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Psicologia da Criança e do Adolescente

1. Introdução

Os estudos de família no campo da história revelam que as ideias de infância e


adolescência são relativamente recentes se tivermos como referência à história humana
(Arriès, 1981). Mas, foi na segunda metade do século XX, com o advento da psicanálise
e o aprofundamento das investigações na área da psicologia do desenvolvimento que
estas duas categorias tiveram uma maior explicitação. No entanto, ainda há muitas
controvérsias quanto aos conceitos de infância e adolescência.
A Adolescência é uma fase de desenvolvimento humano caracterizado por
múltiplas transformações físicas e psicológicas. Compreende o período dos 10 aos 20
anos incompletos, segundo a Organização Mundial de Saúde. A palavra “adolescência” é
derivada da expressão “adolescere”: verbo latino que indica “crescimento” ou “crescer até
a maturidade”. A partir da puberdade ocorrem fenómenos de natureza biológica de grande
importância na vida do indivíduo. A reorganização hormonal e subsequente reestruturação
anátomo-fisiológica têm como resultado um novo corpo de homem ou de mulher, dotado
de novas sensações e da capacidade da reprodução. No entanto, a forma como o indivíduo
vivência essas transformações e, o significado culturalmente atribuído a este novo corpo
têm igual relevância para o seu processo de desenvolvimento. O processo de adolescer
implica o reconhecimento de um novo corpo e, uma reorganização “das identidades” que
constituem a pessoa como uma estrutura social com impacto na vida do indivíduo e na
sociedade em que está inserido. Nessa reorganização a cidadania apresenta-se como uma
das identidades importantes. Isso implica para o adolescente assumir a sua condição de
cidadão no exercício efectivo de direitos e deveres que lhe são assegurados e, exige da
sociedade uma mudança de postura frente a este sujeito que assume ser protagonista da
sua própria história.
Ao abordar os fenómenos da adolescência deparamo-nos com a insegurança e a
instabilidade nos diversos aspectos da existência. Tratam-se de sentimentos característicos
de quem troca o que é conhecido e familiar pelo desconhecido e ainda incompreensível.
“Estar adolescente” significa “estar em transição”: uma fase de transição que tem
profundas “raízes” na infância e, concomitantemente, lança as suas “garras” em direcção
ao futuro. Encontramos no processo de adolescer uma identidade em crise. Isto implica

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dizer que estamos diante de um momento do ciclo vital que, paradoxalmente, encerra
grandes riscos e grandes possibilidades para o projecto de vida em construção, próprio dos
momentos de crise. (Rena, 2001)
Este estudo pretende averiguar as preocupações dos sujeitos em relação a várias
dimensões características da adolescência tais como: adolescente em si, a escola, a família
e a sociedade. A partir dos resultados obtidos, poder-se-á identificar quais os pontos
fulcrais na vida no jovem, agindo no sentido de prevenir e melhorar o bem-estar físico e
psicológico do adolescente. Para tal, recorremos a diversos estudos efectuados nesta área
de forma a sustentar os nossos objectivos.

1.1 Adolescente em Si

Um jovem é como o fogo, com rumo e orientação pode mudar a forma do mundo.
Sem direcção, o fogo da juventude é desperdiçado, na melhor das hipóteses; na pior, pode
tornar-se uma força destrutiva e perigosa. Levar uma vida significativa quer dizer domar
o fogo da juventude; mas primeiro devemos entender o propósito da juventude em si.
Rebelião não é o crime; o crime acontece quando a rebelião não tem uma expressão
sadia. Aquilo que a maioria dos jovens busca é uma causa significativa. Transbordam
uma mistura de adrenalina e confiança. – "Quero mudar o funcionamento do mundo!" –
pensam os adolescentes com frequência. Os adultos, sobrecarregados com as pressões da
vida quotidiana, convencem-se de que o mundo é da maneira que é, mas os jovens não
podem tolerar este tipo de resignação. Este é o constante conflito entre os dois grupos: os
jovens abominam o status quo, ao passo que a vida dos adultos gira em torno dele.
Muitos adultos simplesmente classificam os anos da adolescência como um período
rebelde que uma pessoa simplesmente deve ultrapassar. Os jovens, enquanto isso, pensam
que os adultos esqueceram como apreciar o significado e a emoção da vida. Os jovens
são rebeldes, e os adultos vêem a rebelião como algo que está a um passo do crime.
Porém a rebelião não é o crime; o crime ocorre quando a rebelião não tem um escape
saudável. A rebelião, na verdade, pode ser a coisa mais saudável para o ser humano –
uma energia pura que inspira a pessoa a não desistir facilmente, recusar-se a tolerar
injustiça, não seguir uma ideia apenas porque alguém está a pensar naquilo. O pior que

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podemos fazer com a energia psicológica de uma pessoa é refreá-la; na verdade, devemos
fazer todo o possível para aproveitar esta energia, dirigi-la e canalizá-la.
Com o advento da puberdade e da adolescência, novas situações e interesses
oferecem-se aos jovens. Tais interesses estão relacionados ao grupo social do
adolescente. São, por esse motivo, sempre considerados como forças de interesses
sociais. Na escola, o adolescente sente novas responsabilidades e recebe novos direitos.
Desenvolve relações diferentes com os colegas, os professores e, em função delas, com o
lar e a comunidade. O estudante sente-se como nova força da comunidade e procura
desempenhar-se à altura dessas obrigações adquiridas.

Um dos aspectos mais relevantes no desenvolvimento do adolescente é a questão


dos valores. O início do pensamento formal, da capacidade de abstracção e da capacidade
de distinguir o eu dos outros, o subjectivo do objectivo tem influência no modo como os
adolescentes de percepcionam e a forma como se compreendem, o que vai afectar, de um
modo geral, os sistemas de valor. Pode-se dizer que os valores sofreram com a evolução
dos tempos, portanto, já não podem ser descritos de acordo com a perspectiva tradicional
que vê o adolescente no extremo oposto ao adulto.

1.2 Adolescente versus Escola

A escola constitui um espaço institucional privilegiado para a interacção entre


pares e também para o desenvolvimento interior do jovem. Por diversos modos, a escola
afecta a selecção de amizades e a associação entre os jovens e esta influência não é
sempre a mesma ao longo da escolarização. Assim, por exemplo, durante a escola
secundária um aluno é obrigado a tomar mais decisões relativamente à escolha das áreas
ou cursos, do que lhe foram exigidas até aí. Os percursos académicos escolhidos poderão
afectar as suas relações com o seu grupo de pares ou com os amigos já existentes, mas
também conduzem a mais possibilidades de novos contactos com outros que, de certa
forma, têm interesses semelhantes. Por outro lado, quando a escola institui programas
extra-curriculares de ocupação de tempos livres, por exemplo, está a criar oportunidades
para participação e envolvimento em encontros sociais, os quais também poderão afectar
a rede de relações previamente estabelecidas pelos jovens.

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Existem alguns estudos nesta área que pretendem verificar até que ponto é
importante a escola no desenvolvimento do jovem. James Coleman praticou a sua
investigação em escolas públicas. O sociólogo James Coleman, no seu estudo inquiriu um
número bastante extenso de alunos do 9.º ao 12.º anos de escolaridade, os quais faziam
parte de uma grande variedade de escolas. Incluídas nas amostras, encontravam-se as
escolas com um corte transversal do país, incluindo os distritos rurais, urbanos e
suburbanos, das classes sociais e económicas com maior importância. O inquérito
ofereceu um “fotografia compacta” daquilo que eram as escolas, pela apreciação dos
alunos. Coleman não fez uma avaliação do currículo formal mas sim do currículo
informal, isto é, a agenda escondida (como muitas das vezes é designado), das escola do
terceiro ciclo do ensino básico e secundário. Colocando a questão de uma outra maneira,
“Como é que os próprios alunos percepcionam a sua experiência diária?”
Coleman descobriu que a fonte dominante dos valores, em todas as escolas estudadas, era
o subgrupo de elite (chamado grupo liderante). Este grupo era bem notório e de fácil
identificação. No estudo foram identificados os principais objectivos para os rapazes e
para as raparigas. Para os rapazes era serem reconhecidos como atletas, e para as
raparigas era serem nacionalmente famosas. Isto surge como uma forma de epitáfio
adolescente em que os rapazes desejam a celebridade desportiva e as raparigas líder de
actividades.

Relativamente ao colo de cada escola, o objectivo mais admirado era pertencer ao


grupo liderante. Foi este grupo a que Coleman designou por elites sociais, que eram
constituídas pela força social predominante em todas as escolas. James Coleman
descobriu que o grupo liderante continha níveis ainda mais baixos a nível de querer
sucesso nos estudos, do que os restantes alunos de toda a escola. Pode-se ainda referir
que nos resultados, 20% dos rapazes queriam ser outra pessoa.

1.3 Adolescente versus Família

As relações do adolescente a nível familiar são fundamentais para o


processamento da construção da sua própria autonomia. Assim, é também relevante,

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definir determinadas características destas relações e, de que maneira contribuem para


essa evolução e desenvolvimento.
A família tem sido vista como o “ponto crucial da identidade” e como
determinante das primeiras relações sociais. O sentido de integração e coerência pessoal
que Erikson encarava como a principal realização da adolescência, depende bastante do
desenvolvimento social, intelectual e emocional que é fomentado pelas relações
familiares. Neste contexto, os jovens demonstram ter dois tipos de relações: com o pai e
com a mãe. Apesar destas relações familiares com os progenitores serem indispensáveis
para o adolescente, a influência dos restantes elementos da família não pode ser
esquecida. A variedade de estruturas familiares complicam a difusão acerca do papel dos
irmãos, avós, tios, etc. no crescimento do adolescente.
Com o pai, conserva-se a estrutura de autoridade unilateral da infância, apesar de
não ser uma autoridade universal e que se restringe aos níveis de planeamento
profissional e eventualmente ideias políticas. Com funções complementares encontra-se a
mãe. Além de se focar em temáticas como a realização escolar, preocupa-se também com
o bem-estar pessoal e emocional do seu filho não estando tão sujeita a negociações e
critérios muito objectivos. Assim dizendo, a mãe estabelece atitudes de autoridade
unilateral mas de uma forma cooperativa.

Podemos ainda referir, que nesta fase do desenvolvimento da pessoa, os pais e filhos
partilham um agrupado de inquietações relativas à (re)construção de uma identidade
pessoal. A atmosfera familiar altera-se e as transformações nas relações do adolescente
relacionam-se com o desenvolvimento sócio-cognitivo do próprio adolescente. Para além
de todas estas preocupações, os pais vivem uma fase de bastante confronto
intergeracional, que exigem um certo apoio quer dos próprios pais, quer dos filhos.

Em 1984, os psicólogos Catherin Cooper e Harold Grotvant, conceberam uma tarefa com
o objectivo de levar todos os membros da família a expressar os seus próprios pontos de
vista, tentando coordená-los no sentido de chegarem a um consenso. Esta consistia em
analisar uma amostra constituída por jovens de 17 anos, (filho/a mais velho/a de cada
casal) e seus respectivos pais. A cada grupo de três elementos (pais e filho/a) foi pedido
que planeassem duas semanas de férias fictícias, para as quais tinham um fundo
monetário ilimitado, enquanto Cooper e Grotevant gravavam as conversas, para

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posteriormente analisarem de acordo com quatro características relativas ao tipo de


comunicação que os elementos estabeleciam entre si: auto-afirmação – convicção no seu
próprio ponto de vista

1.4 Adolescente versus Sociedade

Vários estudos são feitos a nível da adolescência e tudo (ou quase tudo) que a envolve.
Quando cientistas do domínio a nível social se confrontam com determinadas questões,
numa suposta tentativa de encontras respostas, a sua advertência é conduzida para as
diferenças entre homens e mulheres e também as diferenças entre sociedades e culturas.

O sistema social é extremamente importante para os adolescentes na medida em


que é não só na escola, família ou consigo próprio que o jovem se vai desenvolver a nível
interpessoal mas também vivendo em comunidade e sabendo viver em contacto com o
próximo.

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