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GERAÇÃO DE 70

Enquadramento Teórico
A história da denominada “Geração de 70” é, antes
de mais, a de uma consciência cultural europeia, que
luminosamente, une o século XIX ao nosso.

Talvez nunca em toda a história da nossa cultura


tenha havido um grupo de escritores, romancistas,
poetas, ensaístas, historiadores, pensadores e até
cientistas tão conscientes de que a sua época era,
simultaneamente, a de uma síntese e a de uma
mudança quer a nível nacional quer a nível europeu.
(cont.)
 Desde a erudição de Teófilo Braga ao sentido do trágico
em Antero, passando pela arte da ironia de Eça, pelo
sentido da decadência histórica em Oliveira Martins, pela
sátira saudável de Ramalho Ortigão, sem falar de outros
nomes menos conhecidos, mas igualmente importantes,
como Adolfo Coelho ou Jaime Batalha Reis, ou de
“marginais” da Geração de 70 como Gomes Leal ou
Fialho de Almeida – todos, sem excepção, se entregaram
a uma ideia fixa: a da Regeneração do País, regeneração
no sentido total do termo e não apenas no sentido social
e económico.
(Cont.)
Esta ideia da Regeneração do País, vinha já da
primeira geração romântica, a de Garret e
Herculano, no entanto, nunca esta se tornara tão
multifacetada, vital e complexa.

É então, aqui que reside o grande fascínio da


Geração de 70: o da mobilidade cultural, da
abertura ao mundo, sem esquecer nunca o ideal
único, de “reaportuguesar Portugal”(Eça, 1984) .
Romantismo

Romantismo
 O Primeiro período (1825-1851) surge com
Garrett, ainda envolto de cultura clássica, a
par do ideal de progresso herdado dos
iluministas franceses do século XVIII e do
ideal nacionalista estrito, de cariz liberal.

 Este autor, baseia o seu vago romantismo


num nacionalismo de carácter liberal, em que
o modelo clássico ainda predomina.

“Romântico, Deus me livre de o ser!”


(Herculano in Viagens na Minha Terra)
 Também Herculano que participa igualmente
na Revolução Liberal, proclama em 1875, na
revista Repositório Literário: “Diremos somente
que somos românticos, querendo que os
Portugueses voltem a uma literatura sua
(...). Que amem a Pátria mesmo em
poesia.”

 Garrett e Herculano são escritores liberais


que, em grande parte, condicionam a literatura
a princípios rigidamente nacionalistas, de
carácter ideológico.
 Herculano, contrariamente a Garrett, era mais receptivo às
ideias do romantismo europeu em geral, sobretudo às do
romantismo vindo de Inglaterra e da Alemanha.

 Com a sua vertente filosófica e a sua metodologia


histórica, Herculano é, de facto, o grande percursor da
Geração de 70 e da renovação do romantismo português,
renovação urgente após um período em que predomina o
excesso retórico e sentimentalista do chamado ultra-
romantismo.
 Outro grande escritor português
contemporâneo de Garrett e
Herculano, foi António Feliciano
de Castilho (1800 – 1875),
este no entanto, é-lhes muito
inferior pelo conteúdo das ideias
e pelo valor geral dos seus
escritos.
Regeneração
Alexandre Herculano preparou ideologicamente
um movimento político que se designou por
Regeneração.

Esta teve início em meados da segunda


metade do século XIX, ou mais precisamente
a partir de 1850, com o golpe de estado
levado a cabo pelo Marechal – duque de
Saldanha contra o governo de Costa Cabral.
 A Regeneração apresentava como ponto fulcral da
actividade política, a renovação das infra-estruturas
básicas do país; este movimento propunha-se a
estabelecer de forma definitiva o liberalismo, aceitando
os princípios estabelecidos na Carta Constitucional de
1826, reformulada pelo Acto Adicional de 1852.
 O seu ideário político assentava numa série de
reformas administrativas e económico – sociais, cuja
implementação deveria restabelecer o equilíbrio perdido
com as diversas lutas político-ideológicas que até aí
se tinham verificado em Portugal.
 No centro socioeconómico deste movimento de regeneração
nacional, ou melhor, de pacificação nacional, esteve Fontes
Pereira de Melo (1819-1887).

 Foi ele quem criou, em 1852, o Ministério das Obras


Públicas, do Comércio e da Industria, mandando construir
quatrocentos quilómetros de estradas, uma dezena de pontes
e, em 1856, a primeira linha de caminho-de-ferro entre
Lisboa e o Carregado.

 O chamado “fontismo” provocou uma espécie de reacção


cultural contra a idolatria do progresso, reacção essa que, num
extremo, resultou no chamado “ultra-romantismo” e, no outro,
já como reacção a esta primeira reacção, toda a complexa
atitude anti-tecnológica e anti-burguesa da Geração de 70.
 “A regeneração foi um momento histórico que, se não podia
erguer Portugal ao nível das grandes nações da Europa, e dar-
lhe a preponderância que teve noutras eras, principalmente nos
primeiros tempos das conquistas, tê-lo-ia colocado numa situação
vantajosa e digna. Faltou-lhe um homem. Quando não fosse um
génio, um cidadão cuja cabeça, bem organizada, ombreasse com
o sucesso e o vigor moral. Homem que tivesse a fé no coração
e um pouco de ideal na alma – valor transcendente, conquistador
das coisas mais positivas, que opera milagres, e sem o qual, por
elevada que seja a inteligência, não se faz nada de
verdadeiramente grande. Talentos houve muitos, e ainda estão por
aí alguns; honra pessoal existiu e existe também; mas o
sentimento de honra colectiva, a solidariedade do brilho e da
glória, que eleva os povos, a abnegação até à heroicidade, todos
os poderes morais, todo o ideal, numa palavra, de que as
mediocridades escarnecem, desapareceu completamente”
(Bulhão Pato
in Memórias)
Por sua vez o “ultra-romantismo” (1851-1870) já
não é, como o de Garrett ou de Herculano, um
movimento de combate, de reforma ou de crítica,
acomoda-se, perde o carácter vigoroso e militante,
retrai-se e torna-se burguês. A segunda geração
romântica consagrou-se quase inteiramente às
musas de mãos puras, sem segundas intenções
sociais ou políticas, permanecendo nitidamente
conservador e sensato.
 O “ultra-romantismo” caracterizou-se, então, por levar ao
exagero e por vezes até ao ridículo, as normas e ideias
preconizadas pelo romantismo, nomeadamente, a exaltação
da subjectividade, do individualismo, do idealismo amoroso,
da Natureza e do mundo medieval.

 Os ultra-românticos geram torrentes literárias de qualidade


muito discutível, sendo algumas delas consideradas como
“romance de faca e alguidar”, dada a sucessão de crimes
sangrentos que invariavelmente descreviam e que os
realistas vão caricaturar de forma feroz.
 Existe, todavia literatura ultra-romântica de qualidade
inquestionável. Além de João de Deus, são também autores
ultra-românticos Camilo Castelo Branco, Soares de Passos e
Castilho.

 Castilho foi a principal figura de destaque desta geração


romântica representando uma espécie de padrinho dos jovens
poetas que ao iniciarem a sua carreira, recorriam à sua
influência para a negociação com as editoras.

 Este patrocínio de cariz paternalista vai irritar os jovens da


Geração de 70 que não aceitam a apelidada escola do
“Elogio Mútuo”.
Todo o fundamento da Questão Coimbrã vai incidir
precisamente na confrontação de ideias entre
Feliciano Castilho e alguns jovens intelectuais como
Antero de Quental e Eça de Queiroz que
contestando os princípios defendidos pela geração
romântica, proclamam a vontade de expandir a
literatura Portuguesa tornando-a num instrumento de
renovação que a partir da crítica aberta iria alertar o
governo para as deficiências do país conduzindo-o à
necessária evolução.
O segundo romantismo significou assim uma
paragem no movimento crítico e reformador
desencadeado por Herculano e Garrett. Este
será, no entanto, retomado pela grande
geração literária de 1870, que se costuma
designar por “escola realista”, mas que
também se poderia denominar “terceiro
romantismo” ou ainda “romantismo social”.
Realismo – O que é?
 “ Que é pois o Realismo? É uma base filosófica para
todas as concepções do espírito - uma lei , uma carta ,
uma guia, um roteiro do pensamento humano na eterna
religião do belo, bom e do justo (...); é a negação da
arte pela arte, é a proscrição do enfático e do piegas. É
a abolição da retórica considerada como arte de promover
a comoção (...); é a análise com fito na verdade
absoluta. Por outro lado, o Realismo é uma reacção
contra o Romantismo: o Romantismo era a apoteose do
sentimento; o Realismo é a anatomia do carácter. É a
crítica do homem (...) para condenar o que houver de
mau na sociedade”.
( Eça de Queiroz)
O movimento realista vem de encontro a uma
tomada de consciência resultante das diversas
revoluções ocorridas durante o séc. XIX, que
conduziram a uma necessidade cada vez maior de
procurar a verdade das coisas.

O socialismo utópico foi a linha filosófica e política


comum a muitos dos escritores realistas. O realismo
opunha-se também ao ultra-romantismo.
 Os realistas acreditavam que apenas com base na verdade
se podiam combater as injustiças sociais.

 Teorias como as de Marx, Proudhon e Taine inspiraram os


mais diversos campos artísticos desde a arte à ciência,
passando inevitavelmente pela literatura.

 Eça de Queiroz, Oliveira Martins, Jaime Batalha Reis,


entre outros, foram dos mais destacados escritores do
primeiro realismo português. O Neo-realismo virá no século
XX recuperar alguns dos valores comuns a este movimento
estético dos finais do século XIX.
O Surgir de uma “Geração Nova”
 Os movimentos do Fontismo e da Regeneração acentuaram
os desequilíbrios económicos crónicos da sociedade
portuguesa. As dívidas ao estrangeiro contraídas para pagar
as infra-estruturas, agravam a situação económica (no fim
da Regeneração o País estava na falência); o falseamento
das instituições, a astúcia dos políticos, a fraude e a
corrupção do poder político, são os condimentos que
contribuem para uma degradação acentuada do estado da
Nação.

 Para além disto a mentalidade rural predominava sobre a


urbana; a indústria moderna estava estagnada; a
concorrência estrangeira derrubou a fraca indústria
portuguesa e nos campos a situação era aflitiva, devido ao
consequente aumento de emigração sobretudo para o
Brasil.
 No que respeita à cultura, nomeadamente nas Artes e nas
Letras, persistiu a falta de apoio, o que agravou as difíceis
condições de vida dos artistas. Os escritores necessitavam da
protecção do Estado, e este oferecia importantes cargos no
Governo em troca do “controlo da pena”, o que originou a
designada “literatura oficial”.

 É então, contra todas estas condições, que surge a Geração


de 70, um grupo de estudantes universitários coimbrãos que,
por volta de 1865, se eleva sobretudo contra o exagero
caduco e balofo do gosto ultra-romântico, ou seja, contra o
monopólio de António Feliciano de Castilho.
 A Geração de 70 traduz-se, enfim, num grupo de jovens
intelectuais do final do século XIX liderado ideologicamente
por Antero de Quental e José Fontana e do qual fizeram
parte alguns dos maiores escritores da História da
Literatura Portuguesa, como Eça de Queiroz, Ramalho
Ortigão, Teófilo Braga, Oliveira Martins, Guerra Junqueiro,
etc.

 Estes jovens, iluminados por ideias inovadoras que


beberam da cultura europeia, sobretudo da francesa,
opuseram-se a um governo monárquico cada vez mais
contestado nos finais do século.
 Racionalistas, herdeiros do positivismo de Comte, do
idealismo de Hegel e do socialismo utópico de Proudhon e
Saint-Simon com laivos republicanos e uma influência
francesa muito forte, de pendor anti-clerical, protagonizaram
uma autêntica revolução cultural no nosso País, agitando
consciências e poderes estabelecidos.

 A Geração de 70 defende, pois, uma maior abertura à


cultura europeia, e uma reforma do País, sobretudo a nível
cultural. São disso exemplo a Questão Coimbrã e as
Conferências do Casino. Esta revolução cultural acabou por
desembocar numa revolução política: a instauração da
República, a 5 de Outubro de 1910.
Questão Coimbrã
 Os jovens que se auto-intitulavam por “Geração Nova”
tomaram partido contra o nacionalismo liberal, em prol de um
ideal que pretendiam que fosse mais ecuménico.

 Esta é uma das divergências entre esta geração e as


gerações precedentes: o novo culto da humanidade. Para este
propósito só uma arte socialmente empenhada, que desse
“voz” à revolução (e não há “arte pela arte”), estaria à
altura dos ditames da ciência e da filosofia, bem como dos
imperativos imanentes à evolução objectiva da história da
humanidade, que, à boa maneira de Michelet e de Proudhon,
caminhava para a realização da justiça e da liberdade.
 O homem individual é tão só o microcosmos em
que se espelha a alma do Universo e de toda a
humanidade e que, por isso mesmo, não pode
haver verdadeira arte senão for sobredeterminada
pela “ideia”.

(Antero de
Quental)
Os pretextos imediatos que desencadearam a
Questão Coimbrã foram a publicação das Odes
Modernas, os elogios de Castilho a Tomás Ribeiro
e, sobretudo, o Poema da Mocidade (1865), de
Pinheiro Chagas (elevado a modelo, em confronto
com os juízos negativos sobre os novos poetas
que despontavam em Coimbrã: Antero de Quental,
Teófilo de Braga e Vieira de Castro)..
 São de Antero os principais textos desta
polémica. O primeiro, em forma de carta dirigida a
Castilho, intitula-se “Bom Senso e Bom Gosto”

Nesta, Antero exalta a literatura como um


“sacerdócio, um ofício público e religioso de
guarda incorruptível das ideias, dos sentimentos,
dos costumes, das obras e das palavras”.
 Os poetas para ele são santos, “têm a cabeça do génio
e o coração da inocência”. E, ao contrário dos que
“adoram a palavra”, eles adoram a ideia, “que custa
muito e nada luz”.

 Depois de criticar o pensamento de tacanhez nacionalista


(“quem pensa e sabe hoje na Europa não é Portugal,
não é Lisboa, cuido eu: é Paris, é Londres, é Berlim”),
Antero exalta o “grande espírito filosófico do nosso tempo,
a grande criação original, imensa, da nossa idade”, que
vai de Hegel a Edgar Kuinet, passando por Herder, Vico,
Michelet, Proudhon, Taine, Renan,etc.
 Outro texto polémico intitulava-se A Dignidade das Letras
e as Literaturas Oficiais, Antero reforça estas ideias,
precisando que “a essência, a cousa vital das literaturas
não é a Harmonia da forma, a perfeição exacta com que
se realizam certos tipos convencionais, o bem dito, o bem
feito (...). A alma sim: é dela que precisa toda a
literatura (...), não é muito dizer que é ela quem
prepara o berço onde se há-de receber esse misterioso
filho do tempo – o futuro.”

 As palavras da Geração de 70 estavam, então lançadas,


como semente em terra fértil: ideia, alma, futuro.
Assim sendo, a questão Coimbrã emergiu num
contexto em que, a propósito da discussão sobre a
função da literatura, um grupo de jovens
intelectuais, afastado do poder cultural e poder
político, conseguiu agitar a opinião pública.
A Questão Coimbrã, deve igualmente ser vista
como um momento alto de um processo mais
global, que terá a sua expressão politicamente
mais empenhada na realização das Conferências
Democráticas do Casino, em 1871, animadas, em
boa parte, e já em Lisboa, pelo grupo que,
liderado por Antero, constitui o Cenáculo.
Por tudo isto, cair-se-à numa visão
exageradamente literária se se reduzirem os
intentos renovadores da nova geração ao plano
exclusivamente estético. As suas pretensões
ultrapassam largamente estes horizontes,
contemplando uma hegemonia cultural, a
liquidação do sentimentalismo ultra-romântico, a
destruição dos alicerces da ordem monárquico-
constitucional e uma continuidade ao combate
contra a influência do catolicismo e da Igreja e
em prol da razão e da ciência.
Em suma, pode-se dizer que esta polémica se
traduziu num confronto entre os defensores do
velho romantismo e a juventude apologista do
movimento literário que se seguiria, o Realismo.
Conferências do Casino
Conferências do Casino
 Entre a polémica Coimbrã e as conferências do Casino
há fundamentalmente a diferença entre uma polémica
literária e cultural opondo duas gerações e um
manifesto publico cultural de repercussões políticas e
sociais.

 Os ideais da geração passavam de Coimbra para


Lisboa, criando o designado “Grupo do Cenáculo da
Travessa do Guarda-Mor”, dominado por Antero e
historiado por Jaime Batalha Reis, que o definiu como
sendo uma “academia obscura e terrível”.
 No programa das conferências, publicado em Lisboa a 16 de Maio
de 1871, proclama-se:

 “ (...) Ligar Portugal com o movimento moderno,


fazendo-o assim nutrir-se dos elementos vitais de que vive
a humanidade civilizada;
 Procurar adquirir a consciência dos factos que nos rodeiam
na Europa;
 Agitar na opinião pública as grandes questões da Filosofia
e da Ciência moderna;
 Estudar as condições de transformação politica, económica e
religiosa da sociedade portuguesa.”
 Antero é o espírito destas conferências, aliás, como será sempre,
de facto, o mestre espiritual da Geração de 70.

 Inaugura-as a 22 de Maio, sendo desconhecido o texto do discurso


de abertura, excepto pelo resumo publicado na impressa, em geral
e, mais pormenorizadamente, no jornal A Revolução de Setembro.

 A segunda conferência de Antero, proferida a 27 de Maio e


intitulada Causas da Decadência dos Povos Peninsulares nos Últimos
Três Séculos, foi publicada e, além do sucesso que teve de
imediato, tornou-se um texto fulcral para compreender o início da
acção cultural de toda a Geração de 70.

 Aí, Antero aponta três causas da decadência da Península Ibéria: o


catolicismo imposto pela Inquisição depois do Concílio de Trento
(1545-1563), o absolutismo político, que causou “a ruína das
liberdades locais”, e “as conquistas longínquas”.
A 26 de Junho as Conferências do Casino
foram proibidas por “atacar a Religião e as
Instituições politicas do Estado”. Estava
encerrada um fase decisiva da acção cultural
e ideológica da Geração de 70.
O “Santo Antero”
 Originário de família fidalga e
letrada, Antero de Quental nasceu
na Ilha de S. Miguel a 18 de Abril
de 1842.

 Antero estudou em Coimbra, onde


se tornou uma espécie de mito.

 Eça, também estudante de Direito


em Coimbra nessa altura, descreve-
o, criando a partir de 1862 – 1863
o mito de “Santo Antero”.
O “Santo Antero” (Cont.)
Segundo Eça de Queiroz, vivia-se em Coimbra
“um grande tumulto mental” com os caminhos –
de – ferro que traziam livros vindos de França,
“torrentes de coisas novas, ideias, sistemas,
estética, formas, sentimentos, interesses
humanitários”, todo um “mundo novo que o Norte
nos arremessava aos pacotes”.
O “Santo Antero” (Cont.)
Esse “Mundo Novo” vindo do Norte vai influenciar
Antero, que publica os primeiros sonetos em 1861
e que com Odes Modernas (1865) inicia um
novo período literário ao qual António Sérgio
chamou com justeza “terceiro romantismo”.
O “Santo Antero” (Cont.)

Depois de ter viajado por França em 1866 e pelos


Estados Unidos em 1869, faz da poesia uma “voz
da Revolução” com Primaveras Românticas (1872
).

 Em 1873, com a morte do pai, este escritor


atravessa um período de profunda depressão. Isto
leva-o a regressar aos Açores onde se entrega a
um pessimismo visionário e metafísico.
O “Santo Antero” (Cont.)

Alguns sonetos são disso impressionantes exemplos.


Oliveira Martins, no prefácio aos Sonetos, diz o
seguinte a este propósito:

“(...) as suas páginas foram escritas com sangue e


lágrimas! E dói ver a vida do mais belo espírito
consumir-se em agonias de uma alma em luta consigo
mesma! (...)”
O “Santo Antero” (Cont.)

 Depois de 1874 e até à sua morte, Antero escreve


uma poesia de negação de toda a acção neste mundo,
como se poderá constatar no soneto “Nirvana” em que
se sucedem as imagens do nada.

 Os últimos sonetos são escritos em 1887 e 1890.


Antero publica ainda na Revista Portugal de Eça de
Queiroz um importante ensaio: As Tendências Gerais da
Filosofia na Segunda Metade do Século XIX.
O “Santo Antero” (Cont.)

Depois de uma breve e decepcionante adesão à


Liga Patriótica do Norte, fundada na altura do
Ultimatum Inglês de 1890 por causa das colónias
Portuguesas em Africa, Antero isola-se cada vez
mais, acabando por se suicidar, com um tiro de
pistola, num banco de jardim de Ponta Delgada, a
11 de Setembro de 1891.
O “Santo Antero” (Cont.)
 Contudo em cartas dos últimos anos da sua vida,
Antero continua a mostrar a sua preocupação com
Portugal, exemplo disto são as cartas deixadas a
Oliveira Martins .

 Para lá da grandeza e da complexidade da obra


poética, entre o romantismo, simbolismo e o modernismo
(Antero é um dos grandes mestres de Fernando
Pessoa”), a designação de “Santo Antero” dada por
Eça tinha fundamento na própria visão mística final dum
povo e duma Nação que Antero aqui nos deixou.
Teófilo Braga e o nacionalismo literário
 Teófilo Braga, nascido a 24
de Fevereiro de 1843 nos
Açores, representa,
contrariamente a Antero, a
tendência nacionalista da
Geração de 70 ligada à
ideologia republicana e
positivista.

 Tal como Antero, Teófilo


partilhava a mesma visão dum
Portugal grandioso de outrora
que era preciso regenerar.
Teófilo Braga e o nacionalismo literário (Cont.)

Os primeiros textos de Teófilo, à parte uma


colectânea de versos, Folhas Verdes, publicada
prematuramente, em 1859, portanto aos dezasseis
anos, em Ponta Delgada, surgem numa revista de
Coimbra, onde Teófilo estuda Direito, O Instituto.
Teófilo Braga e o nacionalismo literário (Cont.)

Os seus textos iniciais revelam já os temas


principais da sua obra de historiador da literatura,
fundindo poesia e investigação cientifica sobra a
literatura tradicional, com influencia dos teóricos do
romantismo alemão, sobretudo de Herder, Schlegel
e os irmãos Grimm.
Teófilo Braga e o nacionalismo literário (Cont.)

 Sofre também forte influência de Vítor Hugo e de


Michelet nas colectâneas de poesia publicadas em 1864:
Visão dos Tempos e Tempestades Sonoras.

 Segue-se Ondina do Lago (1866) e Torrentes (1869)


nos quais o autor exprime sobretudo a “epopeia da
humanidade”, através duma poesia “moderna” que,
como a de Antero, se opõe então à escola ultra-
romântica de Castilho.
Teófilo Braga e o nacionalismo literário (Cont.)

 Este sentido epopeico moderno da poesia de Teófilo,


completado por um último volume, Miragens Seculares
(1884), que embora significativo historicamente, não é,
contudo, o essencial da sua obra.

 Teófilo, um “romântico tardio que somente as


necessidades da história lançavam numa aventura
científica”, como refere muito justamente José Augusto
França, tornou-se sobretudo um historiador da literatura
(cit. por José França, in Geração de 70).
Teófilo Braga e o nacionalismo literário (Cont.)

Partindo do estudo das tradições nacionais e da


poesia popular e seguindo as ideias do positivista
francês Comte, Teófilo, começa por publicar uma
História da Poesia Portuguesa, no Porto, em 1867,
seguindo-se, no mesmo ano, em Coimbra, o
Cancioneiro Popular e o Romanceiro Geral.
Teófilo Braga e o nacionalismo literário (Cont.)

 Posteriormente seguem-se as grandes obras de


síntese:

História da Literatura Portuguesa – Introdução(1870);

História do Romantismo em Portugal (1880);

Sistema de Sociologia (1884);

Modernas Ideias na Literatura Portuguesa (1892).


Teófilo Braga e o nacionalismo literário (Cont.)

No que respeita à sua vida, este escritor, que


publica em 1891 o Manifesto e Programa do
Partido Republicano, foi presidente do Governo
Provisório da República (1910 – 1911) e
presidente eleito em 1915.

Morre em Lisboa em 1924.


Teófilo Braga e o nacionalismo literário (Cont.)

O contributo de Teófilo Braga para a Geração


de 70 situa-se sobretudo no plano duma síntese
da história literária.

Síntese, retomada até ao fim da sua vida, em


que a preocupação de definir o romantismo,
abre novas perspectivas do conceito e da
experiência românticas.
Oliveira Martins e o nacionalismo histórico
 Nascido em 1845, em Lisboa,
Oliveira Martins não segue,
contrariamente a Teófilo ou Eça,
um percurso universitário normal;
ele representa mesmo, o contrário
do intelectual formado pela
Universidade.

 Autodidacta, originário duma família


burguesa intelectual sem fortuna,
este escritor começa a trabalhar no
comércio ainda muito novo, com
15 anos, devido à morte do seu
pai.
Oliveira Martins e o nacionalismo histórico (Cont.)

Ás dificuldades financeiras, acrescentam-se ainda


dificuldades de expressão literária; uma expressão
que reflecte contraditórias influências estrangeiras.

De entre essas influências a principal é a do


grande historiador romantismo francês, Michelet.
Oliveira Martins e o nacionalismo histórico (Cont.)

 Também uma influência nacional assinala nitidamente a primeira


obra de Oliveira Martins: Herculano.

 Febo Moniz (1867), a sua primeira obra, constitui-se como


uma evocação nacionalista.

 O sentido de nacionalismo histórico da obra de Oliveira Martins,


está dado desde a sua primeira obra, assinalado
paralelamente com uma idealização do iberismo e uma
consciência, por vezes dramática e patética, da decadência
nacional.
Oliveira Martins e o nacionalismo histórico (Cont.)

 Estas características desenvolvem-se sobretudo por volta


de 1870, até a nível da ideologia social e política, com
a colaboração nos jornais A Revolução de Setembro
(1868) e Jornal do Comércio (1869), bem como a
fundação do jornal A República (1870 – 1873) e a
participação de Oliveira Martins na acção cultural e
ideológica dos membros do Cenáculo, sobretudo através
da relação com Antero e Eça, de quem se torna
íntimo, partilhando muito especialmente com Antero,
nesta primeira fase, a sua tendência socialista e
afastando-se do republicanismo positivista de Teófilo.
Oliveira Martins e o nacionalismo histórico (Cont.)

 Em 1872, a Teoria do Socialismo – Evolução Política e Económica


das Sociedades da Europa, bem como em 1873, Portugal e o
Socialismo são obras que assinalam o percurso ideológico de
Oliveira Martins e, em grande parte, o de toda a Geração de 70.

 Nestas torna-se evidente a influência decisiva de um ideólogo


francês, Proudhon, modelo da evolução geral do pensamento
europeu a caminho de uma justiça social que não excluísse a pura
liberdade individual.

 Esta influência francesa vem, de certo modo, sobrepor-se a


influência germânica, sobretudo a do pensamento filosófico de Hegel
e Hartmann, a partir da publicação de O Helenismo e a Civilização
Cristã (1868).

 As obsessões nacionalistas e decadentistas marcam então a fase


de plena maturidade de Oliveira Martins.
Oliveira Martins e o nacionalismo histórico (Cont.)

 O nacionalismo histórico de Oliveira Martins torna-se então


consciência duma simbologia do colectivo, em que a moral individual
é preferida em favor do destino dum povo, como se pode
facilmente depreender pelo prefácio à História de Portugal:

“ (...) os caracteres particulares das acções dos homens,


fundindo-se no sistema geral de princípios e leis que os
determinam, perdem individualidade, e não valem senão como
elementos componentes de um todo superior: que sejam
humanamente bons ou maus, importa nada, porque só no cumpre
atender ao destino que os determina, e a moral é um critério
incompetente para a esfera ou a categoria colectiva de que se
trata”.
Oliveira Martins e o nacionalismo histórico (Cont.)

 Por outro lado, a relação entre nacionalismo e decadentismo


intensifica-se, inclusive em textos mais episódicos, como Camões,
publicado na revista O Ocidente em 1880, pelo centenário do poeta,
e depois, aumentando, em volume (1891).

 Evocando o período fulcral das lutas liberais, indo de 1826 a 1868,


Oliveira Martins cria o herói que encarna a alma colectiva da nação
num momento inevitavelmente efémero. Aquele que, como Mouzinho
da Silveira, é “clarão de luz que rompeu num instante as trevas
anteriores”.
Oliveira Martins e o nacionalismo histórico (Cont.)

 Esta ideia do efémero glorioso, que em Oliveira Martins se


centra no período das Descobertas, leva-o, afinal, a
constatar a decadência irremediável da nação depois da
revolução radical e demagógica de Setembro de 1836:

“Triste, desoladora sorte, a de Portugal! Nem homens, nem


sistemas, nem a própria religião nova, da LIBERDADE,
vingava! Não era para descrer da Pátria? Não era para
interrogar a História, a ver se nós não seríamos um erro
– como tantos! – que o tempo arrasta pelos séculos?”
Oliveira Martins e o nacionalismo histórico (Cont.)

 Eleito deputado pelo Partido Progressista, em 1885,


Oliveira Martins é ardilosamente posto de parte pelos seus
inimigos políticos em 1887, ficando como administrador da
Regié dos Tabacos.

 Após a crise grave do Ultimatum inglês de 1890, crise


que leva à revolta republicana, no Porto, a 31 de Janeiro
de 1891, Oliveira Martins participa ainda num governo não
partidário de salvação nacional, como ministro da Fazenda.
Mas demite-se quatro meses após a nomeação,
desiludido.
Oliveira Martins e o nacionalismo histórico (Cont.)

 Um certo Sebastianismo marca as suas últimas obras


históricas, biografias de grandes voltos da dinastia de Avis:
“Os Filhos de D. João I (1891) e A Vida de
Nun’Álvares (1893). A nação que, em os Os Filhos de
D. João I, surge como “um ser (...) animado por uma
ideia”, funde-se no Sebastianismo como “prova póstuma
da nacionalidade”.

 Oliveira Martins torna-se assim um dos Vencidos da Vida,


grupo que, derivando da Geração de 70, acaba por negar
a sua possibilidade de transformar o país.
Ramalho Ortigão e o poder do jornalismo
 Mais velho do que os principais
componentes da Geração de 70, nascido
em 1836 e falecido em 1915, Ramalho
Ortigão é aqui citado após Antero,
Teófilo e Oliveira Martins dado que se
aproxima mais de Eça num domino
importante da intervenção cultural da sua
geração, pelo menos no inicio: o do
jornalismo.

 Ramalho esteve intimamente ligado a


Eça, nesse sentido em que, como ele,
segundo António José Saraiva, se formou
“na escola do folhetim literário” (cit por
Saraiva & Lopes in Geração de 70).
Ramalho Ortigão e o poder do jornalismo (Cont.)
 O Porto, onde nasceu, foi o primeiro centro de interesse
jornalístico de Ramalho.

 Iniciou a sua carreira no Jornal do Porto e já então se


manifestava nos seus artigos de cariz mais propriamente
literário uma grande paixão pela obra de Camilo. Este foi,
de facto, o seu grande modelo literário, mesmo quando o
militantismo realista parecia opor-se à retórica romântica
camiliana.
Ramalho Ortigão e o poder do jornalismo (Cont.)

 Na célebre Questão Coimbrã Ramalho toma o partido de


Castilho, embora pretende-se manter uma posição
independente. No texto intitulado Literatura de Hoje e
publicado no Jornal do Porto em 1866, é curioso notar
sobretudo a defesa do folhetim literário contra as
“filosofices” de Antero e dos “senhores de Coimbra”.

“Os senhores de Coimbra chamam ao folhetim


literatura fácil. Eu não desdigo, mas sustento que
a literatura fácil é muito mais difícil do que é difícil
filosofia. (...)”
Ramalho Ortigão e o poder do jornalismo (Cont.)
 Em 1868, note-se a publicação de um livro de
impressões de viagem que não só caracteriza o estilo de
Ramalho, mas também a mitologia parisiense de toda a
Geração de 70: Em Paris. Neste revela-se também o
nacionalismo saudosista deste escritor.

“Há um só banquete português que desbanca todos os


jantares de Paris, mas que o desbanca inteiramente: é a
ceia da véspera de Natal nas nossas terras do Minho.”
Ramalho Ortigão e o poder do jornalismo (Cont.)
 A Holanda (1863) reflecte o mesmo sentido minucioso da
captação do quotidiano de um país europeu civilizado, com
a diferença de que aqui Ramalho exalta sobretudo uma
certa forma de burguesia cosmopolita “saudável” que o
caracteriza mais especificamente do que Em Paris.

 A Em Paris segue-se um período de colaboração com


Eça em O Mistério da Estrada de Sintra (1870), espécie
de pastiche do romance policial, publicado em folhetim no
Diário de Notícias.
Ramalho Ortigão e o poder do jornalismo (Cont.)
 Resultantes da colaboração com Eça são também As Farpas,
iniciadas em Maio de 1871.

 Eça deixa de colaborar n’ As Farpas quando parte em missão


diplomática para Cuba (Novembro de 1872). Na segunda fase d’
As Farpas, que vai até 1884, Ramalho manifesta claramente o
seu republicanismo pequeno – burguês de carácter ferozmente
anticlerical e defende o positivismo de Compte, como Teófilo
Braga. De certo modo, foi esse o meio de propaganda decisivo
da ideologia republicana que derrubou a monarquia. No entanto,
no final da sua vida, Ramalho, ao escrever as Últimas Farpas
(1911 – 1914), depois da revolução republicana, defende
fervorosamente o regresso a uma monarquia “castiça”, “à antiga”.

 Eis mais um elemento que caracteriza as íntimas contradições da


Geração de 70.
Eça de Queirós e a Renovação do Romance

 Filho de um magistrado e homem de letras


que fizera parte de um grupo de poetas
ultra-românticos de Coimbra (Teixeira de
Queirós), Eça de Queirós nasce na Póvoa de
Varzim a 25 de Novembro de 1845, vindo a
falecer em Paris a 16 de Agosto de 1900.

 Dele pode-se dizer desde já e sem hesitação


que foi o grande renovador do romance
português do século XIX.
Eça de Queirós e a Renovação do Romance
 Foi-o no sentido em que os diversos elementos dos romances de
Eça, e principalmente Os Maias (1888), desde a linguagem às
personagens, passando pela análise social e psicológica, formam
uma estrutura de conjunto absolutamente nova e coerente que
ultrapassa, quer o romance ou a novela camilianos, quer a escola
realista- naturalista em sim mesmo.

 Eça, forma-se em direito em Coimbra. É aí que conhece Antero e


começa a ter consciência de fazer parte de uma geração
renovadora. Esta consciência leva-o a revoltar-se contra a própria
instituição universitária coimbrã, considerada “anacrónica”:
“No meio de tal universidade, geração como a nossa só podia ter
uma atitude – a de permanente rebelião”..
(Antero de Quental in Notas
Contemporâneas)
Eça de Queirós e a Renovação do Romance
 “Naqueles tempos, segundo a fórmula de Evangelho, o romantismo
estava nas nossas almas. Fazíamos devotamente oração diante do
busto de Shakespeare”

(Prosas Bárbaras)

 Depois de licenciado em Direito, Eça instala-se em Lisboa onde


colabora na Gazeta de Portugal. Os que formarão o volume Prosas
Bárbaras, revelam nessa altura sobretudo a influência do “satanismo”
de Baudelaire.

 Esta influência leva-o a criar com Antero e Jaime Batalha Reis a


figura de Fradique Mendes, espécie de alter-ego de Eça e de
heterónimo colectivo da Geração de 70. Eça, que retoma esta
personagem até ao fim da sua vida.
Eça de Queirós e a Renovação do Romance
 Eça passa por uma fase realista- naturalista que é igualmente
característica da sua geração.

 É, depois de fundar e dirigir um jornal da oposição em Évora, O


Distrito de Évora e de uma viagem ao Egipto (de que resultará a
publicação póstuma, em 1926, de O Egipto – Notas de Viagem),
a fase das Conferência do Casino..

 É também a fase das leituras de Flaubert e Zola e da criação,


após a breve experiência de administrador do concelho de Leiria
(1870-1871), de O crime do Padre Amaro.
Eça de Queirós e a Renovação do Romance
 O eu dá bem a medida da procura de perfeição e estilística em
Eça. Mas revela igualmente a sua procura de um realismo para lá
do realismo de escola.

 Foi nomeado cônsul de Newcastle-on- Tyne (1874) depois de ter


estado em Havana (1872).

 Transferido em 1878 para o Consulado de Bristol, Eça conclui A


Capital, obra só publicada postumamente (1825).

 E se em 1879 escreve ainda um romance de tipo realista, O


Conde de Abranhos, já em 1880 publica o Mandarim, “conto
fantástico” e que permanecem, no entanto, a ironia e uma crítica
social levadas à caricatura, elementos predominantes de A Relíquia
(1887).
Eça de Queirós e a Renovação do Romance

 Chegamos assim a Os Maias, romance que começado a arquitectar


em 1878, fazendo parte de um vasto plano ainda difuso de
romances sobre “Cenas Portuguesas”, só é publicado em 1888.

 O próprio Eça lhe chama, em carta a Oliveira Martins em Angers,


10 de Maio de 1884, uma:
“vasta machine, com proporções enfadonhamente monumentais de
pintura a fresco, toda trabalhada em tons pardos”
(Eça de Queirós in Correspondência)
Eça de Queirós e a Renovação do Romance

 Os Maias representam a nostalgia de uma regeneração de


Portugal para lá do próprio período histórico da
Regeneração – uma regeneração que, metafisicamente,
levou Antero ao suicídio e, realisticamente, ou melhor,
ironicamente, levou Eça a uma certa forma de exílio
voluntário, a uma certa distância, tão irónica como
nostálgica, de “vencido da vida”, símbolo da desistência
lúcida da sua geração.
O espírito do fim de século
 De certo modo, Os Maias resumem o destino social e cultural de toda a
Geração de 70. Um destino que pode resumir-se também num passo
célebre das Cartas Inéditas de Fradique Mendes, deixadas inéditas por Eça
após a sua morte: “Para um homem, ser vencido ou derrotado na vida
depende, não da realidade aparente a que chegou – mas do ideal íntimo
a que aspirava.”

 Começando por ter um ideal de missão cultural, social e política, a


Geração de 70 acabou por cultivar um espírito finissecular de que Carlos
da Maia é bem um modelo.

 Tomada de consciência dum decadentismo de fim de século, em que


predomina um quadro de “doenças morais” que se aplica, duma maneira
ou de outra, aos principais representantes da Geração de 70, àqueles que
a “geraram”. Mas também àqueles que, marginalmente, a acompanharam
ou com ela colaboraram.
O espírito do fim de século

 Moniz Barreto (1865-1899), atrás já citado, colaborador


dos jornais A Província e O Repórter, fundados e dirigidos
por Oliveira Martins, bem como da Revista de Portugal de
Eça de Queirós e da Revista de Estudos livres de Teófilo
de Braga e Teixeira Bastos, foi o melhor crítico e ensaísta
literário da Geração de 70.

 Influenciado por Comte e por Taine, ultrapassou os


limites do positivismo e do realismo, analisando com finura
os elementos básicos do espírito finissecular e sobretudo
da “imaginação psicológica” de Oliveira Martins.
O espírito do fim de século
 De entre os poetas e grandes jornalistas polémicos que
acompanharam a evolução Geração de 70 até quase ao final do
século, cite-se sobretudo Guilherme de Azevedo (1839-1882),
percursor do realismo citadino de Cesário Verde.

 Mas o maior poeta da Geração de 70 que chegou ao final do


século e o ultrapassou, prolongando e transfigurando o novo
romantismo de Antero em simbolismo e realismo foi sem dúvida
Gomes Leal (1848-1921).

 A sua imaginação visionária começa a impor-se com Claridades do


Sul (1875) e vai até Fim de um Mundo (1900) ou Pátria e
Deus e A Morte do Mau Ladrão (1914), passando por A Fome de
Camões (1880), livro em que Gomes Leal retoma muito da
mitologia romântica do Camões de Garrett, transpondo-a para a
mitologia finessecular.
O espírito do fim de século

 Guerra Junqueiro (1850-1923), directamente ligado à Geração de


70 desde o inicio acaba por fazer parte do Grupo dos “Vencidos
da Vida”. Junqueiro representa a tendência predominantemente
anticlerical e republicana da Geração, sobretudo desde a publicação
de A Velhice do Padre Eterno” (1885).

 O Conde de Ficalho (Francisco Manuel de Melo Brayner, 1837-


1903), biógrafo de Garcia da Orta e Pêro da Covilhã, botânico e
historiador, foi amigo íntimo de Eça e pertenceu igualmente ao
grupo dos “Vencidos da Vida”. Uma Eleição Perdida (1888) é a
sua obra de ficção que fica para a posteridade como espelho da
própria geração a que pertenceu, particularmente no que ela teve de
visão finessecular.
O espírito do fim de século
 Não deveremos excluir da Geração de 70 aquele que foi o maior
renovador do conto e da novela no final do século e que exprime
bem o seu espírito: Fialho de Almeida (1857-1911).

 Influenciado por Eça, Fialho integra-se na tendência da transição do


realismo-naturalismo para o decadentismo. Os seus Contos (1881)
criam uma linguagem expressionista que vai abrir caminho à ficção
portuguesa moderna, a começar pela de Raul Brandão.

 Não podemos igualmente esquecer a importância da sua obra de


cronista, sobretudo com os textos reunidos em Os Gatos (1889-
1894), onde Fialho espraia num acontecimento quotidiano ou numa
passagem com um incomparável sentido do visionário.
O espírito do fim de século

Fialho prolongou as ideias e ideais da Geração 70


levando-os até ao extremo limite do seu significado
finessecular e estabelecendo a relação entre
decandentismo e nacionalismo.
Conclusão
 A importância da Geração de 70, do ponto de vista da
evolução das ideias históricas em Portugal, dificilmente
poderá ser ignorada. Embora a fonte da moderna reflexão
histórica portuguesa esteja nas obras de um homem que
se formou nos primeiros tempos da revolução liberal,
Alexandre Herculano, é somente com a Geração de 70
que se vai realmente alterar, em ampla escala, a forma
de pensar a vida da nação e consequentemente, o sentido
da sua existência. Nela se inclui um leque vasto de
intervenientes com diversos ofícios, que lutam em prol do
mesmo ideal: A Regeneração.
Conclusão
 A Geração de 1870, a Questão Coimbrã e as
Conferências do Casino, marcaram então toda uma época
de novos ideais, de novas mentes e maneiras de pensar,
e sobretudo demonstraram ser uma revolucionária corrente
de jovens pensadores, cujo intuito era remodelar a política
e cultura do nosso país.

 Pode-se ainda acrescentar que todos os intervenientes


desta Geração, lutaram em prol dos mesmos ideais, como
que “anulando” a sua própria identidade criando uma
Identidade Nacional.
FIM

Trabalho Realizado por:

Andreia Cordeiro;
Célia Marques;
Dora Almeida;
Laura Lino;
Vanessa Martins.