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MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E DO DESPORTO

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA


PÓS-GRADUAÇÃO EM ENGENHARIA DE PRODUÇÃO
MÍDIA E CONHECIMENTO

Professor Francisco Antônio Pereira Fialho


EPS3662 – Ergonomia Cognitiva

ARTIGO*

Biologia, Ergonomia e Cognição

01 – Introdução
Esse trabalho tem como justificativa e motivação, cumprir uma tarefa ou trabalho
acadêmico/escolar formal. Ele não se reveste, por limitação de tempo, do rigor metodológico
necessário e, uma revisão exaustiva e atualizada da literatura exigidos de uma publicação
acadêmica. Entretanto, ele é o ponto de partida para elaboração de um trabalho mais definitivo
sobre o tema em outro momento.
O estudo da Cognição e da Ergonomia na área da Biologia não é uma questão visível. Ela
é perceptível nas áreas de atendimento das pessoas que tenha indicação de deficiência mental,
vinculada à avaliação do QI (quociente de inteligência). A aproximação entre estas áreas do
conhecimento pode ser feita no campo de conhecimento relacionado com o Comportamento
envolvendo vários campos de conhecimento dentro da Biologia, nos quais podemos incluir
Cognição e Ergonomia. E mesmo nestas áreas não há uma produção acadêmica relevante. Não é
por falta de iniciativa, Darwin, 2000, desenvolveu importantes e sistemáticas observações,
experiências e idéias.
Ao prefaciar a edição brasileira do livro de Darwin, 2000, Konrad Lorenz faz algumas
observações que por si só justifica o presente trabalho. Escreveu ele “Em ciência, e
particularmente em biologia, o descobridor de um novo princípio explicativo está sempre sujeito
a superestimar o alcance de sua explicação. Quando Jacques Loeb descobriu o princípio do
tropismo, chegou acreditar, e esperar, que todo o comportamento humano e animal pudesse ser
explicado com base na interação dos tropismos. Quando I. P. Pavlov descobriu a resposta
condicionada, pensava aproximadamente o mesmo de seu princípio explicativo. Os escritos de
Sigmund Freud estão cheios de generalizações semelhantes”. E escreveu mais, “...o maior dos
descobridores no campo da biologia não cometeu esse erro: quando Charles Darwin descobriu a
seleção natural – o princípio explicativo que estaria destinado a mudar nossa concepção do
homem e do mundo mais do que qualquer outro antes dele – decididamente não superestimou a
quantidade de fenômenos que poderiam ser explicados por seu intermédio. Se errou, foi ao não
completar sua teoria. Por essa razão, incomoda-me profundamente o termo “darwinismo”. É uma
calúnia injusta que acusa o grande homem de um pecado que, mais do qualquer outro, ele
abominaria”. Lorenz considera Darwin o santo padroeiro da biologia do comportamento, anteviu
seus maiores problemas e traçou uma estratégia de pesquisa que é o seu ponto de partida. E faz
uma provocação, o “fato, ainda ignorado por muitos psicólogos, consiste simplesmente em que
padrões comportamentais são características tão confiáveis e conservadas nas espécies quanto as
formas dos ossos, dos dentes, ou de qualquer outra estrutura corporal. Semelhanças entre
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comportamentos hereditários unem membros de uma espécie, de um gênero, e mesmo de


unidades taxonômicas maiores, exatamente da mesma maneira como o fazem as características
corporais”. E finaliza, “Em minha opinião, é no campo do estudo do comportamento que as
incontáveis verdades contidas em A expressão das emoções no homem e nos animais alcançam
suas conseqüências mais abrangentes, no plano teórico, prático e até político. É nessa convicção
que se apóia minha justificativa interior para escrever este prefácio. Não duvido, no entanto, que
muitos outros biólogos, trabalhando em campos diferentes, poderiam dizer o mesmo com o igual
direito. Acredito que mesmo hoje ainda não percebemos precisamente o quanto Charles Darwin
sabia”. Pág. 11.

02 – MATERIAL E MÉTODO
Em material e método usamos autores mais tradicionais, Darwin e Marx, ao lado de
autores contemporâneos, Motta e Futuyma para evidenciar os aspectos históricos e atuais das
áreas em que venho atuando mais recentemente, e construir uma justaposição justificada para as
questões de Ergonomia e Cognição.
Entre os biólogos a evolução é aceita como um fato, considerando a paleontologia, a
antropologia física, a genética molecular. E que o homem é produto dela. A dificuldade, hoje,
sobre a qual existe muita especulação, é a hipótese sobre a origem da vida. A hipótese existe e é
consistente. As dificuldades são sobre a sua aceitação. Estas dificuldades não tem impedido o
desenvolvimento das investigações no campo da evolução. Stebbins, 1970, considera que os
processos evolutivos que levaram a formação dos grandes grupos taxonômicos são similares
àqueles observados em grupos atuais de animais e plantas, que presentemente evoluem à nossa
volta.
A nossa espécie, Homo sapiens, surgiu a mais de 35.000 anos. E cada vez que são
reavaliados os conhecimentos sobre sua origem a tendência é afastar mais ainda esse marco. O
certo é que o homem surgiu na África e nesse período de tempo espalhou-se e ocupou,
praticamente, toda a superfície terrestre. Desde o nível do mar, às regiões subpolares e à altitudes
consideráveis.
Em sítios arqueológicos são encontrados registros de que Homo sapiens enterrava os
mortos com flores, instrumentos de caça, indicando acreditarem em outra vida após a morte, e
talvez alguma forma de religião. O desenvolvimento da linguagem foi um passo importante, não
só para a comunicação, como para o desenvolvimento de idéias. Curiosamente, o
desenvolvimento da linguagem foi seguido de uma grande diversidade lingüística e, portanto, de
isolamento, Motta, 1993.
Na caracterização histórica do trabalho humano, Marx 1983, busca os materiais
encontrados nas cavernas humanas mais antigas. Nelas são encontrados armas e outros
instrumentos de pedra. Ao lado destes, madeira, osso e conchas trabalhados, e animais
domesticados. Todos modificados pelo trabalho e, dando início a história humana, tendo com
papel principal serem meios de trabalho. O uso e a criação de meios de trabalho caracterizam o
processo de trabalho especificamente humano.
Darwin, 1974, considera, que no processo histórico, o homem adquiriu uma grande
capacidade de adaptar os seus hábitos às novas condições de vida. Inventou armas e utensílios
para a obtenção de alimentos e defender-se. Ele emigra, usa roupas, constrói cabanas e, com a
ajuda do fogo, cozinha alimentos de outro modo seriam intragáveis. Atuou de modo colaborativo
com os seus semelhantes e, adquiriu a capacidade de prever acontecimentos futuros. Desde
tempos mais remotos praticou uma espécie de divisão do trabalho.
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Deve ter sido de grande importância para o homem primitivo e para os seus antepassados
semelhantes a símios, o aperfeiçoamento potencializado através da seleção natural. “Sobre a
grande importância das faculdades intelectivas não podem subsistir dúvidas visto que o homem
deve principalmente a elas sua posição predominante no mundo. Podemos ver que nos estágios
mais rudes da sociedade, os indivíduos mais sagazes, aqueles que inventavam ou usavam as
melhores armas ou estratagemas e estavam mais bem aparelhados para defender-se, podia
aumentar em número e suplantar outras tribos”. Darwin, 1974 pág. 155.
Mostrando uma visão geral e abrangente sobre a seleção, como a compreendemos hoje,
Darwin 1974, é de opinião que a acumulação de riqueza, a mobilização militar com a reprodução
preferencial dos mais fracos, são fatores que não interferem no processo de seleção.
Motta, 1993, argumenta que a caça tornou-se possível graças ao conjunto de ferramentas e
pela variedade de técnicas. Ela tornou-se um modo de vida. O sucesso destas adaptações
dominou o curso da evolução humana por milhares de anos. Nosso interesse e capacidade
intelectual, as emoções e a vida social básica são produtos evolutivos de sucesso da adaptação à
caça. Quando os antropólogos falam da unidade da humanidade, eles estão afirmando que as
pressões seletivas da caça e da vida grupal eram tão similares e os resultados tão bem-sucedidos,
que as populações de Homo sapiens ainda são fundamentalmente as mesmas em toda parte.
Marx 1983, considerava que o trabalho é um processo entre o homem e a natureza, um
processo em que o homem, por sua própria ação, medeia, regula e controla a sua interação com a
Natureza. Ele se defronta com a matéria natural como uma força natural. Põe em movimento as
forças naturais pertencentes ao seu corpo, braços e pernas, cabeça e mão, a fim de apropria-se da
matéria natural numa forma útil para sua própria vida. Ao atuar, por meio desse movimento,
sobre a Natureza externa a ele e, ao modifica-la, ele modifica, ao mesmo tempo, sua própria
natureza. “Pressupomos o trabalho numa forma em que pertence exclusivamente ao homem”.
Marx, 1983, L1, V1, Pág. 149/150.
Darwin, 2000, escreveu e descreveu uma série significativa de observações sobre o homem,
comparando-as com outros animais. Dentre as características e fatos por ele descritos
destacamos: crianças quando querem comida gritam alto, como os filhotes de quase todos os
outros animais, em parte para chamar seus pais; a capacidade de controlar os músculos da tristeza
parece ser hereditária; uma idéia engraçada faz cócegas na imaginação, e essas assim chamadas
cócegas da mente são curiosamente parecidas com as do corpo; em grande parte do reino animal,
sons instrumentais ou vocais são empregados como uma forma de chamar ou atrair o sexo
oposto, são também empregados como uma maneira de saudar o encontro entre os pais e suas
crias, e entre membros mais próximos de uma comunidade; um intenso desejo de tocar a pessoa
amada geralmente é sentido, e assim se expressa o amor mais claramente do que por qualquer
outro meio, por isso ansiamos por abraçar aqueles que amamos ternamente, devemos esse desejo
provavelmente ao hábito herdado, associado à criação e ao cuidado com nossos filhos, e também
às carícias mútuas dos amantes; a atenção se repentina e intensa, transforma-se em surpresa, e
essa em espanto, que, por sua vez, pode evoluir para um assombro estupefato, este último estado
de espírito muito se aproxima do terror; na Última Ceia, de Leonardo da Vinci, dois dos
apóstolos têm suas mãos levantadas a meia altura, expressando claramente seu espanto; de todas
as partes do corpo, o rosto é a mais observada e valorizada, o que é natural, por ser o principal
sítio das expressões e fonte da fala, é também o principal sítio do belo e do feio, e no mundo todo
é sua parte mais enfeitada; algumas glândulas são muito influenciadas por se pensar nelas ou nas
condições que habitualmente as estimulam, é um fato familiar para qualquer um no caso do
aumento do fluxo de saliva, quando pensamos, por exemplo, numa fruta ácida; quando voltamos
toda nossa atenção para qualquer dos nossos sentidos, sua acuidade aumenta.
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Futuyma, 1992, é de opinião que a cultura influencia a evolução biológica. Afeta o


tamanho da população, o fluxo gênico e, muitos agentes da seleção natural. A evolução do
comportamento humano suscita interesse e controvérsia sobre como o comportamento pode ser
limitado pelos nossos genes. E claro, nosso comportamento é geneticamente determinado no
sentido comum, de que o tamanho e a complexidade do nosso sistema nervoso é codificado no
DNA. Presume-se que as características sejam geneticamente homólogas entre os humanos e as
outras espécies.
Sobre a evolução, Futuyma 1992, cita uma importante contribuição Dobzhansky “à seleção
natural para a capacidade de ser instruído e para a plasticidade do comportamento tem sido o
fator direcional dominante na evolução humana e não a seleção para o egoísmo ou altruísmo
geneticamente fixados”.
A discussão “natureza versus condições sociais” tem privilegiado, mais do que qualquer
outro, a variações na inteligência ou, no valor do QI, como não se sabe o que é a inteligência ou
como defini-la a não ser pelo valor do QI. Pressupõe-se que esses testes sejam neutros
culturalmente, mas na realidade eles têm sido criticados por favorecerem determinados
seguimentos sociais. A forma de minimizar estas críticas, que são pertinentes, é que o teste deve
adaptado à cada população na qual se pretende aplica-lo.
A maioria das pessoas concorda que os componentes da inteligência (quaisquer que sejam
eles) têm uma base física e bioquímica no cérebro e que algumas alterações genéticas (tais como
a fenilcetonúria) pode prejudicar o desenvolvimento intelectual. “O debate, então, é se a variação
contínua no QI também representa variação genética”. Futuyma, 1992, pág. 560.
A evolução unifica os conceitos da biologia moderna, dando coerência à genética e à
fisiologia, dá consistência a numerosas aplicações prática da biologia. “De um ponto de vista
filosófico, certamente nada pode trazer mais satisfação do que conseguir um entendimento sobre
nossa origem e a dos outros seres vivos e podemos muito bem concordar com Darwin que “existe
grandeza nesta visão de vida”, na qual “de um começo tão simples, incontáveis formas muito
bonitas e maravilhosas, têm se desenvolvido e estão se desenvolvendo”. Futuyma, 1992, pág.
563.
Abordando a questão da emoção, conforme Sabbatini 1998, Minsky manifestou: “emoção
é somente uma forma diferente de pensar. Pode usar algumas das funções corporais, tais como
quando nos preparamos para fugir (o coração bate mais rápido, etc). Emoções têm um valor de
sobrevivência, ou seja, ele nos ajuda a nos comportarmos mais eficientemente em algumas
situações. Nesse sentido, os animais têm emoções melhores, mais fortes e mais rápidas do que
nós”.
“Entretanto, computadores verdadeiramente inteligentes terão que ter emoções. Isto não é
impossível ou mesmo difícil de alcançar. Uma vez que entendamos a relação entre pensamentos,
emoção e memória, será fácil implementar estas funções no software.
Freud foi um dos primeiros cientistas computacionais, porque ele estudou a importância da
memória. Ele foi também pioneiro em propor o papel das emoções na personalidade e no
comportamento. Isto é novidade porque todo mundo ouviu somente suas idéias sobre sexo”.
Continua Minsky, “De acordo com Freud, a mente é organizada como um sanduíche. Ela
é feita de três camadas: o superego, que nos dá a auto-imagem, as nossas ligações com outras
pessoas, etc., e que aprende os valores e idéias sociais, proibições e tabus, os quais são
aprendidos principalmente com nossos pais. Abaixo dele existe o ego, que media a resolução de
conflitos, e conecta as entradas sensoriais e a expressão motora. Debaixo do ego encontramos o
id, que é responsável pelo nosso sistema inato de motivações (pulsões), as nossas necessidades
básicas, tais como fome, sede, sexo, etc.”
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Assim Minsky conclui sua resposta, “Este poderia ser um bom modelo para um programa
de computador que fosse capaz de ter personalidade, conhecimento e emoções, percepção social,
restrições morais, etc.”

03 – Discussão
A tarefa de discutir, comparativamente, Ergonomia, Cognição e Biologia, como foi
proposto na introdução, não é uma tarefa fácil. Cada Ciência tem metodologias e procedimentos
peculiares, o que as diferem entre si. E internamente, cada uma delas tem abordagens muito
diversificadas. Embora, todas elas possam ter o homem como objeto. Tendo o homem como
objeto, indiscutivelmente, podemos considerar que Ergonomia e Cognição são Ciências do
campo biológico.
Darwin 2000, continuou abordando uma das questões que causou mais polêmica, com a
publicação de sua maior obra, “A Origem das Espécies”, discutindo a ascendência comum entre o
homem e o macaco. Ele observa e descreve em minúcias as semelhanças de expressões e
emoções comuns entre os homems, entre estes, em diferentes partes do mundo e, ambientes
culturais distintos, e destes com animais de diferentes espécies.
Esta abordagem feita por Darwin, 2000, foi intensamente explorada, e confirmada em
diferentes graus de verificação. Quem deu maior relevo a esta abordagem foi Konrad Lorenz que
ganhou, pelo conjunto de seus trabalhos sobre o comportamento, o prêmio Nobel no início da
década de 70 do século passado. Uma outra abordagem, que me parecia muito importante, foi a
que levou a criação da Sociobilogia. Estas duas iniciativas, entretanto, não tiveram grande
desenvolvimento, pelo menos, no Brasil. Por outro lado, a Neurolingüística é que, a meu juízo, se
beneficiou, enormemente, dos trabalhos desenvolvidos nas áreas: social e do comportamento, a
partir dos trabalhos de Darwin.
A relação filogenética entre os seres vivos é, hoje, aceita como fato, mesmo fora da
comunidade científica. E cada vez que se buscam novos dados eles reforçam esta relação.
Os achados arqueológicos revelam que o Homo sapiens surgiu a mais de 35.000 anos
atrás ao lado de dois fatos importantes. Um está relacionado às crenças o outro é o trabalho.
Ambos relacionados com o comportamento. Contemporaneamente, o primeiro pode ser
considerado o lúdico e o segundo a subsistência, ambos ligados as necessidades.
Os fundamentos sobre as necessidades humanas foram sistematizados, quase que
simultaneamente e de forma independente, por Darwin, Marx e Freud. Cada um deles teve seus
seguidores que continuaram e ampliaram suas obras. Talvez pela polêmica que suscitaram, na
época em que foram produzidas, é que se mantém, na atualidade, os debates que implementam o
conhecimento sobre o homem e seu ambiente. Não sabemos quando será elaborada uma síntese
sobre estes conhecimentos. Sabemos sim, que ela poderá revelar surpresas, que por certo,
agradarão a uns e, desagradarão a outros tantos. Entretanto nenhum deles será descartado. Ao
contrário, eles continuarão contribuindo para o desenvolvimento do conhecimento sobre a
sociedade e o ambiente.
Fialho, 2001, faz uma abordagem mais pragmática que atualiza boa parte das questões,
facilitando as discussões sobre a Ergonomia, Cognição e Biologia. Ele considera que o
funcionamento cognitivo é de natureza sistêmica. Podendo ser tratado ao nível citológico,
neurológico e fisiológico. E que atividade mental só é consciente em situações iniciais da
aprendizagem, não familiares ou de comunicação e decisão coletiva. Afirmando que “A função
Construção de Conhecimentos garante a evolução do sistema cognitivo ao lhe permitir se
enriquecer pela experiência”. Pág. 66. Partindo de construções simbólicas na terceira pessoa via
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textos, na primeira pessoa, a partir da resolução de problemas. Sendo a primeira uma


aprendizagem por instrução e, a segunda, uma aprendizagem por descoberta.
Conhecer como se dá o processo de aprendizagem é recorrer o caminho inverso do seu
processo evolutivo.
Dentro do processo da aprendizagem a memória é uma das estruturas biológicas de maior
relevância. Adquirida a sua base evolutiva, ela participou ativamente da construção das estruturas
cognitivas e dos instrumentos que estenderam o alcance do corpo humano sobre a natureza, daí
surgiu igualmente a sua complexidade. “A representação de conhecimento, através de redes
semânticas, parte do conceito de que a memória humana é associativa. O conhecimento, dentro
desse paradigma, é modelado como um conjunto de nós conectados por ligações chamadas arcos
que descrevem as relações entre os nós”, Fialho, 2001, pág. 116.
Ampliando o conceito de redes semânticas, outro conceito importante é o de redes neurais
artificiais inspiradas em modelos biológicos, elas, como o cérebro, são capazes de auto-
organização. Sobre estas, Tafner 1998, postula, que “as redes neurais artificiais representam um
novo paradigma metodológico no campo da Inteligência Artificial, ou seja, no desenvolvimento
de sistemas computacionais capazes de imitar tarefas intelectuais complexas, tais como a
resolução de problemas, o reconhecimento e classificação de padrões, os processos indutivos e
dedutivos, etc.”
Respondendo as perguntas, feitas por Sabbatini 1998, de “qual é a contribuição que as
ciências da computação pode fazer para o estudo do cérebro e da mente? Minsky, um dos mais
eminentes pesquisadores sobre Inteligência Artificial, assim se manifestou: “bem, para mim está
bem claro que as ciências computacionais mudarão nossas vidas, mas não por causa dos
computadores e sim porque nos ajudarão a entender os nossos próprios cérebros, e a aprender
qual é a natureza do conhecimento. O computador nos ensinará como aprender a pensar e a
sentir. Este conhecimento mudará nossa visão da humanidade e nos capacitará a mudarmos a nós
mesmos. As ciências da computação dizem respeito à complexidade, e nós somos as coisas mais
complexas deste mundo.” E sobre uma outra pergunta: “você parece acreditar que nós seremos
capazes de construir uma inteligência no futuro. Mas os seres humanos têm consciência,
percepção de si mesmo. Os computadores serão capazes disto?” Minsky assim manifestou: “é
muito fácil tornar os computadores conscientes deles mesmos. Por exemplo, todos os
computadores têm uma pilha, uma espécie de área especial da memória onde o computador pode
olhar para ver suas ações passadas. É um problema trivial e não muito importante. O problema
real é saber como a mente sabe sobre ela mesma. Nós não entendemos como isto acontece.
Pessoas tem uma consciência superficial sobre elas mesmas. Não é uma coisa misteriosa. A
medida em que os computadores conseguirem um mínimo de bom senso nós saberemos”.
Sobre a modelagem cognitiva assim se manifesta Fialho, 2001, “A possibilidade de
simulação possibilitou, pela primeira vez na Psicologia, um diálogo entre Teoria e Prática. Pelo
uso de simuladores, tórias podem ser testadas, suas previsões verificadas e eventuais desvios
traduzidos em refinamentos sucessivos, característica, até então, das ciências tecnológicas”, pág.
227.
Como se nota, quando o homem constrói instrumentos para conhecer a realidade, na qual
ele está inserido, ele constrói, ao mesmo tempo, os instrumento para o seu próprio conhecimento.
Cardoso e Sabbatine, 2000, .consideram que a capacidade simbólica do cérebro,
geneticamente determinada, gerou coisas notáveis como uma habilidade de aprender qualquer
língua ou inventar linguagens: artificial e de computador. Ela gerou a capacidade especial de
inventar melodias, sons harmônicos, dança, elementos simbólicos que usam, provavelmente, as
mesmas estruturas cerebrais responsáveis pela fala, articulação dos movimentos e pela integração
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de tudo isso. E manifestam “entre nossas características culturais únicas, a arte é talvez a mais
nobre invenção humana. Imaginem, por exemplo, a necessidade de recrutamento de bilhões de
neurônios, milhares de músculos, imensa capacidade sensorial, visual e auditiva, a espantosa
capacidade de memória envolvida para saber de cór e executar um concerto para tocar uma
serenata de Chopin ao piano. São bilhões e bilhões de neurônios, treinados ao longo de anos de
prática, espalhados por todas as regiões do cérebro, e trabalhando em harmonia para produzir um
resultado de uma complexidade inimaginável”.

04 – Conclusão
Consideramos que a Ergonomia e a Cognição fazem parte da mesma abordagem, que ao
lado da Evolução, são partes da Biologia, e constituem-se em poderosas ferramentas para o
conhecimento do homem e do meio, do qual ele é parte inseparável. É necessário incluir entre
estas, para uma abordagem mais abrangente, a Psicologia Evolutiva que de acordo com a
definição proposta por Tooby e Cosmides, conforme Spriggs 2000, "a psicologia evolutiva
constitui-se simplesmente na psicologia que leva em consideração os conhecimentos adicionais
que a biologia da evolução tem a oferecer, na expectativa de que a compreensão do processo que
moldou a mente humana impulsionará a descoberta de sua arquitetura”, e a Genética do
Comportamento que de acordo com Ramos, conforme Calegaro 2000, que: “Genética
comportamental é a área de intersecção entre a genética e as ciências comportamentais. Por causa
da diversidade de abordagens e de metodologias que podem ser adotadas no estudo do
comportamento, esta área pode interessar e atingir diversos campos científicos, como a etologia,
a psicologia, a psiquiatria, a farmacologia e as neurociências de maneira geral”. Ao lado destas e,
com o mesmo nível de importância fica a Biologia Evolutiva, com a qual Futuyma, 1992, nos faz
uma bela mensagem, “a biologia evolutiva, da mesma forma que outro conhecimento, deve
servir às causas da liberdade e dignidade humanas. Juntamente com a genética e a ecologia,
suas aplicações na medicina, produção de alimentos e manejo do ambiente podem ajudar a
livrar-nos da doença e da fome. À medida que aprendemos sobre a genética humana, passamos
a avaliar melhor a uniformidade da espécie humana. À medida que entendemos as explicações
científicas dentro dos domínios da biologia humana, nós ganhamos confiança – ou ficamos
aterrorizados – pela conscientização de que nosso destino como espécie depende do nosso
próprio discernimento e compaixão e não dos caprichos de uma entidade sobrenatural
desconhecida. À medida que pensamos com humildade sobre o nosso lugar na história biológica
e à medida que refletimos sobre nossa origem comum com outros seres vivos, poderemos passar
a perceber e a nos preocupar com aquelas incontáveis formas muito bonitas e maravilhosas”,
pág. 564.
É possível, sim, avançarmos nosso conhecimento sobre o homem e a natureza que o
insere, de uma forma mais unitária.

05 – Bibliografia
CALEGARO, Marco, 2000. Genética do Comportamento: Entrevista com Prof. Dr.André
Ramos. Cérebro & Mente: Revista Eletrônica de divulgação Científica em Neurociências,
número 10. http://www.epub.org.br/cm/n10/opiniao/entrevista.htm

CARDOSO, Silvia Helena, PhD e Renato M. E. Sabbatini, PhD, 2000. O Que Nos Faz
Unicamente Humanos? Cérebro & Mente: Revista Eletrônica de divulgação Científica em
Neurociências, número 10. http://www.epub.org.br/cm/n10/editorial-n10.htm
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DARWIN, Charles, 1871. A Origem do Homem e a Seleção Sexual. HEMUS, São Paulo, 1974.

______ 1872. A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais. Companhia das Letras,
2000. São Paulo.

FIALHO, Francisco Antônio Pereira, Ciências da Cognição. Editora Insular, 2001. Florianópolis.

FUTUYMA, Douglas J., Biologia Evolutiva, Segunda Edição. Sociedade Brasileira de Genética,
1992. Ribeirão Preto, SP.

MARX, Karl, 1867. O Capital, Crítica da Economia Política. Abril Cultural. São Paulo, 1983.

MOTTA, Paulo Armando. Genética em Psicologia. Editora Guanabara Koogan, Terceira Edição,
1993. Rio de Janeiro.

SABBATINI, Renato M. E., PhD, 1998. A Mente, Inteligência Artificial e Emoções: Entrevista
com Marvin Minsky. Cérebro & Mente: Revista Eletrônica de divulgação Científica em
Neurociências, número 7. http://www.epub.org.br/cm/n05/tecnologia/plasticidade2.html

SPRIGGS, William A., 2000. O Que É Psicologia Evolutiva? Cérebro & Mente: Revista
Eletrônica de divulgação Científica em Neurociências, número 11.
http://www.epub.org.br/cm/n11/opiniao/evolutive-p.htm

STEBBINS, George Ledyard, 1970. Processos de Evolução Orgânica. Editora Polígno e EDUSP.
São Paulo.

TAFNER, Malcon Anderson, 1998. As Redes Neurais Artificiais: Aprendizado e Plasticidade.


Cérebro & Mente: Revista Eletrônica de divulgação Científica em Neurociências, número 5.
http://www.epub.org.br/cm/n05/tecnologia/plasticidade2.html

Florianópolis, 11 de dezembro de 2000.


*Milton Muniz/Doutorando
Professora, Doutora Edna Garcia Maciel Fiod/Orientadora