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Manuel Fiolhais

Notas das aulas de Física Geral /


Lic. em Bioquímica

Departamento de Física de FCTUC

Coimbra, 2016

1
1.
Introdução à disciplina.

Uma questão que sempre se coloca no desenho de uma unidade curricular é a da


utilidade da informação que vai ser transmitida. E, tão pertinente quanto esta questão,
coloca-se sempre o problema do interesse que os assuntos suscitam nos alunos e a maior
ou menor facilidade com que os podem aprender...
Não se deve, contudo, pensar que tudo o que se aprende numa disciplina
universitária tem de ter, forçosamente, uma aplicação prática imediata! A Universidade
deve dar uma formação de espectro largo e não apenas produzir especialistas em
restritas áreas do saber.
Não há grandes dificuldades em reconhecer a utilidade de uma disciplina como a
física (e a matemática), em geral, e no contexto do ensino de uma ciência, como a
Bioquímica, em particular.
A física procura encontrar as melhores explicações para os fenómenos que têm
lugar no espaço onde existimos. E fá-lo com ambição! Afirma que as leis que regem os
fenómenos naturais são as mesmas aqui ou em qualquer outro lugar do universo. A
jusante dos conceitos e das leis da física estão inúmeras aplicações práticas que nos são
familiares e que trazem conforto à nossa vida.
Há pouco mais de cem anos, ocorreram várias descobertas importantes que
determinaram a evolução não só da Física como também das ciências em geral (e até
das próprias sociedades ao longo de todo o séc. XX). Essa evolução deu-se de uma
forma tão surpreendente quanto profunda. Aquelas descobertas foram várias, mas
destacamos a dos raios X, a da radioatividade e a do eletrão. Seguiu-se o aparecimento
da chamada Física Moderna, fundada em dois pilares: a teoria da relatividade e a
mecânica quântica.
Do desenvolvimento da física ao longo dos séculos XX e XXI resultaram
instrumentos como o microscópio eletrónico, os computadores, os lasers as tecnologias
nucleares e de plasmas, componentes microeletrónicas, os transdutores, os novos
materiais, etc., Todas as áreas da sociedade foram influenciadas e saíram beneficiadas:
transportes e comunicações, medicina, segurança, desporto e lazer, gestão, industria,
comércio, agricultura, serviços, e tantas outras. A Internet, por exemplo, nasceu para o
mundo no Laboratório Europeu de Pesquisa Nuclear (CERN), em Genebra, Suíça, local
onde têm ocorrido algumas das mais espantosas e espetaculares descobertas na área da
Física das Partículas, onde sobressai a recente descoberta do bosão de Higgs.
Mas a utilidade da Física não se esgota nas suas inúmeras aplicações
tecnológicas. A busca de mais e melhor conhecimento sobre os fenómenos naturais é
um desígnio do próprio homem.
No curso de Física Geral para Bioquímica fornecem-se as bases físicas,
sobretudo de física clássica, necessárias à compreensão dos fenómenos que têm lugar
nos processos biológicos e bioquímicos.

2
2.
Breve revisão da cinemática de uma partícula. Os vetores posição, velocidade e
aceleração.

Breve revisão da cinemática de uma partícula

Há muitas situações em que o estudo do movimento de um objeto pode ser


levado a cabo sem que se faça qualquer referência à sua forma e constituição. Quer isto
dizer que, para efeitos do estudo do seu movimento, um corpo pode, muitas vezes, ser
visto e considerado como uma partícula.
Para descrever a trajetória de uma partícula é necessário um referencial. A
posição da partícula é descrita por um vetor, tendo-se, para o movimento a duas
dimensões,

r  x î  y ĵ (2.1)

sendo x e y as componentes do vetor posição segundo os eixos dos xx e dos yy do


referencial.


r

O
x
Figura 2.1

A expressão anterior generaliza-se imediatamente para 3 dimensões:



r  x î  y ĵ  z k̂ . (2.2)

Os versores ou vetores unitários (vetores de módulo um) î, ĵ e k̂ apontam nos sentidos
positivos dos eixos dos xx, yy e zz. A posição de uma partícula fica pois determinada a
  
partir da função vetorial r  r t  : para cada instante t, tem-se um certo vetor r .
Cada uma das componentes do vetor posição tem dimensão de comprimento e,
no Sistema Internacional de Unidades (SI), expressa-se em metros (símbolo m).

Velocidade

Uma partícula descreve a trajetória indicada na Fig. 2.2. Num certo instante t
está no ponto P e num outro instante posterior, digamos t  t está no ponto Q.

Designa-se por r o deslocamento da partícula e define-se velocidade média através de

 r
vm  . (2.3)
t

3
y
P

r Q

r t 

r t  t 

O
x
Figura 2.2


Notar que a velocidade média tem a direção do deslocamento r .
Podemos agora perguntar qual é a velocidade, já não num intervalo de tempo
mas num certo instante, por exemplo, no instante t em que a partícula passa pelo ponto
P? Para isso consideremos um ponto Q mais próximo de P. No limite em que o ponto Q

se considera arbitrariamente próximo de P, o vetor r tende para zero, tal como para
zero vai também tender t . Embora numerador e denominador da expressão da
velocidade média tendam para zero a sua razão não se anula em geral. Definimos
velocidade instantânea ou simplesmente velocidade através de

 r
v  lim (2.4)
t  0  t

ou ainda

 dr
v . (2.5)
dt

Nesta expressão, dr designa um vetor arbitrariamente pequeno (infinitesimal) e
representa o deslocamento da partícula no intervalo de tempo infinitesimal dt. O vetor
velocidade pode-se decompor nas suas componentes cartesianas:


v  v x î  v y ĵ (2.6)
sendo
dx dy
vx  e vy  . (2.7)
dt dt

Do ponto de vista matemático, vx é a derivada da função x(t) em ordem ao tempo. De


resto, em geral, a velocidade é a derivada do vetor posição em ordem ao tempo [ver
(2.5)].

4

v
vy
y 
P
vx

x
Figura 2.3

Como se mostra na Fig. 2.3, o vetor velocidade v é tangente à trajetória no ponto P. O
ângulo  indicado nesta figura é dado por
v
  arctan y (2.8)
vx
e o módulo do vetor velocidade é dado por

v  v x2  v 2y . (2.9)

A velocidade é expressa em metros por segundo (símbolo m/s ou m s–1) no SI.

Aceleração

A velocidade pode variar ao longo do tempo e a grandeza física que exprime



esta variação denomina-se aceleração. Seja v1 a velocidade de uma partícula no ponto P

e no instante t e v 2 a velocidade de uma partícula no ponto Q num instante posterior
t  t .

v1
P
Q

 v2
v1

v

v2

Figura 2.4

  
A variação da velocidade no intervalo de tempo t é dada por v  v2  v1 e a
aceleração média nesse intervalo de tempo é, por definição,

 v
am  . (2.10)
t

Note-se a similitude desta expressão e da expressão da velocidade média (2.3). À


semelhança do que se fez anteriormente, para definir velocidade a partir de velocidade

5
média, também agora se define a aceleração a partir da expressão anterior, tomando o
limite de intervalo de tempo infinitesimal, ou seja t  0 :

 v
a  lim (2.11)
t  0  t

ou ainda

 dv
a . (2.12)
dt

Nesta expressão, dv designa um vetor arbitrariamente pequeno (infinitesimal) e
representa a variação da velocidade da partícula no intervalo de tempo infinitesimal dt.
O vetor aceleração pode-se decompor nas suas componentes cartesianas:

a  a x î  a y ĵ (2.13)
sendo
dv x dv y
ax  e ay  . (2.14)
dt dt

Do ponto de vista matemático, ax é a derivada da função vx(t) em ordem ao


tempo. De resto, em geral, a aceleração é a derivada da velocidade em ordem ao tempo
[ver (2.12)]. A aceleração exprime as variações da velocidade, tanto em grandeza como
em direção. Na Fig. 2.5 representam-se os vetores posição, velocidade e aceleração num
certo ponto P da trajetória de uma partícula.

v
P

 a
r

Figura 2.5

No SI, a aceleração expressa-se em metros por segundo quadrado (símbolo


m/s2).

6
3.
Força. Princípio de inércia. Resultante de um sistema de forças. Lei de ação-reação.
Estática e condição de equilíbrio estático. Segunda Lei de Newton. Exemplo de
aplicação: partícula que se move com aceleração constante. Movimento circular
uniforme. Atrito cinético e estático.

Força. Princípio de inércia

O conceito de força serve para explicar as interações entre corpos e a


consequente existência de movimentos mais ou menos complicados. Galileu foi o
primeiro cientista a estudar em pormenor os movimentos na Terra, para além de os ter
observado no céu. Concluiu que um corpo permanece com velocidade nula se não for
empurrado nem puxado, isto é, se não sofrer forças, ou se as forças nele aplicadas se
compensarem. Se num corpo inicialmente parado for aplicada uma força, este passa a
mover-se e a ter, então, uma certa velocidade. Força tem, portanto, a ver com
velocidade, embora seja diferente de velocidade: uma força permite mudar a velocidade
de um corpo.
Durante muito tempo pensou-se que a causa de qualquer movimento era a
atuação de uma ou mais forças. Foi precisamente Galileu quem primeiro se apercebeu
que não era assim. Mesmo que nenhuma força atue sobre um corpo, este pode estar em
movimento. Nesse caso, mantém constante a sua velocidade (em grandeza, direção e
sentido).
A seguinte experiência permite-nos tirar esta conclusão. Uma pequena bola
desloca-se sobre uma superfície plana com alguns altos e baixos, depois de ter recebido
um impulso inicial. Sabemos que mais tarde ou mais cedo, a esfera acaba por parar por
efeito da força de atrito entre a esfera e a superfície. Se polirmos um pouco a superfície
para diminuir o atrito, a bola também acaba por parar, embora se mantenha mais tempo
em movimento. E se polirmos ainda mais a superfície? Então, mais tempo permanecerá
a bola em movimento! Concluímos, como Galileu, que, se não houvesse atrito, a bola
permaneceria sempre em movimento, mantendo constante a sua velocidade.

v

 
v v

Figura 2.6

7
As observações e reflexões de Galileu levaram-no a estabelecer o seguinte
Princípio de Inércia (ou Primeira Lei da Dinâmica):

Se for nula a força sobre um corpo, este permanecerá com o mesmo estado de
movimento ou de repouso, ou seja, manterá a sua velocidade.

Se sobre um corpo atuarem várias forças (como é o caso da bola da Fig. 2.6) mas se a
sua resultante for nula então o corpo manterá a sua velocidade. Veremos de seguida
como se obtém a resultante de um sistema de forças.

Resultante de um sistema de forças

Quando várias forças atuam numa partícula, o seu efeito pode ser substituído
pelo efeito de uma única força equivalente. É a essa força, que vale por todas, que se
chama resultante das forças.
A força é uma grandeza vetorial e portanto, representa-se por um vetor. A
determinação da resultante de duas forças quando estas não têm a mesma direção faz-se
aplicando a chamada regra do paralelogramo esquematizada na Fig. 3.1 e que se
generaliza para um número arbitrário de forças aplicadas a um corpo.


F1

F1
P   
F  F1  F2

F2

F2
Figura 3.1

A resultante é, afinal, obtida a partir da soma vetorial de todas as forças aplicadas.


Quando são várias as forças a atuar num corpo verifica-se que estas mantêm a
 
sua independência. No caso da Fig. 3.1, digamos que a aplicação de F1 não altera F2 ,
 
nem a aplicação de F2 se vai refletir em F1 . Cada uma das forças é independente da
outra ou das outras se forem mais de duas as forças aplicadas no corpo.
Veremos mais à frente que da aplicação de uma força resulta uma aceleração. A
   
força F1 produz uma aceleração a1 e a outra força F2 uma aceleração independente a 2
. A soma das forças produz uma aceleração que é a soma vetorial das acelerações
independentes. Por vezes esta independência das forças, que se generaliza a um número
arbitrário de forças aplicadas a um corpo, é mesmo elevada à dignidade de Princípio da
Dinâmica.
No SI a unidade de força é o newton (símbolo N).

8
Lei de ação-reação

Como se disse antes, uma força resulta sempre de uma interação mútua entre
dois corpos. E sempre que um corpo exerce uma força sobre outro, o segundo exerce
sobre o primeiro uma força de igual intensidade, com a mesma direção mas sentido

oposto. Se uma partícula A exerce uma força F1 sobre uma partícula B, esta exerce
sobre A uma força
 
F2   F1 . (3.1)

Convém enfatizar que a força que A exerce sobre B está aplicada em B (e não em A!).
E, do mesmo modo, a força que B exerce sobre A está aplicada em A.
 
F2 F1

A B
Figura 3.2

Diz-se que as duas forças formam um par ação-reação. Se a uma das força chamarmos
ação, a outra será chamada reação. Na Fig. 3.2 as duas forças têm a mesma linha de
ação mas tal nem sempre acontece (tal como pode suceder com forças magnéticas).
Na Fig. 3.3(a) representa-se um objeto sobre um suporte, por exemplo, uma
mesa.

N


P 
N'
(a) (b) (c)

P'
centro da
Terra

Figura 3.3

Quais as forças que estão aplicadas sobre o objeto? Como identificar os pares ação-
reação?
Na Fig. 3.3(b) representam-se as forças aplicadas no objeto. Temos, por um

lado, o peso ou força gravítica, P , que é a força atrativa que a Terra exerce sobre o

objeto. Por outro lado, o suporte onde o objeto se apoia exerce uma força N designada
por reação normal. A soma ou resultante das duas forças aplicadas ao objeto é uma
força nula, mas as duas forças não são um par ação-reação! Recorda-se que as forças de
um par ação-reação têm de estar aplicadas em objetos distintos. Qual é afinal o “par” da
 
força P . E o “par” da força N ? Se o peso for a ação, a reação está aplicada no centro
da Terra e é igual e de sentido oposto ao peso do corpo. Trata-se da força com que o

9
objeto atrai a Terra [por isso está aplicada no centro da Terra, ver Fig. 3.3 (c)], tendo-se,
  
evidentemente, P   P ' . O par da força N está aplicada no suporte e é a força que
 
sobre ele o corpo exerce. Tem-se, obviamente, N   N ' .

Estática e condição de equilíbrio estático

Vimos já que, quando não há forças aplicadas a um corpo ou quando a resultante


das forças aplicadas é nula – como a bola na parte de baixo da Fig. 2.6, que, como não
há atrito, está apenas sujeita ao seu peso e à reação normal que se anulam mutuamente -,
a velocidade do corpo se mantém. Se inicialmente a velocidade for nula num certo
referencial, então o corpo permanecerá em repouso nesse referencial se as forças
aplicadas tiverem resultante nula. Podemos pois dizer que a condição de equilíbrio
estático é
 N  
R   Fi  0 (3.2)
i 1
 
sendo Fi cada uma das N forças aplicadas e R a sua resultante.
Na Fig. 3.4 o corpo permanecerá em repouso se inicialmente estiver em repouso,
pois a resultante das duas forças aplicadas é zero.

Figura 3.4

De uma maneira geral, um objeto pode ter movimento de translação e de


rotação. A condição de equilíbrio (3.2) apenas se refere a translações. Na verdade, pode
a condição anterior ser verificada e, contudo, o corpo não permanecer imóvel por
aplicação de duas forças iguais em grandeza, com a mesma direção mas sentidos
opostos. O corpo representado na Fig. 3.5, inicialmente em repouso, tenderá a rodar já
que as duas forças não têm a mesma linha de ação.

Figura 3.5
A Eq. (3.2) não é, pois, a única condição de equilíbrio. Ela é uma condição
necessária para que se tenha equilíbrio estático mas não é condição suficiente. Há uma
outra condição, que diz respeito ao equilíbrio quanto a rotações. No caso da Fig. 3.5,
dizemos que as forças têm momento não nulo. Já no caso da Fig. 3.4 o momento das
forças é nulo.

10
Lei Fundamental da dinâmica

Tomemos um corpo (que se possa considerar equivalente a uma partícula),


inicialmente em repouso num certo referencial, ao qual se aplica uma força constante.
(Sendo a força um vetor, força constante significa que esta mantém não só a sua
grandeza, mas também a sua direção e sentido.) Verifica-se experimentalmente que
uma força constante aplicada à partícula produz nela uma aceleração constante. E se a
intensidade da força passar para o dobro? Ou para metade? Nestes casos, é igualmente
um facto experimental que também a intensidade da aceleração passa para o dobro ou
para metade, respetivamente. Se a força for nula a aceleração será nula e estas
observações permitem concluir que aceleração e força são diretamente proporcionais.
Consideremos agora que duas forças iguais, de grandeza F, são aplicadas a
corpos de massas diferentes, m1 e m2. Como consequência da aplicação das forças
verifica-se experimentalmente que a razão dos módulos das acelerações adquiridas
pelos corpos é igual ao inverso da razão das massas:

a1 m2
 . (3.3)
a 2 m1

Os resultados das observações experimentais que temos vindo a descrever,


envolvendo várias forças aplicadas a um mesmo corpo ou uma mesma força aplicada a
diversos corpos permitiram concluir que força e aceleração se relacionam de acordo
com a equação
 
F  ma . (3.4)

Esta é uma equação vetorial conhecida por Segunda Lei de Newton. Os vetores força e
aceleração são proporcionais, sendo a massa a constante de proporcionalidade. Massa é
uma grandeza de base do SI e expressa-se em quilogramas (símbolo kg).
A segunda lei de Newton que se exprime pela Eq. (3.4) contém a Primeira Lei.
   
Na verdade, quando se tem F  0 , também a  0 pela Segunda Lei e consequentemente
 
a velocidade é constante: v  C . Por outras palavras, se a resultante das forças que
atuam numa partícula for nula, a velocidade da partícula será constante. Ora, esta
conclusão mais não é do que a Primeira Lei ou Princípio de Inércia de Galileu.
Também o princípio de independência das forças antes mencionado está contido
  
em (3.4). Sejam a1 , a2 , a3 ,  as acelerações independentes produzidas por cada uma das
  
forças F1 , F2 , F3 ,  A resultante das forças produz uma aceleração que é a soma vetorial
das acelerações:
       
F  F1  F2  F3    m a1  a 2  a 3     m a (3.5)

   
com a  a1  a2  a3   a soma vetorial de todas as acelerações produzidas
independentemente por cada uma das forças.

11
Exemplo de aplicação: partícula com aceleração constante

Consideremos uma partícula que se move ao longo de uma trajetória retilínea,



que podemos considerar como o eixo dos xx, sujeita a uma força constante F  Fî .
Como o movimento é a uma só dimensão segundo uma direção conhecida, podemos
dispensar a notação vetorial e representar a força simplesmente pelo ser valor F, o qual

é positivo se F apontar no sentido positivo de x e negativo se apontar no sentido
contrário. De acordo com a Eq. (3.4) em resultado da aplicação desta força a uma
partícula de massa constante m 1 esta adquire uma aceleração também constante que
designamos por a ( a  0 se F  0 ). O movimento resultante diz-se uniformemente
variado, podendo ser uniformemente acelerado se velocidade e aceleração tiverem o
mesmo sentido ou uniformemente retardado se aqueles dois vetores tiverem sentidos
opostos. Quando a aceleração é constante a velocidade é uma função linear do tempo:

v  a t  v0 , (3.6)

onde v0 é uma constante. Note-se que se derivarmos a velocidade em ordem ao tempo


encontramos a aceleração [ver Eq. (2.12)]. A velocidade obtém-se pois por primitivação
(operação inversa da derivação) ou, o que é sinónimo, por integração. A “constante de
integração” v0 tem um claro significado físico: trata-se do valor da velocidade no
instante inicial ( t  0) . Insistimos que não são necessários vetores para representar
aceleração, velocidade e posição quando o movimento é a uma dimensão. E, nesse caso,
por exemplo se v0 > 0, tal significa que a velocidade inicial é ao longo do eixo dos xx no
seu sentido positivo.
A posição da partícula sobre a trajetória retilínea é obtida por primitivação da
velocidade, já que a velocidade é a derivada do vetor posição em ordem ao tempo. Qual
é a função que derivada em ordem ao tempo conduz à expressão (3.5)? Essa função é
1
x  a t 2  v0 t  x0 (3.7)
2

onde x0 é uma nova constante de integração cujo significado físico é claro: trata-se da
posição da partícula no instante t  0 .

Movimento circular uniforme

O movimento de uma partícula sobre uma trajetória circular de raio r com


velocidade de módulo constante v designa-se por movimento circular uniforme.
v2
Nesse movimento só há aceleração centrípeta, a c  . De acordo com a Lei
r
fundamental da Dinâmica a força responsável pelo movimento circular uniforme é
Fc  m ac , ou seja
v2
Fc  m  mr  2 , (3.8)
r

1
Se o sistema que se considera uma partícula tiver massa variável, as considerações seguintes já se não
aplicam, ou seja, uma força constante já não produz uma aceleração constante.

12
v
tendo-se introduzido a velocidade angular (ou frequência angular)   .
r
No movimento circular uniforme tanto r como  são constantes pelo que a força
centrípeta mantém constante a sua grandeza.
O tempo que a partícula demora a descrever uma volta completa designa-se por
período e representa-se por T. Esta quantidade relaciona-se com a frequência angular
através de
2
T  . (3.9)

O inverso do período é a frequência, f, que é o número de ciclos que a partícula
descreve num segundo:
1 
f   . (3.10)
T 2

A unidade de frequência no SI é o hertz, cujo símbolo é Hz (Hz é o mesmo que s–1).

Atrito cinético e estático

Quando um corpo se move sobre uma superfície (apenas estamos a considerar


movimento de translação) a força de atrito cinético que atua sobre o corpo tem direção
oposta à da velocidade do corpo. A intensidade dessa força de atrito depende da
natureza dos materiais em contacto, como se disse já. A experiência mostra que, para
dois materiais sólidos em contacto, a força de atrito cinético é proporcional à força
normal entre duas superfícies, ou seja, é proporcional à força normal que um objeto

exerce sobre o outro. Representando a força normal por N , a força de atrito cinético
relaciona-se com a força de contacto normal através de
 
f c  c N , (3.11)

onde c − o coeficiente de atrito cinético  depende dos materiais em contacto. Note-se


que a expressão anterior, que traduz uma lei empírica, é uma relação entre grandezas de
vetores e não entre os próprios vetores já que estes são perpendiculares entre si. Na Fig.
3.6 (a) representa-se uma caixa assente sobre uma superfície horizontal, à qual se

aplicou uma força F que a obriga a deslocar-se para a direita. As outras forças
 
aplicadas são o peso, P , a força normal, N , que a superfície horizontal exerce sobre a

caixa e que contraria o peso, e a força de atrito cinético f c que é horizontal (portanto,

perpendicular a N ) e que aponta no sentido oposto ao da velocidade.
 
 v N 
v
N
 
 fc F
 F
fc

 
P (a)
P
(b)

Figura 3.6

13
Representações de forças como a da Fig. 3.6 (a) têm de ser vistas como esquemáticas:
note-se que o conjunto de forças aplicadas obrigaria a caixa a rodar. Por isso, e
sabendo-se que apenas existe movimento de translação, há toda a vantagem em
representar o corpo por um ponto onde todas as forças estão aplicadas, como na Fig. 3.6
(b).
No caso de superfícies sólidas secas em contacto, o coeficiente de atrito cinético
c é praticamente independente da velocidade do movimento relativo. Mas, em geral,
as forças de atrito dependem da velocidade.
Analisemos agora o atrito estático que se gera entre superfícies que estão
imóveis uma em relação à outra, mas sujeitas a forças que solicitam o seu movimento

relativo. Suponhamos que se aplica uma força F a um livro assente sobre uma mesa
mas com intensidade tal que este não se desloca em virtude do aparecimento de uma
 
força de atrito estático, f e , igual a F mas com sentido oposto. Se a força diretamente
aplicada aumentar e o corpo continuar sem se deslocar, é porque a força de atrito

também aumentou. Mas, continuando a aumentar a intensidade de F , a certa altura o
livro começa a mover-se sobre a superfície, como sabemos. A força de atrito estático já
não pôde crescer mais do que um certo valor e portanto já não pôde acompanhar o

crescimento de F . Dizemos que a força de atrito estático atingiu o seu máximo valor
possível o qual depende, por um lado, da natureza dos materiais em contacto e, por
outro lado, da força de reação normal sobre o objeto. Usando uma linguagem simbólica
 
podemos escrever f e,máx.  e N , onde e é o coeficiente de atrito estático. Como a
força de atrito estático pode variar entre zero e um valor máximo, então
 
f e  e N . (5.2)

O coeficiente de atrito estático é, em geral, superior ao coeficiente de atrito cinético. Já


todos devem ter reparado que é mais fácil manter um móvel em movimento sobre o
chão do que pô-lo em movimento. Na tabela seguinte apresentam-se alguns valores para
coeficientes de atrito.

Materiais e c
madeira/madeira 0,4 0,2
gelo/gelo 0,1 0,03
metal/metal (c/ lubrif.) 0,15 0,07
aço/aço (s/ lubrif.) 0,7 0,6
borracha/cimento seco 1,0 0,8
articulações nos membros 0,01 0,01
humanos

Tabela 3.1

14
4.
Energia cinética de uma partícula. Conceito físico de trabalho. Trabalho de forças
constantes. Trabalho da força gravítica.

Em geral, chamamos trabalho a qualquer atividade de natureza muscular ou


intelectual que exija esforço. Transportar sacos de batatas é trabalhar. Estudar é também
trabalhar!
Em Física, a palavra "trabalho" utiliza-se com um significado próprio, embora
relacionado com o sentido comum da palavra. Trabalho é uma forma de transferir
energia. Para realizar trabalho é necessário que uma força desloque o seu ponto de
aplicação. O trabalho está sempre associado a uma força e por isso se diz muitas vezes
“trabalho de uma força”. Vamos introduzir o tema trabalho mas antes, porém vamos
recordar um outro conceito  o de energia cinética  já conhecido dos ensinos básico e
secundário.

Energia cinética de uma partícula

Tomemos um objeto que possa ser considerado uma partícula. Uma bola, por
exemplo, cuja estrutura não interessa quando estudamos o seu movimento de translação
(Fig. 4.1).

Figura 4.1

A partícula possui energia pelo simples facto de estar em movimento. Esse tipo de
energia é designado por energia cinética. Todos os corpos em movimento possuem
energia cinética. Recorda-se que a energia cinética já apareceu no ensino básico.
Se designarmos a massa da partícula por m e o valor da sua velocidade por v, a
energia cinética é metade do produto da massa pelo quadrado da velocidade:

1
Ec  mv 2 . (4.1)
2

Por vezes, na linguagem do dia a dia usam-se os termos “energia” e “velocidade” com o
mesmo significado. A expressão (4.1) mostra bem como isso é errado! As duas
grandezas estão relacionadas mas não se devem confundir.

15
No SI a unidade de energia (cinética ou de outro qualquer tipo) é o joule
(símbolo J).

Conceito físico de trabalho

Vejamos a experiência seguinte. Um carrinho está num plano horizontal preso a um fio,
que passa por uma roldana ligada a um pequeno motor elétrico. Quando se liga o motor,
o fio começa a enrolar e o carrinho desloca-se sob a ação da força horizontal constante

F que o puxa (supomos que não há atrito entre o carrinho e a mesa)  ver Fig. 4.2.
Claro que, além desta força, há outras duas forças: o peso e a reação normal da mesa
sobre o carrinho. Mas estas duas forças equilibram-se, como na Fig. 3.3 (b), e não as
representamos.


F

motor
eléctrico
Figura 4.2

Sob a ação da força constante F o carrinho adquire um movimento com
aceleração constante, ou seja, um movimento uniformemente acelerado. À medida que o
carrinho se desloca sobre a mesa, o módulo da sua velocidade, v, vai aumentando. E se a
velocidade aumenta, também a energia cinética aumenta, como é evidente da Eq. (4.1).
Fisicamente, o aumento da energia do carrinho significa que está a ocorrer para
ele uma transferência de energia. Essa transferência de energia será tanto maior quanto
maior for a força. Por outro lado, tal transferência será tanto maior quanto maior for a
distância percorrida. A transferência de energia que está a ocorrer mais não é do que o
trabalho realizado pela força, o qual depende então dos seguintes dois fatores:
- intensidade da força
- deslocamento do seu ponto de aplicação.

Trabalho de forças constantes

Na situação da Fig. 4.2 a força é constante e o deslocamento tem a mesma


direção e sentido da força. Nestas condições define-se trabalho, que se representa por W,
da seguinte maneira:

W  F d (4.2)

O trabalho tem a dimensão da energia e portanto, no SI é expresso em joules.


A força com a direção e o sentido do movimento promove a transferência de
energia para o sistema. E se a força atuar em sentido contrário?
Vejamos o seguinte exemplo. O carrinho da Fig. 4. vai animado de uma certa
velocidade (para a direita), quando sobre ele passa a atuar uma força constante mas de
sentido oposto à velocidade (para a esquerda, portanto). O carrinho continua a

16
deslocar-se para a direita, mas vai diminuindo a sua velocidade e acabará por parar. O
efeito da força é, neste caso, diminuir a velocidade do carrinho, ou seja, diminuir a sua
energia cinética. A força também realizou trabalho mas agora esse trabalho teve por
consequência transferir energia para fora do sistema.

Figura 4.2

O trabalho realizado por uma força constante com a mesma direção do


deslocamento mas sentido oposto a este é dado por

W  F  d . (4.3)

Vimos dois casos especiais de realização de trabalho. Há uma outra situação que
importa considerar, que é a que ocorre quando a força é perpendicular ao deslocamento.
Ora, uma força com essa característica não faz aumentar nem diminuir a velocidade da
partícula, ou seja, não faz variar a sua energia cinética e, portanto, o trabalho realizado é
nulo: W  0 (se força e deslocamento forem perpendiculares). Um exemplo que pode
ser dado é o do movimento circular uniforme. A partícula descreve uma trajetória
circular com velocidade linear constante. A força que sobre ela atua (força centrípeta) é
uma força, de grandeza constante, que aponta para o centro da trajetória. Como a força é
sempre perpendicular ao deslocamento 2 o trabalho realizado pela força é nulo
(Fig. 4.3).


F

Figura 4.3

Qual é o trabalho realizado quando a força  que continuamos a considerar


constante  desloca o seu ponto de aplicação segundo uma direção que não é a da
própria força? Ora, podemos sempre imaginar a força decomposta em dois vetores: um
que tem a direção do deslocamento e outra perpendicular. Acabámos de ver que a
componente da força na direção perpendicular não realiza trabalho. O contrário se passa
2
Devemos considerar deslocamentos infinitesimais para que se possam considerar segmentos de reta.

17
com a componente na direção do deslocamento. Essa componente é dada por F cos  ,
sendo  o ângulo que trajetória e força formam entre si (ver Fig. 4.4). O trabalho
realizado é, então, o produto de F cos  pelo deslocamento.


 F

Figura 4.4

Considere-se uma partícula que se desloca de A para B sujeita, entre outras, à força F .
O trabalho realizado ao longo da trajetória por essa força é

W  F d cos  . (4.4)

Repare-se que esta expressão, mais geral do que as anteriores, contém os casos já
estudados: se força e deslocamento têm a mesma direção e sentido,   0 e a Eq. (4.4)
reduz-se à Eq. (4.2); se têm a mesma direção mas sentidos opostos,    e obtém-se a
Eq. (4.3); finalmente, se a força e o deslocamento forem perpendiculares,    / 2 e,
portanto, cos   0 , pelo que o trabalho é nulo.

Trabalho da força gravítica

Numa região limitada da superfície da Terra, o peso pode ser considerado


constante (porque a aceleração da gravidade, g, pode ser considerada constante). O peso
ou força gravítica é o produto da massa do corpo pela aceleração da gravidade no local,
e aponta “para baixo” (ver Fig. 4.5). Qual o trabalho do peso quando desloca o seu
ponto de aplicação? Analisemos três situações particularmente simples quando: a) o
corpo é deslocado, na vertical, do ponto A para B; b) o corpo é sobe, na vertical, de B
para A; o corpo é deslocado de A para C, sendo o deslocamento horizontal.

18
y
A A A C

  P
P P
h

B B

(a) (b) (c)

Figura 4.5

Em cada uma das situações referidas o trabalho é, por aplicação da expressão (4.4),

W(a )  mgh (força e deslocamen to no mesmo sentido) (4.5)

W(b)  mgh (força e deslocamen to em sentidos opostos) (4.6)

W(c )  0 (força e deslocamen to em direcções perpendicu lares) (4.7)

19
5.
Trabalho de forças variáveis. Produto escalar de dois vetores. Definição geral de
trabalho. Teorema da energia cinética (ou energia-trabalho)

Trabalho de forças variáveis

Em todas as situações antes estudadas, a força era constante. E se o não for? E se


a força depender da posição ocupada pela partícula? Vamos estudar situações mais
gerais, considerando o movimento a uma dimensão (por ser mais simples)  segundo a

direção do eixo dos xx, por exemplo  e uma força da forma F  F x  î .

x xi
a xi xi+1 b

Figura 5.1

Uma partícula desloca-se de a para b sujeita à força F(x) e pretendemos saber o


trabalho desta força. O trajeto de a para b pode ser subdividido em trajetos pequenos, de
tamanho não necessariamente igual, de comprimento genérico xi (distância entre os
pontos xi e xi 1 ). Na Fig. 5.1 representa-se esta subdivisão. Ora, se o intervalo xi for
muito pequeno, a força pode considerar-se constante dentro dele, o que permite admitir
que tem, em todo o intervalo, o valor que tem efetivamente no ponto xi e que é F xi  .
No quadro desta suposição, que é tanto mais correta quanto menor for o intervalo xi , o
trabalho feito no percurso elementar é o produto da força pela distância percorrida, ou
seja

Wi  F xi  xi . (5.1)

O mesmo se pode aplicar a cada um dos N pequenos intervalos em que o intervalo de a


a b foi dividido. O trabalho total no percurso é obtido somando todos os N termos do
tipo (5.1):

N N
W   Wi   F ( xi ) xi . (5.2)
i 1 i 1

A Fig. 5.2 mostra a dependência da força com a posição. Cada uma das parcelas
da soma em (5.2.) é a área de um retângulo de base muito estreita, xi . Se fizermos
tender N para infinito (os comprimentos dos intervalos serão, então, infinitesimais) o
trabalho é a “área” por baixo da curva que representa a função F ( x ) (área sombreada
na Fig. 5.3.

20
F

xi xi+1
a b x

Figura 5.2

a b x

Figura 5.3

Neste limite de comprimento infinitesimal dos intervalos, ou seja, quando N   , o


somatório na expressão (5.2) passa a representar-se por uma letra S (inicial de “soma”)
muito alongada:

b
Wab   F ( x ) dx (5.3)
a

Tecnicamente, o lado direito desta expressão calcula-se a partir da primitiva de


F x  . Se designarmos esta primitiva por G ( x ) o “integral” (5.3) é obtido a partir de

Wab  G(b)  G(a). (5.4)

Por outras palavras: temos de obter primeiro a primitiva da função integranda F ( x ) e


tomar depois a diferença dessa primitiva nos pontos extremos b e a. Por se tomar a
diferença de duas primitivas torna-se irrelevante a consideração de qualquer constante
de integração.

21
Considere-se o seguinte exemplo simples. Qual o trabalho realizado por uma
força constante de intensidade F0 quando desloca o seu ponto de aplicação de a para b?
Tem-se
b b
Wab   F0 dx  F0  dx  F0 b  a  . (5.5)
a a

O trabalho é o produto da força pelo deslocamento.

Produto escalar de dois vetores


 
Dados dois vetores A e B , o seu produto escalar é um número que resulta do
produto das grandezas desses vetores a multiplicar ainda pelo co-seno do ângulo que
eles formam entre si (Fig. 5.4).


A



B

Figura 5.4

 
Designa-se o produto escalar de dois vetores por A  B e, portanto,
   
A  B  A B cos (5.6)

O produto escalar de dois vetores goza da propriedade distributiva em relação à adição:

 
      
A B  C  A B  AC . (5.7)

Se os dois vetores tiverem a mesma direção e sentido, o seu produto escalar é


simplesmente o produto das suas normas. Se os vetores forem perpendiculares o seu
produto escalar é nulo.
Se os vetores forem expressos através das suas componentes cartesianas,

A  Ax î  Ay ĵ  Az k̂
 (5.8)
B  B x î  B y ĵ  B z k̂

então tem-se

22
 
A  B  Ax Bx  Ay B y  Az Bz (5.9)

pois î  î  ĵ  ĵ  k̂  k̂  1 , e î  ĵ  î  k̂  ĵ  k̂  0 .

Definição geral de trabalho

O conceito de produto escalar permite-nos exprimir trabalho de uma força


qualquer, que desloque o seu ponto de aplicação ao longo de uma linha qualquer de uma
maneira simples. A Fig. 5.5 mostra o deslocamento do ponto de aplicação da força

(variável) F ao longo de um percurso arbitrário.

 
A F F

F 
dr

Figura 5.5

Podemos sempre imaginar o caminho de A para B subdividido em pequenos intervalos


que se possam considerar retilíneos e escrever, para o trabalho elementar,
 
W  F  d r  F dr cos   (5.10)
 
(  é o ângulo entre a força F e o vetor deslocamento infinitesimal d r , em cada ponto
do percurso). O trabalho total é então
 
W  F dr .
AB
(5.11)

Teorema da energia cinética (ou teorema trabalho-energia)

No estudo da dinâmica de um objeto é por vezes mais útil tecer considerações


relativas a aspectos energéticos do sistema em detrimento de aspectos cinemáticos ou
suas relações com as forças envolvidas. Neste quadro, goza de particular importância o
chamado teorema da energia cinética (ou energia-trabalho) pela ligação que permite
fazer entre a variação da energia cinética de uma partícula e o trabalho realizado pela
resultante das forças que atuam sobre a partícula.
Vamos obter o resultado contido neste importante teorema da Mecânica, não de
uma maneira completamente geral mas considerando algumas situações particulares. E
começamos com o caso de uma força constante de grandeza F que atua sobre uma
partícula de massa m. Supomos que essa é a única força que atua na partícula que se
desloca a uma dimensão (direção x, que é a mesma da força). Como a aceleração, que é

23
constante, se escreve a  F / m (Segunda Lei), a velocidade da partícula num qualquer
instante t é dada por

F
v t  v0 , (5.12)
m

sendo v 0 a velocidade no instante inicial. Por primitivação de (5.12) obtém-se a


seguinte expressão para a posição da partícula em função do tempo:

F 2
x t  v0 t , (5.13)
2m

estando a admitir-se que x  0 para t  0 . Da expressão (5.12) obtém-se

v  v0
t m (5.14)
F

que, inserida em (5.13), nos permite escrever:

2
F m
  v  v0   v0 v  v0 
m
x
2

2m  F  F

 12 v 2  12 v02  v0 v  v0 v  v02 


m
(5.15)
F

1m 2
2F
v  v02  .

O trabalho, que é W  F  x , vem então dado por

1 2 1 2
W  mv  mv 0  Ecfinal  Ecinicial, (5.16)
2 2

onde Ec é a energia cinética da partícula [ver Eq. (4.1)].


O importante resultado a que chegámos é geral, ou seja, válido para qualquer
tipo de força e qualquer trajetória. A demonstração para a situação geral, não sendo
difícil, requer um conhecimento de cálculo integral em várias dimensões e não vai ser
feita. Mas para uma força qualquer (não necessariamente constante) a 1 só dimensão
pode chegar-se ao resultado anterior. Qualquer que seja a força, podemos sempre
escrevê-la como (produto da massa pela aceleração a = dv/dt)
dv
F m (5.17)
dt

e o trabalho entre os pontos a e b, que é

24
b
dv
W  m dx (5.18)
a
dt

vem então, sucessivamente,

b
 v2
 
b b
dx 1
W  m  dv  m  dv v  m   m vb2  v a2
a
dt a  2 a
2 (5.19)
 E cfinal  E cinicial

Obtivemos o resultado anterior, conhecido por teorema da energia cinética e que se


pode assim enunciar: o trabalho realizado entre dois pontos pela resultante das forças
aplicadas a uma partícula é igual à variação da energia cinética entre esses dois pontos.
Vejamos uma aplicação do teorema. Um corpo é arremessado de baixo para
cima com velocidade v0. Que altura máxima atingirá? O peso é a única força aplicada e
o seu trabalho é dado pela expressão (4.6), ou seja, W   mgh , sendo h a altura
máxima. Aplicando o teorema da energia cinética obtém-se

1 2 1 2
mv final  mv inicial   mgh . (5.20)
2 2

Como vfinal = 0 e vinicial = v0, conclui-se que

v2
h . (5.21)
2g

25
6.
Forças conservativas. Energia potencial.

Forças conservativas

De acordo com o importante Teorema da Energia Cinética, a energia cinética de


uma partícula pode diminuir ou aumentar se a resultante das forças que sobre ela atuam
realizar trabalho. Se uma partícula estiver num dado ponto com uma certa energia
cinética, poderá transferir energia para o exterior, ou receber energia do exterior,
bastando para tal que a resultante das forças realize trabalho. Se esse trabalho for
negativo, a partícula diminui a sua energia cinética; se for positivo, aumenta a sua
energia cinética.

Um corpo é atirado ao ar com uma certa velocidade inicial. Depois de atingir a


altura máxima, volta a passar pelo ponto de partida com uma velocidade de módulo
igual mas sentido contrário à velocidade inicial. (Este resultado pode ser obtido com
base em considerações cinemáticas.) Como a energia cinética só depende da velocidade,
a partícula tem, quando passa pelo ponto no sentido descendente, a mesma energia
cinética que tinha nesse mesmo ponto, ao subir. Mesmo depois de ter percorrido uma
certo espaço, a partícula volta a passar pelo ponto inicial com a mesma energia cinética
que tinha inicialmente, embora esteja noutras condições cinemáticas: a velocidade era
para cima e passou a ser para baixo. Tendo a mesma energia cinética antes e depois, a
partícula “conservou” a capacidade que tinha de fornecer energia ao exterior.
Por outro lado, de acordo com o teorema da energia cinética o trabalho da
resultante das forças foi nulo, pois a variação da energia cinética foi nula. Ora, a única
força que atuou na partícula foi o peso. Podemos, portanto, concluir que, na trajetória
combinada de subida e de descida, o trabalho do peso foi nulo. De resto, já sabíamos
que assim era: as equações (4.5) e (4.6) mostram que os valores dos trabalhos do peso
na subida e na descida são simétricos.
Sempre que uma força só dependa (em grandeza, direção e sentido) da posição,
  
ou seja, sempre que F  F r  o trabalho realizado ao longo de um percurso qualquer
AB é o simétrico do realizado ao longo do mesmo percurso mas em sentido contrário,
quer dizer, de B para A:

WAB  WBA . (6.1)

Para se chegar a este resultado basta pensar que a força em cada ponto é sempre a
mesma mas que cada deslocamento infinitesimal tem um sentido quando o percurso é
 
de A para B e o sentido contrário quando o percurso é de B para A: d r  d r (ver
Fig. 6.1).

26
B B
 
F F


dr   
F dr F
A A

Figura 6.1

Uma força, tal como o peso, que realize trabalho nulo ao longo de um trajeto
fechado qualquer, que parte de um ponto e que termine no mesmo ponto, diz-se força
conservativa. Mas a trajetória de ida e de volta nem tem de ser a mesma. De facto, uma
primeira definição de força conservativa pode ser dada do seguinte modo: uma força
diz-se conservativa se o seu trabalho ao longo de um qualquer percurso fechado for
nulo. A Fig. 6.2 mostra um percurso qualquer (a curva fechada c) e o trabalho de uma

força conservativa F que atue na partícula desde o ponto A até ao ponto A ao longo da
curva c é, então, nulo. Esta definição tem tradução em linguagem matemática,
escrevendo-se
 
Wpercurso fechado c   F  dr  0 (6.2)
c

A c

Figura 6.2
O símbolo  significa integração sobre uma linha fechada e o ponto A é um qualquer
ponto sobre a curva.
No percurso fechado c marquemos um ponto intermédio qualquer, B, para além
do ponto A (Fig. 6.3).

Figura 6.3

O trabalho WABA é nulo, como sabemos. Por outro lado, o trabalho ao longo do ciclo é a
soma de duas contribuições: o trabalho de A até B mais o trabalho de B até A, pelo que

27
WABA  WAB  WBA  0 . (6.3)

A Fig. 6.4 mostra os dois percursos, I e II, correspondentes a cada um destes termos.
Usando agora o resultado (6.1) (ver também Fig. 6.1), ou seja, considerando o percurso
II percorrido em sentido contrário, obtém-se
I

B
A

B
II

Figura 6.4

WAB(I) WAB(II)  0 (6.4)


e, finalmente,
WAB(I)  WAB(II) . (6.5)

Este importante resultado traduz uma formulação alternativa à definição anterior de


força conservativa. Logo, podemos então afirmar que uma força é conservativa quando
o trabalho por ela realizado entre dois pontos só depende da localização desses mesmos
pontos e não do caminho que os liga. Para qualquer dos trajetos indicados na Fig. 6.5, o
trabalho realizado por uma força conservativa é sempre o mesmo.

Figura 6.5

A definição que acabámos de dar para força conservativa não é uma nova
definição. É totalmente equivalente à anterior. É de resto, um exercício simples e
particularmente útil, que se deixa para o leitor, mostrar que a partir de (6.5) se chega à
expressão (6.2).

Energia potencial

Voltemos ao exemplo inicial de um grave que sobe e depois desce. À medida


que o corpo sobe, vai perdendo energia cinética (o trabalho do peso é negativo). Mas
será que a energia se “perde”? Todos sabemos que não! A energia conserva-se e esta é
até uma lei geral da Física. O corpo possui um outro tipo de energia designada por
energia potencial. A soma da energia cinética e potencial mantém-se constante ao longo

28
do movimento. Veremos, mais à frente, qual é, em concreto, esta energia, mas antes
vamos definir, de forma completamente geral, energia potencial.
É precisamente a independência do trabalho realizado por forças conservativas
em relação aos caminhos escolhidos que permite definir uma função que só depende da
posição e que se designa energia potencial. Num sentido estrito, fala-se em energia
potencial relativamente a forças conservativas 3. Por definição a variação da função
energia potencial entre dois pontos é igual ao simétrico do trabalho realizado entre esses
dois pontos:
   
E pB (r )  E pA (r0 )  WAB    F  d r , (6.6)
AB


onde A é o ponto localizado pelo vetor posicional r0 e B o ponto localizado pelo vetor

posicional r (Fig. 6.6).

Figura 6.6

Insistimos que não é necessário fixar o trajeto que leva de A até B, pois o integral em

(6.6) é independente desse caminho desde que F seja uma força conservativa.
Seguidamente, combinamos o teorema da energia cinética com a expressão
(6.6). O trabalho que aparece nessa expressão também é dado pela variação da energia
cinética entre os pontos A e B:

  1 1
 F  d r  2 mv  mv 02  EcB  EcA ,
2
(6.7)
AB
2

sendo v a velocidade no ponto B e v0 a velocidade no ponto A. Inserindo ente resultado


em (6.6), somos levados a concluir que

E pB  E pA   E cB  E cA  (6.8)
donde
E cB  E pB  E cA  E pA . (6.9)

Este importante resultado que acabámos de obter, mostra que a soma das energias
cinética e potencial de uma partícula é a mesma nos pontos A e B que são quaisquer, e,
portanto, aquela soma será sempre a mesma em qualquer outro ponto da trajetória. A
soma das energias cinética e potencial é designada por energia mecânica,

3
O conceito pode, de facto, alargar-se, mas não importa estar aqui a considerar uma tal generalização.

29
1
Em  mv 2  E p , (6.10)
2
e é uma constante do movimento se sobre a partícula só atuarem forças conservativas.
Em (6.10) escrevemos explicitamente a energia cinética da partícula mas o mesmo não
podemos fazer relativamente à energia potencial. Para tal seria preciso conhecer as
características da força conservativa e calcular o trabalho que aparece na Eq. (6.6).
Ainda relativamente à definição (6.6) de energia potencial, repare-se que esta
definição se faz através da variação da função, E p . Assim, se quisermos saber o valor
da função, por exemplo, no ponto B, temos de saber quanto vale a função energia
potencial num ponto de referência. A escolha deste ponto bem como o valor da função
energia potencial no ponto de referência são arbitrários.
Ilustremos com um exemplo a escolha do ponto de referência, do valor da
função energia potencial nesse ponto, e determinação da energia potencial num ponto
genérico. Tomemos ainda o caso se uma partícula de massa m num campo gravítico. Já
sabemos que o peso é uma força conservativa. Qual é então a energia potencial que lhe
está associada?


P y

Figura 6.7

Já vimos [vide expressão (4.6)] que o trabalho realizado pelo peso de O até B é  mgy e,
portanto, a diferença de energia potencial entre Y e O é

EpY  EpO   mgy   mgy (6.11)

Habitualmente escolhe-se para ponto de referência o ponto y  0 e toma-se zero para a


energia potencial nesse ponto de referência. No caso presente isso significa que E pO  0 .
Com esta escolha (que é arbitrária), a função energia potencial de uma partícula num
campo gravítico é
E p ( y )  mgy . (6.12)

Esta energia pode ser positiva (se y  0 ), negativa (se y  0 ), ou nula (se y  0 ,
consistentemente com a escolha que se fez para a origem.

30
7.
Aplicação da conservação da energia mecânica a movimentos em campos gravíticos.
Energia potencial elástica. Forças não conservativas e variação da energia mecânica.

Aplicação da conservação da energia mecânica a movimentos em campos


gravíticos

Vamos estudar alguns exemplos que põem em destaque a vantagem de utilização


de considerações energéticas, como a conservação da energia mecânica. Vimos antes
que a energia potencial de um corpo de massa m num campo gravítico é dada por
E p ( y )  mgy , sendo y a coordenada vertical da partícula relativamente a uma origem.
Suponhamos que o objeto é atirado verticalmente com velocidade v0. Qual é a altura
máxima que vai atingir? Designando por A o ponto de arremesso e por B o ponto de
altura máxima (ver Fig. 7.1), a conservação de energia mecânica exprime-se através da
igualdade E mA  E mB .

Figura 7.1

A energia mecânica em A é simplesmente a energia cinética da partícula no momento


do arremesso vertical, escolhendo o zero da energia potencial no ponto A. Designando
1
por v0 o módulo da velocidade inicial, tem-se E mA  EcA  m v02 . Por outro lado, a
2
energia mecânica em B é unicamente energia potencial (já que a velocidade da partícula
se anula nesse ponto): E mB  E pB  m g h . De

1
m v 02  m g h (7.1)
2

resulta a seguinte expressão para a altura máxima atingida pelo corpo:

v 02
h . (7.2)
2g

Vejamos seguidamente o caso do lançamento oblíquo, sendo  o ângulo que a


velocidade inicial faz com a direção horizontal (eixo dos xx na Fig. 7.2).

31
y

h

A
x

Figura 7.2

1
Em A, a energia mecânica é apenas a energia cinética: E mA  EcA  m v02 . Em B a
2
energia mecânica é a soma da energia potencial e da energia cinética. Ao longo do
movimento a velocidade da partícula permanece inalterada segundo o eixo dos xx, pois
a única força que atua na partícula é a força gravítica que aponta no sentido negativo do
eixo dos yy. Essa velocidade é inicialmente v 0 cos e, no ponto de altura máxima a
velocidade tem este mesmo valor pois é nula a sua componente vertical. Assim, em B a
energia mecânica é E mB  m v0 cos 2  mgh . Da igualdade das energias mecânicas em
1
2
A e B resulta
1 1
m v02  m v02 cos 2  m g h (7.3)
2 2
de onde se obtém

v 02 sin 2
h . (7.4)
2g

Esta expressão reduz-se a (7.2) para   90º .

Energia potencial elástica

A energia potencial elástica é uma forma de energia potencial diferente da


gravítica. Está associada a forças elásticas as quais estão presentes em muitas situações
físicas. A este nível introdutório não iremos considerar materiais elásticos. Iremos antes
considerar um sistema particularmente simples: um corpo de massa m ligado a uma
mola que está presa na outra extremidade (Fig. 7.3).

Figura 7.3

Quando a mola é comprimida ou distendida relativamente à sua posição de equilíbrio,


exerce sobre o corpo uma força que, experimentalmente, se verifica ser proporcional à
compressão ou distensão, e com o sentido oposto a estas. Considerando que o corpo

32
apenas se pode deslocar em uma dimensão (direção do eixo dos xx) aquela lei
experimental (conhecida por lei de Hooke) exprime-se matematicamente por

F  k x . (7.5)

A constante de proporcionalidade k designa-se por constante elástica e, como o próprio


nome indica, traduz a maior ou menor elasticidade da mola. O sinal negativo em (7.5)
indica que a força tem sentido oposto ao deslocamento

 
F F

Figura 7.4

A força é uma função da posição e o gráfico F  F x  está representado na Fig. 7.5.

Figura 7.5

A lei de Hooke só é aproximadamente válida para pequenos deslocamentos. Se


os deslocamentos forem grandes a relação linear entre força e deslocamento já não se
observa mais.
A energia potencial associada à força elástica é calculada a partir de [ver (6.6)]

x
E p x   E p 0   F x  dx ,
 (7.6)
0

estando a escolher-se x  0 para ponto de referência que é a posição de equilíbrio: nesse


ponto a força que atua no corpo é nula. Escolhendo nesse ponto o valor zero para a
energia potencial elástica e usando a expressão da lei de Hooke [Eq. (7.5)], tem-se

x x
E p x    F x  dx  k x dx
  (7.7)
0 0

Ora, a primitiva de x é 1
2
x 2 e, portanto,

33
x
1
E p  x    kx 2
1 2
 kx . (7.8)
2 0
2

O gráfico da função E p x  é uma parábola, como mostra a Fig. 7.4.

Ep

Figura 7.6

Deve notar-se que a energia potencial elástica, sendo uma função quadrática da posição,
não distingue x  0 de x  0 . Tanto faz que a mola seja distendida como encolhida:
para a energia potencial só importa a grandeza dos deslocamentos, x , relativamente à
origem.
Se nos tivesse sido dada inicialmente a expressão da energia potencial para a
partir daí saber qual a força a ela associada, só tínhamos de aplicar a inversa da
expressão (6.6), ou seja, tomar o simétrico da derivada de (7.8) em ordem a x:

dE p
F ( x)    kx (7.9)
dx

que é a expressão de que partimos [ver (7.5)]. Fica assim patente a coerência do
formalismo que estamos a desenvolver.
O movimento de um corpo ligado a uma mola é um movimento de vaivém (que
será estudado pormenorizadamente mais tarde neste curso), cuja energia mecânica, dada
por
1 1
E m  m v 2  k x 2  C te (7.10)
2 2

se conserva. O movimento de vaivém da massa ocorre entre as posições extremas


x   A relativamente à origem x  0 . Naqueles pontos (chamados pontos de retorno),
a partícula inverte o sentido do movimento, sendo A chamada amplitude do movimento.
Nos pontos de retorno toda a energia mecânica é energia potencial. Ao invés, quando a
partícula passa pela origem, a sua energia potencial é nula e, portanto, a sua energia
cinética é máxima.
Consideremos um exemplo que pode tornar mais claro o que acabámos de dizer.
Um corpo de massa m num campo de forças elásticas é afastado da posição de

34
equilíbrio para a posição x  A e largado (ponto A na Fig. 7.7). Qual é a sua velocidade
quando passa na origem (ponto B na mesma figura)?

B A

0 A x

Figura 7.7

1
Em A, a energia mecânica é só energia potencial: E mA  E pA  k A2 . Em B a energia é
2
1
só cinética: E mB  E cB  m v 2 . Da igualdade destas duas energias (conservação da
2
energia mecânica) resulta a seguinte expressão para a velocidade no ponto B:

k
v A (7.11)
m
Vimos já dois tipos de energias potenciais: a gravítica e a elástica. Mas há
muitos outros tipos mais e todas essas energias potenciais podem coexistir se várias
forças conservativas estiverem aplicadas numa partícula. A sua energia mecânica é a
soma da energia cinética e de todas as energias potenciais correspondentes a cada uma
das forças. A energia mecânica conserva-se se só existirem forças conservativas.
Havendo forças não conservativas, já não se conserva. É o assunto a abordar já a
seguir.

Forças não conservativas e variação da energia mecânica

A energia mecânica conserva-se sempre que sobre o sistema só atuem forças


conservativas. Mas o mesmo já se não se passa se estiverem presentes forças não
conservativas, como, por exemplo, forças de atrito. Na presença de forças de atrito
cinético ou de resistência a energia mecânica diminui. Dizemos, nestes casos, que há
“dissipação” de energia. Claro que a energia não se perde! Sabemos que a energia se
conserva! Dizer que a energia se dissipa significa simplesmente que a energia deixa de
ser útil.
A massa ligada à mola que é posta em movimento, não fica a oscilar
indefinidamente. De facto, devido às forças de atrito, as amplitudes de oscilação vão
sendo sucessivamente menores e o corpo acaba por parar.
Consideremos o caso geral de uma partícula que está sob a ação de várias forças,
sendo umas conservativas mas outras não. O teorema de energia cinética, que tem
validade geral, permite-nos escrever

Ec  W . (7.12)

A variação de energia cinética é igual ao trabalho realizado pela resultante das forças
ou, o que é o mesmo, pela soma dos trabalhos realizados por cada uma das forças
aplicadas. Se existirem, forças conservativas e não conservativas, W  Wcon  Wnc , onde
Wcon representa o trabalho de todas as forças conservativas (pode haver mais do que

35
uma) e Wnc o trabalho de todas as forças não conservativas (pode também haver mais do
que uma). A expressão (7.12) passa a escrever-se

Ec  Wcon  Wnc . (7.13)

Ora, o trabalho das forças conservativas é, por definição, o simétrico da variação da


função energia potencial4: Wcon  E p . A expressão (7.13) toma a forma

Ec  E p  Wnc , (7.14)


ou ainda
 Ec  E p   Wnc . (7.15)

A soma no primeiro termo desta equação é a energia mecânica e, então, finalmente,

Em  Wnc . (7.16)

Se só existirem forças conservativas, este resultado traduz a conservação da energia


mecânica. Se as forças não conservativas forem forças de atrito cinético ou de
resistência, Wnc  0 e, portanto, a energia mecânica diminui. Mas pode haver forças não
conservativas que realizam trabalho positivo (um puxão ou um empurrão, por exemplo).
Nesse caso, a energia mecânica do corpo aumenta.
Consideremos um exemplo de aplicação da expressão (7.16). Um corpo é
deixado cair de uma altura h acima de um chão de areia. Quando atinge o solo, penetra
na areia percorrendo uma distância d no seu interior. Qual é a força média que a areia
exerce sobre o corpo? A energia mecânica no ponto de onde é largado o corpo é
simplesmente a energia potencial gravítica, dado por mgh  d  se se tomar para
origem da energia potencial o ponto à profundidade d relativamente ao nível do solo (ou
seja o ponto onde o corpo acabará por parar). A energia mecânica no ponto onde pára o
corpo é zero. A variação de energia mecânica é, pois, Em  Emfinal  Eminicial  mg h  d  .
Se a força de resistência ao movimento na areia puder ser considerada constante, o
trabalho desta força não conservativa é simplesmente Wnc   Fd (o sinal negativo vem
do facto desta força e do deslocamento terem sentidos opostos). Da aplicação direta da
Eq. (7.16) resulta
 mg h  d    Fd (7.17)

e, consequentemente, a força média que procuramos é

 h
F  mg 1   . (7.18)
 d

4
Se existirem várias forças conservativas, haverá várias energias potenciais. Por E p estamos a designar a
soma de todas essas energias potenciais.

36
8.
Fluidos. Densidade e pressão. Equação fundamental da hidrostática.

Fluidos

Os fluidos, ao contrário dos sólidos, podem escoar e ocupam o volume do


recipiente que os contém. No sistema cardiovascular do ser humano e, em geral, em
todos os seres vivos, circulam fluidos vitais. Genericamente pode afirmar-se que
líquidos e gases são fluidos. Basicamente a lei de Newton é suficiente para tratar da
mecânica dos fluidos. Contudo, há certas leis empíricas aplicáveis a fluidos, que, do
ponto de vista histórico, precederam a lei de Newton. São exemplos o princípio de
Pascal e o princípio de Arquimedes. De ambos falaremos mais à frente.
A hidrostática trata dos fluidos (água, mas não só) em equilíbrio estático e é por
aí que vamos começar. Convém antes, porém, apresentar dois conceitos que são
fundamentais no estudo de fluidos e que são a densidade e a pressão.

Densidade e pressão

A densidade é uma função que num corpo ou num fluido pode variar de ponto
para ponto. É obtida dividindo a massa contida num volume arbitrariamente pequeno
em torno de um ponto por esse mesmo volume elementar.
Define-se densidade média através de

m
 (8.1)
V

e a densidade num ponto é o limite da expressão anterior quando o volume tende para
zero, ou seja:

 m dm
  lim  . (8.2)
V 0 V dV

Como exemplo ilustrativo da utilidade da expressão (8.1), vamos calcular a


densidade média de uma estrela de neutrões. A massa de uma destas estrelas compactas
é da ordem da massa solar, M  M O  2  10 30 kg , e o seu raio é cerca de
R  10 km  10 4 m . Tem-se, portanto, para a ordem de grandeza da densidade da
estrela de neutrões,

2  10 30
 en  4  1018 kg/m 3 . (8.3)
3   10
12

É interessante comparar este valor com a ordem de grandeza da densidade do nucleão


(protão ou neutrão), cuja massa e raio é m  2  10 27 kg e r  1 fm  10 15 m ,
respetivamente:
2  10 27
N  4  1018 kg/m 3 . (8.4)
3   10 45

37
A pressão é definida como a intensidade da força a dividir por unidade de área
da superfície onde a força se exerce, sendo a força perpendicular à superfície como na
Fig. 8.1. A pressão é então dada por

F
P . (8.5)
A
A força que se representa na Fig. 8.1 pode ser já a resultante das várias forças que se
exercem sobre a superfície de área A.


F

Figura 8.1

Notar que a pressão é um escalar, apesar de se definir a partir de uma força,


sendo proporcional a esta.
Se a força não for normal à superfície, para a pressão só contribui a componente
da força perpendicular à superfície. A componente tangencial da força não contribui. No
   
caso da Fig. 8.2, R  R||  R e apenas R , cujo módulo é R  F , contribui para a
pressão que se exerce sobre a superfície.

R

R

R||

Figura 8.2

Na situação representada na Fig. 8.3 a pressão é nula pois a força é tangente à


superfície.

38

R||
A

Figura 8.3

Se introduzirmos o vetor unitário n̂ perpendicular à superfície, o produto escalar



F  n̂ é a componente da força na direção da normal à superfície, o que permite escrever
a expressão (8.5) na seguinte forma

F  n̂
P . (8.6)
A

A pressão é uma função que pode variar de ponto para ponto. Daí que a definição mais
rigorosa de pressão exija que se tome o limite da expressão anterior quando a área tende
para zero (caso em que a componente normal da força também se torna infinitesimal).
Qual é a pressão que uma pessoa de 80 kg exerce sobre o chão se a área dos
sapatos que assenta no chão for de 500 cm2? A resposta é imediata a partir de (8.5).
Como a força exercida sobre o solo é perpendicular ao solo e igual ao peso,

80 g 80  10
P 4
 2
 1,6  10 4 Pa. (8.7)
500  10 5  10

A unidade do SI de pressão é o pascal (símbolo Pa), sendo um pascal o mesmo que um


newton por metro quadrado. A pressão atmosférica normal é cerca de 105 Pa.
Consideremos agora um fluido − por exemplo, um líquido − num recipiente e,
imaginemos uma porção pequena (porção tão pequena que se possa considerar uma
partícula) desse mesmo fluido, como mostra a Fig. 8.4. Verifica-se experimentalmente
que a pressão é a mesma em qualquer direção. De resto, se assim não fosse, essa porção
de fluido deslocar-se-ia, deixando, portanto, de estar em equilíbrio.

Figura 8.4

39
Veremos mais à frente que a pressão aumenta com a profundidade e, por isso, pode
parecer um pouco estranho que as pressões sejam as mesmas segundo a vertical. Na
verdade, o elemento de fluido que estamos a considerar é pontual, não tendo pois
dimensões, qualquer que seja a direção que se considere. Se fosse finito as pressões na
parte de cima da porção de fluido e na sua parte de baixo seriam diferentes!
Podemos igualmente afirmar que o fluido, num dado ponto, exerce sempre a
mesma pressão sobre uma superfície de um corpo nele imerso, qualquer que seja a
orientação da superfície em torno desse ponto. Daí que um nadador sinta sempre a
mesma pressão em qualquer parte do seu corpo5.
A força de pressão que um fluido exerce na superfície pequena de um corpo nele
mergulhado é pois a pressão junto da superfície a multiplicar pela área da superfície.


dA dF

Figura 8.5

Na Fig. 8.5 a (pequena) força dF que se exerce sobre o elemento de área dA do corpo
imerso no fluido é perpendicular à superfície elementar e tem valor dF  P dA .
Em geral, para um fluido em repouso, a força de pressão que se exerce sobre as
paredes do recipiente que o contém é perpendicular a essas mesmas paredes. O princípio
de igualdade da ação-reação, permite então concluir que a força que as paredes do
recipiente exercem sobre o fluido, sendo oposta, é também perpendicular à superfície
(Fig. 8.6). Aliás, se assim não fosse, ou seja, se o fluido estivesse sujeito a forças
tangenciais, circularia devido a essas forças e, portanto, deixaria de estar em equilíbrio
estático.

Figura 8.6

5
Isto para pontos “equivalentes” de um fluido. Como veremos a seguir, a pressão varia com a
profundidade.

40
Equação fundamental da hidrostática

Consideremos um fluido − um líquido, por exemplo − em equilíbrio


hidrostático, e um elemento pequeno desse fluido com forma cilíndrica, sendo dz a
altura infinitesimal do cilindro e A a área da base.


A F2
A P+dP
dz dz 
P F1 
Fg
z
   
F1  F2  Fg  0

Figura 8.7

A resultante das forças de pressão laterais é nula mas a das forças verticais não, pois
estas têm de compensar o peso para que haja equilíbrio. A força de pressão que se

exerce na base inferior, é a força F2 dirigida de baixo para cima de intensidade
F2  PA, sendo P a pressão nos pontos da base do cilindro. A pressão no topo do

cilindro é P  dP e a força F1 (agora de cima para baixo) tem intensidade
F1  P  dP A . Como a resultante de todas as forças tem de ser nula, para que o
elemento de fluido esteja em equilíbrio, a força dirigida para cima tem de equilibrar a
dirigida para baixo a que se soma o peso do elemento de fluido, que é dado por
Fg   A dz g (densidade vezes volume vezes aceleração da gravidade). Tem-se, pois,

P  dPA   g A dz  PA (8.8)

donde
dP
  g . (8.9)
dz

Na passagem de (8.8) para (8.9) a área A simplificou, o que fisicamente significa que o
elemento de fluido considerado não tinha necessariamente de ser cilíndrico: tem altura
dz e secção arbitrária de área A.
A Eq. (8.9) é uma equação diferencial. A dependência da pressão com a variável
z obtém-se por primitivação. Há uma situação em que essa primitiva é simples de
efetuar: quando o fluido é praticamente incompressível e, portanto a densidade é
praticamente constante,   C te . Da Eq. (8.9) resulta (ver Fig. 8.8)

41
PB h

 dP    gdz
PA 0
(8.10)

e portanto

PB  PA   gh . (8.11)

h
PA=PB+gh
A

Figura 8.8

Quando temos um líquido incompressível em equilíbrio hidrostático (como, em boa


aproximação, a água numa piscina), é habitual definir a origem na superfície de
interface da água com o ar. Aí a pressão é P0 (pressão atmosférica) e escolhendo a
coordenada vertical x positiva para baixo, como se mostra na Fig. 8.9, tem-se:

P  P0   g x . (8.12)

Esta expressão [ou a (8.11)] é conhecida por equação fundamental da hidrostática e,


desde que o líquido seja incompressível, é válida qualquer que seja a forma do
recipiente.

P0

P =P0+g x

x
Figura 8.9

Uma aplicação imediata da equação fundamental é o manómetro de tubo aberto que


serve para medir diferenças de pressão. O esquema na Fig. 8.10 representa um desses
instrumentos. O gás no interior do tubo está a uma pressão que excede a pressão

42
atmosférica em  g h , sendo  a densidade do líquido no tubo (normalmente mercúrio,
que tem uma densidade elevada, o que permite medir maiores diferenças de pressão).

P0
. ..
.. ..... . . . .
. . . . . .. .. . .
. . . ... . ....... .. .. h
. . . .. ... . . ......P .. .. ...... . .
. . . . . . . ..
. . ..... ...... .... .. . .. ...
. . .. .. ... .
. ... . .
. .. ....

Figura 8.10

43
9.
Princípio de Pascal. Princípio de Arquimedes. Dinâmica de fluidos: fluxo laminar e
fluidos não viscosos. Equação de continuidade.

Princípio de Pascal

A atmosfera exerce uma pressão sobre todos os corpos nela imersos, incluindo
outros fluidos. Ora a pressão adicional externa que se exerce sobre um fluido é
transmitida, sem redução a todos os pontos desse fluido, o que é conhecido por
Princípio de Pascal, que foi formulado no século XVII. Numa piscina com água, a
pressão à superfície é a pressão atmosférica, P0. A uma profundidade h a pressão é,
como sabemos já, P = P0 +  g h. Se a pressão atmosférica variar e passar a ser P'0,
também a pressão à profundidade h varia, passando a ser P' = P'0 +  g h. A variação de
pressão ocorrida na atmosfera transmitiu-se na mesma exacta medida a todos os pontos
da água da piscina. Se se quiser aumentar de P a pressão da corrente sanguínea na
ponta do dedo do pé, esse aumento pode ser realizado em qualquer ponto dos vasos
sanguíneos.
Fica pois claro que uma pressão externa aplicada a um fluido encerrado num
recipiente é transmitida sem diminuição a todos os pontos do fluido e às paredes do
recipiente que o contém. O princípio de Pascal tem uma aplicação muito útil no
elevador hidráulico que se representa na Fig. 9.1.


F
A A'


F'

Figura 9.1

Do lado esquerdo aplica-se uma força de intensidade F sobre um êmbolo de área


pequena A. A pressão adicional que, por esta via, se exerce no fluido é

F
P (9.1)
A

Este acréscimo de pressão vai aparecer no lado direito, o que se traduz no aparecimento
de uma força de intensidade F' que o fluido exerce sobre o êmbolo de área grande A', tal
que
F'
P . (9.2)
A'

Tem-se pois que


F F'
 (9.3)
A A'

44
donde
A'
F'  F. (9.4)
A

A razão F ' / F é denominada "vantagem mecânica".

Princípio de Arquimedes

Quando um corpo se encontra imerso num fluido (num líquido, por exemplo),
fica sujeito a uma força vertical, dirigida de baixo para cima, de valor igual ao peso do
volume de fluido que é deslocado pela presença do corpo. Esta lei, conhecida por
Princípio de Arquimedes, já tem mais de dois mil anos!
Quando um corpo está imerso num líquido este exerce sobre o corpo forças que,
em cada ponto do corpo, são o produto da pressão pela área elementar em torno desse
ponto. A direção da força é a da perpendicular à superfície do corpo nesse mesmo
ponto. O princípio de Arquimedes refere-se à resultante de todas estas forças

elementares (representadas do lado esquerdo da Fig. 9.2) ou seja à força de impulsão I
representada no lado direito da Fig. 9.2.

I

Figura 9.2

A intensidade da força de impulsão é

I   gV (9.5)

onde  é a densidade do fluido e V o volume de fluido deslocado pela corpo imerso. Se


o corpo flutua, o seu peso iguala a força de impulsão. É a força de impulsão a
responsável pela flutuação dos barcos. Mas atenção! Para que um barco flutue não é
apenas necessário que o peso e a impulsão se compensem. É indispensável, além disso,
que o momento das duas forças seja nulo (caso contrário o barco volta-se).

Dinâmica de fluidos: fluxo laminar e fluidos não viscosos

Como dissemos antes, para descrever o movimento de um fluido, em princípio


poder-se-iam aplicar as leis de Newton a cada partícula do fluido, entendendo-se por
“partícula” uma porção de fluido contido num volume pequeno. Ora, tal análise
exaustiva além de ser difícil ou mesmo impossível de levar a cabo seria pouco útil em
virtude do manancial de informação que teria de ser analisada…

45
A alternativa é olhar para grandezas como a velocidade, a pressão, etc. Além
disso, para manter o formalismo a níveis matemáticos elementares é necessário
considerar algumas simplificações. A primeira aproximação consiste no chamado fluxo
laminar, assim designado por oposição ao chamado fluxo turbulento. Tem-se fluxo
laminar quando camadas adjacentes de fluido deslizam suavemente umas sobre as
outras. O movimento do fluido é representável por linhas de corrente, como as que se
mostram na Fig. 9.3

Figura 9.3

Em regime de fluxo laminar as linhas de corrente não se entrelaçam, o que significa que
as várias “lâminas” de fluido se sobrepõem mas sem se misturarem. O mesmo já não
sucede com o regime de fluxo turbulento. Este é a situação que se observa quando, por
exemplo, há um obstáculo no caminho de um fluido em escoamento laminar. Os
remoinhos que então se criam indicam mistura das várias linhas de corrente que antes se
não tocavam.

Figura 9.4

Além de considerarmos a situação da Fig. 9.3 vamos ainda supor que:

- o fluido não é viscoso; isto significa que não há atrito interno ou, por outras
palavras, não há dissipação de energia enquanto o fluido escoa.
- o fluxo é estacionário: num dado ponto a velocidade e a pressão são sempre as
mesmas (não variam ao longo do tempo)
- o fluxo é irrotacional (uma pequena pá colocada num qualquer ponto não roda,
apenas se desloca)

Equação de continuidade

Claro que a velocidade de uma partícula do fluido não é sempre a mesma. Ao


longo de um tubo por onde um fluido escoa a velocidade pode variar. Esta variação da
velocidade ao longo de uma linha de corrente é uma situação geral. Sabemos que
quando um tubo estreita a velocidade do fluido é maior (quando se rega com uma
mangueira, a diminuição da secção de saída da água, que é controlada com o dedo, faz
aumentar a velocidade da água que assim atinge uma distância maior.

46
A Fig. 9.5 mostra um tubo ao longo do qual está a escoar um fluido,
considerando que a velocidade é a mesma em qualquer ponto de uma dada secção reta
do tubo: assim, a velocidade do fluido em qualquer dos pontos da secção reta de área A1
 
é v1 ; em qualquer ponto dos pontos da secção reta de área A2 é v 2 , etc.

Δ 1

A1 v1
Δ 2
A2 
v2

Figura 9.5

No intervalo de tempo t o fluido avançou de uma distância  1  v1t a partir da


secção reta de área A1. Por outro lado, avançou  2  v2 t a partir do ponto da secção
reta de área A2. Ora, o fluido de trás "empurra" todo o fluido à frente pelo que a massa
de fluido contido no volume V1  A1 1 tem de ser igual à massa de fluido no volume
V2  A2  2 . Esta igualdade das massas exprime-se por 1 A1  1   2 A2  2

ou ainda,
1 A1 v1   2 A2 v2 , (9.6)

sendo  1 e  2 as densidades do fluido em 1 e 2, respetivamente. A equação anterior é


designada equação de continuidade. Esta equação escreve-se de forma mais simples no
caso de o fluido ser incompressível. Nesta situação, a densidade não varia e, portanto,
tem-se
A1 v1  A2 v2 . (9.7)

A equação de continuidade para fluidos incompressíveis tem muitas aplicações práticas.


Vejamos uma relativa à circulação sanguínea no corpo humano. O sangue na artéria
aorta, cujo raio é 0,01 m, flui com velocidade 0,3 m/s. Nos vasos capilares, cujo raio é
4  10 6 m o sangue flui com velocidade 5  10 4 m/s. A equação anterior permite-nos
fazer uma estimativa do número de vasos capilares no corpo humano. A área total dos
capilares é o número n de capilares a multiplicar pela área de cada um. Tem-se então

 10 2   3  10 1  n 4  10 6   5  10 4
2 2
(9.9)

donde se obtém n  4  10 9 . Há cerca de quatro mil milhões de capilares no ser humano!

47
A1 A2

aorta
capilares

Figura 9.6
10.
Equação de Bernoulli. Exemplos de aplicação.

Equação de Bernoulli

Foi no séc. XVIII que Bernoulli estabeleceu o princípio que passou a ter o seu
nome: no escoamento de um fluido, onde a velocidade for maior a pressão será menor, e
vice-versa.
A Fig. 10.1 mostra um tubo de secção variável, como o que se considerou para a
dedução da equação de continuidade.


v1

v2

Figura 10.1

Em 2 a velocidade é maior do que em 1, como vimos anteriormente. O que será de


esperar relativamente às pressões nesses pontos? À primeira vista poderia parecer que a
uma maior velocidade das partículas deveria corresponder uma maior pressão6. Na
verdade, se em 2 a pressão fosse maior do que em 1, o fluido nunca poderia ir do ponto
1 para o 2 acelerando, ou seja aumentando a sua velocidade (o fluido poderia ir de 1
para 2 mas diminuiria a sua velocidade).
A equação de Bernoulli, que vamos deduzir de seguida, inclui de forma
quantitativa o princípio de Bernoulli.
Considere-se um tubo de secção variável, dentro do qual se escoa, em regime
laminar e estacionário, um fluido não viscoso e incompressível. Representa-se na Fig.
10.2 uma secção desse tubo, estando o lado 1 a uma altura y1 de um ponto de referência
e o lado 2 a uma altura y2.

Do lado 1 exerce-se uma força F1 da esquerda para a direita. Esta força pode ser
vista como o efeito de todo o fluido que ainda não chegou ao ponto 1 (não representado
na figura). Por outro lado, o fluido que já passou em 2 (também não representado na

figura) exerce sobre o fluido que se está a considerar uma força F2 da direita para a
esquerda. Esta força dificulta a progressão do fluido que está a chegar a 2. Num mesmo

6
O Princípio de Bernoulli contém um certo elemento de surpresa pois, à primeira vista, maiores
velocidades poderiam significar maiores momentos lineares das partículas de fluido e maiores pressões.

48
pequeno intervalo de tempo t o fluido avançou de 1 relativamente ao ponto 1 e de
 2 relativamente ao ponto 2, sendo o volume A11 igual ao A2  2 pois estamos a
supor que o fluido é incompressível: V  A11  A2  2 .

A2 Δ 2

F2
Δ 1
A1 
 v2
F1

y2

y1 v1

Figura 10.2

A massa de fluido em cada um destes volumes é m   V . O trabalho total realizado


pelas forças de pressão no intervalo de tempo t é

W '  F1 1  F2  2 . (10.1)



O sinal negativo no segundo termo desta expressão resulta de a força F2 e o seu
deslocamento terem sentidos opostos. A grandeza das forças em (10.1) pode ser
substituída pelo produto da pressão pela área, obtendo-se:

W '  P1 A1 1  P2 A2  2  P1  P2  V . (10.2)


 
As forças de pressão F1 e F2 não são as únicas forças externas a atuar na porção de
fluido representada na Fig. 10.2. Há a força gravítica, que realiza trabalho pois os vários
pontos do tubo estão a alturas diferentes (se estivessem à mesma altura a força gravítica
não realizava trabalho). O trabalho da força gravítica no intervalo de tempo t pode ser
visto como o trabalho necessário para elevar uma porção de fluido de massa m de uma
altura y2  y1 . Ora, este trabalho, W " , é dado pelo simétrico da variação de energia
potencial o que permite escrever

49
W "  E p  m g  y 2  y1  . (10.3)

O trabalho total das forças exteriores no intervalo de tempo considerado é

W  W 'W "  P1  P2 V   V  y1  y2 g . (10.4)

Por outro lado, de acordo com o teorema da energia cinética este trabalho é igual à
variação de energia cinética, W  Ec . Esta variação é a diferença entre a energia
cinética do fluido da massa m em 2 e a energia cinética de igual quantidade de fluido
em 1:
P1  P2 V   V  y1  y 2 g  1  V v22  v12 , (10.5)
2
concluindo-se então que

1 1
P1   g y1   v12  P2   gy2   v22 . (10.6)
2 2

Os pontos 1 e 2 são arbitrários, o que permite afirmar que, para qualquer ponto do tubo,

1
Pg y  v 2  C te . (10.7)
2

Esta é a equação de Bernoulli.


De notar que, em equilíbrio estático, como v1  v2  0 , a Eq. (10.6) reduz-se a

P1  P2   g  y1  y2  , (10.8)

que é a equação fundamental da hidrostática [ver Eq. (8.11)].


A dedução da equação de Bernoulli baseou-se no teorema da energia cinética e,
portanto, traduz a conservação da energia. Claro que tivemos de considerar o fluido não
viscoso. Se houvesse trabalho das forças de atrito, a dedução que permitiu obter (10.7)
já se não poderia fazer. Mais à frente falaremos de fluidos viscosos.

Aplicações da equação de Bernoulli

A Fig. 10.3 mostra um recipiente contendo um líquido. Abre-se a torneira que


existe na base do recipiente. Qual é a velocidade do líquido que sai?

50
 P0

P0 
v

Figura 10.3

Nos pontos A e B as pressões são iguais à pressão atmosférica (a densidade do ar é


pequena e, portanto, a pressão praticamente não varia em distâncias verticais da ordem
da centena de metros): PA  P B  P0 . Da Eq. (10.7) resulta

1
P0   g h  0  P0  0   v2 (10.9)
2

sendo a altura de referência a da torneira h a altura da parte de cima do líquido e v a


velocidade do líquido à saída da torneira. Da expressão anterior conclui-se (teorema de
Torricelli)

v  2 gh . (10.10)

Notemos que esta é também a velocidade com que um grave chega ao solo quando é
largado de uma altura h. Se as pressões em A e B fossem distintas (o que aconteceria se
o recipiente fosse fechado na parte de cima) teríamos, em vez da Eq (10.9),

1
PA   g h  PB   v2 (10.11)
2

e portanto

2PA  PB 
v  2 gh  . (10.12)

Quando um fluido escoa ao longo de um tubo a uma altura aproximadamente


constante (tomada como altura de referência), a equação de Bernoulli reduz-se a

1 1
P1   v12  P2   v 22 (10.13)
2 2

51
que põe em evidência o princípio de Bernoulli: onde a velocidade for maior a pressão
será menor e onde a velocidade for menor a pressão será maior. Há muitas aplicações
desta equação. Vejamos algumas.
As asas dos aviões têm um perfil tal que pelo lado de cima da asa o ar é obrigado
a passar com maior velocidade do que no lado de baixo. Daqui resulta que a pressão é
maior na parte inferior do que na superior, o que se traduz no aparecimento de uma
força vertical de sustentação.

Figura 10.4

Também num atomizador (de perfume, por exemplo) se tira partido da Eq. (10.13).
Cria-se um fluxo de ar num canal onde há um estrangulamento. Aí a pressão é menor, o
que obriga o líquido a subir no tubo e a pulverizar (Fig. 10.5).

Figura 10.5

Nas chaminés o princípio de Bernoulli desempenha igualmente um papel. Quando o


vento sopra a pressão no topo da chaminé é inferior à pressão no interior da casa, o que
obriga o fumo a subir (além deste efeito acresce o facto de o ar quente ser menos denso
do que o ar frio, facto que também contribui para a saída do fumo de uma lareira pela
chaminé).
No tubo de Venturi há uma secção do tubo que é menor do que a restante secção.
O tubo de Venturi, que é a base do medidor de Venturi, está representado na Fig. 10.6.
Usando a equação de continuidade (9.7) e a equação de Bernoulli (10.7) mostra-se (o
que se deixa como exercício para o leitor) que a velocidade do fluido é dada por

2a 2 P
v , (10.14)
 ( A2  a 2 )

onde A e a são as áreas das secções retas do tubo onde circula um fluido incompressível
de densidade  e P é a diferença de pressão entre os pontos 1 e 2. Esta diferença de

52
pressão pode ser lida diretamente pela diferença de altura entre os níveis do líquido
(normalmente mercúrio) nos ramos esquerdo e direito do tubo em U.

A
 a
v
1 2

Figura 10.6

Finalmente, consideremos uma das muitas aplicações da equação de Bernoulli


em medicina. A Fig. 10.7 mostra algumas artérias do sistema circulatório.

Figura 10.7 [imagem do livro Physics for scientists and engineers, D.C. Giancoli, 3rd ed.
Prentice Hall, Upper Saddle River (2000)]

As duas artérias vertebrais que fazem a irrigação do cérebro derivam das artérias
subclávias, antes de estas chegarem aos braços, e juntam-se numa só artéria já na
cabeça. O chamado acidente isquémico transitório (AIT) consiste numa falta de
irrigação do cérebro e pode ter origem na síndroma de roubo da subclávia. Quando se
realiza um exercício mais vigoroso com um dos braços, o fluxo de sangue aumenta na
subclávia para assim dar resposta à maior necessidade de irrigação dos músculos. Se a
subclávia estiver parcialmente obstruída na zona perto da ramificação (ver Fig. 10.7) a
velocidade do sangue é maior aí, de acordo com a equação de continuidade [Eq. (9.7)].
Ora, a uma maior velocidade vai corresponder uma menor pressão [Eq. (10.13)]. O
sangue da artéria vertebral do lado oposto, devido a esta diminuição de pressão, diverge

53
para baixo pela outra artéria vertebral, havendo uma consequente diminuição de
irrigação cerebral. A designação clínica “síndroma de roubo da subclávia” é bem
sugestiva: devido à maior velocidade do sangue na subclávia, esta rouba sangue ao
cérebro. Da falta de irrigação cerebral resultam tonturas, fraqueza, etc., o que,
naturalmente leva a pessoa suspender o exercício com o braço. Isso faz diminuir os
sintomas do AIT por diminuição da velocidade do sangue na subclávia doente.

54
11.
Caudal volumétrico. Viscosidade de um fluido e coeficiente de viscosidade.
Escoamento viscoso em tubos de secção cilíndrica.

Caudal volumétrico

Obtivemos dois resultados importantes:

1) a equação de continuidade, segundo a qual o “caudal” ao longo de qualquer secção


de um tubo por onde esteja a escoar um fluido incompressível é sempre o mesmo. Na
altura isto foi traduzido matematicamente por

A1 v1  A2 v2 (11.1)

[ver Figs. 9.5 ou 10.1 e a Eq. (9.7)] sendo 1 e 2 pontos arbitrários do tubo;

2) A equação de Bernoulli, segundo a qual, ao longo de um tubo se verifica a


igualdade

1 1
P1   g y1   v12  P2   gy2   v22 (11.2)
2 2

[ver Eq. (10.6)], sendo 1 e 2 dois pontos do tubo por onde escoa o fluido incompressível
e não viscoso.

Vamos definir caudal de uma forma mais geral e estudar os fluidos viscosos,
para os quais a equação de Bernoulli já se não pode aplicar.
Nas condições em que obtivemos a Eq. (11.1) o produto da área da secção reta
num ponto do tubo pela velocidade do fluido nesse ponto do tubo é designado por
caudal volumétrico:

qV  A v . (11.3)

Esta grandeza dá indicação direta da quantidade de fluido que escoa. No SI o caudal


volumétrico exprime-se em metros cúbicos por segundo, pois tem dimensões de área
vezes velocidade, ou seja, volume por tempo. Dizer que o caudal do rio Minho, junto a
Caminha, é de 3000 m3/s significa que através de uma qualquer superfície abrangendo
toda a largura e profundidade do rio (em particular, uma secção reta) passa um volume
de três mil metros cúbicos de água em cada segundo.
Há uma outra maneira de exprimir o caudal, dando a massa de fluido que
atravessa a secção de um tubo por unidade de tempo. O caudal assim exprime-se, no SI,
em quilogramas por segundo (kg/s).
Para estabelecer a equação de continuidade (11.1) e definir caudal tal como em
(11.3), é necessário considerar a secção reta de área A do tubo e que a velocidade de
todos os elementos do fluido seja a mesma em todos os pontos da secção reta. Além

disso, a velocidade v tem de ser perpendicular à secção (Fig. 11.1). É este o único caso
que vamos considerar.

55
A
 
v v
A

Figura 11.1

Vicosidade de um fluido

Os fluidos reais, tanto líquidos como gases, apresentam viscosidade. A


viscosidade resulta de forças de atrito entre camadas adjacentes do fluido e surgem
quando estas se deslocam umas sobre as outras. Em líquidos, a viscosidade é
principalmente devida às forças de ligação entre moléculas. Em gases é sobretudo
devida às colisões entre as partículas. Havendo forças resistivas ou de atrito, estas forças
realizam trabalho dissipativo e, portanto, a energia mecânica já não se conserva. Nesta
situação a equação de Bernoulli (11.2) que, recordamos, exprime a conservação da
energia mecânica, já não se pode aplicar rigorosamente (embora se possa considerar
muitas vezes como aproximação a uma situação real).
Claro que a viscosidade não é a mesma para todos os fluidos, e, por isso, se
define a grandeza coeficiente de viscosidade a que nos referiremos de seguida.
Consideremos a seguinte experiência. Coloca-se uma pequena camada de fluido
entre duas placas, como se mostra na 
Fig. 11.2.
v


F
gradiente de
l
velocidades

Figura 11.2

A placa de cima é posta em movimento, sob a ação da força F , adquirindo a velocidade

v . A placa de baixo permanece em repouso. As camadas do fluido junto às placas
permanecem em contacto com estas devido às forças de adesão entre o fluido e as
placas. Assim, a camada superior do fluido move-se com a velocidade da placa, cujo
módulo é v, e a camada junto à placa inferior não se move. De cima para baixo as
diferentes camadas de fluido apresentam um contínuo de velocidades entre v e 0, como
se mostra na Fig. 11.3.

v

 
v 0

Figura 11.3

56
Manter a placa superior em movimento com velocidade v requer uma força de
intensidade F. Verifica-se ainda experimentalmente − o que seria, de resto, de esperar −
que a força depende também das características intrínsecas do fluido. Essa dependência
entra como fator de proporcionalidade na expressão anterior, a qual se passa então a
escrever
v
F  A , (11.4)
l

onde  é o coeficiente de viscosidade. Resolvendo em ordem a este coeficiente,


obtém-se
Fl
 . (11.5)
Av

No SI a unidade de viscosidade é o pascal segundo (Pa s). No sistema CGS a


unidade de viscosidade denomina-se poise (P) em homenagem ao cientista francês
Poiseuille. O centipoise (cP) é uma unidade muito utilizada (1 cP = 10-3 Pa s).
Como já dissemos, o coeficiente de viscosidade depende, em geral, da
temperatura e de pressão. Na tabela seguinte listam-se alguns coeficientes de
viscosidade. Em geral, a viscosidade diminui com a temperatura para os líquidos mas
aumenta para os gases.

Substância Temperatura / ºC Coeficiente de viscosidade /


Pa s
Água 0 1,8  103
Água 20 1,0  103
Água 100 0,3  103
Sangue 37 4  10 3
Plasma 37 4,5  103
Ar 20 0,08  103

Escoamento viscoso em tubos de secção cilíndrica

Analisamos agora o escoamento de um fluido, em regime laminar, através de


tubo de secção cilíndrica constante. Se a secção do tubo for constante e o fluido
incompressível a velocidade será a mesma em qualquer ponto ao longo do tubo. Além
disso, não havendo viscosidade, a velocidade também é a mesma em qualquer ponto da
secção reta (Fig. 11.4).

A
 A

v v

Figura 11.4

57
Para um tubo horizontal, não há variação de energia potencial gravítica do fluido e da
equação de Bernoulli (11.2) conclui-se que a pressão é a mesma em qualquer ponto do
tubo. Mas sabemos que isto não acontece com fluidos reais! Só poderia acontecer com
fluidos de viscosidade nula (também chamados superfluidos). Para que haja escoamento
é sempre necessária uma diferença de pressão entre os pontos ao longo do tubo. A
necessidade desta diferença de pressão para o fluido se mover tem a sua origem na
viscosidade do próprio fluido. Se tal diferença de pressão não existisse, o fluido não
escoaria. A diferença de pressão é necessária porque há forças de atrito entre as
diferentes camadas do fluido (mesmo em regime laminar).
Na secção reta de um tubo cilíndrico a velocidade de escoamento aumenta da
periferia (junto às paredes do tubo) para o centro do tubo. O “perfil” das velocidades é
aproximadamente parabólico (ver Fig. 11.5) e depende de vários fatores.
P

R r 
v

1 2

Figura 11.5

Consideremos um tubo (ou uma parte de um tubo) horizontal cujo raio da sua secção
reta é R, de comprimento L, e no qual se estabelece uma diferença de pressão P .
Neste tubo flui, em regime laminar, um fluido de viscosidade  . A velocidade do fluido
a uma distância r do eixo do tubo é dada por

P R 2  r2 
v 1  2  . (11.6)
4 L  R 

Como mostra esta expressão (que não deduzimos), junto às paredes do tubo ( r  R ) a
velocidade é nula. Num qualquer ponto do tubo, a velocidade é proporcional à diferença
de pressão, e à área da secção reta do tubo (dependência com R2), e é inversamente
proporcional ao coeficiente de viscosidade e ao comprimento do tubo (ou da parte do
tubo que se está a considerar).
A velocidade máxima do fluido (eixo do tubo, r  0 ) é dada por

P R 2
vmáx.  . (11.7)
4 L

58
12.
Resistência ao escoamento em regime laminar, equação de Poiseuille e aplicações.
Transição de regime laminar para regime turbulento e número de Reynolds. Viscosidade
do sangue. Lei de Stokes e aplicações.

Resistência ao escoamento em regime laminar, equação de Poiseuille e aplicações

Consideremos de novo um fluido viscoso que passa num tubo horizontal de


secção constante (Fig. 12.1) em regime laminar

P

R 
v

1 2

Figura 12.1

O tubo cilíndrico tem comprimento L e secção reta de raio R. Entre os pontos 1 e 2


existe a diferença de pressão P P1P 2 devida à qual o fluido, de viscosidade 
escoa, sendo qV o caudal. Verifica-se experimentalmente haver, em muitas situações,
uma relação direta entre a diferença de pressão e o caudal, o que se exprime
formalmente por

P   qV , (12.1)

onde o fator de proporcionalidade  pode ser visto como uma “resistência” ao


escoamento do fluido. A Eq. (12.1) é fisicamente aceitável pois será de esperar que a
uma maior diferença de pressão corresponda um maior caudal. A dependência linear da
diferença de pressão no caudal (se  só depender das características geométricas do
tubo e da viscosidade do fluido) faz lembrar a Lei de Ohm, V  Re I , onde V é a
diferença de potencial nos terminais de uma resistência7 Re percorrida por uma corrente
elétrica de intensidade I (Fig. 12.2).

Re
I

V

Figura 12.2

7
Para a resistência elétrica, usamos Re em vez de simplesmente R para não haver confusão com o raio R
do tubo cilíndrico da Fig. 12.1.

59
A analogia entre o escoamento de um fluido com a corrente num circuito é total. A
diferença de potencial V corresponde à diferença de pressão P ; a intensidade de
corrente I corresponde ao caudal qV; a resistência elétrica Re corresponde à resistência
ao escoamento  .
O cientista francês Poiseuille, que se interessou bastante por questões
relacionadas com a circulação sanguínea, determinou experimentalmente como variava
o caudal de um fluido incompressível num tubo cilíndrico nas condições mencionadas
relativamente à Fig. 12.1, tendo chegado à conclusão que

R 4 P
qV  . (12.2)
8L

Esta é a expressão matemática da lei de Poiseuille. A dependência com o inverso da


viscosidade e do comprimento do tubo são naturais: quanto mais comprido for o tubo,
para uma mesma diferença de pressão, menor deverá ser o caudal. O mesmo se aplica à
dependência com a viscosidade: quanto mais viscoso for o fluido, menor deverá ser o
caudal. Curiosa é a dependência do caudal volumétrico com o raio da secção reta ser
com a quarta potência de R!
Da conjugação das Eqs. (12.1) e (12.2) obtém-se uma expressão para a
resistência:

8L
 . (12.3)
R 4

Esta expressão traduz quantitativamente a dependência da resistência com a


viscosidade,  , o comprimento do tubo, L, e o raio da secção reta R. É útil fazer a
analogia com a dependência da resistência de um condutor óhmico com a sua
resistividade,  , e suas características geométricas (comprimento L e raio R para
L
condutor de secção reta cilíndrica): R   . A semelhança com (12.3) é grande,
R 2
notando-se a diferente dependência com o raio da secção reta. A dependência da
resistência com R4 no caso de um fluido não deixa de ser surpreendente e de ter, de
resto, importantes consequências. Se a secção de um tubo passar para metade, para a
mesma diferença de pressão o caudal passa para 1/16!
No caso de haver um constrangimento numa artéria, o coração terá de criar uma
maior diferença de pressão para manter o caudal de sangue.
A distribuição de sangue é controlada por músculos nas arteríolas. Pequenas
contracções ou distensões destes músculos podem fazer variar o caudal de sangue de
forma significativa, em virtude da sua dependência com R4.
É interessante obter a velocidade média do fluido que escoa no tubo da Fig. 12.1.
Podemos pensar que todos os elementos do fluido têm uma mesma velocidade média,
vm (velocidade média), sendo portanto o caudal dado pelo produto da área A da secção
reta por esta velocidade [ver Eq. (11.3)]): qV  Av m  R 2 v m . Combinando esta
equação com a lei de Poiseuille (12.2), vem
R 4 P
R 2 vm  (12.4)
8L

donde se conclui que a velocidade média do fluido é

60
P R 2
vm  . (12.5)
8 L

Se compararmos com (11.7), vemos que esta velocidade média é metade da velocidade
do fluido no eixo do tubo cilíndrico (sítio onde a velocidade é máxima).

Transição de regime laminar para regime turbulento e número de Reynolds

Quando a velocidade de um fluido que escoa num tubo em regime laminar


excede um certo valor crítico, o regime pode passar a turbulento. Há outras
características do fluido como a sua densidade ou a sua viscosidade que poderiam
igualmente alterar o regime de escoamento, mas tanto  como  não variam
significativamente de ponto para ponto. Em escoamento turbulento, o movimento do
fluido é muito irregular, sendo caracterizado por vórtices locais (ver Fig. 9.4). Em
consequência destas irregularidades no movimento do fluido, a resistência ao
escoamento aumenta muito (o que faz diminuir o caudal para a mesma diferença de
pressão). Mas junto às paredes do tubo, onde a velocidade é praticamente nula, o
escoamento permanece laminar.
Há uma regra prática para determinar o regime de escoamento, através da análise
de uma quantidade adimensional, chamada número de Reynolds, que se define
2R v
NR  . (12.6)

A velocidade que aparece nesta expressão é a velocidade média no sentido da expressão


(12.5), ou seja a velocidade uniforme em toda a secção reta do tubo que produziria o
mesmo caudal. De acordo com os dados experimentais, verifica-se que o escoamento de
um fluido é laminar se N R  2000 e é turbulento se N R  3000 . Entre estes dois
valores o regime é instável, ou seja, pode mudar de um regime para o outro.
A aorta tem raio de 1 cm e a velocidade do sangue é 30 cm/s; a densidade é
  1060 kg/m3 e a viscosidade   4 mPa s. Estes dados conduzem ao número de
Reynolds N R  1590 . O regime de escoamento do sangue é, pois, laminar. A febre
diminui a viscosidade (ver secção seguinte) o que pode levar à passagem a regime
turbulento.
Encontra-se um exemplo de passagem de regime laminar a turbulento quando se
abre gradualmente uma torneira. Enquanto a velocidade da água for pequena, o fio de
água que cai é transparente, sinal de que o fluxo é laminar. Ao abrir mais a torneira a
velocidade da água é maior e esta passa a ficar esbranquiçada. É o sinal de que se está
em fluxo turbulento.

Viscosidade do sangue

A lei de Newton [Eq. (11.10)] e de Poiseuille [Eq. (12.2)] são válidas para
fluidos de viscosidade constante em regime laminar. Os fluidos para os quais o
coeficiente de viscosidade não é constante (para além das naturais dependências na
pressão e na temperatura) − chamados não newtonianos − apresentam comportamentos
mais difíceis de descrever matematicamente. Em particular podem apresentar

61
fenómenos de histerese: não recuperam as configurações iniciais quando as condições
externas voltam a ser as mesmas.
O plasma e o soro são aproximadamente newtonianos mas o sangue não é. O
sangue é um fluido complexo, constituído por partículas sólidas de várias formas em
suspensão num líquido. Por exemplo, os hemácios (glóbulos vermelhos) são discóides
que se orientam ao acaso para velocidades baixas mas passam a orientar-se
paralelamente à velocidade do sangue para velocidades altas (o que faz diminuir a
viscosidade do sangue).

Lei de Stokes e aplicações

Do mesmo modo que os fluidos viscosos no seu movimento estão sujeitos a


forças de atrito interno, também os objetos com movimento em relação a fluidos ficam
sujeitos a forças de resistência.
Consideremos uma esfera de raio r, caindo através de um fluido com uma
velocidade constante de módulo v, como se mostra na Fig. 12.3.


F

r

v 
Fg

Figura 12.3

A resultante das forças aplicadas à esfera é nula pois a sua velocidade é constante. Uma

das forças aplicadas é o peso, Fg . Outra força que atua na esfera é a impulsão (Princípio
de Arquimedes). Como não é pertinente para a discussão não vamos considerar esta
força (o que é válido se a esfera for pequena). Finalmente, outra força que atua sobre a

esfera é a força de resistência exercida pelo fluido, F . O módulo desta força, F, depende
do coeficiente de viscosidade  do fluido, do raio r da esfera e de v para velocidades
pequenas. Foi Stokes quem primeiro analisou o problema, tendo descoberto que a força
de resistência do fluido sobre a esfera é

F  6rv (12.7)

62
o que é conhecido por lei de Stokes. Note-se que a única maneira das grandezas  , r e v
se combinarem dando uma grandeza com a dimensão de uma força é através do seu
produto  r v .
A lei de Stokes tem muitas aplicações. Se as gotas de chuva de nuvens
localizadas a vários quilómetros de altura não estivessem sujeitas à resistência do ar,
atingiriam a superfície terrestre com velocidades enormes (e enormes energias,
portanto) capazes de causar danos. Mas a velocidade terminar das gotas de chuva é
pequena. Para gotas de 1 mm de diâmetro o módulo da velocidade terminal é 4,3 m/s e
para gotas de 2 mm de diâmetro, é 5,8 m/s.

63
13.
Oscilações e força elástica. Solução da equação de Newton. Movimento harmónico
simples.

Oscilações e força elástica

Oscilações de todo o tipo são-nos familiares: a do pêndulo de um relógio de


parede, a de uma boia no mar, a vibração de um automóvel quando passa numa
irregularidade na estrada, etc. Noutras escalas, os átomos de um sólido ou de uma
molécula vibram, e até as estrelas têm movimentos de oscilação! As oscilações não têm
de ser necessariamente de objetos materiais como estrelas, átomos, automóveis, boias e
pêndulos. Podem ser ainda de campos elétricos e magnéticos, nas ondas
eletromagnéticas. Mas este será assunto para estudar mais tarde... Apesar de as
oscilações dos campos e as oscilações de partículas materiais terem naturezas diferentes
e apesar de as próprias oscilações de objetos materiais também poderem ser muito
diversas entre si, encontram-se em todos os fenómenos oscilatórios muitos elementos
comuns.
Nesta introdução ao estudo das oscilações trataremos principalmente do
chamado movimento harmónico simples8. Este é, por exemplo, o movimento que
resulta da aplicação da força atrativa

F  kx (13.1)

a uma partícula de massa m. A força diz-se elástica, sendo caracterizada pela


dependência linear em x. Na expressão (13.1), k é chamada constante elástica.
Uma força elástica é, por exemplo, a que uma mola (presa numa extremidade)
exerce sobre um corpo a ela ligado quando deixa de estar relaxada. Mas o comprimento
da mola não pode ser muito diferente do seu comprimento natural para que a expressão
(13.1) se verifique (lei de Hooke). Se a dependência da força deixar de ser linear em x a
força passa a não ser elástica (diz-se então que é inelástica).
A Fig. 13.1 mostra uma mola com uma extremidade ligada a uma parede e a
outra ligada a um corpo. Designamos por l0 o comprimento natural da mola e por l o
seu comprimento quando é esticada ou encolhida. A variável x relaciona-se com aqueles
comprimentos através de x  l  l0 .

l0 l>l0  l<l0
F 
F

0 x 0 x x x 0 x
F=0 F<0 F>0

Figura 13.1

A força é segundo o eixo dos xx e, muitas vezes, indica-se apenas o seu valor, F.

Quando o corpo é deslocado para a direita a força F é para a esquerda e F  0 .

8
Vamos considerar o movimento a uma só dimensão.

64

Quando o corpo está do lado esquerdo em relação à origem, F é para a direita e F  0 .
A intensidade da força varia proporcionalmente com a distância, dependendo o fator de
proporcionalidade k das características da mola. Para um mesmo deslocamento terá
maior constante elástica a mola que exercer uma força maior sobre o objeto a que está
ligada. A Fig. 13.2 mostra a variação com x de duas forças elásticas, tendo-se k1  k2 .

F
k1 x

k2 x

Figura 13.2

Solução da equação de Newton

Vamos estudar em pormenor o movimento de uma partícula sujeita a uma força


elástica. A lei geral do movimento para uma partícula é dada pela Segunda Lei de
Newton, F  ma . A aceleração é a derivada da velocidade, v, em ordem ao tempo, que,
por sua vez, é a derivada de x em ordem ao tempo:

dv d 2 x
a  . (13.2)
dt dt 2

Combinando a Segunda Lei com a expressão da força (13.1),

d2 x
m  kx (13.3)
dt 2
ou ainda
d2 x
  2 x , (13.4)
dt 2

onde se introduziu a quantidade

k
 , (13.5)
m

denominada frequência angular, cujo significado físico ficará claro mais adiante. No SI
as unidades de frequência angular são “radianos por segundo” (rad/s).

65
A Eq. (13.4) a que obedece a função x (t ) é uma equação diferencial de segunda
ordem. A solução desta equação é uma função x como uma dependência temporal tal
que, derivada duas vezes em ordem ao tempo volta a dar a própria função inicial x (t ) ,
multiplicada pelo fator constante   2 . A matemática fornece-nos métodos genéricos
para a resolução de equações diferenciais. Mas, mesmo sem se conhecerem esses
métodos, não é difícil antecipar a solução da Eq. (13.4). Recordamos que a derivada de
uma função sinusoidal (seno ou cosseno) é também uma função sinusoidal
(respetivamente o cosseno e o simétrico do seno). A segunda derivada do seno é o
simétrico de um seno e a segunda derivada do cosseno é o simétrico do cosseno. Assim,
tanto a função xt   cos t como a função xt   sin  t satisfazem a equação
diferencial (13.4). E o mesmo se passa com a combinação linear destas duas funções

xt   A' cos t  B' sin  t . (13.6)

Na verdade, se derivarmos (13.6) em ordem ao tempo temos

dx t 
  A'  sin  t  B '  cos t ; (13.7)
dt

derivando outra vez,

d 2 x t 
  A 2 cost  B 2sin t
dt 2 (13.8)
  2  Acost  Bsin t    2 x t 

que é a Eq. (13.4). Fica, assim, demonstrado que (13.6) é solução da Eq. (13.4). Em
(13.6) A' e B' são constantes arbitrárias. Como a equação diferencial é de segunda
ordem, ao integrá-la aparecem duas constantes a determinar de acordo com as condições
cinemáticas da situação concreta que se pretende estudar (são chamadas constantes de
integração).
No entanto, a forma (13.6) não é a mais prática para exprimir a dependência
temporal. Na verdade a soma de duas funções sinusoidais como em (13.6) é ainda uma
função sinusoidal, o que nos permite escrever a solução de (13.4) na forma

xt   Acost    . (13.9)

Temos novamente duas constantes de integração, A e  , cujo significado físico é claro,


e que será dado a seguir. Vejamos antes, porém, que (13.9) é, de facto, solução de
(13.4). Derivemos (13.9) em ordem ao tempo:

dx t 
  A sin  t    ; (13.10)
dt

derivando novamente,

d 2 x t 
  2 Acos t      2 x t  . (13.11)
dt 2

66
Fica também assim demonstrado que (13.9) é solução de (13.4). Note-se ainda que, do
mesmo modo que (13.9) é solução da equação de movimento (13.4), uma função com o
cosseno substituído pelo seno também o seria. Não há, pois, qualquer razão para
escolher cosseno em vez de seno (e vice-versa).

Movimento harmónico simples

A Fig. 13.3 mostra a dependência temporal da função (13.9). A partícula que


executa tal movimento periódico chama-se oscilador harmónico simples. A Fig. 13.3
permite reconhecer o significado físico das constantes A e  .

+A

A
T

A

Figura 13.3

A primeira destas constantes, A é a amplitude de oscilação. O oscilador harmónico


simples executa um movimento de oscilação entre os pontos extremos x   A e
x   A , como se mostra na Fig. 13.4.

A 0 +A x

Figura 13.4

A constante  chama-se fase na origem e determina basicamente o valor de x no


instante t  0 : x (0)  A cos  . Finalmente, a grandeza T, que se mostra na Fig 13.3, é o
período: tempo ao fim do qual a partícula volta a estar nas mesmas condições
cinemáticas (mesma posição e mesma velocidade). O período é o tempo que demora a

67
executar um ciclo do movimento periódico. A relação entre o período e a frequência
angular obtém-se a partir de xt   xt  T , para qualquer t:

A cost     A cost    T  (13.12)

e portanto, para que esta igualdade se verifique, terá de ser T  2 , donde

2
T  . (13.13)

A unidade de período no SI é o segundo. Utiliza-se muitas vezes a frequência, f, que é o


número de ciclos executados numa unidade de tempo, ou seja, é o inverso do período
(tempo que um ciclo demora a ser executado):

1
f  . (13.14)
T
A unidade SI de frequência é o “segundo menos um” ou hertz (símbolo Hz). Desta
expressão e de (13.13) obtém-se a relação entre frequência e frequência angular:

  2f . (13.15)

Para uma lei de movimento x  x (t ) dada pela expressão (13.9), a velocidade e a


aceleração são dadas respetivamente por (3.10) e (3.11), que aqui reescrevemos:

vt    Asin  t    (13.16)


e

at    2 Acos t    , (13.17)

pois são respetivamente a derivada da posição e a derivada da velocidade em ordem ao


tempo. Na Fig. 13.5 representamos xt , vt  e at  no intervalo de tempo de zero a vinte
segundos para a seguinte escolha de parâmetros: A  2 ,   1 e   4 (unidades SI).
Veja-se que as funções xt  e at  são proporcionais, de acordo com a expressão
a t   - 2 xt  . Por outro lado, onde x t  tem máximos ou mínimos, v t  anula-se:
v t  é a derivada de x t  em ordem ao tempo.
A Fig. 13.6 mostra duas funções x (t ) com os mesmos parâmetros A e  mas
diferentes frequências angulares  o que permite avaliar o efeito deste parâmetro no
movimento: cada ciclo é executado em menos tempo no caso da frequência angular ser
maior.

68
2
x

-1

-2

v 1

-1

-2

2
a

-1

-2

0 5 10 15 20

t/s

Figura 13.5

=1 rad/s
2 =2 rad/s

0
x

-1

-2

0 5 10
t

Figura 13.6

69
14.
Oscilações amortecidas. Oscilações forçadas. Ressonâncias

Oscilações amortecidas

As oscilações harmónicas correspondem a situações ideais pois a sua amplitude


permanece constante e o oscilador mantém o seu movimento indefinidamente. Ora,
sabemos que nas oscilações reais há diminuição da amplitude da oscilação em virtude
das forças de atrito ou das forças de resistência. Por exemplo, um pêndulo que é posto a
oscilar acaba por parar devido ao atrito no suporte e à resistência do ar. Claro que as
oscilações podem manter-se se houver, tal como no pêndulo de um relógio, um
mecanismo que permita fornecer ao sistema a energia que ele for perdendo devido a
trabalho das forças de atrito. Se houver amortecimento a energia mecânica vai
diminuindo ao longo do tempo. O amortecimento de uma oscilação traduz-se pela
diminuição da amplitude (a qual se mantém constante no movimento harmónico
simples, como vimos antes).
Se bem que, por vezes, interesse que uma oscilação se mantenha o maior tempo
possível, há situações em que o importante é a oscilação terminar rapidamente. É o caso
de um automóvel quando passa numa irregularidade da estrada. A função dos
amortecedores de um automóvel é evitar que o carro permaneça a oscilar por um longo
tempo.
O sistema com oscilações amortecidas mais simples de analisar é um oscilador
harmónico simples sujeito a uma força de resistência proporcional à velocidade, como
se representa na Fig. 14.1: um corpo ligado a uma mola fixa na outra extremidade, está
também ligado a uma barra com uma pá na ponta (pistão) imersa num fluido.

fluido viscoso

pistão

x x
0
Figura 14.1

Como sabemos, a mola exerce uma força para a direita quando x  0 e exerce uma
força para a esquerda quando x  0 . Quanto à força de resistência que a barra exerce no
corpo, será para a direita se a partícula for para a esquerda, isto é, se v  0 e será para a
esquerda se v  0 . A intensidade da força elástica depende da constante elástica da
mola, k. A intensidade da força de resistência depende da viscosidade do fluido e da
geometria do pistão. Considerando que a força de resistência é simplesmente
proporcional à velocidade, podemos escrever a resultantes das forças 9 sobre o corpo na
forma

dx
F   kx  b . (14.1)
dt

9
Considera-se nula a força de atrito entre o corpo e a superfície horizontal onde assenta. As forças
verticais que atual no corpo − força gravítica e força de reação normal − anulam-se mutuamente e, por
isso, não importa considerá-las.

70
O primeiro termo é a força elástica exercida pela mola; o segundo é a força de
resistência, sendo b uma constante (que depende do fluido e do pistão) e v  dx / dt a
velocidade.
De acordo com a Segunda Lei da dinâmica, F  ma , e a Eq. (14.1) pode
escrever-se na forma

d2 x dx
m 2  kx  b (14.2)
dt dt
ou ainda

d2 x dx
2
 2  02 x  0 (14.3)
dt dt

onde se introduziram as seguintes duas quantidades:   b /( 2m) , que é o coeficiente de


amortecimento e 0  k / m que é a frequência natural do oscilador na ausência de
amortecimento10. A Eq. (14.3) difere da do oscilador harmónico simples [ver Eq. (13.4),
lembrando que   0 ] pela presença do segundo termo, o qual é proporcional à
velocidade. Qual é a solução desta equação diferencial? Para  pequeno, ou melhor, se
o termo 2 dx / dt puder ser considerado pequeno, a solução de (14.3) não se deve
afastar muito da solução da equação para o movimento harmónico simples que, como
sabemos é x(t )  A cos(0t   ) . Contudo, a amplitude da solução de (14.3) deve
depender do tempo pois fisicamente sabemos que as oscilações de um sistema como o
da Fig. 14.1 são amortecidas. E esse amortecimento tem diretamente a ver com o
parâmetro  . Matematicamente a função que corresponde à oscilação amortecida que
procuramos pode escrever-se

x(t )  A e t cos(t   ) , (14.4)

onde se considerou um decréscimo exponencial da amplitude e uma frequência angular


não necessariamente igual à frequência “natural” 0 . Prova-se, de facto, que (14.4) é
solução de (14.3). Para isso, temos de calcular a primeira e segunda derivadas de x (t )
em ordem ao tempo, inseri-las em (14.3), e depois verificar que a soma dos termos
resultantes do lado esquerdo dessa equação dá zero. Derivemos então (14.4) em
ordem ao tempo:

  A e t  cos( t   )   sin(  t   ) .


dx ( t )
(14.5)
dt

Derivando novamente em ordem ao tempo,

d 2 x (t )
2
 A e t  cos( t   )   sin(  t   )
dt (14.6)

 A e t   sin(  t   )   2 cos( t   ) 
10
Designámos esta quantidade simplesmente por  mas vamos passar agora a designá-la por 0 .

71
ou
d 2 x (t )
dt 2

 A e t 2   2 cos( t   )  2 sin(  t   ) .  (14.7)

Inserindo (14.7), (14.5) e (14.4) no membro esquerdo de (14.3) obtém-se:

 
A e  t 2   2 cos( t   )  2 sin(  t   )
A e  t  2 cos(t   )  2 sin( t   )  
2 2
0 A e t cos( t   )  (14.8)
     A e cos(t   )
2
0
2 2  t

Para esta expressão se anular e, assim, (14.8) ser solução de (14.3) terá de ser
02  2   2  0 , ou seja, a frequência da oscilação com amortecimento é tal que

 2  02  2 (14.9)
e portanto

  02  2 . (14.14)

A frequência da oscilação com amortecimento é inferior à frequência natural do


oscilador. É óbvio que se não houver atrito,   0 , então   0 . Para que a função
(14.4) seja solução de (14.3) é necessário que a frequência  seja real, ou seja que
0   . Fica agora claro o que se entende por “  pequeno”, expressão atrás referida.
Na Fig. 14.2 representa-se a função (14.4) para o movimento harmónico amortecido.

1,0

0,8
 t
0,6 e
 t
0,4 e cos (t+)
0,2

0,0
x

-0,2

-0,4

-0,6
 t
-0,8
e

-1,0

0 2 4 6 8 10
t
Figura 14.2

Para a função representada os parâmetros são A  1 ,   0,4 ,   2 e   1,1 .


Os amortecedores de um automóvel devem proporcionar uma força de atrito
para que o carro volte num curto intervalo de tempo à posição de equilíbrio. Se o  for
demasiadamente pequeno (o que acontece quando os amortecedores já estão velhos e

72
gastos), a oscilação perdura no tempo. Por outro lado, se  fosse muito grande a
suspensão voltaria ao equilíbrio muito lentamente. Se   0 a solução de (14.3) já não
é a função (14.4). Essa solução é uma função em que há amortecimento mas não há
oscilação, tal como se mostra na Fig. 14.3.

t
Figura 14.3

Oscilações forçadas

Uma criança diverte-se num baloiço. Alguém o vai empurrando e, assim, a


amplitude da oscilação não diminui. Os “empurrões” podem ser pequenos mas, se
forem dados no momento certo, a amplitude do movimento mantém-se sem grande
esforço! O sistema executa oscilações, inevitavelmente amortecidas, pois o atrito está
sempre presente, mas também forçadas devido à força exterior.
Tratado o problema das oscilações harmónicas simples e das oscilações
harmónicas amortecidas, vamos agora estudar oscilações harmónicas amortecidas e
forçadas.
De um ponto de vista matemático há uma nova equação de movimento para a
partícula um pouco mais complicada do que a Eq. (14.3) que se volta aqui a escrever:

d2 x dx
2
 2  02 x  0 . (14.15)
dt dt

Recordamos que o primeiro termo desta equação é a aceleração da partícula. O segundo


termo tem a sua origem na força de atrito e o último termo na força elástica. Se agora
introduzirmos uma outra força, externa, que designamos por F t  a resultante das
2 dx
forças aplicadas à partícula é da forma  kx   F t  e a equação de movimento
m dt
da partícula passa a escrever-se

d2 x dx F t 
2
 2  02 x  . (14.16)
dt dt m

Nesta equação o parâmetro

73
k
0  (14.17)
m

é a frequência angular natural do sistema, isto é, a frequência angular com que a


partícula de massa m oscila quando está sujeita unicamente à ação da força elástica −kx.
Iremos estudar o caso particular de a força externa ser periódica no tempo do tipo
sinusoidal. Consideramos

F t   F0 cost  (14.18)

onde F0 é o valor da máxima força aplicada e  a frequência angular desta força


externa. Para encontrar a lei do movimento da partícula, x  xt  , é preciso resolver a
equação diferencial (14.15) que se passa então a escrever

d2 x dx F
2
 2  02 x  0 cos(t ) . (14.19)
dt dt m

Não vamos recorrer a técnicas standard de resolução de equações diferenciais. Antes


vamos, à semelhança do que fizemos anteriormente, indicar a solução de (14.5),
justificando a sua forma com considerações de ordem física.
Sendo a força externa11 do tipo sinusoidal é natural admitir que o movimento
resultante seja também sinusoidal, sendo a frequência deste movimento a da força que a
obriga a executar oscilações, ou seja  . É mais intuitivo que assim seja, ou seja que a
partícula oscile da maneira que a força externa impõe e não que oscile com a sua
frequência natural 0 ou com a frequência modificada pelo amortecimento 02  2 .
De facto, prova-se que a função

x(t )  A cost    (14.6)

é solução da equação (14.5). Realça-se, novamente, que é a frequência angular da força


externa que surge nesta equação! Para se mostrar que (14.6) é solução de (14.5) temos
de calcular as duas primeiras derivadas de x (t ) em ordem ao tempo e inserir as
expressões assim obtidas na equação diferencial (14.5). Verifica-se, então, que a
equação (14.5) se cumpre desde que a amplitude e a fase na origem em (36.4) sejam
dadas, respetivamente, por

F0 / m
A (14.7)
 2
0   2   42 2
e

 2
tan   . (14.8)
02   2

11
Não importa saber como se gera esta força. O agente que o faz tem portanto capacidade para estar a
fornecer energia ao sistema.

74
Notar que a amplitude e a fase na origem, ao contrário do que se passa no movimento
harmónico simples, não são arbitrárias: dependem, para além das características do
oscilador e da constante de amortecimento, da frequência da força externa. Para uma
dada força externa a amplitude das oscilações forçadas é constante. Parece evidente que
a amplitude dependa de F0 tal como mostra a Eq. (14.7): quanto maior for a intensidade
da força externa, maior será a amplitude da oscilação forçada. Mas a dependência de A
com  é bem mais interessante e de consequências notáveis. A Fig. 14.1 mostra como
varia a amplitude da oscilação em função da frequência. Sendo pequeno o atrito, essa
função tem um máximo para   0 . Num caso ideal de o atrito ser nulo,   0 , uma
excitação (força externa) de frequência próxima da frequência natural do sistema, fá-lo
oscilar com amplitudes indefinidamente crescentes... No balancé de que se falou antes a
força é aplicada ao sistema com uma frequência que é aproximadamente a sua
frequência natural. Assim, mesmo que F0 seja pequeno, a amplitude não o é devido à
dependência A expressa pela Eq. (14.7): a amplitude tem um máximo pronunciado
quando o denominador tem o valor mínimo, que pode até ser zero se   0 , o que leva
a A.

4
= 0,10
A * k/F0

= 0,30
2

1
= 0,60

0
0 m 10 2 0 3 0

Figura 14.4

Ressonâncias

O denominador em (11.7) é mínimo para12

m  02  22 . (14.9)

Quando a frequência externa iguala esta frequência (que se representa na Fig. 14.2 para
um dado  ) a amplitude de oscilação é máxima. Dizemos que o sistema está em
ressonância. O fenómeno da ressonância caracteriza-se por um aumento pronunciado da
amplitude quando a frequência da força exterior tem um certo valor. Quanto menor for
o amortecimento mais pronunciada é a ressonância, a qual ocorre então para m  0 .

12
Para encontrar a expressão (14.9) basta derivar o denominador de (14.7) em ordem à frequência angular
 e igualar a zero.

75
Numa situação de ressonância, a amplitude de oscilação é, por vezes, tão grande
que pode levar à destruição do próprio sistema. Mesmo estruturas de grandes dimensões
como pontes, edifícios, aviões, lajes de edifícios, etc. podem oscilar, tendo uma ou mais
frequências próprias. Se esses objetos forem abanados for forças que, mesmo sendo de
pequena intensidade, tenham frequência próxima da frequência natural, podem
literalmente desfazer-se. Foi o que se presume possa ter acontecido com o colapso da
Tacoma Narrows Bridge nos Estados Unidos em Julho de 1940. A ponte entrou em
oscilação devido à ação do vento e passado uma horas o tabuleiro ruiu como mostra a
Fig. 14.5.

Figura 14.5

São variadas as aplicações das ressonâncias e em muitos domínios, incluindo a


medicina. Por exemplo, é um efeito de ressonância que se utiliza para desfazer cálculos
renais. O cálculo é posto a oscilar devido à ação de ultrassons cuja frequência é próxima
da sua frequência natural de vibração. Desejavelmente, o movimento de grande
amplitude que se estabelece leva ao colapso do cálculo renal cujos fragmentos acabam
depois por sair na urina.

76
15.

Introdução ao estudo das ondas. Ondas progressivas. Ondas longitudinais e transversais


e polarização. Ondas sinusoidais e características gerais das ondas.

Introdução ao estudo das ondas

A Fig. 15.1 mostra ondas numa corda quando se agita a sua extremidade para
cima e para baixo. A mão produz “pulsos” na corda e cada ponto desta move-se para
cima e depois para baixo, novamente para cima, para baixo, e assim sucessivamente…

Figura 15.1

É o efeito da agitação que se desloca, sem que a corda se desloque como um todo de
um sítio para o outro! Algo semelhante acontece com as ondas de mar.

Figura 15.2

A Fig. 15.2 representa uma onda à superfície da água que se desloca da esquerda para a
direita (mostram-se duas imagens tomadas em instantes diferentes). A boia apenas
oscila verticalmente. A onda é, portanto, a propagação de uma "perturbação". No caso
da Fig. 15.1 a "perturbação" é o deslocamento vertical dos pontos da corda e no caso da
Fig. 15.2 é o deslocamento (também vertical) dos pontos da superfície do líquido.
As ondas, sejam elas quais foram − na corda, no mar, no ar (ondas sonoras) na
Terra (ondas sísmicas) − precisam de um meio para se propagar. Mas as ondas
eletromagnéticas, não! Propagam-se mesmo no vazio. Apesar de o espaço entre o Sol e
a Terra ser vazio, a radiação solar  constituída por ondas eletromagnéticas  chega à
Terra. A sua velocidade de propagação é a velocidade da luz, que se representa por c, e
tem o valor 300 000 km/s. Quando as ondas se propagam em meios materiais falamos
de ondas mecânicas. A velocidade de propagação destas ondas depende da natureza do
meio. No ar, por exemplo, as ondas sonoras propagam-se com velocidade de cerca de
340 m/s. Na água as ondas propagam-se a cerca de 1500 m/s e no aço a mais de
6000 m/s.
Do ponto de vista matemático, uma onda é uma função do espaço e do tempo
descrita por uma equação do tipo y( x, t )  f x  vt . Esta equação descreve um pulso
de uma forma qualquer descrita pela função f que se propaga na direção positiva do eixo
dos xx. Se nos deslocarmos de tal forma que x  vt  constante , também a função será
constante: f x  vt  C . De facto, deslocando-nos com a velocidade da onda,
estaremos sempre a acompanhar o mesmo ponto (ou fase) do pulso.

77
Ondas progressivas

Se a agitação que produz um pulso se repetir periodicamente cria-se uma onda


persistente que se propaga, por exemplo, da esquerda para a direita (onda progressiva).
A onda pode ter uma forma qualquer, mas haverá sempre uma repetição no espaço e no
tempo. A Fig. 15.3 representa uma onda arbitrária num dado instante t. A oscilação
espacial é qualquer, mas note-se que há uma repetição.

Figura 15.3

Veremos mais à frente, as características gerais das ondas. Podemos, contudo, referir
desde já uma delas − o comprimento de onda − indicada na Fig. 15.3: é a distância entre
dois pontos na mesma fase de vibração. Do ponto de vista matemático, se designarmos
a função que descreve a onda – uma função do espaço e do tempo - por y ( x, t ) , a
repetição no espaço exprime-se por

y ( x, t )  y ( x   , t )  y ( x  2 , t )  ... (15.1)

Se nos fixarmos agora num certo ponto do espaço – o ponto arbitrário x, por exemplo, o
fenómeno ondulatório caracteriza-se por uma repetição no tempo, como se mostra na
Fig. 15.4. O tempo T que um ciclo demora a ser executado chama-se período e está
representado na mesma figura.

Figura 15.4

Do ponto de vista matemático a repetição da função para qualquer ponto x, ao fim do


tempo T exprime-se por

y ( x, t )  y ( x, t  T )  y ( x, t  2T )  ... (15.2)

Ondas longitudinais e transversais e polarização

Nas ondas de matéria, como numa corda vibrante, por exemplo, a perturbação é
a oscilação das partículas do meio relativamente à sua posição de equilíbrio. Ora, essa

78
oscilação pode ocorrer de duas maneiras: ou na direção perpendicular à direção de
perturbação (como na corda oscilante da Fig. 15.1 ou na onda na água da Fig. 15.2), ou
na própria direção do movimento. No primeiro caso falamos em ondas transversais e no
segundo caso em ondas longitudinais. Em geral, no interior dos sólidos propagam-se
ondas transversais e longitudinais (há ondas sísmicas dos dois tipos). Mas no interior
dos gases e líquidos apenas se propagam ondas longitudinais. Um sólido pode-se
comprimir ou torcer (e por isso há ondas dos dois tipos) mas um fluido não se pode
torcer! Apenas pode ser comprimido (ou expandido) e portanto só pode haver ondas
longitudinais.
Uma onda sonora no ar é a propagação de uma perturbação causada num certo
sítio − por exemplo, na laringe junto das cordas vocais quando se fala. A oscilação das
partículas do ar cria zonas de compressão e de rarefação do ar ou seja, zonas onde a
pressão é maior e onde é menor do que a pressão média. O som é pois uma onda de
pressão. A Fig. 15.5 mostra como varia a pressão num ponto P em instantes diferentes
(as zonas claras são as de menor pressão e as escuras as de maior pressão).

Figura 15.5

Se a perturbação que dá origem à onda for pontual, a onda criada será esférica (ou
circular se a propagação se der em 2 dimensões como na água de um lago quando se
atira uma pedra). A Fig. 15.6 mostra a propagação da onda longitudinal (onda sonora,
por exemplo) a partir de um ponto e em todas as direções. As setas indicam as
oscilações das partículas do ar. Essas oscilações dão-se na direção do movimento, quer
dizer, “para a frente e para trás”.

Figura 15.6

79
As linhas circulares representadas na figura são os lugares geométricos dos pontos que
estão na mesma fase de oscilação: chamam-se frentes de onda. A distância entre duas
frentes de onda é um comprimento de onda.
No caso das ondas de mar as frentes de onda são retas paralelas como mostra a
Fig. 15.7. As oscilações agora são “para cima e para baixo” e portanto as ondas são
transversais. Também as ondas eletromagnéticas são ondas transversais embora não
haja partículas a oscilar mas sim campos elétricos e magnéticos oscilantes: essa
oscilação dá-se segundo direções perpendiculares à velocidade de propagação da onda.

Figura 15.7

Quando as frentes de onda são paralelas, como na Fig. 15.7, a onda diz-se plana. No
caso da Fig. 15.6 a onda diz-se esférica.
Há muitos aspetos comuns às ondas transversais e longitudinais mas existe um
apenas para ondas transversais: é a chamada polarização. Nas ondas longitudinais a
perturbação ocorre na direção de propagação. Mas nas ondas transversais a perturbação
tem lugar numa qualquer direção do plano perpendicular à direção de propagação. Se a
oscilação transversa se der segundo uma só direção dizemos que a onda é polarizada.
Um polarizador elimina todas as ondas transversais cuja oscilação não tenha lugar
segundo uma dada direção.
A Fig. 15.8 mostra o efeito de um polarizador. Antes do anteparo com a fenda
vertical as perturbações nas ondas transversais numa corda podem ser segundo uma
direção qualquer. O efeito do anteparo (polarizador) é o de “deixar passar” apenas a
componente da onda na direção. Depois de passar o anteparo a onda diz-se polarizada.
Também a luz, sendo uma onda transversal, pode ser polarizada. Essa polarização tem
muitas aplicações práticas. Uma delas é nos conhecidos óculos para visualizar filmes
em 3D. As “lentes” desses óculos são polarizadores de luz.

Figura 15.8 [Fonte: “Introdução à Física”, Jorge Dias de Deus e tal., 2ª ed., MaGraw-
Hill, Lisboa (2000)]

80
Ondas sinusoidais e características gerais das ondas

Vimos atrás que período e comprimento de onda eram duas características da


onda, a primeira ligada à repetição temporal do fenómeno e a outra à repetição espacial.
Que relação existe entre estas duas grandezas,  e T? Consideremos uma onda que se
propaga, por exemplo no sentido positivo do eixo dos xx. Vimos que a dependência em
x e t é da forma y ( x, t )  f ( x  vt ) . Por outro lado as equações (15.1) e (15.2)
permitem escrever

y ( x, t )  f ( x  vt )  y ( x   , t  T )  f ( x    vt  vT ) (15.3)

e portanto

x  vt  x    vt  vT (15.4)

donde

  vT ou v (15.5)
T

Esta equação permite-nos afirmar que a onda avança a distância de um comprimento de


onda num intervalo de tempo igual ao período. As expressões (15.5) que relacionam o
parâmetro que caracteriza a repetição no espaço com o que caracteriza a oscilação no
tempo resultam afinal da forma da dependência espácio-temporal numa onda.
Quando se faz o estudo das ondas consideramos normalmente ondas sinusoidais.
Uma possível expressão matemática de uma onda sinusoidal que se propaga da esquerda
para a direita com velocidade v é:
 2  x 
y ( x, t )  f ( x  vt )  A sin    t  (15.6)
 T  v 

onde A é a amplitude da onda. É esta característica da onda que temos presente quando
dizemos simplesmente se uma onda é grande ou pequena. A expressão da onda
sinusoidal (2.6) parece intrincada... Comecemos por reconhecer que a dependência em
x  vt “está lá”, embora numa forma que difere desta unicamente por um fator
constante. O T em denominador introduziu-se para tirar dimensões ao argumento do
seno: de facto, o período é o único parâmetro disponível com a dimensão de um tempo e
obviamente o argumento do seno não pode ter dimensões. Finalmente, o fator 2 é
simplesmente uma constante. É costume definir a chamada frequência angular a partir
do período através de

2
 . (15.7)
T

Analogamente define-se o número de onda através de

2
k . (15.8)

81
Em função destas quantidades, a expressão matemática da onda sinusoidal escreve-se

y( x, t )  A sin kx  t    (15.9)

Relativamente a (15.6) acrescentámos agora uma fase na origem,  , pois o valor de y


em t  0 e x  0 pode não ser zero.
As Figs. 15.9 e 15.10 mostram ondas sinusoidais, em representação no espaço e
no tempo, respetivamente. Indicam-se nas figuras a amplitude da onda (A), o
comprimento de onda (  ) e o período (T).

Figura 15.9

Figura 15.10

No quadro seguinte sintetizam-se algumas relações entre as características das ondas


sonoras e eletromagnéticas (região do visível)  como a amplitude e a frequência  com
características que, no dia-a-dia, atribuímos ao som e à luz

Amplitude Frequência
+  + 
Som forte fraco agudo grave
Luz intensa fraca azul vermelho

Fazemos notar, por fim, que a redução do estudo das ondas a ondas sinusoidais
não é limitativa. De facto, mostra-se, pela análise de Fourier, que uma função qualquer
se pode escrever como a sobreposição de ondas sinusoidais.

82
16.

Reflexão de ondas e leis da reflexão. Refração de ondas e leis da refração.

Reflexão de ondas e leis da reflexão

As frentes de onda são o lugar geométrico dos pontos que estão na mesma fase
de vibração. A distância entre as frentes de onda é o comprimento de onda. A Fig. 16.1
mostra frentes de ondas esféricas (a fonte que produz a onda é pontual) e de ondas
planas (a fonte que produz a onda é longa).

Figura 16.1

Na direção perpendicular às frentes de onda podemos desenhar os raios que indicam a


direção de propagação.
Se a onda for sinusoidal, é descrita genericamente por

yx, t   A sin  (16.1)

sendo  a fase. Se se tratar de uma onda progressiva que se propaga no sentido positivo
do eixo dos xx, a fase é dada por   kx  t   . Os pontos de interceção dos raios
com uma frente de onda estão na mesma fase.
A representação das ondas pelas frentes de onda e/ou pelos raios é sugestiva e,
embora seja esquemática é suficientemente rica para permitir o estudo de alguns
fenómenos ondulatórios. Contam-se entre estes a reflexão e a refração de ondas.
Vamos começar por estudar a reflexão de ondas, tomando uma onda plana que
incide obliquamente numa superfície refletora plana (a que chamamos espelho plano no
caso da reflexão da luz). A onda pode ser representada pelos raios incidentes i e i’, ou
pelas frentes de onda. A Fig. 16.2 mostra estes raios incidentes (a vermelho) e também
os refletidos (a azul).

i' r

i r'


d
Y T

X W

83
Figura 16.2
Os pontos A e B pertencem a uma mesma frente de onda, logo estão na mesma fase que
podemos considerar nula:  A   B  0 . Também os pontos X e Y estão na mesma fase
(X é um ponto onde se dá a reflexão):  X   Y , tendo-se  X  kd  t , sendo t o tempo
que a frente de onda demora a percorrer a distância d. Em X, o raio incidente é refletido,
emergindo o raio r segundo uma direção que, à partida, não conhecemos. Mas essa
direção vai ser também a direção do raio r’ que resulta da reflexão de i’ no ponto W,
pois os pontos X e W estão em pé de igualdade. Assim, se ii’ são raios paralelos,
também rr’ o são (embora, insistimos, não saibamos segundo que direção se propagam).
Logo, os pontos T e W pertencem à mesma frente de onda e portanto estão “em fase”:
 T   W . Para tal acontecer, o tempo t’ que a frente em Y demora a chegar a W tem de
ser igual ao tempo que a frente em T (já do raio refletido) demorou a lá chegar a partir
de X. Explicitamente, as fases em T e Y são

 T   X  k XT  t ' e  W   Y  k YW  t ' (16.2)

Sendo estas duas fases iguais, as distâncias percorridas também terão de ser iguais:
XT  YW . A Fig. 16.3 representa com mais pormenor a parte de baixo da Fig. 16.2.
Como a hipotenusa XW é comum aos dois triângulos retângulos e os catetos YW e XT
são iguais, segue-se que os ângulos  e  representados na figura são também iguais.
Y T

 
X W
Figura 16.3

Na análise do fenómeno de reflexão é mais vulgar considerar os chamados


ângulos de incidência e de reflexão que são os ângulos que os raios incidente e refletido
fazem com a direção normal no ponto de incidência. São os ângulos i e r indicados na
Fig. 16.4. O ângulo i é o complementar de  e o ângulo r é o complementar de  .
Concluímos a seguinte lei da reflexão: o ângulo de incidência é igual ao ângulo de
reflexão, ou seja
ângulo i = ângulo r. (16.3)

84
Figura 16.4
Este resultado é geral e não faz referência a aspetos muito específicos que possam
ocorrer no ponto de reflexão. A onda luminosa, por exemplo, por reflexão pode mudar a
fase de  radianos. Mas tais aspetos não comprometem os raciocínios seguidos pois o
que acontece em X para o raio i acontece da mesma maneira em W para o raio i’.
Um outro aspeto que vale a pena referir prende-se com a lei de reflexão das
ondas seguir a mesma lei de uma simples reflexão mecânica de uma partícula que incide
obliquamente numa parede rígida. Esta similitude levou Newton a desenvolver uma
teoria corpuscular para a luz que, no entanto se viria a revelar insatisfatória (não
explicava fenómenos de interferência e difração, para além de ter outros problemas).
Não obstante, séculos mais tarde, Einstein viria a propor uma nova teoria corpuscular
para a luz (para explicar o efeito fotoelétrico). Só a mecânica quântica viria a tornar
compatíveis as visões corpuscular e ondulatória (tanto para a luz como para a matéria).

Refração de ondas e leis da refração

Estudamos agora a situação em que uma onda incide na interface de dois meios
(que se considera plana). Os meios 1 e 2 têm propriedades diferentes, sendo em
particular diferentes as velocidades de propagação das ondas: v1  v2 . O raio i ao atingir
o ponto X da interface propaga-se no meio 2 mudando de direção (que vamos
determinar). Tem-se o mesmo desvio para o raio i’ ao atingir o ponto W (Fig. 16.5) pois
os pontos X e W estão em pé de igualdade. Logo, um feixe de raios paralelos no meio 1
propaga-se ainda como um feixe de raios paralelos no meio 2. Tal como no caso da
reflexão, os pontos X e Y estão em fase,  X   Y , tal como os pontos T e W,  T   W .
Se considerarmos fase nula nos pontos X e Y podemos escrever as fases em T e W do
seguinte modo

 XT   YW 
 T     t  e  W     t  (16.4)
 v 2   v1 

Para escrever esta expressão, tivemos em conta que a onda mantém a frequência em
qualquer meio onde se propaga, e o raio i’ demora o tempo t a percorrer a distância d1
de Y a W , o mesmo tempo que o raio já refratado demora a percorrer a distância d2 de
X a T (assim se garante a mesma fase em T e W).

i'
i

Y
d1

meio 1 X
meio 2 W
d2 T

rf rf'

85
Figura 16.5

A expressão anterior permite concluir que

YW XT
 (16.5)
v1 v2

A Fig. 16.6 mostra em pormenor a parte central da Fig. 16.5.

X 
W

T
Figura 16.6

Se dividirmos ambos os membros de (16.5) pela hipotenusa comum aos dois triângulos
retângulos representados na Fig. 16.6, podemos escrever

sin  v1
 (16.6)
sin  v2

Como mostra a Fig. 16.6, o ângulo  é também o ângulo que o raio incidente forma
com a direção normal no ponto de incidência − é pois igual ao ângulo de incidência i.
Por outro lado, o ângulo  é também o ângulo que o raio refratado forma com a normal
− é o ângulo de refração R (ver Fig. 16.7).

meio 1
meio 2

R
rf

86
Figura 16.7
A expressão anterior pode escrever-se em função destes dois ângulos. Na situação
representada na Fig. 16.7, o ângulo de refração é superior ao ângulo de incidência, o que
significa que a velocidade de propagação da onda no meio 2 é maior do que no meio 1.
Define-se o índice de refração, n, como a razão entre a velocidade de
propagação da onda num meio de referência e no meio em questão. No caso da luz o
meio de referência é o vazio e

c
n , (16.7)
v
onde c é a velocidade da luz no vazio e v no meio em questão. A Eq. (16.6) passa a
escrever-se

sin i n2
 (16.8)
sin R n1

que é uma lei da refração. De uma maneira geral, o segundo membro desta equação é o
índice de refração do meio 2 relativamente ao meio 1. Se n2  n1 , o raio refratado
aproxima-se da normal e vice-versa.
No caso da passagem da luz do ar para a água, nar  1  nágua (diz-se que a água
é um meio mais refringente do que o ar) e o raio luminoso aproxima-se da normal. Se a
luz passar da água para o ar, afasta-se da normal, como se mostra na Fig. 16.8.

i r

i r rf
R
ar ar
água água
i r
R

rf i r

Figura 16.8

Quando a onda incide num interface vinda de um meio mais refringente pode ocorrer a
chamada reflexão total. Como o próprio nome indica, a onda é totalmente refletida e não
há onda refratada. Quando a onda passa de um meio com maior índice de refração para
um meio com menor índice de refração, o raio afasta-se da normal. Esse afastamento é
máximo quando o ângulo de refração vale 90º. Para um tal ângulo de refração de 90º, o
correspondente ângulo de incidência chama-se ângulo limite que se mostra na Fig. 16.9.

87
ar rf
água
ilim

i r

Figura 16.9

Por outras palavras, para uma incidência segundo o ângulo limite, o raio refratado é
rasante. Para incidências segundo ângulos superiores deixa de haver raio refratado. O
ângulo limite depende dos índices de refração dos meios. Tomando na expressão (16.8)
R = 90º, conclui-se que

n 
ilim  arcsin  2  (16.9)
 n1 
sendo o meio 1, aquele onde se propaga a onda (o de índice de refração maior). Para a
interface água-ar o ângulo limite é cerca de 50º.
A reflexão total tem a vantagem de a energia não se propagar para um outro
meio, mantendo-se no meio 1  não há perda (degradação) de energia. Há muitas
aplicações tecnológicas da reflexão total. Uma delas é na fibra ótica que é um suporte
muito eficiente para a transmissão de informação.

88
17.

O som e sua intensidade. Sons e ultrassons. Nível de intensidade do som e audibilidade.

O som e sua intensidade

A onda sonora é uma onda de pressão longitudinal: num dado instante, a pressão
ao longo do espaço alterna entre máximos e mínimo. E, num dado ponto, a pressão
aumenta e diminui ao longo do tempo.
A parte da Física que se ocupa do estudo do som chama-se acústica. Há sons
muito diferentes produzidos de maneiras muito diferentes. A fala, que resulta da
vibração das cordas vocais, é apenas uma delas. O ouvido humano permite ouvir e
distinguir sons muito variados. A altura, a intensidade e o timbre do som, permitem-nos
distinguir os sons uns dos outros e identificar, por vezes, a sua origem.
A Fig. 17.1 mostra uma “lâmina vibrante”.

Figura 17.1

Quando a lâmina começa a vibrar ouve-se um som e, modificando o


comprimento, l, da parte livre da lâmina esse som resultante da vibração da lâmina
modifica-se. Essa diferença ocorre porque é diferente número de oscilações que a
lâmina executa por unidade de tempo (número de movimentos completos de vaivém
efetuados num segundo pela ponta da lâmina). Tem portanto a ver com a frequência (ou
com o período) do movimento. O funcionamento das nossas cordas vocais é
semelhante. As cordas vocais possuem músculos que as podem esticar mais ou menos, o
que lhes permite vibrar de formas diferentes  tanto em frequência como em amplitude
 quando fazemos passar ar por elas. Para a produção da voz humana também
contribuem o nariz e a boca (lábios e língua), bem como os pulmões.
A oscilação da lâmina representada na Fig. 17.1 força as partículas do ar em
volta a oscilar, a perturbação no ar propaga-se e gera-se uma onda sonora. Quando uma
onda sonora atinge a membrana do tímpano no nosso ouvido, esta entra em vibração e
desencadeia-se um conjunto de processos que nos permitem percecionar o som. A onda
sonora entra pela orelha e é canalizada pelo canal auditivo (ouvido externo) para o
tímpano, que vibra. Essa vibração é depois transmitida a um sistema ósseo constituído
pelo martelo, bigorna e estribo (ouvido médio). A vibração passa ao ouvido interno
onde os canais semicirculares fazem a ligação ao nervo auditivo. A vibração é

89
convertida em impulso elétrico, o qual é comunicado ao cérebro (Fig. 17.2). O tempo
mínimo para que um som seja percecionado a seguir a outro é 0,1 s. Dois sons, para
serem distinguidos, têm pois de chegar ao ouvido com um intervalo de tempo superior a
0,1 s.

Figura 17.2

A intensidade é a característica que permite distinguir um som forte de um som


fraco. Na linguagem comum diz-se que um som é forte quando pode ser ouvido a uma
distância grande. Caso contrário, o som é fraco. Quando se tange a corda de uma viola,
o som emitido será tanto mais forte quanto maior for a amplitude da vibração da corda
e, portanto, quanto maior for a força exercida na corda. O diapasão emite um som mais
intenso se for percutido com mais força e menos intenso se for percutido com menos
força. A lâmina da Fig. 17.1 produz um som tanto mais intenso quanto maior for a
amplitude da sua oscilação.
A onda sonora associada a um som menos intenso tem uma amplitude menor do
que a onda associada a um som mais intenso. No primeiro caso as partículas do ar
vibram menos (quer dizer, vibram com uma amplitude menor) do que no segundo caso,
originando menores oscilações de pressão (ou de densidade).
Um som produzido, por exemplo, por um pequeno diapasão propaga-se em
todas as direções. A energia emitida por unidade de tempo a partir da fonte distribui-se
por áreas sucessivamente maiores. Portanto, a mesma energia vai pôr a vibrar mais
partículas e, por isso, cada partícula vibra menos. Se uma pessoa estiver perto da fonte
sonora, o seu tímpano vibrará com amplitude maior do que se estiver longe, causando
sensações bem diferentes.
As partes a vermelho, verde e amarelo na Fig. 17.3 representam calotes esféricas
(porções de superfície esférica), todas com a mesma área, perpendiculares à direção de
propagação do som. Para a esfera mais próxima da fonte a área vermelha é uma fracção
da superfície esférica a maior do que a área verde (da segunda calote) relativamente à
superfície esférica b; esta fracção é, por sua vez, ainda maior do que a área amarela
(calote mais exterior) relativamente à superfície esférica c. Como por cada uma das
superfícies esféricas fechadas a, b e c passa a mesma energia, às calotes vermelha, verde
e amarela – que têm áreas iguais – chegam energias sucessivamente menores.

90
Figura 17.3

Se a fonte no centro emitir a energia E no intervalo de tempo t , a sua potência


é

E
P . (17.1)
t

Num mesmo intervalo de tempo, a energia que atravessa cada uma das superfícies
esféricas a, b e c da Fig. 17.3 é a mesma (admitindo que não há absorção no meio, o que
nem sempre acontece). De resto, a energia que, por unidade de tempo, atravessa
qualquer superfície fechada que envolva a fonte é ainda a mesma se não houver
absorção no meio. A intensidade é a energia que, por unidade de tempo, atravessa uma
unidade de área perpendicular à direção de propagação:

P E
I  , (17.2)
S St

onde S é a área da superfície. Então, sobre qualquer ponto da superfície esférica a de


raio ra, a intensidade é

P
Ia  . (17.3)
4  ra2

Se quisermos saber a energia (Ea) que atravessa a calote vermelha (de área Sa) num
intervalo de tempo  , só temos de multiplicar a intensidade (17.3) por esta área e pelo
tempo: Ea  I a  Sa   .
A expressão (17.3) mostra que, para uma fonte pontual que emita com uma
potência constante P, a intensidade é inversamente proporcional ao quadrado da
distância. Mostra ainda que no Sistema Internacional a intensidade se exprime em watts
por metro quadrado (W/m2).
Por outro lado, a energia associada à onda depende do quadrado da amplitude
da onda, ou seja E  A2 . Por exemplo, uma onda sonora com amplitude dupla de outra
transporta uma energia que é quatro vezes superior. A intensidade, dado que é

91
proporcional à energia  vide (17.2)  também depende do quadrado da amplitude da
onda. No caso da radiação eletromagnética, a energia depende do quadrado dos campos
elétrico e do campo magnético. Quando se escreve a energia da radiação
eletromagnética monocromática como E  nh a dependência com o quadrado da
amplitude está no fator n.
Voltaremos, mais à frente a falar da intensidade do som. Antes, porém, vamos
ver uma outra característica do som: a altura.

Sons e ultrassons

Uma outra característica do som é a altura. Na linguagem comum fala-se em


som agudo (ou fino) e em som grave (ou grosso). Em acústica o primeiro chama-se som
alto e o segundo som baixo. A lâmina vibrante da Fig. 17.1 produz um som tanto mais
alto quanto mais curta for a sua parte livre pois a lâmina mais curta realiza maior
número de vibrações por unidade de tempo do que a lâmina mais longa. A altura do som
está diretamente relacionada com o número de vibrações efetuadas por unidade de
tempo (frequência). Quando a corda mais grossa de uma viola é tangida executa menos
vibrações por unidade de tempo do que a corda mais fina. A primeira produz um som
baixo e a segunda um som alto.
É a altura do som musical que fixa o seu lugar na escala musical. A nota musical
de referência é o lá (mais precisamente o “lá3”) cuja frequência é 440 Hz. A onda
sonora correspondente produz 440 vibrações por segundo nas partículas do meio onde
se propaga. O comprimento de onda no ar é lá = 340 / 440  0,77 m.
O ouvido humano só é sensível a ondas sonoras com certas características de
intensidade e de altura, quer dizer, há sons audíveis e sons não audíveis. Só são
percecionadas pelo ouvido humano normal ondas sonoras com frequências
compreendidas entre os 20 Hz e os 20 000 Hz, aproximadamente (os sons musicais
agradáveis têm frequências inferiores a 5000 Hz; os sons mais altos já se tornam
desagradáveis). Os sons naquela “banda de frequências” dizem-se audíveis. Se a
frequência for inferior a 20 Hz os sons são denominados infrassons. Os ultrassons, por
seu lado, têm frequência superior a 20 000 Hz. Os cães conseguem ouvir sons numa
“banda de frequências” mais larga do que o homem: são sensíveis a ondas sonoras
compreendidas entre 15 Hz e 50 000 Hz. Os morcegos, as baleias e os golfinhos podem
ouvir e emitir ondas sonoras com frequências até 120 000 Hz!
O sonar (nome formado pelas iniciais de sound navigation and ranging) é um
sistema de localização e prospeção de obstáculos por meio de ondas sonoras, tirando
partido da sua reflexão. Uma maneira de conhecer a profundidade do mar num certo
sítio recorre a este instrumento. De um navio enviam-se ondas sonoras (na zona dos
ultrassons, com frequências de 40 000 a 50 000 Hz) em direção ao fundo do mar. Estas
ondas são refletidas e detetadas de novo no navio. Pelo tempo t que decorre entre a
emissão e a receção dos ultrassons  ou seja, o seu eco  , e uma vez conhecida a
velocidade de propagação do som na água, v, fica a saber-se a profundidade:
vt
d  (17.4)
2

(notar o fator 2, porque há um percurso de ida e outro de volta). Este método tornou
possível traçar, com grande rigor, o mapa do fundo dos oceanos. Certos navios
pesqueiros (Fig. 17.4) também utilizam o sonar para detetar cardumes (nesse caso são
os peixes que refletem a onda sonora).

92
Figura 17.4

Nas ecografias, bastante comuns em diagnóstico médico, utilizam-se


ultrassons com frequências da ordem do milhão de ciclos por segundo (megahertz,
MHz). Com a ecografia podem obter-se imagens do interior do corpo humano por
exemplo de bebés antes de nascerem (Fig. 17.5).

Figura 17.5 Nível de intensidade do som e audibilidade

O ouvido humano normal distingue uma gama muito vasta de intensidades. A


intensidade sonora mais pequena que pode ser percecionada é de 1012 W/m2, que é
chamado limiar de audição. Uma intensidade de 1 W/m2 causa dor e uma intensidade
de 104 W/m2 causa a rutura da membrana do tímpano. Numa conversa normal a
intensidade do som, quando atinge o tímpano, é cerca de 107 W/m2.
A intensidade sonora não é, de facto, uma grandeza muito apropriada devido à
gama muitíssimo alargada de valores possíveis que vai de 1012 W/m2 a 104 W/m2, ou
mais ainda! Como cada potência de 10 é uma ordem de grandeza, têm-se 16 ordens de
grandeza! Além disso, o ouvido humano não avalia de forma diretamente proporcional
as diferentes intensidades sonoras: por exemplo, um som com o dobro da intensidade de
outro causa uma sensação auditiva que não parece ser o dobro. Os sons mais fortes
parecem menos intensos do que são de facto.

93
Por estes motivos criou-se uma outra grandeza física, designada por nível de
intensidade sonora, relacionada com a intensidade. O nível de intensidade sonora mede-
se em decibéis, unidade que se representa por dB. O limiar de audibilidade (mínimo que
se consegue ouvir) corresponde a 0 dB e o limiar de dor (máximo que se consegue
aguentar) corresponde a 120 dB. Pode obter-se o nível de intensidade sonora, em
decibéis, a partir da intensidade, em watts por metro quadrado. A correspondência está
indicada na Tabela 17.1. Por exemplo, o nível de intensidade correspondente a 107
W/m2 é 50 dB.

Intensidade
/W/m2 100=
12 11 10 9 3 2 1
10 10 10 10  10 10 10 1
Nível de intensidade
/dB
0 10 20 30  90 100 110 120

Tabela 17.1

A Tabela 17.2 indica os níveis de intensidade (que se medem com sonómetros)


em diversas situações.

Situação Nível de intensidade

Limiar de audição 0 dB
Sussurro de folhas 10 dB
Conversa muito baixa 20 dB
Conversa normal 50-60 dB
Trânsito intenso 80 dB
Discoteca / limiar de dor 120 dB
Avião a jacto a 20 m 130 dB

Ruptura do tímpano 160 dB

Tabela 17.2

Se designarmos por I0 = 1012 W/m2 a intensidade do limiar de audibilidade, o nível


de intensidade em decibéis relaciona-se com a intensidade I de acordo com
 I 
nível de intensidad e em dB :   10  Log   (17.5)
 I0 
(ao nível de intensidade chama-se, por vezes, simplesmente intensidade).

94
O ser humano não ouve todas as frequências da mesma maneira. Alguns tipos de
surdez parcial resultam da incapacidade da pessoa ouvir sons com certas frequências,
qualquer que seja o seu nível de intensidade. Outro tipo de surdez, mais frequente
nas pessoas idosas (mas não só), resulta da insensibilidade do aparelho auditivo a
sons pouco intensos. Hoje em dia existem próteses auditivas que melhoram
consideravelmente a capacidade auditiva.
Um audiograma é um gráfico que representa o nível de intensidade em função
da frequência e que permite averiguar se os ouvidos estão a funcionar bem. Os
audiómetros, que são os aparelhos utilizados para registar os audiogramas, fazem
obviamente parte do equipamento de qualquer otorrinolaringologista. A Fig. 17.6
representa um audiograma de uma pessoa normal. Para uma dada frequência, vai-se
variando o nível de intensidade desde 0 dB até ao limiar de dor. A curva de baixo do
audiograma mostra o nível de intensidade mínima para que a pessoa possa ouvir o
som. A curva de cima tem um valor aproximadamente constante (120 dB). Como se
vê na figura 3.33, a pessoa consegue ouvir desde frequências pouco superiores a 20
Hz até frequências um pouco menores do que 20 000 Hz. Para uma frequência de
cerca de 3000 Hz o ouvido humano normal consegue detectar um som praticamente
de 0 dB.

Figura 18.6

95
18.
Efeito Doppler. Fonte em movimento. Recetor em movimento. Velocidades
supersónicas. Aplicações do efeito Doppler

Efeito Doppler

Todos conhecem a modificação que ocorre no apito de uma sirene de um veículo


de emergência quando se aproxima ou se afasta de nós: fica mais agudo quando se
aproxima e mais grave quando se afasta. Esta alteração da frequência do som (ou de
uma onda em geral), devida ao movimento da fonte em relação ao recetor, é conhecida
por efeito Doppler, em homenagem ao físico austríaco do século XIX Christian Doppler
que estudou o fenómeno aprofundadamente.
Independentemente da velocidade da fonte e/ou do recetor, a velocidade de
propagação de uma onda num meio é sempre a mesma. O som, por exemplo, propaga-se
no ar a cerca de 340 m/s, qualquer que seja a velocidade da fonte em relação ao ar.
No estudo do efeito Doppler que se segue usaremos a seguinte notação:
designamos por v a velocidade de propagação da onda no meio ( v  340 m/s para a
onda sonora no ar em condições PTN); designamos por vF a velocidade da fonte
relativamente ao meio (estático) onde a propagação se dá; finalmente, designamos por
vR a velocidade do recetor também em relação ao meio.
Em vez de considerarmos uma onda contínua do tipo sinusoidal, imaginemos
antes que uma fonte produz impulsos instantâneos com período T, que se propagam

com velocidade v , como mostra a Fig. 18.1.

   
v
. . .

emissor receptor

Figura 18.1

Se não houver movimento relativo fonte-recetor, este receberá os impulsos com a


mesma periodicidade com que são emitidos, ou seja, com período T. Designamos por f a
frequência dos impulsos do ponto de vista do emissor e por f ' a frequência do ponto de
vista do recetor. Tem-se, por um lado,

v
f  (18.1)

e, por outro lado, f  f ' . Vejamos então qual é a modificação da frequência que ocorre
quando há movimento da fonte e do recetor.

Fonte em movimento

No instante inicial é produzido o impulso I0 que começa a propagar-se com


velocidade v [parte a) da Fig. 18.2]. Decorrido um período, T, este impulso está à

96
distância   vT do ponto onde foi produzido. Entretanto a fonte, durante um período
deslocou-se de uma distância d  vFT como se mostra na parte b) da Fig. 18.2. É então
produzido um novo impulso I1 que se começa a deslocar, tal como I0, com velocidade v.
Para simplificar a análise consideramos que a velocidade da fonte é na direção e sentido
da velocidade de propagação da onda.

 v

t=0  a)
vF


  v

 b)
t=T
vF
d '

   v
c)
t = 2T 
vF

Figura 18.2

Na situação representada em c) decorreu mais um período, tendo a fonte avançado 2d


relativamente à posição inicial. É claro que por causa do movimento da fonte o
comprimento de onda (distância entre dois impulsos sucessivos), que designamos por
 ' vai ser menor do que o inicial,  . Estes comprimentos de onda estão indicados tando
na Fig. 18.2 como na Fig. 18.3, onde se mostra em paralelo o caso de fonte parada e de
fonte em movimento.

   
fonte
parada 

fonte em    
movimento
'

Figura 18.3

A relação entre os dois comprimentos de onda é

 '    d    vF T . (18.2)

97
Como   vT , obtemos

 vF 
 '   1  . (18.3)
 v 

Em função das frequências f '  v /  ' e f  v /  encontra-se a expressão

v
f ' f . (18.4)
v  vF

Se a velocidade da fonte tiver sentido contrário ao da velocidade de propagação da


onda, o sinal menos em denominador é substituído pelo sinal +:

v  fonte afasta - se
f ' f  (18.5)
v  vF   fonte aproxima - se

Quando a fonte se afasta (sinal +) a frequência diminui. Quando a fonte se aproxima, a


frequência aumenta. E aumenta tanto mais quanto mais próxima da velocidade de
propagação for a velocidade da fonte. Quando as duas velocidades se igualam o emissor
acompanha a frente de onda. No caso das ondas sonoras, se a velocidade da fonte for
superior à velocidade do som, falamos em velocidade supersónica da fonte. Voltaremos
a este assunto mais à frente.

Recetor em movimento

Vejamos de seguida o efeito Doppler devido ao movimento do recetor. Poder-se-


ia pensar que tanto faz que seja o recetor a aproximar-se (afastar-se) da fonte como esta
a afastar-se (aproximar-se) do observador. Embora qualitativamente assim seja,
quantitativamente não é, devido à existência de um meio imóvel onde se dá a
propagação. No caso luz, como não existe esse meio (não há éter! A luz propaga-se no
vazio) só importa o movimento relativo fonte−observador. Mas aí tem de se levar em
conta um outro efeito (do âmbito da Teoria da Relatividade) a juntar ao efeito Doppler
que vimos anteriormente, que é a chamada “dilatação do tempo”.
Consideremos frentes de onda ou os impulsos mencionados nas figuras
anteriores separados do comprimento de onda  . Nas circunstâncias da Fig. 18.1 em
que fonte e recetor estão parados (não só um em relação ao outro mas também ambos
em relação ao meio onde a propagação se dá) num intervalo de tempo t o recetor
recebe n  ft impulsos (relembra-se que a frequência é o número de impulso por
n v v  vR
unidade de tempo: f  ). Este número, n  t , é aumentado para n '  t
t  
se o recetor viajar na direção do emissor (ver Fig. 18.4).

98
    
v vR

receptor

Figura 18.4
n'
A nova frequência, f '  − aquela que é medida pelo recetor − relaciona-se com a
t
anterior do seguinte modo:
v  vR v  vR
f '  f (18.6)
 v

No caso de haver afastamento do recetor relativamente ao emissor, o sinal positivo no


numerador é substituído pelo sinal negativo.
v  vR  receptor aproxima - se
f ' f  (18.7)
v   receptor afasta - se

Tal como antes, a frequência aumenta se houver aproximação e diminui se houver


afastamento. Aliás, esta expressão e a expressão (18.5) podem ser combinadas numa
só:
v  vR
f ' f (18.8)
v  vF
devendo proceder-se à correta escolha de sinais: se houver aproximação f '  f . Se
houver afastamento, f '  f . Se a direção de movimento da fonte e/ou do recetor for
diferente da velocidade de propagação da onda, temos de acrescentar nas segundas
parcelas do denominador e/ou do numerador o(s) cosseno(s) do(s) respetivo(s) ângulos.

Velocidades supersónicas

As figuras seguintes resumem as situações que descrevemos para o caso de uma


fonte pontual (produz ondas esféricas). Na situação a) da Fig. 18.5 o recetor capta a
onda com a mesma frequência com que é emitida. Em b) essa frequência diminui (pode
ser zero se a velocidade do recetor for igual ou superior à de propagação da própria
onda. Em c) a frequência aumenta.

a) b) c)

vF=0 vF=0 vF=0


vS=0 vS vS

Figura 18.5

99
Na Fig. 18.6 representa-se o caso em que há movimento da fonte pontual. O recetor em
A capta a onda com menor frequência e em B capta-a com frequência maior.

 vF 

Figura 18.6

E se a fonte tiver uma velocidade igual à da propagação da onda. Nesse caso a


perturbação é produzida num sítio onde já existe perturbação. No caso do som, esta
situação corresponde a um aumento da densidade e da pressão sobre uma mesma frente
(que é a sobreposição, na mesma região do espaço, de várias frentes).
Ainda no caso do som, se a velocidade da fonte for supersónica essa frente
“parte-se” em duas que fazem um ângulo  com a direção do movimento como se
mostra na Fig. 18.7.

vt

P P'

vFt

Figura 18.7

No intervalo de tempo t a frente de onda produzida em P deslocou-se de uma distância


vt ao passo que a fonte se deslocou de uma distância maior vF t. O ângulo  é tal que

v
sin   (18.9)
vF

O inverso desta quantidade é designada número de Mach. A parede do cone (triângulo a


duas dimensões) que se forma é a onda de choque. Quando um barco a motor vai num

100
rio com velocidade superior à da propagação na água das perturbações que ele cria
surge uma situação análoga à representada na Fig. 18.8. com o barco no vértice P’. As
“ondas de choque” são as ondas de grandes dimensões que se propagam em direção às
margens do rio.
A Fig. 18.8 mostra a onda de choque produzida por um avião supersónico. O
encurvamento da frente de onda é devido ao facto de o som não se propagar sempre
com a mesma velocidade nas diferentes camadas da atmosfera por estas estarem a
diferente pressão e temperatura.

Fig. 18.8 [Figura retirada do livro J.B. Marion e W.F. Hornyak, General Physics
with Bioscience Essays, John Wiley & Sons, 2nd Ed., New York (1985)]

Aplicações do efeito Doppler

O efeito Doppler pode ser integrado nas técnicas de imagiologia por ecografia.
Como vimos, as imagens por ecografia obtêm-se a partir dos tempos que medeiam entre
a emissão de um sinal e a receção do seu eco. Com a ecografia normal obtém-se
informação de posição. A medição do efeito Doppler permite obter, além disso,
informação de velocidade.
Nos “radares” da polícia de trânsito usa-se o efeito Doppler para se saber a
velocidade de um veículo. A onda eletromagnética emitida pelo radar é refletida no
veículo e reencaminhada para junto do emissor, onde existe um recetor. A frequência da
onda recebida é duplamente modificada relativamente à original se o veículo estiver em
movimento. Por um lado é “vista” pelo veículo com frequência modificada de acordo
com (18.7). Por outro lado, sendo reemitida por uma fonte em movimento, há uma
modificação dada por (18.5).

101
19.

Princípio de Huygens. Interferência, experiência de Young e rede de difração. Difração


por uma fenda. Difração de raios X.

Princípio de Huygens

Muitos fenómenos com radiação eletromagnética só podem ser explicados


evocando a natureza ondulatória da luz.
Existe um princípio empírico − o chamado Princípio de Huygens (ou de
Huygens-Fresnel) − que é muito útil para a explicação de numerosos fenómenos que
envolvam ondas. Segundo este princípio, proposto por Huygens no séc. XVII, cada
ponto de uma frente de ondas é um centro emissor de ondas esféricas. Assim, as frentes
de onda são o resultado da sobreposição de “ondículas” esféricas, tal como ilustra a
Fig. 19.1 para uma situação geral (do lado esquerdo) e para o caso particular da onda
plana (do lado direito).

A' A A'

B' t+t t t+t


t B B'
B

Figura 19.1

Nesta figura, AB é uma frente de onda num determinado instante, t. A frente de onda
num instante posterior t+Δt pode ser vista como a sobreposição de ondas esféricas
originadas em cada ponto da frente AB.
De acordo com o próprio Huygens, só as ondículas que se propagavam para a
frente eram “fortes” e interferiam construtivamente (este asserção só viria a ser
justificada no séc. XIX). Assim, ao utilizarmos o Princípio de Huygens devemos ter
presente que a interferência das ondículas é só “para a frente”.
O Princípio de Huygens pode ser visualizado numa tina de ondas. Com um
agitador produzem-se ondas planas na tina na qual foi colocada uma barreira, a toda a
largura do recipiente, com uma fenda muito estreita. Apesar de lá estar a barreira,
surgem ondas do outro lado. A onda que aparece do lado direito da barreira (Fig. 19.2)
pode ser vista como a ondícula produzida pelo ponto da frente de onda plana incidente
que não encontra qualquer obstáculo à sua frente. Mas a abertura na barreira tem de ser
muito estreita para que, do lado direito, as ondas sejam esféricas!

102
Figura 19.2 13

Nos esquemas da Fig. 19.3 mostra-se a propagação da onda plana do lado


esquerdo da barreira e o aparecimento da onda esférica do lado direito.

d<<

 

Figura 19.3

Insistimos que é muito importante que a abertura d seja estreita. De modo mais
quantitativo, digamos que d deve ser menor do que o comprimento de onda . Se assim
não fosse, do lado direito do obstáculo a onda já não seria esférica.
No lado esquerdo da Fig. 19.4 mostra-se uma outra imagem da tina de ondas no
caso de a abertura na barreira ser grande. A onda que se propaga do lado direito da
barreira, que já não é esférica, pode ser vista como a sobreposição das ondículas geradas
pelos pontos da frente de onda plana que não encontram a barreira pela frente, de acordo
com o esquema que se apresenta na parte direita da Fig. 19.4. Estudaremos adiante esta
situação (difração) para o caso de a fenda na barreira ser estreita (mas já não pontual).

Figura 19.4

13
Figura retirada do livro J.B. Marion e W.F. Hornyak, General Physics with Bioscience Essays, John
Wiley & Sons, 2nd Ed., New York (1985). As Figuras 19.4, 19.5 e 19.9 foram retiradas do mesmo livro.

103
Interferência, experiência de Young e rede de difração

Vimos que as ondas podiam interferir, sendo a perturbação resultante dessa


interferência, a soma das perturbações devidas a cada onda. Historicamente, foi
precisamente o fenómeno da interferência que serviu para demonstrar inequivocamente
o carácter ondulatório da luz.
Consideremos que uma onda plana incide num anteparo onde há dois pequenos
orifícios. De acordo com o princípio de Huygens, cada um dos orifícios é uma fonte de
ondas esféricas (de facto, circulares, a duas dimensões). A experiência pode ser feita
numa tina de ondas e o resultado é o que se mostra na Fig. 19.5.

Figura 19.5

As ondículas geradas em cada um dos orifícios vão sobrepor-se, por vezes


construtivamente, por vezes destrutivamente...
A experiência foi feita por Young, em 1803, que fez incidir luz numa dupla
fenda (experiência de Young). A Fig. 19.6 mostra as ondículas geradas em cada fenda
estreita, representando, as curvas azuis a cheio, as “cristas” das onda e as curvas
vermelhas a tracejado as suas “cavas”. Vai haver direções de máxima interferência
construtiva e direções de total interferência destrutiva (indicadas por “claro” e “escuro”
na Fig. 19.6). Mas para se ter este padrão é necessário que a luz (ou a onda em causa)
seja coerente o que significa que atinja os orifícios com a mesma fase e frequência. No
caso da Fig. 19.6 a onda incidente é plana e paralela à barreira pelo que os pontos da
frente de onda em A e B estão na mesma fase.



escuro

claro

escuro
A

d claro 

O
B
escuro

claro

crista
escuro alvo
cava


D (distância ao alvo)

Figura 19.6

104
Colocado um alvo a uma grande distância, D, das fendas, o resultado vai ser o
aparecimento no alvo de “figuras de interferência” que, no caso da luz, será uma
sequência de zonas claras e escuras. Por grande distância queremos significar D  d .
A Fig. 19.6 mostra que na direção que passa pelo ponto médio dos orifícios, a
interferência é construtiva (ponto O no alvo). Em suma, espera-se que o padrão de
interferência num alvo seja uma sequência de zonas claras e escuras de acordo com o
esquema da Fig. 19.7 (o ponto O é o centro da imagem no alvo).

zona clara

alvo
zona 
escura
Figura 19.7

Vejamos como explicar quantitativamente esta sequência de claros e escuros. Na


Fig. 19.8, os pontos A e B são os orifícios que geram as ondas esféricas de Huygens e O
o ponto no alvo onde sabemos ocorrer interferência construtiva (zona clara). A Fig. 19.8
não está, evidentemente, à escala, pois o alvo está muito afastado da barreira com os
dois orifícios (repetimos: D  d ).

P A
L1
ymax
A L2
 
d
O d
B C

C
B
D
alvo

Figura 19.8

Designamos por P um ponto do alvo onde a interferência é construtiva e por L1 e


L2 as distâncias percorridas pelos raios que partem de A e de B e atingem P. Haverá
interferência construtiva se a diferença entre estes dois comprimentos − segmento BC
na figura − forem iguais, se diferirem de um comprimento de onda ou de um número
inteiro de comprimentos de onda:

L1  L2  n, n  0,1,2, (19.1)

Este critério impõe, de imediato, que O seja um ponto com interferência construtiva
(n = 0). Insistimos no facto de a parte esquerda da Fig. 19.8 não estar à escala: de facto,
as linhas AP e BP na realidade são praticamente paralelas. O ângulo  é, portanto,
muito pequeno:   0 . O triângulo APC é isósceles: os ângulos internos nos vértices A
e C são iguais, sendo estes ângulos muito próximos de 90º. Assim, é boa aproximação

105
considerar que o triângulo ABC é retângulo em C como se mostra na parte direita da
Fig. 19.8. Note-se que o ângulo  nesse triângulo é igual ao ângulo que a direção do
ponto P relativamente ao ponto médio dos orifícios A e B faz com a direção horizontal.
O segmento BC  L1  L2 é um cateto desse triângulo, tendo-se

BC  L1  L2  d sin  . (19.2)

Combinando com a expressão (19.1), obtém-se

d sin   n . (condição de máximo) (19.3)

Voltando novamente ao lado esquerdo da Fig. 19.8, e dado que  é um ângulo pequeno
(o seno tem praticamente o mesmo valor da tangente), conclui-se que

y max
sin   tan   , (19.4)
D

onde ymax é a ordenada do ponto P onde há um máximo de interferência. Das duas


últimas expressões obtém-se, finalmente,

n D
y max  ( n  0,  1,  2, ) . (19.5)
d

Esta expressão indica-nos onde estão os pontos sobre o alvo para os quais a
interferência é construtiva. A posição no alvo é dada pela coordenada y, sendo o ponto
O escolhido para origem (ver Fig. 19.8). A separação entre dois máximos é

D
y  (19.6)
d

[notar que dois máximos consecutivos correspondem a dois valores sequenciais de n na


expressão (19.5)].
A Fig. 19.9 é uma imagem real de três casos de interferência de luz por duas
fendas separadas de distâncias diferentes. Na figura da esquerda a separação das zonas
claras e escuras,  y , é menor pelo que a separação entre as fendas, d, é maior

Figura 19.9

O estudo que fizemos refere-se à experiência de Young, ou seja, à interferência


de duas ondas esféricas produzidas por luz coerente que incide em duas fendas. E se em
vez de dois orifícios tivermos muitas fendas? A condição de máximo continua a ser a
mesma. Mostra-se que, se tivermos N+1 fendas (igualmente espaçadas) a condição de

106
máximo ainda é a condição (19.3) com ambos os membros multiplicados por um
mesmo fator N: do ponto de vista teórico chega-se, portanto à expressão (19.5) para a
posição dos máximos. Do ponto de vista prático, os máximos são muito mais nítidos e
as manchas claras muito mais estreitas: quando há sobreposição de muitas ondas em
fase o efeito é maior do que quando só há duas. Por outro lado, quando há pequenas
diferenças de fase entre muitas ondas os cancelamentos que ocorrem são maiores e o
resultado é a amplitude tornar-se nula. Se o número de fendas for muito grande temos
uma rede de difração e no alvo obtém-se uma sequência de riscas. A medição
experimental de  y fica muito mais facilitada como se pode inferir da Fig. 19.10 que
representa o mesmo que a Fig. 19.7 mas agora para várias fendas.





N 

Figura 19.10

A posição de um mínimo, ou seja de um ponto onde a interferência seja destrutiva, é


determinada usando um raciocínio análogo ao seguido para encontrar a posição dos
máximos. Há um mínimo quando as distâncias L1 e L2 diferem de meio comprimento
de onda ou de um número inteiro de comprimentos de onda mais meio comprimento de
onda, o que matematicamente se exprime por

 2n  1
d sin   n    (condição de mínimo) (19.7)
2 2

que substitui a expressão (19.3).

Difração por uma fenda

Já todos se terão apercebido de que não existe uma fronteira nítida entre luz e
sombra, o que se fica a dever a efeitos de difração. De facto, se olharmos atentamente
para a sombra projetada por um objeto quando é iluminado, mesmo que os seus
contornos sejam muito bem definidos, veremos sempre uma zona de penumbra entre a
parte de sombra e a parte iluminada.

107
A Fig. 19.11 mostra uma caixa onde se abriu numa face uma fenda de largura d.
Essa face da caixa é iluminada com uma fonte de luz distante, pelo que o feixe de luz se
pode considerar de raios paralelos. Na face oposta observa-se uma mancha iluminada
que tem exatamente a dimensão da fenda e, à primeira vista, não se notam efeitos de
difração.

luz

Figura 19.11

De facto, a difração só se irá observar nitidamente quando a fenda tiver uma dimensão
da ordem de grandeza do comprimento de onda.
O facto de o som e certas radiações eletromagnéticas de grande comprimento de
onda (como as ondas de rádio, por exemplo) contornarem obstáculos macroscópicos e
se espalharem tem a sua origem na difração. No caso da Fig. 19.11, as ondas
eletromagnéticas não se espalham ao entrarem na caixa porque a dimensão da fresta é
muito maior do que o comprimento de onda da luz visível que está a ser usada. Se o
tamanho da fresta diminuísse a zona iluminada também diminuía. Contudo, nunca
iríamos conseguir “apanhar” um raio de luz! A dada altura, a luz, se encontrasse uma
fresta do tamanho do seu próprio comprimento de onda, sofreria difração, ou seja,
espalhar-se-ia.
A Fig. 19.12 14 mostra uma tina de ondas onde foram geradas ondas planas que
se propagam da esquerda para a direita, indo encontrar uma barreira onde existe uma
pequena fresta. A situação é diferente da representada na Fig. 19.2 (onde a fenda tinha
dimensão desprezável) ou na Fig. 19.4 (onde a fenda era grande). A figura deixa
perceber que há direções onde existe interferência destrutiva.

Figura 19.12

14
Figura retirada do livro J.B. Marion e W.F. Hornyak, General Physics with Bioscience Essays, John
Wiley & Sons, 2nd Ed., New York (1985). A parte inferior da Figura 32.3 foi retirada do mesmo livro.

108
Se a experiência for feita com luz, tal como no caso da Fig. 19.11, mas tendo a fenda
largura d ~  , o resultado é o aparecimento de uma sequência de zonas claras e de
zonas escuras, sendo certo que, em frente da fenda, e como seria de esperar, há um
máximo de intensidade luminosa. A Fig. 19.13 mostra o padrão de iluminação que se
obtém num alvo. O máximo central é o de maior intensidade, mas existem outros
máximos, de um e do outro lado do máximo central, com intensidades que vão
diminuindo gradualmente.

D 0 D

d d

Figura 19.13

Vamos mais abaixo fazer o estudo pormenorizado da difração por uma fenda
para mostrar que a separação entre dois mínimos e o centro da imagem é D / d , sendo
D a distância da fenda ao alvo. Falámos já em interferência de ondas e nesta estamos
predominantemente a utilizar o termo difração. De facto, há quem não distinga os dois
termos, isto é, os utilize indistintamente para descrever o mesmo fenómeno. Contudo, a
haver distinção, ela prende-se com o número de ondas que se sobrepõem. No caso da
experiência de Young fala-se preferencialmente em interferência porque só há duas
ondas em sobreposição. Mas já quando há muitas fendas e muitas ondas a sobreporem-
se utiliza-se preferivelmente o termo difração. De resto, foi já referido o termo “rede de
difração”. O fenómeno a que se refere a Fig. 19.12 é apropriadamente designado por
difração já que o padrão observado num alvo (Fig. 19.13) é descrito convenientemente,
como veremos de seguida, como uma sobreposição de muitas ondas (ou melhor,
ondículas de Huygens).
A Fig. 19.14 mostra ondas planas a incidir numa barreira onde existe uma fenda
de largura d. Podemos imaginar nessa fenda um número N arbitrariamente elevado de
pontos que são fonte de ondículas de Huygens e, sem perda de generalidade, podemos
considerar que N é um número par. No caso da Fig. 19.14 representámos 10 pontos para
concretizar ideias. A linha que passa pelo centro da fenda, que interceta o alvo no ponto
P, divide esses pontos em dois grupos: de 1 a N/2 e de N/2+1 a N (em concreto, de 1 a
5, e de 5 a 10).

109
P

d/2 3 
5 
6
l 0
8
10

D alvo

Figura 19.14

Ora, a sobreposição das ondas geradas nos pontos 1 e N/2+1 (ponto 6 na Fig. 19.14) é
igual à que estudámos antes a propósito da experiência de Young. Supõe-se que o alvo
está muito longe da fenda ( D  d ) e que, portanto, os dois raios que partem dos
pontos 1 e 6 para o ponto P são paralelos. Esta aproximação decorre de   0 (a Fig.
19.14 não está à escala!). Vejamos qual é a localização do ponto P que queremos que
seja o ponto onde se dá a primeira interferência destrutiva acima do ponto O. A
condição de interferência destrutiva é que a diferença dos caminhos óticos dos raios que
saem de 1 e 6, que designamos por l, seja metade de um comprimento de onda:


l (condição de mínimo). (19.8)
2

Esta é a condição para o primeiro mínimo. Por outro lado, o comprimento l é dado por

d
l sin  (19.9)
2

pois l é o comprimento de um cateto do triângulo retângulo cuja hipotenusa mede d/2.


Ora, o seno do ângulo  é
x
sin   tan   (19.10)
D
porque o ângulo é pequeno. Combinando estas três equações obtém-se

D
x (19.11)
d
para a posição do primeiro mínimo na região x  0 . Claro que há um mínimo simétrico
deste ( x  0 ) e outros mínimos correspondentes à condição (19.8) acrescida de um
número inteiro de comprimentos de onda. Os mínimos localizam-se em

D 2 D 3D
x min   , , , (19.12)
d d d

110
A separação entre os dois primeiros mínimos é 2D / d (separação entre os dois
mínimos mais próximos de O) mas a separação entre outros dois mínimos quaisquer
adjacentes é somente D / d .
Fizemos a análise para os pontos 1 e 19. Mas esta mesma análise repete-se para
os pontos 2 e 7, 3 e 7, etc. todos separados da mesma distância d/2. Os mínimos (e os
máximos) voltam a ocorrer nos mesmos pontos dados pela expressão (19.8). Está assim
justificada a figura de difração na Fig. 19.13.

Difração de raios X

Os raios X têm comprimento de onda da ordem do nanómetro, muito inferior ao


comprimento de onda da radiação visível. Assim, os efeitos de difração nesta radiação
só se fazem notar quando encontram “obstáculos” (ou “fendas”) da ordem de grandeza
deste comprimento de onda. Ora, esta é a ordem de grandeza das moléculas ou da
separação interatómica numa rede cristalina. Esta circunstância torna os raios X
adequados à exploração de estruturas cristalinas por análise das figuras de difração que
são produzidas iluminando um cristal com este tipo de radiação. A Fig. 19.15 mostra o
esquema da montagem experimental que se tem de utilizar.
alvo

cristal

Raios X incidentes
Raios X difractados

Figura 19.15

Ao incidirem no cristal, os raios X vão excitar os iões que por sua vez reemitem
a radiação, sobrepondo-se as ondas assim geradas tal como as ondículas de Huygens.
Na prática tudo se passa como se houvesse reflexão de radiação incidente em diferentes
planos cristalinos. A condição para que num alvo colocado longe do cristal haja
interferência construtiva, ou seja, a condição para que as ondas refletidas por planos
contíguos estejam em fase quando atingem o alvo, é que a diferença no seu percurso
seja um múltiplo inteiro de um comprimento de onda.

 

d 
 

Figura 19.16

111
A Fig. 19.16 representa a situação que acabámos de descrever e a condição de máximo
é, portanto

2d sin   n n  1, 2, 3,  (19.13)

Esta expressão (19.13) é chamada condição de Bragg. Como neste fenómeno de


difração tudo se passa como se de uma reflexão se tratasse, usa-se muitas vezes a
expressão “reflexão de Bragg” para o designar.
O alvo pode ser uma chapa sensível a raios X. Onde existir um ponto brilhante
na chapa há interferência construtiva. Para um dado  (que é conhecido se se utilizar
radiação monocromática) e ângulo (que se pode variar rodando o cristal − ver
Fig. 19.15) fica a conhecer-se d, ou seja, fica a conhecer-se a estrutura da rede
cristalina! Como num cristal há vários planos refletores que podem cumprir a condição
de Bragg, de facto, na chapa fotográfica aparecem muitos pontos. A posição destes
pontos é característica de um dado cristal pelo que a técnica de difração de raios X serve
para identificar estruturas cristalinas ou determinar estruturas cristalinas ainda
desconhecidas.
Em 25 de Abril de 1953 a revista Nature publicava os resultados da análise de
difração de raios X do ácido desoxirribonucleico que revelaram a estrutura de dupla
hélice que se representa na Fig. 19.17.

Figura 19.17

Também a estrutura das moléculas de insulina e hemoglobina foram descobertas


por difração de raios X (os cientistas responsáveis pelas três descobertas − DNA,
insulina e hemoglobina − viriam a receber prémios Nobel).
Há um aspeto relativo à condição de Bragg, que importa salientar. Se se utilizar
radiação policromática a incidir num cristal (caracterizado por um certo d) segundo uma
direção  só é refletida radiação cujo comprimento de onda  verifique a condição de
Bragg (32.6) (claro que radiação com este comprimento de onda tem de estar presente
na radiação incidente para poder ser refletida!). A difração de raios X num cristal
permite, portanto, produzir raios X monocromáticos.
Refira-se, por último, um outro aspeto relativo à difração como técnica para
determinar estruturas cristalinas. Sabe-se, desde a segunda década do séc. XX, que as
partículas têm uma natureza ondulatória para além de corpuscular. Foi justamente o
reconhecimento da natureza ondulatória da matéria que conduziu à Mecânica Quântica.
Ora, se as partículas têm associado um comprimento de onda, podem sofrer fenómenos
de interferência! De facto, assim é. Uma difração semelhante à que vimos para os raios
X pode fazer-se igualmente com neutrões, por exemplo: um feixe de neutrões incide
num cristal e sofre “reflexão” de Bragg nos vários planos cristalinos. Os vários feixes de
neutrões refletidos interferem, dando origem a figuras de difração. A análise dessas
figuras permite determinar as estruturas cristalinas.

112
20.

Natureza ondulatória da luz. Espectro eletromagnético

Natureza ondulatória da luz e espectro eletromagnético

No século XVII, Newton defendeu que as fontes luminosas emitiam pequenos


corpúsculos, em todas as direções, a grandes velocidades. Esta teoria para a luz ficou
conhecida por teoria corpuscular da luz. Um físico contemporâneo de Newton, o
holandês Christian Huygens, defendeu que a luz também consistia em ondas, tal como
as ondas sonoras ou as ondas da água. Assim surgiu a teoria ondulatória da luz. Embora
a teoria de Newton tivesse sido aceite durante algum tempo, pois interpretava os
fenómenos óticos conhecidos na altura, foi com base na teoria ondulatória que se
conseguiram explicar outros fenómenos, mais complicados, que entretanto foram
descobertos. Por isso, a teoria ondulatória acabou por ganhar à teoria corpuscular. De
facto, a teoria ondulatória concordava melhor com a experiência. Mas, tal como
dissemos antes, há muitos fenómenos que podem ser estudados sem referir sequer a
natureza da luz tal como se faz em ótica geométrica.
Atualmente, os físicos sabem que a luz se comporta por vezes como onda e,
noutros fenómenos como partícula (a partícula de luz chama-se fotão). O efeito
fotoelétrico, por exemplo, só é explicável em termos da teoria corpuscular. Porém,
fenómenos como a interferência e a difração só podem ser interpretados invocando os
aspetos ondulatórios da luz. Podemos, portanto, afirmar que a natureza da luz é dupla:
ondulatória e corpuscular... e ambas coexistem! Contudo, só a Mecânica Quântica dá
coerência a esta afirmação que parece, à primeira vista, contraditória...
A luz destetada pelos nossos olhos e que nos permite ver é luz visível. No
entanto, as ondas de rádio ou os raios X também são ondas de luz, mas não as vemos.
Há muitas ondas de luz, ou seja, ondas eletromagnéticas, que não são destetadas pelos
olhos. Sabemos já que as ondas são a propagação de uma perturbação. No caso das
ondas eletromagnéticas a perturbação é a oscilação de um campo elétrico e de um
campo magnético que lhe é perpendicular (Fig. 20.1).

Figura 20.1

113
O espectro eletromagnético é formado pelo conjunto de luzes monocromáticas,
ou seja, com um certo comprimento de onda visíveis ou invisíveis (Fig. 20.2).

Figura 20.2

Analisando o espectro eletromagnético, vemos que a luz visível é apenas uma pequena
parte do espectro, com comprimentos de onda que vão de 400 nanómetros - luz de cor
violeta – a 700 nanómetros – luz de cor vermelha (1 nm = 1 109 m). Tal como as
ondas de luz visível, também as ondas de luz não visível sofrem fenómenos de reflexão,
refração e absorção. Os raios infravermelhos, as micro-ondas e as ondas de rádio são
ondas eletromagnéticas invisíveis com comprimentos de onda superiores ao da luz
vermelha. Logo têm baixas frequências (recordamos a relação entre comprimento de
onda, , e frequência, :   c , com c a velocidade da luz). Pelo contrário, os raios
ultravioletas, os raios X e os raios gama são também invisíveis e têm comprimentos de
onda inferiores ao da luz violeta.
Vejamos algumas características das várias radiações eletromagnéticas não
visíveis:

114
Ondas de rádio: Como o próprio nome indica, as ondas de rádio são utilizadas nas
transmissões de rádio e televisão. Na Terra são produzidas por circuitos elétricos mas
também provêm de estrelas e galáxias, sendo destetadas por radiotelescópios. Têm os
maiores comprimentos de onda do espectro eletromagnético.

Micro-ondas: O espaço está cheio de micro-ondas que resultaram do processo de


formação de átomos algumas centenas de milhares de anos depois do “Big-Bang”. As
micro-ondas são utilizadas na comunicação com veículos espaciais e em
radioastronomia. São ainda usadas na transmissão por satélite, permitindo-nos ver
imagens na televisão vindas de outros continentes, na deteção de excesso de velocidade
(por radar) e no estudo da superfície do planeta, através de fotografia (imagens de
radar). A utilização mais vulgar é, porém, nos fornos de micro-ondas. A energia
transportada por estas ondas, que são refletidas nas paredes do forno, é cedida aos
alimentos, aumentando a agitação das moléculas de água no seu interior. O consequente
aumento da temperatura permite a cozedura dos alimentos.

Infravermelhos: A emissão de raios infravermelhos está associada à temperatura de um


corpo. São emitidos abundantemente por corpos quentes, como aquecedores elétricos, o
corpo humano ou mesmo uma lâmpada (emite mais luz infravermelha do que luz
visível). Os raios infravermelhos, pelo facto de aquecerem os corpos sobre os quais
incidem, são utilizados no tratamento de doenças como o reumatismo, ou para conservar
os alimentos quentes. A emissão de raios infravermelhos é aproveitada de maneira
muito diferente, desde a deteção de tumores no cérebro ou do cancro da mama, aos
sistemas de segurança antirroubo, e à deteção de mísseis por satélites. Por terem a
propriedade de impressionar determinadas películas fotográficas, permitem fotografar
no escuro. São ainda utilizados nos comandos das portas automáticas e nos controlos
remotos da televisão.

Ultravioletas: Os ultravioletas são emitidos pelas estrelas, incluindo o Sol, e por


lâmpadas de mercúrio. Têm grande atividade química e, por isso, são os maiores
responsáveis pelo bronzeamento. O ozono (de fórmula química O3) existente na
atmosfera absorve grande parte destas ondas. Mas, com o alargamento do chamado
“buraco do ozono”, a exposição solar em excesso pode levar ao aumento do número de
cancros da pele. No entanto, quando controlada, a exposição solar é muito útil na
formação da vitamina D, cuja deficiência no organismo pode provocar raquitismo. A
grande atividade química dos raios ultravioletas é aproveitada na esterilização de
produtos.

Raios X: Os raios X são emitidos pelas estrelas, incluindo o Sol, e destetados em


satélites e balões. São também produzidos pelo homem, que os utiliza para fazer
radiografias, dado o grande poder de penetração dos raios X no corpo humano. Numa
radiografia, as zonas escuras correspondem às partes do corpo que não absorveram os
raios X. Os raios X são prejudiciais ao corpo humano e, por isso, não é conveniente tirar
radiografias em excesso. Também são utilizados nos aeroportos para detetar objetos
metálicos nas bagagens.

Raios gama: Os raios gama são as ondas eletromagnéticas de maior frequência, as mais
energéticas e as mais penetrantes. São emitidas por materiais radioativos. Penetram
bastante no corpo humano, sendo por isso muito perigosas. Estas ondas são utilizadas
no tratamento de certos cancros.

115
21

Introdução ao estudo do eletromagnetismo. Força eletrostática e lei de Coulomb.

Introdução ao estudo do eletromagnetismo

O Eletromagnetismo desenvolveu-se como disciplina independente, a partir do


séc. XVIII, embora só tenha ficado estabelecido no séc. XIX depois do trabalho de
síntese de Maxwell.
O nosso estudo do eletromagnetismo começará pela análise dos efeitos
produzidos por cargas elétricas, umas sobre as outras. Essas interações são forças que a
Física Clássica descreve com grande precisão, embora nada adiante quanto à razão por
que existem. As interações ao nível elementar entre átomos e entre moléculas, que
determinam o comportamento macroscópico dos sistemas, são em grande medida
interações entre cargas elétricas, o que, só por si, atesta a importância do assunto.
Passaremos depois à descrição de fenómenos onde intervêm correntes elétricas que são
movimentos orientados de partículas com carga elétrica. Os campos magnéticos têm
uma relação direta com as correntes elétricas, como veremos na parte final desta
introdução ao eletromagnetismo.
Há muito que se sabe que existem dois tipos de cargas elétricas designadas por
positivas e negativas. Esta designação é meramente convencional como, de resto, a
própria designação “carga elétrica”. A carga elétrica é uma propriedade dos corpos
como o é a massa, etc. Faz todo o sentido dizer “este objeto tem carga elétrica” do
mesmo modo que dizemos “este objeto tem massa”. Os eletrões são corpúsculos
indivisíveis com carga elétrica negativa. Os protões têm carga elétrica positiva (igual
em módulo à do eletrão) e, sabemos hoje serem compostas por outras partículas. A
carga do eletrão, cujo valor se designa por e e no SI vale

e  1,602  1019 C (21.1)

é a “carga elementar”. Nunca se detetaram cargas elétricas que fossem mais pequenas
do que esta ou que não fossem múltiplos inteiros desta. Contudo, os constituintes dos
protões e neutrões − chamados quarks − têm cargas fracionárias de acordo com a teoria
que descreve o comportamento de protões e neutrões. Apesar da comprovação
experimental dessa teoria em numerosos aspetos, a observação de um desses quarks
num estado isolado (fora do protão ou do neutrão a que pertence) nunca foi
experimentalmente possível. De facto, nunca se mediram experimentalmente cargas
elétricas que fossem frações da carga do eletrão.
No SI, a unidade de carga elétrica é o coulomb (símbolo C). Esta unidade é
“grande” no sentido em que corresponde a um deficit ou excesso de 6×1018 eletrões [ver
Eq. (21.1)] pelo que o seu submúltiplo microcoulomb (C) é muito utilizado.
Ao nível macroscópico a matéria é, geralmente, eletricamente neutra. As coisas
são feitas de átomos e o número de protões (no núcleo desses átomos) é igual ao
número de eletrões (nas nuvens eletrónicas em torno do núcleo); a consequência da
igualdade do número de cargas positivas e negativas é a neutralidade elétrica da matéria.
Contudo, pode eletrizar-se um corpo o que significa que ele fica com excesso de
eletrões (fica carregado negativamente) ou com deficit de eletrões (fica carregado
positivamente). Há várias formas de eletrizar um corpo, sendo uma delas por fricção.
Quando se carrega um corpo há uma redistribuição de cargas elétricas que
envolvem, sobretudo, os eletrões. Alguns materiais, como os metais, apresentam uma

116
propriedade interessante: muitos dos eletrões não pertencem a um só átomo, como no
caso de um átomo isolado: são “livres”, deslocam-se no material e “pertencem” a vários
átomos. Claro que este movimento não põe em causa a neutralidade da matéria pois o
número de cargas negativas não deixa de ser igual ao de cargas positivas. Os materiais
com estas características chamam-se condutores. As cargas elétricas colocadas num
destes materiais redistribuem-se muito rapidamente. De acordo com o Princípio de
Energia Mínima, essa redistribuição dá-se de maneira a que se tenha a menor energia
possível.
Há outros materiais − chamados isoladores − em que essa distribuição de carga
não ocorre porque não há eletrões livres. A carga depositada nesses materiais fica no
sítio onde é colocada.
Uma propriedade importante das cargas elétricas é exercerem entre si interações
ou forças de atração e de repulsão. São forças, cujos pares ação-reação têm a mesma
linha de ação. As cargas elétricas com o mesmo sinal, repelem-se; se tiverem sinal
contrário atraem-se (Fig. 21.1)

+ + +

Figura 21.1

A conservação da carga elétrica é um facto experimental de grande importância para o


desenvolvimento da teoria do eletromagnetismo. Essa conservação significa que, tal
como sucede para outras propriedades de sistemas isolados, como a energia, também a
carga elétrica se conserva. A carga elétrica “antes” é igual à carga elétrica “depois”
qualquer que tenha sido o processo realizado. De resto, uma das primeiras “regras” que
se aprendem para escrever reações químicas é precisamente a conservação da carga. Tal
não significa que o número de partículas com carga elétrica se tenha de manter! As
cargas elétricas podem “aparecer” ou “desaparecer” mas, no cômputo final, a carga
elétrica terá de permanecer constante.

Força eletrostática e lei de Coulomb

A força entre cargas elétricas, que foi obtida experimentalmente na segunda


metade do século XVIII. Designa-se por lei de Coulomb e exprime-se por

 qQ
F  K 2 ê r (21.4)
r

117
onde q e Q são as cargas elétricas das duas partículas em interação; r a distância entre
elas; ê r o vetor unitário com a direção da linha que une as cargas; e K uma constante
que, no SI vale

K  9  10 9 N m 2 C 2 . (21.5)

1
É também habitual escrever esta constante na forma K , sendo
4 0
 0  8,8542  10 12 F/m a permitividade do vazio. A Fig. 21.2 mostra a força que a
carga Q exerce na carga q no caso em que as duas cargas têm o mesmo sinal. A força
que a carga q exerce na Q é igual em grandeza e direção mas tem o sentido contrário (e
está aplicada em Q, obviamente).


F
q
r

êr
Q
Figura 21.2

O princípio de sobreposição observa-se para as forças entre cargas elétricas: a força


sobre uma carga é igual à soma (ou força resultante) das forças que todas as cargas de
um sistema exercem sobre ela.

q1

F2
Q

F
q2 
F1

Figura 21.3
 
Na Fig. 21.3 a força que atua sobre a carga Q é a soma das duas forças F1 e F2 devidas
às cargas q1 e q2.

118
22

Campo eletrostático. Dipolo elétrico e campo elétrico dipolar

Campo eletrostático

Consideremos duas cargas pontuais Q e q separadas de uma distância r. A força



F que uma carga exerce sobre a outra é

 Qq
F  K 2 êr . (22.1)
r

Como “sabe” uma carga da presença da outra? Ou, mais concretamente, como sabe a
carga q da presença da carga Q? O conceito de campo elétrico dá uma resposta a esta
questão. Dizemos que a carga Q cria um campo elétrico em todo o espaço à sua volta.
Nesta perspetiva, podemos pensar que a segunda carga não interage com a primeira
carga (interação à distância), mas “responde” diretamente ao campo elétrico que existe
no sítio onde se encontra (interação local). O campo elétrico desempenha o papel de
“intermediário” na interação entre partículas carregadas. O campo elétrico criado pela
carga Q é, por definição, o vetor

 Q
E  K 2 rˆ . (22.2)
r

Este vetor só depende da grandeza da carga que origina o campo e da distância entre o
ponto onde se quer obter o campo e o ponto onde se encontra a carga. Como mostra a
Eq. (22.2), trata-se de um vetor radial que aponta para dentro (para a carga) se esta for
negativa, ou aponta para fora se a carga for positiva.
As duas equações anteriores permitem concluir que o campo elétrico se obtém
dividindo a força pela “carga de prova” (ou carga-teste), q:

 F
E . (22.3)
q

O campo elétrico é, portanto, a força por unidade de carga. A força que se exerce numa
carga q localizada num certo ponto é o produto do campo elétrico nesse ponto pela
carga elétrica,
 
F  qE , (22.4)

sendo E o campo elétrico nesse ponto.
O campo elétrico num ponto P pode resultar da presença de muitas cargas, mas
não da própria “carga-teste”, q, situada no ponto P, sobre a qual se está a exercer a
força que estamos interessados em estudar. Essa carga fica excluída pois uma carga
elétrica pontual não exerce força sobre si mesma!
Como antes se viu, verifica-se o princípio de sobreposição para as forças que um
conjunto de cargas elétricas exerce sobre uma dada carga elétrica e a Eq. (22.3) permite
concluir que um tal princípio também se aplica ao campo elétrico. Suponhamos que há

119
N cargas pontuais de valor Qi numa região do espaço. Cada uma produz o campo
elétrico

 Q
E i  K 2i r̂i (22.5)
ri

e o conjunto produz o campo

 N    
E   Ei  E1  E 2    E N . (22.6)
i 1

Na expressão (22.5) cada vetor unitário r̂i tem origem numa carga diferente e ri é a
distância dessa carga ao ponto P onde se pretende obter o campo elétrico Fig. (22.1).

Q2 
E3 
P E1

r1  E
 E2
r̂1 E4
Q1
Q4

Q3
Figura 22.1

Uma vez conhecido o campo elétrico num determinado ponto, podemos


imediatamente obter a força que atua sobre uma carga colocada nesse ponto pois é
simplesmente o produto do campo pela carga. O campo elétrico “substitui” todas as
cargas (exceto, claro, aquela sobre a qual queremos conhecer a força).
Muitas vezes é conveniente introduzir um sistema de referência e reportar à
origem desse referencial o vetor posicional do ponto onde se pretende saber o campo e
os vetores posicionais das cargas. Na Fig. 22.2 explicitamos estes vetores numa situação

em que há uma só carga. Designamos o vetor posicional da carga Q por rQ , e o do
   
ponto P por rP . O vetor posicional do ponto em relação à carga é r  rP  rQ .


 P E
Q r

S 
rQ 
rP

Figura 22.2

120
O campo elétrico criado em P é, em módulo,

Q Q
EK   2 K 2. (22.7)
rP  rQ r

A Eq. (22.3) mostra quais são a dimensões da grandeza campo elétrico e,


portanto, qual a sua unidade no SI: newtons por coulomb (N/C). De facto não é esta a
unidade mais usual mas sim o volt por metro, que é equivalente. A razão para se usar
esta unidade SI só ficará clara mais adiante quando falarmos de diferença de potencial.
Em suma, o campo elétrico criado por uma carga num dado ponto é proporcional
à carga, inversamente proporcional ao quadrado da distância da carga ao ponto e tem a
direção e sentido da linha que une a carga e o ponto; aponta para a carga se esta for
negativa e no sentido contrário se for positiva. A Fig. 22.3 mostra o campo elétrico
criado por uma carga positiva Q e pela carga negativa −Q.

-Q
Q

Figura 22.3

O campo elétrico tem simetria esférica, diminuindo a sua intensidade com o quadrado
da distância. Uma outra maneira muito útil de representar o campo elétrico é a partir das
linhas de força15. Estas linhas indicam, em cada ponto, a direção do campo elétrico. As
linhas nunca se cruzam pois, num dado ponto, a direção do campo elétrico é única. A
intensidade do campo é tanto maior quando mais densas forem as linhas. Estas linhas
têm origem nas cargas positivas e terminam nas negativas: por isso se diz que as cargas
positivas são fontes de campo elétrico; ao invés, as cargas negativas são sumidouros de
campo elétrico. A Fig. 22.4 mostra as linhas de força correspondentes à situação
representada na Fig. 22.3.

15
Seria eventualmente mais apropriado dizer “linhas do campo” em vez de linhas de força, pois estamos a
falar de campo elétrico e não de força eletrostática. Contudo, a expressão linhas de força está consagrada.

121
Figura 22.4

Quando adiante falarmos de potencial elétrico vamos encontrar uma outra forma de
representar o campo elétrico.
Se a carga central na Fig. 22.4 se deslocasse ligeiramente todas as linhas de
campo elétrico se alterariam. E se a carga oscilasse também o campo − que já varia no
espaço − iria variar no tempo para além de se alterar também no espaço. Ter-se-ia então
uma onda eletromagnética (embora estejamos apenas a referir-nos à “parte elétrica”
dessa onda). Naturalmente que qualquer alteração na carga só vai ter efeito na força que
se exerce numa outra carga colocada à distância decorrido algum tempo. A onda não se
propaga instantaneamente como anteriormente. Este atraso entre a “emissão” e a
“receção” não pode ser descrito no quadro estrito da lei de Coulomb. É necessário juntar
a esta outras leis que descrevem os fenómenos elétricos e magnéticos.

Dipolo elétrico e campo elétrico dipolar

Um par de cargas de igual valor mas de sinais contrários, localizadas perto uma
da outra, formam um dipolo elétrico. Os dipolos elétricos são muito importantes, por
exemplo, em química. De facto, muitas moléculas apresentam dipolos elétricos. A
molécula de água, embora seja eletricamente neutra, tem um pequeno excesso de carga
negativa junto dos átomos de oxigénio e um correspondente excesso de carga positiva
junto do átomo de hidrogénio. Muitas das propriedades de moléculas, tais como a da
água, que apresentam dipolos elétricos, bem como as suas interações com as moléculas
vizinhas, explicam-se a partir do seu carácter dipolar elétrico. O dipolo elétrico da água
tem a ver com os átomos que constituem a molécula e com a sua geometria. Ora, há
moléculas que não apresentam dipolos elétricos, como a de O2. Contudo, a presença de
um campo elétrico, pode induzir dipolos nessas moléculas bem como em átomos: por
ação do campo o centro de carga elétrica negativa deixa de coincidir com o centro de
carga elétrica positiva. Quando os dois centros de carga não coincidem, forma-se um
dipolo elétrico.
No lado esquerdo da Fig. 22.5 representa-se esquematicamente um dipolo
elétrico. As duas cargas Q e −Q estão afastadas de uma distância l e o ponto P onde se
 
pretende conhecer o campo elétrico tem vetor posicional r e r relativamente a cada
uma das cargas.

122
z P

r E

Q  r E'
l/2 l
 
l/2
-Q

Figura 22.5

O campo elétrico no ponto P é a soma dos campos criados por cada uma das cargas
elétricas, ou seja:
 Q Q 
E  K  2 r̂  2 r̂  . (22.8)
 r r 
As linhas de força estão representadas no lado direito da Fig. 22.5. Sobre um ponto do
eixo dos zz o campo elétrico tem a seguinte expressão analítica:

  Q Q  2 pr
E  K    k̂  K k̂ (22.9)
2 
 r  l / 2 r  l / 2 
2
r 2  l 2 / 42
(o versor k̂ tem a direção do eixo dos zz). Para escrever a última expressão utilizou-se a
definição de momento dipolar elétrico:
 
p  Ql (22.10)

que é o produto da carga elétrica Q pelo vetor posicional da carga positiva relativamente

à negativa, l .
Quando r  l , ou seja, longe da região do dipolo, o denominador da expressão
(22.9) reduz-se a r 4 e o campo elétrico sobre o eixo e longe do dipolo fica

 2 
E K 3 p. (22.11)
r

Notar que o campo elétrico dipolar diminui mais rapidamente do que o campo elétrico
de uma só carga (campo monopolar): o primeiro depende de 1 / r 3 como acabámos de
ver e o primeiro vai como 1 / r 2 como mostra a expressão (22.2).
É importante sublinhar que a dependência com 1 / r 3 se mantém mesmo quando
se considera um ponto fora do eixo dos zz, desde que esteja suficientemente afastado do
dipolo.
Um outro aspeto que é importante sublinhar é que o campo elétrico dipolar
depende da carga Q e da distância l unicamente através do momento dipolar. O que
“conta” é o produto Ql e não propriamente, cada um deles, de forma independente.

123
23

Energia potencial eletrostática. Potencial. Potencial e linhas equipotencial para uma


carga isolada. Potencial criado por um dipolo elétrico.

Energia potencial eletrostática

O facto de uma carga elétrica exercer uma força sobre outra significa que, em
geral, há realização de trabalho quando há movimento relativo das cargas. Ora, a força
eletrostática só depende da posição, sendo conservativa. Há, portanto, uma energia
potencial que lhe está associada e no movimento de uma carga elétrica por ação de
forças eletrostáticos há conservação de energia mecânica. Representamos esta energia
potencial eletrostática por Ep.
A Fig. 23.1 mostra uma carga q que se desloca de P1 para P2 sob a ação de várias

forças, entre elas a força F exercida pela carga Q .

Figura 23.1

O trabalho realizado pela força elétrica é, como sabemos


 
W   dl ,
F
P1P2
(23.1)


onde dl é o deslocamento infinitesimal (orientado). Como a força é conservativa, este
integral não depende da trajetória mas unicamente das posições inicial e final: P1 e P2.
Por definição de energia potencial, o trabalho da força elétrica é o simétrico da variação
da energia potencial eletrostática:

W  E p  E p r2   E p r1  .


 
(23.2)

De uma maneira geral, o integral (23.1) pode não ser fácil de calcular pois, em cada
ponto é preciso saber qual é o ângulo entre a força e o deslocamento infinitesimal. Mas
há casos em que o integral fica mais simples de calcular. É o caso do trabalho da força
que uma carga Q exerce sobre q quando esta se desloca sobre uma trajetória radial. A

124
situação é, de resto, semelhante à que encontrámos antes quando calculámos o potencial
associado ao campo gravítico.
Consideremos a carga Q localizada na origem, a carga q num ponto genérico A a
uma distância r do centro de forças, e seja B um ponto no infinito, ao qual atribuímos
energia potencial nula: E p    0 . Para calcular o trabalho realizado pela força quando a
partícula se desloca de A para B é conveniente escolher um percurso radial a ligar os
pontos, tal como mostra a Fig. 23.2.

B

F

dl
q
A
êr
r
Q

Figura 23.2
 
O elemento infinitesimal de deslocamento radial é dl  dr ê r . A força é16 F  f r  ê r ,
 
e consequentemente F  dl  f dr . A integração faz-se agora sobre a variável (muda!)
r, desde a distância r até infinito:


E p    E p r     f dr (23.3)
r

ou ainda, atendendo ao valor do potencial no ponto de referência,


Ep r    f dr . (23.4)
r

Se agora inserirmos a força entre as duas cargas Q e q [ver Eq. (22.1)]

f r   K
Qq
(23.5)
r2
obtemos sucessivamente

 
 1  1 1
E p r   K Q q  2  K Q q  
dr
 K Q q   (23.6)
r
r  r r  r
e, finalmente,

16
Se f > 0 a força é repulsiva (Q e q do mesmo sinal) e se f < 0 a força é atractiva (cargas de sinais
opostos).

125
E p r   K
Qq
. (23.7)
r

Esta é a energia potencial eletrostática entre duas cargas elétricas. A energia mecânica
da carga q (de massa m) que está sujeita à ação da força que sobre ela exerce a carga
fixa Q é a soma da energia cinética e da energia potencial eletrostática:

1 Qq
E m  Ec  E p  mv 2  K . (23.8)
2 r

A energia mecânica é uma constante do movimento. A expressão (23.7) é semelhante à


expressão relativa à energia potencial gravítica. Tanto a energia potencial gravítica
como a energia potencial eletrostática são diretamente proporcionais ao produto das
massas (no caso gravítico) ou das cargas e inversamente proporcionais à distância.
Se as cargas forem de sinais opostos, a energia potencial (23.7) é negativa. Mas
se forem do mesmo sinal essa energia é positiva. Se duas cargas estiveram infinitamente
separadas ( r   ) a energia é nula; à medida que duas cargas do mesmo sinal se
aproximam uma da outra a energia cresce e é positiva (cargas do mesmo sinal
repelem-se). Se, ao invés, as duas cargas forem de sinais opostos o sistema fica mais
estável quando as cargas se aproximam e a energia diminui (cargas de sinal contrário
atraem-se). A energia potencial (23.7) tem, pois, uma outra interpretação para além da
já referida (ser o simétrico do trabalho realizado pela força do campo): a energia
potencial eletrostática é igual ao trabalho que um agente exterior (força externa) tem de
realizar para “construir” o sistema de cargas, ou seja para trazer a carga q do infinito até
à sua posição final à distância r de Q. Se um agente exterior transfere energia para o
sistema (por realização de trabalho) o sistema fica, naturalmente, com mais energia. A
energia potencial aumentou.
De uma maneira geral, a energia de um sistema de cargas pontuais é a soma
sobre todos os pares de cargas de termos como o (23.7) ou seja de termos do tipo

QiQ j
E p,ij r   K . (23.9)
rij

sendo rij a distância entre as duas cargas do par, Qi e Q j .

Potencial

Consideremos um sistema de cargas constituído por várias cargas e suponhamos


que estamos interessados na ação que as várias cargas exercem numa delas (naquela que
designamos por carga-teste). É muito útil introduzir o conceito de potencial elétrico, o
qual, como veremos, está ligado ao de energia potencial eletrostático. Mas comecemos
por sublinhar que são grandezas diferentes! A energia potencial é uma propriedade do
sistema de cargas − diz respeito ao conjunto.
O potencial (tal como, de resto, o campo elétrico) refere-se a um ponto e
depende das cargas. O potencial no ponto onde se encontra a carga-teste depende de
todas as outras cargas mas não desta. Vimos já que o campo elétrico num determinado
ponto é a força por unidade de carga. Pois bem: o potencial é a energia potencial por

126
unidade de carga. A utilidade do potencial radica no facto de ser um escalar, o que pode
facilitar a análise de uma dada situação, em vez de se considerar o campo elétrico que é
um vetor.
Quando uma partícula carregada q, que está na presença de outras cargas, se
desloca de um ponto para outro, há uma variação de energia potencial, Ep . Por
definição, a variação do potencial ou simplesmente a diferença de potencial entre um
ponto e outro é

  Ep
V  V r2   V r1   . (23.10)
q

A unidade SI de potencial é o volt (símbolo V). Decorrente da definição (23.10), é


imediato concluir que
 
W  q V  qV r2   V r1  . (23.11)
   
Como, por outro lado, W   F  dl e F  q E , concluímos que

 
V    E  dl . (23.12)
P1P2

Dizemos que a diferença de potencial é a circulação do campo elétrico. Como a força


coulombiana é conservativa e é proporcional ao campo elétrico, este integral é
independente da trajectória entre os dois pontos P1 e P2 mas depende apenas da posição

destes. Salientamos de novo que o potencial é uma função da posição: V  V r  . Tal
como para a energia potencial, também para o potencial há liberdade de escolha do
ponto de referência e do valor do potencial nesse ponto de referência. No caso de
distribuições finitas de cargas escolhe-se normalmente o infinito como ponto de
referência, considerando-se aí nulo o potencial: V ( )  0 . Mas, por vezes, não há
necessidade de fixar qualquer referência para o potencial pois importa considerar
unicamente diferenças de potencial.

Ainda relativamente ao campo elétrico, é imediato reconhecer a partir de


(23.12), (23.13) ou (23.16) que, dimensionalmente, a diferença de potencial é o produto
de um campo elétrico por uma distância. A unidade SI mais habitual para o campo
elétrico é precisamente o volt por metro (símbolo V/m).

Potencial e superfícies equipotenciais para uma carga isolada

O potencial criado por uma carga pontual Q localizada num ponto que se
considera a origem é dado por [considerando V ( )  0 ] − ver (23.7) e (23.10) −

KQ
V (r)  . (23.19)
r

127
Esta função tem simetria esférica. As superfícies equipotenciais, que são os lugares
geométricos dos pontos ao mesmo potencial, são esferas concêntricas, estando a carga
no centro). Pode demonstrar-se a partir de (23.16) que as linhas de força do campo são
perpendiculares às superfícies equipotenciais. A Fig. 23.3 mostra as linhas de campo
para uma carga positiva e as respetivas superfícies equipotenciais. Este exemplo ilustra
bem que as linhas de campo são perpendiculares às superfícies equipotenciais.

Figura 23.3

As linhas de campo de distribuições de carga são mais difíceis de obter e, por vezes, só
mesmo com recurso a um computador podemos traçá-las. O mesmo se diz das
superfícies equipotenciais.

Potencial criado por um dipolo elétrico

Vimos que o campo elétrico criado por um dipolo, como a sobreposição dos campos
criados por duas cargas simétricas uma da outra, localizadas perto uma da outra.
Podemos obter o potencial seguindo o mesmo raciocínio. A Fig. 23.4 representa o
dipolo (a notação é diferente da usada na Fig. 22.5).

P

s

r
Q 
l

-Q

Figura 23.4

128
O potencial no ponto P é a soma dos potenciais criados por cada uma das cargas.
Atendendo a (23.19) podemos escrever para o potencial criado pelas duas cargas como

 Q Q
V  K   . (23.20)
 r s

    
Como s  r  l , vem s  r 2  2r  l  l 2 e a expressão anterior escreve-se

 
 
QK  1 
V  1  . (23.21)
r  l l
2

 1  2 cos     
 r r 

Consideremos pontos afastados do dipolo, ou seja, pontos tais que r >> l. O último
termo dentro da raiz quadrada em (23.21) pode ser desprezado em relação aos outros
dois; e o próprio termo do meio é pequeno (comparado com 1) o que permite usar a
aproximação (1  x)  1  x (primeiros dois termos do desenvolvimento em série).
Assim,

1 1 1 l l
  1  2 cos   1  cos  . (23.22)
l
2
l 2 r r
l
1  2 cos     1  2 cos 
r r r

No quadro destas aproximações, o potencial (23.21) escreve-se

l cos 
V  KQ . (23.23)
r2
 
Recordando a definição de momento dipolar elétrico, p  Q l [vide (22.10)], podemos

escrever Ql cos   p  rˆ e a Eq. (23.23) passa a escrever-se

p  rˆ
V K 2 . (23.24)
r

Como diferença mais significativa relativamente a (23.19) temos o facto de a


dependência com r, para ser do tipo Vdip  r 2 ao contrário do potencial de uma só
carga que varia com r1 [como mostra bem (23.19)]. Na Fig. 23.5 estão representadas a
azul as superfícies equipotenciais, as quais são perpendiculares às linhas do campo
(linhas pretas).

129
V2

V1

V=0 V=0

-V1

-V2

Figura 23.5

A expressão (23.24) para o potencial do dipolo (a grandes distâncias) mostra uma


 
dependência com p e não isoladamente com Q ou com l . Como já tínhamos visto para
o campo elétrico dipolar o que “conta” de facto é o produto dos dois [vide a expressão
(22.11) para o campo elétrico dipolar num ponto do eixo longe do dipolo].

130
24

Introdução ao estudo das correntes elétricas. Corrente elétrica. Resistência. Lei de Ohm.

Introdução ao estudo das correntes elétricas

Temos até agora visto e analisado situações de equilíbrio eletrostático, que são
caracterizadas por as cargas elétricas estarem em repouso. Vamos seguidamente abordar
situações em que as cargas elétricas estão em movimento, originando uma corrente
elétrica. Na realidade as cargas estão sempre em movimento devido à agitação térmica.
Mas para haver corrente elétrica é necessário que haja um movimento orientado de
cargas elétricas.
Os eletrões são as partículas carregadas responsáveis por muitos fenómenos com
correntes elétricas que ocorrem em sólidos. Em particular, nos metais, que são bons
condutores, a corrente elétrica é devida ao movimento orientado de eletrões.
Um átomo é constituído pelo núcleo e pelos eletrões à sua volta. Os eletrões da
última camada podem interagir com os de outros átomos formando ligações químicas.
Porém, num metal, cada átomo “perde” os seus eletrões mais periféricos em benefício
de todos os átomos que constituem o material. A Fig. 16.1 mostra o esquema de um
metal. Os átomos que perdem eletrões ficam iões positivos que estão dispostos
regularmente, formando uma “rede cristalina”. Os eletrões que se desacoplaram dos
átomos (chamados eletrões de condução) são partilhados por todos estes iões positivos.
Podemos pois falar num mar de eletrões sobreposto à rede cristalina.

       

       

       

       

Figura 24.1

Os iões da rede cristalina vibram em torno das suas posições de equilíbrio. Esta
vibração é tanto maior quanto maior for a temperatura. Contudo os iões não abandonam
as suas posições de equilíbrio (sítios da rede) e, por isso, não se deslocam grandes
distâncias dentro do metal. Os eletrões têm essa liberdade, experimentando, contudo,
colisões entre si e com os iões positivos. Na situação representada na Fig. 24.1 (que é
uma representação em duas dimensões, embora a realidade seja a três), os eletrões
movimentam-se mas não há corrente elétrica. A sua velocidade média é nula. Claro que
esta média deve ser tomada sobre um número muito grande de partículas.
Para haver corrente elétrica é necessário que esta velocidade média seja diferente
de zero. Quando tal acontece, não significa que todos os eletrões tenham essa
velocidade! O que é necessário é que a sua velocidade média (soma vetorial de todas as
velocidades a dividir pelo número de partículas) já não se anule. Individualmente, um
eletrão pode até ter velocidade oposta a essa velocidade média mas o que importa para
que ocorra corrente elétrica é o comportamento global e não um ou outro

131
comportamento individual. Quando há corrente elétrica, experimentalmente os eletrões
têm velocidades diferentes mas, de facto, é como se cada um tivesse uma mesma

velocidade (velocidade média v ) como se representa na Fig. 24.2.

       

        
v
       

       

Figura 24.2

Para que os eletrões tenham uma velocidade média diferente de zero é necessário que
sobre eles se exerça uma força, ou, por outras palavras, que fiquem sob a ação de um
campo elétrico. Para haver corrente elétrica terá então de haver um campo elétrico no
interior do condutor e, portanto, uma diferença de potencial entre dois pontos desse
condutor. Num circuito a diferença de potencial consegue-se à custa de um gerador (ou
bateria).
Apesar de num condutor serem os eletrões os responsáveis pela corrente elétrica,
convencionou-se há muito que o sentido da corrente elétrica é sentido contrário. Haver
deslocamento de cargas negativas num sentido é equivalente ao movimento de cargas
positivas no sentido oposto. Aquela convenção foi estabelecida antes da descoberta do
eletrão, ou seja, antes de se conhecerem os mecanismos de condução elétrica em metais.
O facto de o sentido convencional da corrente ser contrário ao sentido real não levanta
qualquer dificuldade de ordem conceptual ou prática na análise de situações físicas e,
em particular de circuitos elétricos.


 



Figura 24.3

Na Figura 6.3 as duas correntes são iguais mas só a da figura de cima corresponde ao
sentido convencional da corrente elétrica. A grandeza indicada na figura representada
por I designa-se por corrente.
Há vantagens em considerar o sentido convencional da corrente elétrica como o
sentido do movimento das cargas positivas. Assim, as cargas flúem dos potenciais mais
elevados para os mais baixos, o que permite fazer analogias com o movimento de um
fluido dentro de um tubo inclinado.

132
Nem sempre os eletrões são os responsáveis pela corrente elétrica. Num
eletrólito, por exemplo, são os iões positivos que se movem numa direção e os
negativos na outra. Neste caso, de que se mostra um exemplo na Fig. 24.4, não há
eletrões individualmente envolvidos. A figura mostra em esquema os movimentos dos
iões numa solução aquosa de cloreto de sódio em que se mergulham dois elétrodos. Os
iões positivos (de sódio) dirigem-se para o cátodo (elétrodo negativo) e os iões positivos
(de cloro) para o ânodo (elétrodo positivo)

Figura 24.4

Corrente elétrica

A Fig. 24.5 representa um material condutor. Imagine-se esse material − um fio


de cobre, por exemplo − seccionado por um plano.

Figura 24.5

133
Quando passa corrente elétrica, há uma carga líquida Q que atravessa a secção reta
indicada na Fig. 24.5, num certo sentido, num intervalo de tempo, t . A intensidade ou
corrente média é definida por

Q
Im  . (24.1)
t

Mas pode a corrente não ser estacionária, ou seja, pode Q não ser sempre o mesmo
para um mesmo intervalo de tempo. Neste caso a corrente varia com o tempo e
define-se a corrente instantânea como o limite da corrente média quando t  0 :

dQ
I . (24.2)
dt

A corrente elétrica é a taxa a que passa a carga elétrica através de uma superfície que
secciona um condutor. Inversamente, dada a corrente I a carga líquida que atravessa
uma secção de um condutor é

t
Q   I dt . (24.3)
0

A unidade de corrente no SI é o ampere (símbolo A) em homenagem ao francês André


Marie Ampère, um figura de vulto na construção do eletromagnetismo.

Quando as extremidades de um condutor estão sujeitas a uma diferença de


potencial V, este é percorrido por uma corrente I. A razão entre estas duas grandezas
chama-se resistência elétrica e designa-se por R:

V
R . (24.4)
I
A resistência elétrica depende de parâmetros geométricos do condutor como o seu
comprimento, l, a área da sua secção, A, e depende também de uma propriedade
característica do material chamada resistividade, . A dependência da resistência
elétrica com este fatores é descrita pela equação

l
R . (24.5)
A

Lei de Ohm

Verifica-se experimentalmente, pelo menos para correntes pequenas, que há uma


proporcionalidade entre V e I o que se exprime por

V  RI (24.6)

Esta equação parece ser simplesmente uma maneira diferente de escrever a Eq. (24.4).
Contudo, para R constante a equação exprime a chamada lei de Ohm que se enuncia
assim: a diferença de potencial entre dois pontos de um circuito é proporcional à

134
corrente que o percorre. Assim, para se verificar a lei de Ohm a resistência terá de ser
constante, ou seja independente da diferença de potencial, V, ou da corrente, I. Um
condutor para o qual se verifica a lei de Ohm diz-se óhmico.
Quando se verifica a lei de Ohm, a relação entre V e I traduz-se graficamente por
uma linha reta num diagrama (I,V) que passa pela origem como se mostra na Fig. 24.6.

I
Figura 24.6

O caso de um condutor não-óhmico está expresso na Fig. 24.7. A Eq. 24.4 permite, em
cada ponto definir a resistência como a razão V / I , mas isso não significa que o
material verifique a lei de Ohm.
V

Figura 24.7

135
25

Sumário:
Força eletromotriz. Leis de Kirchhoff. Associação de resistências. Potência dissipada
numa resistência.

Força eletromotriz

Quando uma bateria é ligada a resistências, estabelece-se uma corrente


estacionária no circuito, ou seja uma corrente que não varia no tempo. A Fig. 25.1
representa um circuito com uma bateria e uma resistência. A bateria impõe a entrada no
circuito (ponto A, polo positivo da bateria) de uma determinada carga, Q , num certo
intervalo de tempo. Messe mesmo intervalo de tempo a mesma carga “desaparece” na
outra extremidade do circuito17 (ponto B, polo negativo da bateria). Assim, o fio
condutor tem sempre carga líquida nula.

Figura 25.1

O potencial do ponto A é maior do que o do ponto B. Os processos (reações


químicas) que têm lugar na bateria têm como consequência o armazenamento de cargas
positivas a um potencial mais elevado. O papel da bateria é semelhante ao de uma
bomba de água no circuito de água fechado representado na Fig. 25.2.

Bomba
de água

Figura 25.2
17
Recordamos que o sentido convencional da corrente é o do movimento das cargas positivas.

136
Por ação da bomba, a água vai de um ponto onde a energia potencial é mais baixa para
um ponto onde a energia potencial é mais elevada. Também a bateria “leva” as cargas
positivas (as que convencionalmente circulam num circuito) de um ponto a um
potencial eletrostático mais baixo (polo negativo) para um ponto onde o potencial
eletrostático é mais elevado (polo positivo).
Entre os terminais de uma bateria ideal existe uma diferença de potencial 
designada por “força eletromotriz” (f.e.m.)  que se considera constante e permite
manter, num circuito como o da Fig. 25.1, uma corrente estacionária. A unidade de
força eletromotriz, que vamos representar por  (não confundir com permitividade) é,
portanto, o volt. A f.e.m. é o trabalho por unidade de carga realizado por forças não
elétricas. A Fig. 25.3 é de novo a Fig. 25.1, agora com a indicação da f.e.m. da bateria,
da resistência e da corrente I, que se considera, como habitualmente, no sentido
convencional, ou seja, do polo positivo para o polo negativo da bateria. Assinalam-se
também mais alguns pontos ao longo do circuito.

C
A
 R
B

Figura 25.3

A diferença de potencial entre os terminais da bateria é VB  VA   ou, o que é o


mesmo, VA  VB   (o potencial do ponto A é maior do que o do ponto B, o qual,
muitas vezes é considerado nulo, pois o polo negativo da bateria é tomado para ponto de
referência do potencial). A diferença de potencial entre C e A é nula tal como é nula a
diferença de potencial entre D e B. Por definição de resistência, a diferença de potencial
entre C e D é VC  VD  R I . A seguinte igualdade trivial,

VA  VC  VC  VD  VD  VB  VB  VA  0 (25.1)

pode escrever-se, agrupando os termos convenientemente,

(VA  VC )  (VC  VD )  (VD  VB )  (VB  VA )  0  RI  0    0 . (25.2)

e portanto

  RI (25.3)

A diferença de potencial entre os terminais da resistência é a força eletromotriz da


bateria. Mas isto só acontece se a bateria for ideal. Uma bateria real tem uma certa

137
resistência interna, e a tensão nos terminais da bateria é a sua força eletromotriz menos a
diferença de potencial na resistência interna.
Se designarmos por ri a resistência interna da bateria, os terminais desta são os
pontos A e B no esquema da Fig. 8.4.

 ri
I
A B

Figura 25.4

A diferença de potencial entre A e B é

VA  VB    I ri . (25.4)

Leis de Kirchhoff

Não é preciso desmontarmos um computador, um telefone ou uma televisão para


nos apercebermos que os circuitos elétricos podem ser muito complexos. Contudo, a
análise desses circuitos pode fazer-se mediante a consideração de leis muito simples.
São as chamadas leis de Kirchhoff que assim se enunciam:

− Lei dos nodos (ou dos nós): a soma das correntes que entram num ponto de um
circuito é igual à soma das correntes que de lá saem.
− Lei da malhas: a soma de todas as diferenças de potencial ao longo de um percurso
fechado qualquer que se considere num circuito é nulo.

Na Fig. 25.5, representa-se um nó de um circuito para onde convergem e de


onde divergem correntes. De acordo com a lei dos nodos, I1  I 4  I 2  I 3 .

I2
I4
I1
I3

Figura 25.5

De uma maneira geral, a lei dos nodos pode exprimir-se através da expressão

138
N

I
j 1
j  0, (25.5)

onde I j são correntes que confluem no nó. Se essas correntes divergirem, tomam-se
com um sinal; se convergirem, tomam-se com o sinal contrário.
A lei das malhas pode exprimir-se matematicamente na forma seguinte:

 i
Vi  0 . (25.6)
percursofechado

Um exemplo de aplicação da lei das malhas é a expressão (25.2).


O circuito da Fig. 25.6 pode ser analisado usando as leis de Kirchhoff.


I1  I2
I3
R1

R3 R2
 Malha 1 Malha 2

R4

Figura 25.6

Começamos por marcar, em cada ramo do circuito a corrente que aí passa. É normal
escolher o sentido convencional da corrente. Mas tal não é obrigatório: podemos indicar
a corrente num sentido qualquer; se, depois de efetuados os cálculos, a corrente vier
com sinal positivo, essa corrente é no sentido arbitrado; mas se vier negativa, a corrente
é no sentido oposto ao arbitrado. O ponto A na Fig. 25.6 é um nodo do circuito, e, de
acordo com a lei dos nodos,

I1  I 2  I 3 . (25.7)

As três correntes indicadas são as incógnitas do problema, mas a Eq. (25.7) representa
apenas uma condição para as determinar. As outras duas condições necessárias à
obtenção das correntes vêm da lei das malhas. Consideremos então duas malhas
independentes, por exemplo as duas malhas indicadas na Fig. 25.6. A circulação pela
malha 1 começando no ponto A (pode começar-se num ponto qualquer!) permite obter:

I 3 R3  1  I1 R1  0 . (25.8)

Para a malha 2, ainda a começar no ponto A,

  2  I 2 R2  I 2 R4  I 3 R3  0 . (25.9)

Há duas notas importantes que importa sublinhar:

139
− A queda de tensão num gerador toma-se com o sinal positivo se, ao circular pela
malha, encontramos primeiro o polo positivo (e vice-versa);
− A queda de tensão numa resistência toma-se com o sinal positivo se o sentido da
circulação ao longo da malha for o sentido arbitrado para a corrente nesse troço do
circuito.
As eqs. (25.7-9) são um sistema de equações lineares cujas variáveis são as
correntes:

 I1  I 2  I 3  0

 R1 I 1  R3 I 3   1 (25.10)
( R  R ) I  R I   .
 2 4 2 3 3 2

O nodo e as malhas consideradas não são os únicos que se podem considerar. Podíamos,
por exemplo ter aplicado a lei dos nodos ao ponto de união do gerador 1 e das
resistências 3 e 4, mas iríamos obter a condição (25.7). Também há outra malha que se
podia considerar − circulação ao longo da parte externa do circuito (geradores 1 e 2 e
resistências 1, 2 e 4). A condição assim obtida substituía uma das duas últimas
expressões do sistema (25.10). Em conclusão: há muito por onde escolher! Mas é
conveniente escolher as condições que conduzam aos cálculos mais simples.
A título de concretização numérica vamos resolver o sistema (25.10) para
1  10 V,  2  2 V, R1  R2  R3  R4  2  :

 I1  I 2  I 3  0

 I1  I 3  5 (25.11)
 2 I  I  1.
 2 3

cuja solução é I1  14 / 5 A, I 2  3 / 5 A, I 3  11 / 5 A (o facto de todas as correntes


serem positivas indica que são nos sentidos indicados na Fig. 25.6).

Associação de resistências

As leis de Kirchhoff podem ser utilizadas para encontrar a resistência


equivalente a associações de resistências em série e em paralelo. No circuito da Fig.
25.7 (lado esquerdo) há duas resistências ligadas em série, nas quais passa a mesma
corrente I. Do lado direito da mesma figura mostra-se o circuito equivalente com uma
bateria com a mesma f.e.m.  e a mesma corrente no circuito, I.

R1 R2 Req

I I

 

Figura 25.7

140
Como relacionar a resistência equivalente, Req com as resistências R1 e R2? Aplicando
diretamente a lei das malhas ao circuito original tem-se IR1  IR2    0 , donde

  I R1  R2  . (25.12)

A aplicação da lei das malhas ao circuito equivalente permite concluir que   I Req e
portanto

Req  R1  R2 . (25.13)

Esta expressão generaliza-se para um número arbitrário de resistências em série


(Fig. 25.8).

R1 R2 Rn

Figura 25.8

A resistência equivalente é dada por

n
Req   Ri . (25.14)
i 1
No circuito da Fig. 25.9 (lado esquerdo) há agora duas resistências ligadas em
paralelo. A corrente em cada uma delas é I1 e I2, como se indica, e a corrente no circuito
principal é I. De acordo com as leis de Kirchhoff,

I  I1  I 2 . (25.15)

R1
Req
I

R2
I

 

Figura 25.9

Do lado direito da mesma figura mostra-se o circuito equivalente com uma bateria com
a mesma f.e.m.  que é, de resto, a diferença de potencial em cada uma das resistência
(a 1, a 2, ou a equivalente):

  IReq ,   I1 R1 ,   I 2 R2 , (25.16)

141
Combinando as equações anteriores podemos concluir que

1 1 1
  . (25.17)
Req R1 R2

Esta expressão generaliza-se para um número arbitrário de resistências em paralelo


(Fig. 25.10).

R1

R2

Rn

Figura 25.10

A resistência equivalente é dada por

n
1 1
 . (25.18)
Req i 1 Ri

Uma diferença de potencial mede-se com um voltímetro, aparelho de medida


que se deve colocar em paralelo num circuito. Na prática um voltímetro tem uma
resistência interna, ri , que, dependendo do seu valor, altera mais ou menos as condições
do circuito. Na Fig. 25.11, o voltímetro, cuja resistência interna se explicita ao lado do
símbolo que representa o aparelho, mede a diferença de potencial entre os pontos A e B,
entre os quais há uma resistência R.

ri
V
i
I I'
A B
R

Figura 25.11

A resistência equivalente entre os pontos A e B é tal que [ver Eq. (25.17)]

1 1 1
  . (25.19)
RAB R ri

A condição para o voltímetro não introduzir alterações no circuito é ri   . Neste caso


RAB  R , como se não existisse voltímetro. Mas, na prática, a resistência interna do

142
voltímetro não é infinita e alguma corrente é “roubada” ao circuito original (corrente i
na Fig. 25.11).
Um amperímetro mede a corrente e deve ser intercalado em série num circuito.
Idealmente, o amperímetro deveria ter resistência interna nula, mas, na prática, isso não
acontece. Na Fig. 25.12 mostra-se uma parte do circuito com a resistência R onde se
intercalou um amperímetro.

I' ri
A
A B
R

Figura 25.12

Devido à resistência interna do amperímetro, a corrente no circuito ( I ' ) diminui


relativamente ao seu valor antes da colocação do amperímetro. A resistência equivalente
entre os pontos A e B é

RAB  R  ri . (25.20)

A condição para não haver alteração no circuito é ri  0 . Na verdade tal não acontece
pelo que ao se introduzir um amperímetro no circuito, a corrente medida vai ser menor
do que a corrente que existia sem o aparelho de medida.

Potência dissipada numa resistência

Num circuito elétrico podem ocorrer transformações e transferências de energia.


Na bateria têm lugar os processos que permitem gerar uma corrente no circuito. A
“carga” no circuito (no sentido inglês do termo “load”, não no sentido de carga elétrica),
ou seja, tudo o que estiver ligado à bateria, pode transformar a energia fornecida pela
bateria, quer realizando trabalho mecânico, quer aquecendo (aumento de energia
interna), quer por outra forma qualquer.
O aquecimento de uma resistência devido à passagem de corrente chama-se
efeito Joule. Esse aquecimento resulta do trabalho das forças de resistência que se
opõem à força elétrica. Qual é a potência dissipada numa resistência R onde há uma
diferença de potencial V e uma corrente I como mostra a Fig. 25.13?

I R

Figura 25.13

Comecemos por notar que a carga Q  It fica sujeita a uma diferença de potencial V
quando passa através da resistência. A variação de energia potencial elétrica que, em

143
módulo, é igual ao trabalho das forças do campo e igual ao trabalho das forças de
resistência, W, é dada por VQ o que nos permite escrever,

W  V Q . (25.21)

Este trabalho é igual ao trabalho das forças de resistência e, portanto, à energia


dissipada na resistência. Em consequência desta dissipação de energia, a energia interna
da resistência aumenta, o que se manifesta num aumento da sua temperatura. Esse
aumento de temperatura leva à transferência de energia, como calor, para o exterior,
pois a temperatura externa é geralmente menor do que aquela a que fica a resistência.
Dividindo a equação anterior por t obtemos a potência (energia por unidade de
tempo) que é dada por

P V I . (25.22)

Esta equação mostra que a potência depende diretamente da diferença de potencial e da


corrente. Usando a definição de resistência, R  V / I podemos dar outras formas à
equação anterior, nomeadamente,

V2
P  R I2 ou P . (25.23)
R

A última equação mostra que, num circuito com uma fonte de tensão e uma resistência
fixa, R, a potência varia quadraticamente com a tensão. Nesse circuito a tensão na
resistência de carga é igual à força eletromotriz da bateria:   V .
De quanto aumenta percentualmente a potência dissipada quando a tensão passa
de 220 V para 230 V, mantendo-se R (não importa quanto vale esta resistência)? Esse
aumento é de [(230/220)2 1]×100 = 9,3%. Notemos que o que calculámos foi um
aumento na potência, não necessariamente na energia consumida! Com mais potência
disponível é necessário menos tempo para fazer certas coisas como, por exemplo,
aquecer água para o chá. Contudo, num mesmo intervalo tempo, uma lâmpada acesa
gastará mais energia se a tensão aumentar (mas a lâmpada também ilumina mais!).

144
26

Condensadores e energia armazenada num condensador. Dielétricos e seu efeito na


capacidade de um condensador.

Condensadores e energia armazenada num condensador

Um sistema de dois condutores separados pelo vazio ou por uma substância


isoladora designa-se por condensador. Vamos estudar um condensador plano formado
por dois condutores planos, ambos de área A, separados de uma distância d. A carga
numa das placas é igual mas de sinal contrário à da outra placa: numa placa é Q e na
outra  Q . Estas cargas criam campo elétrico e a Fig. 26.1 mostra as respetivas linhas
de campo. Na região central o campo é aproximadamente uniforme e fora o campo é
nulo. Há uma diferença de potencial entre as placas que é dada, em módulo, por
V  Ed . Considerando que a placa negativa está ao potencial de 0 V (esta escolha é
arbitrária) então V  V sendo este o potencial da placa positiva.

Figura 26.1

Existe proporcionalidade entre a carga em cada uma das placas (também chamadas
pratos ou armaduras) e a diferença de potencial entre as placas. Esta proporcionalidade
entre Q e V verifica-se qualquer que seja a forma do condensador. A constante de
proporcionalidade chama-se capacidade do condensador e representa-se por C:

Q  CV . (26.1)
A capacidade depende então das características geométricas do condensador e da
permitividade do meio que separa as placas. O mesmo acontece com todos os
condensadores qualquer que seja o seu tamanho e forma: a capacidade só depende das
características geométricas das armaduras e da permitividade do meio entre elas. No
caso do condensador plano
A0
C . (26.2)
d
(quanto maior for a área maior será a capacidade; quanto menor for a separação, maior
será também a capacidade. Das duas expressões anteriores

Qd
V  . (26.3)
A 0

145
A unidade SI de capacidade é o farad (símbolo F), em tributo a Michael Faraday, físico
inglês do séc. XIX, que deu valiosas contribuições para o desenvolvimento do
eletromagnetismo.
Carrega-se um condensador ligando-o a uma bateria como mostra a Fig. 26.2.

 
 
 
+Q -Q
 

Figura 26.2

Quando o circuito é ligado, a carga elétrica flui dos polos da bateria para as placas.
Quando a diferença de potencial entre as armaduras do condensador iguala a diferença
de potencial entre os polos da bateria deixa de haver corrente no circuito18 e o
condensador fica carregado. A placa do condensador do lado do polo positivo da bateria
fica com carga Q e a outra com carga Q. Quando o condensador é desligado da bateria
a carga elétrica permanece nas placas, e o condensador mantém-se ao potencial V. Um
condensador armazena carga elétrica e, portanto, energia. Conclui-se da Eq. (26.1) que,
quanto maior for a diferença de potencial da bateria, maior será a carga nas placas do
condensador. E a energia acumulada também vai ser maior. A energia é dada por (não
demonstramos este resultado)

1 Q2
E . (26.4)
2 C

A energia armazenada num condensador é proporcional ao quadrado da carga elétrica.


Usando C = Q/V, esta expressão pode escrever-se ainda nas seguintes formas
equivalentes:

1 1
E QV  CV 2 (26.5)
2 2

O estudo dos condensadores é importante em biofísica. Uma membrana celular


separa o interior do exterior de uma célula (Fig. 26.3). Os iões no interior e no exterior
da célula têm sinais opostos pelo que a membrana pode ser vista como um condensador.

18
Esta corrente pode apenas ocorrer numa fração de segundo.

146
exterior da célula

membrana
108 m
interior da célula

Figura 26.3

A capacidade deste condensador com área de 1 cm2 é da ordem 0,7 F e a diferença de


potencial através da membrana é da ordem de 0,1 V. Aplicando diretamente a expressão
(26.4) encontra-se para a energia armazenada por cada centímetro quadrado de
membrana o valor 12  0,7  10 6  0,12  3,5  10 9 J .

Dielétricos e seu efeito na capacidade de um condensador

A membrana separa iões de sinais contrários no interior e no exterior da célula.


Ora, até agora, tínhamos visto um condensador como um sistema de dois condutores
que têm entre eles o vazio. A membrana, não sendo vazio, não é um condutor (se não
haveria passagem direta de corrente do exterior para o interior através da membrana).
Trata-se de um isolador ou dielétrico.
Quando um dielétrico é introduzido entre as placas de um condensador a
capacidade deste aumenta. Esta é a principal vantagem da utilização de meios
dielétricos entre as armaduras de um condensador. O aumento da capacidade fica a
dever-se, em última análise, à distorção que o campo elétrico, existente entre as placas,
provoca na distribuição de cargas elétricas nas moléculas do dielétrico.
Vamos estudar o efeito do campo elétrico sobre o dielétrico admitindo que este é
constituído por moléculas apolares: para cada molécula, o centro de cargas positivas e o
centro de cargas negativas coincidem. Por aplicação do campo elétrico, as cargas
positivas ficam sujeitas a uma força e as negativas a uma força de sentido oposto, o que
origina um deslocamento relativo dos dois tipos de cargas e, consequentemente o
aparecimento de um momento dipolar. Dizemos que o campo externo induziu um dipolo
na molécula. Na Fig. 26.4 representa-se, do lado esquerdo, a molécula apolar e, do lado
direito a molécula com momento dipolar elétrico induzido. Supõe-se que o campo é
suficientemente pequeno para não haver ruptura (ionização) da molécula.

E

  

Figura 26.4

Este dipolo induzido cria, ele próprio, um campo elétrico. O efeito macroscópico
resultante dos vários dipolos induzidos num material que preencha o espaço entre as

147
placas de um condensador é o aparecimento de um campo elétrico (campo elétrico

induzido) que se opõe ao campo E entre as placas de um condensador quando não há
dielétrico.
A Fig. 26.5 mostra um condensador plano com um dielétrico no seu interior.
Representam-se igualmente os dipolos induzidos no dielétrico

carga nula
 
         

         

         
 
         
 
         

         

         
 
         
 
Figura 26.5

Junto à placa com carga livre positiva vão acumular-se as cargas negativas dos dipolos
induzidos e na outra placa do condensador acontece precisamente o contrário. Assim, a
presença do dielétrico leva à diminuição da carga líquida nas placas. No lado esquerdo
da Fig. 26.6 representamos a carga livre no condensador e o correspondente campo

elétrico, E . Na parte central da figura representa-se o campo elétrico induzido devido à

polarização do dielétrico. Designamos este campo elétrico induzido por E ' . Claro que o
campo elétrico induzido não pode superar o campo diretamente aplicado: o seu valor é

sempre inferior ao de E e aponta no sentido contrário ao deste vetor. Desta forma, o
  
campo elétrico efetivo, E ef , que resulta da sobreposição dos campos E e E ' , ou seja
   
Eef  E  E ' , aponta no sentido de E mas a sua intensidade é inferior à de este vetor:

Eef  E  E ' . (26.6)

   
       
   
      
 
      

 

 


 
    
 E  E'  Eef 
      
 


      


       
   
       
   

Figura 26.6

148

No lado direito da Fig. 26.6 representa-se o campo elétrico efetivo. Como E ' é

proporcional a E (é o campo que resulta da “resposta” do dielétrico ao campo
diretamente aplicado), podemos escrever para o campo efetivo

 E
E ef  (26.7)

com   que se designa por constante dielétrica do meio  superior à unidade pois
Eef  E .
Como o campo efetivo é uniforme, a diferença de potencial entre as placas do
condensador com dielétrico é

Vef  Eef  d , (26.8)

sendo d a separação entre as placas. Recordando que, sem dielétrico, V  E  d ,


combinando com a expressão (26.7), vem

V
Vef  . (26.9)

Isto significa que, depositando a carga Q numa placa (e, portanto, a carga Q na outra
placa), a diferença de potencial diminui quando existe dielétrico entre as placas. Como a
capacidade é C  Q / V a capacidade do condensador com dielétrico aumenta
precisamente do fator  (pois a diferença de potencial aparece em denominador na
definição de capacidade). Designando por C0 a capacidade do condensador sem
dielétrico, a capacidade do condensador com dielétrico é

C   C0 . (26.10)

Esta expressão é válida para qualquer condensador. Em particular, para o condensador


plano sem dielétrico a capacidade é dada por (26.3). Quando se introduz um dielétrico, a
capacidade é dada por

A0
C  (26.11)
d

ou simplesmente
A
C . (26.12)
d

Introduziu-se a permitividade do meio,  , que se relaciona com a permitividade do


vazio  0 através de

   0 . (26.13)

Na tabela seguinte apresentam-se algumas constantes dielétricas. Deve notar-se que as


constantes variam com a temperatura (e com a pressão).

149
Material 
Vazio 1
Ar (seco, 1 atm) 1,00059
Vidro (25 ºC) 5−10
Água (25 ºC) 78
Água (80 ºC) 61
Plástico (20 ºC) 3−20
Membrana de axónio (37 ºC) 8
Papel (20 ºC) 3,5

No estudo dos dielétricos que efetuámos as moléculas do dielétrico foram


consideradas apolares mas tal não era necessário. As moléculas podem ser apolares ou
polares, como no caso da água. Numa porção macroscópica de água o momento dipolar
é nulo pois os dipolos das moléculas orientam-se ao acaso. Por ação de um campo
elétrico exterior esses dipolos rodam e alinham-se com o campo elétrico (ou melhor,
anti-alinham-se!), resultando uma situação semelhante à da Fig. 26.5.
Quando o campo elétrico é muito intenso pode ocorrer a ionização da molécula:
as cargas positiva e negativa do lado direito da Fig. 26.4 “esticam” cada uma para seu
lado e pode haver rutura. Nesse caso formam-se iões positivos e eletrões que tendem a
deslocar-se para a placa negativa e positiva, respetivamente, originando uma corrente
elétrica entre as placas. Dizemos que houve rutura dielétrica do meio que ocupa o
espaço entre as placas do condensador.

150
27

Circuitos RC

Circuitos RC

Até agora vimos circuitos elétricos só com resistências ou só com


condensadores. Vamos ver agora circuitos RC, ou seja circuitos onde há condensadores
e resistências como o que se mostra na Fig. 27.1.

R
I

 q +++
C
q - - -

Figura 27.1

Um condensador de capacidade C, inicialmente descarregado, é ligado em série a uma


resistência R e a uma fonte de tensão cuja força eletromotriz é  . Façamos primeiro
uma análise qualitativa do que ocorre. Quando o circuito é fechado passa a haver uma
corrente no circuito, a qual, contudo, só existe enquanto o condensador estiver a
carregar. À medida que a carga no condensador vai aumentando, a corrente no circuito
vai diminuindo e deixa mesmo de haver corrente quando a carga no condensador é tal
que a sua diferença de potencial iguala a força eletromotriz da bateria. Nesta situação
final, a queda de tensão através da resistência é nula (pois I  0 ). Inicialmente não há
corrente pois o interruptor está desligado, depois há corrente durante algum tempo, e
deixa novamente de haver corrente mesmo estando o interruptor ligado. Ao contrário do
que se passa nos circuitos com resistências ligadas a uma bateria, em que a corrente é
estacionária (falamos em “regime estacionário”), temos agora correntes transitórias19. O
tempo de duração da corrente depende da resistência e da capacidade do condensador:
quanto maior for a capacidade, mais tempo demorará o condensador a carregar e mais
tempo vai durar a corrente transitória; por outro lado, quanto maior for a resistência,
mais difícil será carregar o condensador e mais tempo durará a corrente.
Para estudarmos o circuito de maneira quantitativa, designemos a carga num
dq
instante qualquer t por q. A corrente é I  . A diferença de potencial nos terminais
dt
q
do condensador é V  . Aplicando a lei das malhas de Kirchhoff ao circuito
C
(começando pelo canto superior esquerdo e circulando no sentido dos ponteiros do
relógio), tem-se20

19
Em inglês “transient”.
20
Repare-se que da maneira que se está a circular encontramos primeiro a placa positiva do condensador
e o polo negativo da bateria.

151
q
IR    0 (27.1)
C
donde

 q
I  . (27.2)
R RC


No instante inicial, q(0)  0 e portanto I (0)  I 0  . Quando a corrente for nula
R
(teoricamente para t   , mas na prática este tempo pode ser uma fração de segundo),
I (  )  0 , e, de (19.13) q()  qf   C . A carga é pois uma função monótona
crescente e a corrente uma função monótona decrescente. A forma precisa destas
funções só se pode encontrar resolvendo a equação (19.13) o que, de resto, nem é sequer
difícil! Como a corrente é a derivada temporal da carga, podemos reescrever a equação
(19.13) na forma

dq ( t ) 1 
 q(t )  . (27.3)
dt RC R

Trata-se de uma equação diferencial de primeira ordem. Qual é a função q  q(t ) que
derivada em ordem ao tempo dá a própria função [multiplicada pelo fator (RC)1] mais
a constante  / R ? A resposta é

 
t


q( t )   C  1  e RC 
(27.4)

 

e a derivada temporal desta função é

 
t
dq
 I (t )  e RC . (27.5)
dt R

Para confirmar que (27.4) é solução de (27.3), basta inserir q(t ) nessa equação e
verificar a igualdade dos membros direito e esquerdo de (27.3). Na Fig. 27.2 mostra-se
a dependência da carga com o tempo e da corrente com o tempo. O que determina a
rapidez do crescimento da carga (ou da diminuição da intensidade de corrente) é o
produto da resistência pela capacidade, chamada justamente constante de tempo:

  RC . (27.6)

A corrente inicial ou a carga final não dependem da constante de tempo mas o tempo de
carga do condensador (ou da corrente transitória) depende. Na Fig. 27.2 as curvas tanto
para a carga como para a corrente referem-se a duas constantes de tempo diferentes.
Quanto maior for a constante de tempo mais tempo demora o condensador a carregar.

152
q I
I0
qf
 2 >1 2 >1


t t
Figura 27.2

Suponhamos que o condensador foi carregado com carga q0, e depois ligado a
uma resistência, tal como se mostra na Fig. 27.3, através da qual descarrega.

R
I

q +++
C
q - - -

Figura 27.3

A análise da situação é ainda mais simples do que no caso anterior pois não há bateria.
Aplicando a lei das malhas de Kirchhoff, começando pela resistência e no sentido
horário

q
IR  0 (27.7)
C
ou ainda

dq ( t ) 1
 q(t ) (27.8)
dt RC

cuja solução é a função exponencial [é a função que derivada dá a própria função, à


parte um fator, como exige a Eq. (27.8)]:

t

q(t )  q0 e RC
(27.9)

(o fator constante q 0 é a carga no instante inicial). Se derivarmos esta função − lado


esquerdo da equação (27.8) − obtemos o lado direito da Eq. (27.8). Logo (27.9) é
solução de (27.8). A corrente é

153
t t
q  
I (t )   0 e RC   I 0 e RC . (27.10)
RC

O facto de esta corrente ser negativa significa simplesmente que tem sentido contrário
ao escolhido na Fig. 27.3. Agora, à medida que a carga diminui, a corrente também
diminui em valor absoluto. A maior ou menor rapidez a que esta diminuição da carga e
o módulo da corrente se processa é governada pela mesma constante de tempo,   RC
[ver (27.6)], anteriormente introduzida.
Na Fig. 27.4 representa-se a carga no condensador e o módulo da corrente no
circuito em função do tempo.

q |I|
q0
I0

2 >1 2 >1
 

t t

Figura 27.4

Finalmente, tornemos o significado da constante de tempo mais preciso. Para um


condensador que descarregue como o da Fig 27.5,  é o tempo ao fim do qual a carga é
q  q0 e 1  0,37 q0 ou seja é 37% da carga inicial.

q0

0,37 q0

 t

Figura 27.5

154
28
Bioeletricidade: fenómenos elétricos nas células. Resistência e capacidade
membranares. Potencial membranar e bomba de sódio-potássio. Circuitos que
descrevem alguns fenómenos de bioeletricidade

Bioeletricidade: fenómenos elétricos nas células

Os conceitos introduzidos para descrever fenómenos de eletrostática e de


condução elétrica  como a resistência elétrica, a capacidade, a diferença de potencial, a
corrente, etc.  vão agora servir na descrição dos fenómenos biológicos de condução de
informação no sistema nervoso do ser humano e de outros seres vivos, já que se tratam,
essencialmente, de fenómenos elétricos.
Os axónios são as fibras nervosas ao longo das quais se transmite a informação.
A Fig. 28.1 representa uma célula nervosa. O núcleo da célula está na medula espinal ou
no próprio cérebro e o axónios prolongam-se desde o núcleo eventualmente até às
extremidades dos dedos. Quando conduzem informação de e para o cérebro as várias
células nervosas comunicam entre si apenas em certas zonas denominadas sinapses.
Mas um axónio pode ser estimulado em qualquer ponto devido a efeitos térmicos,
mecânicos, químicos, elétricos, etc.

Figura 28.1 [Figura retirada do livro J.W. Kane, M.M. Sternheim, Physics, 3rd ed. John
Wiley & Sons, New York (1988)]

Resistência e capacidade membranares

Muitas propriedades de condução elétrica num axónio podem ser entendidas


com base num modelo relativamente simples. O axónio pode ser visto como uma
membrana cilíndrica de raio r contendo um fluido no seu interior  o axoplasma. A
corrente neste fluido condutor “perde-se”, no entanto, através da membrana que não é
isoladora. O exterior da membrana está em contacto com um fluido intersticial que é
bom condutor.
Digamos que o axónio pode ser visto como um fio condutor mal isolado.
Estamos pois muito longe de poder comparar um axónio a um fio de cobre de uma
instalação doméstica de eletricidade ou ao fio de uma vulgar linha telefónica.

155
As características elétricas do axónio são determinadas por várias propriedades.
Em primeiro lugar, a resistência, R, à corrente que circula "longitudinalmente" ou seja,
ao longo do axoplasma. Para um condutor de secção reta cilíndrica, a resistência é

R 2 (28.1)
r
onde  é a resistividade do material e  o comprimento do condutor. O raio do axónio
é cerca de 5 micrómetros, r  5  10 6 m e a resistividade do axoplasma é   2 Ω m .
Usando estes valores em (28.1) e para   1 cm encontramos o valor R  2,5 10 8 Ω .
Não deixa de ser curioso que as "linhas de transmissão" de informação no corpo
humano, longe de serem boas condutoras, tenham resistência que antes as qualifica
como boas isoladoras! A Figura 28.2 mostra o esquema de um trecho de axónio de
comprimento  .

Figura 28.2 [Figura retirada do livro J.W. Kane, M.M. Sternheim, Physics, 3rd ed. John
Wiley & Sons, New York (1988)]

Tanto no interior do axónio como no seu exterior há iões em solução  como


veremos com mais pormenor na próxima secção  havendo acumulação de cargas
elétricas nas duas faces desta membrana: negativas no lado de dentro e positivas no lado
de fora. A membrana deve ser vista como um condensador. Ora, a membrana em volta
do axoplasma é tão fina que uma pequena secção pode ser considerada plana. E como a
capacidade de um condensador é proporcional à área [ver (26.2) para o caso de um
condensador plano], se designarmos por Cm a capacidade média da membrana por
unidade de área (ver Fig. 28.2 c), a capacidade da membrana é

C  Cm 2r (28.2)

já que 2r é a área da membrana do axónio de comprimento  . A capacidade por


unidade de área depende de o axónio ter ou não fibras de mielina:

Cm  10 2 F m - 2 (sem mielina); Cm  5 10 5 F m - 2 (com mielina) (28.3)

O facto de haver mielina faz aumentar a distância entre as "placas" do condensador com
a consequente diminuição da sua capacidade.
Uma outra propriedade elétrica do axónio que importa identificar está ligada à
resistência da membrana à passagem de corrente do interior para o exterior, ou seja, do
axoplasma para o fluido intersticial. O facto de esta resistência não ser infinita resulta na
existência de uma "corrente de fuga" entre o interior e o exterior (ver figura 28.2 b).
Esta resistência é expressa em termos de um parâmetro Rm que é a resistência média da

156
membrana de área unitária (exprime-se, portanto, em ohms metro quadrado). A
resistência membranar, R' , para o comprimento  de um axónio é, portanto,

Rm
R'  (28.4)
2r

(lembrar que a resistência é inversamente proporcional à área da secção do condutor).


Valores típicos de R m para dois tipos de membranas são

Rm  0,2 Ω m 2 (sem mielina); Rm  40 Ω m 2 (com mielina) (28.5)

o que resulta em R'  6,4 10 5 Ω por centímetro (axónio sem mielina), valor muito
menor do que o encontrado para R! A corrente que entra no axónio perde-se facilmente
através da membrana!
É importante conhecer o valor do comprimento para o qual R  R' . Este
comprimento,  , é, digamos, um parâmetro espacial que nos indica a distância
percorrida pela corrente elétrica num axónio antes de se ter perdido através da
membrana. Igualando as eqs (28.1) e (28.4), e definindo    encontramos a expressão
rRm
 ; (28.6)
2
e, usando os valores típicos para as grandezas nesta expressão, obtemos:

  0,5 mm (sem mielina);   7 mm (com mielina) . (28.7)

As componentes elétricas equivalentes ao modelo de axónio que acabámos de descrever


são, em síntese, as que se mostram na Fig. 28.3.

líquido intersticial exterior da célula

R' C membrana

interior da célula
axoplasma R

Figura 28.3

Potencial membranar, equação de Nernst e bomba de sódio-potásssio

Vimos algumas propriedades elétricas do axónio. Vejamos uma outra


propriedade como a diferença de potencial que existe entre o interior e o exterior do
axónio, mesmo quando não há qualquer estímulo exterior (potencial de repouso). A par
desta diferença de potencial verifica-se que existem diferentes concentrações iónicas no
fluido intersticial e no axoplasma (ambas são soluções eletrolíticas). De entre os iões
presentes, destacam-se, pelo papel que desempenham, os iões positivos de sódio (Na+) e
de potássio (K+) e os iões negativos de cloro (Cl). Cada um destes iões existe em
concentrações diferentes no interior e no exterior do axónio, podendo migrar através da

157
membrana. Há outros iões mas o seu tamanho impede-os de passar através da
membrana.
No que diz respeito ao potencial, por convenção, o potencial no exterior é nulo.
Verifica-se então que o potencial no interior é cerca de 70 mV. Esta pequena diferença
de potencial surge em resultado de haver uma carga elétrica líquida muito pequena no
interior e uma correspondente carga elétrica positiva no exterior. Este "excesso" de
carga de um e do outro lado da membrana pode ser obtido a partir de Q  CV , entrando
em conta com o referido valor de V e com a capacidade membranar dada por (20.4). O
valor da carga assim encontrado é pequeno: o excesso de carga negativa no interior da
célula em relação às cargas positivas é de 1/100000 o número de iões de uma das
cargas. Os iões negativos, no interior, e os positivos, no exterior dispõem-se de um e do
outro lado da membrana  daí que esta possa ser vista como um condensador carregado.
No que respeita às concentrações de iões, a de sódio é maior no exterior do que
no interior e o mesmo se passa com a de cloro. Com os iões de potássio sucede o
contrário: a concentração de iões K+ é maior dentro do que fora da célula. A membrana
celular não é igualmente permeável a todas as espécies iónicas mas estas tenderão a
deslocar-se do sítio onde a sua concentração for maior para o sítio onde a concentração
for menor. Esta difusão (deslocamento passivo) é comum a todas as partículas que
existam em concentrações diferentes em regiões contíguas entre as quais possa haver
trânsito de partículas. Para além da diferença de concentração e da permeabilidade da
membrana a essa espécie iónica, tem igualmente de se considerar o movimento passivo
devido ao campo elétrico no interior da membrana  que é o campo elétrico entre as
placas de um condensador  que aponta do lado das cargas positivas (o exterior) para o
lado onde estão as cargas negativas (o interior). Assim, este campo “facilita” a
passagem de iões positivos do exterior para o interior e de iões negativos do interior
para o exterior mas “dificulta” o trânsito em sentido oposto.
Na+
Na+
Na+ Na+
exterior
Na+ Na+ Na+
Ic Ip
membrana      
      
Na+ +
E
interior Na

Cl Cl
Cl
exterior Cl
Cl Cl
Ic Ip
membrana      
      
Cl Cl
E
interior

K
exterior K
Ic Ip
membrana      
      
K K K E
interior K
K  K K

Figura 28.4

158
A Fig. 28.4 mostra, em esquema, as concentrações de iões sódio, cloro e
potássio e as correntes através da membrana devido às diferentes concentrações
(correntes Ic) e à diferença de potencial de repouso (correntes Ip).
Para um axónio em repouso (sem estímulo) as correntes de Cl devidas à
concentração e ao potencial quase que se anulam, pelo que não há movimento líquido
destes iões. No caso do potássio há também correntes nos dois sentidos, mas "ganha" o
movimento dos iões para fora (o efeito de concentração supera o da diferença de
potencial: I c  I p ). Quanto ao sódio não há dúvidas: ambos os efeitos vão no sentido da
migração do exterior para o interior da célula.
A equação de Nernst permite obter a diferença de potencial que "equilibraria" o
efeito da diferença de concentração. Essa equação, cuja dedução está fora do âmbito
deste curso introdutório, escreve-se
c
V  61 log i (mV), (28.8)
ce
onde ci e ce são as concentrações de uma dada espécie iónica no interior e no exterior, e
V é o potencial do interior em relação ao exterior (considera-se sempre que o exterior
está ao potencial nulo) que asseguraria a igualdade dos fluxos nos dois sentidos. A
diferença entre o potencial de Nernst e o potencial que efectivamente se observa dá
indicação quantitativa do sentido da migração dos iões. No caso do cloro, V  70 mV e
portanto não há deslocamento líquido de iões Cl. Para o potássio, V  90 mV , valor
relativamente próximo do potencial 70 mV observado experimentalmente, e há alguma
migração de dentro para fora. No caso do sódio, V  60 mV o que é muito maior do
que o potencial observado experimentalmente. Este resultado indicia uma forte
migração de iões de sódio do exterior para o interior. Acontece, porém, que a membrana
é cerca de cem vezes mais permeável ao potássio do que ao sódio e, na realidade,
verifica-se que, por cada ião sódio que entra, há aproximadamente um ião potássio que
sai.
De acordo com os mecanismos de "transporte passivo" que descrevemos os iões
de sódio estariam constantemente a entrar na célula e os de potássio a sair o que,
inevitavelmente, levaria à variação das suas concentrações. Ora, tal não se verifica. Na
verdade, existe um mecanismo, denominado bomba de sódio-potássio, que transfere
constantemente iões sódio do interior para o exterior e iões potássio do exterior para o
interior. A bomba, cuja origem não é totalmente conhecida, permite manter não só a
concentração iónica mas também o potencial de repouso. Para esta bomba funcionar
tem de consumir energia, ou seja, tem de ser realizado trabalho contra as forças do
campo elétrico e contra as forças devidas ao efeito da concentração. Esta energia, que
terá de ser fornecida constantemente (senão a bomba pára), tem origem em processos
metabólicos no interior da célula.
Se a membrana se tornasse mais permeável aos iões de sódio estes entrariam
rapidamente, e alterariam substancialmente o potencial mesmo sem que as
concentrações variassem drasticamente. Crê-se que é este o mecanismo que ocorre
quando o nervo é estimulado e se cria o chamado potencial de ação.
Em resumo, num axónio em repouso o potencial no interior é ligeiramente
inferior ao potencial exterior. Espontaneamente há passagem de iões de sódio do
exterior para o interior e de potássio do interior para o exterior. Este fluxo num e noutro
sentido seria muito diferente, unicamente em resultado das concentrações iónicas e do
potencial de Nernst resultante. Contudo, em virtude da diferente permeabilidade da
membrana ao sódio e ao potássio, o fluxo de um destes iões para um lado é
praticamente igual ao fluxo do outro ião para outro lado. Apesar destas migrações

159
espontâneas para um lado e outro da membrana, as concentrações de cada espécie iónica
de um lado e do outro lado da membrana são mantidas em resultado de um mecanismo
de transferência, ou transporte ativo, conhecido por bomba de sódio-potássio.

Circuitos que descrevem alguns fenómenos de bioeletricidade

Vimos que o potencial de repouso do axónio é cerca de 70 mV (potencial do


interior relativamente ao exterior, que se considera ao potencial nulo). Como responde o
axónio a um estímulo elétrico exterior? Este estímulo pode ser a aplicação de uma
tensão entre dois pontos − no interior e no exterior do axónio diferente de 70 mV.
Vamos, contudo, supor que se trata de uma tensão aplicada pequena, ou seja abaixo de
um certo valor crítico. Se a tensão for acima de um certo valor crítico desencadeia-se
um conjunto de processos (potencial de ação) cuja análise qualitativa não será feita
agora, mas será certamente objeto mais tarde no curso de Bioquímica. Diremos apenas
que o axónio pode ser dividido em sectores, cada um equivalente a duas resistências e a
um condensador. O estímulo exterior é a força eletromotriz,  , como se mostra na Fig.
28.5, onde se esquematiza o circuito equivalente ao axónio.

R R R R

 C R' C R' C R'

Figura 28.5
Na verdade, a propagação da variação do potencial de ação num axónio pode ser
aproximadamente descrita por circuitos como o da Fig. 28.5.

160
29

Introdução ao magnetismo: campos magnéticos criados por magnetes e correntes.


Forças de campos magnéticos sobre cargas elétricas. Força sobre um condutor
percorrido por uma corrente. Campo criado por uma linha infinita de corrente.

Introdução ao magnetismo: campos magnéticos criados por magnetes e correntes

Os ímanes, ou magnetes, são materiais naturais conhecidos há milhares de anos.


Terão sido descobertos pelas antigas civilizações da Ásia Menor e desde sempre
despertaram a atenção pelas suas propriedades, hoje de todos conhecidas, como atraírem
objetos metálicos (clips, agulhas, etc.) ou exercerem forças de atração ou de repulsão
entre si. Para além deste comportamento peculiar que cedo suscitou a curiosidade
humana, desde há quase mil anos que os magnetes começaram a ser usados como
bússolas, adquirindo uma óbvia utilidade prática. Hoje os magnetes são usados em
motores, em geradores, nos computadores, etc. para apenas referir algumas das suas
numerosas aplicações.
Os magnetes produzem campos magnéticos. Entretanto só no séc. XIX se
descobriu que as correntes elétricas, tal como os magnetes, também produzem campos
magnéticos. Este importante resultado levou a desenvolvimentos científicos na área do
magnetismo e da eletricidade com consequências de grande impacte nas sociedades e no
que viria a ser o seu desenvolvimento. Os campos magnéticos produzidos por correntes
são um assunto importante do eletromagnetismo.
Voltando aos ímanes, eles criam à sua volta um campo magnético do mesmo
modo que as cargas elétricas criam à sua volta um campo elétrico. Qualquer magnete,
independentemente da sua forma, tem sempre duas extremidades (ou faces) chamadas
polos. Os polos magnéticos são designados por polo norte (N) e polo sul (S).
Relativamente a estes polos de dois tipos não se pode fazer a simples analogia de os
considerar como cargas elétricas positivas e negativas. Desde logo porque, embora as
cargas elétricas positivas e negativas se possam isolar umas das outras, o mesmo não se
passa com os polos magnéticos. A Fig. 29.1 mostra um magnete com a forma de um
paralelepípedo que se vai seccionando. No sítio onde se corta surge espontaneamente
um par de polos norte e sul... E, por mais cortes que se façam, vão-se obtendo sempre
novos pares de polos e, portanto, um número cada vez maior de magnetes, sem nunca se
conseguir isolar um polo magnético... Não existem monopolos magnéticos!

N S

N S N S

N S N S N S N S

Figura 29.1

161
Quando dois magnetes são postos topo a topo, exercem forças de repulsão, um
sobre o outro, se os polos próximos forem ambos norte ou ambos sul mas a força é
atrativa se os polos forem opostos, como se esquematiza na Fig. 29.2.

N S N S

S N N S

N S S N

Figura 29.2

Quando se espalha limalha de ferro na região onde existe um magnete esta


dispõe-se de uma maneira característica como a que se representa do lado esquerdo da
Fig. 29.3. A orientação dos pedacitos de ferro é precisamente segundo a direção do
campo magnético. No lado direito da figura representam-se as linhas (ou linhas de
força) do campo magnético. O campo magnético é tangente às linhas de força do
campo, exatamente como no caso do campo elétrico. De resto, as linhas de força do
campo magnético representadas na Fig. 29.3 lembram as linhas do campo dipolar
elétrico. No caso do magnete, no entanto, os polos magnéticos não estão definidos num
ponto em concreto, digamos que estão numa região.

Figura 29.3 [Figura retirada do livro H. Benson, University Physics, John Wiley &
Sons, Revised edition, New York (1995)]

Mas o que é um campo magnético? O campo elétrico foi definido a partir da


força de Coulomb. Podemos utilizar a mesma metodologia para definir o campo
magnético já que este, em certas circunstâncias, origina uma força sobre uma carga
elétrica. Esta relação entre o campo magnético e a força magnética exercida sobre uma
carga elétrica será abordada mais à frente.
Como já dissemos, também as correntes produzem campos magnéticos cujas
linhas de força podem ser representadas exatamente como as dos campos produzidos

162
por magnetes. Na Fig. 29.4 consideram-se três geometrias diferentes para linhas de
correntes, esquematizando-se as correspondentes linhas de força do campo magnético,

B . Na figura (a) representam-se as linhas de força do campo magnético produzido por
uma corrente I retilínea e indefinida. As linhas de campo são circunferências pois o
campo tem a mesma intensidade a uma mesma distância da linha. As circunferências
representadas estão em planos horizontais e o campo magnético é perpendicular à
corrente. Naturalmente que se espera que esta intensidade vá diminuindo à medida que a
distância à linha vá aumentando, da mesma maneira que a intensidade do campo elétrico
diminui à medida que nos afastamos da carga ou cargas que o criam. Na figura (b)
temos um anel ou espira de corrente. As linhas de força do campo magnético passam
pelo interior do anel e fecham-se por cima e por baixo deste. Sobre o eixo da espira o
campo magnético tem a direção do próprio eixo. Também é natural esperar que quanto
mais afastado se estiver da espira mais débil o campo se vá tornando. Na figura (c)
mostram-se as linhas de força do campo magnético criado por um fio enrolado com a
forma de um cilindro (solenoide).

 
B I B


B (b)

(a)

I

B

(c)

Figura 29.4

Se o cilindro fosse muito longo o campo no interior era aproximadamente uniforme e no


exterior era aproximadamente nulo. As linhas do campo fecham-se pelo lado de fora do
“cilindro” de correntes. De resto, as linhas de força do campo magnético fecham-se
sempre! Repare-se que as linhas de força do campo criado pelo solenoide se
assemelham às criadas pela barra magnética (ver Fig. 29.3).

Forças de campos magnéticos sobre cargas elétricas

163

Na presença de um campo elétrico, E , uma carga elétrica pontual q fica sempre sujeita
  
a uma força elétrica F e qE . E se a carga “sentir” também um campo magnético, B ?
Nesse caso poderá ou não ficar sujeita a uma força magnética. Esta força, que depende
não só da intensidade do campo e do valor da carga, mas também da velocidade da

partícula, v , é dada por
  
F  qv  B . (29.1)
O módulo desta força é
F  q vB sin  , (29.2)
sendo  o ângulo entre a velocidade e o campo magnético (ver Fig. 29.5).

F


B

+q 

v

Figura 29.5

Importa explicitar alguns aspetos da força magnética, contidos na expressão (29.1). Em


primeiro lugar, a força é nula se a velocidade da carga for nula: um campo magnético só
exerce uma ação sobre uma carga se esta estiver em movimento. Mas, mesmo estando
em movimento, a força poderá ser nula se a velocidade da partícula e o campo
magnético tiverem a mesma direção. Finalmente, para um campo com uma dada
intensidade, a força sobre uma partícula de velocidade constante é máxima se o campo
magnético e a velocidade fizerem entre si um ângulo reto.
Se a força magnética se mantiver perpendicular à velocidade, o movimento é circular
uniforme (o módulo da velocidade mantém-se constante). É este o caso representado na
Fig. 29.6 em que uma partícula de carga positiva descreve uma trajetória circular (se a
partícula tivesse carga negativa o sentido do movimento seria o oposto).

v

 v
 F
B

F


F


v

Figura 29.6

Vejamos qual é a frequência deste movimento. A força magnética que é, em módulo,


F  qvB , é a força centrípeta que origina o movimento circular uniforme. Como
sabemos a força centrípeta vale mv 2 / r , em que r é o raio da trajetória. Assim, de

164
v2
qvB  m (29.3)
r

obtemos o raio da trajetória:

mv
r . (29.4)
qB

Esta expressão mostra que o raio é diretamente proporcional ao momento linear da


partícula e inversamente proporcional à intensidade do campo magnético e à carga. O
2r
período do movimento circular uniforme é T  e, portanto, a frequência, que é o
v
inverso do período, é

qB
fc  . (29.5)
2m

O índice “c” significa “ciclotrão”: a frequência (29.5) é um parâmetro importante em


aceleradores de partículas que têm esta denominação. Da expressão anterior ressaltam
duas importantes conclusões: a frequência é a mesma para todas as partículas para as
quais a razão q / m seja a mesma; a frequência não depende da velocidade da partícula.
O movimento de uma partícula que penetre numa região onde exista um campo

magnético uniforme com uma velocidade que não seja perpendicular a B vai ter um
movimento helicoidal. A velocidade pode decompor-se em dois vetores em direções
      
perpendiculares: v  v||  v  , em que v|| é paralelo a B e v  é perpendicular a B . No
plano perpendicular ao campo magnético o movimento é, como já vimos, circular
uniforme. Segundo a direção do campo, o movimento é retilíneo e uniforme pois a força
magnética é nula segundo essa direção. Da combinação destes dois movimentos resulta
um movimento helicoidal como se mostra na Fig. 29.3.


v

 v||
B

v

Figura 29.7

165
No caso de coexistirem campos elétricos e magnéticos numa mesma região do espaço a
partícula fica sujeita a uma força elétrica e a uma força magnética cuja resultante é

 
   
F  q E v B , (29.6)

denominada força de Lorentz, da qual existem numerosas aplicações. Com o auxílio de


campos elétricos e magnéticos é possível guiar feixes de partículas carregadas.

Força sobre um condutor percorrido por uma corrente

Quando um fio condutor percorrido por uma corrente é colocado numa região
onde existe um campo magnético, em geral fica sujeito a uma força. A Fig. 29.4 mostra
um troço retilíneo de um condutor, de comprimento  , percorrido por uma corrente I,
colocado numa região onde existe um campo magnético uniforme de valor B que aponta
“para lá”.

B 
 F
A
vd
I

Figura 29.8

Vamos considerar que a corrente elétrica é unicamente devida a eletrões. A corrente I é


da esquerda para a direita e, por isso, a chamada velocidade de deriva dos eletrões é da
direita para a esquerda. Como a carga dos eletrões é negativa a força sobre cada carga,
de acordo com (29.1) é para cima, como se indica na Fig. 29.8. O valor da força sobre
cada eletrão é evd B . Designemos por n o número de eletrões de condução por unidade
de volume. Assim, no troço de circuito considerado, cujo volume é A , a força
resultante é
F  Anevd B . (29.7)

Ora, a intensidade de corrente é I  eAvd n (carga a multiplicar por velocidade e a


multiplicar pela área da secção transversa – ou seja, a corrente é o fluxo da velocidade
das partículas carregadas) e, portanto, a força é

F  IB (29.8)

No exemplo estudado a corrente e o campo magnético são perpendiculares. Se não


fossem perpendiculares a força sobre o troço retilíneo de circuito seria dada por
  
F  I B, (29.9)

onde o vetor  é o elemento retilíneo de corrente com o sentido desta. A intensidade da
força é F  IB sin  , sendo  o ângulo que o elemento retilíneo do circuito faz com o
campo magnético.

166
Campo criado por uma linha infinita de corrente

Vimos o efeito de campos magnéticos sobre cargas e correntes sem nos termos
preocupado com a origem desses campos. Mas sabemos já que a origem destes campos
está em magnetes permanentes ou em correntes. Que os campos magnéticos e as
correntes estavam relacionados era uma evidência experimental depois de o
dinamarquês Hans Christian Oersted se ter apercebido, em 1820, que a passagem de
corrente num circuito fazia rodar a agulha de uma bússola exatamente como quando
dela se aproximava um íman. No mesmo ano, Biot e Savart, já conhecedores da
descoberta de Oersted, estudaram o campo magnético produzido por uma corrente
retilínea e muito extensa (que, na prática, se podia considerar infinita). Embora não
pudessem medir com precisão a corrente no fio, podiam mantê-la constante e
concluíram que a intensidade do campo, B, era inversamente proporcional à distância ao
fio, d. Mais tarde verificar-se-ia, também experimentalmente, que o campo era
proporcional à corrente no fio. Conjugando os dois resultados, B  I / d , ou,
explicitando a constante de acoplamento,
 I
B 0 , (29.10)
2d

onde 0 é a permeabilidade magnética do vazio cujo valor em unidades SI é


0  4  10 7 T m/A . (29.11)

A unidade SI de campo magnético é o tesla (símbolo T).


Como já vimos, as linhas de campo são circunferências (o campo magnético só
depende da distância ao fio) assentes em planos perpendiculares à corrente. A Fig. 29.9
(ver também a Fig. 29.4 a) mostra, em corte, as linha de força do campo magnético
produzido por uma corrente retilínea infinita.


B

Figura 29.9

30

Indução magnética e lei de Faraday. Aplicação: gerador de corrente alternada.

167
Indução magnética e lei de Faraday

Foi a descoberta de Oerstead que permitiu concluir que as correntes elétricas


criam campos magnéticos. O inglês Michael Faraday imaginou então que o contrário
pudesse acontecer, ou seja que os campos magnéticos poderiam gerar correntes em
circuitos. Ora, se colocarmos um magnete junto de um circuito onde se intercalou um
amperímetro, como se mostra na Fig. 30.1, podemos facilmente constatar que não há
registo de passagem de corrente no circuito.
I=0

S N

A
Figura 30.1

Mas o mesmo já não acontece se ocorrer uma variação temporal do campo magnético na
zona do circuito! Foi o que Faraday descobriu, em 1831, onze anos depois da
descoberta de Oerstead! Com o material representado na Fig. 30.1 essa variação
temporal do campo magnético pode conseguir-se de duas maneiras: ou movendo o
magnete (como no lado esquerdo da Fig. 30.2); ou deformando o circuito (como no lado
direito da Fig. 30.2).

I
I

N N

S S
0 0

A A

Figura 30.2

Faraday relacionou a corrente assim gerada no circuito com as linhas de força do


campo magnético “enlaçadas” pelo próprio circuito, ou melhor relacionou a corrente
com a variação temporal do número dessas linhas pois, tal como na Fig. 30.1, pode
haver linhas de campo enlaçadas e não haver corrente. Para haver corrente tem de haver
variação temporal do número de linhas de campo, tal como nas duas situações da
Fig. 30.2!
Recordando, o fluxo de um campo vetorial uniforme através de uma superfície
plana, tomando o campo magnético como exemplo de vetor, é

  BA cos  (30.1)

onde A é a área da superfície, B a intensidade do campo e  o ângulo entre o vetor


normal à superfície e o campo magnético (Fig. 30.3).

168
Figura 30.3

Frisamos que a situação representada na Fig. 30.3 corresponde a um campo uniforme


(não varia de ponto para ponto) e a uma superfície plana. A Fig. 30.4 corresponde a uma
situação ainda mais simples, para a qual o fluxo é simplesmente   BA . A unidade de
fluxo do campo magnético no SI é o weber (símbolo Wb) que é o fluxo de um campo de
1 T através de uma superfície que lhe é perpendicular de 1 m2.

B

Figura 30.4

No caso geral de o campo variar de ponto para ponto e de a superfície de área A ser
qualquer, tem de se considerar, como habitualmente, em primeiro lugar, elementos de
  
superfície infinitesimais orientados, dA  n̂ dA , depois o produto escalar B  dA e,
finalmente, a soma de todos estes elementos infinitesimais:
 
   B  dA . (30.2)
A

Os resultados das experiências de Faraday podem-se exprimir através da seguinte


relação entre a variação temporal do fluxo do campo magnético e uma força
eletromotriz, i, no circuito (a força eletromotriz  e a corrente I relacionam-se através
de  iRI


i  . (30.3)
t

No numerador surge a variação do fluxo. O denominador da fração é o correspondente


intervalo de tempo. Duas notas ainda quanto à expressão (30.3): podemos tomar o limite
de intervalo de tempo muito pequeno e, nesse caso, no segundo termo de (30.3) surge a
derivada do fluxo do campo magnético em ordem ao tempo; habitualmente tiram-se os
módulos do lado direito e põe-se um sinal menos:

d
  . (30.4)
dt

169
Esta expressão é conhecida por lei de Faraday. O sinal negativo tem a ver com o sentido
da corrente gerada: esta corrente é, ela própria fonte de campo magnético que, por sua
vez vai também contribuir para o fluxo. O sentido dessa corrente é tal que a variação do
fluxo assim criado se opõe ao do campo inicial.

Aplicação: gerador de corrente alternada

Numa barragem, numa central termoelétrica ou em qualquer outra unidade de


produção de energia elétrica há sempre um circuito que é posto a rodar numa região
onde existe um campo magnético (geralmente com origem num eletroíman). A rotação,
provocada pela passagem de água ou circulação de vapor em turbinas, é com velocidade
angular constante. Na Fig. 30.5 mostra-se o circuito que delimita uma área A e
admite-se que o campo magnético é constante.


B


^
n
exterior
A

Figura 30.5

O ângulo entre a normal ao plano da espira que roda e o campo magnético é  . A


d
velocidade angular (constante) é, portanto, a variação temporal deste ângulo:   e
dt
consequentemente    t [fazendo  (0)  0 ]. O fluxo do campo magnético é dado
pela expressão (30.1), ou seja

 t   BA cos t . (30.5)

De acordo com a lei de Faraday, a força eletromotriz induzida é

d
i    BA  sin t (30.6)
dt

A força eletromotriz induzida é sinusoidal. Logo, a tensão em nossas casas é também


sinusoidal e também a corrente vai ser sinusoidal. Chama-se corrente alternada. A
frequência de rotação das turbinas fixa a frequência da tensão. Em Portugal e na Europa
a frequência da tensão da rede pública é 50 Hz.

170
31

Princípios da ótica geométrica e leis da reflexão e da refração. Espelhos planos.


Espelhos esféricos e aberrações. Espelhos esféricos de grande raio de curvatura.
Imagens dadas por espelhos esféricos

Princípios da ótica geométrica

Quando estudámos fenómenos ondulatórios, obtivemos, com base em


argumentos que tinham diretamente a ver com as fases das ondas, as leis da reflexão e
da refração. Ora, essas leis foram deduzidas sem referência ao tipo de ondas pelo que
têm validade geral.
Como sabemos, a luz tem uma natureza ondulatória. Espera-se, portanto, que os
fenómenos de reflexão e de refração da luz sejam regidos por aquelas leis. Por outro
lado, as leis da reflexão e a refração podem também ser deduzidas numa perspetiva
“corpuscular”. Por outras palavras, aquelas mesmas leis também podem ser deduzidas
se a luz for considera uma “fiada” de partículas. Há certos fenómenos em que a luz
intervém e que só se entendem no quadro da sua natureza ondulatória. Mas há outros
fenómenos que só podem ser entendidos à luz da sua natureza corpuscular. Os
fenómenos de reflexão e de refração podem ser vistos em qualquer das perspetivas.
Newton desenvolveu uma teoria corpuscular para a luz mas essa teoria acabaria por ser
abandonada em virtude de a teoria ondulatória se adequar melhor à descrição da
realidade experimental.
Os fenómenos de reflexão e a refração da luz estudam-se na ótica geométrica
sem que haja necessidade de fazer referência à natureza da luz. O modelo do raio
luminoso serve de base à ótica geométrica. Um raio luminoso é uma linha reta que tem a
direção de propagação da luz. Mas convém deixar claro que a ideia de raio luminoso é
uma abstração: na realidade o que existem é feixes de luz. E esses feixes têm sempre
dimensão muito superior ao comprimento de onda da luz. Se pretendermos diminuir a
espessura do feixe conferindo-lhe uma dimensão cada vez menor, quando nos
aproximamos de dimensões da ordem do comprimento de onda... resulta precisamente o
oposto do que se pretende: a luz começa a espalhar-se! Este fenómeno, designado por
difração, tem a ver com o caráter ondulatório da luz. A ótica geométrica não se pode
aplicar nessas circunstâncias o que significa que há certas condições que têm de estar
reunidas para se poder usar o formalismo da ótica geométrica. Embora, como já
dissemos, não haja necessidade de referir a natureza da luz, do ponto de vista
ondulatório, o raio luminoso é perpendicular às frentes de onda; do ponto de vista
corpuscular, tem a direção do momento linear das partículas de luz.
O modelo do raio luminoso é adequado ao fim último a que a ótica geométrica
se destina, o qual consiste em prever o percurso da luz. No quadro da ótica geométrica
tal reduz-se sempre a um problema mais ou menos elaborado de geometria, o que dá
razão de ser à designação ótica geométrica.
Há alguns pressupostos básicos sobre os quais se constrói a ótica geométrica. O
primeiro destes pressupostos é a propagação retilínea da luz no vazio ou em meios
isotrópicos e homogéneos. Outros dois pressupostos são a reversibilidade dos raios
luminosos e a sua independência. Quer dizer, se um raio se propaga numa dada direção
e incide num espelho, origina um raio refletido. Se esse raio refletido for revertido
passando a ser o raio incidente, origina um raio refletido que é o raio original revertido.
A independência dos raios luminosos significa que podemos analisar o percurso óptico

171
de cada raio independentemente dos outros raios, mesmo que se cruzem uns sobre os
outros.
A trajetória de um raio luminoso fica determinada pela pelas leis da reflexão e
da refração que assim se enunciam:

Leis da reflexão (ver Fig. 31.1):


1- O raio incidente (i) numa superfície polida, a normal à superfície no ponto de
incidência (n) e o raio refletido (r) estão no mesmo plano.
2- O ângulo de incidência,  e o ângulo de reflexão,  são iguais.

i r

 

Figura 31.2

Leis da refração (ver Fig. 31.2):


1- o raio incidente (i) numa superfície de separação de dois meios óticos, a normal à
superfície no ponto de incidência (n) e o raio refratado (R) estão no mesmo plano.
O ângulo de incidência,  e o ângulo de refração,  relacionam-se através de

sin  n2
 (31.1)
sin  n1
sendo n1 e n2 os índices de refração dos meios.

i r


meio 1

meio 2

R

Figura 31.2

172
O índice de refração de um meio, que vamos considerar sempre isotrópico e
homogéneo, é a razão entre a velocidade da luz no vazio e a velocidade da luz nesse
meio:

c
n . (31.2)
v

Como a velocidade da luz é máxima no vazio, o índice de refração é maior do que um


para qualquer meio. Se o meio 2 tiver índice de refração superior ao do meio 1, o raio
refratado aproxima-se da normal se o raio incidente vier do meio 1 (tal como na Fig.
31.2), e afasta-se da normal se vier do meio 2.

Espelhos planos

A determinação das imagens dadas por um espelho plano faz-se a partir das leis
da reflexão. A Figura 31.3 mostra um espelho plano e P é um ponto (que designamos
por “objeto”) que dista d da superfície do espelho. Onde está a imagem que o espelho dá
desse ponto?

r"

P i" P'
r i V

i'
 
 
r'

d d'

Figura 31.3

Sabemos que essa imagem se forma do outro lado do espelho e que está à mesma
distância do espelho a que está o ponto-objeto: d  d ' .
Este resultado pode ser obtido geometricamente. Na Fig. 31.4 representa-se um
objeto vertical de altura ho (valor que se considera positivo) e à distância x o (que
também se considera positivo).

173
P P'
 N

 hi
ho
(objecto)  (imagem)
 M

xo xi

Figura 31.4

Para encontrar a imagem do objeto basta encontrar a imagem do ponto P. Fazem-se sair
desse ponto dois raios luminosos. O raio 1 incide normalmente no espelho. O raio 2
incide segundo um ângulo  e emerge, portanto, fazendo um ângulo  com a normal, de
acordo com as leis da reflexão. Os dois raios emergentes não se encontram. Mas o seu
prolongamento encontra-se para lá do espelho, no ponto P’, que é a imagem virtual de
P. Da semelhança dos triângulos PMN e P’MN resulta que o tamanho da imagem é
igual à do objeto: hi  ho . Por outro lado, também PM  P' M . Na Fig. 31.4 indicam-se
as coordenadas xi e x o para a imagem e para o objeto. Nos espelhos, usa-se a
convenção de tomar como positivas as coordenadas do lado do espelho onde se
propagam os raios luminosos e negativas do outro lado, ou seja, do lado de lá do
espelho. No quadro desta convenção podemos escrever a seguinte relação entre
coordenadas do objeto e da sua imagem:

x o  xi  0 (31.3)

Atendendo a que xi é negativo (e x o positivo), podemos escrever para a relação entre


as alturas dos objetos

hi x
 i (31.4)
ho xo

A esta razão chama-se, em geral, ampliação e, evidentemente, para o espelho plano vale
um.

Espelhos esféricos e aberrações

Quando um raio luminoso incide numa superfície espelhada é refletido segundo


um ângulo igual ao ângulo de incidência como afirma a segunda lei da reflexão. No
caso de espelhos esféricos a normal no ponto de incidência é uma direção radial, ou
seja, uma direção que passa pelo centro do espelho.
Os espelhos esféricos podem ser côncavos ou convexos, consoante a superfície
espelhada seja a interior da calote esférica ou a exterior.
Ora, quando raios luminosos paralelos centrais incidem num espelho côncavo,
estes são refletido, convergindo para uma zona relativamente pequena mas que se não
reduz a um só ponto, como se mostra na Fig. 31.5.

174
O V

Figura 31.5

Dizemos que um espelho esférico não foca perfeitamente um feixe de raios paralelos,
circunstância que já era do conhecimento dos gregos. Foram, de resto, os gregos que
primeiro descobriram que para a focagem ocorrer num só ponto, o espelho tinha de ser
parabólico e não esférico. Por isso as antenas de TV que captam sinais enviados por
satélites são parabólicas!
A impossibilidade de focagem de um feixe de raios paralelos por um espelho
esférico, pode ser expressa dizendo-se que um espelho assim nunca dá uma imagem
focada de um objeto no infinito. A deformação na imagem por este motivo é chamada
aberração.
Contudo, se o raios luminosos forem paralelos e próximos do eixo do sistema
(OV na Fig. 31.5) a aberração é praticamente inexistente. Ora, ter um feixe de raios
paralelos pouco “espesso” a incidir na região do ponto V do espelho é equivalente a
tomar um espelho com um raio de curvatura muito grande.

Espelhos esféricos de grande raio de curvatura

A Fig. 31.6 (a) mostra um raio luminoso paralelo ao eixo do sistema a incidir no
ponto M. A normal no ponto de incidência tem a direção radial (linha MC, sendo C o
centro de curvatura do espelho). O ângulo de incidência,  é o ângulo que o raio
incidente faz com esta linha e o ângulo de reflexão tem de ser igual. O raio refletido
intercepta o eixo do sistema no ponto F a que chamamos foco. O triângulo CMF é
isósceles e o ângulo no vértice C é também ângulo externo no vértice F é
2Designemos por R o raio de curvatura do espelho (distância CV ) e por f a distância
FV (distância focal). Como relacionar estas duas distâncias?

i i M
M


  V  
C F C F V
r r f

(a) (b) R

Figura 31.6

175
No lado direito da Fig. 31.7 representamos o trajeto do raio luminoso mas substituímos
o arco MV pela corda que se considera vertical. Esta aproximação é legítima desde que
o ângulo seja pequeno, ou, o que é o mesmo e já antes se disse, desde que a distância
R seja grande (em comparação com o tamanho do arco). Pode concluir-se da Fig. 31.7
(b) que

FV FV
tan   e tan 2  . (31.5)
R f

Por outro lado, como o ângulo é pequeno, tan    e tan 2  2 e das equações
anteriores obtemos

R
f  . (31.6)
2

Conclui-se desta expressão que o centro de curvatura do espelho está à dupla distância
arco(MV)
focal. Podíamos chegar ao resultado (31.6) a partir de   (que é uma
R
arco(MV)
expressão exata porque  é um ângulo ao centro) e de 2  (que já não é
f
exata, mas quanto mais próximo de zero for  mais rigorosa se torna).
Assim, num espelho esférico côncavo ideal, um feixe de raio paralelos converge
para um único ponto (foco real); se o espelho for convexo o mesmo feixe diverge, mas
os prolongamentos dos raios refletidos encontram-se num só ponto (foco virtual).
Representamos estas duas situações na Fig. 31.7. Indicamos para um raio luminoso
incidente, em cada situação, a direção normal no ponto de incidência.

C F
V
V F C

(a) (b)

Figura 31.7

Pelo princípio da reversibilidade dos raios luminosos, se um raio incidir passando pelo
foco emerge segundo a direção paralela ao eixo. Por outro lado, um raio incidente que
passe pelo centro de curvatura do espelho (ou, para a lente convexa, cuja direção passe
por C) é refletido segundo a mesma direção (só o sentido muda) pois tal incidência é
normal. As três situações − raio incidente paralelo ao eixo (1), raio incidente que passa

176
pelo foco (2) e raio incidente normal ao espelho (3) − estão resumidas na Fig. 31.8,
onde se mostram, os correspondentes raios refletidos para espelhos côncavo e convexo.
Estes raios principais são muito úteis para a determinação de imagens como veremos na
próxima secção.

1
1
1
2 3
C V 3
F V
F C

2
(a)
(b)

Figura 31.8

Imagens dadas por espelhos esféricos

Na Fig. 31.9 (a), um objeto de altura ho está à distância x o de um espelho


côncavo. Tal como para o espelho plano, bastam dois raios luminosos para determinar a
imagem do objeto. É conveniente escolher dois dos três raios referidos no final da
secção anterior e para os quais os correspondentes raios refletivos são fáceis de traçar.
No caso concreto da Fig. 31.9 (a) considerou-se um raio incidente paralelo (incide no
ponto M) e um raio incidente que passa pelo foco (incide no ponto M). Os raios
refletidos não se encontram do lado esquerdo do espelho. Mas os seus prolongamentos
encontram-se do outro lado do espelho. A imagem do objeto é, portanto, virtual.

N
N

M hi hi
M
ho V
F ho
xo xi V
F xo xi
f
(a) (b)

Figura 31.9

A coordenada da imagem é xi , cujo valor é intrinsecamente negativo uma vez que está
do lado do espelho onde não há propagação de raios luminosos (convenção já usada
para o espelho plano). Pretendemos agora obter a relação entre as coordenadas do objeto
e da imagem e as características do espelho, designadamente a sua distância focal. A

177
Fig. 31.9 (b), que é mais esquemática e onde se fez já a substituição do arco VMN pela
corda (que se considera perpendicular ao eixo21), ajuda na abordagem da questão.
Do triângulo retângulo verde (notar que xi  0 !),

hi f  xi
 (31.7)
ho f

e do amarelo

hi f
 (31.8)
ho f  xo

Nestas duas expressões f  0 , xo  0 e xi  0 . Dividindo uma expressão pela outra


obtemos
f  xi f
 (31.9)
f f  xo

ou ainda f 2  xi f  xo f  xi xo  f 2 e, finalmente,

1 1 1
  . (31.10)
xo xi f

Embora esta expressão tenha sido obtida para o caso da Fig. 31.9, é válida em geral para
qualquer espelho esférico − côncavo ou convexo − desde que se respeite a seguinte
convenção:
- coordenada do objeto (lado esquerdo do espelho com luz a vir da esquerda): xo  0
- coordenada da imagem: xi  0 se a imagem estiver do lado esquerdo (imagem real)
ou, seja, do lado do espelho onde se propagam os raios luminosos; xi  0 se a imagem
estiver do lado direito (imagem virtual), ou seja, do lado de lá do espelho.
- valor de f: f  0 , para um espelho côncavo (como o da Fig. 31.9); f  0 , para um
espelho convexo.
A expressão (31.10) é também válida para o espelho plano: fazendo f  
obtém-se xi   xo que é a expressão (31.3).
Define-se a ampliação como a razão entre os tamanhos da imagem e do objeto:

hi
A (31.11)
ho

Usando a expressão (31.7) tem-se


xi
A  1 (31.12)
f

21
Estamos sempre a considerar ângulos pequenos ou espelhos com grandes raios de curvatura.

178
xi x
Se utilizarmos agora a expressão  i  1 , obtida de (31.10), vem
f xo
x
A i . (31.13)
xo

No caso da Fig. 31.9 xi é negativo e maior, em módulo do que x o , pelo que A  1. O


valor da amplificação pode ser positivo ou negativo. Um valor negativo significa que a
imagem é invertida. No caso do espelho plano, xi   xo e portanto A  1 .
Para a construção geométrica das imagens dadas por espelhos esféricos convém
utilizar, como já dissemos, raios como os da Fig. 31.8. Na Fig. 31.10 dá-se mais um
exemplo de construção geométrica da imagem dada por um espelho côncavo de um
objeto colocado a uma distância superior à distância focal. A imagem é real, invertida e
menor do que o objeto (  1  A  0 ). Notar que xi / x o  1 .

o
V
C i F

Figura 31.10
Finalmente, na Fig. 31.11, ilustra-se a construção de uma imagem dada por um espelho
convexo

o
i
V F C

Figura 31.11

A imagem é virtual, direita e menor do que o objeto.

179
32

Lentes reais e aberrações. Lentes delgadas e imagens dadas por lentes delgadas.
Potência de uma lente

Lentes reais e aberrações

Quando um raio luminoso incide numa superfície de separação de dois meios


óticos, há um raio refletido e um raio refratado. Vamos estudar o percurso do raio
refratado.

Figura 32.1

Na Fig. 32.1 representam-se duas situações de incidência de um raio luminoso


numa superfície de separação de dois meios. No primeiro caso a superfície é plana; no
segundo caso essa superfície é curva. Em qualquer caso a relação do ângulo de refração
com o ângulo de incidência é dada pelas leis da refração.
Uma lente é feita de um material que permite a propagação da luz, cujo índice de
refração é diferente do índice de refração do meio onde se encontra. As superfícies de
muitas lentes têm geralmente forma esférica ou cilíndrica, mas podem ter outras formas.
A luz que incide na lente é desviada ao penetrar nela e volta a ser desviada ao
abandoná-la pois encontra uma nova superfície de separação de dois meios óticos.
Na Fig. 32.1 representam-se dois tipos de lentes. Do lado esquerdo, temos uma
lente com os bordos delgados que faz convergir numa região limitada um feixe de raios
paralelos. No lado direito temos uma lente de bordos espessos que faz divergir um feixe
de raios paralelos.

Figura 32.2

No caso da lente convergente, acontece uma situação semelhante à que vimos


relativamente às aberrações por espelhos esféricos (Fig. 31.5). Falamos agora em

180
aberração central (para a distinguir de um outro tipo de aberração que a seguir
descreveremos). É devido à espessura da lente que a imagem de um objeto no infinito
não se reduz, em geral, a um só ponto. Dito de outra maneira, a lente representada não
promove a focagem do feixe de raios paralelos num só ponto. Também os
prolongamentos dos raios divergentes depois de atravessarem a lente do lado direito da
Fig. 32.2 não se encontram num só ponto.
Para lentes há um outro tipo de aberração que tem a ver com o facto de a
velocidade de propagação da luz num meio material não ser única. De facto, a
velocidade da luz nos meios materiais depende do comprimento de onda. Como o índice
de refração está diretamente ligado à velocidade de propagação, segue-se que o índice
de refração depende do comprimento de onda (ou da cor) da radiação. Assim, quando
luz azul incide na superfície de separação ar/vidro o seu desvio é maior do que o sofrido
pela luz vermelha, como se mostra na Fig. 32.3.

Figura 32.3

Assim, um mesmo raio luminoso de luz branca (luz policromática) vai-se desdobrar ao
encontrar um lente e emerge desta não como um só raio mas como uma banda
policromática. O foco deixa, também neste caso, de ser um ponto. Para a distinguir do
outro tipo de aberração esta é designada por aberração cromática.

Lentes delgadas e imagens dadas por lentes delgadas

Tal como para os espelhos esféricos, a aberração é praticamente inexistente se o


feixe de raios paralelos for pouco “espesso” ou, o que é equivalente, se as lentes forem
delgadas. Nas lentes delgadas os raios de curvatura das superfícies de separação são
grandes. Nestas lentes ideais um feixe de raios paralelos converge num ponto ou
diverge de um só ponto como mostra a Fig. 32.4: tem-se do lado esquerdo uma lente
delgada convergente e do lado direito uma divergente. Os pontos de
convergência/divergência (real ou virtual) chamam-se focos.

F C F F C F

lente delgada lente delgada


convergente divergente

Figura 32.4
Os focos estão de um e do outro lado da lente à mesma distância desta (ou melhor, do
ponto C que é o centro da lente).

181
Pelo princípio da reversibilidade dos raios luminosos, se um raio incidir numa
lente passando pelo foco, vai emergir como raio paralelo. Por outro lado, se o raio
incidir diretamente no ponto C da lente, atravessa-a sem se desviar. Na Fig. 32.5
representamos o trajeto de três raios principais: um raio paralelo que é desviado
segundo uma direção que passa pelo foco (1) (nele convergindo ou dele divergindo); um
raio que passa pelo foco e que emerge como raio paralelo (2); um raio que incide em C
e que não é desviado (3).

1
1 2
F
F C F C F
3 3
2

Figura 32.5

Para determinar a imagem de um ponto dada por uma lente, basta considerar dois raios.
Se os raios escolhidos forem raios principais a análise simplifica-se bastante.
Na Fig. 32.6 um objeto de altura ho está à distância x o de uma lente delgada
convergente. Para sabermos onde está a imagem do ponto P é conveniente escolher dois
dos três raios principais, como acabámos de sublinhar. No caso concreto da Fig. 32.6
consideramos um raio incidente paralelo (que é desviado para o foco) e um raio
incidente que passa pelo foco que emerge como raio paralelo ao eixo do sistema. Os
dois raios encontram-se no ponto P’ que é a imagem real do objeto P. Como se pode
concluir da figura a imagem do objeto vertical é invertida e menor do que o objeto.

ho
V
F F' hi
P'
f f
xo xi

Figura 32.6

As coordenadas do objeto e da imagem são x o , xi . Tal como para os espelhos esféricos


xo  0 , mas agora consideramos que xi  0 para a direita da lente, ou seja para o lado
onde os raios refratados se propagam. Se a imagem se formar do lado da lente onde está
o objeto tem-se xi  0 . Também a distância focal f e a altura hi são tomadas com
valores algébricos. Para a lente convergente, como na Fig. 32.6, f  0 (o contrário
para a lente divergente). A “altura” da imagem é negativa se esta estiver invertida
relativamente ao objeto.

182
Vamos então relacionar entre si, com base na Fig. 32.6, as coordenadas da
imagem e do objeto e a distância focal. Da semelhança dos triângulos a verde (lado
direito) da lente (notar que hi  0 !),

hi x  f
  i (32.1)
ho f

e da semelhança dos triângulos amarelos

hi f
  (32.2)
ho x o  f

Repetimos que, nestas duas expressões f  0 , xo  0 e xi  0 . Dividindo uma


expressão pela outra obtemos
xi  f f
 (32.3)
f xo  f

ou ainda, e tal como para os espelhos,

1 1 1
  . (32.4)
xo xi f

Esta equação é válida para qualquer lente delgada − convergente ou divergente − desde
que se respeite a seguinte convenção:
- coordenada do objeto (lado esquerdo da lente com luz a vir da esquerda): xo  0
- coordenada da imagem: xi  0 se a imagem estiver do lado direito, ou seja, do lado da
lente para onde a luz refratada se propaga; xi  0 se a imagem estiver do lado esquerdo.
- valor de f: f  0 , para uma lente convergente (como na Fig. 32.6); f  0 , para a lente
divergente.
Ainda em analogia com os espelhos, define-se a ampliação como a razão entre
os tamanhos da imagem e do objeto:

hi
A (32.5)
ho

E tal como para os espelhos, usando (32.8) e (32.4) obtém-se

xi
A (32.6)
xo

[confrontar com a expressão (31.13). No caso da Fig. 32.6 xi é positivo e menor do que
x o , pelo que  1  A  0 : a imagem é invertida e menor do que o objeto.
A Fig. 32.7 mostra como se obtém a imagem de um objeto dada por uma lente
delgada divergente. A imagem é direita e menor do que o objeto: 0  A  1 (notar que

183
xi  0 ). Na situação representada usou-se um raio paralelo (que diverge passando a sua
direção pelo foco) e um outro direto ao centro da lente, o qual não é sofre desvio.

F C F

Figura 32.7

Potência de uma lente

O poder convergente ou divergente de uma lente tem diretamente a ver com a


sua distância focal. Define-se potência focal ou vergência de uma lente como o inverso
da distância focal:

1
P . (32.7)
f

A unidade SI de potência focal é a dioptria (símbolo D). Uma dioptria é a potência focal
de uma lente cuja distância focal é 1 m. A potência focal é positiva para lentes
convergentes e negativa para lentes divergentes.

184
33

Lasers: noções básicas

Lasers: noções básicas

A Mecânica Clássica não se aplica a sistemas como moléculas, átomos ou


partículas subatómicas. Por vezes, ainda é possível tecer considerações de índole
clássica relativamente a esses sistemas mas, de uma maneira geral, é a Mecânica
Quântica que lhes é aplicável. A Mecânica Quântica é um corpo de doutrina
desenvolvido do primeiro quartel do séc. XX, que resultou do reconhecimento da
natureza ondulatória da matéria. Utiliza algumas ideias e conceitos que não têm paralelo
na Física Clássica, embora também faça uso de outros para os quais há
“correspondentes” na Física Clássica. Uma das inovações trazidas pela Mecânica
Quântica foi a descrição do sistema físico por uma função de onda. Como o próprio
nome indica trata-se de uma função matemática que tem a particularidade de conter toda
a informação relativa a um sistema quântico. Um eletrão num átomo é uma partícula
quântica e o seu estado22 é descrito por uma função de onda. Quando um eletrão deixa
um estado quântico e passa a estar noutro estado quântico, a sua função de onda
modifica-se.
Algumas ideias relativas aos estados quânticos dos eletrões em torno do núcleo
atómico já são conhecidas do ensino secundário. Essas ideias bastam para se estudarem
os mecanismos básicos de funcionamento de um laser. Evidentemente que um
aprofundamento do tema exige um conhecimento também mais aprofundado de
Mecânica Quântica.
O modo de funcionamento de um laser, de facto, só pode ser descrito no quadro
da Mecânica Quântica pois a luz laser resulta da passagem de um eletrão, em cada
átomo, de um estado excitado para um estado de energia mais baixa.
É sabido que cada estado quântico eletrónico possui uma energia bem definida e
é descrito matematicamente por uma função de onda. Num átomo, as energias dos
vários estados eletrónicos são discretas mas numa molécula ou num sólido podem
pertencer a um contínuo.
Um eletrão num estado A, com energia EA pode transitar para um estado B, com
energia EB se absorver um quantum de radiação eletromagnética com frequência
(lado esquerdo da Fig. 33.1). A energia do quantum deverá ser h  EB  EA .

EB EB

absorção de fotão emissão de fotão


h = EBEA
(energia do fotão)

EA EA
EXCITAÇÃO DESEXCITAÇÃO
Figura 33.1

22
O Princípio de incerteza impede-nos de pormenorizar o estado cinemático de uma partícula quântica já
que, de acordo com a Mecânica Quântica, não é possível obter simultaneamente valores precisos de
posição e de momento linear. Esta impossibilidade não é tecnológica; é lógica.

185
Trata-se de um processo onde, evidentemente, há conservação de energia. O eletrão tem
inicialmente energia EA e, depois da interação com o fotão de energia h , passa a ter
energia

EB  EA  h . (33.1)

Insistimos  pois trata-se de um aspeto central  que a transição só pode ocorrer se a


energia do fotão for exatamente igual à diferença de energias dos dois estados A e B.
Na Fig. 33.1, estão representados dois níveis de energia. Mas para haver
transição de um estado A para um estado B não basta a presença de um fotão com a
frequência apropriada. Há certas transições que nunca ocorrem mesmo que o fotão
tenha a energia apropriada. A Mecânica Quântica diz-nos como se calcula a
probabilidade para a ocorrência da transição de um estado A para um estado de maior
energia tal como o estado B. No cálculo desta probabilidade entra o produto das funções
de onda dos estados A e B a multiplicar ainda por uma certa quantidade (notar que a
probabilidade não é simplesmente igual ao referido produto). Desta maneira, e sendo o
produto de funções uma operação comutativa, a Mecânica Quântica fornece para a
excitação uma probabilidade igual à da desexcitação. O processo de desexcitação está
representado no lado direito da Fig. 33.1. O estado B está inicialmente ocupado por um
eletrão que pode transitar para um estado de energia mais baixa, como o estado A,
sendo o processo acompanhado da emissão de um fotão cuja frequência  tem de
observar a Eq. (33.1).
A função de onda tem um significado físico claro: o quadrado do módulo dessa
função está diretamente relacionado com a densidade de probabilidade de presença
(portanto o quadrado do módulo da função de onda, integrada em todo o espaço, é igual
à unidade pois o eletrão tem de estar “lá”!). Os eletrões não descrevem trajetórias bem
definidas (órbitas) em torno do núcleo. Contudo, não vamos sofisticar a representação
da “nuvem eletrónica”: vamos antes representar um estado eletrónico por uma
circunferência com centro no núcleo. Mas atenção! Trata-se de uma mera representação
esquemática, de algum modo inspirada no celebrizado “modelo de Bohr” do átomo que
não corresponde a uma descrição rigorosa da realidade... Na Fig. 33.2 representamos
por circunferências os estados A e B. Na figura da esquerda o eletrão está no estado A e
por absorção de um fotão de energia conveniente transita para o estado B. Na parte
direita mostra-se o processo inverso de desexcitação.

h

h
B electrão B
A + A +
núcleo

EXCITAÇÃO DESEXCITAÇÃO

Figura 33.2

186
Quando um eletrão está num estado de energia alta acabará, mais tarde ou mais
cedo, por “decair” radiativamente para um estado de energia mais baixa. Ora, o tempo
de vida dos estados excitados não é sempre o mesmo. Podem os estados excitados
“viver” pouco tempo − tempos da ordem de 10−8 s − ou tempos muito grandes − da
ordem de alguns milissegundos. Os estados excitados com longos tempos de vida − da
ordem de 10−3 s − são designados meta-estáveis.
Já dissemos que se um fotão de energia apropriada é absorvido por um eletrão,
induz uma transição deste para um estado de energia mais alta. Ora, também um fotão
do mesmo tipo pode provoca (ou estimula) a imediata desexcitação de um átomo que
se encontre num estado meta-estável! Concretamente, se o átomo com o eletrão no
estado B absorver radiação eletromagnética de frequência  , desexcita imediatamente
com emissão de um fotão idêntico ao que levou à excitação, como se mostra na Fig.
33.2.

h
radiação
incidente
radiação (estimulada)
emergente
B
A + h
h

Figura 33.3

Fala-se, neste caso, em emissão estimulada. O aspeto crucial desta emissão


estimulada é o facto de os dois fotões (o incidente e o emitido de forma estimulada) se
propagarem em fase, numa mesma direção, reforçando-se assim mutuamente. A
radiação produzida diz-se coerente. Então, se tivermos uma amostra de átomos
excitados no estado B, um simples fotão inicial pode desencadear um processo em
cadeia de desexcitação estimulada: um fotão “inicial” induz o aparecimento de dois
fotões idênticos; cada um deles induz o aparecimento de outros dois, e rapidamente
todos os átomos são afetados pelo processo em avalanche. O acrónimo LASER significa
justamente “Light Amplification by Stimulated Emission of Radiation”.
Poder-se-ia pensar que a mesma radiação se poderia obter esperando
simplesmente pelo decaimento espontâneo dos átomos excitados. Contudo, no
decaimento espontâneo, cada átomo emite numa direção aleatória, independentemente
uns dos outros e em instantes diferentes. A radiação assim não é intensa. A grande
vantagem da emissão estimulada é a radiação ser proveniente de todos os átomos que
emitem praticamente em simultâneo e em fase (há interferência construtiva).
Numa amostra de átomos, na sua maioria estão no estado fundamental, embora
alguns possam estar em estados excitados que vão decaindo, ao mesmo tempo que
outros vão sendo excitados. Para haver efeito de emissão laser tem de haver inversão de
população, isto é terão de ser mais os átomos no estado excitado do que no
fundamental. Ora, muitos estados excitados têm tempos de vida da ordem do centésimo

187
de milionésimo de segundo o que é manifestamente pouco para que a emissão
estimulada seja efetiva: neste caso, a grande maioria dos decaimentos dá-se
espontaneamente. Há, porém, estados que vivem muito mais tempo − da ordem do
centésimo de segundo − o que lhes confere condições para que possam participar em
emissão laser.
Uma maneira de criar inversão de população entre um estado fundamental A e
um estado com potencialidade de emissão laser B, é através de um terceiro estado C que
viva pouco tempo. Por colisões ou descargas elétricas pode excitar-se o átomo para o
estado C que é um típico estado instável com tempo médio de vida muito curto. A
escolha deste estado é determinada por ele decair rapidamente e predominantemente
para o estado meta-estável B, como se mostra na parte esquerda da Fig. 33.4. Quando
um fotão de energia h  EB  EA incide no átomo no estado B dá-se a emissão laser
(lado direito da Fig. 33.4).

EC EC

EB EB

emissão laser

EA EA

Figura 33.4

É pertinente perguntar por que motivo não se “bombeiam” diretamente os eletrões do


estado A para o estado B? Recordemos que as transições A  B e B  A são
equivalentes e, sendo B um estado de vida longa, a probabilidade de decair
espontaneamente é pequena. Logo, a probabilidade de o popular também é pequena. Por
isso a bombagem de eletrões de A para B é feita através de um terceiro estado C.
Uma dificuldade prática com a bombagem ser feita via estado C é a energia
deste estado ser bem definida o que exige, para a sua excitação exatamente a energia
EC  EA . Ora, se a excitação for feita por luz branca, o processo de bombagem é pouco
efetivo pois apenas uma frequência de todas as presentes servirá!
Em 1960 descobriu-se que os cristais de rubi possuíam uma propriedade que
permitia solucionar esta dificuldade. O rubi é óxido de alumínio, que é uma substância
incolor, contaminado por crómio que dá ao rubi a sua característica cor vermelha. Num
cristal de rubi os átomos de crómio apresentam bandas de energia e não níveis de
energia muito bem definidos. Estas bandas, que se representam na Fig. 33.5, são
“largas” (em energia, entenda-se!) pelo que bombear eletrões para lá com luz branca a
partir do estado fundamental é muito mais efetivo do que no caso em que as bandas se
reduzem a um só nível. Cada uma das bandas radia para o estado B (este sim, sem
“largura”, ou “sharp” como se diz em inglês) suscetível de produzir emissão laser. A luz
branca que permite a excitação provém de uma lâmpada de flash. No caso do laser de
rubi a radiação tem comprimento de onda 693,4 nm.

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ED

EC

EB

emissão laser

EA

Figura 33.5

Há muitos materiais − sólidos, líquidos ou gases − que, tal como o rubi têm
capacidade de emissão laser. O laser de hélio-néon que também emite no vermelho com
comprimento de onda 632,8 nm, usa um processo diferente do descrito para o rubi. Uma
corrente elétrica permite a excitação de átomos de hélio do estado fundamental A para o
estado excitado B. Quando um átomo de hélio neste estado colide com um de néon no
estado fundamental A’, deixa-o num estado excitado C’ que tem ação laser quando
decai para um estado intermédio B’, como mostra o esquema da Fig. 33.6.

colisão
B C' emissão laser

B' = 632,8 nm


excitação
por impacto
de electrões
He Ne

A A'
Figura 33.6

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