus os céus e a terra. E a terra era sem forma e
vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o espírito de Deus movia-se
sobre a face das águas.
Livro do Génesis

A observação do meio ambiente revela uma grande diversidade


de seres vivos que povoam inclusivamente os mais inóspitos locais.
De facto, as dimensões, as formas, a complexidade de funções e a
capacidade de adaptação às alterações do meio são alguns dos
aspectos que variam nos seres vivos e os tornam tão distintos.
No entanto, todos estes seres têm algo em comum — a célula
é a sua unidade básica de estrutura e função.

ACTIVIDADE

DIVERSIDADE E UNIDADE DOS SERES VIVOS

1. Analise as imagens e responda às questões.

A B C

D E F

Fig. 2 Na Natureza é possível encontrar uma imensa diversidade de seres vivos.

1.1 Refira o que há de comum entre todos os seres vivos representados nas imagens.
1.2 Em C, o organismo é constituído por vários tipos de tecidos (muscular, nervoso e outros). Descreva
a constituição de um tecido.
1.3 O organismo F poderá apresentar órgãos? Justifique a sua resposta.
1.4 Justifique a afirmação seguinte: «A ameba (B) nunca poderá possuir tecidos.»
1.5 As bactérias (E) são seres unicelulares. Enumere as características que as distinguem da ameba (B).

116 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


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O número de células que pode constituir um ser vivo é um dos Procarionte Prokaryote
critérios que permitem a sua organização e distinção: Eucarionte Eukaryote

• os organismos unicelulares, constituídos por uma única célula,


são de menores dimensões e são, geralmente, os mais simples;
• os seres multicelulares podem ser formados por um número
de células muito elevado e apresentam dimensões e comple-
xidade superiores.
No entanto, o facto de um organismo vivo ser unicelular não
implica a sua simplicidade, pois existem células procarióticas e célu-
las eucarióticas que apresentam diferentes níveis de complexidade. A RETER

Os seres procariontes (formados por uma célula procariótica), As células podem ser
procarióticas (seres
como as bactérias, são os mais simples e apresentam um elevado procariontes), apresentando
grau de sucesso, povoando todos os ambientes. No entanto, na uma organização simples,
Natureza existem, também, os seres eucariontes (formados por ou eucarióticas (seres
eucariontes), revelando
uma ou várias células eucarióticas), que apresentam níveis mais uma estrutura complexa.
complexos de organização.
Embora as diferenças presentes na estrutura celular dos orga-
nismos seja relevante na sua distinção, existem aspectos que permi-
tem estabelecer relações entre ambos os grupos e considerar um
ancestral comum.

ACTIVIDADE

DIVERSIDADE DE TIPOS DE CÉLULAS

1. Observe as imagens e responda às questões.

Bactéria (célula procariótica)

B C

Célula eucariótica vegetal Célula eucariótica animal

Fig. 3 As estruturas das células procarióticas e das células eucarióticas vegetal


e animal apresentam grandes diferenças.

1.1 Refira as duas diferenças fundamentais entre as células procarióticas e as células eucarióticas.
1.2 Enumere três aspectos, evidenciados nas imagens B e C, que permitem distinguir as duas células.
1.3 Quais são os organitos celulares, evidenciados em B e C, comuns às células eucarióticas animal
e vegetal?
1.4 Refira as razões que inviabilizam que um animal (o elefante, por exemplo) seja constituído por uma
única célula.

unidade 7 Evolução biológica 117


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Uma vez que a teoria celular, pilar fundamental da Biologia,


afirma que uma célula provém sempre de outra preexistente, a
explicação para esta diversidade da estrutura celular relaciona-se
com a história e a origem da vida na Terra.
Os fósseis mais antigos, encontrados na África do Sul e na
Austrália, datam de há cerca de 3500 milhões de anos (Fig. 4A)
e apresentam as características dos procariontes.
No entanto, um dos mais antigos fósseis de eucariontes já des-
cobertos, acritarca, encontrado na China, pertence a um grupo de
organismos unicelulares com 1800 milhões de anos (Fig. 4B). Este
fóssil foi assim classificado por apresentar dimensões superiores às
das células procarióticas e, ainda, pela complexidade da sua parede
celular.

C
Complexo de Golgi

Cloroplasto

Núcleo

Mitocôndria

Fig. 4 Estromatólito, fóssil de células procarióticas descoberto na Austrália,


com 3500 milhões de anos (A); acritarca, representante de um grupo, já extinto,
de eucariontes (B); Euglena, ser unicelular actual, protista formado por uma célula
eucariótica que apresenta diversos organitos (C).

118 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


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ACTIVIDADE LABORATORIAL

OBSERVAÇÃO DE ORGANISMOS UNICELULARES E ORGANISMOS MULTICELULARES

Teoria Que semelhanças Conclusão


Unicelularidade e diferenças se
e pluricelularidade verificam entre
os diversos organismos
observados?

Princípios Discussão
1 — Considere as bactérias e as
paramécias e refira as semelhanças
e as diferenças morfológicas entre
estes organismos.
2 — Discuta os aspectos morfológicos
comuns e diferentes entre os
restantes seres observados.

Conceitos Resultados

Procedimento
1 — Observe ao microscópio, na objectiva de menor ampliação, as preparações extemporâneas
ou definitivas de: bactérias, paramécia, Volvox, elódea e corte transversal de folha.
2 — Seleccione a melhor objectiva para observar cada uma das preparações com maior pormenor.
3 — Esquematize cada um dos seres observados, legendando-os. Utilize as imagens seguintes para
a comparação com o material observado e como auxílio na elaboração da legenda.
4 — Compare os vários organismos (ou órgão, no caso do corte de folha) entre si.

Bactérias Volvox

Elodea Corte transversal de folha de planta Paramécia


superior

Fig. 5 Diferentes organismos em que se pode encontrar unidade e diversidade.

unidade 7 Evolução biológica 119


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Modelo Autogénico Autogenous Model Aparecimento dos seres eucariontes


Modelo Endossimbiótico Endosymbiotic
O estudo dos fósseis evidencia que as primeiras células eram
Model
procarióticas, muito simples, sem membranas internas e com o
DNA não encerrado num invólucro nuclear, e que só posterior-
mente surgiram células eucarióticas, mais complexas, apresentando
um sistema endomembranar bem desenvolvido. No entanto, esta
análise, só por si, não permite saber em que sentido terão evoluído
as primeiras para dar origem às células eucarióticas.
O aparecimento das células eucarióticas foi explicado, até há
algum tempo, pelo Modelo Autogénico. Segundo este modelo,
terão resultado de um processo de complexificação de seres proca-
riontes unicelulares. A célula constituinte destes seres apresentava
invaginações na membrana plasmática, e algumas destas membra-
nas terão sofrido especializações nas suas funções, originando siste-
mas de membranas. A formação de um núcleo contendo o DNA
terá ficado a dever-se a invaginações que cercaram esta molécula
existente na célula (Fig. 6). Com este modelo, alguns factos relacio-
nados com a estrutura da célula eucariótica são debilmente explica-
dos, nomeadamente: se os organitos celulares se formaram através
de uma sequência de invaginações da membrana plasmática, e se
A RETER alguns possuem DNA (caso dos cloroplastos e das mitocôndrias),
O Modelo Autogénico explicou,
não seria de esperar que estas moléculas, tendo migrado do núcleo,
durante bastante tempo, apresentassem uma estrutura semelhante?
o aparecimento de células
O que se verifica é que o DNA presente nestes dois organitos
eucarióticas a partir
de procarióticas. possui uma estrutura muito mais próxima do DNA das bactérias do
que do DNA do núcleo.

Invaginação da membrana
DNA plasmática

Fig. 6 Esquema representativo do Modelo Autogénico.

Lynn Margulis, bióloga e professora na Universidade de Massa-


chusetts, baseou-se na relevância das relações de simbiose entre
seres vivos para apresentar outro modelo que explicasse, de forma
mais coerente e de acordo com as observações, a transição para a
célula eucariótica — Modelo Endossimbiótico (ou Teoria Endos-
simbiótica)
Sabe-se que a associação de células é frequente e pode trazer
vantagens às células intervenientes. Segundo este modelo, células
procarióticas heterotróficas teriam incorporado outras, com as quais
estabeleceram uma relação simbiótica. As células terão permaneci-
do intactas no seu interior, acabando por se converter em organitos
da célula hospedeira.
120 BIOLOGIA A vida e os seres vivos
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Numa primeira etapa, a célula hospedeira terá incorporado


bactérias aeróbias (capazes de utilizar o oxigénio, já presente na
atmosfera, para provocar a degradação de compostos orgânicos
e obter energia), que, depois, terão evoluído para mitocôndrias
(Fig. 7A). Numa fase posterior terá ocorrido simbiose com cianobacté-
rias (bactérias fotossintéticas), o que permite explicar a existência
de plastos (cloroplastos e outros) em algas e plantas.
As mitocôndrias das células eucarióticas são muito semelhantes
a bactérias nas dimensões e na estrutura, além disso, possuem DNA
próprio, o que lhes confere alguma autonomia relativamente à
célula a que pertencem, pois podem dividir-se independentemente
A RETER
desta.
O Modelo Endossimbiótico
Também os cloroplastos (Fig. 7B) se assemelham a algumas é o mais aceite para explicar
bactérias, e a sua incorporação por células procarióticas apresenta o aparecimento das células
vantagens evidentes: as células aeróbias poderiam, assim, obter o eucarióticas e baseia-se nos
princípios das relações
oxigénio produzido neste organito e a matéria orgânica resultante simbióticas.
da fotossíntese.

CURIOSIDADE
Reclinomonas americana é o pro-
tista com mitocôndrias mais
simples. Os genes destas mito-
côndrias são semelhantes aos
da bactéria causadora de tifo
Rickettsia prowazekii. Esta bacté-
ria parasita divide-se apenas den-
tro de células eucarióticas, como
acontece com as mitocôndrias.
Fig. 7 Estrutura dos organitos: mitocôndria (A) e cloroplasto (B).

unidade 7 Evolução biológica 121


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Segundo o Modelo Endossimbiótico (Fig. 8), as membranas


intracelulares terão derivado de invaginações da membrana plas-
mática e, gradualmente, compartimentado a célula hospedeira,
A RETER originando o sistema endomembranar. O núcleo parece ter sido for-
Segundo o Modelo mado a partir de uma destas invaginações da membrana plasmática.
Endossimbiótico, as Como o DNA circular das células procarióticas se encontra ligado à
mitocôndrias e os cloroplastos membrana plasmática, é provável que tenha ocorrido o encerra-
são organitos cujos ancestrais
eram seres procariontes. mento do mesmo num saco intracelular, formando um núcleo pri-
mordial.

Parede celular Vesícula de endocitose

Membrana celular
C

B DNA Lisossoma

DNA D
A
Elementos
do citosqueleto
A perda da parede celular
Célula aumenta a flexibilidade Quando as invaginações
procariótica com da membrana plasmática, da membrana plasmática
parede celular. que possui muitos se fecham, formam-se
ribossomas. compartimentos internos, um Núcleo primordial
dos quais armazena o DNA
Invólucro nuclear (precursor do núcleo).
Mitocôndria

H Retículo
Precursor
A quantidade crescente de DNA fica do peroxissoma
endoplasmático rodeada de membranas — cisternas do
retículo endoplasmático. O citosqueleto
Lisossoma ajuda a suportar o crescimento da célula
e limita a flexibilidade da membrana
plasmática.

Cloroplasto
Núcleo E
Complexo Elementos
de Golgi do citosqueleto

Célula eucariótica
Peroxissoma fotossintética.
Retículo endoplasmático

G Aparelho de Golgi

Célula com núcleo,


retículo endoplasmático
e complexo de Golgi.

Mitocôndria

Precursor
do cloroplasto.

Precursor da mitocôndria.
Fig. 8 Modelo Endossimbiótico.

122 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


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O Modelo Endossimbiótico continua a ter bastante aceitação, Colónias Colonies


porque existem vários argumentos a seu favor:
• A simbiose continua a ser um processo muito comum no
mundo vivo. Continua a verificar-se a existência de relações
simbióticas entre bactérias (procariontes) e protozoários (euca-
riontes), entre outras.
• As dimensões dos cloroplastos e das mitocôndrias são muito
semelhantes às dos procariontes actuais.
• A síntese proteica das mitocôndrias e dos cloroplastos é ini-
bida por substâncias inibidoras de procariontes (estreptomi-
cina e cloranfenicol), mas não por inibidores de eucariontes
(cicloeximida).
• O aminoácido iniciador da cadeia polipeptídica de uma
mitocôndria ou de um cloroplasto é a formilmetionina, como
nas bactérias, e não a metionina, como nos eucariontes
(e nas arqueobactérias).
• As mitocôndrias e os cloroplastos têm divisão autónoma.
• O DNA das mitocôndrias e dos cloroplastos é semelhante, em
estrutura, ao material genético bacteriano, pois não está
associado a histonas.
• Os cloroplastos possuem ribossomas com tamanho e caracte-
rísticas muito semelhantes às dos ribossomas dos procariontes.

Como e por que razão terão surgido A RETER


os seres multicelulares? A divisão celular está relacionada
com a necessidade de equilíbrio
na razão área/volume.
As relações simbióticas atrás referidas e o consequente apareci-
mento de células eucarióticas terão tornado mais fácil a sobrevivên-
cia dos organismos nessa fase da história da Terra. Por outro lado,
as condições ambientais também se terão tornado diferentes e mais
ÁREA/VOLUME
propícias à existência de vida.
Considerando um cubo com
Assim sendo, ter-se-ão reunido condições para o desenvolvi- 1 cm de aresta, o seu volume
mento das células eucarióticas então formadas, e um aumento de será de 1 cm3, a sua área
dimensões terá sido uma consequência inevitável. No entanto, superficial de 6 cm2 e a razão
quando o tamanho da célula aumenta, a relação da sua área super- área/volume de 6. Mas um
cubo com 2 cm de aresta terá
ficial com o seu volume diminui, porque a superfície não aumenta
um volume de 8 cm3, uma área
ao mesmo ritmo que o volume, não existindo compensação. superficial de 24 cm2 e uma
O bom funcionamento da célula depende do seu metabolismo, razão área/volume de apenas 3.
e este conjunto de fenómenos está inteiramente dependente das
trocas com o meio extracelular (entrada de substâncias necessárias,
por exemplo, nutrientes e oxigénio, e eliminação de substâncias de
excreção, como o dióxido de carbono). Assim, a relação entre a 4
Razão área/volume

área superficial da célula e o seu volume não pode diminuir sem 3

pôr em risco o seu equilíbrio (Fig. 9). 2

Esta deve ter sido a razão pela qual, em determinada altura, as 1


células eucarióticas começaram a sofrer divisão. Numa fase inicial, 0
ter-se-ão formado colónias — grupos de células que, após divisão Volume
celular, permanecem juntas. Fig. 9 Variação da razão área/volume.

unidade 7 Evolução biológica 123


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Mas a verdadeira multicelularidade não se limita ao facto


de existir um número de células agrupadas; é necessário que
ocorra uma dependência funcional entre estas.
A existência, ainda hoje, de seres vivos cujas células eucarióti-
cas mantêm uma relação colonial veio ajudar a perceber a origem
dos seres multicelulares.
Em algumas destas colónias, embora ainda não exista diferen-
ciação celular nem formação de tecidos, há uma distribuição de
tarefas, o que implica a especialização de diversos grupos de células
em diferentes funções e a coordenação destas actividades.
A colónia de Volvox é formada por um conjunto de células
envolto por uma camada de cerca de mil outras células biflagela-
das. A reprodução assexuada, ou mesmo sexuada, está reservada a
alguns grupos de células (Fig. 10).
Fig. 10 Volvox é um protista formado
Provavelmente, estes seres coloniais deram origem aos verda-
por células eucarióticas associadas deiros seres multicelulares, por especialização crescente das suas
em colónia. células. Estes primeiros seres multicelulares terão surgido há cerca
de mil milhões de anos, de acordo com os registos fósseis.
Nem todos os seres multicelulares apresentam diferenciação
celular; muitos deles apresentam conjuntos de células especializa-
das que se organizam em tecidos e estes em órgãos cuja associação
em sistemas dá origem ao organismo (Fig. 11).

Organismo multicelular
produtor de gâmetas
Protista unicelular

Organismo multicelular primitivo


com células interdependentes
e especializadas

Células somáticas (qualquer


célula de um ser multicelular,
com excepção das sexuais)

Colónia

Células locomotoras

Células especializadas na
síntese de matéria orgânica

Gâmeta — célula sexual

Fig. 11 Um modelo da evolução dos eucariontes unicelulares até aos seres


multicelulares com diferenciação celular.

A RETER

Os seres coloniais podem ter sido os antecessores dos organismos


multicelulares.

124 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


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Com a multicelularidade, os seres vivos conseguiram resolver o


problema que anteriormente foi equacionado, nomeadamente:
• o aumento de dimensões com a conservação do equilíbrio
da relação área/volume;
• a manutenção da área necessária e suficiente para as trocas
com o meio;
• a diminuição da taxa metabólica (quantidade de energia neces- A RETER
sária para manter o organismo) e o incremento da diversidade.
A maioria dos seres
No entanto, desde o aparecimento dos seres multicelulares até multicelulares apresenta uma
à grande diversidade de seres vivos que existe actualmente decorreu especialização tão elevada, que
se pode falar em diferenciação
um longo período de tempo durante o qual se desenrolaram inú- celular.
meros processos, que constituem os mecanismos da evolução (Fig. 12).

Atmosfera anaeróbia, 10% de oxigénio livre 20% de oxigénio livre na atmosfera,


rica em hidrogénio na atmosfera desenvolvimento da camada de ozono

Domínio
Archaea
Linhagem Archaea

Origem
dos animais
Origem
Origem dos eucariontes, dos fungos
os primeiros protistas

Domínio Eukaria
Origem
Ancestrais da mitose
dos eucariontes e meiose.

Origem
das plantas
Origem
endossimbiótica Origem endossimbiótica
das mitocôndrias. dos cloroplastos
As bactérias fotossintéticas
produtoras de oxigénio
e os eucariontes primitivos
tornam-se simbiontes.
Domínio
Bacteria

Linhagem
das bactérias
Origem dos
procariontes

Desenvolvimento de Simbiose entre seres


respiração aeróbia em aeróbios e início da
vários grupos de bactérias. formação dos eucariontes.

3800 milhões 3200 milhões 2500 milhões 1200 milhões 900 milhões 435 milhões
de anos de anos de anos de anos de anos de anos

Evolução química e molecular

Fig. 12 Evolução das formas de vida ao longo da história da Terra.

unidade 7 Evolução biológica 125


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ACTIVIDADE

RELAÇÃO BIÓTICA ENTRE UM PROTOZOÁRIO E UMA ALGA

1. Vorticella é um protozoário heterotrófico em cuja célula, em forma de sino, se podem encontrar


numerosas células de uma alga autotrófica, Chlorella (Fig. 13A). Cada indivíduo de Chlorella encontra-se
num vacúolo, isolado da restante célula de Vorticella através de uma membrana simples (Fig. 13B).
A Vorticella fornece protecção e nutrientes minerais à alga; esta, por sua vez, retribui com a matéria
orgânica, sintetizada através da fotossíntese, que é imprescindível à sua hospedeira.
Analise as imagens e responda às questões.

Vacúolo
digestivo

Chlorella

Vacúolo contendo alga

Fig. 13 Colónia de Vorticella observada ao microscópio (A); pormenor (B).

1.1 Identifique a relação biótica evidenciada na situação descrita.


1.2 Por que razão se pode afirmar que esta associação «contribui para o aumento da capacidade
de sobrevivência» do hospedeiro?
1.3 Justifique a afirmação seguinte.
«Os vacúolos que contêm a alga não podem exercer funções digestivas.»
1.4 Considere a relação biótica apresentada e a explicação dada pelo Modelo Endossimbiótico
para o aparecimento de células eucarióticas que incluem mitocôndrias.
Refira de acordo com o Modelo Endossimbiótico o papel desempenhado por:
a) a Vorticella;
b) a alga Chlorella.
1.5 Apresente uma justificação para a afirmação seguinte, meramente hipotética.
«Apesar de, no início da relação, os dois organismos possuírem quantidades de DNA muito
semelhantes, se esta relação se mantiver é provável que a quantidade de DNA da alga diminua.»
1.6 Descreva a provável constituição celular do protozoário Vorticella, se esta relação biótica
se mantiver.

126 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


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Conceitos/Palavras-chave

Necessários Essenciais Complementares

• Célula procariótica • Procarionte • Diferenciação celular


• Célula eucariótica • Eucarionte
• Organito celular • Modelo Autogénico
• Unicelular • Modelo Endossimbiótico
• Multicelular • Colónias
• Diferenciação celular

Síntese de conhecimentos

• Quando se deu a origem da vida na Terra, devem ter surgido seres unicelulares e procariontes: seres
cuja única célula apresentava uma estrutura muito simples.
• O Modelo Autogénico explica a evolução dos seres procariontes para os seres eucariontes, através da
especialização de sistemas de membranas, que resultam de invaginações da membrana plasmática.

• O Modelo Endossimbiótico explica o aparecimento de células eucarióticas, mais complexas, através


da manutenção de relações de simbiose entre células procarióticas e por invaginações sucessivas da
membrana plasmática.

• O aumento de volume das células eucarióticas levou à divisão celular e à formação de colónias
de células.
• Quando as células dos seres coloniais se começaram a especializar em funções distintas, mantendo-se
interligadas e interdependentes, surgiram os seres multicelulares.
• Os seres multicelulares desenvolveram grupos de células com funções muito distintas.

• A diferenciação celular iniciou-se pela formação de tecidos que se organizaram em órgãos, incluídos
em sistemas que, no seu conjunto, constituíram os organismos.

unidade 7 Evolução biológica 127


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ACTIVIDADES

Unicelularidade e multicelularidade
1. Elabore um mapa de conceitos relativo aos conteúdos desta subunidade.

2. Seleccione a opção que melhor traduz a sequência do aparecimento dos vários tipos de
células/organismos no planeta Terra, de acordo com os conhecimentos actuais.
A — Seres unicelulares e procariontes; seres multicelulares e eucariontes; seres unicelulares
e eucariontes; seres coloniais.
B — Seres unicelulares e procariontes; seres unicelulares e eucariontes; seres coloniais;
seres multicelulares e eucariontes.
C — Seres unicelulares e procariontes; seres coloniais; seres unicelulares e eucariontes;
seres multicelulares e eucariontes.

3. Escolha a opção mais correcta para completar a afirmação que se segue.


«O Modelo Endossimbiótico apresenta uma explicação para…»
A — … o aparecimento de seres multicelulares a partir de seres unicelulares.
B — … o aparecimento de seres multicelulares a partir de eucariontes.
C — … o aparecimento de seres eucariontes a partir de procariontes.
D — … o aparecimento de seres multicelulares a partir de procariontes.

4. Com base na afirmação seguinte e nos conhecimentos adquiridos nesta subunidade,


responda às questões.
«Alguns protozoários estabelecem relações simbióticas permanentes com bactérias
aeróbias; mesmo não possuindo mitocôndrias, realizam a respiração aeróbia.»
4.1 O que entende por relação simbiótica?
4.2 Qual é a vantagem desta associação para os protozoários?
4.2.1 E para as bactérias?
4.3 Em que medida estes factos, observados na actualidade, reforçam o Modelo
Endossimbiótico?

5. Observe as imagens, que mostram


A B
uma planta e uma colónia
de Volvox, e apresente duas
semelhanças e duas diferenças,
relativas à estrutura e à
organização celular, entre os
organismos representados.

6. Seleccione as expressões que se referem a vantagens da multicelularidade em relação


à unicelularidade.
A — Diminuição de dimensões com equilíbrio da relação área/volume.
B — Obtenção da área necessária para as trocas com o meio.
C — Diminuição da taxa metabólica.
D — Aumento da taxa metabólica.
E — Aumento da diversidade.
F — Diminuição da relação área/volume.
G — Maior capacidade de resistência a alterações ambientais.
H — Diminuição da diversidade.

128 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


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7 2 Mecanismos de evolução Fixismo Fixism


Evolucionismo Evolutionism
A Natureza não faz nada bruscamente.
LAMARCK

No Mundo actual é possível encontrar uma grande diversidade


de seres vivos, da mais pequena bactéria à grande baleia.

Fig. 14 Os recifes de coral são locais com uma grande diversidade de seres vivos.

Como se explica a origem de todas


estas espécies de seres vivos?

As hipóteses que explicam a origem das espécies integram-se


em dois grandes grupos:
• Fixismo.
• Evolucionismo.
A RETER
As hipóteses fixistas consideram que os seres vivos actuais
O Fixismo considera que
apresentam o mesmo aspecto desde que se formaram. as espécies são imutáveis,
As hipóteses evolucionistas consideram que os seres vivos enquanto o Evolucionismo
admite que as espécies podem
se modificaram ao longo do tempo, de uma forma lenta e pro- sofrer transformações.
gressiva.
unidade 7 Evolução biológica 129
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Na Antiguidade Clássica, os grandes filósofos gregos Platão


(428-347 a. C.) e Aristóteles (384-322 a. C.) consideraram que as
espécies de seres vivos de então eram imutáveis desde o seu apare-
cimento, influenciando o pensamento da sociedade da altura e
durante centenas de anos.
Aristóteles acreditava que os seres vivos eram criados a partir
de matéria inanimada e que um princípio activo a transformava em
matéria viva. Esta hipótese fixista é conhecida como Teoria da
Geração Espontânea e só em 1864 foi completamente posta de
parte por Pasteur (1822-1895), com a descoberta do processo de
pasteurização.
No entanto, a primeira hipótese fixista de que há conhecimento
é o Criacionismo, referido na Bíblia, no Livro do Génesis. Segundo
A RETER esta hipótese, os seres vivos foram criados por uma entidade divi-
na, de uma só vez, e com as características actuais.
TEORIAS FIXISTAS
Deve considerar-se ainda o Catastrofismo, preconizado por
Geração Cuvier (1769-1832). Devido à descoberta de fósseis (Figs. 15 e 16),
Espontânea com aspecto diferente entre si nos vários estratos rochosos e distin-
Criacionismo
tos dos seres vivos actuais, Cuvier imaginou que os seres vivos de um
determinado local eram destruídos por catástrofes naturais, haven-
Catastrofismo do posteriormente um repovoamento a partir de locais próximos.

Fig. 15 Fóssil de Archeopterix, encontrado em Berlim, que se Fig. 16 Fóssil de trilobite.


encontra no Museu de História Natural de Londres.

As ideias de Cuvier, aceites durante algum tempo, foram con-


testadas por Charles Lyell (1797-1875), que apresentou outra
explicação para as diferenças encontradas entre os diferentes estratos
de uma rocha. Segundo este geólogo britânico, os processos erosi-
vos actuais, provocados pela acção da água e do vento, teriam exis-
tido também no passado, sendo esta a explicação para a ausência
de alguns fósseis em alguns estratos rochosos. Segundo Lyell, os
acontecimentos geológicos são o resultado de processos da Natureza
lentos e graduais.
Estas ideias na área científica da Geologia tiveram também
influência na fundamentação e aceitação de teorias mais concretas
de Evolucionismo.
130 BIOLOGIA A vida e os seres vivos
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Que argumentos podem ser utilizados


a favor do Evolucionismo?

Muitos estudos e observações, realizados a partir do início do


século XIX, apoiam a modificação gradual dos seres vivos no planeta
Terra desde o seu aparecimento, há cerca de 3500 milhões de anos.
A vida ter-se-á iniciado com seres de grande simplicidade e, pro-
gressivamente, foi-se tornando mais complexa.

APARECIMENTO (CONHECIDO)
FORMA DE VIDA
em milhões de anos

Seres procariontes 3500


Células eucarióticas 2000
Primeiros animais multicelulares 670
Animais com concha 540
Primeiros vertebrados (peixes) 490
Anfíbios 350
Répteis 310
Mamíferos 200
Primeiros primatas 60
Primeiros macacos 25
Australopitecos 4
Humanos modernos 0 (艐150 000 anos)
Fonte: http://books.nap.edu/html/creationism/evidence.html

Argumentos paleontológicos
No século XVIII, o estudo dos fósseis evidenciou a existência de
diferenças significativas entre as espécies actuais e inúmeras espécies
do passado, contrariando as ideias fixistas. Muitos dos fósseis que se
encontram nas rochas sedimentares de vários locais do Mundo são
vestígios de formas de vida inexistentes hoje em dia (Fig. 17).

Fig. 17 Fósseis de amonite.

Encontraram-se também fósseis que apresentam características


de dois grupos actuais, como o Archeopterix (Fig. 15). Este animal
tem penas e asas — características de ave —, assim como dentes,
cauda e garras — características de réptil.
unidade 7 Evolução biológica 131
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Outro exemplo que se pode considerar é o Basilosaurus (Fig. 18D),


um dos elos da cadeia evolutiva das baleias actuais. Neste fóssil
observam-se quatro membros desenvolvidos. Tudo indica que as
baleias tiveram como ancestral um mamífero terrestre, que sofreu
modificações ao longo do tempo, de forma a sobreviver em ambiente
aquático.

A B

Andrewsarchus (60-32 Ma) Ambulocetus (50-49 Ma)

C D

Fóssil de Basilosaurus (45-36 Ma)

Rodhocetus (50-49 Ma) Membro posterior de Basilosaurus

Balaenoptera (baleia-azul)

Fig. 18 As baleias actuais têm como ancestral um mamífero terrestre que evoluiu para
espécies progressivamente mais adaptadas à água. Andrewsarchus: possível mamífero
terrestre ancestral (A); Ambulocetus (B); Rodhocetus (C); Basilosaurus (D);
Balaenoptera, baleia azul (E).

132 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


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No registo fóssil encontram-se ainda muitos outros exemplos


de formas de seres vivos de transição entre peixes e anfíbios (Fig. 19),
entre anfíbios e répteis e entre répteis e mamíferos.

Fig. 19 Fóssil de Ictiostega, peixe com patas, barbatana dorsal e pulmões primitivos,
considerado uma forma intermédia entre os peixes e os vertebrados terrestres.

Argumentos anatómicos
Na anatomia dos seres vivos actuais, encontram-se também
exemplos que podem ser considerados argumentos a favor do Evo-
lucionismo.
Se se observarem os membros anteriores do homem, do gato,
da baleia e do morcego, verifica-se que são aparentemente muito A RETER
diferentes, podendo ter funções distintas. Contudo, ao estudar a Órgãos homólogos são
sua origem embrionária e ao observar o seu esqueleto, é possível órgãos constituídos por
detectar os mesmos ossos nas mesmas posições relativas. Estes partes semelhantes, dispostas
segundo a mesma ordem. Estão
órgãos são considerados órgãos homólogos (Fig. 20); a sua origem relacionados com ancestrais
é explicada através da existência de um ancestral comum que comuns que sofreram evolução
sofreu evolução divergente: um órgão ancestral comum diversificou- divergente. Podem ser,
aparentemente, iguais
-se devido a pressões ambientais distintas, pois cada ser vivo utiliza ou muito distintos.
o seu órgão em diferentes condições e ambientes.

A B C D

Falanges Metacarpo Carpo Rádio Cúbito Úmero

Fig. 20 Estruturas homólogas de mamíferos, esqueletos dos membros anteriores:


do homem (A); do gato (B); da baleia (C); do morcego (D).

unidade 7 Evolução biológica 133


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Outros exemplos de órgãos homólogos são os vários tipos de


corações dos vertebrados ou, ainda, os vários tipos de caules das
plantas: bolbos, algumas gavinhas, tubérculos e rizomas (Fig. 21).

A B

C D

Fig. 21 Órgãos homólogos: bolbo (A); tubérculo (B); gavinhas (C); rizoma (D).

Existem, por outro lado, espécies com órgãos que têm funções
similares, com estrutura anatómica e origem embrionária diferentes,
e que não possuem ancestrais comuns, tendo ocorrido uma adapta-
ção a meios ambientes semelhantes, como, por exemplo, a asa de
um insecto e a asa de uma ave (Fig. 22). Estas estruturas designam-
-se por órgãos análogos. O corpo fusiforme dos peixes e dos
mamíferos marinhos também é considerado um exemplo de analo-
A RETER gia; apesar de não terem ancestrais comuns, peixes e mamíferos
Órgãos análogos são órgãos
marinhos apresentam esta característica que beneficia o seu modo
que, apesar de apresentarem de locomoção em ambiente aquático (Fig. 23). Por serem seres vivos
funções semelhantes, resultam que não possuem ancestrais comuns mas que apresentam órgãos
de ancestrais diferentes sujeitos
a evolução convergente.
semelhantes, consequência de mecanismos adaptativos idênticos,
diz-se que sofreram evolução convergente.

A B

Fig. 22 A asa de um insecto (A) e a asa de uma ave (B) são exemplos de órgãos análogos.

134 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


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A B

Fig. 23 Um exemplo de analogia: o corpo fusiforme dos peixes (A) e dos mamíferos
marinhos (B).

Também podem ser consideradas como argumentos anatómi- Vértebra


Costela
cos as denominadas estruturas vestigiais: estas parecem resultar
de órgãos funcionais nos ancestrais, que regrediram. Exemplos des- Osso
pélvico
tas estruturas são:
• os ossos de patas nas cobras, como a pitão (Fig. 24);
• as asas das aves corredoras, como o quivi ou a avestruz (Fig. 25); Fémur
Garra
• os dentes nos embriões das baleias-de-barbas. de membro
posterior
No homem também existem órgãos vestigiais, como o apêndi-
Fig. 24 As pitões e as jibóias mantêm
ce, os dentes caninos, os músculos auriculares das orelhas e as vér- vestígios da cintura pélvica e dos
tebras coccígeas (Fig. 26). membros posteriores.

Vértebras coccígeas

Fig. 25 As asas do quivi são rudimentares (estruturas vestigiais). Fig. 26 No homem, as vértebras
coccígeas são o vestígio da antiga
cauda.

unidade 7 Evolução biológica 135


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Argumentos bioquímicos
Todos os seres vivos têm os mesmos tipos de moléculas orgâni-
A RETER
cas (ácidos nucleicos, lípidos, proteínas e glúcidos) e os mesmos
ARGUMENTOS tipos de compostos químicos básicos (cinco nucleótidos, vinte ami-
A FAVOR noácidos e várias enzimas). Em comum têm ainda o código genético.
DA EVOLUÇÃO
Apesar de os seres vivos possuírem os mesmos tipos de molé-
Paleontológicos culas, estas não são exactamente iguais. Por exemplo, quanto mais
próximos são os laços de parentesco, menores são as diferenças
Anatómicos
existentes na sequência de aminoácidos de uma proteína, e quanto
Citológicos mais afastados estiverem os seres vivos, maiores serão as diferenças
Bioquímicos
encontradas. Na sequência de nucleótidos do DNA, as maiores ou
menores semelhanças existentes também se explicam por maior ou
Outros menor proximidade nas relações de parentesco desses seres vivos.

ACTIVIDADE

SEMELHANÇAS BIOQUÍMICAS

1. Analise o diagrama seguinte, que representa a percentagem de diferenças nos aminoácidos entre todas
as moléculas de hemoglobina a, de vários seres vivos, comparadas duas a duas. Responda às questões.

Tubarão Carpa Tritão Galo Equidna Canguru Cão Homem

Tubarão 0 59 61 60 60 55 57 53

Carpa 0 53 51 54 51 48 49

Tritão 0 45 50 48 46 44

Galo 0 34 29 31 25

Equidna 0 35 30 26

Canguru 0 23 19

Cão 0 16

Homem 0
Science et Vie — Hors-Série, n.º 173, Dezembro de 1990 (adaptado)

Fig. 27 Percentagem de diferenças nos aminoácidos entre todas as moléculas


de hemoglobina a de vários seres vivos.

1.1 Identifique a percentagem de aminoácidos diferentes nas moléculas de hemoglobina do tritão


e do canguru.
1.2 Refira dois grupos de animais que apresentem entre si a diferença indicada na alínea anterior.
1.3 Identifique os grupos de seres vivos menos relacionados entre si quanto a esta molécula. Justifique
a sua resposta.
1.4 Refira os grupos de seres vivos que lhe parecem ser mais próximos entre si, tendo em conta
as diferenças apresentadas nesta molécula. Justifique a sua resposta.

136 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


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Argumentos citológicos
Embora sejam muito diferentes entre si, os seres vivos são for-
mados por células — unidades de constituição e funcionamento.
Este facto pressupõe uma origem comum, reforçada, ainda, pela
existência de um metabolismo celular idêntico em todos os seres
vivos.

Evolução das espécies


Existem inúmeros factos científicos que apoiam a alteração das
espécies ao longo do tempo, e, como tal, são fortes contributos
para as teorias sobre evolução. Resta, contudo, encontrar uma
explicação sobre a forma como as espécies evoluem.

Qual foi a explicação de Lamarck


para a evolução das espécies?

O naturalista francês Jean-Baptiste Lamarck (1744-1829)


(Fig. 28) elaborou a primeira teoria explicativa da evolução das
espécies.
Botânico do rei, exercendo funções no Jardim Botânico de
Paris, Lamarck executou estudos taxonómicos que o induziram a
concluir que as espécies não só se relacionam entre si, como sofrem
alterações ao longo do tempo. Em 1809, este naturalista publicou a
obra Philosophie Zoologique, em que expôs as suas ideias sobre esta
temática.
Segundo Lamarck, é a necessidade de adaptação ao ambiente
que leva o indivíduo a iniciar o seu processo evolutivo. Segun-
do o mesmo autor, as alterações são conseguidas e preservadas no
indivíduo devido a dois fenómenos, cuja síntese ficou conhecida
por Leis de Lamarck: Fig. 28 Jean-Baptiste Lamarck
• Lei do Uso e do Desuso — para rendibilizar a sua relação (1744-1829).

com o meio, os seres vivos tendem a usar mais um determi-


nado órgão, o que tem como consequência o seu desenvolvi-
mento, ou a usá-lo menos, o que causa a atrofia ou desapare-
cimento do mesmo.
Por exemplo, teria sido desta forma que as cobras, para
melhor se movimentarem em espaços exíguos, teriam ficado
com o corpo alongado, como consequência de se esticarem
continuamente, e, em simultâneo, perdido as suas patas, por
estas se revelarem inúteis durante a deslocação nesses mes-
mos espaços (Fig. 29). Também os peixes das grandes profun- CURIOSIDADE
didades, aonde não chega a luz, teriam perdido a visão por
Lamarck inventou o sistema
não utilizarem os olhos. dicotómico de identificação de
• Lei da Transmissão dos Caracteres Adquiridos — após seres vivos, que teve muito êxito.
ocorrer a modificação no indivíduo, pelo uso ou pelo desuso Actualmente, as chaves dicotó-
de um determinado órgão, essa alteração seria transmitida micas continuam a ser muito usa-
das na identificação e classifica-
aos descendentes. Desta forma seriam fixadas as alterações ção de seres vivos.
na espécie.
unidade 7 Evolução biológica 137
919354 U7_p112-143 18/1/08 16:41 Page 138

A B C

Fig. 29 Lamarck explica a evolução do corpo da cobra pela necessidade que esta
teve de o esticar (uso), provocando o seu alongamento. Simultaneamente, o facto
de ter deixado de usar os seus membros (desuso) resultou na atrofia progressiva
que levou ao seu desaparecimento.

A RETER ACTIVIDADE
De acordo com a Teoria
Lamarckista a evolução é: LAMARCKISMO
• motivada pela necessidade
1. Analise atentamente as frases seguintes e responda às questões.
de adaptação ao meio;
• centrada no indivíduo; A — Há milhares de anos que as crianças israelitas são
• desenvolvida segundo dois circuncidadas, mas continuam a nascer com prepúcio.
mecanismos sequenciais: B — A imobilização dos membros, por exemplo em caso
— uso ou desuso de de paralisia, leva a uma atrofia dos mesmos.
determinado órgão;
C — As omoplatas dos nadadores, devido ao tipo de exercício
— transmissão das novas
características à
constante a que estão sujeitos, tendem a alargar.
descendência. 1.1 Identifique as frases que:
a) apoiam a Teoria Lamarckista;
b) contrariam a Teoria Lamarckista.
1.2 Relacione cada uma das frases com uma das leis
de Lamarck.
1.3 Sugira situações do conhecimento comum que, à primeira
vista, possam apoiar a Teoria Lamarckista.
1.4 À luz de todos os conhecimentos biológicos por si
adquiridos, elabore críticas à teoria em estudo.

Embora as ideias propostas por Lamarck tenham grande


importância para a história da Biologia, dado que constituem a pri-
meira explicação do mecanismo de evolução, por não terem sido
suportadas por factos, não são aceites actualmente pela comunidade
científica.
138 BIOLOGIA A vida e os seres vivos
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Se a primeira lei de Lamarck pode ser apoiada por fenómenos


visíveis, ou seja, se é possível relatar situações de alteração das
características como resultado do uso diferenciado de um determi-
nado órgão, o mesmo não acontece relativamente à segunda lei
deste naturalista. Na realidade, não há evidências de que um indi-
víduo possa transmitir à geração seguinte características adquiridas
durante a sua vida.
As novas descobertas científicas vieram demonstrar que as
características de um indivíduo — fenótipo — são o resultado da
interacção de dois factores: o seu genótipo (conjunto de genes her-
dados dos progenitores) e a sua relação com o ambiente. A probabi-
lidade de o ambiente alterar o genótipo de um indivíduo é mínima.
Por exemplo, um ambiente radioactivo poderá induzir mutações,
mas estas apenas se reflectirão na sua descendência se ocorrerem nas
células da linha germinal (gâmetas). Porém, o fenótipo resultante
dessas alterações não se expressará nas células somáticas do próprio.
Se a mutação ocorrer em células somáticas manifestar-se-á ape-
nas no indivíduo e não afectará a sua descendência. Assim sendo,
não há probabilidade de um indivíduo transmitir à geração seguinte
características adquiridas durante a sua vida.

Qual foi a explicação de Darwin e Wallace


para a evolução das espécies?

Em 1858, ano em que os ensaios de Darwin (Fig. 30) e Wallace


foram apresentados numa reunião da Sociedade Lineana, em Lon-
dres, a comunidade científica apresentava-se receptiva à aceitação
de uma teoria evolutiva, dado que se acumulavam evidências da
mutabilidade das espécies, bem como provas de que a própria
Terra havia sofrido várias transformações e que tinha uma idade
muito superior àquela que anteriormente se supunha.
Embora a popularidade de Darwin seja superior à de Wallace,
ambos os naturalistas, isoladamente, chegaram a modelos evolutivos
muito semelhantes. Apesar de te-
rem apresentado os seus ensaios
à comunidade científica em si-
multâneo, um ano depois, em
1859, Charles Darwin publicou
A Origem das Espécies, em que
explicitou a sua teoria e expôs
um vasto conjunto de provas por
si recolhidas. O impacto da obra
na comunidade civil pode ser a
justificação para o facto de ape-
nas o nome de Darwin ficar asso-
ciado à Teoria da Selecção Na-
tural, relegando para um plano
secundário o nome de Wallace.
Fig. 30 Charles Darwin.

unidade 7 Evolução biológica 139


919354 U7_p112-143 18/1/08 16:41 Page 140

ACTIVIDADE

DIFERENTES CONTRIBUTOS PARA O DARWINISMO

1. Leia atentamente os textos seguintes, analise as imagens apresentadas e responda às questões.


A — Charles Lyell comunicou à comunidade científica que a Terra,
16 Progressão geométrica
com uma idade muito superior àquela que até então se Ex.: Crescimento da
pensava, tinha vindo a sofrer mudanças geológicas de extrema população humana

lentidão.
B — Thomas Malthus (1766-1834), economista e demógrafo 8 Progressão aritmética
Ex.: Crescimento dos
6
britânico, publicou, em 1798, Ensaio sobre o Princípio da recursos alimentares
4
População, em que expôs a tese de que a um crescimento 2
geométrico da população humana corresponde um crescimento
aritmético das suas fontes alimentares (Fig. 31). O facto
Tempo
de o crescimento da população superar o da produção
de alimentos fazia-o defender a ideia de que a regulação Fig. 31 Relação entre o crescimento
do crescimento populacional, a fim de evitar guerras de uma população e o das suas
e fomes, implicava o controlo da natalidade. fontes alimentares.

C — Ao cruzarem espécimes com determinadas características preferenciais ao longo de várias


gerações, os criadores de animais e plantas procedem a uma selecção artificial (Fig. 32).
Com esta técnica conseguem obter, a partir de ancestrais comuns, raças distintas.
O próprio Darwin era criador de pombos e conhecia bem esta técnica.

Repolho Couve-de-bruxelas

Couve-galega
Couve-flor

Brócolos
Couve-rábano

Fig. 32 A grande diversidade de couves actuais terá surgido a partir de uma única planta (mostardeira), tendo
os agricultores manipulado os cruzamentos ao longo de muitas gerações.

D — Em 1831, Darwin iniciou uma viagem à volta do mundo a bordo do navio Beagle, com o objectivo
de recolher informação oceanográfica e biológica. Na rota desta viagem estava incluído
o arquipélago das Galápagos; enquanto explorava este arquipélago, Darwin apercebeu-se de duas
situações peculiares:
• embora as ilhas distassem cerca de mil quilómetros do continente sul-americano, existia uma
grande semelhança entre os animais de ambos os locais;
• as espécies animais apresentavam diferenças de ilha para ilha.

140 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


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1.1 De que modo as considerações de Lyell (texto A) a propósito da idade da Terra e das respectivas
modificações poderão ter contribuído para que Darwin desenvolvesse uma teoria evolutiva para os
seres vivos?
1.2 Analise a teoria de Malthus (texto B), aplicando-a ao crescimento de uma qualquer população
animal, num ambiente natural, e relacionando as taxas de crescimento propostas por este
demógrafo para a espécie humana e aquelas que são verificáveis numa população animal.
1.3 Não sendo aplicável o conceito de controlo de natalidade às populações animais, que mecanismos
poderão regular o crescimento destas populações?
1.4 Após a análise do texto C, infira sobre o modo como o ambiente pode substituir o papel do «criador
de animais e plantas».
1.5 Analise o texto D e justifique os factos observados por Darwin na sua exploração do arquipélago dos
Galápagos, nomeadamente:
a) as semelhanças entre as espécies encontradas no arquipélago e as do continente sul-americano;
b) as variações nas espécies animais de ilha para ilha.

Para a construção da sua teoria, Darwin baseou-se em dados


observados por si e em dados apresentados em publicações de
outras áreas do conhecimento, das quais tirou aplicações para a
evolução dos seres vivos.
Assim sendo, foram vários os contributos para o avanço dos
trabalhos de Darwin:
• Dados biogeográficos. Foi essencialmente a viagem a bordo
do Beagle que permitiu a Darwin perceber que, se por um
lado existe uma uniformidade entre todos os seres vivos à
superfície da Terra — o que o levou a considerar uma possí-
vel ancestralidade comum —, por outro lado existem varia-
ções entre populações de locais relativamente próximos, o
que o levou a admitir a possibilidade de cada uma delas ser
o resultado de um processo de evolução condicionado por
condições ambientais particulares (Fig. 33).

Pinta
A E
B Marchena Genovesa
Grã-Bretanha Isabela
ÁSIA Santiago
AMÉRICA EUROPA CHINA Bartolomeu
DO NORTE Santa Cruz
Fernandina São Cristobal
OCEANO OCEANO
ÍNDIA
OCEANO Santa Fé
Tartaruga PACÍFICO
Ilhas ÁFRICA Galápagos Espanhola
Santa Maria
Galápagos
AMÉRICA OCEANO
DO SUL
PACÍFICO ÍNDICO
ATLÂNTICO

Viagem de Darwin no Beagle 0 2000 km Tentilhões de Darwin

C D Fig. 33 Na sua viagem a bordo do Beagle (A), Darwin visitou o


arquipélago das Galápagos (B), onde verificou que: animais
distantes apresentavam características muito semelhantes,
como as aves nativas das Galápagos e as aves nativas da
costa do Pacífico (C e D); no próprio arquipélago, e ao longo
das várias ilhas, os animais apresentavam variações, como
os tentilhões que ficaram conhecidos como tentilhões
de Darwin (E).

unidade 7 Evolução biológica 141


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selecção artificial artificial selection • Dados geológicos. Com os trabalhos de Lyell, Darwin per-
cebeu que a Terra tem um longo passado de transformações
graduais e lentas. Associando a estes factos o conhecimento,
já existente na época, de inúmeras espécies fósseis, revelando
alterações nas formas vivas, Darwin deduziu que as espécies
de seres vivos teriam sido também fruto de transformações.
Darwin foi mais longe, ao verificar e valorizar a existência de
variabilidade entre os indivíduos de uma população (Fig. 34).

Fig. 34 Nas diversas características de todas as populações, incluindo a humana, existe variabilidade.

• Dados económicos. O trabalho de Malthus, aparentemente


sem relação com a evolução das espécies, deu a Darwin o
mote para a explicação do processo evolutivo. Transpondo
os dados de Malthus para as comunidades animais, Darwin
percebeu que em todas as populações nascem mais indiví-
duos do que aqueles que o ambiente consegue suportar
(por exemplo, o espaço ou os alimentos poderão ser factores
limitantes); nestas condições, muitos dos animais morrem
precocemente, sobrevivendo só alguns, que deixam descen-
dência.
• Dados de selecção artificial. A selecção artificial é uma
técnica utilizada por todos os que se dedicam ao apuramento
de raças, animais ou vegetais. Consiste em promover cruzamen-
tos preferenciais entre indivíduos portadores das características
142 BIOLOGIA A vida e os seres vivos
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desejadas pelo criador. Desta maneira, o mesmo assegura selecção natural natural selection
que a frequência das características seleccionadas aumenta
progressivamente de geração em geração (Fig. 35).

São-bernardo Husky siberiano Buldogue Cocker spaniel Pequinês


Selecção artificial

ANCESTRAL DO CÃO



Chacal Coiote Raposa Lobo Cão-africano


Selecção natural

ANCESTRAL DOS CANINOS

Fig. 35 Consequências da selecção natural no aparecimento de novas espécies


e da selecção artificial no «apuramento de raças».

Darwin aplicou o princípio de selecção artificial ao processo da


evolução. Se, com os trabalhos de Malthus, Darwin tinha percebido
que nem todos os indivíduos têm hipótese de sobreviver e de se
reproduzir, aplicando o conceito de selecção artificial concluiu que
deveriam ser os seres vivos com as melhores características — não
as características seleccionadas pelo criador, mas as que conferiam
mais vantagens no meio natural — os que mais possibilidades tinham
de sobreviver. Surgiu, assim, o conceito de selecção natural.
unidade 7 Evolução biológica 143
919354 U7_p144-165 18/1/08 16:42 Page 144

Mecanismo de evolução segundo Darwin


Para Darwin, a evolução ocorre dentro da população (conjun-
to de indivíduos de uma espécie que coabitam no mesmo espaço
geográfico e no mesmo período de tempo).
Dentro da população existe heterogeneidade (Fig. 36), isto é,
para qualquer característica considerada, há variabilidade entre os
indivíduos. Na presença de determinadas condições ambientais,
nem todos os indivíduos têm a mesma capacidade de sobrevivên-
cia. Por exemplo, a existência de folhas apenas nos ramos mais
altos das árvores, permite que os herbívoros de maior porte tenham
maior facilidade em se alimentar. Assim sendo, em cada ambiente,
e dentro de cada população, existem indivíduos com características
mais vantajosas — mais aptos — e indivíduos com características
menos vantajosas — menos aptos. A probabilidade de sobrevivên-
cia e reprodução será maior nos primeiros e menor nos segundos
(Fig. 37).

Fig. 36 Variabilidade na população humana.

Fig. 37 Os ratos podem apresentar cores variadas. De acordo com as características


do seu habitat, poderão passar mais ou menos despercebidos aos seus predadores,
sobrevivendo mais ou menos tempo.

144 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


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Exercido pelo ambiente nas suas mais variadas vertentes, este


fenómeno — que consiste em não conceder a todos os indivíduos
a mesma probabilidade de sobreviver e de se reproduzir, e que
Darwin designou por selecção natural — é, segundo o naturalista
britânico, o grande motor da evolução.

ACTIVIDADE LABORATORIAL

INFLUÊNCIA DAS CARACTERÍSTICAS NA SOBREVIVÊNCIA

Material (por grupo)


• 2 painéis de 1 m2.(1)
• 1 folha de papel milimétrico.
• 1 saco, com a etiqueta «População inicial», com 120 círculos de cartolina.(2)
• 1 conjunto de lápis de cor.(3)
• 1 saco com 100 círculos de cada cor, de cartolina.
• Cronómetro ou relógio com segundos.
• Pinças (opcional).

Procedimento
1 — Escolhe-se um árbitro em cada grupo.
2 — Examinam-se os círculos de cartolina (cada um deles representa um indivíduo de uma
determinada espécie, que apresenta grande diversidade, pois pode ter as várias cores
representadas).
3 — Metade dos grupos usa um dos painéis, e a outra metade usa o outro painel.
4 — O árbitro distribui os 120 círculos — população inicial — por um dos painéis, enquanto os outros
elementos não vêem.
5 — O árbitro chama os restantes elementos do grupo para «caçarem» os círculos que conseguirem,
durante 20 segundos (podem utilizar pinça).
6 — Quando a «caça» acaba, os alunos devem recolher com cuidado os restantes círculos e dividi-los
por cores. O árbitro deve registar estes dados num gráfico de barras, em papel milimétrico, usando
os lápis com as cores respectivas.
7 — Adicionam-se três círculos da mesma cor, para simular a reprodução entre os círculos de papel,
por cada círculo que não foi «caçado». Estes círculos, da mesma cor, adicionados representam
a descendência.
8 — Repetem-se os passos 4, 5 e 6.
9 — Calcula-se o número de indivíduos da terceira geração, total e para cada uma das cores.(4)
10 — Analisam-se os gráficos com atenção.

Discussão
1 — Quais são as cores dos círculos que sobreviveram melhor na segunda e na terceira gerações?
Justifique a sua resposta.
2 — Qual é o efeito de captura de um círculo com uma determinada cor sobre o número de círculos
dessa cor na geração seguinte?
3 — Imagine uma situação real de relação entre presa e predador e descreva a forma como uma ou mais
características da população predadora ou da população presa podem mudar, ao longo do tempo,
como resultado da selecção natural.
http://books.nap.edu/openbook.php?record_id=5787& (adaptado)

(1)
Cada painel apresenta um padrão diferente, simulando ambientes naturais (floral,
folhoso, etc.). Deve ter várias cores e desenhos em que existam pequenos elementos.
(2)
20 círculos de cada cor (podem ser feitos com um furador); seleccionam-se duas cores
claras, incluindo o branco, e duas cores escuras — duas das cores devem aproximar-se
às dos padrões dos painéis.
(3)
As cores são as mesmas que nos círculos de cartolina.
(4)
Os gráficos e os cálculos para os indivíduos da terceira geração podem ser realizados
numa folha de cálculo de computador.

unidade 7 Evolução biológica 145


919354 U7_p144-165 18/1/08 16:42 Page 146

Os indivíduos portadores das melhores características, ao


sobreviverem durante mais tempo, têm mais hipóteses de se repro-
duzir e originarão mais descendentes. Partindo do princípio, obser-
vável por Darwin, de que os filhos tendem a assemelhar-se aos pais,
pode admitir-se que, de geração para geração, aumentará a fre-
A RETER
quência de indivíduos portadores das características vantajosas.
Darwin considera importantes Assim, de forma lenta e gradual, as populações tenderão a evoluir,
para a evolução os factores
seguintes:
sempre direccionadas pela pressão do ambiente.
• variabilidade nas populações; É de notar que os conceitos de mais e de menos aptos são rela-
• taxa de reprodução tivos; como consequência de uma alteração ambiental resultarão
diferencial;
• selecção natural.
pressões selectivas distintas, premiando, desta forma, característi-
cas alternativas.

Críticas ao Darwinismo
Aquando da exposição do trabalho de Darwin, e ao contrário
do que tinha acontecido com Lamarck, a comunidade científica
mostrou-se receptiva às ideias do naturalista britânico. No entanto,
a publicação de A Origem das Espécies suscitou reacções de escândalo
e protesto na comunidade em geral. Estas são comuns em todas as
civilizações, quando confrontadas com teorias que põem em causa
crenças e convicções.
A teoria de Darwin, ou Darwinismo, como passou a ser conhe-
cida, expunha um mecanismo evolutivo que, à medida que a Ciên-
A RETER
cia evolui e soma conhecimento, é cada vez melhor explicado.
Darwin não explicava:
Inicialmente, o Darwinismo apresentava duas lacunas: afirmava,
• a heterogeneidade entre
mas não explicava, a heterogeneidade das populações nem a forma
os indivíduos; como uma geração transmite as suas características às gerações
• o mecanismo de transmissão seguintes (Fig. 38). Os avanços da Ciência neste campo foram inicia-
das características entre
gerações.
dos pelos trabalhos de Gregor Mendel, e viriam mais tarde a colmatar
estas lacunas.

Fig. 38 Diversidade. Darwin não explicava a origem da diversidade de características


nem a forma como estas eram transmitidas à descendência.

146 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


919354 U7_p144-165 18/1/08 16:42 Page 147

Outra das críticas feitas ao Darwinismo é a sua aparente incom- A RETER


patibilidade com o registo fóssil. O Darwinismo considera a existên- Segundo a Teoria Darwinista:
cia de uma evolução lenta e gradual, mas o registo fóssil conhecido • a população é a unidade
evidencia, por um lado, momentos de evolução rápida e, por outro, evolutiva;
• nas populações existe
escassas formas fósseis de transição. Confrontado com esta crítica, heterogeneidade;
Darwin admitia que faltava ainda encontrar muitos destes fósseis. • o ambiente actua sobre
Ainda hoje, a análise do registo fóssil continua a ser o «calcanhar de as populações exercendo
selecção natural — os
Aquiles» dos seguidores de Darwin — os neodarwinistas. indivíduos mais aptos
reproduzem-se mais e têm
mais descendentes;
Quais são as principais diferenças • a população da geração
entre o Lamarckismo e o Darwinismo? seguinte apresentará um
maior número de indivíduos
portadores das características
As duas teorias apoiam-se nos mesmos factos, isto é, na modifi- mais vantajosas.
cação das espécies; no entanto, não há consenso na explicação
desse processo.

ACTIVIDADE

LAMARCKISMO VERSUS DARWINISMO

1. Analise atentamente as imagens, que apresentam a hipotética evolução de uma mesma espécie, segundo
os modelos de Lamarck e de Darwin. Responda às questões.

LAMARCKISMO

DARWINISMO

Fig. 39 Mecanismos de evolução segundo Lamarck e segundo Darwin.

1.1 Enumere as diferenças entre os dois mecanismos, quanto ao papel desempenhado:


a) pelo indivíduo;
b) pelo ambiente.
1.2 Refira as diferenças existentes nas populações originais.
1.3 Identifique o mecanismo mais provável, de acordo com os conhecimentos científicos actuais.

unidade 7 Evolução biológica 147


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LAMARCKISMO DARWINISMO

Unidade evolutiva Indivíduo População


Agente activo Indivíduo Ambiente
Lei do Uso e do Desuso
Mecanismo Lei da Transmissão dos Selecção natural
Caracteres Adquiridos

Qual foi a explicação dos neodarwinistas


para a evolução das espécies?

Algumas das lacunas da Teoria Darwinista viriam a ser colma-


tadas com os conhecimentos científicos que se foram sucedendo,
essencialmente, na área da Genética. Assim, como resultado da fusão
entre a Teoria de Darwin e trabalhos nas áreas da genética mende-
liana e da genética de populações, surgiu uma teoria que ficou
conhecida por Teoria Sintética da Evolução ou Neodarwinismo.
O Neodarwinismo reconhece a selecção natural enquanto agente
principal da evolução que actua sobre a variabilidade das popula-
ções. Em oposição a Darwin, os neodarwinistas encontraram uma
explicação para este fenómeno.
Para os defensores desta teoria, a variabilidade é da responsa-
bilidade de dois fenómenos: mutações e recombinação génica
(essencialmente associada à reprodução sexuada).
As mutações são alterações que ocorrem no material genético
de determinado indivíduo (Fig. 40). Se ocorrerem nas células germi-
nativas (gâmetas), poderão ser transmitidas à geração seguinte.
As mutações são, assim, um fenómeno capaz de gerar novos genes
e, como tal, características inovadoras. O seu impacto, em termos
evolutivos, poderá ser maior ou menor, consoante dota os indiví-
duos mutantes de características vantajosas ou não. As mutações,
para terem valor evolutivo, não podem impedir o indivíduo mutan-
te de se reproduzir, fixando, assim, as novas variantes génicas, os
novos genes na população.

Algumas mutações na mosca-da-fruta

Olhos castanho-claros Olhos estreitos Asas atrofiadas

Fig. 40 A diversidade de características da mosca-da-fruta é consequência de várias


mutações.

A formação de um gene completamente novo é um fenómeno


extraordinariamente raro, sendo mais comum a mutação originar
uma variante de um gene preexistente, formando-se um novo alelo.
148 BIOLOGIA A vida e os seres vivos
919354 U7_p144-165 18/1/08 16:42 Page 149

Apesar de as mutações serem capazes de gerar novos alelos,


a sua diminuta taxa de ocorrência nos eucariontes (existem inúmeros
A RETER
processos de reparação dos «erros») não pode ser responsável, por si
só, pela vasta heterogeneidade de uma população. A recombinação Para os neodarwinistas,
a variabilidade deve-se a:
génica, que ocorre durante a reprodução sexuada com uma frequên-
• mutações;
cia significativa desempenha também, um papel muito importante. • recombinação génica.
Nas espécies com reprodução sexuada ocorrem sempre dois
fenómenos: meiose e fecundação. Ambos contribuem para gerar
variabilidade.
Durante a meiose, células diplóides geram células haplóides
que vão estar envolvidas na fecundação. No decorrer da meiose,
surgem dois momentos geradores de variabilidade: o crossing-over
(durante a prófase I), em que cromossomas homólogos trocam
segmentos (genes) entre si, originando novos cromossomas, porta-
dores de combinações novas de alelos maternos e paternos; a
repartição dos cromossomas homólogos (durante a anáfase I),
que gera novas combinações de cromossomas paternos e maternos
em cada pólo. Este último fenómeno gera novas combinações de
cromossomas. As células formadas poderão possuir cromossomas
de origem materna, paterna e mista (devido a fenómenos de
crossing-over preexistentes).
Aos processos descritos é necessário acrescentar o momento da
fecundação, em que se fundem dois gâmetas, ao acaso, resultantes
da diversidade gerada pela meiose de cada progenitor.
Assim, muito dificilmente se repetem duas combinações simi-
lares e, como tal, é quase impossível obter, por reprodução sexua-
da, dois indivíduos exactamente iguais, ainda que sejam descen-
dentes dos mesmos progenitores.
Desta forma os neodarwinistas explicam a variabilidade genéti-
ca dentro da população. Os indivíduos são considerados como por-
tadores de combinações genéticas que os dotam de características
vantajosas, ou não, para um ambiente específico (Fig. 41).

Fig. 41 Numa população inicial de determinados insectos existe diversidade genética. Numa
situação ambiental específica, como é a aplicação de insecticida, só os indivíduos portadores
de um alelo mutante que confira resistência ao insecticida conseguem resistir — selecção
natural. A geração seguinte é constituída por indivíduos portadores desse alelo.
A população evolui, modificando a frequência relativa dos alelos dos seus genes.

unidade 7 Evolução biológica 149


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A selecção natural vai actuar sobre a variabilidade dos indiví-


duos. Alguns, os portadores dos melhores conjuntos de alelos,
viverão mais tempo e, como tal, reproduzir-se-ão mais facilmente.
Desta forma, os alelos codificadores das características vantajosas
terão maior probabilidade de serem transmitidos à geração seguin-
te. Nesta, a frequência dos mesmos alelos tenderá a aumentar,
enquanto a frequência dos alelos codificadores de características
menos vantajosas tenderá a diminuir.
Assim, de modo lento e gradual, as populações tenderão a evo-
luir, modificando o seu reservatório genético (conjunto de alelos de
uma população e respectivas frequências).

A RETER

Segundo a Teoria Neodarwinista:


• numa população existe variabilidade entre os indivíduos que a
compõem, isto é, os indivíduos são portadores de diferentes conjuntos
de alelos dos mesmos genes;
• a variabilidade na população resulta das mutações e da recombinação
génica (meiose e fecundação);
• a selecção natural actua sobre os indivíduos, favorecendo os que são
portadores dos melhores conjuntos de alelos;
• os alelos codificadores das melhores características são transmitidos
com mais frequência à geração seguinte;
• o reservatório genético da população evolui, aumentando a frequência
dos alelos responsáveis pelas características mais vantajosas.

ACTIVIDADE

ESTUDO DE UM CASO DE EVOLUÇÃO

1. Leia atentamente o texto seguinte, analise as imagens referentes às mariposas salpicadas, Biston
betularia, e responda às questões.
Antes da Revolução Industrial na Grã-Bretanha, a forma mais conhecida destas mariposas era a clara,
salpicada (Fig. 42A). A forma escura (Fig. 42B) foi identificada pela primeira vez em 1848, perto de
Manchester, e a sua frequência aumentou até constituir mais de 90% da população das áreas poluídas
em meados do século XX. Em áreas despoluídas, a forma clara era ainda comum. A partir da década de 70,
como resultado de práticas conservacionistas e consequente diminuição da poluição, a frequência das formas
escuras diminuiu drasticamente (de cerca de 95% para menos de 10% em meados da década de 90).

A B

Fig. 42 Biston betularia, forma clara original (A) e forma escura (B).

150 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


919354 U7_p144-165 18/1/08 16:42 Page 151

[…] Em meados dos anos 50, Kettlewell explicou a mudança na frequência pela acção da caça visual por
pássaros. A forma escura ficava camuflada de modo mais eficaz no tronco das árvores, onde a fuligem
matou os líquenes. Por outro lado, as mariposas claras camuflavam-se melhor em áreas despoluídas.
Alguns autores, entretanto, afirmam que B. betularia raramente permanece no tronco das árvores
durante o dia, preferindo regiões mais altas e protegidas. Recentemente, experiências simulando a visão
dos pássaros demonstraram que os líquenes, efectivamente, promovem uma boa camuflagem para
as formas claras. Alguns estudos identificaram um aumento da quantidade destes líquenes, bem como
da frequência de formas claras das mariposas, embora a correlação com a diminuição da poluição ainda
não possa ser esclarecida.
[…] Um estudo de L. M. Cook conclui que, no melanismo industrial de B. betularia, o aumento original
e a recente diminuição da frequência das formas escuras são notáveis exemplos de selecção genética
natural, intimamente relacionada com a mudança do meio ambiente.
Como a evolução é definida pela mudança na frequência das características herdadas ao longo do
tempo, o facto de a frequência da forma escura da mariposa B. betularia (cujos padrões de coloração são
regidos pelas Leis de Mendel) ter aumentado e agora diminuído em consequência das leis antipoluição
é forte argumento a favor da evolução. Além disso, a velocidade e a direcção das mudanças podem ser
explicadas apenas pela selecção natural, sendo, assim, prova da evolução darwinista.
R. PAZZA, «As mariposas Biston betularia»,
in http://www.evoluindo.biociencia.org/biston.htm (adaptado)

1.1 Identifique o fenómeno responsável pelo aparecimento, em 1848, da forma escura da Biston
betularia.
1.2 Represente graficamente a variação do número de indivíduos de formas escuras.
1.3 Explique a evolução das formas escuras de 1848 a 1970.
1.4 Explique a evolução das formas escuras de 1970 à actualidade.
1.5 Comente a afirmação seguinte:
«O caso relatado evidencia a forma como a sociedade e a tecnologia podem influenciar o rumo
da evolução de determinadas espécies.»

Críticas ao Neodarwinismo
As maiores críticas da comunidade científica ao Neodarwinis-
mo surgem, essencialmente, pela voz dos paleontólogos, que não
revêem no registo fóssil o processo defendido pelos seguidores de
Darwin.
A leitura do registo fóssil na Terra expõe uma vida que evolui,
não de forma lenta e gradual, mas que ocorre por patamares, isto é,
momentos de grande diversificação de formas de vida, que, nor-
malmente, se sucedem a momentos de extinções em massa, inter-
calados com períodos de alguma estabilidade evolutiva.
Com base neste registo, e não negando os princípios básicos do
Neodarwinismo, como são as mutações e a selecção natural, Niles
Eldredge e Stephen Jay Gould, ambos paleontólogos, propuseram
um modelo para a evolução designado por Modelo dos Equilí-
brios Perturbados ou Pontuados. Segundo os mesmos autores,
as espécies, geralmente, mudam pouco durante a maior parte da
sua história, mas acontecimentos de especiação rápida (a partir
de pequenas populações periféricas, em que a taxa de fixação das
mutações é significativamente maior) perturbam ocasionalmente
esta estabilidade.

unidade 7 Evolução biológica 151


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ACTIVIDADE LABORATORIAL

RELATIVIDADE DO MAIS APTO

Material
• Folhas de papel A4.
• Tesoura.
• Molde de construção A.
• Molde de construção B.
• Fita métrica.

Procedimento
Considere que os modelos de construção A e B representam planos de formação de animais hipotéticos,
com formas aerodinâmicas que lhes conferem adaptações para o voo.
1 — Construa o animal A seguindo as instruções do molde A.
2 — Construa o animal B seguindo as instruções do molde B.
3 — Faça os dois modelos voar, aplicando forças idênticas.
4 — Repita o passo cinco vezes para cada um dos modelos.
5 — Anote as distâncias percorridas por cada um dos modelos e calcule a respectiva média de distância
de voo.
3 4 5
A 1 2

11
9

7 8 10

B 3 4 5
1 2

9
11

7 8 10
6

Fig. 43 Moldes de construção com planos de formação de animais hipotéticos (A e B).

Discussão
Considere que o modelo A corresponde à variedade de animal original e que o modelo B corresponde
a uma variedade resultante de uma alteração posterior.
1 — Identifique o que representa cada um dos moldes de construção.
2 — Refira o processo biológico que poderá estar na base do surgimento da variedade B.
3 — Identifique a variedade, A ou B, que está mais bem adaptada ao voo, tentando encontrar uma
explicação para esse sucesso.
4 — Descreva as condições ambientais em que a espécie mais bem adaptada, actualmente, poderia ver
invertido o seu potencial adaptativo.

152 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


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Processos que contribuem para a evolução


das populações
Vários estudos teóricos vieram demonstrar que o reservatório
genético de uma população com reprodução sexuada não é alterado
(ou seja, não evolui) se esta for numerosa, se todos os indivíduos que
a constituem tiverem igual probabilidade de se reproduzir e se não
sofrerem mutações, selecção natural ou migrações. Na Natureza muito
dificilmente se reúnem todas as premissas descritas; assim, admite-
-se que a maior parte das populações sofre processos evolutivos.
São factores promotores da evolução:
• mutações;
• migrações;
• deriva genética;
• cruzamentos não-aleatórios;
• selecção natural.

Mutações
As mutações — alterações do material genético — são capazes
de gerar novos genes. A sua taxa de ocorrência é relativamente
baixa e nem todas as mutações se conseguem fixar nas populações.
Sempre que esta alteração dota o indivíduo de características que o
tornam preterido aquando da reprodução, a mutação é eliminada
da população com a morte do mesmo.
As mutações acontecem ao acaso e, salvo raras execepções (por
exemplo, radioactividade) não como consequência de alterações
ambientais. As que têm maior sucesso são aquelas que, embora
alterem o indivíduo, não impossibilitam, contudo, a sua reprodu-
ção. Podem manter-se nas populações até ao momento em que,
perante uma determinada alteração ambiental, conferem vantagens
aos indivíduos que as possuem.

Migrações
A uma determinada população podem chegar indivíduos da
mesma espécie provenientes de outras populações, que se integram
na nova população e aí se reproduzem (Fig. 44). Se apresentam ale-
los — formas alternativas de um gene — diferentes, ou os mesmos
alelos mas com frequências distintas das da população original,
existe alteração do reservatório genético e, como consequência,
evolução da população. O mesmo fenómeno pode ocorrer nas
situações em que existe saída de indivíduos da população, se as
premissas anteriores ocorrerem.

Fig. 44 Ao transportar
sementes no seu bico
durante o voo, o gaio-azul
contribui para o fluxo de
genes entre populações
afastadas.

unidade 7 Evolução biológica 153


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Deriva genética
A deriva genética consiste na alteração da frequência dos alelos
de uma determinada população, ao acaso e de uma geração para a
seguinte. Este fenómeno não tende a acontecer em populações nume-
rosas, em situações normais; pode, contudo, verificar-se quando
estas populações são sujeitas a situações ambientais responsáveis
pela morte de muitos indivíduos, conseguindo sobreviver apenas
alguns deles. Nestas situações (por exemplo, em caso de incêndio),
os sobreviventes não são necessariamente os mais aptos, mas aque-
les que, por acaso, foram poupados. Sendo assim, a geração seguinte,
que resultará da reprodução dos sobreviventes, poderá apresentar
variações na frequência dos alelos.
Quando as populações são pequenas, estão, normalmente,
sujeitas a deriva genética, podendo existir flutuações consideráveis
na frequência dos alelos de uma geração para a seguinte (Fig. 45).
(As probabilidades aproximam-se da realidade apenas quando as
amostras são numerosas.)

Fenótipo da população do continente

Fig. 45 As aves migradoras podem


transportar sementes de plantas
do continente para as ilhas. Um Fenótipo da população
das ilhas
número reduzido de sementes
origina uma nova população,
o que justifica a diferença entre
os reservatórios genéticos das duas
populações.

ACTIVIDADE

DERIVA GENÉTICA CAUSADA PELA ACÇÃO DO HOMEM

1. Leia o texto seguinte e responda às questões.


Os leões-marinhos, Mirounga angustirostris, do Norte da Califórnia sofreram, no final do século XIX,
uma caça desenfreada motivada pelo uso da sua gordura na produção de óleo, de lubrificantes para
máquinas e de sabão. A caça terminou quando os caçadores pensaram que a espécie estava extinta.
Restava, contudo, uma população de cerca de 20-100 indivíduos.
A protecção posterior desta população permitiu que ela proliferasse,
sendo hoje constituída por alguns milhares de indivíduos. Estudos
genéticos actuais desta população revelaram que a mesma
apresenta uma diminuta diversidade, estando, por isso, muito sujeita
a doenças, pelo que se teme pelo futuro da espécie.
1.1 Por que razão se pode considerar que a população
de leões-marinhos é um exemplo de deriva genética?
1.2 Explique a baixa diversidade da população actual.
1.3 Estabeleça uma relação directa entre a variabilidade de uma
população e a respectiva capacidade evolutiva. Fig. 46 Leões-marinhos.

154 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


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Cruzamentos não-aleatórios
Se, numa população, existirem cruzamentos preferenciais entre
indivíduos portadores de determinado fenótipo, é provável que a
frequência dos alelos responsáveis pelo mesmo se torne predomi-
nante em detrimento da frequência de outros alelos. Os casos mais
extremos de preferência de cruzamentos ocorrem, por exemplo,
em plantas que se autofecundam.

ACTIVIDADE LABORATORIAL

DERIVA GENÉTICA

Com esta actividade pretende-se simular as variações ocorridas numa determinada


população de insectos, que habita um local verdejante, quando sujeita a variação brusca
de temperatura, responsável pela redução drástica do número de indivíduos
da população.

Material (por grupo)


• Garrafa de plástico transparente (500 mL).
• 60 berlindes, ou drageias de chocolate, de quatro cores diferentes
(15 verdes, 15 brancos, 15 vermelhos e 15 amarelos).
• Papel e lápis.

Procedimento
1 — Calcule a frequência de cada fenótipo
na geração inicial (conjunto dos
60 berlindes iniciais), considerando
que cada berlinde corresponde a um
indivíduo e que cada cor corresponde
à expressão fenotípica de um determinado
conjunto de genes.
2 — Coloque todos os berlindes na garrafa
e agite-os de modo que a sua distribuição
seja perfeitamente aleatória. Depois faça sair
cerca de seis berlindes.
3 — Observe os berlindes que saíram da garrafa
(correspondentes aos sobreviventes da
geração inicial — G1). Assinale os fenótipos
(cores) dos sobreviventes e as respectivas
quantidades.
4 — Multiplique por 10 (número de possíveis
descendentes) e obterá a virtual geração
descendente (G2).
5 — Enumere os fenótipos presentes
em G2 e calcule as respectivas
frequências.
6 — Compare os seus resultados com os
resultados obtidos pelos outros grupos. Fig. 47 Procedimento experimental.

Discussão
1 — De acordo com os dados expostos, o que seria de prever, relativamente à variação
das frequências de cada um dos fenótipos (cores), se esta população não fosse sujeita
a factores motivadores de redução drástica da mesma?
2 — Compare os valores esperados com os que foram observados para G2.
Justifique os resultados obtidos.
3 — Procure uma justificação para os resultados obtidos pelos diferentes grupos.

unidade 7 Evolução biológica 155


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Selecção natural
Pela forma persistente como actua, a selecção natural é um dos
processos que mais contribuem para a evolução das populações.
Acontece sempre que, numa população, os indivíduos têm diferen-
tes taxas de sucesso, contribuindo de forma diferencial, com os
seus alelos, para a geração seguinte. Pressionada pelo meio, a fre-
quência dos alelos responsáveis pelas características adaptativas
(Fig. 48) tende a aumentar.
A selecção natural actua favorecendo um determinado fenótipo
(ao qual corresponde uma dada associação de alelos).

A
Número de indivíduos

Número de indivíduos
Selecção

Tamanho do corpo Tamanho do corpo

B
Número de indivíduos

Número de indivíduos

Selecção

Tamanho do corpo Tamanho do corpo

C
Número de indivíduos

Número de indivíduos

Selecção

Tamanho do corpo Tamanho do corpo


Fig. 48 A acção da selecção natural pode beneficiar os indíviduos com: fenótipos
intermédios (A); um dos fenótipos extremos (B); os dois fenótipos extremos (C).

Em alguns casos, e após actuação prolongada da selecção natu-


ral em ambientes cujas pressões selectivas se mantêm constantes, as
populações adaptam-se muito bem a esse meio, sendo cada vez
mais homogéneas (por exemplo, populações constituídas apenas
por indivíduos altos). Esta perda de variabilidade poderá ameaçar a
própria população, se a mesma for submetida a variações ambien-
tais. Numa população com muita variabilidade existem sempre
indivíduos, ainda que poucos, com capacidade de sobrevivência
nas novas condições, o que não acontece na maioria das popula-
ções homogéneas.
156 BIOLOGIA A vida e os seres vivos
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PESQUISAR E DIVULGAR

Desde há muito tempo que o Homem tem tentado, muitas vezes com sucesso, obter linhagens de animais ou
plantas cujas características apresentam particular interesse económico pela sua beleza ou pela sua capacidade
de trabalho ou de produção de alimentos entre outros aspectos. Para isso, promove o cruzamento entre seres que,
embora sejam da mesma espécie, manifestam aspectos diversos de uma determinada característica.
Quando é alcançada uma fixação e uma uniformização das características transmissíveis desejadas, utiliza-se
vulgarmente o termo «raça» para designar esses seres vivos.
No entanto, em Biologia, aplica-se a designação de subespécie, cuja definição, segundo Templeton (1998),
é a seguinte:
«Uma subespécie (raça) é uma linhagem evolutivamente distinta dentro duma espécie. Esta definição requer
que a subespécie esteja geneticamente diferenciada devido a barreiras à troca de genes que persistiram durante
longos períodos de tempo; ou seja, a subespécie tem ter uma continuidade temporal, além da diferenciação
genética observada.»

• Descubra algumas das subespécies de animais que o Homem tem obtido ao longo dos tempos. Utilize bibliografia
variada (jornais, revistas, livros) e/ou as páginas da Internet a seguir sugeridas (ou outras que achar interessantes).

http://www.hospvetporto.pt/servicos/areas_detalhe/7.html
http://www.tudosobrecavalos.com/racas_de_cavalos.php
http://animais.jcle.pt/Cool
http://mail.esa.ipcb.pt/bovinos.autoctones/fragoso.pdf
http://pt.wikipedia.org/wiki/Bovino_Ramo_Grande
http://pt.wikipedia.org/wiki/Esp%C3%A9cie

• Apresente o resultado das suas pesquisas num póster, que poderá ser utilizado também para decoração
da sua sala de aula, do laboratório ou da escola.

CURIOSIDADE
O gato doméstico (Felis silvestris catus, Lineu, 1758) tem sido, ao longo da
história do Homem, um dos animais eleitos para companhia, vigilância e
eliminação de pragas, como as dos ratos e de alguns insectos.
A beleza e a diversidade de características dos exemplares desta espécie
atraíram, desde há muito tempo, os criadores, que se dedicaram a cruza-
mentos variados, com vista a obter animais cada vez mais exóticos e cobiçados
pelos apreciadores. Assim, conhecem-se, neste momento, várias dezenas de
«raças» que têm resultado das mais
variadas combinações entre machos
e fêmeas.
Burmês silver é a designação atribuí-
da a um animal resultante do cruza-
mento entre um macho persa chin-
chila e uma gata burmesa-lilás. Os
registos dizem que este exemplar foi
obtido na Grã-Bretanha, pela pri-
meira vez, em 1981.
O burmês parece ser um exemplar
originário do Sri Lanka, já que ma-
nuscritos dos séculos XIV e XVII ilus-
tram animais que se assemelham
bastante a esta variante. Outros regis-
tos referem que, nos templos budistas
da antiga Birmânia (actual Myanmar)
do século XVI, os monges conviviam
com gatos que, provavelmente, eram
antepassados do burmês. Fig. 49 Gatos burmeses.

unidade 7 Evolução biológica 157


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Conceitos/Palavras-chave

Necessários Essenciais Complementares

• Espécie • Fixismo • Criacionismo


• Variabilidade • Evolucionismo • Geração Espontânea
• Mutação • Selecção natural • Catastrofismo
• Recombinação génica • Selecção artificial • Argumentos paleontológicos
• Argumentos anatómicos
• Argumentos citológicos
• Argumentos bioquímicos
• Lamarckismo
• Darwinismo
• Neodarwinismo

Síntese de conhecimentos

• A origem das espécies pode ser explicada por hipóteses fixistas ou evolucionistas.
• As teorias fixistas consideram que as espécies são imutáveis, ao longo do tempo.
— O Criacionismo considera que os seres vivos foram criados por uma entidade divina.
— A Teoria da Geração Espontânea defende que os seres vivos são formados a partir de matéria
inorgânica com a participação de um princípio activo.
— O Catastrofismo explica as descontinuidades existentes a nível fóssil por catástrofes, que podem
ocorrer num determinado local, onde são destruídos todos os seres vivos, havendo depois um
repovoamento.
• O Evolucionismo considera que as espécies sofreram modificações ao longo do tempo. Existem
observações que apoiam as ideias evolucionistas; são os designados argumentos a favor do Evolucionismo:
— paleontológicos — estudo dos fósseis;
— anatómicos — comparação da anatomia, interna e/ou externa, de seres vivos actuais;
— citológicos — verificação de que todos os seres são constituídos por células;
— bioquímicos — comparação das moléculas existentes nos seres vivos.
• O Lamarckismo, a primeira teoria explicativa da evolução das espécies, considerava que o indivíduo,
pelo uso ou desuso de um órgão, conseguia obter transformações que depois transmitia à descendência.
• Para a elaboração da Teoria Darwinista contribuíram dados geológicos, biogeográficos, económicos
e de selecção artificial.
• Segundo Darwin, a selecção natural actua em populações
heterogéneas, o que faz com que os indivíduos mais bem
adaptados vivam mais tempo e originem mais descendência.
As gerações seguintes apresentam maior número de
indivíduos mais aptos.
• O Neodarwinismo explica a variabilidade das espécies pelas mutações e pela recombinação génica.
Segundo esta teoria, a selecção natural actua de forma a privilegiar a transmissão de determinados
alelos ao longo das gerações.
• As populações evoluem quando estão sujeitas a um dos factores seguintes: mutações, selecção
natural, deriva genética, migrações e cruzamentos não-aleatórios.
• As populações em que não existe variabilidade genética têm um potencial evolutivo muito baixo.

158 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


919354 144-165_U7 09/03/27 12:59 Page 159

ACTIVIDADES

Mecanismos de evolução
1. Elabore um mapa de conceitos relativo à evolução dos seres vivos.

2. Observe com atenção as figuras seguintes, que representam um cacto e uma eufórbia.
Os cactos vivem originariamente em desertos na América do Norte, e estas eufórbias vivem
originariamente em desertos africanos. São plantas com morfologias muito semelhantes.

A B

Cacto Eufórbia

2.1 Seleccione a opção que completa correctamente a afirmação.


Os cactos e as eufórbias possuem caules que podem ser considerados…
A — … órgãos vestigiais.
B — … órgãos análogos.
C — … órgãos homólogos.
D — … órgãos divergentes.
2.2 Escolha a opção que completa correctamente a afirmação.
Os cactos e as eufórbias sofreram (…) como adaptação a meios ambientes (…).
A — evolução convergente […] semelhantes
B — evolução convergente […] diferentes
C — evolução divergente […] diferentes
D — evolução divergente […] semelhantes

3. Imagine que os seres A, B, C e D, pertencentes a espécies hipotéticas, possuem uma


enzima que codifica uma reacção de metabolismo celular essencial para a sua
sobrevivência. Esta enzima possui, em todos estes seres, 120 aminoácidos com
sequências muito semelhantes, à excepção dos aminoácidos representados no quadro.
Responda às questões.

POSIÇÕES DOS AMINOÁCIDOS


SER
0-9 10 11 e 12 13 14 15 16-27 28 29 30-53 54 55 56 57-120
A … V … F I A … C Y … A S V …
B … V … K K A … C W … E S F …
C … W … F K S … S Y … A C V …
D … V … K K S … S Y … E C V …
Legenda: V — valina; W — triptofano; F — fenilalanina; K — lisina; I — isoleucina; A — alanina;
S — serina; C — cisteína; Y — tirosina; E — ácido glutâmico.

3.1 Indique o número de aminoácidos diferentes entre os seres A e B, e B e D, na molécula


representada.
3.2 Identifique as espécies com maior grau de parentesco. Justifique a sua resposta.
3.3 Identifique as espécies com menor grau de parentesco. Justifique a sua resposta.

unidade 7 Evolução biológica 159


919354 144-165_U7 6/16/08 3:11 PM Page 160

ACTIVIDADES

4. Considere as experiências seguintes, analise-as e responda às questões propostas.


Experiência 1: Clones de plantas originárias de um dado local (A) foram cultivados em três locais
distintos e a altitudes diferentes:
Local A (origem) — situado a cerca de 1500 metros de altitude.
Local B — localizado ao nível médio das águas do mar.
Local C — localizado a cerca de 3000 metros de altitude.
RESULTADO: Todas as plantas cresceram, mas de modo diferenciado.
Experiência 2: Retiraram-se plantas da mesma espécie de quatro locais situados a diferentes
altitudes (locais 1, 2, 3 e 4), que foram cultivadas num quinto local (5), localizado ao nível
das águas do mar.
RESULTADO: Todas as plantas cresceram, apresentando, contudo, diferenças de tamanhos
e formatos, das folhas, mantendo as características originais dos seus progenitores.

Experiência 1
Experiência 2

Local 1

Local 2
A
Local 3

Local 4

Local 5

4.1 Identifique o objectivo desta experiência.


4.2 Seleccione a opção que completa correctamente a frase seguinte: A experiência 1 permite
concluir que…
A — … o genótipo se altera, condicionado pelo ambiente.
B — … a expressão do genótipo é moldada pelos factores ambientais.
C — … na presença de condições ambientais diferentes, o indivíduo sofre mutações.
D — … o fenótipo resulta apenas da expressão do genótipo.
4.3 Seleccione a opção que permite preencher os espaços e obter uma afirmação correcta.
As plantas cultivadas no local 5 (experiência 2) apresentavam inicialmente genótipos (…)
e fenótipos (…).
A — iguais […] iguais
B — diferentes […] diferentes
C — iguais […] diferentes
D — diferentes […] iguais
4.4 Seleccione a alternativa que permite preencher os espaços e obter uma afirmação correcta.
Com o passar do tempo, as plantas originárias dos locais 1, 2, 3 e 4, e agora a crescer no
local 5 (experiência 2), tornar-se-ão cada vez mais (…), o que resultará da acção de pressões
selectivas (…), correspondendo a um processo de evolução (…).
A — iguais […] semelhantes […] divergente
B — diferentes […] distintas […] divergente
C — iguais […] semelhantes […] convergente
D — diferentes […] distintas […] convergente

160 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


919354 U7_p144-165 18/1/08 16:43 Page 161

5. Foi apresentada uma explicação para a origem de uma espécie. Posteriormente, questionou-se
se essa explicação seria lamarckista ou darwinista.
Classifique com S (sim) as opções que apresentam argumentos inequivocamente lamarckistas
ou darwinistas e com N (não) as opções que não defendem explicitamente nenhuma das duas
teorias.
A — A espécie resultou de um processo de evolução.
B — O ambiente foi fundamental no processo de transformação desta espécie.
C — A evolução da espécie resultou do esforço de cada indivíduo ao usar continuamente
determinado órgão.
D — A espécie resultou de um processo de criação divina e manteve-se inalterada desde a sua
formação.
E — Inicialmente, a espécie apresentava grande heterogeneidade, existindo indivíduos com
diferentes capacidades de adaptação.
F — A selecção natural é o processo responsável pela evolução da espécie.
G — São as populações, e não os indivíduos, que evoluem.

6. Seleccione a opção que completa correctamente a afirmação seguinte.


As alterações genéticas numa população de bactérias sujeita à presença de antibióticos devem-se,
numa perspectiva neodarwinista, a…
A — … mutações e reprodução sexuada.
B — … mutação e selecção natural.
C — … adaptação à presença do antibiótico.
D — … recombinação génica e selecção natural.

7. Considere a lista de conceitos usados pelas teorias evolutivas estudadas (Lamarckismo,


Darwinismo e Neodarwinismo) e seleccione os que são darwinistas.
I. Uso/desuso.
II. Selecção natural.
III. Mutações.
IV. Transmissão das características adquiridas.
V. Heterogeneidade das populações.
VI. Variabilidade genética.

8. Considere os diagramas seguintes, que representam, de forma muito esquemática, o reservatório


genético (conjunto de alelos) de uma dada população, em dois momentos separados por um
grande intervalo de tempo.

A B

— Formas distintas do mesmo gene — Formas distintas do mesmo gene — Formas distintas do mesmo gene

8.1 Refira dois factos, observáveis na figura, que permitam afirmar que a população está em
evolução.

unidade 7 Evolução biológica 161


919354 U7_p144-165 18/1/08 16:43 Page 162

ACTIVIDADES

8.2 Seleccione a opção que permite completar correctamente a afirmação seguinte.


O aumento da frequência do gene é da responsabilidade de (…), e o aparecimento do
gene poderá ser atribuído a (…).
A — selecção natural […] mutações
B — mutações […] migrações
C — selecção natural […] deriva genética
D — migrações […] cruzamentos não aleatórios
8.3 Considerando que codifica a cor clara e a cor escura, seleccione a opção que
completa correctamente a afirmação seguinte.
A variação na frequência destes genes poderá ter como justificação…
A — … a poluição crescente do ambiente.
B — … a diminuição da temperatura e o aumento da precipitação sob a forma de neve.
C — … o aumento do número de predadores.
D — … o aumento do alimento disponível.
8.4 Comente a seguinte afirmação, com base na análise da figura.
« codifica uma característica não adaptativa.»

9. Leia o texto e responda às questões.


Assim, o Lamarckismo, tanto quanto podemos julgar, é falso no domínio que sempre
tem ocupado — como teoria biológica da hereditariedade genética. Contudo, e só por
analogia, é o modo de «hereditariedade» de uma outra e muito diferente espécie
de evolução — a evolução cultural humana. O Homo sapiens surgiu há pelo menos
50 000 anos, e não temos a mais pequena sombra de prova a favor de algum
melhoramento genético desde essa altura. Suspeito que o Cro-Magnon médio poderia,
convenientemente treinado, ter manejado computadores como os melhores dentre nós
(eles até tinham cérebros um pouco maiores do que os nossos). Tudo o que conseguimos,
para o bem ou para o mal, é um resultado da evolução cultural. E nós temo-la feito
em taxas incomparavelmente superiores às de toda a história prévia da vida. Os geólogos
não podem medir umas poucas centenas ou uns poucos milhares de anos no contexto
geral da história do nosso planeta. No entanto, neste milimicrossegundo em que vivemos,
transformámos a superfície do nosso planeta por intermédio da influência de uma invenção
biológica inalterada — a consciência de nós próprios. Desde talvez uma centena de milhares
de pessoas com machados até mais de 4000 milhões com bombas, foguetes, navios,
cidades, televisões e computadores — e tudo isto sem que tenha havido substancial
mudança genética.
STEPHEN JAY GOULD, O Polegar do Panda, Gradiva, 1980 (adaptado)

9.1 Considere a afirmação: «O Lamarckismo […] é falso no domínio que sempre tem
ocupado — como teoria biológica da hereditariedade humana.»
Classifique com S (sim) as opções que poderão ser utilizadas, inequivocamente, como
argumento da afirmação inicial e com N (não) as que não respeitam esta condição.
A — O uso persistente de determinado órgão não o torna mais vigoroso.
B — Alterações fenotípicas conseguidas durante a vida do indivíduo não são
transmissíveis aos seus descendentes.
C — O ambiente não altera o fenótipo.
D — Alterações fenotípicas não provocam alterações genotípicas.
E — O indivíduo transmite aos seus descendentes apenas os genes que ele próprio
herdou.
F — A não utilização de determinado órgão tem como consequência a atrofia do mesmo.
G — O ambiente molda o genótipo, podendo alterar o fenótipo.
H — A transmissão das características adquiridas nunca foi provada experimentalmente.
9.2 Comente a afirmação, tentando aplicar as Leis de Lamarck: «A evolução cultural humana
é de natureza lamarckista.»

162 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


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JOGO DE SIMULAÇÃO
Questão central:
• Como explicar o padrão de coloração do peixe-gato-de-ventre-escuro?

• Tendo como base esta questão central, organize um debate com intervenção das
personagens sugeridas, no sentido de explicar a possível origem e evolução da espécie
contemplada no documento que se segue.

Alguns peixes-gato africanos da família nome sugere, é escuro na sua superfície anató-
Mochokidae nadam de costas para baixo. Entre mica inferior (ventre) e claro na sua parte estru-
eles, salientam-se os Synodontis nigriventris. tural superior (dorso).
Estes últimos alimentam-se de algas que obtêm A maioria dos predadores dos peixes deslo-
raspando a página inferior das folhas das plan- cam-se abaixo destes, e quando olham para
tas aquáticas que abundam à superfície das cima (para a claridade do sol) têm mais dificul-
águas. Ao contrário da generalidade dos peixes dade em localizar peixes com o ventre claro.
que apresentam o ventre claro, os S. negriven- STEPHEN JAY GOULD, O Sorriso do Flamingo, 1985
tris (peixe-gato-de-ventre-negro), como o seu (adaptado)

Peixe-gato africano da família Mochokidae.

Fontes bibliográficas:
Para construir a sua personagem, recorra às informações sobre evolução que se encontram
no manual escolar e as obras da biblioteca da Escola.
Pode ainda consultar os seguintes sítios:
• http://www.darwin-online.org.uk
• http://www.pt.wikipedia.org/wiki/Jean-Baptiste_Lamarck
• http://www.simbiotica.org/teorias.htm

Personagens:
Moderador, criacionista, Lamarck, Darwin e defensor do Neodarwinismo.

unidade 7 Evolução biológica 163


919354 U7_p144-165 18/1/08 16:43 Page 164

CiênciaTecnologiaSociedadeAmbiente

DOC. 1 O Criacionismo no século XXI


O estudo da evolução dos seres vivos conti- Trata-se mais de um modelo de trabalho que vai
nua a estar longe de ser um tema de consensos, sendo testado e que vai resistindo, ou não, a
motivando acesas discussões entre biólogos, todas as evidências que surgem. Neste aspecto,
filósofos e até políticos. podemos dizer que a teoria da evolução é, por-
De facto, quando Henri Bergson, filósofo e ventura, a teoria mais bem sucedida e sólida
escritor francês, obteve o Prémio Nobel da Lite- que temos em ciência, pois resiste a todas as
ratura, em 1928, a ideia de um impulso vital provas, do registo fóssil que tem sido encontra-
(élan vital) causador da evolução ganhou prota- do ao manancial de informação que a sequen-
gonismo junto de muitos dos que encontravam ciação do genoma humano trouxe.
sérios problemas no Darwinismo. Embora o A evolução não explica tudo, mas é, de
facto de o autor ter sido galardoado com este longe, o melhor modelo que temos. Se alguém
prémio possa ter tido influência na divulgação e quiser criar outro, poderá fazê-lo, como Darwin,
na aceitação das suas propostas, o que se tem mas isso requer que se sigam os passos que
verificado é que as perspectivas filosófica e reli- expus atrás e que a nova teoria explique o que
giosa da evolução têm mantido adeptos ao a anterior não explicava. E aqui é que está a
longo dos tempos. questão principal — o ID não se apoia em obser-
Segundo Bergson, o impulso vital (que se vações controladas nem foi submetido ao julga-
deve a Deus ou é o próprio Deus) é inerente à mento e a testes de outros cientistas, nem con-
matéria e é a fonte da infinita variedade de for- segue explicar mais do que a teoria da evolução
mas de vida, assim como guia a evolução numa — é, sim, uma crença que, por isso, não deve
determinada direcção. ser confundida com Ciência, sob pena de enfra-
quecer tanto o que é uma crença como o que
O moderno movimento do «Desígnio Inteli-
é a Ciência. Poderá discutir-se o ID sob a pers-
gente» (Intelligent Design, ID) baseou-se neste
pectiva filosófica ou religiosa, mas não lado a lado
e noutros conceitos para explicar a diversidade
com teorias científicas que verdadeiramente o
de seres vivos e o aparecimento de novas espé-
são por terem seguido precisamente o método
cies, associando-os a uma fonte inteligente, que
científico.»
os criacionistas concluíram ser o Criador.
http://www.cienciahoje.pt/index.php?oid=1173&op=all
Em alguns estados dos Estados Unidos, (adaptado)
assim como em alguns países da Europa (por
exemplo, Itália), este assunto tem causado
grande polémica, levando a intervenções políti-
cas como a do presidente George Bush em
Agosto de 2005, em que fez referência à teoria ACTIVIDADES
da evolução e ao ID como «diferentes escolas
de pensamento». 1. Discuta em que áreas da sociedade poderão ser
introduzidas profundas alterações que resultem
No entanto, a aceitação do movimento do
da intervenção do poder político no campo
ID como uma teoria é algo que causa repúdio
da Ciência.
a muitos elementos da comunidade científica.
2. Em que medida a tecnologia poderá ter um papel
Na revista Ciência Hoje — Ciência e Tecnologia
determinante no futuro da Ciência?
em directo, patrocinada pela Fundação Calouste
Gulbenkian, podia ler-se, em Setembro de 2005, 3. Refira descobertas científicas na área da Biologia
num artigo de Duarte Barral: posteriores à apresentação da teoria de Darwin e
que têm vindo a contribuir para a sua
«Passo a explicar: uma teoria científica
consolidação.
deve ter por base um conjunto de observações
4. Se quiser saber mais sobre este tema, poderá
devidamente controladas que a testem e, em
recorrer aos sítios:
seguida, deve ser publicada em revistas da
http://www.vidaslusofonas.pt/henri_bergson.htm
especialidade, depois de ter sido avaliada por
http://www.icr.org/article/3383/65
alguns pares, para que todos os cientistas a
http://www.comciencia.br/200407/reportagens/
possam julgar e pôr à prova. Por este motivo,
04.shtml
uma teoria raramente se prova definitivamente.

164 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


919354 U7_p144-165 18/1/08 16:43 Page 165

DOC. 2 Cientistas portuguesas descobrem


factos importantes sobre a evolução das bactérias
Quatro cientistas portuguesas publicaram,
em meados de 2007, na revista Science, o
resultado da sua investigação em bactérias, rea-
lizada e financiada em Portugal. Utilizando uma
técnica para identificar as mutações das bacté-
rias que lhes conferiam resistência, puderam
concluir que estes organismos «têm um poten-
cial evolutivo extraordinariamente elevado».

Fig. 51 Pesquisa laboratorial.

Isabel Gordo, uma das quatro cientistas do


Instituto Gulbenkian da Ciência envolvidas na
pesquisa, afirmou à Agência Lusa: «As bactérias
adaptam-se muito mais rapidamente do que até
agora se tinha admitido. Pensava-se que tinham
uma capacidade de adaptação mil vezes inferior
àquela que observámos. Este estudo contribui
substancialmente para a compreensão de um
problema central na teoria da evolução.» Segundo
a mesma cientista, as conclusões desta investi-
gação «têm implicações importantes na saúde
pública, nomeadamente na resistência a antibió-
ticos e medicamentos». Explicou ainda a investi-
gadora que «seriam precisos cerca de 20 mil anos
para tirar conclusões de um processo seme-
lhante na espécie humana, já que o estudo ana-
lisou mil gerações de bactérias, e, em humanos,
cerca de 20 anos separam cada geração».
Fig. 50 Bactérias. http://www.cienciahoje.pt/index.php?oid=22959&op=all

ACTIVIDADES

1. Indique qual deverá ser a característica das bactérias responsável pelo seu «potencial evolutivo
extraordinariamente elevado».
2. Refira, dos vários factores evolutivos estudados, aquele que poderá ser responsável pela evolução das
bactérias.
3. Segundo Isabel Gordo, uma das quatro investigadoras responsáveis por este estudo, estas descobertas
«têm implicações importantes na saúde pública, nomeadamente na resistência a antibióticos
e medicamentos».
Comente a afirmação da investigadora, abordando os itens seguintes:
— abuso excessivo de antibióticos por parte da população humana;
— previsão da evolução das doenças provocadas por bactérias na população humana.
4. Comente o texto seguinte.
De todas as espécies do Planeta, a espécie humana parece ser aquela em que a selecção natural tem
mais dificuldade em manobrar, pela inexistência de predadores ou pela anulação da pressão do meio
ambiente. Contudo, parece que a nossa espécie vê o seu futuro comprometido devido à acção
de pequenos parasitas, como bactérias patogénicas ou mesmo os vírus.

unidade 7 Evolução biológica 165


919354 U8_p166-192 18/1/08 16:45 Page 166

unidade 8

166 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


919354 U8_p166-192 18/1/08 16:45 Page 167

Sistemática
dos seres vivos

8 1 Sistemas de classificação 170

8 2 Sistema de classificação
de Whittaker modificado 193

Face à diversidade, que critérios são utilizados para


sustentar um sistema de classificação dos seres vivos?
919354 U8_p166-192 18/1/08 16:45 Page 168

Sistemática
unidade
A
8 dos seres vivos
B C

Estes seres vivos estão classificados como animais ou como plantas?

D E F

Que semelhanças e diferenças existem entre estes seres vivos?

G H I

Quais serão os seus parentes mais próximos?

O QUE JÁ SABE, OU NÃO...

1. Classifique as afirmações seguintes como verdadeiras (V) ou falsas (F).


A — Os seres vivos dividem-se em dois Reinos: Animal e Vegetal.
B — O Reino é o grupo que, na classificação dos seres vivos, engloba um maior número de represen-
tantes.
C — Dois seres de espécies diferentes podem originar descendentes férteis.
D — As algas são as plantas aquáticas.
E — A espécie é o grupo em que os seres vivos têm maior grau de semelhança.
F — Se dois seres vivos são da mesma espécie são também do mesmo reino.
G — As classificações têm em conta apenas as características morfológicas dos seres vivos.
H — O modo de nutrição pode ser utilizado como critério para classificar os seres vivos.
I — Se um ser vivo tem clorofila, então é uma planta.
J — Os cogumelos e os bolores são fungos.

168 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


919354 U8_p166-192 18/1/08 16:45 Page 169

INTRODUÇÃO

Desde o aparecimento da vida na Terra, esta diversificou-se em inúmeras formas (Fig. 1),
dos seres mais pequenos e mais simples (como as bactérias) aos maiores e mais complexos
(como algumas plantas e alguns animais).
De todos os seres vivos que existem, actualmente, na Terra, já se identificaram aproxi-
madamente 1 700 000 espécies, mas, de acordo com a maioria dos autores, o número real
de espécies será muito superior (5 a 10 milhões, segundo alguns autores, e na ordem dos
30 a 150 milhões, segundo outros).
Há grupos de seres vivos que, pelas suas dimensões e pela importância que os investi-
gadores lhes atribuem, são muito estudados; outros grupos permanecem ainda, na sua
quase totalidade, no domínio do desconhecimento.
Como estudar tão grande diversidade? Para facilitar o seu trabalho, os investigadores
agrupam os seres vivos segundo determinadas características, ou seja, utilizam uma ciência
designada por Sistemática.

A Sistemática é a ciência que estuda e classifica os seres vivos, fazendo


a descrição dos organismos e tentando perceber as relações de parentesco que
existem entre eles.

Fig. 1 Numa floresta existe uma grande diversidade de seres vivos; no entanto, muitos deles não são visíveis.

unidade 8 Sistemática dos seres vivos 169


919354 U8_p166-192 18/1/08 16:45 Page 170

classificação prática practical 8 1 Sistemas de classificação


classification
Se não se conhecerem os nomes das coisas, perde-se também o conhe-
cimento da sua existência.
CAROLUS LINNAEUS, Philosophia Botanica

Na mente humana existe, desde sempre, a vontade e a necessi-


dade de classificar os seres vivos. Após o estudo e a descrição dos
diferentes organismos, para classificar é necessário organizar grupos
de seres com as mesmas características, atribuindo-lhes posterior-
mente um nome.

Por que razão é necessário


classificar os seres vivos?

Havendo um número tão elevado de espécies, torna-se neces-


sário agrupá-las para facilitar o seu estudo. Na classificação usam-
-se critérios que podem ser variados e faz-se a distribuição dos
seres vivos pelos grupos formados, de acordo com os critérios
estipulados. A classificação consiste na interpretação de factos, que
pode variar de investigador para investigador; por esta razão, ao
longo do tempo, os seres vivos integraram grupos diferentes, con-
soante os critérios utilizados e a interpretação que se fez destes.
O próprio homem primitivo deve ter tido necessidade de clas-
sificar os seres vivos, mas a sua classificação baseou-se, provavel-
mente, em critérios de utilidade para a sua vida quotidiana. Conhe-
cia plantas e animais comestíveis e os que o não eram, identificava
animais perigosos e outros sem perigosidade, e até seres venenosos.
A classificação utilizada pelo homem primitivo seria, pois, uma
classificação prática, visando a satisfação das necessidades ali-
mentares e de defesa.
A RETER Actualmente, ainda se usam classificações que podem ser con-
As classificações práticas sideradas práticas — por exemplo, quando se atribui a designação de
tentam satisfazer as cogumelo venenoso, para diferenciar uma espécie de outra que seja
necessidades alimentares
e de defesa do Homem.
comestível (Fig. 2), ou a de animal selvagem, distinguindo um ani-
mal de outro que seja doméstico.

A B

Fig. 2 Cogumelo venenoso Amanita phalloides (A) e cogumelo comestível Tricholoma


portentosum (B).

170 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


919354 U8_p166-192 18/1/08 16:45 Page 171

Uma das primeiras classificações que se conhecem é a de Aris-


tóteles (384-322 a. C.). Durante a sua vida, o filósofo grego classifi-
cou os animais segundo critérios previamente definidos. Nesse
tempo, havia conhecimento de cerca de mil espécies, todas elas
macroscópicas, das quais cerca de 450 eram espécies de animais.
Os critérios definidos por Aristóteles são descritos no seu livro
Historia Animalium (Fig. 3).

A B

Fig. 3 História dos Animais, de Aristóteles, o principal estudo de Zoologia da


Antiguidade (A); A Escola de Atenas, de Rafael, vendo-se Aristóteles (no centro,
à direita) e Platão (no centro, à esquerda) (B).

Aristóteles dividiu os seres vivos conhecidos em dois Reinos: o


Reino dos Animais, móveis, e o das Plantas, imóveis; este pressu-
posto foi aceite até ao século XVII. Actualmente, só existe conheci-
mento da sua classificação para os animais, pois a das plantas nunca
foi encontrada.

CLASSIFICAÇÃO DE ARISTÓTELES

ANIMAIS
Enaima: com sangue vermelho
Anaima: sem sangue vermelho
(vertebrados)
A — Quadrúpedes vivíparos A — Cefalópodes
(mamíferos) B — Crustáceos
B — Aves C — Insectos, aranhas, escorpiões
C — Quadrúpedes ovíparos (répteis e centípedes
e anfíbios) D — Animais com concha (maioria
D — Peixes dos moluscos e equinodermes)
E — Baleias E — Zoófitos ou animais-plantas
(como a maioria dos cnidários)
Fonte: http://www.ucmp.berkeley.edu/history/aristotle.html

Teofrasto (371-287 a. C.), um discípulo de Aristóteles, na sua


Historia Plantarum (História das Plantas), classificou as plantas em
ervas, subarbustos, arbustos e árvores. Cada grupo foi, ainda, divi-
dido em subgrupos, com base na forma das folhas, no tipo de vida
e no local onde a planta crescia. Este sistema incluía a descrição de
cerca de 480 plantas.
unidade 8 Sistemática dos seres vivos 171
919354 U8_p166-192 18/1/08 16:45 Page 172

classificação racional rational As classificações de Aristóteles e de Teofrasto baseavam-se em


classification características estruturais dos seres considerados, pelo que são
classificação artificial artificial designadas por classificações racionais. Por outro lado, as carac-
classification
terísticas utilizadas são em pequeno número, designando-se, assim,
por classificações artificiais.
A RETER A conquista de novas terras, noutros continentes, incrementou
As classificações racionais
significativamente o conhecimento dos seres vivos existentes no
utilizam características Planeta; no início do século XVII, eram referidas cerca de dez mil
estruturais dos seres vivos. espécies (o que tornava bastante difícil a utilização dos primitivos
sistemas de classificação).
O botânico sueco Carl Lineu (Fig. 4) (Linnaeus ou Von Linné,
1707-1778) admitiu, como Aristóteles, a divisão do mundo vivo
em dois grandes grupos: o Reino Animal e o Reino das Plantas.

CURIOSIDADE
Durante a sua vida, Lineu escre-
veu mais de 70 livros e 300 arti-
gos científicos.

Fig. 4 Carl Lineu. Fig. 5 Linnaea borealis.

Este naturalista, que era fixista, criou as bases da classificação,


colocando os organismos numa hierarquia, ainda utilizada actual-
mente.
No seu livro Systema Naturae (10.ª edição, 1758) (Fig. 6), Lineu
admitia a existência de seis classes de animais: Mammalia (mamífe-
ros), Aves, Amphibia (anfíbios e répteis), Pisces (peixes), Insecta
(insectos) e Vermes (todos os outros invertebrados).
Lineu incluiu na classificação dos mamíferos algumas altera-
ções importantes. Utilizou, por exemplo, o tipo de dentes como
critério de classificação, tendo sido o primeiro naturalista a incluir
as baleias e os morcegos nos mamíferos. Em 1735, na primeira edi-
ção de Systema Naturae, Lineu apresentou o seu sistema sexual para
a classificação das plantas, no qual os grupos eram formados com
base no número e arranjo dos estames (órgãos masculinos) e nos
carpelos (órgãos femininos) que estas possuíam (Fig. 7). Como con-
sequência desta classificação, os grupos formados eram bastante
artificiais: frequentemente, um mesmo grupo reunia espécies não
relacionadas — por exemplo, as plantas sem órgãos sexuais óbvios
foram todas incluídas na classe Cryptogamia (que agrupava algas,
Fig. 6 Página de rosto da segunda fungos, musgos e fetos). Noutros casos, espécies bastante relaciona-
edição do Systema Naturae. das foram inseridas em classes diferentes.
172 BIOLOGIA A vida e os seres vivos
919354 U8_p166-192 18/1/08 16:45 Page 173

classificação natural natural


classification
classificação filogenética phylogenetic
classification
Sistemática Systematic

Fig. 7 Dupla página de Systema


Naturae, (sexta edição,
publicada em 1748),
referente ao sistema sexual
de Lineu que foi apresentado
em 1735, na primeira edição
da mesma obra.

Este sistema de classificação foi bastante contestado no seu A RETER


tempo, e o próprio Lineu admitia que era um sistema de classifica- As classificações artificiais
ção artificial, apesar de ser considerado também racional. usam um pequeno número de
características dos organismos,
O conhecimento relativo à quantidade e à variedade de seres enquanto as naturais utilizam o
vivos continuou a crescer, e nos finais do século XIX era reconhecido maior número de características
mais de um milhão de espécies, o que levou à necessidade de uma possível.

classificação baseada num número de características bastante mais


elevado — classificação natural.
Todas estas classificações continuavam a ser fixistas, pois
baseavam-se no facto de os seres vivos não terem sofrido qualquer
alteração após a sua criação, mantendo-se inalterados para sem-
pre.
Após Darwin ter explicitado a sua teoria da evolução (A Origem
das Espécies, 1859), os sistemas de classificação passaram a ter em
conta a história evolutiva dos seres vivos.
As classificações que reflectem a evolução dos seres vivos são
designadas por classificações filogenéticas e são consideradas
mais rigorosas em vários aspectos, pois mostram as relações de
A RETER
parentesco que existem entre os seres vivos. Apesar disto, foram
propostas várias destas classificações, consoante os critérios esco- As classificações filogenéticas
evidenciam a evolução dos
lhidos e os diferentes pontos de vista sobre as relações evolutivas, seres vivos.
com base nas mesmas características.
A partir dos anos 20 do século XX, com a descoberta da teoria
cromossómica da hereditariedade, surgiu uma nova ciência, desig-
nada por Sistemática, que utiliza todos os novos dados, não se
limitando às características morfológicas dos seres vivos. Na década
de 60 do século XX começaram a utilizar-se métodos de estudo rela-
tivos às biomoléculas e programas informáticos para fazer a análise
dos dados obtidos.
unidade 8 Sistemática dos seres vivos 173
919354 U8_p166-192 18/1/08 16:46 Page 174

As classificações filogenéticas, que também se designam por


evolutivas ou filéticas, são verticais e dinâmicas, pois têm em conta
o tempo ao longo do qual ocorreu a evolução dos organismos.
Nestas classificações utiliza-se a chamada análise cladística, em
que se procuram grupos de seres vivos que tenham um ancestral
comum e que incluam todos os seus descendentes (os denomina-
dos clados ou grupos monofiléticos).
A identificação destes grupos permite a construção de esque-
mas (Fig. 8) que reflectem o padrão evolutivo desses seres.

RÉPTEIS MAMÍFEROS

Tartaruga Ornitorrinco Canguru Castor

Gestação
longa
CARACTERÍSTICAS

Gestação

Pêlos
Glândulas
mamárias

Coluna
vertebral

Fig. 8 Cladograma que mostra as relações de parentesco entre alguns vertebrados,


com base em quatro características preestabelecidas.

A figura 8 compara quatro grupos (todos vertebrados) de acor-


do com a presença ou ausência de um conjunto de características.
Neste tipo de esquema (cladograma) têm especial importância as
A RETER denominadas características ancestrais ou primitivas — aquelas
A cladística estabelece grupos que existem no ancestral e que são comuns a todos — e as chama-
onde engloba organismos que das características derivadas — aquelas que se modificaram,
tenham um ancestral comum divergiram a partir do ancestral comum e que estão presentes ape-
e todos os seus descendentes.
nas em alguns organismos.
Os cladogramas, por vezes, revelam que as espécies mais seme-
lhantes nem sempre são as que estão mais próximas filogenetica-
mente.
174 BIOLOGIA A vida e os seres vivos
919354 U8_p166-192 18/1/08 16:46 Page 175

É o que se passa com os crocodilos e os lagartos — embora árvore filogenética phylogenetic tree
tenham muitas semelhanças, o uso de métodos cladísticos permite
concluir que os crocodilos são mais aparentados com as aves do
que com os lagartos (Fig. 9).

A B

Lagartos Cobras
Lagartos Cobras
Crocodilos Aves Crocodilos Aves

Ancestral comum Ancestral comum

Fig. 9 Cladograma que reflecte a proximidade entre as aves e os crocodilos (A);


cladograma que representa a proximidade entre os crocodilos e os restantes
répteis, com base nas características morfológicas (B).
A RETER

As árvores filogenéticas são


Se o factor tempo for associado ao cladograma, este transforma- esquemas que evidenciam
-se numa árvore filogenética. Em cada ponto de ramificação, a evolução dos seres vivos,
ao longo do tempo, a partir
a árvore filogenética possui um ancestral, real ou hipotético, e cada de um ancestral comum.
ramo representa a linha evolutiva de um dado grupo (Fig. 10).

Urso-negro-asiático Urso-de-óculos
Urso-malaio
Racoon
Panda-vermelho

Urso-beiçudo
Urso-castanho Urso-polar Urso-negro-americano Panda-gigante
Ma

10

15

20

Ursidae
25

30
Procyonidae

35

Ancestral carnívoro
comum
40

Fig. 10 Árvore filogenética dos ursos.

unidade 8 Sistemática dos seres vivos 175


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As classificações modernas baseiam-se na teoria da evolução


dos seres vivos. Para descobrir as relações que existem entre os
seres vivos, devem comparar-se diferentes estruturas dos mesmos,
que apresentem valor evolutivo, e que permitam evidenciar o ances-
tral comum e as relações de parentesco entre eles.

ACTIVIDADE

CONSTRUÇÃO DE UM CLADOGRAMA

1. Analise com atenção o quadro seguinte, que apresenta características primitivas ou ancestrais
e características derivadas para um conjunto de animais. (Consulte o glossário na página 220.)

ANIMAIS
CARACTERÍSTICAS
Carapau Tartaruga Sapo Gibão Lampreia Homem Canguru

Notocórdio
e tubo nervoso X X X X X X X
dorsal

Coluna vertebral
e apêndices X X X X X X
pares

Membros
X X X X X
inferiores pares

Âmnio
X X X X
(saco amniótico)

Glândulas
X X X
mamárias

Placenta X X

Dentes caninos
pequenos e
X
orifício occipital
anterior

Total 2 4 3 6 1 7 5

1.1 Elabore um diagrama encaixante, colocando os animais do quadro-resumo no interior


de rectângulos que incluem grupos de seres com características em comum. Utilize como referência
o exemplo seguinte.

Sardinha: notocórdio

Macaco: placenta

Homem: orifício occipital anterior

Fig. 11 Diagrama encaixante.

176 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


919354 U8_p166-192 18/1/08 16:46 Page 177

1.2 Usando o diagrama de rectângulos encaixantes, elabore um cladograma que traduza as relações
evolutivas entre os vários animais considerados no quadro-resumo. Este representará as características
partilhadas ao longo do tempo. Observe o exemplo da figura 12.

Sardinha Chimpanzé Homem


Tempo

Orifício occipital anterior

Placenta

Notocórdio

N.º de características comuns

Fig. 12 Cladograma que traduz as relações evolutivas entre a sardinha, o chimpanzé e o homem.

1.3 Refira três informações importantes que possam ser obtidas a partir do cladograma construído.
1.4 Analise a situação.
«Três vertebrados desconhecidos foram descobertos por uma equipa de zoólogos, na floresta
amazónica. Um dos animais é semelhante a um lagarto, outro é parecido com uma ratazana
e o terceiro é semelhante a um peixinho-vermelho.»
Inclua estes animais no seu cladograma e explique a razão da localização escolhida.
http://www.indiana.edu/~ensiweb/lessons/mclad.ws.pdf (adaptado)

8 1 1 Diversidade de critérios

Na elaboração dos vários sistemas de classificação, pode ser uti-


lizada uma grande diversidade de critérios. Estes foram evoluindo
à medida que o estudo dos seres vivos se tornou cada vez mais
pormenorizado.
Inicialmente, os critérios usados eram os da morfologia externa;
posteriormente, recorreu-se à análise da morfologia interna e da
Fisiologia; mais recentemente, foram usados estudos de Embriolo-
gia, Paleontologia, Citologia, Etologia e Bioquímica.

unidade 8 Sistemática dos seres vivos 177


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Critérios morfológicos
A morfologia externa (Fig. 13) corresponde ao aspecto de um
ser vivo. Este pode, por vezes, ser bastante diferente entre seres
vivos da mesma espécie, como acontece nos cães, nos girinos e nos
adultos das espécies de anfíbios ou nas diversas formas das formi-
gas de um formigueiro. Noutros casos, indivíduos de espécies dife-
rentes têm aspecto morfológico muito semelhante, como os lobos
e os cães (Fig. 14).

A B D

Fig. 13 Girinos (A) e adulto de anfíbio (B); lagarta (C) e borboleta (D) (nos anfíbios
e nos insectos existem metamorfoses, pelo que os juvenis são muito diferentes dos
adultos da sua espécie).

A B

C D

Fig. 14 Os cães, Canis familiaris, de raças diferentes são morfologicamente


distintos (A, B e C); apesar de ser de uma espécie diferente, o lobo, Canis lupus,
é muito semelhante a algumas raças de cães, como o husky siberiano (D).

178 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


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Um aspecto a considerar na morfologia dos seres vivos é a


simetria corporal. Alguns organismos são assimétricos, como as
esponjas (Fig. 15A); outros têm um único plano de simetria, dizendo-
-se, por isso, que apresentam simetria bilateral, como os coelhos
(Fig. 15B); outros, ainda, têm vários planos de simetria, pelo que apre-
sentam simetria radial, como no caso do ouriço-do-mar (Fig. 15C).

A B

Fig. 15 A esponja é assimétrica (A); o coelho tem simetria bilateral (B); o ouriço-do-mar
tem simetria radial (C).

Tipos de nutrição
Os tipos de nutrição são um importante critério de classificação,
pois indicam o papel do ser vivo nos ecossistemas.
Os seres podem ser classificados quanto à sua fonte de carbono
e quanto à sua fonte de energia.

FONTE DE Quimiotróficos
ENERGIA Fototróficos
FONTE utilizam compostos
utilizam a luz solar
DE CARBONO químicos
Fotoautotróficos (CO2)
Autotróficos Quimioautotróficos (CO)
utilizam CO ou CO2 Plantas e algumas
Algumas bactérias
bactérias
Heterotróficos Quimioeterotróficos
Fotoeterotróficos
utilizam compostos Animais, fungos e a
orgânicos Algumas bactérias
maioria das bactérias

Os seres fotoautotróficos e os quimioautotróficos são os seres


produtores do ecossistema, ocupando a base de todas as cadeias
alimentares. Nos ambientes onde não existe luz, existem apenas
seres quimioautotróficos, uma vez que os fotoautotróficos não con-
seguem sobreviver nesses locais.
unidade 8 Sistemática dos seres vivos 179
919354 U8_p166-192 18/1/08 16:46 Page 180

Os seres heterotróficos podem ser macroconsumidores ou micro-


consumidores, utilizando a matéria orgânica sintetizada pelos produ-
tores.
Os macroconsumidores ingerem aquilo de que necessitam, ocor-
rendo a digestão no interior do seu organismo, em cavidades diges-
tivas (digestão extracelular), como acontece nos animais, ou no
interior das células, como na ameba (Fig. 16) (digestão intracelular).
Os microconsumidores, como os fungos (Fig. 17), realizam diges-
tão da matéria orgânica fora do seu organismo, pois lançam no
exterior enzimas digestivas que degradam os compostos e absorvem
as moléculas mais simples (nutrientes).

Fig. 16 Ameba a ingerir uma paramécia (a digestão ocorre no Fig. 17 Os fungos lançam enzimas digestivas para o exterior
interior da sua célula). das suas hifas e absorvem nutrientes que resultam
da decomposição da matéria orgânica.

Nível de organização estrutural


Este critério estabelece as bases da classificação actual e pode
dividir os seres vivos em:
• procariontes e eucariontes — os seres procariontes não têm
núcleo individualizado por membrana nuclear nem possuem
organitos do sistema endomembranar; já os seres eucariontes
têm o núcleo individualizado e possuem organitos constituí-
dos por membranas;
• unicelulares e multicelulares — os seres unicelulares são cons-
tituídos por uma única célula, como as bactérias ou as euglenas,
enquanto os seres multicelulares possuem várias células;
• indiferenciados e diferenciados — a diferenciação celular
atinge vários graus de complexidade, existindo seres multicelu-
lares que não têm diferenciação tecidular, como as algas; seres
em que a diferenciação está reduzida, atingindo somente alguns
tecidos, e ainda, no caso de outros organismos, como, por
exemplo, os animais seres em que a diferenciação é muito com-
plexa, com vários tecidos, órgãos e sistemas de órgãos (Fig. 18).
180 BIOLOGIA A vida e os seres vivos
919354 U8_p166-192 18/1/08 16:46 Page 181

A D

Fig. 18 A bactéria Staphylococcus é um ser unicelular procarionte (A); a Euglena é um


ser unicelular eucarionte (B); a alga Fucus é um ser multicelular indiferenciado (C);
a planta Pinus ponderosa é um ser multicelular diferenciado (D).

Critérios etológicos
A Etologia é a ciência que estuda os comportamentos dos ani-
mais. Alguns comportamentos, como a emissão de padrões de som
por insectos ou o comportamento migratório das aves, servem para
estabelecer relações entre organismos e podem definir espécies
diferentes.
Como exemplo, pode ser re-
ferido o caso dos grilos havaia-
30
nos Laupala paranigra e Laupala
kohalensis, semelhantes morfolo-
Número de indivíduos

Laupala
gicamente mas com padrões de kohalensis
Laupala
20
som diferentes (Fig. 19). Ao emi- paranigra

tir o som, o macho procura atrair


as fêmeas; o que se verifica é que
10
só as fêmeas da mesma espécie
são realmente atraídas, existindo,
desta forma, isolamento repro-
dutor entre os indivíduos das 0 1.0 2.0 3.0 4.0 5.0
duas espécies. Impulsos por segundo

Fig. 19 Os grilos do género Laupala produzem sons diferentes.

unidade 8 Sistemática dos seres vivos 181


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Critérios bioquímicos
Estes são os critérios de classificação de utilização mais recente
e os mais importantes.
Pode analisar-se a sequência de biomoléculas como os aminoáci-
dos de uma proteína ou a sequência de nucleótidos nos ácidos
nucleicos (DNA mitocondrial, DNA cromossómico ou RNA ribos-
sómico). Estes estudos põem em evidência as semelhanças e/ou as
diferenças existentes entre organismos.
Actualmente, é possível consultar na Internet as bases de dados
dos genomas de várias espécies, o que facilita a realização dos estu-
dos comparativos entre elas (Fig. 20).
A utilização de critérios bioquímicos é particularmente impor-
tante quando se estudam microrganismos, pois os restantes crité-
rios são de difícil aplicação.
Entre os estudos bioquímicos que se podem fazer, encontra-se
a comparação de sequências de aminoácidos num polipéptido em
diferentes espécies. O grau de semelhança na sequência de aminoá-
cidos indica o grau de parentesco entre os organismos. Com estas
comparações, é fácil constatar que os genes responsáveis por essas
proteínas evoluíram a partir de um gene comum, herdado do mesmo
ancestral, que se transformou à medida que as espécies se afasta-
vam. Nem todas as proteínas evoluíram com a mesma rapidez:
algumas parecem ter variado muito pouco, como o citocromo c,
que apresenta relativamente poucas diferenças entre organismos
próximos, e outras modificaram-se rapidamente e de forma signifi-
cativa, como algumas albuminas do sangue. Estas últimas são
muito úteis para encontrar as relações de parentesco entre organis-
mos próximos, como, por exemplo, na filogenia dos ursos (Fig. 10).

Fig. 20 Mapa que evidencia as


semelhanças existentes entre
o genoma humano (círculo exterior)
e os genomas de diferentes
espécies: chimpanzé, rato, ratazana,
cão, galinha e peixe dânio-zebra.

182 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


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A maneira mais directa de determinar o grau de parentesco A RETER


entre organismos é a comparação dos ácidos nucleicos constituintes.
CRITÉRIOS USADOS
Por sua vez, o método mais directo e preciso de comparar os NA CLASSIFICAÇÃO
DE SERES VIVOS
ácidos nucleicos é a análise da sequência do DNA. Desta maneira, é
possível determinar as semelhanças e as diferenças existentes entre
Morfológicos
duas espécies.
Tipos de nutrição
Esta comparação pode ser feita entre as moléculas de DNA
mitocondrial, que é constituído por moléculas de menores dimen- Tipos de organização
sões e que parecem modificar-se cerca de dez vezes mais rapida- estrutural

mente do que as do DNA nuclear, o que facilita a identificação das Etológicos


relações entre os organismos.
Bioquímicos
Pode ainda ser analisada a sequência do RNA ribossómico.
Como o DNA que codifica o RNA ribossómico se modifica mais Outros
lentamente do que o restante, as diferenças que existem na sequên-
cia do RNA ribossómico podem ser usadas para encontrar os ramos CURIOSIDADE
mais antigos da árvore filogenética de todos os seres vivos. O DNA mitocondrial das plantas
vasculares é muito pouco variá-
vel e, por isso, pouco informati-
8 1 2 Taxonomia e nomenclatura vo para determinação de graus de
parentesco.
A observação da Natureza tem levado o Homem a procurar
explicar a imensa variedade de fenómenos e a grande diversidade
de seres vivos. Esta busca incessante de conhecimento permitiu, ao
longo do tempo, o avanço da Ciência, que, com o auxílio da tecno-
logia, tem progredido e apresentado cada vez mais respostas para
as interrogações do Homem.
A quantidade (Fig. 21) e diversidade de seres vivos (cerca de dez
milhões de espécies de eucariontes e um número indeterminado de
procariontes), produto de milhões de anos de evolução, tem susci-
tado curiosidade e sido objecto de inúmeros trabalhos. Neste caso,
além da procura de explicações para a diversidade, surge um outro
problema: como organizar os organismos de modo a tornar mais
acessível o estudo desta imensa variedade?

Bactérias Espécies conhecidas


Nemátodes Espécies por descobrir
Crustáceos

Protozoários

Algas

Vertebrados

Moluscos

Fungos

Aracnídeos

Plantas

Insectos

0 0,5 1 1,5 2 2,5 3 milhões

Fig. 21 Variação do número de espécies existentes na biosfera.

unidade 8 Sistemática dos seres vivos 183


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Taxonomia Taxonomy A elaboração de uma figura que ilustre a biodiversidade, em


nomenclatura binominal binominal que surgem representantes de vários grupos de seres vivos, pressu-
nomenclature põe um estudo das características morfológicas e fisiológicas dos
espécie species organismos e um estudo comparativo entre eles, permitindo detec-
género genus tar semelhanças, diferenças e ancestrais comuns e, como tal, agru-
par e nomear os seres envolvidos.
A RETER A Taxonomia é uma área da Biologia que se dedica à classifi-
A Taxonomia identifica e cação, à identificação e à atribuição de nomes aos grupos de seres
nomeia os grupos de seres vivos. vivos estabelecidos.
A Sistemática tenta estabelecer
relações, entre os grupos A Sistemática, baseada na Biologia Evolutiva e na Taxono-
de seres vivos determinados mia, dedica-se ao estudo da diversidade biológica e da história
pela Taxonomia, baseando-se
na história evolutiva.
evolutiva dos seres vivos, pretendendo descobrir as relações entre
os organismos e estabelecer um ancestral comum.

Como e quando surgiu a Taxonomia?

A Taxonomia moderna surgiu no século XVIII, quando o natura-


lista sueco Carl Lineu tentou nomear e descrever todos os seres
vivos então conhecidos. Em 1753, Lineu publicou Species Plantarum,
em que descreveu, em latim, as espécies de plantas conhecidas na
altura. Esta descrição, demasiado extensa por utilizar doze palavras —
nomenclatura polinominal —, era até aí utilizada pelos naturalistas
para referir uma determinada espécie. No entanto, Lineu usou, simul-
taneamente, uma nova forma: manteve a primeira palavra da descri-
ção referida e juntou-lhe uma segunda que considerou significativa
para a identificação das características da espécie. Nasceu assim o
A RETER
sistema binominal, em latim, para atribuição de nome às espécies.
Lineu, considerado o pai da O ano de 1758 é muitas vezes considerado aquele em que foi
Taxonomia, usou pela primeira implementada a nomenclatura actual para a identificação de seres
vez a nomenclatura binominal vivos. Efectivamente, neste ano, Lineu publicou a 10.ª edição do
para atribuir nomes às
espécies. seu livro Systema Naturae e aplicou a nomenclatura binominal
para classificar os seres vivos.(1)
Este sistema veio simplificar o diálogo entre cientistas, uma vez
que, por terem diferentes nacionalidades, podiam comunicar clara-
mente, em latim, sem ocorrerem erros de linguagem (o latim conti-
nua a ser usado por estas razões e também porque, sendo uma
língua morta, não sofre alterações).
Este naturalista propôs ainda uma hierarquia na classificação
dos organismos, em que a espécie foi considerada a mais pequena
unidade nesta organização.
A designação atribuída a cada espécie é constituída pelo nome
genérico, que designa o género — grupo mais abrangente que
engloba um conjunto de espécies com muitas afinidades —, segui-
do do restritivo específico que a define e a distingue das restantes.

(1)
Nota: Para algas, fungos, briófitos (grupo que inclui os musgos, entre outros)
e plantas vasculares, a data oficial, que consta no Código Internacional
de Nomenclatura Botânica, é o ano de 1753.

184 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


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Estas duas palavras que determinam a designação da espécie são Reino Kingdom
escritas em latim e destacadas em itálico ou num tipo de letra, dis- família family
tinto do que é utilizado no texto em que se inserem (ou com subli- ordem order
nhado, se se tratar de um manuscrito). classe class

Considere-se o caso da aveia (Fig. 22). Avena fatua, Avena praten-


sis e Avena sativa são designações atribuídas a três das oito espécies
pertencentes ao género Avena.

Nome: Avena fatua L.

Nome: Avena pratensis L. Nome: Avena sativa L.

Fig. 22 Várias espécies de aveia.

Quando escrito isoladamente, o restritivo específico nada signi-


fica, uma vez que pode ser comum a várias espécies. Como exemplo,
considerem-se as designações atribuídas a duas espécies diferentes:
Lactuca sativa (alface) e Oryza sativa (arroz). Embora tenham o
mesmo restritivo específico, estes nomes de espécies referem-se a
plantas muito diferentes e com um parentesco afastado.
Apesar de Lineu ter classificado todos os seres vivos então
conhecidos em dois grandes grupos, a que chamou Reinos (Reino
Animalia e Reino Plantae), outras categorias taxonómicas foram
também estabelecidas de modo a criar uma hierarquia entre a espé-
CURIOSIDADE
cie e o Reino.
Lineu catalogou cerca de 7700
Assim, as várias espécies são englobadas em géneros, que fazem espécies de plantas e 4400 de
parte de famílias, estando estas, por sua vez, englobadas em ordens, animais.
que se organizam em classes.
unidade 8 Sistemática dos seres vivos 185
919354 U8_p166-192 18/1/08 16:46 Page 186

divisão division O botânico de Candolle, que viveu entre 1778 e 1841, introdu-
filo phylum ziu o uso do termo taxonomia e uma nova categoria ao agrupar
taxa taxa várias classes de plantas na divisão, que passou a ser a categoria
taxonómica a incluir maior diversidade destes seres vivos, dentro
do Reino das Plantas.
Já no século XX, o termo filo foi considerado equivalente a divi-
são, sendo usado pelos zoólogos como uma categoria taxonómica
do Reino animal (Fig. 23).
A RETER

A espécie é o grupo taxonómico


mais restrito e o Reino é o mais
abrangente. ESPÉCIE

G ÉN ER O

FAMÍLIA

ORDEM

CLASSE

FI L O ( o u D I V I SÃ O )

RE I NO
Fig. 23 Representação esquemática da hierarquia dos vários grupos taxonómicos.

A RETER Os organismos encontram-se então agrupados em categorias


Taxon (singular de taxa) taxonómicas dispostas hierarquicamente, em que o Reino repre-
é a designação atribuída senta o taxon (singular de taxa) mais abrangente, pois inclui
a qualquer categoria taxonómica.
uma grande diversidade de organismos, e a espécie é o grupo
mais restrito, que engloba apenas indivíduos com as mesmas
características morfológicas e fisiológicas, mostrando grandes
semelhanças bioquímicas e no cariótipo, que se podem repro-
duzir entre si e originar descendentes férteis.
Actualmente, um nome científico serve para identificar uma
espécie e não para fazer a sua descrição.
Este sistema de classificação dos seres vivos é construído com
base numa hierarquia de categorias taxonómicas e, para ser eficaz e
rigoroso, deve ser universal. Também o sistema de nomenclatura,
cujas regras estão consignadas no Código Internacional de Nomen-
clatura Botânica e no Código Internacional de Nomenclatura
Zoológica, são seguidos por todos os cientistas.

CURIOSIDADE
Apesar das especulações sobre o número total de espécies existentes na
Terra, apenas 1 700 000 estão devidamente identificadas. Neste número,
uma boa fracção pertence aos insectos, com cerca de 950 mil espécies (mais
de 50%), o que permite entender que cerca de 70% das espécies conhecidas
sejam invertebradas. No entanto, é muito provável que seja este o grupo em
que ainda falta descobrir um maior número de espécies.

186 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


919354 U8_p166-192 18/1/08 16:46 Page 187

Espécie
Categorias mais restritas

Rosa gallica
Rosa-francesa-
-dobrada

Género Rosa
Aproximadamente
500 espécies

Família Rosaceae
Aproximadamente
3500 espécies

Ordem Rosales
Aproximadamente
18 000 espécies

Classe Angiospermae
Aproximadamente 235 000 espécies
Categorias mais abrangentes

Divisão Tracheophyta
Aproximadamente 250 000 espécies

Reino Plantae
Aproximadamente 275 000 espécies

Fig. 24 Classificação da rosa-francesa-dobrada.

PESQUISAR E DIVULGAR

O homem pertence à espécie Homo sapiens, que foi nomeada pela


primeira vez por Lineu. O Reino em que se inclui esta espécie, como
o lince referido na actividade seguinte, é o Reino Animalia.

Pesquise de modo a descobrir as várias categorias taxonómicas em que


se insere a espécie humana, comparando-os com as que são referidas
para o lince.

• Construa um esquema em que se evidenciem os taxa comuns


e diferentes a que pertencem o homem e o lince.
• Faça o mesmo trabalho escolhendo outros seres vivos para comparar
com o homem. Sugere-se a selecção de organismos como um peixe
ou uma ave.

Sítios com interesse:


• http://linnaeus.nrm.se/botany/fbo/welcome.html.en
• http://www.geocities.com/CapeCanaveral/Campus/7472/nomnclas.html
• http://www.estrellamountain.edu/faculty/farabee/biobk/biobooktoc.html

unidade 8 Sistemática dos seres vivos 187


919354 U8_p166-192 18/1/08 16:46 Page 188

ACTIVIDADE

CLASSIFICAÇÃO DO LINCE

1. Analise a figura seguinte, que apresenta um esquema onde se evidencia a classificação do lince,
indicando as várias categorias taxonómicas em que este organismo está inserido.

Felis manul
(gato-de-pallas)

Felis lynx Felis concolor


Felis silvestris (lince)
(puma)
(gato-selvagem)
Felis rufus
Felis nigripes (lince-americano)
(gato-de-patas-negras)
Espécie
Género Felis
Família Felidae

Ordem Carnivora
Classe Mammalia
Filo Chordata
Reino Animalia

Fig. 25 O lince é uma espécie pertencente ao género Felis. A este género pertencem outras espécies que
apresentam muitas características em comum.

1.1 Refira o nome científico da espécie cujo nome vulgar é lince.


1.2 Identifique o restritivo específico desta designação.
1.3 Qual é a categoria taxonómica mais abrangente a que pertence o lince?

A RETER A atribuição de nomes científicos rege-se por códigos de


nomenclatura. Estes códigos são revistos periodicamente no Con-
CATEGORIAS
TAXONÓMICAS gresso Internacional de Botânica e, no caso da Zoologia, existe uma
comissão que se reúne para resolver as situações difíceis.
Reino A nomenclatura científica utiliza as regras seguintes:
Filo • na designação científica, os nomes são sempre em latim;
Classe
• os nomes científicos escrevem-se em itálico ou num tipo de
letra diferente do que é utilizado no texto em que se insere
Ordem (quando o texto é manuscrito, esses nomes são sublinhados);
Família • a espécie deve ser reconhecida por uma designação binomi-
nal, em que o primeiro termo identifica o género e o segundo
Género
é o restritivo específico (o restritivo específico, escrito isola-
Espécie damente, não tem qualquer significado);
• o nome do género é um substantivo, simples ou composto,
escrito com inicial maiúscula;
• o restritivo específico é um adjectivo escrito só com minúsculas;
• após o nome da espécie, deve referir-se (com inicial maiús-
cula, sem sublinhado nem itálico, por extenso ou abreviada-
mente, e sem qualquer pontuação intermediária) o nome do
autor que primeiro o descreveu e denominou, seguindo-se
uma vírgula e a data em que a descrição foi publicada pela
primeira vez (por exemplo, «Lutra lutra L., 1758» significa
que Lineu foi o primeiro a descrever e dar nome à espécie e
que tal aconteceu em 1758);
188 BIOLOGIA A vida e os seres vivos
919354 U8_p166-192 18/1/08 16:46 Page 189

• a designação do género é uninominal, a das espécies é bino- chave dicotómica dicotomic key
minal e a das subespécies é trinominal;
• em Zoologia, o nome da família resulta do radical do nome
do género mais representativo, ao qual se acrescenta o sufixo
-idae (por exemplo, na classificação do lince, o género é Felis,
e a família, Felidae);
• em Botânica, os nomes de família têm, quase sempre, a ter-
minação -aceae (por exemplo, na classificação da roseira,
o género é Rosa, e a família é Rosaceae).
A RETER
A fim de se poder, de forma simples, identificar um ser vivo,
existem chaves dicotómicas — tabelas de dupla entrada que per- Existem grupos de cientistas
que supervisionam a aplicação
mitem fazer a selecção das características do ser vivo a identificar das regras de nomenclatura.
e chegar aos vários taxa a que este pertence.

ACTIVIDADE

CLASSIFICAR ANIMAIS

1. Utilize as chaves dicotómicas que se encontram no anexo I (nas páginas 216 e 217) para identificar
os seres vivos seguintes, de forma a conhecer o Reino, o filo e a classe a que pertencem.

A B C

Psammodromus hispanicus Omocestus viridulus Gadus morhua


(lagartixa) (gafanhoto) (bacalhau)

D E F

Ciconia nigra Bubo bubo Lutra lutra


(cegonha-negra) (bufo-real) (lontra-europeia)

G H I

Grapsus grapsus Triturus alpestris Nephila clavipes


(caranguejo-fidalgo) (tritão) (aranha)

Fig. 26 Vários seres vivos.

unidade 8 Sistemática dos seres vivos 189


919354 U8_p166-192 18/1/08 16:46 Page 190

Conceitos/Palavras-chave

Necessários Essenciais Complementares

• Características morfológicas • Sistema artificial • Nomenclatura polinominal


• Características fisiológicas • Sistema natural • Divisão
• Cariótipo • Sistema prático
• Seres procariontes • Sistema racional
• Seres eucariontes • Sistemática
• Botânica • Taxonomia
• Zoologia • Taxa
• Seres fotossintéticos • Reino
• Filo
• Classe
• Ordem
• Família
• Género
• Espécie
• Chave dicotómica
• Árvore filogenética
• Nomenclatura binominal

Síntese de conhecimentos

• A existência de grande número de seres vivos levou à necessidade de os classificar.


• As classificações práticas são utilizadas para satisfazer as necessidades do dia-a-dia.
• As classificações racionais baseiam-se nas características estruturais dos seres vivos. Podem ser
artificiais, quando utilizam poucas características, ou naturais, quando utilizam muitas características.
• As classificações filogenéticas são aquelas que reflectem a evolução dos seres vivos.
• Uma árvore filogenética é um diagrama que mostra as relações de parentesco entre os seres vivos.
• Na classificação dos seres vivos pode utilizar-se uma grande diversidade de critérios: morfológicos,
tipos de nutrição, nível de organização estrutural, etológicos e bioquímicos.
• A Taxonomia é uma área da Biologia que se dedica à classificação, à identificação e à atribuição
de nomes aos grupos de seres vivos estabelecidos.
• A Sistemática apoia-se na Biologia Evolutiva e na Taxonomia para fazer o estudo da diversidade
biológica e da história evolutiva dos seres vivos, pretendendo descobrir as relações entre os organismos
e encontrar um ancestral comum.
• O naturalista sueco Carl Lineu é considerado o pai da Taxonomia, porque foi ele que, no século XVIII,
tentou descrever e nomear todos os seres vivos que conhecia usando o sistema binominal.
• Lineu propôs uma hierarquia de categorias taxonómicas em que o Reino é a categoria mais abrangente
e a espécie, a mais restrita.
• As categorias taxonómicas hoje consideradas são: Reino, filo, classe, ordem, família, género e espécie.
• Existem regras para a atribuição do nome científico aos seres vivos: o nome da espécie é composto
por dois termos, em latim, em que a inicial do primeiro (relativo ao género) é escrita em maiúscula,
e a do segundo (restritivo específico) em minúscula.

190 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


919354 166-192_U8 6/16/08 3:12 PM Page 191

ACTIVIDADES

Sistemas de classificação
1. Elabore um mapa de conceitos relativo:
a) aos sistemas de classificação;
b) à Sistemática.

2. Sabendo que Aristóteles classificou os animais em dois grupos — Enaima (animais com
sangue vermelho) e Anaima (animais sem sangue vermelho) — e que Lineu classificou as
plantas de acordo com o número de estames e de carpelos, tendo em conta a sua posição
relativa, seleccione as afirmações verdadeiras.
A — A classificação de Aristóteles é prática, e a de Lineu é racional.
B — A classificação de Aristóteles é racional, e a de Lineu é natural.
C — A classificação de Aristóteles é racional artificial, e a de Lineu é racional natural.
D — Ambas as classificações são racionais artificiais.
E — Ambas as classificações são racionais naturais.

3. Classifique como verdadeiras (V) ou falsas (F) as afirmações seguintes.


A — As classificações filogenéticas têm em conta o factor tempo.
B — As classificações práticas consideram a morfologia dos organismos.
C — As classificações naturais consideram as relações de parentesco entre os seres vivos.
D — As classificações racionais fundamentam-se em características estruturais dos seres
vivos.
E — Os sistemas de classificação que se baseiam em critérios de utilização alimentar pelo
homem são denominados práticos.
F — Os cladogramas são diagramas em que estão explícitas as relações de parentesco entre
os seres vivos.
G — As classificações denominam-se artificiais quando se baseiam em muitas características.

4. Seleccione a opção que completa correctamente a afirmação.


Um ser fotoeterotrófico utiliza como fonte de energia (…) e como fonte de carbono (…),
enquanto um ser quimioautotrófico utiliza como fonte de energia (…) e como fonte de
carbono (…).
A — luz solar […] CO2 […] compostos químicos […] CO
B — luz solar […] compostos orgânicos […] compostos químicos […] CO
C — compostos químicos […] compostos orgânicos […] luz solar […] CO
D — luz solar […] CO2 […] compostos químicos […] compostos orgânicos

5. Seleccione a opção da chave que classifica correctamente as afirmações seguintes.

CHAVE

A — A afirmação III é verdadeira; as afirmações I e II são falsas.


B — A afirmação I é verdadeira; as afirmações II e III são falsas.
C — As afirmações I e II são verdadeiras; a afirmação III é falsa.
D — As afirmações I e III são verdadeiras; a afirmação II é falsa.

AFIRMAÇÕES

I. Se uma classe de animais compreende 250 000 espécies, o Reino


a que pertence deve possuir um número de espécies superior.
II. Os aspectos comuns entre indivíduos da mesma ordem são em maior
número do que entre organismos do mesmo género.
III. A família é um grupo mais abrangente do que a classe.

unidade 8 Sistemática dos seres vivos 191


919354 U8_p166-192 18/1/08 16:46 Page 192

ACTIVIDADES

6. Leia atentamente a afirmação seguinte e classifique as expressões com S (sim) ou N (não).


A lontra e o leão pertencem à ordem Carnivora; então…
A — … pertencem também à mesma família.
B — … possuem obrigatoriamente o mesmo restritivo específico.
C — … podem pertencer a géneros diferentes.
D — … estão incluídos no mesmo filo.
E — … se a lontra pertence ao Reino Animalia, o leão também pertence.
F — … podem estar incluídos em classes diferentes.
G — … a lontra pertence ao filo Chordata, mas o leão pode pertencer ou não.
H — … estes animais poderão ser ou não da mesma espécie.

7. Na tabela seguinte encontra-se a classificação de uma espécie de gafanhoto. Utilize os


termos propostos para completar correctamente a classificação científica deste organismo.

CLASSIFICAÇÃO TERMOS

Reino A Acrididae
Filo Arthropoda Chorthippus paralellus
Classe Insecta Animalia
Ordem Orthoptera Chorthippus
Família B
Género C
Espécie D

8. Considere os diagramas A e B, que representam seres vivos incluídos em dois grupos


taxonómicos. Sabendo que um destes grupos é um Reino e outro é uma classe, classifique
como verdadeiras (V) ou falsas (F), as afirmações seguintes.

A B

A — Todos os seres vivos do diagrama B estão incluídos no diagrama A.


B — O diagrama B representa uma classe.
C — O diagrama A representa uma classe.
D — Todos os seres vivos do diagrama A estão incluídos no diagrama B.
E — O diagrama B é mais abrangente do que o diagrama A.
F — Os seres vivos incluídos no diagrama A apresentam maior uniformidade de características
do que os do diagrama B.
G — O diagrama A inclui maior número de indivíduos do que o diagrama B.
8.1 Seleccione do quadro os termos que completam correctamente a frase seguinte.
O lobo e o homem pertencem ao (…)
e à (…), porque ambos apresentam TERMOS
pêlos como revestimento. O lobo é do
Ordem Carnivora Canis Sapiens
género (…) e da família (…). Já o
Classe Mammalia Lupus Canidae
homem pertence ao género (…).
Reino Animalia Homo Chordata

192 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


919354 U8_p193-219 18/1/08 16:47 Page 193

8 2 Sistema de classificação Animalia Animalia

de Whittaker modificado Plantae Plantae


Protista Protista

Não há um só método para estudar as coisas.


ARISTÓTELES

O sistema de classificação dos seres vivos em grandes catego-


rias taxonómicas (denominadas Reinos) que conhece actualmente
maior aceitação é da autoria de Whittaker. No entanto, é importante
conhecer diferentes sistemas apresentados anteriormente e as razões
que os levaram a ser rejeitados em prol de outros.
Efectivamente, já Aristóteles se dedicara à tarefa de agrupar os
seres vivos, separando-os em dois grandes grupos: Animalia (ani-
mal) e Plantae (vegetal) (Fig. 27).

PLANTAE ANIMALIA

Plantas Cordados
vasculares
Multicelular

Musgos e Artrópodes
líquenes
es
rm
de
no

Estrutura de complexidade crescente


Anelídeos
ui

Algas
Eq
Ne
Mo lmin
ma

os
lus

ad
te

Fungos er
cos es

t
Pla

len
Ce
telm

t
Flag

inte

s
iário
s

ong
elad

Bolores
Bactérias Esp
os

?
Unicelular

Ciliados

Fig. 27 Sistema de classificação dos seres vivos em dois Reinos, proposto por
Aristóteles.

O critério que, basicamente, sustentava a classificação de Aris-


tóteles era o facto de os primeiros apresentarem movimento e de os
segundos serem imóveis.
Apesar de esta classificação ter sido aceite durante muito tempo,
as controvérsias acabaram por surgir. A invenção do microscópio,
que permitiu visualizar seres vivos até aí desconhecidos, a Teoria da
Evolução de Darwin e, ainda, a confusão resultante da falta de
comunicação entre os cientistas, que originava classificações díspa-
res para um mesmo organismo, levaram Haeckel, no século XIX, a
apresentar um outro sistema de classificação (Fig. 28). Este natura-
lista alemão considerou que bactérias, fungos e protozoários eram
A RETER
seres distintos das plantas e dos animais, e apresentou um terceiro
Reino em que os incluiu: Protista. Aristóteles dividiu os seres vivos
em dois grandes grupos: Reino
O facto de os fungos não apresentarem clorofila, não sendo, Animalia e Reino Plantae.
portanto, fotossintéticos, e de alguns protozoários terem essa carac- Haeckel, no século XIX, propôs
a criação de um terceiro
terística, ainda que possuíssem mobilidade, proporcionou a Haeckel Reino — o Reino Protista.
argumentos para sustentar a sua proposta.
unidade 8 Sistemática dos seres vivos 193
919354 U8_p193-219 18/1/08 16:47 Page 194

PLANTAE ANIMALIA

Plantas
vasculares Cordados
Artrópodes

Multicelular

es
An
Musgos

m
Fungos

er
elíd

iár os od
Monera Monera

eo

n
Mo

po erad qui
s
lus

Estrutura de complexidade crescente


co

ios
s

t
len

ng
Algas

Ce
Es
Bolores

Sarcodinas

Unicelular
Bactérias
PROTISTA

Fig. 28 Sistema de classificação em três Reinos, de Haeckel.

Já no século XX, considerou-se que as bactérias eram um grupo


de organismos com características muito distintas das dos fungos
e dos protozoários. O aparecimento, em meados desse século, do
microscópio electrónico ajudou a conhecer estes seres e a classificá-
-los como procariontes, distanciando-os assim dos seus anteriores
companheiros de Reino.
Foi Copeland (biólogo norte-americano) que em 1938 tentou
resolver esta questão, apresentando um sistema de classificação em
que introduziu um quarto Reino (Fig. 29), onde incluiu as bactérias:
Monera.
ANIMALIA
Mo Arthropoda

Com membrana nuclear — complexidade crescente


Chordata
Annelida

ca
llus
Multicelular

ta
Echino atha
derma

inth erte lmi lata


s
a nthe
gn

PLANTAE
Mes tyhelm NemAschentacu
Chaeto
Te
Tracheophyta

es
Coelenterata
Basidiomycota
Bryophyta

ta

Ascomycota
Phaeophy

Porifera

ozoa
Pla
Zygomycota

a Myxomycota
hyta

Acrasiae
hyta

Opisthokonta
Charop a
yt
dop

Chloroph

ota

ina
Zoom lasta
Rho

ra
ta

idos Fungilli
Inophyta
Oomyc
Pyrroph ta

poridia

astig

ho
phy

yta
hy

iop
odin
Proto
yso

Euglenop

Cil
Chr

Sarc
Cn
Unicelular

PROTISTA
Sem membrana nuclear

Archezoa MONERA

Fig. 29 Sistema de classificação em quatro Reinos, de Copeland.

No entanto, em 1969, Whittaker, baseado nos contributos das


novas tecnologias, em que se salientam as técnicas de análise bio-
química e as de microscopia, propôs uma nova alteração (Fig. 30).
Havia necessidade de estabelecer um quinto Reino: Fungi.
194 BIOLOGIA A vida e os seres vivos
919354 U8_p193-219 18/1/08 16:47 Page 195

Whittaker passou a incluir os fungos neste novo grupo, por Fungi Fungi
lhes ter reconhecido características que os distinguiam dos protis-
tas. No Reino Protista considerou apenas os organismos eucariontes
unicelulares. No entanto, várias linhas evolutivas apareciam que-
bradas, uma vez que este sistema de classificação revelava falhas de
perspectiva filogenética.
Atendendo a estas limitações, Whittaker apresentou, em 1979,
uma versão modificada. Outras propostas de classificação surgiram
entretanto, mas o sistema de classificação sugerido por Whittaker em
1979 continua a ser aquele que maior consenso da comunidade cien-
tífica reúne, por isso, será apresentado mais detalhadamente a seguir.

Com membrana nuclear — complexidade crescente


PLANTAE FUNGI
ANIMALIA
Basidiomycota
Tra

ca

ord a
Ch pod
Multicelular

ch

ata
us
Ascomycota

oll
eop

ro
M

lid rth
hyt

ne A

ta
a
a
Bry

rma
Tentaculata
Zygomycota
oph

An

ode
hes
yta

a
hin
th
Aschelmint
ta

na
ophy

Ec
Chlo rophyta

tog
Chytridiomycota

ae
ycota
hyta

Phae

Ch
iop myc byrinth ycota
Oomycota

ara
a

ulom
Cha

Acramycota
rop
hyt

rif enter
zo
La siom
op

ina ridia Meso

el
od

a
Co
o

er
Rh

Myx

omCnidoorozoa ota
horo ota
Chrysophyta

Po
Sp myc
ophyta

Pyrrophyta

as spo
mod idio

tig
Plas ochytr

din
a
Euglen

Zo
ra

rco o
h
Hyp

Sa ilioph
C
Unicelular

PROTISTA
A RETER
Sem membrana

Bac
teria
No século XX, Copeland
Cy
an

nuclear
op

MONERA estabeleceu um quarto Reino


hy
ta

— o Reino Monera —,
e Whittaker propôs a inserção
de um quinto — o Reino Fungi.
Fig. 30 Sistema de classificação de Whittaker de 1969.

Sistema de classificação de Whittaker modificado,


1979
REINO ANIMALIA
Em 1979, Whittaker manteve a REINO PLANTAE

divisão dos seres vivos em cinco Rei- Cordados


nos (Fig. 31): Artrópodes
Angiospérmicas
• Monera; REINO
ntes

Gimnospérmicas Equinodermes
FUNGI
• Protista;
m seme

Nematelmintes
Felicíneas Briófitas Anelídeos
• Fungi;
t a s co

Basidiomicetes Moluscos
• Plantae; Licopodíneas
Plan

Ascomicetes
• Animalia. Equisetíneas Zigomicetes Cnidária Platelmintes
A divisão deste novo sistema de Porifera
classificação proposto, baseia-se em Zooflagelados
Algas Mixomicetes
critérios de diferente ordem, no- verdes Algas
Ciliados

meadamente: nível de organização vermelhas Rizópodes


Algas castanhas
estrutural, modo de nutrição e inte- REINO PROTISTA
Esporozoários
racção do ser vivo no ecossistema. Dinoflagelados

as
ctéri
Fig. 31 Diagrama representativo da
Euba
cté eoba
ri a
s qu REINO MONERA
Ar

distribuição dos seres vivos em cinco


Reinos, segundo Whittaker, em 1979.

unidade 8 Sistemática dos seres vivos 195


919354 U8_p193-219 18/1/08 16:47 Page 196

A RETER Nível de organização

SISTEMA
Relativamente ao nível de organização estrutural, os seres vivos
DE CLASSIFICAÇÃO podem ser:
DE WHITTAKER, 1979
• procariontes (Monera) ou eucariontes (Protista, Fungi, Plan-
Reino Animalia tae e Animalia);
• unicelulares (Monera e Protista)(1) ou multicelulares (Protista(1),
Reino Plantae
Fungi, Plantae e Animalia);
Reino Protista • não diferenciados, com baixo nível de diferenciação (Monera,
Protista e Fungi) ou diferenciados (Plantae e Animalia).
Reino Fungi

Reino Monera
EUCARIONTE PROCARIONTE

Multicelular Unicelular

Não
Diferenciado
diferenciado

Plantae Protista (parte)


Protista (parte) Monera
e Animalia e Fungi

Modo de nutrição
Quanto ao modo de nutrição, os seres vivos podem ser:
• autotróficos (Monera(1), Protista(1) e Plantae);
• heterotróficos por ingestão (Protista(1) e Animalia);
• heterotróficos por absorção (Monera(1), Protista(1) e Fungi).

HETEROTRÓFICOS AUTOTRÓFICOS

Ingestão Absorção

Monera (parte), Monera (parte),


Protista (parte)
Protista (parte) Protista (parte)
e Animalia
e Fungi e Plantae

Interacções nos ecossistemas


No que diz respeito às interacções nos ecossistemas, os seres
vivos podem desempenhar um de três papéis:
• produtores (Monera, Protista e Plantae);
• macroconsumidores (Protista e Animalia);
• microconsumidores (Monera, Protista e Fungi).
A RETER

Whittaker usou vários critérios


para estabelecer o seu sistema PRODUTORES CONSUMIDORES
de classificação dos seres
vivos em cinco Reinos,
nomeadamente: organização Macroconsumidores Microconsumidores
estrutural, modo de nutrição
e interacção nos ecossistemas. Monera, Protista Protista Monera, Protista
e Plantae e Animalia e Fungi

(1)
Nota: Apenas parte dos seres deste Reino apresentam esta característica.

196 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


919354 193-219_U8 31/1/08 14:44 Page 197

PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DOS REINOS, SEGUNDO WHITTAKER, 1979

REINO Monera Protista Fungi Plantae Animalia

Exemplos

Bactéria Ameba Cogumelo Pinheiro Camaleão

Célula
X
procariótica

Célula
X X X X
NÍVEL DE ORGANIZAÇÃO ESTRUTURAL

eucariótica

Unicelular X X

Multicelular
X X
não diferenciado

Multicelular
X X
diferenciado

Parede celular
X X X X
presente

Parede celular
X X
ausente

Autotrófico
X X X
fotossintético
MODO DE NUTRIÇÃO

Autotrófico
X
quimiossintético

Heterotrófico
X X X
por absorção

Heterotrófico
X X X
por ingestão

Produtores X X X
INTERACÇÃO NOS
ECOSSISTEMAS

Macroconsumidores X X

Microconsumidores X X X

ACTIVIDADE

CHAVE DICOTÓMICA

1. Tendo em conta as características dos diferentes Reinos propostos por Whittaker, construa uma chave
dicotómica que torne possível distribuir os seres vivos pelos cinco Reinos.

unidade 8 Sistemática dos seres vivos 197


919354 193-219_U8 31/1/08 14:45 Page 198

Prokaria Prokaria Quais são as novas perspectivas


Eukaria Eukaria de classificação dos seres vivos?
Eubacteria Eubacteria
Archaeabacteria Archaeabacteria
A classificação não é um processo natural e depende dos crité-
rios utilizados pelo classificador; por isso, à medida que novos
dados científicos são recolhidos, é possível que surjam outras pro-
postas de classificação dos seres vivos.
Após Whittaker ter proposto o seu sistema de classificação
revisto, em 1979, várias alternativas foram apresentadas, variando
o seu impacto na comunidade científica.
Com base essencialmente em dados de ultra-estrutura micros-
cópica das células e respectivos organitos citoplasmáticos, a bióloga
norte-americana Lynn Margulis (1988-1996) propôs que os seres
vivos fossem distribuídos por dois grandes Super-Reinos ou Domí-
nios: Prokaria (em que incluía todos os seres procariontes) e
Eukaria (em que reunia todos os seres eucariontes). Este último
apresentava-se subdividido em quatro Reinos: Proctotista, Fungi,
Plantae e Animalia.
Em 1990, Woese (biólogo norte-americano) propôs um novo
sistema de classificação. A partir de análises comparativas da
sequência de nucleótidos em ácidos nucleicos, considerou ser per-
tinente dividir os seres vivos em três grandes Domínios: Eubacteria,
Archaeabacteria e Eukaria. Estudos recentes de genética permitiram-
-lhe ainda concluir que (Fig. 32):
• há um ancestral comum a todos os seres vivos, procariontes
e eucariontes;
• existem dois tipos distintos de procariontes, que foram desig-
nados por Eubacteria (ou simplesmente Bacteria) e Archaea
(ou Archaeabacteria);
• a relação de ancestralidade é mais próxima entre os Archaea
e os Eukaria (eucariontes) do que entre os Archaea e os Eubac-
teria.

Ancestral comum a Archaea e Eukaria

Procariontes
mais antigos
Eubacteria

Origem
da vida
Archaea

Eukaria

Ancestral Presente
Tempo
Ancestral comum a todos
os seres vivos actuais
Fig. 32 Os três Domínios Eubacteria, Archaeabacteria e Eukaria, propostos por Woese,
e a respectiva relação filogenética.

198 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


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ACTIVIDADE

RELAÇÕES FILOGENÉTICAS

1. O quadro que se segue apresenta algumas das características de três seres vivos diferentes. Analise-o
e responda às questões.

Domínio Eubacteria Archaea Eukaria

Exemplos

Salmonella Methanospirillum
Papilio machaon
typhimurium hungatii

Membrana
Ausente Ausente Presente
nuclear

Organitos
Ausente Ausente Presente
citoplasmáticos
ESTRUTURAS CELULARES

Glucopéptidos
na parede Presente Ausente Ausente
celular

Ribossomas 70S 70S 80S

Codão iniciador Formilmetionina Metionina Metionina

RNA 1 tipo (diferente 1 tipo (igual


3 tipos
polimerase da dos eucariontes) à dos eucariontes)
DOS RIBOSSOMAS A:

Cloranfenicol Sim Não Não


SENSIBILIDADE

Estreptomicina Sim Não Não

Toxinas
Não Sim Sim
da difteria

PURVES, ORIANS, HELLER e SADAVA, Life — The Science of Biology (adaptado)

1.1 Com base na análise exclusiva das imagens, estabeleça a relação de parentesco mais óbvia entre
os três indivíduos representados.
1.2 Analise os dados do quadro e indique aspectos que validem a hipótese que defende a existência
de uma maior proximidade entre Methanospirillum hungatii e Papilio machaon.
1.3 Compare o sistema de classificação em três Domínios com o sistema proposto por Whittaker em
1979, tentando encontrar vantagens e desvantagens do primeiro.

unidade 8 Sistemática dos seres vivos 199


919354 193-219_U8 31/1/08 14:45 Page 200

Tendo em conta os dados genéticos, que apontam para uma


maior proximidade filogenética entre alguns procariontes e os
eucariontes, é possível concluir que o Reino Monera não é um reino
monofilético (dado que não reúne todos os descendentes de um
determinado ancestral).
Esta é a razão pela qual Woese e vários cientistas na actualidade
defendem a divisão do Reino Monera em dois grupos distintos.
Os mesmos cientistas propõem a criação de uma categoria superior
à do Reino, que também designaram por Domínio, tendo dividido
os seres vivos em três grandes Domínios (Fig. 33): Eubacteria,
Archaea e Eukaria. O Domínio Eukaria apresenta-se dividido em qua-
tro Reinos: Protista, Fungi, Plantae e Animalia.
Esta proposta de classificação baseia-se, essencialmente, em
dados de natureza molecular, no campo do estudo dos ácidos
nucleicos, nomeadamente do RNA ribossómico. Por utilizar como
base de classificação um número de características extremamente
reduzido, é um sistema de classificação controverso, não reunindo
consenso entre os investigadores. Apesar disso, a sua utilização na
comunidade científica já é vasta.

ANIMALIA
(Eucariontes
multicelulares)
PLANTAE FUNGI
(Eucariontes (Eucariontes
multicelulares) multicelulares)

PROTISTA
(Eucariontes, unicelulares
e multicelulares)

EUBACTERIA ARCHAEABACTERIA
A RETER (Procariontes, (Procariontes, unicelulares)
unicelulares)
Os sistemas de classificação
mais recentes (de Woese
e outros cientistas) propõem
a criação de três grandes
Domínios em que se incluem
todos os seres vivos: Archaea,
Bacteria e Eukaria. Este último
engloba quatro Reinos: Protista, Fig. 33 Representação filogenética dos três Domínios dos seres vivos: Archaea
Fungi, Plantae e Animalia. (Archaeabacteria), Eubacteria (Bacteria) e Eukarya (Protista, Plantae, Fungi
e Animalia), segundo Woese.

Quanto ao sistema de classificação dos seres vivos, o que foi


proposto por Whittaker em 1979 continua a ser aquele que maior
consenso reúne.
200 BIOLOGIA A vida e os seres vivos
919354 U8_p193-219 18/1/08 16:47 Page 201

ACTIVIDADE

EVOLUÇÃO DA TAXONOMIA

1. O esquema seguinte pretende demonstrar a evolução dos


sistemas de classificação dos seres vivos. Analise-o e responda
às questões.

LINEU HAECKEL COPELAND

Protista Monera
Plantae
Protista
Plantae
Plantae
Animalia
Animalia Animalia

WHITTAKER WOESE

Monera Eubacteria
Archaeabacteria
Protista
Protista
Fungi
Eukaria

Fungi
Plantae
Plantae
Animalia Animalia

1.1 Enumere razões que levaram a que os seres vivos tenham


vindo a ser distribuídos por um número crescente de Reinos.
1.2 Identifique as vantagens da classificação de Whittaker,
relativamente aos sistemas de classificação
anteriores.
1.3 Refira uma razão pela qual a classificação de Whittaker
ainda reúne maior consenso do que a classificação
proposta por Woese.
1.4 Identifique os critérios que levaram Woese a dividir o Reino
Monera em dois domínios: Archaea e Eubacteria.
1.5 Considere os seres vivos X, Y e Z, tenha em conta as suas
características e integre-os nos sistemas de classificação
de Haeckel, Whittaker e Woese.

SER VIVO CARACTERÍSTICAS

Unicelular, procarionte com parede celular sem


X glucopéptido, vive em locais com temperaturas
muito elevadas.
Multicelular não diferenciado, células com
Y parede celular com quitina, nutrição por
absorção.
Unicelular, com cloroplastos, móvel por meio
Z
de flagelos.

1.6 Que conclusão pode tirar sobre o carácter persistente dos


sistemas de classificação?

unidade 8 Sistemática dos seres vivos 201


919354 U8_p193-219 18/1/08 16:47 Page 202

CARACTERÍSTICAS DOS CINCO REINOS TENDO COMO BASE


CURIOSIDADE O SISTEMA DE CLASSIFICAÇÃO PROPOSTO POR WHITTAKER EM 1979
O número de procariontes nos
oceanos é 3 ⫻ 1028, cem milhões Reino Monera
de vezes superior ao das estrelas Grupo de seres vivos com maior sucesso no Planeta, o Reino Monera
visíveis no Universo. é o Reino dos seres procariontes e, como tal, o dos mais pequenos
de todos os seres.
Inclui em simultâneo os seres vivos com menor diversidade de dimensão
e formas e com maior diversidade metabólica.
A única célula que constitui estes indivíduos:
• tem sempre parede celular de natureza química diversa, mas nunca
celulósica;
• apresenta um cromossoma único, pequeno e circular, possuindo
algumas espécies também fragmentos menores de DNA (plasmídeos);
• não tem organitos citoplasmáticos membranares;
• não possui citoesqueleto, o que a impede de sofrer mitose; a divisão
celular é feita por fissão após replicação do DNA.
Os Monera colonizam todos os tipos de habitat, sendo possível encontrá-los
onde mais nenhum ser consegue sobreviver. Vivem em ambientes com
limites extremos de temperatura (altas ou baixas), de pH (de meios
muito ácidos a muito alcalinos) e de salinidade (Fig. 34). Do mesmo
modo, é possível localizá-los em meios carentes de oxigénio (espécies
anaeróbias) ou em meios ricos neste gás (espécies aeróbias).

A B

Fig. 34 Methanopyrus são bactérias metanogénicas do Domínio Archaea (A)


que sobrevivem nas fontes hidrotermais (B).

Do ponto de vista nutritivo, existem espécies autotróficas (fotossintéticas


e quimiossintéticas) e também espécies heterotróficas (fotoeterotróficas
e quimioeterotróficas).
Os elementos autotróficos podem desempenhar o papel de produtores
(Fig. 35) em cadeias alimentares de ecossistemas iluminados pela luz
solar (espécies fotossintéticas) ou de ecossistemas que nunca recebem
a luz, como os fundos oceânicos (espécies quimiossintéticas).

A B

Fig. 35 Cianobactérias: bactérias coloniais fotossintéticas (A) e pormenor


de uma célula vista ao microscópio electrónico (B).

202 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


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Existem espécies heterotróficas por absorção, assumindo


o papel de microconsumidores nos ecossistemas. Nunca
são macroconsumidores, pois nunca se alimentam por
ingestão.
Desempenham papéis importantes na biosfera —
tornam possíveis determinadas fases de alguns ciclos
de matéria, nomeadamente os ciclos do azoto, do enxofre,
do carbono ou do oxigénio (Fig. 36).
Fig. 36 Nitrobacter, bactérias que
Algumas espécies são usadas na indústria alimentar, permitindo a produção
participam no ciclo do azoto, sendo
de alimentos como o queijo ou os iogurtes. Outras espécies provocam
fundamentais para a reciclagem
doenças nos seres humanos ou noutros seres vivos (Figs. 37 e 38). deste elemento na biosfera.
Apresentam diferentes formas de locomoção: há espécies que são
imóveis e outras que se movem recorrendo a flagelos (forma mais
comum de mobilidade entre as bactérias) (Fig. 38), por deslizamento
ou de outras formas.

Fig. 37 Treponema pallidum, bactéria causadora da sífilis Fig. 38 Salmonella, uma bactéria que se
humana. move devido à presença de flagelos.

Reino Protista
Dada a diversidade de células, modos de nutrição e interacções nos
ecossistemas, este Reino distingue-se com mais facilidade pelas
características que não apresenta do que pelas que possui. Sendo
assim, considera-se que um ser vivo é um protista se for um eucarionte
que não é nem um fungo, nem uma planta, nem um animal (Fig. 39).
O Reino Protista é um grupo polifilético, pois não contém todos os
descendentes de um mesmo ancestral.
Neste Reino existem alguns seres mais relacionados com os animais,
outros com as plantas e outros com os fungos.
Se a maioria dos protistas é unicelular, existem outros, multicelulares,
atingindo algumas espécies dimensões extraordinárias, como é o caso
da alga castanha Laminaria (Fig. 40).

Fig. 39 Euglena. Fig. 40 Laminaria, alga.

unidade 8 Sistemática dos seres vivos 203


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As células dos protistas, todas elas eucarióticas, apresentam,


ou não, parede celular e possuem, ou não, estruturas
de locomoção (Figs. 41 e 42).
Alguns protistas são móveis e outros são imóveis.
Do ponto de vista nutritivo, encontram-se neste Reino indivíduos
fotossintéticos e indivíduos heterotróficos por ingestão ou por
absorção. Como consequência, nos ecossistemas podem
desempenhar papéis de produtores, microconsumidores
ou macroconsumidores.
Fig. 41 Ameba.
Certos protistas são responsáveis por doenças que afectam o homem
ou outros seres vivos (Fig. 43).

Fig. 42 Paramécia. Fig. 43 Saprolegnia (oomycete), que provoca alterações


em animais aquáticos.

No interior do Reino Protista coexistem os ancestrais dos restantes três


reinos dos eucariontes: Animalia, Fungi e Plantae.

Reino Fungi
O Reino Fungi agrupa organismos eucariontes heterotróficos por
absorção, que possuem quitina na parede das suas células.
Existem fungos unicelulares, como as leveduras (Fig. 44); no entanto,
a maior parte é multicelular. As células dos fungos, que se caracterizam
pela presença de parede celular de quitina e pela ausência de cloroplastos,
organizam-se em estruturas filamentosas, as hifas, que se associam
constituindo o micélio. Alguns fungos apresentam hifas com septos que
individualizam as várias células, enquanto noutros fungos as hifas não
apresentam septos, não sendo perceptíveis os limites celulares (Fig. 45).

Fig. 44 Sacharomyces, levedura Fig. 45 Hifas.


utilizada na produção de vários
alimentos. Os fungos são, do ponto de vista nutritivo, heterotróficos por absorção,
o que significa que sintetizam enzimas digestivas que libertam para
o meio envolvente. No exterior, as enzimas procedem à transformação
das macromoléculas orgânicas em produtos mais pequenos, que
podem, posteriormente, ser absorvidos pelos fungos (Fig. 46).

204 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


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Devido a esta forma de alimentação, os fungos desempenham um papel


fundamental nos ecossistemas, funcionando como microconsumidores.
Estes fungos são considerados saprófitas (Fig. 47) e, a par de algumas
bactérias, são os principais responsáveis pela reciclagem dos elementos
essenciais aos seres vivos na biosfera. Fig. 46 Amanita muscaria, fungo muito
Certos fungos parasitas utilizam os hospedeiros como fontes nutritivas, venenoso.
causando nestes últimos várias patologias (Fig. 48).

A B

Fig. 47 Rhizopus nigricans, bolor do pão. Fig. 48 Candida albicans (A)


e Pneumocystis carinii (B), fungos
Alguns fungos conseguem estabelecer relações permanentes causadores de doenças na espécie
(simbióticas) e vantajosas (mutualistas) com outros seres vivos (Fig. 49). humana.
Exemplos típicos do resultado deste tipo de reacções são os líquenes
(associação entre fungos e cianobactérias ou entre fungos e algas verdes
unicelulares) ou as micorrizas (associações entre fungos e raízes
de plantas). Em ambos os casos, os fungos recebem matéria orgânica
produzida pelo seu parceiro, que é recompensado com água e sais
minerais, absorvidos com maior facilidade pelo fungo.
Os fungos aparecem associados à indústria alimentar (fabrico de vinho,
cerveja e pão) ou à indústria farmacêutica (produção de antibióticos)
(Fig. 50).

A B

Fig. 49 Os líquenes (A) e as micorrizas (B) são exemplos de associações


simbióticas entre fungos e outros seres vivos.

A B

Fig. 50 Penicilium (A) e leveduras (B), fungos utilizados na produção


de antibióticos e no fabrico de alimentos, respectivamente.

unidade 8 Sistemática dos seres vivos 205


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Reino Plantae
O Reino Plantae é monofilético, dado que todas as plantas
descendem de um único ancestral (Fig. 51). É constituído por
seres multicelulares com grau de diferenciação progressiva.
As células vegetais apresentam parede celulósica, e muitas delas
têm cloroplastos.
As plantas são seres fotossintéticos e, como consequência, são
grandes repositores de oxigénio na atmosfera e produtores de
matéria orgânica nas cadeias alimentares dos ecossistemas
terrestres.
Fig. 51 Charophyta, alga que parece Apresentam reprodução sexuada. A fecundação, que resulta da união
estar na origem de todas as plantas.
de células sexuais (oosfera e anterozóides), ocorre em estruturas
especializadas, que protegem o embrião durante o seu desenvolvimento.
embrionário são protegidos por tecidos da planta progenitora.
O ciclo de vida das plantas é padronizado, sendo haplodiplonte.
As plantas evoluíram a partir de algas verdes e sofreram pressões
selectivas típicas do meio terrestre.
Existe uma grande diversidade de plantas com diferentes graus
de evolução (Figs. 52 a 55).

Fig. 52 Musgos, plantas não vasculares. Fig. 53 Fetos, plantas vasculares sem sementes.

Fig. 54 Pinheiro, planta gimnospérmica. Fig. 55 Amendoeira em flor, planta angiospérmica.

206 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


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Reino Animalia
No Reino Animalia, todos os indivíduos são multicelulares, com graus
crescentes de diferenciação.
A célula animal caracteriza-se pela ausência de parede celular
e de organitos fotossintéticos (cloroplastos).
Os animais são heterotróficos por ingestão, o que significa que ingerem
alimento (outros seres vivos ou os seus produtos derivados). Os alimentos
são depois digeridos no interior do seu corpo (digestão intracorporal).
A evolução destes seres permitiu o desenvolvimento de órgãos
especializados na digestão.
Por serem heterotróficos por ingestão, os animais são macroconsumidores,
funcionando como elos de transferência de matéria orgânica ao longo
de uma cadeia alimentar.
Uma vez que os animais se nutrem de outros seres vivos, a mobilidade
foi uma aquisição importante. Só assim a maior parte dos animais
consegue chegar ao alimento ou, em situações mais primitivas, deslocar
o alimento até si.
Ao seu estilo alimentar parecem também estar associados os factores
que favorecem a evolução de um sistema nervoso capaz de coordenar
informações, como a localização de alimento e o reconhecimento
e acção perante predadores e presas.
O Reino Animalia é constituído por seres que foram evoluindo segundo
um padrão de complexidade e diferenciação crescentes (Figs. 56 a 59).

Fig. 56 Anémona, animal aquático muito simples. Fig. 57 Polvo, molusco aquático.

Fig. 58 Colias eurydice, um dos muitos insectos. Fig. 59 Coelho, mamífero.

unidade 8 Sistemática dos seres vivos 207


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ACTIVIDADE LABORATORIAL

OBSERVAÇÃO DE SERES VIVOS REPRESENTANTES DE DIVERSOS REINOS

Material
• Iogurte. • Azul-de-metileno.
• Amostra de bolor (por exemplo, de tomate ou de citrinos). • Lamparina.
• Ulva sp. (alface-do-mar). • Ansa de inoculação.
• MOC. • Agulha de dissecação.
• Lâminas e lamelas. • Fósforos.
• Água destilada.

Procedimento
A. Observação de bactérias do iogurte

1 — Coloque uma gota de água numa lâmina.


2 — Com a ajuda de uma ansa de inoculação, retire uma pequena porção de iogurte e esfregue-a sobre
a lâmina.
3 — Seque a lâmina passando-a ligeiramente pela chama de uma lamparina.
4 — Core o esfregaço obtido com azul-de-metileno e deixe actuar durante dois minutos.
5 — Lave a preparação, inclinando-a e fazendo passar água destilada, suavemente, sobre a mesma.
Seque ao ar.
6 — Observe ao MOC e registe as observações.

B. Observação de bolor

1 — Coloque uma gota de água numa lâmina.


2 — Com a ajuda de uma agulha de dissecação, ponha uma porção de bolor na lâmina.
3 — Coloque a lamela e pressione ligeiramente.
4 — Observe ao MOC e registe as observações.

C. Observação de um corte de alface-do-mar (ulva sp.)

1 — Faça um corte transversal (o mais fino possível) de uma alface-do-mar.


2 — Observe ao MOC e registe as observações.

Fig. 60 Bactérias do iogurte. Fig. 61 Bolor de citrinos. Fig. 62 Alface-do-mar, Ulva sp.

Discussão
1 — Com base nos dados recolhidos durante a actividade laboratorial, justifique a colocação:
a) das bactérias no Reino Monera;
b) do bolor no Reino Fungi;
c) da Ulva no Reino Protista.
2 — A partir de dados recolhidos durante a observação experimental, caracterize o bolor e a alga,
quanto ao tipo de nutrição.
3 — Dos critérios utilizados por Whittaker no seu sistema de classificação, identifique os que foram
evidenciados durante esta actividade experimental.

208 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


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SAÍDA DE CAMPO

PEDIPAPER FOTOGRÁFICO — AS ESPÉCIES DA ZONA INTERTIDAL

Material
• Calçado impermeável.
• Máquina fotográfica.
• Bloco de apontamentos.
• Lápis.
• Lupa de mão.
• Fotocópia(s) da tabela I(1).

Tarefas a realizar
1 — Esquematize numa folha A4 um corte transversal da praia, identificando as diferentes zonas
existentes.(1)
2 — Observe, com atenção, os seres vivos da praia. Fotografe as diferentes espécies encontradas
e preencha a tabela I.(1)
3 — Identifique, com a ajuda das informações fornecidas(1) ou de um guia de campo, as espécies
encontradas.

A B C D

E F G H

I J L

Fig. 63 Algumas espécies da zona intertidal: Ulva lactuca (A); Codium tomentosum (B); Lithophyllum tortuosum (C);
Enteromorpha intestinalis (D); Chthamalus stellatus (E); Actinia equina (F); Corallina officinalis (G); Paracentrotus
lividus (H); Fucus spiralis (I); Gibbula umbilicalis (J); Anemonia sulcata (L).

(1)
No anexo II (pág. 218), encontram-se informações adicionais sobre a zona intertidal, fotografias dos diferentes seres vivos e uma
tabela que pode utilizar como auxiliar na identificação dos exemplares observados.

unidade 8 Sistemática dos seres vivos 209


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Conceitos/Palavras-chave

Necessários Essenciais Complementares

• Eucarionte • Eubacteria • Domínio


• Procarionte • Archaebacteria • Prokaria
• Absorção • Monera • Eukaria
• Digestão • Protista
• Autotrófico • Fungi
• Heterotrófico • Plantae
• Animalia

Síntese de conhecimentos

• O sistema de classificação de Whittaker de 1979 é aquele que reúne maior consenso na comunidade
científica.
• Anteriores ao sistema de classificação de Whittaker são:
— o sistema de dois Reinos (Animalia e Plantae), proposto por Aristóteles;
— o sistema de classificação de três Reinos, proposto por Haeckel (Animalia, Plantae e Protista);
— o sistema de classificação de quatro Reinos, proposto por Copeland (Animalia, Plantae, Protista
e Monera);
— o sistema de classificação de cinco Reinos, proposto por Whittaker em 1969 (Animalia, Plantae,
Protista, Monera e Fungi).
• Posteriores ao sistema de classificação de Whittaker de 1979 são, por exemplo, o sistema
de classificação proposto por Margulis (que divide os seres vivos em dois Super-Reinos, Prokaria
e Eukaria) e o sistema que foi proposto por Woese (que distribui os seres por três Domínios
(Archaeabacteria, Eubacteria e Eukaria).
• Os critérios utilizados por Whittaker foram: nível de organização estrutural, tipo de nutrição e tipo
de interacção nos ecossistemas.
• Segundo o sistema de classificação de Whittaker de 1979, os seres vivos que se distribuem pelos cinco
Reinos apresentam diferentes características:
Monera — seres procariontes, com os diferentes tipos de nutrição (excepto a ingestão), podendo ser
microconsumidores ou produtores.
Protista — seres eucariontes unicelulares REINO ANIMALIA
REINO PLANTAE
ou multicelulares, sem elevado grau de
Cordados
diferenciação, com todos os tipos de Artrópodes
Angiospérmicas
nutrição e desempenhando diferentes REINO
ntes

Gimnospérmicas Equinodermes
papéis nos ecossistemas. FUNGI
m seme

Nematelmintes
Fungi — seres eucariontes unicelulares Felicíneas Briófitas Anelídeos
t a s co

Basidiomicetes
ou multicelulares, que se nutrem Licopodíneas
Moluscos
Plan

Ascomicetes
por absorção e são sempre Equisetíneas Zigomicetes Cnidária Platelmintes
microconsumidores. Porifera
Plantae — seres eucariontes multicelulares, Zooflagelados
Algas Mixomicetes
com diferenciação crescente, autotróficos verdes Algas
Ciliados
Rizópodes
produtores. vermelhas
Algas castanhas
Animalia — seres eucariontes multicelulares, Esporozoários REINO PROTISTA
Dinoflagelados
com diferenciação crescente, heterotróficos
por ingestão e macroconsumidores. Eu bac
térias
bact eo
é ri a qu REINO MONERA
s
Ar

210 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


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ACTIVIDADES

Sistema de classificação
de Whittaker modificado
1. Elabore um mapa de conceitos relativo aos conteúdos desta subunidade.

2. Segundo o sistema de Whittaker de 1979, identifique o Reino a que pertencerá cada um


dos seres vivos com as características apresentadas.

REINOS CARACTERÍSTICAS

I. Monera A — Multicelulares, diferenciados com nutrição por ingestão.


II. Protista B — Procariontes autotróficos.
III. Fungi C — Autotróficos com tecidos.
IV. Plantae D — Organização celular em hifas.
V. Animalia E — Eucariontes autotróficos multicelulares, não diferenciados.

3. Da lista de características a seguir apresentada, seleccione aquelas que são atribuídas


a um único Reino.
A — Unicelularidade.
B — Células procarióticas.
C — Células com parede celular com quitina.
D — Heterotrofia por absorção.
E — Mobilidade.
F — Células com cloroplastos.

4. Seleccione a opção que completa correctamente a afirmação.


No sistema de classificação proposto em 1979, Whittaker não utilizou como critério
de classificação…
A — … a interacção nos ecossistemas.
B — … o modo de nutrição.
C — … a análise comparativa da sequência de nucleótidos do mRNA.
D — … a organização estrutural.

5. O diagrama seguinte pretende representar um dos modelos de classificação dos seres vivos
estudado. Sabendo que cada letra representa um Reino, responda às questões.

D
C E

5.1 Poderia este sistema de classificação ser atribuído a Copeland? Justifique a sua resposta.
5.2 Identifique os reinos representados por:
a) A; b) B.

unidade 8 Sistemática dos seres vivos 211


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ACTIVIDADES

5.3 Considerando que todos os representantes de C e D são heterotróficos e que todos


os representantes de C e E são multicelulares diferenciados, identifique os Reinos:
a) C;
b) D;
c) E.
5.4 Justifique a disposição gráfica do modelo, tendo em conta que A é base de B e que este
é a base simultânea de C, D e E.
5.5 Identifique o Reino (utilizando uma das letras da figura) em que integraria cada um dos seres
vivos com as características seguintes:
I. Ser vivo com corpo diferenciado em raiz, caule e folhas.
II.Ser vivo fotossintético mas sem cloroplastos.
III.
Ser vivo unicelular que se move em direcção ao alimento através de cílios.
IV.Ser vivo multicelular que liberta enzimas digestivas para o exterior, para aí provocar
a degradação de moléculas orgânicas.
V. Ser vivo multicelular, diferenciado, com células sem parede celular.

6. Considere as afirmações I, II e III. Analise-as e seleccione a opção da chave que melhor


as define.

CHAVE

A — Todas as afirmações são verdadeiras.


B — Todas as afirmações são falsas.
C — As afirmações I e II são falsas, e a afirmação III é verdadeira.
D — A afirmação I é falsa, e as afirmações II e III são verdadeiras.

AFIRMAÇÕES

I. No sistema de classificação de Copeland, os seres vivos


unicelulares, procariontes ou eucariontes, partilham o mesmo Reino.
II. Haeckel propôs um sistema de classificação de seres vivos em três
Reinos.
III. Ao classificar os seres vivos, Whittaker teve em conta as suas
interacções nos ecossistemas.

7. Para cada uma das características a seguir assinaladas, atribua um S (sim) àquelas
que dizem respeito ao Reino Protista e um N (não) às que não se relacionam com este
Reino.
A — Unicelularidade.
B — Multicelularidade com diferenciação.
C — Quimiossíntese.
D — Autotrofia.
E — Heterotrofia por ingestão.
F — Mobilidade.
G — Fotoeterotrofismo.
H — Organização celular em hifas.

8. Das características que se seguem, seleccione aquela que nunca se verifica num indivíduo
do Reino Plantae.
A — Indivíduo multicelular diferenciado.
B — Ser com algumas células sem cloroplastos.
C — Ser com muitas células procarióticas.
D — Ser com células com metabolismo fotoautotrófico.

212 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


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9. Pretende-se justificar a integração de seres vivos em determinados Reinos, recorrendo a duas


características de cada um. Analise as características mencionadas para os diferentes seres vivos
e atribua a letra da chave que melhor se lhes adapta.

CHAVE SERES VIVOS

I. A primeira característica é suficiente para justificar


A — X é Monera, porque:
a inclusão do ser vivo no Reino.
1.º — é procarionte;
II. A segunda característica é suficiente para justificar 2.º — é autotrófico.
a inclusão do ser vivo no Reino.
III. São necessárias as duas características para justificar B — Y é Fungi, porque:
a inclusão do ser vivo no Reino. 1.º — é heterotrófico;
IV. As duas características são insuficientes para justificar 2.º — é imóvel.
a inclusão do ser vivo no Reino.
C — Z é Plantae, porque:
1.º — é autotrófico;
2.º — é multicelular diferenciado.

D — W é Animalia, porque:
1.º — é multicelular diferenciado;
2.º — é heterotrófico por ingestão.

10. Considere os seres vivos seguintes e as respectivas características. Responda às questões.

SERES VIVOS CARACTERÍSTICAS

Eucarionte;
multicelular não diferenciado;
Bossiela orbigniana autotrófico;
imóvel;
células com parede celular de celulose.

Eucarionte;
multicelular formando hifas;
Rhizopus stolonifer heterotrófico por absorção;
imóvel;
células com parede celular de quitina.

Eucarionte;
multicelular diferenciado;
Ophiothrix spiculeta heterotrófico por ingestão;
móvel;
células sem parede celular.

Eucarionte;
unicelular;
Paramecium aurelia heterotrófico por ingestão;
móvel;
célula sem parede celular.

10.1 Para cada um dos seres vivos representados, refira o nome:


a) da espécie;
b) do género;
c) do Reino (segundo Whittaker, 1979).
10.2 Construa uma chave dicotómica que permita separar os seres vivos referidos.

11. Comente a afirmação seguinte.


«Os sistemas de classificação são fruto da tecnologia da época em que são propostos.»

unidade 8 Sistemática dos seres vivos 213


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CiênciaTecnologiaSociedadeAmbiente

DOC. 1 Porque não são os vírus integrados


em nenhum dos reinos dos seres vivos?
Os vírus foram estudados mesmo antes
de serem observados. Por terem dimensões
muito reduzidas, só após a invenção do micros-
cópio electrónico puderam ser observados, no
século XX.
O primeiro cientista a suspeitar da existência
dos vírus foi Ivanowsky, biólogo russo, enquanto
estudava a destruição das células fotossintéti-
cas da planta do tabaco. Inspirado nos trabalhos
então recentes de Pasteur, que demonstraram
que as bactérias causavam doenças, Ivanowsky
tentou isolar o agente infeccioso (que ele sus-
peitava ser uma bactéria), recorrendo à técnica
então usada para as separar. Fez passar um
Fig. 64 Vírus herpes simplex.
extracto da planta infectada por um filtro fino
de porcelana, não conseguindo, contudo, reter Normalmente, os vírus introduzem o seu mate-
o agente infeccioso (este era mais pequeno do rial genético na célula hospedeira, utilizam a
que os poros do filtro e do que as bactérias). maquinaria desta para replicar o seu ácido
Só cerca de meio século mais tarde Wendell nucleico e sintetizar as suas proteínas. Deste
Stanley conseguiu cristalizar o agente infeccioso modo, conseguem réplicas de si próprios, as
(trabalho que lhe valeu o Prémio Nobel, em quais acabam por destruir a célula hospedeira,
1946). O vírus cristalizado era inofensivo, mas, partindo à «conquista» de novas células. Durante
quando dissolvido, voltava a ser infeccioso. Foi este fenómeno, podem sofrer mutações, o que
ainda possível verificar que o vírus era constituído lhes confere grande diversidade e capacidade
por proteínas e ácidos nucleicos. de resistir às variações do meio.
Em 1950, a observação directa ao micros- Por não possuírem parede celular nem ma-
cópio electrónico permitiu concluir que os vírus quinaria ribossómica (à semelhança do que
são muito diferentes das bactérias. acontece nas bactérias), são insensíveis aos
Os vírus são constituídos por uma molécula antibióticos.
de ácido nucleico (DNA ou RNA), envolvida por PURVES, ORIANS, HELLER e SADAVA,
uma cápsula constituída por uma ou mais pro- Life — The Science of Biology (adaptado)

teínas.
Apesar de apresentarem, na sua constitui- ACTIVIDADES
ção, moléculas exclusivas dos seres vivos e de
serem capazes de obter réplicas de si próprios, 1. Enumere características dos vírus que
os vírus apresentam características muito dife- os tornam semelhantes aos seres vivos.
rentes das dos seres vivos: 2. Enumere características dos vírus que
— são acelulares (não sendo constituídos os distinguem dos seres vivos.
por células); 3. Refira as razões pelas quais nenhum sistema
— não regulam o transporte de substân- de classificação introduziu os vírus em qualquer
cias entre o seu interior e o meio envol- Reino.
vente; 4. Com base nos dados do texto, comente
— não possuem metabolismos próprios de a afirmação seguinte.
«A tecnologia é fundamental para o avanço
obtenção de energia.
da Ciência.»
Devido sobretudo ao que foi referido no
5. Apresente duas razões que expliquem
segundo e no terceiro pontos, os vírus são para-
a dificuldade de controlo das doenças
sitas obrigatórios, replicando-se apenas dentro
provocadas pelos vírus.
de células vivas. Qualquer célula de qualquer ser
vivo pode ser utilizada como célula hospedeira.

214 BIOLOGIA A vida e os seres vivos


919354 U8_p193-219 18/1/08 16:48 Page 215

DOC. 2 Diversidade
Embora a diversidade de formas de vida seja difícil compreender a importância de investimen-
imensa, frequentemente focamos a nossa atenção tos avultados para preservar um microrganismo,
em grupos de organismos razoavelmente restritos. em detrimento de um animal felpudo, de aparên-
As plantas e os animais são claramente os Reinos cia enternecedora, como o panda. Ainda que a
a que temos dedicado maior atenção. Mesmo conservação do panda seja necessária, nos tem-
assim, se pensarmos que 90% das espécies pos que correm é um desafio reflectir sobre a
animais são as de invertebrados, rapidamente riqueza do património biológico como um todo, em
percebemos que tendemos a concentrar-nos nos que nada fique para trás.
vertebrados que nos estão mais próximos. Mes- Na realidade, os esforços de conservação
mo numa perspectiva conservacionista, por vezes concentram-se nas espécies mais mediáticas,
menosprezamos Reinos inteiros. É seguramente enquanto os restantes organismos são menospre-
zados. Entre estes últimos estão aqueles que
pertencem ao Reino Monera, nomeadamente as
bactérias ou as algas azuis. Algumas bactérias
provocam graves doenças, como a cólera, e hoje
discute-se a legitimidade de exterminar seres como
estes. Apresenta-se o mesmo dilema ético relativa-
mente aos unicelulares protistas, em que há res-
ponsáveis por diversas patologias (como a doença
do sono ou a malária), e aos fungos, os últimos
seres a surgir sobre a Terra, entre os quais existem
formas tão distintas como os bolores, os cogumelos
ou as leveduras (alguns deles são prejudiciais ao
Homem, e outros são muito úteis, como, por
exemplo, o que produz a penicilina).
O conhecimento de todas as formas de vida
que colonizam a Terra é uma tarefa interminável,
mas a percepção da riqueza e da importância do
equilíbrio da biosfera é uma razão de peso para
que se continue a investir no aprofundamento
dos conhecimentos nesta área. Num universo tão
vasto, são necessárias regras que padronizem a
identificação, a classificação e a nomenclatura bioló-
gica; mas, actualmente, existe um reconhecido
défice de taxonomistas, provavelmente porque as
ciências descritivas estejam a ser preteridas em
favor das analíticas.
http://www.naturlink.pt/canais/
Artigo.asp?iArtigo=4521&iLingua=1
Fig. 65 Panda. (adaptado)

ACTIVIDADES

1. Na sua opinião, por que razão há um maior conhecimento de seres vivos de alguns Reinos em
detrimento do de outros?
2. Mencione algumas zonas do Planeta onde é difícil conhecer a totalidade de seres vivos que lá se
encontram.
3. Que tecnologias estão associadas à descoberta de novas espécies de seres vivos?
4. Parece-lhe correcto o ext