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ÍNDICE

Conceitos e noções introdutórias. Os direitos reais no sistema das fontes......................................................................................2


Enquadramento da posse................................................................................................................................................................. 3
Funções da posse............................................................................................................................................................................. 3
Conceções objetivistas e subjetivistas............................................................................................................................................. 4
CLASSIFICAÇÕES DE POSSE.................................................................................................................................................. 12
VICISSITUDES DA POSSE........................................................................................................................................................ 18
Factos extintivos da posse............................................................................................................................................................. 21
EFEITOS DA POSSE................................................................................................................................................................... 22
Frutos produzidos pela coisa objeto da posse e o regime do uso.............................................................................................22
Benfeitorias.............................................................................................................................................................................. 23
USUCAPIÃO................................................................................................................................................................................ 24
Usucapião de imóveis e usucapião de imóveis........................................................................................................................ 25
Acessão da posse........................................................................................................................................................................... 26
Defesa possessória........................................................................................................................................................................ 27
Ação direta e restituição provisória da posse...........................................................................................................................27
Ações de prevenção, de manutenção e de restituição...............................................................................................................27
Natureza da posse......................................................................................................................................................................... 27
REGISTO...................................................................................................................................................................................... 31
Princípios Gerais do Registo.................................................................................................................................................... 31
Efeitos do Registo Predial........................................................................................................................................................ 32
Vícios registais.................................................................................................................................................................... 32
Modalidades de registo............................................................................................................................................................ 34
Registo enunciativo............................................................................................................................................................. 34
Registo constitutivo............................................................................................................................................................ 34
Registo atributivo................................................................................................................................................................ 35
Extensão dos Direitos Reais.......................................................................................................................................................... 40
Conjunto de modalidades de Diretos Reais..............................................................................................................................40
Situações jurídicas propter rem............................................................................................................................................... 41
Situações propter rem a propósito do conteúdo dos Direitos Reais.........................................................................................42
Conteúdo positivo dos Direitos Reais................................................................................................................................. 42
Conteúdo negativo dos Direitos Reais................................................................................................................................ 43
Dinâmica dos Direitos Reais......................................................................................................................................................... 46
Factos jurídicos com eficácia real............................................................................................................................................ 46
TIPOS DE DIREITOS REAIS...................................................................................................................................................... 49
1 - Propriedades especiais........................................................................................................................................................ 49
1.1 Propriedade temporária................................................................................................................................................. 49
1.2 Propriedade horizontal.................................................................................................................................................. 50
USUFRUTO, USO E HABITAÇÃO............................................................................................................................................52
USO E HABITAÇÃO.............................................................................................................................................................. 53
SERVIDÃO............................................................................................................................................................................. 54
Direito de Superfície................................................................................................................................................................ 56
DIREITO REAL DE HABITAÇÃO PERIÓDICA.................................................................................................................58
DIREITO REAL DE HABITAÇÃO DURADOURA.............................................................................................................60

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Conceitos e noções introdutórias. Os direitos reais no sistema das fontes.
Direitos reais: pertencem ao direito privado, são direito patrimonial, direito comum e direito civil

- direitos reais como direitos subjetivos integrados no direito civil e como categoria objetiva do direito civil  estes
regimes são marcados pelo direito civil: liberdade e igualdade

No âmbito dos direitos reais: 1306º CC: só obedecem ao regime dos direitos reais figuras que estão previstas numa fonte
– não podem ser criadas figuras de direitos reais que não estejam tipificadas; MAS, o interprete pode olhar para elas e
descobrir lá notas de realidade – isso é uma coisa, outra é criar figuras mistas, algo que não é possível  OU SEJA, há
liberdade dos direitos reais, mas com esta limitação

- o nosso direito pressupõe a categoria de direito subjetivo real:


1. Direito real de gozo:
a. Direito de propriedade
b. Usufruto, uso e habitação
c. Enfiteuse (entretanto abolida)
d. Direito de superfície
e. Servidão
f. Direito real de habitação periódica  DL 275/93 de 5 de agosto
g. Direito real de habitação duradoura – recentemente criado
- na perspetiva do REGENTE, a posse não é um direito real subjetivo, daí não estar dentro desta categoria (vamos estudar
a posse no âmbito da publicidade dos direitos reais; MAS, há quem entenda que sim
- estes direitos reais de gozo assentam num determinado regime
2. Direito real como categoria geral

Código Comercial: regula ainda figuras dotadas de realidade.

- regime das águas e baldios consta de legislação avulsa

Fora do Código Civil – tem também importância o Código de Registo Predial, a legislação referente ao registo de coisas
moveis registáveis, o Código de notariado e o regime da caça e da pesca.

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POSSE
Enquadramento da posse

A posse enquanto figura jurídico do âmbito dos Direitos Reais – controlo material de uma coisa corpórea

Distinção entre posse e detenção


Distinção entre posse e propriedade
 São realidades jurídicas muito distintas

Artigo 1251º CC – posse corresponde ao poder que se manifesta quando alguém atua por forma correspondente ao
exercício do direito de propriedade ou de outro direito real – pode ser um direito efetivo ou um direito real

“outro direito real” pode ser um direito simultaneamente existente ou um direito meramente suposto (ex: alguém que se
comporta como proprietário mas não é – ainda assim haverá posse, mas uma posse não causal uma vez que não há
correspondência entre a posse e o direito real, pois o direito real é meramente suposto)

A posse recai sobre uma coisa corpórea, nos termos de um direito real que é efetivo ou que é meramente suposto – mais à
frente na classificação entre posse causal e não causal

APROXIMAÇÃO INTUITIVA À POSSE - PAULA COSTA E SILVA:


- será que as pessoas podem demonstrar que são proprietários daquilo que trazem vestido ou dos objetos que possuem?
Não!
- perante esta impossibilidade dos tipos que ligam as pessoas àquilo que trazem vestido - Será que é legitimo que
alguém se aproprie dos meus sapatos, dos meus códigos, invocando a circunstância de todos nós estarmos numa
situação de impossibilidade de demonstração do nosso direito de propriedade?
Perante esta pergunta – também se pode facilmente intuir que a resposta que a maioria das pessoas
daria é a de que a apropriação dos objetos com base neste pretexto corresponde a um comportamento
que não é legítimo  ASSIM: descobre-se a primeira função da posse

– Segundo PEDRO DE ALBUQUERQUE: a função primordial – o simples facto de termos o controlo material de
determinados objetos, de termos a sua posse - isso permite, mesmo sem prova de um justo titulo, uma ordenação imediata
das coisas aos sujeitos
 ao vermos que um de nós utiliza um dado objeto/bem, abstemo-nos de intervir nesta utilização/controlo material que
sujeito exerce sobre a coisa; se quisermos usar esse objeto, o que fazemos é pedir a essa pessoa que nos empreste esse
bem sujeito ao seu controlo material

Funções da posse

-no ex.: tirar um código de uma pasta – o que é que isso parece demonstrar? Esse gesto determina a afirmação de que
pareceria que o código pertence a quem o tira da pasta  se a pessoa que faz isto e rasga ou escreve nele – este
comportamento adicional reforça a primeira ilação: no sentido de que todos estes gestos demonstram que o código
pertence à pessoa que sobre ele interfere

- ou seja, para além desta função primordial de ordenação das coisas aos sujeitos, a posse permite tirar uma ilação sobre a
sua ligação do controlo material com o direito de fundo
quando vimos alguém a tirar um código de uma pasta e a agir sobre ele nenhum de nós sabe com certeza se o código
pertence à pessoa MAS nenhum de nós tem forma de provar naquele preciso momento quem é efetivamente proprietário;
quando guardamos as faturas, por exemplo, não temos por exemplo esses títulos aquisitivos
no entanto, apesar desta impossibilidade de prova, o direito de fundo (no caso, o direito de propriedade) presume-se a
partir da posse  esta presunção de propriedade vai sendo reforçada pelos atos que se vêm a praticar sobre a coisa

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Se por exemplo, a pessoa depois de usar o código procede à devolução agradecendo essa presunção deixa de fazer
sentido, MAS se em vez disso nós vemos a pessoa a pôr na pasta e no dia seguinte voltar com ele, esta presunção é
reforçada – verificação importante e relevante!

Conceções objetivistas e subjetivistas

COM ISTO:
- A posse, em primeiro lugar, parece supor uma ligação material sobre a coisa e que a prática de atos materiais sobre essa
coisa permite em segundo lugar uma inferência quanto ao direito de fundo que se funda numa observação de
comportamentos sociais

Exemplo: ao invés de alguém tirar um código de uma pasta, alguém, aproveitando a distração de um dos alunos que traz
consigo esse código, subtrai esse código a esse aluno – será que o aluno ainda tem a posse do código? Do ponto de vista
jurídico a pessoa a quem o objeto é furtado ainda tem posse ou não? Continua a ser proprietário desse código?
SIM! – não obstante o furto, o aluno continua a ter a posse, continua a ser proprietário não obstante a ação de furtar
- aquele a quem o código é furtado continua a ser proprietário do código? SIM!

Furto: não põe termo à sua posse, nem à sua propriedade

Tendo em conta uma tradição que remonta a SAVIGNY: posse assenta em 2 elementos:
1. Corpus ou controlo de facto em si
2. Animus ou intenção de ser proprietário ou possuidor ou de ter a coisa para si

 a esta perceção contrapõe-se outra, marcada por JHERING: assenta apenas no corpus

Para SAVIGNY:
 Ponto de partida da compreensão da posse é a detenção – controlo material da coisa que acompanhada de uma
especial vontade (animus) daria lugar à posse

Para JHERING:
 Esse ponto de partida é constituído pela própria posse – posse pressupunha um controlo material, logo
voluntário da coisa, o qual se reduz a mera detenção, quando descaracterizado do direito

FIGURA BASE
SAVIGN Detenção  controlo material + animus = posse
Y
JHERING Posse, MAS quando descaracterizado em determinados termos, pelo direito seria mera detenção

Tanto a posse, como a detenção: assentam no controlo humano e logo voluntário sobre a coisa

Corpus: ligação entre a pessoa e a coisa sobre a qual a posse assenta


 autores dividem-se em relação ao grau de intensidade que reclama:
1. JHERINHG: diz que essa ligação deve moldar-se ao que é exigido pelo fim da utilização da coisa em termos
económicos
2. SAVIGNY: apenas exige a mera possibilidade prática desses atos
3. PEDRO DE ALBUQUERQUE: perante o nosso Direito é decisivo o disposto no 1257º1  este artigo foca o
problema da conservação da posse: esta conserva-se enquanto durar a atuação correspondente ao exercício do
direito ou a possibilidade de a continuar  com isto, o artigo vai no sentido da tese de SAVIGNY

DISTINÇÃO ENTRE MERA DETENÇÃO E POSSE:


 SAVIGNY: ponto de partida da posse é a detenção – para esta passar a posse, o autor exige uma intenção
adicional de possuir em nome próprio – nesse caso, haveria animus

 JHERING: começa por constatar que na vida real as pessoas entram em contacto com as coisas, podendo inferir-
se aí um significado jurídico – o contacto traduz-se numa simples relação de proximidade espacial da pessoa
com a coisa, não tendo tal um significado jurídico  isto só se altera, se a pessoa apresentar uma vontade – esta
permite que se verifique uma posse

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- faz uma contraposição entre a orientação subjetivista e a orientação objetivista:
o Orientação subjetivista - SAVIGNY: assentaria em 3 aspetos – o corpus (controlo material da coisa), o
animus (mínimo para existir uma detenção) e o acréscimo de vontade (animus possessório: para elevar
a detenção a posse)
o Orientação objetivista - JHERING: corpus + animus

Como é que este problema deve ser entendido no nosso direito?


- 2 elementos que compõem a base da posse: animus mínimo para que a situação tenha relevância jurídica + corpus
- não parece a PEDRO DE ALBUQUERQUE que se exija um acréscimo de vontade
- por isso, o nosso direito adota uma orientação objetivista: o ponto de partida é a posse e não a detenção

Perante o corpus – pode chegar-se a uma situação de detenção, quando esta situação não tenha uma relevância
possessória, de acordo com a lei

- De acordo com PEDRO DE ALBUQUERQUE: é a orientação objetivista que está consagrada no nosso direito

– MAS, não é esse o entendimento da maioria dos autores portugueses: estes defendem uma orientação subjetivista 
DIAS FERREIRA, GULHERME MOREIRA, CUNHA GONÇALVES, PIRES DE LIMA, OLIVEIRA ASCENSÃO
numa primeira fase, MOTA PINTO, ANTUNES VARELA, SANTOS JUSTO, PAULA COSTA E SILVA

A favor de uma orientação objetivista: OLIVEIRA ASCENSÃO numa segunda fase, MENEZES CORDEIRO, JOSÉ
TAVARES, CARVALHO FERNANDES, MENEZES LEITÃO, JOSÉ ALBERTO VIEIRA

OLIVEIRA ASCENSÃO mudou de opinião:


 Este professor sublinha a circunstância de o regime ser marcadamente objetivista, com exceção do artigo 1253º

 Mas, o problema do animus levanta em si mesmo, independentemente do regime consagrado, uma série de
dificuldades

– será que este animus reporta à intenção de ser proprietário ou antes à intenção de ser possuidor ou de ter a coisa para si?

- uma via possível de ultrapassagem dos problemas resultantes da teoria do animus – poderia consistir no recurso à ideia
de causa ou à teoria da causa: perante a impossibilidade de determinar o animus, poder-se-ia dar ao animus o conteúdo
do titulo de aquisição da posse ou da sua causa – a pessoa teria ou não animus tendo em conta o conteúdo do titulo
aquisitivo da posse/causa de aquisição da posse
 CONTUDO, tendo em conta esta forma: o animus já nada teria a ver com a vontade

Num passo sublinhado por MENEZES CORDEIRO : apesar da existência destas duas correntes (objetivista e
subjetivista), não se pode falar verdadeiramente num debate a este respeito – isto porque a teoria maioritária não tem
feito, salvo exceções, qualquer menção aos argumentos que a suportariam, recusando-se a resolver as suas exceções
 uma das poucas exceções é representada pelo ensinamento da professora PAULA COSTA E SILVA: se
olharmos para o regime que está consagrado no nosso direito, o que constatamos é a presença de soluções
possessórias que excluem qualquer animus: isso percebe-se, desde logo, pelo artigo 1266º: posse pode ser
adquirida por quem não tem o uso da razão;
outro tanto sucedendo com o funcionamento da usucapião: 1289º2

- ORA, na lógica de SAVIGNY e das orientações subjetivistas: a base possessória seria a detenção – controlo material
sobre a coisa: a detenção mediante o acréscimo do animus passaria a posse

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- segundo JHERING: a base seria a posse
- CC: define a posse sem qualquer referência ao animus – 1251º; e depois, por defeito, indica situações de controlo
material que não correspondem a posse: que são situações de mera detenção – no artigo 1253º  podemos dizer que a
sistemática e o estilo são marcadamente objetivistas

Argumentos a favor de uma orientação subjetivista:

1. Opinião dos autores das revisões ministeriais do CC

2. Artigo 1253º, nomeadamente a alínea a)

 Opinião dos autores das revisões ministeriais do CC


- PEDRO DE ALBUQUERQUE: considera que os trabalhos preparatórios são inconclusivos e não permitem fundar as
orientações subjetivistas;

além disto: um argumento retirado destes trabalhos preparatórios, mesmo quando fossem conclusivos – é fraco: a opinião
histórica dos autores materiais não colhe se não tiver ficado consagrado no regime jurídico  o professor julga que não
ficou consagrado;
 Artigo 1253º
o argumento relativo ao 1253º, relativo ao regime da posse já é mais sério.

O que nos diz a alínea a)? São havidos como detentores ou possuidores precários os que exercem o poder de facto sem
intenção de agir como beneficiários do direito  parece de facto que há um apelo à intenção ou à vontade de quem
exerce o controlo material da coisa, de modo a que se verifique a posse

– NÃO OBSTANTE, MENEZES CORDEIRO acaba por, partindo das duas alíneas seguintes do mesmo artigo 1253º,
encontrar uma explicação para o artigo 1253º a) em moldes que nada tem a ver com as orientações subjetivistas

- recentemente: MENEZES CORDEIRO defendeu que o sistema português da posse é um sistema misto – contraposição
das alíneas b) e c) do 1253º com a alínea a) do mesmo artigo levaria fatalmente a esse resultado

- CC: o que consta nele é a presença de soluções possessórias que dispensam qualquer animus – e, por isso, não adota
uma orientação subjetivista – na lógica desta: a base possessória seria a detenção e esta mediante um acréscimo de
vontade passaria a posse

CC: por um lado, define a posse sem referência ao animus (1251º), mas, por defeito, indica situações de detenção –
1253º: situações em que há controlo material da coisa, MAS em que não existe posse
- constatamos um estilo e sistemática objetivista

Porque é que será que interessa saber se temos posse ou detenção?


- saber se o controlo material corresponde a uma situação de posse ou detenção interessa porque a tutela possessória é
dispensada a quem for possuidor, não é dispensada a quem for detentor: temos de saber quais são as situações que dão
lugar à tutela possessória e aquelas em que essa tutela não se verifica
Análise do artigo 1253º:

Através das alíneas b) e c) o autor tenta extrair o significado da alínea a):

b) – o artigo 1253º refere como detentor, alguém que tem o controlo material da coisa, MAS não beneficia do regime da
posse – o beneficiário de mera tolerância – de acordo com o artigo 1253º é detentor o beneficiário da mesma tolerância
 aproveitando as formas reveladas pelo professor HENRIQUE MESQUITA e MENEZES CORDEIRO os nossos
tribunais vieram cingir a mera tolerância ao exercício autorizado pelo proprietário – como casos de mera tolerância tem
sido dada autorização expressa u tácita não temos uma hipótese de posse, havendo autorização, ao abrigo da qual se
estabelece o controlo material sobre determinada coisa, o que temos é uma mera hipótese de detenção

c) são havidos como detentores, os representantes ou mandatários do possuidor e de um modo geral todos aqueles que
possuem em nome de outrem – a situação de os representantes ou mandatários do possuidor corresponde à detenção
propriamente dita – abrangidos os possuidores da coisa em termos de direitos reais menores, mas que estão desprovidos
de posse em termos de propriedade, estes sujeitos estão desprovidos de posse em termos de propriedade, são apenas
possuidores em termos destes direitos menores – sobreposição de posses reportada a um direito real menor;

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- abrange ainda as situações de representação formal e outras situações mesmo sem representação formal (como acontece
com a gestão de negócios e a situação dos auxiliares que estão dotados de contemplatio domini)
- esta menção ao mandatário do possuidor parece resultar de lapso das revisões ministeriais, tendo em conta MENEZES
CORDEIRO – porque houve uma dissociação entre mandato e representação: mandato deixou de ser necessariamente
representativo – havendo mandato sem representação, o mandatário adquire os direitos e obrigações dos atos que celebra
e, por isso, adquire a posse  por isto, parece que a expressão mandatário do possuidor parece ter sido usada fora do
respetivo alcance técnico, de modo a traduzir apenas o mandato com representação e outras situações de atuação com
contemplatio domini

Quanto ao artigo 1253º a) – quais as situações que ao abrigo deste preceito se consideram como mera detenção e não são
havidas como possessórias

Num sentido literal – parece que são detentores as pessoas que exercem o poder de facto em termos altruísticos, sem
intenção de agir como beneficiário do direito
– MAS, não pode ser esse o entendimento que se deve retirar desta alínea – porque basta pensar nas situações
de interposição real para perceber que essa interpretação não pode colher
 ex.: situação em que alguém que, por estar a atuar ao abrigo da interposição real de pessoas, pode ser
titular de um direito e agir sem intenção de ser seu beneficiário: percebe-se que o facto de alguém exercer um
poder sem intenção de agir como beneficiário do direito não é incompatível com o animus de ser proprietário, de
ser possuidor ou de ter a coisa para si – possuidor pode sê-lo sem ter intenção de beneficiar do direito

- uma via possível de resolver o sentido desta alínea – seria a do recurso à categoria dos atos facultativos: MENEZES
CORDEIRO encara essa possibilidade, MAS por considerar não ter o preceito qualquer ligação com estes atos, acaba por
rejeitar este caminho (e bem, segundo PEDRO DE ALBUQUERQUE)

- um caminho possível e explorado pela doutrina nacional como forma de encontrar uma resposta que nos diga qual o
sentido desta alínea passaria por defender que este preceito contempla casos em que o próprio agente declara não querer
ser possuidor – é esta a proposta do professor OLIVEIRA ASCENSÃO: este professor diz-nos que o artigo 1253º a) viria
dizer que, se por hipótese estivéssemos confrontados com a situação em que alguém tem o controlo material sobre uma
coisa, MAS em que declara que não quer ser possuidor (relevância negativa da posse) – segundo OLIVEIRA
ASCENSÃO por força desta alínea, não podemos aplicar o regime da posse a esta situação e teríamos de considerar
estarmos diante uma hipótese de mera detenção  teríamos um caso em que poderíamos ter uma intenção declarada de
não ser possuidor compatível com uma orientação objetivista

- PEDRO DE ALBUQUERQUE considera que este entendimento de OLIVEIRA ASCENSÃO não pode ser aceite – por
2 razões:
 devido à irrelevância do protesto contrário – a atuação voluntária de um agente não é descaracterizada pelo facto
de o agente fazer simples declarações contrárias
(ex.: se alguém entra num autocarro mas diz que não quer entrar ou não quer passear – é óbvio que o seu
comportamento não é descaracterizado pelo facto de o agente dizer que não quer ser transportado; quem entra
num hotel, mas diz que não quer ficar hospedado – este comportamento tem efeitos jurídicos que não são
descaracterizados pela sua declaração);

 posse não dá apenas lugar a direitos – também provoca a aquisição de deveres: pense-se no caso do possuidor de
má fé que responde pelo perecimento ou destruição da coisa; o possuidor de má fé deve restituir os frutos que
foram adquiridos com a posse – 1271º  não seria aceitável que alguém pudesse escapar a estes deveres pela
simples circunstância de o agente dizer que não quer ser possuidor; pelo seu comportamento tem-se como
possuidor resultando daí direito e obrigações

- uma outra via seria a de considerar que este artigo daria corpo à TEORIA DA CAUSA: já se viu que esta teoria não é
viável para confortar ou apoiar teorias subjetivistas, MAS não é incompatível com uma posição de natureza objetivista:
poderíamos considerar que esta alínea contemplaria situações em que o poder de facto foi adquirido em termos tais que a
própria lei afaste a posse desde que a situação não fique abrangida pelo âmbito das alíneas b) ou c): ou seja, poderíamos
considerar que o artigo 1253º viria degradar situações de controlo material sobre uma coisa a meras situações de
detenção, casos em que a própria lei considerava que esse poder de facto ou essa situação de controlo material sobre a
coisa não reúne as características para poder ser considerada uma situação possessória

 o que esta alínea diria seria o seguinte: são situações de mera detenção e não situações de posse os casos em
que, por alguma razão, uma norma vem dizer que determinado controlo material não dá origem à posse, sendo

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essa norma uma norma diferente das alíneas b) ou c): o que teríamos seria uma conceção da posse em termos
puramente objetivos
posse seria um controlo material sobre a coisa, sem necessidade de animus, EXCETO nos casos em
que houvesse uma norma que nos dissesse que essa situação possessória, sendo uma mera detenção
Aconteceria nos casos do 1253º b), c) e a) – este último remeteria para outras normas, segundo as quais
uma situação de poder de facto sobre uma coisa não poderia corresponder à posse  no fundo o sentido desta
alínea seria dizer que não há posse quando existe uma norma que a isso obste: agiriam sem intenção os que
tivessem o poder de facto sobre uma coisa que por força de uma norma não poderia ser considerado uma
situação de posse  esta posição é defendida por MENEZES CORDEIRO – o professor convoca a teoria da
causa, numa perspetiva objetivista da posse

Esta tese que segundo PEDRO DE ALBUQUERQUE parece bastante harmoniosa, foi objeto de impugnação por parte de
JOSÉ ALBERTO VIEIRA: procura demonstrar a improcedência dos argumentos suscitados por MENEZES CORDEIRO
e regressar a uma conceção objetivista da posse, nos moldes apresentados por OLIVEIRA ASCENSÃO no que diz
respeito ao entendimento do artigo 1253º a):
JOSÉ ALBERTO VIEIRA, numa 1ª fase do seu pensamento, pretende advogar uma conceção objetivista, mas nos
moldes apresentados por OLIVEIRA ASCENSÃO, com rejeição da proposta do professor MENEZES CORDEIRO no
que toca a esta alínea – daria antes relevância à vontade, não confere posse, MAS pode retirá-la  se o agente declarar
que não pretende ser possuidor, não existiria posse (na primeira fase do pensamento do professor JOSÉ ALBERTO
VIEIRA, defendendo que a conceção objetivista da posse era compatível com uma relevância da vontade no sentido
único que podia ter numa posse entendida num sentido objetivista, que seria no sentido negativo – a vontade em vez de
conferir retira a posse em situações que normalmente seriam consideradas como tal – valor negativo da vontade)

 havendo controlo material sobre a coisa em principio teríamos posse; quanto muito, a vontade terá um valor negativo
no sentido em que não confere posse, mas retira a aplicação do regime da posse em situações que normalmente seriam de
posse;
Hoje em dia, JOSÉ ALBERTO VIEIRA já se afastou deste entendimento – defende, agora, uma posição muito próxima
à de PEDRO DE ALBUQUERQUE

- PEDRO DE ALBUQUERQUE considera que as razões apresentadas por JOSÉ ALBERTO VIEIRA, numa 1ª fase do
seu pensamento, contra a tese de MENEZES CORDEIRO e a favor da tese do professor OLIVEIRA ASCENSÃO não
convencem: devido à difícil conciliação entre a tese de JOSÉ ALBERTO VIEIRA com a figura do CONSTITUTO
POSSESSÓRIO (1264º) – quanto a esta figura, JOSÉ ALBERTO VIEIRA considera que são 3 os requisitos:
 Existência de um negócio jurídico de transmissão de um direito real de gozo;
 o facto de o transmitente ser possuidor;
 existência de uma causa para a detenção  esta causa seria antes de mais um contrato
– ex.: o comprador celebra ao mesmo tempo que realiza o contrato de compra e venda um outro contrato com o vendedor
nos termos do qual surge um direito que requer um controlo material sobre a coisa – doutrina geral diz, E BEM, que o
comprador adquire a posse anterior do transmitente vendedor, mesmo se em incumprimento do contrato celebrado, o
vendedor permanece com a coisa em seu poder;
Outra situação em que existisse uma causa – em vez de existirem dois negócios diferentes
– ex.: compra e venda com reserva de usufruto – António vende a Bento um computador mas reserva para si o usufruto:
aqui, existe uma situação em que existe um contrato de compra e venda com uma convenção de usufruto – a existência
de um contrato com uma cláusula de reserva de usufruto justifica a transmissão da posse por via do constituto
possessório

Todavia, JOSÉ ALBERTO VIEIRA e a maioria da doutrina diz que não ocorrendo esta causa jurídica justificativa, a não
entrega da coisa não determinaria a existência de constituto possessório por efeito meramente jurídico como
consequência da vontade das partes – não podendo o vendedor reter a coisa, se o fizesse de forma ilícita ele seria
possuidor e não o comprador

– JOSÉ ALBERTO VIEIRA diz que, não havendo vontade expressa ou tácita no sentido de o vendedor poder reter a
coisa, se o fizer indevidamente, quem é o possuidor é o vendedor – ou seja, não há transmissão da posse para o
comprador: ORA, ao dizer isto, JOSÉ ALBERTO VIEIRA acaba por se contradizer: pois, numa 1ª fase, diz que a posse
deve ser entendida de acordo com as conceções objetivistas, no sentido em que a vontade não tem relevância para a
constituição da posse – ou seja, havendo um controlo material sobre a coisa o que temos é uma situação possessória; mas,
a seguir diz que existe um caso em que temos de indagar a vontade
 se a pessoa declara que não quer ser possuidor, então a situação de posse passaria a uma situação de mera detenção –
vontade teria um valor negativo

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 só que quando tenta explicar a figura do constituto possessório, JOSÉ ALBERTO VIEIRA exige como requisito de
transmissão da posse uma vontade das partes a permitirem que o alienante que é possuidor possa conservar a coisa em
seu poder: porque não havendo essa vontade, não existiria constituto possessório – OU SEJA: pelo menos na situação de
constituto possessório, JOSÉ ALBERTO VIEIRA exige a vontade como elemento constitutivo da posse  isto numa 1ª
fase do seu pensamento
- POR TUDO ISTO: PEDRO DE ALBUQUERQUE não considera que a crítica que JOSÉ ALBERTO VIEIRA faz ao
pensamento de MENEZES CORDEIRO seja pertinente
Parece-lhe que o 1253º a) se reporta a situações em que há uma degradação por força de uma dada norma do
controlo de facto em situações de detenção – casos em que isso acontece são aqueles que MENEZES CORDEIRO
identifica como tais, MAS também deve juntar-se a isso também a situação do constituto possessório – também esta será
uma situação abrangida pelo 1253º a)

– MAS, para isso temos de reformular o entendimento sobre o que é o constituto possessório – segundo PEDRO DE
ALBUQUERQUE, a posse transmite-se com a celebração do negócio jurídico: com o mero consenso reportado à
transmissão do direito real, independentemente de qualquer vontade para a transferência da posse – em todos os casos em
que alguém celebra um contrato transmissivo ou modificativo de um direito real, a posse transmite-se automaticamente
por mero efeito do contrato, independentemente da tradição da coisa – nestes casos, a posse transfere-se por mera via
jurídica – causa jurídica de transmissão da posse de um sujeito para outro

 esta ideia tem tido alguma afirmação na nossa jurisprudência e tem tido também expressão em alguma doutrina – não
obstante isto, será que, defendendo uma perceção objetivista da posse, sendo o alienante do direito real também
possuidor podemos dizer que havendo celebração do NEGÓCIO JURÍDICO se transmite a posse, sem ter existido a
tradição da coisa ou poder de facto sobre a coisa?

A estrutura básica do constituto possessório seria a existência de 2 negócios jurídicos (ou apenas 1 negócio jurídico com
uma cláusula específica) – sendo 2 negócios jurídicos, teríamos de ter um negócio destinado a transferir um direito real e
um outro negócio permitindo ao alienante continuar a deter o controlo material sobre a coisa
 ou seja, não bastaria o primeiro negócio – nos casos em que faltava o segundo negócio, não funcionaria o
mecanismo do constituto possessório, pelo que este não representaria o que o artigo 408º representa para a transmissão da
titularidade do direito real

MAS, PEDRO DE ALBUQUERQUE diria que, na medida da defesa de uma construção objetivista da posse, nada
impediria a possibilidade do constituto possessório funcionar sem qualquer convenção nesse sentido – nada impediria a
imediata transmissão da posse com base no simples contrato
– todavia: o professor tem rejeitado as compreensões subjetivistas da posse – por isso a questão está em saber se à luz de
uma conceção objetivista da posse se pode considerar estar o artigo 1264º para a posse como o 408º está para os direitos
reais?
Na perspetiva do professor: SIM!

– ex.: A vende um computador a B, com a convenção de A continuar a ser detentor da coisa – neste caso, de acordo com
a estrutura básica do constituto possessório, tínhamos que A passa de possuidor a detentor e B passa a possuidor em
termos de propriedade – tendo havido alienação nestes termos, A perde a posse – por isso, se no dia a seguir à venda, C
se apropriar do computador isto significa que havendo constituto possessório B pode recorrer às ações possessórias para
defesa da sua posição jurídica; MAS, se A vende o bem a B, ficando A obrigado a entregar a coisa, B já não seria
possuidor – seria necessário um ato de entrega da coisa – neste cenário: se não existisse esta cláusula adicional do
contrato, se C se apropriasse do bem, B não poderia recorrer às ações possessórias, apenas teria direito a recorrer à ação
de restituição

COM ISTO, PEDRO DE ALBUQUERQUE: deve entender-se que o sentido do 1264º1 e 2 não pode deixar de ser o de
que a transmissão da posse opera também com o contrato de transmissão

MENEZES CORDEIRO advoga para este preceito a teoria da causa, MAS


segundo PEDRO DE ALBUQUERQUE: considera que a teoria da causa realmente serve para enquadrar a alínea a):
ficam situações correspondentes:
 ao exercício do poder de facto sobre bens do domínio público, como se infere dos artigos 1267º1 b), 202º2
 e a situação do artigo 2096º2: situações que correspondem a casos de detenção e não a casos de posse
 MAS, a estas deve também somar-se a situação do constituto possessório, abrangido também nos termos do
artigo 1253º a) entendidos nos moldes do professor PEDRO DE ALBUQUERQUE

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 significa que, nos casos em que a regra do constituto possessório tem aplicação o alienante passa de possuidor a mero
detentor mesmo que conserve a coisa – o novo possuidor é quem adquire o direito real
- por isto, podemos concluir que há posse sempre que um sujeito exerce uma atuação correspondente a um
direito que englobe poderes de facto sobre uma coisa e a lei não exclua essa consequência – OU SEJA: posse é uma
situação objetivista e não subjetivista

Uma análise da jurisprudência nesta matéria: permite concluir que não há uma verdadeira dogmática do animus
possessório – ele é inferido de elementos objetivos, ainda que com significativas flutuações de linguagem

Não obstante a circunstância de a jurisprudência se afirmar nos planos dos princípios como maioritariamente favorável a
conceções subjetivistas. Não há nessa jurisprudência nenhuma dogmática do animus possessório, sendo extraído de
elementos objetivos

Posse em termos de direito real menor não tem levantado dúvidas na nossa jurisprudência; MAS, a posse em termos de
direito real de garantia já tem levantado problemas – isto não obstante o 670º a) CC

Tutela possessória em relação a direitos pessoais de gozo:


 1037º2: locação
 1125º: parceira pecuária
 1133º: comodato
 1188º2: contrato de depósito

Os titulares podem usar dos meios de defesa da posse contra o concedente – meios facultados pelo artigo 1276º e ss. CC

MAS, jurisprudência não tem admitido a possibilidade de existir tutela possessória no caso de direitos atípicos ou
situações híbridas
- OLIVEIRA ASCENSÃO + CARVALHO FERNANDES - distinguem:
 a posse como categoria jurídica (poder-se-ia dizer ampla – abrange todas as situações em que é conferida tutela
possessória)
 e a posse como regime (posse só se aplicaria aos direitos reais de gozo)
- MENEZES CORDEIRO: na esteira da tradição romana, distingue:
 a posse civil (abrange a generalidade dos efeitos possessórios, incluindo a usucapião) – esta é boa para
usucapião: que permite ao seu possuidor, mesmo não sendo proprietário adquirir esse direito, invocando a
circunstância de ser possuidor por esse determinado nº de anos

 e a posse interdital (posse limitada à defesa)- o direito dispensa ou associa direitos correspondentes aos meios
de defesa da posse, MAS não é boa para a usucapião
Esta distinção parece ser a melhor para PEDRO DE ALBUQUERQUE  a posse interdital não é boa para usucapião

CLASSIFICAÇÕES DE POSSE:
Além desta: há outras classificações de posse:

Casos:
1. A possuidor e proprietário de um computador vê-se esbulhado da sua posse por B que, depois de dizer que revelaria
certas coisas íntimas de A, lhe exige a entrega do computador – de quem é a posse?

2. B introduz-se dentro da casa de A depois de arrombar a porta a murro e na sequência dessa intromissão, B leva o
computador – qual o direito aplicável?

3. B vende depois o computador a C que ignora a circunstância de esse computador ter sido esbulhado – será que C tem
posse? Se sim, de que tipo?
Tendo em conta o caso:
1.
- Havendo esbulho, a posse do esbulhado mantém-se durante um ano por via exclusivamente jurídica, MAS o
esbulhador tem também posse
- temos um concurso de posses:

10
 posse de A é causal ou material, não efetiva, titulada, de boa fé, pacífica, pública e civil – boa para usucapião
(importante no caso de A ter dificuldade em provar a titularidade do direito de fundo; sendo possuidor e
podendo provar a posse, pode invocar a usucapião, para fazer valer a titularidade do seu direito de fundo)
 posse de B é formal, efetiva, não titulada, de má fé, violenta, interdital e pública
2.
- enquadramento das várias situações possessórias + qualificação:
- podemos dizer que a posse de B é uma posse formal, efetiva, de má fé e não titulada – podemos discutir se essa posse é
pacífica ou violenta: daqui dependerá a classificação como civil ou interdital

- temos de ver se esta posse é pública ou oculta? Alguém se introduz numa casa alheia e se apropria de objetos que lá
estão
 Vamos por a hipótese de A se apoderou furtivamente em 1980 de um conjunto de objetos que eram de B e que
desde essa data guardou-os numa gruta situada numa ilha deserta; na semana passada, A foi a essa ilha buscar os
objetos trazendo-os para Lisboa, passando a exibi-los de forma totalmente pública e nessa altura B apercebendo-
se onde se encontravam os seus bens, exige imediatamente (no momento em que os bens são exibidos
publicamente) a A que proceda à respetiva entrega – A para não proceder a essa entrega alega a usucapião – o
facto de ser possuidor desde 1980 ter tido posse nos últimos 40 anos

 Quando B se apodera e os mantém numa gruta - temos um poder de facto que não pode ser considerada
como posse, na medida em que é totalmente oculta; entretanto vai buscar os bens escondidos – passa a haver
publicidade, MAS esta publicidade se for ignorada pelo antigo possuidor dá origem a uma posse oculta;
No caso: o antigo possuidor conhece imediatamente – por isso, passa a posse pública (já há conhecimento
efetivo) MAS ainda assim, o antigo possuidor tem posse – esta não cessou devido ao 1267º2 (só se começa a
contar depois do conhecimento) e não correram os prazos de usucapião – esbulhador não pode invocar a
usucapião, nem se pode opor ao anterior possuidor – anterior possuidor pode recorrer às ações possessórias e
eventualmente à ação de reivindicação se tiver titularidade do direito de fundo
 Vamos por a hipótese que A que esbulhou os bens, fosse ele próprio esbulhado por 3º  continuava a esconder
os bens, mas, entretanto era ele próprio objeto de esbulho por parte de C – o que pode A fazer?
o MENEZES CORDEIRO considera que haveria possibilidade de recurso às ações possessórias;
o PEDRO DE ALBUQUERQUE: considera que nem isso será possível

3.
- Carlos tem uma posse efetiva, formal, titulada, boa fé, pública e civil

O artigo 1258º: indica 4 classificações- espécies de posse, mas existem mais classificações :

1.
pos
posse titulada e posse de boa ou posse pacífica ou posse pública e
não titulada de má fé violenta oculta

a posse causal ou
posse efetiva e
material e posse
posse não efetiva
formal
se titulada e não titulada
- segundo o 1259º1: posse titulada é aquela que se funda em qualquer modo legítimo de adquirir independentemente quer
do direito do transmitente quer da validade substancial do NEGÓCIO JURÍDICO
- posse não titulada: aquela que não se funda em nenhum modo legítimo de adquirir

Título aqui equivale a um ato jurídico aquisitivo, que tem de ser abstratamente idóneo à aquisição, mas que em concreto,
pode ser inválido – desde que esta invalidade não seja uma invalidade formal – aquele que adquiriu por um meio
abstratamente idóneo para o efeito, mesmo que haja uma invalidade que não seja formal tem uma posse titulada
- não se admite o título putativo: este tem de ser provado por quem invocar – 1259º2

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2. posse de boa ou de má fé
- posse de boa fé: segundo o 1260º/1 – a que surge se o possuidor ignorava, ao adquiri-la, que lesava o direito de outrem
– parece que somos colocados perante uma noção psicológica de boa fé: isto ao arrepio do entendimento de que
não se deve ter em conta aqui uma noção psicológica de boa fé, MAS uma noção ética

 MAS, PEDRO DE ALBUQUERQUE: posse de boa fé não é compatível com um desconhecimento culposo e, por
isso, devemos considerar que aquele que ignora ao adquirir que lesava o direito de outrem, mas apenas ignora porque
desconhecia com culpa – temos de considerar que o possuidor não é de boa fé – boa fé deve ser em sentido ético e não
meramente psicológico – entendimento maioritário da doutrina
- importante é ainda a presunção de boa fé estabelecida a favor do possuidor titulado; presume-se de má fé a posse não
titulada – 1260º2

3. posse pacífica ou violenta


- 1261º2: posse violenta quando o possuidor faz uso da coação física ou da coação moral, nos termos do artigo 255º -
ameaça com o propósito de obter declaração, ≠ do exercício normal do direito

MENEZES CORDEIRO: violência requerida deve ser contra pessoas e não contra coisas:
 não é esbulho violento o uso de chave contrafeita para furtar um automóvel;
 também não é o esbulho de um imóvel com o arrombamento da porta, desde que não estivesse ninguém em casa

 entendimento que tem sido sustentado para efeitos de restituição provisória da posse, frequentemente sem audiência
prévia do esbulhador;
MAS, quando se aprecia a violência para efeitos de usucapião, MENEZES CORDEIRO propõe um entendimento
diverso: a posse obtida com violência moral não se afigura boa para usucapião – e esta violência já engloba as situações
em que é exercida contra coisas

- OLIVEIRA ASCENSÃO refere a admissibilidade de coação física sobre coisas: coação física relevante em sede de
posse não ter a ver com a coação física prevista no artigo 246º CC - quando o 1261º2 recorre a esta noção está apenas a
mencionar a violência além da coação moral

4. posse pública e oculta


- 1262º: posse pública é a que se exerce de modo a poder ser conhecida pelos interessados
- posse oculta: seria aquela em que esse conhecimento não seria possível, seria exercida de modo a não puder ser
conhecida pelos interessados – 1267º2 + 1297º
- PEDRO DE ALBUQUERQUE: diz que a questão não é assim tão simples – de facto, a posse pública é a mencionada
no artigo 1262º, mas sempre se tem entendido que a posse para o ser tem de ser necessariamente acompanhada de
publicidade – 1251º: legislador define a posse como um poder que se manifesta, o que traduz logo um traço de
publicidade;
Além disso, nos termos do 1263º a): apossamento implica uma prática reiterada e com publicidade de atos materiais

O nosso direito parece apontar no sentido da necessidade de publicidade, MAS 1267º e 1297º possibilidade de uma posse
oculta

- para resolver esta contradição: MENEZES CORDEIRO considera que a posse pública é definida como tal não por
referência ao momento da sua aquisição, MAS de acordo com o modo como é exercida – posse pode passar de pública a
oculta e vice-versa;
Posse tem de ser cognoscível pelos interessados, MAS pode subsistir ocultamente – MAS, enquanto permanecer nesta
situação de clandestinidade não é boa para usucapião, sendo uma posse interdital – neste sentido, parece apontar o artigo
1297º: se a posse tiver sido tomada ocultamente, os prazos de usucapião só se começam a contar a partir do momento em
que a posse se torna pública

– MAS, PEDRO DE ALBUQUERQUE considera que se tem de ir mais longe – isto porque uma posse totalmente oculta
desde o momento do inicio do controlo material da coisa não é uma verdadeira posse em sentido técnico-jurídico –
referência à posse oculta só se pode atender se se tiver em conta o disposto no artigo 1267º/2  refere-se aos casos de
perda de posse e o nº2 tem uma referência à perda de posse quando a nova posse foi tomada publicamente ou
ocultamente: nova posse conta-se desde:
 o seu início se foi tomada publicamente
 ou desde que foi conhecida do esbulhado se foi tomada ocultamente

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 este nº2 reporta-se à situação prevista na alínea d) do nº1 1267º - quando surge uma nova posse de outrem: situações
de esbulho – situação de concurso de posses: posse do antigo possuidor mantém-se durante um ano e concorre com a
posse do novo possuidor – depois de um ano, subsiste apenas a posse do esbulhador

Qual o momento em que se começa a contar a nova posse?

- relativamente à posse tomada publicamente: se ela se mantiver pública por mais de 1 ano, isso significa que o
antigo possuidor perde a posse, quer tenha ou não conhecimento da nova posse – o que resulta da conjugação
dos artigos 1267º1 d) e nº2

- relativamente à posse oculta: só origina a perda da anterior posse se for do conhecimento do esbulhado (1267º)
 haverá aqui a possibilidade de uma posse completamente oculta? NÃO: o que o artigo nos diz é que a posse
tomada ocultamente não é oponível ao esbulhado

– de acordo com PEDRO DE ALBUQUERQUE: se a posse for adquirida ocultamente e se mantiver sempre
oculta não há posse – porque a posse pressupõe a sua manifestação e publicidade – pressupõe a suscetibilidade
de ser conhecida pelo exterior

- a posse oculta presente no 1267º2 é aquela que foi tomada ocultamente, mas que entretanto se transformou em
pública – não obstante essa publicidade, se isso suceder, o mecanismo conjugado do artigo 1267º/1 d) e 1267º/2
– apesar da nova posse, o antigo possuidor não perde a posse enquanto nova posse não for dele conhecida  a
que situações é que se refere o artigo 1267º quando se refere à posse oculta? Situações em que a posse é tomada
ocultamente, MAS que, entretanto, se transformou em publica, desconhecendo, o antigo possuidor, não obstante
a publicidade, a nova posse – nessa circunstância aquilo que resulta da conjugação dos artigos 1267º/1 d) e
1267º/2 é de que apesar da nova posse, o antigo possuidor não perde a posse enquanto a nova situação não é
dele conhecida – a posse tomada ocultamente, que, entretanto, se tornou pública, MAS que permanece
desconhecida dos esbulhado – posse oponível a terceiros, MAS não ao antigo possuidor

Neste caso, pode equiparar-se o conhecimento ao dever de conhecimento?

A nova posse tomada ocultamente mas que entretanto se tornou pública não é oponível ao esbulhado enquanto
ele não tiver conhecimento da situação – o prazo de 1 ano não se começa a contar até que ele tenha
conhecimento da situação, porém tem-se entendido, e bem, que nos casos em que uma norma se reporta ao
conhecimento de uma determinada pessoa, se deve equipara o conhecimento efetivo ao dever de conhecimento e
portanto, a pergunta tem também cabimento neste lugar – Será que o conhecimento referido no artigo 1267º/2 é
conhecimento efetivo (considera-se que há conhecimento por parte do esbulhado quando ele efetivamente
conhece) ou considera-se que há conhecimento também naquelas hipóteses em que o esbulhado não conhece a
nova posse, ignora-a, MAS podia e devia ter tido conhecimento se fosse diligente?
PEDRO DE ALBUQUERQUE defende que a exigência de boa fé e conhecimento deve ser entendida em
sentido ético e não meramente psicológico – ou seja, o dever de conhecimento equivale em regra ao
conhecimento, tanto se deve entender que conhece quem efetivamente conhece como quem devia conhecer

– MAS, esta situação do artigo 1267º é uma das poucas em que é de exigir uma ciência ao CONHECIMENTO
EFETIVO – ou seja, aqui o dever de conhecimento não deve equivaler ao conhecimento (VITOR FIDALGO
não concorda com isto) é necessário que o esbulhado tenha conhecimento efetivo da nova posse
– Porquê? Porque o 1267º1 d) e 2 referem-se a situações de esbulho, em que alguém esbulhou o
anterior possuidor: não parece de exigir um dever de cuidado de conhecimento do esbulho – esbulho pressupõe
uma posse anterior que é interrompida e de algum modo violentada: se este esbulho é tomado publicamente, o
esbulhado continua a ter a posse durante um ano; MAS, se a posse é tomada ocultamente, a tutela do esbulhado
reforça-se e alagar-se: só se começa a contar o prazo da perda da posse a partir do conhecimento efetivo do
antigo possuidor – e não a partir da possibilidade e do dever de conhecimento dessa situação

- Em bom rigor, devemos distinguir aqui 3 situações:


 posse pública, mas que, entretanto, se torna oculta – neste caso: a partir do momento em que cessa a
publicidade, não estamos perante uma posse civil – esta interrompe-se com a ocultação do poder de facto
 posse oculta (controlo material tomado ocultamente) que se mantém oculta – de acordo com PEDRO DE
ALBUQUERQUE, não temos uma posse nem civil, nem interdital: poderemos chamar-lhe posse oculta em
sentido amplo, MAS em bom rigor, não temos uma verdadeira posse – não temos uma posse, nem civil, nem
interdital

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 posse oculta, que se torna pública – é a esta posse que o Direito se refere quando trata de posse oculta –
conservará esta característica perante o anterior possuidor até que ele tenha conhecimento efetivo da nova
situação - de acordo com PEDRO DE ALBUQUERQUE: não trata uma posse completamente oculta  já é
posse, mas cede perante o antigo possuidor – é também a esta posse que se refere o artigo 1297º CC, não está
comtemplada neste ultimo preceito qualquer situação de ocultação total aquilo que está em causa, seja no artigo
1267º seja no artigo 1297º é a posse que é tomada ocultamente, MAS que por se ter tornado pública, já é posse.
Porém, apesar da publicidade continua a ser ignorada pelo antigo possuidor – desencadeia a possibilidade de
recurso aos meios de defesa da posse perante terceiros, MAS não contra o antigo possuidor; não é boa para
usucapião – 1297º - é meramente interdital
o 2 características:
 cede perante a posse do antigo possuidor – 1267º/2 – enquanto o mesmo não tiver efetivo
conhecimento
 por força do artigo 1297º, não é boa para usucapião

ASSIM, podemos perguntar se no caso da posse oculta o sujeito que detém o controlo material sobre a coisa fica ou não
privado de qualquer tutela?

- MENEZES CORDEIRO considera impensável que neste caso todos pudessem disputar a coisa objeto da posse,
a pretexto de não haver tutela e defende dever caber ao possuidor oculto o que é permitido numa posse
interdital: teria direito a recorrer às ações possessórias; MAS, não poderia socorrer-se dos efeitos associados à
posse civil, por ser meramente interdital
- Contrariamente: PEDRO DE ALBUQUERQUE: tratando-se de uma situação que não é objeto de qualquer tipo
de publicidade, não se vê como dispensar sequer os meios de defesa da posse associados à posse interdital:
sujeito será tutelado na medida em que conseguir provar a titularidade do direito de fundo – nesta situação não
se vê como uma situação, não cognoscível para ninguém pode facultar sequer os meios de defesa da posse
associados à posse interdital

5. MAS, existe ainda uma outra distinção doutrinal fundamental que não se verifica neste artigo: a distinção entre a
posse causal ou material e posse formal:

 posse causal ou material: o possuidor é em simultâneo titular do direito em cujos termos se processe o exercício
possessório – além de possuidor, é proprietário
 posse formal: possuidor não tem ou pelo menos não invoca a titularidade do direito de fundo

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- podemos dizer que a posse causal não é uma mera consequência da titularidade do direito; MAS, exige sempre o
controlo ou a possibilidade do respetivo direito
TITULARIDADE DO DIREITO DE FUNDO + POSSE – sendo a posse causal ou material
- para podermos dizer que a posse é causal, não pode bastar a titularidade do direito  temos de ter a reunião de 2
aspetos:
i. por um lado, a titularidade do direito de fundo
ii. a existência de controlo material sobre a coisa, ou seja, a existência de posse

(+ 1)
6. Uma outra contraposição doutrinária: posse efetiva vs posse não efetiva:
1. posse efetiva: implica o controlo material sobre a coisa; por vezes, o CC refere-se a esta, mencionando posse
atual – 1278º3

2. posse não efetiva: conserva-se por via puramente jurídica, sem qualquer controlo corpóreo – ex.: posse do
esbulhado no ano subsequente ao esbulho – esta posse conserva-se por via puramente jurídica – desvio ao
esquema padrão da posse, que assenta no controlo material sobre a coisa

VICISSITUDES DA POSSE

- Casos:
1. A celebra com B um contrato pelo qual vende uma casa, acompanhado de um outro pelo qual B (novo proprietário)
declara tolerar o gozo da casa por parte de A; mais tarde, A outorga com C um contrato de compra e venda, no qual se
declara que C vende a A a referida a casa, arrogando-se direitos sobre ela
1º contrato de venda por parte de A a B de uma casa
2º outro contrato celebrado entre C a A, o vendedor inicial acaba por comprar a casa a um 3º que arroga ter direitos sobre
ela

2. A, arrendatário de B, declara que não lhe paga mais as rendas, porque descobriu que era ele o proprietário

AQUISIÇÃO DA POSSE:
Pode ser originária ou derivada:

A - Originária:

- Apossamento: tomada de controlo material sobre uma coisa – 1263º a): exigindo a prática reiterada com
publicidade de atos materiais correspondentes ao exercício do direito:
o Esta reiteração não significa, porém, a necessidade de continuidade do exercício do poder, MAS a
necessidade de os atos materiais mostrarem uma especial intensidade – ou seja, um único ato pode
significar o apossamento – ex.: alguém meter um objeto no bolso – basta para considerar como
apossamento devido à sua intensidade
o Uma modalidade específica do apossamento é o esbulho – é o apossamento de uma coisa sobre a qual
incidia uma anterior situação de posse; esbulho também cobre as situações de inversão do título da
posse

- Inversão do título da posse: 1263º d) – corresponde a uma situação possessória a favor do detentor: há 2 formas
distintas:

o Ato de terceiro capaz de transferir a posse: é no fundo um ato do detentor celebrado com o terceiro que
origine uma situação que não é compaginável com a mera detenção

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ex: pessoa que compra um bem objeto do contrato com terceiro – A vendia a B uma casa, MAS ao
mesmo tempo era celebrado um contrato em que B, comprador, declra tolerar o gozo da casa pelo
vendedor, se mais tarde A (vendedor, que está numa situação de mera detenção, pois está a atuar
relativamente à casa ao abrigo da tolerância que lhe é dada pelo proprietário) vem a celebrar com C
(terceiro) um contrato pelo qual se declare que C vende a A a casa que foi vendida de A para B e que
foi objeto da tolerância, se o vendedor e quem beneficia da tolerância vier a comprar a casa a um 3º
temos uma situação de inversão do titulo da posse por ato de terceiro capaz de transferir a posse

o Oposição do detentor do direito contra aquele em cujo nome possuía: esta oposição deve interpretar-se
em sentido amplo, de forma a cobrir todas as formas de detenção e não apenas a detenção em nome de
outrem; atuação mais intensa do que no mero apossamento

ex: A é detentor (é detentor todo o que tem algum controlo sobre a coisa e não apenas a detenção em
nome de outrem): arrendatário tem uma posse em termos de locação e uma detenção em termos de
direito de propriedade; se A declarar que não paga as rendas por ter descoberto ser ele o proprietário:
forma de aquisição da posse que resulta de inversão do título da posse por oposição do detentor

A inversão do título da posse não se basta com a mera declaração ou comportamento; a oposição exigida pelo
1265º postula a prática de atos materiais ou jurídicos que materializem a declaração – não é suficiente que o
arrendatário declare que não paga mais as rendas porque se considera como proprietário; ou o usufrutuário
declarar que não entrega a coisa por ter entregue a um terceiro – é importante que acresça ainda, além desta
declaração, se não pague as rendas ou não recusa a entregue a coisa usufruída – inversão só se produz caso a
declaração e o comportamento apontem no mesmo sentido

B – Derivada:

Casos:
1. A morre e os seus bens não são entregues aos sucessores; aproveitando-se disso, C apropria-se dos objetos da herança
– o que podem os herdeiros fazer? e se, em vez de sucessores, estivemos perante legatários (mudava algo)?
- herdeiros podem recorrer à ação de defesa da posse – pelo efeito da posse do de cujos lhes comunicar a eles, MAS esta
possibilidade não extensível ao legatário – este não pode recorrer aos meios de defesa da posse

2. A entregava a B as chaves do seu automóvel, dizendo que transfere para ele a sua posse; B deixa o carro onde ele se
encontrava e C apropria-se do automóvel; o que pode B fazer? E se A era menor – mudava alguma coisa?
- novo possuidor do automóvel: pode defender a posse – é o novo proprietário e o novo possuidor: pode recorrer às ações
de defesa da posse, apesar de não lhe ter sido entregue o controlo material da coisa
 nada disto se alterava se houvesse incapacidade, não é a invalidade desse acordo que afeta a transmissão da posse, ou
seja, se A fosse menor: validade do acordo que preside a tradição é irrelevante  não obstante esta invalidade, a posse
transmite-se na mesma

- Tradição: pode ser material ou simbólica feita pelo antigo possuidor – vem referida no 1263º b) CC: tem-se em
vista uma transferência material do controlo possessório de uma coisa feita por uma pessoa a favor de outrem:
validade do acordo que acompanhe ou presida à tradição é irrelevante – tradição da posse pode ter lugar ainda
que o negócio jurídico venha a padecer de alguma invalidade;

No que diz respeito à tradição da coisa, também não se exige a prática reiterada de atos materiais que
correspondem ao exercício desse direito: na medida em que a intervenção do possuidor dispensa esse elemento,
basta o ato em si mesmo de transferência da posse tem-se em vista a cedência do controlo de uma coisa feito
por uma pessoa a favor de outrem e reporta-se à tradição simbólica da coisa (reporta-se à tradição material e
simbólica da coisa)
- havendo sucessão por morte: não se está perante uma situação de aquisição derivada da posse – é a posse do de
cujus que continua nos seus sucessores – há uma continuação da posse do de cujos para os seus sucessores:
1255º - posse continua nos sucessores independentemente da apreensão material da coisa – sucessor não tem de
dar o seu consentimento para que isto opere (basta a sua qualidade de possessor)

- 1263º tradição material vs tradição simbólica:

16
o tradição material - atividade exterior que traduz os atos de dar e de receber – traduz a transferência do
controlo material sobre a coisa traduzida nos atos de entregar e receber

o tradição simbólica: tudo se passa ao nível da comunicação humana sem interferência do controlo material
da coisa – sempre que a transferência se processa ao nível da comunicação humana, sem interferência no
controlo material da coisa - MAS, temos de distinguir as várias formas de tradição simbólica: tem sido
apontadas várias formas:

 Traditio longa manu: acordo translativo opera à distância – ex.: partes à janela fazem a entrega do
automóvel, apontando para ele, nesse caso temos a situação de um acordo translativo que opera
relativamente à coisa que é objeto da posse

 Traditio ficta: não chega sequer a haver o contacto à distância, tudo se passa a nível simbólico – o que
sucede quando alguém entrega as chaves de um dado objeto ou procede à entrega dos respetivos
documentos , dizendo que com a entrega está a tranferir também a posse

 Traditio brevi manu: detentor passa a possuidor por acordo com o anterior detentor – ex: proprietário
possuidor vende a coisa ao locatário ou ao depositário

- Constituto possessório: modo de aquisição da posse que ocorre quando o cedente após a transferência da posse
se mantém no controlo material da coisa – 1263º c); 1264º: mais uma forma de tradição simbólica

17
Factos extintivos da posse

Caso: A esqueceu-se do computador no tribunal onde tinha estado a realizar determinadas diligências; A lembra-se no
dia seguinte e volta ao tribunal para recuperar o controlo material sobre o computador; mas B levou-o; A contacta B que
se recusa a devolver o computador – o que pode A fazer?
 Vicissitudes que têm a ver com a perda da posse

No âmbito da perda da posse – 1267º: prevê várias causas para a perda da posse por parte do possuidor:

a) Abandono: cessação voluntária do controlo possessório sobre a coisa que é objeto da posse – podemos dizer que o
abandono representa o inverso do apossamento

b) Perda ou destruição da coisa ou por esta ter sido posta fora do comércio:
 perda é a sua saída fortuita do poder do possuidor 1267º/1b) – ao contrário do que sucede relativamente ao
abandono – PEDRO DE ALBUQUERQUE: impõe-se porém uma interpretação restritiva daquilo que seja a
perda ou destruição da coisa: de facto tendo em conta a alínea b) do nº1 do 1267º diz-nos que o possuidor perde a
posse pela perda ou destruição da coisa ou por esta ser posta fora do comércio – MAS, deve entender-se que uma
pessoa que se esqueça de um objeto num dado local não perde a posse enquanto puder recuperá-la – se ela for
encontrada por um terceiro, quando o possuidor ainda estava em condições de recuperar a coisa, e o 3º não
pretende restituir, o que temos é uma situação de esbulho e, por isso, a perda da coisa apenas envolve a extinção
da posse quando sobrevenha por mais de um ano uma nova posse do 3º incompatível; - podemos ter uma situação
de perda em que:
 de facto se extingue o controlo material da coisa (quando é impossível recuperar a mesma)
ou
 podemos ter uma situação em que haja uma saída fortuita da posse do objeto, MAS sem quebra da
possibilidade de recuperar a coisa – caso em que a extinção da posse apenas se verifica tendo em conta o 1267º 1
d) – sobrevenha por mais de 1 ano posse de 3º incompatível com a anterior

 quanto à destruição da coisa: inviabiliza definitivamente o controlo material sobre a coisa – não há mais que falar
em posse – MAS, para que se possa considerar que estamos perante a destruição da coisa: é necessário que esta
seja total: se for parcial, a posse mantém-se sobre a coisa danificada

 colocação da coisa fora do comércio


c) Cedência – em bom rigor, a cedência é apenas o outro lado da tradição – é apenas o reverso

d) Esbulho - corresponde à posse de alguém contra a vontade ou sem a vontade do anterior possuidor (1267º) –
constitui-se uma nova posse, há um concurso de posses sobre o mesmo objeto mantendo-se a posse anterior durante
um ano: há um concurso de posses: decorrido este ano, caducam as ações possessórias a favor do possuidor inicial,
segundo o artigo 1282º, e extingue-se a posse, segundo o artigo 1267º1 d)

- MAS, além destas 4 formas de extinção da posse – há outras: 1267º não é taxativo:
e) expropriação por utilidade pública
f) extinção coativa de direitos reais – como a venda judicial
g) não uso
h) esbulho seguido da posse de terceiros de boa fé
i) ocultação
j) etc. (...)

EFEITOS DA POSSE

Caso:
- A era possuidor de um dado bem imóvel e discute com B a titularidade do direito de fundo sobre esse objeto – nenhum
dos dois sujeitos consegue fazer a prova testemunhal ou documental relativa à titularidade do direito de fundo – de quem
se deve considerar pertencer o bem?

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 Posse implica o controlo material de coisas corpóreas – o seu exercício é percetível no espaço jurídico
 1268º1: estabelece a favor do possuidor uma presunção da titularidade do direito de fundo – neste caso, por
força deste artigo, entende-se que é proprietário aquele sujeito que é possuidor – neste caso, A

Frutos produzidos pela coisa objeto da posse e o regime do uso

Caso:
1. A era criador de cães e era possuidor de uma cadela premiada em diversos concursos – era campeã do mundo: esta é
esbulhada por B – este vendia depois a C e quando submetida ao controlo de facto de C a cadela dá à luz diversos cães,
valendo muito dinheiro – de quem são os cachorros?

1.1 Alguns dos cachorros morrem pouco depois por C não tem solicitado ajuda a um veterinário para a realização do
parto – de quem é a responsabilidade pela perda dos cachorros?

1.2 C vem a ter conhecimento do esbulho de B – alguma coisa mudaria se sobrevier este conhecimento?
Mudava sim, por força do regime do artigo 1270º/2 e 3.

1.3 Por conta de quem vão correr os custos da alimentação dos cachorros e das respetivas vacinas?
A medida de repartição depende da boa ou má fé do possuidor – nessa medida procedesse à repartição dos
custos das vacinas

1270º: atribui os frutos ao possuidor de boa fé – havendo má fé, o possuidor deve restituir esses frutos respondendo ainda
pelo valor daqueles que um proprietário diligente poderia ter obtido – 1271º

Os cachorros são de C se este estiver de boa fé; se C estiver de má fé, os cachorros são de A, respondendo C pela morte
dos cachorros  1270º2 e 3 – superveniência de má fé

Repartição de frutos, encargos e matéria do risco

A repartição dos frutos entre o possuidor e o proprietário dependia de o possuidor estar de boa ou má fé – MAS, este
sistema que analisámos é ainda completado por um regime explícito quanto à superveniência de má fé porque de facto o
possuidor pode estar inicialmente de boa-fé, MAS depois passar a saber que a sua posse atinge um direito alheio– artigo
1270º/2 e 3 – regulam a situação dizendo que os frutos são atribuídos ao proprietário a partir do momento em que cessa a
boa fé do possuidor

Frutos pendentes no momento em que a posse passa de boa para má fé, ou quanto ao seu produto se tiverem sido
alienados enquanto ainda estão pendentes – assiste-se a uma atribuição integral ao proprietário desses frutos mediante
certas compensações

Quanto aos encargos são repartidos pelo titular do direito sobre a coisa e o seu possuidor e são repartidos na exata
medida dos direitos de cada um sobre os frutos no período a que respeitam os encargos
A medida de repartição depende da boa ou má fé do possuidor – nessa medida procedesse à repartição dos custos

Caso: B era possuidor de uma bicicleta que se via envolvido num acidente da responsabilidade de A com quem se tinha
cruzado na estrada, e nesse acidente a bicicleta é totalmente destruída. C, proprietário da bicicleta pode exigir de B
alguma compensação?
1.1 Se a culpa fosse de B qual seria a solução?
1.2 E se o acidente se dever a facto fortuito?

artigo 1269º - alguns autores como MENEZES CORDEIRO dizem que está em concurso 894º, limitando-o, e, portanto,
quando estudámos o artigo 894º que é referente à obrigação de restituição do preço a cargo do comprador na compra e
venda de coisa alheia – diz que o possuidor de boa-fé responde pela perda ou deterioração da coisa se tiver procedido
com culpa, perante isto grande parte da doutrina entende que o possuidor de má-fé responde independentemente de culpa
pela perda ou deterioração da coisa; se o de boa-fé só não responde se não tiver agido com culpa o de má-fé responde
independentemente de culpa
A ser verdadeira esta interpretação: imputação objetiva do risco

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TODAVIA, o professor HENRIQUE MESQUITA veio a considerar uma outra possibilidade: propôs a aplicação do
artigo 807º ao possuidor de má-fé, o que significaria que o possuidor de má-fé se poderia exonerar da sua
responsabilidade pela perda ou deterioração da coisa provando que os danos ocorreriam na mesma ainda que a coisa
estivesse na posse do proprietário – este entendimento é de aceitar de acordo com o PEDRO DE ALBUQUERQUE e
MENEZES CORDEIRO
PEDRO DE ALBUQUERQUE + MENEZES CORDEIRO CONCORDAM porque um possuidor de má-fé está em mora
na sua obrigação de restituir a coisa ao proprietário.
- Assim, no exemplo dado, havendo boa-fé o possuidor não responde pela perda da bicicleta se não tiver culpa e se
houver má-fé não responde pela perda ou deterioração da bicicleta por facto que não lhe é imputável se provar que os
danos ocorreriam na mesma.

Benfeitorias

Caso:
1. A é possuidor de um imóvel em Cascais no qual faz a conservação do telhado da casa, manda construir uma piscina e
pintar os quartos mais a seu gosto  B é o proprietário da casa.
A e B discutem quem deve pagar as despesas correspondentes a estas benfeitorias a partir do momento em que o
proprietário recupera a casa.

Relativamente a isto importa dizer que as benfeitorias podem ser de diversa natureza:

- Benfeitorias necessárias – benfeitorias que são feitas com a finalidade de evitar a perda ou deterioração da coisa: o
possuidor tem direito a ser indemnizado, esteja ou não de boa-fé por força do artigo 1273º  no exemplo se
considerássemos que as obras ao telhado são obras necessárias para manter ou conservar a coisa podemos dizer que
o possuidor tem direito a ser indemnizado independentemente de estar de boa ou má-fé dessas mesmas obras (1273º)

- Benfeitorias úteis – benfeitorias que não sendo necessárias produzem um aumento efetivo do valor da coisa e o
possuidor de boa ou má fé pode levantá-las desde que não haja deterioração da coisa e, quando não haja
levantamento ao possuidor é restituído o valor delas de acordo com as regras do enriquecimento sem causa  artigo
1273º;

- Benfeitorias voluptuárias – têm como único objetivo beneficiar a pessoa que procede a essas benfeitoritas dando um
prazer acrescido no desfruto da coisa e não implicam um aumento de valor dessa mesma coisa – o possuidor de boa-
fé pode levantar estas benfeitorias se não houver detrimento da coisa e, na eventualidade contraria perde estas
benfeitorias sem ressarcimento. Já o possuidor de má-fé perde sempre estas benfeitorias – artigo 1275º

No exemplo dado, o possuidor tem direito a ser restituído da piscina: não é uma despesa voluptuária porque mesmo não
sendo necessária, aumenta o valor da coisa – sendo neste sentido uma benfeitoria útil

No exemplo dado, o possuidor não tem o direito a ser ressarcido pelas pinturas das paredes: a pintura da casa pode ser
necessária, útil ou voluptuária, mas neste caso o possuidor só mandava pintar a casa apenas para seu próprio gosto – não
é dito que a pintura de algum modo melhorava a casa (por exemplo por questões de humidade) e nessa medida a
benfeitoria é voluptuária e, por isso, não se pode levantar: não se pode levantar as pinturas da parede de uma casa.

20
USUCAPIÃO

Casos:
1. A é locatário de B e possuidor da coisa locada há mais de 20 anos e por isso pretende invocar a usucapião contra B –
poderá fazê-lo?
2. C, possuidor de boa-fé há mais de 20 anos, comporta-se como proprietário do imóvel X sobre o qual existe uma
hipoteca de D  C invoca a usucapião. O que pode fazer o proprietário e o credor hipotecário?

A usucapião corresponde à constituição facultada ao possuidor do direito real correspondente às sua posse desde que esta
assuma determinadas características e tenha sido manitada por um determinado lapso de tempo – ou seja, a usucapião,
traduz-se numa constituição facultada ao possuidor que se comporta como tendo um determinado direito real (mas não o
tendo) de constituir a esse direito real, desde que a posse tenha determinadas características e se mantenha por um
determinado lapso de tempo  segundo PEDRO DE ALBUQUERQUE esta noção é dogmaticamente mais perfeita do a
que a que surge no artigo 1287º

Posto isto, a usucapião assenta em determinados pressupostos:


- Posse com certas características:
o Pública e pacifica (embora se admita a superveniência de ambas estas qualidades – 1297º + 1300º/1);
o Deve referir-se a um direito usucapível – a um direito sujeito de se adquirido por usucapião.
 Há direitos que não são suscetíveis de ser adquiridos pela usucapião nos termos do artigo 1293º -
excluídos os direitos de:
o Direitos de uso e habitação – 1484º e ss.;
o Servidões não aparentes;
o Todos os direitos que não sejam direitos reais de gozo

(ex: o locatário que é possuidor exercendo a posse aferida ao seu direito como locatário não pode invocar a usucapião
porque a locação é um direito pessoal de gozo – o seu direito não corresponde a um direito real de gozo, MAS sim a um
direito pessoal de gozo); será diferente a solução se o possuidor e locatário passar a comportar-se como possuidor não de
um direito de locação mas em termos de direito de propriedade – se tiver uma posse como se fosse proprietário durante o
período de tempo exigível, ele já poderia usucapir).

- A posse deve ser mantida durante um determinado período de tempo que varia consoante:
o a posse seja de boa ou má-fé
o consoante tenha ou não havido registo
o e consoante se trate de bens móveis ou imóveis

A usucapião é uma forma de aquisição originária de direitos – não é uma forma de aquisição derivada (ex: transmissão de
direitos) – o direito que se constitui na esfera daquele que invoca a usucapião é um direito totalmente novo, o que
significa que, cessam todos os encargos que antes oneravam a coisa desde que a posse prescricional tivesse onerado sem
esses encargos
ex: se o possuidor de um imóvel se torna como proprietário durante um determinado tempo e invoca a usucapião e
houver uma hipoteca sobre esse imóvel, essa hipoteca extingue-se.
A não ser que, no exercício da sua posse, o possuidor que invoca a usucapião tenha reconhecido a existência dessa
hipoteca.
A usucapião, na medida em que, é uma forma originaria de aquisição de direitos, sobrepõe-se ao registo.

Usucapião de imóveis e usucapião de imóveis

Esta distinção coloca-se essencialmente no âmbito da temática dos prazos para usucapir.

 Usucapião de imóveis – podemos ter usucapião de 5, de 10, de 15 e de 20 anos consoante as características da


posse e a existência ou não do registo do titulo de aquisição ou da mera posse nos termos dos artigos 1294º a
1296º.

 Usucapião de móveis – os prazos variam consoante a qualificação da posse – artigos 1298º e ss.

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A usucapião invocada contra o Estado – os prazos aumentam em 50% - lei nº54 de 16 de Julho de 1913.

22
Acessão da posse

Caso:
A era um possuidor de má-fé há cerca de 13 anos de um bem imóvel que transmite por tradição a B que está de boa-fé –
decorrido um ano, C proprietário através de uma ação de reivindicação exige a devolução do bem e nessa altura B
alegando a sua posse de boa-fé e o título aquisitivo do imóvel invoca a usucapião perante C e para dizer que é ele o
proprietário pretende somar a sua posse à posse de A.

A acessão da posse é o instituto pelo qual o possuidor pode juntar a sua posse à do antigo possuidor para somar o número
de anos necessários para a usucapião – artigo 1256º CC: a transferência da posse tem operar por um modo legítimo de
transmissão da posse e terá de assentar num título abstratamente idóneo, o que significa que, embora em concreto o título
possa sofrer de perturbação que não permita a transmissão do direito correspondente à posse, este tem de ser idóneo para
a transmissão da posse.

Um problema importante a ter presente nestes casos prende-se com o facto de havendo diferenças entre a posse dos
anteriores possuidores e a posse do atual possuidor que pretende somar à sua a posse do anterior – a acessão só se dá nos
limites daquela que tem menor âmbito  o que significa que, se a posse do atual possuidor for melhor, não lhe compensa
a acessão, sendo-lhe mais favorável esperar um tempo para invocar uma posse melhor que é a sua posse atual, do que
invocar uma posse pior (junção da sua posse atual com a posse anterior – ex: se a posse anterior for de má-fé e a atual de
boa-fé).

No exemplo dado, como a posse do anterior possuidor é de má-fé e, se faltar além disso o registo, não pode ser alegada a
usucapião: artigos 1294º + 1295º
Também não pode ser alegada a usucapião na hipótese da posse ter 1294º, só poderia haver usucapião se a posse fosse
com as características do 1295º e, nessa eventualidade, havendo acessão poderia haver usucapião.

23
Defesa possessória

Ação direta e restituição provisória da posse

Exemplo:
1. A é esbulhado por B – o que é que pode A, possuidor e esbulhado, fazer?

Artigo 1277º - o possuidor que for esbulhado ou perturbado pode manter-se ou restituir-se por sua própria força e
autoridade se estiverem reunidos os pressupostos do artigo 336º ou poder recorrer ao tribunal – na eventualidade de
recurso ao tribunal, o possuidor perturbado ou esbulhado será mantido ou restituído enquanto não for convencido na
titularidade do direito
 alguém prova que é possuidor e que a sua posse foi perturbada ou esbulhada , será mantido ou restituído pelo tribunal,
se não aparecer outra pessoa a invocar a titularidade do direito porque se assim suceder vale a posição deste  ou seja, a
posição do antigo possuidor prevalece sobre a do esbulhador a não ser que o antigo possuidor seja convencido na
titularidade do direito.
Se a posse tiver mais de um ano - só pode ser restituído ou mantido contra quem não tiver melhor posse/melhores
características – 1277º + 1278

MELHOR POSSE a que for titulada, na falta de titulo a mais antiga e se tiverem igual antiguidade, a posse atual – para
além disto, tem-se entendido que se ambas forem tituladas, verifica-se a mais antiga, se ambas foram tituladas e tiverem
igual antiguidade, é melhor posse a posse atual.

Artigo 1279º: o possuidor esbulhado com violência tem o direito de ser restituído provisoriamente à sua posse, sem
audiência do esbulhador – provada a posse e a violência a restituição é ordenada sem audiência do esbulhador.

Ações de prevenção, de manutenção e de restituição

Caso:
1. A é ameaçado na sua posse por B que diz que se irá apropriar de certos bens de A, mas ainda não o fez, o que é que
pode A fazer?

Independentemente da questão do esbulho violento, o possuidor pode ser afetado na sua posse por uma de 3 maneiras:
- Pelo perigo de perturbação;
- Pela perturbação efetiva;
- Pelo esbulho;

A ordem jurídica confere-lhe 3 ações como forma de fazer face a estes 3 modos de ingerência:

 Ação de prevenção – artigo 1276º: é necessário um justo receito de perturbação – se a posse não tiver mais de
um ano o possuidor só poder ser restituído ou mantido contra quem não tenha melhor posse;

 Ação de manutenção – artigo 1278: só podem ser intentadas no prazo de 1 ano a partir do facto que lhes dá
origem + 1281º (não pode ser intentada contra terceiros de boa fé)

 Ação de restituição – artigo 1278º: esta ação não pode ser intentada contra 3º de boa-fé – 1281º.

Natureza da posse

Caso:
1. A é tutor de B no âmbito do programa da tutoria da FDUL e A pergunta qual é a natureza da posse a B – qual seria a
resposta de B?

Segundo PEDRO DE ALBUQUERQUE, a posse é uma situação jurídica e um direito subjetivo  não é um direito real
para o regente.

O anteriormente já tinha sido feita a alusão ao regime do artigo 1257º/1, quando procedeu ao confronto entre a
compreensão da posse proposta por SAVIGNY (de um lado) e JHERING (por outro) – em que se pode ver que segundo

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este preceito para haver posse basta a possibilidade de ela continuar mesmo quando não se verifique a correspondente
situação de facto – só uma situação jurídica é suscetível de se harmonizar com este regime que emerge do artigo 1257º/1

A posse atribui ao possuidor certos meios de atuação (determinados efeitos) que permitem o aproveitamento das
atividades de um meio – permitem o aproveitamento da coisa e que segundo um conteúdo correspondente ao direito
possuído, tudo isto acompanhado de uma eficaz tutela jurídica – em termos gerais e tendo particular atenção ao regime de
posse de má-fé o possuidor tem uso da coisa; faz seus os frutos produzidos (1270º,1271º), meios próprios para defesa do
seu poder (1276º e ss.) em caso de violação da posse pode exigir a reparação dos danos sofridos por força do artigos 1284
e ss.

Tudo isto ilustra bem como a posse é uma realidade jurídica – a realidade jurídica em que a posse se traduz pode ser
entendida como:
 uma ação processual
 um interesse legítimo
 um interesse reflexo ou ocasionalmente protegido
 um direito subjetivo

Segundo PEDRO DE ALBUQUERQUE a correta é a que leva a tomar a posse como um direito subjetivo – isto porque o
possuidor é protegido, há uma tutela associada a esta situação jurídica enquanto não se lhe opuser um outro sujeito que é
igualmente protegido – a posse produz determinados efeitos que são definitivos

Sendo a posse um direito subjetivo ela não dá origem a nenhum direito real (embora exista quem entenda que a posse é
um direito real – MAS não é esse o entendimento de PEDRO DE ALBUQUERQUE, bem como não é do professor
OLIVEIRA ASCENSÃO

A posse é um direito subjetivo não inerente por quanto nos termos do artigo 1281º a ação de restituição da posse só pode
ser exercida contra o esbulhador e seus herdeiros e ainda contra quem estiver na posse da coisa e tiver conhecimento do
esbulho – a posse perde precisamente a sua natureza real por não ter esta característica que retivemos ao analisar as
características dos direito reais como uma característica própria de todos os direitos subjetivos reais

Posse como direito subjetivo não absoluto – o direito real funda-se em razões absolutas, o titular do direito real provar o
seu direito e exigir consequentemente o reconhecimento desse direito por parte de quem quer que seja, NO ENTANTO,
não é isso que sucede na posse, como vimos em função daquilo que o artigo 1281º estabelece em matéria de restituição
de posse, o possuidor só pode dirigir-se contra sujeitos em relação aos quais se verifique uma razão relativa de
procedência da sua posse – ou porque aquele sujeito esbulhou ou porque teve conhecimento do esbulho e ficou
constituído nessa situação mais desfavorável

MAS a posse não é oponível a todos com base em razões absolutas – alguns autores sustentam quanto ao artigo
1281º - que o próprio caracter absoluto dos direitos reais não sendo próprio de natureza absoluta, no sentido em
que também ele pode ser atingido – a prova de que o carácter absoluto dos direitos reais podia ser atingido em
termos de o direito real não poder ser exercido contra determinas das pessoas resultava do artigo 291º CC ou do
5º Código Registo Predial (depois estudados na matéria do registo) – preceitos que se preveem em situações em
que o titular de determinada situação jurídica substantiva de natureza real fica impedido de fazer valer contra 3º
de boa fé que tenha uma posição jurídica incompatível com a sua - por força do regime do artigo 291º CC e 5º
Código do Registo Predial  o próprio caráter absoluto dos direitos reais não permitiria dizer que ela valeria
em todas as situações – a circunstancia do artigo 1281º afastar a possibilidade de se opor a posse em
determinadas circunstâncias, a certos sujeitos não seria diferente daquela que estaria vertida para todos os outros
sujeitos reais no artigo 291º CC e 5º Código do Registo Predial pois teríamos situações que seriam inoponíveis a
terceiros de boa fé

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Diferenças entre o que estabelece o artigo 1281º CC e o que estabelece o artigo 291º CC e 5º Código do Registo
Predial relativamente a todos os outros direito reais – para isso temos que perceber como funciona esta tutela
dispensada pelo artigo 291º CC e 5º Código do Registo Predial – este artigos dispensam uma tutela a terceiros
que tenham confiado numa determinada situação registal havendo desconformidade entre ela e a situação
substantiva – situações em que alguém confiou naquilo que está no registo predial e que essa situação registal
está desconforme com essa realidade substantiva
 Ou porque, como sucede no caso do artigo 291º - o negócio que levou ao facto de objeto de registo
sofre de uma invalidade
 Ou porque , segundo o artigo 5º CRP – houve alguém que não procedeu a um facto modificativo ou
extintivo de direito real

Determinando este 2 preceitos que tendo e conta determinados pressupostos a tutela é dispensada a quem confiou de boa
fé na situação registal em detrimento do titular da posição jurídica substantiva – há aqui um desvio. (pois o que
normalmente acontece é que quando há uma desconformidade material tutela-se a posição da pessoa que tem a posição
incompatível e que é uma posição digna de tutela – é essa a regra – quem tem uma posição material merecedora de tutela
consegue impor a quem venha dela querer prejudicar essa sua posição – e nesse sentido há um desvio no que respeita às
situações que são objeto de registo, em que pode haver uma tutela dispensada a quem venha a adquirir uma posição que é
icompativel com a posição substantiva, posição meramente aparente, MAS por força das regras relativas ao registo
predial o direito em certas circunatcnis tutla aquele que tem uma posição meramente aparente, não uma posição real é
apenas uma posição que se baseou no registo – e tutela em detrimento do titular da posição substantiva

Nas hipóteses em que o registo pode dar prevalência à boa fé – tutela-se o investimento da confiança impondo o regime
que se traduz num desvio à regra vigente em matéria de direitos reais

A posse nunca é oponível a terceiros de boa fé, sendo sempre relativa, ela não é, portanto, um direito real

Teremos que aprofundar quais os pressupostos que depende essa tutela ao 3º de boa fé que tem uma posição aparente,
MAS o que interessa apurar é o que sucede numa circunstância de não haver qualquer registo – o próprio 3º de boa-fé
não proceder ele próprio também ao registo

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REGISTO

Princípios Gerais do Registo

O sistema de registo predial obedece a vários princípios que orientam e que podem ser extraídos a partir do nosso direito
– podem extrair-se com maior ou menor evidência do regime jurídico do registo predial

1. princípio da instância
2. princípio da legalidade
3. princípio do trato sucessivo
4. princípio da legitimação
5. princípio da obrigatoriedade
6. princípio da prioridade

- Princípio da instância

Vem definido no artigo 41º do Código de Registo predial

CAPÍTULO II Pedido de registo


Artigo 41º Princípio da instância
O registo efetua-se mediante pedido de quem tenha legitimidade, salvo os casos de oficiosidade previstos na lei.

Significa que salvo nos casos previstos na lei o registo predial deve ser pedido pelos interessados

- Princípio da legalidade

Decorre do artigo 68º de CRP

CAPÍTULO VQualificação do pedido de registo


Artigo 68ºPrincípio da legalidade
A viabilidade do pedido de registo deve ser apreciada em face das disposições legais aplicáveis, dos documentos
apresentados e dos registos anteriores, verificando-se especialmente a identidade do prédio, a legitimidade dos
interessados, a regularidade formal dos títulos e a validade dos atos neles contidos.

Resulta que o conservador do registo predial deve pronunciar sobre a viabilidade só pedido de registo, tendo de verificar
à luz das normas legais aplicáveis os documentos que lhe são apresentados para efeitos de registo – sendo certo que a
ação fiscalizadora do conservador implicará a apreciação dos seguintes aspetos:

 deverá verificar a identidade entre o prédio que se refere o ato a registar e a correspondente descrição
 verificar a legitimidade dos interessados conforme resulta do princípio da instância
 deve verificar a regularidade formal dos títulos referentes aos atos a registar
 deve também verificar a validade dos mesmos atos

O poder do conservador em matéria de fiscalização da legalidade dos atos a registar circunscreve-se à verificação dos
casos de manifesta nulidade – são vários os motivos que impedem que a sua apreciação se alargue também aos atos
anuláveis – como alternativa à recusa do registo surge o registo provisório; somente nos casos mais graves que estão
enumerados no artigo 69º do Código do Registo Predial é que o registo deve ser recusado – ou seja:

 Quando for manifesto que o facto não está titulado nos documentos apresentados;
 Quando se verifique que o facto constante do documento já está registado ou não está sujeito a registo;
 Quando for manifesta a nulidade do facto;
 Quando o registo já tiver sido lavrado como provisório por dúvidas e estas não se mostrem removidas;
 Quando o preparo não tiver sido completado.

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Noutros casos se o registo sofrer de alguma irregularidade deve ser feito como registo provisório por dúvidas – artigo
69º/2 Código do Registo Predial – “Além dos casos previstos no número anterior, o registo só pode ser recusado se, por
falta de elementos ou pela natureza do ato, não puder ser feito como provisório por dúvidas.”

A incompetência da conservatória e a falta de preparo relativo ao custo do registo são motivos de irregularidade

- princípio do trato sucessivo


- princípio da legitimação
- princípio da obrigatoriedade
- princípio da prioridade
Efeitos do Registo Predial

O registo definitivo tem um primeiro efeito de fazer presumir o direito – o registo definitivo constitui presunção de que o
direito existe e de que pertence ao titular inscrito nos termos em que o registo o define

Se conjugarmos o artigo 7º do Código do Registo Predial – presunção de existência e pertença ao titular inscrito – com os
artigo 349º e 350º CC – compreende-se que quem tiver uma presunção emergente do registo a seu favor fica dispensado
de provar de que o direito existe, de que é seu titular e além disso de que o direito tem a configuração dada pela registo

Artigo 7ºPresunções derivadas do registo


O registo definitivo constitui presunção de que o direito existe e pertence ao titular inscrito, nos precisos termos em que o
registo o define.

Dispensado de provar 3 coisas:


 que o direito existe
 que é seu titular
 que o direito tem a configuração dada pelo registo

NO ENTANTO, o registo pode sofrer de vícios registais.

Vícios registais

Artigos 14º - 18º do Código do Registo Predial


Sendo que o que nos interessa em primeiro lugar é a inexistência (artigo 14º Código do Registo Predial) e em segundo
lugar a nulidade (artigo 16º Código do Registo Predial).

Artigo 14ºCausas da inexistência

O registo é juridicamente inexistente:

b) Quando for insuprível a falta de assinatura do registo.

Artigo 15ºRegime da inexistência

1 - O registo juridicamente inexistente não produz quaisquer efeitos.

2 - A inexistência pode ser invocada por qualquer pessoa, a todo o tempo, independentemente de declaração judicial.

Artigo 16º Causas de nulidade

O registo é nulo:

a) Quando for falso ou tiver sido lavrado com base em títulos falsos;

b) Quando tiver sido lavrado com base em títulos insuficientes para a prova legal do facto registado;

c) Quando enfermar de omissões ou inexatidões de que resulte incerteza acerca dos sujeitos ou do objeto da relação

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jurídica a que o facto registado se refere;

d) Quando tiver sido efetuado por serviço de registo incompetente ou assinado por pessoa sem competência, salvo o
disposto no nº 2 do artigo 369º do Código Civil e não possa ser confirmado nos termos do disposto no artigo seguinte;

e) Quando tiver sido lavrado sem apresentação prévia ou com violação do princípio do trato sucessivo.

Artigo 17º Declaração da nulidade

1 - A nulidade do registo só pode ser invocada depois de declarada por decisão judicial com trânsito em julgado.

2 - A declaração de nulidade do registo não prejudica os direitos adquiridos a título oneroso por terceiro de boa fé, se
o registo dos correspondentes factos for anterior ao registo da ação de nulidade.

3 - A ação judicial de declaração de nulidade do registo pode ser interposta por qualquer interessado e pelo Ministério
Público, logo que tome conhecimento do vício

Artigo 18º Inexatidão do registo

1 - O registo é inexato quando se mostre lavrado em desconformidade com o título que lhe serviu de base ou enferme
de deficiências provenientes desse título que não sejam causa de nulidade.
2 - Os registos inexatos são retificados nos termos dos artigos 120º e seguintes.

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Modalidades de registo

Registo enunciativo

O primeiro efeito do registo para além da presunção, é um efeito enunciativo no sentido de que em regra, a inscrição não
acrescenta nada à situação substantiva, limita-se a uma função de notícia de determinados factos

O registo vem dar publicidade, vem dar notícia a certos factos que são objeto de registo, MAS não acrescenta nada a
esses factos, todavia o registo pode ter aquilo a que se chama um efeito consolidativo – artigo 5º/1 Código do Registo
Predial:

- Os factos sujeitos a registo só produzem efeitos contra terceiros depois da data do respetivo registo.

Mesmo antes do registo os direitos reais são oponíveis para além do círculo estrito do alienante/adquirente – a quem não
invoca direitos incompatíveis com aquele que deve ser objeto de registo
ex: direito de propriedade perante o locatário – quem adquire o direito de propriedade de um bem dado em locação
pode opô-lo ao locatário independentemente de registo, tal como pode opô-lo ao alienante independentemente de registo

O titular de um direito não registado pode também opor a quem adquiriu uma posição incompatível, MAS não a registou
exemplo: A adquire um bem, MAS não o regista e depois o vendedor vende esse bem a um 3º que também não o
regista – a 1ª venda é oponível ao 1º comprador uma vez que nenhum dos sujeitos procedeu ao registo

Há também oponibilidade independentemente de registo por parte de quem tenha adquirido a título gratuito
exemplo: se alguém comprou um imóvel, não o registou e depois alguém o adquiriu a título gratuito por força
de uma doação, por exemplo. O donatário ao proceder ao registo desse bem o 1º ato é oponível ao donatário
porque adquiriu a título gratuito, não obstante o facto de o donatário ter registado a sua aquisição

Oponibilidade independentemente do registo a quem tenha adquirido a título oneroso, MAS que esteja de boa-fé –
oponibilidade independentemente do registo que mostra bem como este efeito consolidativo do registo é mais
circunscrito do que podia parecer quando se diz que por força do artigo 5º do Código do Registo Predial, o registo é
condição de oponibilidade do direito a ele sujeito por parte de 3º  Em regra, será assim, exceto nos casos assinalados

Registo tem uma importância maior do que meramente declarativo – nos termos do artigo 5º/1 Código do Registo Predial
- o registo tem um efeito consolidativo, no sentido em que impede que venha um 3º tomar a posição do verdadeiro titular
inoponível perante ele
Registo constitutivo

Efeito jurídico constitutivo, no sentido em que aqueles direitos que estão sujeitos a registo não têm existência substantiva
e material enquanto não se proceder ao registo – MAS entre nós os direitos constituem-se independentemente do registo

exemplo: se alguém vender um objeto a uma pessoa essa outra pessoa adquire independente do registo – transferência
do direito real independentemente do registo

Há no entanto uma exceção entre nós – artigo 4º Código do Registo Predial – em relação à hipoteca

Artigo 4ºEficácia entre as partes


1 - Os factos sujeitos a registo, ainda que não registados, podem ser invocados entre as próprias partes ou seus herdeiros.
2- Excetuam-se os factos constitutivos de hipoteca cuja eficácia, entre as próprias partes, depende da realização do
registo.

Registo atributivo

Efeito atributivo do registo – por vezes, o registo atribui uma tutela jurídica específica e na verdade esta aquisição do
registo (aquisição tabular) alicerça-se em 3 normas fundamentais:

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 artigo 291º CC – invalidade substantiva
 artigo 17º Código do Registo Predial – invalidade registal
 artigo 5º/1 Código do Registo Predial – incompleição, registo válido MAS incompleto – são hipóteses de dupla
alienação

No âmbito do artigo 291º a aquisição pelo registo só se verifica se se encontrar previamente inscrito

Como é que se articularão os artigos 5º e 17º do Código do Registo Predial e o artigo 291º? Segundo PEDRO DE
ALBUQUERQUE temos que distinguir aqui 3 situações:

A. situações de invalidade substantiva

O artigo 291º aplica-se a estações de invalidade substantiva e faz depender a aquisição tabular de um período de carência
de 3 anos – se nós tivermos uma situação em que há uma invalidade substantiva e essa invalidade for interposta a ação de
invalidade no prazo de 3 anos a contar da celebração do negócio não se assiste a uma situação de aquisição tabular
MAS se já tiver decorrido esse prazo de 3 anos, temos uma situação de aquisição tabular

De acordo com o artigo 17º Código do Registo Predial, nos casos de invalidade registal a aquisição tabular não depende
do decurso de nenhum prazo específico, diz-se simplesmente, que a nulidade do registo não prejudica os direitos
adquiridos a título oneroso por terceiro de boa fé, se o registo dos correspondentes factos for anterior ao registo da ação
de nulidade – pressuposto exclusivo: de que o registo dos factos seja anterior ao registo da ação de nulidade, se isso
suceder há aquisição tabular

No caso do artigo 291º é necessário para além dos outros pressuposto que tenha decorrido o prazo de 3 anos

Parece haver uma contradição valorativa entre o artigo 17º Código do Registo Predial que não exige nenhum prazo para
que se dê a aquisição tabular e o artigo 291º CC que impõe o decurso de um prazo de 3 anos
Segundo PEDRO DE ALBUQUERQUE para ultrapassar esta contradição valorativa, deve sujeitar-se o regime
do artigo 17º/2 à carência de 3 anos constante da lei civil – ultrapassando-se a contradição entre os 2 preceitos
B. situações de invalidade registal – são reguladas pelo artigo 17º/2 do Código do Registo Predial - a declaração
de nulidade do registo não prejudica os direitos adquiridos a título oneroso por terceiro de boa fé, se o registo
dos correspondentes factos for anterior ao registo da ação de nulidade – casos de nulidade registal de acordo
com o disposto no artigo 16º Código do Registo Predial – de acordo com o artigo 17º a nulidade do registo não
afeta os direito adquiridos a título por terceiros de boa-fé se o registo dos factos for anterior da ação de nulidade
– o 3º de boa-fé que tenha registado os factos antes da interposição da ação destinada a obter a nulidade do
registo, vê a sua posição tutelada, não obstante essa nulidade

Se ele confiou na nulidade do registo e está de boa-fé, a sua posição é tutela em detrimento da posição do sujeito que
interpõe a ação de nulidade do registo

Reguladas pelo artigo 17º - se houver uma invalidade a esse nível a atribuição pelo registo nos termos do artigo 17º
depende da verificação dos pressupostos desse preceito

C. situações de incompleição do registo – são aquelas que se mostram abrangidas pelo artigo 5º do Código do
Registo Predial

Artigo 291.º- (Inoponibilidade da nulidade e da anulação)

1. A declaração de nulidade ou a anulação do negócio jurídico que respeite a bens imóveis, ou a móveis sujeitos a registo,
não prejudica os direitos adquiridos sobre os mesmos bens, a título oneroso, por terceiro de boa fé, se o registo da
aquisição for anterior ao registo da acção de nulidade ou anulação ou ao registo do acordo entre as partes acerca da
invalidade do negócio.

2. Os direitos de terceiro não são, todavia, reconhecidos, se a acção for proposta e registada dentro dos três anos
posteriores à conclusão do negócio.

3. É considerado de boa fé o terceiro adquirente que no momento da aquisição desconhecia, sem culpa, o vício do
negócio nulo ou anulável.

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Aplica-se aos casos em que o negócio translativo, constitutivo modificativo ou extintivo de direito real sofre de alguma
invalidade.

Este artigo pressupõe a existência de um registo prévio.

Aquilo que o preceito estabelece é que a declaração de nulidade ou a anulação do negócio jurídico que respeite a bens
imóveis ou móveis sujeitos a registo não prejudica os direitos adquiridos a titulo oneroso sobre os mesmos bens por
terceiro de boa-fé, se o registo de aquisição for anterior:

- ao registo de ação de nulidade ou anulação


ou
- ao registo de acordo entre as partes acerca da nulidade do negócio

Facto de só se aplicar este regime de tutela dos direitos adquiridos por 3º de boa-fé, se esse 3º de boa-fé cuja tutela é
assegurada, não obstante a invalidade substancial do negócio jurídico beneficiar de um registo prévio – a aplicação do
artigo 291º e da tutela dispensada ao 3º de boa-fé pressupõe que esse 3º confiou na existência de um registo prévio a seu
favor que titula uma posição jurídica substantiva – que é aquela que sofre de invalidade

 se estivermos numa situação idêntica em que há a invalidade de um negócio jurídico e a aquisição de um direito por
um terceiro de boa-fé, MAS na eventualidade de não ter sido feito registo a sua posição não é tutelada

Como é que o artigo 291º CC se diferencia do artigo 5º Código do Registo Predial ?

O artigo 5º diz respeito a casos em que existe um registo válido, MAS que esse registo está incompleto – incompleição
do registo (pressupostos da aquisição registal/tabular/atributiva, na eventualidade de haver um registo incompleto, um
investimento de confiança por parte de um 3º de boa fé num registo incompleto)

O artigo 17º aplica-se na eventualidade do registo ser nulo – invalidade registal

O artigo 291º aplicava-se na eventualidade de ser o facto modificativo, extintivo ou modificativo do direito real que é
inválido – pressupondo uma invalidade substantiva

A situação de incompleição demostra a situação clássica de alienação – ex: A vende a B, MAS B não regista e A
aproveitando-se dessa circunstância vende a C que regista – numa situação desse tipo, quem adquiriu o bem no plano
substantivo foi B, o segundo negócio corresponde a uma venda de bens alheio e neste sentido é inválido – significa que C
é um pseudo adquirente, porém ao antecipar-se a B no registo a situação de C consolida-se e é ela que é objeto de tutela
em detrimento da posição de B, pois nos termos no artigo 5º, os factos sujeitos a registo só produzem efeitos contra
terceiros depois da data do respetivo registo – a questão que temos de suscitar é a de saber quem é que se deve entender
como 3º?

Artigo 5º/4 - Terceiros, para efeitos de registo, são aqueles que tenham adquirido de um autor comum direitos
incompatíveis entre si – são hipóteses clássicas de dupla alienação

A posição deste terceiro que adquiriu a título oneroso (C) e de boa-fé, confiando num registo a favor do A é aquele que é
objeto de tutela – artigo 5º vem tutelar alguém a adquiriu um bem alheio em detrimento do titular que adquiriu
efetivamente o bem no plano substantivo (B) - a posição de C, que não é proprietário que é tutelada em detrimento do
verdadeiro proprietário  por isso se diz que aqui há uma aquisição tabular, atributiva por força das regras do registo

Os casos regulados por força do artigo 291º CC são diferentes porque quem se protege na hipótese deste artigo não é um
pseudo adquirente, como sucede no caso do artigo 5º do Código do Registo Predial, MAS sim o sub-adquirente do
pseudo adquirente – porque as hipóteses mencionadas no artigo 291º são hipóteses em que A vende a B através de
negócio jurídico inválido, entretanto B regista e vende a C, como o negócio jurídico entre A e B é inválido, A intenta
uma ação de anulação ou de nulidade de um negócio jurídico realizado entre A e B

O artigo 291º diz-nos que se A vender a B, através de negócio inválido, B registar e por sua vez B transmitir para C e se
o C estiver de boa-fé, não obstante a invalidade do negócio jurídico entre A e B, a posição de C é tutelada em detrimento
de A se já tiver decorrido um prazo de 3 anos a contar da conclusão do negócio - não prejudica os direitos adquiridos
sobre os mesmos bens, a título oneroso, por terceiro de boa fé, se o registo da aquisição for anterior ao registo da acção

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de nulidade ou anulação ou ao registo do acordo entre as partes acerca da invalidade do negócio (+ nº2 - não são,
todavia, reconhecidos, se a acção for proposta e registada dentro dos três anos posteriores à conclusão do negócio.

Para distinguir os 3 preceitos:

- O registo se incompleto beneficia de imediato e nos termos do artigo 5º o pseudo adquirente

- Se inexato só beneficiam os sub adquirentes do pseudo adquirente - Com o requisito adicional de se ter passado 3 anos
Isto porque, apesar do artigo 17º não fazer referência ao prazo de 3 anos deve entender-se exigência similar constante do
artigo 291º
Aplica-se o artigo 17º ou 291º consoante a hipótese de se tratar de invalidade registal ou invalidade substancial

Em todos os casos de aquisição tabular, quer no caso do artigo 5º, quer no caso do artigo 17º, quer no caso do artigo 291º
- o mecanismo que temos da aquisição tabular torna inoponível ao 3º de boa-fé, o direito do t itular material – ou seja,
aquele que é titular do ponto de vista das regras substantivas passa a não puder opor o seu direito ao beneficiário da
aquisição tabular  fenómeno de tutela da boa fé depositada na aparência e na boa-fé proporcionada pelo registo – o que
significa temos uma situação em que o direito do prejudicado se transforma num direito real natural – o direito deixa de
ser um direito real civil para ser um direito real natural – o direito está lá MAS é inoponível ao 3º que está de boa-fé e
que confiou no registo que titulava uma determinada pessoa como seu titular e não como o verdadeiro titular desse
direito

Pressuposto comum a estas 3 formas de aquisição tabular – existência de um registo em favor de quem pratica um ato de
disposição, portanto, quer na hipótese do artigo 5º em que temos uma situação de incompleição, quer na hipótese do
artigo 17º em que temos uma situação de invalidade registal, quer na hipótese do artigo 291º em que temos uma situação
de invalidade substancial é necessário que haja um registo prévio em favor de quem pratica o ato de disposição

No caso do artigo 5º em que se tutela o pseudo adquirente (dupla alienação), adquire de alguém que não é titular
do bem e, portanto, que não o pode transmitir, MAS na situação do artigo 5º tem de haver um registo a favor do
transmitente que pagou o ato de transmissão

Nas hipóteses do artigo 17º e do artigo 291º também se tem de assistir a um registo a favor de quem pratica o ato
de disposição – tutelam situações a que alguém adquire a um pseudo adquirente

MAS este pressuposto é negado pelo professor MENEZES CORDEIRO relativamente ao artigo 291º - considera que a
delimitação do âmbito de aplicação do artigo 291º face ao artigo 17º do Código do Registo Predial não seria de
considerar que o 1ª diria respeito às invalidades substantivas e o 2º às invalidades registais

(PROPOSTA DO PROFESSOR MENEZES CORDEIRO)


MAS sim por considerar que a diferença estaria na consideração de que o artigo 291º se aplicaria aos casos de
inexistência de registo prévio a favor do alienante do bem e portanto, se alguém alienasse um bem que ainda não tivesse
sido objeto de registo a um outro sujeito e esse outro registasse, quando o negocio fosse nulo ou anulável poder-se-ia
assistir à possibilidade de invocação da invalidade quando se verificassem os pressupostos

Já nos casos em que se assiste a uma invalidade de uma negócio de transmissão e o alienante registou previamente o seu
direito, aplicar-se-ia o regime do artigo 17º do Código do Registo Predial  Quer isto dizer que o artigo 17º não se
aplicaria apenas aos casos de nulidade do registo, estabelecendo também solução para as questões de invalidade
substancial do negócio de transmissão do direito ao qual se reporta o facto registado, MAS em que não houve um registo
prévia a favor do sujeito que transmite o direito - isto independentemente de se tratar de uma invalidade registal ou
substancial a declaração de nulidade não prejudicaria os direitos adquiridos a título oneroso por 3º de boa-fé se o registo
dos competentes factos for anterior ao registo de ação de nulidade, mesmo na eventualidade de se estar perante uma
situação de invalidade substantiva, sem qualquer dependência do período de carência de 3 anos estabelecidos no artigo
291º (pois só valeria para casos em que não houve registo prévio a favor do transmitente)

De acordo com MENEZES CORDEIRO o artigo 291º apenas se aplicaria nas hipóteses em que não houvesse registo
prévio a favor do alienante ou transmitente – só nesse caso é que teria de se observar tal período de quarentena de 3 anos

NO ENTANTO, se assim fosse, nós teríamos que perguntar qual seria nesta perspetiva o fundamento da solução
estabelecida no artigo 291º do CC, e não seria certamente só a boa-fé, pois nesse caso não se compreenderia a
circunscrição da possibilidade de aquisição tabular fundada no artigo 291º aos casos de bens sujeitos a registo – porque

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que os bens não sujeitos a registo não seguiriam também o mesmo esquema?! – neste sentido segundo PEDRO DE
ALBUQUERQUE não pode ser este o fundamento uma vez que o artigo 291º só dá tutela aos caso dos bens sujeitos a
registo, sendo necessário saber se é necessário ou não um registo prévio a favor do transmitente

Mesmo na eventualidade de se considerar que esse registo não é necessário, o 3º que pretende beneficiar da tutela
beneficiada pelo artigo 291º tem de registar o bem – artigo 291º só dispensa tutela em situações em que em causa estão
bens sujeitos a registo independentemente de saber se o registo prévio é necessário ou não

A especificidade própria, segundo PEDRO DE ALBUQUERQUE, só pode ser a fé publica dispensada o registo/fé
pública proporcionada pelo registo anterior na qual o tutelado confiou - necessário um registo prévio a favor do sujeito
que transmite o bem

Para além dos requisitos expressamente enunciados no preceito há um pressuposto implícito – a aquisição só se verifica
se o direito do alienante tiver procedido ao registo prévio – não concordando o professor PEDRO DE ALBUQUERQUE
com a opinião de MENEZES CORDEIRO

Se no momento da aquisição o registo não proclamava o direito do alienante não há motivo para funcionar qualquer
forma de aquisição tabular

De acordo também o artigo 9º Código do Registo Predial - Os factos de que resulte transmissão de direitos ou
constituição de encargos sobre imóveis não podem ser titulados sem que os bens estejam definitivamente inscritos a
favor da pessoa de quem se adquire o direito ou contra a qual se constitui o encargo  tal implica que só em hipóteses
marginais em que não é feito o registo a favor de quem adquire o direito esse facto não pode ser titulado

Se nos tivermos uma situação pontual em que esse registo não tenha sido feito a sanção recai apenas sobre notário.

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Extensão dos Direitos Reais

Conjunto de modalidades de Diretos Reais

Temos desde logo:

 Direitos reais sobre móveis ou imóveis

 Direitos reais públicos e particulares

 Propriedade pública e particular

 Direito real máximo e direitos reais menores

O Direito real máximo é a propriedade, enquanto todos os outros são considerados como direitos reais menores. Há um
único direito real máximo, o direito de propriedade e depois há um conjunto alargado de direitos reais menores que são
todos os outros.

 Direitos reais simples e complexos – consoante os poderes que atribuem, isto corresponde a uma distinção
devida primordialmente ao professor OLIVEIRA ASCENSÃO

 Direitos reais de gozo; Direitos reais de garantia; Direitos reais de aquisição

o Direitos reais de gozo – sublinha-se um aspecto estrutural do direito – conjunto de poderes, faculdades,
direitos
o Direitos reais de garantia – evidenciar um aspecto que tem a ver com a sua função
o Direitos reais de aquisição

CRITÉRIO DA DESTINAÇÃO GLOBAL:

DIREITO REAL DE GOZO se no seu conjunto se destinar a proporcionar o desfrute de uma coisa

DIREITOS REAIS DE GARANTIA Se se destinar a garantir um crédito


DIREITOS REAIS DE AQUISIÇÃO Se globalmente se resolver na aquisição de uma coisa

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Situações jurídicas propter rem

Relações jurídicas cujos sujeitos são qualificados pelos direitos reais – sujeito determinado pela titularidade de um direito
real

1. essa situação jurídica propter rem não está integrada em nenhuma outra situação jurídica mais ampla – há aqui uma
limitação de Direito, seja por interesse publico ou privado, sem se estabelecer qualquer outra relação do sujeito com
outra pessoa

ex: quem quer que seja dono de uma certa obra de arte pode estar sujeito à venda de certos bens do património cultural;
quem quer que seja dono de um bem imóvel pode estar sujeito a um determinado tipo de obrigações fiscais

2. situações em que o sujeito é individualmente determinado que estaria vinculado perante quem fosse titular de um
direito real

ex: vínculos feudais de diversa natureza;

3. constituída pelas relações de polo passivo determinado propter rem

ex1: quando o doador de um contrato reserva para si certos direitos sobre os bens doados – o doador é um sujeito
individualmente determinado e o seu direito é oponível aos titulares dos bens que foram objeto de doação, sejam eles
quais forem – 951º CC

ex2: A constitui um direito de superfície a favor de B ficando o B obrigado, segundo o titulo constitutivo deste direito de
superfície, a entregar àquele primeiro uma prestação pecuniária anual de 5000€ - 1530º/1 CC ≠ da situação em que A se
obriga a reparar o aqueduto – na servidão de aqueduto, o sujeito esbate-se o que interessa não são as características
pessoais MAS a qualidade do direito real (é quase como se fosse o prédio que está obrigada); na situação enunciada há
um esbatimento do direito, o que interessa não são as características pessoais, MAS a titularidade do direito real, é como
se o prédio é que estivesse obrigado  Ao contrário da situação de obrigação de reparar por exemplo o aqueduto

a. cabem nesta modalidade, os chamados ónus reais – para definir importa fazer a distinção entre as pretensões reais a
que o seu aproveitamento dá lugar
i. Do lado ativo, ou na perspetiva do direito a que dá lugar, pode dizer-se que os ónus reais são direitos inerentes
cujo conteúdo essencial habilita respetivos titulares a ver surgir a seu favor uma prestação única ou repetida

ii. Na perspetiva passiva pode dizer-se que o direito em si se desprende obrigações que com ele não se
confundem – obrigações propter rem – o sujeito passivo é determinado realmente por ser titular de um direito
real sobre uma coisa
iii. O que há de característico nestas situações é que quer o polo ativo, quer o polo passivo são determinados
propter rem – é o que sucede por exemplo com a servidão de aqueduto pois aí há uma dupla acessoriedade dos
sujeitos – se houver transferência das coisas mudam o titular e o obrigado

Esta modalidade constitui para OLIVEIRA ASCENSÃO – a categoria das situações jurídicas propter rem – quando elas
tiverem natureza real teremos situações jurídicas reais

Dentro das situações propter rem distinguem-se:


 situações propter rem em sentido estrito
 relações reais

No que diz respeito à natureza dos ónus reais podemos dizer que o ónus real só terá natureza real se ele permitir ao titular
ativo participar funcionalmente no aproveitamento da coisa - para haver realidade o titular tem de participar
funcionalmente no aproveitamento da coisa

ex: o titular tem direito a uma percentagem dos lucros da coisa, se o sujeito ativo tem direito a uma prestação pecuniária
devida pelo titular da coisa não há natureza real – dotada de uma característica de realidade, pois neste caso o titular
participa funcionalmente no aproveitamento da coisa; se o sujeito ativo já não tem direito a uma prestação pecuniária que
resulte do aproveitamento funcional da coisa não há uma natureza real

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Fundamento da relação jurídica real – conflito de direitos reais que ela é chamada a resolver; as posições ativas e
passivas da relação jurídica real integram-se no conteúdo de direitos reais a que se reportam – ex: conflitos de vizinhança
ou comunhão

MAS nem toda a relação propter rem é uma relação jurídica real pois nem sempre lhe está subjacente uma situação de
conflito ou cooperação de direitos reais – se estiver subjacente essa situação de conflito ou cooperação de direitos reais
terá natureza real

Princípio da tipicidade

Os ónus reais estão ou não sujeitos a este princípio da tipicidade? Segundo PEDRO DE ALBUQUERQUE encontram-se
naturalmente sujeitos ao princípio da tipicidade – 1306º CC

Já as demais situações jurídicas propter rem são independentes dos direitos reais, não têm natureza jurídica real, MAS
pode assistir-se a uma aplicação analógica do artigo 1306º, não obstante não haver aqui sujeição direta ao princípio da
tipicidade

Situações propter rem a propósito do conteúdo dos Direitos Reais

Conteúdo positivo dos Direitos Reais

Um dos aspetos que é essencial é o problema da posse.


O conteúdo do direito real corresponde à situação jurídica do seu titular – a diversidade de figuras correspondentes aos
direitos reais – parecem não corresponder nenhum denominador comum nas diversas categorias e figuras que cabem no
conceito do direito real

Não obstante a grande diversidade entre as características suscetíveis de serem enquadradas no âmbito da figura genérica
de direito real há alguns elementos que são comuns

Uma nota que importa reter leva à distinção entre direitos pessoais de gozo, direitos reais de garantia, direitos de
aquisição

O conteúdo do direito real resulta analiticamente de normas permissivas que dão ao respetivo titulares que
remetem para as qualidades da coisa – e essas normas são para os não titulares em normas proibidas

Além das normas permissivas há exceções à permissão e também proibições – o conteúdo do conjunto destas
normas

Relativamente aos direitos pessoais de gozo, aquilo que sucede é que permitem ao respetivo titular o disfrute da
coisa, o conteúdo normal destes direitos revela-se no plano exterior através da posse

MENEZES LEITÃO afasta, no entanto, a posse do conteúdo dos Direitos Reais, ainda assim PEDRO DE
ALBUQUERQUE faz a menção para o artigo 1305º que procura referir o conteúdo do direito de propriedade –
segundo PEDRO DE ALBUQUERQUE esse afastamento deve ser feito

1305º - o proprietário goza de modo pleno e exclusivo dos direitos de uso e fruição das coisas que lhe pertencem
dentro dos limites da lei e com observância das restrições por ela impostas – neste sentido o art 1305º procura
indicar qual o conteúdo do direito de propriedade

Quanto aos direito reais de garantia importa dizer que se situam no quadro dos mecanismos destinados a agredir
o património alheio em caso de incumprimento com algumas particularidades do ponto de vista do conteúdo

– pela dívida responde a coisa objeto da garantia, mesmo fora do património do devedor – significa que na
presença de um direito real de garantia o credor se paga com preferência em relação aos demais

Quanto aos direitos reais de aquisição não há uma grande margem nesta categoria para se falar em aspetos gerais
referentes aos direitos reais de aquisição – ainda assim, neles há sempre uma situação de aquisição, que tanto
pode ser:

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 originária
 derivada
 potestativa
 automática

Conteúdo negativo dos Direitos Reais

A este respeito devemos distinguir entre:


 limitações - com recondução das limitações às exceções de permissividade do titular do direito real
o gerais – acompanham todos os direitos reais, resultam de princípios de direito
 de direito público – ex: expropriação e servidão administrativa
 de direito privado

Os Direitos Reais estão sujeitos aos limites da boa fé e ao abuso de direito – um problema específico que se coloca a
respeito dos limites dos direitos reais diz respeito aos limites em altura e em profundidade - 1344º CC

o especiais – resultam de normas que prevejam certas restrições em matéria de certos direitos reais –
normalmente limitações de direito administrativo

 restrições – com recondução a exceções equivalentes a permissões a terceiros relativamente a uma coisa que é
objeto de um direito real pertencente a determinado titular
o independentes – restrições que beneficiem um sujeito isolado – 1349º:, prevê-se uma restrição
independente na medida em que se prevê um momento de passagem forçada momentânea; MAS há
outros – 1383º/1384º; 1388º/1;

o de conflito – beneficiam um titular de direito real que se encontre em situação de conflito com um
direito real protegido

o – as restrições de vizinhança são a propósito da propriedade, valem para todos os direitos reais e
também para a posse e outros direitos reais de gozo, não obstante estar regulada a favor da propriedade
– são extensíveis a situações de outros direitos reais, posse e direitos pessoais de gozo

– 1346º: O proprietário de um imóvel pode opor-se à emissão de fumo, fuligem, vapores, cheiros, calor ou ruídos – tal
não tem que ser considerado taxativo bem como à produção de trepidações

pode também opor-se a outros quaisquer factos semelhantes, provenientes de prédio vizinho – “prédio vizinho” há uma
divergência doutrinária no sentido de saber se significa prédio alheio ou contínuo
– os professores PL e AV sustentam que o prédio vizinho tem de ser um prédio contigo e neste sentido o prédio
vizinho há-de ser aquele que é imediatamente contigo ao prédio prejudicada – relação de vizinhança imediata

- o professor MENEZES CORDEIRO entende que prédio vizinho é prédio alheio, no sentido em que pode ser
qualquer prédio – professor PEDRO DE ALBUQUERQUE identifica-se mais com esta opinião pois segundo o professor
regente não faria nenhum sentido que o prédio imediatamente a baixo se pudesse queixar, MAS os posteriores já não
beneficiariam dessa mesma proteção

sempre que tais factos importem um prejuízo substancial para o uso do imóvel ou não resultem da utilização normal do
prédio de que emanam – divergência doutrinária no sentido de saber se estes requisitos são cumulativos ou não –
segundo PEDRO DE ALBUQUERQUE devem provocar um prejuízo substancial e não resultar de uma utilização
normal, cumulativamente para que o titular do prédio se possa opor a elas

1347º - não se exige um dano efetivo, esse dano só é efetivo se houver autorização administrativa, só nessas circunstancia
é que o artigo 1342º impõe a efetividade

1. O proprietário não pode construir nem manter no seu prédio quaisquer obras, instalações ou depósitos de
substâncias corrosivas ou perigosas, se for de recear que possam ter sobre o prédio vizinho efeitos nocivos não
permitidos por lei. 

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2. Se as obras, instalações ou depósitos tiverem sido autorizados por entidade pública competente, ou tiverem sido
observadas as condições especiais prescritas na lei para a construção ou manutenção deles, a sua inutilização só é
admitida a partir do momento em que o prejuízo se torne efetivo. 

3. É devida, em qualquer dos casos, indemnização pelo prejuízo sofrido.

1353º + 1356º e ss. – não existem especificidades particulares e, portanto, fica a menção que são situações que dão
origem a situações de vizinhança e conflitos de vizinhança

construções, edificações e escoamento natural de águas – 1360º e ss. –

paredes e muros – 1370º; 1371º; 1372º; 1374º

restrições de sobreposição – sobre uma mesma coisa podem incidir vários direitos reais – ex: sobre um terreno pode
haver um direito de propriedade e esse terreno pode ser também objeto de um usufruto de outra pessoa

temos um conjunto de restrições que se formam entre os vários direitos e que correspondem às chamadas restrições de
sobreposição – que podem ter várias formas:

1) restrições de sobreposição em paralelo – se os direitos forem colocados em posição de igualdade; ex: comunhão
de direitos reais – compropriedade

A comunhão corresponde a uma matéria particularmente controversa, situação em que temos um concurso de
direitos sobre a mesma coisa, estando esses direitos colocados numa situação de igualdade, paralelismo. O
conflito é resolvido pela limitação específica dos direitos. Por força do artigo 1404º as regras de compropriedade
servem de regime geral para qualquer forma de comunhão de direitos reais.
Na comunhão, as participações dos vários titulares são qualitativamente idênticas (direitos de cada um deles
colocados em posição de paralelismo) embora do ponto de vista quantitativo possam ser diferentes, no sentido
em que cada um deles pode ter quotas diferenciadas – veremos depois como é que essas diferenças quantitativas
influenciam a posição desses titulares

1405º CC regula-se a posição dos comproprietários


1. Os comproprietários exercem, em conjunto, todos os direitos que pertencem ao proprietário singular;
separadamente, participam nas vantagens e encargos da coisa, em proporção das suas quotas e nos termos dos
artigos seguintes. 

2. Cada consorte pode reivindicar de terceiro a coisa comum, sem que a este seja lícito opor-lhe que ela lhe
não pertence por inteiro.

1406º CC – uso de coisa comum

Artigo 1406.º 
(Uso da coisa comum)
1. Na falta de acordo sobre o uso da coisa comum, a qualquer dos comproprietários é lícito servir-se dela,
contanto que a não empregue para fim diferente daquele a que a coisa se destina e não prive os outros consortes
do uso a que igualmente têm direito.
 
2. O uso da coisa comum por um dos comproprietários não constitui posse exclusiva ou posse de quota superior
à dele, salvo se tiver havido inversão do título.

Forma de administração da coisa – 1407º - remete para o capítulo das sociedades - É aplicável aos
comproprietários, com as necessárias adaptações, o disposto no artigo 985.º; para que haja, porém, a maioria
dos consortes exigida por lei, é necessário que eles representem, pelo menos, metade do valor total das
quotas. – vale nesta matéria o disposta em relação às sociedades

vontade maioria requerida - é necessário que eles representem, pelo menos, metade do valor total das
quotas. 

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quando não for possível formar a maioria legal a qualquer um dos consortes – 1407º/2 - Quando não
seja possível formar a maioria legal, a qualquer dos consortes é lícito recorrer ao tribunal, que
decidirá segundo juízos de equidade. 

benfeitorias, disposição e oneração das quotas e direito de preferência – 1408º e ss.

Natureza jurídica da comunhão - a este respeito há uma divergência doutrinária significativa e importante:
- há quem fale em direitos sobre quotas - X
- direito único - X
- existência de pessoa coletiva - X
- existência de uma pluralidade de direitos reais homogéneos entre si –  posição que segundo PEDRO DE
ALBUQUERQUE parece correta

2) restrições de sobreposição ordenadas hierarquicamente - dir-se-á que o conflito é hierárquico se um direito for
mais vasto que outro que é mais restrito, MAS o mais vasto e menos intenso e o mais restrito e mais intenso; ex:
a propriedade e o usufruto

3) restrições de sobreposição ordenadas prevalentemente – na eventualidade de um dos direitos apenas poder ser
exercido em detrimento do outro; ex: existência de 2 hipotecas sucessivas em que a primeira hipoteca a ser
satisfeita é em detrimento da segunda

Dinâmica dos Direitos Reais

Factos jurídicos com eficácia real

NOTAS:
 facto jurídico encontra-se dotado de eficácia real sempre que a sua ocorrência determine nos termos do artigo
408º do CC a constituição, modificação ou extinção de um direito real
 distinção do negócio jurídico reais em 2 sentidos:
o reais do ponto de vista dos efeitos – compra e venda de coisa determinada
o reais quanto à constituição – mútuo, que pressupõe a entrega da coisa mutuada
 Factos reais genéricos (aqueles que são suscetíveis de agir quanto a todos os direitos reais ou pelo menos a uma
certa categoria deles) e específicos (relativos a figuras +/- particulares ou individualizadas)

 cláusulas acessórias típicas


o termo: os direitos reais podem ser constituídos quer a termo inicial quer a termo final
o no que diz respeito à condição importa ter presente o artigo 1307º/1 que afirma de forma expressa que a
propriedade se pode constituir sob condição

 constituição de direitos reais – usucapião


o a usucapião corresponde ao titulo fundamental dos direitos reais de gozo – forma originária de
aquisição de direitos reais de gozo que se sobrepõe a todas as outras
o forma de aquisição de direitos que reais que elimina todos os outros direitos reais
o primeiro dos factos jurídicos reais com eficácia constitutiva originária – usucapião

 acessão – 1325º CC – causa de aquisição da propriedade – algo que é propriedade de uma pessoa se une e
incorpora a outra que não lhe pertence – objeto de pertença alheia; acessão é primariamente uma causa de
aquisição do direito de propriedade; Dá-se a acessão, quando com a coisa que é propriedade de alguém se une e
incorpora outra coisa que lhe não pertencia.

o acessão natural - Artigo 1327º (Princípio geral) - Pertence ao dono da coisa tudo o que a esta acrescer
por efeito da natureza

1327º a 1332º - princípio geral: é o de que pertence ao dono da coisa tudo o que a esta acrescer por efeito da
natureza: 1327º
- CC regula um conjunto de hipóteses nos artigos 1328º a 1332º que não são (todas elas) hipóteses típicas de
acessão tal como está contemplado no 1325º: na verdade, naquelas casos em que se assiste a uma incorporação
de depósitos, de resíduos como resultado da força da natureza, sem que se proceda à individualização do

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depositado não há verdadeiramente união entre duas coisas – está-se não estando perante factos aquisitivos, mas
de hipóteses de modificação de direitos reais, tal como acontece no caso do aluvião, previsto no artigo 1328º
- 1329º: avulsão
- 1330º: mudança de leito
- 1331º: formação de ilhas e mouchões
- 1332º: lagos e lagoas

o acessão industrial – resulta de união de 2 coisas pertencentes a 2 sujeitos distintos por força de facto
humano; é também distinta da especificação - ao contrário da natural, esta resulta da união de duas
coisas pertencentes a sujeitos distintos por força de um facto humano – apesar disto, é também distinta
da especificação – 2 tipos de acessão industrial, nos termos do 1326º2:

 mobiliária - regime estabelecido leva a uma distinção consoante haja boa ou má fé de quem provocou a união ou
a confusão:

 Se existir boa fé: de modo que a separação não seja possível ou sendo acarrete
um prejuízo para alguma das partes – faz seu o objeto adjunto o dono daquele
que for de maior valor, contando que indemnize o dono do outro ou lhe entregue
coisa equivalente – 1333º1
- se houver boa fé e se ambas as coisas forem de igual valor e os donos não acordarem sobre qual deverá ficar com a
coisa - abrir-se-á entre eles licitação, adjudicando-se o objeto licitado àquele que maior valor oferecer por ele; verificada
a soma que no valor oferecido deve pertencer ao outro, é o adjudicatário obrigado a pagar-lha – 1333º2
- 1333º3: se os interessados não quiserem licitar, será vendida a coisa e cada um deles haverá no produto da venda a parte
que deva tocar-lhe
- 1333º4: em qualquer dos casos previstos nos números anteriores, o autor da confusão é obrigado a ficar com a coisa
adjunta, ainda que seja de maior valor, se o dono dela preferir a respetiva indemnização.

 Se existir má fé: 1334º

 imobiliária

 1339º: hipótese de alguém utilizar materiais, sementes ou plantas alheias em terreno próprio –
este adquire os materiais, sementes ou plantas que utilizou, pagando o respetivo valor, além da
indemnização a que haja lugar

 1340º e 1341º: situação em que alguém utiliza materiais, sementes ou plantas próprias em
terreno alheio:

 1340º1: se houver boa fé e o valor que as obras tiverem trazido à totalidade do prédio
for maior que o valor que o prédio tinha antes da acessão: o autor da incorporação
adquire a propriedade dele, pagando o valor que o prédio tinha antes das obras,
sementeiras ou plantações
- 1340º2: se o valor acrescentado for igual, haverá licitação entre o antigo dono e o
autor da incorporação, pela forma estabelecida no n.º 2 do artigo 1333º
- 1340º3: se o valor acrescentado for menor, as obras, sementeiras ou plantações
pertencem ao dono do terreno, com obrigação de indemnizar o autor delas do valor
que tinham ao tempo da incorporação
- 1340º4: entende-se que houve boa fé, se o autor da obra, sementeira ou plantação
desconhecia que o terreno era alheio, ou se foi autorizada a incorporação pelo dono
do terreno

 1341º: hipóteses de má fé: Se a obra, sementeira ou plantação for feita de má fé, tem
o dono do terreno o direito de exigir que seja desfeita e que o terreno seja restituído
ao seu primitivo estado à custa do autor dela, OU, se o preferir, o direito de ficar com
a obra, sementeira ou plantação pelo valor que for fixado segundo as regras do
enriquecimento sem causa

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 1342º: hipótese de alguém fazer obras, sementeiras ou plantações com materiais alheios em
terreno alheio – cabem os direitos conferidos no artigo 1340º ao autor da incorporação, quer
este esteja de boa, quer de má fé

- 1342º2: Se, porém, o dono dos materiais, sementes ou plantas tiver culpa, é-lhe aplicável o
disposto no artigo 1341º em relação ao autor da incorporação; neste caso, se o autor da
incorporação estiver de má fé, é solidária a responsabilidade de ambos, e a divisão do
enriquecimento é feita em proporção do valor dos materiais, sementes ou plantas e da mão-de-
obra
 1343º: prolongamento do edifício por terreno alheio  quando na construção de um edifício
em terreno próprio se ocupe, de boa fé, uma parcela de terreno alheio, o construtor pode
adquirir a propriedade do terreno ocupado, se tiverem decorrido três meses a contar do início
da ocupação, sem oposição do proprietário, pagando o valor do terreno e reparando o prejuízo
causado, designadamente o resultante da depreciação eventual do terreno restante
- 1343º2: É aplicável o disposto no número anterior relativamente a qualquer direito real de
terceiro sobre o terreno ocupado

- uma questão importante é saber quando é que, na acessão, o efeito aquisitivo se dá: se este efeito é automático (OU
SEJA, uma vez verificados os pressupostos da acessão se dá automaticamente a transferência da coisa) OU se deve ser
meramente potestativa (OU SEJA, dependente de manifestação de vontade daquele a quem é conferido o direito de
adquirir):
- PEDRO DE ALBUQUERQUE: refere que à primeira vista muitas normas do regime de acessão parecem
determinar que o efeito é automático – MAS, esta conclusão é desmentida por vários aspetos do regime jurídico
da acessão:
o Em vários lugares, atribui-se claramente a faculdade aos sujeitos de adquirirem ou não
o Existe uma relação entre a aquisição do direito real por acessão e o pagamento de certas quantias por
parte do adquirente: verifica-se, por exemplos, nos artigos 1333º, 1339º, 1340º, 1343º - aquisição do
direito real está dependente do pagamento de determinadas quantias
o Alguns preceitos preveem hipóteses em que o beneficiário não queira adquirir – 1333º3, 1334º, 1335º,
1341º
POR ISSO: devemos concluir que a aquisição por acessão é uma aquisição potestativa e não uma aquisição
automática
- RUI PINTO: chega a conclusões diferentes apenas para o caso de acessão imobiliária – mas, por partir no
processo interpretativo de um pressuposto que parece a PEDRO DE ALBUQUERQUE metodologicamente
viciado  RUI PINTO alicerça-se num simples exercício exegético de interpretação da letra do 1340º3, sem
consideração das consequências nefastas que a solução por ele preconizada provaria – por exemplo, a perda
imediata da propriedade, com indemnização deferida; impossibilidade de as partes estipularem um desfecho
diferente do sucedido; risco imediato sobre o beneficiário da acessão, mesmo que ele a desconhecesse
- PEDRO DE ALBUQUERQUE: não concorda com esta posição

 ESPECIFICAÇÃO – 1336º e 1337º - Enquanto na acessão há união de uma coisa pertencente a titulares
distintos, aqui temos incorporação de trabalho em coisa alheia

Consequências variam conforme a boa ou má fé

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quando alguém pelo seu trabalho dá nova forma a coisa móvel pertencente a outrem de tal modo que não é mais
suscetível a coisa de ser restituída à forma originária ou pelo menos não é sem a perda do valor gerado pela especificação
- não se está diante uma situação em que se assista à união de duas coisas pertencentes a titulares diferentes – é diferente
da acessão; na especificação: há incorporação de trabalho em coisa alheia
- consequências desta variam conforme a boa ou má fé da pessoa que realizou o trabalho conforme o disposto no 1336º e
1337º:

 Havendo boa-fé: 1336º vem dizer que quem de boa fé der nova forma a coisa móvel faz sua a coisa transformada se
ela não puder ser restituída à forma originária ou pelo menos tal não for possível sem a perda do valor gerado pela
especificação – por isso, a pessoa tem o direito a ficar com a coisa – MAS, quem ficar com a coisa, é obrigado a
indemnizar o valor que lhe pertencer

 Havendo má fé: 1337º: coisa é restituída ao seu dono no estado em que ela se encontrar, com direito à indemnização
de dano sem que o dono seja obrigado a indemnizar o especificar, se o valor da especificação não tiver aumentado
em mais de 1/3 o valor da coisa especificada; já se o aumento for superior: terá de haver uma indemnização daquilo
que excede o 1/3
Cláusulas acessórias típicas
- termo: direitos reais podem ser constituídos quer a termo inicial, quer a termo final
- condição: 1307º1 – afirma de forma expressa que a propriedade se pode constituir sob condição

Factos constitutivos de direitos reais

- modificação de um direito real – é antes de mais uma modificação do respetivo conteúdo que exige a manutenção da
identidade do direito real
- como diz MC: modificação do direito real como qualquer alteração que sobrevenha ao conteúdo do direito – pressupõe
o respeito pelo tipo do direito real inicial e a permanência da coisa objeto

TIPOS DE DIREITOS REAIS

1 - Propriedades especiais

1.1 Propriedade temporária

- 1307º2: só admitida nos casos especialmente previstos na lei – propriedade temporária


- 1370º1 e 3: propriedade sob condição

Como hipóteses temos:

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 Propriedade fiduciária
 Propriedade superficiária: na eventualidade do direito de superfície não ser perpétuo

Tirando estas: as partes aparentemente estariam impossibilitadas de criar novas situações de propriedade temporária –
por força do disposto no 1307º2 e do princípio da tipicidade dos direitos reais – MAS, o artigo 409º: parece deixar uma
porta muito ampla à propriedade sujeita a termo – esta é uma propriedade temporária – fá-lo através da figura da reserva
de propriedade  POR ISSO: parece apenas ficar de fora a possibilidade de um contrato por força do qual as partes
previssem a transferência da propriedade, com a cláusula de que ela se extinguirá num determinado momento – esta
situação é proibida pelo 1307º2: mas, parece que apenas esta hipótese está vedada

1.2 Propriedade horizontal

- sem prejuízo da unidade de um prédio, as diversas frações desse prédio podem representar unidades independentes e
pertencer a proprietários diversos
- NÃO OBSTANTE esta designação, esta figura tem aplicação quando se trata de proceder à divisão de diversas frações
autónomas de um prédio em altura (fenómeno mais conhecido), MAS também podem também sujeitar-se ao regime da
propriedade horizontal prédios que correspondam a terrenos, onde são construídos em extensão e ao longo do terreno um
conjunto de frações autónomas, com partes do terreno eventualmente com campos de ténis, piscinas, que correspondem a
zonas comuns – OU SEJA: a propriedade horizontal não tem apenas de corresponder a frações autónomas horizontais de
um prédio que é dividido em altura com um conjunto de frações autónomas horizontais que são horizontalmente
estabelecidas umas em cima das outras
Mesmo quando haja uma divisão de um prédio em altura  as frações autónomas podem em certos casos podem ser
divididas na vertical – não têm necessariamente que ser apenas na horizontal – pode haver uma fração por andar ou uma
fração que ocupe verticalmente vários andares do mesmo prédio

POR ISSO: são possíveis 3 situações:

1. Dividir-se um prédio com uma ou várias frações autónomas por andar horizontalmente divididas – propriedade
horizontal dividida na vertical
2. Propriedade horizontal que é na realidade uma propriedade vertical
3. Propriedade horizontal, em que não há divisão por andares – é um terreno com várias construções lá
implantadas – com zonas comuns

- regime: consta dos artigos 1414º e seguintes


- a cada interveniente da propriedade horizontal – chama-se condómino – cada um é proprietário exclusivo da sua fração
e comproprietário das partes comuns – 1420º1

As frações em propriedade singular – devem ser perfeitamente autónomas – estas devem ainda obedecer a um conjunto
de especificações que correspondem aos artigos 1415º, 1416º e 1419º, sendo que as partes comuns são as que são
indicadas no 1421º

Requisitos legais da propriedade horizontal – 1416º:


 A falta de requisitos legalmente exigidos importa a nulidade do título constitutivo da propriedade horizontal e a
sujeição do prédio ao regime da compropriedade: OU SEJA: cada consorte ficará detentor de uma quota ou na
falta de fixação da quota do valor correspondente à sua fração
 1416º2: Têm legitimidade para arguir a nulidade do título os condóminos, e também o Ministério Público sobre
participação da entidade pública a quem caiba a aprovação ou fiscalização das construções

- por força do 1418º1: no título constitutivo serão especificadas as partes do edifício correspondentes às várias frações,
por forma que estas fiquem devidamente individualizadas, e será fixado o valor relativo de cada fração, expresso em
percentagem ou permilagem, do valor total do prédio
ALÉM DISSO e sem prejuízo do estabelecido no nº3 do 1422ºA e do disposto em lei especial  o titulo constitutivo da
propriedade horizontal só pode ser modificado por escritura pública ou por documento particular autêntico, havendo
acordo de todos os condóminos
Temos que analisa vários aspetos problemáticos:

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 Relações de vizinhança no âmbito de propriedade horizontal - As normas que analisamos anteriormente e que
são relativas aos conflitos de vizinhança são aplicáveis na totalidade

 Facto de as diversas frações que integram o prédio na propriedade horizontal pertencerem ao mesmo edifício –
isso leva a uma situação de concurso e de conflito entre direitos e partes da coisa a resolver através de um
conjuntode relações que se estabelecem:
- proibições previstas no artigo - 1442º - vedado aos condóminos prejudicar, seja com obras novas, seja por falta
de reparação, a segurança, a linha arquitetónica ou o arranjo estético do edifício

 Compropriedade nas coisas comuns

conflitos de sobreposição resolvidas por comunhão de partes comuns – solução consiste na obrigação de contribuir para
as despesas necessárias à conservação e fruição das partes comuns – sendo que na falta de disposição em contrario, as
contriubuições são proporcionais aos valores das respetivas frações (1424º) - obrigação de contribuir com as despesas
necessárias à fruição e à conservação das partes comuns:

Artigo 1424ºEncargos de conservação e fruição

o nº1: na falta de disposição em contrário, as contribuições são proporcionais aos valores das respetivas
frações
o nº2: vem dizer que as despesas podem ficar a cargo dos condóminos em partes iguais ou em proporção
à devida fruição
o nº3: as despesas relativas aos lanços de escadas ou às partes comuns do prédio que sirvam
exclusivamente algum dos condóminos ficam a cargo dos que delas se servem
o nº4: despesas com elevadores – só participam os condóminos cujas frações por eles possam ser
servidas
o nº5: despesas com rampas de acesso e às plataformas elevatórias – só participam os condóminos que
tiverem procedido à referida colocação

- atender ainda a um outro conjunto de preceitos:


o 1425º 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7
o 1426º 1, 2, 3, 4, 5
o 1427º
o 1428º 1, 2, 3, 4
o 1429º 1, 2
- condóminos não gozam de direito de preferência na alienação por um deles da respetiva fração – 1423º

Órgãos da propriedade horizontal:


1. Administrador: eleito e exonerado pela assembleia geral nos termos do 1435º, podendo também ser designado
pelo tribunal – pertencem-lhe a generalidade das funções executivas e administrativas, tendo também algumas
funções de representação dos condóminos (1436º): é muito usual a ideia de que, não havendo ninguém que se
voluntarie para ser administrador, a função de administração poderia ser compulsivamente imposta ao
condómino mais recente no edifício – MAS, isso não é verdade – o que o regime da propriedade horizontal
estabelece no 1435º é uma coisa absolutamente diferente  1435º2: se a assembleia não eleger administrador,
ele será designado pelo tribunal; por sua vez o nº3 diz ainda que o administrador também pode ser exonerado a
requerimento de qualquer condómino; nº4: cargo pode ser remunerável e tanto pode ser desempenhado por um
condómino ou por terceiro; o período de funções é de um ano, renovável, salvo disposição em contrário; nº5:
administrador mantém-se em funções até que seja eleito ou nomeado o seu sucessor
- 1435ºA: possibilidade de haver designação de um administrador provisório
- por isto, a solução é completamente diferente daquilo que muitas pessoas pensam – atender aos diversos nºs do
artigo 1435º A
- 1436º: funções do administrador
2. Assembleia: dentro da sua competência, devemos distinguir a competência corrente da competência especial:
a. Competência corrente: administração das partes comuns, segundo o artigo 1430º1
b. Competência especial: resulta de preceitos e está sujeita a regras de maioria ad hoc – 1428º2 e 1434º1
- pode ser usada como local onde se deliberam as alterações ao título constitutivo, mas nesta eventualidade vale
a regra de unanimidade: 1419º - nas mesmas condições (unanimidade), a assembleia pode estabelecer regras
sobre o uso da fração de cada condómino (1422º2 d))

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Natureza jurídica:
- No que diz respeito à natureza jurídica da propriedade horizontal, têm sido propostas várias teses:
 Propriedade horizontal é uma forma particular de propriedade especificada pelo seu objeto
 Propriedade horizontal é um novo direito real, caracterizado por resultar de um complexo incindível entre a
propriedade da fração e a compropriedade das partes comuns
 Propriedade horizontal é uma forma de propriedade especial – PEDRO DE ALBUQUERQUE concorda com
esta: embora se conjuguem na propriedade horizontal propriedade e compropriedade, a propriedade é o
fundamental e a compropriedade é algo de meramente acessório ou instrumental: por isto, podemos dizer que a
propriedade horizontal é uma propriedade especial

USUFRUTO, USO E HABITAÇÃO


USUFRUTO
- corresponde ao direito de gozar temporária e plenamente de uma coisa ou direito alheio sem alterar a sua forma ou
substância – 1439º: é um direito real de gozo menor que recai sobre uma coisa que é propriedade de outrem
- onera uma coisa que é propriedade de outrem
- tanto pode ser do direito de propriedade, como do direito de superfície
- é um direito de gozo (dá a totalidade do gozo, com ressalva do que respeita à alteração da forma ou substância do
objeto) e é um direito limitado (não pode proceder à alteração à forma ou substância do objeto) e é um direito temporário,
não podendo exceder a vida do usufrutuário e, se for estabelecido em benefício de pessoa coletiva, não pode ultrapassar
30 anos

Uma situação particular de usufruto: usufruto de coisas consumíveis:


 artigo 1451º: não se está na presença de uma verdadeira situação de usufruto, mas de uma hipótese meramente
aparentada de usufruto

- outra situação: usufruto de coisas deterioráveis: 1452º 1 e 2

Regime do usufruto:
- remete-se para o título constitutivo do usufruto e na eventual falta ou insuficiência desse título para o regime supletivo –
1445º
- o regime supletivo consta dos artigos 1446º e seguintes

Modos de constituição do usufruto (1440º):


 contrato
 testamento
 usucapião
 disposição da lei

Vicissitudes do usufruto  vale a mesma ideia de supletividade que vimos anteriormente valer para o regime do usufruto
– salvo as restrições impostas pelo título constitutivo ou por lei, o usufrutuário pode alienar o seu direito definitiva ou
temporariamente e pode onerar esse direito

Principal causa de extinção do usufruto: morte do usufrutuário na hipótese de beneficiar uma pessoa natural – 1443º e
1476º1 a)
- na hipótese do 1441º, há a subsistência do usufruto para além da morte do usufrutuário, mas não há sucessão do
usufruto – não se transfere para os herdeiros do usufrutuário; temos um usufruto sucessivo a favor de pessoas que foram
designadas para serem usufrutuárias
- usufruto pode ser concedido por diversas vidas, por força do 1441º

Usufruto: atribui a universalidade do uso – partes podem retirar partes do gozo do âmbito de um concreto usufruto, sendo
que o princípio é o que está previsto no 1446º
- usufrutuário beneficia também de poderes de transformação, mas apenas enquanto a administração não contrariar os
limites genéricos representados pelo dever de não alterar a coisa e o seu destino económico – por força do 1450º

No que diz respeito a estas vinculações, resulta do 1449º e 1446º - vinculações impostas ao usufrutuário – este deve
respeitar a forma e substância da coisa, o seu destino económico, deve administrá-la como faria um bom pai de família,
sendo que, no entanto, estas 2 últimas obrigações são supletivas

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USO E HABITAÇÃO
- direito de uso: direito real de gozo de uma coisa na medida das necessidades do titular e da sua família – a habitação é
um direito real que parece não apresentar um tipo diverso do uso  existe uma mera variação do objeto entre um e outro
direito:
 o uso é o direito referido a um qualquer objeto
 habitação é um direito de uso referido a casas de morada, como se percebe pelo 1484º2

Relação do direito de uso e habitação e o usufruto:


- o que sucede é que o uso e habitação à semelhança do usufruto dão apenas o gozo temporário de uma coisa, MAS
tomam estes dois últimos direitos o aspeto de usufrutos limitados, na medida em que apenas é outorgado na medida das
necessidades pessoais do seu titular
- à figura do uso e habitação: aplicam-se as normas do usufruto, na medida do possível, sendo que se excetua, no que diz
respeito aos modos de aquisição, a usucapião porque o uso e habitação não é suscetível de aquisição por usucapião, como
se verifica nos artigos 1485º e 1293º

Causas de extinção do uso e habitação: temos de considerar mais uma para além das que se verificam no usufruto: trata-
se da extinção por cessação da necessidade pessoal que justificou a constituição do uso e habitação

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SERVIDÃO
- um direito real de gozo menor que permite aumentar as utilidades que um direito real de gozo sobre um imóvel
proporcionaria mediante uma restrição correlativa de um direito de gozo sobre um imóvel  esta definição afasta-se da
que é dada pelo 1543º1, mas isso não significa uma disparidade de fundo daquilo que consta deste preceito
- servidão pressupõe necessariamente dois imoveis, entre os quais estabelece uma conexão que beneficia um deles e o
fundamento ou base real dessa situação consta do 1545º ao consagrar o princípio da inseparabilidade – quer a posição
ativa, quer a passiva não poderiam ser separadas dos prédios a que respeita – MAS, salvas as exceções na lei
- é ainda a situação jurídica do prédio que avulta no enunciado do princípio da indivisibilidade – 1546º: servidão não
padece com a divisão dos prédios – ou seja, a servidão é uma relação imobiliária ou uma relação propter rem; é ainda um
direito de gozo – mas a coisa cujo gozo o direito serve não é a mesma que constitui o objeto da servidão
- quanto ao conteúdo: sublinha-se que este não está sujeito a quaisquer restrições especiais – princípio da tipicidade dos
direitos reais não se estende ao seu conteúdo – o que resulta do 1544º: podem ser objeto de servidão quaisquer utilidades
ainda que futuras ou eventuais, suscetíveis de serem gozadas por intermédio do prédio dominante, mesmo que não
aumentem o seu valor
- este problema cruza-se com o das fontes de servidões, na medida em que a par das servidões constituídas por negócio
jurídico, há servidões constituídas por ato coercivo – por exemplo, sentença ou decisão administrativa:
 a possibilidade de constituição de servidões com conteúdo atípico respeita às servidões constituídas por
negócios jurídicos  POR ISSO, pode aqui falar-se numa atipicidade do conteúdo da servidão, MAS isto não
significa que a servidão deixe de constituir um tipo no conjunto dos direitos reais de gozo no sistema jurídico
português – na verdade, a atipicidade não pode ir ao ponto de inutilizar o conteúdo essencial e características da
servidão decorrente dos artigos 1543º e seguintes

Proveito decorrente da constituição da servidão tem de ser necessariamente um proveito da coisa e só mediatamente um
proveito do seu titular – de facto, à determinação do conteúdo da servidão liga-se um elemento de análise de tal modo
importante que figura sempre na definição da servidão – por isso, este proveito é essencial – sendo que o 1544º esclarece
uma das faces resultantes do proveito decorrente da servidão, MAS de modo algum vem pôr em causa o princípio  uma
limitação ao conteúdo da servidão é a de que as utilidades por ela proporcionadas sejam suscetíveis de ser gozadas por
intermédio do prédio dominante – de acordo com MC, trata-se todavia de uma limitação radical, porque as utilidades a
gozar por meio do prédio dominante são utilidades acessórias sempre como forma de ampliar o gozo daquele prédio
dominante

Situações jurídicas passivas que cabem no âmbito do direito de superfície:

 Obrigação de suportar o custo das obras


 Necessidade de o beneficiário do prédio dominante suportar a mudança do local de servidão, mesmo para prédio
de 3º se a mesma for conveniente e não prejudicar os interesses do dono do prédio dominante – 1568º/1
 Necessidade do dono de obra mudar o modo ou o tempo de servidão se igualmente a mesma for conveniente ao
dono do prédio serviente e não prejudicar os interesses do dono do prédio dominante – 1568º/3

Extinção da servidão – pode ser por diversas formas – 1569º CC

a) Pela reunião dos dois prédios, dominante e serviente, no domínio da mesma pessoa; - forma análoga à confusão,
forma de extinção de obrigações quando se verifica a reunião numa só pessoa da qualidade de devedor ou de
credor; aqui temos uma forma de extinção do direito de servidão quando se verifica a reunião numa só pessoa
da qualidade de titular do prédio dominante, aqui prédio serviente
b) Pelo não uso durante vinte anos, qualquer que seja o motivo;
c) Pela aquisição, por usucapião, da liberdade do prédio;
d) Pela renúncia;
e) Pelo decurso do prazo, se tiverem sido constituídas temporariamente.
f) Desnecessidade da servidão- esta extinção restringe-se à extinção de servidão constituídas por usucapião e às
servidões legais – 1569º/2 e 3
g) Remissão pela iniciativa do dono do prédio serviente – sendo que no entanto, a remissão se aplica apenas às
servidões para aproveitamento de águas
h) Transferência do local da servidão para outro prédio

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Direito de Superfície
Pode ser definido como o direito real de ter em coisa incorporada em terreno alheio – 1524º e ss. – que contém o regime
correspondente a esta figura

Próxima da figura do direito de superfície é a figura do direito de sobreelevação – 1526º - trata-se do direito de construir
sobre edifício alheio sendo que esse direito de construir sobre edifício alheio está sujeito às disposições que vigoram em
materia de direito de superfície e às limitações impostas à constituição da propriedade horizontal  isto significa que
uma vez levantado o edifício são aplicáveis as regras da propriedade horizontal passando o construtor a ser condómino
nas partes referidas no artigo 1421º - partes comuns – se alguém construir sobre edifício alheio aplica-se este regime

Qual a diferença entre o direito de sobreelevação e o direito de superfície?

- No direito de superfície, aquilo que nós temos é uma construção ou plantação que as partes acordam sujeitar ao
regime do direito de superfície e que é implantada num terreno alheio
- Já o direito de sobreelevação, é ao contrário, uma construção sobre um edifício alheio

No que diz respeito ao objeto:

- O direito de superfície incide necessariamente sobre um imóvel, que é portanto sempre um terreno se se abstrair do
direito de sobrelevação; tem por objeto qualquer obras ou plantações que sejam realizadas em terreno alheio e que se
convencione sujeitar a este regime; o artigo 1525º/2 vedava a constituição de obra no subsolo, MAS não é essa a solução
atual do preceito – o qual admite agora que o direito de superfície possa ter por objeto a construção ou manutenção de
obra em solo alheio e esta alteração ao CC foi introduzida para permitir a construção de parques de estacionamento em
zonas que são propriedade privada alheia – terrenos que não pertencem às empresas que constroem parques de
estacionamento
 aplica-se também o regime de direito de superfície a casos de construção em profundidade, isto desde que o CC foi
alterado nesse sentido

Duração - Pode ser temporário ou prepétuo:

 temporário – extingue-se com o decurso do tempo – 1536º alíena c) – a obra reverte assim que termina o prazo,
para o proprietário do terreno, sendo que nesse caso, será devida uma indemnização ao proprietário da obra ou
da plantação calculada de acordo com as regras do enriquecimento sem causa – a obra reverte logo que expire o
prazo nos termos do artigo 1538º:

1. Sendo o direito de superfície constituído por certo tempo, o proprietário do solo, logo que expire o prazo,
adquire a propriedade da obra ou das árvores.
2. Salvo estipulação em contrário, o superficiário tem, nesse caso, direito a uma indemnização, calculada
segundo as regras do enriquecimento sem causa.
3. Não havendo lugar à indemnização, o superficiário responde pelas deteriorações da obra ou das plantações,
quando haja culpa da sua parte.

 perpétuo - A constituição deste direito pode ter com contrapartida o pagamento de uma única prestação ou de
uma determinada prestação anual prepétua ou temporária a título de gozo – figura do cânone superficiário que
tem as características de um ónus – eventualidade do preço

Transmissibilidade do direito de superfície

Nos termos do artigo 1534º, qualquer dos direitos, seja de superfície, seja de propriedade é livremente tranmissivel

Extinção

É a prevista nos artigo 1536 e ss.

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a) Se o superficiário não concluir a obra ou não fizer a plantação dentro do prazo fixado ou, na falta de fixação, dentro do
prazo de dez anos;
b) Se, destruída a obra ou as árvores, o superficiário não reconstruir a obra ou não renovar a plantação, dentro dos
mesmos prazos a contar da destruição;
c) Pelo decurso do prazo, sendo constituído por certo tempo;
d) Pela reunião na mesma pessoa do direito de superfície e do direito de propriedade;
e) Pelo desaparecimento ou inutilização do solo;
f) Pela expropriação por utilidade pública.

Direitos que marcam a posição de cada um

 Propriedade do chão – é um direito que pertence necessariamente ao fundeiro


 Direito de fazer um implante - (traduzido no edifício, plantação OU direito de superfície em sentido estrito) este
direito pode não se concretizar de início porque o códio admite a constituição do direito de superfície por
alienação de construção ou árvores já existentes – 1528º - neste caso não se conscretiza o direito de fazer o
implante
 Direito ou cânone que onera o direito do superficiário – direito que existe na eventualidade de se prever uma
contraprestação do superficiário consistente no pagamento de uma prestação anual, uma vez a obra implantada
surgem novos direito reais que também fazem parte deste conteúdo ou estrutura deste direito real de superfície,
a saber a propriedade do implante pertencente ao superficiário, isto apesar do professor MENEZES CORDEIRO
negar estar-se perante um direito de propriedade por não ser exclusivo e pleno, todavia a noção de propeidade
especial apresentada por OLIVEIRA ASCENSÃO permite que este direito no âmbito da noção de proprietário,
para além deste direito de propriedade do implante, uma vez implantada a obra, suge a expectativa de aquisição
da coisa, por parte do fundeiro, se a superfice é temporária, porque aquilo que sucede quando o direito de
superfície temporário se extingue é a aquisição da obra ou implante por parte do propriedatrio do edifício, do
fundeiro, tendo então que pagar se outra coisa não tiver sido convencionada, uma indenmnziação calculada nos
termos das regras do enriquecimento sem causa ao autor da obra ou do implante
 Direito de preferência concedido ao proprietário – sendo aplicável o disposto nos artigos 416º a 418º por força
do disposto no artigo 1535º.

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DIREITO REAL DE HABITAÇÃO PERIÓDICA
Direito que foi criado entre nós pelo DL 355/81 que veio prever o regime desta figura que depois mais tarde veio a ser
objeto do DL 275/93 entretanto objeto de varias alterações - por força deste regime sobre unidades de alojamento podem
constituir-se direitos reais limitados a um período de um tempo.
Naquilo que diz respeito ao objeto do direito de habitação periódica ele é constituído por uma coisa móvel integrada em
aparte hotéis turísticos ou em aldeamentos turísticos, sendo o direito limitado a certo período por ano – aquilo que for
contratualizado: a cada ano este direito renova-se mas é limitado a certo período por ano.
 O direito real em analise é perpetuo, na falta de convenção em contrário, no sentido em que, se renova a cada
ano: podendo ser fixado, todavia, um outro limite que afasta a duração perpétua, desde que, esse prazo fixado
não seja inferior a um ano.

Poderes do titular do direito real de habitação periódica:


 Faculdade de habitar a unidade de alojamento pelo período de tempo a que respeita o seu direito;
 Direito a utilizar as instalações e equipamentos de uso comum do empreendimento e beneficiar dos serviços
prestados pelo titular do empreendimento;
 Faculdade de exigir, em caso de impossibilidade de utilização da unidade, que o proprietário lhe faculte um
alojamento alternativo sujeito ao mesmo regime, de categoria idêntica ou superior, num local próximo do local
do objeto do contrato de habitação periódica  isto se a impossibilidade for devida ao proprietário ou caso
fortuito motivado por circunstancias anormais e imprevisíveis, alheias àquele que as invoca e cujas
consequências não podiam ter sido evitadas apesar de todas as diligencias terem sido feitas;
 Possibilidade de ceder o exercício das faculdades que integram o seu direito – artigo 21º do regime do direito
real de habitação periódica  o titular pode arrendar a 3º ou ceder de outro modo o uso e o exercício do seu
direito
 Artigo 12º - o titular do direito pode onerar ou dispor desse seu direito;

Limitações ao titular do direito:


 No exercício do seu direito, o titular deve agir como um bom pai de família – estão vedadas a utilização para
fins diversos daqueles a que se destinam, tal como está vedada a prática de atos proibidos – artigo 21º, nº1.

Obrigações do titular do direito:


 Obrigação de pagar anualmente ao proprietário a prestação pecuniária que é invocada no titulo de constituição –
artigo 21º, nº1 – esta prestação periódica destina-se a compensar o proprietário das despesas com os serviços de
utilização e de exploração turística e também a repor as contribuições, impostos ou outros encargos previstos e
que tenham sido suportadas pelo titular de alojamento – para além disto, estas retribuições destinam-se ainda a
remunerar o titular do arrendamento pela sua gestão  não pode ser dada outra utilização a esta prestação
periódica;

Obrigações do proprietário do empreendimento:


 Ele não pode constituir outros direitos reais sobre a mesma categoria – artigo 2º, nº1 do regime dos direitos reais
de habitação periódica  MAS, isso não impede que, se necessário, a constituição seja sujeita ao regime da
propriedade horizontal – segundo PA isto não corresponde a uma obrigação, mas antes a uma limitação;
 Obrigação de administração e conservação das unidades de alojamento, do seu equipamento e recheio e das
instalações e equipamento de uso comum do empreendimento - artigo 25º do regime do direito real de
habitação periódica;
 Dever de efetuar as reparações necessárias em caso de degradação não imputável ao titular do direito – artigo
27º do mesmo regime;
 Tem de pagar as taxas, impostos e outros encargos anuais que incidem sobre a propriedade;
 Dever de cumprir prestações acessórias;
 Estabelecer um fundo de reserva – prestar caução e proceder à prestação de contas – artigos 30º, 31º e 32;
 Existe um conjunto de outros deveres que acrescem aos analisados: artigo 33º e 25º do regime de habitação
periódica – destaque para a existência de uma responsabilidade subsidiaria do proprietário do empreendimento
em caso de cessão do seu direito e da sua posição;
 Artigos 36º e 37º fixam os casos e a forma de destituição do proprietário do cargo de administração.

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Extinção do direito real de habitação periódica:
Sujeito às causas de extinção dos direitos reais – MAS, a renuncia do direito é, todavia, objeto de regulamentação
especifica no artigo 42º deste diploma  não há grandes complexidades.

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DIREITO REAL DE HABITAÇÃO DURADOURA
Trata-se de um direito de uma ou mais pessoas de residirem de forma permanente e vitalícia numa habitação mediante o
pagamento ao proprietário de uma caução inicial e de uma prestação mensal – figura de direito que foi criada pelo DL
nº1 de 2020 de 9 de Janeiro.
 Qualquer proprietário de uma habitação pode constituir o direito real de habitação duradoura em favor de um ou
mais moradores, desde que, a habitação não tenha encargos ou ónus (ex: hipoteca) e haja a entrega do imóvel ao
morador com um nível de conservação no mínimo medio, devendo o proprietário da habitação proceder a uma
avaliação prévia ao estado de conservação dessa mesma habitação que deve ser feita por arquiteto, engenheiro
ou engenheiro técnico com inscrição ativa na mesma ordem profissional – a constituição deste direito é
realizada através de contrato, sendo que, deve ser observada a forma de escritura publica ou de documento
particular com as assinaturas reconhecidas presencialmente, encontrando-se este regime sujeito a registo predial
no que diz respeito à sua constituição, mas também à sua extinção – registo esse a requerer pelo morador no
prazo de 30 dias a contar da data da celebração do contrato.

O direito real de habitação duradoura atribui ao morador (que pode ser qualquer pessoa ou um conjunto de pessoas
singulares) passa a ter o direito a residir toda a vida na habitação tendo de cumprir determinados deveres e usufruindo de
alguns direitos  este direito funciona como um arrendamento vitalício e foi implementado para fazer face a situações
de aquisição de habitação própria que podem representar um grande esforço financeiro para as famílias em geral e,
portanto, é um direito que foi implementado para fazer face a situações de habitação periódica e de arrendamento
ocasional.
Assim sendo, o direito real de habitação duradoura, surge como uma alternativa às soluções de aquisição de habitação
própria ou de arrendamento habitacional uma vez que o seu titular não tem de adquirir a propriedade da habitação mas
tem direitos semelhantes ao do usufruto vitalício e, como tal, mais amplos do que o do arrendatário.
Neste sentido, este regime procura conciliar as necessidades das famílias na ocupação do alojamento com as de
flexibilidade habitacional que são próprias das dinâmicas pessoais ou profissionais (ex: divorcio, alteração do local de
trabalho) – este direito permite aos residentes permanecer na mesma habitação durante períodos prolongados, podendo
ser uma solução vitalícia se assim o desejaram  procura ainda que haja uma redução da necessidade de endividamento
que é necessário para a aquisição, oferecendo ao proprietário uma oportunidade ao proprietário de negócio de baixo
risco, podendo os montantes em divida serem reduzidos ao saldo da caução com o direito a que o imóvel seja devolvido
com um alto nível de conservação.
 Este direito implica ainda alguns encargos para os proprietários que são reduzidos em comparação com o
arrendatário, dado que, as obras de conservação e o pagamento do IMI estão a cargo do morador.

Não obstante isto, os moradores podem renunciar ao direito em qualquer momento, sendo que, nos primeiros 10 anos é-
lhes devolvida a totalidade da caução que pagaram para terem este direito real de habitação real duradoura

- Este direito real tem sido objeto de criticas muito generalizadas e transversais aos diversos setores que podiam estar
interessados neste tipo de utilização: o Professor ML, na qualidade de presidente da associação dos proprietários em
lisboa veio fazer criticas publicas muito significativas dizendo que do ponto de vista dos proprietários não havia interesse
nem utilidade nenhum neste direito  segundo PA, só com o tempo se vai conseguir perceber o alcance e a utilidade do
preceito criado este ano e temos de perceber que de acordo com este regime o direito real de habitação duradoura se
destina a facultar a uma ou mais pessoas singulares o gozo de uma habituação alheia como sua residência permanente.

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