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caderno para

debate / 01
2020

Eixo Temático - 1

DIREITOS
SUMÁRIO

Quem somos 6
Paradigmas 14
Cidades 22
Cultura 30
Educação 34
Esportes 47
Religião, Valores e Comportamento 57
Saúde Coletiva 62
Apresentação

Desde quando foram compostos os primeiros Grupos de Trabalho (GTs) do


Projeto Brasil Popular, em 2016, seus integrantes debateram e aprofundaram o
diagnóstico e as propostas existentes para cada área temática.
Os GTs estão distribuídos em quatro eixos: 1 | Direitos, 2 | Economia,
Desenvolvimento e Distribuição de Renda, 3 | Estado, Democracia e Soberania
e 4 | Igualdade, Diversidade e Autonomia. Os textos que compõem esse caderno
foram formulados por uma equipe de redatores junto com a Secretaria Nacional
do Projeto Brasil Popular partindo dos subsídios produzidos pelos GTs do Eixo
Temático 1: Direitos.
Esta é uma versão de texto para estudo e debate!
Todos/as podem enviar sugestões e contribuições para a Secretaria Nacional
do Projeto Brasil Popular por e-mail: contato.grupoprojetobrasil@gmail.com
Sua contribuição é muito importante para o aprimoramento das nossas propostas.
Desde já, agradecemos e convidamos os leitores a conhecerem as produções dos
GTs dos demais eixos.
Vamos todos/as construir o Projeto Brasil Popular!
Secretaria Nacional Projeto Brasil Popular
Quem
Somos?

Diante da profunda crise política, econômica e social que o Brasil atravessa


no último período, diferentes forças da esquerda e suas bases sociais
identificaram a necessidade de criar um espaço de união e debate, com o
objetivo de, junto à sociedade brasileira, formular um projeto nacional.
Acreditamos que esse processo auxiliará na organização da luta de massas,
ou seja, na construção de força social em torno de propostas que possam
transformar a realidade brasileira.
Não é de hoje que homens e mulheres debatem um projeto de país.
Entendemos essa tarefa como permanente para a vida dos povos, além
de estratégica para os setores populares. Diante de um período em que
o processo de desmonte da nação é reforçado, tal tarefa torna-se ainda
mais urgente, além de oportuna, dada as condições criadas a partir das
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necessidades concretas da população. O que aqui chamamos de projeto
nacional é um conjunto de temas, diagnósticos e propostas que apontam
dilemas estruturais do nosso país e caminhos pelos quais é possível resolver
os atuais problemas na vida do povo.
A esquerda brasileira já formulou importantes contribuições para esse
debate. Porém, historicamente, o processo de produção dessas reflexões,
via de regra, não esteve combinado com a articulação com movimentos
populares e sindicais, resultando em formulações teóricas que, embora
consistentes, tiveram pouca capacidade de enraizamento social. Nas últimas
décadas, nossas formulações e estratégias não avançaram rumo à construção
de um projeto de nação ou de um programa amplo, que transcenda medidas
imediatas e emergenciais, ou as plataformas e programas eleitorais. Assim,
embora se trate de uma preocupação permanente, não temos conseguido
produzir formulações e estratégias unitárias de médio e longo prazos que
nos possibilitem mobilizar força social em torno de uma proposta viável de
desenvolvimento para o país.
Entendemos ser fundamental que, em paralelo à formulação de análises
e propostas, possamos reafirmar a necessidade de diálogo com as bases
sociais e o compromisso e disponibilidade para debater ideias com o povo.
Mobilizados por essa perspectiva, desde fevereiro de 2016, dedicamo-nos
à tarefa de discutir e formular o conteúdo programático de um projeto
nacional, democrático e soberano, que represente uma oportunidade de
construção de uma nova hegemonia de forças construída a partir do diálogo
junto ao povo brasileiro.
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O que
queremos?

Como dito anteriormente, não partimos do zero. Há acúmulos de diversos


setores construídos ao longo da história. O projeto de país que estamos
construindo deve expressar esses acúmulos e reflexões.
Fundamentalmente, nos propomos a construir um projeto para o Brasil que
aponte para a superação de todas as formas de desigualdades, exploração e
falta de liberdades. Portanto, um projeto que promova rupturas com o passado
escravocrata, colonial, patriarcal, ditatorial, antipopular e que responda a um
presente de crise no qual essas dimensões estruturais da exploração, dominação
e opressões foram intensificadas.
Acreditamos que a melhoria das condições objetivas de vida do povo
brasileiro depende do modelo de desenvolvimento econômico, político,
cultural e ambiental implantado, pois ele indicará como serão distribuídas as
riquezas e a renda gerada por toda a sociedade, além de orientar como serão
tratados nossos bens públicos. As bases para a construção desse projeto popular
para o Brasil estão alicerçadas na construção de um novo Estado orientado
por novos paradigmas.
Dessa forma, reafirmamos que há a necessidade de, durante o processo de
formulação do projeto, construirmos referências de valores e princípios capazes

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de contribuir para análise crítica da complexidade do presente e enunciar o
futuro inédito que queremos compartilhar. Essas referências fundamentais
sobre as quais serão assentadas as bases do nosso projeto de sociedade são
os nossos paradigmas, capazes de exprimir as referências estruturantes da
sociedade que queremos construir. Definimos os seguintes paradigmas que
guiam nossas reflexões:
Vida Boa para todos/as ou Bem Viver: compreendemos o ser
humano em sua integralidade e afirmamos que a vida deve ser vivida
em todas as suas dimensões, por isso, devemos orientar as formas de
produção dos bens, a reprodução social e os bens públicos para garantir
a qualidade de vida de todos/as. Quanto ao Estado, ele deve atuar para
proporcionar ao povo uma vida que valha a pena ser vivida. Isso se
vincula à garantia do exercício de um conjunto de direitos, mas também
a uma outra forma de organizar a produção, a reprodução e o consumo.
Bens comuns: prezamos pela garantia e soberania dos bens
compartilhados pelas comunidades. A natureza, o ar, a água, a
cultura, a linguagem, os conhecimentos tradicionais e o patrimônio
histórico, assim como a própria comunidade em que nos inserimos, são
bens comuns e, em conjunto, sustentam a vida humana. Ao contrário do
que afirma o ideário de atribuição de valor capitalista, os bens comuns
têm seu valor medido pelos benefícios que produzem ao coletivo e sua
preservação não deve estar condicionada ao retorno financeiro, mas sim
ao compromisso de uso comum a longo prazo.
Igualdade e diversidade: buscamos superar as condições de
opressão e engendrar novas relações sociais entre as pessoas e os povos.
No Brasil, a desigualdade é um componente histórico e estrutural,
que tende a reproduzir novas formas permanentes de exclusão e
discriminações. O enfrentamento à desigualdade tende a encontrar
resistência de uma parte da sociedade, mas não é possível caminhar na
perspectiva de transformar a sociedade sem enfrentar todas as dimensões

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desse problema: desigualdade econômica, regional, cultural, racial, de
gênero, de conhecimento, de acesso a serviços sociais de qualidade,
divisão social e sexual do trabalho etc. A construção da igualdade é
uma referência para a formulação de um projeto para o país que deve
passar pela defesa de políticas que contribuam para o combate das
exclusões, discriminações e as fontes de produção e reprodução das
diferenciações sociais e econômicas.
Democracia, participação e autonomia: trabalhamos a partir da
compreensão de sentido público do Estado, retirando-o da condição
de mero prestador de serviços para o povo, mas como um garantidor
de direitos, comprometido com a autodeterminação dos povos, com o
respeito à diversidade e com papel ativo na construção de uma sociedade
igualitária.
Soberania nacional e desenvolvimento: apontamos um caminho
para o desenvolvimento no qual a distribuição da riqueza seja justa e
onde os compromissos sociais não se submetam à lógica da economia
de mercado. A Soberania Nacional é compreendida como a garantia de
autodeterminação do conjunto do povo brasileiro para escolher e decidir
sobre seu próprio destino. Ao propor também o desenvolvimento como
eixo paradigmático, queremos afirmar a necessidade de desenvolver as
forças produtivas em um país periférico, respeitando, porém, o meio
ambiente e proporcionando condições dignas de vida a todos e todas.
Esses paradigmas são referências gerais para o trabalho do grupo, e
também para as discussões temáticas, devendo ser considerados mesmo em
elaborações mais específicas. Em processo cíclico de construção, os Grupos
de Trabalhos Temáticos devem ao mesmo tempo em que partem deles para
construir propostas, enriquecê-los com novas formulações. Através deles
buscamos reafirmar a generosidade humana do projeto que propomos e
seu esforço permanente em afirmar e resgatar os valores humanistas que
orientam a busca da emancipação e da libertação do ser humano das mais
variadas formas de opressão e alienação.

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Método de construção
do projeto

Partimos de um contexto histórico que demanda um debate de projeto


de país, o que se torna ainda mais urgente diante da gravidade da crise e
do desmonte da nação. Entendemos que a burguesia não possui um projeto
nacional e utiliza o contexto de crise econômica para provocar instabilidade
política e impor um projeto neoliberal que atualmente ganha contornos
ainda mais agressivos e autoritários. Diante disso, é tarefa primordial da
esquerda se debruçar na elaboração de um projeto popular para o país.
O método de construção desse projeto, portanto, é tão importante quanto
o resultado. Entendemos que o programa só cumprirá sua função se for uma
produção coletiva que combine conhecimento científico e militância social.
Só assim será ampliada nossa capacidade de mobilização: considerando o
povo como protagonista das mudanças. Por isso, devemos constantemente
cotejar com a realidade as nossas reflexões, interpretar as contradições e a
partir delas formular novas propostas. O método com o qual nos propomos a
trabalhar é coletivo, dialógico e dialético, capaz de envolver diversos setores,
conjugando especificidades e especialidades, temas, regiões, naturezas
diversas dos sujeitos, dialogando com a visão do todo e com a visão dos
lugares desses sujeitos.
O processo de construção será contínuo, partindo da produção de sínteses
que serão aprofundadas, gerando a construção de novas sínteses. Temos
desafios importantes: 1 | produzir um projeto de nação; 2 | transformar esse
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projeto em um instrumento do processo político pedagógico que estimule
nosso povo a debater, criticar e formular novas questões; 3 | formular
sínteses coletivas a partir desse acúmulo e criar força social em torno
dessas propostas. Nesse sentido, esse é um processo contínuo no tempo
e na sua intencionalidade, um processo permanente de disputa de
hegemonia na sociedade brasileira.
Atualmente, possuímos 31 grupos de trabalho temáticos (GTs) que
possuem a tarefa prioritária de refletir sobre temas estratégicos para a
formulação de um projeto. Esses grupos de trabalho são constituídos por
intelectuais e acadêmicos comprometidos com o desenvolvimento do país;
militantes dos movimentos populares que trazem o acúmulo de propostas
de cada organização; e trabalhadores com experiência em gestão de
políticas públicas e com conhecimento em diversas áreas. Os GTs debatem
e formulam propostas de modo a obter uma elaboração programática que
possa posteriormente ser discutida pela sociedade, buscando com isso agregar
força social e apontar para as bases de um projeto de país.
Além dos GTs, foram estabelecidos Eixos Temáticos. A discussão em
eixos objetiva potencializar a transversalidade dos temas e garantir que
os documentos produzidos por eles tenham unidade programática. O
Eixo Temático realiza a síntese integrada dos debates realizados pelos
GTs, sendo o espaço prioritário de sistematização e aprofundamento de
propostas e pontos divergentes.
Não devemos ter a pretensão de dar solução para tudo, muito menos
em nome de todos e todas, mas buscaremos agir em torno de um esforço
coletivo e intelectual, para formular um projeto que sirva como referência
para as lutas sociais e para o pensamento crítico brasileiro.
Somar-se ao Projeto Brasil Popular é vislumbrar a esperança de
construção coletiva das condições que irão possibilitar ao Brasil ser um país
mais justo, soberano e democrático.

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Eixos e Grupos de
Trabalhos Temáticos

Direitos Estado, Democracia


Cidade e Soberania Popular
Cultura Democratização da Justiça
Educação e Direitos Humanos
Esporte Estado, Democracia,
Religião, Valores Participação Popular e
e Comportamento Reforma Política
Saúde Coletiva Federalismo e
Administração Pública
Economia, Sistema de Comunicação
Desenvolvimento e Relações Internacionais,
Distribuição de Renda Integração Regional e Defesa
Agricultura Biodiversidade Segurança pública
e Meio Ambiente
Amazônia Igualdade, Diversidade
Ciência, Tecnologia e Inovação e Autonomia
Demografia e Migrantes Igualdade Racial e
Desenvolvimento Regional Combate ao Racismo
Economia Juventude
Energia e Petróleo LGBTI+
Financeirização Mulheres
Mineração Povos Indígenas
Reforma tributária
Seguridade Social e Previdência
Semiárido
Trabalho, Emprego e Renda
Transportes e Logística
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Paradigmas
do Projeto
Brasil Popular

A presente proposta está em permanente elaboração, no entanto, buscamos


apresentar aqui sinais balizadores importantes para o atual momento histórico
de construção de um Projeto Popular para o Brasil. O presente documento
expressa o acúmulo das discussões realizadas, mas que continuam em aberto
para novas formulações e debates.

Objetivo
A discussão de paradigmas tem a finalidade de estabelecer referências para
a construção de um Projeto para o Brasil. Entendemos que as formulações
teóricas e as elaborações programáticas dos movimentos sociais fornecem as
bases para um programa coerente e coeso que corresponda às necessidades
deste momento histórico tão desafiador.
A construção de uma sociedade fundada na justiça social, na igualdade, na
liberdade, na diversidade, e organizada com base na democracia, no Estado
de Direito, na sustentabilidade e na soberania, requer um projeto capaz de
reunir as forças sociais, econômicas, políticas e culturais, mobilizando-as
para uma longa empreitada de profundas transformações.
Nesse sentido, há um esforço permanente para dar conteúdo ao projeto,
formulando novas referências que sejam capazes de orientar o movimento
de construção e as lutas pela transformação social. Para tal, apostamos no
diálogo e no debate entre movimentos sociais, intelectuais e acadêmicos que
se dedicam a pesquisar, refletir e atuar sobre a realidade brasileira, propondo
soluções para seus problemas históricos.
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O futuro é inédito e está para ser construído e reconstruído, de forma
permanente. Projetar esse futuro e construí-lo no presente por meio dos
processos de luta, requer ferramentas capazes de dar conteúdo àquilo que
podemos denominar de nossa utopia: a sociedade que queremos construir.

A compreensão de paradigma
Utilizamos os paradigmas para indicar que há a necessidade de, durante
o processo de formulação, adotar referências, princípios, sensibilidades,
noções mestras e conceitos capazes de analisar criticamente a complexidade
do presente e enunciar o inédito futuro que queremos construir. Essas
referências fundamentais sobre as quais serão assentadas as bases do nosso
projeto de sociedade são os nossos paradigmas.

Insuficiência das elaborações


teóricas e práticas sociais:
abertura para o novo.
Pensar em paradigmas na perspectiva de construir um projeto inédito,
coloca o desafio de partir do pressuposto da insuficiência do que estamos
produzindo e da necessidade de incluir novas dimensões na nossa práxis
teórica e social, levando em conta as elaborações e experiências já adquiridas
na nossa caminhada pela transformação social.

Crise civilizacional
A construção de um projeto para o país apresenta como pressuposto a
visão de que estamos vivendo um momento de crise civilizatória, em que
as bases da organização social estão colocadas em xeque, o que abre espaço
para a formulação e disputa de novas perspectivas para uma revolução de
nossos paradigmas de sociedade, “em toda a constelação de opiniões, valores
e métodos participados pelos membros de uma sociedade, fundando um
sistema articulado mediante o qual a sociedade e o conjunto de suas relações
se orienta e se organiza”, como aponta Leonardo Boff. Isso implica em uma
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crítica radical ao tipo de civilização existente e a criação de novos sonhos,
novos valores, novos comportamentos, novas sensibilidades, novas relações,
formas novas de ver, pensar e agir sobre o mundo. Disso nasce, se constrói e
se disputa um novo paradigma.
Nosso desafio é transformar os paradigmas em soluções concretas para os
problemas da sociedade brasileira, práticas exemplares que superem as antigas
e se tornem ideias aglutinadoras da esperança de transformação social. Para
isso, faz-se necessário reinventar um novo modo de estar no mundo, criar
novas formas de gerir o Estado e as relações sociais e econômicas, o que
implica novas formas de produzir, distribuir, consumir, habitar e conviver.
É importante construir progressivamente as bases para uma sociedade que
esteja em sintonia com os ritmos e limites da natureza. Os paradigmas
indicam duas dimensões combinadas: como progressivamente melhorar a
vida das pessoas, mas também apontar transformações mais profundas que
busquem superar o capitalismo e construir uma nova sociedade.

Os eixos estruturantes
dos paradigmas
A construção de uma sociedade sustentável exige superar as desigualdades
econômicas, políticas e sociais e incorporar a cidadania na forma de
participação popular no exercício da democracia, bem como o respeito às
diferenças culturais e a consolidação de valores éticos de respeito à vida em
suas múltiplas expressões.
Os paradigmas que elegemos como norteadores para construção do
projeto são:

1 | Vida boa para todas e todos


2 | Bens comuns
3 | Igualdade e Diversidade
4 | Democracia, Participação e Autonomia
5 | Soberania e Desenvolvimento

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1 | Vida boa para todos
Nos inspiramos aqui em nossos irmãos andinos e o buen vivir ou, como
afirmam algumas economistas feministas, “uma vida que valha a pena ser
vivida”. Trata-se de garantir o exercício de um conjunto de direitos, mas
também uma outra forma de organizar a produção, a reprodução e o
consumo. Toda a prática social e as formulações políticas precisam contribuir
para geração de qualidade de vida em todas as suas dimensões. Para tanto,
é necessário inverter o modelo de produção centrado no lucro, que acumula
riqueza nas mãos de poucos e condena milhões de pessoas à miséria. As
perguntas chave são o que, como, para que e para quem produzir? E mais:
como organizar a reprodução da vida, de modo que seja compartilhada entre
homens e mulheres, e que esteja no centro um modelo econômico, político e
social que coloque a sustentabilidade da vida como primordial?
É fundamental atuar aqui e agora para estabelecer um processo de
transição para o novo modelo. A transição nos impõe a urgência de limitar o
extrativismo e combater a mercantilização da vida. Isso implica realizarmos
mudanças na produção como, por exemplo, privilegiar o transporte coletivo
em detrimento do individual, adotar a agroecologia em vez da agricultura
industrial, investir na durabilidade dos produtos, contrapondo-se à estratégia
da obsolência programada, criar políticas para o cuidado que reorganizem
espaços e promovam ações coletivas e comunitárias, promovendo a cultura
da suficiência.
Uma vida boa para todos e todas almeja que todos possam ter acesso à
integralidade dos benefícios construídos pela humanidade, gerando o
desenvolvimento de um conjunto de potencialidades, criatividade, relações
prazerosas e de satisfação das necessidades.

2 | Bens comuns
São aqueles que uma comunidade ou uma população compartilham e
aos quais todos e todas têm acesso, sem que sejam propriedade privada.
A natureza (ar, água), a cultura (linguagem, conhecimentos tradicionais
patrimônio histórico), e a própria comunidade em que nos inserimos, seja o

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espaço físico, seja a internet, são bens comuns e, em conjunto, sustentam a
vida humana.
Ao contrário do que afirma o capitalismo, os bens comuns têm mais valor
quanto mais abundantes são. Seu valor não é medido de forma financeira,
mas pelos benefícios que produzem, e sua preservação não depende do
retorno financeiro, e sim do compromisso comum de longo prazo.
Há uma urgência em reconectar as esferas da produção, reprodução e
consumo, separadas pelo capitalismo. Essa reconexão é que nos propiciará
as transformações necessárias em nosso cotidiano para atuar em termos de
recuperação e produção dos bens comuns.

3 | Igualdade e Diversidade
A produção da desigualdade é intrínseca ao capitalismo. Quando mais o
mercado é “livre”e “autorregulado”, maior tende a ser a desigualdade que
produz. Atualmente, o 1% mais rico acumula a mesma quantidade de riqueza
dos 50% mais pobres. No Brasil, a desigualdade é um componente histórico
e estrutural que tende a reproduzir novas formas permanentes de exclusão
e discriminação. É uma desigualdade que atravessa a sociedade, inclusive
encontrando respaldo político em segmentos médios e ricos da sociedade.
O enfrentamento da desigualdade tende encontrar resistências, mas não é
possível caminhar na perspectiva de transformar a sociedade sem enfrentar
todas as dimensões da desigualdade: econômica, regional, cultural, racial,
de gênero, de conhecimento, acesso a serviços sociais de qualidade, divisão
social e sexual do trabalho etc. A construção da igualdade é uma referência
para a formulação de políticas de um projeto para o país que empregue
políticas que combatam as exclusões, discriminações e as fontes de produção
de diferenciações sociais e econômicas. É também fundamental defender a
democratização do conhecimento e da cultura, em todas as suas expressões,
na perspectiva de todas e todos terem acesso a eles.
O capitalismo e o patriarcado são parte de um único sistema que estrutura
as relações sociais com base na exploração, na opressão e no racismo. A
contraposição a esse modelo deve articular necessariamente a dimensão de:

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classe, relações sociais entre gêneros e raças como condição para superar
as relações de dominação impostas pelo capitalismo. A desmercantilização,
a superação da divisão sexual do trabalho e a solidariedade são elementos
centrais para a construção de práticas que respeitem a autonomia e a liberdade
de todas as pessoas.
O Brasil possui altas taxas de violações de direitos humanos, entre os
quais destacamos o genocídio da juventude negra, dos povos indígenas,
e a violência patriarcal contra mulheres e meninas (incluindo femicídios,
violações, abusos sexuais e assédios de diferentes tipos), e contra a população
LGBTTQI+. A isso se soma a não representação política desses setores da
população. Há ainda índices alarmantes de tráfico de pessoas, em particular
de mulheres, geralmente para fins de exploração sexual.
As profundas e enraizadas hierarquias na sociedade brasileira exigem um
compromisso prioritário com o desmantelamento desses sistemas de opressão
e que não passa apenas por uma questão de classe, embora seja necessário
considerar essa imbricação e consubstancialidade das relações sociais.
Nosso princípio é que a ampliação e distribuição da riqueza é um meio para
viabilizar uma vida boa para todos e todas, diminuindo progressivamente
todos os tipos de desigualdades, opressões e discriminações sociais; por isso
a questão do direito à igualdade necessita ser articulada com a diversidade.

4 | Democracia, Participação e Autonomia


A participação popular ativa e a democratização do Estado estão
vinculadas à força dos movimentos e organizações populares. Considerando
as múltiplas opressões na sociedade brasileira, é de fundamental importância
a organização de diversos sujeitos coletivos em nossa sociedade. Essa
organização que responda à diversidade de problemáticas deve criar sinergia
para a definição de um projeto integral que rompa com as fragmentações e
hierarquias internas da classe trabalhadora.
Só com uma organização enraizada e que dê protagonismo a um conjunto
de setores invisibilizados pelo silêncio e exclusão é que se garantirá,
nas práticas concretas, a democratização da sociedade, a recuperação e

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construção dos bens comuns, o enfrentamento das elites e a construção de
um posicionamento emancipador e libertário.
Entendemos também que há de se combater a concentração dos meios
de comunicação em mãos de poucos grupos econômicos, e afirmamos a
urgência de uma ampla democratização da comunicação, que passa por
garantir a neutralidade e liberdade dos fluxos de informação na infraestrutura
das comunicações e de internet, portanto, pelo combate à lógica capitalista
da propriedade intelectual. Ademais, partindo do princípio de que o
conhecimento liberta as pessoas, é necessário democratizar a cultura e o
conhecimento.
Precisamos recuperar o sentido público, inclusive do Estado. Queremos
um Estado que realmente seja capaz de garantir nossos direitos e esteja
a serviço da sociedade e do povo, exercendo seu poder e sua gestão de
forma democrática, transparente e com participação popular. Um Estado
comprometido com a autodeterminação dos povos, que respeite a diversidade
e seja ativo na construção de uma sociedade igualitária.
Isso implica um papel ativo no âmbito internacional que promova a
integração dos povos. As políticas entre os países devem basear-se nos
princípios da solidariedade, reciprocidade e redistribuição.
Nesse sentido, seguimos com nossa luta pela desmilitarização e
questionamos o papel do poder econômico em intervenções militares
realizadas em nome do controle de territórios ricos em bens naturais.
Quando falamos em autonomia, incluímos também o respeito às formas
de organização populares dos povos indígenas, quilombolas, pescadores, e
outras comunidades.
 
5 | Soberania e Desenvolvimento
Soberania Nacional é a garantia de autodeterminação do povo brasileiro
para escolher e decidir sobre seu próprio destino. Defendemos uma ideia
de emancipação na qual o povo decide os rumos e defende seu território e
bens comuns.

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Não é possível pensar um projeto para o Brasil sem ter como fundamento
a soberania sobre o território e suas riquezas naturais com a garantia
militar de sua defesa, a autodeterminação política da Nação, incluindo sua
produção científica e tecnológica e a plena governabilidade sobre a própria
economia. As soberanias energética e alimentar também são basilares em
termos políticos e econômicos.
Propor desenvolvimento como eixo paradigmático significa afirmar
a necessidade de desenvolver as forças produtivas em um país periférico,
respeitando a sustentabilidade ambiental, e proporcionando condições dignas
de vida a todos e todas. Deve ser um desenvolvimento pluridimensional,
altamente diversificado, fortalecendo os setores que possam atender as
necessidades da população e as estratégias da Nação. Um desenvolvimento
que garanta qualidade de vida, inclusive possibilitando que os ganhos
tecnológicos sejam redistribuídos entre todos, a fim de que as pessoas
possam ter tempo para viver todas as dimensões da vida para além do
trabalho. Precisamos também ter no horizonte a superação progressiva do
assalariamento e a garantia de uma renda básica para todas as famílias,
independente da ocupação e do tempo dedicado ao trabalho.

Afirmação dos Valores Humanistas


Nunca é demais afirmar a valorização e o cultivo da generosidade humana
em nosso projeto e seu esforço permanente em afirmar e resgatar valores
humanistas que orientem a busca pela emancipação e libertação do ser
humano das mais variadas formas de opressão e alienação. A busca pela
igualdade, liberdade, solidariedade, respeito, pluralidade, sororidade,
fraternidade, dignidade, respeito a todas as formas de vida proteção na
infância e velhice serão valores com força vital a orientar permanentemente
o esforço de construir um Projeto Popular para o Brasil.

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CIDADES

INTRODUÇÃO
As cidades brasileiras expressam a grave desigualdade social do país. Apesar
da diversidade – histórica, social e cultural, de tamanho, clima e paisagem–,
os municípios foram construídos à imagem e semelhança da “casa grande e
senzala”, na qual uma ilha central de prosperidade concentra investimentos
públicos e privados, enquanto a periferia – lar majoritário da população negra
– segue exposta ao abandono estatal, à violência e aos grandes deslocamentos
via transporte público de baixa qualidade.
Com o objetivo de efetivar o direito à cidade, procuramos refletir sobre
a influência da lógica privatista e de mercado na formação dos municípios
brasileiros, além de apontar propostas para efetivar a aplicação da legislação
existente para frear esse processo e para avançarmos em direção a uma maior
qualidade de vida.

DIAGNÓSTICO
Atualmente, quase 85% da população brasileira vive no meio urbano,
resultado de um processo que ocorreu sobretudo no século XX, paralelo
a uma “industrialização com baixos salários”. Nesse contexto, milhões
de migrantes do meio rural foram para as metrópoles e resolveram sua
necessidade de moradia sem o auxílio de políticas públicas – habitação,
saneamento, mobilidade etc. –, concentradas nas regiões centrais e regidas
pelo mercado imobiliário. Assim, o crescimento acelerado das cidades
carregou as marcas do passado colonial e escravista, como vemos até hoje
nas periferias com população predominantemente negra e que permanecem
invisíveis, inclusive na representação dominante da cidade. 
A apropriação dos recursos públicos e das melhores localizações para
negócios ou retenção especulativa e o abandono das periferias e bairros
centrais populares são as principais causas dos grandes problemas urbanos: a
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dispersão geográfica, que aumenta o custo da infraestrutura; a multiplicação
de favelas e moradias inadequadas; mobilidade precária com viagens longas,
caras e poluidoras; enchentes que se repetem a cada ano; desmoronamentos;
epidemias decorrentes da proliferação de mosquitos e da coleta insuficiente
do lixo; poluição do ar e dos cursos d’água; a depredação ambiental, com
impermeabilização do solo e ocupação de áreas ambientalmente frágeis.
Nesse cenário, indicadores como renda, escolaridade, raça, violência, taxa
de homicídios e expectativa de vida mostram as cidades partidas entre os
incluídos e os excluídos. A ação policial também varia muito de acordo com
o perfil socioeconômico de cada localidade.
Diante dessa realidade, é paradoxal que as leis federais relativas às cidades
sejam avançadas. A Constituição de 1988, o Estatuto da Cidade (2000), a
Lei Federal do Saneamento Básico (2007), a Lei Federal de Resíduos Sólidos
(2011), a Lei Federal da Mobilidade Urbana (2012), o Estatuto da Metrópole
(2015), entre outras, permanecem sem implementação, com destaque para
o preceito constitucional da Função Social da Propriedade (artigo 5º, inciso
XXIII). Esse conjunto de leis foi, portanto, incapaz de reverter a desigualdade
estrutural das cidades.
É, portanto, tarefa das forças democráticas recolocar horizontes que
superem as limitações existentes na institucionalidade e demais espaços.
É preciso investir na construção de uma agenda de política urbana que
defina prioridades para a conquista de cidades justas, democráticas e
ambientalmente equilibradas. A redemocratização do Brasil precisa passar
pelas cidades ou não se efetivará. 

PROPOSTAS
1 - Transparência e controle sobre o orçamento e investimento públicos
Paridade racial e de gênero nos órgãos de controle e implementação de
políticas públicas municipais.
Participação ampla, efetiva e deliberativa no controle do orçamento e dos
investimentos públicos municipais, buscando atender às regiões de maior
necessidade, de acordo indicadores sociais.
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Conselhos municipais rotativos e itinerantes na cidade, com debates nos
espaços periféricos.
Implantação de modelos municipais de “governo aberto”, com transpa-
rência em relação aos dados da gestão e à formulação e implementação de
políticas públicas.
Desenvolvimento de laboratórios e institutos públicos de monitoramento
de gestões do executivo e mandatos legislativos municipais.
  Controle dos recursos públicos por meio do Orçamento Participativo.

2 - A cidade não é um negócio: a defesa da função social da terra


Garantir o acesso das camadas populares ao sistema de justiça para efetivar
direitos ligados ao uso do solo e à função social da terra – como o direito à moradia,
direito à mobilidade e ao saneamento.

Implementar o Estatuto das Cidades, notificando os imóveis ociosos com o


auxílio de tecnologias digitais e colaborativas.

Garantir a ampliação e eficácia das áreas de Zonas Especiais de Interesse Social


(áreas destinadas a assentamentos habitacionais para população de baixa renda,
existentes ou novos).

Desenvolver ações de médio e longo prazo na solução de conflitos em áreas


ambientalmente frágeis ocupadas por população pobre, combinando direitos
humanos e preservação ambiental.

Destinar os terrenos e edifícios vazios da União, dos estados e dos municípios,


para a produção de moradias de interesse social, em contraponto às propostas de
privatização dos imóveis públicos.

Formular Planos Diretores mais eficientes para o combate à desigualdade urbana,


incluindo cronogramas de ações, obras e investimentos.

Romper com a lógica neoliberal de desenvolver cidades voltadas para megaeventos


e projetos arquitetônicos espetaculares.

3 - Levar a cidade à periferia, ou seja, colocar a periferia no centro: urbanizá-


la, saneá-la, regularizá-la, propiciar mobilidade e quebrar a escandalosa
desigualdade e segregação

24
Reconhecer a sociabilidade e a centralidade das periferias e favelas, mas garantir
a melhoria de suas condições materiais.

Fomentar centros de bairro, apoiando o desenvolvimento local por meio de


serviços públicos e privados.

Desenvolver programas de assessoria integrada – técnica, jurídica, arquitetônica


e social –, com participação do poder público, de universidades e do terceiro setor,
para promover o acesso a direitos das camadas populares.

Assistência Técnica às Habitações de Interesse Social (HIS) para reformas e


novas moradias, urbanização de favelas e áreas precárias.

Replicar experiências como os Centros Educacionais Unificados (CEUs) e


Centros Integrados de Ensino Profissionalizante (Cieps), entre outras.

Apoiar atividades culturais, esportivas e educacionais como possibilidade de


geração de renda para a juventude pobre, predominantemente negra.

4 - Por uma cidade antirracista, na qual o direito à memória e ao patrimônio


incluam a ancestralidade do povo negro

Apoiar a participação dos(as) negros(as) e populações tradicionais em todas as


instâncias de planejamento e política urbana.

Combater as dimensões de biopoder (controle dos corpos) e necropolítica (ação


do Estado contra a vida) nas políticas de “segurança pública” em territórios negros,
periféricos e favelas.

Priorizar a implementação de políticas e equipamentos públicos nos territórios


com maioria de pessoas negras e povos tradicionais.

5 - Direito à mobilidade urbana: “descatracalizar” a vida


Redistribuir equitativa, eficiente e ambientalmente o espaço viário, com
prioridade aos pedestres, ciclistas e ao transporte coletivo.
Fomentar o uso de matrizes energéticas não-poluentes, para mitigar a degradação
ambiental.
Universalizar o acesso ao transporte coletivo, com tarifa zero para a população de
baixa renda, estudantes e desempregados, alterando a política tarifária, de financiamento

25
e gestão da mobilidade urbana; deve haver subsídios para operação do sistema e o
monopólio de empresas operadoras do transporte público deve ser quebrado.
Taxar “subsídios ocultos” dos quais gozam os automóveis, ao ocuparem a maior
parte dos espaços públicos e estacionamentos.
Criar um sistema de financiamento integrado e interfederativo para operação e
infraestrutura em mobilidade.
Aumentar infraestrutura intermodal em terminais e em bairros periféricos, para
que em uma mesma viagem o usuário utilize diversos modos – ônibus, bicicleta,
metrô etc. 
Garantir moradia popular em locais próximos aos eixos de transporte público e
em bairros com oportunidades de emprego e renda.
Fortalecer centralidades locais a partir da oferta de serviços públicos (creches,
escolas, unidades de saúde, teatros, etc.) na periferia, como forma de diminuir o
número de viagens em direção aos centros.
Desmontar cadeias monopolizadas por empresas operadoras pouco eficientes.

6 - Acesso universal à moradia digna, rompendo com o padrão de atendimento


ao “déficit habitacional quantitativo”, de provisão de grandes conjuntos
habitacionais fora da cidade

Garantir regularização fundiária de bairros populares.

Apoiar a autogestão com Assistência Técnica à Habitação de Interesse Social,


voltada à produção, reforma, melhoria, urbanização e regularização fundiária.

Apoiar um serviço de moradia capaz de incluir populações de baixíssima renda,


populações de rua e, ainda, outras formas de propriedade que não a privada. 

7 - Meio ambiente como bem comum

Combater a poluição das águas, da terra e do ar, investindo na universalização


do saneamento, na redução da circulação de automóveis, na utilização de fontes de
energias limpas no transporte público e no controle da atividade industrial.

Preparar as cidades para as mudanças climáticas, gerenciando riscos associados


a deslizamentos de encostas, inundações, erosão marítima e outros fenômenos
potencializados pelo aquecimento global.

26
Ampliar a rede de parques, áreas verdes; arborizar o sistema viário, para combater
ilhas de calor e inundações.
Garantir a manutenção de áreas rurais complementares ao urbano para a produção
de alimentos (segurança alimentar e nutricional), proteger áreas ambientalmente
frágeis e ampliar as unidades de conservação.
Proteger e garantir a demarcação de terras indígenas.
Interromper atividades de mineração com impacto em áreas urbanas.
Proteger as reservas hídricas, as Áreas de Preservação Permanente (APP), as
Áreas de Preservação de Mananciais (APM), mangues e dunas.
Despoluir e preservar cursos de água.
Ter como referência a cidade de uso misto e compacta – na qual as regiões
atendem às funções de moradia, locomoção, produção, troca e diversão.

8 - Universalização do saneamento ambiental com urbanização integrada

Defender o caráter público e a competência municipal do serviço de saneamento,


para garantir que os lucros sejam reinvestidos na expansão do sistema.

Responsabilizar as empresas produtoras de resíduos pela destinação adequada


das embalagens dos seus produtos (logística reversa).

Defender a ampliação da coleta seletiva e o desenvolvimento de soluções de


compostagem para os resíduos orgânicos.

Apoiar a estruturação de serviços municipais de manejo de águas pluviais, com


instalações que aumentem a infiltração e a retenção antes do lançamento nos cursos
d´água.

Aumentar a segurança hídrica por meio de soluções adequadas para as diferentes


regiões do país.

Vincular o abastecimento de água à preservação de mananciais, nascentes e


cursos d’água.

9 - Pela equidade de gênero nas cidades

Apoiar a participação da mulher em todas instâncias de planejamento e


política urbana.

27
Universalizar o acesso à creche, garantindo vagas em equipamentos próximos à
residência ou ao emprego das mulheres trabalhadoras.

Priorizar a implantação dos serviços públicos de saúde nas áreas de maior


demanda social.

Combater todas as formas de violência contra a mulher, em casa, nas ruas e no


transporte público.

Ampliar delegacias da mulher (existem apenas 408 em todo o país), incluindo


delegacias especializadas nas unidades existentes.

Ampliar juizados especiais da mulher, que atualmente não passam de 66.

Promover casas de atendimento e acolhimento da mulher, integrando moradia,


saúde, assistência e geração de renda. 

10 - Pelo direito ao acesso à cultura e vida urbana

Garantir o acesso aos bens, espaços públicos e recursos destinados à cultura


e ao esporte, considerando a diversidade social – negros, indígenas, LGBTQ+,
desempregados – e territoriais (periferias e áreas de baixa renda).

Reconhecimento do patrimônio material e imaterial valorizando: (a) a cultura


popular com o mesmo interesse e importância do patrimônio erudito, determinado
pelo Estado; (b) o valor de uso e a apropriação pública da produção cultural; (c) a
memória da cultura brasileira (pensada amplamente) inventariando, inclusive, áreas
urbanas de interesse cultural.

11 - Por uma segurança cidadã, com uma política de segurança pública


que promova direitos em contraposição à ação policial violenta nos bairros
populares

Priorizar a implantação de equipamentos públicos voltados para a difusão de


atividades sociais, culturais, de saúde e educação nas regiões mais vulneráveis e nas
manchas territoriais com maior incidência de homicídios.

Políticas de segurança pública pautadas na prevenção e promoção do acesso a


direitos de forma universal como forma de romper o ciclo de violência do Estado.
Combater a presença das milícias na construção de moradias precárias

28
(frequentemente acompanhadas por desmatamento) e exploração de transporte
informal.

Políticas de desarmamento e controle de armas.

Implementar políticas de redução de danos, saúde pública e oferta de empregos voltadas


para situações de uso problemático de drogas. Distinguir usuários de traficantes

Combater a violência contra mulheres, negros, indígenas, homossexuais,


transexuais e todos os demais grupos vítimas de preconceito e segregação.

12 - Desenvolver educação para cidadania, com inclusão no currículo escolar


de cursos e eventos, além de campanhas publicitárias e sociais, com os
seguintes conteúdos

Preservação e valorização dos espaços públicos – parques, praças e calçadas - e


do patrimônio em comum, incluindo o patrimônio histórico material e imaterial,
através de um ensino consistente da geografia municipal.

Segurança e humanização do trânsito, sobretudo para as mobilidades ativas


(pedestres e ciclistas).

Engajar o ensino fundamental na vida da cidade combatendo o analfabetismo


urbanístico. 

A extensão universitária pode ser uma contribuição fundamental para combater


a alienação e a representação da classe dominante sobre as cidades.

13 - Promover parcerias do poder público com organizações populares e
cooperativas, com a finalidade de mitigar carências urbanas 
Construção de novas moradias e melhoria das já existentes com autogestão e
assessoria técnica.
Fomento à produção cultural, educacional e esportiva entre jovens.
Reciclagem de resíduos sólidos.
Agricultura urbana.
Nutrição e saúde.

29
CULTURA

INTRODUÇÃO
A cultura brasileira tem como uma de suas principais marcas a diversidade,
pela sua formação a partir da contribuição de diversas culturas, tais como a
indígena, africana e ibérica, além das trazidas por outros povos que migraram
para cá com mais intensidade a partir do início do século XX.  
Apesar de rica e diversa, a cultura brasileira é marcada pelas mesmas
problemáticas que estruturam nossa sociedade: racismo, machismo e
classismo, razões e efeitos da enorme desigualdade social que marca o
país. Essas questões restringem as possibilidades de expressão e fruição das
manifestações culturais. 
Buscamos apontar caminhos e propostas para a democratização da
cultura, entendendo esta como vetor de desenvolvimento social. Para tal,
é fundamental o reconhecimento e valorização da diversidade cultural e o
fortalecimento de um sistema público de fomento que promova os objetivos
democratizantes da cultura e não reforce desigualdades já existentes. 

DIAGNÓSTICO
A cultura brasileira tem a diversidade como uma de suas principais marcas,
fruto da fusão e miscigenação das culturas de diversos povos. Ao longo do
século XX, o Brasil viveu ricos processos de interação e fusão de diferentes
expressões culturais, sendo a música brasileira e sua combinação com festas e
danças populares a expressão mais visível. O cinema, a literatura, a dança, o
teatro e as artes plásticas se relacionam com as diferentes referências internas
e externas, apropriadas de acordo com nossas experiências. A originalidade
e riqueza da nossa cultura se explica em parte por essa mistura. No entanto,
ela é também marcada pelo racismo e classismo, elementos estruturais da
sociedade brasileira. 

30
Muitas das formas de resistência das populações negras e indígenas se
dão por meio de expressões culturais. A cultura popular é, assim, elemento
agregador e organizador da classe trabalhadora e de grupos marginalizados.
Por outro lado, muitas manifestações culturais do nosso país não estão
disponíveis para a vivência da população como um todo. Essa baixa
possibilidade de fruição da cultura é explicada por diversos fatores, sobretudo
pelas desigualdades sociais que caracterizam o país. Estão entre os demais
aspectos o baixo índice de leitura, a presença restrita da dimensão cultural
nos processos de educação formais e informais, além da ausência de oferta de
cultura em boa parte dos municípios e bairros periféricos das grandes cidades. 
A questão econômica é preponderante também para explicar as dificuldades
na preservação, proteção e promoção de nossa memória e nosso patrimônio
cultural, material e imaterial. 
A superação desse cenário demanda o reconhecimento de dimensões
fundamentais para a constituição da cultura: a dimensão simbólica (valor
estético e perspectiva antropológica que dá valor em si a suas expressões); a
dimensão cidadã (reconhecimento da cultura como direito e do papel do Estado
em garantir suas condições de produção, circulação e vivência); a dimensão
econômica (setor que movimenta recursos econômicos e emprega cidadãos). 
Mas isso só acontecerá no momento em que se reconheça a importância
social e política estrutural da cultura, inclusive como vetor para o
desenvolvimento econômico. Atualmente, há a prevalência de um modelo
comercial, que leva à situação de subfinanciamento e concentração do
sistema público de fomento. Dessa forma, é preciso criar estruturas que
encarem o desafio de universalizar o direito à cultura.
O modelo atual é pouco democrático e oferece condições desiguais para
produtores internacionais e brasileiros na circulação e comercialização,
privilegia grandes empresas financiadoras, grandes produtores culturais e os
grandes intermediários (empresas de televisão, plataformas de internet etc)
cujos interesses são conflitantes com os objetivos democratizantes da cultura
defendidos por um projeto popular.
31
O setor cultural tem enfrentado ainda o avanço de setores conservadores,
incluindo religiosos, que se colocam contra sua dimensão emancipadora e
libertadora, buscando enquadrá-la e censurá-la de acordo com seus valores.
Apesar desse diagnóstico, os coletivos e grupos de cultura popular resistem
em todo o país. Além do fortalecimento desses grupos, um cenário cultural
mais democrático pressupõe a articulação entre criadores e artistas de pequeno,
médio e grande porte, em conjunto com os setores médios que reconheçam
a centralidade da cultura num projeto de desenvolvimento para o país. 

PROPOSTAS

1 - Aumentar progressivamente os recursos para o MinC, visando


alcançar a meta 1% do orçamento da União, assim como fortalecer
o papel e ampliar os recursos do Fundo Nacional de Cultura (FNC)

2 - Reforma dos mecanismos de fomento público à cultura, com a


potencialização do FNC e a diminuição relativa do peso da Lei Rouanet.
Aprofundar a política de desenvolvimento audiovisual conduzida
pela Ancine, garantindo que os investimentos do Fundo Setorial do
Audiovisual promovam a diversificação dos produtores, com políticas
afirmativas para mulheres e negros/as

3 - Reafirmar o compromisso com a Convenção da Unesco sobre a


Proteção e Promoção da Diversidade Cultural, construindo um ciclo
de políticas que respondam aos direitos culturais dos povos indígenas,
quilombolas e ribeirinhos

4 - Intensificar o diálogo da cultura com outros campos, como a educação,


a ciência e tecnologia, a comunicação, o esporte, a saúde, a economia e o
turismo
32
5 - Afirmar o comum como base da produção e das trocas de bens e
serviços culturais

6 - Ampliar a articulação e interlocução de grupos e coletivos de


expressão cultural popular do Brasil, da América Latina e da África. 
Fomentar a articulação territorial de agentes e espaços públicos e
privados no âmbito municipal

7 - Construir processos regulatórios que garantam condições de


realização dos direitos culturais de criadores e artistas brasileiros
perante as grandes corporações estrangeiras

8 - Fortalecimento do Sistema Nacional de Cultura

9 - Defesa da criação e manutenção de estruturas públicas voltadas à


cultura, como Secretarias Municipais e Fundações Públicas

10 - Promoção de políticas de universalização do acesso pleno à banda


larga

11 - Reforma da Lei de Direitos Autorais e regulação do ambiente digital


para garantir a democratização na oferta e a diversidade cultural na
circulação e comercialização de bens e serviços culturais

12 - Fortalecimento das estruturas de preservação, proteção e


promoção da memória e do patrimônio cultural brasileiros nos estados
e municípios 

13 - Implantação e fortalecimento de projetos de descentralização da


produção cultural, retomando o modelo dos pontos de cultura

33
EDUCAÇÃO

INTRODUÇÃO
Um projeto transformador de sociedade deve afirmar o pleno acesso a
uma educação de qualidade como um direito humano, ou seja, um direito
para absolutamente todos e todas. A educação deve estar comprometida com
uma cultura democrática que promova a intolerância com as desigualdades e
sustente um projeto radical de justiça social e ambiental no país.
No Brasil, a educação de qualidade, embora prevista no art. 206 da
Constituição Federal (1988), ainda não se configura como um direito de todas
as pessoas: as pessoas pobres, negras, indígenas, migrantes e imigrantes, com
deficiências, LGBTIQ+, do campo e das florestas, entre outras populações e
grupos marcados pelas desigualdades, ainda têm grande parte desse direito
negado ou, quando o acessam, este é ofertado em condições precárias e de
baixa qualidade.
Este documento contém propostas para uma educação pública, universal,
gratuita, laica e de qualidade. Traçamos um diagnóstico das políticas de
educação firmadas em períodos históricos, sobretudo após o fim da ditadura
militar (1964-1985), expondo seus avanços e pontos críticos, e formulamos
um conjunto de propostas para que o direito à educação seja efetivado
conforme previsto na Constituição Federal.

34
DIAGNÓSTICO
A educação é uma das políticas sociais que mobiliza diariamente mais de
50 milhões de crianças, adolescentes, jovens e adultos. Em nosso país, de
cada 100 crianças que entram no 1º ano do ensino fundamental, menos de
50 chegam ao final dos 9 anos dessa etapa e somente 11 conseguem alcançar
o ensino superior. Essa exclusão sistemática atinge principalmente crianças e
adolescentes dos setores populares, em especial, os meninos negros.
Em 2017, 7% das pessoas com mais de 15 anos não sabiam ler nem escrever,
o que equivale a 11,5 milhões de analfabetos. Estima-se que há ainda 27% de
analfabetos funcionais (pessoas com escolarização, mas que não conseguem
compreender textos simples ou realizar operações matemáticas básicas),
entre os quais 70% são pessoas negras.
A luta para que políticas de educação pública de qualidade sejam efetivadas
e contribuam para reverter esse quadro é histórica e tem mobilizado diversos
movimentos sociais. Com o fim da ditadura militar – período marcado pela
expansão da educação pública com base em um baixo investimento por aluno,
muitos direitos foram conquistados na Constituição Federal de 1988.
A Constituição inovou no tratamento do direito à educação como
direito social (artigo 6º). Entre os avanços destacam-se a formulação
mais precisa sobre gratuidade, a incorporação das creches ao atendimento
educacional, a garantia do direito à educação de jovens e adultos e de
pessoas com deficiências, o reconhecimento do dever do Estado para com
o ensino noturno, o direito à educação indígena na língua materna e o
estabelecimento de instrumentos jurídicos para exigibilidade do direito
à educação. Avanços que foram detalhados e ampliados no Estatuto da
Criança e do Adolescente (ECA - 1990) e na Lei de Diretrizes e Bases da
Educação Nacional (LDB - 1996).
Esses avanços constitucionais repercutiram em muitas políticas locais
e estaduais, mas foram fortemente impactados pela onda das reformas
neoliberais dos anos 1990 na América Latina. Essas reformas pregavam o
enxugamento do Estado e defendiam a diminuição dos gastos públicos,
que já eram insuficientes diante da gigantesca e histórica dívida social
35
brasileira. Apesar disso, o acesso à educação cresceu e o país chegou quase
à universalização da oferta de vagas para a população dos 7 aos 14 anos na
etapa obrigatória do Ensino Fundamental na década de 1990, porém essa
expansão se deu com baixa qualidade.
Durante os governos petistas, houve avanços nas políticas, programas
e iniciativas governamentais comprometidas com a democratização da
educação, entendida como um direito, entre eles: o aumento do financiamento;
a ampliação dos programas sociais articulados ao atendimento educacional;
o investimento, embora tardio, nas Conferências Nacionais de Educação,
na gestão democrática e em outras formas de participação; a ampliação
do número de instituições públicas de educação profissional e tecnológica
e de ensino superior; a ampliação do acesso à creche; o maior acesso de
setores populares e negros ao ensino superior por meio de ações afirmativas
em instituições públicas, mas também por meio do subsídio de dinheiro
público às instituições privadas do ensino superior de menor qualidade via
Programa Universidade para Todos (ProUni) e, principalmente via Fundo
de Financiamento Estudantil (Fies).
Apesar desses avanços, muitos contraditórios e insuficientes para o
tamanho e a complexidade da dívida educacional brasileira, é possível afirmar
que as políticas educacionais não tiveram como prioridade o investimento
sistêmico na construção de uma cultura democrática comum que mudasse
mentalidades e ampliasse as bases sociais para a sustentação de um projeto
de justiça social no país comprometido com a superação das desigualdades,
com o reconhecimento das diferenças e a promoção de sustentabilidade
socioambiental.
Predominantemente, nos governos petistas, as políticas educacionais foram
abordadas com base em três perspectivas conflitantes: 1) inclusão precária de
novos segmentos populares e negros à educação formal, do qual o Prouni e, em
especial, o Fies, constituem exemplos, com um grande investimento público
em universidades privadas de baixa qualidade; 2) aumento da capacidade
competitiva do país em uma economia globalizada, em que o número de
registros de patentes foi considerado um indicador de sucesso; 3) ampliação

36
e aprimoramento das políticas universais e da criação de políticas afirmativas,
com políticas e programas direcionados e a elaboração do PNE (2014-2024),
que representou uma grande aposta na melhoria da qualidade educacional.
Cabe ressaltar que de 2003 a 2012 o gasto federal em manutenção e
desenvolvimento do ensino triplicou, em relação ao PIB, chegando a 1,2%,
um esforço gigantesco, mas ainda pequeno frente ao gasto público total (5%
do PIB) e frente aos recursos do fundo público em mãos do ente federal (mais
de 50%). E, mais grave, como muitos dos recursos adicionais não foram
constitucionalizados, como o Custo Aluno Qualidade Inicial - (CAQi) via
Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb) e
a Valorização dos Profissionais da Educação Básica, que continuaram como
transferências voluntárias, os governos de Temer e Bolsonaro reduziram
drasticamente esses valores.
Em junho de 2014, foi aprovado pelo Congresso Nacional o Plano Nacional
de Educação (PNE), Lei 13.005/2014. Fruto de forte atuação de movimentos
sociais, redes e organizações da sociedade civil e das Conferências Nacionais
de Educação, o PNE contém vinte metas para a melhoria da qualidade
na educação até 2024. Boa parte delas foi inviabilizada pelos cortes de
recursos e pela aprovação da Emenda Constitucional 95 no governo
Temer, em dezembro de 2016, que reduziu o financiamento da educação e
constitucionalizou a política de austeridade.

37
PROPOSTAS
1 - Retomada e implementação do PNE (2014-2024)
Implementar a lei, com suas vinte metas e regulamentações, entre elas,
do Sistema Nacional de Educação; do Custo Aluno Qualidade; do Sistema
Nacional de Avaliação da Educação Básica (Sinaeb); da Política Nacional de
Formação dos profissionais de educação; da Gestão Democrática; da Política
Nacional de Materiais Didáticos e Paradidáticos.

2 - Promoção de uma cultura democrática comum para a sustentação de


um projeto de justiça social e de transição para uma sociedade sustentável
articulada às políticas de cultura, participação e de ciência e tecnologia
Reorientar a política de educação para a promoção de uma cultura
democrática que priorize o letramento político da população, a alteridade,
o compromisso com o bem comum e o interesse público, o combate a
desigualdades, racismos, sexismos, LGBTfobia, capacitismo e demais
discriminações, a crítica ao consumismo, a alfabetização ecológica e pelo
bem viver.
Promover por meio da educação formal e de uma política nacional de
educação popular a educação em direitos humanos e em direitos da natureza,
com forte articulação com as políticas de cultura (pontos de cultura, estímulo
à leitura, cinema, teatro), de participação social, de consolidação de espaços
públicos, e de ciência e tecnologia (com a expansão do acesso à internet
de alta velocidade). Dentro desse desafio, é urgente um programa nacional
de educação sobre as mudanças climáticas, para as quais o país se mostra
profundamente despreparado.
Valorizar, financiar, fortalecer, estimular e multiplicar experiências
educativas, culturais e tecnológicas inovadoras nas creches, escolas e
universidades, como parte do currículo formal, e para além da educação
formal, na sociedade civil: coletivos juvenis, organizações, movimentos
sociais, grupos culturais etc.

38
3 - Acesso ao conhecimento emancipatório e produção de novos
conhecimentos na educação formal que tensionem e ampliem o que
se considera universal, de forma contextualizada e conectada aos
territórios
Implementar as Diretrizes Nacionais Curriculares de Educação, Inclusão
e Diversidade, aprovadas pelo Conselho Nacional de Educação e construídas
ao longo das décadas de 2000 e 2010;
Dar centralidade à implementação da LDB alterada pelas leis 10.639/2003
e 11.645/2008, que estabeleceu a obrigatoriedade do ensino da História e
da Cultura Africanas, Afro-brasileira e Indígenas na educação pública e
privada, como eixo estrutural de uma revisão curricular que supere o racismo
estrutural e amplie a noção de conhecimento universal para todas e todos.

4 - Prevenção e enfrentamento do racismo, do sexismo, da lgbtfobia,


do capacitismo e demais discriminações, fim do ensino religioso em
escolas públicas e defesa ativa da laicidade na educação pública
Implementar mecanismos de prevenção e de enfrentamento imediato de
situações de discriminações e de violências e da defesa ativa da laicidade na
educação pública.
Implementar o artigo 8º da Lei Maria da Penha (que estabelece a
obrigatoriedade das escolas abordarem gênero e raça como forma de prevenir
a violência doméstica e familiar) e garantir ativamente o direito humano à
liberdade religiosa, que prevê também o direito humano de não professar
nenhuma religião.
Propor fim do ensino religioso em escolas públicas, implementar as
Diretrizes Nacionais de Educação em Direitos Humanos em todo o país e
estabelecer mecanismos que promovam a educação laica em creches, escolas
e universidades públicas.

39
5 - Territórios educativos: acesso à permanência na educação, com
proteção integral e fortalecimento da escola para vida digna
Implantar redes intersetoriais de proteção e garantia dos direitos das
crianças, adolescentes e jovens.
Trabalhar a noção de território educativo, no qual as creches, escolas
e universidades de um mesmo território atuem de forma articulada com
outras organizações da sociedade civil e espaços educativos existentes na
comunidade.
Garantir, na perspectiva de equalização, maior investimento e das políticas
públicas para as escolas situadas em territórios mais pobres, marcados pelos
piores indicadores sociais, com a garantia de bolsas e de outros programas de
permanência para estudantes do ensino médio e de ensino superior oriundos
de setores populares e vinculados aos programas de ações afirmativas.
Superar uma abordagem da Educação em tempo integral como
confinamento de crianças e jovens pobres em escolas, para uma perspectiva
que garanta o aumento de experiências enriquecedoras em condições e
equipamentos adequados, sob supervisão de profissionais qualificados e
articulação das áreas da educação com as áreas de cultura, assistência social,
saúde, socioambiental, desportiva, entre outras.

6 - Implementação do Custo Aluno qualidade (CAQ) e promoção de


uma política de financiamento para a equalização
Revogar a Emenda Constitucional 95/2016 e ampliar as condições de
financiamento da política educacional e demais políticas sociais.
Defender ativamente a vinculação constitucional para as áreas de educação
e saúde.
Implementar o Custo Aluno Qualidade (CAQ) e o Custo Aluno
Qualidade Inicial (CAQi), conforme previsto no PNE. Adotar uma
política de financiamento equalizadora que invista recursos adicionais em
escolas, regiões e territórios marcados por desigualdades, visando garantir

40
melhor infraestrutura, estímulo à fixação de professores mais experientes
e qualificados, entre outras medidas, oferecendo melhores condições para
quem mais precisa.
Investir na expansão do Ensino Superior por meio de instituições públicas,
buscando reverter o quadro da oferta atual caracterizada pela maior presença
de instituições privadas de baixa qualidade e do crescente investimento na
educação a distância como uma alternativa precarizada para os setores
populares.

7 - Carreira nacional para os profissionais de educação básica e ensino


superior de instituições públicas
Tornar a profissão docente uma das carreiras mais atrativas do país, com a
valorização efetiva dos profissionais de educação por meio de políticas como
formação inicial e continuada de qualidade; salários dignos com planos de
carreira; jornada integral, com ao menos um terço do tempo destinado às
atividades extraclasse (trabalho coletivo com colegas, planejamento, correção
de trabalhos, relação com a comunidade etc); regras de ingresso na carreira,
como a admissão por concurso público e a avaliação profissional; condições
de trabalho (número adequado de estudantes por turma, infraestrutura,
materiais).
Implementar as conquistas legais da última década – como o Piso Salarial
Profissional Nacional para os Profissionais do Magistério (2008) e de outras
estratégias previstas no PNE.
Aprovar as Diretrizes Nacionais de Carreira proposta pela Confederação
Nacional dos Trabalhadores de Educação (CNTE), e uma Carreira Nacional
para os profissionais de Educação Básica, com valores salariais que venham
progressivamente a ser equiparados aos profissionais de educação superior.
Aplicar critérios de ação afirmativa de cor/raça, origem social, identidade
de gênero e presença de deficiências nos processos seletivos do professorado
conforme percentual da presença desses grupos no total da população
do município ou Estado. Dessa forma, se buscará evitar o fenômeno de

41
que a valorização de uma profissão venha associada ao branqueamento da
categoria.
8 - Regulação do setor privado na educação pública e estímulo para que
as classes médias e altas frequentem a escola pública
Regulamentar o setor considerando a crescente privatização da educação
pública, com a consequente subordinação dela aos interesses das corporações,
num contexto de intensa financeirização da economia.
Estimular que estudantes de classes médias e altas se matriculem em
escolas públicas, inclusive revendo as várias formas de subsídio público às
escolas privadas, e implementar nas instituições privadas a obrigatoriedade
de ações afirmativas com critério racial na contratação de profissionais de
magistério e na composição do alunato; e alterar a LDB, por meio das leis
10.639/2003 e 11.645/2008, visando enfrentar – entre outros desafios – o
déficit de cultura democrática e o racismo nessas instituições.
Implementar a progressiva extinção do Fies com destinação dos recursos
para ampliação da rede pública e congelamento das vagas via convênios,
organizações sociais e vouchers em todas as etapas, modalidades e níveis da
educação.
Regular de forma precisa a atuação das Fundações privadas de apoio
atualmente existentes nas instituições públicas de ensino superior com a
garantia de que a destinação dos recursos por ela mobilizados seja definida
pelos colegiados institucionais; e vedar cobranças em cursos de extensão,
MBAs e cursos de atualização de quaisquer modalidades.

9 - Uma política de avaliação educacional para a transformação social


Superar uma política de avaliação de educação básica centrada no Ideb e
construir uma política de avaliação que retome a proposta prevista na portaria
369/2016 (Inep/MEC) que estabeleceu o Sistema Nacional de Avaliação da
Educação Básica Sinaeb, revogada pelo governo Temer e elaborada em diálogo
com organizações da sociedade civil e movimentos sociais. Uma política que
estimule nacionalmente a autoavaliação participativa escolar, que faça sentido

42
para as escolas e que aborde não somente o desempenho e o fluxo dos alunos,
mas os insumos, os processos, o acesso e a equidade, buscando tornar visível
aquilo que muitas vezes é invisibilizado e naturalizado no cotidiano escolar.
Superar o uso excessivo e a sobreposição de avaliações censitárias no
país, de alto custo e de grande impacto nas dinâmicas das redes de ensino
e escolas, que deve ser urgentemente revisto e – conforme o objetivo e a
necessidade – substituído por avaliações amostrais.

10 - Investimento na educação de jovens e adultos (EJA) e nas outras


modalidades de ensino como políticas de ação afirmativa de reparação
à dívida social brasileira
Estimular a manifestação da demanda social e a garantia de uma oferta
de atendimento educacional da EJA com qualidade para a população a
qual ela é destinada para reverter o quadro de desabamento das matrículas
dos últimos anos. Além disso, o Estado deve, implementar ativamente esse
direito na esfera pública, estimular e sustentar inovações institucionais e
mobilizar a sociedade na valorização da EJA como direito humano e como
resposta a uma dívida social para com milhões de pessoas, dos quais mais de
70% são negras. Associada a uma política de combate ao encarceramento
em massa, implementar as normativas legais comprometidas com a garantia
do direito à educação de adolescentes, jovens e adultos em conflito com a lei.
Garantir um novo lugar da EJA e das demais modalidades de ensino
(Educação Escolar Indígena, Educação Escolar Quilombola, Educação do
Campo e Educação Especial das Pessoas com Deficiência na Perspectiva da
Educação Inclusiva) na política educacional, não somente como mecanismo
de reparação a essas populações, mas comoformas de tensionar políticas
universais, ampliando os referenciais do que é considerada a norma, e o
padrão para a maioria. Para isso, garantir mais financiamento, uma nova
institucionalidade sensível à realidade dos diferentes sujeitos e contextos
que estão na fronteira do direito à educação e abordagens mais integrais,
intersetoriais e territorizalizadas, articuladas aos movimentos e organizações
de sociedade civil, em uma perspectiva ancorada na garantia de direitos.

43
11 - Radicalização da participação popular e da gestão democrática em
educação na perspectiva dos direitos
Garantir condições materiais, o estabelecimento de mecanismos legais e
institucionais, o planejamento, processos formativos e a organização de ações
que desencadeiem e estimulem a participação social e política ao longo do
tempo, na perspectiva de construção de uma cultura democrática comum,
como parte de uma Política Nacional de estímulo à Participação Popular.
Fortalecer a gestão democrática comprometida com os direitos humanos,
incentivando a participação das famílias “reais” em suas mais diversas formas
e arranjos para além da família nuclear; a participação dos responsáveis
masculinos (não somente de mães, tias e avós); a realização de reuniões
em horários adequados às famílias; a garantia de salas de acolhimento para
crianças pequenas, viabilizando a participação das famílias.
Propor mecanismos legais e estimular que a gestão democrática alcance
as instituições privadas de ensino e os novos arranjos da relação público-
privada.

12 - Universidade descolonizada comprometida com um projeto


democrático de país com justiça social e ambiental
Retomar o investimento na universidade pública, tanto na ampliação
de vagas na perspectiva da universalização do acesso, como na garantia
de condições de permanência e sucesso de seus estudantes, sobretudo dos
setores populares, negros, indígenas, mulheres, pessoas com deficiência e
população trans.
Regulamentar de forma precisa a presença do capital privado no ensino
superior, limitando a redução da educação à mercadoria.
Reverter urgentemente – em favor das universidades públicas – o quadro
atual de mais de 70% da formação de professoras e professores das escolas
públicas do país ocorrer em instituições privadas, a maioria de baixa qualidade. 

44
Rever criticamente uma cultura elitista, produtivista e competitiva
– fortemente presente no sistema de avaliação da pós-graduação –
multiplicando arranjos colaborativos, inter e multidisciplinares e de
experimentação comprometidos com os interesses públicos.
Promover a reflexão crítica da universidade com relação a sua função
social, o seu lugar nas relações globais do sistema universitário e de
produção de conhecimento científico – não somente buscando se adaptar
a ele. Uma reflexão crítica que resulte na afirmação do caráter público da
universidade como lugar de construção de respostas concretas aos desafios
contemporâneos do país e do mundo por meio de comitês multidisciplinares
e de outras formas de ação.
Um sistema universitário que reveja seus indicadores de desempenho, em
busca de maior equilíbrio entre pesquisa, ensino e extensão, traduzidos nos
sistemas oficiais de avaliação e no acesso ao financiamento. Em especial, a
necessidade urgente do reconhecimento da docência e o maior investimento
em projetos e ações com a sociedade, fortalecendo a relação com os territórios
e reconhecendo a legitimidade da produção de conhecimento que ocorre em
diferentes lugares, para além dos espaços acadêmicos. 
Uma universidade que limite os cursos à distância ao que é estritamente
necessário às características da população demandante, evitando a tendência
atual de substituição do presencial por motivos econômicos e de mercado.
Investimento em políticas de ação afirmativa com recorte racial, de gênero,
social, para pessoas com deficiências, nos cursos de graduação, na pós-
graduação e na contratação de docentes e pesquisadores, em todas as áreas de
conhecimento e cursos, inclusive os hegemonizados por população branca.
Destaca-se também a necessidade de superação da segregação por sexo
em cursos, não somente estimulando a entrada de mulheres nas exatas,
mas revisar as culturas e formas de funcionamento desses cursos em uma
perspectiva que supere o sexismo estrutural; estimular também a presença
masculina em áreas vinculadas ao cuidado.

45
Investimento em estratégias de ensino e de acolhimento voltadas a
setores populares, revendo criticamente a branquitude e as diversas formas
de discriminação que marcam a universidade brasileira; esta deve se abrir
à presença, aos conhecimentos, às agendas e às provocações trazidas pelos
setores historicamente excluídos desse espaço. Uma universidade que busque
ativamente se descolonizar, valorizando as diferentes formas de produção de
conhecimento da população, em especial, da população negra e indígena
do país, e que reconheça, valorize e se conecte ativamente ao conhecimento
produzido no hemisfério sul do planeta. 

46
ESPORTE

INTRODUÇÃO

O esporte é fundamental para a constituição da cidadania, para a


manutenção da saúde, e garantia de bem estar para pessoas de todas as
idades. Apesar de sua importância e sua transversalidade - está presente em
áreas como educação, saúde, lazer, assistência social, segurança, cultura,
infraestrutura urbana, entre outros - a noção de esporte como direito social
é, permanentemente, reduzida à lógica classista e federada das manifestações
esportivas.
O esporte é uma das dimensões históricas da produção humana e essencial
para o desenvolvimento integral de todas as pessoas, configurando-se como
uma necessidade humana. Reconhecido como tal e partícipe das disputas
presentes na sociedade pela ampliação da cidadania, tornou-se uma demanda
social e se constituiu num direito a ser assegurado pelo Estado, fundamental
para a conquista da cidadania plena e, portanto, objeto de políticas públicas. 
Como instrumento de formação educacional e integração social, o esporte
contribui para a convivência em comunidade e para a vida lúdica e saudável.
Enquanto manifestação cultural é um dos pilares que forma a identidade
brasileira. É também uma potente ferramenta econômica, com capacidade
para gerar riqueza e empregos, além de ser, historicamente, um importante
fator de desenvolvimento social e inserção das classes populares. Sua
capacidade de mobilizar crianças, adolescentes, jovens, adultos e também
idosos permite a implementação de ações intersetoriais que dialoguem com
as áreas de educação, saúde, assistência social, cultura e segurança.

47
O reconhecimento do esporte como um direito social na legislação
brasileira foi tardio. O tema apareceu, explicitamente, somente na
Constituição de 1988 que, ainda que de maneira difusa, afirma o papel do
Estado no dever de fomentar sua prática. Mesmo que tardio, não significa
que antes de sua constitucionalização era inexistente a sua prática e as
tensões entre os segmentos que a compunham. Há muito o que se analisar
sobre as práticas esportivas de resistência que se constituíram sem o apoio
ou interferência do Estado.  
Mas, ainda que certas práticas esportivas tenham recebido algum amparo
institucional, e tenham podido apresentar alguma estruturação, é certo que
o tema em poucos momentos recebeu do poder público a atenção merecida.
E quando recebeu, há de se refletir sobre o caráter dessa interferência
institucional no esporte, posto que a área, historicamente, é crivada por uma
estrutura formal hierárquica, elitista e excludente, e/ou populista.

DIAGNÓSTICO
A consolidação do Ministério do Esporte como pasta própria, em 2003,
inaugurou um período virtuoso para a área que possibilitou, durante os
15 anos de gestão dos Presidentes Lula e Dilma, a formulação de uma
política nacional do esporte que colocou no horizonte a perspectiva de um
entrelaçamento entre as diversas dimensões do esporte, buscando a superação
da visão elitista, para atribuir ao tema a relevância merecida dentro de um
projeto popular para o país. Até então, apesar de existir desde 1995, a pasta
esteve submetida ao Ministério da Educação, num primeiro momento e,
posteriormente, ao Ministério do Turismo.
A criação do Ministério do Esporte foi decisivo para a consolidação da
área, frente a outras áreas de políticas sociais. Nesse mesmo período, foram
realizadas as três Conferências Nacionais do Esporte (2004, 2006 e 2010),
um espaço de debate, formulação de proposições e deliberações de políticas
públicas relacionadas ao tema. Tal instância de participação social permitiu
a formulação e avaliação da Política Nacional do Esporte, com forte acento
na democratização do acesso ao esporte, compreendendo as diversidades

48
humanas, propôs as diretrizes e bases do Sistema Nacional do Esporte,
as principais ações e metas do Plano Decenal do Esporte, além de ações
estruturantes como mudanças na legislação vigente sobre as relações de
trabalho entre atletas e clubes formadores, a implantação do Diagnóstico
Nacional do Esporte a proposta de uma Emenda Constitucional para
vinculação de 1% do orçamento da União ao esporte, bem como a criação
do Fundo Nacional do Esporte. As Conferências foram importantes
instâncias para o desenvolvimento das políticas públicas de esporte com
caráter estruturante, no país.
Algumas das deliberações das conferências foram efetivamente
materializadas em programas e ações, tanto na dimensão educacional
(Programa Segundo Tempo, Recreio na Férias, Jogos Escolares), e de
lazer (Programa Esporte e Lazer da Cidade, Mais Educação, Atleta na
Escola, Vida Saudável), quanto na dimensão relacionada a esportes de alto
rendimento (Bolsa Atleta, Brasil Medalhas, Rede Nacional de Treinamento).
A ciência e a tecnologia também receberam fomento ainda não vistos
na área, fortaleceram-se e ampliaram-se as parcerias com universidades
públicas (Rede Cedes e Cenesp), de forma inusitada, chegou-se constituir
centros de pesquisas sobre o esporte e lazer em todas as unidades federativas,
em parceria com os Instituições de Ensino Superior Públicas. No campo
institucional, ainda, as secretarias estaduais e municipais de esporte se
expandiram e fortaleceram, com programas, orçamentos e leis próprias,
estimuladas pela premência de atenderem aos editais para acesso aos recursos
federais, visando a efetivação e expansão das políticas públicas de esporte,
no âmbito nacional.
Os recursos destinados ao esporte, embora relativamente pequenos, quando
comparados a outras áreas sociais, foram ampliados, temporariamente,
devido à importância estratégica que o tema ganhou na agenda presidencial,
sobretudo por conta da realização de grandes eventos esportivos (Jogos
Pan e Parapan-Americanos, em 2007, Jogos Mundiais Militares, em 2011,
Jogos Mundiais Escolares - Gymnasiade 2013, Copa das Confederações,
em 2013, Copa do Mundo de Futebol, em 2014, Jogos Mundiais do Povos
Indígenas 2015, VIII Jogos da Amizade dos Colégios Militares 2015,

49
Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016). Apesar dos limites e problemas
inerentes a realização desses eventos, o conjunto dessas ações compôs um
ciclo virtuoso, impulsionando como um todo, as políticas públicas na área.
Nos últimos anos, a partir de 2016, o esporte perdeu sistematicamente
relevância e espaço nas estruturas de governo, perdeu o status e autonomia de
ministério, e foi “rebaixado” à secretaria nacional, submetido ao Ministério
da Cidadania, estando atualmente composto por áreas bem diversificadas
como Assistência Social, Cultura, políticas antidrogas. Em relação aos
investimentos, vem sofrendo o impacto das medidas de austeridade tanto com
a redução significativa, quanto com a interrupção de programas importantes
voltados para construção da cidadania esportiva, passando a ter um viés
elitista, focal e assistencialista, além do rompimento de vínculos intersetoriais
com outras pastas e com a universidades públicas para as ações de formação e
acompanhamento e avaliação dos programas sociais esportivos.
Um projeto popular de país tem o desafio de reconduzir o esporte à agenda
nacional, elaborando formas de recompor seu orçamento público, que
encolheu em torno de 50% desde 2016. A efetivação do esporte como direito
social demanda que ele seja encarado como estratégico para o desenvolvimento
social, levando em conta – principalmente - as desigualdades sociais, de
gênero e de raça que caracterizam o país, bem como as necessidades das
pessoas que habitam comunidades tradicionais (áreas de reforma agrária,
territórios indígenas, quilombolas) e pessoas com deficiência. 

PROPOSTAS
1 - ESPORTE E ESCOLA – Garantir a universalização do acesso ao
esporte às crianças e jovens, tendo a escola em tempo integral como
espaço e tempo pedagógicos privilegiados para promover a formação
esportiva
Promover ações intersetoriais do esporte com a cultura e a educação para
desenvolver atividades na perspectiva de jornada e currículo ampliados
das escolas, que supere a fragmentação e hierarquização dos saberes e

50
conhecimentos, respeitando a autonomia do Projeto Político Pedagógico.
Valorizar no currículo a cultura corporal para elevar o padrão cultural
esportivo da população da cidade e do campo.
Articular escolas e clubes esportivos para intercâmbios na formação
esportiva e possibilidades de contribuir com o seguimento da carreira
dos(as) atletas.
Priorizar o emprego dos recursos públicos na formação esportiva, na
perspectiva de universalização do acesso, num horizonte de 10 anos.
Assegurar o alinhamento das políticas da União, dos estados e
municípios para promoção da formação esportiva.
Valorizar a formação e o trabalho dos professores de educação física.
Promover a formação continuada para professores e demais
trabalhadores envolvidos com o esporte e lazer.
Implementar a Universidade do Esporte, articulando ensino, pesquisa
e extensão, visando a formação de profissionais de nível internacional
voltados para toda a cadeia produtiva do esporte (gestão esportiva, saúde,
pesquisa e políticas públicas).

2 - ESPORTE, LAZER, EDUCAÇÃO E FORMAÇÃO PROFISSIONAL


– Fomentar e difundir a formação profissional na área do esporte e lazer
Implementar a Universidade do Esporte, articulando ensino, pesquisa e
extensão, visando a formação de profissionais de nível internacional voltados
para toda a cadeia produtiva do esporte (gestão esportiva, saúde, pesquisa e
políticas públicas).
Instituir cursos técnicos articulados ao setor do esporte e lazer no Pronatec.

3 - Esporte e trabalho – Implantar ações intersetoriais que garantam a


prática esportiva aos jovens que ingressam no mundo trabalho como
parte de sua formação integral
Incentivar as empresas a oferecerem atividades físicas e esportivas para
todos os trabalhadores como parte da sua jornada de trabalho semanal,
com recursos do FAT.
51
Garantir a oferta regular de esporte nas escolas de ensino médio.
Possibilitar que atividades esportivas realizadas pelos jovens nos clubes,
nos programas sociais de esporte e nas comunidades constem como parte
da formação em serviço, incluídas na jornada de trabalho.
Engajar jovens nas atividades de formação para atuarem como
monitores(as), ou agentes sociais de esporte e de lazer em comunidades
pobres. 
Ampliar o Programa Menor Aprendiz, com linhas de atuação ligada à
formação esportiva, administração do esporte e lazer, dentre outras.
Possibilitar na escola tanto a prática esportiva (vinculada à grade escolar)
quanto a prática do esporte com caráter competitivo no contra turno escolar
a fim de possibilitar o desenvolvimento dos alunos que desejarem seguir
atuando com o esporte. Estudar formas de incentivos aos professores que
decidirem trabalhar com alguma modalidade específica nesse contra turno.

4 - Cidade e esporte – Fazer da cidade um espaço e tempo de práticas


e vivências esportivas e de lazer, com a ocupação de praças, parques,
quadras de basquete de rua, pistas de skate, encostas, praias
Ampliar a abrangência do Programa Esporte e Lazer da Cidade que
possibilita o acesso ao esporte e ao lazer para pessoas de todas as idades
com a oferta de formação e de material para contribuir com essas práticas.
Possibilitar o acesso a programas esportivos e de lazer para jovens das
comunidades, assegurando a autonomia organizativa de cada uma delas.
Garantir acessibilidade nos equipamentos esportivos e nas vias públicas
que permitam o desenho universal conforme normas técnicas para acesso
de pessoas com deficiência.
Instituir normativa que requeira a construção de equipamentos de
esporte e lazer nos conjuntos habitacionais financiados com recursos
públicos.
Construir e ativar praças esportivas e de lazer para o desenvolvimento
de atividades esportivas e de lazer nas comunidades, conforme a vocação e
auto-organização de cada território.

52
Garantir que agentes sociais de esporte e lazer atuem nas comunidades,
possibilitando a formação de novos quadros e lideranças esportivas locais.
Ou instituir os agentes sociais/comunitários do esporte e lazer para
fomento e difusão das práticas esportivas nas comunidades a partir do
modelo de agentes comunitários da saúde.
Possibilitar o acesso a programas esportivos e de lazer para jovens das
comunidades e povos tradicionais, como em áreas da reforma agrária,
quilombolas, ribeirinhos e do campo, buscando ampliar a capilaridade
do acesso no campo e na cidade, na área urbana e rural, assegurando a
autonomia organizativa de cada uma delas.

5 - Mulheres no esporte – incorporar a Política Nacional de Esporte em


ações afirmativas de igualdade de gênero que assegurem, em especial, o
empoderamento de mulheres no esporte
Criar dispositivo legal que garanta equidade na distribuição de recursos
públicos para o fomento do esporte para homens e mulheres.
Valorizar os salários e as carreiras de técnicas, treinadoras, jornalistas,
dirigentes de entidades esportivas ou atletas.
Instituir mecanismos e critérios de equidade na distribuição de bolsa atleta. 
Investir em projetos esportivos que se propõem a formação esportiva de
meninas e jovens, e a possibilidade de continuarem a praticar ao longo de
suas vidas.
Incentivar a prática esportiva das mulheres, rompendo estigmas sexistas
nesse campo.
Propor conteúdos programáticos sobre gênero nos materiais didáticos e
instrucionais que orientam os programas esportivos.
Combater o assédio moral e sexual às mulheres e homens, no mundo
do esporte.
Apoiar a estruturação, em nível nacional, do futebol feminino.
Garantir espaços públicos destinados a mulheres, mesmo que em
horários específicos, para a prática esportiva.

53
6 - Cuidado e apoio aos atletas – Assegurar recursos diretos aos atletas,
por meio da garantia da Bolsa Atleta
Garantir que todas as categorias sejam contempladas para assegurar o
desenvolvimento dos atletas, da base à alta performance.
Criar dispositivos legais que garantam a escolarização e formação
profissional ao longo da vida dos atletas com atenção ao momento de pós-
carreira.
Assegurar mudança legal que garanta os direitos trabalhistas a todos e
todas os/as atletas.
Garantir mecanismos que possibilitem as/os atletas terem técnicos e
treinadores remunerados ao longo de suas carreiras.
Criar um sistema de bolsa de estudos em universidades através do
esporte para garantir a formação do atleta e assim possibilitar uma vida
profissional, no pós carreira, mesmo que no esporte, podendo aplicar toda
a experiência como atleta em áreas técnicas e administrativas.

7 - Ética e governança no esporte – Implementar mecanismos que


assegurem a integridade das entidades esportivas que promova a
confiabilidade para investimentos públicos e privados que possibilitem
o desenvolvimento das modalidades esportivas
Implementar contratos de governança entre as entidades esportivas e o
poder público, previstos em lei.
Exigir transparência a democratização dos processos decisórios das
entidades como condição para repasse de recursos públicos.
Adotar mecanismos de enfrentamento ao assédio moral e/ou sexual no
âmbito do esporte formal.
Adotar ações combinadas e compartilhadas de segurança, em combate à
manipulação de resultados esportivos.
Articular nas escolas de governo existentes ou a serem criadas formação
de gestores públicos de esporte e lazer de forma continuada, presencial
e a distância, com vistas a qualificar a formulação, planejamento e
implementação de políticas públicas do setor.

54
Exigir que as entidades tenham um profissional capacitado e
especializado para lidar com as questões de abuso e assédio que possam ser
denunciadas. Oferecer formação aos profissionais que atuam nas entidades
públicas.

8 - Economia e esporte - Potencialização da cadeia produtiva nacional


do esporte por meio de
Incentivar a indústria nacional de produtos esportivos e equipamentos
(bicicletas, skate, bolas e outros).
Sediar eventos esportivos mundiais, continentais e regionais.
Articular - de maneira programática - o esporte com o turismo para
promover o desenvolvimento das potencialidades locais e regionais, em
articulação com os serviços públicos.
Utilizar, plenamente, os equipamentos esportivos de alta qualidade - das
variadas modalidades -, existentes no país.
Fomentar, difundir eventos esportivos e de lazer nos estados e
municípios.
Fomentar, difundir a captação de recursos nacionais e internacionais
para programas e projetos esportivos e de lazer, ampliando a geração de
emprego e renda no setor.
Unificar o cadastro e exigências para empresas aptas a fazer uso das leis
de incentivo ao esporte, visando a facilitar a participação do setor privado
nessa forma de patrocínio, sem deixar de fiscalizar a rigor o dinheiro
destinado.

9 - Sistema Nacional do Esporte, a exemplo do SUS e do SNE, que defina


o papel da união, dos estados e municípios para assegurar o acesso ao
esporte a todas as pessoas, desde a formação à prática esportiva para
toda a vida
Criar o Fundo Nacional do Esporte para garantir o financiamento
prioritário do esporte educacional e, subsequente, ao esporte participação
para todas as pessoas ao longo da vida.
55
Democratizar a gestão, garantindo a participação social, com a
Conferência Nacional do Esporte, e o controle social, ampliando os
assentos da sociedade civil, no Conselho Nacional do Esporte (com poder
deliberativo) e a instituição de um Plano Nacional do Esporte.
Estabelecer relações intersetoriais com a saúde, educação, segurança,
assistência social e cultura para ampliar o alcance dos serviços, a serem
ofertados para a comunidade, em especial pessoas com deficiência e
mulheres.
Garantir o alinhamento e utilização coordenada da infraestrutura
esportiva, pública e privada, numa pactuação nacional para se alcançar a
universalização do esporte para crianças e jovens.
Ciar programas, projetos e ações que integrem Ministério Esporte,
Ministério Ciência e Tecnologia, Ministério Educação, Ministério Saúde,
Ministério Cultura, Pronera, Incra.

56
RELIGIÕES,
COMPORTAMENTO
E VALORES

INTRODUÇÃO
As religiões e suas formas de expressão são parte da formação da maioria
das culturas. Por meio delas formam-se valores e práticas sociais em diálogo
com a identidade e subjetividade das pessoas.
O Brasil apresenta grande pluralidade cultural e religiosa, porém, possui
também influente raiz cristã. Nos últimos anos cresceram as correntes
neopentecostais católicas (renovação carismática) e evangélicas e a inserção
dessas igrejas nos espaços políticos institucionais, como o parlamento,
conselhos e fóruns. Aqueles que em geral chegam a essas posições possuem
discursos e práticas em claro desrespeito aos direitos humanos e reforçam
fundamentalismos, a intolerância religiosa, controle sobre corpos, e práticas
e discursos de ódio contra minorias, além de perspectivas individualizantes
da vida em sociedade.
Não podemos nos esquivar de refletir sobre essa esfera da vida em
um projeto popular para o Brasil, reafirmando a laicidade do Estado,
a pluralidade e a liberdade religiosa e de expressão, buscando no diálogo
inter-religioso os consensos possíveis para uma sociedade justa, democrática,
soberana e solidária.

57
DIAGNÓSTICO
As religiões são espaços de educação, cultura, convívio, reconhecimento
e estabelecem redes ampliadas de familiaridade. São fontes primordiais de
legitimação de valores, respondendo a perguntas e necessidades dos que a
elas pertencem.
Atualmente ocorre uma mudança na hegemonia das macrorreligiões
e um aumento da pluralidade religiosa no Brasil. Segundo pesquisa do
Pew Research Center, há diminuição da identificação com o catolicismo
em todo continente latino-americano. No caso do Brasil, uma em cada
cinco pessoas se declara ex-católica. Por outro lado, há um crescimento das
filiações evangélicas. Percebe-se também um crescimento de pessoas adeptas
a religiões não cristãs e dos sem religião.
A centralização e rigidez da hierarquia católica, além da redução do
número de igrejas em áreas de expansão demográfica, atrelada a uma certa
acomodação da Igreja Católica, faz com que ela perca espaço. Na América
Latina, há ainda uma disputa interna entre o clericalismo e a teologia da
libertação, corrente nascida na América Latina que defende que o Evangelho
prega a opção pelos pobres e a necessidade de pensar a religião juntamente
com as ciências humanas. Um exemplo de sua influência, no Brasil, são as
pastorais sociais (juventude, migrantes etc) que contribuem para as lutas
populares a partir de uma leitura mais progressista da sociedade.
Diversos aspectos fazem as práticas pentecostais ou neopentecostais mais
atrativas que as católicas. A estrutura dinâmica dos evangélicos consegue
chegar às pessoas de forma mais rápida e recorrem à fortes cargas emocionais
para atrair fiéis.
Segundo a socióloga Christina Vital, o pentecostalismo “cresce ao mesmo
tempo na base social e em espaços de poder, como mídia e cargos eletivos
nacionais, estaduais e municipais”. Ela afirma que “as igrejas evangélicas
estabelecem uma proximidade com o seu público, proporcionam espaços
de encontro diários, fazem aconselhamentos espirituais, mas também
emocionais e financeiros/profissionais. Seus pastores são, via de regra,
muito disponíveis. Geralmente moram nas mesmas áreas que seus fiéis e
58
estabelecem grande empatia porque vivem condições muito semelhantes aos
demais. Do ponto de vista institucional, como a maioria tem um modelo de
governo congregacional, não precisam se subordinar a um ministério, nem
a uma centralidade administrativa. Identificam-se como liberais em termos
econômicos, não em termos morais”.
Segundo o sociólogo Paul Freston, o catolicismo continua a declinar (perde
1% de sua população por ano), mas há um limite desse declínio, pois há um
núcleo sólido de católicos praticantes (25% da população). Além disso, a
reação da Igreja Católica pode reverter o atual quadro de perda de fiéis.
Atualmente, de cada duas pessoas que deixam de se considerar católicas,
apenas uma passa a ser evangélica. A outra adere a uma outra religião, ou
se torna “sem religião”. O resto do campo religioso está muito pulverizado,
e não há sinais de uma terceira força. O resultado de tudo isso é que, se
as tendências atuais permanecerem, não deve haver maioria evangélica no
Brasil. O mais provável é que a população evangélica não passe de uns 35%.
Teríamos, então, o seguinte cenário: 40% de católicos, 35% de evangélicos,
e 25% de outras religiões/sem religião. Outro dado interessante é que há um
aumento da pluralidade religiosa (incluindo os sem religião) e também do
sincretismo religioso. Há ainda crescimento da teologia da prosperidade -
valores liberais, individualistas, de competitividade e eficiência - que ganha
força, sobretudo nas periferias das regiões urbanas.
O fortalecimento do segmento pentecostal se traduz na ocupação de espaço
pelos evangélicos na política partidária, com a consolidação de sua bancada
no Congresso Nacional. Para além da política institucional, os evangélicos
também têm se colocado como atores políticos de peso, com poder de
convocação para ações públicas e intensa atividade nas mídias digitais. De
forma majoritária, prevalece um discurso de intolerância contra tudo aquilo
que lhes parece atacar sua concepção de “família”, como os integrantes da
comunidade LGBTI+ e as feministas. Esse setor é um dos responsáveis pela
popularização do pejorativo termo “ideologia de gênero”, além de fazer
pregações contra a “esquerda”, para “salvar o país do comunismo”.
Nas últimas eleições, na qual a disseminação de notícias falsas teve um peso
relevante (embora ainda não comensurado exatamente) os grupos religiosos
59
foram os principais alvos das fake news, e também um polo disseminador
orgânico de notícias falsas.
A relação entre evangélicos e política no tempo presente, no Brasil, conta
com um grande apoio nas mídias. Por meio delas, os evangélicos deixam de
ser “os crentes” ou os grupos fechados de outrora. A separação social entre
sagrado/igreja e profano/mundo deixa de ser um valor evangélico da tradição
fundamentalista-puritana trazida pelos missionários estadunidenses. Os
evangélicos revelam ter suas próprias reivindicações e sua capacidade de
eleger seus representantes no poder público e de serem ativos na política
para além das campanhas eleitorais, como meros cabos dos candidatos de
suas respectivas igrejas.
O predomínio da corrente conservadora evangélica, tanto nas mídias
como no espaço político partidário, acaba por invisibilizar vertentes mais
progressistas que também buscam se articular. Por isso, é importante não
tratar esse grupo homogeneamente.
Esse cenário nos coloca diante de dois desafios na perspectiva democrática.
Primeiro, o da Liberdade Religiosa, um direito do cidadão que deve ser
garantido pelo Estado e, no Brasil, está garantida pela Constituição de 1988
(artigo 5º, inciso VI). Segundo, o da laicidade do Estado. Não cabe ao Estado
brasileiro influenciar a pertença religiosa de seus cidadãos e/ou conceder
privilégios a grupos de determinadas crenças, bem como políticas públicas
não devem ser deliberadas conforme a aceitação de grupos religiosos.
O Estado brasileiro ainda se confronta com esses dois desafios. O conceito
de laicismo e sua aplicação nas políticas públicas ainda gera muitos conflitos,
como no caso do ensino religioso confessional em instituições públicas,
o que foi recentemente aceito pelo Supremo Tribunal Federal. Quanto à
garantia de liberdade religiosa, segundo o relatório “Liberdade Religiosa
no Mundo” (2016), da ACN, entre 2011 e 2014, foram registradas 543
denúncias de violações de direitos por discriminação religiosa pelo Disque
100. Em 216 desses casos os denunciantes informaram a religião da vítima:
35% eram praticantes de candomblé e umbanda, 27% eram evangélicos,
12% espíritas, 10% católicos, 4% ateus, 3% judeus, 2% muçulmanos e 7%

60
pertencentes a outras religiões. Os dois tipos de ataques mais frequentes são
agressões verbais ou físicas e depredação de espaços sagrados.
Nos dados mais recentes, disponibilizados pelo Disque 100, só em
2016, 759 denúncias foram registradas (mais que a somatória de 2011 a
2014, trazida pelo estudo anterior). 19% das vítimas eram pertencentes à
umbanda e candomblé; 4,35% a outras religiões de matriz africana e 4,22%
ao espiritismo. Os casos contra os indivíduos que professam religiões de
matriz africana se tornam ainda mais expressivos ao recordarmos que eles
representam somente 0,3% da população brasileira. Segundo a ACN, apesar
de serem absoluta minoria, 41,5 a 63,3% das denúncias, dependendo na
fonte de análise, são provenientes desse grupo.

PROPOSTAS

1 - Formulação de estudos, documentos, peças publicitárias, a serem


difundidas pelo poder público em diferentes mídias, sobre os temas da
laicidade, intolerância religiosa, liberdade de crença e de consciência

2 - Realização de uma Conferência Nacional com representantes das


mais diversas religiões, incluindo pessoas sem religião, buscando
fortalecer o diálogo inter-religioso e a luta pela liberdade religiosa e o
direito de crença e pertença

3 - Fortalecimento do diálogo entre movimentos sociais e populares e


as correntes progressistas de todas as religiões, reforçando o diálogo
inter-religioso no compromisso evangélico na defesa da vida

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SAÚDE COLETIVA

INTRODUÇÃO
Embora os Sistema Único de Saúde (SUS) tenha por princípio a
universalidade, integralidade, equidade, regionalização, hierarquização,
descentralização, comando único e participação popular, já no próprio
processo de sua implantação verificou-se desvios às suas diretrizes
constitucionais, como a retração orçamentária da esfera federal e a prioridade
à participação do setor privado. 
Essa disfunção inicial foi agravada por uma série de leis das esferas federal,
estadual e municipal, como a Emenda Constitucional 95. O contexto de crise
econômica e as novas orientações da política nacional agregam ainda mais
desafios a um setor cronicamente subfinanciado em um contexto de crise
econômica que tende a aumentar o contingente de usuários exclusivos do SUS. 

DIAGNÓSTICO
Com a Constituição de 1988, foi instituído no país o SUS, responsável
por oferecer a todo cidadão acesso integral, universal e gratuito aos serviços
de saúde. Mesmo sob as distorções herdadas do modelo anterior (o Instituto
Nacional de Assistência Médica e Previdência Social - Inamps) e com os
limites estruturais, o SUS incluiu quase metade da população antes excluída
e aprimorou, qualificou e ampliou a Atenção Básica, os Centros de Atenção
Psicossocial (Caps), os Centros Regionais de Saúde do Trabalhador (Cerest)
e o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Ainda hoje,
mantém-se como referência internacional em imunização contra doenças
transmissíveis, vigilância em saúde, controle do HIV/Aids, hemocentros e
transplante de tecidos e órgãos.

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A implementação do SUS, no entanto, coincidiu com o início da
financeirização do orçamento público nacional, acompanhado de forte
restrição nas políticas públicas da área social. Ao longo desse processo,
foram observados cinco desvios com relação às diretrizes constitucionais do
sistema que o afetam de maneira estrutural:
1) Em nome do ajuste fiscal, a esfera federal diminuiu sua participação
no financiamento, passando de 75% iniciais para 45% atuais; as esferas
municipal e estadual somadas elevaram sua fatia conjunta de 25% iniciais
para 55% atuais. Permaneceu, assim, o baixíssimo financiamento público
(3,5% e 3,9% do PIB). Além disso, a execução orçamentária do Ministério
da Saúde sofre recorrentes contingenciamentos e as perdas anuais não são
compensadas ao Fundo Nacional de Saúde, como se dá em outros fundos
públicos. 
2) Em nome da complementaridade de serviços privados contratados e
conveniados, como previsto na Constituição, o investimento público em
recursos humanos e nos serviços próprios foi precarizado, tornando-os
minoritários e marginalizados.
3) A livre atuação dos serviços privados de saúde passou a ser fortemente
subsidiada pela esfera federal. Planos de saúde são beneficiados, inclusive
com deduções e construção de equipamentos com empréstimos públicos
subsidiados.
4) Em nome da livre negociação nos dissídios trabalhistas, os planos
privados de saúde tornaram-se onipresentes nas mesas de negociação. Como
efeito, as políticas públicas para a saúde saíram da pauta dos trabalhadores
organizados e da estrutura sindical.
5) Em nome da autonomia constitucional entre as esferas de governo,
a federal reforçou a relação fragmentada com e entre as demais unidades
federadas. Na saúde, isso ocorreu em detrimento da diretriz constitucional
da regionalização, gerando um sistema desarticulado. Paradoxalmente,
essa autonomia exacerbada resultou em uma série de imposições para o
recebimento de pequenos repasses financeiros federais, negociados um a um
e com prestações de contas burocratizadas.
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Esses são pilares de um outro sistema defendido por agências internacionais
e nacionais com o nome de “Cobertura Universal de Saúde”. Este último
seria baseado: a) na redução dos gastos públicos com saúde e austeridade
fiscal, b) no aumento da contratação de serviços privados de assistência às
doenças, c) na instituição do copagamento dos usuários do SUS ao usar
o serviço, d) no gerenciamento de serviços públicos por entes privados, e)
no estímulo a planos privados populares de saúde e f) no estabelecimento
de indicadores de “cobertura universal de saúde” em que importa tão
somente se a totalidade da população tem cobertura de algum serviço de
saúde, independentemente se pago ou não e de sua capacidade de resolver
o problema de saúde da pessoa. A implementação desse outro modelo de
atenção à saúde vem ocorrendo mundialmente, com estratégias e formatos
diferenciados conforme o desenvolvimento e o peso geopolítico de cada país.
Desde 2016, no Brasil, observamos uma nova guinada neoliberal que
afeta toda a estrutura pública. O impacto da crise econômica somado ao
atual contexto político aumentou a desigualdade no país e vem atingindo
principalmente a população mais pobre, com tendência a infligir severas
consequências à área da saúde. 
A aprovação da EC 95 no final de 2016, instituindo que as despesas primárias
do governo ficarão limitadas, entre 2017 e 2036, a aproximadamente R$ 1,3
trilhão (valor a ser corrigido anualmente pelo Índice de Preços ao Consumidor
Amplo – IPCA), é um componente que traz pesadas consequências sociais
e de saúde pública em particular: manutenção de altos índices de violência,
retorno do país ao mapa da fome, volta do sarampo, crescimento da taxa de
mortalidade infantil, etc. A título de ilustração, caso a EC 95 estivesse em
vigor entre 2003 e 2015, a União teria gasto 42% a menos (R$ 257 bilhões)
com ações e serviços públicos de saúde no período (Funcia, 2016). 
Quanto ao futuro, em comparação com a regra anterior - EC 86, de 2015 -
em cenários de crescimento econômico com taxas anuais de 1% a 3% do PIB,
as perdas para o SUS poderão variar de R$ 168 bilhões a R$ 738 bilhões até
2036 (Vieira e Benevides, 2016b). Em 2017, foram observadas as aplicações
mínimas segundo a regra de 15% da receita corrente líquida do exercício para
a saúde e 18% da receita de impostos para a educação.
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Hoje, podemos dizer que o sistema de saúde brasileiro foi afetado em todos
os seus níveis de atenção. A Política Nacional de Atenção Básica (Pnab)
foi reformulada em 2017 e retirou a padronização do número de Agentes
Comunitários de Saúde (ACS) por equipe da Estratégia Saúde da Família
(ESF) para reduzir os custos no setor. O subfinanciamento crônico do SUS
foi agravado, acarretando um desabastecimento de insumos sem precedentes
e com graves efeitos de saúde, sanitários e sociais. Houve uma desaceleração
na política de saneamento básico, fato que contribuiu para o retorno das
emergências sanitárias e a volta de doenças, como foi o caso também da febre
amarela. Também é preciso destacar os possíveis impactos de curto, médio
e longo prazos com a liberação de cada vez mais agrotóxicos com efeitos
potencialmente cancerígenos, entre outros, e com propostas de relaxamento
de regras de trânsito ou de facilitação do porte de armas de fogo.
O tempo decorrido após o agravamento da crise econômica e a
implementação de medidas de austeridade fiscal ainda não permite análises
robustas sobre possíveis impactos na saúde pública, mas alguns indicadores
podem ser acompanhados. Entre eles, o gasto total com as ações e serviços
públicos de saúde (ASPS), que já foi reduzido em 3,6% entre 2014 e 2016.
Em valores per capita, a queda do gasto com ASPS foi de 5% no mesmo
período, sendo que entre 2004 e 2014 esse valor teve uma taxa de crescimento
médio real de 6,3% ao ano. A disponibilidade de leitos no SUS por mil
habitantes já apresentava uma tendência descendente, mesmo sem contar os
leitos psiquiátricos (redução média de 0,72% entre 2007 e 2014), mas passou
a cair em maior velocidade. A queda anual média foi de 1% entre 2014 e
2017, em possível consequência da diminuição do gasto total com ASPS.
Outro fator associado à crise que impacta a saúde é o desemprego. A
discreta melhora ocorrida em 2019 se deu pela entrada de trabalhadores no
mercado informal ou autônomos. São setores da população que tendem a
depender exclusivamente do SUS. 
O programa Mais Médicos, vigente entre julho de 2013 e agosto de 2019
teve como uma de suas finalidades o enfrentar desigualdades e combater uma
carência histórica de médicos na atenção básica em diferentes municípios do
país, alcançando regiões de extrema vulnerabilidade. O programa Médicos
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pelo Brasil, criado por Bolsonaro em substituição ao Mais Médicos, manterá
as atividades de ensino e extensão e integração ensino-serviço, utilizando
vários itens do programa anterior (bolsa + INSS + isenção de Imposto de
Renda). Entretanto, as iniciativas de estruturação física de unidades básicas
de saúde e as ações sobre a formação médica contidas na proposta anterior
visando a mudanças estruturais de médio e longo prazos, parecem estar em
segundo plano no novo programa. 
A Medida Provisória que institui o Programa Médicos pelo Brasil também
institui a Agência para o Desenvolvimento da Atenção Primária à Saúde
(Adaps), em modalidade de gestão classificada como “Serviço Social
autônomo”, na forma de pessoa jurídica de direito privado. Esse tipo de figura
pode, por exemplo, dispensar processos de licitação de compras públicas. A
Adaps chama atenção pela abrangência de suas atribuições, que vão muito
além da gestão do Programa e poderá desenvolver atividades próprias de
ensino e pesquisa, prestar serviços de atenção primária e articular-se com
órgãos e entidades públicas e privadas para o cumprimento de seus objetivos.
Há ainda brechas no texto da MP que podem dar sustentação legal a um
projeto de contratação direta dos planos e operadoras para prestação de
serviços de atenção primária. Gestado pelo atual governo e por planos
de saúde privados, esse projeto efetuará a transferência direta de recursos
públicos. Se parte dos municípios brasileiros resistia à ampliação das
Organizações Sociais, agora o próprio Ministério da Saúde poderá contratar
operadoras para a realização de atividades-fim que seriam prestadas pelo
poder público.
Outro ataque pode ocorrer na área da Saúde da Família. O atual modelo,
com equipe multiprofissional e abordagem territorial e comunitária, tem
tido impactos positivos na saúde da população evidenciados em diversas
pesquisas. Apesar disso, o Ministério da Saúde colocou em consulta pública
até o final de agosto de 2019 uma proposta de Carteira de Serviços que
reflete um novo modelo assistencial de Atenção Primária à Saúde (APS)
a ser implementado. A proposta apresenta uma série de retrocessos, não
incorporando definições existentes hoje e importantes para uma abordagem
integral que contemple o cuidado individual e o cuidado coletivo

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(territorial e populacional) na promoção da saúde e prevenção de doenças.
A especialidade em “medicina de família e comunidade” foi substituída por
“médico de família” e as propostas de organização dos horários de trabalho
de cada tipo de profissional nas UBS fragmentam o trabalho em equipe,
rompem o vínculo com a população, quebram a longitudinalidade da
relação interpessoal e afastam os profissionais da realidade do território. Não
há menção aos agentes comunitários de saúde, elo crucial da articulação das
equipes com as populações, cruciais na busca ativa, na facilitação do acesso
para famílias vulneráveis, nas ações de saúde coletiva, na educação em saúde,
na promoção da participação social. 
O foco enunciado da carteira de serviços proposta é o alcance de uma maior
eficiência, sem menção à ampliação de acesso e qualidade. A centralidade
nos aspectos econômicos poderia indicar o objetivo futuro de estabelecer e
simplificar contratos com o setor privado.

PROPOSTAS

1 - Revogar a Emenda Constitucional 95/2016


Apoiar a tramitação da PEC 01/D de 2015.
Essa Proposta aloca 19,4% da receita corrente líquida como piso
federal do SUS (similar ao projeto de iniciativa popular “Saúde + 10”).

2 - Destinar os novos recursos do Pré-Sal para a saúde e a educação


Os recursos obtidos com a concessão onerosa também devem abastecer
o Fundo de Participação dos Estados (PPE) e o Fundo de Participação do
Municípios (FPM).

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3 - Instituir novas fontes de financiamento da seguridade social, com
rateio específico para a saúde
Algumas possibilidades são a tributação sobre grandes fortunas e alíquotas
da tributação sobre bebidas açucaradas, álcool, tabaco e motocicletas.

4 - Fortalecer a atenção básica como a ordenadora de toda a rede de


cuidados
Para isso, também é essencial valorizar os servidores públicos de saúde e a
rede própria de unidades de saúde federais, estaduais e municipais.

5 - Abolir todos os chamados “Novos Modelos de Gestão”


Revogar as leis que deram origem às OS; às Oscip; às Fundações Estatais
de Direito Privado; à EBSERH e suas subsidiárias; aos Serviços Sociais
Autônomos (SSA); revogar as leis que permitem e/ou preveem Parcerias
Público-Privadas como as Comunidades Terapêuticas e demais contratações
de serviço.

6 - Mobilizar a sociedade para a defesa do SUS e da democracia


A Nota “Saúde é Democracia”, aprovada na 16ª Conferência Nacional de
Saúde, pode ser tomada como base para a defesa dos dois princípios.

7 - Defender Plano de Cargos e Salários para profissionais de saúde


Além disso, é preciso apoiar os ajustes na formação acadêmica dos
profissionais de saúde em consonância com as necessidades do SUS.
 

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anotações
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