Você está na página 1de 9

 

A estrela dançante em nós:


aproximações entre Arte e Psicologia
SONIA REGINA VARGAS MANSANO*
ALEJANDRA ASTRID LEÓN CEDEÑO**

Resumo: Provocar um diálogo entre arte e psicologia foi o principal objetivo


deste artigo. Dentro das diferentes práticas realizadas na área de psicologia,
acreditamos que a arte possa ser uma parceira na produção de conhecimentos e
sensibilidades para a transformação social ou, mais precisamente, para a
multiplicação de microtransformações cotidianas com as quais a psicologia
pode contribuir. Para mostrar que essa aliança é possível, dividimos o presente
trabalho em três momentos: quando a arte e a psicologia se encontram; quando
o cotidiano pode ser experimentado artisticamente e, por fim, a resistência
como arte de viver. Deste diálogo e suas conexões, interessou-nos sublinhar
aquilo que ganhamos quando expandimos os horizontes de intervenção e
produção de conhecimento.
Palavras-chave: Psicologia; Arte; Resistência.
The dancing star in us: approaches between Art and Psychology
Abstract: Lead to a dialogue between Art and Psychology was the main
objective of this article. Within the different practices performed in the area of
Psychology, we believe that Art can be a partner in the production of
knowledge and sensitivities for social transformation, or more precisely, for the
multiplication of everyday micro transformations with which Psychology must
contribute. To show that this alliance is possible, we divided the present work
in three moments: when Art and Psychology meet; when the everyday life can
be experienced artfully and, finally, the resistance as an art of living. From this
dialogue and its connections, we are interested in underlining what we win
when we expand the horizons of intervention and knowledge production.
Key words: Psychology; Art; Resistance.

                                                            

*
SONIA REGINA VARGAS MANSANO é Pós-Doutora em Psicologia Clínica pela
PUC/SP. Docente do Programa de Pós-Graduação em Administração e do Departamento de Psicologia
Social e Institucional da Universidade Estadual de Londrina.

**
ALEJANDRA ASTRID LEÓN CEDEÑO é Doutora em Psicologia Social pela PUC/SP.
Docente do Departamento de Psicologia Social e Institucional da Universidade Estadual de Londrina.

 
17 
 

Introdução ressaltando os efeitos que emergem


desse diálogo. Em seguida, traremos
Desde a sua invenção como ciência, alguns relatos de uma pesquisa-ação
nota-se que a psicologia busca realizada com um grupo de crianças que
interlocuções com outras áreas de se valem da dança para multiplicar seu
conhecimento, ensaiando diálogos por contato com o mundo e com os afetos.
meio dos quais seja capaz de aproximar- Por fim, buscaremos compreender como
se da vida humana e suas mutações. a resistência, para além de uma
Estudar o humano não é tarefa simples, oposição, pode consolidar-se como
ainda mais quando partimos da potência de criação de modos vida no
psicologia social que compreende o cotidiano.
homem como uma produção incessante
cuja condição de possibilidade envolve Encontros entre Arte e Psicologia
os diferentes encontros experimentados
A aproximação entre as artes e a ciência
no decorrer da vida. Foi assim que em
evidencia um potencial para a produção
muitos momentos a psicologia
de conhecimento sobre a vida humana e
aproximou-se das artes, buscando nelas
suas múltiplas composições. Nesses
uma sensibilidade para escuta, para
diálogos, fica claro que a dimensão
observação e para produção de
estética é imanente à existência, ainda
conhecimento.
que seja frequentemente distanciada da
Literatura, escultura, pintura, música, vida do cidadão comum e considerada
teatro e cinema ganharam uma posição como “coisa de artista”. Se nos
de destaque nos estudos de grandes aventuramos a aproximar a arte da vida
referências para a psicologia como cotidiana, podemos notar que a primeira
Sigmund Freud, Michel Foucault e Lev pode ser considerada muito mais que
Vigostski. Nota-se, assim, que as obras um mero objeto de consumo e
datadas de outro período histórico observação: trata-se de identificar e
tornaram-se, aos poucos, relevantes para inventar modos possíveis de viver
a compreensão do contemporâneo. Em artisticamente, o que implica uma
uma entrevista concedida a Hubert abertura para o risco de produzir a vida
Dreyfus e a Paul Rabinow, Foucault na cotidianidade. Mas, nesse caminho,
chega a dizer: “O que me surpreende é o também corremos o risco de
fato de que, em nossa sociedade, a arte simplesmente idealizar ou romantizar a
tenha se transformado em algo arte, atribuindo-lhe um glamour
relacionado apenas a objetos e não a exagerado e, com isso, desconsiderar a
indivíduos ou à vida” (FOUCAULT. In: presença das múltiplas forças de
DREYFUS; RABINOW, 1995, p. 261). construção e desconstrução que se
operam na existência.
Conectar arte e ciência, como duas
produções culturais que possuem Arte e vida implicam um encontro
histórias e objetivos diferenciados, foi o complexo cujo sentido é acolher a
que nos colocou diante da tarefa de criação e a destruição como partes de
elaborar este artigo: afinal, o que um mesmo movimento que coopera
acontece na experiência prática da para desenhar as trajetórias de vida e o
psicologia que nos permite pensá-la na contato com o mundo. Não há como
fronteira com a arte? Para isso, escolher apenas um dos lados. A arte
dividimos o material em três momentos: nos ensina isso a cada vez que tematiza
Primeiramente, faremos considerações a morte e a vida como partes inerentes à
sobre a aproximação dessas duas áreas, existência. Diante disso, cabe

 
18 
 

questionar: É possível viver quando a compreende como uma


artisticamente? Em vários momentos de “redenção”. Em suas palavras:
sua obra, Deleuze assinala a relação
A arte e nada mais que a arte! Ela é
entre uma vida potente e a dimensão
a grande possibilitadora da vida, a
estética do existir. Assim, nessa grande aliciadora da vida, o grande
perspectiva teórica, é possível viver estimulante da vida.
artisticamente e isso está vinculado ao
exercício da potência de simulação e (...) A arte como a redenção do que
criação, cuja afirmação implica conhece – daquele que vê o caráter
desvencilhar-se do registro identitário terrível e problemático da
existência, que quer vê-lo, do
que nos prende a modos formatados e
conhecedor trágico.
previsíveis de viver. Entendemos que a
contemporaneidade, com as A arte como a redenção do que age
transformações tecnológicas que lhe são – daquele que não somente vê o
próprias, particularmente aquelas caráter terrível e problemático da
decorrentes das coordenadas espaço- existência, mas o vive, quer vivê-
temporais e a elas inerentes, como a lo, do guerreiro trágico, do herói.
mídia eletrônica, multiplica as A arte como a redenção do que
possibilidades da invenção dos novos sofre – como via de acesso a
modos de ser e viver, conectando nosso estados onde o sofrimento é
corpo a modos múltiplos de relação que querido, transfigurado, divinizado,
são irredutíveis à unidade do sujeito onde o sofrimento é uma forma de
individual. grande delícia (NIETZSCHE,
1999, p. 50).

Isso nos remete a uma aproximação Conhecer, agir e sofrer. Três verbos a
com o caráter trágico da existência, serem conjugados artisticamente sem se
aberto para acolher a criação como uma cair nas armadilhas dos saberes mais
multiplicidade de forças díspares que endurecidos, dos modelos instituídos ou
compõem e decompõem as maneiras de das dores romanceadas com as quais
existir e de se relacionar com o outro. nos tornamos piedosos e menores.
Tais forças não param de se movimentar Trata-se de uma abertura para conhecer
e, com isso, transformam a paisagem o que nos advém, por vezes de maneira
psicossocial, ao mesmo tempo em que violenta e cruel, mas também uma
os modos de subjetivação sofrem abalos abertura para agir diante desse adverso,
e rachaduras. Em face desses encontros redesenhando seus sentidos e
desconcertantes, existe a tendência para potencializando a existência para seguir
recuar e reassumir os modelos outros rumos. Aqui, o sofrer é vivido
identitários mais conhecidos que, como acolhimento das dores próprias de
supostamente, trariam certa segurança um corpo que é vivo, portanto, sensível
por prometer a retomada de hábitos tão e capaz de sustentar as rupturas e
conhecidos e longamente reproduzidos. despedidas que a vida nos impõe.
Entretanto, se a arte entra nesse diálogo Nietzsche assinala que essas três
com a psicologia para pensar outras redenções são artísticas e, como tais,
maneiras de conexão com o mundo, as colocam-nos o desafio de transmudar o
garantias são as primeiras a serem que nos advém: fazer do acontecimento
derrubadas. Nietzsche talvez seja quem uma vida artística, provocando
transformações, ebulições e convulsões na
teve mais sensibilidade para arriscar
cotidianidade imprevisível de encontros.
uma aproximação entre arte e vida

 
19 
 

Quando o cotidiano pode ser iniciou-se um debate sobre redução de


experimentado artisticamente danos, em que foi possível conversar
abertamente sobre as angústias,
Partindo dessa aproximação entre arte e pressões e medos experimentados pelo
vida, passamos ao relado do trabalho grupo diante da realidade social do
realizado em uma associação, criada em bairro, gerada em parte pelo uso de
1998, que tem por objetivo promover a drogas. Dois dias depois da emergência
interação e troca entre pessoas desta temática, algo inesperado ocorreu:
pertencentes a um bairro popular da Carmem decidiu, pela primeira vez,
cidade de Londrina, estado do Paraná. ensaiar um solo de dança para
Há quinze anos, a associação realiza apresentá-lo num evento fora do bairro.
eventos festivos e culturais, além de Esse evento foi-se encadeando com
oficinas esportivas e de saúde, que estão
outros que, semana a semana,
a cargo de moradores do bairro e de
possibilitaram instantes de
seus vizinhos, com o apoio de políticas
experimentação em que essa criança,
públicas executadas por meio de
bem como os demais participantes
parcerias com a Unidade Básica de
(crianças e adultos), pareciam atuar no
Saúde (UBS) e uma universidade
sentido de elaborar o vivido, por meio
pública da cidade. Trata-se de um
de um trabalho artístico com alcance
espaço autogerido em que os
terapêutico.
frequentadores participam de maneira
voluntária e desejante: não há lista de A dança escolhida era difícil, por
presença, não se cobram valores envolver fogo, que podia queimá-la, e
monetários para participar das taças de vidro, que poderiam quebrar-se
atividades e ninguém recebe pagamento durante a apresentação. Carmem temia
pela atividade realizada. Além disso, a ter problemas na hora de realizá-lo, mas
associação funciona sem apoio conseguiu, fazendo uma apresentação
financeiro externo. solo que comoveu os presentes de forma
Desde o ano de 2008, a associação inexplicável. Era como se, por meio do
iniciou uma oficina semanal de dança desafio assumido e enfrentado, uma
do ventre que se mantém até hoje, ferida do mundo estivesse sendo limpa,
coordenada por uma docente da cuidada e costurada. Carmem, que
universidade. A partir da dança, foram poderia simplesmente “entrar” para o
criadas diversas outras oficinas e mundo do tráfico de drogas como mais
atividades semanais que são um membro invisível, anônimo e
coordenadas e/ou apoiadas por facilmente descartável, “entrou” no
estudantes da referida universidade e clima das apresentações que a tornaram
que têm a duração de pelo menos um visível e valorizada por um público
ano letivo. desconhecido. Experimentar esse lugar
de inserção social possibilitou o contato
Especificamente no mês de setembro de com outra possibilidade de existência,
2013, notou-se um ponto de mudança para além do bairro e do “destino” que
no trabalho devido à discussão explícita, lhe era mais provável, marcado pelas
ocorrida pela primeira vez, sobre o drogas.
tráfico de drogas na região. O tema foi
trazido por uma criança, que Na semana seguinte, esta mesma
protagoniza os relatos apresentados a criança, junto com a adulta responsável
seguir e que será aqui denominada pelo grupo, foi para um restaurante do
Carmem. A partir de suas colocações, tipo “pesque e pague”. Aquele foi um

 
20 
 

momento que serviu para comprovar uma universidade que, cabe registrar, é
que ela podia continuar tendo contato pública e localizada no bairro vizinho
com outras experiências: sair da cidade, onde tais crianças moram.
fato que nunca ocorrera outrora e
conhecer lugares vizinhos; compartilhar É sabido que a universidade pública
um momento especial com o grupo e brasileira, apesar das políticas de
começar a aprender a pescar, prática que inclusão colocadas em prática nos
fazia parte das tradições da geração últimos anos pelo governo federal,
anterior da sua família, proveniente do ainda recebe estudantes que, em sua
meio rural. A “criança próxima do maioria, pertencem a uma classe social
tráfico”, que já se havia apresentado em mais elevada, em razão de todo o
um sarau na semana anterior, podia preparo recebido no ensino fundamental
agora ser apenas criança e brincar. e médio. O problema se agrava quando
Pode-se dizer que, nessas experiências, uma parte dos cidadãos brasileiros nem
outros territórios foram experimentados, sequer reconhece a universidade pública
ampliando-se a potência daquele corpo como um território possível e acessível
até então limitado a um registro afetivo por causa de seu nível socioeconômico.
mais “durão”. Visitar a universidade pode parecer algo
banal para uma parcela significativa da
Em outra ocasião, sete estudantes e uma população, mas, nesse caso, possibilitou
docente da universidade organizaram o acesso não só a um espaço físico
um passeio com o grupo do projeto e como também a um campo de
por sua solicitação: uma visita ao possibilidades a ser considerado e
câmpus. Conforme suas demandas, a explorado.
visita incluía o Museu da Anatomia e a
Ludoteca. O grupo era formado por dez Em outra ocasião, o grupo de dança foi
crianças e adolescentes. Também nessa convidado de última hora para dançar
situação, Carmem teve papel em uma comemoração surpresa do dia
diferencial, pois foi ela quem organizou do professor. Era um evento organizado
e convidou o grupo, fazendo o possível pela Assistência Social dirigido para os
para viabilizar um passeio que incluísse educadores da área socioeducativa. Para
as amigas e os parentes. O contato com que o grupo de dança, formado por duas
uma instituição de ensino superior foi professoras e cinco alunas, participasse
uma novidade para todo o grupo. No do evento, foi preciso ensaiar
retorno para o bairro, as crianças, rapidamente, acordar cedo e atravessar a
eufóricas, cantaram sem parar a música cidade. Aquele dia começou mal, pois
“Monstro dos Monstros” do MC uma das participantes teve de ficar em
Daleste: “Eu sou monstrão, tu é casa cuidando de duas crianças
monstrão, nós é monstrão, mas eles menores, o que acontecia praticamente
não. Pode falar de boca cheia: todos os dias. A impossibilidade de sua
Ostentação”. A insistência na música e participação foi frustrante tanto para ela
a intensidade com que era cantarolada quanto para o grupo, mas, ao mesmo
deixava muito clara a necessidade de tempo, consolidou-se como um
dar voz ao que haviam acabado de disparador de relatos sobre a vida
experimentar: o acesso ao mundo de cotidiana. Uma das crianças, por
estudantes majoritariamente localizados exemplo, contou que a mãe estava presa
em outra classe socioeconômica. Parte e sugeriu ao grupo organizar uma
do grupo relatava que nunca havia apresentação na prisão no único dia do
pensado na possibilidade de estudar em mês em que as mulheres têm direito a

 
21 
 

visita; outra comentou sobre a sua irmã experiência, ficou claro que as pessoas
que, sob seu ponto de vista, estava presentes naquele evento estavam lá
perdendo “seu futuro de criança” por ter apenas por obrigação. A situação trouxe
que cuidar constantemente de crianças vários questionamentos sobre a inserção
menores. do grupo e o reconhecimento do seu
trabalho. Obviamente, os afetos
Quando chegaram ao lugar marcado, experimentados produziram efeitos
receberam um tratamento bastante frio, desagradáveis no grupo das crianças
distante e até desrespeitoso por parte da que, novamente, precisaram lidar com a
coordenadora. O grupo foi praticamente rejeição e o desprezo bastante presentes
“deixado” no terraço da casa para se em suas memórias afetivas. Aquele
preparar sozinho, o que tornou as movimento de elaboração, acionado
crianças mais ansiosas, uma vez que
também nas outras experiências
disputavam a atenção das poucas
relatadas, foi precipitado diante do
adultas, que estavam presentes, pedindo
vivido. Entretanto, agora ganhava um
ajuda para se maquiarem e se
contorno mais complicado, visto que a
prepararem para a apresentação. Depois
experiência de rejeição trazia à tona
de um discurso que não podiam ouvir e
componentes subjetivos ligados ao
preparando-se às escondidas para a
desrespeito, à indiferença e ao descarte,
apresentação surpresa, finalmente
tão conhecidos por aquele grupo.
começou a música. Na segunda dança,
Todavia, as crianças não estavam
vários educadores começaram a
passivas naquele encontro, o que ficou
conversar entre si e mostravam
evidente quando se jogaram na piscina
claramente o desinteresse pela
do lugar e recusaram-se a sair,
apresentação, o que tornava inviáveis os
reivindicando, junto à coordenação do
pedidos de silêncio. Outra intervenção
evento, poder ficar mais tempo
significativa foi da coordenadora do
divertindo-se. Conseguiram o que
evento: “vocês podem continuar
desejavam e, coincidência ou não, uma
dançando, mas simultaneamente vamos
delas machucou o pescoço,
servir o café da manhã para não
demandando cuidados ainda maiores
atrasar”. A professora da associação
por parte dos coordenadores.
negou-se a isso, visto faltar apenas uma
música para terminar a apresentação. Pode-se perceber aqui a dimensão
As professoras do grupo entenderam trágica dos encontros que, longe de
aquela situação como um desrespeito, apenas potencializar, por vezes também
porquanto tinham sido convidadas para decompõem e destroem. E isso ocorre
dançar, precisando atravessar a cidade num bailado complexo que não
de um lado a outro, em hora matinal de comporta previsões e prescrições, mas
um dia feriado. A coordenadora do que leva seus agentes a experimentar os
evento não percebeu todo esse trabalho limites e as potências de conexão de
e esforço e, sem especificar o que queria seus corpos no encontro imprevisível
ou mesmo sem dar atenção ao grupo, com o outro.
decidiu de maneira arbitrária mudar as
No decorrer do ano de 2013 foram
regras do jogo no meio da curta
realizadas outras apresentações e
apresentação de dança que duraria
passeios que garantiram o cuidado e a
apenas 12 minutos.
atenção às crianças, bem como a
Quando o grupo se reuniu ao final da possibilidade de expandir horizontes.
apresentação para conversar sobre a Houve apresentações de dança em mais

 
22 
 

três lugares: a primeira em uma ONG ocorreu de maneira conflituosa e não


de um bairro distante, outra na idealizada, o que tornou o processo
universidade e a terceira em um colégio mais belo, mas, por vezes, dolorido.
público. Realizou-se, também, um
passeio ao lago mais importante da
cidade (que algumas delas não Talvez ocorra, nesses grupos da
conheciam) e houve a participação das associação, algo muito próximo do que
crianças em uma aula de psicologia Rolnik (1995) chamou de “quarar a
social da universidade. Toda a alma”. Essa expressão foi utilizada pela
articulação dos passeios e apresentações autora quando analisou uma instalação
contou com a forte participação de realizada pela artista plástica Rivane
Carmem que, percebendo quão Neuenschwander no ano de 1995, na
potencializadora era a atividade de praia do Museu de Arte Moderna da
organização de eventos, coordenou Bahia, localizado na cidade de
sozinha a distribuição dos convites às Salvador, denominada “A Infância
crianças e adultos da associação para Perversa: fábulas sobre a memória e o
um passeio ao rio do bairro, o que tempo”. Nessa obra, a artista reúne um
fechou o ciclo de passeios de forma grupo de crianças e propõe uma série de
descontraída. atividades tendo como material básico
alguns lençóis e suas memórias, que são
O ano encerrou-se com o relato do neles desenhadas e escritas. À medida
grupo sobre o desejo de continuar as que vão sendo manipulados, tanto os
danças e passeios e, ao mesmo tempo, lençóis quanto as memórias podem ser
com o aprendizado de que elas mesmas retomados, experimentados e
(as crianças) poderiam organizá-los com transformados em um: “inesperado
pouca ou nenhuma intervenção dos concretismo brejeiro de uma instalação
adultos, ocupando espaços na medida ao ar livre” (ROLNIK, 1995, p. 2).
das suas possibilidades e articulando-se
com outras pessoas para chegar mais
longe. As memórias registradas nesse pedaço
de tecido que serve para proteger o sono
A Resistência como arte de viver são então colocadas ao sol para quarar.
A prática de quarar ainda é comum no
interior do Brasil e consiste em
No cotidiano das atividades realizadas
ensaboar a roupa e expô-la ao sol,
pela associação aqui analisada, pode-se
pacientemente, para facilitar sua
dizer que existe a construção de uma
limpeza e clareamento. No trabalho de
abordagem política para experimentar,
Rivane, às margens do mar, os lençóis
elaborar e resistir à maneira ligeira,
com as memórias das crianças neles
excludente e fugaz como a
registradas também foram exibidos ao
contemporaneidade vive as relações
sol, provocando a sensação de que é “a
sociais e afetivas. Seguindo Pelbart
própria subjetividade que passa por esta
(2003, p. 132), a criação social é
ressignificação: lavada, quarada,
instaurada por meio de “processos
repassada e dobrada, ela se constitui
positivos e singularizantes, capazes de
como um território mais habitável.
funcionar como resistência num
‘Lavei a alma’, comenta uma das
contexto de homogeneização”. Em cada
meninas na conversa que reuniu o grupo
um dos relatos apresentados, pode-se
ao final da experiência” (Idem, p. 3).
dizer que a elaboração do vivido

 
23 
 

A instalação feita pela artista guarda ser praticados nesse espaço de


certa ressonância com as experiências intervenção de uma psicologia que
precipitadas nos grupos da associação. busca manter-se sensível à dimensão
Notou-se que, após as primeiras trágica da existência e também aos
conversações sobre o tráfico, parte das movimentos de resistência.
crianças passou a estreitar o vínculo As experiências relatadas contemplam
com os demais colegas e com a agitações afetivas rumadas em direções
atividade, criando e ensaiando as múltiplas, com “inteligências e
apresentações, atividades que eram sensibilidades heterogêneas, que
mescladas a conversas sobre suas vidas, inventam não só modos próprios de
limites e problemas enfrentados no produzir, de habitar, de trocar, de
cotidiano. Tal trabalho, ao mesmo construir, mas também de relacionar-se,
tempo clínico e artístico, de alguma de afetar-se, de subjetivar-se, de
maneira, servia para possibilitar o protestar” (PELBART, 2003, p. 133).
contato com alguns afetos e, ao Assim, pode-se dizer que as
exporem-se ao grupo, superar algumas intervenções do grupo precipitam uma
resistências, incluindo-se aí a tendência mutação nas maneiras de viver e fazer
em assumir uma postura mais rude para resistência, fazendo que esta última
com os professores e os colegas como deixe de ser compreendida apenas como
forma de sobreviver – afinal esse era o oposição ou como luta pela tomada do
registro afetivo construído até então: poder instituído, com posições
endurecer para suportar as dificuldades fortemente identitárias, e abrindo
do dia-a-dia. Falar, dançar, passagem para posicionamentos mais
experimentar os encontros e brincar oblíquos, híbridos, sensíveis e diríamos,
foram alguns verbos que começaram a neste caso, cotidianos, valendo-se dos

 
24 
 

encontros experimentados nas oficinas e Mas, também, aproximar-se da


nos eventos organizados pelo próprio possibilidade de experimentar o contato
grupo e/ou pelas outras pessoas que se com a tragédia e o caos, que geralmente
conectam a essa produção, delas são desqualificados em nosso cotidiano
participando. por uma visão moral. Como declara
Nietzsche, em seu Zaratustra, “é preciso
Considerações finais ter ainda caos dentro de si, para poder
Afinal, a que resistimos neste processo? dar à luz uma estrela dançante”
Às subjetividades cada vez mais (NIETZSCHE, 1998, p. 41). Nesse
tomadas pela lógica do capital e pela movimento de transfiguração, ganha
mídia hegemônica, à mercantilização do espaço o desafio de acolher, sustentar e
corpo, às diversas formas de violência, elaborar as próprias dores, construindo
ao sentimento de invisibilidade e novas possibilidades de existência para
desamparo vivido por diversas crianças si e para outras pessoas.
e adultos. Assim, as oficinas de dança, É assim que a arte pode ser articulada à
bem como as demais atividades psicologia social no fortalecimento de
realizadas nesta associação, colocam em espaços de transformação pessoal e
curso a invenção de microações, coletiva, constituindo-se em um potente
microgestos, microssensibilidades que, dispositivo de trabalho contra a
atuando e dialogando, potencializam invisibilidade e a violência. Trata-se de
seus criadores bem como aqueles que se reafirmar a potência humana, mesmo
conectam a eles. Talvez o próprio nome em seus menores gestos.
“associação” nos dê uma dimensão da
resistência, visto colocar em destaque o
contato, o encontro, a conexão de Referências
diferenças que, por sua vez, fazem FOUCAULT, M. Michel Foucault entrevistado
emergir outras diferenças. por Hubert L. Dreyfus e Paul Rabinow. In:
DREYFUS, H.; RABINOW, P. Uma trajetória
Vale dizer, por fim, que existe nesse filosófica. Para além do estruturalismo e da
tipo de intervenção uma dimensão de hermenêutica. Tradução de Vera Porto Carrero.
risco permanentemente colocada. Trata- Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1995.
se de trocas e conexões que só podem NIETZSCHE, F. Obras Incompletas – Os
ser tecidas no cotidiano dos encontros, pensadores. Tradução de Rubens Rodrigues
contando-se com o risco e com os Torres Filho. São Paulo: Ed. Nova Cultural,
elementos distintos que nele se fazem 1999.
presentes, o que certamente envolve um NIETZSCHE, F. Assim falou Zaratustra: um
leque de afetos díspares. Como não há livro para todos e para ninguém. Tradução de
controle possível sobre os afetos, cabe- Mário da Silva. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 1998.
nos experimentar o corpo com suas
marcas e memórias afetivas advindas PELBART, P. P. Vida Capital: Ensaios de
biopolítica. São Paulo: Iluminuras, 2003.
dos encontros. Ora tais encontros
compõem, ora decompõem indivíduos e ROLNIK, S. Quarar a alma. 1995. Disponível
grupos. Diante desse movimento que em:
<http://caosmose.net/suelyrolnik/pdf/quarar_a_a
gera composições e decomposições, lma.pdf> Acesso em 29/12/2013.
abre-se à psicologia a possibilidade de
acolher, por meio do encontro com a
arte, a dimensão trágica que atravessa a Recebido em 2014-01-10
existência: um misto de morte e vida Publicado em 2014-02-10
que não se reduz a um de seus termos.

 
25 

Você também pode gostar