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REVISTA BRASILEIRA DE

ESTUDOS
publicação da associação nacional de pós-graduação

URBANOS
e pesquisa em planejamento urbano e regional

E REGIONAIS ISSN 1517-4115


REVISTA BRASILEIRA DE ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS
Publicação semestral da ANPUR
Número 5, dezembro de 2002

ISSN 1517-4115
EDITOR RESPONSÁVEL
Marco Aurélio A. de Filgueiras Gomes (UFBA)
COMISSÃO EDITORIAL
Ana Clara Torres Ribeiro (UFRJ), Maria Flora Gonçalves (Unicamp),
Norma Lacerda (UFPE), Roberto Monte-Mór (UFMG)
CONSELHO EDITORIAL
Ana Fernandes (UFBA), Carlos Bernardo Vainer (UFRJ), Carlos Roberto M. de Andrade (USP/São Carlos),
Circe Maria da Gama Monteiro (UFPE), Clélio Campolina Diniz (UFMG), Flávio Magalhães Villaça (USP),
Frank Svensson (UnB), Frederico de Holanda (UnB), Jan Bitoun (UFPE), Lícia Valladares (IUPERJ),
Marcus André B. C. de Melo (UFPE), Marta Ferreira Santos Farah (FGV/SP), Martim Smolka (UFRJ),
Maurício Abreu (UFRJ), Tania Bacelar (UFPE), Tânia Fischer (UFBA), Wilson Cano (Unicamp), Wrana Panizzi (UFRGS)
ASSISTENTES DE EDIÇÃO
Nelma Gusmão, Rosângela de Campos Faperdue
COLABORADORES DESTE NÚMERO
Paola Berenstein Jacques (UFBA), Yara Vicentini (UFPR)
PROJETO GRÁFICO
João Baptista da Costa Aguiar
CAPA
Ana Basaglia
COORDENAÇÃO E EDITORAÇÃO
Ana Basaglia
REVISÃO
Fernanda Spinelli, Maria Apparecida Faria Marcondes Bussolotti
FOTOLITOS
Join Bureau de Editoração
IMPRESSÃO
GraphBox Caran

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Revista Brasileira de Estudos Urbanos e Regionais. A3, n.5


2002. – : Associação Nacional de Pós-Graduação e
Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional; editor
responsável Marco Aurélio A. de Filgueiras Gomes : A Associação, 2002.
v.

Semestral.
ISSN 1517-4115
O nº 1 foi publicado em maio de 1999.

1. Estudos Urbanos e Regionais. I. ANPUR (Associação


Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Planejamento
Urbano e Regional). II. Gomes, Marco Aurélio A. de Filgueiras

711.4(05) CDU (2.Ed.) UFBA


711.405 CDD (21.Ed.) BC-2001-098
REVISTA BRASILEIRA DE

ESTUDOS
publicação da associação nacional de pós-graduação

URBANOS
e pesquisa em planejamento urbano e regional

E REGIONAIS
S U M Á R I O

ARTIGOS MEMÓRIA DOS PRESIDENTES

9 C IDADE E L UGAR , S UA R EPRESENTAÇÃO E 95 A A NPUR EM N OVO PATAMAR – E STRUTURAN -


A PROPRIAÇÃO I DEOLÓGICA – Ester Limonad e DO N OVOS Â MBITOS DE ATUAÇÃO – 1999-2001 –
Rainer Randolph Maria Flora Gonçalves

23 D ESENVOLVIMENTO L OCAL E NDÓGENO , E N - RESENHAS


TRE A C OMPETITIVIDADE E A C IDADANIA – Tania
Moreira Braga 119 Os rumos da cidade: urbanismo e modernização
em São Paulo, de Candido Malta Campos – por Telma
de Barros Correia
39 O LINDA , M EMÓRIA E E SQUECIMENTO – Vir-
120 Cidades estreitamente vigiadas: o detetive e o ur-
gínia Pontual e Vera Milet banista, de Robert Moses Pechman, apresentação de
Stella Bresciani – por Amilcar Torrão Filho
59 U MA P ONTE PARA A U RBANIDADE – Frederico 123 Estética da ginga – A arquitetura das favelas
de Holanda através da obra de Hélio Oiticica, de Paola Berenstein
Jacques – por Pasqualino Romano Magnavita
77 A E SPACIALIDADE DAS R EMUNERAÇÕES DO 125 Modernidade e moradia. Habitação coletiva no
T RABALHO NO B RASIL , S UBSÍDIOS PARA O P LANE - Rio de Janeiro nos séculos XIX e XX , de Lílian Fessler Vaz
JAMENTO R EGIONAL – Anita Kon – por Eloísa Petti Pinheiro
ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA
EM PLANEJAMENTO URBANO E REGIONAL – ANPUR

PRESIDENTE
Maria Cristina da Silva Leme (FAU/USP)
SECRETÁRIA EXECUTIVA
Suzana Pasternak (FAU/USP)
DIRETORES
Heloísa Soares de Moura Costa (UFMG)
Leila Christina Dias (UFSC)
Rainer Randolph (UFRJ)
Sarah Feldman (USP/São Carlos)
CONSELHO FISCAL
Eva Machado Barbosa Samios (UFRGS)
Paulo Castilho Lima (UnB)
Virgínia Pitta Pontual (UFPE)

Esta publicação contou com o apoio


do Lincoln Institute of Land Policy
EDITORIAL
O quinto número da Revista Brasileira de Estudos Urbanos e Regionais traz
um conjunto de contribuições que, além de abordar questões de grande atua-
lidade, remete-nos à diversidade dos campos temáticos tratados em diferentes
áreas a que pertencem os programas que compõem a Anpur.
Os três primeiros artigos aqui reunidos confluem na intenção crítica a al-
guns dos fundamentos de práticas atuais do planejamento urbano. Discutindo
os futuros possíveis da cidade e do urbano, num momento em que os fenô-
menos “translocais” impõem a revisão de conceitos construídos e disseminados
ao longo dos dois últimos séculos, o artigo de Ester Limonad e Rainer Ran-
dolph contribui para o debate atual sobre as representações da cidade e do ur-
bano, o que os leva a discutir a relação local–lugar, a formação de representa-
ções do lugar e o seu papel na configuração de uma (pres)suposta identidade
urbana. Ao trilharem esse caminho, os autores trazem importantes elementos
críticos para uma reflexão sobre conceitos e categorias que vêm buscando atri-
buir um “protagonismo” às cidades e que se encontra na base da argumenta-
ção do chamado “planejamento estratégico”.
Já o artigo de Tania Moreira Braga questiona até que ponto competitivi-
dade e cidadania, pontos chave de propostas atuais de desenvolvimento local,
podem ser conciliados. Além de investigar a base conceitual e as estratégias po-
líticas/discursivas do chamado “desenvolvimento local endógeno”, chamando
a atenção para o que considera suas principais fragilidades, a autora investiga
também os limites e possibilidades da construção de políticas de desenvolvi-
mento local com inclusão social e solidariedade.
Virgínia Pontual e Vera Milet, discutindo tentativas recentes de requali-
ficação da cidade histórica de Olinda, Pernambuco, questionam um elemento
freqüentemente utilizado por um planejamento que tanto se deseja “estratégi-
co” quanto “localmente sustentável”: o apelo da história para fins turísticos e
que, por isso mesmo, vem transformando as preexistências (ou simulações de
legados do passado) em ponto chave para o redesenho das cidades. Exploran-
do contribuições de cronistas e historiadores que, num arco de tempo bastan-
te amplo, escreveram sobre a cidade de Olinda, e, confrontando-as às atuais
práticas urbanísticas de requalificação levadas a cabo em sítios históricos, as au-
toras lançam uma instigante pergunta: que práticas dos urbanistas levam ao es-
quecimento ou à perpetuação da memória do lugar?
A cidade como desenho é o campo explorado por Frederico de Holanda
em um artigo sobre Brasília, no qual ele contesta a propalada centralidade do
Plano Piloto desde os primórdios da cidade, discute a dispersão do sistema ur-
bano no qual ele se insere e mostra os custos sociais que essa dispersão acarre-
ta. Ao questionar sobre medidas de desenho urbano que poderiam contribuir
para uma distribuição mais eqüitativa entre emprego e habitação, o autor aca-
ba lançando uma questão mais do que pertinente: até que ponto a preservação
da “fisionomia” do lugar e da dimensão simbólica da Capital Federal, cidade

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E D I T O R I A L

que já nasceu como referência histórica fundamental de um certo tipo de ur-


banismo, é incompatível com mudanças em seu desenho?
Indo em outra direção, porém partilhando com os demais trabalhos a
mesma preocupação com a imperiosa necessidade de compreensão de proces-
sos contemporâneos de modo a subsidiar iniciativas de planejamento, o artigo
de Anita Kon contribui para o estudo das transformações socioeconômicas es-
paciais que atingem tanto economias avançadas quanto em desenvolvimento,
como resultado do processo de reestruturação produtiva em curso nas últimas
décadas. Neste sentido, sua contribuição para o planejamento regional centra-
se no estudo das alterações na distribuição espacial das remunerações do traba-
lho da população brasileira ao longo dos anos 90.
Na seção “Memória dos Presidentes”, apresentamos um minucioso relato
de Maria Flora Gonçalves, presidente da Anpur no biênio 1999-2001, no qual
são descritas, comentadas e avaliadas as diversas iniciativas desenvolvidas nes-
se período com a finalidade de responder ao enorme crescimento da associa-
ção nos últimos anos e de fortalecer sua presença na vida da área. Mais do que
um importante subsídio para se avaliar os rumos da associação, balisando o tra-
balho coletivo daqueles que a cada biênio recebem a responsabilidade de con-
duzi-la, este relato constitui-se também em uma boa contribuição para o co-
nhecimento da própria estruturação da área no Brasil.
Incluimos também neste número resenhas de quatro livros lançados em
2002: Os rumos da cidade: urbanismo e modernização em São Paulo, de Cândi-
do Malta Campos (prêmio Anpur 2001 de Melhor Tese); Cidades estreitamente
vigiadas: o detetive e o urbanista, de Robert Moses Pechman; Estética da ginga:
a arquitetura das favelas através da obra de Hélio Oiticica, de Paola Berenstein
Jacques; e Modernidade e moradia: habitação coletiva no Rio de Janeiro nos sécu-
los XIX e XX, de Lilian Fessler Vaz, elaboradas, respectivamente, por Telma de
Barros Correia, Amilcar Torrão Filho, Pasqualino Romano Magnavita e Eloisa
Petti Pinheiro.
Finalmente, registramos com grande satisfação a participação do CNPq
no financiamento desta edição, esperando que a continuidade deste apoio pos-
sa evitar, a partir de agora, os atrasos que inevitavelmente ocorrem quando fal-
tam fontes de recursos estáveis e contínuas para assegurar regularidade na vida
das publicações.

MARCO AURÉLIO A. DE FILGUEIRAS GOMES


Editor

6 R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 5 / MAIO 2002


A RTIGOS
CIDADE E LUGAR
SUA REPRESENTAÇÃO E APROPRIAÇÃO IDEOLÓGICA 1
1 Uma primeira versão des-
te trabalho foi apresentado
no VI Seminário de História
da Cidade e do Urbanismo,
realizado em Natal – RN, ou-
ESTER LIMONAD tubro de 2000.
RAINER RANDOLPH

R E S U M O Este ensaio tem por meta contribuir para uma discussão atual das re-
presentações da cidade e do urbano em um viés que procura articular conceitos comuns da
arquitetura e da geografia a partir do conceito de lugar. A argumentação será apresentada
em cinco partes: a partir de uma breve caracterização da (i) relação entre cidade e urbano
no momento atual em que os indícios apontam para o surgimento de fenômenos cada vez
mais “translocais”; passamos a uma (ii) reflexão sobre a relação local–lugar; (iii) a seguir,
tratamos do significado e da representação – e sua importância político-ideológica na for-
mação do lugar – a partir de contribuições da arquitetura e do urbanismo; o que nos leva
a questionar (iv) a geração de identidades (culturais) do lugar; para finalizarmos (v) com
a apropriação político-prática no assim chamado planejamento estratégico – dimensão tra-
balhada pelo planejamento urbano.

P A L A V R A S - C H A V E Cidade; lugar; representação; apropriação;


urbanização.

INTRODUÇÃO

Uma série de autores aponta, hoje, a coexistência curiosa e aparentemente parado-


xal de duas tendências concomitantes: assiste-se, em sua opinião, ao avanço da urbaniza-
ção no mundo inteiro, por um lado, e ao desaparecimento da cidade como forma terri-
torial de organização social, por outro.
Nas palavras de Castells & Borja (1997) a humanidade estaria fadada a um mundo
de urbanização generalizada em razão não apenas da concentração da população em áreas
urbanas, mas também porque “las áreas rurales formarán parte del sistema de relaciones eco-
nómicas, políticas, culturales y de comunicación organizado a partir de los centros urbanos”
(p.11). A partir daí estes autores questionam a validade de continuarmos a falar de cida-
des se tudo que conhecemos se tornou urbano, e argumentam se

no deberíamos cambiar nuestras categorías mentales y nuestras políticas de gestión hacia un


enfoque diferencial entre las distintas formas de relación entre espacio y sociedad? Tanto más
cuanto que otros dos fenómenos definidores de nuestra época histórica plantean la posible de-
saparición de las ciudades como forma territorial de organización social: la revolución tecno-
lógica informacional y la globalización de la economia y la comunicación. (1997, p.11.)

Seriam, então, três macroprocessos que convergiriam para o desaparecimento da


cidade como forma específica de relação entre território e sociedade: a globalização, a
informacionalização e a difusão urbana generalizada (p.12). Imagina-se que este mundo

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sem cidades estaria organizado em torno de grandes aglomerações difusas de funções eco-
nômicas e assentamentos humanos disseminados ao longo de vias de transporte, com zo-
nas semi-rurais nos interstícios, áreas periurbanas incontroladas e com os serviços repar-
tidos em uma infra-estrutura descontínua.
Nosso ensaio parte dessa perspectiva de um suposto fim da cidade num mundo ur-
banizado – já debatida por nós em outros momentos (Limonad, 1996 e 1999; Randolph,
1998, 1999 e 2000; Randolph & Limonad, 1998) – não como afirmação de uma reali-
dade já consolidada cujas características empíricas pudessem ser investigadas desde já. Mas
como um dos possíveis futuros que, aqui para nós, desafia antes de tudo nossa própria
compreensão da cidade e do urbano, da diferença entre urbanização e constituição de ci-
dades, do lugar e do pertencimento das pessoas, de formas de convivência e integração e
da própria representação dos lugares como elemento cultural e ideológico.
O que nos interessa neste contexto em particular são as formas de construção e apro-
priação (cotidiana) das representações como elementos constituintes dos lugares (sua dimen-
são cultural), que, como tal, constituem também instrumentos e recursos estratégicos em-
pregados para gerar uma percepção ideologicamente estreita dos problemas urbanos
(discurso do planejamento estratégico). Cabe esclarecer, no entanto, que não enveredare-
mos em uma abordagem crítica do planejamento estratégico; neste sentido podemos nos
remeter aos trabalhos de Arantes (1998 e 2002) entre outros. Tampouco nos dedicaremos
a uma crítica do planejamento urbano e ao seu confronto com o desenho urbanístico, de-
bate que já movimentou gerações de planejadores e urbanistas como Jacobs (1974) e
Goodman (1977), apenas para citar duas importantes contribuições, sem falar nos auto-
res nacionais, como Carlos Nelson Ferreira dos Santos (1988) e Maria Adélia de Souza
(1988), entre outros.
Trataremos, sim, de aprofundar a reflexão sobre determinados conceitos e categorias
que, de certa forma contraditória às tendências acima apontadas, buscam colocar as cida-
des como protagonistas e que servem, assim, de base para a argumentação do planejamen-
to estratégico. Não há como escapar de uma investigação de caráter fundamentalmente
teórico-metodológico – com poucos, mas acreditamos ilustrativos remetimentos empíri-
cos – em razão da referida natureza do nosso objeto de estudo: lidamos hoje com indícios
de um mundo urbano sem cidades que pode ou não se tornar realidade – e cuja realiza-
ção (ou não) dependerá exatamente de nosso posicionamento, de nosso esforço de refle-
xão e das ações políticas que porventura possam resultar disto.
Acreditamos que para enfrentar um desafio deste porte – que apenas podemos ini-
ciar aqui –, isto é, enfrentar o “ponto cego” da passagem da cidade industrial para a socie-
dade urbana do qual Lefèbvre (1969) já falou décadas atrás, precisamos retomar e levar
adiante a discussão das representações da cidade e do urbano em um viés que procure ar-
ticular conceitos comuns da arquitetura e da geografia a partir do conceito de lugar. Cabe
ressaltar que trabalharemos a representação da cidade e do urbano não no viés da Geogra-
fia Cultural em que temos, no Brasil, os trabalhos de Corrêa e Rosendahl (2001 e 2001a)
e nem na linha da teoria da percepção da Arquitetura e da Geografia da Percepção da qual
existem inúmeras contribuições, entre as quais se destacam as de Ferrara, Del Rio e Oli-
veira. Nossa intenção é aproximar estas duas disciplinas em torno desse conceito – atra-
vés da intermediação da obra de Lefèbvre, um autor que não pertencia a um nem ao ou-
tro campo – o que promete, a nosso ver, a possibilidade de trabalharmos este conceito a
partir de uma perspectiva crítica e avançar na compreensão das transformações que apon-
tamos brevemente acima.

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A argumentação será apresentada em cinco partes: (I) a partir de uma breve caracte-
rização da relação entre cidade e urbano no momento atual em que os indícios apontam
para o surgimento de fenômenos cada vez mais translocais; passamos a uma (II) reflexão
sobre a relação local–lugar; (III) a seguir, tratamos do significado e da representação – e
sua importância político-ideológica na formação do lugar – a partir de contribuições da
arquitetura e do urbanismo; o que nos leva a (IV) questionar a geração de identidades
(culturais) do lugar; para finalizarmos (V) com a apropriação político-prática no assim
chamado planejamento estratégico – dimensão trabalhada pelo planejamento urbano.

A CIDADE COMO FENÔMENO TRANSLOCAL

A cidade, historicamente, constituía-se por excelência no lugar do urbano, por assim


dizer. É a manifestação material da urbanização, do processo de tornar urbano, através da
ação dos homens, o que não era urbano (Limonad, 1991, p.113); ela nasce, primeiro,
da produção do excedente; como lugar da troca e, mais tarde, no feudalismo, como lugar
do trabalho livre (Santos, 1991, p.52-3). A cidade, por si só, pressupõe a existência de
uma aglomeração física, de pessoas, equipamentos, ou de fixos e fluxos (p.77-8). A res-
peito do surgimento das cidades existem inúmeros estudos no século XX, desde a clássica
revolução urbana de Childe (1950) até as obras de historiadores, urbanistas e geógrafos co-
mo Mumford (1998), Jacobs (1974) e Sauer (1952), além das esparsas contribuições de
Marx e Engels, no século XIX, sobre a divisão territorial do trabalho e a separação entre a
cidade e o campo, objeto de pormenorizado trabalho de Lefèbvre (1972a).
Cidade e urbano (ou urbanização), entretanto, precisam ser diferenciados: se a urba-
nização se refere a uma articulação espacial – contínua ou não – de populações e ativi-
dades, a cidade – sem querermos ficar presos a visões nostálgicas localistas – implica um
sistema específico de relações sociais, de cultura e, sobretudo, de instituições político-
administrativas de autogoverno; isto é, um ambiente onde os cidadãos mantêm algum
controle sobre sua própria vida.
Formulado de outra maneira, podemos concordar com Souza (1993) quando fala de
lugares da urbanização, na medida em que ser urbano, hoje, não significa necessariamente
viver no espaço físico da cidade (p.65) e que partirmos da hipótese de que a urbanização,
hoje, extrapola e estende-se além das fronteiras físicas da aglomeração e ganha uma am-
plitude maior. Mesmo porque, desde sempre a realidade urbana transcende o âmbito lo-
cal das cidades e sua compreensão necessitava recorrer a superposições e rearticulações de
diferentes escalas.
Esse caráter pluriescalar de atividades e fenômenos relacionados à prestação de servi-
ços que, classicamente – lembremos Christaller –, encontravam-se circunscritos à própria
cidade, hoje a extrapolam. Isto pode ser notado a partir de alguns exemplos como o ser-
viço de atendimento telefônico em Londres onde as chamadas telefônicas são encaminha-
das a um operador em Newcastle especializado em buscar números telefônicos – neste ca-
so pelo fato de em Newcastle se encontrar a pronúncia mais clara. Ou, ainda, quando um
agente de viagem em Londres telefona à Lufthansa ou à United Airlines para comprar
uma passagem ou marcar um vôo, sua chamada é direcionada a um escritório nas cerca-
nias de Dublin, na Irlanda. Conforme Pawley (1997a,b), mais de 50 centros de atendi-
mento telefônico na Europa de grandes empresas americanas foram instalados na Irlanda,
como os da Corel, Digital, Ericsson, Radisson, Oracle, UPS e outros.

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Encontramos aqui uma das principais características da transcendência local da nova


realidade urbana: obviamente, nem Newcastle e nem Dublin fazem parte de Londres.
Nem estas três cidades constituem uma rede ou sistema de sub ou superordinação como
seria o caso das redes entre cidades (Londres como hierarquicamente superior). Ao con-
trário: são fragmentos de Londres que agora fazem parte de Newcastle e Dublin (e ofere-
cem um serviço não disponível geograficamente – fisicamente em Londres). O sistema de
telefone, que até a metade do século XX identificava claramente posições geográficas, ago-
ra não é apenas meio para deslocalizações, mas também indício de dis-localização – da im-
possibilidade de localização –, ou seja, da superação de padrões locais característicos das
cidades industriais.
A amplitude dessa mudança revela-se ao considerarmos que a maioria dos negócios
se realiza hoje através de telefonemas, que negligenciam a distância e localização geográ-
ficas. Na base dessas ligações estabelece-se uma nova forma (interativa) de fluxo de infor-
mações, através de redes de computadores, que é, simultaneamente, ponto de partida e
resultado para modificações cada vez mais dramáticas na sociedade e nas cidades. Atinge
não apenas o mundo corporativo e dos negócios, mas também o dia-a-dia das pessoas, na
medida em que os próprios domicílios são equipados com computadores ligados à Inter-
net (Randolph, 2000).
São exatamente essas mudanças que influenciam, crescentemente, a convivência das
pessoas no âmbito do seu cotidiano e das suas atividades diárias e rotineiras, responsáveis
pela manutenção e fortalecimento de laços sociais estabelecidos tradicionalmente em vi-
zinhanças, bairros ou no convívio mais amplo na cidade. Aqui não devemos esquecer o
caráter simbólico da cidade que oferece, na forma e arranjo do seu meio construído, deter-
minadas orientações cotidianas aos moradores da cidade.
Aí podemos observar como o caráter translocal das cidades vem se afirmando, em
certa medida, contra sua aparência física e arquitetônica; o endereço e a localização histó-
ricos e arquitetônicos de uma série de prédios deixam de corresponder à sua utilização e
função originária – ou, como poderíamos dizer, o local insere-se em uma nova totalidade
maior que engendra um novo lugar. Torna-se, assim, expressão da intersecção entre dife-
rentes redes (Randolph, 2000) e ganha um nova dimensão e significado.

A RELAÇÃO LOCAL–LUGAR

A discussão, no item anterior, a respeito de uma suposta rearticulação do relaciona-


mento, nas sociedades atuais, entre cidade e urbano leva-nos a buscar o aprofundamento
da reflexão do conceito de lugar. Concordamos, aqui, com Lefèbvre (1970) quando, em
sua discussão a respeito da superação da cidade industrial, procura por outros termos que
não o da cidade. Porque, diz, “estos términos son preferibles a la palabra ciudad”, que pare-
ce designar “un objeto definido y definitivo, objeto para la ciencia y objectivo immediato de
acción…”; ou como ele formula a seguir em outras palavras, não cabe uma ciência da ci-
dade (sociologia urbana, economia urbana etc.), senão um conhecimento em vias de ela-
boração do processo global, assim como de seu término (objetivo e sentido). Esse novo ob-
jeto – eis nossa pergunta – transcenderia os limites locais das cidades (industriais) – seus
sítios? Teria como condição e reflexo as novas redes mundiais de computadores e estaria
baseada em novos princípios de convivência social, política e cultural que dão origem a
novos lugares?

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Conforme Santos (1994), o lugar é o encontro entre possibilidades latentes e oportuni-


dades preexistentes ou criadas (p.44, grifos do autor). De certa forma, podemos adiantar,
provisoriamente, que os homens fazem os lugares ao se relacionarem entre si e com a na-
tureza para garantir sua sobrevivência material. Tais relações são mediadas pelo desenvol-
vimento da técnica e, mais tarde, da ciência e tecnologia, e têm como resultado a trans-
formação do meio natural. No decorrer da história as ações dos homens, as interações e
encontros sociais, econômicos, políticos, culturais, religiosos que se desenrolam nestes lo-
cais propiciam o surgimento de pontos de concentração e encontro de condições gerais e
particulares, que marcam e caracterizam estes locais como particulares, específicos. Estes
locais tornam-se, assim, lugares.
O conceito de lugar tem um papel central na geografia. Sua essência variou na his-
tória da geografia segundo os paradigmas metodológicos dominantes. Outrossim, encon-
trar uma definição geral para esse conceito foi, e ainda é, problemático. Pode-se dizer que
categorias e linguagens (formas de representação) são instrumentos através dos quais lu-
gares socialmente construídos tornam-se parte do pensamento das pessoas. Nesta passa-
gem de milênio muitos geógrafos questionaram o desaparecimento dos lugares e a emer-
gência de um mundo de fluxos onde o papel dos lugares é dispersado. No presente, fluxos
e movimentos são valorizados acima dos lugares. Santos (1996) chama a atenção para as
novas formas de regionalização que privilegiariam as verticalidades (fluxos e pontos sele-
cionados) em detrimento das horizontalidades (lugares e regiões).
Os lugares poderiam ser considerados a manifestação da apropriação do espaço e da
natureza pelo homem e pela sociedade, que é inseparável de um dado contexto histórico-
territorial (período histórico, época) (Limonad, 1996, p.59-60). Enfim, poderiam ser en-
tendidos como intersecção e concentração de condições gerais, caracterizados pelos fluxos
ininterruptos de práticas e experiências humanas (Pred, 1985, p.337) dentro e fora deles.
Os pontos ou sítios tornam-se lugares ao permitirem que haja um entrelaçamento e
aglomeração de atividades permanentes e estáveis que os tornem centrais (Lefèbvre, 1991,
p.331), estratégicos, para as interações intraterritoriais e para as diferentes lógicas que es-
truturam o território em tempos históricos delimitados. Na escala intra-urbana, historica-
mente, os pontos predominantes da co-presença social (Giddens, 1985) seriam os locais
de residência e de trabalho. Se em contextos menos modernos esses locais são concentra-
dos, em contextos mais avançados ou em transformação, tendem a se distanciar e a se se-
parar, em escalas que vão do local ao territorial.
Estes sítios, todavia, podem ou não se converter em aglomerações urbanas, e, em úl-
tima instância, em cidades, e isto irá depender necessariamente dos graus e tipos de inte-
rações que estabeleçam entre si e outras áreas do território, em diferentes níveis e escalas.
As cidades seriam, neste contexto, mais que um meio físico, lugares socialmente criados
dentro de um determinado contexto histórico-espacial mais abrangente (por exemplo, as
cidades industriais durante o período de industrialização e consolidação do fordismo).
Para além dos sítios da sua presença (e co-presença), as pessoas possuem vínculos com
lugares sejam reais ou imaginados (terra prometida). Este laço entre lugares e pessoas é es-
sencial para a construção da identidade coletiva, mas também define o sentido de lugar.
O que nos interessa aqui é que o local parece estar limitado a relações sociais e eco-
nômicas (diferentes em cada época histórica); enquanto o lugar, alcançando uma nova di-
mensão de convivência, condensa uma possibilidade de política – em sentido amplo –
não restrita às práticas das instituições e dos políticos, mas incluindo as práticas de dife-
rentes grupos sociais. A passagem do local da família (laços sociais) e aldeia (vizinhança;

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C I D A D E E L U G A R

laços econômicos) para o lugar da polis (laços políticos) da Antigüidade seria um dos inú-
meros exemplos que poderíamos encontrar na história da humanidade.
Política, obviamente entendida aqui como processo de influenciar as ações e toma-
das de decisão na sociedade. Em nosso entender a política do lugar refere-se às práticas
nas quais as imagens e o sentido de lugar são produzidos e reproduzidos.
Além disso, devemos considerar o papel do poder. Nesse sentido, apoiamo-nos nas
considerações de Kuusisto (1999), que trabalha a questão da política no e do lugar para
tratar da questão do poder do lugar em comunidades da Irlanda do Norte. Segundo esta
autora e Keith & Pile (1993, p.38), todas as espacialidades (uma das quais é o lugar) são
políticas por serem o meio de expressão de relações assimétricas de poder. Decorre daí que
o poder, em particular o hegemônico, geralmente definiria o conteúdo e as fronteiras de
ações e práticas de políticas do lugar; por vezes, porém, o poder contra-hegemônico teria
condições de conquistar espaço suficiente e consolidar seu lugar – nestas situações, segun-
do os referidos autores, conflitos de algum tipo tornam-se inevitáveis.
Entendem, portanto, que a política do lugar não deve ser confundida com a política
no lugar – a qual não necessariamente inclui dimensões que teriam efeitos sobre a essência
ou significado do lugar – ao contrário da política do lugar entre cujas metas a mínima e
básica é a alteração da aparência física e mental do lugar. Em decorrência, a política do lu-
gar é particular e específica dos lugares onde é aplicada, e não seria possível generalizar sua
aplicação, de maneira indiscriminada, a outros lugares. Há que se destacar também as múl-
tiplas escalas em que a política do lugar é praticada: local, nacional e internacional.
A política do lugar tampouco se restringe a uma delimitação do local. Assim, quan-
do Kuusisto (1999) fala que a política do lugar tem por base práticas restritivas e nega-
ções, como, por exemplo, a definição de espaços limítrofes e a exclusão de certos tipos de
pessoas e estereótipos negativos, não se deve compreender as restrições e negações local-
mente. Apenas durante certos períodos históricos a política do lugar esteve localmente de-
finida (por exemplo, durante a afirmação da hegemonia burguesa por intermédio dos Es-
tados nacionais).
Tais práticas, segundo Kuusisto (1999), muitas vezes convertem-se em práticas terri-
toriais coercitivas – nas quais o lugar e o espaço são estritamente guardados e as fronteiras
não são permeáveis. Portanto, o que a política do lugar põe em questão, e daí sua impor-
tância, são as possibilidades e potencialidades de apropriação do lugar e questionamento
do controle hegemônico sobre ele exercido por agentes contra-hegemônicos.

A REPRESENTAÇÃO DO LUGAR

Acabamos de introduzir, apenas superficialmente, temas como política e poder, he-


gemonia e contra-hegemonia e outros, com o intuito de compreender o lugar como um
conceito mais abstrato do que o da cidade (e que, neste sentido, poderia guiar-nos na bus-
ca por um nova articulação entre sociedade e território num período pós-industrial que
prescinde da cidade como mediação dominante). Vimos que lugares não são localidades,
nem pontos, sítios ou locais; seu caráter é fundamentalmente simbólico (ideológico); cons-
truído através de representações.
Pensar as formas de representação do lugar, hoje, obriga-nos a considerar tanto as
condições quanto os efeitos da representação se entendemos que, no caso, o objeto – o
lugar – e suas representações são inseparáveis, na medida em que o lugar/a cidade é tanto

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o objeto como o produto de práticas significativas, discursos e imagens que lhe conferem
legibilidade (ver a respeito Limonad, 2002).
Mais particularmente em relação à cidade – como lugar – sua legibilidade sempre te-
ve um peso importante nos mecanismos de poder e controle da sociedade. Os esforços de
torná-la legível significaram e significam, ainda hoje, mapeá-la, torná-la cognoscível, go-
vernável e mesmo passível de controle e disciplina (ver Santos, 1988 – seja em âmbito ge-
ral ou de sua sintaxe: ruas, monumentos, paisagens etc. – ver Cullen, 1971) e de suas
composições. Mesmo no passado, essa legibilidade pressupunha o conhecimento, por par-
te do leitor – isto é do habitante –, de significados, sintaxes etc. que não se originavam no
próprio local (e tempo, para acrescentar a dimensão temporal) da cidade.
É nossa hipótese, derivada da reflexão dos itens anteriores, que o desaparecimento
das cidades está acompanhado por uma crescente dificuldade de leitura do meio urbano
local(izado). Novamente, recorreremos a uns exemplos que o arquiteto inglês Martin
Pawley aponta como indícios do surgimento de uma cidade fantasma – ilegível, tenden-
cialmente incompreensível.
Pawley (1997a) descreve em um dos seus ensaios o caso de um edifício londrino do
século XIX, que mantém sua aparência desde sua construção. Este prédio, em cujos pátios
ecoava o barulho dos cascos dos cavalos do Correio Real aí sediado, hoje abriga a sede das
matrizes européias da Nomura International, maior banco mercantil do mundo. Esta edi-
ficação ocupa uma quadra inteira e foi objeto de uma reurbanização que consu-miu um
vultoso montante de libras até sua finalização em 1991. Hoje suas paredes abrigam
46.000 metros quadrados de escritórios eletrônicos com ar condicionado em dez andares.
Sua aparência é a de um prédio de correio vitoriano, mas possui um coração eletrônico.
Conforme Pawley, essa falta de conexão orgânica entre interior e exterior é típica da ar-
quitetura urbana contemporânea: todas as cidades históricas são compostas por edifícios
sobressalentes.
A legibilidade do espaço urbano não está apenas colocada em xeque pelo próprio
meio localizado (e seus elementos, como prédios, monumentos etc.), mas mesmo por
aqueles que seriam seus leitores. As grandes cidades são cada vez mais habitadas por uma
população flutuante – os turistas e homens de negócios – cuja atração é, em grande me-
dida, a razão dos esforços de restauração urbana da qual o prédio da Nomura é apenas
um exemplo.
Um outro exemplo gritante deste descompasso de usos é o caso do shopping Punta
Carretas, situado em uma praia aprazível de Montevidéu, instalado na edificação onde há
pouco menos de uma década ainda estava instalado o Presídio Político de Punta Carretas,
de onde ecoavam os gritos dos presos políticos torturados. Este caso ilustra a síntese do
consumo no lugar e do lugar (ver a este respeito Lefèbvre, 1969, p.17). Por um lado con-
verte-se em um dos templos do consumo atual e, por outro, o próprio lugar é consumí-
vel como representação do que já foi – sítio imprescindível de qualquer roteiro turístico.
Apenas para indicar a magnitude deste fenômeno, Londres e Nova York, por exem-
plo, têm uma imensa população flutuante deste tipo; dos 26 milhões de visitantes de
além-mar que vão à Grã-Bretanha cada ano, metade permanece em Londres. Como re-
sultado, a cidade dobra sua população residente por intermédio dos visitantes anuais, e,
na alta estação das férias, quase metade da população da área central da cidade consiste
de turistas de além-mar (cidadãos ficcionais). Embora possam aparecer como cidadãos co-
muns na defesa da velha (histórica) substância urbana, os turistas possuem interesses
próprios, relacionamentos, envolvimentos etc. e geram, portanto, articulações dentro da

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cidade totalmente particulares, transitórias, sem envolvimento duradouro no lugar pro-


priamente dito. O fluxo dos turistas pelos quatro cantos do mundo constitui um dos ele-
mentos importantes da superação da escala local em muitas cidades. Sua força de influên-
cia (indireta) para a formulação de políticas urbanas pode ser identificada não apenas na
Grã-Bretanha, mas em qualquer outro lugar do mundo que passe por um upgrade do am-
biente urbano para aumentar sua atratividade ao turismo internacional.
Voltando à política urbana na Grã-Bretanha, o turismo é responsável pela adoção de
medidas governamentais para expulsar mendigos das ruas da cidade, em conseqüência das
pesquisas de opinião que mostram que uma elevada porcentagem de visitantes estrangei-
ros sente-se perturbada por sua presença; assim como o turismo impulsiona a preservação
da substância histórica, da renovação urbana, implantação de determinadas infra-estrutu-
ras etc. Todo este esforço tem, é óbvio, seu alvo definido: a edição de 1997 do Official
Handbook da Grã-Bretanha explica os tipos de turistas desejáveis e indesejáveis:

Um turista dos EUA que gasta muito dinheiro compensa um ônibus completamente lotado
daqueles turistas de baixo perfil (os assim chamados day-trippers) do outro lado do Canal da
Mancha que chegam com lanches embalados e um itinerário de atrações gratuitas que cus-
tam ao país mais dinheiro do que eles trazem para cá.

Em outras palavras, os turistas – portadores de redes – são simultaneamente incor-


porados em redes (de comercialização etc.) das quais mal se dão conta.
Ambos os fenômenos – restauração e fluxo de turistas – fundem-se em uma cena ur-
bana homogeneizada e desistoricizada, de progressiva perda da representação autêntica de
tradições e particularidades sócio-locais. Através destes meios, apoiados na aniquilação in-
tencional da distância através de meios eletrônicos, todos os lugares reais e todas as cate-
gorias reconhecíveis de edifícios estão desaparecendo: todas as diferenças autênticas entre
períodos históricos da arquitetura estão sendo perdidas; seria interessante aqui ver a con-
tribuição da arquitetura pós-moderna e do pós-modernismo para esta situação. E suas
strata – diferentes períodos históricos – estão sendo comprimidas como se fora pela ação
tremenda de um terremoto. Assim, para o autor – de um ponto de vista urbanístico, da
relação entre forma e conteúdo –, a cidade tende a transformar-se em fantasma, numa en-
tidade fora do tempo transcendendo o (seu) lugar.
Se pensarmos, em uma visão mais estreita, a cidade como obra arquitetônica, pode-
se dizer que ela é simultaneamente objeto e representação(ões) de si mesma. A cidade –
ainda compreendida como lugar – constitui-se, assim, em um espaço de representação.
Além disso, cada um de seus elementos sintáticos (ruas, monumentos, edifícios etc.) cons-
titui também em representações seletivas contraditórias ou afirmativas do significado ge-
ral da representação da cidade. Nesse sentido, como representação, a cidade pode ser en-
tendida como uma síntese dialética de si mesma; como condensação de diferentes forças
e manifestações.
Para podermos compreender o papel cultural da representação urbana, devemos
considerar o espaço social a partir da reflexão da geografia e teoria crítica, que o conce-
bem como um produto e uma relação social (Lefèbvre, 1991). Isto tem por corolário a
desmistificação da concepção do espaço como natural e transparente, ou mesmo de um
continente a ser preenchido com obras arquitetônicas e significações sociais.
Os arranjos espaciais da vida citadina ou composições urbanas podem ser entendi-
dos como sistemas de representação que possibilitam regular, disciplinar e controlar a

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ocupação e uso social do espaço urbano pelos agentes sociais hegemônicos – seja através
dos meios de penetração e observação possibilitados pelos elementos físicos componen-
tes da cidade, seja através de identificações e não identificação dos indivíduos com o(s)
lugar(es) que contribuem, entre outros fatores, para estabelecer padrões espaciais de cen-
tralização e segregação. Isto não significa dizer que o espaço produzido determina as re-
lações sociais – idéia que vicejou tanto na geografia quanto na arquitetura… O que que-
remos é salientar o papel do fator cultural e da representação e do imaginário social na
composição e ordenamento do espaço urbano –, ou seja, há que se considerar que a fei-
ção das cidades litorâneas seria muito diferente e haveria uma mudança significativa na
distribuição espacial da população e das atividades econômicas se, em meados do sécu-
lo XX, não houvesse se disseminado a moda de se bronzear ao sol e a idéia de que banhos
de mar são saudáveis.
Devemos agregar às nossas considerações a necessidade de um aporte crítico às re-
presentações dos usos e percepções do espaço urbano e seu papel na construção das esfe-
ras privadas e públicas na cidade. Diferentes usos implicam ambientes diferenciados de
lazer, trabalho e consumo com sintaxes espaciais próprias e componentes físicos e psico-
lógicos diferentes – que, em um grau ou outro, interferem e contribuem para mediar as
relações sociais na cidade. Temos nesse sentido os estudos da gestalt e da percepção do es-
paço construído – relacionados às formas de possibilitar o encontro, a intimidade e a des-
coberta (ver Cullen, 1971).
Porém como ficam essas percepções e esses usos quando as relações passam a se dar
em um espaço virtual? Num urbano sem cidade?
A modernidade transformou radicalmente os padrões de tempo e espaço (ver a res-
peito Harvey, 1989) ao comprimir virtualmente o espaço através do tempo – pois não há
como diminuir o espaço físico – e, entre suas transformações, propiciou a separação en-
tre os locais de moradia e trabalho, e possibilitou a formação de descomunais aglomera-
ções urbanas – inviáveis e impensáveis até as tranformações introduzidas pelas duas pri-
meiras revoluções industriais. As grandes cidades, assim, converteram-se em metrópoles e
em cidades globais – em ícones e sínteses da modernidade.
Como já mencionamos inicialmente e discutimos acima com referência a alguns
exemplos, as grandes cidades, hoje chamadas de globais, atuaram como epicentros emble-
máticos da modernidade e das novas relações sociais – contribuíram, assim, para a elabo-
ração de distintas representações particulares do moderno em relação à organização do es-
paço intra-urbano, distribuição da população, consumo etc. e principalmente do visual
da modernidade em termos arquitetônicos. A questão é que não podemos admitir estas
cidades como produto de uma modernidade universal – admiti-lo implicaria obliterarmos
as especificidades de cada uma, tanto em termos espaciais (lugar) quanto temporais (his-
tórico). Portanto, parece-nos que estas cidades devem ser examinadas histórica e dialeti-
camente em relação às representações de formas e experiências urbanas específicas.
O fim do século XIX e início do século XX assistiram à proliferação de novas tecno-
logias visuais, formas e textos. Esta proliferação afetou os meios em que a paisagem urba-
na era representada e as formas com que a paisagem construída era habitada. Há que se
considerar, ainda, que estas mesmas formas e representações e sua estruturação influen-
ciam de diferentes modos a consciência temporal e espacial de seus habitantes ao longo
do tempo.

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NOVOS LUGARES URBANOS

A discussão da representação do lugar (e da cidade) leva-nos a questionar como as


relações geradoras de espaço e visões na representação urbana estariam relacionadas a uma
(pres)suposta identidade urbana, com as correspondências entre indivíduos e comunida-
des e seus habitats urbanos. Diante das transformações que acompanham a urbanização
generalizada, essas correspondências mudam qualitativamente seu caráter.
Através das representações produzidas por diferentes agentes esboçam-se as frontei-
ras e limites da identificação diferenciada dos habitantes com o sítio e emerge(m) o(s) sen-
tido(s) do lugar. Isto não significa dizer que são as representações que produzem o senti-
do do lugar – dizê-lo seria atribuir um animismo a algo inanimado, ainda que produto
de práticas humanas – mas, sim, que através das práticas sociais que possuem representa-
ções é possível a construção da identidade coletiva que armazena e historiciza elementos
do espaço físico, como marcos de uma memória coletiva, em um processo espaço-tempo-
ral de construção identitária.
Ainda dentro de uma perspectiva que sustenta a mencionada correspondência, espa-
ço urbano e subjetividade estariam intrincadamente relacionados; é possível, assim, ana-
lisar a formação de respostas conscientes e inconscientes para cenas urbanas em represen-
tações literárias e visuais. Formas urbanas e espaços estão imbuídos de conotações afetivas,
carregadas de significados emocionais e míticos; em outro lugar aprofundamos essa temá-
tica a partir da leitura de Agnes Heller (Randolph, 2002).
Por um lado há uma ampla ressonância no simbolismo da cidade como locus de
preocupações nacionais (progresso, segurança e imigração), freqüentemente elaborado em
termos amplamente utópicos ou distópicos. Por outro, há formações rochosas, imagens e
memórias localizadas associadas aos espaços urbanos e que fornecem significados cultu-
rais e suportes históricos para indivíduos e comunidades.
As representações efetivamente, em geral, reproduzem a ordem simbólica da cidade
como espaço psíquico. A cidade, como espaço físico, representa não só impulsos cons-
cientes e inconscientes; freqüentemente é representada como um espaço de mistério e de
deslocalização.
As mudanças sociais maciças da modernidade tiveram impactos diferenciados em ca-
da lugar, e as cidades modernas emergem como ícones específicos destas mudanças a par-
tir de representações idealizadas da urbanidade tomadas como as verdadeiras essências da
vida citadina. As cidades contemporâneas exibem fatores comuns, porém com distintas
geografias das diferenças sociais e relações de poder. Seu espaço social, temporalmente e
especificamente produzido pelas práticas sociais, é o molde básico de suas identidades ur-
banas. Assim, a despeito de certas homogeneizações, permanecem as especificidades que
estão em sua própria formação e que as constituíram espaço-temporalmente em lugares
no território.
Em síntese, tradicionalmente – reportando-nos à tradição da cidade industrial – a
cidade foi vista como lugar privilegiado da construção cultural (através de representações
das mais diversas formas) da identidade subjetiva e coletiva. Torna-se problemática tanto
a construção como o próprio credo na identidade, na medida em que a cidade ameaça de-
saparecer, tornando-se cada vez mais lugar, conforme debatemos anteriormente. Será que
a dissolução da cidade resulta numa diluição do sujeito que perde os parâmetros (repre-
sentação) para sua identificação?

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CONCLUSÃO – A APROPRIAÇÃO POLÍTICO-PRÁTICA

Na opinião de Borja & Castells (1997), a dissolução da cidade e uma possível dilui-
ção do sujeito não significam nenhuma fatalidade inexorável. Acreditam ser necessário,
diante dessa problemática, “renovar el papel específico de las ciudades en un mundo de ur-
banización generalizada, proponiendo la construcción de una relación dinámica y creativa
entre lo local y lo global” (p.12s). Estes autores tentam mostrar como o âmbito político-
administrativo em relação a representação e gestão políticas tem a mesma importância es-
tratégica na projeção do local como centro de gestão do global do que os dois outros por
eles apontados: o âmbito econômico (elemento chave da produtividade e competitivida-
de econômicas) e o sociocultural, como elemento de integração.
As cidades estão longe de desaparecer – “protagonistas de nuestra época”, “atores políti-
cos” (Borja & Castells, 1997, p.139-83) de sua história que escrevem junto com os cida-
dãos e governos.
Parece-nos questionável esta afirmação, pois nos tempos atuais de competição e
competitividade entre cidades, e luta pelas melhores condições locacionais para atrair di-
nheiro e pessoas (ver a respeito a discussão de Santos, 1996, e Benko & Lipietz, 1995).
Talvez devêssemos recordar-nos das reflexões de Lojikine sobre as condições gerais da
produção e de formas de cooperação urbana que pareciam (também para Marx ainda)
indispensáveis para a reprodução do capital. Será que hoje, na network society (Castells,
1999) – onde os circuitos dominantes passam por outras esferas virtuais de acumula-
ção – as cidades perderam essa capacidade?
Parece-nos, em uma primeira apreciação, que as propostas de melhorar as vantagens
comparativas de uma cidade continuam presas e partem de uma visão equivocada, ao tra-
tarem as cidades como indivíduos, atores (sociais e/ou políticos) com identidade própria
ou ainda como simples bens (mercadorias) ou como entidades autônomas que se enfren-
tam num mercado pulverizado, oferecendo suas externalidades locais e urbanas como
mercadoria para quem queira se valer delas.
Uma série de planos e propostas atualmente em circulação na América Latina parte,
a nosso ver, desta visão de um liberalismo urbano – como é o caso, por exemplo, dos Pla-
nos Estratégicos que já foram elaborados em diferentes lugares (inclusive no Rio de Janei-
ro e alguns dos municípios da região metropolitana).
Expressa-se nesta postura, a nosso ver, o reconhecimento de que a cidade numa socie-
dade em transição à era da informação não pode ser mais compreendida, exclusivamente,
a partir da sua especificidade locacional – como fazem os que a vêem dentro de uma luta de
todas contra todas –, mas em sua particularidade local dentro dos contextos de seus rela-
cionamentos internos e externos, que perpassam todas as escalas desde o local até o global.2 2 Não cabe aqui aprofundar
essas diferenciações entre
Este reconhecimento, todavia, não exime e expurga o caráter destes planos estraté- “especificidades” e “particula-
gicos, que, por vezes, se colocam como uma panacéia para combater os handicaps compe- ridades”; para compreender
toda sua profundidade, ver
titivos e capacitar as municipalidades a auferir lucros. De fato estes planos, mais uma vez, o tratado de Lefèbvre (1979)
tornaram-se fonte de lucro para consultorias, em uma reedição dos planos de desenvolvi- sobre a lógica dialética.

mento local e integrado da década de 60 e dos planos diretores pós anos 80. A novidade
reside hoje no fato de que isso ocorre nas mais diversas escalas – do local ao global e nas
formas de construção da identidade e significado das cidades.
Enfim, a inicialmente apontada ambigüidade da urbanização generalizada, que po-
de tanto criar como destruir uma cidade, precisa ser mais aprofundadamente discutida a
partir dos argumentos que arrolamos até aqui. Qual das duas alternativas prevalece (criar

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ou destruir) depende, conforme Borja & Castells (1997, p.363-72), da situação ou solu-
ção de cinco desafios. E, um destes desafios concerne ao que os autores chamam de signi-
ficação (a cidade como produtora de sentido através de projetos urbanos que provocam
adesão). Os demais, que não nos interessam no contexto da atual argumentação, seriam:
competitividade e produtividade; segurança e seguridade (da convivência); sustentabilida-
de e governabilidade.
Se, no contexto da urbanização generalizada, uma cidade consegue cumprir essas exi-
gências, ela se perpetuará ou mesmo fortalecerá; caso contrário, ela tende a se diluir. É es-
se papel integrador da representação que é explorado pelas formas estratégicas do plane-
jamento como tentativa de conferir um novo protagonismo à cidade em relação ao
desenvolvimento local.
Sem podermos aprofundar aqui essa análise, fica desde já patente que a forma nova
de gerar uma identidade da cidade e uma identificação com a cidade lança mão de meca-
nismos de representação que deixam de ter seu referencial ético-cultural e assumem fei-
ções meramente instrumentais e ideológicas. Acreditamos que poderíamos, a partir desta
percepção, aprofundar a crítica a um planejamento que não passa da (tentativa da) cons-
trução de um discurso hegemônico conservador.
De fato seria preciso juntar todas essas peças de quebra-cabeça (ou mosaico) para
compreender a nova realidade: ainda como cidade ou como formas mais complexas de lu-
gares? Seguindo Lefèbvre (1972, p.21ss.), percebemos o quão distantes estamos ainda de
uma solução:

Que hacer? Como construir ciudades o 'algo' que substitya a lo que antaño fue la ciudad?
Ester Limonad, arquiteta, é
professora do Programa de
Como pensar el fenómeno urbano? ... Cuáles habrían de ser los progresos decisivos que ha-
Pós-Graduação em Geogra- bría que lograr para que la consciencia llegue a la altura de lo real (que la desborda) y de lo
fia da Universidade Federal
Fluminense. E-mail: possible (que se le escapa)? El eje que describe el proceso se jalona así:
limonad@superig.com.br ciudad política → ciudad comercial → ciudad industrial → zona crítica.
Rainer Randolph, econo-
mista, é professor do Institu- Estamos mergulhados, hoje, nessa zona crítica que pode, segundo o autor, ser o ber-
to de Pesquisa e Planeja-
mento Urbano e Regional da ço de uma nova sociedade caracterizada pelo urbano – onde, diríamos, as cidades não se-
Universidade Federal do Rio
de Janeiro. E-mail:
riam mais de forma dominante os lugares dessa sociedade – isto é, a articulação entre es-
randolph@uol.com.br paço e sociedade.

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A B S T R A C T Our goal with this essay is to contribute to an up to date debate of


the city and the urban representations in a way which tries to articulate concepts common to
Architecture and Geography – departing from place concept. The argument will be presented
in five parts: beginning with (i) the present relationship between city and urban brief charac-
terisation where we have plenty signs pointing to an even more “trans-local” phenomena ari-
sal; we will (ii) make a reflection about the local – place relationship, (iii) afterwards we deal
with the significance and the representation – and their political-ideological importance on
place formation – based on architecture and urbanism contributions, leading us to question
(iv) place (cultural) identities generation to conclude (v) with the so-called strategic planning
political-practical appropriation – dimension of the urban planning.

K E Y W O R D S City; place; representation; appropriation; urbanisation.

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DESENVOLVIMENTO
LOCAL ENDÓGENO
ENTRE A COMPETITIVIDADE E A CIDADANIA

TA N I A M O R E I R A B R AG A

R E S U M O Competitividade e cidadania são pressupostos presentes na maioria das


propostas de desenvolvimento local da atualidade, grande parte das quais fundadas na crença
em um desenvolvimento liderado e determinado endogenamente, que tem no chamado “De-
senvolvimento Local Endógeno" sua sustentação teórica. Indaga-se até que ponto competitivi-
dade e cidadania podem ser conciliados, ou se estes se apresentam como estratégia discursiva
que visa adicionar charme participativo à abordagem competitiva. Este artigo parte do pres-
suposto de que, para além da aparente conciliação ou oposição entre competitividade e cida-
dania, o que se encontra é um campo de conflitos no qual ambos estão presentes e do qual sur-
gem barreiras e limitações às políticas de desenvolvimento local. Seu objetivo principal é
discutir a abordagem do “Desenvolvimento Local Endógeno”, investigando sua base concei-
tual, suas estratégias políticas/discursivas e suas principais fragilidades. Também investiga os
limites e possibilidades para a construção de políticas de desenvolvimento local com inclusão
social e solidariedade.

P A L A V R A S - C H A V E Desenvolvimento local; desenvolvimento endógeno;


cidadania; competitividade; exclusão social.

INTRODUÇÃO

Competitividade e cidadania são tomados como pressupostos na maioria das pro-


postas de desenvolvimento local da atualidade. Sua presença é constante tanto na pauta
de recomendações e nas diretrizes básicas para financiamento de projetos urbanos por
parte dos organismos internacionais, quanto nos ensaios de política de desenvolvimento
local realizados nos últimos anos em várias cidades brasileiras.
Por um lado, a competição entre cidades/regiões tem sido tomada como a principal
ferramenta para atingir os objetivos de crescimento econômico em uma economia globa-
lizada. Clama-se que a economia atual traria oportunidades equânimes de desenvolvi-
mento para as cidades/regiões ao redor do mundo, à medida que estas obtenham sucesso
na criação de economias de escalas, sinergias econômicas e ambiente empresarial favorá-
vel ao incremento de seus recursos econômicos, sociais e culturais.
Por outro lado, o local vem sendo alçado à principal escala para a busca de conver-
gência entre os objetivos econômicos e aqueles relativos à cidadania, incremento da parti-
cipação popular e melhoria da qualidade de vida. Clama-se que se as políticas de desenvol-
vimento forem desenhadas e implementadas no plano local, o processo decisório será
necessariamente trazido para perto dos cidadãos e a busca por justiça social e maior quali-
dade de vida irá certamente se unir e se sobrepor aos objetivos de crescimento econômico.

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 5 / MAIO 2002 23


D E S E N V O L V I M E N T O L O C A L E N D Ó G E N O

A despeito das tentativas de conferir à visão acima explicitada a condição de consen-


so, vem ganhando corpo nos últimos anos uma literatura crítica que questiona a valida-
de destes pressupostos, que indaga até que ponto competitividade e cidadania podem ser
conciliados, ou se eles se apresentam fundamentalmente como uma mera estratégia dis-
cursiva que visa adicionar charme participativo à abordagem competitiva.
Este artigo contribui para o citado debate, partindo do pressuposto de que, para além
da aparente conciliação ou oposição entre competitividade e cidadania, o que se encontra é
um campo de conflitos no qual ambos estão presentes e do qual surge uma ampla gama de
barreiras e limitações ao desenho e implementação de políticas de desenvolvimento local.
Dentre as diversas estratégias propostas de desenvolvimento local que têm na com-
petitividade e na cidadania palavras-chave, duas vem ganhando destaque crescente. São
elas: o empreendedorismo local, cuja ênfase reside em gerar um caldo de cultura favorá-
vel à emergência de negócios que provejam a economia local de uma base dinâmica e
avançada; e a atração de investimentos externos via estímulo da competitividade local e
do marketing urbano. Tais estratégias têm como elemento central a elevação do local ao
espaço preferencial da inserção econômica em uma economia globalizada, substituindo a
concorrência entre empresas e entre nações pela concorrência entre localidades (aqui en-
tendidas como cidades ou como microrregiões). Ambas as estratégias partem da crença
em um desenvolvimento liderado e determinado endogenamente, e tem no chamado
“Desenvolvimento Local Endógeno” sua sustentação teórica.
O presente trabalho tem por objetivo discutir a abordagem do “Desenvolvimento
Local Endógeno”, investigando sua base conceitual – que possui como elementos centrais
o individualismo metodológico e a escolha racional –, suas estratégias políticas e discur-
sivas, e analisando suas principais fragilidades. Um segundo objetivo é investigar os limi-
tes e as possibilidades de construção de políticas de desenvolvimento local com inclusão
social e solidariedade.

A ABORDAGEM DO
“DESENVOLVIMENTO LOCAL ENDÓGENO”

Uma das principais formas sob a qual se dá o debate sobre a assimilação da questão
do desenvolvimento nos níveis subnacionais de governo é o chamado “Desenvolvimento
Local Endógeno”. Esta abordagem tem como elemento central a elevação do local ao es-
paço preferencial da inserção econômica em uma economia globalizada, substituindo a
concorrência entre empresas e entre nações pela concorrência entre localidades (aqui en-
tendidas como cidades ou como microrregiões). Paralelo a isto, o local é alçado a espaço
preferencial de cidadania, articulação social e solidariedade.
O “Desenvolvimento Local Endógeno” teoriza sobre as possibilidades de desenvol-
vimento a partir da utilização dos potenciais – econômicos, humanos, naturais e cultu-
rais – internos a uma localidade, incorporando ao instrumental econômico neoclássico
variáveis como participação e gestão local. Entretanto, ao fazê-lo dentro da lógica própria
ao marco conceitual mais amplo no qual se insere – a lógica do mercado, do individua-
lismo e da eficiência econômica –, o faz, como seria de se esperar, sem ultrapassar os li-
mites dados por tal marco conceitual.
A grande questão que se coloca aqui é perceber como a lógica que existe por trás
das propostas de desenvolvimento local pode mudar o caráter das políticas delas derivadas.

24 R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 5 / MAIO 2002


T A N I A M O R E I R A B R A G A

Se a lógica preponderante é de solidariedade, a participação e a gestão local saem forta-


lecidas, preservando seu conteúdo de cidadania e eqüidade. Entretanto, quando é pre-
ponderante uma lógica individualista, concorrencial e de mercado, há o risco de trans-
formar participação em estratégias de legitimação dos interesses dominantes,
descentralização em fragmentação e de esvaziar o desenvolvimento de seus aspectos de
inclusão e eqüidade social.
Em algumas formulações dessa teoria o desenvolvimento local é colocado como
complementar às demais formas de desenvolvimento, indo de encontro às proposições
formuladas por Storper (1990, p.120) quanto à inadequação de se tratar do desenvolvi-
mento sem considerar “a diversidade das respostas locais às forças globais, o caráter dife-
renciado dos resultados do desenvolvimento e o papel das relações de classe, da política e
das políticas públicas domésticas nos países e mesmo nas regiões em desenvolvimento”.
Porém, como as formas de desenvolvimento nacional e regional têm sido desestruturadas,
com o ataque a seus instrumentos, instituições, financiamento e legitimação teórico-ideo-
lógica, resta, na prática, a valorização extrema do desenvolvimento local.
A abordagem do “Desenvolvimento Local Endógeno” tem como ponto de partida
o argumento da existência de duas únicas alternativas diante do desafio colocado pela
globalização: adotar uma estratégia de desenvolvimento exógeno, atraindo investimen-
tos externos para regiões periféricas com objetivos redistribucionistas, ou adotar uma es-
tratégia de desenvolvimento local. Defendendo o argumento de que a alternativa do de-
senvolvimento exógeno é uma via limitada, de possibilidades muito reduzidas em
virtude das tendências inerentes ao processo de globalização, autores como Barquero
(1998) afirmam, de forma fatalista, ser o “Desenvolvimento Local Endógeno” a única
opção possível.
Tal desenvolvimento seria, na visão de seus defensores, um processo de mudança e
crescimento estrutural econômico baseado na utilização do potencial existente em um da-
do território, onde o fatores determinantes são a capacidade de liderança do próprio pro-
cesso “de dentro para fora” e a mobilização do potencial e recursos locais de forma a fa-
vorecer os rendimentos crescentes e a criação de externalidades positivas.
Entretanto, quando se investiga um pouco mais a fundo tais propostas, fica clara a
definição do “Desenvolvimento Local Endógeno” a partir de uma dupla contraposição:
local significando não-nacional; endógeno significando não-induzido por fatores exter-
nos e não-Estado.
O potencial de desenvolvimento dos territórios, pressuposto mais importante do de-
senvolvimento endógeno, é constituído por um conjunto de recursos que, quando apoia-
do nas possibilidades de geração de economias de escala no plano local, geraria externali-
dades positivas de magnitude correspondente àquela gerada por grandes empresas. Tais
economias de escala seriam geradas através da criação de redes de empresas e de relacio-
namentos pessoais que nucleiam pequenos negócios, induzindo-se desta forma o cresci-
mento e a mudança estrutural na economia local.
Os recursos que compõem este potencial de desenvolvimento local podem ser eco-
nômicos, como estrutura produtiva, capacidade de gerar inovação tecnológica, capacida-
de empresarial, mercado de trabalho dotado de mão-de-obra qualificada, recursos natu-
rais e infra-estrutura. Podem ser também culturais, político-institucionais ou humanos
(Barquero, 1998).
O desenvolvimento local seria, então, aquele induzido pela mobilização do poten-
cial endógeno, ao se fortalecerem as “capacidades técnicas, financeiras e gerenciais locais,

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D E S E N V O L V I M E N T O L O C A L E N D Ó G E N O

o associativismo e potencial empreendedor, a democracia participativa e parcerias entre


atores sociais e instituições” (Jara, 1996).
Argumenta-se, também, que este seria um desenvolvimento “de baixo para cima”
porque o controle dos processos econômicos e das decisões de investir estaria nas mãos
dos atores locais, sejam eles públicos ou privados. Adicionalmente, obter-se-ia uma inte-
gração do social com o econômico, porque em razão dos sentimentos de pertencer a uma
comunidade serem maiores do que as diferenças de interesses entre aqueles que a com-
põem, as decisões tomadas pelos atores locais teriam como objetivo um interesse local co-
mum, implicando a existência de uma dinâmica comum entre crescimento econômico e
distribuição de riqueza/renda.
No que tange à criação de redes e de distritos industriais, argumenta-se que sistemas
locais baseados na cooperação entre empresas, através de consórcios, contratos e alianças
estratégicas, possuem a capacidade de gerar liderança tecnológica e economias de escala
em proporções comparáveis àquelas geradas pelas empresas de grande porte, além de tor-
nar possível o enfrentamento de incertezas. As economias de escala são criadas em razão
da existência de tais redes proporcionarem uma redução de custos, via intercâmbio de
produtos, serviços e conhecimento dos processos de produção, e via criação de um am-
biente cultural favorável à inovação e ao refinamento dos produtos (Storper, 1990). Já a
liderança tecnológica ocorre devido ao fato de a rede facilitar a atuação das indústrias em
quatro frentes: atualização tecnológica no interior das indústrias; adição de novas ativida-
des progressivamente mais complexas à economia local; aumento da utilização de com-
ponentes produzidos localmente, e progressivo domínio de tarefas mais complexas no in-
terior de cada indústria (Lall, 1998).
Quando se fala em “Desenvolvimento Local Endógeno” há que se levar em consi-
deração as abordagens a ele congruentes que, baseadas na defesa do local como espaço
preferencial de cidadania, articulação social e solidariedade, sustentam boa parte dos ar-
gumentos enumerados, dando-lhe o charme e apelo democráticos que fazem que, à pri-
meira vista, tal modelo apareça como capaz de garantir participação e descentralização
no processo de desenvolvimento. Entre elas, destaca-se a idéia de solidariedade local.
Autores como Jara (1996) afirmam que a valorização do local e da diversidade é
a contraface da globalização e que, de forma correlata, o município está se tornando
a unidade básica de governo, assumindo o papel de instância capaz de proporcionar
satisfação das necessidades da população e condições de competitividade econômica.
Com isso, defende o autor, facilidades nunca existentes de participação das comu-
nidades na tomada de decisões surgiriam dando origem a uma fortalecida solidarie-
dade local.
Outros autores, como Boisier (1998), defendem que o fortalecimento do local co-
mo novo espaço de solidariedade se dá a partir da queda do Estado do Bem-Estar. Isso
porque, segundo ele, uma vez que, em face das inseguranças e incertezas de um mundo
globalizado e destituído das grandes redes de apoio social de nosso passado recente – co-
mo as grandes empresas, sindicatos, securidade social coletiva –, retornar ao local apare-
ce como a alternativa mais segura. Soma-se à sua argumentação o fato de que a maior par-
te das pessoas consegue exercer apenas algum tipo de cidadania do entorno cotidiano, não
conseguindo atuar de forma efetiva nos níveis nacional ou mundial.
Autores como Brugnoli (1998) e Puertas (1998) destacam como característica do
desenvolvimento endógeno a mudança do caráter da atuação do Estado, que passa
a atuar como moderador e facilitador, com a tarefa de apoiar a criação de vantagens de

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T A N I A M O R E I R A B R A G A

localização e competitividade, além de prover infra-estrutura, serviços e financiamento


para as redes de empresas.

NOTAS CRÍTICAS AO
“DESENVOLVIMENTO LOCAL ENDÓGENO”

Uma primeira crítica, de caráter mais geral, diz respeito à concepção reducionista e,
por que não, conformista, de pensar a existência de duas únicas opções: desenvolvimen-
to para fora ou desenvolvimento endógeno nos moldes “cada um por si”. Reducionista e
conformista por excluir desde o princípio a possibilidade de construção de alternativas ao
sistema econômico mundial atual, vendo-o como um dado, algo fixo e não passível de
transformação, em lugar de vê-lo como processo histórico e, por isso mesmo, sujeito
a transformação e superação.
A assertiva de que os atores locais, públicos e privados, são os responsáveis pelos in-
vestimentos e pelo controle dos processos de desenvolvimento, pilar sobre o qual se sus-
tenta a defesa da condução do processo “de dentro para fora”, também é altamente ques-
tionável. Isto porque contrasta fortemente com a realidade atual de centralização e
concentração econômica e de poder, na qual os atores que controlam os processos de de-
senvolvimento são as grandes empresas transnacionais e os grupos de interesses fortemen-
te incrustrados nos governos dos países centrais. Haveria aqui uma certa dose de ingenui-
dade, ou seria esta uma tentativa de, partindo de um discurso aparentemente
democrático, encobrir questões inerentes ao cerne do sistema econômico mundial como
a crescente concentração de capital e de poder?
Problema relevante inerente ao “Desenvolvimento Local Endógeno” diz respeito à au-
tonomização do espaço. Embora o “Desenvolvimento Local Endógeno” tome como pon-
to de partida a hipótese, com a qual há que se concordar inteiramente, de “que o espaço
não é um mero suporte físico dos objetos, atividades e processos econômicos, e sim um
agente de transformação social” (Barquero, 1998, p.3), ela não leva esta hipótese às suas úl-
timas conseqüências e acaba, por isso mesmo, autonomizando e reificando o espaço.
Levar a sério a hipótese acima, extraindo suas últimas conseqüências, significaria ver
o espaço em sua dimensão multifacetada e entender as configurações espaciais (ou as es-
pacialidades) como instrumentos de legitimação de poder e dominação político-social.
Segundo Lefèbvre (1974), o espaço possui dimensão multifacetada, sendo a um só e mes-
mo tempo receptáculo das relações econômicas e sociais, função da ordem social (como
permissão social de engajamento ou segregação/exclusão), meio de produção (como ter-
ra), força de produção (como design), produto (como objeto material), mercadoria (como
locais comprados e vendidos) e parte das relações sociais de produção (como instrumen-
to político, usado para controlar os lugares, suas hierarquias e segregações).
O “Desenvolvimento Local Endógeno” vai em direção contrária ao reconhecimen-
to da natureza multifacetada do espaço, reduzindo-o a uma mera questão de escala, de
proximidades. As teorias que o propõem o fazem reforçando as lógicas do individualismo
e do mercado, estando, portanto, longe de propor transformações profundas nas configu-
rações espaciais. Cabe ressaltar que as mudanças propostas, via de regra, recaem apenas
sobre os instrumentos de gestão do espaço.
O que existe subjacente às teorias do “Desenvolvimento Local Endógeno” é o objeti-
vo de complementar e dar maior efetividade à economia neoclássica através da ampliação

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D E S E N V O L V I M E N T O L O C A L E N D Ó G E N O

de seu escopo. O “Desenvolvimento Local Endógeno” tem a mesma matriz das demais
teorias econômicas modernas, que possui como elementos centrais o individualismo me-
todológico e a escolha racional. Enquanto o neo-institucionalismo amplia o escopo da
economia neoclássica introduzindo a política, e a teoria dos jogos o faz introduzindo a in-
certeza, o “Desenvolvimento Local Endógeno” tenta introduzir a participação e o espaço.
Entretanto, o faz de forma reducionista, conferindo-lhe outro significado. Neste aspecto,
não se afasta ou diferencia de suas “companheiras”, já que a teoria dos jogos por exemplo,
reduz a incerteza a um campo de probabilidades e os neo-institucionalistas reduzem a po-
lítica a escolhas individuais isoladas com base no cálculo econômico racional. No “Desen-
volvimento Local Endógeno” ocorrem duas reduções importantes: o espaço é reduzido a
uma mera questão de escalas, e sua introdução na teoria se dá a partir de sua autonomi-
zação e reificação; a participação é reduzida a uma série de mudanças institucionais e sua
introdução na teoria se dá de forma puramente normativa.
O “Desenvolvimento Local Endógeno” expurga o conflito ao pressupor ser o “inte-
resse local” algo monolítico, um único fim para o qual converge a ação de todos os ato-
res. Levando-se em consideração que não há possibilidade de participação autêntica, ver-
dadeira, onde não há o reconhecimento do conflito, dos interesses em conflito, isto é,
onde não há política, podemos então concluir que a participação aí proposta ocorre pre-
dominantemente no âmbito do discurso.
Embora as “teorias” do “Desenvolvimento Local Endógeno” proponham a criação
de fóruns de discussão e articulação, eles o fazem segundo uma ótica, composição e re-
gras de funcionamento tais que estes acabam funcionando antes como arenas de legitima-
1 Ver, a respeito da transfor- ção dos interesses dominantes do que como instâncias de participação cidadã efetiva.1
mação dos fóruns de partici-
pação popular em arenas de
Autores como Coraggio (1994) alertam para a possibilidade de tais interesses locais
legitimação de interesses implicarem uma regressão aos caciquismos e clientelismos, não se configurando necessa-
dominantes: Mayer (1992),
sobre os novos clientelismos riamente como um poder popular. Outros, como Mayer (1992), afirmam que nem sem-
em cidades da Itália e Gré- pre os sistemas de negociação local se abrem a influências democráticas, podendo, em
cia; e Braga (1997), sobre o
Conselho Estadual de Meio muitos casos, transformar-se em um espaço dominado por um grupo fechado que repre-
Ambiente de Minas Gerais. senta apenas interesses muito particulares. Esta autora pondera que

2 O termo “devolução”, apor- processos de “devolução”2 não implicam necessariamente em democratização. A transferên-
tuguesamento do inglês
devolution, é utilizado por
cia de poder para o nível local, que caracteriza a maior parte dos processos contemporâneos
autores da ciência política e de reestruturação do Estado, podem também implicar no fortalecimento da existência ou na
da economia urbana em re-
ferência a processos de emergência de novas elites locais. (Mayer, 1992, p.14, tradução nossa.)
transferência de poder do
governo central a governos
subnacionais. Mesmo defensores do “Desenvolvimento Local Endógeno”, como Boisier (1998,
p.10), reconhecem que a “aproximação do território em escala comunal alegando-se a ne-
cessidade de aproximar as respostas públicas das demandas das pessoas” tem por trás, não
poucas vezes, uma intenção oculta “de aliviar o governo central de cargas financeiras,
quando não outras intenções”. Explícita aqui a preocupação de que o desenvolvimento
local seja utilizado como retórica para ocultar intenções politicamente mais difíceis de se-
rem aceitas pela população, como cortes nos gastos sociais. Implícita a preocupação de
que o desenvolvimento local seja utilizado para justificar políticas que vão contra os inte-
resses das comunidades em nomes das quais se diz estar trabalhando, reforçando os in-
teresses das elites no poder.
Uma outra questão central é a seguinte: é possível pensar em desenvolvimento local
no contexto do sistema econômico mundial da atualidade?

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T A N I A M O R E I R A B R A G A

Os defensores do desenvolvimento local afirmam ser possível integrar as economias


locais à economia internacional através de um aumento de competitividade oriundo da
reestruturação do sistema econômico local de forma a adaptá-lo às exigências do merca-
do mundial e a inserir a localidade no “novo mapa do mundo”.
Uma vez que no “novo mapa do mundo” cabem apenas os vencedores, a competi-
ção entre lugares é feroz e vem, segundo Soja (1986, p.186, tradução nossa) “absorvendo
quantidades crescentes de recursos públicos e freqüentemente dominando os processos de
planejamento urbano e regional à custa da redução dos gastos em serviços sociais e polí-
ticas de bem-estar. À medida que o capital coopera cada vez mais, as comunidades com-
petem cada vez mais”.
De acordo com a visão que clama por maior competitividade entre os lugares, o sis-
tema econômico mundial atual provê oportunidades iguais de desenvolvimento para as
localidades ao redor do mundo, caso estas obtenham sucesso na criação de um ambiente
adequado para os negócios e incrementem seus próprios recursos econômicos, culturais e
sociais. Ela assevera que cada localidade teria a chance de competir, uma vez que os fato-
res locacionais que conferem diferenciais de atratividade, como o conhecimento e a tec-
nologia, estão se tornando cada vez mais ubíquos. Bastaria, portanto, que houvesse um
aumento da capacidade de adaptação local às exigências da economia mundial.
Tudo funciona como se, em um passe de mágica, todos os diferenciais e particulari-
dades das economias locais/regionais, surgidas no bojo de processos desiguais de desen-
volvimento, pudessem ser abolidos. Essa premissa irrealista é uma das principais bases da
crença na capacidade de adaptação local à economia mundial.
Além do mais, adaptação parece ser uma tarefa das mais difíceis em uma economia
em que os fatores econômicos mais importantes são a informação e o capital financeiro.
O acesso a inovações tecnológicas de ponta que permitem o acesso às informações-chave
e às habilidades necessárias para operá-las varia sobremaneira entre os diversos grupos so-
ciais e regiões. O fosso em relação à capacidade de atração de capital financeiro é ainda
mais significado de uma localidade/região para outra.
Como observam Sassen (1998), Soja (1989) e Castells (1995), as tecnologias de in-
formação e as avançadas tecnologias de produção, consideradas atividades footloose pelo
discurso hegemônico, contribuem tanto para a reconcentração quanto para o espraiamen-
to dos sistemas espaciais de produção. O setor de serviços, em especial o de serviços fi-
nanceiros, e a tomada de decisão corporativa tendem a se concentrar no core urbano das
mais importantes entre as regiões metropolitanas nodais, mais especificamente, tendem a
se concentrar nos distritos financeiros das metrópoles primais. Serviços relacionados ao
consumo, serviços públicos e essenciais, serviços não-estratégicos e gestão cotidiana de ne-
gócios tendem à descentralização, mas esta descentralização ocorre antes para a periferia
das principais metrópoles do que para cidades nos níveis intermediário ou baixo da hie-
rarquia urbana.
No jogo internacional da competição econômica, no qual “é preciso matar ou mor-
rer”, há escassez de vencedores e abundância de perdedores. Perder aqui não significa ape-
nas ganhar uma fatia menor do bolo, significa ficar de fora do jogo, significa investir os
(muitas vezes parcos) recursos locais em benefício de interesses privados localizados e não
obter nenhum retorno para a coletividade.
As estratégias são globais sim para as grandes corporações, mas não o são para os ou-
tros atores sociais, para os quais sempre há a possibilidade da exclusão pura e simples. Se
algumas localidades, regiões e pessoas conseguem ser incluídas, a maior parte delas é

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excluída. Com isso, a maior parte do globo – cidades, regiões, países e grandes parcelas
da população dos territórios incluídos – fica cada vez mais “à margem” e o potencial de
exclusão social do “Desenvolvimento Local Endógeno” torna-se mais agudo a cada roda-
da do jogo competitivo.
Segundo o “Desenvolvimento Local Endógeno”, um dos principais mecanismos
pelos quais se daria a ampliação da capacidade de inovação do sistema econômico local
são os ajustes nos sistemas institucional, cultural e social locais em resposta a mudanças
na concorrência internacional e na disponibilidade de recursos do sistema local. Isto é
confiar demais na autonomia local, o que nos parece bastante frágil. Ainda que se acei-
te, em tese, que mudanças nos demais sistemas induzam por si só mudanças no sistema
econômico, uma série de perguntas permaneceria sem respostas. Com quais instrumen-
tos promover os ajustes institucionais? Quem negocia em que bases isto vai ser feito?
Quem perde, e quem ganha? Mais uma vez, encobrir o conflito é necessário para que a
“teoria” funcione.
Um argumento bastante usado na defesa de que o desenvolvimento endógeno fun-
ciona, não sendo apenas uma construção teórica, é a verificação empírica de casos como a
Terceira Itália, a província de Santa Fé na Argentina e o Rio Grande do Sul no Brasil, to-
dos citados por Barquero (1998). Neste ponto podemos questionar, em primeiro lugar, até
que ponto estes exemplos realmente correspondem ao modelo, como é o caso do Rio
Grande do Sul. Em segundo lugar cabe questionar, ainda que se aceitasse que eles se apre-
sentam na realidade assim como proposto pela construção teórica do “Desenvolvimento
Local Endógeno”, qual seria sua capacidade de reprodução e generalização. Não seriam tais
exemplos possíveis apenas enquanto exceções? É válido pensar em sua multiplicação em
um mundo globalizado e monopolizado, onde o capital se concentra em alta velocidade?
Argumenta-se em favor da convergência das estratégias econômicas locais e das estra-
tégias territoriais das empresas mais dinâmicas. Questiona-se: por que razão os interes-
ses/estratégias iriam coincidir? O que temos visto não é o oposto, com os interesses das
grandes empresas contrariando o interesse social, cultural e ambiental de populações locais?
Outro ponto que parece obscuro, se não indevido, é a comparação da magnitude
de externalidades positivas que podem ser criadas pelas redes com aquelas criadas pelas
grandes corporações transnacionais. Mais uma vez o ritmo da concentração do capital
e a custosa corrida pela inovação incita a considerar tal hipótese como um tanto quan-
to superestimada.
No que se refere aos recursos que compõem o potencial de desenvolvimento local,
sejam eles econômicos, políticos ou culturais, não é sensato imaginar que estes sejam ge-
rados no nível local apenas. Pelo contrário, para se falar em sistema social e político, em
uma tradição e cultura de expressão e magnitude tal que possa interagir e modificar os sis-
temas produtivos, é necessário pensar em um contexto mais amplo.
Um outro ponto a ser levantado diz respeito à crença de que sentimentos de perten-
cer a uma comunidade são maiores do que os diferenciais de interesses existentes dentro
dela. Este raciocínio, que expurga o conflito do campo de análise, inviabiliza a própria
idéia de negociação, prévia a qualquer articulação, pois sem interesses conflitantes não há
negociação. É inverossímil pensar no espaço local destituído de interesses conflitantes, co-
mo espaço de relações de cooperação apenas. Como então definir políticas, como decidir
qual desenvolvimento, para quê e para quem? Como lidar com realidades tão heterogê-
neas, como a das cidades brasileiras, sem o reconhecimento do conflito e da necessidade
de negociação?

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T A N I A M O R E I R A B R A G A

A perspectiva de solidariedade local merece ser objeto de investigação mais cuidado-


sa, uma vez que traz em si forte contradição. Solidariedade pressupõe universalidade, sen-
do difícil pensá-la de forma particularizada ou restrita a uma única localidade. Além do
mais, a idéia de uma solidariedade local pode se constituir em um forte estímulo para que
se abandonem políticas distributivas entre os diversos espaços, levando a um aprofunda-
mento das desigualdades econômicas e sociais entre localidades e regiões.
Outro ponto que pode ser questionado é a asserção de que o Estado deve assumir
papel de facilitador e mobilizador de recursos públicos/coletivos para o incremento das
redes privadas. Inerente aqui o perigo de erosão da distinção entre interesses públicos e
privados e de transformação, pela via do discurso do consenso, de interesses puramente
particulares em objetivos coletivos pelos quais a sociedade inteira deve pagar.
É interessante observar que alguns defensores do desenvolvimento local, pelo menos
aqueles mais cuidadosos como Barquero (1998), percebem parte da fragilidade do mode-
lo, ponderando sobre limitações como: a fraca autonomia dos municípios para lidar com
a questão do desenvolvimento, o que leva à proposição de associação entre estes para al-
cançar uma dimensão tal que torne eficazes as ações de articulação do desenvolvimento
local; o fato de que cada localidade irá se inserir na economia internacional em razão de
sua história, identidade e cultura; a relevância do nacional e internacional e a importân-
cia dos investimentos externos, defendendo em concomitância que o diferencial do “De-
senvolvimento Local Endógeno” é reconhecer que o território também conta e que é pos-
sível adotar estratégias locais de desenvolvimento; a existência de conflito de interesses na
sociedade mais amplos que os objetivos comuns de aumento de produtividade e compe-
titividade; a carência de um marco legal adequado que institucionalize as propostas do
modelo e lhes dê recursos em montante adequado; a falta de coordenação entre os agen-
tes locais e a carência de recursos humanos para a gestão local nos moldes propostos. A
questão aqui é que tais reconhecimentos apenas tangenciam o modelo e as propostas daí
derivadas. Cabe questionar se considerar tais limitações com maior profundidade não im-
plicaria a recusa dos pressupostos mais caros do “Desenvolvimento Local Endógeno”.
Em resumo, as críticas aqui formuladas ao “Desenvolvimento Local Endógeno” não
dizem respeito à escala territorial de aplicação das políticas ou ao nível de governo respon-
sável pela condução destas, e sim à lógica predominante: uma lógica de solidariedade e
inclusão, ou uma outra de individualismo, mercado e exclusão. Não é excessivo lembrar
que é possível tanto se ter uma política local regida por uma lógica individualista e exclu-
dente, quanto outra que se paute pela solidariedade e inclusão. O mesmo se dá nos níveis
regional ou nacional. A questão então é saber quem são os protagonistas deste desenvol-
vimento, quais são os atores que definem as políticas, qual a lógica que as rege e quais os
instrumentos utilizados para alcançá-las. A esta questão, o desenvolvimento endógeno/lo-
cal não responde, de fato, sequer a tangencia, uma vez que, apesar de reconhecer a exis-
tência de interesses diversos, abandona tal reconhecimento e segue argumentando como
se houvesse, ao fim de tudo, um interesse comum maior.
Cabe também ressaltar que as críticas aqui formuladas não têm por objetivo descar-
tar as propostas de “Desenvolvimento Local Endógeno”. Que a formulação de estratégias
locais ou regionais de desenvolvimento é uma necessidade, não há como negar. Que esta
formulação seja feita dentro de um marco individualista e de uma lógica liberal de com-
petição entre lugares, é preciso superar.
Se, por um lado, as teorias do “Desenvolvimento Local Endógeno” possuem elemen-
tos passíveis de serem utilizados na construção de estratégias locais de desenvolvimento

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 5 / MAIO 2002 31


D E S E N V O L V I M E N T O L O C A L E N D Ó G E N O

socialmente inclusivas e solidárias, elas se constituem como fator limitante à construção


destas mesmas alternativas. Isso porque tais teorias, e as políticas nelas inspiradas que
são hoje “receitadas” pelos organismos multilaterais e adotadas em muitas partes do mun-
do, escudando-se em uma pretensa consideração das diferentes espacialidades e da parti-
cipação das comunidades locais, acabam por vender a ilusão de um “desenvolvimento
liliputiano” em um mundo dominado por gigantescas corporações, contribuindo dessa
forma para manter bem sólidos os dois maiores entraves à construção de alternativas in-
clusivas e solidárias: as lógicas individualista e de mercado.

LIMITE E POSSIBILIDADES DA POLÍTICAS


DE DESENVOLVIMENTO LOCAL COM INCLUSÃO
SOCIAL E SOLIDARIEDADE

As críticas aqui tecidas ao “Desenvolvimento Local Endógeno” não podem ser gene-
ralizadas para toda e qualquer iniciativa de promoção local do desenvolvimento. A pró-
pria existência de estratégias locais distintas, algumas guiadas pela lógica de mercado e em
consonância com os pressupostos do “Desenvolvimento Local Endógeno”, outras guiadas
por uma lógica solidária que busca se contrapor aos imperativos ditados pela mundializa-
ção do capital, é um indicativo de que o plano local possui alguma margem de manobra
para iniciativas de promoção do desenvolvimento. Mas essa margem encontra limites nas
decisões tomadas no âmbito nacional/mundial e é mais ou menos elástica em função do
processo político local, do reconhecimento do conflito e da forma com a qual se lida com
ele, bem como de limites políticos e institucionais específicos daquela localidade ou do
país ao qual ela pertence.
Só é possível compreender a existência de uma margem de manobra no plano local,
construída a partir da resistência às formas de dominação atuantes, ao se combinar a aná-
lise das políticas nos planos mais altos com a investigação no campo da arena política lo-
cal, isto é, da luta política e social no plano local.
Naquilo que tange à análise das políticas nos planos mais altos, no caso brasileiro
ganha destaque a análise dos constrangimentos políticos, socioeconômicos, financeiros,
fiscais e tributários, bem como a investigação das relações entre os diversos níveis de go-
verno e das particularidades que adquirem tais relações em um contexto federalista on-
de o nível local tem status de ente autônomo, legitimação via sufrágio direto e capacida-
de de definir normas e legislações.
A execução de políticas que tenham por objetivo central o desenvolvimento, seja
ele local ou regional, requer a capacidade de atuação sobre as grandes variáveis econô-
micas e sociais, como renda, emprego, crescimento e dinâmica da economia, mercado
de trabalho.
Não é possível pensar em política de desenvolvimento sem pensar em política de
emprego. Levar a cabo políticas de retorno das pessoas ao mercado de trabalho é tarefa di-
fícil em meio a um contexto de políticas liberais nos planos nacional e internacional. Em
face do crescente desemprego, da mudança nas relações capital trabalho e da tendência de
precarização do mercado de trabalho nas grandes cidades, o alcance das políticas compen-
satórias levadas a cabo pelos governos locais tende a ser cada vez menor. As iniciativas de
geração de emprego realizadas no plano local contribuem de maneira apenas parcial no
enfrentamento de uma questão que possui causas originadas nos níveis superiores.

32 R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 5 / MAIO 2002


T A N I A M O R E I R A B R A G A

Tampouco é possível fazer política de desenvolvimento sem atuar sobre o câmbio e


sobre os juros que, além de afetarem a tão desejada competitividade dos produtos e ser-
viços de uma localidade de um país específico diante dos “locais” dos outros diversos paí-
ses, possuem profundos impactos sobre aspectos fundamentais da economia como a di-
nâmica do capital, as taxas de crescimento, o financiamento do sistema produtivo, a
relação entre investimento produtivo e especulação financeira, o grau de incerteza e de
instabilidade daquela dada economia.
Além do mais, nunca é demais relembrar que as políticas macroeconômicas condi-
cionam a extensão e a qualidade das políticas locais, pois podem causar importantes cons-
trangimentos financeiros ao poder local.
A despeito do recente processo de descentralização, o nível local de governo possui
restrições financeiras, fiscais e tributárias muito fortes em nosso país. Afirmar a existência
de restrições e limites não significa, de forma alguma, ignorar o processo de fortalecimen-
to dos municípios brasileiros ocorrido ao longo da década de 1980, significa tão-somente
apontar suas fragilidades.
É verdade que houve um crescimento da receita disponível e da arrecadação própria
dos municípios ao longo da década de 1980, o que contribuiu positivamente para o for-
talecimento da autonomia do nível local de governo. Entretanto, a reação do governo fe-
deral nos anos 90, com a utilização de expedientes como a criação do Fundo de Estabili-
zação Fiscal e a exploração de tributos não compartilhados com as esferas subnacionais,
reverteu em parte os ganhos da década anterior. Some-se a isso a limitada capacidade de
geração de receitas3 e o crescimento de dispêndios, e temos delineado um quadro de des- 3 A capacidade de geração
de receitas de uma locali-
compasso que fragiliza as finanças públicas municipais e se manifesta sob a forma de res- dade depende, principal-
trições à sua capacidade de investimento. mente, de seu estágio de
desenvolvimento, da diversi-
Se analisarmos do ponto de vista financeiro e tributário, o ganho de autonomia na dade de sua estrutura pro-
esfera fiscal tem seu impacto ainda mais reduzido por uma série de fatores. Do ponto de dutiva e da renda de sua po-
pulação. Os anos 90, com
vista financeiro, as perdas de receitas e as vinculações derivadas dos contratos de dívidas níveis mais reduzidos de
contribuem para a redução da autonomia relativa do nível local de governo. O endivida- crescimento econômico, não
apresentaram perspectivas
mento dos entes subnacionais com a União resulta em uma redução da autonomia destes de ganhos de receitas para
os municípios brasileiros.
através de vários mecanismos. O principal deles é a imposição de padrões de comporta-
mento fiscal/financeiro para efeito de ajuste fiscal, do qual é exemplo a renegociação das
dívidas de 1995-1996, que impôs aos governos estaduais e municipais medidas como pri-
vatização, corte de pessoal e comprometimento de grande parcela de seu orçamento com
o pagamento de serviços da dívida.
Do ponto de vista tributário, o principal fator de redução da autonomia local é a li-
mitada capacidade de tributação própria dos municípios brasileiros que não estão autori-
zados a criar novos impostos. Ademais, o crescimento da arrecadação via impostos já exis-
tentes é fortemente condicionado pela dinâmica econômica supralocal.
Além dos fatores financeiros e tributários, contribuem para a redução do impacto do
ganho de autonomia municipal dos anos 80 as restrições surgidas da tensão entre centra-
lização e descentralização verificada nos anos 90.
Do ponto de vista da autonomia política, cabe chamar a atenção para o fato de que,
em um contexto onde se confere ao poder local a tarefa de resolver todos os problemas
cruciais da sociedade urbana contemporânea, esse mesmo poder político local é esvazia-
do. Ao tentar resolver tudo, a força política do poder local se dispersa, seus recursos se
pulverizam e ele acaba refém de expectativas irrealistas e de manipulações por parte dos
interesses econômicos dominantes. No mais, é mister lembrar que o poder político local

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 5 / MAIO 2002 33


D E S E N V O L V I M E N T O L O C A L E N D Ó G E N O

atua antes sobre as condições para a reprodução da força de trabalho do que sobre as con-
dições para a reprodução do capital.
Para analisar as relações políticas/institucionais entre as diversas esferas de governo
cabe, em primeiro lugar, atentar para suas atribuições específicas refletidas na distribuição
de competências, na sobreposição de tarefas e nas atuações conjuntas e concorrentes das
referidas esferas. Um segundo passo de fundamental importância é perceber os conflitos
de interesse que surgem a partir de uma distribuição específica de atribuições, bem como
as relações de dependência e controle que surgem da adoção pelos níveis superiores de go-
verno de práticas de monopólio de informação e de segredo burocrático. Tais conflitos e
relações de controle/dependência geram constrangimentos e limitações à atuação do po-
der local na formulação e implementação de quaisquer políticas públicas, incluso aí as de
promoção do desenvolvimento.
Já para pensar em termos de arena política é preciso, em primeiro lugar, explicitar
que o poder não é exercido apenas pelo Estado, e sim através de diversas instituições so-
ciais que se relacionam entre si e com o poder político formalmente constituído através
de uma miríade de canais, práticas e pactos. Segundo Foulcault (Machado, 1996, p.X)
“não existe algo unitário e global chamado poder, mas unicamente formas díspares, hete-
rogêneas, em constante transformação. O poder não é um objeto natural, uma coisa: é
uma prática social e, como tal, constituída historicamente”.
As democracias formais modernas são na realidade um complexo sistema de inter-
4 Por “antipoderes” enten- relações de poderes e “antipoderes”4 dominado pelos interesses econômicos e financeiros,
de-se a atuação do poder
econômico no sentido de
no qual os objetivos de assegurar e manter a permanência no poder de um grupo de pro-
capturar o poder político fissionais de elite do próprio sistema político e proteger e antecipar os interesses econô-
formal através do financia-
mento de campanhas eleito- micos dominantes são mais relevantes que o objetivo de distribuir riqueza e poder. Nesse
rais, do sustento dos parti- sistema, os cidadãos são reduzidos a meros eleitores e pagadores de impostos e a partici-
dos políticos e das práticas
de “comissionamentos”. pação na vida pública é passiva, visto que ocorre apenas em dois momentos, quando da
eleição, em que os pretensos cidadãos legitimam o sistema político, e quando do paga-
mento de impostos, por meio do qual eles financiam o mesmo sistema.
Participação e vida política são tarefas árduas em sociedades de massas clivadas por pro-
cedimentos de homogeneização simbólica que ocultam os conflitos. Além disso, em tais so-
ciedades, a pressão econômica e simbólica impele os indivíduos a despender uma parcela ca-
da vez maior de seu tempo “ganhando a vida”. Quanto ao tempo livre, esse é ocupado com
compras e consumo, que são vistos como formas de recreação, ou em atividades produzi-
das pela indústria cultural que os impele a mais consumo. Nesse contexto, há muito pou-
co tempo para a sociabilidade, para a vida política e para a participação na esfera pública.
Dessa forma, o funcionamento da arena política local não corresponde à visão idea-
lizada do local como espaço de participação política, cidadania e exercício de solidarieda-
de. Pelo contrário, a arena política local funciona como espaço de conflitos de interesses,
como espaço de lutas e disputas entre agentes que se relacionam a partir de relações de
poder desiguais; ou ainda como espaço de manipulação e apatia.
Os agentes atuantes na arena política local podem ser divididos, para fins de análi-
se, em agentes econômicos e agentes sociais. Por agente econômico local entende-se um
agrupamento de setores empresariais com interesses comuns cujas atividades econômicas
estão condicionadas pelas ações de regulamentação e provisão de condições gerais de pro-
dução no âmbito local. Por agente social local entende-se um agrupamento de institui-
ções e/ou grupos sociais com interesses comuns cujas atividades de reprodução estão con-
dicionadas pelas ações de regulamentação e provisão de bens comuns no âmbito local.

34 R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 5 / MAIO 2002


T A N I A M O R E I R A B R A G A

Exemplos de agentes econômicos locais são aquelas empresas das quais o governo lo-
cal contrata obras e serviços, como é o caso das empreiteiras de obras públicas, das gran-
des e pequenas empresas de infra-estrutura, das fornecedoras de equipamentos e mate-
riais, das empresas prestadoras de serviços urbanos como coleta de lixo e saneamento, das
empresas de manutenção e das terceirizadoras de mão-de-obra.
Também são exemplos típicos de agentes econômicos locais as empresas que depen-
dem diretamente das regulamentações feitas por esse nível de governo, como é o caso das
construtoras, das incorporadoras imobiliárias, do setor de diversão pública, das empresas
do setor de transporte coletivo. Aqui também se incluem as empresas cuja instalação ou
ampliação estejam sujeitas a restrições impostas pela Lei de Uso e Ocupação do Solo, co-
mo plantas industriais, postos de gasolina, casas de espetáculos, entre outras.
Exemplos de agentes sociais locais são aqueles grupos que se formam a partir da
construção de uma identidade simbólica que faz referência a sentimentos de pertencimen-
to a uma classe, a um espaço intra-urbano específico ou a um estilo de vida, bem como
aqueles grupos formados a partir da percepção coletiva de uma carência comum. Entre
eles encontram-se tanto as elites sociais, culturais e políticas locais, como os movimentos
sociais e as “tribos urbanas”.
As relações de poder constituídas no plano local estão permeadas por conflitos de in-
teresses. Tais conflitos podem se dar entre os agentes econômicos e sociais, entre os diver-
sos grupos que fazem parte de um agente econômico ou social, entre o poder político for-
malmente estabelecido e a população em geral, entre o poder político formalmente
estabelecido e os “antipoderes”, entre a população em geral e os “antipoderes”.
A mediação e o ajustamento dos conflitos de interesses tornam-se particularmente
difíceis no plano local em razão da proximidade dos agentes e das assimetrias de acesso
aos recursos de poder. O nível local de governo é extremamente vulnerável às pressões
dos agentes econômicos quando da alocação de recursos em políticas alternativas. Por
exemplo, segundo Maricato (2000), a regra geral de alocação de investimentos públicos
no caso brasileiro reza que as obras de infra-estrutura que atendem aos interesses de em-
preiteiras de construção pesada e de empresas do setor imobiliário têm prioridade sobre
os investimentos sociais. Dessa forma, políticas de habitação popular, saúde, educação,
meio ambiente e cultura são relegadas a segundo plano vis-à-vis obras de infra-estrutura
urbana que abrem novas localizações para o mercado imobiliário de alta renda e susten-
tam a especulação.
Em resumo, a análise da arena política local envolve a identificação dos agentes e,
principalmente, o exame da dinâmica das relações de poder e dos conflitos entre eles, o
que só pode ser efetuado com propriedade a partir de casos concretos.
Para que o poder local possa atuar no sentido da construção de políticas de desen-
Tania Moreira Braga, eco-
volvimento local baseadas em uma lógica que prioriza a inclusão social e a solidariedade, nomista, é professora do
é necessário que compreenda a extensão dos constrangimentos à sua ação e avalie corre- Mestrado em Gestão de Ci-
dades da Universidade Cân-
tamente as possibilidades para a ação política. Para tanto, é imprescindível reconhecer a dido Mendes – Campos e
força dos oponentes e construir uma articulação robusta, que pressupõe recuperar a polí- pesquisadora do Centro de
Desenvolvimento e Planeja-
tica, o fazer política, em especial através da construção de laços de solidariedade que pos- mento Regional (Cedeplar)
da Universidade Federal
sam dar cola aos interesses tão diferentes das diversas populações marginalizadas e opri- de Minas Gerais. E-mail:
midas em nossas cidades socialmente desiguais. tania@cedeplar.ufmg.br

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 5 / MAIO 2002 35


D E S E N V O L V I M E N T O L O C A L E N D Ó G E N O

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A B S T R A C T Competition and citizenship are key words on the major proposals of


local development strategies under the approach of “Local Endogenous Development”. We ques-
tion if the conciliation between competition and citizenship is really possible, or if it is mainly
a discursive strategy that adds a participatory discourse to a competition approach in order to
create a democratic illusion. The conceptual framework we use on this paper is based on the
assertion that beyond the appearing conciliation or opposition between citizenship and
competition we can find a conflict field in which there are both conciliation and contradic-
tion. These fields of conflicts end up by giving rise to a range of limits to the design and

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T A N I A M O R E I R A B R A G A

implementation of strategies of local development. Our main goal is to investigate the discur-
sive and political strategies that reside on proposals of “Local Endogenous Development” in or-
der to identify and analyse the limits to its design and implementation.

K E Y W O R D S Local development; endougenous development; competition; citi-


zenship; social inequalities.

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 5 / MAIO 2002 37


OLINDA
MEMÓRIA E ESQUECIMENTO

VIRGÍNIA PONTUAL
VERA MILET

R E S U M O Este artigo discute as recentes práticas urbanísticas em sítios históricos,


destacando aquelas exaltadas, por uns, como um novo e eficiente modo de pensar as cidades
e criticadas, por outros, como “culturalismo de mercado”. A essas críticas acrescenta-se outro
argumento: o de que tais práticas usam a história do lugar como valor cultural, mas inter-
vêm esvanecendo a sua especificidade e singularidade. Adotando a reconstituição histórica
da formação do sítio de Olinda, responde à seguinte indagação: que práticas dos urbanistas
levam ao esquecimento ou à memória da história do lugar? Assim, estão relatados fatos do
passado que parecem denotar destruição e perda. No decorrer do artigo relaciona-se essa dis-
cussão aos relatos de memorialistas e textos de historiadores que informam sobre a formação
da então vila da Capitania de Pernambuco.

P A L A V R A S - C H A V E História; urbanismo; práticas urbanísticas; organiza-


ção urbanística; memória; esquecimento.

INTRODUÇÃO

As recentes práticas urbanísticas relativas aos sítios históricos têm sido exaltadas como
um novo e eficiente modo de pensar as cidades. Entretanto, vozes como as de Arantes (1998;
2000), Hall (1995) e Jeudy (1990) têm ecoado no sentido de pôr em dúvida tais práticas,
enunciando que elas não passam de “culturalismo de mercado”, “cenografia gestionária da ci-
dade” ou “teatralização da vida social”. As críticas ao new urbanism e à “terceira geração ur-
banística”, vernáculos designativos das vertentes norte-americanas e européias, fundamen-
tam-se no vazio de ideais que tais práticas contêm, nas quais a requalificação implica a
minimização da ação do Estado na gestão do espaço público, na adoção de uma estratégia
empresarial segundo os fluxos do mercado e na adoção de políticas de “marketing cultural”.1 1 Segundo Arantes (2000),
os projetos de renovação ur-
De modo complementar a essas críticas, Harvey (1993; 1996), referindo-se às diver- bana podem ser ordenados
segundo três gerações: a
sas experiências realizadas nas duas primeiras gerações, como em Baltimore e Londres, primeira, relativa aos anos
afirma que tais práticas resultaram numa “repetição em série de modelos bem-sucedidos 70, confere ênfase à parce-
ria público-privado; a segun-
(…) que deixaram a maioria das grandes cidades do mundo capitalista avançado com da, nos anos 80, critica
poucas opções além da competição entre si, em especial como centros financeiros, de con- os planos normativos e o
planejamento quantitativo,
sumo e de entretenimento” (1993, p.92). Quanto aos projetos urbanísticos da terceira ge- passando a dar destaque à
ração, Arantes (2000) mostra terem-se tornado principalmente empreendimentos de va- imagem urbana que tais em-
preendimentos proporcio-
lorização imobiliária, sob o comando e os ícones das grandes corporações internacionais, nam como uma dimensão
relegando práticas urbanísticas de controle do crescimento urbano para adotar aquelas de qualitativa; e a terceira, rela-
tiva aos anos 90, é marcada
incentivo incondicional a esse crescimento. pela emergência da dimen-
são cultural. Sobre esta te-
Porém, não basta citar e referendar tais críticas, mas também enfatizar que as práti- mática ver ainda: Vicentini
cas “estratégicas” de “gerenciamento empresarial” ou de “marketing cultural” parecem ter (2001) e Castello (2001).

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 5 / MAIO 2002 39


O L I N D A , M E M Ó R I A E E S Q U E C I M E N T O

como pressuposto a diluição da cultura e da memória do lugar. Tais práticas estão entra-
nhadas de incoerências, pois usam a história do lugar como valor cultural, mas intervêm
homogeneizando de modo a se configurar um mesmo padrão de uso e de fruição da ci-
dade e, portanto, esvanecendo a sua especificidade e singularidade.
Se, na atualidade, essas práticas urbanísticas provocam o esquecimento do passado à
medida que são intervenções uniformizadoras de lugares, a reconstituição histórica pode
trazer outros elementos às reflexões sobre os atos dos urbanistas, considerando-se a se-
guinte indagação: Que práticas dos urbanistas levam ao esquecimento ou à memória da
história do lugar?
O percurso a ser seguido para refletir sobre essa indagação procura desprender-se de
uma postura romântica de fervor pelo passado, como também daquela adotada pelos re-
nascentistas de um futuro superior decorrente do progresso da ciência. Portanto, a refle-
xão sobre as intervenções em sítios históricos nem poderia estar presa a um apego desme-
dido pelo antigo, nem à aceitação de novidades redentoras. Assim, pretende-se fazer uma
reflexão circunscrita à relação ambígua entre memória e esquecimento.
O entendimento de memória, como ordenação dos vestígios ou trazer fatos do pas-
sado, deixa ao largo algumas lagunas. Para Le Goff (1996, p.424, 426, 472-3), memória é,
ainda, rememorar ou dar idéia de, e conservar algo consciente ou latente, enquanto o es-
quecimento, para esse historiador, é perda, é amnésia. Porém, Benjamim (1985, p.45) as-
socia esquecimento a envelhecimento, mas, ao estabelecer o entrecruzamento com remi-
niscência, afirma a constituição de “um mundo em estado de semelhança”, que contém
“força rejuvenescedora” ou revitalizadora. Nesse sentido, ao procurar conservar um sítio
histórico não estariam os urbanistas realizando um ato de esquecimento, porém estabele-
cendo semelhanças entre maneiras de viver na cidade do passado, presente e futuro.
Para fazer essa reflexão, serão relatados fatos do passado que parecem denotar des-
truição, perda, esquecimento, a exemplo do incêndio de Olinda, realizado pelos holande-
ses, em 1631. Será que esse incêndio pode ser interpretado como um ato de esquecimen-
to? É possível estabelecer um paralelo entre tal ato, num passado remoto, e os atuais atos
de revitalização efetivados em sítios históricos?
No decorrer deste texto, buscar-se-á relacionar as questões acima colocadas com re-
latos de memorialistas e textos de historiadores que informam sobre a formação da então
2 A capitania de Pernambu- vila da Capitania de Pernambuco.2 Para tanto, foram selecionados os textos mais relevan-
co foi uma das maiores do
Brasil colonial, com uma
tes, ou que possuem maior força expressiva e documental.
extensão de costa de 60
léguas, que começava na
foz do rio São Francisco e
terminava no canal que se- O INCÊNDIO DA VILA DE OLINDA:
para a ilha de Itamaracá do
continente.
QUESTÃO MILITAR E IDENTIDADE DO LUGAR
O principio do mez de novembro foi gasto completamente em remover tudo da cidade
de Olinda e arrazal-a (…) Quando retiraram da cidade de Olinda tudo quanto podia servir
e ser transportado e removeram a bagagem dos officiaes e dos soldados, o tenente-coronel or-
denou que as tropas se apromptassem para mudar de acampamento. No dia 24 de novem-
bro, pela manhã, o chefe da equipagem foi do Recife para a cidade, com archotes alcotroa-
dos e outros meios incendiarios e mandou atear fogo ás casas, sendo tudo devorado pelas
chamas (…) (Laet, 1916, p.296-7.)

Esta descrição de Joannes de Laet, historiador holandês dos feitos praticados no Bra-
sil até o ano de 1636, mostra que o incêndio não foi um impulso no decurso de uma

40 R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 5 / MAIO 2002


V I R G Í N I A P O N T U A L , V E R A M I L E T

batalha, mas algo perseguido e desejado. As justificativas para tal façanha estão registra-
das por vários memorialistas holandeses e portugueses, assim como em estudos recentes
de historiadores pernambucanos.
Dos registros coletados, o mais prenhe de significação é o de Gaspar Barlaeus. Esse
professor holandês, apesar de nunca ter estado no Brasil, registrou os feitos da Compa-
nhia das Índias Ocidentais no Brasil, principalmente aqueles empreendidos sob o gover-
no do Conde João Maurício de Nassau, a quem ele chamou de “ex-governador supremo
do Brasil holandês”:

Desde que começaram, porém, a senhorear o Brasil os holandeses, subjugadores das ter-
ras e das águas, aprouve escolher-se o Recife e a Ilha de Antônio Vaz para sede do governo.
Como que condenada pelo destino, arruinou-se a formosa Olinda, mostrando-se chorosa. As
casas, os conventos e as igrejas, derribados, não pelo furor da guerra, mas de propósito, la-
grimavam com a própria ruina. (Barlaeus, 1980, p.154.)

Sugere este memorialista que, mesmo antes da invasão, os holandeses já rejeitavam


Olinda. Entretanto, outros memorialistas não são tão enfáticos nesse ponto. Pelo contrá-
rio indicam ter sido tentado, inicialmente, dominar e ocupar essa cidade. Porém, após a
realização de estudos, concluíram que a melhoria de sua segurança exigia um complexo
sistema de fortificações, cujos custos eram elevados, justificando-se, assim, a decisão de
sua destruição:

Nesse interim, como viessem ordens da Metropole determinando ao Governador e ao


Conselho que conservassem a cidade e não a abandonassem, custasse o que custasse, elles re-
solveram mandar examinar com maior escrupulo, por todos os engenheiros, constructores e
officiaes entendidos em fortificações, a situação da mesma. Sahindo da cidade, mediram
muito rigorosamente toda a circunferencia, observando todas as circunstancias e juntamen-
te a planta do que devia fortificar, tomando notas sobre as condições do terreno e dos loga-
res vantajosos ou não; e, finalmente, considerando o numero de tropas, o tempo, as despe-
sas e outras exigencias necessarias para uma tal fortificação, opinaram por unanimidade que
sahiria ella excessivamente cara á Companhia e que seria de difficil conservação (…) O Con-
selho de Guerra, sendo consultado sobre a presente situação (…) foi de parecer que se de-
via manter a cidade de Olinda o mais tempo possível, em todo o caso até chegar ordem da
metropole (…) o Conselho e o Governador estiveram occupados quasi todo o mez discutin-
do se deviam ou não evacuar a cidade de Olinda; e, como a maioria fosse pelo seu abando-
no, começaram a transportar todos os materiais aproveitaveis para o Recife. (Laet, 1916,
p.283-4, 296.)

Joannes de Laet relatou estes fatos bem anteriormente a Barlaeus. É provável que es-
te último, ao querer enaltecer os feitos de Nassau, tenha minimizado a importância de
Olinda e a resistência do Conselho dos XIX em destruí-la. O historiador pernambucano
José Antônio Gonsalves de Mello, a partir das cartas trocadas entre o Conselho dos XIX,
o Conselho Político de Pernambuco e o então governador, coronel Diderich van Waer-
denburch, reforça as memórias de Joannes de Laet:

Waerdenburg, os seus subordinados e os engenheiros que serviam na tropa foram


unânimes em reconhecer a grande dificuldade de manter, sem perigo para a segurança da

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conquista recente, a cidade de Olinda (…) Na Holanda, porém a sugestão para abandonar
Olinda não encontrou boa acolhida (…) Apesar disto, em Pernambuco, os holandeses resol-
veram não fortificar Olinda, o que já era uma razão para abandoná-la (…) Waerdenburg ur-
gia, em carta ao Conselho dos XIX, por uma decisão: a situação militar agravara-se com o
desembarque de 1000 homens da frota de D. Antônio de Oquendo (…) em 24 de novem-
bro de 1631 evacuou a cidade de Olinda e em seguida incendiou-a (…) Esta, a história de
Olinda – uma espécie de vida, paixão e morte – sob a dominação holandesa. (Mello, 1987,
p.45-8, 70.)

No tocante aos aspectos defensivos e à fragilidade da vila de Olinda, não se pode dei-
xar de fazer referência às discussões levantadas pelos portugueses. Conforme o historiador
Evaldo Cabral de Mello, em relatos de Diogo de Campos Moreno escritos nos primeiros
anos do século XVII, está indicado que essa vila não poderia ser adequadamente fortifi-
cada, e, portanto, estaria sempre exposta aos agravos das guerras e invasões:

A vila de Olinda em nenhum tempo pode ter fortificações que assegure suas coisas por
ser, como se vê, em assento alto e barrancoso, as casas esparcidas e as ruas de modo desenca-
minhadas que uma de per si faz um bairro, e as igrejas distantes e desacompanhadas, de mo-
do que as trincheiras da praia, que é a maior fortificação em que se estriba, não é de nenhum
efeito, para caso repentino de gente resoluta, quanto mais para um caso pensado, no qual
ainda os altos muros e largas cavas não asseguram totalmente um povo bisonho. A melhor
defesa de Olinda, pensava Diogo de Campos, consistia no Recife, que pode ser muito gran-
de e muito forte por razão do assento no salgado, cercado de água. (Mello, 1995, p.146.)

Segundo esse historiador, Diogo de Campos Moreno teria chegado a prever que uma
força naval inimiga não encontraria dificuldade em desembarcar uma tropa na barra de
Pau Amarelo, ao norte da vila, a qual, marchando pela praia, tomaria facilmente Olinda.
Exatamente o cenário que seguirão os batavos em 1630.
3 Segundo Mello (1987, O pequeno poder defensivo da cidade de Olinda3 é a razão mais fortemente evoca-
p.45), nos documentos dos
holandeses dos primeiros
da para justificar ser esta incendiada, porém as memórias escritas por Barlaeus indicam
anos Olinda era denominada razões que a própria razão desconhecia:
como cidade.

Não parecia sacrilégio aos nossos essa demolição (…) convencidos de que todo o lugar
é igualmente sagrado e idôneo para se adorar a Deus, julgavam que não cometiam nenhuma
impiedade, mas praticavam um ato de inteligência, desejando dar maior segurança à nova ci-
dade e ao seu culto (…) Sendo nós, porém, homens e capazes de comover-nos com o belo,
não podiam deixar de lamentar a assolação da cidade aflita aqueles mesmos que a devasta-
vam, pondo por terra o tôpo das igrejas e dos edifícios públicos e privados (…) E se a gente
agora visse Olinda, juraria que contemplava, jazendo em seu local desolado, Pérgamo, as ruí-
nas de Cartago ou de Persépolis (…) desaparecendo a mãe – Olinda – lhe sobrevivesse das
ruínas, embora com outro aspecto, a sua filha – Mauriciópole. (Barlaeus, 1980, p.154.)

Esse fragmento das memórias de Barlaeus tem força e significação, apesar da iro-
nia contida, por colocar a questão religiosa associada à militar, ou seja, as cortes euro-
péias eram, também, comandadas pelas Igrejas católica e protestante, que professavam,
cada uma, diferentes visões de mundo, expressas, inclusive, na organização das cidades
de então.

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O componente religioso na formação urbanística e cultural dos primeiros tempos de


Olinda pode, também, ser ilustrado com as memórias de Frei Manuel Calado. Ao iniciar
seus escritos, ele faz uma comparação entre o pecado e as desgraças acometidas aos delin-
qüentes ou pecadores, enfatizando ser o pecado a causa e o efeito da perversão e destrui-
ção das coisas. Essa comparação é feita para explicar a invasão dos holandeses à capitania
de Pernambuco como castigo divino decorrente dos desmandos aí então presentes:

Quem se houvesse achado na vila de Olinda (…) antes que os holandeses a ocupassem,
e a tornasse a ver depois que nela entraram os holandeses, e a renderam, sem muito parafu-
sar, em breve alcançaria, que havia sobre ela caído a vara da divina justiça; a instância dos pe-
cados em que estava enlodada. O ouro, e a prata era sem número, e quase não se estimava;
o açúcar tanto que não havia embarcações para o carregar (…) As delícias de mantimentos e
licores, eram todos os que se produziam assim no reino, como nas ilhas. O fausto, e aparato
das casas era excessivo, porque por mui pobre, e miserável se tinha o que não tinha seu ser-
viço de prata (…) As mulheres andavam tão loucãs, e tão custosas, que não se contentavam
com os tafetás, chamalotes, veludos (…) e eram tantas as jóias com que se adornavam (…)
Os homens não haviam adereços custosos de espadas, e adagas, nem vestidos de novas inven-
ções, com que não se não ornassem os banquetes quotidianos (…) Entrou nela o pecado, fo-
ram-se os moradores dela, entre a muita abundância, esquecendo-se de Deus; e deram entra-
da aos vícios, e sucedeu-lhes (…) e às mais cidades circunvizinhas, que foram abrasadas com
fogo do céu. (Calado, 1985, p.38-9.)

A abundância e a riqueza estavam presentes não apenas nos hábitos dos seus mora-
dores mas, principalmente, nos edifícios religiosos pertencentes às congregações da Igre-
ja católica. O poder de mando dessas congregações pode ser avaliado pela ocupação do
topo das colinas por edificações religiosas, isto é, as melhores localizações em termos de
visibilidade e domínio do ambiente eram de propriedade religiosa.
Historiadores de nosso tempo têm discutido a relação entre território e estratégia lo-
cacional, para fazerem vingar posições de mando e superioridade, destacando a arquitetu-
ra jesuítica como uma das que mais utilizaram esse recurso:

(…) vê-se ao longe a igreja e o Colégio como agentes do núcleo urbano, como representan-
tes legítimos deste. Estão no alto, soberanos – uma simbologia de posição e hierarquia – o
poder simbólico da altura concretiza-se na implantação dos seus edifícios. A paisagem ao re-
dor faz-nos perceber sua imponência e lhe rende homenagem, tributa-lhe respeito. A altura
sacraliza o monumento, confere-lhe poder pela proximidade do céu, pela largueza da visão.
(Oliveira, 1988, p.35-6.)

Vale conferir, nas gravuras da época (Figuras 1, 2, 3), a localização das edificações re-
ligiosas, principalmente a do Real Colégio dos jesuítas, cuja implantação na cota mais al-
ta da colina predominava sobre as demais construções.
A gravura Marin D’Olinda de Pernambuco, presumidamente de um anônimo, ilustra
as memórias do historiador holandês Johannes de Laet (1916), realizadas em 1630, mos-
trando uma paisagem idílica, paradisíaca, e de igual modo estranha, onde o mar, o céu e
as colinas absorvem em grande medida a cena, mas o foco central são as marcas do homem
português. Este último, ao ocupar o território, escolheu os locais de maior visibilidade pa-
ra marcar a sua presença. Embora a composição dos elementos construídos guarde nessa

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gravura equilíbrio na disposição das edificações, o mesmo não se pode dizer quanto ao ca-
ráter estamental, pois em grande maioria são elas religiosas. Dessas edificações, a de maior
destaque é a Matriz do Salvador (A), complementada pelos conventos dos jesuítas (B),
franciscanos (C), São Bento (E) e Carmo (R), e por uma outra matriz, a de São Pedro (L).
Assim, as edificações religiosas, sob o olhar de um artista, mostram uma organização de ci-
dade diversa das holandesas e evocam semelhanças com a atual Olinda.

Figura 1 – Marin D’Olinda de Pernambuco.

A vista panorâmica de Olinda (Figura 2), gravada por Claes Jansz Visscher (1630),
é parte da descrição da invasão de Pernambuco. Essa gravura, desenhada numa perspec-
tiva mais distante do que a anterior e acima da linha de horizonte, destaca entre as edi-
ficações o convento dos jesuítas. Esse outro olhar expõe, também, extensas superfícies de
água, terra e firmamento, mas é muito parcimonioso quanto à vegetação. Talvez o autor
não quisesse diluir os elementos relativos à ocupação pelo homem. A representação da
cena, do lugar do desejo e da astúcia do invasor pode ser superposta a outras fisionomias
do passado e do presente, possibilitando a figuração de diversas Olindas, todas elas be-
las e majestosas, assim como recoloca, para quem as visualiza, o desejo de posse e per-
manência do lugar.

Figura 2 – Olinda, por Claes Jansz Visscher (1630).

A paisagem de Olinda (Figura 3), gravada pelo pintor holandês Frans Post e cons-
tante do livro de Barlaeus (1980), retrata, a partir de ângulo tomado da praia, a vila de-
pois do incêndio, mostrando as ruínas e edificações que se mantiveram, como o conven-
to dos jesuítas, do Carmo e a Matriz do Salvador. Esse quadro, desenhado após a volta de
Post à Holanda, como outros, embora representem paisagens brasileiras “não deixam

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de ser holandesas (…) nas quais o céu no Brasil toma o lugar da água na Holanda” (Ora-
mas, 1999, p.220). Essa interpretação dos quadros de Post por Oramas tematiza a rein-
venção da paisagem como um ato de recordação e memorização, isto é, ao desenhar Post
a maioria de seus quadros na Holanda, as paisagens reproduzidas a partir de recordações
de um lugar distante significam, também, perda ou esquecimento (1999, p.224).

Figura 3 – Olinda depois do incêndio (Frans Post).

Tais gravuras de artistas holandeses retratam Olinda bela e majestosa. Após o incên-
dio, já não dava para mostrá-la de igual maneira, mas dava para afirmar, ainda, a prepon-
derância do componente religioso na organização urbanística da vila.
Dessa forma, se por um lado a beleza de Olinda era reconhecida e exaltada também
pelos holandeses, por outro, era esvanecida pela inexistência de elementos arquitetônicos
relativos ao protestantismo. Portanto, pode-se pensar que o ato de incendiar Olinda, mais
do que previsto e “proposital”, mais do que ter sido considerado como um “ato de inteli-
gência”, era desejado. A vila de Olinda era coisa a ser extinta, perdida, enfim, esquecida.
Esse desejo está aludido no paralelismo estabelecido com atos ocorridos na Antigüidade
grega e romana, mas o mais significativo é o realizado por meio da relação “mãe e filha”,
deslocando fantasias e sentimentos, ou seja, palavras que dizem de desejos insatisfeitos, si-
tuados preponderantemente no domínio da subjetividade e não apenas da objetividade
dos interesses materiais. Esse ato de esquecimento, entretanto, propiciou em si próprio a
recordação de uma arquitetura florescente e bela, assim o movimento pela reconstrução
de Olinda foi um trazer de volta um modo de habitar, de conservar de forma consciente
a memória dos portugueses e brasileiros, como disse José Antônio Gonsalves de Mello:
“Um modo de demonstrar reação ao invasor, de não conformidade e antagonismo às suas
idéias” (Mello, 1987, p.58).

A ORGANIZAÇÃO URBANÍSTICA DE OLINDA:


1530 - 1631, DOS PRIMÓRDIOS DA OCUPAÇÃO
AO INCÊNDIO

A beleza de Olinda foi sempre referida desde seu donatário Duarte Coelho, passan-
do pelos demais funcionários portugueses e viajantes de outras nacionalidades. Já nos
seus primórdios, os aspectos paisagísticos encontram-se largamente documentados.
Cunhada de “formosa” pela beleza natural que propiciava do alto de suas colinas, a vila
passou a ser complementada com as diversas construções empreendidas pelo homem,

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 5 / MAIO 2002 45


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mais precisamente pelos representantes do Rei e da Igreja católica de Portugal. Foi essa
dimensão paisagística que, segundo os rumores da história, motivou o donatário a esco-
lher o sítio para sede da sua capitania ao exclamar: “Oh! Linda terra e outeiro para edi-
ficar uma villa!” (Mello, 1974, p.19).
Discorrendo sobre o encantamento que Olinda provocava nos visitantes, o histo-
riador José Antônio Gonsalves de Mello evoca Manuel de Figueiredo, autor de um ro-
teiro de navegação que, em 1614, descreveu a paisagem da perspectiva dos que chega-
vam de barco:

A vila no alto dos seus morros, se apresentava espinhosa por cima e são os coqueiros e a
torre que está no meio dela e algumas casas grande que se fizeram pelo alto da povoação (…)
a terra baixa é toda igual cheia de arvoredo muito espesso. (Mello, 1983, p.37.)

Essa recorrência à dimensão paisagística permanecerá como depoimento unânime


de pintores e gravadores, como também de todos aqueles que versam sobre Olinda, ao
longo de quase cinco séculos.
Tais depoimentos, sejam em forma de pinturas, gravuras, desenhos, seja por meio
de textos escritos, constituem não apenas vestígios do passado mas a afirmação de uma
rememoração consciente que estabelece semelhanças. De igual modo, ao reconstituir os
primórdios da organização urbanística de Olinda, pretende-se evocar fatos, fazer remi-
niscência. Apesar de a presente reconstituição ser parcial, em largas pinceladas, ela me-
moriza com o olhar do presente um outro tempo, realizando deslocamentos na vivência
de uma cidade.
Quanto à dimensão urbanística, os princípios que orientaram a ocupação territorial
4 O Foral de Olinda foi redi- podem ser apreendidos mediante a leitura e interpretação do texto do Foral de Olinda,4
gido em 1537 por Duarte
Coelho, donatário da capita-
carta de doação que faz o donatário ao Concelho da vila de Olinda, que, no dizer de Oli-
nia de Pernambuco. Consti- veira, constitui a “certidão de nascimento da vila de Olinda, capital da capitania de Per-
tui documento de inestimá-
vel valor histórico, pois, por nambuco” (Oliveira, 1996, p.2). Essa carta registra os direitos sobre foro da Câmara de
meio dele, tornou-se possí- Olinda, delimita os traços gerais da ocupação do território, a toponímia dos arruamentos
vel realizar a reconstituição
dos primórdios do processo e demais lugares, já existentes à época da doação, e mais, define diretrizes de natureza am-
de ocupação territorial de biental, relativas aos cuidados com a utilização dos matos das praias e mananciais de água
Olinda, sede da Capitania de
Pernambuco. Deve-se o res- potável, ou seja, o Foral informa sobre a concepção do donatário no que tange ao orde-
gate dos textos do Foral a
José Antônio Gonsalves de
namento e usos do solo, constituindo-se num verdadeiro plano de ocupação territorial.
Mello que, a partir da con- Discutindo a ocupação territorial da capitania e o início do núcleo urbano de Olinda,
frontação de sete cópias
manuscritas existentes em
Oliveira salienta:
diversos arquivos, elaborou
sua reconstituição textual,
dividindo o texto em pará- Segundo os mais conceituados historiadores em 9 de março de 1535, Duarte Coelho de-
grafos numerados para sembarca no limite norte da sua capitania, local da antiga feitoria régia, no porto que os ín-
maior facilidade do leitor
(Mello, 1974, p.37-57). dios chamavam de Pernambuco. Logo resolveu procurar um local mais seguro e vantajoso
para estabelecer a sede do seu governo. Rumou uma légua para o sul, chegou a um outeiro
junto ao mar, na confluência dos rios Capibaribe e Beberibe, com um bom porto a peque-
na distância, uma várzea extensa, ideal para a agricultura, os arvoredos eram densos e nas
áreas mais baixas, onde as marés inundavam na preamar, próximo a foz dos rios apareciam
os mangues onde existiam vários tipos de crustáceos e uma grande variedade de peixes. Nas
praias arenosas abundavam árvores frutíferas, predominantemente o caju (…) Para se pro-
teger dos freqüentes ataques dos índios, o pequeno povoado se desenvolveu sobre as colinas
e confinado entre paliçadas, tendo como estratégia, um esquema defensivo elementar,

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caracterizado pela altura do sítio, que permitia o controle, à distância das vias de comunica-
ção e o recuo da área povoada em relação ao mar. (Oliveira, 1996, p.2.)

Figura 4 – Ocupação territorial. Desenho elaborado sobre o mapa de Golijath (1948).

O Foral ou plano de ocupação territorial transposto para outra linguagem, a do de-


senho (Figura 4), materializa uma intenção, uma concepção de domínio e conquista das
terras e dos gentios. O desenho,5 elaborado sobre o mapa de Golijath (1948), faz a cor- 5 Os dados apresentados
foram pesquisados no Proje-
respondência entre as descrições dos caminhos e terras doadas ao Concelho de Olinda pe- to Foral de Olinda, coorde-
lo donatário Duarte Coelho e a cartografia produzida sob o domínio holandês,6 mostran- nado pela arquiteta e pes-
quisadora Valéria Maria Agra
do a localização dos usos de então: Oliveira, que gentilmente
• Habitação – os assentos do monte e faldas dele, para casarias e vivendas para morado- nos assegurou acesso à
pesquisa por ela desenvolvi-
res e povoadores. da. Essa pesquisa reconsti-
• Comércio – o porto dos navios, o varadouro e a lombada do monte para o estabeleci- tui, por meio da cartografia
e de documentos históricos,
mento das feitorias (casa da fazenda e alfândega e armazéns). as bases territoriais da vila
de Olinda. O Projeto Foral vi-
• Abastecimento alimentar – as roças de Braz Pires, Rodrigo Álvares, Paio Correia, D. sa sobretudo, entre outros
Brites e Jerônimo de Albuquerque. objetivos, reconstituir o di-
reito da Prefeitura de Olinda
• Áreas de uso comum – o rossio, as várzeas das vacas, a de Beberibe e as que vão pelo sobre o patrimônio público
caminho que vai para o paço do governador, o mato da praia, desde o varadouro até o das terras foreiras doadas
por Duarte Coelho à vila de
rio Doce, os mangues, todas as fontes e ribeiras, e todos os varadouros, dentro do ter- Olinda, em 1537.
mo da vila.
6 Segundo o historiador
Gonsalves de Mello (1976,
Além do ordenamento territorial, o texto do Foral informa também sobre a existên- p.28), Cornelis Sebastiaans-
zoon Golijath nasceu em
cia de normas relativas ao meio ambiente: o “mato da praia”, desde o varadouro até o rio Schiedam, entre 1610 e
1620, e, no começo da dé-
Doce, era destinado à exploração restrita de lenha e reservado para serventia da vila e po- cada de 1640, serviu como
vo. Os mangues, áreas não agriculturáveis, destinados à exploração de “alimentos e cria- cartógrafo do Conde Mau-
rício de Nassau no Brasil.
ção de viveiros para comercialização local”. Todas as fontes e ribeiras, assim como os va- Esse mapa de Golijath é
radouros, eram destinados “ao serviço da Vila e povo dela que deveriam mantê-los, considerado, por aquele his-
toriador, como o melhor ma-
alimpar e correger à sua custa” (Oliveira, 1996). pa das três cidades no Bra-
Entre 1535 e 1537, a crer no que está descrito no Foral, já estavam estabelecidos os sil: “Olinda de Pernambuco,
Cidade Maurícia e Recife”.
principais elementos definidores do traçado e composição urbana: o paço do governador,
o Conselho, o rossio, a feitoria do governador, o porto, os caminhos que articulavam o
paço do governador ao rossio e ao porto do Varadouro, e o caminho que saia do Varadou-
ro para a várzea do Beberibe.
O historiador José Luís Mota Menezes pontua como a composição urbana foi sen-
do construída a partir da torre de pedra e cal e, defronte dela, foi construída a igreja ma-
triz do Salvador e, posteriormente, a Casa de Câmara, formando a praça da vila:

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(…) o donatário assenta as primeiras casas no alto da colina, onde se encontra a sua torre
forte e onde próximo a esta constrói a matriz, além da Igreja e Hospital da Santa Casa de
Misericórdia, estas situadas no outro extremo da rua principal. Naturalmente, estabelecida a
administração, foram construídas a Casa da Câmara, a Cadeia, além do Açougue e Ferraria
(…) Observa-se que as ruas seguem uma disposição que tem como referência inicial aquela
colina antes citada. A ela se tinha acesso através de três ladeiras, a da Misericórdia, a da Ma-
triz e uma terceira que ia em direção ao Rossio e ao salgado. (Menezes, 1998, p.338-341.)

No tocante ao arranjo urbanístico, a torre de pedra e cal e o Foral são as expressões


primeiras da ocupação da capitania de Pernambuco pelo donatário Duarte Coelho. A tor-
re, construção perpendicular ao solo, firmando um descolamento necessário para domi-
ná-lo e moldá-lo ao gosto da formação das cidades nos territórios conquistados por Por-
tugal, é referenciada em todos os depoimentos do primeiro século como elemento central,
articulador da malha urbana. Essa construção, ao lado das igrejas e conventos, destacava-
se em meio às colinas, como expressão do poder de mando da capitania.
Gabriel Soares de Souza fala da fortificação construída no alto da colina, em forma
de torre e em pedra e cal, como a primeira edificação que firmava a ocupação do que vi-
ria a ser a vila de Olinda:

Chegando Duarte Coelho a este porto desembarcou n’elle e fortificou-se, onde agora es-
tá a villa em um alto livre de padrastos, da melhor maneira que foi possível, onde fez uma
torre de pedra e cal, que ainda agora está na praça da villa, onde muitos annos teve grandes
trabalhos de guerra com o gentio e francezes (…) Esta villa de Olinda terá setecentos visi-
nhos pouco mais ou menos, mas tem muitos mais no seu termo, porque em cada um d’estes
engenhos vivem vinte e trinta visinhos, fóra os que vivem nas roças, affastados delles, que é
muita gente (…). (Souza, 1938, p.27-9.)

Informa ainda Souza a população existente no ano de 1587, não só no reduto da vi-
la como também nos engenhos e roças, considerando ser esse contigente potencialmente
soldados prontos a defender a capitania de Pernambuco. Portanto, ao lado das primeiras
expressões urbanas, vale ressaltar que o mundo rural possuía uma dinâmica própria e im-
portante na organização econômica, social e militar da capitania.
A essa população correspondia uma organização social composta pelos proprietá-
rios da capitania, compreendendo a família de Duarte Coelho, pelos clérigos, jesuítas
(1551), carmelitas (1580), franciscanos (1585), beneditinos (1592), entre outros. Além
dos militares, incluindo os engenheiros militares, personagens importantes nessas expe-
dições, outros funcionários da coroa participavam também dessa população, sobretudo
portugueses, vindos na comitiva do donatário. Muitos receberam terras por doações e
tornaram-se senhores de engenho, enquanto outros se tornaram negociantes. Aos lusita-
nos somaram-se os escravos negros e os índios. Segundo a filiação religiosa, essa popu-
lação dividia-se em cristãos e cristãos-novos, muitos dos quais praticavam a religião
judaica clandestinamente.
A localização do porto da vila de Olinda era apontada como um obstáculo a seu fun-
cionamento desde o início da colonização. Mello (1974, p.51) salienta que, já em 1537,
era intenção de Duarte Coelho abrir o rio Beberibe de forma a que fosse possível os na-
vios terem acesso direto do oceano na área próxima ao Varadouro da galeota. Tal inten-
ção pode ser identificada por meio do registro contido no Foral de Olinda:

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E porque por detrás do dito montinho, onde há de fazer o Senhor Governador a sua fei-
toria, há de se abrir o rio Beberibe e lançar ao mar por entre duas pontas de pedras, como
tem assentado o Senhor Governador; entre o dito rio lançado novamente e as roças da ban-
da de riba de Paio Correia e da Senhora Dona Brites e o mato que está adiante, que ora é do
senhor Jerônimo de Albuquerque, há de ir uma rua de serventia ao longo do dito rio novo
para serventia do povo, de que se possa servir de carros, que será de cinco ou seis braças de
largo e rodeará pelo pé do montinho até o varadouro da galeota. (Mello, 1974, p.51.)

Visava o donatário, muito provavelmente, recolocar o modelo urbanístico reinol e


estabelecer unidade espacial entre a cidade alta e a cidade baixa, no que demonstrou sen-
sibilidade para as questões de estratégia locacional. Tanto é que, no local indicado para
implantação da sua feitoria ou em suas proximidades, localizou o donatário a Alfândega
Real. Tal localização visava estabelecer o controle fiscal do transporte de mercadorias que
saíam do varadouro, por meio de barcas, e seguiam até o porto da Ribeira do Mar, loca-
lizado no extremo sul da vila. Mais ainda: cuidou o governador de dotar o Varadouro de
infra-estrutura viária, ao conceber a construção de uma via de serventia para o povo.
Documentos do final de século XVI comprovam a existência de caminho de carro de
cinco ou seis braças de largura (cerca de 10 ou 12 metros de largura), que passa ao longo
do montinho (isto é, nas proximidades do sopé da pequena colina em que, em 1596, foi
erguido o mosteiro de São Bento) e segue até as margens do rio Beberibe (Mello, 1974,
p.52).
Nestor Goulart (1968, p.126-7) supõe que no primeiro século as escolhas de sítio
se fizeram, algumas vezes, de maneira aleatória, dada a superficialidade de conhecimen-
tos sobre a terra. Em decorrência da inadequação da ocupação desses sítios ao cresci-
mento que haveria de ocorrer posteriormente, diversas povoações desapareceram ou fo-
ram transferidas.
O fato é que, no caso de Olinda, as condições topográficas do sítio em que se insta-
lou a sede administrativa da capitania, embora dentro dos melhores padrões de defesa pe-
la altura, limitaram seu processo de ocupação e expansão territorial. De fato, as precárias
condições do porto de Olinda levaram ao ulterior desenvolvimento do Povo, ou seja, do
assentamento urbano localizado na Ribeira do Mar, cujas facilidades locacionais – porto
e acessibilidade aos engenhos por meio dos rios Capibaribe e Beberibe – favoreceram a
sua consolidação.
A dependência urbanística entre a vila de Olinda e o porto dos Arrecifes dos Na-
vios foi ungida desde os primórdios da ocupação portuguesa. Tal ligação estabeleceu
uma especialização funcional, na qual a vila era o lugar das autoridades, da açucarocra-
cia e do clero, e o porto, o local onde prosperavam as atividades portuárias, o comércio
e o artesanato.
Os historiadores José Luíz Mota Menezes (s.d.) e Denis Bernardes (1987), ao dis-
correrem sobre essa dependência, associam-na a outros fatos, complementando a argu-
mentação. O primeiro, ao tematizar a formação da vila de Olinda e do porto do Recife,
indica não só a existência permanente dessa condição de dependência mas também salien-
ta uma possível matriz urbana de origem luso-brasileira decorrente dessa condição. O se-
gundo vincula tal dependência a fatos econômicos relativos à reprodução e ampliação de
parte da economia colonial.
O quadro urbanístico da vila de Olinda estava assim delineado na ocasião da chega-
da dos holandeses, em 1630:

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 5 / MAIO 2002 49


O L I N D A , M E M Ó R I A E E S Q U E C I M E N T O

No que diz respeito á praça de Olinda, temos a referir que ella está situada em forma de
angulo no dorso de um alto monte, do qual uma extremidade é mais elevada do que a outra.
No extremo mais alto do monte acha-se o Convento dos Jesuítas, sendo o extremo norte do
lugar formado pelas encostas do mesmo monte; para o lado sul encontra-se o Convento dos
Franciscanos, que tem um bonito pateo com uma bella fonte onde o povo vae buscar agua
para beber. Descendo o monte, a partir do convento dos jesuítas, depara-se novamente com
uma eminencia sobre a qual eleva-se a principal egreja parochial do lugar, chamada Salvador,
a casa da camara, debaixo da qual acha-se o açougue, e à direita acima d’ella a prisão, e uma
grande parte da cidade, sendo a eminencia em cima plana e egual; tambem alli existe uma
bella e larga rua ultimamente chamada Rua Nova, que foi a primeira rua da cidade. Porem,
no extremo meridional, onde está situado o hospital, chamado Misericordia, desce o monte
com tão aspero declive, que quasi não pode-se subil-o sem grande esforço (…) Chegando-se
em baixo no valle, onde acha-se uma encruzilhada na qual os mercadores se reunem e costu-
mam constituir a bolsa, sobe-se logo de novo outra eminencia, mas, não tão alta, e alli en-
contra-se a outra egreja parochial chamada egreja de São Pedro, e alli em volta acham-se mui-
tas bellas casas e muitos armazens, porque este é o extremo da praça, onde o rio vindo do
Recife chega e corre pela parte occidental. As casas não são baldas de conforto, mas, commo-
das e bem feitas, arejadas por grandes janellas, que estão ao nível do sotão ou celleiro, mas
sem vidros (…) (Baers, 1898, p.39.)

O cronista holandês J. Baers, integrante das tropas invasoras sob o comando do co-
ronel Diederick van Waerdenburch, relacionou os aspectos topográficos do sítio e a loca-
lização dos edifícios principais próprios à ocupação colonial portuguesa. Pontuou, igual-
mente, a existência de distintas aglomerações e a fonte de água para beber que, naquele
momento, era um dos mais importantes elementos urbanos. Essa descrição referenda as
palavras de Diogo de Campo Moreno:

As casas esparcidas e as ruas de modo desencaminhadas que uma de per si faz um bair-
ro, e as igrejas distantes e desacompanhadas. (Mello, 1995, p.146.)

Campos Moreno fala de um crescimento desigual da vila de Olinda, indicando a dis-


persão das edificações. Já as palavras de Baers enunciam imagens de uma maior dinâmi-
ca urbana, ao indicar pontos de encontro (igreja e bolsa) e de abastecimento, além de ar-
rabaldes, ou seja, Baers descreve a existência de usos e funções urbanas distintos. Da
leitura do seu texto, depreende-se a permanência, ao longo de um século (1537-1630),
do plano de ocupação territorial formulado por Duarte Coelho.
A beleza da vila de Olinda, a concepção de ocupação territorial de Duarte Coelho
contida no Foral, a composição urbana realizada a partir da torre de pedra e cal, a locali-
zação estratégica das edificações religiosas, a dependência urbanística entre a vila e o por-
to dos Arrecifes dos Navios, foram de imediato apropriadas pelos holandeses, pelo olhar
de Baers, que minuciosamente traduziu os elementos urbanos a serem destruídos e esque-
cidos. A rememoração desses fatos põe tais vivências no presente como memórias a perma-
necerem no futuro.

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V I R G Í N I A P O N T U A L , V E R A M I L E T

PRÁTICAS URBANÍSTICAS: VERSÕES


SOBRE MEMÓRIA E ESQUECIMENTO

O incêndio de Olinda foi tratado pelo historiador Cabral de Mello (1986) co-
mo um fato constante da história da restauração pernambucana. Em sua obra, esse
historiador examina os elos entre a ocupação holandesa e as representações mentais dos
portugueses e brasileiros, desde o período flamengo até os últimos decênios do século
XIX. Estão mostradas as relações sociais subjacentes às modificações sofridas pelo senti-
mento nativista em Pernambuco, relativos à nobreza da terra, aos mascates e à popula-
ção livre do século XIX.
Ao desvelar a visão nativista sobre o tempo dos holandeses e especialmente a quem
caberia a responsabilidade pela conquista de Pernambuco, Cabral de Mello (1986, p.242)
constrói duas leituras: a providencialista e a político-militar. A primeira reporta-se à ex-
plicação da invasão holandesa como castigo divino pelos pecados dos moradores de Per-
nambuco. Essa leitura foi elaborada com base nos relatos de memorialistas luso-brasilei-
ros, entre os quais o de Calado (1985). A segunda refere-se às injunções políticas entre o
poder de mando e de unificação da coroa e às rivalidades locais dos proprietários de ter-
ras com os comerciantes:

A condenação moral dos cronistas luso-brasileiros havia recaído sobre o conjunto da po-
pulação da capitania; após a restauração, ela adquirira uma conotação desfavorável à nobre-
za da terra e aos mazombos. Fernando Gama lhe imprimirá um sentido antiluzitano, utili-
zando o topos da corrupção dos citadinos e da pureza dos rústicos, que podia ser
comodamente enxertada na distinção entre comerciantes reinóis e senhores de engenho ma-
zombos, vale dizer, na dicotomia herdada da segunda metade do século XVII e começos do
século XVIII. (Cabral de Mello, 1986, p.272.)

Ao tratar das diversas visões dos cronistas sobre quem caberia a responsabilidade pe-
la invasão holandesa, mostra esse historiador que elas extravasam ora um sentimento an-
tilusitano, ora um acolhimento e enaltecimento pelos luso-brasileiros.
A narrativa empreendida por Cabral de Mello é diversa da esboçada neste texto.
Essas idéias versam, naquela narrativa, acerca dos fatos sociais da restauração pernam-
bucana, e nesta, sobre a configuração urbanística efetivada pelos luso-brasileiros em
Olinda. Outra diferença é quanto ao registro da narrativa, isto é, o incêndio de Olinda
não está tematizado por Cabral de Mello como um ato de esquecimento, mas ele inter-
preta as representações culturais que os luso-brasileiros elaboraram a partir da ocupa-
ção holandesa. Portanto, o registro e percurso adotados são diversos, não existindo vin-
culação direta entre as argumentações, embora se esteja tratando de um mesmo fato: o
incêndio de Olinda e as mentalidades culturais. Entretanto, cabe pontuar, como con-
vergência entre as narrativas, o ato de rememoração, a recorrência ao passado para es-
tabelecer os limites de uma discussão posta no presente.
Pode-se dizer, a partir da interpretação empreendida neste texto, que o incêndio
de Olinda foi desejado pelos holandeses como um modo de esquecer os vestígios de
uma outra experiência – a lusitana. Entretanto, tal assertiva é apenas uma parte da
questão posta. A outra é estabelecer um paralelo entre esse ato de esquecimento, em
um passado remoto, e as atuais práticas urbanísticas de requalificação efetivadas em sí-
tios históricos.

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Na atualidade, o discurso dos urbanistas alega que as transformações econômicas,


sociais e culturais requerem adaptações desses sítios. Não fazê-las seria sustar a dinâmica
da história desses sítios e levá-los à completa estagnação e ruína. No âmbito desse consen-
so, verificam-se as mais diversas práticas urbanísticas, variando desde aquelas mais apega-
das aos vestígios do passado às mais flexíveis, ligadas aos fluxos da economia e aos modis-
mos consumistas.
O que preservar e como preservar um sítio histórico não é uma polêmica nova e res-
trita à cidade de Olinda. As primeiras medidas de preservação aparecem no século XV nas
bulas papais, porém é no século XIX, com a Revolução Industrial, que elas adquirem uma
forma mais permanente e sistematizada. Para tanto, constituem contribuições fundantes
as idéias de John Ruskin, na Inglaterra, e de Viollet-le-Duc, na França. No século passa-
do, ou mais precisamente, em 1964, é subscrita por urbanistas de várias partes do mun-
do a Carta de Veneza, propagando a noção de valor de antigüidade e contrapondo-se aos
preceitos do urbanismo moderno, principalmente os estabelecidos na Carta de Atenas,
em 1933. Após a Carta de Veneza, sucedem-se outros encontros internacionais que fir-
maram conceitos e metodologias específicas à prática urbanística em sítios históricos. En-
tre os encontros realizados, cabe destacar o de Amsterdã (1975), por fixar o conceito de
conservação integrada como uma estratégia de planejamento direcionada não apenas às
áreas históricas mas a todo o território da cidade, e o de Lisboa (1995), por nominar e de-
finir modos de intervenção em sítios históricos.
No Brasil, o Decreto-Lei nº 25, de 1937, estabelece o instituto do tombamento, sen-
do este o primeiro instrumento legal de proteção ao patrimônio arquitetônico de interes-
se histórico. Paralelamente também é criado o Serviço do Patrimônio Histórico Nacional
(Sphan), com a atribuição de fazer a guarda desse patrimônio. Desde então, políticas e ins-
trumentos jurídicos e urbanísticos têm sido estabelecidos, ampliados e adotados, igual-
mente, nos âmbitos estaduais e municipais, seguindo em parte as discussões internacionais.
Para os mais aferrados às idéias preservacionistas, a experiência de Bolonha, propos-
ta no Piano di Intervento Operativo e di Restauro per L’Edilizia Economica e Popolare,
nos anos de 1960, constitui-se num paradigma a ser seguido (Cervallati e Scannavini,
1976). Essa experiência corresponderia, segundo Arantes (2000), aos projetos de primei-
ra geração de urbanistas voltados para o trato da cidade e dos conjuntos históricos.
A premissa desse Plano era de articular a reabilitação física de áreas históricas degra-
dadas com a de natureza social, de modo a promover a recuperação socioeconômica da
área e dos seus moradores. Entretanto, para muitos tal paradigma foi superado pelos
de Baltimore, Londres e Barcelona, nos anos de 1970 e 1980, relativos à segunda gera-
ção de projetos de renovação. Nestes últimos, a premissa preponderante é a da rentabili-
dade financeira, instrumentalizada pelo planejamento estratégico, cujo jargão técnico
central, como diz Hall (1995, p.420), é “explorar oportunidades”.
Assim, semelhantes práticas urbanísticas estratégicas estão, em parte, dirigidas pelos
novos arranjos e exigências da economia internacional, por meio de uma “ união simbió-
tica entre rentiers, planejadores urbanos e intermediários culturais na construção de con-
sensos cívicos” (Arantes, 2000, p.29), e em parte, estão alicerçadas na teoria da conserva-
ção urbana, segundo a Declaração de Amsterdã (1975). Se até a promulgação dessa
declaração os princípios e normas urbanísticos relativos à proteção patrimonial diziam
respeito apenas aos sítios históricos, a partir de então passam a visar ao conjunto de lu-
gares da cidade. Assim, ocorreu uma flexibilização e ampliação das práticas de proteção
da arquitetura e do tecido urbano antigo.

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O Sítio Histórico de Olinda é um exemplo das distintas práticas urbanísticas de pre-


servação dos sítios históricos. Os primeiros germens dessas experiências podem ser encon-
trados em 1967, com a visita a Olinda do consultor da Unesco, Michel Parent, que pro-
põe uma estratégia de proteção que articule base legal, econômica e urbanística. Esse
consultor recomenda o tombamento da colina histórica, a montagem de uma infra-
estrutura básica para captação de fluxos turísticos e, finalmente, a elaboração de um pla-
no urbanístico que assegure a preservação da colina histórica.
O Plano Diretor Local Integrado de Olinda, elaborado em 1973, segue as diretrizes
e recomendações encaminhadas por Parent: estabelecer o zoneamento do Sítio Histórico
de Olinda e uma estratégia de valorização a ser promovida mediante ação do poder pú-
blico, tendo como base “o reaparelhamento e/ou ampliação dos equipamentos sociais si-
tuados no setor, a implantação de órgãos públicos, ou privados, de função cultural ou de
interesse turístico, preferentemente em monumentos integrantes do conjunto” (Prefeitu-
ra Municipal de Olinda, Lei n.º 3823/1973, artigo 97).
Um contraponto à perspectiva turística e uma identificação com os projetos da pri-
meira geração foi posta, em 1984, com o Projeto Piloto de Olinda. Esse projeto, consi-
derado um modelo para as demais experiências de preservação dos sítios históricos brasi-
leiros, tinha como proposta:

A busca conjunta de fórmulas de intervenção que possibilitem o tratamento dos núcleos


históricos preservando suas características ambientais e culturais, melhorando as condições da
população residente, recuperando não só o patrimônio habitacional e ambiental como os equi-
pamentos comunitários e a infra-estrutura urbana. (Prefeitura Municipal de Olinda, 1984.)

Importa referir que data dessa época o surgimento da Sociedade de Defesa da Cidade
Alta de Olinda, que terá relevante papel na defesa da memória e dos valores culturais
da cidade, colocando-se na contramão dos interesses turísticos. Tal perspectiva urbanísti-
ca será esgotada nos anos 1990, quando as práticas urbanísticas assumem o discurso e as
diretrizes do planejamento estratégico.
Pode-se dizer que o Plano Diretor de Olinda, de 1997, é uma versão local do plane-
jamento estratégico, no qual se evidenciam o acento demasiadamente ufanístico próprio
das premissas desse planejamento e a afirmação, como oportunidade e potencialidade
econômica, do turismo cultural, em razão, principalmente, de seu sítio histórico:

O foco deve ser dirigido ao aproveitamento do Sítio Histórico através da criação de uma
estrutura turística adaptada às condições locais (…) Nesse sentido pode-se estimular o surgi-
mento de pousadas e a oferta de alojamentos em residências da Cidade Alta, a construção de
infra-estrutura de informações turísticas, a definição de roteiros culturais, eventos artísticos
e culturais, etc. que venham dinamizar o aproveitamento econômico dessa potencialidade até
aqui pouco explorada. (Prefeitura Municipal de Olinda, 1997.)

Essa diretriz econômica foi o mote principal dos planos de revitalização urbana de
Baltimore e Boston, apelidados por Hall (1995, p.412-5) de “rousificação”, em referên-
cia ao empresário James Rouse, principal protagonista dessa modalidade de prática ur- 7 A exemplo do Projeto Ca-
pital da cidade do Recife e
banística. Outra vertente dessa prática provém das idéias de Jordi Borja (1996; 1996a), do Programa Santo André –
Cidade Futuro, ambos a con-
cuja influência no Brasil tem sido significativa, devido à sua participação em eventos téc- vite das municipalidades e
nicos e em planos e projetos a convite de prefeituras municipais.7 Além de ter transposto iniciados em 1997.

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essa prática, o Plano Diretor de Olinda, de 1997, referendou as idéias contidas na Car-
ta de Lisboa, de 1995, resultado do 1º Encontro Luso-Brasileiro de Reabilitação Urba-
na de Centros Históricos. Esse encontro de urbanistas preservacionistas, preocupados
com as intervenções em curso em sítios históricos, procurou conceituar intervenções de
modo a não serem superadas pelas práticas emergentes, daí ter-lhes conferido o cunho
de “estratégias”.
8 A Carta de Lisboa define
como reabilitação: “É uma Assim, foi transcrito nesse plano diretor, ao explicitar as proposições de âmbito físi-
estratégia de gestão urbana co, os conceitos de reabilitação, revitalização, requalificação e renovação urbanas,8 sendo
que procura requalificar a ci-
dade existente através de atribuído às divisões territoriais da cidade essas nomeclaturas. Seria possível, num passe
intervenções múltiplas des-
tinadas a valorizar as poten-
de mágica que elas tivessem força de se fazer valer e compensar um outro ideário, cujos
cialidades sociais, econô- efeitos parecem não garantir a memória e a identidade de um lugar? O que se quer mos-
micas e funcionais (…)”;
revitalização: “engloba ope-
trar é a ambigüidade das práticas urbanísticas ao tratar de um lugar cuja memória tem im-
rações destinadas a relan- portância histórica, mas que elas se revestem de ações que redundam também num apa-
çar a vida econômica e so-
cial de uma parte da cidade gar de vestígios.
em decadência. Esta noção, A proposta mais recentes de turistificação do sítio histórico de Olinda também está
próxima da reabilitação ur-
bana, aplica-se a todas as presente no Programa de Reabilitação ou Programa Monumenta/BID,9 elaborado em
zonas da cidade sem ou meados da década de 1990, no qual se deu prioridade aos investimentos que propicias-
com identidade e caracterís-
ticas marcadas”; requalifi- sem a instalação de novas empresas e negócios ligados ao setor terciário, fossem elas de
cação: “aplica-se a locais
funcionais diferentes da
pequeno ou grande porte. Esse programa, segundo Rodrigues (2000, p.4), embora dele
‘habitação’; trata-se de ope- tenham sido implantadas apenas as pequenas ações, já pode ser avaliado pelos seus impac-
rações destinadas a tornar
a dar uma atividade adapta-
tos no sítio histórico. O incentivo à criação de associações de pequenos negócios teve ime-
da a esse local e no contex- diata acolhida, como a da Associação da Rua do Amparo, em 1998. O estudo realizado
to atual”; renovação: “ação
que implica a demolição das por Rodrigues aponta, entre suas conseqüências, o acréscimo da quantidade de veículos
estruturas morfológicas e ti- em circulação, principalmente de carga, vindo a comprometer a capacidade de carga
pológicas existentes numa
área degrada e a sua conse- dos seus morros e intensificando as rachaduras nos monumentos, e “a elevação das desca-
quente substituição por um racterizações na volumetria e na tipologia das edificações, em acréscimo de área construí-
novo padrão urbano (…) Ho-
je estas estratégias desen- da com a ocupação de quintais e na destruição da vegetação”, ameaçando a paisagem desse
volvem-se sobre tecidos ur-
banos degradados aos
sítio histórico. Após inventariar e analisar as transformações, Rodrigues escreveu as se-
quais não se reconhecem guintes palavras:
valor como patrimônio arqui-
tetônico ou conjunto urbano
a preservar”. Concluímos que o fator mudança de uso e a adequação necessária para atender o pro-
9 A Secretaria de Planeja- grama exigido por ele, vem descaracterizando os imóveis do sítio histórico de Olinda (…)
mento Urbano, Obras e Conclui-se que todos os imóveis, componentes da Associação da Rua do Amparo, passaram
Meio Ambiente da Prefeitura
Municipal de Olinda elaborou por descaracterização (…) Após essas alterações, as informações vão sendo perdidas ao lon-
a primeira versão do Progra- go do tempo. O que poderia ser considerado como um processo histórico de adequação e
ma de Reabilitação do Patri-
mônio Cultural Urbano – per- evolução do uso do espaço (…) é simplesmente destruído. (Rodrigues, 2000, p.112-3 e 9.)
fil de projetos – roteiro para
informações básicas, em
março de 1997. As negocia- As eloqüentes palavras de uma jovem arquiteta, ao constatar fatos, mostram quão
ções com o Banco Intera-
mericano de Desenvolvi-
ambíguas são as práticas urbanísticas, nas quais discurso e gesto se mesclam, compondo
mento (BID) exigiram que uma sinfonia desafinada e diluindo a memória do lugar.
fossem realizados os ajus-
tes e as complementações, Neste sentido, Jeudy (1990), referindo-se a experiências de intervenção em outros
tendo sido produzidas mais sítios históricos, mostra que as novas práticas urbanísticas têm conduzido à redução das
duas versões, uma ainda
em 1997 e outra em 1999, diferenças e à uniformização das culturas, ou seja, opera-se a diluição da memória e da
quando a proposta foi então identidade do lugar. A cidade, de objeto histórico, torna-se “estética da memória”. Esse
aprovada. Em abril de
2000, foi assinado o convê- esvanecimento da memória de um lugar seria um modo de esquecimento, de apagamen-
nio entre o BID, governos fe-
deral, estadual e municipal,
to dos vestígios de um outro tempo. Não há como negar que a menor alteração na arqui-
iniciando-se a sua execução. tetura de uma cidade significa apagar a vivência passada, significa perda.

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V I R G Í N I A P O N T U A L , V E R A M I L E T

Se as afirmações de Jeudy falam das distorções provocadas por práticas urbanísticas


pouco cuidadosas para com a memória do lugar, o filósofo pernambucano Evaldo Cou-
tinho, no filme documentário10 A composiçãso do vazio, mostra que, ao se adentrar, por 10 Esse filme documentário
mostra a vida e obra do filó-
exemplo, uma igreja gótica está-se vivenciando espaços arquiteturais relativos a outros sofo Evaldo Coutinho, tendo
hábitos culturais, está-se voltando no tempo. Desse modo, a arquitetura da cidade pro- sido produzido por Marcos
Enrique Lopes e lançado na
porciona imbricação temporal, vivências múltiplas. Essas vivências situam-se como uma cidade do Recife em março
razão de ser construída pelo homem. Esse entendimento converge para o de Benjamim de 2001.

(1985), ao considerar que os vestígios perdidos seriam uma maneira de justaposição tem-
poral do viver na cidade, permanecendo apenas semelhanças.
As práticas urbanísticas recentes levadas ao sítio histórico de Olinda inserem-se no
âmbito dessa polêmica. Sejam planos diretores, sejam programas de renovação urbana, as
intervenções desenhadas e efetivadas nesse sítio têm introduzido modificações que esva-
necem a memória do lugar. Mas, indo ao encontro de Benjamim (1985), ao recuperar a Virgínia Pontual, arquite-
ta, é professora do Progra-
arquitetura das cidades quinhentistas e seiscentistas, adaptando-as às exigências da atuali- ma de Pós-Graduação em
dade, segue-se o princípio da semelhança. Traz-se o passado para o presente, retifica-se o Desenvolvimento Urbano
da Universidade Federal
ontem no amanhã. Esse pensar retificador constitui uma rememoração. Tomando empres- de Pernambuco. E-mail:
tadas palavras de Antônio Augusto Arantes (1984, p.14) para dispensar maiores elucubra- vp@elogica.com.br

ções, afirma-se uma perspectiva subjetiva: “Lugares e objetos são evocados como sinais to- Vera Milet, arquiteta, é
pográficos e vasos recipientes da história da sensibilidade e da formação das emoções.” professora do Centro de
Conservação Integrada Ur-
Portanto, as práticas urbanísticas efetivadas em sítios históricos, mesmo aquelas que bana e Territorial da Univer-
sidade Federal de Pernam-
aplicam os princípios da conservação urbana, inscrevem-se na ambigüidade de atos de buco. E-mail:
memorização e de esquecimento. altodase@hotlink.com.br

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Janeiro, 2001. Anais… Rio de Janeiro, Anpur/Ippur/UFRJ, 2001.

A B S T R A C T This article discusses recent urban practices in historical sites. It


highlights those practices which have been praised by some professionals for being a new and
efficient way of thinking about towns and cities and criticised by others for being “cultural
marketeering”. Another argument put forward is that some practices consider the history of a
place as a cultural value but weaken its uniqueness and singularity through intervention. The
article explores the reconstitution of the historical formation of the site of Olinda by answering
the following question: which urban planning practices lead to the weakening or the
strengthening of the historical preservation of a place? Thus, facts of the past are cited that seem
to indicate why the result was destruction and loss. Throughout the article the discussion is
related to the descriptions of annalists and texts of historians who report the formation of the
then small town in the Captaincy of Pernambuco.

K E Y W O R D S History; urban planning; practices; urban formation; memory;


forgetfulness.

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 5 / MAIO 2002 57


UMA PONTE
PARA A URBANIDADE

FREDERICO DE HOLANDA

R E S U M O Este trabalho explora procedimentos analíticos quantitativos para carac-


terizar três tipos de atributos morfológicos da capital brasileira. Primeiro, o Plano Piloto não
é central em face do sistema urbano maior ao qual de fato pertence e, contrariando os pressu-
postos colocados por Lúcio Costa no memorial do projeto de Brasília, ele já nasceu excêntrico.
Segundo, trata-se de um sistema extremamente disperso, o que é caracterizado aqui por meio
de duas medidas alternativas de compacidade. Terceiro, há uma fortíssima segregação socioes-
pacial, caracterizada pelas fracas correlações obtidas entre localização de empregos, localização
de habitações, e acessibilidade física: não apenas a grande maioria dos empregos também é ex-
1 As idéias aqui expostas fo-
cêntrica (pois mais de 70% deles estão no Plano Piloto), como a grande maioria dos morado- ram exploradas preliminar-
mente em Mota et al. (2000).
res concentra-se nas partes mais segregadas da cidade. Ao final do trabalho, especula-se medi- A presente versão reflete o
das que implicam maior urbanidade para a Capital Federal.1 estágio atual (setembro de
2002) de trabalho desenvol-
vido no âmbito do Projeto
P A L A V R A S - C H A V E Brasília; centralidade; compacidade; segregação so- de Pesquisa apoiado pelo
CNPq, intitulado Forma e
cial; sintaxe espacial; desenho urbano; urbanidade. uso do espaço urbano: a es-
trutura urbana do Distrito
Federal, Brasil, de responsa-
bilidade do autor. Explora,
INTRODUÇÃO pela primeira vez, o índice
de dispersão; outros aspec-
tos, antes abordados, são
aqui aprofundados. O autor
Este trabalho procura contribuir para o entendimento da forma urbana da capital bra- agradece a colaboração de
sileira – Brasília. Utilizamos procedimentos analíticos para trabalhar três aspectos desta for- George Alex da Guia, no pro-
cessamento de informações
ma: 1) a maneira pela qual o Plano Piloto – a parte da cidade originalmente proposta por e na preparação das ilustra-
Lúcio Costa por ocasião do concurso público de 1957 – relaciona-se com o resto do siste- ções, e os comentários de
Claudia Loureiro, Cláudia
ma urbano onde está de fato inserido, particularmente em termos de sua relativa centralida- Garcia, Franciney França e
de; 2) a maneira pela qual esta cidade – toda a cidade real, não apenas o Plano Piloto – se Rômulo Ribeiro, a uma ver-
são preliminar deste texto.
espalha pelo território, utilizando-se para tanto duas medidas alternativas de compacidade;
3) a maneira como se distribuem, no espaço, empregos e moradias, caracterizando-se a re- 2 A teoria da sintaxe espa-
cial foi proposta inicialmente
lativa segregação de ambas instâncias, tanto entre si, como em termos das características con- por Bill Hillier e outros cole-
gas da Bartlett School of
figuracionais dos lugares em que se situam, no sentido de sua acessibilidade à cidade inteira. Graduate Studies (Hillier &
As questões de centralidade e compacidade são examinadas historicamente, em cor- Hanson, 1984), de Londres,
e desenvolvida posterior-
tes decenais, desde a inauguração da cidade. Para a questão da segregação relativa de em- mente por pesquisadores
pregos e moradias, estudamos um momento específico, lançando mão dos dados carto- em várias partes do mundo,
inclusive em diversas uni-
gráficos e demográficos mais recentes. Metodologicamente, utilizamos tanto conceitos e versidades brasileiras, co-
técnicas tradicionais da teoria da sintaxe espacial,2 como categorias analíticas sugeridas por mo se indica na bibliografia.
Visa basicamente a com-
outros autores (por exemplo, Bertaud & Malpezzi, 1999), e ainda experimentamos pro- preensão das relações entre
cedimentos metodológicos originais. a configuração de cidades e
edifícios, e a maneira pela
Há uma literatura crescentemente disponível sobre a forma da cidade brasileira, com qual as pessoas usam e se
movem ao longo de seus es-
preocupações semelhantes às expostas aqui (por exemplo, em Rigatti, 1997; Loureiro & paços.
Amorim, 2000; Trigueiro et al., 2001, respectivamente para os casos de Porto Alegre,

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 5 / MAIO 2002 59


U M A P O N T E P A R A A U R B A N I D A D E

Recife e Natal). Este trabalho pretende somar-se a tais esforços, quem sabe estimulando
uma experimentação coletiva no teste de procedimentos analíticos, e contribuindo para
uma taxonomia da forma urbana brasileira.
Cabe ainda observar que a abordagem crítica sobre vários aspectos de Brasília, tan-
to relativa à sua situação atual, como relativa ao seu projeto original, não implica o des-
conhecimento de sua importância. Constituiu indiscutivelmente a melhor proposta entre
todas aquelas apresentadas por ocasião do concurso para o Plano Piloto. Mais do que is-
so, trata-se de uma cidade exemplar não somente por fixar indelevelmente o seu tempo (é
claramente concebida e realizada no século XX) mas pelo fato de Lúcio Costa ter aplica-
do de maneira própria o “receituário modernista” (até transgredindo-o em alguns pontos),
e por ter sabiamente incorporado elementos fundamentais da história do urbanismo de
todos os tempos: as perspectivas barrocas, os terraplenos monumentais, o gregarismo co-
lonial brasileiro, a acrópole cerimonial, a cidade-linear, a cidade-jardim, a urbanidade dos
3 Estes aspectos foram comércios locais etc.3 Em outras palavras, uma cidade “pós-moderna” avant la lettre…
examinados mais detalhada-
mente noutra oportunidade,
Nisso reside sua força, que a distingue de todas as demais manifestações da modernidade
em Holanda, 2002. Ver tam- urbanística. Mas é exatamente o respeito que Brasília impõe que exige seu exame rigoro-
bém a análise de Matheus
Gorovitz, em Brasília, uma so, por meio de uma visão crítica que somente a distância no tempo, assim como o de-
questão de escala (1985). senvolvimento teórico e prático da arquitetura ao longo dessas décadas de sua existência
permitem. Essa a tentativa deste texto.

DISCURSO E REALIDADE

Há um razoável consenso de que a segregação socioespacial no Distrito Federal no


Brasil, onde Brasília se localiza, é extremamente “perversa”, impondo altos custos sociais
para as faixas de renda mais baixas. Entretanto, há pouca, ou quase nenhuma, concordân-
cia quanto ao grau em que tal “perversidade” está implicada no próprio projeto de Lúcio
Costa. Argumenta-se que simplesmente encontramos aqui a segregação socioespacial ca-
4 Ver Machado & Maga- racterística da sociedade brasileira em geral.4 Evidentemente, tal segregação está funda-
lhães, “Imagens do espaço:
imagens de vida”, 1985.
mentalmente relacionada a uma sociedade extremamente desigual. Mas não avançaremos
no domínio do nosso próprio ofício – de arquitetos, no caso – se não procurarmos enten-
der melhor a medida em que o próprio desenho pode implicar exclusão. A discussão que
se segue procura dar uma contribuição neste sentido.
Houve, de fato, uma intenção declarada de não-segregação, por parte de Lúcio Cos-
ta, citada à exaustão pela literatura como evidência da natureza democrática, “socialista”
até, do projeto, embora o próprio Lúcio Costa talvez nunca tivesse feito uso desta expres-
5 Ver, em termos gerais, co- são em relação à cidade.5 Certamente não, pelo menos, na Memória descritiva do Plano
mo Lúcio Costa se colocava
ideologicamente: “Não sou
Piloto, de 1957. Recordemos o seguinte trecho:
capitalista nem socialista,
não sou religioso nem ateu –,
acredito simplesmente na A gradação social poderá ser dosada facilmente atribuindo-se maior valor a determina-
minha velha teoria das resul- das quadras (…) as quadras contíguas à rodovia serão naturalmente mais valorizadas que as
tantes convergentes” (1995,
p.598). quadras internas, o que permitirá as gradações próprias do regime vigente: contudo o agru-
pamento delas, de quatro em quatro, propicia num certo grau a coexistência social, evitan-
do-se assim uma indevida e indesejável estratificação [grifo nosso] (…) Neste sentido deve-se
impedir a enquistação de favelas tanto na periferia urbana quanto na rural [grifo nosso]. Cabe
à Companhia Urbanizadora prover dentro do esquema proposto acomodações decentes e
econômicas para a totalidade [grifo no original] da população. (Costa, 1995, p.293.)

60 R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 5 / MAIO 2002


F R E D E R I C O D E H O L A N D A

Entretanto, a contradição entre o ser da cidade brasileira (como ela de fato se estru-
turava naquele momento) e o seu dever ser (como concebido pelo projeto) logo se revela-
ria. Os milhares de trabalhadores atraídos para o Distrito Federal pela construção da Ca-
pital não tiveram acesso aos tipos edilícios propostos no Plano Piloto. No Brasil, como
em todo o mundo, a urbanização da população migrante é um longo processo no tempo,
iniciando-se com os mais elementares abrigos, que vão passando por melhorias progressi-
vas na medida das possibilidades crescentes (quando o caso) das pessoas que os cons-
troem. Esse processo real não foi contemplado pela proposta do Plano Piloto: tipos edilí-
cios diferentes dos blocos sobre pilotis e com elevadores, ou das “casas individuais”
próximas à margem do lago, não eram admitidos no projeto (cedo novos tipos foram
acrescentados, mas que não mudaram essencialmente o repertório).
Se não havia condições políticas e/ou econômicas para proporcionar “acomodações
decentes” para a totalidade da população, dentro das condições do mercado formal ou dos
programas governamentais, como queria Lúcio Costa, algum outro modo de produção do
espaço habitacional – o que implicava igualmente uma diferente tipologia edilícia – teria
de ser considerado. E o foi, porém fora do Plano Piloto. Para resumir uma longa história
de conflitos e reivindicações (Codeplan, 1984b), já em 1958 o projeto de uma nova ci-
dade – Taguatinga, a 20km do Plano Piloto – era implantado, com lotes (não edificados)
vendidos aos trabalhadores a preços acessíveis e a longo prazo. Taguatinga antecipou-se,
portanto, à inauguração da nova capital. Lúcio Costa iria depois manifestar-se em relação
a essa antecipação das cidades-satélites, no item 7 (“Características Fundamentais do Pla-
no Piloto”) do documento Brasília Revisitada:

A implantação de Brasília partiu do pressuposto que sua expansão se faria através de cida-
des-satélites, e não da ocupação gradativa das áreas contíguas ao núcleo original (…) Assim,
a partir do surgimento precoce das cidades-satélites, prevaleceu agora a intenção de manter en-
tre estes núcleos e a capital uma larga faixa verde, destinada a uso rural (…) Tal abordagem te-
ve como conseqüência positiva a manutenção, ao longo de todos esses anos, da feição origi-
nal de Brasília. Mas, em contrapartida, a longa distância entre as satélites e o “Plano Piloto”
isolou demais a matriz dos dois terços de sua população metropolitana que reside nos nú-
cleos periféricos, além de gerar problemas de custo para transporte coletivo. (Costa, 1987,
p.7, grifos nossos.)

E, na “Conclusão” desse mesmo documento, afirmou:

A Brasília não interessa ser grande metrópole (…) Brasília é a expressão de um determina-
do conceito urbanístico, tem filiação certa, não é uma cidade bastarda. (Costa, 1987, p.18,
grifos do original.)

O rumo que tomou o desenvolvimento da capital, diferente do previsto, fez Lúcio


Costa lastimar os altos custos sociais envolvidos, assunto ao qual voltou repetidas vezes:
criticou a construção de um mesmo padrão de apartamentos, “sem que fossem atendidas
as três faixas econômicas em que se decompõe, grosso modo, no mundo capitalista, a po-
pulação que trabalha na administração pública e na empresa privada”,6 “como se a socie- 6 Idem, p.319.

dade atual já fosse sem classes”;7 a explicação para se ter ignorado sua proposição de cons- 7 Idem, p.302.

truir moradia para diferentes níveis de poder aquisitivo estaria nos “vícios de uma
realidade econômico-social secular, [pela qual] os burgueses, apesar da familiaridade no

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 5 / MAIO 2002 61


U M A P O N T E P A R A A U R B A N I D A D E

8 Idem, p.315. trato com os empregados, sempre os mantinham à distância”.8 Entretanto, imediatamen-
te acrescentou que isto “não teria resolvido o problema, já que grande parte da população
9 Idem, ibidem. trabalhadora é ainda menos do que pobre”,9 pelo que ele reconhecia que muita gente não
teria mesmo acesso à tipologia edilícia do Plano Piloto.
Isto não levou Lúcio Costa a reavaliar os padrões espaciais originalmente propostos,
seja quanto às características do próprio Plano Piloto, seja quanto às suas relações com as
demais cidades do Distrito Federal: a manutenção da “feição original de Brasília”, assim
como de um “determinado conceito urbanístico”, tiveram primazia. Continuou acredi-
tando na proposta originalmente concebida, porque

teria sido pior que tolice – um crime – planejar a cidade na medida da realidade subdesen-
volvida atual (…) como no capitalismo ou socialismo, a tendência universal – apesar da con-
testação desbragada e romântica – é todo mundo virar, pelo menos, classe média, o chama-
do Plano Piloto pode ser considerado uma antecipação. Assim, na realidade futura, quando lá
chegarmos, todos indistintamente se sentirão ambientados no aconchego antigo e condigno
10 Idem, p.320, grifos do da “velha capital”.10
original.

O problema é que a população constituinte desta “realidade subdesenvolvida” era, e


continua sendo, a grande maioria. A ela correspondiam outros modos de produção, as-
sim como outra configuração do espaço habitacional. Admiti-los constituía uma condi-
ção necessária para a não-segregação da população mais pobre naqueles momentos iniciais.
Negá-los, em nome de um “determinado conceito urbanístico” constituía, concretamen-
te, uma exclusão pelo projeto.
Evidentemente, seria um grande equívoco acreditar que apenas o desenho da cida-
de, qualquer que fosse, seria condição suficiente para evitar a segregação socioespacial: além
do desenho, esta segregação está relacionada a modos de gestão do espaço urbano, assim
como a fatores socioeconômicos mais gerais, como assimetrias de renda e de poder – en-
tre as maiores do mundo, no Brasil. Se não por outras razões, somente a valorização dos
imóveis, pela maior proximidade a empregos e serviços, seria responsável pela mudança
da população mais pobre para áreas mais afastadas.
Ainda assim, a pequena medida em que foram produzidas habitações mais econô-
micas dentro do Plano Piloto, implicando pequenas concessões em face dos princípios do
projeto – a exemplo dos edifícios de apartamentos de três pavimentos, sem pilotis ou ele-
vadores, em algumas quadras “400” na Asa Sul – contribuiu para a permanência aqui, até
hoje, de uma parcela de população de renda bem inferior àquela de quem mora nas su-
perquadras mais valorizadas. Maiores concessões, em termos de modos de produção e
configuração, como comentado, teriam implicado maior inclusão.
Portanto, a segregação socioespacial poderia ter assumido características menos ex-
tremas. Considerados todos os aspectos do processo de produção do espaço urbano, a se-
gregação no Distrito Federal também se deu em função da proposta original, e não somen-
te apesar dela. Fatores especificamente morfológicos contribuíram para que a Brasília
projetada constituísse, desde a origem, uma parte menor e fisicamente excêntrica, em fa-
ce da cidade inteira da qual faz parte. Veremos a seguir como as categorias analíticas uti-
lizadas neste trabalho permitem enxergar com mais precisão este processo.

62 R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 5 / MAIO 2002


F R E D E R I C O D E H O L A N D A

CENTRALIDADE

A técnica de axialidade, da teoria da sintaxe espacial, já referida, permite reduzir um


sistema urbano a um conjunto de segmentos de reta que, da maneira mais aproximada-
mente possível, correspondam aos eixos de ruas ou estradas (Holanda, 2002). Por meio
de procedimentos computacionais que utilizam o programa Axman (Dalton, s.d.), reve-
la-se a medida de integração de cada eixo, que indica numericamente sua relativa acessibi-
lidade em face do sistema inteiro. Essa acessibilidade, entretanto, é mais de ordem topo-
lógica do que geométrica, ou seja, tem por referência a quantidade mínima de linhas
intervenientes que temos de percorrer entre cada uma delas e todas as outras. O conjun- 11 Poder-se-ia argumentar
to de eixos urbanos mais acessíveis a partir do sistema inteiro é chamado de núcleo inte- que esta acessibilidade to-
pológica não corresponde-
grador, e constitui, neste trabalho, o que consideramos o centro morfológico da cidade, ou ria a uma acessibilidade
seja, aquela parte que é mais acessível fisicamente a todas as outras.11 “real”, ou seja, em termos
de distância métrica. Certa-
Num primeiro momento, analisaremos os mapas axiais que consideram apenas as mente haverá casos em que
rodovias e vias arteriais do sistema. Não dispomos de informações detalhadas que permi- a distância métrica é uma
poderosa variável explicati-
tam a análise de todas as vias urbanas ao longo da história da cidade, mas os mapas rodo- va. Neste trabalho, entretan-
viários estudados constituem uma aproximação razoável para identificar as principais ca- to, atemo-nos a esta última,
na esteira de um significati-
racterísticas da macroestrutura urbana. vo acervo de pesquisa empí-
rica que tem demonstrado a
Em 1960, além de Taguatinga, já citada, foram criadas mais duas novas cidades- validade, em si, da dimen-
satélites, localizadas em direções opostas: Sobradinho e Gama a 25 km a nordeste, e a 38 são topológica. Para mais
informações, ver os Anais
km a sudoeste de Brasília, respectivamente. A situação em 1960 está registrada na Figura dos três simpósios interna-
1. Incluem-se Taguatinga, Gama e Sobradinho, mas excluem-se Brazlândia e Planaltina, cionais de Sintaxe Espacial,
constantes na bibliografia.
por constituírem, estes últimos, núcleos preexistentes a Brasília, e por não terem tido, até
então, nenhum novo acréscimo em suas áreas urbanas. O processamento deste primeiro 12 O processamento dos
mapas axiais foi feito por
mapa12 revela que o centro topológico do sistema já se localizava, naquela época, fora de meio do Axman (Dalton,
Brasília, na periferia oeste do Plano Piloto. Essa excentricidade apenas se confirma com o s.d.).

acréscimo de novos núcleos: ainda nos anos 1960, o Guará-I; nos anos 1970, Ceilândia 13 Para um apanhado mais
detalhado deste processo,
e Guará-II; nos anos 1980, Samambaia; nos anos 1990, Santa Maria, São Sebastião, Ria- ver Mota et al., 2000. Os
cho Fundo e Recanto das Emas (por razões de espaço, incluímos apenas os mapas corres- mapas foram preparados
com base em Codeplan
pondentes a 1960 – Figura 1, e 1998 – Figura 2).13 (1984a).
Como comentamos acima, não temos informações precisas, ao longo das décadas
14 Para que o leitor tenha
passadas, sobre o conjunto total de vias e ruas do sistema urbano do Distrito Federal. Pa- uma idéia da ordem de gran-
ra o ano 2000, a situação é ilustrada na Figura 3 (novamente, as três linhas mais integra- deza da medida de integra-
ção, nos estudos de caso
das são grafadas em traços mais espessos). A consideração do total das vias urbanas refor- realizados em regiões espe-
ça o argumento apresentado, ao puxar o centro topológico do sistema para ainda mais cíficas do Distrito Federal, a
integração mais baixa (ou
longe do Plano Piloto, nas direções oeste e sudoeste. A integração média do sistema, cons- seja, o sistema menos per-
meável entre suas partes)
tituído por 18.849 linhas axiais, é de 0,6181, enquanto a integração do Eixo Monumen- foi obtida em parte da área
tal (na parte que pertence à Esplanada dos Ministérios) é apenas 20% maior do que este central do Plano Piloto, con-
siderados conjuntamente os
valor (0,7419).14 Assim, a parte mais central do Plano Piloto sequer pertence ao núcleo Setores de Diversões Sul e
integrador, se o considerarmos, seguindo Peponis et al. (1989), como constituído por Hoteleiro Sul – 0,81; e a in-
tegração mais alta foi obtida
25% das linhas mais acessíveis de todo o sistema: o Eixo Monumental situa-se apenas no nas Superquadras 405/406
piso das 40% linhas mais integradas. Norte – 3,34 (Holanda,
2002). Dada a estrutura ex-
Evidentemente, o núcleo integrador das cidades pode se deslocar no espaço ao lon- tremamente segmentada do
go do tempo. Em cidades costeiras, por exemplo, ele tenderá a se afastar da área da fun- sistema urbano do DF, não
admira que a sua integração
dação inicial, à medida que a cidade cresce para o interior. Ou seja, o centro histórico, média – 0,6181 – seja ainda
menor do que a mínima en-
com o passar do tempo, pode tornar-se uma parte excêntrica da cidade. Isto foi o que se contrada numa região espe-
verificou, por exemplo, nos casos de Recife (Loureiro & Amorim, 2000) e de Maceió cífica.

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 5 / MAIO 2002 63


U M A P O N T E P A R A A U R B A N I D A D E

Figura 1 – Mapa axial das principais vias do Distrito Federal, Brasil, mostrando em traço mais espesso as três
linhas mais integradas do sistema (1960).

Figura 2 – Mapa axial das principais vias do Distrito Federal, Brasil, mostrando em traço mais espesso as três
linhas mais integradas do sistema (1998).

64 R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 5 / MAIO 2002


F R E D E R I C O D E H O L A N D A

Figura 3 – Mapa de axialidade de todas as vias urbanas do Distrito Federal, mostrando em traço mais espes-
so as três linhas mais integradas do sistema (2000).

(Gusmão, 2001). A peculiaridade da capital federal brasileira reside, entretanto, no fato


de o centro simbólico e/ou funcional – leia-se, o Plano Piloto –, nunca ter sido o centro
morfológico. Veremos os problemas que isto implica. Antes, porém, voltemos nossa aten-
ção para a segunda categoria configuracional tratada aqui: a compacidade.

COMPACIDADE

Recentemente, publicou-se interessante trabalho sobre a compacidade urbana, par-


ticularmente relativa a cidades do mundo “em desenvolvimento” (Jenks & Burgess,
2000). Fatores como poluição, custos de transporte, densidades habitacionais, custos in-
fra-estruturais etc. são analisados, mas não há uma exploração de variáveis que descrevam
a própria forma da cidade no que diz respeito ao problema da compacidade, ou seja, não
há exploração de variáveis propriamente morfológicas que possam informar mais precisa-
mente um processo de desenho urbano. Neste trabalho, exploraremos duas alternativas: a
primeira partindo das técnicas da sintaxe espacial e a segunda, de outras vertentes teóri-
cas. Para distingui-las, chamaremos a primeira de compacidade axial, e a segunda de índi-
ce de dispersão, como se segue.

COMPACIDADE AXIAL

A medida de compacidade urbana aqui proposta baseia-se na divisão do número de


linhas axiais por unidade de área. Para obtê-la, circunscrevemos o conjunto de linhas axiais

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 5 / MAIO 2002 65


U M A P O N T E P A R A A U R B A N I D A D E

a que foi reduzido o sistema urbano, com o menor polígono convexo possível, e calcula-
mos a divisão entre o número de linhas do sistema e a área de tal polígono (esses polígonos
também se encontram desenhados nas Figuras 1 e 2). Sistemas descontínuos, ou “nuclea-
dos” – como o de Brasília – apresentarão naturalmente menores índices de compacidade.
A variação da compacidade no Distrito Federal, ao longo do tempo, está ilustrada
na Figura 4. Note-se como ela chega a cair na primeira década (anos 60), quando a cida-
de se torna mais rarefeita em razão da incorporação de núcleos bastante afastados – como
a vernacular Planaltina (40 km do Plano Piloto), que sofreu então significativa expansão
urbana. A compacidade cresce nas décadas subseqüentes, em razão do preenchimento de
alguns espaços intersticiais. Entretanto, esta compacidade ainda está muito longe daque-
la encontrada em outras cidades brasileiras nas quais pudemos aplicar o mesmo procedi-
15 Para efeito de compara- mento metodológico (Figura 5).15 Apesar da expansão da área urbanizada ao longo des-
ção com esses outros ca-
sos, consideramos o total
tes mais de 40 anos, Brasília ainda apresenta, hoje, uma compacidade cerca de oito vezes
das linhas do sistema (ano menor do que a de um núcleo histórico como o de Belém.
de 2000), não apenas as
vias arteriais, como tínha-
mos feito para os mapas
históricos das décadas an-
teriores. Objetivando maior
clareza, os números da Fi-
gura 7 resultam da divisão
do número total de linhas do
sistema, por 10 hectares de
área do polígono convexo
mínimo que as circunscreve,
antes referido.

Figura 4 – Evolução da medida de compacidade no Distrito Federal, Brasil: 1960-1998.

Figura 5 – Compacidade de uma amostra de áreas urbanas brasileiras. Note-se a alta compacidade de uma
área colonial tradicional, como o Centro Histórico de Belém.

66 R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 5 / MAIO 2002


F R E D E R I C O D E H O L A N D A

A compacidade assim medida denuncia outros fatores mantidos constantes, a ocor-


rência de espaços não ocupados no tecido urbano, pelo que, no geral, temos um menor
número de vias por hectare. O crescimento das distâncias médias entre destinos dentro da
cidade obviamente aumenta, o que implica maiores custos socioeconômicos. É verdade
que, variando-se outros fatores – como, por exemplo, o comprimento médio das vias –
haveríamos que utilizar algum procedimento de normalização, o que ainda não foi feito
nesta etapa da pesquisa.
Se essa medida, como exposta aqui, tem qualidades, uma delas certamente é a sua
simplicidade: uma vez disponível o mapa de axialidade de uma cidade, sua obtenção é
praticamente imediata. Entretanto, ela tem óbvias limitações, como não levar em conta a
questão das densidades urbanas, e sua distribuição no espaço. Veremos a seguir como, por
meio de procedimentos um pouco mais laboriosos, este problema pode ser enfrentado.
Chamaremos a medida assim obtida de índice de dispersão.

ÍNDICE DE DISPERSÃO

A segunda medida de compacidade explorada neste texto parte de Bertaud &


Malpezzi (1999).16 A idéia é simples: a forma da cidade analisada é comparada à forma 16 Os referidos autores aler-
tam para o fato de que se
circular de uma cidade hipotética de área equivalente. A fórmula para calcular o índice de trata ainda de versão alta-
dispersão, adaptada para efeito de maior clareza, é a seguinte: mente preliminar, e como tal
deve ser considerada. Tam-

ρ=
Σi di pi bém, eles chamam esta me-
dida de duas maneiras ao
longo do texto: “índice de
PC compacidade” e “índice
de dispersão”. Preferimos a
segunda alternativa, pelo fa-
onde o símbolo correspondente à letra grega “rho” – “ρ” – é o índice de dispersão; “d” é to de que, em função da fór-
mula adotada, quanto mais
a distância do centróide de cada setor urbano ao centro da cidade; “p” é a população de dispersa a cidade, mais alto
cada setor urbano; “P” é a população urbana total; e “C” é a distância média dos pontos será o valor obtido.

de um círculo, de área equivalente à da cidade analisada, ao seu centro (que é igual a 2/3
de seu raio, valor obtido por meio de cálculo integral).17 17 No nosso caso, os “se-
tores urbanos” são constituí-
Obtivemos assim, para Brasília, um índice de dispersão de 2,55, inferior apenas ao dos pelas áreas urbanas
de uma das 35 cidades estudadas por Bertaud & Malpezzi: Bombaim, de índice 3,08, e a das Regiões Administrativas
do Distrito Federal. Para
mais compacta encontrada por esses autores, Shangai, com índice de 0,78. Por curiosida- uma “sintonia fina” poderão
de, vale assinalar que o Rio de Janeiro, com todos os acidentes geográficos que provocam ser utilizados os setores
censitários, quando a infor-
uma forte descontinuidade do tecido urbano, atinge um índice de dispersão de 1,97.18 mação estiver disponível. O
Bertaud & Malpezzi sugeriram uma maneira de ilustrar a dispersão: os setores urbanos da “centro” urbano considera-
do foi o ponto de cruzamen-
cidade real são representados por prismas onde a base corresponde à área do setor, e a al- to do Eixo Monumental com
o Eixo Rodoviário, no cora-
tura corresponde à sua respectiva densidade demográfica (Figura 6). Por outro lado, a ção do Plano Piloto de Brasí-
Figura 7 ilustra a cidade circular teórica de área equivalente, onde a altura corresponde à lia, uma vez que nas suas
proximidades concentra-se
densidade demográfica média do Distrito Federal (a escala desta altura é meramente con- a grande maioria dos em-
vencional, mas é a mesma para as duas ilustrações). As duas Figuras ilustram tanto a dis- pregos do Distrito Federal.

persão quanto a localização das mais altas densidades demográficas na periferia. 18 Embora Bertaud & Mal-
Mas isto não é tudo. Para compreender melhor a problemática estrutura espacial da pezzi falem em “região me-
tropolitana”, tudo indica
capital brasileira, é preciso considerar mais de perto as relações entre sua configuração, e que, pelos dados populacio-
a localização dos moradores e dos empregos, como se segue. nais apresentados, eles con-
sideraram, no caso do Rio
de Janeiro, apenas a popula-
ção do município.

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 5 / MAIO 2002 67


U M A P O N T E P A R A A U R B A N I D A D E

Figura 6 – Ilustração convencional de densidades de zonas urbanas do Distrito Federal, por Região Admin-
istrativa (a título de exemplo, foram nomeadas algumas zonas urbanas).

Figura 7 – Ilustração convencional da densidade de uma cidade hipotética cilíndrica, com a densidade média
e a mesma superfície urbana do total das zonas urbanas do Distrito Federal.

MORADORES, EMPREGOS E INTEGRAÇÃO

O Distrito Federal está hoje dividido em 19 Regiões Administrativas (“RAs”, daqui


em diante), que constituirão a referência geográfica básica na análise que se segue (o Pla-
no Piloto situa-se na RA1, denominada “Brasília” – cuja área praticamente coincide com
a área do projeto original). A Tabela 1 indica, por RA, os valores de integração, morado-
res e empregos. O forte desequilíbrio entre estas três variáveis pode ser caracterizado

68 R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 5 / MAIO 2002


F R E D E R I C O D E H O L A N D A

quantitativamente, por meio de correlações simples19 entre os seus valores. Para tanto, ti- 19 A medida estatística de
correlação simples indica a
vemos que calcular uma medida de integração “regional”. Vimos como, a cada linha do maneira pela qual duas sé-
mapa de axialidade, corresponde uma medida de integração; para chegarmos a um núme- ries de valores estão rela-
cionadas. Se as duas séries
ro correspondente à região, utilizamos a média dos valores das três linhas mais integradas variam no mesmo sentido
que se localizam completamente dentro das fronteiras administrativas da região conside- (enquanto os valores de
uma crescem, os de outra
rada. A Figura 8 ilustra graficamente a correlação obtida entre estes valores.20 também crescem), a corre-
lação é positiva, podendo a
medida chegar ao máximo
Tabela 1 – Integração, empregos e habitantes, por Região Administrativa – DF de +1. Se as duas séries va-
RAs Integração Empregos Habitantes riam em sentido inverso (en-
quanto os valores de uma
RA I Brasília 0,9306 555.369 198.422 crescem, os da outra de-
RA X Guará 0,9714 72.473 115.385 crescem), a correlação é ne-
RA III Taguatinga 0,8898 31.481 243.575 gativa, podendo a medida
chegar ao mínimo de –1.
RA IX Ceilândia 0,6961 24.000 344.039
RA XVI Lago Sul 0,8049 11.228 28.137 20 Pode-se notar na Figu-
RA V Sobradinho 0,8494 7.431 128.789 ra 8 que os valores de inte-
gração não coincidem com
RA XI Cruzeiro 0,9315 6.441 63.883 a escala tradicional de valo-
RA II Gama 0,8745 5.773 130.580 res de integração como en-
RA VIII Núcleo Bandeirante 0,9660 5.377 36.472 contrados na literatura (em
torno de 1 a 2). A questão é
RA XII Samambaia 0,8919 3.335 164.319 que, por razões de ilustra-
RA VI Planaltina 0,6343 3.040 147.114 ção, estes valores foram
RA XIII Santa Maria 0,8398 1.760 98.679 “normalizados” de maneira
a facilitar visualmente a
RA XV Recanto das Emas 0,8627 1.669 93.287 comparação com o número
RA XVIII Lago Norte 0,7816 1.321 29.505 de habitantes e empregos,
RA IV Brazlândia 0,6840 1.255 52.698 revelando assim a baixa cor-
relação obtida. Para tanto,
RA VII Paranoá 0,6477 626 54.902 os valores de integração fo-
RA XIV São Sebastião 0,5917 574 64.322 ram submetidos a uma po-
RA XVII Riacho Fundo 0,8619 432 41.404 tência de 10, e em seguida
multiplicados por 500.000.
RA XIX Candangolândia 0,9075 375 15.634 Entretanto, os valores origi-
Totais 733.960 2.051.146 nais foram mantidos para o
correlação integração/empregos 0,27 cálculo das correlações co-
mentadas no texto, e indica-
correlação integração/habitantes -0,03 das na Tabela 1.
correlação empregos/habitantes 0,31

Fonte: Pesquisa DIMPU, MTE (1999), IBGE (2000).

Figura 8 – Moradores, empregos e integração, nas Regiões Administrativas do Distrito Federal, Brasil.

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 5 / MAIO 2002 69


U M A P O N T E P A R A A U R B A N I D A D E

Os baixos valores de correlação da Tabela 1 constituem indicadores de três impor-


tantes aspectos relacionados:
a) a disparidade entre a localização de empregos e de moradia é captada pela correlação
de 0,31, pela qual a grande concentração de empregos formais na Região de Brasília
(76%) corresponde a apenas um relativamente pequeno número de habitantes
(9,7% do total do Distrito Federal), enquanto a região mais populosa (Ceilândia)
21 É preciso notar que a tem um número desprezível de empregos formais;21
fonte utilizada aqui é a base
de dados do Ministério do b) o grande número de habitantes em partes altamente segregadas do sistema é capta-
Trabalho e Emprego. Uma do pela correlação ligeiramente negativa de –0,03, indicando que as grandes massas
análise cuidadosa destes
dados sugere que há super- populacionais estão nas partes mais segregadas do sistema;
estimação da localização de c) a excentricidade da grande maioria dos empregos (no Plano Piloto, relativamente
empregos na cidade cen-
tral: contempla-se aqui ape- segregado, como vimos) é captada pela baixa correlação de 0,27, entre empregos e
nas os empregos formais,
que se concentram obvia-
integração.
mente na Região Administra- Por enquanto ainda não temos dados quantitativos semelhantes que permitam uma
tiva I (Brasília). Entretanto,
acreditamos que estes da-
análise comparativa com outras cidades brasileiras, mas os resultados acima parecem mui-
dos ainda constituem uma to típicos da capital. Em outras cidades, certamente algumas áreas são mais privilegiadas
boa indicação da realidade
presente. quanto à localização de empregos, e a maioria esmagadora da população vive longe do tra-
balho. Entretanto, o fato de os próprios empregos serem excêntricos, e a sua concentra-
ção espacial corresponder a um número tão relativamente pequeno de habitantes, parece
ser típico de Brasília.
Mas, afinal, por que Brasília teria mesmo de ser central? Parece claro que a forte con-
tradição entre a localização de empregos e de habitações implica maiores distâncias entre
casa e trabalho, com custos sociais mais elevados. Ainda precisamos de estatísticas mais
ilustrativas, mas estudos disponíveis sobre transporte público no Brasil já nos dizem algo
importante sobre isto. Em Brasília, o IPK (Índice de Passageiro por Quilômetro de linhas
de ônibus, uma maneira clássica de se medir a eficiência do transporte coletivo) é de 1,1.
No Rio de Janeiro, cidade bem mais compacta do que Brasília, como vimos, ele é 47%
mais elevado do que em Brasília, e em relação à Curitiba ele é 131% mais elevado. Há
também uma correlação clara entre estes índices e o preço das tarifas: Brasília é campeã,
com as mais elevadas tarifas do Brasil (R$ 1,50), 36% mais elevadas do que em Vitória
22 Dados publicados pelo (R$ 1,10), que vem em segundo lugar, e 50% mais altas do que em Curitiba, que vem
Jornal de Brasília, em
15/05/2001, com base em
em terceiro.22 Devemos também ressaltar que, apesar de termos aqui o mais alto índice
informações de Departa- de motorização do País (1,8 pessoas por veículo), 52,7% das viagens diárias, para todos
mentos Municipais de Trans-
portes Urbanos. Infelizmen- os motivos, ainda são feitas por transporte coletivo, sendo 44,3% feitas por automóvel
te, ainda não dispomos, por (Codeplan, 1991).
nossa metodologia, de da-
dos de compacidade de Cu- Em outras palavras, uma importante peculiaridade de Brasília em face de várias ou-
ritiba ou Vitória, para fazer- tras cidades brasileiras nas quais já foi possível aplicar alguns destes procedimentos meto-
mos uma análise mais
completa. dológicos é que, em Brasília, centro morfológico e centro funcional não coincidem. Em ci-
23 Estudos ainda em anda-
dades como Natal, Recife, Porto Alegre, Maceió ou Belém,23 por exemplo, estudos de
mento por nosso grupo de evolução urbana têm mostrado que, consistentemente, o centro morfológico vai se deslo-
pesquisa, além de traba-
lhos já anteriormente cita-
cando, ao longo do tempo, junto com o centro funcional da cidade, mantendo-se sempre
dos (Rigatti, 1997; Loureiro uma coincidência quase rigorosa entre eles. Os dados de que dispomos até aqui parecem
& Amorim, 2000; Trigueiro
et al., 2001). convincentemente indicar que os fatores configuracionais estudados neste texto – excen-
tricidade de empregos e serviços e baixa compacidade – são fortemente responsáveis por
um mal desempenho de Brasília em aspectos que atingem em cheio principalmente a po-
pulação de menor poder aquisitivo.

70 R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 5 / MAIO 2002


F R E D E R I C O D E H O L A N D A

UMA ESPECULAÇÃO

Preocupações quanto aos índices comentados acima já estiveram presentes em propos-


tas de desenho urbano para o Distrito Federal. O PEOT – Plano Estrutural de Organização
Territorial (Codeplan, 1977), por exemplo, já na década de 1970, propunha uma estru-
tura urbana onde o uso do solo estivesse concentrado ao longo de corredores de transpor-
te de massa. A nova cidade de Águas Claras está sendo implantada em uma das áreas de
dinamização propostas pelo PEOT, e seu projeto implicava significativa transferência de
empregos da Região de Brasília para a Região de Taguatinga. Lamentavelmente, tal inten-
ção não vem se concretizando. No que se segue, verificamos como o projeto de Águas Cla-
ras, assim como outras medidas de desenho urbano, que poderiam ser eventualmente ado-
tadas, interfeririam nos indicadores comentados acima. Por outro lado, isto funciona como
teste destes indicadores, pois revela o grau em que eles são sensíveis a tais transformações.
A Tabela 2 ilustra um cenário hipotético, em que algumas modificações são feitas em
face da situação atual: a) reduzem-se os empregos em Brasília e amplia-se a sua popula-
ção; b) ampliam-se os empregos e a população de Taguatinga, como resultado da implan-
tação de Águas Claras. Esta especulação considera o número de empregos e de habitantes
originalmente previstos para Águas Claras (pensava-se na transferência de alguns órgãos
do governo local para a nova cidade, e em altas densidades habitacionais). No caso da Re-
gião de Brasília, foram considerados novos contingentes populacionais que poderiam ser
absorvidos no futuro Setor Noroeste, assim como um incremento de moradores ao lon-
go da Avenida W-3, por meio de modificação de usos e gabaritos.24 A nova cidade de 24 Esta especulação de
transformação da Avenida
Águas Claras, o Setor Noroeste, e a Av. W-3 estão indicados na Figura 9. Os novos valo- W-3 está relatada em Silva
res de empregos e habitantes, assim como os novos valores das correlações obtidas estão et al., 2001.

registrados na Tabela 2.

Tabela 2 – Integração, empregos e população – correlações num cenário hipotético


Região Administrativa Hoje Cenário hipotético
População Empregos População Empregos
RA I Brasília 198.422 555.369 600.000 485.000
RA III Taguatinga 243.575 31.481 363.575 101.481
Correlação integração/empregos 0,27 0,29
Correlação integração/habitantes -0,03 0,15
Correlação empregos/habitantes 0,31 0,84

Note-se que a correlação que mais melhorou foi aquela entre empregos e habitantes,
o que indica uma mais eqüitativa distribuição dessas duas categorias na cidade. As trans-
formações de desenho urbano especuladas também melhoram significativamente a corre-
lação entre integração e habitantes, na medida em que aumentam o contingente popula-
cional na área central – que ainda é, apesar de sua excentricidade, relativamente integrada.
O menor impacto se dá na correlação entre empregos e integração, o que é compreensí-
vel: seria preciso aumentar muito mais o número de empregos nas demais cidades do Dis- 25 Em Holanda (1999;
trito Federal para que esta correlação sofresse impacto mais forte. Em síntese, uma cida- 2002) encontra-se uma dis-
cussão mais longa sobre o
de assim mais equilibrada muito ganharia em urbanidade, se por isso entendemos, entre conceito de urbanidade. A
idéia de espaço como recur-
outras coisas, menores custos sociais de deslocamento, maior acessibilidade aos equipa- so cultural está desenvolvi-
mentos públicos, mais fácil utilização do espaço urbano como recurso cultural.25 do em Peponis (1992).

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 5 / MAIO 2002 71


U M A P O N T E P A R A A U R B A N I D A D E

Figura 9 – Mapa axial do DF, mostrando a localização de Águas Claras, Setor Noroeste e Av. W-3 Sul.

Finalmente, ilustramos a seguir como estes procedimentos metodológicos permi-


tem simular o impacto de uma obra como a Ponte JK – a terceira ponte ora em cons-
trução sobre o lago Paranoá. O interesse deste exemplo reside no fato de que posições
conceituais diferentes sobre a organização territorial da cidade mais uma vez entraram
em confronto, recolocando-se a dicotomia integração/segregação do Plano Piloto em fa-
ce da cidade maior.

UMA CONTROVÉRSIA EMBLEMÁTICA

Controvérsias sobre o desenvolvimento espacial da cidade revelam freqüentemente


os diferentes pontos de vista ideológicos sobre sua configuração. Isto é exatamente o que
ocorreu com o debate sobre a construção da terceira ponte sobre o lago, que ligará o ex-
tremo leste da Esplanada dos Ministérios, por sobre o lago Paranoá, às áreas habitacionais
na margem oposta (Figura 10). A construção já se encontra em curso, e havia várias alter-
nativas de conexão da ponte com a parte monumental da cidade. Ela poderia a) conec-
tar-se com uma via periférica e/ou com ruas alternativas que contornam a Esplanada, ou
b) conectar-se diretamente com a extremidade leste do Eixo Monumental. A primeira al-
ternativa foi apoiada por aqueles que defendem “o caráter original do lugar”, pelo que a
Esplanada deve ser mantida, tanto quanto possível, como um pedaço isolado (e deserto,
poderíamos acrescentar) da cidade. A segunda alternativa foi defendida pelos construto-
res, que propunham uma ligação mais direta com o centro da cidade.

72 R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 5 / MAIO 2002


F R E D E R I C O D E H O L A N D A

Figura 10 – Localização da Ponte JK, sobre o lago Paranoá.

A controvérsia está longe de constituir qualquer novidade, pois é parte do velho de-
bate que de vez em quando volta à superfície: a necessidade ou não de se manter a cida-
de – ou pelo menos sua parte monumental – incólume à vida secular. Podemos lembrar
aqui o apelo de Lúcio Costa pela manutenção da “fisionomia” da cidade, e dos esforços
recorrentes para somente permitir a urbanização crescente longe do coração administra-
tivo federal (ver acima). A análise configuracional revela que os “isolacionistas” percebem
intuitivamente a maior integração que se obteria na Esplanada com uma ligação mais in-
tensa com o seu entorno: uma simulação, incluindo a terceira ponte, indica um cresci-
mento de (apenas) 5,2% na medida de integração do principal eixo que atravessa o lu-
gar, a qual passaria de 0,7418 para 0,7808. Por outro lado, revela o enorme preconceito
quanto a uma maior “secularização” deste espaço monumental, porque, ao fim e ao ca-
bo, é disso que se trata. De fato, como vimos, o impacto configuracional é realmente
muito pequeno para tal reação, particularmente se calibrarmos a integração com a (bai-
xa) densidade residencial do outro lado do lago, algo que pretendemos realizar em fu-
turo próximo.
De qualquer maneira, uma maior integração certamente significaria um acesso
mais fácil para a Esplanada, com todas as implicações – éticas e estéticas – que adviriam
disto. Eticamente, a estratégia de isolar fisicamente a sede do poder resultaria enfraque-
cida – uma estratégia, aliás, adotada historicamente por sociedades autoritárias (Holan-
da, 1999). Esteticamente, mais pessoas desfrutariam melhor da inegável beleza do lu-
gar na sua vida cotidiana, pois a Esplanada deixaria de ser apenas o ponto final de
viagens dos funcionários públicos (e/ou dos raros visitantes), e se tornaria também um
notável evento espacial ao longo de viagens rotineiras cuja origem e destino estariam fo-
ra dela. Em outras palavras, mais pessoas também desfrutariam o lugar de dentro e

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 5 / MAIO 2002 73


U M A P O N T E P A R A A U R B A N I D A D E

instrumentalmente, em vez de apenas de fora e simbolicamente – analogamente ao já ob-


servado, ele ganharia em urbanidade.

CONCLUSÃO

Brasília, quando analisada no nível global da metrópole, repete modelos de subúr-


bios e modos de vida conhecidos noutras cidades e noutras épocas, porém aqui este pro-
cesso foi institucionalizado pelo próprio Estado, e não pelas “forças de mercado”. Nou-
tros casos, e via de regra, as elites dominantes criam a segregação por meio dos vazios
urbanos mantidos como reserva de valor. Aqui, grande parte da terra sendo estatal – pe-
lo menos inicialmente –, a segregação se deu por decisão política, e a partir de órgãos do
Estado, pelo que contingentes de menor poder aquisitivo eram localizados a dezenas de
quilômetros do Plano Piloto.
É irônico que assim seja. Mas foi-se o tempo em que se acreditava que a proprieda-
de estatal da terra garantiria uma estrutura espacial mais democrática. A análise de Brasí-
lia desmitifica isso, revelando que o Estado e o interesse público só coincidem em circuns-
tâncias políticas específicas. O Brasil constitui um destes países nos quais o Estado, ainda
mais fortemente do que sói acontecer, é capturado pelas classes dominantes, para a defe-
sa de seus próprios interesses. Assim não deveria constituir surpresa o fato de que a orga-
nização do território do Distrito Federal – a sede do governo federal – constitua uma es-
trutura espacial tão fortemente segregadora.
Esse modelo não é “ilógico” nem “irracional”. Opções de desenho urbano, em qual-
quer tempo e lugar, implementam determinados valores, e não outros, escolhem deter-
minadas prioridades, e não outras. Alternativas de desenho podem implicar diferentes
ênfases em aspectos sociais, ou econômicos, ou simbólicos, ou ambientais etc. Argumen-
tamos que os custos socioeconômicos de Brasília são muito elevados. Pelo menos para
alguns defensores do status quo, esses custos não são ignorados, mas são defendidos em
nome de uma determinada “fisionomia” urbana, como vimos: um preço que é preciso
pagar pela dimensão simbólica da Capital Federal. Será mesmo? Ou o que testemunha-
mos aqui é uma determinada maneira de tratar a dimensão simbólica, entre outras que a
história nos ensina?
Noutro trabalho, Brasília foi caracterizada como um tipo historicamente recorren-
te: um espaço de exceção (Holanda, 2002). Ou seja, um espaço especializado para funções
sociais super-estruturais, e fisicamente isolado. A crítica de Brasília, num nível mais pro-
fundo, é a crítica deste tipo histórico, que tem um certo desempenho, que trata os vários
aspectos do espaço urbano de determinada maneira. Para que a discussão sobre a cidade
não constitua um “diálogo de surdos”, é preciso explicitar suas várias dimensões de desem-
penho, assim como discutir maneiras alternativas de tratá-las. Não consideramos os vá-
Frederico de Holanda, ar- rios problemas identificados neste texto como um preço necessário a pagar pela dimen-
quiteto, é professor do Pro-
grama de Pós-Graduação são simbólica da Capital. Essa dimensão simbólica poderia ser diferentemente
em Arquitetura e Urbanismo
da Universidade de Brasília.
estruturada, como foi brevemente sugerido acima. Mas o aprofundamento do assunto já
E-mail: fredhol@ unb.br é tema para uma outra oportunidade.

74 R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 5 / MAIO 2002


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SYMPOSIUM. London: Space Syntax Laboratory, 1997.
TRIGUEIRO, E. et al. Disneyfication now? Assessing spatial correlates for heritage pre-
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SIUM. Ann Arbor. 2001. Proceedings. Ann Arbor: A. Alfred Taubman College of
Architecture and Urban Planning, 2001. p.66.1-66.7.

A B S T R A C T This paper explores quantitative analytic procedures in order to cha-


racterise three types of morphological attributes of the Brazilian Capital. First, the Pilot Plan
is not central concerning the larger urban system in which it is situated and, contradicting
principles put forward by Lúcio Costa in his Pilot Plan Report, it has never been central.
Second, the system is extremely dispersed, and this is characterised here by means of two
alternative measures of compactness. Third, there is a strong sociospatial segregation, charac-
terised by the weak correlations which obtain among localization of jobs, localization of homes,
and physical accessibility: not only the great majority of jobs is also eccentric (for more than
70% locate in the Pilot Plan), but also the great majority of inhabitants live in the most
segregated bits of the city. At the end of the paper we discuss measures that imply a greater
urbanity for the Federal Capital.

K E Y W O R D S Brasilia; centrality; compactness; social segregation; space syntax;


urban design; urbanity.

76 R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 5 / MAIO 2002


A ESPACIALIDADE
DAS REMUNERAÇÕES DO
TRABALHO NO BRASIL
SUBSÍDIOS PARA O PLANEJAMENTO REGIONAL

A N I TA KO N

R E S U M O A distribuição espacial das remunerações do trabalho da população bra-


sileira sofreu, nos últimos anos, alterações consideráveis, a partir dos novos requisitos exigidos
para a contratação da mão-de-obra ou para a remuneração de autônomos, tendo em vista os
renovados processos produtivos e organizacionais, bem como as políticas econômicas conjuntu-
rais voltadas para a estabilização. A pesquisa visa contribuir com subsídios para a análise dos
padrões regionais diferenciados na distribuição dos rendimentos médios do trabalhador brasi-
leiro, como resultado dos impactos das transformações produtivas e ocupacionais dos anos 90.
São observadas as situações nas condições de trabalho com ou sem carteira assinada, segundo
o gênero, dentro e fora de empresas. A avaliação é efetuada através do cálculo de coeficientes
de Gini, tendo como base a composição das remunerações segundo a segmentação do mercado
de trabalho, de acordo com categorias ocupacionais específicas.

PA L AV R A S - C H AV E Planejamento; região; trabalho; remuneração; gêne-


ro; vínculo empregatício.

INTRODUÇÃO

O planejamento regional vem mostrando, na atualidade, a necessidade do estudo


das transformações socioeconômicas espaciais que vêm ocorrendo, particularmente a par-
tir dos anos 80, tanto em economias mais avançadas quanto em desenvolvimento, como
resultado do crescimento da velocidade e da intensidade de reestruturação produtiva. A
velocidade das transformações tecnológicas tem levado as empresas a constantes reformu-
lações em seus processos produtivos e sistemas organizacionais, na busca de competitivi-
dade. Estas reformulações se verificam, também, pela situação conjuntural internacional,
que tem levado à necessidade da contenção de gastos, tanto por empresas privadas quan-
to pela área governamental.
Paralelamente a isto, o processo de globalização econômica, experimentado mun-
dialmente, teve fortes impactos nas vantagens comparativas de cada país e de cada região
interna a ele, retratados na crescente transnacionalização de empresas, em fusões e aqui-
sições que resultaram em processos produtivos internacionalizados, em que etapas dife-
renciadas do processo se realizam em diferentes países. Essas mudanças requeridas pelo
novo contexto socioeconômico são extremamente rápidas, abrangentes e profundas, re-
querendo mudanças no perfil da força de trabalho, no sentido de adaptação ao novo pa-
drão de investimentos em novos equipamentos e novos esquemas organizacionais. Esses

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 5 / MAIO 2002 77


A E S P A C I A L I D A D E D A S R E M U N E R A Ç Õ E S

fenômenos tiveram impactos consideráveis nos padrões espaciais de remuneração da mão-


de-obra interna e externamente às empresas, repercutindo também na distribuição de ren-
dimentos entre diferentes categorias de ocupações, de acordo com a possibilidade de ajus-
tamento da força de trabalho e da economia de cada região aos novos requisitos da
demanda por trabalho pelas empresas e às possibilidade de auto-emprego ou trabalho por
conta própria, fora de empresas.
No Brasil, a distribuição dos rendimentos da população ocupada também sofreu,
nos últimos anos, alterações consideráveis, não apenas a partir dos novos requisitos exigi-
dos para a contratação da mão-de-obra ou para a remuneração de autônomos – tendo em
vista os renovados processos produtivos e organizacionais, dentro e fora das empresas –,
mas também das políticas econômicas conjunturais voltadas para a estabilização, que li-
mitaram as oportunidades de abertura de novos postos de trabalho formalizados, aumen-
tando o volume de trabalho em atividades informais.
É patente que estas mudanças foram acompanhadas de um padrão regional dife-
renciado de remunerações oferecidas aos trabalhadores, que tenta conciliar vários deter-
minantes como a necessidade de qualificação específica de certas ocupações novas, a
restrição na oferta de postos de trabalho e o aumento da oferta de trabalhadores com ní-
veis diferenciados de qualificação. As transformações estruturais ocorrentes internamen-
te aos setores de atividades das economias propagam, por um lado, um caráter inova-
dor, e por outro, desempenham um papel desequilibrador em relação à criação de um
volume de postos de trabalhos necessários para o crescimento e para o perfil de qualifi-
cação da força de trabalho brasileira. Além disso, o ritmo da modernização econômica
bem como da introdução de novas funções e ocupações, dentro de empresas ou autôno-
mas, esbarram muitas vezes nas condições específicas de qualificação da força de traba-
lho, não preparada para assumir condições mais flexíveis de operacionalização ou tare-
fas mais sofisticadas.
Os impactos dessas transformações são retratados de forma diferenciada nos vários
setores e situações de contrato de trabalho e particularmente de forma diferenciada regio-
nalmente, como decorrência de aspectos culturais e econômicos diversos das realidades es-
paciais brasileiras.
A partir dessas constatações, a questão formulada é se os processos de modernização
produtiva e de estabilização econômica, que se verificaram no País de forma mais acelera-
da na década de 1990, tiveram como efeito líquido uma redistribuição dos rendimentos
da força de trabalho, que se mostrou favorável à maior concentração ou à dispersão espa-
cial dos ganhos do trabalho. Por sua vez, questiona-se de que forma esta redistribuição se
manifestou dentro de empresas e para o total dos ocupados, nas diversas regiões brasilei-
ras que apresentam condições socioeconômicas consideravelmente diferenciadas. Este tra-
balho, portanto, busca verificar as diferenças regionais nas transformações ocorridas na
distribuição das remunerações da população ocupada dentro das empresas e no total da
população ocupada, na década de 1990, tendo como períodos de análise o último ano
da década de 1980 e o ano de 1997. Essas mudanças foram avaliadas do ponto de vista
nacional e regional, enfocando a ocupação dentro de empresas e para o total da popula-
ção ocupada, segundo o gênero e condição de vínculo empregatício, a fim de fornecer
subsídios para a formulação de políticas públicas no âmbito do planejamento regional.
O ano de 1989, selecionado como período base de comparação, correspondeu a
uma situação estrutural que resultou de um período em que a economia havia passado
(em 1985) por uma forte recuperação das atividades, após a crise de 1983, seguida de

78 R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 5 / MAIO 2002


A N I T A K O N

nova desaceleração produtiva com problemas consideráveis relacionados à aceleração do


crescimento das taxas de inflação. No entanto, a partir da década de 1990, após um pe-
ríodo inicial de forte retração econômica até 1992, a economia brasileira reiniciou um
período de transformação estrutural, quando se verificou a intensificação da reestrutura-
ção produtiva das empresas. Tendo em vista a abertura às importações e o processo inten-
so de globalização econômica, as empresas foram obrigadas a buscar a modernização dos
processos produtivos e organizacionais e a intensificar a introdução da inovação tecnoló-
gica, que permitissem a maior competitividade internacional e a diminuição da defa-
sagem tecnológica em relação aos países industrializados.
Paralelamente a isso, a estabilização dos preços alcançada com o Plano Real também
causou repercussões sobre a distribuição do trabalho e sobre a natureza das condições de
absorção e de remuneração setorial e regional da mão-de-obra. As consideráveis transfor-
mações socioeconômicas observadas no País nos anos 90, apontam para reflexos signifi-
cativos tanto sobre divisão do trabalho segundo as categorias de ocupações, quanto no pa-
drão de distribuição das remunerações da estrutura ocupacional.

PREMISSAS TEÓRICAS

DETERMINANTES DAS DIFERENÇAS REGIONAIS NA DISTRIBUIÇÕES DAS REMUNERAÇÕES


DO TRABALHO

Os fatores de oferta e demanda do mercado de trabalho brasileiro, nos anos mais re-
centes, como visto, estiveram profundamente associados à aceleração do progresso tecno-
lógico e da globalização econômica, que obrigou a uma reestruturação tecnológica e or-
ganizacional das empresas na maior parte dos países e teve repercussões consideráveis
sobre a natureza dos processos produtivos, sobre a composição interna dos setores e sobre
a evolução e natureza do produto. Esta dinâmica teve impactos transformadores sobre as
condições e a natureza do trabalho, em todos os setores econômicos, desde que a moder-
nização econômica, com a introdução de novas técnicas, ao mesmo tempo que cria novas
funções e ocupações, elimina uma série de ocupações e postos de trabalhos.
Quando se analisam, especificamente, as questões relacionadas à distribuição das re-
munerações do trabalho, as hipóteses básicas que fundamentam esta avaliação estão rela-
cionadas às premissas teóricas que permitem associar mais diretamente esta estruturação
a alguns determinantes primordiais, que moldam conjuntamente os padrões desta distri-
buição. Estes determinantes, que serão resumidamente apresentados em seqüência, refe-
rem-se à espacialidade do trabalho, ou seja, às qualidades específicas da estruturação ocu-
pacional em cada região, que decorrem das características culturais, sociais e econômicas
próprias a cada espaço. Resultam dos reflexos regionais diferenciados sobre a estruturação
ocupacional, que decorrem das bases de recursos e socioeconômicas específicas e que são
representados: a) pela qualidade da oferta de trabalho, ou seja, do “capital humano” apre-
sentado pelos trabalhadores; b) pelas diferenças na segmentação do mercado de trabalho
internamente às empresas; c) pelos diferenciais na estrutura das remunerações; e d) pela
participação dos trabalhadores segundo o gênero (Kon, 1995).

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 5 / MAIO 2002 79


A E S P A C I A L I D A D E D A S R E M U N E R A Ç Õ E S

SOBRE A ESPACIALIDADE DO TRABALHO

No que se refere aos impactos sobre a economia de cada espaço, as qualidades espe-
cíficas da estruturação ocupacional em cada região, que decorrem das características cul-
turais, sociais e econômicas próprias a cada espaço, são moldadas tanto pelos componen-
tes estruturais quanto conjunturais, endógenos e exógenos à região e ao país, que afetam
estas qualidades em dado período. As transformações nesta espacialidade, apresentadas no
decorrer do tempo, resultam da capacidade de ajustamento de cada espaço aos novos re-
quisitos econômicos que periodicamente se fazem sentir nas economias mundiais, como
reflexo de mudanças nos paradigmas econômicos.
É possível apontar as mudanças significativas pelas quais passaram as economias nos
anos recentes desde a década de 1980, que resultaram em uma reorganização espacial con-
tundente tanto em sociedades desenvolvidas quanto em desenvolvimento. Entre outros
aspectos, estas transformações incluem particularmente: a) a elevação da internacionaliza-
ção das atividades econômicas; b) a reorganização das firmas dominantes; c) a crescente
integração da indústria manufatureira com a de serviços; d) o uso crescente da tecnologia
microeletrônica; e) a demanda crescente na indústria por uma força de trabalho mais qua-
lificada, porém com muitos trabalhos rotineiros sendo eliminados pela mudança tecnoló-
gica; f) a crescente complexidade e volatilidade do consumo; e g) uma mudança no pa-
pel da intervenção governamental.
Estas transformações foram interpretadas como uma modificação da sociedade for-
dista baseada na produção e consumo de massa em grande escala, apoiada pela demanda
dos gastos governamentais para o gerenciamento de suas funções e para a Previdência e
Saúde (principalmente nas nações mais avançadas em que prevalecia o Welfare State). Co-
mo visto, as formas pós-fordistas de produção emergiram desde os anos 70, quando a in-
dústria passou a utilizar nova tecnologia e uma força de trabalho mais flexível para res-
ponder mais rapidamente às mudanças do mercado e à competição internacional,
encorajadas por novas formas de governo, que se retirava de funções empresariais e res-
tringia suas funções produtivas (Marshall & Wood, 1995).
Nesse contexto, a crescente proeminência dos serviços e suas contribuições relevan-
tes e multifacetadas para a mudança estrutural têm como origem: a) a importância da
crescente interdependência entre a produção de bens e serviços, pelo fato de qualquer pro-
duto material ou de serviço ser criado por uma seqüência complexa de trocas materiais e
de serviços que envolve fornecedores e consumidores, incluindo subcontratados e consul-
tores; b) o valor da especialização em serviços no capitalismo do fim do século XX, que
contribui para a manipulação de matérias-primas, informação, capital e trabalho, em
qualquer atividade de produção ou consumo; como interpretar o mundo tornou-se uma
tarefa mais complexa, a produção de bens e serviços tornou-se mais capital-intensiva e o
papel destes serviços especializados então se intensificou; c) a forma pela qual as mudan-
ças técnicas criam novas oportunidades para a exploração da especialização em serviços; e
d) a maneira pela qual as qualificações e especializações para atividades de serviços que es-
tão presentes na força de trabalho influenciam significativamente os padrões locacionais.
Como salienta McKee (1988), uma das funções das atividades de serviços nas eco-
nomias nacionais, além de sua localização urbana, é o fato de que elas têm sido reconhe-
cidas como facilitadoras ou reforçadoras do impacto sobre os pólos de crescimento, ou se-
ja, sobre as atividades que lideraram tanto de forma quantitativa quanto qualitativa a
determinação dos padrões de expansão em âmbito nacional. A capacidade dos serviços de

80 R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 5 / MAIO 2002


A N I T A K O N

desempenhar função semelhante no processo de desenvolvimento depende da espécie de


atividades dos pólos, de seu tamanho, força e de sua dominância local, regional, nacional
ou internacional. Além disso, as atividades de serviços desempenham um papel importan-
te no setor manufatureiro, porque fortalecem e prolongam o impacto dos setores líderes,
enquanto facilitam a transição quando novos setores manufatureiros assumem os papéis
de líderes. Estas mudanças na liderança vêm ocorrendo entre as atividades manufaturei-
ras de economias avançadas, e as repercussões vêm sendo sentidas através da economia
global mundial.
Foi observado que tais mudanças conduzem à realocação das instalações produtivas
para países em desenvolvimento, onde os custos do trabalho e as restrições ambientais
eram mais favoráveis às indústrias tradicionalmente poderosas, particularmente quando
estas atividades perdiam suas posições proeminentes nas economias adiantadas, mas seus
produtos ainda eram fortemente demandados em escala mundial. Porém, após a intensi-
ficação da globalização das economias principalmente desde o fim dos anos 80, estas
indústrias apresentam maiores vantagens de realocar suas atividades em economias mo-
dernas, onde são encontrados força de trabalho mais qualificada e outros serviços com-
plementares sofisticados. Em muitos casos, firmas de serviços tornam-se multinacionais e
transnacionais, e os países hospedeiros menos desenvolvidos apresentam benefícios por-
que um número de serviços auxiliares às empresas fornecem elos que tornam possível a
existência de muitas instalações manufatureiras.
No âmbito doméstico das economias, as mudanças locacionais refletem o crescente
dualismo da força de trabalho, desde que os investimentos nas manufaturas se moveram,
seja para áreas onde são disponíveis os escassos trabalhadores mais qualificados adminis-
trativos e burocratas (white-collar), ou para áreas de baixos salários e alto desemprego, on-
de pode ser recrutada uma força de trabalho semiqualificada, para desempenhar princi-
palmente atividades rotineiras da produção em plantas das filiais.
A complexidade e diversidade da moderna especialização em serviços encoraja a
aglomeração, ao menos das funções de alto nível; as funções mais rotineiras podem ser
mais dispersadas, embora controladas de forma centralizada. Estas tendências têm domi-
nado a evolução das regiões urbanas nos anos mais recentes, e também influenciam os pa-
drões da localização manufatureira, enquanto a especialização em serviços oferece não
apenas um conhecimento técnico e material para os processos produtivos em constante
transformação, mas também para qualificações organizacionais ou gerenciais.
Ao lado desses aspectos, o recrudescimento da internacionalização dos serviços teve
conseqüências consideráveis sobre as decisões locacionais das empresas e sobre os padrões
da distribuição territorial das atividades. Através da exportação do capital, particularmen-
te a partir da Segunda Guerra Mundial, uma série de países, até então menos desenvolvi-
dos, foram também conduzidos a um processo de industrialização e a uma nova divisão
internacional do trabalho; esta conservou porém uma desigualdade estrutural já consoli-
dada anteriormente, resultante do monopólio do novo conhecimento científico e técni-
co. Estes países receberam este conhecimento tecnológico já pronto, sem possuírem ini-
cialmente o controle desta técnica, e convertiam-se apenas em base de fabricação
mundial, sobretudo por oferecerem a vantagem de uma mão-de-obra barata.
Dessa maneira, com a continuidade dos avanços tecnológicos nas áreas de transpor-
tes e comunicações do pós-guerra, o próprio aparato produtivo das empresas é deslocado
para o exterior, inicialmente com a internacionalização da produção de produtos aca-
bados. Posteriormente, a partir do fim dos anos 60 (particularmente com o avanço da

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 5 / MAIO 2002 81


A E S P A C I A L I D A D E D A S R E M U N E R A Ç Õ E S

microeletrônica e da tecnologia da informação), em alguns setores o processo de produ-


ção é internacionalizado, com o desenvolvimento de cada parte do processo em uma di-
ferente região mundial. O fenômeno da globalização e transnacionalização atualmente
observado no mercado mundial é, portanto, um processo histórico de internacionaliza-
ção do capital, que se difundiu com maior velocidade, particularmente a partir das três
últimas décadas graças ao avanço tecnológico.
Nesse contexto, desde a década de 1980 configurou-se uma nova etapa mais avan-
çada e veloz de transformações tecnológicas e de acumulação financeira, intensificando a
internacionalização da vida econômica, social, cultural e política. Observou-se, então, que
as atividades econômicas passaram progressivamente a se desenvolver de forma indepen-
dente dos recursos de um território nacional, sejam recursos naturais ou “construídos pe-
lo homem”. Esta desterritorialização tem como causas o padrão do progresso técnico, a
preferência dos consumidores, e a organização corporativa e/ou políticas públicas de go-
vernos nacionais, o que favorece a maior mobilidade dos fatores produtivos sem perda de
eficiência, competitividade e rentabilidade.
Como salienta Milton Santos (1994), a noção de território, na atualidade, transcen-
de a idéia apenas geográfica de espaços contíguos, vizinhos, que caracterizam uma região,
para a noção de rede, formada por pontos distantes uns dos outros, ligados por todas as
formas e processos sociais; o espaço econômico, neste sentido, é organizado hierarquica-
mente, como resultado da tendência à racionalização das atividades e se faz sob um co-
mando que tende a ser concentrado em cidades mundiais (cujas características serão ana-
lisadas posteriormente com maior detalhe), onde a Tecnologia da Informação
desempenha um papel relevante; este comando, então, passa a ser feito pelas empresas
através de suas bases em territórios globais diversos.
Outro aspecto a ser considerado no processo de transformações econômicas espaciais
refere-se à descentralização produtiva das atividades do setor Secundário, que foi um fe-
nômeno internacional nas décadas de 1960 e 1970. A recessão mundial que se seguiu di-
minuiu as oportunidades de investimentos e desviou enormes somas de recursos de capi-
tal do setor manufatureiro para os serviços financeiros. A descentralização geral da
produção é atribuível à concentração de serviços às empresas (muitos destes anteriormen-
te terceirizados), que se elevou consideravelmente com estes fundos disponíveis. Mas al-
guns autores salientam que o decréscimo das indústrias manufatureiras urbanas em alguns
países desenvolvidos naquele período foi causado em um grau substancial, pela combina-
ção de escassez de terras disponíveis e insatisfação da mão-de-obra industrial, o que resul-
tou em uma elevação mais rápida dos custos salariais em relação ao crescimento da pro-
dutividade. Este fato é considerado como uma das maiores razões para a subseqüente
descentralização da produção, desde que esta descentralização foi atingida especialmente
através da subcontratação de pequenas firmas para etapas específicas do processo de pro-
dução, sem a intervenção de sindicatos, ou então através do estabelecimento de plantas
de produção em filiais regionalmente e internacionalmente desconcentradas.
Em muitos países esta descentralização se caracterizou pela separação espacial entre
os escritórios administrativos centrais e as plantas produtivas ramificadas, com uma reor-
ganização interna de funções que promoveu uma divisão espacial de trabalho. Dessa for-
ma, verifica-se uma reorganização espacial de atividades e de áreas de influência econômi-
ca, tanto mundialmente quanto internamente aos países, como decorrência das
transformações na internacionalização dos serviços delimitando uma nova divisão inter-
nacional do trabalho, com reflexos regionais consideráveis internamente a cada economia.

82 R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 5 / MAIO 2002


A N I T A K O N

Por outro lado, o capital humano é outro condicionante das diferenças na espaciali-
dade do trabalho. As primeiras discussões a respeito da relevância do capital humano so-
bre as condições de emprego e remuneração salientavam que, na realidade, a força de tra-
balho é heterogênea, com diferenças entre indivíduos, e as diferenças no mercado de
trabalho como efeito desta heterogeneidade interferem diretamente na remuneração dos
trabalhadores.1 A partir deste enfoque, este capital humano é composto em parte pelas ca- 1 Entre os pioneiros a de-
senvolverem as idéias sobre
pacidades mentais e físicas dos trabalhadores que são inatas, porém outras são o resulta- o Capital Humano, desta-
do da escolaridade adquirida, treinamento no posto de trabalho e em outros cursos pro- cam-se Schultz (1961 e
1967), Mincer (1958) e
fissionalizantes ou de especialização. A característica comum destas capacidades são que Becker (1975).
elas mantêm ou aumentam o valor de mercado do trabalho oferecido pelas pessoas que
participam na força de trabalho. A estrutura salarial, ou seja, as diferenças de remunera-
ções entre grupos em uma economia são freqüentemente associadas a idade, gênero, raça
e tipo de ocupação, porém também refletem as diversidades em escolaridade, treinamen-
to e experiência no mercado de trabalho. Na atualidade, grande parte de estudos sobre o
mercado de trabalho se preocupa consideravelmente com as diferenças de investimento
em capital humano entre grupos de ocupações e a forma pela qual se relacionam à distri-
buição da renda pessoal.
Parte das capacidades mentais e físicas dos trabalhadores são inatas, porém outras são
adquiridas através de investimento planejado. O traço comum destas capacidades adqui-
ridas é que conduzem à melhora ou à manutenção do valor de mercado do trabalho das
pessoas que participam da força de trabalho. Dessa forma, as diferenças salariais ou de re-
muneração entre grupos, que são associadas a variáveis como idade, gênero, raça e tipo de
ocupação, são em grande parte atribuídas nas análises econômicas a diferenças incorpora-
das em cada trabalhador pela educação, treinamento ou experiência no trabalho. As esco-
lhas individuais ou das famílias para adquirir educação ou das empresas para fornecer o
treinamento, bem como as decisões da sociedade de financiar a educação e o treinamen-
to com fundos públicos são comportamentos relevantes para o entendimento das direções
do investimento em capital humano em cada sociedade (Rima, 1996, p.109).
Entre um conjunto considerável de ações que poderiam qualificar-se como investi-
mentos em capital humano, a política pública regional utiliza programas aplicados a es-
timular: a) educação formal em todos os níveis; b) atividades de treinamento no empre-
go (on the job training); c) melhoria nos cuidados da saúde; d) tempo dos pais dedicado
ao cuidado dos filhos; e) atividades da procura de trabalho pelos trabalhadores; f ) mi-
gração dos trabalhadores, de uma região para outra (Hoffman, 1986, p.150). Do ponto
de vista espacial, são observadas diferenças notáveis entre regiões de países em desenvol-
vimento, ligadas à potencialidade estrutural de cada espaço de mobilizar este investimen-
to em capital humano, tendo em vista as condições de suas bases de recursos e de suas
bases macrossociais que envolvem aspectos culturais, políticos e econômicos específicos
(Kon, 1995).

DIFERENCIAIS REGIONAIS NA ESTRUTURA DAS REMUNERAÇÕES

Diferenças na estrutura das remunerações têm sido analisadas, a partir de dois enfo-
ques básicos, quais sejam, diferenciais entre ocupações e entre pessoas. O enfoque tradi-
cional (desenvolvido por Adam Smith) dos diferenciais entre as ocupações, considera a
economia como uma rede de mercados de mão-de-obra para cada uma das muitas ocu-
pações, que são diferenciadas de acordo com os requisitos de qualificação, regularidade do

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 5 / MAIO 2002 83


A E S P A C I A L I D A D E D A S R E M U N E R A Ç Õ E S

emprego, condições de trabalho e outros aspectos. Mais recentemente, o enfoque do ca-


pital humano, acima descrito, não observa a diferença entre os empregos, mas sim entre
as pessoas. Como visto, relaciona as remunerações de um trabalhador diretamente com
suas características pessoais.
A questão da explicação das diferenças na estrutura da remuneração, ou seja, do re-
lacionamento da taxa de remuneração de uma determinada categoria ocupacional em re-
lação a outra, é mais complexa do que a determinação das causas de diferenças no paga-
mento de trabalhos com requisitos de habilitação equivalentes, que são desempenhados
sob diferentes condições em um mesmo mercado. Isto se dá porque este diferencial não
se relaciona somente a diversidades nas qualificações mas também se verificam através da
ação sindical ou da condição de vínculo empregatício legalizado. A literatura econômica
explica, também, que estas divergências são ainda causadas pelo costume (cultura), pela
limitação do “talento” natural do trabalhador em áreas como ciências ou artes, pelos cus-
tos de educação requeridos por ocupações de profissionais liberais ou gerentes, pela inca-
pacidade de jovens oriundos de famílias pobres adquirirem educação superior e outras im-
perfeições do mercado.
O exame da natureza e das fontes de mudanças nos diferenciais das remunerações
ocupacionais tem mostrado na atualidade – seja em países industrializados ou nos menos
desenvolvidos –, a forte influência de um processo de polarização salarial entre as catego-
rias ocupacionais, relacionada à erosão das oportunidades de emprego que pagam remune-
rações médias dentro da escala de remunerações. Isto está ligado às crescentes medidas de
corte dos custos empreendidas pelas empresas como parte de suas estratégias administrati-
vas, com o objetivo de reduzir a folha de salários. Os cortes tiveram maior impacto em de-
terminados setores modernos como na indústria de informática e nos setores financeiro e
de comércio. Estes cortes têm afetado um grande número de ocupações burocráticas e ad-
ministrativas, criando uma nova categoria de postos de trabalho que exigem trabalhadores
mais qualificados e flexíveis, contratados a salários mais baixos. Muitos trabalhadores eli-
minados são recontratados por suas anteriores empresas sem proteção legal, sem benefícios
adicionais e com remunerações inferiores. Um grande número destes trabalhadores admi-
nistrativos se transformou em trabalhadores contingenciais ou temporários, através de pro-
cessos de terceirização de serviços. Estas práticas recentes das empresas afetam particular-
mente as ocupações de profissionais liberais, técnicos e outros trabalhadores qualificados,
refletindo os esforços das empresas para reduzirem seus custos unitários de produção.
As diferenças de remuneração dentro de uma mesma ocupação são responsáveis por
uma parte das desigualdades médias das remunerações encontradas na estrutura ocupa-
cional. As causas dessas diversidades podem ser explicadas pelas diferenças na quantidade
de tempo trabalhado (que podem refletir escolhas deliberadas ou dificuldade de encon-
trar trabalho no tempo desejado), ou de taxas salariais diferentes pagas pelas empresas pa-
ra trabalhadores que, embora com a mesma função ou com trabalhos comparáveis, apre-
sentam características pessoais diferenciadas (idade, gênero e outras).
Um outro aspecto relevante das crescentes desigualdades de remunerações se relacio-
na às mudanças que vêm ocorrendo nas remunerações dos trabalhadores com escolarida-
de e experiência similar. Estas são vistas como discriminatórias, já que não são relaciona-
das às diferenças na produtividade do trabalhador e têm como causa a classe de gênero ou
cor. Estas diferenças são constatadas empiricamente em vários estudos para diversos paí-
ses de vários níveis de desenvolvimento (Rima, 1996, p.260; Hoffman, 1986, p.215),
sendo a discriminação evidenciada pelos diferenciais de remunerações entre trabalhadores

84 R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 5 / MAIO 2002


A N I T A K O N

que são homogêneos com respeito à educação e produtividade e que diferem apenas em
termos de raça, ou gênero, ou antecedente cultural. Tais diferenciais implicam que o mer-
cado atribui um valor a determinadas características pessoais que não são relacionadas
à produtividade.
Ao lado da participação crescente da mulher no mercado de trabalho, observa-se ca-
da vez mais que a continuidade do emprego da mulher durante a idade de trabalho tem
deixado de ser exceção, em grande parte dos países de vários níveis de desenvolvimento,
substituindo a sazonalidade tradicionalmente observada, em que a mulher se retira da for-
ça de trabalho durante alguns anos, enquanto seus filhos são pequenos.
Quando analisam as causas determinantes das diferenças de remuneração entre os
gêneros, grande parte dos estudos destacam também a disponibilidade de capital huma-
no entre as primordiais, paralelamente à existência de diferenciais de compensação para
tipos de trabalhos e a discriminação. As diferenças sistemáticas no tipo de capital huma-
no que explicam muitas defasagens salariais entre os sexos, em alguns trabalhos são vistas
como resultantes de escolhas do indivíduo sobre o tipo de capital humano a ser adquiri-
do. Por exemplo, durante muito tempo, historicamente as mulheres foram mais inclina-
das a investir em capital humano que traria um retorno maior fora do mercado de traba-
lho, em doméstico ou que acarretaria maior satisfação seja no tempo de trabalho ou de
lazer, enquanto os homens tendem a investir em capital humano que traga maior retorno
no mercado e maiores salários, embora menor satisfação pessoal (Jacobsen, 1998).
Os contratantes argumentam a necessidade de diferenciações salariais entre gêneros
tendo em vista que determinadas atribuições sociais têm tradicionalmente implicado,
mais para a mulher do que para o homem, intermitências e dificuldade de dedicação in-
tegral de tempo para aquele investimento. Além disso, as diferenças no planejamento so-
bre o tempo de vida útil no trabalho do homem e da mulher levam à consideração pelos
empregadores de que os maiores retornos ao treinamento oferecido ao trabalhador serão
conseguidos por uma vida útil maior na empresa; nesse sentido, as mulheres têm sido des-
privilegiadas porque alguns treinamentos devem ser efetuados em um prazo maior e por
este motivo acarretam em maiores remunerações posteriores, e as evidências têm mostra-
do que os homens têm apresentado uma maior vida útil nas empresas. Mas mesmo no ca-
so de treinamentos que ocupam menor tempo, a previsão de menor vida útil do trabalho
feminino afeta os ganhos dos gêneros. No caso da intermitência da mão-de-obra, a re-
entrada em uma ocupação pode ser considerada como uma nova entrada inicial que re-
quer novos custos de treinamento e, portanto, é considerada como uma maior taxa de de-
preciação do capital investido.
Ao lado disso, diferentes remunerações resultam do fato de que homens e mulheres
expressariam diferentes preferências por certas condições de trabalho e classificariam as
oportunidades de emprego a partir destas condições; estas diferentes preferências influen-
ciam suas escolhas no investimento em capital humano, o que repercute nas variações das
possibilidades de absorção segundo o gênero. Algumas características dos postos de traba-
lho, que acarretam em escolhas diferenciadas entre os gêneros, são mencionadas como:
variedade no número de tarefas, autonomia de trabalho, clareza sobre o tipo de trabalho,
esforço, grau de desafio, relações com companheiros de trabalho, grau de controle, tem-
po de locomoção ao trabalho, liberdade de dispensas no trabalho, uso das capacidades de
trabalho, condições de saúde (Mutari, Boushey e Fraher, 1997).
A discussão dentro do campo econômico tende a se limitar à discriminação na forma
de remuneração, nas condições de contratação e nas práticas de promoção. No entanto,

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 5 / MAIO 2002 85


A E S P A C I A L I D A D E D A S R E M U N E R A Ç Õ E S

do ponto de vista espacial, os diferentes contextos culturais e sociais, determinam o sta-


tus de cada gênero no mercado de trabalho, bem como as decisões a respeito da oferta de
trabalho feminino, implicando os níveis de absorção e as remunerações respectivas.

DIFERENÇAS REGIONAIS NOS PADRÕES


DE DISTRIBUIÇÃO DAS REMUNERAÇÕES
DO TRABALHO NO BRASIL

ASPECTOS METODOLÓGICOS

A análise empírica para a verificação das diferenças regionais na distribuição das re-
munerações no Brasil na década de 1990, teve como base as informações dos microdados
das PNADs do IBGE, nos anos selecionados de 1989 e 1997, que permitiram a agrega-
ção dos dados em categorias ocupacionais específicas. Para esta avaliação, foram calcula-
dos coeficientes de Gini, para cada região, considerando-se a distribuição das remunera-
ções para o total da população ocupada e para a população ocupada nas empresas,
examinando-se as situações de vínculo empregatício com ou sem carteira assinada e os di-
ferenciais entre gêneros.
As diferentes classes de remunerações foram associadas a uma Tipologia de Ocupa-
ções elaborada por Kon (1995), de modo a agregar as informações de acordo com cate-
gorias de trabalhadores dentro e fora de empresas, de acordo com níveis de qualificação
que resultaram nos diferenciais de remuneração.
Os coeficientes de Gini foram calculados através da expressão:

n
G = 1 − Σ (Y i + Y i − 1) ( Xi − X i − 1), em que

• i=1
• Xi = percentagem acumulada da população ocupada que recebe remuneração na cate-
goria i;
• Yi = percentagem acumulada da remuneração na categoria i;
• i = categoria ocupacional;
• n = número de categorias ocupacionais.

Sendo 0 < G > 1, os coeficientes que mais se aproximam de zero revelam melhor dis-
tribuição entre as remunerações, ou seja, quanto mais próximo da unidade, pior a distri-
buição das remunerações entre as categorias ocupacionais.
Observe-se inicialmente que os coeficientes são calculados apenas para a população
ocupada, de acordo com os objetivos específicos deste trabalho, e portanto as concentra-
ções de remunerações apresentam-se consideravelmente inferiores às reveladas pelos coe-
ficientes tradicionalmente calculados, tendo em vista a distribuição global de renda da re-
gião e do País, que incluem os não-economicamente ativos e os desempregados, ou seja,
o total da população residente.
Por outro lado, o objetivo da análise é a comparação das distribuições entre regiões
e a observação das diferenças de acordo com vínculo empregatício e gênero, e nesse senti-
do o valor dos coeficientes observados que mais se aproximam de zero do que da unidade,

86 R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 5 / MAIO 2002


A N I T A K O N

não necessariamente significam uma distribuição eqüitativa de remunerações, tendo em


vista a ausência de parâmetros de comparação para outras economias.

A DISTRIBUIÇÃO PARA O TOTAL DA POPULAÇÃO OCUPADA

Para o total da população ocupada do País, observa-se uma melhora na distribuição


das remunerações entre os anos examinados de 1989 e 1997 (Tabela 1). Esta condição se
verifica em todas as regiões, quando se analisa o global dos trabalhadores, porém com di-
ferenças consideráveis nas distribuições de cada espaço, tanto na situação do ano base,
quanto nas intensidades das transformações nas distribuição ao longo do período.
No fim da década de 1980 foram observados quatro níveis diferenciados de distri-
buição, ou seja: a) a região de São Paulo apresentava a melhor distribuição, com um coe-
ficiente de 0,192, como resultado da condição de pólo econômico do País que concentra
atividades de maior índice de progresso tecnológico que demandam melhores qualifica-
ções dos trabalhadores; b) em um segundo nível de concentração de remunerações se
apresentavam o Rio de Janeiro e o Norte (0,256 e 0,239), regiões também concentrado-
ras de indústrias competitivas mais avançadas. Os resultados para o Norte devem ser con-
siderados com restrições tendo em vista a influência da Zona Franca de Manaus, desde
que as PNADs não pesquisam a zona rural; c) em seguida, a região que engloba Minas
Gerais e Espírito Santos e a região Centro-Oeste apresentavam coeficientes ligeiramente
menos favoráveis (0,283 e 0,289); d) as piores distribuições de remunerações se verifica-
ram para o Nordeste e o Sul (0,309 e 0,305). Em ambos os casos esta situação decorre da
estrutura produtiva regional, proporcionalmente mais concentrada em atividades rurais
de menor produtividade que as urbanas, e que resultam em remunerações inferiores.
No entanto, observa-se que as intensidades de transformações nas distribuições en-
tre remunerações, verificadas através dos coeficientes para 1997, foram heterogêneas,
desde que o maior movimento no sentido de desconcentração entre as remunerações
ocorreu relativamente no Nordeste e, a menor, em São Paulo, enquanto nas demais re-
giões a intensidade foi semelhante. É preciso salientar que a maior desconcentração rela-
tiva do Nordeste não significa uma aproximação aos padrões de remunerações de São
Paulo, pois continuam consideravelmente inferiores e os coeficientes refletem a situação
interna à região.
O exame da composição das remunerações regionais, considerando as situações de
vínculo empregatício com e sem carteira assinada, mostra, primeiramente, para o global
do País que a distribuição dos trabalhadores com carteira era menos concentrada em rela-
ção à média global no ano de 1989, porém observou-se um aumento da concentração em
1997 que superou o global brasileiro. Ao contrário, os ocupados sem vínculo legalizado,
no primeiro período de análise, apresentavam uma distribuição mais desfavorável que a
média, enquanto no fim da década de 1990 ocorreu uma diminuição no coeficiente.

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 5 / MAIO 2002 87


A E S P A C I A L I D A D E D A S R E M U N E R A Ç Õ E S

Tabela 1 – Coeficientes de Gini para a distribuição do total da população ocupada, de


acordo com a condição de vínculo empregatício e gênero. Brasil e Regiões, 1989 e 1997
Regiões Ano Total Condição de vínculo Gênero
empregatício
C/C S/C Homens Mulheres
RJ 1989 0,256 0,223 0,335 0,223 0,304
1997 0,200 0,192 0,210 0,168 0,249

SP 1989 0,192 0,165 0,289 0,159 0,254


1997 0,173 0,156 0,219 0,126 0,253

Sul 1989 0,305 0,191 0,445 0,266 0,368


1997 0,247 0,208 0,286 0,203 0,380

MG/ES 1989 0,283 0,207 0,366 0,244 0,352


1997 0,221 0,220 0,256 0,185 0,347

NE 1989 0,309 0,221 0,288 0,332 0,244


1997 0,190 0,193 0,253 0,170 0,267

C-O 1989 0,289 0,209 0,308 0,263 0,334


1997 0,228 0,188 0,250 0,200 0,290

NO 1989 0,239 0,201 0,300 0,210 0,285


1997 0,195 0,174 0,224 0,185 0,225

Brasil 1989 0,239 0,199 0,292 0,271 0,349


1997 0,204 0,209 0,251 0,193 0,220

Fonte dos dados brutos: IBGE-PNADS 1989 e 1997. Elaboração da autora.


Nota: C/C = com carteira assinada; S/C = sem cartreira assinada.

Entre as regiões, as diversidades também foram significativas, observando-se em to-


dos os espaços uma melhor distribuição entre os trabalhadores com carteira. Embora São
Paulo apresentasse a menor desigualdade entre estes ocupados, os padrões de distribuição
das remuneração para as demais regiões não seguiram os níveis da média do País, e as al-
terações na década também mostraram direções diversas, observando-se que no Sul e em
Minas Gerais e Espírito Santo ocorreu uma piora nos padrões de distribuição, enquanto
nos demais espaços a distribuição melhorou. Entre os sem carteira, em 1989, as condi-
ções de distribuição de remunerações nas regiões Sul (0,445), Rio de Janeiro (0,335) e no
espaço que engloba Minas Gerais e Espírito Santo (0,366) são consideravelmente mais
concentradoras; porém, em 1997, todas as regiões se aproximam consideravelmente da
média do País, diminuindo os coeficientes de concentração.

88 R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 5 / MAIO 2002


A N I T A K O N

Gráfico 1 – Coeficientes de Gini para a distribuição das remunerações dos trabalhadores,


segundo as regiões.

Fonte dos dados brutos: IBGE–PNADs, 1989 e 1997.

Examinando-se os padrões de distribuição de remunerações entre homens e mulhe-


res, verifica-se que entre os homens a distribuição é mais dispersa em todo o período ana-
lisado, em quase todas as regiões, com exceção da região Nordeste que, em 1989, mostra
um coeficiente de desigualdade inferior para o gênero feminino. Novamente, a região de
São Paulo apresenta os menores coeficientes de desigualdade para ambos os gêneros nos
períodos analisados (exceto para as mulheres em 1997), e a região Sul, os coeficientes mais
elevados, juntamente com Minas Gerais e Espírito Santo.

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 5 / MAIO 2002 89


A E S P A C I A L I D A D E D A S R E M U N E R A Ç Õ E S

Tabela 2 – Coeficientes de Gini para a distribuição da população ocupada em empresas,


segundo condição de vínculo empregatício e gênero. Brasil e Regiões, 1989 e 1997
Regiões Ano Total Condição de vínculo Gênero
empregatício
C/C S/C Homens Mulheres
RJ 1989 0,221 0,219 0,309 0,226 0,240
1997 0,183 0,174 0,189 0,171 0,216

SP 1989 0,181 0,157 0,316 0,165 0,267


1997 0,149 0,146 0,204 0,122 0,225

Sul 1989 0,312 0,187 0,538 0,286 0,382


1997 0,259 0,195 0,298 0,212 0,412

MG/ES 1989 0,272 0,191 0,403 0,252 0,360


1997 0,227 0,204 0,257 0,190 0,383

NE 1989 0,345 0,215 0,323 0,376 0,272


1997 0,216 0,183 0,252 0,189 0,291

C-O 1989 0,246 0,202 0,309 0,280 0,317


1997 0,232 0,175 0,264 0,209 0,328

NO 1989 0,221 0,195 0,303 0,221 0,232


1997 0,190 0,166 0,232 0,183 0,213

Brasil 1989 0,297 0,196 0,304 0,221 0,350


1997 0,207 0,196 0,270 0,202 0,221

Fonte dos dados brutos: IBGE-PNADS 1989 e 1997. Elaboração da autora.


Nota: C/C = com carteira assinada; S/C = sem cartreira assinada.

90 R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 5 / MAIO 2002


A N I T A K O N

Gráfico 2 – Coeficientes de Gini para a distribuição das remunerações dos trabalhadores


nas empresas, segundo as regiões.

Fonte dos dados brutos: IBGE–PNADs, 1989 e 1997.

A DISTRIBUIÇÃO DA POPULAÇÃO OCUPADA EM EMPRESAS

Considerando-se apenas os trabalhadores alocados em empresas, os padrões de dis-


tribuição apresentam coeficientes que indicam menor nível de desigualdade do que para
o global da população ocupada, o que é esperado, tendo em vista as condições menos van-
tajosas, em média, dos trabalhadores fora das empresas. No entanto, verificam-se também
os quatro grupos de regiões que apresentam níveis diferenciados de distribuição em 1989,
a saber: a) a região de São Paulo apresentava a melhor distribuição, com um coeficiente
de 0,181; b) em um segundo nível de concentração de remunerações se apresentavam
o Rio de Janeiro e o Norte (0,221); c) em seguida, a região que engloba Minas Gerais e

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 5 / MAIO 2002 91


A E S P A C I A L I D A D E D A S R E M U N E R A Ç Õ E S

Espírito Santo e a região Centro-Oeste apresentavam coeficientes ligeiramente menos fa-


voráveis (0,272 e 0,246); d) as piores distribuições de remunerações se verificaram para o
Nordeste e o Sul (0,345 e 0,312, respectivamente).
Ainda, tanto em relação à condição de vínculo empregatício quanto à de gênero, as
diferenças regionais apresentam padrões semelhantes aos apresentados para o global da
população ocupada (Tabela 2), ou seja, menor desigualdade em São Paulo e maior no Sul,
e em Minas Gerais e Espírito Santo, onde os coeficientes atingem níveis muito elevados,
(0,538 e 0,403, respectivamente).
No ano de 1997, da mesma forma que para o global da população ocupada, os tra-
balhadores das empresas (que representam em torno de 80% deste global, com variações
regionais), os padrões de distribuição mostraram maior igualdade quando se examina a
condição de vínculo, em quase todas as regiões, com exceção dos ocupados com carteira
na região que engloba Minas Gerais e Espírito Santo, cuja distribuição se concentrou. Com
relação à condição entre gêneros, se para os homens também foi observada uma menor de-
sigualdade em todas as regiões, para as mulheres a desigualdade na distribuição aumentou
nas regiões Sul, Minas Gerais e Espírito Santo, no Nordeste e no Centro-Oeste, e apenas
nas regiões de maior índice de industrialização de São Paulo, Rio de Janeiro e Norte (in-
fluência da Zona Franca de Manaus) foram observados decréscimo nos coeficientes.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A análise das distribuições de remunerações internamente a cada região brasileira


mostrou que tanto para o total da população ocupada do País quanto para os trabalhado-
res de empresas, observa-se uma melhora na distribuição das remunerações entre os anos
examinados de 1989 e 1997. No entanto, os trabalhadores alocados em empresas apre-
sentam padrões de distribuição que indicam menor nível de desigualdade em relação ao
global da população ocupada, o que é esperado, tendo em vista as condições menos van-
tajosas, em média, dos trabalhadores fora das empresas.
Embora se verifique esta condição em todas as regiões, observam-se diferenças con-
sideráveis nas distribuições de cada espaço representadas pelos coeficientes de Gini calcu-
lados, tanto para a situação no ano base de 1989, quanto nas intensidades das transfor-
mações nas distribuições ao longo do período, que foram heterogêneas e são retratadas
pelos indicadores em 1997. De uma maneira geral, a região de São Paulo apresenta os me-
nores níveis de desigualdade para o total da população ocupada e, separadamente, para os
ocupados nas empresas, quer se examine a condição de vínculo ou a situação entre os gê-
neros nos períodos analisados. Por outro lado, a região Sul e Nordeste apresentam os coe-
ficientes de Gini mais elevados, próximos aos de Minas Gerais e Espírito Santo.
Outra relação importante encontrada se refere às representatividades de cada gêne-
ro em categorias ocupacionais de maior ou menor produtividade, que apresentam diver-
sidades regionalmente. Os maiores coeficientes observados para as mulheres retratam as
condições diferenciadas por gênero com relação a responsabilidades familiares e profis-
sionais, horários de trabalhos rígidos, exigências mais estritas de qualificação em relação
ao homem, entre outras, que tornam patente que a remuneração do trabalho da mulher
não depende apenas da demanda do mercado, mas também de uma série de outros
fatores a serem articulados (Bruschini, 1995). Estes fatores conduzem freqüentemente
à alocação de trabalhadoras em atividades informalizadas e/ou no domicílio, que

92 R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 5 / MAIO 2002


A N I T A K O N

permitam mais facilmente esta articulação, porém que se revestem de um caráter instá-
vel e de menor remuneração.
Em suma, as diferenças regionais na estrutura ocupacional que se refletem na distri-
buição das remunerações, por sua vez, resultam do fato de que, de acordo com a estrutu-
ra produtiva e o perfil da força do trabalho de cada espaço, podem ser verificadas desi-
gualdades de remunerações, quando: a) uma mesma ocupação que exija os mesmos Anita Kon, economista, é
professora do Programa
requisitos de habilitação for desempenhada em diferentes condições de produtividade ou de Estudos Pós-Graduados
qualidade nos mercados de trabalho regionais; b) for diferenciada a situação de vínculo em Economia Política da
PUC/SP e pesquisadora
empregatício entre trabalhadores em uma mesma ocupação; c) a taxa de progresso tecno- dos núcleos EITT – Econo-
lógico em cada atividade resulta em diferentes perfis de demanda por trabalhadores, que mia Industrial, Trabalho e
Tecnologia e ERAMA – Eco-
exigem qualificações diferenciadas; d) comparando a situação das remunerações entre ca- nomia Regional, Agrária e
tegorias ocupacionais ou setores em que a influência da existência de um sindicato mais Meio-Ambiente da mesma
universidade. É também
(ou menos) atuante se faz sentir. As regiões que concentram mais intensamente ativida- professora e pesquisadora
da EAESP/FGV. E-mails:
des urbanas de maior nível tecnológico apresentam menores desigualdades na distribui- anitakon@pucsp.br
ção das remunerações do trabalho, do que as mais especializadas em atividades rurais. akon@fgvsp.br

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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SCHULTZ, T. W. O valor econômico da Educação. Rio de Janeiro: Zahar, 1967.

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 5 / MAIO 2002 93


A E S P A C I A L I D A D E D A S R E M U N E R A Ç Õ E S

A B S T R A C T The regional earnings distribution of the Brazilian working popula-


tion lately underwent considerable changes, which are a result, in one hand, of the new requi-
rements demanded for labor hiring, by the present productive and organizational processes,
and in the other hand, of the economic conjuncture policies aiming to stabilization, which li-
mit the opportunities of new jobs in the formal labor market. The impacts of these transfor-
mations are showed in the composition of the average earnings, inside and outside the firms.
The research aims to examine the different regional patterns of the average earnings distribu-
tion of the Brazilian worker, as a result of the impact of the recent productive and occupatio-
nal transformations in the nineties. These regional differences are examined according to the
situation of labor contracts, gender and the segmentation of the labor market inside the firms,
and the analysis is based in Gini coefficients for each region.

K E Y W O R D S Planning; regions; earnings; labor; gender; segmentation.

94 R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 5 / MAIO 2002


M EMÓRIA
DOS P RESIDENTES
A ANPUR EM NOVO PATAMAR
ESTRUTURANDO NOVOS ÂMBITOS DE ATUAÇÃO
1999-2001

M A R I A F L O R A G O N Ç A LV E S

O CRESCIMENTO DA ANPUR riência e do conhecimento adquiridos ao viver a Anpur


por dentro como Diretora, na gestão anterior.1
Pela primeira vez a Anpur teve no comando de Na gestão 1997-1999, presidida por Norma La-
sua Diretoria uma composição entre duas instituições: cerda, foram transformadas em realidade duas propos-
a Presidência sediada no Núcleo de Economia Social, tas aprovadas na Assembléia de 1997: foi organizada a
Urbana e Regional do Instituto de Economia da Uni- primeira premiação da Anpur, com a atribuição do
versidade Estadual de Campinas (Nesur-IE/Unicamp) Prêmio Brasileiro “Planejamento Urbano e Regional”
e a Secretaria Executiva sediada na Faculdade de Ar- no seminário comemorativo dos 15 Anos da Anpur rea-
quitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo lizado no Rio de Janeiro, em outubro de 1998; e foi
(FAU/USP). criada a Revista Brasileira de Estudos Urbanos e Regio-
Isso trouxe vantagens e desvantagens. Houve nais, com o lançamento do número “1 – Maio de
maior dificuldade na fluidez do trabalho mas, inega- 1999” no VIII Encontro Nacional da Anpur. Na divi-
velmente, duplicou os recursos institucionais e enri- são de trabalho dentro daquela Diretoria, coube a mim
queceu a experiência de dirigir a Anpur – particular- formular o projeto editorial, o que fiz com a ajuda de
mente neste caso, em que se fez uma composição um grupo de trabalho especialmente formado para es-
inédita entre instituições ligadas à Economia e à Arqui- te fim. Fui a Editora Responsável do número 1, o gru-
tetura e Urbanismo, o que se traduz numa composição po de trabalho foi designado para assumir a função de
particularmente fecunda entre campos em que predo- Comissão Editorial e contamos com a retaguarda ins-
minam com peso inverso o Regional e o Urbano. titucional do Nesur-IE/Unicamp, que sediou a revista.2
Compartilharam a direção da Anpur com esta Deste modo, a diretoria que assumisse a gestão
Presidente na gestão 1999-2001: nos cargos de Direto- 1999-2001 teria que se encarregar de criar a estrutura
res, os colegas Cássio Frederico Camargo Rolim necessária para a continuidade e manutenção da revis-
(UFPR), Geraldo Magela Costa (UFMG) e Henri Ac- ta recém-criada, assim como consolidar o Prêmio Bra-
selrad (UFRJ); Yvonne Mautner (USP) assumiu a Se- sileiro, não só aproveitando a experiência da primeira
cretaria Executiva em agosto de 2000, cargo antes ocu- premiação para aprimorar a organização da segunda,
pado por Maria Lúcia Refinetti Martins (USP). O
Conselho Fiscal, cujos participantes também deram re- 1 A diretoria da Anpur na gestão 1997-1999 teve Norma Lacerda na
taguarda a tarefas de diretoria em seus respectivos Es- Presidência e Sílvio Zanchetti na Secretaria Executiva, ambos da UFPE,
e, nos três cargos de Diretores, Tânia Fischer (UFBA), Aldo Paviani
tados, foi composto por Frederico Rosa Borges de Ho- (UnB) e eu (Unicamp).
landa (UNB), Esterzilda Berenstein de Azevedo 2 Compuseram o Grupo de Trabalho e, depois, a Comissão Editorial
dos números 1, 2, 3 e 4 da Revista Brasileira de Estudos Urbanos e
(UFBA) e Décio Rigatti (UFRGS). Regionais: Ana Clara Torres Ribeiro (IPPUR/UFRJ), Diretora da Anpur na
Participei da direção da Anpur em duas gestões gestão 1991-1993; Marco Aurélio Filgueiras Gomes (FAU/UFBa), Dire-
tor 1991-1993; Maria Adélia de Souza (IFCH/Unicamp), Secretária Exe-
seguidas, de junho de 1997 a maio de 2001: na pri- cutiva 1991-1993; Maria Cristina Leme (FAU/USP), Diretora 1995-
1997; Martim Smolka (Ippur/UFRJ, Lincoln Institute), Presidente
meira como Diretora e na segunda como Presidente. O 1986-1989; Naia de Oliveira (FEE/RS), Secretária Executiva 1993-
trabalho desenvolvido na Presidência valeu-se da expe- 1995; Roberto Monte-Mór (Cedeplar/UFMG), Diretor 1993-1995.

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 5 / MAIO 2002 97


M E M Ó R I A

como pesquisando e providenciando formas de garan- sultivo, composto de um representante de cada entida-
tir a sua continuidade e manutenção. Além disso, a de associada/filiada.
criação da homepage da Anpur era uma expectativa Minha primeira providência ao assumir a Presi-
ainda não realizada, apesar de tentativas nas duas ges- dência foi mapear as instituições integrantes – por Es-
tões anteriores. tado/região e por especialidade acadêmica – para que
A Diretoria 1997-1999 trabalhou com grande ficasse claramente visível para toda a comunidade an-
entrosamento e foi ficando evidente a dificuldade de puriana quem é a Anpur. Foi o primeiro insumo para a
dirigir essa Anpur ampliada, com a estrutura prevista homepage e um elemento de ilustração utilíssimo para
para uma instituição mais simples. Surgiu em conse- as reuniões que fiz Brasil afora informando a associados
quência a proposta de se formular um Plano de Ação, e não-associados sobre a Anpur e suas atividades. Cons-
com base numa reflexão coletiva de que participassem tatei sermos uma associação integrada por 33 institui-
também as instituições associadas/filiadas, tendo em ções, assim distribuídas no País: uma na região Norte
vista prever como atualizar a estrutura e funcionamen- (Belém); sete no Nordeste (uma em Fortaleza, uma em
to da Anpur de modo a adequá-la à nova situação. Natal, duas em Salvador, três em Recife); três no Cen-
Assim tomou corpo o Plano de Ação 1999-2003, tro-Oeste (Brasília); dezoito no Sudeste (duas em Belo
formulado de dezembro de 1998 a maio de 1999. Horizonte, cinco no Rio de Janeiro e 11 em São Paulo,
Principiou com consultas, por meio de questionários das quais seis na Capital, três em Campinas e duas em
enviados às instituições, sobre objetivos e expectativas São Carlos); e quatro no Sul (uma em Curitiba, uma em
em relação à Anpur, cujas respostas deram origem a Florianópolis e duas em Porto Alegre). Desse conjunto,
uma pauta de discussão que foi amplamente debatida 11 instituições trabalhavam predominantemente no
por representantes de 16 entidades, ao longo de dois campo das ciências sociais e da economia; nove, no da
dias de reuniões na FAU/USP em 27 e 28 de abril de arquitetura e urbanismo; seis, no da geografia; três, no
1999. Concluiu-se o Plano em Porto Alegre, numa da administração pública; e quatro, em outros (enge-
reunião prévia ao VIII Encontro Nacional da Anpur, nharia urbana, demografia e multidisciplinares).
em que foram discutidas as propostas que seriam apre- Essa composição levou-me a pensar que o que ci-
sentadas à Assembléia Geral. Dos membros da chapa menta a relação entre todas elas é o pertencimento a
que se candidatou à eleição em 1999, quase todos par- um certo campo de pesquisa e conhecimento que vem
ticiparam dessas discussões e, como Diretoria eleita, sendo estruturado por meio do estímulo recíproco, da
tinham o compromisso de implantar as propostas troca de questões, da colaboração na produção de co-
contidas nesse Plano, aprovado na mesma Assembléia nhecimento entre esses campos disciplinares indicados
que a elegeu. acima, numa prática que vem construindo uma pro-
O Plano de Ação 1999-2003 propunha cinco blemática específica acerca de como se articulam (e se
grandes projetos prioritários: 1) mapeamento institu- determinam) a produção e reprodução de espaços ur-
cional e acadêmico das instituições integrantes; 2) di- banos e regionais e a produção e reprodução de certos
fusão e imagem da Anpur; 3) articulação de uma agen- processos sociais. Este trabalho vem se desenrolando
da de pesquisa e de influência sobre o poder público; dentro mesmo das atividades da Anpur – nos Encon-
4) articulação do ensino de pós-graduação no sentido tros Nacionais, em demais eventos, e publicações.
de promover uma cooperação interinstitucional; 5) fo- Essa idéia levou-me por sua vez a concluir que a
mento, visando adequar e atualizar a estrutura e fun- força e a importância da Anpur será tanto maior quan-
cionamento da Anpur em dois aspectos: implementa- to mais bem representada estiver dentro dela a comu-
ção de novas formas de sustentabilidade e inovação na nidade multidisciplinar de ensino e de pesquisa que
forma de gestão, mantendo-se a diretoria com a com- constituem o campo dos estudos urbanos e regionais.
posição atual – como pólo de confluência e de irradia- Dada a diversidade disciplinar que caracteriza a sua
ção das propostas das instituições integrantes – e crian- composição, sua força institucional está na capacidade
do-se duas novas formas de organização: Comitês de, mediante a pesquisa e a formação acadêmica de-
Temáticos, constituídos em torno da agenda de proje- senvolvidas nas instituições anpurianas, articular esse
tos, e um Conselho de Representantes como fórum con- campo de conhecimento e travejar com crescente

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solidez uma problemática suficientemente rica e consis- estruturação de redes institucionais e de pesquisadores,
tente para estruturar programas de pesquisa e de ensi- formais e/ou informais, permanentes e/ou passageiras
no pós-graduado. Numa associação assim, a convivên- e dentro desta complexa trama de relacionamentos –
cia entre instituições menores e maiores pode propiciar de amplitudes e alcances muito diferentes – a Anpur
uma troca fecunda, um espaço de colaboração, em que deve se posicionar: participando de algumas, estimu-
umas poderão crescer com o apoio de outras. lando outras, dando acolhida e espaço para a expressão
Expus freqüente e sistematicamente essa opinião de outras tantas e criando oportunidades para que seus
em reuniões realizadas em cerca de dez Estados da Fe- associados tomem contato, se informem e decidam em
deração, organizadas a meu pedido por uma institui- que âmbitos dessas relações desejam participar. A ho-
ção local, reunindo representantes das demais associa- mepage e o Encontro Nacional são espaços privilegia-
das/filiadas e também de entidades não-integrantes dos para isso.
especialmente convidadas, com o objetivo de levar a A necessidade de alcançar-se uma autonomia fi-
presença da Anpur e informar sobre suas atividades, nanceira para a Anpur deu origem à proposição do pa-
divulgar a revista e o site eletrônico, atrair colaborado- gamento de anuidades pelas entidades integrantes, de-
res e estimular novas filiações. Quase metade das ins- finindo outro item importante a ser incorporado à
tituições associadas/filiadas à Anpur estão no eixo Rio- pauta de trabalho rotineiro da Diretoria: a programa-
São Paulo, o que reflete a realidade da concentração ção, arrecadação e administração de recursos próprios,
encontrada nessa região do País; creio que trabalhar abrangendo anuidades, assinatura e venda de publica-
para a maior diversificação da composição da Anpur ções, e, eventualmente, o estabelecimento de taxas pa-
(e, por conseqüência, do seu universo e repertório) só ra cobrir custos e viabilizar serviços, como envio postal
trará benefícios. de publicações e outros, a exemplo do que fazem asso-
Ao final da gestão 1999-2001, enviei uma carta a ciações congêneres.
todas as instituições associadas e filiadas à Anpur ten- Entre maio de 1999 e maio de 2001 o universo
do em vista informar os delegados sobre a pauta a ser anpuriano abrangia 33 instituições filiadas/associadas
discutida na Assembléia de 2001. Chamava a atenção e, ao final desse período, outras três se candidataram e
para o fato de que a Anpur havia mudado de patamar entraram – entre elas, a primeira no campo do Direito
no que diz respeito à abrangência de sua atuação e, por Urbano. A Anpur de 1999-2001 tinha o triplo do ta-
conseqüência, à complexidade da sua agenda de traba- manho daquela que Martim Smolka presidiu em
lho. Novos papéis e funções foram criados, passando a 1987-1989. E, se tomarmos o tamanho adquirido pe-
demandar respostas que se efetivam em procedimentos la Anpur na Assembléia de 2001, com o ingresso des-
novos, que para ganhar permanência requerem ser ins- sas três instituições, e o compararmos com aquele exis-
titucionalizados: incorporados às normas e à pauta de tente ao início da gestão de Milton Santos, a partir de
trabalho do corpo administrativo que move os seus vá- junho de 1991, constatamos que em dez anos o núme-
rios âmbitos de atuação, para que sejam desempenha- ro de entidades integrantes aumentou de 20 para 36,
das as novas funções e os novos papéis gerados. perfazendo o espantoso acréscimo de 80%.
Além do Encontro Nacional bienal, cuja organi- O crescimento da pauta de trabalho rotineiro da
zação tradicionalmente mobiliza a energia da Diretoria Anpur produz um acúmulo de tarefas concentradas
e da comunidade, a estrutura anpuriana passou a in- principalmente nas mãos da Presidência e da Secretaria
cluir uma Revista, uma Premiação e uma Homepage – Executiva, que dificulta o desempenho em frentes im-
para programar, financiar, e prover manutenção e con- portantes de trabalho, particularmente na pauta de
tinuidade. O intercâmbio internacional assumiu pro- ação política nos vários âmbitos a que diz respeito uma
porções inéditas na história da Anpur, facilitado pela associação acadêmica como a Anpur. Destaco alguns
comunicação em tempo real via Internet e estimulado campos de discussão e de intervenção para os quais so-
pelo interesse dos associados/filiados em participar e mos chamados ou impelidos a participar:
intervir nos rumos de uma crescente globalização das a) discutir a política nacional de ciência e tecnologia
relações interacadêmicas. com as demais associações científicas, principal-
A comunicação eletrônica abriu caminho para a mente no espaço da SBPC;

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b) analisar os programas nacionais de fomento ao en- de fomento ao ensino e à pesquisa e outras agências
sino pós-graduado e criar na Anpur um espaço de e/ou campos de atividades que possam contribuir pa-
discussão, invenção e experimentação de formatos ra o pensamento criativo, a sociabilidade acadêmica e
de cursos multidisciplinares e pluri-institucionais; o não-isolamento da Universidade. A Anpur ampliou
c) estreitar o diálogo entre a Anpur e as agências de fo- em muito esse exercício, como se viu no IX Encontro
mento à pesquisa, alertando para a importância de Nacional, no Rio de Janeiro, e certamente continuará
certos temas, analisando a evolução de bolsas e au- ampliando no futuro.
xílios e lutando por mais recursos para a área; Para a Direção da Anpur no período 1999-2001
d) estreitar o diálogo e a troca de experiências entre a foi fundamental o apoio institucional recebido do Ins-
Anpur e as Associações Nacionais de campos afins tituto de Economia da Unicamp, à época dirigido por
(Anpocs, Anpec, Anpege, Anpad, Abep e outras) e Geraldo Di Giovanni e, no final do período, por Pau-
sociedades científicas das áreas constituintes da An- lo Eduardo de Andrade Baltar; agradeço particular-
pur (geografia, economia, ciências sociais, adminis- mente o apoio de todas as horas dado por Rinaldo Bar-
tração, demografia, arquitetura e urbanismo e ou- cia Fonseca, coordenador em exercício do Nesur-IE/
tras), estabelecendo cooperação e ação comum no Unicamp e diretor associado do Instituto. A Presidên-
encaminhamento de questões que interessam a esses cia da Anpur pôde contar com uma retaguarda sempre
campos de ensino e de pesquisa; segura, incluindo complementação de recursos quando
e) adentrar os espaços de discussão criados pela globa- necessário, e integral apoio administrativo.
lização, inclusive no mundo acadêmico, participan- Também a secretaria executiva teve total apoio da
do de e/ou organizando eventos internacionais e es- Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, con-
tabelecendo pautas de conversação e de cooperação tando com todas as condições necessárias para o me-
com associações congêneres de outras regiões do lhor desempenho do trabalho da Anpur, tanto pela
mundo; ação de sua diretora, Maria Ruth de Amaral Sampaio,
f) pautar discussões nacionais sobre experiências, ne- como da coordenadora do programa de pós-gradua-
cessidades e formatos para políticas públicas de de- ção, Ermínia Maricato, pelo quê expressamos mais
senvolvimento urbano e regional. uma vez o nosso agradecimento.
Nossa resposta a essas demandas ocorreu de for- Para o bom andamento das realizações da Anpur
ma mais ampla ou mais restrita, conforme os recursos nesse período, foi fundamental a experiência e a efi-
de que dispúnhamos na Diretoria e os recursos adicio- ciência de Raquel Martins, que deu suporte adminis-
nais que conseguimos reunir nas diferentes ocasiões em trativo à Secretaria Executiva desde dezembro de 1999,
que isto se fez necessário. Fizemos sempre o melhor assim como a criatividade e iniciativa de Camila de Al-
possível, dentro das circunstâncias objetivas da realida- meida, estagiária do curso de economia que a direção
de; procuramos sempre extrair o melhor proveito das do Instituto de Economia pôs à disposição da presi-
circunstâncias e lidar com obstáculos e dificuldades de dência da Anpur.
modo a aprender com os erros e transformar os revezes Sou muito grata a Yvonne Mautner pela eficiente
em oportunidades. e calorosa colaboração prestada na segunda metade da
Os novos âmbitos de atuação desenvolvidos, as- gestão e, especialmente, por ter se disposto a assumir a
sociados às novas tecnologias de comunicação, am- Secretaria Executiva de repente, sem ter se preparado
pliaram sobremaneira a presença social da Anpur. Ao para isso. Aos Diretores, agradeço a participação na
importante papel de fórum público, onde o conheci- realização do que foi proposto e as oportunas opiniões
mento produzido se expõe à crítica e à divulgação, em e sugestões que frequentemente me deram; e, particu-
que a Anpur constitui ponto de convergência para larmente, a Henri Acselrad, pelo belíssimo Encontro
pesquisadores, professores e estudantes, somam-se no- por que foi responsável.
vos papéis, que se desdobram do fato de a Anpur ser A Anpur se move – e cresce – pela ação voluntá-
– e assumir isso – o local mais próprio para o encon- ria dos seus integrantes. Ao longo das próximas pá-
tro entre pesquisadores, professores e estudantes em ginas o leitor poderá ver o enorme número de pessoas
redes de pesquisa, sociedades científicas, instituições que fez acontecer e participou das atividades aqui

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relatadas. Num período como o dos últimos anos, em nomes de pessoas interessadas em manter-se infor-
que as pessoas que se ocupam do mundo acadêmico madas sobre as atividades da Anpur, o qual permite
estão de modo geral sobrecarregadas de trabalho, che- estimar a abrangência da influência institucional da
ga a ser espantosa a quantidade de esforço dedicado Associação.
por elas às realizações nos vários âmbitos da Anpur. Is- c) Articulação de uma agenda de pesquisa e de influên-
to só pode ser justificado pela importância que a An- cia sobre o poder público. Aqui foram desenvolvidas
pur exerce no seu campo de atividades e pelo amor que atividades de natureza diferente: o seminário nacio-
as pessoas dedicam a esta Associação. Por essas razões, nal “Regiões e Cidades, Cidades nas Regiões – a es-
foi uma honra e um privilégio ter tido a oportunidade pacialidade do desenvolvimento brasileiro”, organi-
de dirigi-la. E a todos que colaboraram com nossa ges- zado pela Diretoria em seis sessões regionais; a
tão e me apoiaram quando foi preciso, dedico profun- participação da Anpur no Comitê Nacional Istam-
do agradecimento e a minha mais sincera homenagem. bul+5, encarregado de preparar o documento na-
Vejamos então o balanço do que foi realizado pe- cional para a participação do Brasil na reunião espe-
la Diretoria 1999-2001 com relação a cada um dos cial da ONU dirigida a avaliar a implementação da
grandes projetos prioritários propostos no Plano de agenda Habitat nos países nela representados; a or-
Ação aprovado na Assembléia de 1999. Em seguida ganização e realização do IX Encontro Nacional da
são apresentadas em detalhes as realizações menciona- Anpur; os eventos realizados por instituições asso-
das, além de outras não previstas no Plano de Ação ciadas/filiadas com o apoio da Anpur e que com-
1999-2003. põem uma agenda anpuriana já tradicional.
d) Articulação do ensino de pós-graduação para promo-
IMPLEMENTAÇÃO DO PLANO ver a cooperação interinstitucional. Este projeto in-
DE AÇÃO 1999-2003 cluiu a tentativa de organizar um programa de coo-
peração interinstitucional nacional apoiado no
a) Difusão e imagem da Anpur. As realizações referen- Procad (Capes) e a organização e realização do IV
tes a este projeto incluem a consolidação da Revista Encuentro de Posgrados sobre Desarrollo y Politicas
Brasileira de Estudos Urbanos e Regionais e do Prê- Territoriales y Urbanas de los Países del Cono Sur,
mio Brasileiro “Política e Planejamento Urbano e ocorrido dentro do IX ENA.
Regional”, o projeto e lançamento da homepage, a e) Atualização da estrutura e funcionamento da Anpur.
criação de novo logotipo, a publicação dos Anais do No que diz respeito a inovações na forma de gestão
VIII e do IX ENA e a preparação de livro com os da Anpur, foi dado início um Comitê de Intercâm-
textos do seminário “Regiões e Cidades, Cidades bio Internacional, foi constituído um Comitê de
nas Regiões”. Assessoria e Apoio Executivo à Presidência e à Se-
b) Mapeamento institucional e acadêmico das institui- cretaria, e estruturado o Conselho de Representan-
ções integrantes. Foi veiculado dentro do site tes que havia sido aprovado na Assembléia de 1999
www.anpur.org.br o mapeamento das 33 institui- para constituir um fórum consultivo.
ções filiadas/associadas à Anpur, organizado segun- f) Fomento. Os recursos que passaram a ser recolhidos
do os Estados/regiões do País e as áreas em que mediante pagamento de anuidades pelas entidades
atuam na formação acadêmica e em pesquisa. A ser associadas/filiadas, conforme proposta do Plano de
ampliado e aprimorado nas próximas gestões, in- Ação aprovada na Assembléia de 1999, vieram con-
cluiu informações relativamente simples mas sufi- trabalançar relativamente a perda de amplitude do
cientes para identificar a Anpur como uma associa- apoio financeiro dado tradicionalmente à Anpur
ção que reúne uma diversidade de especializações pela Finep, que teve funções e objetivos redireciona-
acadêmicas e se define pela articulação de um cam- dos pelo MCT para o campo empresarial e, com is-
po de conhecimento científico – teórico e aplicado so, restringiu o financiamento à área acadêmica. A
– sobre o desenvolvimento urbano e regional e seu venda de revistas passou a constituir outra nova
planejamento. Foi criado também um cadastro in- fonte de recursos, embora insuficiente para a manu-
formatizado abrangendo cerca de mil e setecentos tenção da publicação. Uma prioridade da Diretoria

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1999-2001 foi trabalhar para conseguir fontes per- Novembro de 2000. Nesta fase inicial, a prioridade es-
manentes de financiamento para a Revista Brasilei- sencial foi criar e manter um fluxo de trabalho contí-
ra de Estudos Urbanos e Regionais e para o Prêmio nuo entre autores, editora e conselho editorial visando,
Brasileiro “Planejamento Urbano e Regional”. Os antes de mais nada, consolidar a revista. Há muito ain-
recursos para realizar o IX Enanpur e o seminário da que fazer: indexá-la, estabelecer permutas de índices
nacional “Regiões e Cidades, Cidades nas Regiões” com outros periódicos (conforme feito com EURE no
foram, como de costume, solicitados às instituições número 2), estudar uma política em relação ao meio
de fomento ao ensino e à pesquisa. eletrônico (vide SciELO, portal de periódicos Capes),
ampliar assinaturas e vendas etc.
REVISTA BRASILEIRA Gradualmente foi sendo organizado um sistema
DE ESTUDOS URBANOS inicial de distribuição, abrangendo doação a bibliote-
E REGIONAIS cas para divulgação, campanha de assinaturas, distri-
buição às instituições filiadas/associadas para venda,
Quando nossa Diretoria tomou posse, em maio criação de pontos de venda em livrarias dentro e fora
de 1999, tinha acabado de ser lançado o primeiro nú- dos campi universitários, venda em eventos, estímulo à
mero da revista e tudo o mais estava por ser feito. In- organização de lançamentos dos novos números em di-
vertendo-se os papéis, Norma Lacerda, a ex-presidente ferentes cidades, tendo ocorrido vários por iniciativa
responsável pelo lançamento da revista, foi convidada dos membros da Diretoria e da comissão editorial. Fi-
a assumir o cargo de editora responsável. A revista pas- cou também decidido que ex-presidentes e ex-secretá-
sou a ficar sediada no MDU/UFPE, foi mantida a rio/as executivo/as têm direito a sempre receber um
mesma comissão editorial e criado o cargo de editora exemplar de cada número da Revista Brasileira de Estu-
assistente, assumido por Lúcia Leitão. dos Urbanos e Regionais, como uma retribuição simbó-
A Revista Brasileira de Estudos Urbanos e Regionais lica da Anpur ao que deram de si a ela os seus ex-diri-
foi registrada no Ibict e ganhou seu ISSN. Durante a gentes – o que fizemos com os números 1, 2 e 3 e a
gestão de nossa Diretoria vieram a público os números nova Diretoria da Anpur continuou a fazer, ao distri-
2 e 3, estando o número 4 pronto em maio de 2001, buir a edição número 4.
apenas aguardando a liberação dos recursos pedidos ao A Revista Brasileira de Estudos Urbanos e Regionais
CNPq para ser impresso.3 Nesse período a Revista Bra- nesse período foi editada em Recife, mas produzida em
sileira de Estudos Urbanos e Regionais foi classificada pe- São Paulo e distribuída pela Secretaria Executiva – es-
la Capes na categoria nacional nível A e incluída na lis- sa foi a solução possível, temporariamente convenien-
ta Qualis da área de Planejamento Urbano e Regional. te, mas que deve ser reestudada pelas Diretorias futu-
A norma do CNPq é somente financiar revistas ras tendo em vista alcançar uma solução mais
cuja circulação já se mostrou estável e, portanto, provi- permanente e profissional.
denciamos o financiamento dos três primeiros números Na ocasião do IX Encontro foi pedido à Comis-
– com recursos Finep oriundos da gestão anterior e com são Editorial que fizesse uma avaliação do regimento
recursos negociados com o Lincoln Institute of Land interno da revista, com base nesses primeiros dois anos
Policy nas duas gestões – antes de solicitar recursos. de experiência. Ficou estabelecido pela Assembléia de
A criação da Revista Brasileira de Estudos Urbanos 2001 que decisões sobre o funcionamento da revista
e Regionais só foi realmente completada ao finalizar-se poderão ser tomadas no âmbito da própria revista, não
a composição do seu conselho editorial, amplo e repre- precisando ser submetidas à aprovação da Assembléia.
sentativo, criado mediante a indicação de nomes pelas Nessa oportunidade, a editora Norma Lacerda pediu
instituições integrantes da Anpur, e que passou a fazer afastamento do cargo devido a uma sobrecarga de
parte dos créditos da revista a partir do número 3 – compromissos profissionais e, para substituí-la, foi no-
meado Marco Aurélio Filgueiras Gomes como novo
3 O número 4 da Revista Brasileira de Estudos Urbanos e Regionais editor da Revista Brasileira de Estudos Urbanos e Regio-
acabou sendo impresso com recursos que havíamos deixado em cai-
xa para a próxima gestão, conforme decisão tomada em comum com
nais, que, com isso, teve sua sede transferida para a Fa-
a nova Diretoria, no período de transição entre uma e outra. culdade de Arquitetura da UFBa.

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OUTRAS PUBLICAÇÕES O site informa o que é a Anpur, mapeia suas áreas


DA ANPUR de atuação e noticia as realizações nos seus vários âm-
bitos de atuação, incluindo tanto informações do pre-
ANAIS sente como o patrimônio de realizações já acumulado.
Os Anais do VIII Encontro Nacional da Anpur fo- Apresenta a Anpur por meio de seu histórico, do ma-
ram publicados em forma de CD-Rom, conforme pre- peamento das instituições associadas/filiadas e do seu
visto pela Comissão Organizadora do VIII ENA, e distri- estatuto; informa sobre a diretoria atual e as anteriores;
buídos pelo correio por Décio Rigatti, coordenador e expõe suas áreas de atuação: a Revista Brasileira de Es-
daquela Comissão. tudos Urbanos e Regionais, com todos os números pu-
Os Anais do IX Encontro Nacional da Anpur fo- blicados incluindo capa, índice e resumos dos artigos
ram impressos em papel, em três volumes, e distri- (em português e inglês); outras publicações, incluindo
buídos pela secretaria do evento, no Hotel Glória, os Anais dos Encontros Nacionais e os livros publica-
dentro das pastas entregues aos participantes no iní- dos; os eventos e atividades programados e em realiza-
cio do Encontro. ção; a premiação em curso e as anteriores (regulamen-
Os Anais do IV Encuentro de Posgrados sobre De- to, júri e premiados); as atividades de intercâmbio
sarrollo y Políticas Territoriales de los Países Del Cono internacional; o IX Encontro Nacional, abrangendo in-
Sur foram enviados por correio aos participantes, em formações sobre a organização do evento, os prazos pa-
dezembro de 2001, por Rosélia Piquet e Angela Penal- ra apresentação de trabalhos e o acompanhamento do
va Santos, coordenadoras da organização do evento. processo de seleção, informações sobre viagens, a reali-
zação do evento e o programa do Encontro.
LIVRO O site foi construído com informações básicas
Está sendo preparado para publicação o livro sobre as instituições integrantes da Anpur, as quais
Regiões e cidades, cidades nas regiões: o desafio urbano- deverão, com mais tempo, ser ampliadas e aprimora-
regional brasileiro, reunindo os trabalhos apresenta- das. Foi projetada mas não implantada uma página
dos no seminário nacional de mesmo nome, numa “Anpur on line”, que deve abranger lista de discussão,
co-edição Anpur/Editora da Unesp que será lançada debate e um boletim eletrônico. A manutenção do si-
por ocasião do X Encontro Nacional da Anpur, em te é uma atividade imprescindível e trabalhosa, já que
Belo Horizonte. é um veículo que supõe atualização e desenvolvimen-
to permanentes.
HOMEPAGE Notoriamente, é um avanço que abre para a
Após tentativas nas duas últimas gestões, final- Anpur inúmeras novas possibilidades de trabalho e
mente foi para o ar a homepage da Anpur! Foi criada de comunicação.
com o endereço www.anpur.org.br e hospedada em
máquina da Unicamp, com o compromisso de aí per- IMAGEM INSTITUCIONAL
manecer até final de 2001, acertado com a Direção do E COMUNICAÇÃO COM
Instituto de Economia, tendo em vista garantir tempo O PÚBLICO
suficiente para que a Diretoria 2001-2003 pudesse es-
tudar e decidir novas diretrizes. Deve ser complemen- NOVO LOGOTIPO
tada e ampliada, e requer manutenção e atualização Cuidou-se para que se estabelecesse relativa uni-
permanentes. dade da imagem gráfica da Anpur e foi atualizado o
Fazer a homepage foi um projeto particularmente desenho da sua marca, criando-se um novo logotipo
caro à presidente, assumido pessoalmente. Procurou-se combinado com a concepção da linguagem visual da
fazer um site alegre, colorido e de leitura agradável. Seu homepage e, conseqüentemente, originando uma rede-
projeto contou com a colaboração de Camila de Al- finição da papelaria institucional, que começou a ser
meida e a qualidade visual de sua realização é devida ao utilizada ao final de nossa gestão.
arquiteto Renato Mello, responsável pelo design, sob o O novo logotipo foi utilizado na bolsa distribuí-
crédito Motiondesign. da aos participantes inscritos no IX Encontro Nacional,

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por iniciativa dos organizadores do evento, numa pri- Unicamp, em Campinas, onde também se realizou a
meira e feliz aplicação da marca. reunião do júri para a escolha dos premiados. A secre-
taria ficou a cargo de Camila de Almeida, que aprovei-
CADASTRO tou essa oportunidade para dar grande impulso à estru-
Com a generalização do uso de correio eletrôni- turação e alimentação do cadastro da Anpur.
co, foi necessário reorganizar o cadastro de pessoas in- O edital foi publicado no Diário Oficial da
teressadas em manter proximidade à Anpur, pelo regis- União em 1º de dezembro de 2000 e as inscrições se
tro sistemático de informações em todo e qualquer encerraram em 31 de janeiro de 2001, após ampla di-
contato estabelecido entre a Anpur e o público: lança- vulgação – uma vez no início e outra no fim desse pe-
mentos da revista, listas de presença nos eventos reali- ríodo – através de mensagens eletrônicas (informando
zados, distribuição da revista, inscrições para o Prêmio, e pedindo divulgação) enviadas para: todas as institui-
resumos enviados para o IX ENA e, de modo geral, na ções filiadas e associadas; aos cerca de 800 inscritos no
ocasião de qualquer pedido de informação sobre ativi- IX ENA; às instituições filiadas à Anpocs, Anpec e An-
dades da Anpur. pege; à Abep, Ancib e SBPC; à Fundap, ao Seade e de-
Chegou-se a pouco mais de 1.700 nomes, e a mais instituições congêneres; aos cursos da área urbana
atualização do cadastro pode passar a ser feita no site e regional das principais universidades do País encon-
da Anpur. trados via Internet; aos jornais eletrônicos da SBPC e do
CPDOC/FGV; ao Prossiga/CNPq; a alguns veículos im-
REUNIÕES DE INFORMAÇÃO SOBRE A ANPUR pressos da grande imprensa diária e da imprensa uni-
Em todos os deslocamentos da Presidência no versitária.
território nacional foi pedido previamente a uma insti- Foram inscritos 67 trabalhos, assim distribuídos:
tuição da região visitada que organizasse uma reunião 14 livros, 15 teses de doutorado, 26 dissertações de
convidando representantes das instituições locais filia- mestrado e 12 artigos. O total de inscrições correspon-
das/associadas e, também, representantes de institui- de a cerca de cinco vezes o número de trabalhos inscri-
ções não-integrantes mas interessadas em conhecer tos na primeira edição do Prêmio, em 1998. Os jura-
mais de perto a Anpur. dos reuniram-se durante dois dias em Campinas, nas
Foram feitas reuniões assim em Belém, São Luiz, dependências do Instituto de Economia da Unicamp,
Natal, Recife, Salvador, Brasília, Florianópolis, Rio de e em 26 de abril de 2001 a presidente do júri informou
Janeiro e São Paulo, das quais resultou a troca de infor- à presidência da Anpur o resultado da premiação.
mações e o revigoramento de laços entre a Anpur e Os prêmios foram anunciados por carta aos res-
seus integrantes, a reaproximação com instituições que pectivos ganhadores e em 30 de maio de 2001, dentro
haviam se distanciado da Anpur e, também, a organi- do IX ENA, foram entregues em solenidade pública os
zação do seminário “Regiões e Cidades, Cidades nas certificados aos premiados: “A Ordem Urbana Walra-
Regiões”. so-Thütneniana e suas Fissuras: o Papel da Interdepen-
dência nas Escolas de Localização”, de Pedro Abramo,
II PRÊMIO BRASILEIRO “POLÍTICA E na categoria Artigo; “Formas Urbanas. Cidade Real &
PLANEJAMENTO URBANO E REGIONAL” Cidade Ideal. Contribuição ao Estudo Urbanístico de
Foi conferida pela segunda vez a premiação, ago- Salvador”, de Antonio Heliodório Lima Sampaio, na
ra dentro do Encontro Nacional da Anpur. Integraram categoria Livro; Menção Especial de Livro a “Desequi-
o júri os professores Clélio Campolina Diniz líbrios Regionais e Concentração Industrial no Brasil
(UFMG), Luiz Antonio Machado da Silva (Iuperj), (1930-1995)”, de Wilson Cano; divisão do Prêmio de
Maria Adélia Aparecida de Souza, que o presidiu (Uni- Dissertação de Mestrado entre “A Experiência da Auto-
camp/USP), Pasqualino Magnavita (UFBA), Wrana gestão em Ipatinga: uma busca pelo Conceito”, de Al-
Maria Panizzi (UFRGS) e, como suplente, Murilo fio Conti, e “Largo da Misericórdia”, de Jacques Sillos
Marx (USP). de Freitas; divisão do Prêmio de Tese de Doutorado en-
A organização desta atividade ficou diretamen- tre “Espaços Metropolitanos em Tempos de Globaliza-
te subordinada à presidência e sediada no Nesur-IE/ ção: um Estudo de Caso sobre o Rio de Janeiro”, de

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Glauco Bienenstein, e “Os Rumos da Cidade: Urba- encaminhada para a próxima Diretoria a indicação dos
nismo e Modernização em São Paulo”, de Cândido nomes de Mauricio de Abreu e de Murilo Marx (este
Malta Campos Neto. último, suplente em 2001, para titular em 2003).
A avaliação das duas premiações mostrou a neces-
sidade de adequar à prática o regulamento do Prêmio. SEMINÁRIO NACIONAL
A experiência mostrou duas ordens de problemas: a) é “REGIÕES E CIDADES,
muito trabalhoso e instável ter que providenciar finan- CIDADES NAS REGIÕES: A
ciamento a cada premiação – é preciso encontrar uma ESPACIALIDADE DO DESEN-
solução mais permanente, que tenha continuidade VOLVIMENTO BRASILEIRO”
gestão após gestão; b) o regulamento aprovado em
1997 é muito aberto, e omisso em pontos importantes Partindo do princípio de que é papel da Anpur
– é preciso revê-lo. Além dessa avaliação da diretoria, posicionar-se em sua área de competência acadêmica e
foi também pedido aos jurados discutir a adequação formular uma agenda alternativa para a proposição do
do regulamento. desenvolvimento regional e urbano nacional, o Semi-
No que diz respeito a recursos, seguindo o que foi nário visou os seguintes objetivos:
feito quando da primeira edição do Prêmio, foram fei- a) analisar a dinâmica espacial do desenvolvimento
tas gestões junto à Secretaria de Desenvolvimento Ur- brasileiro, integrando as dimensões urbana e regio-
bano da Presidência da República (SEDU) para o finan- nal;
ciamento da premiação. Além disso, foi feita uma b) discutir o desenvolvimento urbano-regional numa
consulta à vice-presidente do CNPq, Alice Paiva abordagem multidisciplinar;
Abreu, sobre a possibilidade de concessão de prêmios c) preparar e realizar uma reunião nacional que cons-
pelo CNPq em créditos abertos aos ganhadores, na trua uma referência para a formulação de propostas
forma de bolsa ou auxílio em categorias diversas, como de desenvolvimento e planejamento urbano-regio-
um procedimento a ser institucionalizado e que vales- nal;
se para as premiações futuras. Nesta segunda edição do d) fortalecer o papel da Anpur como criadora de um
Prêmio Brasileiro, a reunião do júri acabou sendo rea- espaço de interlocução a respeito das questões urba-
lizada mediante o apoio financeiro do Nesur-IE/Uni- na e regional;
camp e a premiação e pró-labore aos jurados foram in- e) estimular a filiação à Anpur de entidades afins, de
corporados ao orçamento do IX Encontro Nacional. modo que ela venha de fato a representar todo o
Na Assembléia Geral da Anpur, em 2001, ficou universo de instituições de ensino e/ou pesquisa
aprovada a criação de um Grupo de Trabalho para, em atuantes no campo dos estudos urbanos e regionais;
um tempo determinado, propor a reformulação do re- f) discutir os “Eixos Nacionais de Integração e Desen-
gulamento do Prêmio Brasileiro “Política e Planeja- volvimento” propostos nos programas “Brasil em
mento Urbano e Regional”, levando em conta as su- Ação” e “Avança Brasil”, estratégia espacializada de
gestões de mudança elaboradas pelo júri do II Prêmio desenvolvimento do governo federal.
(2001) e a possibilidade aberta pela vice-presidente do O Seminário teve cinco sessões regionais e uma
CNPq, quando consultada, de serem estudadas alter- conclusiva nacional, todas realizadas sob o mesmo tí-
nativas para a concessão de prêmios em créditos aos tulo geral e discutindo o temário proposto no projeto.
ganhadores, na forma de bolsas ou outras categorias de Foram sugeridas algumas questões gerais de referência:
auxílio disponíveis no CNPq. quais as questões consideradas cruciais, hoje, nos
A Assembléia também autorizou a Diretoria a estudos (urbanos, regionais, urbano-regionais) desen-
proceder às mudanças que julgar necessárias e adequa- volvidos nas instituições da região? Quais os possíveis
das no regulamento do Prêmio Brasileiro “Política e impactos (nacionais e regionais) dos Eixos Nacionais
Planejamento Urbano e Regional”, assim como a esco- de Integração e Desenvolvimento? Qual a importância
lher os jurados, sem que seja necessário submeter essas estratégica dos investimentos nele indicados tendo
decisões à aprovação pela Assembléia, alterando deste em vista os principais problemas e prioridades regio-
modo o que era determinado pelo regulamento. Foi nais? Que questões deveriam ser contempladas na

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 5 / MAIO 2002 105


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formulação de uma política regionalizada de desenvol- sentido de ser retomada a organização de seminários
vimento para o Brasil? temáticos regionais.
Foram propostas questões específicas, para balizar Concluindo o circuito desta atividade, está sendo
essa discussão indicada acima: que urbano e que regio- produzida a publicação da coletânea Regiões e cidades,
nal? – questão que se desdobra em outras: que critérios cidades nas regiões: o desafio urbano-regional brasileiro,
e escalas de região são importantes/adequados, hoje, organizada por M. F. Gonçalves, C. A. Brandão e A. C.
para apreender as dimensões mais significativas das se- Galvão, cujo lançamento deverá ocorrer no X Encon-
melhanças/diferenças naturais e construídas no espaço tro Nacional da Anpur, em Belo Horizonte, numa co-
social brasileiro? Que escalas de urbano são mais signi- edição Anpur/Editora da Unesp.
ficativas (e importantes de serem estudadas) nas dife- O Seminário foi realizado com recursos da Finep,
rentes macrorregiões brasileiras? Como se articulam CNPq e Fapesp, contando também com o apoio das
urbano e regional na dinâmica espacial da região? E, instituições que organizaram as sessões regionais. O li-
por consequência, que planejamento? – o que envolve vro está sendo produzido com apoio financeiro do
conclusões evidentes de imediato e questões a serem CNPq e da Finep, que deste modo colaboram para a
investigadas e aprofundadas. divulgação mais ampla dos resultados do evento cuja
A propósito dessas indagações, aplicadas em maior realização financiaram.
ou menor medida às especificidades regionais, desen-
volveram-se as discussões nas seis sessões realizadas: EVENTOS COM
Sessão Centro-Oeste, na UnB, Brasília, em 10 e 11 de APOIO DA ANPUR
julho de 2000, dentro da 52ª Reunião Anual da
SBPC, organização de Frederico de Holanda e Ma- Encontro com a Planners Network: Planejadores
rília Steinberger; urbanos e justiça social – São Paulo (SP), 10 de dezem-
Sessão Sul, na UFSC, Florianópolis, em 17 e 18 de ju- bro de 1999, promoção de núcleos de pesquisa e pro-
lho/2000, dentro do XII Encontro Nacional dos gramas de ensino pós-graduado em Arquitetura e
Geógrafos, organização de Cássio Rolim (Anpur) e Urbanismo da USP, PUCCAMP, USP-São Carlos e Mac-
Sérgio Martins (AGB); kenzie e das entidades Unitrabalho, Nepur-PUCSP,
Sessão Norte/Nordeste, na UFBa, Salvador, em 4 e 5 de NHDU-Unitau, Fenea-SP e Anpur; organização de Er-
dezembro de 2000, organização de Ana Fernandes; mínia Maricato, João Sette Whitacker Ferreira e Ma-
Sessão Sudeste/MG, na UFMG, Belo Horizonte, organi- riana Fix.
zação de Clélio Campolina Diniz e Geraldo Mage- VIII Colóquio Internacional sobre o Poder Local –
la Costa, em 22 de dezembro de 2000; Salvador (BA), 9 a 11 de dezembro de 1999, promo-
Sessão São Paulo, na FAU/USP, organização de Carlos ção do Nepol/UFBA, coordenação de Tânia Fischer.
Antônio Brandão, desdobrada em duas reuniões: a IX Congresso Ibero-Americano de Urbanismo –
primeira em 10 de novembro de 2000 e a segunda Recife (PE), 27 a 30 de novembro de 2000, promoção da
em 23 de março de 2001; Prefeitura do Recife, Governo do Estado de Pernambu-
Sessão conclusiva nacional: “O desafio urbano-regional co, Associación Española de Tecnicos Urbanistas, As-
na construção de um projeto de nação”, no IE/ sociação dos Urbanistas Portugueses e apoio do MDU/
Unicamp, Campinas, em 5 e 6 de abril de 2001, or- UFPE, IBAM, IAB, Fundarpe, Emprel, além da Anpur.
ganização de Carlos Antônio Brandão e Antônio VI Seminário de História da Cidade e do Urbanis-
Carlos Galvão e colaboração de Nádia Somekh, mo – Natal (RN), 24 a 27 de outubro de 2000, pro-
com a participação de representantes dos seminá- moção da FAU/UFRN e MDU/UFPE, coordenação de Sô-
rios regionais e outros cientistas sociais convidados. nia Marques.
Oficina: Metodologias de Avaliação de Projetos
A organização deste Seminário satisfez também à de Desenvolvimento Local (Programa de Desenvolvi-
demanda de diversas instituições associadas/filiadas, mento Local e Gestão Social) – Salvador (BA), 5 a 7 de
expressa na reunião para o Plano de Ação realizada em fevereiro de 2001, promoção do Nepol/UFBA, coorde-
São Paulo, e reiterada no Encontro de Porto Alegre, no nação de Tânia Fischer.

106 R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 5 / MAIO 2002


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IX ENCONTRO Lia Osorio Machado (UFRJ) e Carlos Antonio Brandão


NACIONAL DA ANPUR (Unicamp) pela ST-2, “Reconfiguração do espaço ur-
bano e regional”; Marco Aurélio A. de Filgueiras Go-
O IX Encontro Nacional da Anpur foi realizado mes (UFBA) e Margareth da Silva Pereira (UFRJ) pela
no Hotel Glória, no Rio de Janeiro, de 28 de maio a ST-3, “Cidade e urbanismo – história, forma e proje-
1º de junho de 2001. A Comissão Organizadora foi to”; Edna Castro (UFPA) e Ana Fani Alessandri Carlos
coordenada por Henri Acselrad (IPPUR/UFRJ) e (USP) pela ST-4, “Sociabilidade urbana, conflitos so-
composta por Angela Fontes (IBAM), Luiz Antonio ciais e território”; Heloisa Soares de Moura Costa
Machado da Silva (Iuperj), Marcelo Lopes de Souza (UFMG) e Philip Gunn (USP) pela ST-5, “Novas insti-
(Departamento de Geografia/UFRJ) e Rachel Coutinho tuições e territorialidades sociais motivadas pela
(Prourb/FAU-UFRJ). A Secretaria do evento ficou sedia- questão ambiental”; Ricardo Farret (UnB) e Angela
da no Ippur/UFRJ, integrada por Andrea Paulo da Cu- Gordilho Souza (UFBA) pela ST-6, “Estruturação intra-
nha Pulici e Elisabeth Alves Peixoto. urbana, política fundiária e a questão da moradia”;
Foi um grande encontro, que mobilizou de for- Circe Maria Gama Monteiro (UFPE) e Eva Machado
ma significativa pesquisadores de todo o País, como o Barbosa Samios (UFRGS) pela ST-7, “Temas emergen-
atestam os 719 resumos e 385 trabalhos completos en- tes: tecnologia, novas linguagens e processos espaciais”.
caminhados à comissão organizadora. Os artigos pro- As sete sessões temáticas tiveram títulos e ementas
vieram de 14 Estados da Federação e dois vieram da definidos de modo a reproduzir, com ajustes, as gran-
Argentina. Os trabalhos originários dos Estados de São des linhas de discussão da Anpur. As sessões temáticas
Paulo e do Rio de Janeiro, onde estão 16 das 33 insti- que atraíram o maior número de trabalhos enviados
tuições anpurianas, perfizeram mais da metade do to- foram: “Reconfigurações do espaço urbano e regional”
tal; entretanto, a participação paulista no total de tra- (81 trabalhos), “Escalas de poder e novas formas de
balhos completos (31%) foi menor que a proporção gestão urbana e regional” e “Cidade e urbanismo – his-
das instituições paulistas dentro da Anpur (33%); a tória e forma e projeto” (56 trabalhos cada).5
participação de artigos provenientes do Rio de Janeiro Entre os trabalhos definitivos, 156 foram sele-
(25%), onde se realizou o evento, foi, compreensivel- cionados para apresentação oral e 96 para serem apre-
mente, superior ao peso desse Estado no número de as- sentados sob a forma de posters. Como houve um cer-
sociados/filiados (15%). Foi significativa a participa- to número de artigos tratando de instrumentos de
ção de trabalhos originários de Minas Gerais (11%) e planejamento, foi criada uma “Oficina de Instrumen-
do Rio Grande do Sul (10%), Estados que estão repre- tos de Planejamento” para reuni-los. Esses trabalhos,
sentados na Anpur, cada um, por 6% das instituições. assim como os apresentados em posters, não foram
Note-se que só 4% dos trabalhos são provenientes de publicados nos Anais, mas sua seleção foi devidamen-
Estados (do Nordeste) que não estão representados na te registrada.
Anpur.4 Os selecionados para apresentação oral foram pu-
A comissão científica foi formada por 14 mem- blicados nos Anais do IX Encontro Nacional da Anpur,
bros, respeitando critérios de representatividade da di- onde os trabalhos de cada Sessão Temática foram pre-
versidade dos programas e núcleos de pesquisa filiados cedidos por um pequeno texto elaborado pelos dois
à Anpur, tanto no que se refere ao recorte regional coordenadores responsáveis por sua seleção, ressaltando
como ao disciplinar. Integraram esta Comissão: Ana as idéias matrizes condutoras desse conjunto de traba-
Clara Torres Ribeiro (UFRJ) e Leila Christina Dias lhos. Os Anais totalizaram 1.848 páginas, distribuídas
(UFSC), responsáveis pela Sessão Temática 1, “Escalas
de poder e novas formas de gestão urbana e regional”; 5 Dos 385 trabalhos definitivos encaminhados foram selecionados
156 para apresentação oral. Os 385 artigos resultaram distribuídos
entre as Sessões Temáticas segundo as seguintes proporções: ST-1:
4 A distribuição regional dos textos completos recebidos foi a seguin- 56 trabalhos; ST-2: 81 trabalhos; ST-3: 56 trabalhos; ST-4: 52 tra-
te: 120 de SP; 97 do RJ; 43 de MG; 37 do RGS; 15 do PA; 12 de balhos; ST-5: 46 trabalhos; ST-6: 48 trabalhos e ST-7: 46 trabalhos.
SC; 11 de PE; 10 da BA; 10 do DF; 8 do PR; 6 do RGN; 6 do CE; Os 156 selecionados para apresentação oral distribuíram-se assim pe-
5 de AL; 3 da PB; e 2 da Argentina. Nos Estados que estão represen- las Sessões Temáticas: ST-1: 22 trabalhos; ST-2: 24 trabalhos; ST-
tados na Anpur, nem todos os trabalhos são provenientes de pesquisa- 3: 23 trabalhos; ST-4: 23 trabalhos; ST-5: 24 trabalhos; ST-6: 23 tra-
dores pertencentes a instituições associadas/filiadas. balhos; e ST-7: 17 trabalhos.

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 5 / MAIO 2002 107


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em três volumes, e foram entregues a todos os partici- na: desafios éticos e legais” e “As políticas urbanas e
pantes no momento de sua inscrição no Encontro.6 habitacionais e o Estatuto da Cidade”. As conferências
A Comissão Científica concluiu a seleção dos tra- de abertura e de conclusão do Encontro foram pro-
balhos a serem apresentados no IX ENA após dois dias nunciadas por Bishwapryia Sanyal, chefe do Departa-
de reunião, em que esteve presente também a diretoria mento de Planejamento Urbano e Regional do Massa-
da Anpur. A seleção foi feita a partir da leitura de có- chussetts Institute of Technology, e por Eric
pias sem menção de autoria. A autoria dos trabalhos Swyngedouw, do Departamento de Geografia da Uni-
não selecionados foi mantida desconhecida mesmo pa- versidade de Oxford.
ra a própria comissão científica. Desde a primeira reunião para a organização do
Somente após a escolha dos trabalhos foram veri- IX Encontro, realizada no Ippur/UFRJ em março de
ficados os nomes dos autores dos textos selecionados; 2000, ficou assente a perspectiva de que o Encontro
aplicou-se então a norma definida pela comissão orga- Nacional da Anpur deve ser não só um encontro aca-
nizadora, segundo a qual um mesmo autor só poderia dêmico mas um grande momento de encontro nesse
ter dois trabalhos aprovados para apresentação oral campo de ensino e pesquisa, isto é, um espaço de tro-
unicamente no caso de um deles ser em co-autoria. Pa- ca de informações, de explicitação de interesses, de
ra os trabalhos selecionados para apresentação sob a estabelecimento de parcerias, de ampliação de perspec-
forma de poster, não houve restrição ao número de tra- tivas, de convergência para todas as redes instituciona-
balhos aprovados por autor. Durante o Encontro, a co- lizadas e informais de pesquisadores e, se possível, de
missão científica selecionou o melhor poster por sessão oportunidade de comunicação entre representantes das
temática, que recebeu um certificado. sociedades científicas de todos os campos disciplinares
A seleção dos trabalhos teve por base critérios re- presentes na Anpur – a qual, por sua multidisciplina-
lativos à qualidade e caráter inovador dos textos, assim riedade é, por excelência, um espaço para a descoberta
como à sua capacidade de favorecer o debate. Sem dú- de afinidades e troca de experiências entre diferentes.
vida, dado o grande número de trabalhos apresentados, Nesta perspectiva, a Anpur deu início à organiza-
muitos textos de boa qualidade não puderam ser incluí- ção do Encontro já contando com acolher, dentro do
dos. O conjunto dos textos encaminhados permitiu, seu espaço, redes de pesquisa com relações já estabele-
porém, a configuração de um amplo panorama da pes- cidas com a Anpur, como a Planners Network e a Red
quisa sobre Planejamento Urbano e Regional, ajudan- Iberoamericana de Investigadores sobre Globalización
do os membros da comissão científica a produzir os ba- y Territorio.
lanços do estado da arte, para as respectivas sessões Tradicionalmente, o Encontro Nacional tem sido
temáticas, que foram incluídos nos Anais do Encontro. uma oportunidade para estreitar laços com instituições
O IX Encontro contou, ainda, com seis mesas re- congêneres de outros países, particularmente das
dondas, voltadas para a discussão de questões atuais Américas. Desta vez, o IX Encontro ofereceu excelente
da conjuntura nacional: “Violência nas cidades – di- oportunidade para a ampliação dos laços de intercâm-
mensões socioespaciais e sanitárias”, “Desenvolvimen- bio internacional, fazendo o contato entre as institui-
to regional e sistemas locais de inovação”, “Os eixos ções amigas latino-americanas ou a norte-americana
continentais de integração e as implicações territoriais ACSP, que vêm frequentando os nossos Encontros, com
da Alca”, “A pós-graduação e a política de fomento ao representantes de outras associações congêneres reuni-
ensino e à pesquisa”, “Terra urbana na América Lati- das no percurso de conversações para uma articulação
internacional, a ser formalizada na ocasião do 1º Con-
6 Uma síntese das principais questões que motivaram os trabalhos gresso Mundial de Escolas de Planejamento (I World
selecionados para o IX Encontro, sob o título “Pensamento e ação so- Planning Schools Congress) programado para Shan-
bre o território – um balanço reflexivo do IX Encontro Nacional da An-
pur”, foi publicada na seção “eventos” da revista Pós número 10, de- gai, China, em julho de 2001.
zembro de 2001 (revista do programa de pós-graduação em Deste modo, várias atividades dentro do IX En-
Arquitetura e Urbanismo da FAU/USP), preparada por Henri Acselrad,
coordenador da comissão organizadora, tendo por base a leitura que contro desempenharam um papel articulador. Na for-
deles fizeram os próprios membros da comissão científica, expressa
nos textos introdutórios a cada Sessão Temática nos Anais do IX En-
ma de mesas redondas formais, desenvolveram-se arti-
contro Nacional da Anpur. culações em que a Anpur está diretamente envolvida:

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a) a mesa redonda internacional organizada e coorde- sitária José Bonifácio (UFRJ), da FAU/USP e do Nesur-
nada pela Anpur para discutir o tema “Em direção ao IE/Unicamp.
século XXI: a nova agenda urbana”, reunindo repre-
sentantes da ACSP (EUA), Universidad de los Andes RELAÇÕES INTERNACIONAIS
(representando a associação colombiana e a América
Latina), AESOP (Europa), ASRDLF (França) e An- A existência de um conjunto de demandas rela-
pur, em que o representante da AESOP era também o cionadas ao exterior do país sugeria a necessidade de se
coordenador do Comitê Organizador do Congresso organizar um grupo de assessoria que ajudasse a Dire-
Mundial de Shangai; b) as duas mesas redondas que toria da Anpur a unificar e organizar suas relações ex-
integraram o IV Encuentro de Posgrados sobre Desar- ternas. Essas demandas eram: a proximidade da reu-
rollo y Políticas Territoriales y Urbanas de los Países del nião da ACSP no ano 2000, o início da organização do
Cono Sur, promoção conjunta da Anpur e da Red Ibe- World Planning Schools Congress (Shangai, julho de
roamerica de Investigadores en Globalización y Terri- 2001), a situação irresoluta do Prêmio Latino-Ameri-
torio, organizado por Rosélia Piquet (UFRJ) e Angela cano (aprovado pela Assembléia da Anpur de 1997
Penalva Santos (UERJ) e realizado nas manhãs dos dias mas não implantado por dificuldades operacionais), e
30 e 31 de maio.7 o compromisso assumido com a Red Iberoamericana
Muitas das sessões livres consistiram em encon- de Investigadores en Globalización y Territorio de or-
tros entre redes de pesquisa formais e informais: reu- ganizar, no Brasil, o IV Encuentro de Posgrados sobre
nindo pesquisadores latino-americanos e europeus em Desarrollo y Políticas Territoriales de los Países Del
torno de temas como políticas urbanas comparadas e Cono Sur.
transformações na América Latina e Europa relaciona- Em carta de 12 de maio de 2000, foi feito um
das à globalização; reunindo pesquisadores brasileiros convite formal a Carlos Vainer, que quando presiden-
em torno de temas tão diversos como a articulação en- te da Anpur tinha desenvolvido iniciativas nessa dire-
tre pesquisadores, ativistas e planejadores urbanos no ção, para que “ajudasse a estruturar de modo mais per-
Brasil, estudos lefebvrianos, o urbanismo modernista manente dentro da Anpur o campo das atividades de
no Brasil, metrópoles, população e meio ambiente, re- intercâmbio internacional, assumindo a função de
presentações do espaço, a pesquisa ligada ao meio ele- pensar, propor e discutir com esta Diretoria o embrião
trônico, e outros. de um Comitê de Intercâmbio Internacional, a ser im-
O IX Encontro incluiu ainda duas reuniões do plantado ainda nesta gestão”.
conselho de representantes criado na Assembléia de Dada a premência de tempo com que os aconte-
1999, uma reunião da comissão editorial da Revista cimentos foram exigindo respostas e soluções, um co-
Brasileira de Estudos Urbanos e Regionais e a atribuição mitê propriamente não foi constituído, mas a ativida-
do Prêmio Brasileiro “Planejamento Urbano e Regio- de seguiu em frente: Carlos Vainer assumiu o papel de
nal”; além de, como de costume, a realização da As- representante da Anpur em relações internacionais e,
sembléia Geral da Anpur. nessa qualidade, organizou, junto com a Diretoria, a
Este Encontro Nacional da Anpur foi realizado participação da Anpur no Congresso Mundial de
com o apoio financeiro do BNDES, Caixa Econômica Escolas de Planejamento (I World Planning Schools
Federal, Capes, CNPq, Finep, Lincoln Institute of Congress) programado para ser realizado em Shangai,
Land Policy, Ministério da Ciência e Tecnologia, Mi- na China, de 11 a 15 de julho de 2001, organizado
nistério da Saúde, Prefeitura do Rio de Janeiro, Secre- por quatro associações: a norte-americana ACSP, a eu-
taria do Desenvolvimento Urbano da Presidência da ropéia AESOP, a asiática APSA e a australiana e neo-ze-
República, Faperj e fundações estaduais de fomento à landesa ANZAPS.
pesquisa. Contou também com o apoio administrati- Estabeleceu-se intensa correspondência eletrônica
vo e institucional do Ippur/UFRJ e Fundação Univer- entre a Anpur e várias instituições congêneres de ou-
tras partes do mundo; duas reuniões da diretoria da
7 Mais detalhes podem ser encontrados na programação do IX Encon-
tro Nacional da Anpur – Ética, planejamento e construção democrática
Anpur foram realizadas no Rio de Janeiro e parcial-
do espaço, Rio de Janeiro 28 de maio a 1 de junho 2001. mente dedicadas à discussão do posicionamento da

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 5 / MAIO 2002 109


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Anpur no contexto dessas conversações e do encami- Nesses entendimentos surgiu a possibilidade de


nhamento político a adotar; e houve, também, uma realizar-se no Brasil o Congresso Mundial de Planeja-
conversação direta a este respeito, nos Estados Unidos, mento que se seguirá ao de Shangai.
entre o representante da Anpur, Carlos Vainer, o diri-
gente da ACSP, Bruce Stiftel (que assumiu liderança PARTICIPAÇÃO DA ANPUR
nesse processo de articulação de associações de várias NO COMITÊ NACIONAL
nacionalidades), e Martim Smolka, da direção do Lin- ISTAMBUL+5
coln Institute of Land Policy.
Como resultado síntese, estabeleceu-se o objetivo Representada por sua presidente, a Anpur partici-
de organizar uma reunião no I World Planning Schools pou do Comitê Nacional criado pela presidência da
Congress para conversações tendo em vista articular República em primeiro de dezembro de 2000 para a
um trabalho em conjunto, incluindo a organização do preparação da participação brasileira na Sessão Espe-
II World Planning Schools Congress, no qual pleiteá- cial da Assembléia Geral das Nações Unidas para a re-
vamos a participação formal da América Latina no visão e avaliação da implementação dos resultados da
Steering Comitee a ser criado, cabendo esta represen- Conferência das Nações Unidas sobre Assentamentos
tação ao Brasil por meio da Anpur. Humanos. Nesta qualidade, participou também da de-
Um passo nesse sentido foi a proposição da mesa legação brasileira para a referida reunião.
redonda “Promoting International Academic Coope- O Comitê, instalado em 13 de dezembro de
ration: Facts and Hopes”, a ser realizada em conjunto 2000, tinha por tarefa avaliar a implementação da
pela Anpur, ACSP e AESOP, como sessão conjunta das agenda Habitat no Brasil e preparar o Relatório Nacio-
áreas temáticas “The Role of the Cities and Regions in nal a ser apresentado na sessão especial da Assembléia
Globalization” e “Planning Education”, no I World Geral das Nações Unidas Istambul+5, a ser realizada
Planning Schools Congress em Shangai, que foi aceita em Nova York, de 6 a 8 de junho de 2001.
pela organização do evento.8 O Comitê Nacional foi presidido pelo secretário
Dando início a essa colaboração institucional, foi especial de Desenvolvimento Urbano da presidência da
realizada no IX Encontro Nacional da Anpur a mesa re- República, ministro Ovídio de Angelis, e integrado por
donda internacional “Em direção ao século XXI: a nova representantes das seguintes instituições: Assessoria da
agenda urbana”, de que participaram representantes da Presidência da República, Congresso Nacional, Minis-
ACSP (EUA), Universidad de los Andes (America Latina), tério das Relações Exteriores, Ministério do Meio Am-
AESOP (Europa), ASRDLF (França) e Anpur, e ainda o biente, Caixa Econômica Federal, Ipea, IBGE, Ibam,
coordenador do Steering Comitee do I World Congress. Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB), Câmara Brasi-
O diretor Geraldo Magela Costa, membro da Di- leira da Indústria da Construção (CBIC), FAU/ USP, Fó-
retoria 1999-2001, representou a Anpur no Congresso rum Nacional de Reforma Urbana e Anpur.9
de Shangai, onde foram estabelecidas conversações A Diretoria da Anpur não quis se omitir dessa
com instituições da América Latina, Europa, EUA, Aus- responsabilidade e decidiu participar do Comitê mas,
trália, África e China, consolidando os contatos que vi- dada a exigüidade do tempo para a realização do traba-
nham sendo feitos e deixando um ponto de partida só- lho e a diversidade de posições no seio da Anpur, des-
lido a ser desenvolvido pela diretoria 2001-2003 no de a primeira reunião a presidente afirmou a condição
campo das relações internacionais. de sua participação: submeter as versões preliminares
do documento à análise das instituições filiadas/asso-
8 Foi organizado também o painel “Planejamento urbano no Brasil: prá- ciadas à Anpur.
ticas inovadoras para promover equidade e democracia”, para o qual Visando recolher subsídios, foi organizada uma
foi feito um concurso, igualmente organizado por Carlos Vainer, para
selecionar os trabalhos que comporiam a mesa. O júri foi composto atividade específica no âmbito da Anpur: a Jornada
por Carlos Vainer, Ricardo Libanez Farret e Geraldo Magela Costa e se- Istambul+5, realizada em 4 de abril de 2001 na FAU-
lecionou os trabalhos: “O Orçamento Participativo em Belo Horizonte:
uma forma nova de gestão pública democrática?”, de Cláudia Feres
Faria, e “Ação em favela: limites e possibilidades”, de Laura Machado 9 Ao longo das reuniões, o quórum foi ampliado com maior número de
de Mello Bueno. Entretanto, o painel não se realizou, por falta de recur- representantes de movimentos sociais ligados à moradia, como Co-
sos que viabilizassem a sua realização. nam e outros.

110 R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 5 / MAIO 2002


M A R I A F L O R A G O N Ç A L V E S

Maranhão sob a coordenação geral de Raquel Rolnik e recursos em sua própria instituição. Os membros do
supervisão da secretária executiva da Anpur Yvonne Comitê Nacional assumiram a coordenação ou relato-
Mautner, consistindo num dia inteiro de discussão da ria das sessões temáticas do workshop e a presidente da
versão preliminar do Relatório Nacional Brasileiro Is- Anpur foi relatora da discussão sobre o tema “Desen-
tambul+5. Para que a Anpur pudesse estar presente e volvimento Social e Erradicação da Pobreza”. Estive-
atuante nesse processo de avaliação, foi solicitado às ram presentes no workshop por indicação da Anpur,
instituições anpurianas que mobilizassem seus inte- além da sua presidente: Raquel Rolnik, Eva Samios,
grantes para participar de duas formas: 1) ou direta- Roque Laraia (presidente da Anpocs), Eduardo Rios
mente na Jornada Istambul+5, juntamente com repre- Neto (presidente da Abep).
sentantes de ONGs e outras entidades da sociedade civil O texto final viria a ser o documento oficial do
convidadas pelo Fórum da Reforma Urbana e pela governo brasileiro com normas e proposições para o
Conam, co-organizadores do evento; 2) ou apontando desenvolvimento urbano. Levando isso em conta, os
questões/problemas/posicionamentos a respeito dos representantes da sociedade civil, como a Anpur, o
cinco temas (Moradia, Gestão Ambiental, Governan- Conam, a Fase, o Fórum Nacional de Reforma Urba-
ça, Relações Internacionais e Desenvolvimento Social) na, o IAB, o Ibam, a Federação dos Prefeitos e outros,
tratados no documento. trabalharam principalmente para o avanço político no
O texto-base (versão de 19 de março) foi enviado conteúdo do capítulo de estratégias e propostas, tendo
a todas as entidades, com o pedido de que assinalassem em vista constituir uma agenda formal para a ação po-
os devidos reparos ao documento, para que a Direção lítica futura. As sucessivas versões preliminares do Re-
da Anpur os considerasse em suas intervenções futuras latório Nacional foram enviadas para as instituições as-
no âmbito do Comitê Nacional. A professora Raquel sociadas/filiadas e ficaram disponíveis para análise e
Rolnik coordenou esta consulta e colaborou com a Di- download na homepage da Anpur. O documento final
retoria na sistematização das contribuições recebidas, incorporou as propostas previamente preparadas, refe-
tendo preparado, juntamente com Grazia de Grazia ridas acima, que foram encaminhadas nos subgrupos
(Fase e FNRU) e Nelson Saule (Polis e FNRU), o docu- temáticos dentro do workshop.
mento que orientou a intervenção da Anpur e de ou- Dado o amplo espectro de posições teóricas e po-
tros representantes da sociedade civil no workshop or- líticas existentes dentro da Anpur e o prazo muito cur-
ganizado pelo Comitê Nacional em Brasília, para to disponível para que se trabalhasse na elaboração do
consulta mais ampla à sociedade civil, realizado em 17 documento, a firmeza de posição da Anpur resultou
e 18 de abril de 2001 com cerca de 80 participantes. em negociação no sentido de ser o Relatório Nacional
A Diretoria da Anpur convidou os seguintes pes- Brasileiro aprovado pelo Comitê Nacional com a res-
quisadores, de instituições associadas/filiadas, para salva de que “os representantes das instituições que in-
representá-la na discussão dos temas tratados no work- tegram o Comitê Nacional Istambul+5 concordam
shop em Brasília: Ana Fernandes, FAU/UFBA, (Coopera- com o teor geral do documento mas não necessaria-
ção Internacional); Carlos Bernardo Vainer e Adauto mente com o sentido literal de todos os conceitos e juí-
Cardoso, Ippur/UFRJ, (Gestão Ambiental); Ermínia zos nele emitidos” (Introdução, nota 4).
Maricato, FAU/USP, e Circe Maria Monteiro, MDU/ A posição da Anpur, assim como a de outros repre-
UFPE, (Moradia); José Antônio Fialho Alonso, FEE, e sentantes da sociedade civil, foi trabalhar para garantir a
Eva Machado Barbosa Samios, Propur/UFRGS, (Desen- continuidade desse fórum de discussão e sua evolução
volvimento Econômico); Raquel Rolnik, PUC/Campi- na direção proposta no Capítulo X: “Estratégias de
nas, (Governança). A Anpur também indicou ao Co- Ação e Iniciativas Futuras”, itens 22.11 e 22.12 (Repú-
mitê Nacional outras associações científicas a serem blica Federativa do Brasil, Relatório Nacional Brasileiro
convidadas: SBPC, Abep, Anpocs, Anpec. Istambul+5, Brasília, maio de 2001), com desdobra-
Tendo sido decidido pelo Comitê que a priorida- mentos imediatos como a criação de um Conselho Na-
de nos recursos disponíveis seria para financiar repre- cional de Desenvolvimento Urbano, a recomendação de
sentantes de movimentos sociais e de ONGs (nesta or- aprovação do Estatuto da Cidade, da Lei que cria o
dem), compareceram pesquisadores que obtiveram Fundo Nacional da Moradia Popular e outras medidas.

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 5 / MAIO 2002 111


M E M Ó R I A

PROJETOS SEDU tituições inscritas na Capes na categoria Planejamento


Urbano não passava de três. A Capes não admite o cre-
Um desdobramento dos contatos e reuniões na denciamento de cursos em separado dos programas e,
Secretaria de Desenvolvimento Urbano da Presidência assim, muitos cursos de pós-graduação em planejamen-
da República foi o estabelecimento de relações também to urbano e/ou regional não se encontram enquadrados
com a equipe da Diretoria de Habitação, do que resul- nesta categoria, mas distribuídos nas áreas de Econo-
tou a proposta à Anpur de que estudasse a possibilidade mia, Geografia, Arquitetura e Urbanismo e outras.
de desenvolver dois projetos de trabalho: a) Diretrizes Deste modo, “Planejamento Urbano e Regional”
para a formulação da política nacional de desenvolvi- é uma área muito pequena, e conseqüentemente fraca,
mento urbano; e b) Programa de ações em desenvol- dentro da Capes – o que foi conversado com a direto-
vimento urbano para os municípios estratégicos aos ei- ria da Capes e com a representante da área mas não se
xos nacionais de integração e desenvolvimento. vislumbrou uma solução. Por outro lado, para articu-
Tendo isto ocorrido no final da gestão 1999- larem-se os interesses de departamentos e de cursos de
2001, a Assembléia foi informada e as propostas enca- pós-graduação do campo do planejamento e dos estu-
minhadas para a nova diretoria para serem analisadas. dos urbanos e regionais, pertencentes a programas clas-
sificados em outras áreas da Capes, encontra-se uma si-
ARTICULAÇÃO DO ENSINO tuação de dispersão e trabalhosa organização.
DE PÓS-GRADUAÇÃO Isso propõe uma questão a analisar. Se o que une
as instituições integrantes da Anpur é muito mais a
Por ocasião do lançamento do Procad – programa prática da pesquisa (construção de um certo campo de
da Capes para doutorados multi-institucionais –, o conhecimento) do que a prática do ensino (dadas as es-
edital foi enviado às instituições anpurianas acompa- pecificidades da formação no interior de cada discipli-
nhado de um convite da presidente da Anpur para que na), um papel importante a ser desenvolvido pela An-
se organizasse um Comitê com o objetivo de explorar pur, usando a oportunidade oferecida pelos Encontros
as possibilidades oferecidas pelo Procad para a propo- Nacionais, seria o de promover a articulação entre re-
sição de cursos unindo instituições da Anpur. Alguns presentantes das diferentes áreas disciplinares que inte-
contatos foram feitos, mas a iniciativa não prosperou. gram a Anpur (seja os representantes dessas disciplinas
A organização do IV Encuentro de Posgrados so- na Capes, seja os dirigentes das respectivas sociedades
bre Desarrollo y Politicas Territoriales y Urbanas de los científicas), para discutirem problemas comuns e exer-
Países del Cono Sur, realizado dentro do IX ENA e coor- cerem uma representação articulada junto à Capes.
denado por Rosélia Piquet com a colaboração de An-
gela Penalva Santos, deu oportunidade para ampliar a FINANCIAMENTO À PESQUISA
atuação da Anpur nesta frente de trabalho, em que foi Diante da mudança na política de ciência e tec-
discutida a agenda atual para cursos de pós-graduação nologia arquitetada pelo Ministério de Ciência e Tec-
em planejamento urbano e regional, novos formatos nologia, que resultou na criação de fundos setoriais de
de cursos e experiências brasileiras e internacionais de financiamento à pesquisa, a SBPC informou as associa-
cursos, compartilhados. Este evento resultou da parti- ções acadêmicas e sociedades científicas sobre o anda-
cipação da Anpur no III Encuentro em Bahia Blanca, mento das medidas governamentais nesse sentido e
Argentina, organizado pela Universidad Nacional del programou uma série de reuniões com a presença de
Sur, em abril de 2000. dirigentes dessas entidades e da SBPC, de que participa-
ram, em ocasiões diferentes, o ministro e o secretário
RELAÇÃO COM AS executivo da Ciência e Tecnologia, e o presidente e a
ENTIDADES DE FOMENTO vice-presidente do CNPq.
Em abril de 2000 a Anpur enviou para as enti-
REPRESENTAÇÃO NA CAPES dades associadas/filiadas material recebido da SBPC
Enquanto o número de instituições associadas/fi- abrangendo proposições de alteração da constituição
liadas à Anpur era de 33 nesta gestão, o número de ins- do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e

112 R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 5 / MAIO 2002


M A R I A F L O R A G O N Ç A L V E S

Tecnológico – FNDCT, de criação de grupos de traba- • Maria Cristina Leme – colaboração em relação ao IX
lho com a finalidade de propor programa de desenvol- ENA (cuja organização propriamente era responsabi-
vimento científico e tecnológico e respectivo modelo lidade da Comissão Organizadora formada no Rio
de financiamento para vários setores (aeronáutico, de Janeiro e coordenada por Henri Acselrad);
agro-negócios, saúde, energia, espacial, petróleo, tran- • Nádia Somekh – colaboração na organização do Se-
portes), e outras. Sempre que recebeu material infor- minário Nacional “Regiões e Cidades, Cidades nas
mativo a esse respeito, a Anpur repassou-o para suas Regiões”, integrando-se à equipe composta por
entidades integrantes. Carlos Antônio Brandão e Antônio Carlos Galvão;
A Anpur participou de diversas das reuniões que • Sarah Feldman – colaboração na montagem do sis-
a SBPC organizou para discutir a mudança em anda- tema de distribuição da Revista Brasileira de Estudos
mento, informou as instituições associadas/filiadas Urbanos e Regionais.
e alertou-as para a importância desse processo. No
IX Encontro Nacional, em 2001, quando os fundos se- CONSELHO DE
toriais já estavam criados, a tradicional mesa redonda REPRESENTANTES
realizada com a participação de representantes das en-
tidades de fomento teve como pauta a nova organiza- A proposta de criação de um Conselho de Repre-
ção dos recursos para a pesquisa. sentantes foi aprovada na Assembléia de 1999, dando-
se-lhe o nome de Conselho Consultivo Provisório. Era
AMPLIAÇÃO DO QUADRO DE ASSESSORES AD HOC intenção da Diretoria convidá-lo a reunir-se, mas a di-
Dada a diversidade de programas e de temas de ficuldade de recursos, dado o não-pagamento das anui-
pesquisa nesse campo, a diretoria da Anpur propôs ao dades, desencorajou a continuidade a essa iniciativa.
CNPq uma ampliação da composição do seu corpo de Ao invés, a primeira reunião foi convocada para a vés-
assessores nesta área; enviou-lhe a lista de pesquisado- pera do IX Encontro Nacional da Anpur, para discutir
res que tiveram trabalhos selecionados nos últimos cin- a natureza de seus objetivos e rever a proposta irreal de
co Encontros Nacionais da Anpur para, após ser passa- que tivesse duas reuniões ordinárias por ano. Foi enca-
da pelo filtro do curriculum Lattes, resultar numa lista minhada, para discussão e votação pela Assembléia,
de doutores que aumente e diversifique o arquivo dis- uma recomendação de formato e atribuições do Con-
ponível de assessores que avaliem pedidos de bolsas e selho Consultivo (ainda provisório), resultante desta
auxílios. Esta lista pode ser repassada à Capes e outras primeira reunião, desdobrada por dois dias durante o
entidades de fomento. IX ENA, em 28 e 30 de maio de 2001, com a presença
(somadas as duas reuniões) de: Maria Flora Gonçalves,
COMITÊ DE ASSESSORIA Yvonne Mautner, Geraldo Magela, Edna Castro, Ana
E APOIO EXECUTIVO À Cristina Fernandes, Carlos Roberto M. de Andrade,
PRESIDÊNCIA E À SECRETARIA Heloisa Costa, Angela Fontes, Frederico de Holanda,
Raquel Coutinho, Angela Gordilho, Esterzilda B. de
Em 18 de agosto de 2000, Yvonne Mautner, da Azevedo, Maria Cristina Leme, Tânia Fischer, Eva Ma-
FAU/USP, assumiu o cargo de secretária executiva da chado Barbosa Samios.
Anpur, por indicação da Diretoria e segundo as nor- Recomendou-se que o Conselho Consultivo Pro-
mas estatutárias, em razão do afastamento de Maria visório reunisse os coordenadores das instituições filia-
Lúcia Refinetti Martins, da mesma instituição. das/associadas anualmente, em fins de maio (no En-
Na ocasião foi constituído um Comitê de Asses- contro Nacional da Anpur e entre os ENAs), com as
soria e Apoio Executivo à Presidência e à Secretaria, seguintes atribuições: 1) discutir demandas dos pro-
com o propósito de ampliar-se a divisão do trabalho gramas, de interesse local, regional e nacional, no cam-
em algumas funções, tendo a seguinte composição: po do ensino, pesquisa e fomento; 2) pautar trabalho
• Philip Gunn – colaboração no acompanhamento dos Comitês (Ensino, Pesquisa e Relações Interna-
de pedidos de financiamento e prestação de contas cionais); 4) prestar apoio à Diretoria no desenvolvi-
às entidades financiadoras; mento de suas atividades executivas, potencializando a

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 5 / MAIO 2002 113


M E M Ó R I A

articulação entre Programas e Diretoria; 6) discutir te- NOVOS INTEGRANTES


mas relevantes de conjuntura
Houve consenso entre os participantes de que Em primeiro de junho de 2001 três novas insti-
uma reunião do Conselho Consultivo da Anpur nos tuições integraram-se aos quadros da Anpur, aumen-
anos pares (entre um ENA e outro) seria não só uma re- tando o número de integrantes para um total de 36 en-
articulação intermediária proveitosa entre a Diretoria e tidades: o Núcleo de Pós-Graduação em Arquitetura e
os Programas, como também uma oportunidade de ou- Urbanismo da Universidade Federal de Minas Gerais
vir os associados/filiados na época de dar início à orga- na categoria filiado e os Programas de Pós-graduação
nização do Encontro Nacional, e também quanto a al- em Direito da Cidade da Universidade do Estado do
gum possível deslocamento da sede da revista que, no Rio de Janeiro e de Pós-graduação em Arquitetura e
caso de acontecer, seria em princípio no meio da gestão Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie
de cada diretoria. A recomendação foi aprovada pela (São Paulo), ambos na categoria associados.
Assembléia, que também acatou a proposta encaminha- A Assembléia aprovou critérios complementares
da pelo Conselho de que continue provisório até que a aos que constam nos Estatutos para o enquadramento
experiência recomende sua formalização em estatuto. das solicitações de integração à Anpur nas categorias
Filiação ou Associação. Considerou passíveis de filia-
RECURSOS FINANCEIROS ção as instituições de ensino e pesquisa credenciadas há
mais de 5 anos pela Capes e indicou para associação as
Aprovada pela Assembléia de 1999, a cobrança de instituições que se ocupam só de pesquisa e não de en-
anuidades das instituições associadas e filiadas começou sino, assim como os programas de ensino de pós-gra-
no ano 2000, após estar a secretaria executiva instalada, duação credenciados há menos de 5 anos pela Capes.
dispondo de apoio de secretária e conta bancária aber-
ta. Esses recursos mostraram-se vitais para a Anpur, pois ADEQUAÇÃO DOS ESTATUTOS
viabilizam certa autonomia em seu funcionamento.
Contudo, é uma prática nova, ainda não inteira- Não tendo a Assembléia de 2001 quorum sufi-
mente incorporada pelas instituições anpurianas. Ne- ciente para mudanças estatutárias, foram aprovadas
nhuma anuidade referente ao ano de 2001 havia entra- provisoriamente algumas mudanças nessa matéria, co-
do até o final de maio (a maior parte das instituições mo a proposta de ampliação de um cargo de diretor,
depende da liberação de recursos da Capes, o que ain- feita pela candidata à Presidência 2001-2003.
da não havia ocorrido). Das 33 instituições que inte- Foi aprovada juntamente uma recomendação de
gram a Anpur, 22 pagaram a anuidade relativa a 2000: que a Assembléia Geral da Anpur de 2003 seja convo-
dez no primeiro semestre de 2000, outras sete no se- cada incluindo em sua pauta a revisão dos estatutos
gundo semestre de 2000 e cinco no primeiro semestre que regulam a Associação. Em carta preparatória à As-
de 2001. Na Assembéia foram discutidas fórmulas pa- sembléia enviada em 9 de maio de 2001 pela presiden-
ra rotinizar o pagamentos das anuidades. te às instituições filiadas/associadas, foram sugeridos
A venda de revistas supriu, em parte, o quantum pontos que merecem atenção para a adequação dos es-
mínimo de recursos necessário para manter a secreta- tatutos à realidade atual da Anpur:
ria executiva funcionando. Porém, os recursos advin- • Modificar a obrigatoriedade da sede da Anpur estar
dos de venda da revista devem em princípio ficar re- no local de residência dos titulares da presidência e
servados para a própria revista, possibilitando que ela da secretaria executiva – considerar como referência
tenha autonomia. a instituição que sedia a presidência e/ou a secreta-
Além de providências que garantam o pagamen- ria executiva e incorporar a possibilidade de não
to das anuidades, é necessária uma política de recursos coincidirem na mesma cidade os locais de residên-
mais contínua, que inclua tanto a estabilidade de fi- cia e de trabalho dos titulares desses dois cargos.
nanciamento da revista e do prêmio, como uma estra- • Decidir questão relacionada ao pagamento de anui-
tégia de produção de recursos como contrapartida à dades pelas instituições associadas e filiadas: pode-
prestação de serviços. rão votar as que estiverem em débito?

114 R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 5 / MAIO 2002


M A R I A F L O R A G O N Ç A L V E S

• Incluir suplências ou outra forma de resolver a va- rias terem tempo de se instalar – uma possibilidade é
cância de cargos na diretoria: presidência, secreta- a transmissão dos cargos se efetivar não logo após a
ria executiva e diretorias; discutir a criação do car- eleição mas depois de um período a ser fixado.
go de tesoureiro. • Discutir função e formato do Conselho Consultivo.
• Incluir referência à existência da Revista Brasileira • Discutir a conveniência de formalizar-se o processo
de Estudos Urbanos e Regionais e definir o vínculo eleitoral: nomeação de comissão eleitoral para coor-
com a Diretoria. denar o processo eleitoral, prazo para inscrição de
• Incluir um período de transição para as novas direto- chapa e registro do programa etc.

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 5 / MAIO 2002 115


R ESENHAS
OS RUMOS DA CIDADE: bulário eclético, beaux-arts, neocolonial ou “moderno
URBANISMO E MODERNIZAÇÃO monumental” – são enfatizados e discutidos.
EM SÃO PAULO A obra salienta o papel relevante desempenhado
Candido Malta Campos na conformação do espaço da cidade por políticos, en-
São Paulo: Editora Senac, 2002. tre os quais, João Alfredo, Fábio Prado e Gofredo Te-
les; por engenheiros, arquitetos e urbanistas – como
Telma de Barros Correia Vítor Freire, Saturnino de Brito, Ricardo Severo, Bou-
vard, Ulhoa Cintra e Artur Sabóia; e por personagens
O livro Os rumos da cidade: urbanismo e moder- que atuaram nos dois campos de atividades – como
nização em São Paulo, do arquiteto Candido Malta Heribaldo Siciliano, Alexandre de Albuquerque, Pires
Campos, surge como uma importante contribuição do Rio, Anhaia Melo e Prestes Maia.
para a compreensão do papel de urbanistas e políticos Na sua conclusão, ao tecer considerações sobre a
nas transformações do espaço desta cidade no período configuração atual de São Paulo, o autor assinala que “o
entre 1870 e 1945. Produzido como tese de doutora- modelo que persiste na cidade não é único nem inevi-
do pelo programa de Pós-Graduação da Faculdade de tável, tendo resultado dos embates em torno da moder-
Arquitetura e Urbanismo da USP – orientada pelo Prof. nização urbana ao longo do século passado” (Campos,
Dr. Philip Gunn –, o livro se baseia numa pesquisa 2002, p.631). O grande mérito de sua obra é precisa-
ampla e incorpora análises acuradas. Entre as qualida- mente desvendar aspectos desses embates. O autor
des da obra estão a riqueza e diversidade das fontes mostra como nessas disputas vão estar envolvidas de-
consultadas, as ilustrações profusas e esclarecedoras mandas simbólicas, estéticas, higienistas, de tráfego, de
(sempre tratadas de forma complementar e subalterna valorização imobiliária e interesses políticos e comer-
à narrativa), a densidade, rigor e profundidade das aná- ciais. Confrontos, debates e busca de soluções alterna-
lises realizadas e a redação ágil, características que tor- tivas, muitas vezes conciliatórias, marcaram a trajetória
nam a leitura de suas mais de 600 páginas tarefa insti- de projetos e propostas, e vão contrapor urbanistas, po-
gante e agradável. O livro baseia-se em trabalho de líticos e técnicos dos setores de obras públicas, cujas po-
pesquisa histórica que concilia a leitura de uma vasta sições são defendidas em artigos, conferências, cursos e
bibliografia sobre o tema a um amplo trabalho com as em propostas de intervenção no espaço urbano. Dois
fontes – artigos, transcrições de conferências, leis, pa- aspectos destes embates são enfatizados ao longo do li-
receres, discursos, mapas e fotos – dialogando com es- vro: o confronto entre projetos diversos e o relativo des-
te material e, a partir dele, construindo uma narrativa compasso entre projetos e realizações.
bem estruturada. Em termos da convivência e concorrência entre
Trata-se de uma abordagem abrangente que recu- orientações e projetos diversos, uma das questões enfa-
pera e articula aspectos relevantes das transformações tizadas refere-se às diferentes formas de apropriação e
pelas quais passaram a cidade de São Paulo – especial- assimilação de experiências e modelos internacionais.
mente sua área central – ao longo do período em aná- A esse respeito mostra-se, por exemplo, como nas pri-
lise. Analisa a gestação e o conteúdo de projetos ur- meiras décadas do século XX modelos de inspiração
banísticos e de instrumentos intervencionistas ou “hausmannianas” – então privilegiados nas interven-
reguladores (códigos de obras, zoneamentos, normas de ções urbanísticas nas capitais nacionais – chocaram-se
parcelamento, taxas de melhoria etc.). Investiga de for- com padrões de inspiração “sittiana”, defendidos por
ma minuciosa a evolução e maturação de propostas e a urbanistas como Vítor Freire e Saturnino de Brito. De-
maneira como foram eventualmente implantadas. Des- monstra-se também como a ênfase das propostas urba-
venda a diversidade das propostas formuladas em meio nísticas foi se deslocando de questões sanitárias para
a diferentes posturas, divergências teóricas e distintas fi- preocupações viárias, num movimento que redefine
liações. Indica as referências internacionais e nacionais inclusive os padrões estéticos eleitos e o lugar de preo-
mobilizadas nas diferentes propostas e a forma como se cupações desta natureza nos planos. Recupera-se o de-
procurou adequá-las às condições locais. Os elos entre bate entre propostas que buscam conter o crescimento
modelos urbanos e arquitetônicos – vinculados a voca- da cidade – defendidas por Anhaia Melo – com outras

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 5 / MAIO 2002 119


R E S E N H A

que pressupõem um crescimento ilimitado, que tive- Ao final de sua análise, Campos salienta o poder de
ram em Prestes Maia um representante. Assinala-se o permanência da visão expansionista e “rodoviarista” de
conflito entre o padrão urbanístico dos bairros-jardins Ulhoa Cintra e de Prestes Maia, enumerando interven-
e os modelos de vias retilíneas e largas consagrados nos ções recentes na cidade de São Paulo que concretizam
códigos das primeiras décadas do século XX, além dos diretrizes do Plano de Avenidas, como a passagem sub-
embates entre defensores e críticos da verticalização do terrânea da avenida Tiradentes, que integra o períme-
centro da cidade, e entre propostas de criação de gran- tro de irradiação e túneis e vias ligando as avenidas
des avenidas por meio do alargamento de vias existen- Bandeirantes e Salim Maluf, que integram o terceiro
tes ou criação de novas vias em fundos de vale. circuito perimetral.
Ao assinalar o descompasso entre planos e inter- Ao tratar a cidade de São Paulo como um campo
venções, o autor contrapõe ao teor e a amplitude dos de disputas entre idéias, práticas e projetos urbanísti-
projetos as características e o caráter parcial das realiza- cos, que contrapõem concepções que afetam interesses
ções. Mostra o limite geográfico restrito atingido pelas diversos, o livro desvenda o papel central de urbanistas
reformas urbanas do início do século XX. Citando ins- que atuaram no período em análise na mediação de
trumentos como as taxas de calçamento e a contribui- conflitos de interesses e de visões de cidade. Analisan-
ção de melhoria, indica a dificuldade encontrada de do esta atuação, mostra como o domínio de técnicas, o
pôr em prática medidas amplamente defensáveis em conhecimento de experiências internacionais e uma
termos conceituais. Referindo-se aos casos dos urbanis- suposta neutralidade fundamentada numa pretensa ra-
tas Anhaia Melo e Prestes Maia, mostra os limites da cionalidade foram instrumentos importantes. Mas, o
aplicação de muitas das ditas “soluções racionais” reco- grande mérito da obra é precisamente sublinhar o vas-
mendadas por urbanistas, que não conseguiram efetuá- to campo de lutas – tantas vezes escamoteado em abor-
las mesmo quando prefeitos da cidade. Tal descom- dagens restritas a aspectos formais – que permeia o
passo evidencia não apenas limitações orçamentárias, pensamento e a prática do urbanismo.
como também a busca em conciliar a ação pública com
interesses locais. Ao analisar a trajetória entre a formu-
lação das propostas urbanas e a eventual intervenção, CIDADES ESTREITAMENTE
Campos evidencia os ajustes introduzidos e as negocia- VIGIADAS: O DETETIVE
ções efetivadas que buscavam conciliar interesses diver- E O URBANISTA
sos de setores do capital, de valorização fundiária, de Robert Moses Pechman
reprodução da força de trabalho e de legitimação dos Apresentação de Stella Bresciani
dirigentes. Analisando este percurso entre proposições Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2002.
e ações, o autor salienta como “o processo de interven-
ção urbanística, longe de ser mero campo de progresso Amilcar Torrão Filho
técnico, implicava opções com sérias conseqüências so-
bre as condições de vida, acumulação e produção vi- Clarice Lispector escreveu em uma crônica que,
gentes no centro urbano” (Campos, 2002, p.283). quando criança, acreditava que os livros nasciam em
Em meio a tais embates, o autor assinala o deli- árvores. Hoje sabemos que eles têm autores e são resul-
neamento de algumas tendências, entre as quais a mais tado de muito trabalho e de um esforço de imaginação.
nítida é a crescente ênfase das intervenções – em espe- Há ainda aqueles que são escritos inspirados em outros
cial a partir da década de 1920 – nas questões referen- livros, que lhes abrem o caminho ou servem como fon-
tes a tráfego e sistema viário. Tal ênfase ocorre em de- te de informação, estímulo ou inspiração. É este o ca-
trimento de outras demandas – estéticas, habitacionais so de Cidades estreitamente vigiadas: o detetive e o ur-
e de lazer – e se direciona, sobretudo, ao estímulo do banista, de Robert Moses Pechman, inspirado que foi
transporte particular e do ônibus entre as modalidades pela leitura de um pequeno livro já tornado um clássi-
de transporte coletivo. O Plano de Avenidas – conce- co. Considera-se o autor uma destas pessoas a quem,
bido por Prestes Maia no final da década de 1920 – por defeito de fabricação, os “livros desequilibram, pro-
surge como um momento exemplar desta tendência. duzem abismos, causam estragos, torcem a vontade,

120 R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 5 / MAIO 2002


R E S E N H A

bagunçam a vida, desnorteiam o norte, enfim, mudam levar a cabo a “reforma urbana” empreendida na reno-
o rumo da vida” (Pechman, 2002, p.13). Desnorteado, vada capital: zelar pelo cuidado e conservação da cida-
bagunçado, desequilibrado, nosso autor se dedicou a de, de seus logradouros públicos, pelo cumprimen-
estudar a cidade. to da Lei e repressão ao crime e pela obediência ao
Este livro trata da paixão por livros; da paixão pe- código de moral e costumes da urbanidade que se pre-
lo estudo das cidades e do urbanismo; da paixão por tende implantar. A polícia é, também, um poderoso
uma cidade, que todos os brasileiros aprendemos a agente de civilização; e a cidade é o laboratório onde se
amar: o Rio de Janeiro. Trata-se de entender o proces- experimenta o “modelo nacional de ordem e civiliza-
so de constituição de uma nova ordem social, urbana, ção”, é “o lugar da exemplaridade” (p.107).
civilizada, cortesã, “estimuladora da boa moral e da do- Por meio do delicioso romance de Manuel Anto-
çura dos costumes” com a chegada da família real nio de Almeida, Memórias de um sargento de milícias,
portuguesa, na transferência inédita de uma corte eu- Robert Pechman observa as estratégias de controle da
ropéia para os tristes trópicos. O livro do professor nova polícia urbana e as brechas de resistência encon-
Pechman vem preencher uma lacuna nos estudos urba- tradas por parte da população que não se enquadrava
nos brasileiros ao destacar um período tão importante nas “novas práticas da sociabilidade nos marcos do que
da história do Rio de Janeiro, e de todo o País, que até se passou a chamar de civilidade” (p.76). Por meio da
então só vinha atraindo a atenção da historiografia po- persuasão a Intendência Geral de Polícia procura in-
lítica ou social. Apesar da ruptura tão grande que sig- corporar o indivíduo ao mundo da ordem, reconhecer
nificou para a Cidade Maravilhosa a chegada da corte, a esfera pública, tão difícil numa sociedade como a
os melhoramentos urbanos de D. João não suscitaram brasileira, na qual a esfera privada sempre ocupou es-
um interesse muito além do anedótico para a historio- paço tão importante. Observa o autor que, ao contrá-
grafia do período. rio da tradição colonial, de exílio, degredo, morte na-
Civilização e barbárie se enfrentam no Rio que se tural e, no limite, condenação à morte, a nova ordem
“civiliza”. Um conceito não vive sem o outro, cruciais, de civilidade se fundamenta, precisamente, “a partir do
segundo o autor, como elementos “no processo de for- ‘reconhecimento’ e ‘incorporação’ da nova camada de
mulação de imagens que deu legitimidade à moderna indivíduos moradores da cidade, os quais têm que ser
ordem urbana brasileira, e que se fundou no que talvez trazidos para a órbita da sociabilidade” (p.80). Função
pudéssemos chamar de pacto urbano” (p.24). Apesar que caberá à polícia, aos novos manuais de civilidade
de predominantemente agrário, é na cidade, no espaço que se multiplicam na recém-liberada imprensa, pre-
urbano, que se constitui uma pax villae, um “processo gando a doçura dos costumes e o respeito às hierar-
civilizatório” brasileiro, que ao mesmo tempo se opõe quias e à ordem estabelecida, à civilidade entendida co-
e se adapta à antiga ordem senhorial. É na nova capi- mo “antídoto à revolta, à maldade e ao ócio” (p.88).
tal do Reino de Portugal, e depois do Império do Bra- Estamos aqui, como lembra o autor, no domínio da
sil, que se constituirá este pacto urbano, em que o política: “Ordem, etiqueta, cortesia, civilidade, políti-
príncipe regente acomodaria, “com todos os rapapés e ca acabam se articulando na manutenção da paz social
politesses ainda que um tanto gastos, uma sociedade e devem ser entendidas como fazendo parte de um
cortesã” (p.67). mesmo processo de construção de imagens sobre o que
Robert Pechman faz uma leitura original de suas se deva ser o convívio social” (p.90). Mas o efeito da
fontes e do período que estuda. Ele, por exemplo, re- polícia na garantia da estabilidade social, da pax
toma o sentido coevo da palavra polícia: não apenas urbana, não é maior do que o potencial sedutor da
“conter a criminalidade”, policiar significava também cidade, “sua capacidade de evocar a civilização, seu po-
“polir, assear, adornar”. Disciplinar e reprimir sim, mas der de atrair para um projeto que prometia o futuro”
tendo em vista um código de costumes e de convivên- (p.112), que prometia a ordem, a civilização e o con-
cia urbana, de cortesia, de chamar à ordem os que de- trole dos bárbaros que assaltavam incessantemente os
la se desviavam, “numa espécie de ‘integração social’ muros da civilidade.
pela civilidade” (p.72). Tão logo chega ao Rio, D. João A cidade colonial, vista como defasada, inculta,
empossa o intendente geral da polícia, encarregado de desorganizada, não serve aos propósitos do processo

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civilizador, não está preparada para receber o “espírito acha mesclado à grosseira familiaridade africana, onde
cortesão” e as novas formas de sociabilidade que che- o encontro dos costumes americanos, africanos e euro-
gam com a família real portuguesa e, em seguida, com peus que se chocam e se repelem, constitui um todo
o Império. Uma nova cidade deve-se desenvolver para informe” (p.314). Uma proximidade que ameaça a ci-
abrigar esta sociabilidade cortesã que se forma, já que, dade e sua ética cortês e urbana.
lembra o autor, corte e cidade, “apesar de ocuparem o A cidade é, assim, o espaço desejado e temido,
mesmo espaço, não são a mesma coisa” (p.238). Antes céu e inferno da civilização, cheia de mistérios, tenta-
mesmo de ser cidade, o Rio de Janeiro se tornou cor- ções e perigos insondáveis, que atrai talentos como o
te, espaço onde se gesta a civilidade, onde a burguesia de Juliano Sorel de Stendhal, de Luciano de Rubempré
se “aristocratiza”, onde a civilização luta contra a bar- e de Eugênio de Rastignac de Balzac para, em seguida,
bárie. Daí a necessidade de um romance urbano que destruí-los. Cidade que atrai também os “rejeitados da
sintetize as definições da cidade, da corte e da civilida- civilização”, onde se acomodam “os dissolutos, os pre-
de; mas, para que nasça este romance urbano, “é pre- guiçosos, os mendigos, os turbulentos e os esbanjado-
ciso, antes de tudo, inventar o urbano, ainda que a ci- res de dinheiro.1 A cidade dos vícios e crimes subterrâ-
dade exista já há muito tempo”. O urbano entendido neos, que irrompem quando menos se espera, dos
como a “invenção social na cidade” (p.204), como o selvagens, das classes perigosas, dos que se ocultam pa-
conjunto de normas, regras e modelos que marcam as ra contaminar a civilização. Daí a necessidade do dete-
fronteiras entre civilização e barbárie. tive para descortinar o mal que se acastela nas fímbrias
Na construção desta sociabilidade urbana, Pech- do urbano. O romance policial é o caminho através do
man destaca o terror que os habitantes da cidade bra- qual Pechman vai se “defrontar com as questões da or-
sileira do Império sentiam em relação aos escravos. dem urbana, tão caras na configuração da urbanidade
Mas sua originalidade está em perceber neste medo quanto do próprio urbanismo” (p.272). Se a cidade é
não somente o desejo de manter a ordem senhorial es- o “campo de batalha onde a vida social vai ser jogada
cravista, mas acima de tudo de evitar a desordem urba- e, de sua conquista, depende a sobrevivência da ordem
na. Pois na cidade “o sistema escravista não pode ser social (p.275)”, o romance policial nasce para detectar
pensado fora de um projeto de ordem urbana” (p.304). o mal escondido; e o detetive nasce com a incumbên-
A particularidade da escravidão urbana, marcada pela cia de solver os seus mistérios e identificar seus crimi-
“ausência do feitor”, faz do escravo “não necessaria- nosos e os bárbaros que ameaçam o “pacto urbano”
mente um revoltoso mas, certamente um desordeiro. (p.290). E aí vem o golpe de mestre do autor – para
No ambiente urbano, o escravo não é só um cativo, ele usar uma linguagem próxima do romance policial:
é, também – à sua maneira – um ‘habitante’ da cida- identificar o detetive ao urbanista. O detetive, treinado
de” (p.304). Assim, no Rio de Janeiro da corte não é no espírito racionalista-científico derivado da Ilustra-
apenas o medo de que a cidade se transforme num ção, “está na origem de um esforço de leitura da cida-
Haiti que aterroriza os brancos e preocupa a polícia, de que irá desembocar, no século XX, no urbanista, cu-
mas de que ela se torne mais parecida a Londres ou Pa- ja missão é transformar a cidade num objeto de todo
ris, com suas hordas de miseráveis e desocupados e seu transparente com o fito de desvendar seus enigmas e,
terrível “espetáculo da pobreza”. O medo ao negro, co- ao fazê-lo, enquadrar a cidade de forma a controlar to-
mo diz o autor, “se urbaniza e, ao se urbanizar, faz do da ameaça de desordem e quebra da lei” (p.282). Des-
negro a imagem da anticidade daquilo que não deve sa maneira entende Pechman o aparecimento dos en-
ser a cidade” (p.310). genheiros-urbanistas e as grandes reformas urbanas
O escravo pode não apenas “incendiar” a cidade pelas quais passa o Rio de Janeiro no século XX, então
mas acima de tudo contaminá-la, tanto física quanto capital republicana.
moralmente. É assim que ele aparece na literatura, no Os urbanistas têm como função a defesa da cida-
teatro, nos folhetins, nas teses de medicina. Como nes- de contra os bárbaros que a querem desfigurar, macular
ta de 1846, citada por Pechman, na qual o doutor Ma-
1 Maria Stella Martins Bresciani, Londres e Paris no século XIX: o es-
noel Moraes e Valle afirma ser o “Rio de Janeiro, cida- petáculo da pobreza [1982]. 5.ed. São Paulo: Brasiliense, 1989, p.42.
de vasta e populosa (…) onde o polido do cortesão se (Col. Tudo é História, v. 52.)

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sua beleza, em geral os pobres. Dar uma ordenação ra- mento cada vez mais raro. Paradoxalmente, hoje,
cional e científica à organização urbana. Realizar a an- como nunca, a publicação de livros e textos sobre ar-
títese daquilo pelo qual se critica as cidades medieval e quitetura tem crescido exponencialmente. Evidente-
colonial, que crescem desordenada, orgânica e livre- mente, a questão não se encontra na proliferação viral
mente, de acordo com a vontade e os “caprichos” de de publicações que preenchem as estantes de livrarias
seus moradores, muitas vezes estes bárbaros a que tan- e bibliotecas especializadas, mas no uso de novas for-
to se teme. Este urbanismo que cria a cidade sem criar mas de pensar, no emprego de novas lógicas, de instru-
o cidadão. mental teórico inovador. Regra geral, a quase totalida-
Robert Pechman utiliza de maneira criativa uma de de livros e textos que integram o universo editoral
grande diversidade de fontes: crônicas, folhetins, ro- contemporâneo relacionados com a arquitetura cons-
mances, peças teatrais, revistas de ano, teses de medici- titui um incomensurável catálogo de repetições e reci-
na, correspondência e documentação dos órgãos de clagens conceituais herdado da modernidade.
polícia, manuais de civilidade, tudo isso numa prosa O livro Estética da ginga de Paola Berenstein Jac-
fluente, acessível, às vezes agradavelmente informal (os ques constitui um singular acontecimento no âmbito
tradicionais agradecimentos são substituídos, por exem- da cultura arquitetônica em nosso país. Filosoficamen-
plo, por um carioquíssimo Aquele Abraço), mas sem te, o termo Acontecimento, no sentido empregado por
perder o rigor e a sofisticação da análise. Isso sem con- Deleuze/Guattari, ocorre quando surge um problema,
tar referências culturais variadas, como a poesia con- um questionamento que favorece uma virtualização.
temporânea, o cinema tcheco, do qual empresta o títu- Esse processo imaginativo que constitui o Virtual pres-
lo de seu livro (do célebre filme Trens estreitamente supõe o Atual e visa a sua atualização. Quando o vir-
vigiados, de Jiri Menzel), ao romance policial (cujos se- tual, como entidade, adquire consistência, tal fato
guidores constituem uma seita fiel e que encontrarão constitui um acontecimento, um ato de criação. Pro-
nesta obra uma leitura muito prazerosa), além de um priamente, o acontecimento, como processo, não co-
projeto gráfico excelente. meça nem acaba, pois tem uma parte sombria e secre-
Para terminar vale lembrar que o livro que mu- ta que não pára de se subtrair ou de se acrescentar à sua
dou o rumo de sua vida e inspirou suas pesquisas em atualização. É um real sem ser atual, ideal sem ser abs-
urbanismo foi Londres e Paris no século XIX: o espetácu- trato. O acontecimento, em sua potencialidade, é pu-
lo da pobreza, de Maria Stella Martins Bresciani, ra reserva. A Estética da ginga, como acontecimento,
orientadora deste trabalho apresentado como doutora- possui justamente essa potencialidade criativa. Trata-se
do na Unicamp, que certamente inspirou a muitos ou- de um ensaio teórico/conceitual aberto que procura
tros estudiosos da cidade no Brasil. sua atualização vislumbrando uma nova forma de pen-
sar os fundamentos da arquitetura e, dessa forma, tem
como alvo contrapor-se às formas convencionais e aca-
ESTÉTICA DA GINGA – dêmicas de entender a arquitetura.
A ARQUITETURA DAS A mudança nas formas de pensar constitui um
FAVELAS ATRAVÉS DA OBRA referencial marcante da cultura contemporânea. Tal
DE HÉLIO OITICICA fato é bastante evidente quando se tem presente o pro-
Paola Berenstein Jacques cesso de deconstrução da lógica binária e do modelo
Rio de Janeiro: Editora Casa da Palavra, Rio Arte, 2002. arborescente que lhe corresponde, herança da condição
cultural moderna. Entre as formas de pensar contem-
Pasqualino Romano Magnavita porâneas, o surgimento da lógica da multiplicidade e a
percepção rizomática que lhe corresponde (Deleuze &
No mundo editorial contemporâneo a publica- Guattari) constituem um marco significativo dessa
ção de livros relacionados com aspectos teóricos/con- deconstrução na forma de pensar. Inserindo-se nesse
ceituais inovadores, visando estabelecer parâmetros processo deconstrutivista, a autora optou por adotar
inéditos na formação discursiva da arquitetura e de como ferramenta teórica o repertório conceitual con-
seus fundamentos, tem se demostrado um aconteci- tido na referencial obra Mil platôs escrito em parceria

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por Gilles Deleuze e Felix Guattari. Entretanto, a au- essas formas promovem ao se relacionarem entre si,
tora reconhece que a transposição de noções teóricas e não vacilou, em sua decisão, em optar pela abordagem
filosóficas à arquitetura torna-se quase sempre uma estética, afastando, assim, de seus propósitos, a tirania
questão problemática, particularmente quando essas da racionalidade científica que tanto caracterizou o
transposições se fazem por analogias estritamente for- pensamento moderno e que todavia ainda perdura.
mais, como se constata em vertentes da chamada ar- Em relação às figuras conceituais empregadas, há
quitetura pós-moderna. uma explícita advertência: elas devem ultrapassar a es-
A obra em pauta constitui um trabalho teóri- fera do formal para alcançar o conceitual. Não há preo-
co/conceitual e tem na obra do artista Hélio Oiticica, cupação da autora em estudar as formas, mas sim os
à guisa de um fio condutor, uma ferramenta teórica, e processos que as [trans]formam. Para ela, essas figuras
isso, em razão de que o referido artista procurou resga- não são metáforas arquitetônicas, nem simples figuras
tar a estética própria do espaço das favelas cariocas e, formais, afirmando, pois, que “só quando se chega ao
paralelamente ao seu trabalho de criação artística, não puramente conceitual, à abstração de uma teoria, é que
se limitou à dimensão físico-espacial, transbordou a se pode fazer um retorno ao real; só a partir desse mo-
sua criação para a dimensão social. Importante assina- mento será possível avançar algumas idéias ligadas à
lar que se trata de um artista que concedeu um status prática da arquitetura e do urbanismo”. Prefere, por-
estético às favelas. É justamente com base nessa expe- tanto, ir do real ao abstrato, do formal ao conceitual,
riência singular do artista que a autora formula a hipó- partindo sempre de percepções da realidade, e isso,
tese principal do seu trabalho: “as favelas têm uma es- através de mudança de escala. No Fragmento, passa do
tética própria”. Para tanto, a autora trabalha em dois corpo físico à arquitetura; no Labirinto, da arquitetura
níveis de compreensão: em primeiro lugar, o questio- ao urbano; no Rizoma, do urbano ao território. São
namento dos fundamentos da arquitetura e do urba- três momentos de análise: a favela real, a concernente à
nismo racionalistas que tradicionalmente são transmi- obra de Oiticica e a puramente conceitual.
tidos nas nossas academias, questionamento este que Sem dúvida, Rizoma constitui o capítulo mais
subjaz ao longo de todo o texto; em segundo, a ”tenta- inovador do livro. Associando Rizoma à idéia de cres-
tiva de decifrar o dispositivo arquitetônico e urbanísti- cimento, de ocupação de territórios e formação de ter-
co das favelas, espaço desconhecido da maioria dos ar- ritórios urbanos, a autora procura demonstrar o que
quitetos e urbanistas”. diferencia o processo de territorialização, de ocupações
Atendendo a sua principal hipótese, e procuran- informais, “selvagens”, de terrenos vagos, das ocupa-
do demonstrá-la, a autora usa três figuras conceituais: ções formais que emanam de leis e modelos codifica-
o Fragmento, o Labirinto e o Rizoma, particularmente dos por especialistas. E, igualmente, estabelece a dife-
as duas primeiras mais explícitas e presentes na obra de rença entre a forma de pensar a complexidade na
Oiticica e em seus relatos e escritos sobre suas vivências multiplicidade, isto é, no âmbito da percepção rizomá-
no morro da Mangueira; ao passo que a figura concei- tica, contrapondo-a à lógica binária, ao modelo arbo-
tual Rizoma traduz a familiaridade que a autora possui rescente, da árvore raiz. Para tanto, traz à tona as for-
com a lógica da multiplicidade. Foi inspirada nessa es- mulações de Chistopher Alexander em A city is not a
tética destilada da obra de Hélio Oiticica que a autora tree, de 1965, procurando mostrar que o autor, apesar
denominou o seu trabalho estética da ginga. Contudo, de suas preocupações em superar o modelo arborescen-
vale observar que a decisão pela abordagem estética é te, seus diagramas matemático-geográficos, continua-
justificada pela autora como alternativa ao racionalis- ram racionais, cartesianos, arborescentes.
mo ainda hegemônico na forma de pensar e criar. Acei- A transformação da metáfora vegetal do rizoma
tando, portanto, as formulações filosóficas de Deleuze em conceito filosófico, por Deleuze e Guattari, pressu-
e Guattari que, contrariando as concepções convencio- põe um processo que pode ser distinguido por um
nais do positivismo científico, demonstram não existir conjunto de “características aproximativas”, a exemplo
nenhuma predominância, hegemonia, entre as diferen- dos de conexões e heterogeneidade; de multiplicidade; da
tes formas de pensar e criar, isto é, entre a Ciência, a ruptura a-significante; da cartografia e da decalcomania.
Arte e a Filosofia. A autora, ciente da heterogênese que Aderente a esse instrumental conceitual, a exemplo de

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uma rede aberta, a autora compara o processo de fave- mentos da arquitetura e urbanismo, a Estética da ginga
lização – de ocupações informais – com o mato que pode ser considerado um ponto de inflexão.
nasce discretamente nas bordas e que logo acaba ocu- Para concluir, valeria acrescentar que, no caso es-
pando a totalidade dos vazios deixados pela máquina pecífico do processo de ocupação de terrenos e criação
imobiliária. Estabelece, assim, um confronto entre a de favelas, questão chave do trabalho, os processos ur-
lógica do mato (da “erva daninha”) e a lógica da árvo- banos, especificamente as produções de arquitetura e
re, ou seja, entre o sistema erva/rizoma do pensamen- urbanismo, podem vir a ser considerados tanto “má-
to da multiplicidade e aquele configurado no pensa- quinas abstratas” de sobrecodificação efetuadas pelo
mento binário ainda dominante. Insiste na oposição “aparelho de Estado” quanto “máquinas de guerra” que
entre uma cultura acentrada, não-hierárquica, instável, procuram escapar à sobrecodificação e resistir aos “apa-
e uma cultura arborescente, hierárquica e enraizada. relhos de captura” que se encontram a serviço do
Explica, assim, como um rizoma, a exemplo do mato, aparelho de Estado. Essa situação extremamente con-
da erva, está sempre no meio, não têm começo nem flitante em nosso país acaba por exigir, compulsoria-
fim, transborda, e evoca a idéia de infiltração, de um mente, ao lado das realizações de natureza estética, no
escoamento que preenche vazios. O processo de faveli- espaço físico da percepção urbana, um inadiável posi-
zação, na surpreendente comparação ao mato, escapa à cionamento ético, passando inevitavelmente pelo viés
idéia de projeto, cresce onde não se espera, formando político, que poderá promover uma melhor qualidade
encraves no território urbano. de vida, hoje tão aviltada e insegura sob a hegemonia
Na parte final do trabalho, apropriando-se da do paradigma científico/tecnológico.
proposição criativa “jardins em movimento” do paisa-
gista Gilles Clément e contestando ao mesmo tempo
sua idéia de “arte involuntária” e sua aplicação às fave- MODERNIDADE E MORADIA.
las, refere-se à suposta intenção da prefeitura do Rio HABITAÇÃO COLETIVA
de Janeiro de “preservar” as favelas. Contrariando o NO RIO DE JANEIRO NOS
senso comum e o consenso generalizado dos responsá- SÉCULOS XIX E XX
veis pelas intervenções do programa oficial “Favela- Lílian Fessler Vaz
Bairro”, a autora propõe: em lugar de preservar as fa- Rio de Janeiro: 7 Letras, 2002.
velas o que “seria necessário preservar é o seu próprio
movimento”, ou melhor, “territórios em movimento”, Eloísa Petti Pinheiro
ainda melhor, “bairros em movimento”, procedendo
através de quase não-intervenções, ou seja, interven- Partindo das primeiras habitações coletivas no
ções mínimas. Rio de Janeiro – os cortiços e as estalagens do século
Depois dessas breves considerações sobre o traba- XIX – até chegar ao edifício de apartamentos con-
lho à guisa de resenha, ocorre perguntar que lição o lei- temporâneo, e aos arranha-céus dos anos 30 do século
tor de Estética da ginga poderá tirar? Sem dúvida, a ati- XX, a autora analisa não apenas as diversas manifesta-
tude de ousar, de contrapor-se à forma de pensar ções de habitação coletiva como também as mudanças
consensual, lançando no intercâmbio de idéias, ima- tipológicas e populacionais ao longo do período abor-
gens conceituais novas que podem receber um desejá- dado. Lílian demonstra de que forma as habitações co-
vel acolhimento em relação aos fundamentos da arqui- letivas surgem como habitação popular, transforman-
tetura e do urbanismo. Como ato criativo, o trabalho do-se, ao final do período estudado, em habitação das
constitui um singular acontecimento, pois, como tal, classes média e alta, compreendendo os diferentes es-
pressupõe ainda um processo de atualização, isto é, co- paços construídos como produtos dos sistemas econô-
mo sistema aberto, propício a conexões e heterogenei- mico, político e cultural.
dades sob a égide da lógica da multiplicidade, instru- Considerando a habitação coletiva como mani-
mental teórico extremamente rico em noções e festação própria da modernidade, a autora percorre os
conceitos. Sem dúvida, no âmbito dos estudos teóricos distintos tipos de moradia propondo-se a fazer uma
produzidos no País e que se relacionam com os funda- leitura da modernidade, ultrapassando os limites da ar-

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quitetura e do urbanismo. O livro aborda ainda, em de alto custo. Além disso, há também as avenidas,
relação ao caráter simbólico, a habitação coletiva do sé- classificadas, por Lílian, como “tipo em transição”, e
culo XIX, símbolo da pobreza, da doença, da promis- consideradas estalagens higienizadas que abrigam no-
cuidade e da insalubridade, substituída, no século XX, vos moradores – uma vez que os antigos não podem
pela moradia multifamiliar, moderna e funcional, ex- pagar os aluguéis –, excluindo, assim, os benefícios da
pressão privilegiada da modernidade. modernização dos seus destinatários específicos. Se-
A metodologia adotada, uma pesquisa através de gundo a autora, “iniciava-se o processo de melhora-
classificados dos imóveis, permite rastrear as transfor- mento das moradias mediante a substituição dos seus
mações ocorridas e verificar na habitação, como a moradores” (p.45).
condição do que é coletivo passará a definir a inserção Na análise do processo de especialização funcio-
da cidade na modernidade. Também são analisadas as nal e social do espaço urbano, o uso do solo e as clas-
transformações urbanas, arquitetônicas e simbólicas ses sociais, categorias que antes se misturavam, agora
através de um levantamento de plantas de estalagens, passam a ocupar áreas exclusivas. A população pobre
avenidas, vilas operárias, casas de cômodos e de aparta- instala-se em locais onde os casebres são tolerados, em
mentos, prédios para renda e hotéis, e fica claro como terrenos de difícil edificação e de propriedade indefini-
o edifício de apartamentos inclui uma série de caracte- da, enquanto a classe média, que tem um aumento
rísticas presentes nos seus antecedentes e rejeita outras. progressivo a partir dos anos 20 do século XX, partem
Lílian define, assim, que o surgimento dos apar- para novas opções de moradia: casas isoladas ou em sé-
tamentos não ocorre como uma evolução dos tipos de rie nos bairros servidos por modernos bondes elétricos
casas ou quartos enfileirados – as estalagens, avenidas e e/ou “auto-ônibus”, e com infra-estrutura de serviços e
vilas –, mas representa uma profunda ruptura nessa comércio. As avenidas cedem lugar às vilas, definidas
evolução, apesar de ser um padrão que aprofunda a como “conjunto de habitações isoladas em edifícios se-
tendência de agrupar, cada vez mais, pessoas em uma parados ou não, e dispostos de modo a formarem ruas
área menor, tornando mais coletiva ou mais socializa- e praças interiores sem caráter de logradouro público”
da a moradia. O novo modelo a ser reproduzido, se- (Decreto 2.087 de 19/01/1925).
gundo a autora, é o prático-simbólico, no caso do Rio As vilas, uma vez desvinculadas das habitações
de Janeiro, onde a habitação não é apenas um abrigo, coletivas, vêm atender à emergente classe média e pas-
construção ou elemento isolado, mas também um sam por modificações, buscando privacidade, utilizan-
componente dos sistemas espaciais em que se insere e do novos materiais e novas técnicas que permitem um
que define seu complexo valor de uso. melhor aproveitamento dos lotes: começam as cons-
Tendo como limites espacial e temporal a cidade truções em altura, mesmo antes que se difundisse o uso
do Rio de Janeiro de 1850 a 1937, o livro se desen- do concreto armado.
volve em três partes e cinco capítulos, começando pela Por fim, surgem os apartamentos nos anos 20,
história da habitação coletiva em que são destacados um novo padrão de habitação no Rio de Janeiro que
não só os “grandes momentos de ruptura, mas também terá sua melhor expressão em Copacabana onde a os-
as permanências, fortes impactos e sutis modificações, tentação e o luxo da nova burguesia se cristalizam no
além de uma série de contradições inerentes ao proces- prédio que rompe a ocupação horizontal do recém-
so de transformação da moradia nos tempos moder- ocupado areal.
nos” (p.16). O livro enfatiza a importância da divulgação na
Adotando o conceito de habitação coletiva como aceitação da nova forma de morar, quando busca des-
várias unidades habitacionais abrigadas sob o mesmo vincular os apartamentos da sua condição de habitação
teto e construídas sobre o mesmo lote onde se com- coletiva, sempre associando-os a casas isoladas e inde-
partilham certos equipamentos, a autora identifica di- pendentes, pois, como explicar a aparição e difusão dos
ferenças em cada momento histórico. Das habitações apartamentos se havia um horror generalizado pela
coletivas insalubres, cortiços e estalagens, passa-se às habitação coletiva? A autora considera que o fato de
casas higiênicas – como um modelo ideológico ao os primeiros edifícios de apartamentos terem surgi-
qual são incorporadas inovações técnicas e sanitárias do em áreas nobres e modernas da cidade – como a

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Cinelândia, no Centro, e Copacabana, na Zona Sul – uso residencial, com mudanças quanto ao uso do solo
e serem ocupados por estrangeiros e capitalistas, além e à distribuição da população.
de estarem associados a certas práticas próprias das clas- No novo espaço urbano muda-se a relação entre
ses média e alta, pode explicar, em parte, esta aceitação. habitação popular e habitação coletiva. Desde a proi-
Como afirma a autora “o edifício de apartamentos e bição dos cortiços e a redução da tradicional forma de
Copacabana viriam a sintetizar um novo modo e mo- moradia popular, as favelas se multiplicam, localizadas
rar que significava simplesmente ser moderno” (p.81). próximo a possibilidade de trabalho, seja no setor da
Essa aceitação pode, também, estar vinculada às construção civil ou nas proximidades das moradias
formas de divulgação através da promoção das suas vir- da classe média. É assim que a verticalização e a faveli-
tudes pelos meios de comunicação – os jornais e as re- zação dominam boa parte do cenário carioca, expondo
vistas –, que constroem a imagem da nova moradia co- a cidade sua face mais moderna.
letiva através das características opostas aos dos antigos Ao abordar a questão da modernidade, o livro
cortiços. “Rompe-se, dessa maneira, o elo de ligação aponta a habitação coletiva como expressão privile-
com os tipos antecessores de habitações coletivas” giada da modernidade, e vai além do contexto habi-
(p.87). tacional da arquitetura e do urbanismo, buscando a
Na questão estética e formal, afirma-se que, na interface entre as áreas temáticas da habitação e da mo-
medida em que as habitações coletivas são apropriadas dernidade. Nos itens específicos, a autora busca, em
pela classe média, são incorporados elementos de dife- cada um, uma particularidade, uma constatação e uma
rentes estilos arquitetônicos, um processo de embur- observação sobre algum aspecto dessas transformações.
guesamento da habitação coletiva, além da transforma- É na relação entre o individual e o coletivo, a moradia
ção de seu conteúdo social no período abordado. A e o trabalho, a fragmentação do espaço e a exclusão so-
diferença entre as antigas habitações coletivas, destina- cial que busca estabelecer um paralelo entre a escala da
das às classes trabalhadoras, consideradas insalubres, e cidade e a escala da habitação.
os novos prédios de apartamentos, destinados às clas- Concluindo, Lilian levanta discussões de grande
ses média e alta, está em ser a primeira concebida por pertinência ao mesmo tempo que proporciona uma
uma classe para a outra enquanto a segunda é a mora- leitura agradável, com exemplos e imagens que facili-
dia da própria classe que formula conceitos de bem e tam sua compreensão. O livro, que não pretende es-
mal morar. “Desde o início da polêmica ficou clara a gotar o tema, traz uma grande contribuição ao estudo
articulação habitação coletiva/‘desprovidos da sorte’ e da história das habitações no Brasil, principalmente
edifícios de apartamentos/burguesia” (p.133). Marca a considerando o percurso realizado – as transforma-
diferença a utilização de habitação “multifamiliar” em ções arquitetônicas, urbanas, sociais e simbólicas da
substituição à habitação “coletiva”. habitação coletiva no Rio de Janeiro do final do sécu-
Este simbolismo marca-se, principalmente, pela lo XIX até os anos 30 do século XX. Sem dúvida, um
requalificação de elementos existentes, deixando pa- percurso pouco explorado, com poucas publicações e
tente que os edifícios de apartamentos não são nada muitas possibilidades dentro da historiografia da ar-
do que as antigas habitações coletivas foram, e passam quitetura brasileira.
a ser tudo o que aquelas não haviam sido. Além do Muito já se escreveu sobre as experiências de ha-
que, ao prestígio da moradia soma-se o prestígio do bitação coletiva no final do século XIX e princípio do
local da moradia, o “conceito da habitação coletiva foi século XX no Rio de Janeiro – como, por exemplo,
renovado, transformando-se o seu sentido negativo Roberto Moura, em Tia Ciata e a Pequena África no
em positivo e metamorfoseando o seu sentido simbó- Rio de Janeiro, e Lia de Aquino Carvalho, em Contri-
lico” (p.141). buição ao estudo das habitações populares. Rio de Janei-
No que se refere ao espaço urbano, a abordagem ro 1886-1906, além de outros, que mesmo não tra-
se faz através das transformações na morfologia e na es- tando especificamente do tema, abordam questões
trutura urbana que acontecem com o início do proces- referentes às formas da habitação das classes menos fa-
so de verticalização que, no caso do Rio de Janeiro, vorecidas como Visões da liberdade e Cidade febril, de
apresenta o predomínio da localização litorânea e do Sidney Chalhoub, e Evolução urbana do Rio de Janeiro,

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R E S E N H A

de Maurício de Abreu, apenas para citar alguns. É im-


portante destacar que o livro que Lílian nos apresenta
se soma aos anteriores na história da habitação no Bra-
sil, em particular, porque preenche uma lacuna ao es-
tudar o edifício de apartamentos no período da transi-
ção para o modernismo, quando se verifica a mudança
na forma de habitar, sua relação com o espaço urbano
e a produção social de moradias.

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As referências bibliográficas deverão ser colocadas no final do artigo, de acordo com os exemplos abaixo:
GODARD, O. “Environnement, modes de coordination et systèmes de légitimité: analyse de la catégorie de patri-
moine naturel”. Revue Economique, Paris, n.2, p.215-42, mars 1990.
BENEVOLO, L. História da arquitetura moderna. São Paulo: Perspectiva, 1981.
Se houver até três autores, todos devem ser citados; se mais de três, devem ser citados os coordenadores, orga-
nizadores ou editores da obra, por exemplo: SOUZA, J. C. (Ed.). A experiência. São Paulo: Vozes, 1979; ou ainda,
a expressão “et al” (SOUZA, P. S. et al.). Quando houver citações de mesmo autor com a mesma data, a primeira
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nicas (ABNT). Para citações dentro do texto, será utilizado o sistema autor-data. Ex.: (Harvey, 1983, p.15) A indi-
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