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SUPREMO TRIBUNAL DE JUSTIÇA

Q U E S IT O S O B R E A M IN O R ID A D E DO RÉ O .

l.o Só quando a minoridade do Réo


é duvidosa, deve o Juiz de Direito propôr
ao Jury quesito especial.
2.° Do contrario, e constando dos
autos, por documento authentico, n ã o ;
porque está explicitamente incluida essa
circumstancia attenuante nas do Art. 18
do Codigo Criminal, sobre as quaes é o
quesito feito pòr modo absoluto. (*)

REVISTA CRIME N. 2231


Recorrente, Clemente José de SantfAnna por seu Cu­
rador.
Recorrida, a Justiça.
• •>

RAZOES

Senhor. — Para o E grégio Tribunal de Yossa Magestade


Imperial appellam Clemente José de SanfA nna, m enor de

(*) A mesma Jurisprudência existe em todos os paizes cultos, com a


unica differença que, nelles, os Tribunacs Superiores dão sempre a ra-
17 annos, por seu curador, da Sentença do Dr. Juiz de Di- '
reito, Presidente do Tribunal do Jury da villa de Itabaiana,
o qual, conformando-se com as decisões do mesmo Tribunal,

zão porque a estabelecem, explicando a Lei, quando entre nós não, e


onde aquelle que quer saber o que pretende um Tribunal., tem de estu- .
dar e decorar o q u e , se contém nas razoes de fls. e fls. (linguagem dos
nossos arestos I) e, ainda assim, tem de apanhar essas razões de fls. com
muita habilidade e decernihiento, vendo o que ha ahi de mais sueco tento,
para formar cabedal e poder applical-o á especie idêntica, como fizemos
nós agora, em que a nossa synthese é o resultado quasi que de advi-
nhação, pois que os nossos leitores hão de ter o muito natural bom
senso de. ver, que não se póde fazer outra cousa, tendo diante de si
arestos como os que aqui ficam nesta Eevista 2231.
Si esta Gazeta fosse um kalendario ecclesiastico, ou o que geralmente
se chama uma folhinha de algibeira, cada vez que encontrássemos uma
decisão do tribunal nosso, dando os fundamentos delia, poriamos uma
cruz adiante, com a palavra Alma, para significar que tinha sahido
uma alma do purgatório.
Em uma questão como esta, que á primeira vista parece muito sim ­
ples, porque se entende que é clara na Lei, mas que o não é, quando
se trata de uma Sentença dada em virtude da decisão do Jury e onde
o Juiz de pireito tom uma norma a que está adstricto, onde não póde
fundamentar por bem dizer nenhum ponto de Direito, applicando só a
Lei ao. caso occurrente ou ao facto decidido- pelo Jury, os Tribunaes, para
os quaes se appella, esquecem o seu papel paternal, o seu papel de pre-
ceptor, que manda, ensinando, e diz, com o mais succinto desembaraço:
« Confirmam a Sentença appellada por seus fundamentos, provas dos au­
tos o razões de fls. e fls. 11! » Fundamentos, que foram estes: « De Con­
formidade com as decisões do Jury, julgo o Réo incurso no grâo tal do
artigo tal do Codigo Criminal » . . . . As provas e as razfàes de fls ... . quem
quizer que' as vá colher I
Entretanto, é esta uma questão importantissima e que ainda hoje, em
França, por exemplo, apezar da clareza dos seus Códigos (Criminal Art. 66
e 67 o ao Processo Criminal Art. 310), tem dado lugar ás maiores con­
trovérsias, como se póde ver em Chaveau et ITelie (T. l.° Pag. 473),
Legraverend (T.2.0 Pag.228), Bourguignon (sur l’art., 334), Carnot (sur l ’art.
66) e outros muitos.
E como não deve esta questão crescer de interesse entre nós, quando
ó certo que o § 10 do Art. 18 do nosso Codigo Penal, por via do ar­
bítrio que deixa ao Juiz, é de uma. grande obscuridade e se oppõe, no
sentido natural e grammaticab - a muitas das outras disposições consa­
gradas no mesmo Codigo ?
A questão das incapacidades, sabem todos, quer sejam as naturaes,
quer sejam sobretudo as legaes, quantas dificuldades offerecem, não
tendo todas nem o mesmo caracter, ném os mesmos effeitos, sendo
umas geraes, ontras especiaes, differentes no seu principio e no seu fim,
etc., etc. I Mas os nossos Tribunaes vivem assim : não tem havido meio
de os tirar, não - dessa apathia, mas dessa falta de luz que se não des­
cobre quasi que em um só dos seus julgados I
Em qualquer nação culta se não acreditará que vivamos judiciariamente
assim 1 Portugal mesino, que é o unico que nos póde ler, e donde descendemos
immediatamente, ha de rir-se muitas vezes do modo porque decidimos as
nossas questões, quando as que sahem dos seus tribunaes, ainda con­
firmando o de quanto se interpõe recurso, revelam um estudo e elevação
de julgado, que constitue, além de uma digna jurisprudência, um thesouro
de sabedoria,
Não é o talento e o muito mérito o que entre nós falta, é, seja-nos
licito dizel-o, o amor do trabalho e o estudo'.
A Redacção.
que declarara o Appellante incurso no medio do Art. 193
do Codigo Cominercial, condemnou-o a 12 annos de prisão
com trabalho. •
Senhor! os autos evidenciam que o Appellante soffreu,
com a devida venia, injustiça noto ria, quer da parte das
decisões do Tribunal, quer da parte da própria Sentença,
na qual, segundo a Lei, tinha o meritissimo Juiz appella-
do poder quasi descricionario na imposição da pena.
Com effeito, as decisões do Jury não concordam com as
provas dos autos.
No dia 9 de Fevereiro deste anno, voltando o Appel­
lante das roças para sua casa, depois de trabalho habitual
em que moureja ò pão do seu sustento, encontrou, em certa
altura do caminho, seu infeliz primo Manoel, também me­
nor, e ahi, como amigos que eram, entretiveram conversa­
ção graciosa da qual foi theraa pedir este uma raiz de aipim.
Levava o Appellante sobre a cabeça um feixe de man­
dioca, ainda adlierente ás raizes, para alimentação do ca-
vallo de sua montada, e sobre o hombro uma espingarda,
conservando-se assim por todo tempo de entretenimento.
Foi, pois, desta posição que tirou vantagem .a fatalidade !
Uma circumstancia mesquinha, alheia â vontade, veio mar­
car-lhe esse encontro, como um facto horroroso em sua
v id a ; esse dia, como o mais infausto que podia negrejar-
lhe o destino; esses risos, como o carpir de uma vida in­
te ira ... Em um. movimento de que o Appellante não tem
perfeita consciência, seu corpo desequilibrou-se, o feixe de
mandioca se inclinou sobre a espingarda, o Appellante pro­
curou segural-o com «ssa arma, e foi resultado final desse
movimento o disparar-se um tiro cuja munição se foi em­
pregar no infeliz Manoel, que succumbio ao ferimento !
Sendo assim, como é, e dão prova os autos, bem se
vê que o Appellante não póde ser punido pela morte. Pu­
nido amargamente, punido no intimo de seu coração pelos
pesares de uma vida inteira, pelas saudades de seu primo
e a m ig o ; nunca, porém, com as penas impostas ao Réo de
morte, nunca com penas legaes.
Alguns iaimigos da família do Appellante, entretanto,
aproveitaram o ensejo, tiraram vantagens de ter-se passado
o facto quasi sem testemunhas, e mesmo sem testemunhas
rigorosamente fallando, puzeram em jogo a pouca lucidez
da prova dos autos, e fizeram correr de plano que, res­
pondendo a uma aggressão, o Appellante assassinara seu
primo e am igo!
Resalta, porétn, de todas .as circumstancias, que o Ap­
pellante foi sempre amigo de seu primo, e essa amisade
não interrompida estabelece a necessidade de uma prova
positiva e plena da razão que o levasse ao crime. Ora, essa
prova não appareceu, e nunca existio: como, pois, admittir-
se que, no colloquio innocente e folgazão de dous amigos
menores, se desse um assassinato punivel ?
Enganou-se, pois, o Tribunal do Jury, quando, sem pro­
va positiva e plena, estabeleceu a criminalidade punivel do
Appellante.
Maior, porém, foi, com a devida venia, o erro do
Meritissimo Presidente do Tribunal, como vae o Appellante
demonstrar.
A 2.a parte do § 10 do Art. 18 do Codigo Criminal
permittindo aos Julgadores a pena de complicidade para os
Réos- menores de 17 annos — parecendo justo — deixou â
apreciação e critério, á justiça e equidade daquellés, ter
em conta a leveza das provas, ou o concurso de circums­
tancias attenuantes do délicto. De modo que, no caso ver­
tente, devia o Meritissimo Juiz não só ter em vista o va­
lor das provas, senão também o concurso de attenuan­
tes.
Quer em uma, quer em outra relação, porém, o Appellan­
te foi injustiçado. Admittindo, por momentos, ter-o Appel­
lante commettido um delicto punivel, então prevaleceríam a
aggressão e provocação, inferioridade em forças (por estar
o Appellante só), amenoridade e outras circumstancias, as
quaes, juntas à illucidez e dubiedade das provas, no ponto
essencial de assignalar ter sido o facto proporsital, ou não,
deviam fixar a norma de conducta do Julgador, prescreven-
do-lhe o rigor de Justiça e equidade de fazer eflfectiva, em
favor do Appellante, o beneficio da disposição citada.
Foi, por tanto, injusta, a imposição da pena média do
Art. 193 sem attenção a todas essas considerações das quaes
não ha prescindir. Além de que, o Julgador affendeu a Lei,
postergando pratica consummada e necessária, prescripta e
recommendada pelo Supremo Tribunal e Superior Tribunal
de Revista, como condição essencial da validade do ju l­
gado.
Provado, como está, ser o Appellante menor de 17 an-
nos, este facto devia fazer objecto de um quesito especial,
afim de, sobre a resposta a elle dada, fundar-se a aprecia­
ção do Julgador, no sentido de fazer effectivo o beneficio
da disposição citada — a pena de complicidade.
Tal quesito não se fez, nem foi apreciado o facto, e
foi o Appellante condemnado como si de maior idade. É,
pois, excessiva a pena, e nullo o julgamento ; por quanto, o
Acordão, na Revista n. 1651 — Recorrente, José Alves Pe­
reira Maia, Recorrida, a Justiça, manda que se faça que­
sito especial sobre a menoridade, sob pena de nullidade.
Senhor! A injustiça e nullidade allegadas estão prova­
das nos autos, cujas peças o Egrégio Tribunal vae apre­
ciar com a costumada justiça e sabedoria, mandando sub-
jeitar o Appellante a novo julgamento, em que se preen­
cham as solemnidades legaes, e melhor se aprecie o direito
do Appellante, como é de Justiça.
Itabaiana, 30 de Junho de 1874. — O Curador, Antonio
Cornelio da Fonseca.

RAZÕES DO PROMOTOR

Senhor. — Em sessão do Jury de 11 de Junho do cor­


rente anno, foi, nesta villa, condemnado o Réo Clemente
José de SanfAnna, menor de 17 annos e maior de 14, a
soffrer a pena de 12 annos de prisão com trabalho, imposta
pelo Art. 193 do Codigo Criminal, gráo medio, por isso que
o Jury reconheceu que o Réo commetteu o facto de ter a ti-
rado em seu primo o infeliz Manoel, fazendo-lhe os feri­
mentos constantes do corpo de delicto, que esses ferimen­
tos eram mortaes e que delles resultou a morte por ser
inevitável, e que, praticando o Réo o horrível crime de ho­
micídio, o fez acompanhado das duas circumstancias ag-
gravantes dos §§ 4.° e 6.° do Art. 16 e attenuante do
§ 10 do Art. 18 tudo do mesmo Codigo. Com effeito, outra
não deveria ser a decisão do Jury, á vista dos depoimentos
contestes das testemunhas, e confissão do Réo constantes
dos au-tos.
O Réo, porém, por seu curador, nao se conformando
com a Justiça das mesmas decisões, appellou para o Egré­
gio Tribunal de Vossa Magestade Imperial, da Sentença
do Meritissimo Juiz de Direito, Presidente do Jury, que
homologou as mesmas decisões, e então basea suas razões
de appellaçao nos seguintes: injustiça notoria e nullidade
da Sentença. o

Entretanto que nao ha injustiça nas decisões do Jury,


nem nullidade da Sentença, como passa-se a demonstrar.
As decisões do Jury foram dadas de accordo com as
provas dos autos, consciências dos Juizes de facto, e quesitos
propostos, e, por conseguinte, a Sentença nao podia deixar
de ser aquella, em face das mesmas decisões e provas.
No dia 9 de Janeiro do corrente anno, ás oito horas
da manha, no lugar denominado Boa Vista deste Termo, na
.estrada do mesmo lugar, o Appellante encontra-se com o
infeliz seu primo de nome Manoel, também de menor idade,
e porque este llie pedisse umas raizes de aipim das muitas
que trazia o Réo de sua roça, e este que, na vespera, já
tinha tentado atirar no infeliz, sem mais nem mais, quando
seu primo Manoel volta-lhe as costas, disparou-lhe um tiro
da espingarda que trazia, do qual tiro dias depois morreu,
declarando antes de espirar que, quem lhe tinha ferido,
fôra o Appellante que lhe atirou pelas costas, declaração
esta que combina com a descripção dos ferimentos no
corpo de delicto, donde se vê que justamente o tiro foi
dado pelas costas.
Duas verdades convencem o mesmo exame e os de­
poimentos das testemunhas, e informação do menor João
Evangelista a ils. 48, o único que esteve presente ao con-
flicto. >
A. prova de que o Réo foi o assassino do infeliz Ma­
noel seu primo, e que o fez sem uma causa justa, mais
sim por seus mâos instinctos, e nenhuma educação, con­
vencem os autos e até a própria confissão do mesmo Réo,
embora elle procurasse apadrinhar sua defesa, com o § 4.*
do Art. 10 do mesmo Codigo, dizendo que o crime fora
commettido casionalmente, por ter cahido sobre a arma, que
disparou, um feixe de mandioca que trazia na cabeça.
Essa phantasiada defesa,. não lhe aproveitou, e nem
lhe podia aproveitar' perante o illustrado e justiceiro Tri­
bunal do Jury, que, compreliendendo sua alta missão, e de
accordo com suas consciências e juramento prestado, por
nove votos negou-lhe casualidade em seu horrivel crime,
na resposta que deu ao 9.° quesito; e nem lhe aproveitará
perante o Egrégio e Colendissimo Tribunal de Vossa Ma-
gestade Imperial.
• Allega o Appellante que « alguns inimigos de sua fami-
lia aproveitaram o ensejo de ter-se passado o facto, puze-
ram em jogo a pouca lucidez das provas dos autos, e fize­
ram correr de plano, que respondendo a uma aggressão, o
Appellante assassinara seu primo e amigo. » Onde está a
prova dessa inimisade ! desse' jogo ? e da casualidade do
crime ?
Nos depoimentos das testemunhas da formação da cul­
pa ? não: nas contestações ás mesmas ? não; em alguns do­
cumentos juntos -ms autos? não, em' depoimentos de testemu­
nhas perante o Jury, embora não escriptos ? não; porque
uma só testemunha não foi pelo Appellante apresentada ;
somente no dizer do R é o : allegar e não provar, é como se
nada allegasse.
Diz o Appellante «qu e maior foi ainda o erro do Me-
ritissimo Juiz Presidente do Jury, impondo-lhe a pena do
médio do Art. 193, quando lhe devia impôr a da cumpli-
cidade, por que a.2.a parte do § 10 do Art. 18 do Codigo
Criminal, permittindo aos Julgadores a pena da cumplici­
dade para os Réos menores de 17 annos, parecendo justo,
deixou á apreciaçao e critério, á justiça e á equidade da-
quelles, ter em conta a leveza das provas, ou concurso de
circumstancias attenuantes do delicto. De modo que, no
caso vertente, devia o Meritissimo Juiz ter em vista o va­
lor das provas, sinao também o concurso de attenuan­
tes. »
Quanto ao valor das provas, a Appellada deixará á ap-
preciaçao de Yossa Magestade Imperial, pois que ellas
constam dos autos, e nao se póde exigir mais, para uma
tal condemnaçao, do que as que nelle existem, sob pena
de raras vezes serem punidos os crimes.
Quanto, porém, ao Meritissimo Juiz de Direito nao ter
applicado ao Réo a pena da cumplicidade, nenhum erro
commetteu, nenhuma injustiça praticou, cumprio a Lei, e os
ditames de sua consciência de Julgador.
Sendo, como é, facultativa a 2 .a parte do § 10 do Art.
18, outra nao deveria ser a pena imposta ao Réo, em face
das seguintes considerações:
Si o Legislador, formulando a 2.a parte daquelle para-
grapho, deixou â apreciaçao e critério do julgadores a im­
posição da pena da cumplicidade dos Réos menores de 17
annos, bem applicada foi a pena no médio do Art. 193 por
isso que, existindo nos autos bastante prova do crime, e
de seu Autor, e o Jury reconhecendo que o crime fora re­
vestido de duas'circumstancias aggravantes, e sómente com
uma attenuante (ser o Réo menor de 21 annos) por certo
que, sendo esta uma só de menos peso e valor de que
qualquer uma das duas aggravantes, nao devia ser outro
o procedimento do Juiz de Direito, que nao deveria ser
censurado no seu mõdo de appreciar as provas do crime,
e as circumstancias que o cercaram, usando de um direito
facultativo que lhe autorisa a Lei.
Improcede o argumento do Réo, censurando o Meritis­
simo Juiz de Direito, por nao ter formulado um quesito
especial sobre ser o mesmo Réo menor de 17 annos, por
isso que a propositura desse quesito só tem lugar quando
dos autos não está bem provada a menor idade do Réo,
ou quando sobre ella versam duvidas, e que o Juiz de Di­
reito, parecendo-lhe justo applicar a pena da complicidade,
a propõe; porém, no caso vertente, não se fazia de mister
a propositura de um quesito especial, sobre a menor ida­
de do Réo, por isso que, constando dos antos a fls. 67 v. a
certidão do baptismo do mesmo, da qual se vê que elle, no
dia de seu julgamento, contava a idade de 16 annos e
meio menos 3 dias.
A Revista citada pelo Réo, que manda fazer quesito,
especial sobre a menor idade do Réo, é naquelle caso de
ser ella duvidosa, e não no de que se trata.
Ainda mais convence da falsa apreciação e interpreta­
ção da Lei e do arresto citado, por parte do Appellante
desde que, lendo-se com escrupulosa attenção o § 10 do
Art. 18 do Codigo Criminal, visto como a circumstancia de
s e r'o Réo menor de 17 annos e maior de 14, vê-se que,
sendo considerada attenuante, não se fazia preciso a propo­
situra de um quesito especial, por isso que já estava in-
cluida no 8.° quesito, que foi apreciado pelo Jury, tanto
que foi a circumstancia attenuante por elle reconhecida.
E podia o Juiz de Direito propor quesito especial sobre
attenuante? Não; porque lhe é vedado (Acordão da Relação
da Corte de 2 de Setembro de 1848.)
A vista destas considerações não houve injustiça, nem
nullidade no julgado, e a defesa do Réo refuta-se por si
própria.
A justiça appellada espera, pois, á vista do que fica
exposto e do que supprirá a illustração de Vossa Magesta-
de Imperial, confirmação da Sentença appellada, fazendo
deste modo o Sapientissimo Tribunal exemplar justiça,
cohibindo assim a reproducção de tantos crimes de morte,
que são os que mais abundam neste termo. — E. C. — O Pro­
motor Adjunto em pleno exercicio, Geminiano Rodrigues
Dantas.
RAZÕES DO DESEMBARGADOR PROMOTOR DA JUSTIÇA ’

Este processo, instaurado por . denuncia do Promotor pu­


blico da villa de. Itabaiana contra o Réo Appellante Clemen­
te José de SanfAnna pelo tiro disparado contra o infeliz
menor seu primo Manoel, causando-lhe, assim, ferimentos,
graves (corpo de delicto de fls.) e depois a morte, correu
regularmente, quer na formação da culpa, quer no Jury,
notando-se apenas não ter a fls. 2 da formação da culpa de­
clarado na Sentença de pronuncia de fls. 72 v. motivos
justificativos de demora do respectivo processo, achando-se
ou tendo-se o Réo Appellante recolhido á prisão desde 15
de Fevereiro do anno passado (fls. 9) quando a pronuncia
é de 31 de Maio do mesmo anno, contra o disposto na
ultima parte do Art. 148 do Codigo do Processo Criminal,
' Decreto n. 2423, de 25 de Maio de 1859 e Alvará de 2 de
Janeiro de 1865.
Notei ainda que, tendo appellado o Réo da Sentença de
fls. 98 que lhe impoz a pena de 12 annos de prisão com
trabalho, grào médio do Art. 193 do. Codigo Criminal, e
isto no mesmo dia do seu julgamento (11 de Junho do an­
no passado, fls. 99) e tendo apresentado em 20 do mesmo
mez suas razões de fls. 101, como vê-se a fls. 99 v. e o
Promotor Publico em 21 de Julho do mesmo anno as suas
de fls. 105, como também vê-se a fls. 103' v. subio toda­
via a referida appellaçâo a este Egrégio Tribunal somente
em 7 de Jáneiro do corrente anno, contra o preceito da
Lei, que .manda expedir ou apresentar á Instancia Superior
no prazo de 4 mezes as appellações interpostas de Provin-
cias em que não estiver a Relação (Art. 2 § 5.° do Regul.
n. 5467, de 12 de Novembro de 1873), appellaçâo que,
não obstante, deve delia conhecer-se, visto como por culpa
e negligencia de Escrivão não deve. soffrer o direito do Réo
Appellante.
. Nas razões de fls. 101, com que fundamentou o Réo Ap­
pellante, allegou injustiça na decisão do Jury e nullidade
no julgamento. ;V .
Quanto á injustiça allegada nada dirá a Justiça por não
vir ao caso esse arguiçâo, attenta a natureza da appel-
lação interposta e do Art. 301 do Codigo do Processo
Criminal.
Quanto, porém, á nullidade apontada, parece que foi ella
respondida juridicamente pelo Promotor Publico nas suas
razões de fls. 105.
Assim, pois, entendo que, não havendo nullidades no
processo, e sendo a pena imposta de conformidade com as
decisões do Jury, é de justiça que seja confirmada a Sen­
tença appellada.
Bahia, 5 de Março de 1875. — O Desembargador Promo­
tor da Justiça, Almeida Couto.

RELÁ.TOR10

O Réo Clemente José de SantfAnna foi processado por


ter, no dia 9 de Fevereiro de 1874, no lugar denominado
Boa Yista, feito em seu primo Manoel, com uma arma de
fogo, os ferimentos constantes do corpo de delicto de fls.,
dos quaes veio elle a morrer d’ahi a seis dias.
Os depoimentos das testemunhas, quer do inquérito po­
licial, quer da formação da culpa, mostram ter sido o Réo
o Autor de taes ferimentos, pelo que foi o mesmo Réo
pronunciado como incurso no Art. 193 do Codigo Criminal;
pronuncia que foi confirmada pelo Juiz de Direito da Co­
marca, como tudo se vê do documento fls. 72 v. a 73 v.
Indo o Réo ao Jury, foi condemnado no gráo médio do
citado Art. 193 a 12 annos de prisão com trabalho.
Dessa Sentença appellou o Réo, e, nas suas razões de
fls. 111, faz ver que a decisão do Jury foi injusta quando»
sem prova plena, estabelece a criminalidade do Réo.
Que o Juiz de Direito deveria ter imposto ao Réo à ;
pena de complicidade, visto ser elle menor de 17 annos.
Que o Juiz de Direito deixou de propor o quesito da; meno-
ridade, o que faz annullar o processo perante o Jury." ..
A’s razões do Réo oppôe o Promotor da Comarca ãs
suas de íls. 105, nas quaes faz ver que o Jury deu sua
decisão de accôrdo com as provas dos autos, e de confor­
midade com as suas consciências, — quesitos propostos.
Que o Juiz de Direito deu sua Sentença conforme com o
Direito, pois devia elle ter em vista o valor das provas, e
que nenhuma injustiça commetteu, não applicando ao Réo a
pena de complicidade.
Que, quanto ao quesito especial da menor idade do Réo,
não era elle necessário, visto estar provado, com certidão
de baptismo, ser o Réo menor de 17 annos, que tal que­
sito só se põe quando não se acha a idade provada nos
autos.
0 Sr. Desembargador Promotor da Justiça, na sua pro­
moção de fls. 112, diz : « que não havendo nullidade no pro­
cesso, e sendo a pena imposta de conformidade com a de­
cisão do Jury, é de justiça que seja confirmada a Sentença
appellada. »
Bahia, 12 de Março de 1875. — Felippe Monteiro.

1 acokdão

Acordâo em Relação, etc. Que vistos, expostos e rela­


tados estes autos de appellação crime, confirmam a Sentença
appellada, negando assim provimento á mesma Appellação.
Pague o Appellante as custas.
Bahia, 19 de Março de 1875. — Vasconcellos, Presidente.—
Felippe Monteiro. — Jorge Monteiro. — Domingues do Couto. —
Martins. — Barbosa de Almeida.

Manifestada a Revista, o Supremo Tribunal de Justiça,


por decisão de 20 de Novembro . de 1875, contra o voto do
Conselheiro Yillares, denegou a Revista, por não haver in­
justiça notoria, nem nullidade manifesta.
Relator, o Conselheiro Yillares.
Revisores, os Conselheiros Yaldetaro e Albuquerque.

* * ..