Você está na página 1de 2

A HISTÓRIA DO DIREITO E A VERDADE NO PROCESSO: O

ARGUMENTO DE MICHEL FOUCAULT. (pg. 109-128) Capítulo 4.


FONSECA, Ricardo Marcelo. Introdução teórica à história do Direito. Curitiba. Editora
Juará. 2009.

6.1 DIREITO E HISTÓRIA

Direito e história são profundamente parecidos quando os tratamos em suas definições, seus
conceitos, pois estes possuem diversos significados, alguns até contraditórios. Abordando o
termo “história”, vê-se que quando alguém pensa em história logo pensa como ciência ou
disciplina, onde seu objeto é o passado. Fonseca, sobre a história relata que “História seria o
conjunto de eventos e fatos que compõem o passado humano, reconstituídos através de
procedimentos controlados (se não mesmo objetivos) deste controvertido ramo das ciências
humanas”. Termina a dizer que se por um lado a história se ocupa do passado, por outro a
mesma o compõe. Em contradição, num sentido idealista, poder-se-ia dizer que os fatos não
têm uma materialidade exterior, afirmando que o que temos como histórias não passam de
concepções mentais. Entendido que o conjunto de eventos concretos e materiais são o passado
fica subtendido que o passado não existe, somente ideias ou representações sobre ele. Em
oposição, Fonseca explica que desta forma, a história não existiria, e sim “representações
subjetivas sobre o passado, tornadas possíveis através da consciência”.

A história tradicional ou positivismo diz serem dignos de registro os grandes eventos,


nomes e datas, enquanto a escola francesa dos Annales, dava importância para as visões
problematizantes em termos de conjuntura e estrutura. A pergunta fundamental para se fazer
sobre a história deve ser portanto “o que é e para que serve a história?”, já que a conclusão
de que é a “reconstituição dos fatos passados” tornou-se trivial.

6.2 PROBLEMAS NA ABORDAGEM DO PASSADO JURÍDICO

É importante questionar a natureza histórica e buscar indagar sobre o que se pretende do


discurso historiográfico-jurídico. Para alguns a história do Direito é para mostrar erudição
enquanto pode também demonstrar uma trajetória jurídica que se relaciona desde a época
antiga com a atual. Mas esse procedimento de pesquisa corre o risco de sofrer anacronismo,
pois o objeto a ser estudado (o Direito em momentos passados) pode começar a ser visto com
uma visão que pertence ao presente. Nas palavras do autor “A historiografia assim orientada
constrói um discurso histórico distanciado do passado e próximo do presente”.

Algo que se tornou frequente em nossa sociedade, através de nossos historiadores é que, têm-
se usado a história não por um apreço ao conhecimento mas sim por uma obrigação que leva
o pesquisador a buscar os precedentes para dar legitimação ao assunto abordado por inúmeras
instituições jurídicas que subvertem o sentido pelo procedimento histórico que é denominado
de “falsa continuidade”. Outra distorção é afirmar que a experiência jurídica na sociedade se
desenvolve de forma natural e lógica quando em seu substrato, o Direito atual é em realidade,
somente naturalizado pela história, pela tradição da sociedade, que culminou naquele Direito
que seria mais evoluído, racional. Ou seja, houve um processo para se chegar ao Direito hoje
e em certas medidas é imune a críticas por possuir “tradição histórica”.

6.3 A RESPOSTA DE FOUCAULT PARA A HISTÓRIA

Michel Foucault é talvez um dos autores que tenha falado sobre a confirmação de que a
continuidade, a linearidade e os anacronismos são as principais pragas que infestam os
campos da história. Trançando em rápidas linhas o projeto teórico de Foucault, Fonseca os
lista em três:

1) O intento é proceder a uma ontologia (estudo das características gerais do ser)


histórica de nós mesmos em relação à verdade através da qual nos constituímos em
sujeitos de conhecimento;
2) Tem como intento agir a uma ontologia histórica do próprio indivíduo em relação ao
campo de poder que nos constitui em sujeitos que atuam sobre os demais;
3) Proceder a uma ontologia histórica do ser subjetivo em relação à ética (objetivo)
através da qual nos tornamos agentes morais.

A forma de Foucault para conhecer as coisas não era como fazemos hoje onde para nós o
conhecer é olhar, observar, reter, mas sim tinha a ver com a simpatia ou antipatia que surgiam
coisas as coisas conhecidas que para Foucault é a “era da dominância”. Para ele, as ciências
apontam para a descoberta de elementos simples e de sua composição progressiva. O
conhecimento é o resultado histórico e pontual de condições que não são da ordem do
conhecimento, então não há uma natureza ou essência do conhecimento e a história de um
conceito possui diversos campos de validações onde foram utilizados meios teóricos múltiplos
para a sua elaboração ser concluída. Ele também enfatiza que um historiador deve analisar,
descrever e explicitar seus conceitos de acordo com o domínio questionado. Desta forma, ele
delimita o conhecimento para a sustentação da explicação histórica e introduz um componente
metodológico quase nunca e pouco usado, que é a descontinuidade.

6.4 FOUCAULT, A HISTÓRIA E O PROCESSO