Você está na página 1de 13

PRÉ-UNIVERSITÁRIO OFICINA DO SABER Aluno(a):

DISCIPLINA: Literatura PROFESSORES: Suéllen da Mata

CLASSICISMO TEXTO 7

Contexto histórico-cultural
No século XV, a história da humanidade começou a mudar em função de uma série de novidades. A
descoberta dos caminhos marítimos para a Índia e para a América trouxe mudanças profundas na visão
que os europeus tinham do mundo — não apenas pela constatação de que a Terra era redonda, mas
principalmente pelo contato com costumes diferentes de outros povos. A capacidade humana de
descobrir, de investigar e de realizar conferiu ainda mais peso à herança clássica de elevação do homem,
que reafirmou sua condição de superioridade no mundo em que vivia.

Verifica-se, ainda nessa época, o desenvolvimento das ciências matemáticas e experimentais, das quais
Copérnico (1473-1543) e Galileu Galilei (1564-1642) são representantes importantes, principalmente
em função de seus trabalhos a respeito do heliocentrismo — segundo o qual o Sol seria o centro do
Universo, e não a Terra (como se imaginava até então).

O desenvolvimento científico atingiu também a produção


cultural: com novas tecnologias, os livros ficaram cada vez
mais baratos e acessíveis. A maior parte da população
europeia não tinha acesso a eles, mas uma parte
significativa da burguesia ascendente começou a ver na
educação uma forma de distinção social, o que aumentou o
interesse pela arte e pela formação educacional,
favorecendo a criação e o desenvolvimento de
universidades.

A maior novidade desse momento, no entanto, foi


a valorização atribuída à figura humana — fruto do
antropocentrismo, já referido como um conjunto de ideias
que confere grande importância ao ser humano.

Um pouco antes dessa mudança em toda a Europa, algo


curioso ocorreu na Itália já no fim do século XIV: o velho se
tornou novo. Os artistas buscaram fonte de inspiração na DA VINCI, Leonardo. O homem vitruviano. c.
Antiguidade grega e romana — a chamada era clássica. A 1492. Desenho a bico de pena sobre papel, 34 × 26
arte antiga renasceu. Por essa razão, expressões cm. Galeria da Academia, Veneza, Itália. O nome
desse desenho foi escolhido para homenagear
como Classicismo e Renascimento foram (e ainda são)
Vitruvius Pollio, arquiteto latino que viveu no
usadas para denominar a estética desse período. Como século I a.C. e definiu o que considerava as
exemplo dessa nova estética, é possível citar O homem proporções ideais do corpo humano masculino.
vitruviano, uma obra na qual são evidentes o interesse pela Essa obra expressa o ideal clássico da beleza, que
obedece a uma regra geométrica chamada
figura humana e a harmonia equilibrada entre as partes do proporção áurea.
corpo.
Saiba mais
O desenho a bico de pena sobre papel é uma composição bidimensional constituída de linhas, pontos e
formas planas, assim como a pintura e a gravura. Pode ser considerado tanto um processo (em que uma
superfície, em geral o papel, é pressionada por lápis, caneta, pincel, bico de pena, etc.) quanto um
resultado (ou seja, a própria imagem obtida).
É utilizado não apenas por artistas, mas também por profissionais de vários setores.
Convenções clássicas renascentistas
Na Antiguidade, o termo clássico se referia aos autores estudados nas classes de estudantes, tais como:
Homero, Virgílio, Ésquilo, Eurípedes, Cícero, Horácio, Platão e Aristóteles. As obras lidas eram vistas
como modelos de perfeição, servindo de parâmetro para avaliação de outras. Na Itália, iniciou-se, no final
do século XIV, um movimento de redescoberta, tradução e estudo das obras clássicas.

No terreno da literatura, isso queria dizer resgatar a poesia clássica, valorizar o antropocentrismo,
enfatizar a racionalidade, retomar as ideias de Platão e Aristóteles e definir um ideal de perfeição
estética.

O conceito de antropocentrismo
Em 1486, o filósofo italiano Pico della Mirandola (1463- -1494) escreveu um texto que talvez lhe tenha
parecido excessivamente ousado, porque só seria publicado dois anos após sua morte. Trata-se do
discurso A dignidade do homem, em que o filósofo apresenta uma interpretação — surpreendente para a
época — que se referia à criação do homem por Deus (“Artífice”, no fragmento que você vai ler a seguir).

Decretou então o ótimo Artífice que àquele ao qual nada de próprio pudera dar, tivesse como
privado tudo quanto fora partilhado por cada um dos demais. Assim, pois, tomou o homem essa obra
de tipo indefinido e, tendo-o colocado no centro do universo, falou-lhe nesses termos: “A ti, ó Adão,
não te temos dado nem uma sede determinada, nem um aspecto peculiar, nem um múnus singular
precisamente para que o lugar, a imagem e as tarefas que reclamas para ti, tudo isso tenhas e
realizes, mas pelo mérito de tua vontade e livre consentimento. As outras criaturas já foram
prefixadas em sua constituição pelas leis por nós estatuídas. Tu, porém, não estás coarctado por
amarra nenhuma. Antes, pela decisão do arbítrio, em cujas mãos te depositei, hás de predeterminar
a tua compleição pessoal. Eu te coloquei no centro do mundo, a fim de poderes inspecionar, daí, de
todos os lados, da maneira mais cômoda, tudo que existe.
MIRANDOLA, Pico della. A dignidade do homem.
2. ed. Campo Grande: Solibros/Uniderp, 1999. p. 53. (Fragmento).

Em seu discurso, Pico della Mirandola faz colocações a respeito de um poder muito especial concedido ao
ser humano: decidir o seu próprio destino, isto é, ter o livre-arbítrio. Nesse texto, também está presente
a valorização do homem, que é colocado numa posição central no universo. Esse discurso é considerado
um marco no desenvolvimento do conceito renascentista de antropocentrismo.

O elogio da racionalidade
Na estética renascentista, a razão servia como instrumento organizador da imaginação. Depois da
inspiração (provavelmente o impulso inicial), o artista selecionava os meios expressivos necessários para
compor sua obra, isto é, as estratégias que empregaria para se expressar. Por exemplo: na pintura, que
elemento colocar em primeiro plano; na literatura, que imagem utilizar para descrever a amada.

Essa seleção era feita pela razão, que era vista como único parâmetro de universalidade, ou seja, a razão é
a mesma em todos porque é universal. Nessa condição, é um poderoso instrumento de captação e
expressão de valores universais, como a beleza, o amor, a justiça, etc. Leia os dois textos a seguir que se
referem à racionalidade.

As ideias de Platão e Aristóteles


Seguindo a tradição clássica, no Renascimento a arte era entendida como forma de reproduzir o Belo e o
Bem. Para isso, era essencial encontrar um modelo. E este era o problema: onde encontrar o Belo e o Bem
perfeitos, que pudessem ser transformados em valores exemplares? Dois filósofos importantes se
dedicaram a essa questão: Platão e Aristóteles.
Platão foi discípulo de Sócrates e o principal transmissor das ideias do mestre.

Sócrates (469-399 a.C.) foi o principal filósofo da Grécia


Antiga. Seus ensinamentos, transmitidos por discípulos
como Platão, constituíram as bases do pensamento
ocidental. Acusado de exercer influência negativa sobre a
juventude ateniense, foi condenado à morte.

Sócrates, busto em mármore, s/d.

Platão (427-348 a.C.) registrou as aulas do mestre,


acrescentando suas próprias opiniões e reflexões. Elaborou
uma metodologia de ensino, transmitindo ensinamentos
filosóficos. Platonismo é, portanto, a compreensão e a
sistematização das ideias de Sócrates, filtradas pelas
concepções do próprio Platão e expostas no seu estilo criativo
e envolvente.

Platão, busto em mármore, cópia do original do século 4 a.C.

Para Platão, não é possível encontrar o Belo e o Bem perfeitos no mundo material — que o filósofo
chamou de mundo sensível —, mas apenas em uma dimensão espiritual — o mundo das ideias. A alma
humana, aprisionada ao mundo sensível, busca se libertar dele e alcançar a perfeição do mundo ideal.
Segundo Platão, a verdadeira Beleza, por exemplo, só existe no mundo das ideias.

Saiba mais
A teoria platônica concebe o amor como um instrumento de elevação espiritual. A alma se sente
irresistivelmente atraída pelo verdadeiro amor, que aquele do mundo das ideias, livre das prisões do
mundo material. Esse amor espiritualizado é o amor platônico.

Mas as ideias de Platão não foram as únicas a influenciar a filosofia ocidental. Ele teve um discípulo de
igual importância: Aristóteles.

Aristóteles (384-322 a.C.) forma, junto com Sócrates e


Platão, o trio de filósofos que formulou as bases do
pensamento ocidental, agindo em diversas áreas do
conhecimento científico (em que se incluem, por exemplo, a
matemática e a música). Embora seguidor das ideias de
Platão, discordou do mestre em alguns aspectos.

Aristóteles, busto em mármore, cópia de original feito por Lísipo, século 4 a.C.
Para Aristóteles, é possível encontrar o Belo e o Bem na realidade concreta, no mundo material. A tarefa
da arte é justamente expressar esse mundo, transportando-o para suas diversas manifestações (dança,
música, teatro, etc.).

Como construir essa expressão artística? Aristóteles desenvolveu uma teoria para explicar os
mecanismos de elaboração da obra de arte. Nessas reflexões, Aristóteles trabalhou com o conceito de
mimese, que quer dizer “imitação”. Ele atribuía à literatura a função de reproduzir comportamentos
humanos pela imitação. A arte mimética, portanto, é aquela que reproduz a natureza da maneira mais
fiel possível, de forma a permitir ao observador a identificação imediata do objeto representado.

Esses conceitos filosóficos apareceram na literatura do período. Leia a seguir o poema de Camões que
tem como temática a relação amorosa.

Transforma-se o amador na cousa amada Mas esta linda e pura semideia,


Por virtude do muito imaginar; Que, como um acidente em seu sujeito,
Não tenho, logo, mais que desejar, Assi co a alma minha se conforma,
Pois em mim tenho a parte desejada.
Está no pensamento como ideia;
Se nela está minha alma transformada, E o vivo e puro amor de que sou feito,
Que mais deseja o corpo de alcançar? Como a matéria simples busca a forma.
Em si somente pode descansar,
Pois consigo tal alma está liada.

CAMÕES, Luís de. In: Sonetos. Lisboa: Publicações Europa-América, s/d. p. 123.

O ideal de perfeição e o conceito de unidade

Os renascentistas buscavam uma arte que


superasse o tempo, fazendo-se eterna. Para
ser permanente, a beleza artística deveria
corrigir as imperfeições da natureza e atingir
a harmonia, isto é, obter uma relação de
igualdade entre as partes que compunham
uma obra.

Esse dado é particularmente notável


na arquitetura: a construção de templos e
casas, por exemplo, seguia normas rigorosas
de proporcionalidade.
A Igreja do Redentor (à esquerda, foto de 2016) localiza-se na Além da arquitetura, esse ideal de perfeição
ilha da Giudecca, em Veneza. Pelo projeto de Andrea Palladio
pode ser verificado em diversas outras
(à direita), feito no século XVI, é possível perceber a
concepção espelhada, na qual os elementos que compõem um
manifestações artísticas.
dos lados são seguidos no outro.

No caso da literatura, a narrativa deveria ter uma linguagem clara e enxuta, como sugere o poema a
seguir.
Conheça-me a mim mesmo: siga a veia Ao brando Apolo, às nove Irmãs aceita.
Natural, não forçada: o juízo quero Do bom escrever, saber primeiro é fonte.
De quem com juízo, e sem paixão me leia. Enriquece a memória de doutrina
Na boa imitação, e uso, que o fero Do que um cante, outro ensine, outro te conte.
Engenho abranda, ao inculto dá arte,
No conselho do amigo douto espero.
[...]
Muito, ó Poeta, o engenho pode dar-te.
Mas muito mais que o engenho, o tempo, e o estudo;
Não queiras de ti logo contentar-te. Corta o sobejo, vai acrescentando
O que falta, o baixo ergue, o alto modera,
É necessário ser um tempo mudo!
Tudo a ua igual regra conformando.
Ouvir, e ler somente: que aproveita
Sem armas, com fervor cometer tudo? Ao escuro dá luz, e ao que pudera
Fazer dúvida, aclara: do ornamento
Caminha por aqui. Esta é a direita
Estrada dos que sobem ao alto monte Ou tira ou põe: com o decoro o tempera.

FERREIRA, Antônio. Carta a Diogo Bernardes (Carta XII).


In: Poemas lusitanos. 2. ed.
Lisboa: Livraria Sá da Costa, 1953.
p. 102-110. v. II. (Fragmento).

A obra literária no Renascimento deveria, portanto, constituir uma unidade, com os vários elementos
que a compunham, convergindo para a formação de um todo. A ação da obra narrativa, por exemplo,
deveria ser única e íntegra, isto é, apresentar com clareza um princípio, um meio e um fim.

Leitura do texto

▪ Os versos de Antônio Ferreira expressam alguns conceitos da estética clássica. Para cada um dos trechos abaixo,
indique o conceito a que se refere.

a. “[...] o juízo quero / De quem com juízo, e sem paixão me leia.”


b. “Do bom escrever, saber primeiro é fonte.”
c. “Corta o sobejo, vai acrescentando / O que falta, o baixo ergue, o alto modera,”
d. “Ao escuro dá luz, e ao que pudera / Fazer dúvida, aclara: do ornamento / Ou tira ou põe: com o decoro o
tempera.”

Essa noção de unidade supunha ainda a adoção de um estilo homogêneo, no qual os gêneros (como prosa
e poesia ou comédia e tragédia, por exemplo) não se misturavam — é o que se denomina simplicidade.

Outra noção importante da linguagem clássica é a de verossimilhança. A obra deveria ter uma coerência
interna, isto é, os personagens de uma narrativa apresentavam comportamento e expressividade
adequados à sua idade e condição social.

O MANEIRISMO

Embora o estilo predominante no século XVI tenha sido o Classicismo renascentista, isso não quer dizer
que tenha sido o único. Muitos artistas da época fugiram dos padrões estabelecidos, produzindo arte à
sua maneira, isto é, de forma pessoal. Desse modo, surgiu o termo Maneirismo, que foi usado
inicialmente para designar esse movimento como crítica negativa. No entanto, hoje em dia, já se
reconhece seu valor estético.

No Classicismo havia uma apresentação harmoniosa das imagens, enquanto no Maneirismo as figuras
humanas apareciam retorcidas, como se as linhas do corpo imitassem o movimento de uma serpente — o
que explica o nome que recebiam: figura serpentinata.

Alguns dos principais nomes da arte renascentista apresentaram elementos maneiristas em suas obras,
como Michelangelo e Rafael.
Para compreender melhor essa tendência estética, vejamos O incêndio no Borgo, de Rafael.

Esse afresco foi concebido a partir de uma


lenda segundo a qual uma bênção papal
teria posto fim a um incêndio. No entanto,
a referência mais direta a esse milagre está
no fundo da cena, assumindo proporções
muito pequenas. Assim, o tema é
deslocado do centro e do primeiro plano, o
que era considerado uma transgressão dos
princípios clássicos.

As poses das personagens são


excessivamente artificiais e dramáticas;
em particular o gesto desesperado da
mulher, no primeiro plano, que estende os
braços rogando pela intervenção papal.
Além disso, a distribuição das figuras da
imagem é desigual: entre o primeiro plano
e o fundo do afresco, igualmente repletos
SANZIO, Rafael. O incêndio no Borgo. 1514. Afresco, 268 × de pessoas, há um espaço vazio
670 cm. Museus do Vaticano, Roma, Itália. intermediário, que não estaria em
conformidade com os padrões clássicos.

Classicismo em Portugal
Ao longo do século XVI (durante o período do Classicismo), o Império luso viveu oscilação constante: de
um lado, novas conquistas alcançadas (Goa, Japão, Molucas, etc.); de outro, colônias abandonadas (Safim,
Azamor, Alcácer-Ceguer, Arzila, etc.).

As marcas da decadência eram evidentes aos olhos dos próprios contemporâneos. Os ataques de
muçulmanos a algumas colônias portuguesas na Índia evidenciavam a necessidade de proteger o
Império, que se tornara vasto demais para as finanças do país.

O rei D. Sebastião ascendeu ao trono em 1557, quanto tinha apenas três anos de idade. Por isso o governo
foi assumido por uma regência até a maioridade do monarca, decretada aos 14 anos. O governo de D.
Sebastião tentou retomar o projeto expansionista. O rei partiu para a conquista da cidade marroquina de
Alcácer-Quibir, em 1578. Contando com um poderio militar inferior, acabou derrotado e morto.

Como não deixou herdeiros, seu desaparecimento abriu uma crise dinástica em Portugal e acentuou os
problemas do país. A união com Castela passou a ser vista por parte da nobreza como uma solução, já que
ter o reino vizinho como inimigo era um péssimo negócio naquele momento. O rei espanhol Filipe II
reivindicou e assumiu o trono português, inaugurando o período conhecido como União Ibérica. Na
prática, o domínio castelhano sobre Portugal duraria sessenta anos, de 1580 a 1640.

Os humanistas portugueses e o estilo manuelino


Assim como acontecia em toda a Europa ocidental, Portugal sofreu influência da pesquisa da cultura
greco-romana. As cidades de Coimbra e Évora se tornaram importantes centros de estudo. Houve
nomes de relevantes personalidades do Renascimento português que contribuíram decisivamente para
essa difusão cultural, como André de Resende (1500?- -1573) e Damião de Góis (1502-1574). O primeiro
foi um frade dominicano considerado um grande pensador humanista português por ser um teólogo,
arqueólogo e especialista da Grécia e da Roma Antigas. O segundo foi um historiador e humanista
português, que se destacou porque era um dos pensadores mais
críticos da sua época e servia de elo entre a cultura de Portugal e a do
restante da Europa do século XVI.

A passagem do século XV para o XVI, em Portugal, foi marcada pelo


governo do rei D. Manuel. Foi o auge do Império lusitano, uma época
de prosperidade para o país. A tendência a mostrar a riqueza e o luxo
fez surgir um estilo arquitetônico que foi posteriormente batizado
de estilo manuelino. Tratava-se de uma retomada do gótico
medieval, associado a elementos decorativos inspirados em motivos
náuticos e marítimos, como plantas, corais, âncoras, etc.

O Mosteiro dos Jerônimos, em Lisboa, é o melhor exemplo da arquitetura


manuelina. Foto de 2014.

Camões
Luís Vaz de Camões foi o poeta que deu à língua portuguesa a sua feição mais elevada. Em contraste com a certeza
a respeito de sua importância artística, sua vida é plena de mistérios, a começar
pela data incerta de seu nascimento (1524?). Por linha paterna, era descendente
de uma família de fidalgos que conheceu a pobreza. Desde muito jovem esteve
ligado a D. Francisco de Noronha, nobre influente na corte de D. João III. Por
supostos amores com D. Violante, esposa de D. Francisco, teve que deixar a casa de
seu protetor.

Estátua de Camões, no Largo de Camões, Lisboa.

Camões encarnou a figura do homem que trazia “nũa mão sempre a espada
e noutra a pena” (Os lusíadas, canto VII, estrofe 79). A pena é a sua poesia e
o estudo que demonstra nas referências clássicas de sua obra; a espada
simboliza sua participação em batalhas, em uma das quais perdeu o olho
direito.
Estátua de Camões, no
Com o mesmo espírito guerreiro, foi preso em 1552, acusado de ferir um Largo de Camões, Lisboa.
protegido do rei. Solto no ano seguinte, partiu para a Índia. A despeito
dessas confusões, exerceu cargos em nome da coroa portuguesa na China, em 1556. Ao retornar de
Portugal, o navio em que viajava naufragou. No acidente, teria morrido a amante que ele trazia da China e
que ele imortalizaria em seus poemas sob o nome de Dinamene.

Os cargos e as ocupações públicas não parecem ter trazido fortuna ao poeta: entre 1567 e 1569, ele viveu
em Moçambique em estado de extrema pobreza. Em 1572, conseguiu a publicação de sua maior obra, o
poema épico Os lusíadas. Morreu oito anos depois, em 1580, sem conhecer o sucesso e o reconhecimento
que não demorariam a vir.

Poesia lírica: sonetos e redondilhas


A tradição lírica portuguesa, que vinha desde o período medieval, transmitiu aos poetas do século XVI a
prática das redondilhas — versos de cinco (redondilha menor) e de sete sílabas (redondilha maior),
como os praticados por Gil Vicente, por exemplo.

No entanto, um fato mudaria essa tendência e marcaria o início do Classicismo em Portugal: o retorno do
poeta Sá de Miranda (1481-1558) de uma viagem à Itália. Em 1527, já em Portugal, ele apresentou as
novas informações da arte renascentista italiana; era o dolce stil nuovo (o “doce estilo novo”, isto é, novas
formas de expressão lírica).

Entre as novidades, havia o verso de dez sílabas, o decassílabo. Desde esse momento, esse verso ficou
conhecido como medida nova, enquanto as redondilhas passaram a ser denominadas medida velha.
Camões foi mestre nas duas modalidades.

Formas poéticas da lírica camoniana


Camões utilizou várias formas poéticas, tais como: elegias, odes, éclogas, redondilhas e sonetos. A seguir,
vamos estudar as duas últimas.

Redondilhas

As redondilhas eram uma medida poética bastante comum na poesia popular portuguesa. Camões se
utilizava dessa medida para descrever cenas marcadas pela simplicidade.

Muitas redondilhas camonianas apresentam um mote como ponto de partida. O mote é um trecho
poético (do próprio autor ou de outra pessoa) que serve de inspiração para o texto. As estrofes retomam
um ou mais versos do mote, e são chamadas de voltas (ou glosas). Observe, a seguir, o mote e as voltas
de um poema camoniano.
Cantiga

a este mote: traz a vasquinha de cote,


Descalça vai para a fonte mais branca que a neve pura;
Leanor pela verdura; vai fermosa, e não segura.
vai fermosa, e não segura.
Descobre a touca a garganta,
Voltas cabelos de ouro o trançado,
Leva na cabeça o pote, fita de cor de encarnado,
o testo nas mãos de prata, tão linda que o mundo espanta:
cinta de fina escarlata, chove nela graça tanta
sainho de chamalote; que dá graça à fermosura;
vai fermosa, e não segura

CAMÕES, Luís de. Lírica. Belo Horizonte: Itatiaia;


São Paulo: Edusp, 1982. p. 85.
Sonetos
Camões é considerado o maior sonetista da língua portuguesa. Uma das razões para que ele tenha essa
reputação está na sua capacidade de adequar a forma do soneto ao desenvolvimento de raciocínios. Leia
o soneto, a seguir, e tente acompanhar a argumentação nele apresentada.

Alma minha gentil, que te partiste E se vires que pode merecer-te


Tão cedo desta vida, descontente, Alguma coisa a dor que me ficou
Repousa lá no céu eternamente, Da mágoa, sem remédio, de perder-te,
E viva eu cá na terra sempre triste.
Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Se lá no assento etéreo, onde subiste, Que tão cedo de cá me leve a ver-te
Memória desta vida se consente, Quão cedo de meus olhos te levou.
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

CAMÕES, Luís de. In: Sonetos.


Lisboa: Publicações Europa-América, s/d. p. 184.
Temas da lírica camoniana
Há algumas temáticas comuns na obra de Camões. A seguir, veremos três das principais: o amor, a beleza
feminina e o desconcerto do mundo.

O amor
Camões explora o tema da morte da amada, bastante comum na literatura clássica. Alguns de seus
poemas mais famosos também tratam do sofrimento devido à indiferença ou à rejeição pela amada e
das contradições do sentimento amoroso. Esta última característica explica o conflito entre o desejo
intenso e o ideal platônico, entre o amor carnal e o amor idealizado; um exemplo disso é o soneto
apresentado a seguir, um dos mais conhecidos de toda a língua portuguesa.

Amor é fogo que arde sem se ver;


É querer estar preso por vontade;
É ferida que dói, e não se sente;
É servir a quem vence o vencedor;
É um contentamento descontente;
É ter com quem nos mata, lealdade.
É dor que desatina sem doer.
Mas como causar pode seu favor
É um não querer mais que bem querer;
Nos corações humanos amizade,
É um andar solitário entre a gente;
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que ganha em se perder.

CAMÕES, Luís de. In: Sonetos. Lisboa: Publicações Europa-América, s/d. p. 56.

A beleza feminina
Camões foi um grande cantor de diferentes padrões de beleza feminina. Mas é preciso levar em conta
que, em sua obra, o elogio físico vinha muitas vezes acompanhado de considerações de caráter moral.
Sugeria-se, desse modo, que a beleza externa possuía um correspondente espiritual.

Um mover d’olhos, brando e piedoso, Um encolhido ousar; uma brandura;


Sem ver de quê; um riso brando e honesto, Um medo sem ter culpa, um ar sereno;
Quase forçado; um doce e humilde gesto, Um longo e obediente sofrimento:
De qualquer alegria duvidoso;
Esta foi a celeste formosura
Um despejo quieto e vergonhoso; Da minha Circe, e o mágico veneno
Um repouso gravíssimo e modesto; Que pôde transformar meu pensamento.
Uma pura bondade, manifesto
Indício da alma, limpo e gracioso;
CAMÕES, Luís de. In: Sonetos. Lisboa: Publicações Europa-América. s/d. p. 69.
O desconcerto do mundo
Os sofrimentos expressos na poesia lírica camoniana não se limitam ao amor ou às mudanças da vida. Há
ainda muitas referências à falta de lógica e à desordem do mundo, que levam à dor de viver,
particularmente no que diz respeito a algumas transformações do mundo que não são acompanhadas
pelo poeta. Nesse sentido, podemos dizer que Camões captou modificações substanciais nos valores de
seu tempo.
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
muda-se o ser, muda-se a confiança; O tempo cobre o chão de verde manto,
todo o mundo é composto de mudança, que já coberto foi de neve fria,
tomando sempre novas qualidades. e, em mim, converte em choro o doce canto.

Continuamente vemos novidades, E, afora este mudar-se cada dia,


diferentes em tudo da esperança; outra mudança se faz de mor espanto,
que não se muda já como soía.
do mal ficam as mágoas na lembrança, CAMÕES, Luís de. In: Sonetos.
e do bem (se algum houve), as saudades. Lisboa: Publicações Europa-América, s/d. p. 234.
Poesia épica: Os lusíadas
Você estudou a influência dos autores clássicos na obra de Camões e a poesia lírica desse autor. Agora,
vai estudar a poesia épica por meio da análise de Os lusíadas, uma de suas mais importantes obras que
merece ser lida integralmente.

Lembre-se
O gênero épico ou a epopeia narra os grandes feitos de um herói, frequentemente tomado como
representante de seu povo. Geralmente, esses feitos grandiosos envolvem guerras e batalhas. Mesmo que
tais eventos tenham realmente ocorrido, sua transposição para a epopeia se dá de acordo com a
imaginação do autor, sem grande preocupação com a fidelidade histórica. Por isso, nota-se a presença do
maravilhoso, isto é, a atuação de forças sobrenaturais, como a interferência dos deuses da mitologia
clássica.
Não é fácil superar as dificuldades que essa leitura apresenta, mas o esforço é compensado pelo contato
com uma linguagem límpida e envolvente. Para conhecer mais de perto essa obra monumental,
abordaremos sua estrutura e uma síntese com seus episódios mais conhecidos.

Estrutura formal
O poema épico Os lusíadas, publicado em 1572, é composto de 8.816 versos, divididos em 1.102 estrofes,
organizadas em 10 cantos.

Seguindo um modelo renascentista italiano, Camões estruturou seu poema em oitava rima: estrofes de
oito versos (oitavas) decassílabos, com esquema de rimas ABABABCC. Os decassílabos
são heroicos (acentos tônicos nas sílabas 6 e 10) ou sáficos (acentos tônicos nas sílabas 4, 8 e 10).

Ainda de acordo com o modelo que seguia, Camões dividiu Os lusíadas em cinco partes.

As partes são estas:

1. Proposição (I, 1-3): o poeta abre seu poema apresentando o assunto, que é a viagem de Vasco da Gama às
Índias, ocorrida em 1498. Ela representa a bravura do povo português.
2. Invocação (I, 4-5): para realizar sua tarefa, o poeta pede inspiração às Tágides, ninfas do rio Tejo.
3. Dedicatória (I, 6-18): Camões dedica sua obra ao rei português da época, D. Sebastião.
4. Narração (I, 19 até X, 144): a parte mais importante da obra, ou seja, o relato da viagem de Vasco da
Gama ao Oriente e também da história de Portugal.
5. Epílogo (X, 145-156): o poeta apresenta suas despedidas e sua conclusão ao rei e ao povo português.

Orientação
Em todas as referências ao livro Os lusíadas, as indicações correspondem ao canto (em algarismos
romanos) e à estrofe (em algarismos arábicos). Assim, a notação Os lusíadas, V, 17, por exemplo, se refere
ao Canto Quinto, estrofe 17 do poema.

Síntese do poema
Uma das exigências da convenção épica era a escolha do assunto, que deveria sempre recair
sobre feitos grandiosos. As aventuras de Vasco da Gama certamente contribuíram para que Camões não
tivesse enfrentado muitas dificuldades para escolher seu tema.

De fato, a viagem empreendida por Vasco da Gama às Índias entre 1497 e 1499 foi um episódio
fundamental da expansão marítima portuguesa. A rota era apenas parcialmente conhecida, e o sucesso
da expedição dependia de coragem e planejamento, em iguais doses. A chegada a Calicute, nas Índias, em
1498, marcou o ponto culminante da viagem e da história do Império português.
Vasco da Gama (1468?-1524) foi um navegador
português. A descoberta do caminho marítimo para as
Índias o tornou merecedor de honrarias diversas,
delegadas por D. Manuel I, rei de Portugal de 1495 a
1521. Entre as atribuições que recebeu depois de sua
viagem, está a de vice-rei das Índias, em 1524. Vasco foi
encarregado de corrigir erros administrativos cometidos
anteriormente. Desempenhou-se bem na tarefa, mas
sucumbiu à malária, morrendo no final do mesmo ano.
Retrato de Vasco da Gama
(autor desconhecido).

Quando a narrativa de Os lusíadas começa, os navegantes se encontram em plena costa oriental da África,
o que significa que parte do trajeto já havia se desenvolvido. Mas o interesse maior do narrador, nesse
início, é focalizar o Concílio dos Deuses.

Nessa reunião, discute-se o destino dos portugueses. Baco, deus do vinho, pretende interromper a
viagem como forma de punir a ousadia dos navegantes. Ele teme a chegada de cristãos às Índias,
território que dominava. Vênus, a deusa da beleza, levanta-se contra Baco e defende o auxílio aos
portugueses, elogiando-os por sua bravura e coragem. A decisão do Concílio favorece os navegantes.

Baco, entretanto, não economiza meios para criar obstáculos no decorrer da viagem. Depois de
conseguirem escapar das armadilhas desse deus, os portugueses finalmente encontram acolhida em
Melinde, na costa oriental da África. O rei local pede então a Vasco da Gama que lhe narre a história de
seu povo. Dos dez cantos que compõem o poema camoniano, três são ocupados pelo herói para contar ao
rei africano os grandes feitos dos portugueses.

No Episódio de Inês de Castro (III, 118-135), Vasco — de façanha em façanha, de reinado em reinado
— chega até o século XIV e trata de Pedro (filho de D. Afonso IV), que se envolveu com Inês de Castro
(uma dama de companhia de sua esposa,
D. Constanza). Depois da morte de Constanza, Pedro queria tornar Inês sua esposa, porém a nobreza não
aceitou e a assassinou. Quando assumiu o trono,
Pedro exigiu que se reconhecesse Inês como sua
rainha, mesmo depois de morta.

Camões, por intermédio dessa trágica história de


amor, trata da força do sentimento amoroso —
capaz de submeter as pessoas ao sofrimento e até à
morte.

No Episódio do Velho do Restelo (IV, 88-104),


Vasco da Gama insere o relato de sua própria viagem
na história de Portugal. Relembra o momento da
partida da praia do Restelo, em Lisboa, quando um
homem idoso se dirigiu aos navegantes com palavras
ofensivas, opondo-se fortemente à empresa
expansionista.
O Velho do Restelo, personagem fictícia, sintetiza

as opiniões contrárias às grandes navegações. Camões SABATELLI, Luigi. Olimpo. 1819-1825. Afresco. O
escolheu um velho justamente para simbolizar algo episódio do Concílio dos Deuses localiza-se logo na
envelhecido, ultrapassado, já que, para o poeta, a opção abertura do poema camoniano.

AGB PHOTO LIBRARY - GALLERIA PALATINA,


mais adequada e em conformidade com o seu tempo seria mesmo a expansão marítima.

No Episódio do Gigante Adamastor (V, 37-61), ainda durante o relato ao rei de Melinde, o comandante
conta um momento perigoso da travessia: a passagem pelo cabo das Tormentas, ao sul do continente
africano, onde sua frota se depara com o gigante.

A imagem do Gigante Adamastor simboliza


os perigos enfrentados e vencidos pelos
portugueses em suas viagens de expansão. Assim,
na epopeia camoniana fica comprovada a
capacidade náutica de Vasco e seus comandados,
reconhecida pelo próprio gigante. Depois de
algumas peripécias, chegam a Melinde, e Vasco
encerra sua narração ao monarca local.

Depois de Melinde, tem início a parte mais


perigosa da viagem: a travessia do oceano Índico.
Baco alia-se a Netuno e tenta mais uma vez Painel pintado em azulejos com o tema do “Episódio
interromper a viagem. No entanto, auxiliados por do Gigante Adamastor”, em Os lusíadas. Palácio Hotel
Vênus, os portugueses se salvam e chegam a do Buçaco, Aveiro, Portugal. Foto de 1996. Na
Calicute. Efetuados os primeiros contatos, Vasco mitologia, os gigantes eram concebidos como símbolos
da Gama celebra acordos que garantiriam a dos limites da terra. Camões aplica essa concepção à
exploração do comércio com as Índias. história portuguesa.

O Episódio da Ilha dos Amores (IX, 64 até X, 143) ocorre quando os navegantes voltam para casa, na
parte final de uma viagem coroada de êxito. São agraciados por Vênus com um magnífico presente: uma
ilha repleta de ninfas encarregadas de distrair e amenizar os sofrimentos causados pela longa jornada.
Depois de apreciarem um banquete na companhia delas, os portugueses retornam a Lisboa.

Antes de sair da Ilha, uma deusa apresenta para Vasco da Gama a máquina do mundo, representação do
globo terrestre com todas as terras que ainda viriam a ser descobertas. O navegante tem acesso ao
futuro, o que apenas caberia aos deuses. Camões, nesse episódio, sugere que os portugueses poderiam
ser equiparados a deuses.

Mitologia e cristianismo
No poema camoniano, é curiosa a convivência entre as referências mitológicas clássicas e as de origem
cristã. Por um lado, a mitologia aparece em todo o poema, em obediência às exigências do modelo
estético em que se baseava Camões; por outro, o poema camoniano apresenta inúmeras referências à
religião cristã, o que é condizente com a orientação religiosa do poeta e da maioria dos portugueses.

Este orbe que, primeiro, vai cercando Aqui, só verdadeiros, gloriosos


Os outros mais pequenos que em si tem, Divos estão, porque eu, Saturno e Jano,
Que está com luz tão clara radiando, Júpiter e Juno, fomos fabulosos
Que a vista cega e a mente vil também, Fingidos de mortal e cego engano.
Empíreo se nomeia, onde logrando Só para fazer versos deleitosos
Puras almas estão de aquele Bem Servimos; e, se mais o trato humano
Tamanho, que ele só se entende e alcança, Nos pode dar, é só que o nome nosso
De quem não há no mundo semelhança. Nestas estrelas pôs o engenho vosso.

CAMÕES, Luís de. Os lusíadas, X, 82. Belo Horizonte: Itatiaia;


São Paulo: Edusp, 1980. p. 378. (Fragmento).
Ação dos homens
O auxílio que Vênus concede aos portugueses se baseia na valentia demonstrada por eles em batalhas de
conquista e outros confrontos com o perigo. Em outras palavras: em
Os lusíadas, tão importante quanto a ação dos deuses do Olimpo é o comportamento dos homens.

Os navegantes comandados por Vasco da Gama são, portanto, legítimos representantes da ousadia e da
bravura lusitanas. Essa ideia é exposta logo na abertura do poema.

As armas e os barões assinalados, E também as memórias gloriosas


Que da ocidental praia lusitana, Daqueles Reis que foram dilatando
Por mares nunca d’antes navegados, A Fé, o Império e as terras viciosas
Passaram ainda além da Taprobana, De África e de Ásia andaram devastando
E em perigos e guerras esforçados, E aqueles que por obras valerosas
Mais do que prometia a força humana, Se vão da lei da morte libertando —
Entre gente remota edificaram Cantando espalharei por toda a parte,
Novo reino, que tanto sublimaram; Se a tanto me ajudar o engenho e arte.

CAMÕES, Luís de. Os lusíadas, I, 1-2. Belo Horizonte:


Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1980. p. 29. (Fragmento).

A narrativa trata diretamente das aventuras de Vasco da Gama. Quanto aos feitos daqueles que
construíram o país e o Império, serão alvo dos elogios do comandante, quando este relatar ao rei de
Melinde a história de Portugal. É preciso ressaltar que os portugueses, nesse caso, seriam como
representantes de toda a humanidade.

A vitória alcançada por eles em sua viagem deve ser creditada na conta dos seres humanos, capazes de ir
além dos limites estabelecidos pelos deuses. Esse elogio da figura humana mostra um aspecto importante
do poema: seu fundamento ideológico é o antropocentrismo. Só uma mentalidade antropocêntrica
poderia conceber uma narrativa na qual o ser humano é capaz de vencer deuses como Baco e Netuno e
superar os obstáculos da natureza.

Camões publicou Os lusíadas em 1572, oito anos antes do início da União Ibérica, isto é, do domínio
espanhol sobre Portugal. Isso significa que, naquele momento, a glória portuguesa já estava esquecida, e
o país enfrentava graves problemas. Se nas estrofes iniciais está sintetizado o elogio que o narrador faz
aos navegantes portugueses, o final do poema apresenta um tom mais melancólico.

No mais, Musa, no mais, que a lira tenho


Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
Não no dá a pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Duma austera, apagada e vil tristeza.
CAMÕES, Luís de. Os lusíadas, X, 145. Belo Horizonte:
Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1980. p. 399. (Fragmento).
_________________________________________________________________________________________

Fonte bibliográfica:

COUTO, Fernando Marcílio Lopes. Literatura: Formação do leitor literário – São Paulo: Moderna, 2017.

(Texto adaptado)

Você também pode gostar