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O Novo Código de Trânsito

A Acrimesp, a valorosa associação dos criminalistas, continua a


cumprir o principal de seus preceitos estatutários; reunir os que
professam a advocacia criminal, ensejando-lhes a oportunidade de
ampliar seus conhecimentos técnico-jurídicos, mediante a lição de
abalizados e conspícuos doutrinadores. O espírito acadêmico e o
amor dos estudos hão de figurar sempre entre os pressupostos
objetivos tradicionais da agremiação.
Nessa conformidade, promoveu no dia 12 de setembro de 1992,
por seu departamento cultural, concorrido simpósio a respeito do
anteprojeto de lei do novo Código Brasileiro de Trânsito. Foi seu
expositor-mor o Dr. Ciro Vidal, Diretor do Detran e professor na
Academia de Polícia Civil de São Paulo. Em longa, substanciosa e
agradável palestra, afirmou Sua Excelência que o sistema do Código é
de feição eminentemente brasileira, ainda que lhe tenham servido de
arquétipo os mais acabados monumentos legislativos alienígenas.
A primeira preocupação do legislador, declarou o conferencista,
foi espertar no indivíduo a consciência de que não pode transformar
uma das mais preciosas conquistas de nosso tempo, que é o
automóvel, em instrumento de violência e destruição. Dentre as
maiores causas de morte, na atualidade, incluem-se, com efeito, os
acidentes de trânsito(1).
A filosofia do anteprojeto consistiu, portanto, em aperfeiçoar as
regras de circulação e prover à segurança do cidadão e da sociedade.
Para atenuar os efeitos da violência do trânsito, estabeleceram-
se penalidades que atendessem ao intuito de reprimir o infrator e
desestimular condutas transgressoras.
A algumas infrações, definidas como de natureza gravíssima
(v.g.: dirigir sob a influência do álcool ou entorpecente, disputar
corrida por espírito de emulação, confiar a direção do veículo a quem
não seja habilitado, etc.), foram cominadas, cumulativamente, penas
administrativas de multa, apreensão do veículo e suspensão do direito
de dirigir.
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Certas condutas, dantes impuníveis, incorrem agora na censura


do direito repressivo, como entregar a direção de veículo a pessoa não-
-habilitada: pena detentiva de 3 meses a 1 ano.
Encerrou o distinto orador sua exposição, protestando que,
embora sujeito às imperfeições inerentes às obras humanas, o
anteprojeto, de que foi um dos artífices, venceu os estádios mais
avançados que a moderna política de trânsito ainda atingiu.
Tratando “ex professo” da parte relativa às infrações penais, a Dra.
Maria Lúcia Pizzotti Mendes, Juíza de Direito da 25a. Vara Criminal e
exímia cultora da ciência jurídica, também participante do fórum de
debates, pôs em relevo dois pontos do novo diploma legislativo: o
valor extremado das penas pecunárias, a operar como elemento
inibidor das violações das normas de trânsito e, em antítese, o
acoroçoamento à prática de ações louváveis à luz da ética e da
solidariedade humana, como se colhe do teor literal do art. 173: “Ao
condutor de veículo, nos casos de acidente de trânsito de que resulte vítima, não se
imporá a prisão em flagrante, nem se exigirá fiança, se prestar pronto e integral
socorro àquela”(2).
Nisso de multas — interveio o Dr. Flávio D’Urso (que era
igualmente do número dos conferencistas) —, importava considerar
que, em razão de seu valor excessivo, desdizia da cruciante realidade
sócioeconômica nacional. A imposição da pena pecuniária, no grau
em que a fixou o anteprojeto, não faria mais que sujeitar o motorista
infrator a um estado de insolvência, compelindo-o a entregar o
próprio veículo para acudir ao seu recolhimento. Situações que tais
lhe pareciam quebrantar as salutares regras da equidade!
Ao demais, se qualquer agente for o que pratique o ato
administrativo da aplicação da multa, estará sob grande risco a
segurança dos negócios jurídicos, pois que os impulsos da verdade
poderão ceder o passo ao arbítrio, à discrição e à alicantina. Era
preciso ter mão, pois!
A essas ponderações do nobre diretor do departamento cultural
da Acrimesp, a que não escasseavam bons foros, contrapôs-se o
parecer do arguto criminalista Dr. Mário de Oliveira Filho, para quem
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unicamente na multa de cunho draconiano é que se houvera de achar


o remédio heroico à desobediência das regras de trânsito. Muito a
propósito evocou a figura legendária do ex-prefeito Jânio Quadros,
que, à força de postura na qual estipulara multas exacerbadas aos
infratores, pôs cobro ao sestro de motoristas paulistanos que
deixavam seus carros estacionados sobre calçadas. O temor do castigo
pecuniário era o que os movia à emenda(3).
Mas, fundamental que é a disciplina do motorista e do pedestre
na solução do caos do trânsito, urge educá-los desde a puerícia. Esta, a
mensagem que o último dos oradores, advogado e psicólogo Dr.
Salomão Rabinovich, insinuou no espírito de todos os ouvintes, como
a adverti-los de que na tenra idade é que se deve moldar o caráter das
crianças e educá-las para o bem.

Notas

(1) Mais vítimas tem causado o automóvel do que os conflitos


mundiais. Nos EUA, conforme estatística de 1970, o número de
óbitos foi superior a 10 anos de guerra no Vietnã; no Brasil,
nesse mesmo período, os acidentes de trânsito, numa única
semana, ceifaram tantas vidas, quantos foram os brasileiros que
tombaram no teatro da 2a. Grande Guerra: 470 (cf. Valdir Snick,
Acidentes de Trânsito, 1978, p. 3).
(2) “Como para os vícios há castigos, para as virtudes há prêmios”,
discursou o eloquente Cícero (cf. Bluteau, Vocabulário, t. VI,
p. 698).
(3) É a teoria da intimidação de Filangieri e outros, segundo a qual
“a pena é cominada e aplicada para aterrar e afastar do crime os espíritos
tendentes ao mal” (cf. Fernando Nery, Lições de Direito Criminal, 3a.
ed., p. 350).

Carlos Biasotti
Desembargador aposentado do TJSP e ex-presidente da Acrimesp

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