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ESTUDOS

DE TRADUÇÃO

SBN 972-31-1019-9

II
11.1111111

~111111111
9 789723 110197
ESTUDOS DE TRADUÇAO

E Professora de Estudos Liiekios Cornpa-


radur, e D i ~ c r u r ddu Crntre for Briiish md
Comparutive Cultural Siudies da Universi-
dadc de Warwick c autora de mais de trinta
livros. enm os quais Pn.~t-CnliniulTmnslu-
iions f 1999). em co-autoria com Hamish Tri-
vedi. e Exchanging Lives (2002). cunstiiuído
p r uni conjunto de pernas e & traduções.

Vivina Campos Figueimdo


1-icenciadaem Línguas r Literaiuras Moder-
nas e niesw em Anglo-Americanos
pela Faculdade de Letra5 da Universidade &
Coimbra, t d w e n i e de Inglês, Inglês T6c-
nico e P m e s w de Comunicação no Insti-
tuto Potitécnico de Coimbra. A par da activi-
dadc doccnk, tcm-sc dcdicado h Iradução na
dupla vertenie prãiiçíi e idrica; às diversas
iraduc;ks que iem realimciu em viriirias Areas
das ciências m i a i s e humanas. junta agora
um trabalho de invcsligaçãn e reflexão sobre
a actividade traduiória em si. no imbito do
üoutoramenio em Traduçb, que desenvolve
na Univemidade Vigo.

Ana Ma- Chaves


Licenciada pela Faculdade de Lcira~da Uni-
versidade de Lisboa. é, dcsde 1978, leitora
de 1nglé.s na Universidade da Minha. onde
laçiuna Língua Inglesa, Teoria da Trudusnu
e Traduqáo. Em 1990 desenhou a L i c e ~ i a -
tura em CiCncias da Triiduçgo e Cultura
Comparada da ISLA de Vila Nova de Gaia.
curso que dirigiu até 1 W6. Tem uma extensa
bibliografia de traduçks liierárias, entre elas
obras de Willium Faulkner, Emiiy Brhte,
D. H. Lawrence, Somerset Maugham E
David Ldp.
Edições da FUNDAÇÃO
CALOUSTE GULBENKIAN

No prosscguimento dos fins gurais que a


h t a r n . foi a FundaFgo Iwada a intervir na
prduçiíode l i v m prbguese9 patrocinando
e edífartdo obmi d i v m e de diverso carllc-
ter - científico. técnico. artlstico, histórico.
Pretende agora atravh de um plano amplo e
sistem&ico, atingir aqueles sectores onde seja
mais flagrante a necessidadede ampam ou de
incentivo. Nesta primeira f m do piano esta-
belecido,pensou-se no ensino superior: e m -
danks que n&o encontram l i m s ukquadm e
de ptqo acessivel, pmPaPsons que pos v e m
deparam com dificdâaâes p m publicar as
suas l i ç h ou os seus trabaihos de investi-
g a ~ &A ~ .uns e o u m oferece a Fund;rFBo
fail-iliddes que psibililem a t f i c i h i a cada
vez maior desse escalão fundamental da
nossa cultura. Originais e h'&#&, mcsirts
portuguesa e tshmgcim, vão f i
m =ta
colecçk. que se procumu d c a r dos maicm
cuidados e exigencias técnicas.

A Era da Informqdo: E c m i S~o c i d e


e Culfum- III bl.- O Fitn do MilPniu
- Manuel Castells

A Doufa Ignorância
- Niwlau de Cusa

Rnrmuiceim Portugub da Trudigbo Oral Mo-


dernu - IY Vd.
- ?kre F e d (Org.)

Capa de José António Rores


ESTUDOS DE TRADUÇÃO
FUNDAMENTOS DE UMA DISCIPLINA
SUSAN BASSNETT

ESTUDOS DE TRADUÇÁO
FUNDAMENTOS DE UMA DISCIPLINA

Tradução de
Vivina de Campos Figueiredo
Revisão de
Ana Maria Chaves

SERVIÇO DE EDUCAÇÁO E BOLSAS

FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN I LISBOA


Tradução
do original inglês intitulado
TRANSLATION STUDIES
O 1980, 1991,2002 Susan Bassnett
AI1 Rights Reserved Ao meu pai, que tudo tornou possível.

Tradução autorizada da edição em língua inglesa


publicada por Routledge, membro de Taylor & Francis Group

Reservados todos os direitos de acordo com a IU

Edição da
FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN
Av. de Berna - Lisboa
2003

ISBN 972-31-1019-9
Depósito Legal n.' 198 101103
Estudos de tradução

Nos fioais da década de setenta nasceu u m nova dis-


ciplina académica: m Estudos de Tradução. Era manifesta
a dificuldade de lermos literatura traduzida sem nos per-
guntarmos se os fen6menos linguísticos e culturais seriam
realmente "traduzlveis" e sem explorarmos com alguma
profundidade o conceito de "equivai~ncia".

Quando Estudos de Tradução, de Susan Bassnett, foi


publicada na série New Accents, depressa se tornou na
obra introdutória que todos os estudantes e leitores inte-
ressados por esta problemhtica tinham de possuir. A Pro-
fessora Bassnett aborda os problemas centrais da tradução
e oferece-nos uma hist6ria da teoria da tradução que tem
inicio na Roma antiga e engloba as obras-chave do sé-
culo XX.Em seguida explora problemas específicos da
tradução literária atraves de uma análise de textos prhtica
e focalizada, e termina com um vasto leque de sugestões
para leituras subsequentes.
Vinte anos após a sua publicação, a &a dos estudos
de tradução continua em expansão, mas hã algo que não
mudou: actualizada pela segunda vez, Estudos dr Tradu-
ção, de Susan Bassnett, continua a ser uma obra de leitura
obrigatória. Prefácio do Director da Série
New Accents
Susan Bassnett 4, Professora Catedrática de Estudos
Literários Comparados em Tradução no Centro de Estu-
dos Culturais Comparados da Universidade de Warwick.

Parece sem dúvida difícil justificar um terceiro Prefá-


cio à strie New Accents. O que resta para dizer? A série
iniciou-se h&vinte e cinco anos com um prop6sito muito
claro. A sua principal preocupação era o mundo cada
vez mais perplexo dos estudos literános e académicos, as-
solado por monstros frenéticos denominados 'Teoria",
"Linguistica" e "Política". Visávamos em particular os es-
tudantes de graduação e inicio de pós-graduação que esta-
vam a aprender a lidar com estes novos desenvolvimentos
ou a ser persistentemente alertados para os seus perigos,
A New Accents colocou-se deliberadamente de um das
lados. Assim, o primeiro Prefácio falava vagamente em
1977 de "um tempo de mudança social rhpida e radical" e
da "erosão das premissas e pressupostos"em que assenta o
estudo da literatura. "As modalidades e categorias herda-
das do passado", afirmava-se, "parecem já não se adaptar
à realidade vivenciada pelas novas geraçaes". O objectivo
de cada volume seria "estimular o processo de mudança início para o que, ao longo dos anos, veio a dimm-se
ao inv& de a ele resistir", combinando a exposiçh objec- como as diferentes vozes e os diferentes temas dos estu-
tiva e factual das novas ideias com uma explanação clara dos literários. Todavia, as obras agora re-apresentadas
t detalliada dos desenvolvimentos conceptuais com elas possuem mais do que um mero interesse histórico. Como
relacionados. Se a inimiga era a mistificação (ou, pura e os seus autores referem, as questões por elas levantadas
simplesmente, a demonização), a lucidez (com a devida manem toda a sua acuidade e os argumentos com que es-
vknia aas compromissos inevitavelmente em jogo) tor- grimiam a mesma força pembadm. Em resumo, não es-
nou-se numa amiga. Se havia um c'discursodo futuro mar- távamos enganados. A investigação a&mica evoluiu r&-
cadamente diferente" que nos chamava, queriamos pelo pida e radicalmente por forma a acompanhar, quiç8
menos ser capazes de o entender. promover, transformaçtks sociais de fundo. Houve pois
Com a devida referência ao apalipse, o segundo que desenvolver um novo conjunto de discursos capazes
PrefBcio expressava piedosa inquietação pela natureza de mediar tais mvaluçães. Mas o processo não terminou.
brutal da besta que poderia agigantwse, portentosa, dos Neste mundo fluido que habitamos, aquilo que outrora era
escombros. "Como pderemos 116s reconhecer e lidar com impensfivel dentro e fora da academia parece ser agora
o novo?", dizia-se em tom de lamento, não deixando no aceite com naturalidade.
entanto de referir o tímido progresso de "uma hoste & ac- Não me cabe dizer se as obras publicadas na N m
tividades tangencialmente respeitáveis para as quais não Accents constituíram alertas, mapas, guias ou achegas
possuirnos nomes tranquilizadores" e prometendo inde- relativamente a este novo temno a desbravar. O nosso
fectivel vigilancia "nas fronteiras do jã justificado por maior feito foi, porventura, cuitivar a percepção de que tal
terreno existia A única justificaç80 possivel para uma ter-
precedência e nos limites do penshvei". A conclusão de
ceira, e relutante, tentativa de escrever um PrefBcio é a
que "o irnpensfivel C, afinal, aquilo que de forma oculta
conviq30 de que ele continua a existir.
molda os nossos pensamentos" pode parecer um lugar co-
mum. Porém,na medida em que confere alguma estabili-
dade a um mundo de certezas em constante derrocada, não
t motivo para corar de vergonha.
Na circunsthcia, qualquer esforça subsequente,e cer-
tamente final, s6 pode olhar para trás com modéstia e re-
jubilar por a skrie continuar bem viva, congratulandese,
não sem boa razão. por ela se ter feito tribuna desde o
Agradecimentos

A autora e a editora gostariam de agradecer ãs seguin-


tes individualidades e empresas por terem autorizado a re-
produção de algum rnateriaI:

E. J. Biill, Leiden, pelo diagrama tirado da obra To-


wards a Science of Translating (1964) de Eugene Nida;
MIT Press, Cambridge, Mass., pelo diagrama tirado da
obra Language Thought and Relarivity (1956) de B. L.
Whorf, Oxford University Press pela tradução de Charles
Kennedy do poema Seafarer tirado de An Anthology of
Old English Poetry (New York, 1960) e também pela tra-
dução de Sir William Marris do Poema 13 de Catulo, pu-
biicada pela primeira vez em 1924; University of Michi-
gan Press, Ann Arbor, pela tradução de Frank Copley do
Poema 13 de Catulo, publicada pela primeira vez em
1957; Amold Mondadori pelo poema Un'abm notte de
Ungaretti e pelo excerto de Fontamara de Silone; Stand
pela tradução de Charles Tomlinson e Penguin Books Ltd
pela tradução de P.Creagh do poema de Ungaretti; Jour-
neyman Press pela tradução de G. David e de E. Mossba-
cher de Foriramam & Sifone; S. Fischer-Verlag, Frank-
furt-arn-Main pelo excerto de Der Sauberberg & Mann;
Martin Secker & Warburg Ltd e A M A, Knopf, Inc, pela
tradução de H.T.Lowe-Porter de TRe Magic Mountain de
Mann; Faber & Faber Ltd pela tradução de Rabert Lowell
de Phaedm e pela tradução de E m Pound de Seafarer ti-
ra& de The Translationsof Ezra Pountd; Tony Harrison e
Rex Collirigs, Londres, por Phaedra Brittanica de Tony
Harrison.
Na dkada que se seguiu I? primeira ediçãot deste Ii-
vro, os Estudos de Traduçao estabeleceram-se solida-
mente como uma disciplina &ria e aut6noma. Apareceu
um número substancial de obras, fundaram-se revistas, e
muitas revistas de prestígio e tradição dedicaram números
temáticos aos Estudos de Tradução,ao mesmo tempo que
a investigqão nesta área ia florescendo no mundo inteiro.
No século XXI, os Estudos de Tradução terão esquecido
os seus começos, algo apolog&ticos,tal como os Estudos
Ingleses j i praticamente esqueceram os seus não muito di-
ferentes inicios. Na verdade, hoje em dia esta área de es-
tudos ocupa tantos estudiosos que muitos dos antigos
pressuposms sobre a marginalidade deste trabalho foram
radicalmente postos em causa, sendo o principal dos quais
a ideia de que o estudo da tradução poderia ser relegado
para uma sub-categoria da Literatura Comparada. A pers-
pectiva actual inverte essa avaliação e propõe, muito pela

I A primeim ediçao desta obra da^ de 1980. [N. T.)


contrário, que a literatura comparada seja considerada ou enfraquecida tende a traduzir mais textos do que uma
como um ramo dessa disciplina muito mais abrangente cultura que goza de uma relativa centralidade e poder é
que & a dos Estudos de T r a d ~ ç ã o . ~ confirmada por inúmeros estudos de caso de situações tão
Uma característica identificadora do trabalho desen- diversas como a passagem da epopeia para os romances de
volvido nos Estudos de Tradução tem sido a conjugação cavalaria na Europa do século XII, o desenvolvimento de
do trabalho em várias áreas: linguística, estudos literhios, literaturas em línguas nacionais no declinio da grande tra-
história da cultura, filosofia e antropologia. Muitas são as dição latina no Renascimento, o aparecimento de novas
culturas que tem desenvolvido numerosos esfoqos para nações na Europa central e oriental nos finais do skculo
abrir o imenso campo da genealogia do pensamento siste- XVIII e princípios do século XX, o legado p6s-colonial na
mhtico sobre tradução e para investigar o modo como a América Latina e. mais recentemente, em Africa. A hist6-
tradução desempenhou um papel modelador na formação ria literkia mostra claramente como i frequente e imensa
dos sistemas literários e na histbria das ideias. O grupo de a dívida para com a tradução, e os Estudos de Tradução
Te1 Aviv, cujos principais expoentes são ltamar Evan-Zo- expiaram o processo pelo qual os textos são transferidos
har e Gideon Touty,desenvolveu o conceito de polissis- de uma cultura para outra.
tema literirio, j i esboçado nos anos 70, e forneceu uma Têm-se levantado vozes em alguns quadiantes ale-
metodologia pela qual podemos investigar todo o pro- gando que o novo trabalho desenvolvido pelos Estudos de
cesso de absorção de um texto traduzido par uma dada Tradução - o qual procura evitar a antiga abordagem ava-
cultura num determinado tempo histdrico. A sugestão de liativa que simplesmente tratava de comparar traduçbes e
Evan-Zohar de que uma cultura marginal, nova, insegura debater as dii'erenqa! num vazio Formalista - teri oscilado
excessivamente na direcção oposta. O aparecimento da
? A Tradução foi durante muito tempo cnnsidcradacomo um sub-cornpar- colectAnea de ensaios organizada por Theo Hermans em
iimenio da LiteraiuraComparada. pese embara o faciu & que. drbdr a primeira 1985 com o titulo The Manipulaiion qf Literature suscitou
utilimçào desse temo nu principio do século XUI, os ctíiicos niio re tenham
ainda entendido sobre o que t a Literaura Compard&a, se ela çonutiiui ou n8o alguma controvérsia porque, como o titulo sugere, os co-
uma di~iplinii.qual v seu ohjrcto de estudo. etc. No meu prõximo livro, sobre laboradores desse volume (entre os quais me incluo) argu-
a Literatura Comparada no mundo actulil, esta questiu 6 analisada a fundo c n
solução proposta parece-se com a que mudou radicalmente o csiaiuto da Se-
mentavam que a tradução, tal como a critica, a edição e
mibtica no final dos anos 60.A Sernibiiça I'oi originalmente encarada como um outras formas de reescrita, é um processo manipulador.
ramo da Linguisiica e. ncstu nuva p r s p ~ x t i v aC, a Linguistica que 6 consideda AIguns sugeriram que este tipo de abordagem se centrava
com mais propriedade como um ramo da Semibtica. N u mposiçiunamento da
Trnduçio c dn Literatura Cumparado.os Estudos dc Tradufb impor-se-ào como demasiado no destino de um texto na cultura receptora, e
a disciplina principal tcndo como importante rumo a Litetatuta Coniparda. que, através da observação do que aconteceu nos proces-
preciosidades. J& no século XViII, as methforas dominan-
sos de leihua, de reescrita numa outra lingua e & subse-
tes para descrever a tradução são a do espelho ou a do re-
quente recepção, a atenção era desviada do texto original
trato. a do representado ou do artificial em contraponto
e do seu contexto cultural. certo que h&que reconhecer
com o real, enquanto que, no século X X ,as metáforas do-
que esta k a perspectiva de algumas pessoas que trabalham
minantes e m como referéncia a prupriedade e as relaçtíes
nesta área, as quais encaram como sua principal tarefa a
de classe. Note-se que nos anos oitenta do século XX ai-
de observar o impacto de uma tradução no sistema recep-
gumas mulheres que rrãbaihavam nesta área começaram a
tor, mas essa niio 6 de m d o algum a perspectiva genera-
fdar da wadução numa linguagem figurativa usando ima-
lizada. Os Estudos de Tradução, no seu estado actuai de
gens de infidelidade, deslealdade e casamento reconsti-
&senvolvimento, estão suficientemente hplantados e
tuido. 56 me dei conta de que eu própria estava a usar esta
são suficientemente abrangentes para admitirem mais do
tenninoIogia quando encontrei outras mulheres a f&lo,
que uma abordagem e, embora o trabalho levado a cabo
como Barbara Johnson ou Barbara Godard,
pelo gnipo de Te1 Aviv seja muito valioso, h&outros de-
Uma área de irabalho inteiramente nova que surgiu
senvolvimentos em curso noutros locais.
depois & este livro ter saido em 1980 6 a da escrita e tra-
Uma área que se destacou muito recentemente d o es-
dução femininas. O estudo das traduções de Adrienne
tudo sistemAtico de depoimentos sobre a tradução feitos
Rich feito por Myriam Diaz-Diocmtz em 1985 e o nii-
por tradutores e linguistas em diferentes tempos e lugares.
mero especial da revista Tessem em 1989 são apenas dois
0 estudo dos prefácios dos tradutores ensina-nos muito,
exemplos de um campo interessantíssimo actuaimente em
não apenas sobre os critérios adaptados pelo tradutor indi-
expansão. Quando. em meados da d8caâa de 80, Lucie
vidual, mas sobre o que esses critdrios reflectem da con-
Armitt, na altura estudante de p6s-graduação a trabalhar
c e w de tradução partilhada pela comunidade em geral.
comigo em Warwick, dirigiu uma investigação sobre a
Alem disso, o estudo da linguagem figurativa utilizada pe-
poiítica editorial britânica no que respeitava ã traduçáo da
los tradutores nos depoimentos sobre o seu trabalho pode
escrita feminina, ela descobriu que esta era uma questão
dizer-nos algo sobre o estatuto da íradução como acto tex-
em que praticamente ningdm tinha pensado. Contudo, e
tual. Assim, por exemplo, o estudo realizado por Theo
ao mesmo tempo, as listas das editoras apresentavam um
H m a n s sobre as rnetáf.oras utilizadas pelos tradutores
ndmero cada vez mais elevado de tltulos relacionados com
holandeses, franceses e ingleses do Renascimento revelou
os estudos sobre as mulheres, e o debate sobre a existên-
um extenso leque de ideias sobre a tradução: o tradutor
cia ou não de um discurso especificamente feminino ga-
segue nomalmente as pisadas do autor do texto originai,
nhava terreno por todo o lado. Esse estudo coincidiu com
usando as mesmas roupagens, reflectindo a luz, procurando
XXI

o aparecimento dos primeiros artigos e comunicações so- literários aparentemente inócuo^.^ Enquanto criança,
bre o tema do discurso feminino e da traduçgo, e a proli- quando lia histórias de aventuras nas quais os heróis bran-
feração de trabalhos nos iIltimos anos é sinal de que esta- cos eram atacados por selvagens, ele tomava automatica-
mos perante uma nova h& desenvolvimento. mente o partido dos brancas contra os carapinhas. Quando
Do mesmo modo, tal como os estudos literários mu- se deu conta de que adoptando esta posição estava a colo-
daram de natureza e de metodologia assim que o seu de- car-se ao lado dos imperialistas brancos contra o seu pró-
senvolvimento transvasou as fronkiras da Europa, tam- prio povo e a aceitar um sistema de valores eumêntrico,
bém os estudos de tradução começaram a perder o seu começou a ver o mundo de maneira diferente. Do mesmo
cakter excessivamente eurochrico. Os Estudas de Tra- modo, o tradutor que agarra um texto e o transpõe para ou-
dugo desenvolveram-se rapidamente na h&, no seio tra cultura tem de considerar cuidadosamente as implica-
das comunidades hguisticas chinesa e h b e , na Arnkrica ções ideológicas dessa transposição. A metiifora do tradu-
Latina e em h c a . Tal como os Estudos Literários procu- tor como canibal baseia-se numa nocão revista do
raram sacudir a sua herança emCntfica, também os Ea- significado de canibalismo, considerado não do ponto de
tudos de Tradu~ãose -cam em v h r k direcções, uma vista do europeu colonizador a quem o conceito horroriza,
vez que s ênfase no factor ideológico, bem como no lin- mas da perspectiva dos povos cujas prãticas canibalescas
guistico, abre caminho i3 discuss8o do tema nos termos derivam de uma visão alternativa da sociedade.
mais vastos do discurso p6s-colonial. Os tradutores brasi- A concepção canibalista de traduçiio envolve um con-
leiros apresentaram uma metáfora nova, que pode aplicar- ceito modificado do valor do texto original em relação il
-se a esta nova pwspectivri alternativa sobre a tradu@o - a sua recepqão na cultura de chegada. A concepção tradicio-
imagem do tradutor como canibal devorando o texto ori- nal de tradução, datada do século XlX,que aqui abordare-
ginal num ritual que resulta na criaçgo de algo completa- mos mais tarde, baseava-se na relação senhor-servo, re-
mente novo,3Wole Soyinka descreveu a forma como a sua produzida no processo de tradução - ou o tradutor toma
perspectiva, tal como a de um continente inteiro, mudou a o texto original e o 'melhora' e 'civiliza' (cf. FitzgeraId
partir de uma tomada de consciência acrescida, quando acerca dos textos persas} ou o tradutor se aproxima do
identificou o racismo implicitamente presente em textos texto original com humildade e lhe presta homenagem (cf.
Rossetti sobre textos italianos do século XIJ). A concepção
Agradeço a Elw Meira, da Universidade de Belo Horizonte, por ter c b -
m d o a minha aten@o para esta metáfora e por me kr sugerido a leitura da obra ' SDYINKA. Wole - The Crjlic and Soçicly: Barlhes, Leftuçracy and
pioneira de Silviano Santiago - U m literatum nos trbpkos. Enmbs mbw &- Oiher Myihologies. In CATES, Henry Loiiis Jr Icd.) - Hlrirk Lit~rnriireand Li-
pettú&ta ~IJiurai.São Paulo: Bdiiwa h p d v a , 1978. Icnity T h ~ o t yLondon:
. Methucn. 1984. p. 27-59.
canibatista da tradução oferece uma perspectiva diferente, mente ligada ii teoria dos sistemas, mas mais dixectamente
que se articula com a noção de tradução proposta por Jac- preocupada com as implicações ideolbgicas da tradução,
ques Derrida, quando argumenta que o processo de tradu- desmvolve-se uma abordagem que reflecte sobre a trans-
ção cria um texto 'original', em oposiqão h ideia tradicie ferência inkrcultural nos seus aspectos linguísticos, histõ-
nd segundo a qual o 'original' t o ponto de partida. O ricos e sócio-políticos. André Lefevere desbravou muito
debate sobre a tradução que Derrida enceta em "La Tours deste terreno. Uma das grandes questões que coloca diz
de Babei" constitui um marco importante, porque, antes respeito a problemas paratextuais: o que acontece na tra-
dele, a maior parte do discurso sobre ttaduç8o era extraor- dução de textos kabes, onde não existe uma Iradição
dinariamente antiquado quando comparado com o nível é.pica e a lirica 6 o modo predominante, para luiguas e m -
do discurso na &a da teoria da literatura. As opiniões que peias, onde o &picosempre foi o modo mais elevado e a lí-
Demda subscreve sobre ri tradução não s50 isentas de fra- rica relegada para uma posição secundária?Implicará isso
gilidades - uma das suas metáforaspara representar o pro- que todas as traduções da poesia lírica h b e sejam de
cesso da traduç8o t o rasgar do hímen, a penetração ou a certa maneira lidas atravhs da lente deturpadora da tradi-
violação do texto original, que é dessa forma feminizado ção literdria ocidental que coloca a f i c a numa posição su-
de um modo sexista de pdssimo gosto - mas, apesar disso, balterna? Ou, para dar um exemplo diferente, terá a tradu-
o seu ensaio assinala a chegada de uma corrente p6s-es- ção de Shakespeare para as línguas do sub-continente
truturalista dos Estudos de Tradução e demonstra mais indiano um sign$mdo diferente da tradução de Sbakes-
uma vez os avanços da disciplina na 6ltim dkada. peare para japon*s? Na índia, onde, no século XIX,Sha-
Neste momento são claramente visíveis algumas li- kespeare era o epítome de tudo o que de grandioso existia
nhas de desenvoIvimentono conjunto da disciplina global na tradiçk inglesa e onde o lorde Macadey podia dizer
dos Estudos de TraduçZo. A linha de investigação origin4- que uma prateleira de uma boa biblioteca europeia valia
ria da Iinguistica aplicada continua a dar os seus frutos e, por todos os livros da fndia e da ArAbia, arrancar Shakes-
agora, existe mesmo um ramo de investigaçáo diferente peare das suas raízes na língua inglesa podia ter uma im-
preocupado com a tradução e a filosofia da linguagem. A plicaçáo revolucionãna que não teria na tradução para
abordagem baseada na teoria dos sistemas, com a sua h- uma lingua como o Japones, pois que o Japão nunca foi
fase no pó10 meta, pode considerar-se uma escola & pen- colonizado pelo impdrio britstnico.
samento dentro dos Estudos de Traduçb e, com a publi- É na funnula~áode questões como esta que radica a
cação do boletim informativo T M S S T em Te1 Aviv e a perspectiva (possivelmente tambem já uma escola de
revista Turget, esta escola tem agora um papel preponde- pensamento) que encara a tradução como um dos proces-
rante no âmbito internacional. Noutras latitudes, originai- sos de manipulação literária, uma vez que os textos são
XXIV xxv
reescritos atravessando fronteiras linguisticas e que essa Outra grande área de investigação dentro dos Estudos
reescrita ocorre num contexto histórico-cultural clara- de Tradução é constituida pela anAlise da história da tra-
mente definido. Esta escola de pensamento tarnbkrn se dução, da!! atitudes face ao acto de traduzir que prevalece-
preocupa com a transmissão de textos entre literaturas e o ram em diferentes momentos da História, das afirmações
temo 'refracção' foi cunhado por Lefevere para substituir dos tradutores e das implicações doutriniúias da tradução.
a velha terminologia da 'influencia'. A reflexão envolve o Os centros de tradução da Universidade Georg-August de
espelho, a cópia do original; a refracção envolve uma mu- GWtingen, a Universidade Cat6lica de Lovaina e a Uni-
dança de percepção e esta imagem é muito útil para des- versidade Estadual de Nova Iorque em Binghamton têm
crever o que acontece quando um texto 6 transferido de em curso projectos de investigação de larga escala acerca
uma cultura para outra. Alem disso, a teoria da refracção da diacmnia dos Estudos de Tradução, e os professores e
implica necessariamente a consideração da evolução lite- estudiosos da Tradução na Universidade Estadual de Nova
riiria e, portanto, coloca a tradução num crintinisum tem- lorque estão tambdm muito preocupados com a investiga-
poral ao invés de a encarar como uma actividade que ção pedagiigica e profissional. A medida que alargamos os
acontece no vazia. Lefevere explica-se bem quando enu- conhecimentos sobre o que a tradução significa em dife-
mera alguns absurdas da hist6ria cultural que derivam de
rentes culturas, as nossas atitudes em relação h prática da
uma concepção excessivamente estreita da tradução:
tradução também mudam e com elas a nossa percepção do
DA que pensar ... que um obstinado tradutor da Bíblia para slernãri, papel desempenhado pela tradução na histbrirt literária.
um monge augustiniancidesfradado, tenha sido, também por causa Em 1980, quando saiu a primeira edição deste livro,
da sua tradução, largamente responsável pela Reforma que mudou eu ainda sentia que tinha de defender o meu trabalho em
a face da Europa pura sempre; ou que o Aramaico que Jesus Cristo tradução junto das pessoas que colocavam questões como
faIava fossc destituído de verbos copulativos. especificamente do
estas: ''Como 6 que alguém pode falar de tradução?',
verbo 'ser', apesar de os te6logos se terem questionado durante
séculos sobre o verdadeira significado do 'C' que aparece. na tra-
"Como podemos avaliar traduções?", "Qual é a vantagem
dução grega, em frases do tipo 'este t o meu corpo' e que tenham de se debater Histbria a propósito da tradução de poesia?',
queimado, semprc que tiveram esse poder. aqueles que discorda- "Não é a tradução. para todos os efeitos. uma actividade
ram da sua reescrita.' secundária?" Sempre acreditei que a tradução era uma ta-
refa complexa, que envolvia uma grande habilidade, pre-
LEFEVERE, Andre - Why Waste Our Time on Rewrites'! The Tmuhle paraçiio, conhecimento e afeiqão intuitiva pelos textos,
with Interpretation. and h e Role of Rewriiing in ~ i n
Alternniive Paradigm. In
HERMANS, Theu (ed.) - Thu Manipirlatiritt cif Litemture. hndnn: Crooin
e. i medida que descubro o desenvolvimento dos Estudos
Hclm, 19R5. p. 241-2. de Tradução h escala mundial, sinto cada vez mais que a
XXVJI

minha primeira crença, ingénua e instintiva, se justificou.


grande da nossa percepção da bisaria cultural devido ao
Nesta disciplina M espaço para muitas abordagens e o mé- trabalho desenvolvido nos Estudos de Tradução, e o facto
rito de grande parte da investigação feita na dkcada pas- de uma grande parte desse trabalho ocorrer fora da tradi-
sada foi o de colocar um fim na velha orientação norma- ção euru-americana 6 um indicador inquívoco da veloci-
tiva. Jii não se fala de tradução nos temios daquíio que um dade e do alcance dessa transformação.
tradutor 'deve' ou 'não deve' fazer. Esse tipo de termino-
logia avaliativa apenas tem cabimento na aula de aprendi-
zagem & Ifngua, onde a traduqão tem um papel pedagó-
gico muito prõciso e claramente d e f ~ d oO. debate sobre
a tradugão literiria, nos termos em que tem vindo a ser de-
lineado pelos Estudos de Tradução, p i e muito bem aju-
dar a melhorar a qualidade das íraduções, mas se isso
acontecer não será devido a qualquer formulário piescri-
tivo. Ao contrário, isso dever-se4 a uma acrescida com-
ciencializaçãoda complexidadeda traduçgo e a urna valo-
rização do estatuto do iradutor e do texto traduzido.
A investigação nos Estudos de Tradução ainda mal co-
meçou. Há dúzias de livros por escrever, teses de doutora-
mento por fazer, textos teóricos por descobrir e traduair, a
história literária. passada pelo crivo do novo conhe.ci-
mento, aguarda ser reescrita. Quem teria acreditado, nos
anos sessenta, que o feminismo haveria de transformar o
chone literirio, impor uma reavaliação do processo de
canonização, mudar o nosso conhecimento do passado e
alterar radicaente a nossa perce~ãoda linguagem e da
cultura hoje? E, contudo, essas mudanças aconteceram, e
uma perspectiva alternativa, baseada na diferenp sexual
acaba de entrar de modo decisivo nos estudos literários.
Penso que testemunhamos uma transformação igualmente
PREFÁCIO À TERCEIRA EDIÇAO

Os anos oitenta foram uma ddcada de consolidação


para a novissima disciplina conhecida como Estudos de
Tradução. Tendo feito a sua aparição nos finais dos anos
setenta, começou a ser levada a sério e deixou de ser
olhada como uma hea de pesquisa de importância secun-
dária e sem valor científico. Ao longo dos anos oitenta as-
sistiu-se a um crescimento constante do interesse pela teo-
ria e prhtica da tradução e, nos anos noventa, os Estudos
de Tradução tornaram-se finalmente numa disciplina de
direito próprio, na década que testemunhou a sua globali-
zação. Considerada no passado uma actividade marginal,
a traduçiio começou a ser olhada como acto fundamental
do intercirnbio humano e nunca o interesse por ela susci-
tado foi maior do que hoje em dia, em que o estudo da tra-
dução acompanha o aumento da sua prjtica em todo o
mundo.
A explosão dos meios electr6nicos de comunicação
nos anos noventa e as suas implicações nos processos de
globalização deram particular visibilidade as questões li- h estampa pelo menos meia d6zia de enciclopédias da tra-
gadas & comunicação inkrcultural. Não só passou a ser dução, e mais se seguirão. Os novos cursos universitsrios
importante aceder cada vez mais ao mundo atravts da re- de tradução, de Hong Kong ao Brasil e de Montreal a
voluç8o & infomqão, mas tomou-se urgentemente im- mena, constituem mais uma prova do interesse interna-
portante saber mais sobre o nosso próprio ponto de par- cional pelos estudos de tradução, interesse este que não dá
tida. É que a globalização tem a sua antitese, como foi sinais de abrandar no &ulo XXI.
demonstrado pelo renovado interesse, manifestado h es- Com tanta energia direccionada para uma investigação
cala mundial, nas origens culturais e na exploração das mais aprofundada do fen6meno da tradução, é evidente
questões de ihntidade, A tradução tem um papel crucial a que tais desenvolvimentos não sejam homogdneos e que
desempenhar ao contribuir para meihorar a compreensão se configurem em diferentes comentes e tendências. Não
de um mundo cada vez mais fragmentado. O tradutor, tal deve. portanto. surpreender-nos que o consenso quanto à
como refwiu o especialista irlandês Michael Cronin, 6 traduçáo tenha desaparecido durante os anos noventa.
t m M m um viajante, alguém em viagem de uma fonte Contudo, ele foi substituído pela vibrante diversificação
para outra. O século XXI promete seguramente ser a que ainda hoje povoa o mundo inteiro. Durante os anos oi-
grande idade das viagens, não s6 atravts do espaço, mas tenta, a teoria da relevância de Emst-August Gutt, a teoria
tambem através do tempo.' E significativo que um dos do skopos de Katharina Reiss e Bans Vermeer e o trabalho
principais desenvolvimentos nos estudos de traduçfio de Gideon Toury sobre pseudotraduçãoforneceram outros
desde os anos setenta tenha sido a investigaqão em histh- tantos mdtodos de abordagem da tradução, enquanto nos
ria da tradução, pois examinar o modo como a tradução anos noventa floresceram, e contiriuam a florescer, novas
ajudou a moldar o nosso conhecimento do mundo no pas- linhas de investigação geradas pelo enorme interesse sus-
sado deixa-nos mais bem equipados para moldar os nos- citado pela investigação com corpus, tal como foi preco-
sos pcáprios futuros. nizada por Mona Baker. Com efeito, após um período em
Por todo o lado existem provas deste interesse pela
que a investigaçáoem hdução autom8tica parecia ter so-
traduçgo, Nas duas últimas décadas surgiram muitos li-
çobrado, a impodncia da relação entre a tradugão e as
vros sobre tradução, apareceram novas revistas de tradu-
novas tecnologias ganhou proeminência e tudo indica que
ção, foram criadas organizações profissionais iniemacio-
vird a ta ainda mais importhcia no futuro. N h obstante,
nais, como a Sociedade Europeia de Tradugão, e foi dada
e apesar da diversidade & métodos e abordagens, existe
I CKONiN, MichaeI - Acmss the Liries: Trawl, Language, Tranr-
um traço comum h maior parte da investigação em Estu-
latim. Cwk: Cork University h s s , 2000. dos de Tradução: a ênfase nos aspectos culturais da tradu-
ção e nos contextos em que a tradução ocorre. Conside- Kathwina Reiss, Hms Vermeer e Wol fram Wilss, para no-
rada outrora uma subdivisão da linguística, a tradução é mear apenas os mais conhecidos, contribuiu muito para
hoje entendida como uma área de investig@o interdisci- derrubar as barreiras que separavam as disciplinas e para
plinar e o elo indissof6vel entre língua e cultura tornou-se empurrar os estudos de tradução para longe de uma posi-
na ponto de focagem do interesse acaddmico. qão de possível conhnto. Não devemos tambem esquecer
A divisão aparente entre as abordagens cultural e lin- a enorme importhia de figuras como J. C. Catford, Mi-
guistica da tradução, tão característica de muita da inves- cbael Halliday, Peter Newmark e Eugene Nida que, com o
tigação em traduç80 desenvolvida nos anos oitenta esti a seu trabalho de investigação m traduçk, lançaram as
desaparecer, por um lado devido hs mudanças operadas na bases da pesquisa futura antes de os Estudos de Tradução
linguística, com a adopção de uma perspectiva mais cul- terem começado a afmar-se como disciplina de pleno
tural, e, por outro, devido a uma atitude menos defensiva direito.
daqueles que preconizavam uma abordagem da tradução Os estudos litedrios evoluíram também de uma wn-
enraizada na hist6ria cultural. Nos primeiros anos, quando cepção inicial e mais elitista de tradução. Tal como Peter
os Estudos de Tradução estavam ainda a encontrar o seu France, d k t o r do Oxforcd G u i h to Literature in English
espaço, os seus defensores opunham-se tanto aos linguis- Trunslarion.faz questão de acentuar:
tas como aos estudiosos da literatura, acusando os iinguis-
Os t e o i z a d m e os estudiosos r&n uma tarefa muito mais oom-
tas de não considerarem as dimensões contextuais mais plexa a cumprir do que decidir entre o bom e o mau; o objccto das
alargadas t os estudiosos da literatura de viverem obceca- suas preocupações t.por exemplo, discernir as vsrias possibilida-
dos com juízos de valor desprovidos de qualquer sentido. des 4 a se abrem ao tradutor e o modo como elas se modificamde
Defendia-se a impodncia de tirar o estudo da tradução da acordo com o contexto cullurd, wial e hist6rica.2
alçada quer da literatura comparada quer da linguística, e
eram frequentes as polémicas sobre a autonomia dos Es- Existe um volume crescente de trabalhos de investigação
tudos de Tradução. Hoje em dia estas posiç&s evangkli- que reflectem este objectivo mais complexo, pois. à me-
cas parecem esbanhamente antiquadas, e os Estudos de dida que hii cada vez mais investigação em Estudos &
Traduçao estão melhor na sua pele, mais capazes de pedi- Tradução e se torna mais fácil e rápido o acesso aos dados
rem emprestados e emprestarem mktodos e tknicas a ou- históricos, começam a ser colocadas perguntas impoxtan-
tras disciplinas, O importante trabalho de estudiosos da
FRANCE, Petsr - Tmnslation Siudics and Translation Críticism. I n
tradução da área da linguística, figura como Mona Baker, W N C E , Pctcr (ad.1- The O$od Giiide 10 Literuium b Engiish TmnsIatim.
Roger Eell. Basil Hatim, Ian Mason, Kirsten Meilrnkjaer, Oxford: Oxford Univenity h s s , 2W, p. 3.
tes sobre o papel da tradução na constmgão de um chone Nos anos noventa surgem duas imagens contrastamtes
do tradutor. De acordo com uma leitura do papel do tra-
literirio, as estra~giasutilizadas pelos tradutores e as nor-
dutor, este é uma força do bem, um artista criativo que
mas vigentes em determinado momento histúrico, o dis-
garante a sobreviv&nciada escrita no tempo e no espap,
curso dos tradutores, os problemas da medição do impacto
um mediador intercultural e um intkrprete, uma figura
das traduções e, mais recentemente, os problemas relati-
de incomensur8vel importância para a continuidade e
vos ao estaklecimento de uma ética da tradução. difusão da cultura. Em contraponto, existe uma outra
Das novas correntes, a mais aliciante 6 talvez a ex- interpretação que vê a tradução como uma actividade alta-
pansão da disciplina de Estudos de Tradução para lã das mente suspeita em que a desigualdade nas relações de
fronteiras da Europa. No Cana& fndia, Hong Kong, poder (desigualdades econ6rnicas. políticas, sexuais e
China, Áfnca, Brasil e Amdrica tatina, as preocupações geogrUicas) se reflecte na mecânica da produçiío de texto.
dos acadtmicos e dos tmdutores são significativamente Como afirma Mahasweta Sengupta, a tradução pode tor-
diferentes das dos Europeus. Nestes países a gnfase é co- na-se em submissão ao poder hegemdnico das imagens
locada na desigualdade da relação de tradução, e podemos cnadas pela cultura de chegada:
ver escritores como Gayatri Chdmvorty Spivak. Tejas-
wini Niranjana e Eric Cheyfitz afirmarem que a tradução 1...I uma breve recepiuilaqão do que vende no Ocidente como algo
foi efectivamente usada no passado como instrumento do repmntativo da fndia e da sua cultura 15 a prova mais cabal do
poder da representação: ficamos prisioneiros dos estereõtipos cd-
poder colonial, um meio de silenciar a voz dos povos co- turais criados e +mentados pelos textos traduzidmP
lonizados. No modelo colonial havia uma cultura domi-
nante sendo as restantes subservientes, e a traduçao refor- Os estudos de tradução continuarão a enfatizar no
çava esta hierarquia de poder. Nas palavras de Anuradha novo mildnio a desigualdade das relações de poder que ca-
Dingwaney, racterizam o processo de tradução. Porkm, enquanto nos
séculos passados esta desigualdade era apresentada em
Os processosde tradu* que twnam uma outra culhira compreen- termos de um texto original superior e uma c6pia inferior,
sível contêm graus de viol&ncia varihveis, m especial quando a
essa relação 6 hoje analisada por outros prismas a que
cultura traduzida se mstinii como a do ''ou~ro''.~
podemos chamar com propriedade p6s-coloniais. A par do

SENGUPTA. Mahasweia - Trrinslrition as Manipulation: The Power of


r DINGWANBY. Anuradha - InWuctiw: Trrinslating 'Third W d d ' CUI-
+

Images and Images of Power. In DINGWANEY. A; MALER. C. (eds,) - Beiween


tures. h DINGWANEY. A.; MAIER, Caml (eds.) - Beiween hnguages and
Laiiguqes and Culrrrres. Tmnslaiion und Cms-Culiuml Texis. Pinsburgh/Lon-
Cuhres. TmnshIon and Cm-Culiuml T m .PirtçbwghKmhn: Universiiy
don: University of Pirtnburgh Pleas. 1995. p. 172.
af Pinsburgh Ress,1995, p. 4.
trabalho enhisiasmante dos grandes especialistas indianos, a fidelidade ao original. No Brasil, a teoria canibalista do
chineses e canadianos, escritores como Octavio Paz, Car- consumo textual, inicialmente proposta nos anos vinte,
10s Fuenks e Haroldo e Augusto de Campos reivindica- foi reformulada de modo a oferecer uma perspectiva al-
ram uma nova definição de tradução. Significativamente, ternativa do papel do tradutor em que o acto de tradução
tdos estes escritores são originhios de paises da América é apresentado em termos de met8foras ffsicas destinadas
do Sul, antigas colónias empenhadas em reavaliar o seu a enfatizar simultaneamente a criatividade e a indepen-
passado. Todos eles estabelecem paralelismos com a ex- dência do trad~tor.~
periencia colonial em defesa de uma reapreciação do pa- Hoje em dia a mobilidade dos povos em todo o mundo
pel e significado da tradução. Pois um origind era sempre reflecte o próprio processo de tradução, pois a tradução
visto como superior h sua "c6piaW,precisamente d o não é somente a transferência & textos de uma llngua para
mesmo modo que o modelo do calonialismose baseava na outra - ela 6 hoje corratamente vista como um processo
noção da apropriaçh de deuma cultura inferior por unta cul- de negociação entre textos e entre culturas, um processo
tura superior. Como tal. a tradução estava condenada a em que ocorrem todos os tipos de transacções mediadas
ocupar uma posição de inferioridade relativamente ao pela figura do tradutor. Significativamente, Homi Bhabha
texto de partida do qual se considerava proveniente. usa o termo "tradução? nao para descrever uma transacção
A luz da nova percepção p6s-colonial da relação en- entre textos e línguas, mas no sentido etirnol6gico de
tre os textos de partida e de chegada, essa desigualdade
transportar algo de um lugar para outro. Usa o termo tra-
de estatuto foi reconsiderada e hoje tanto o original como dução metaforicamente para descrever a condição do
a tradução são vistos como produtos iguais da criativi-
mundo contemporâneo, um mundo onde diariamente mi-
dade do autor e do tradutor, embora Paz alerte para a di-
lhões de pessoas migram e mudam de lugar. Num mundo
fwença fundamental entre as tarefas que cabem a cada
assim a tradução é fundamental:
um. Ao escritor cabe dar 2s palavras uma forma ideal e
imut6vel enquanto ao i o u t o r cabe a tarefa de as libertar -
Devemos ter presente que 6 o "inter" a fronteira da tradução e da
do confinamento da língua de partida insuflando-lhes uma renegaciação, o espaço interm4din-que carrega o fardo do signi-
nova vida na llngua para que são tradu~idas.~ Consequen- ficado de cultura?
temente, perdem força os velhos argumentos que defendem
Para uma diacusu;lri da metárora canibaliria, c(. BASSNETT, Susan:
PAZ, Oclavio - Translalion: Lileraiure and Letiers. Tmd. Irene de1 Cor- TRIVEDI. Harish (eds.) - Pn.rmI~nialTmnrlmi~lt:TReory and Pmrtice. New
ral. in SCHULTe, Rainer: BIGUENET. John (eds.) - Theories nf Twnslatinrr. YwWLondon: Rouiledge. UHW.
An Anihology af fisqvs fmm Drydrn !o Lierrida. Chicago: Univcrsity of Chi- ' BHABHA. Horni - me Locarim of Cillrure. LondoniWew York: Rout-
cago Press. 1992. p. 36-55. Idge, 1994, p. 38.
Destacam-se trEs estratagemas centrais a muitas das centro das atenções dos áridos debates sobre fidelidade e
teorias da tradução desenvolvidas por escritores não euro- equivalência para um exame do papel da texto tiilduzido
peus: uma redefinição da terminologia da fidelidade e da no seu novo contexto. Significativamente, esta nova pers-
equivalgncia, a importância de dar maior visibilidade ao pectiva veio abrir caminho para projectos de investigação
tradutor e uma bansferencia da ênfase para a tradução subsequentes sobre a histdria da traduçlio, conduzindo
como um acto de reescrita criativa. O tradutor 6 visto tarnErn a uma reavaiiação da importância da tradução en-
como um libertador, alguém que liberta o texto dos signos quanto força de mudança e inova* na história literária.
fixos da sua forma original, acabando com a subordinação Em I !B5 Gideon Toury publicou Descriptiw Trunsb-
ao texto de partida, mas procurando visivelmente fazer a fim Sludies and Bqond, um livro que reavaliava a abor-
ponte entre o autor e o texto originais e os possiveis leito- dagem pela teoria dos polissistemas. tão pouco do agrado
res da lingua de chegada. Esta perspectiva assim revista de alguns especialistas devido à sua ênfase excessiva no
enfatiza a criatividade da tradução, reconhecendo-lhe uma sistema de chegada. Toury sustenta que, uma vez que a
relação mais harmoniosa do que a de rnodeIos anteriores tradução visa em primeiro lugar satisfazer uma necessi-
que descreviam o tradutor atravks de imagens violentas de dade da cultura de chegada, 6 lógico fazer do sistema de
"apropriqão", "penetraç30" ou "posse". A abordagem chegada objecto de estuda. Acentua tambkrn a necessi-
pós-colonial tradução vê o intercâmbio linguístico como dade de estabelecer padrões de regularidade do comporta-
essencialmente dialógico, um processo que ocorre num mento tradutivo, a fim de estudar como são formuladas as
espaço que não pertence nem ao ponto de partida nem ao normas e como operam. Towy rejeita expiicitamente a
ponto de chegada. Como Vnnamala Viswanatha e Sherry ideia de que o objecto da teoria da tradução t melhorar a
Sirnon afirmam, "as traduções constituem uma reveladora qualidade das tradugíes: os teorizadms têm as suas prio-
porta de entrada para a dinâmica da formação da identi- ridades, diz ele. enquanto os profissionaisda tradução tem
dade cultural nos contextos colonial e p6s-col0nial."~ responsabilidades diferentes. Embora as opini&s de Toury
At&ao final dos anos oitenta os Estudos de Tradugáo não sejam universalmente aceites, elas siío largamente
foram dominados pela abordagem sistérnica de Itamar respeitadas e 6 significativo que durante os anos noventa
Even-Zohar e Gidmn Toury. A teoria dos polissistemas tenha sido produzido muito trabalho sobre as normas aia-
era uma proposta radical na medida em que desviava o dut6rias e sido exigida uma maior cientificidade no estudo
da tradução.
VISWANATHA, Warnal: SIMON, Sherry - 'Shifting Gmnds of Ex- A teoria dos polissistemas veio preencher a lacuna
changc'; B. M. Srikanthaia and Kannada Translation. h BASSNIEIT. Susan;
TRIVEDI. Harish (edi.) - Prs~culuniulh s l a r i o n : Tliwry und Pmcrice. New
aberta nos anos setenta entre a linguistica e os estudos li-
Yorkniondon; Routledge, 1999, p. 162. terários, lançando as bases para a nova &a interdiscipli-
nar dos Esmdos de Tradução. De importhcia central para rior do grupo de estudiosos da tradução vagamente ligados
a teoria dos polissistemas era a &nfasena poética da cul- i abordagem polissistémica. Alguns, como Theo Hermans
tura de chegada. Dizia-se que deveria ser possível prever e Gideon Toury, procuraram estabelecer parhetros te&
as condições que permitiam a ocorrência de traduções e ricos e metodoI6gicos dentro dos quais a disciplina pu-
também os tipos de esimttgias passiveis de ser usados pe- desse desenvolver-se, e outros, como André Lefevere e
los tradutores. Tornou-se então necessário desenvolver es- Lawrence Venuti, começaram a explorar as implicações
tudos de caso sobre as traduções através dos tempos a fim da tradução num enquadramento histbrico e cultural
de averiguar da veracidade de tal hip6me e estabelecer muito mais alargado. Lefevere começou por desenvolver
princípios fundamentais, o que levou h emergemia do que a noção de tradução como refracção mais do que reflexo,
foi posteriormente designado par estudos descritivos de propondo um modelo mais complexo do que a velha no-
tradução. Os Estudos de Tradução começavam a ocupar çBo de tradução como espelho do original. Inerente à sua
um espaço próprio, investigando a sua própria genealogia concepção de tradução como refracção estava a rejeição
e procurando afirmar a sua independencia como domínio de qualquer nqão linear do processo de traduçgo. Os tex-
acaddmico. tos, argumentou, tem de ser vistos como sistemas com-
Enquanto, anteriormente, a tnfase era posta na com- plexos de significaç$io e cabe ao tradutor d e s ~ ~ c ea r
paração do original e da tradução, muitas vezes com o in- recodificar tudo o que estiver acessivel nesses sisterna~.~
tuito de averiguar as "perdas" e as "trtraiçóes" ocorridas no Lefevere constatava que muitas das teorizações sobre tra-
processo de tradução. a nova abordagem adaptava uma dução assentavam na prática da tradução entre línguas eu-
perspectiva deliberadamente diferente, procurando, não ropeias e sublinhava que os problemas de acessibilidade
avaliar, mas sim compreender as mudanças de enfase ope- dos códigos linguisticos e culturais se intensificam quando
radas durante a transferência de textos de um sistema lite- se sai do h b i t o da cultura ocidental. Em trabalhos pos-
rário para outro. A teoria dos poiissistemas aplicava-se teriores Lefevere desenvolveu as suas preocupações com
exclusivamente na tradução litefia, embora operasse a metaf6ríca da tradução através de uma investigação
dentro de uma noção dargada do liteiario, que contem- Aquilo a que chamava as grelhas conceptuais e rextuais
plava um vasto leque de elementos de produção literária, que restringem tanto as escritores como os tradutores, su-
incluindo a dobragem e a legendagem, a literatura infan- gerindo que
til, a cultura popular e a publicidade.
.. .-
Mediante uma série de estudos de caso, este alarga- ' CI. LEEVERE. Andrê - Tmnslation. Rewríring and rke Wmipulariun
mento do objecto de estudo levou a uma divisão no inte- af Litemty Fume. Londoflew Y d : Rouildp, 1992.
Os problemas levantados pela tradução devem-se pelo menos
esse artista criativo mediador de línguas e culturas. Numa
tanto L discrepâncias entre as grelhas conceptuais e textuais oomo
L discrepânciasentre as lfngurt~.'~ obra importante publicada em 199 I, Suzanne Jill Levine,
tradutora de literatura latino-americana, autodescreveu-se
Estas grelhas culturais determinam o modo como a espirituosamente como "uma escriba subversiva", uma
realidade é reconstmida tanto no texto de partida como no imagem que prefiguca a concepção que Venuti tem do tra-
de chegada, e o sucesso da operação será determinado pela dutor como um poderoso agente de mudança cult~ral.'~
perfcia do tradutor a manipular tais grelhas. iefevere de- O livro de Levine aponta para uma outra M a de in-
fende que estas whas culturais, uma noção derivada da vestigação em Estudos de Tradução focalizada na subjec-
noção de capital cultural de Piem Bourdieu, põem em re- tividade do tradutor. Estudiosos da tradução como Venuti,
levo a criatividade do tradutor, uma vez que é algukm ine- Doughs Robinson, Anthony Pym e Mary Snell-Homby,
vi tavelmente empenhado num processo criativo complexo. tradutores que escreveram sobre o seu trabalho como Tm
Do mesmo modo, Venuti insiste na criatividade do tra- Parks, Peter Sush, Barbara Godard e Vanamah Mswana-
dutor e na sua presença visível na tradução." Foi tal a im- tha, todos eles acentuaram de diversas maneiras a impor-
portância assumida pela investigação sobre a visibilidade tância do papel do tradutor. Esta nova €nfase na s u b j d -
do tradutor nos anos noventa que pode ser considerada vidade resulta de duas influências distintas: por um lado,
como uma linha distinta de desenvolvimento dentro da a importância crescente da investigação sobre a ética da
disciplina global. A tradução, no dizer de Venuti, reverên- tradução e, por outro, uma sitengo cada vez maior hs
cia igualmente prestada h culturas de partida e de che ques-s filos6ficas mais alargadas subjacentes h badu-
gda,"recorda-nos que nenhum acto de interpretação pode ção. A seleitura de Walcer Benjamin feita por Jacques Der-
ser definiti~o".~~Como tal, a tradução é um acto arriscado, rida abriu as comportas para uma reavaliação da impor-
potencialmente subversivo e sempre carregado de signifi- tância da tradução não s6 como f m a de comunicação,
cado. Nos anos noventa, a figura do tradutor subserviente mas tamb6m como continuidade.14 A tradução, afirma
foi substituída pela do tradutor visivelmente manipulador, Derrida, assegura a sobrevivencia de um texto. A tradu-
ção torna-se efectivamente na outra vida de um texto, um
Io LnFEVERE. A d r é - Composing lhe Other. h BASSNETI: Susan;

TRIVEDI. Hdsh (edg.)- Pnsirnlonial Tmnslafion:Tkeoty and Pmctice. New


novo "original" numa outra língua. Esta concepção posi-
YorkRandon: Routlcdgt, 1999.
' 1 VENUTI. Lawrence - The T d m r ' s 7milsibil-v:A Hi.rtory of Tmns- 1' LEVINE. Suzaane JiU - The Subversive Scribc. Saínt Paul. Mimepote:
Iation. L o n & n , w York: Rouiladge. 1995.
Graywolfhsr, 1991.
1"ENUTI, -
L a w n c e The $c&Is q f h l u ~ i oLodorJNew
~. Yok ld DERRIDA. J q u e s - l h a Tours de B h l . Jn GGRAHAM. J. (ed.) - D$
Routladge. 1998. p. 46. ferciice in T m h i m . Ithaca, PI. Y.:Cornell Universiry -5, 1985.
tiva de tradução vem reforçar a importância da tradução Tradução, amvks das suas múltiplas alianças, fazem per-
enquanto acto de comunicagTio simultaneamente intercd- guntas sobre o que acontece quando um texto é transferido
tural e intertemporal. Quem,por exemplo, teria acesso hs da cultura de partida para a cultura de chegada.
poetisas esquecidas da antiga G&ia sem a tradução?, per- Os fios que entretecem a trama comum que liga os di-
gunta Josephine Balrner no seu esclarecedor prefácio hs v e m s prismas por que a tradução tem sido estudada nas
suas iraduções de poetisas ~18ssicas.~~ duas 6ltimas dkadas constituem uma ênfase na diversi-
O &senvolvirnento dos Estudos de Tradução nos anos dade e na rejeição da velha terminologia da tradução como
noventa pode ser visto, antes de mais. como o estabeleci- fidelidade a, e traição de, um original, põem em destaque
mento de uma série de novas alianças que vieram aproxi- os poderes de manipulação do tradutor e uma concepção
mar as linhas de investigação em hist6ria e na prática e fi- da tradução como meio de lançar pontes que anulem o es-
losofia da tradução de outras correntes intelectuais. Os paço entre o ponto de parti& e a ponto de chegada. Esta
elos entre os Estudos de Tradução e a teoria p6s-colonial celebcação da intermediação, destacada também por estu-
representam precisamente uma dessas alianças, tai como o diosos de outras áreas, reflecte a natureza m u t h l do
fazem os elos entre os Estudos de Tradução e a linguística mundo em que vivemos. Tempos houve em que era consi-
de corpus, Outra aliança significativa é a que existe entre derado arriscado t indesej&velocupar um espaço que não
os Estudos de Tradução e os Gender Stdies. Pois a lín- fosse nem uma coisa nem outra, uma t e m de ninguem
gua, como afirma Sherry Sirnon, não reflmte simples- sem identidade definida. Hoje, no século XXI,as frontei-
mente a realidade, ela ajuda a moldar o significado. lWs ras políticas, geográficas e culturais são vistas como mais
tradutores esGo directamente envolvidos nesse processo fluidas e menos confinantes do que alguma vez o foram na
de moldagem, seja o texto que estão a trabalhar um ma- história recente, e é cada vez maior a mobilidade dos po-
nua1 de instniçaes, um documento legal, um romance ou vos atravds dessas fronteiras. Num mundo assim, o papel
um cliíssico do teatro. Tal como os Gender Stdies vieram do tradutor reveste-se tarnwm de maior imporiância, ra-
desafiar a noção de um conceito de cultura uno e singular zão pela qual a tradução 6 tão avidamente debatida e tão
ao fazerem perguntas inc6mdas sobre os modos como se procurada. A expansão da World Wde Web apenas nos
formavam as tradições canónicas, também os Estudos de deixa vislumbrar todo o potencial ainda oculto da tradu-
çZo. A medida que a tradução electrónica se toma cada
BAMER. Jwphhe - Classicd Wumen riets. Newmtle upon 3 n e : vez mais sofisticada, os Estudos de Tradução terão abso-
Blwdaxe Books, 1997.
Ib STMOM, Sherry - Gendcr in Ttamlatiw. Culiural Ideniiy m d rhe ri-
luta necessidade de se desenvolver. E parecem apostados
litics aJTtwnsmksion. Load01~'NcwYork: Rontledge, 1996. em f d - 1 0 no futuro previsível.
Em 1978, num breve Amciice h Actas do Col6quio
sobre Literatura e Tradução (Lovaina, 1 9761,Andd Lefe-
vere propôs que si designação Estudos de Tradução fosse
adoptada para a disciplina que se ocupa "dos problemas
levantados pela produção e descrição de ~ d u ç r i e s " .Este
~
livro constitui uma tentativa para delinear o h b i t o dessa
disciplina, dar algumas indicaçaes sobre o tipo de traba-
lho que tem sido feito at6 ao momento e sugerir novas li-
nhas de orientação para a investigação. Mais importante
ainda, trata-se de u m a tentativa que visa demonstrar que
os Estudos de Tradução são, de facto, uma disciplina de
direito próprio: não um mero ramo da Literatura Cornpa-
rada nem uma &a específica da Linguistica, mas um

I LEFEVERE A n M -TransIation Studics: Tbc Gnnl nf the Discipline. In

HOLMES. Jarnm S.: LAMBERT, J d ; BROWK, Raymand van den (ads.) -


Litemiuw and TransIuiion. h v a i n : ACCO, 1978. p. 234-5. Lefeverr q u i u a
via delineada por James Hrilmea na e u artigo T h e Name and Natum of Trans-
Itltion Studies",publicado pela Secçh de Emdos de TraducSoda Universidade
de Arnstcrdb. em Agosto de 1975.
vasto e complexo campo de estudos com rrimificações de Nao admira que um conceito tão redutor de tradução
grande alcance. ande de mãos dadas com o baixo estatuto concedido ao
A aceitação. relativamente mente, do termo Estudos tradutor e com a distinção geralmente feita entre escritor e
de Tradução é susceptfvel de surpreender aqueles que tradutor, com prejuízo do último. Já em 193 1, na sua con-
sempre partiram do pressuposto de que a disciplina já ferência intitulada Sobre e Tr&çdo, Hilaire Belioc sinte-
existia por via da utilização largamente difundida do tizou o problema do estatuto em palavras que permanecem
temo 'tradução', sobretudo no processo de aprendizagem perfeitamente actuais:
de línguas estrangeiras. Mas, na verdade, o estudo siste-
A tute da tradução C uma me subsidi4ria e derivada. Por causa
mático da tradução ainda está a dar os primeiros passos, disso nunca logrou merecer a dignidade & trabdho original e tem
Precisamente porque tem sido encarada como uma parte sido por demais prejudicada enquanto manifesiqão literária Esta
integrante do processo de aprendizagem de línguas estran- desvalorizaçáo teve o efeito nefasto de baixar o grau de qualidade
geiras. a tradução em si própria tem sido pouco estudada. exigido e em certos @ d o s quase destruiu a arte por completo.
O correspondente mal-entendido dai decorrente sobre a sua natu-
O que se entende normalmente por tradução envolve a
rem somou-se assim h sua degradação, não tendo sido apreendida
transferência de um texto originalmente escrito numa Iín- nem a sua importãncia nem a sua dificuldade.3
gua, a Ifngua & partida (LP)2, para uma língua de chegada
(LC) por forma a garantir que I) o significado dos dois A tradução tem sido entendida como uma actividzide
textos seja aproximadamente o mesmo e que 2) as estru- secundária, como um processo mais 'mecânico' do que
turas da LP sejam preseniadas tanto quanto possível, mas 'criativo', ao alcance da compethcia de quem quer que
não tanto que distorçam gravemente ns estruturas da LC. tenha um domínio básico de uma lingua diferente da sua;
Espera-se, então, que o professor avalie as compet6ncias em suma, como uma ocupação de baixo estatuto. Também
linguísticas dos alunos pelo resultado produzido na LC. E o debate sobre os produtos da tradução tendeu, com bas-
termina aqui a questão. A ênfase 6 colocada na compreen- tante frequ&ncia,a manter-se a um nível não muito ele-
são da sintaxe da Iingua que d objecto de estudo e no uso vado: os estudos que proclamam debater a tradução 'cien-
da tradução como meio de demonstra essa compreensão. tificamente' são, a maior parte das vezes, pouco mais do
que juizos de valor idiossincráticossobre traduções, esco-
Ao longo do texto serão usadas as seguintes abreviaturas; LP - Língua Ihidas ao acaso. da obra de grandes escritores como Ha-
de Partida e LC - Lfngua de Chegada. mero. Rilke. Baudelaire ou Shakespeare. Nesses estudos
m b & nseifio u t i l i EIS~exptesdks
~ sin6nimas - língua ou sistema ori-
ginal; lingua ou sistema fonte: língua ou sistema a l w Ilnpua ou sískma meta).
[N.T.] B E W . Hilaire - On Tm~slarion.Oxford: 'lhe Clatendon Press. 193 1.
envolvia abnegação e a repressão dos seus próprios im-
apenas o produto é analisado, o resultado final do pro- pulsos criadores, sugerindo que
cesso de tradução, não o próprio processo.
A forte tradição anti-&rica anglesax6nica reve- fosse ele dono da sua própria vontade. e muitas vezes teria apro-
lou-se particularmente infeliz no que respeita aos Estudos veitado detenninada gmça espia1 do seu idioma e da sua epoca;
de Tradução, porque se aliou habilmente ao legado do muitas vezes determinado ritmo Ihe teria servido, se n% fosse a
'tradutor-servo' que surgiu no mundo de língua inglesa no estrutura do autor - ou determinada estrutura, se n%o fosse o ritmo
do autor..?
skculo XiX.No &ulo XVIiI surgiram em diversas Iln-
guas europeias alguns estudos sobre a teoria e a prática da
tradução e em 1791 foi publicado o primeiro estudo te& No extremo oposto, escrevendo sobre poesia persa em
rico, em língua inglesa, sobre b.adução - a obra Essay on 185 1, Edward Fitzgerald @de afirmar: "E para mim um
the Principiesof Translation,de Aiexander Tytler (v. infra deleite tomar seja que liberdades forem com estes persas,
p. 109-1 10). No entanto, e embora no princípio do d- que (penso eu) não sãa Poetas o suficiente para intimida-
culo XIX a tradução ainda fosse encarada como um m6- rem quem o queira fazer, e que realmente carecem de um
todo serio e dtil de ajudar um escritor a explorar e a moldar pouco de Arte para Ihes dar o retcque final"."
o seu estilo natural, essa época tarnMm testemunhou uma Estas duas posiçks - uma que estabelece uma reiação
viragem no estatuto do tradutor, com o trabalho de um hierárquica na qual o autor da LP age como um senhor
número crescente de tradutores 'amadores' (entre os quais feudal cobrando vassalagem ao tradutor; a outra que esta-
muitos diplomatas ingleses) para quem o objsctivo das tra- blece uma relação h i e q u i c a na qual o tradutor é absul-
duçbes tinha mais que ver com a divulgação dos conteSidos
histdxia da uadução que d mais breve do que a de qualquer outro país industria-
de uma detenninada obra do que com a exploração das l i í e aeibui esta deficiênciaa quabu f a bgsiws:
propriedades formais do texto. A transfomaç80ao nível dos a) O isolacionismo politico e comercial da America do &ula XIX.
conceitos de nacionalismo e de lingua nacional agudizou b) A tradicional fidelidade cullural1comunidade de lingua inglesa.
C) A compkente auto-sukiencia americana em teaio&ia. -
as barreiras interculturais e o tradutor acabou gadbal- d) A força do mim da Terra Prometida junto dos emigrantes e o seu sub
mente por ser visto, não como um artista criador, mas sequente desejo de integmçk.
como um elemento na relação de senhor-servo que man- A teoria de Fischbach d ink-tc pelo fwo de apresentar cmspon-

t&mcom o texto da LP.4 Dai que Dante Gabriel Rossetti


&ias com a atitude inglesa relativamente h ~~ no quadro da expansão
colonial britaaicri.
pudesse declarar em 1861 que o trabalho do tradutor ROSSE'ITI, Dante G M e l - Prefácio k suas ~ u ç & sdos Primeiros
Poeias [dianos. I n h m s d Trarnlatio~~s, 1850-1870. London. Oxford Uni-
vmity Press. 1968, p. 175-9.
1 No seu artigo, intiiulado 'Translalion in the Unitd States" (8abd VII. FTIZGERALD E.- Cana a Cowell. 20 de Março de 1957.
2. 1968. p. L 19-24). Henry fixchbach afirma que os Estados Unidos t2m uma
vido de toda a responsabilidade para com a cultura inferior O legado do século XIX tambkm levou a que o estudo
da LP - apresentam ambas uma forte coerência com o da tradução em Ingles tenha dedicado muito tempo des-
crescimento do imperialismo colonial no século XTX, e é coberta de um nome para descrever a pr6pria tradução.
delas que deriva a ambiguidade com que são encaradas as Alguns estudiosos, como, por exemplo,Theodore Savory,'
traduçiks no skulo XX.É que, se a tradução é entendida definem a traduçso como uma 'arte'; outros, como, por
como uma ocupação servil, B improvdvel que seja dignifi- exemplo, Eric Jacobsen: definem-na como um 'oKcioP;
cada pela análise das técnicas utilizadas pelo servo e, se a enquanto outros, talvez mais sensatos, na senda dos ale-
tradução t encarada c o m a actividade pragmhtica & um mães, a descrevem como uma 'ci&n~ia'.~ Horst FrenzIovai
individuo que tem por rnissão 'elevar' o texto original, a mesmo ao ponto de optar por 'arte', mas com q w c a t i -
vos, alegando que "a tradução não é nem uma arte criativa
andise do processo de tradução iria ferir o gmago do sis-
tema hiedquico estabelecido.
nem uma arte imitativa, mas algo que se situa entre as
duas." Esta enfase na discussão terminológica aponta de
A forma como os sistemas educativos passaram a
novo para a pmblem2itica dos Estudos de Tradução ingle-
depender cada vez mais do recurso a textos traduzidos no
ses onde um sistema de valores est8 subjacente h escolha
ensino, sem alguma vez tentarem estudar o processo de
do nome. 'Ofício' implicaria um estatuto ligeiramente in-
tradução, constitui uma prova adicional das atitudes con-
ferior ao de 'arte', e com oonotações de amadorismo;
tradit6rias relaiivmente h tradução no mundo de lingua
'cisncia' poderia sugerir a ideia de mecanicismo e desva-
inglesa. Daí que um nilmero crescente de estudantes brita- lorizar a noção de que a tradução 6 um processo criativo.
nicos e norte-americanos leiam autores gregos e latinos Em todo o caso, esta discussão é despropositada e o que
traduzidos ou estudem obras narrativas de importantes es- faz 6 desviar as atenções do problema centrd, que é o de
critores do século XiX ou textos dramáticos do seCu10 encontrar uma terminologia que possa ser utilizada no es-
XX,tratando o texto traduzido como se tivesse sido origi- tudo sistem8tico da tradução. Em Inglês, at6 ao momento
nalmente escrito na sua língua. Esta é, sem dúvida, a s6 apareceu uma tentativa para resolver a questão da ter-
grande ironia do debate sobre tradução: que os indivíduos
que rejeitam a necessidade de investigar cientifimente a ? SAVORY. Theadore - The A n of Tmnslmion. London Cape. 1957.
tradução devido ao seu tradicional baixo estatuto no * JACOBSEN.Eric - h s l a i i m , A Tmditiod Crrbf.C~openhagen:Nor-
disk Foriag, 1958.
mundo stc&fii& sejam precisamente os mesmos que en- * NIDA. Eugene - Toward a Science of Tmnslating. biden: E.J. Bnll.
sinam um niímem substancial de textos traduzidos a alu- 19b4.
l0 FRENZ Horst - '"ihc An of Translation", In STAUMCHT, N.P;
nos rnonolingues. -
FRENZ, H.(4s.) Cm~pamtiveLiremzure: Method and Perspective. Cmbn-
d a k Southern iilinois Univemity h, 1%i, p. 72-%.
rninologia, com a publicação, em 1976, do Dictionaryfor resume bem a ideia de que a tradução requer muito mais
the Analysds of kferuty Translation, da auioria de Anton do que um conhecimento de circunstância de duas línguas:
PopoviE ": uma obra que estabelece, ainda que de forma
provisdria, a base para uma metdologia do estudo da Uma tradução n8o t uma composição monista, mas uma iakqe
nemçãv e um composto hetm&nm de duas estruturas. De um
tradução. lado, os conteúdos semânticos e os contornos formais do originaI,
Desde o principio da década de sessenta do século XX do outro, todo o sistema de mçoa estéticos que compãem a lingua
ocorreram mudanças significativas no campo dos Estudos da aadu~ão.'~
de Tradução. Essas mudanças tiveram a ver com a cres-
cente aceitação do estudo da Linguística e da Estilfstica no A &nfasena Linguistica e as primeiras experiências
âmbito da crítica literária - o que conduziu ao desenvolvi- em tradução automhtica no principio dos anos 50 do sé-
mento da metodologia crítica - e também com a redesco- culo XX conduziram a um rápido desenvotvimento dos
berta do trabalho dos Formalistas Russos. Os mais impor- Estudos de Tradução na Europa de Leste, mas, no mundo
tantes avanços nos Estudos de Tradução verificados no de língua inglesa, a afmnação da disciplina fez-se mais
&ulo XX prov&mdo trabalho fundacional realizado na lentamente. No seu breve estudo de 1965, J. C. Catford
Rússia e, subsequentemente, pelo Circulo Linguístico de abordou o problema da intraduzibilidade lingulstica (v.
Praga e seus discipulos. O trabalho de VoloSinov sobre infm, p. 64-71):
Marxismo e filosofia, o de Mukaiovskf sobre semi6tica
Em fruduçâo dá-se a substiniiç8o de sentidos da LP por sentidos
da arte, o de Jakobson, Prochmka e k v f sobre tradução da L€, não a transferência de sentidos da LP para a E.
Na trans-
(v. Capitulo 3), todos estabeleceram novos critérios para a fmência M uma implantqão dos sentidos da LP no texto de che-
fundação de uma teoria da tradução e demonstraram que, gada. Estes dois processos tem de ser claramente diferenciados
longe de ser uma ãctividade diletank acessível a qualquer numa teoria da tradu~ão.~
detentor de conhecimentos dnimos numa outra lingua, a
tradução é, como afirma Randolph Quirk, "uma das mais Catford abriu assim uma nova fase do debate sobre a tra-
difíceis tarefas que o escritor pode empreender."I a Levj dução em Inglh. Pordm, sendo embora uma teoria impor-
tante para o linguista, ela t redutora, porque pressupõe
l1 W W V I ~A .n m - Dictionaryfir the Amlysis of Utemiy Translation.
Aibem: Universidade de Alkrfa, Depanãmento de Litemtum Cornparsda '"vY. J. - Umeni pwkladu (A Arte da "haduçW). Praga, 1%3. Apud
1916. HOLMES, I. (ed.) - ?%a Naium of Tnmsla~iun.'lhe Hague: Mwmn. 1970.
l1 QUIRK, Randolph - The Linguist and the English Langtiage. Landon: I' CATFORD. . C - A iinguisiic TRmryof Tmmlution. hmh~
I. Oxfd
Edward Amold, 1974. U n i v h t y Pms, 1965.
uma teoria restrita do sentido. O debate sobre os concei- desta & ~ ã o a, sua clara intenção de ligar a teoria A
tos-chave de equivalgncia e intraduzibiIidade cultural pratica é inquestion4vel.A necessidade do estudo sistema;-
(v. Capitulo 1) avançou bastante desde o aparecimento do tico da tradução surge directarnente dos problemas encon-
seu i i m . trados concretamente durante o processo de tradução e é
Fizeram-se grandes progressos nos Estudos de Tradu- tão essencial que os profissionais da tradução tragam a ex-
ção de& 1965. Os trabalhos desenvolvidos nos Paises periência da sua prática h discussão teórica quanto 6 im-
Baixos, em Israel, na ChecosIovAquia. na União Sovihtica, portante que os resultados do debate te6rico sejam aplica-
na Repiíblica Democ&tica Alemã e nos Estados Unidos das na tradução de textos. Divorciar a temia da prática.
parecem indicar o aparecimento de várias escolas, clara- colocar o teorizador contra o praticante, como aconteceu
mente definidas, que privilegiam diferentes aspectos do noutras disciplinas, seria bágico.
vasto campo dos Estudos de Tradução. Por outro lado, os Embora os Estudos de Tradução abarquem um campo
especialistas em ~ u ç ã têm o beneficiado muito do tra- muito vasto, é possível dividi-lo, gmso modo, em quatro
balho realizado em áreas perifericamente afins. O trabalho
&masgerais, cada uma apresentando um certo grau de so-
dos semioticistas italianos e russos, os desenvolvimentos
breposição com as outras. Duas são orienta& pam o
em gramatologia e narratologia, os avanpos no estudo do
produto, na medida em que incidem sobre os aspectos fun-
bilinguismo e do multilinguismo, bem como no campo da
cionais do Texto de Chegada, e duas são orienr&s pam
aprendizagem de iínguas pelas crianças, têm, todos eles,
o pmcesso, na medida em que incidem na anãlise do que
utilização no h b i t o dos Estudos de Tradução.
Os estudos de Tradução estão, portanto, a cobrir ter- realmente acontece durante o processo de tradução.
reno novo, estabelecendo pontes entre a Estilistica, a His- A primeira categoria envolve a HiJtóna da Trudução
M a Literfia, a Lingul'stica, a Semi6tica e a Estética. Ao e faz paite integrante da história literária, O tipo de traba-
mesmo tempo, convdm não esquecer que se trata de uma lho desenvolvido nesta h inclui investigação sob= as
disciplina solidamente enraizada na prática. Quando An- teorias da tradução em diferentes momentos histdricos, a
dré Lefevere tentou definir o objectivo dos Estudos de resposta crítica hs traduções, os processos pdticos de en-
Tradução. sugeriu que a sua finalidade era "produzir uma comenda e publicaç30 das traduqões, o papel e a função
teoria compreensiva que também pudesse ser usada como das traduções num dado período, a evolução rnetodol6gica
norma de procedimento para a produção de t r a d u ~ õ d , ~ ~ da tradução e, de longe o tipo de estudo mais comum, a
e ainda que alguns possam questionar a especificidade d i s e da obra de tradutores individuais.
Na segunda categoria, a Tmduçiío pia cultura da lín-
'5 LEFEVEI(E, André - Op.cit. gua de chegada, o trabalho estende-se aos textos e autores
individuais e inclui o estudo da influsncia de um texto, au-
tor ou género, a absorção das normas do texto traduzido embora haja pouco estudo sistem8tico sobre a hist6ria da
no sistema da língua de chegada e os princípios de selec- tradução e parte do trabalho sobre tradução e linguistica se
ção que operam nesse sistema. distancie bastante da corrente principal do estudo da tra-
A terceira categoria, a 7ladução e a Línguística, inclui duçgo. Para evitar a fragmentação, k importante que o es-
estudos que incidem sobre a comparação do arranjo dos tudioso de tradução esteja consciente das quatro ceitego-
elementos linguísticos nos textos dos dois sistemas na que rias, mesmo quando investiga em uma &a especffica.
respeita aos niveis fonémico, morfhico, lexical, sintag- Há, evidentemente, um grande obstãculo final à espera
m(iticoe sintáctico.Encaixam-se nesta categoria os estudos de quem se interessa por tradução: a avaliaçfio.Se um tra-
sobre eguivalhcin linguística, sobre o sentido linguistica- dutor pensa que tem, em paire, a função de 'melhorar' quer
mente determinado, sobre a intraduzibiiidade linguistica, o texto de partida quer outras traduções j B realizadas - e
sobre tradução autodtica, etc. e também os estudos sobre essa é, na verdade, a razão frequente por que fazemos tra-
os problemas de tradução de textos não literários. duções - subjaz a esta posição um juízo de valor implícito.
A quarta categoria, livremente designada Tradução e A maior parte das vezes, quando abordam o seu trabalho,
Poética, inclui toda a hea da cradugão litefia, teoria e os mdutores evitam analisar os seus mktodos e concen-
prática. Os estudos podem ser de caracter geral ou especi- tram-se em expor as fragilidades dos ouúos tradutores. Por
fico~de um gknero litefio, incluindo a investigação dos outro lado, os críticos avaiiam frequentemente as traduç&s
problemas especificas Ievantados pela tradução de poesia, atravds & um de dois pontos & vista, ambos redutores: a
textos d d t i c o s , libretos ou tradução de audiovisuais, partir do estreito critério da aproximação ao texto de par-
quer a dobragem quer a legendagem. Encaixam-se tam- tida (uma avaliação que s6 pode ser feita se o critico tiver
bém nesta categoria estudos sobre as Mticas de traduto- acesso hs duas línguas) ou tratando o texto traduzido como
res individuais e comparações entre as mesmas, estudos se fora uma obra escrita na língua de chegada. E,se esta úl-
sobre os problemas de formular uma Ntica, estudos so- tima posição goza de uma inquestimfiveI validade - afinal
bre as iriter-relações entre os textos de partida e de che- é importante que um texto drarn8tico possa ser dramatizado
gada bem como sobre as inter-relaçáes entre autor, uadu- e que um poema possa ser lido -, a forma arrogante como
tor e leitor. Esta categoria inclui, acima de tudo, estudos os criticos se prestam a definir urna tradução como boa ou
que visem formular uma teoria da tradução literána. mB a partir de uma posição estritamente monolingue de-
fi mais generalizado, b justo did-10,o trabalho desen- monstra o lugar peculiar que a imduçáo ocupa relativa-
volvido nas categorias 1 e 3 do que nas categorias 2 e 4, mente a outro tipo de metatato (uma obra derivada de ou-
tro texto existente ou contendo-o), a própria crftica literária.
Na sua famosa dpiica ao ataque de Mathew Arnold Como adiante ficarfi demonstrado, os crítdrios para a
sua tradução de Homero, Francis Newman declarou que realizaçih de traduções e para a função do texto de c h e
gada sofreram grandes modificaçtks ao longo dos tempos.
Os estudiosos f m a m o ulbunal da Erudiçào; mas, do Gosto. t o
A preocupaçZio do skulo X M inglês com a reprodugilo do
púbiico educado, mas iletrado, o dnico e Igitimo juiz: e C a esse
que desejo agradar. Nem mesmo os estudiosw, enquanto institui- 'estilo de época' através da utilização de arcaísmos nos
~910,iêm o direito, e muito menos os estudiosos individualmente, textos traduzidos tomou frequentemente o texto traduzido
de pronunciar, no seu tribunal, uma sentenca final sobre questões num texto muito mais inacessfvel do que o original. Pelo
de g0sto.l6 contrário, a propensão do século XVII francês para galici-
zar os gregos, mesmo em pormenores como a mobilia e o
Newman distingue aqui entre avaliação baseada em
rios puramente acadbmicos e avaliação baseada noutros vestuhio, provocou nos tradutores alemães uma violenta
elementos e, ao faz&Io, estánaafirmar que a avaliação t reacção oposta. O enérgico Homem renascentista de
culturalmente determinada. Mão vale portanto a pena pug- Chapman é muito diferente do da versão s6bria e magis-
nar por uma tradução definitiva, uma vez que a iradu~ão tral de Pope, muito ao jeito do s4culo XVIII. Contudo, se-
estA intimamente ligada ao contexto em que é produzida. ria inútil comparar as duas imagens com o intuito de as
N o seu rnuitissimo Útii livro Translating h t r y , Seven avaliar dentro de uma esrnitura hierhrquica.
Smtegies anda Blueprinl, André LRfevere compara k d u - O problema da avaliação das traduç6m está intima-
ções do poema & deICatulo, não para fazer uma avaliação mente ligado à questão atrlts referida do baixo estatuto da
comparativa, mas para mostrar as dificuldades e tambem, tradução, o que autoriza os criticos a pronunciar-se sobre
por vezes, as vantagens de um determinado mdtodo. Pois os textos traduzidos a partir de uma posição de superiori-
não existe um cânone universal segundo o qual os textos dade assumida. O crescimento dos Estudos & Tradução
devam ser avaliados. Hh conjuntos de cânones que se des- como disciplina deveria orientar-se no sentido de elevar o
locam e mudam constantemente e cada texto articula-se nlvel do debate sobre as traduções e, se houver cridrios a
numa contínua relaçgo did8ctica com esses chones. A estabelecer para a avaliação das traduções, eles deverão
iradução definitiva 6 tão impossível como o p m a defini- ser postulados a partir do interior da disciplina e não de
tivo ou o romance definitivo, e qualquer avaliação de uma fora.
tradução só pode ser feita tendo em conta quer o processo Neste livro a questão da avaliação não d sequer discu-
da sua criação quer a sua função num dado contexto.
tida, em parte por razões de espaço, mas sobretudo porque
l4 NEWMAN, Francis - Homeric Tranulation in 'Zhmry and Pracliat. In
ele tem por objectivo estabelecer os fundamentos da dis-
Essays b.y Mathew Arnold. Liondon: Oxford University Press, 1914, p. 313-77. ciplina e não apresentar uma teoria pessoal. O livro orga-
niza-se em três secções, numa tentativa de apresentar o
máximo possível de aspectos que compõem o campo dos
Estudos de Tradução. O Capitulo 1 aborda as questões
centrais da traduçgo - o senti&, a incraduzibilidade e a
equivaldncia -, e ainda a questão da tradução enquanto
parte da teoria da comunicação. O Capitulo 2 percorre di-
ferentes periodos para mostrar como os conceitos de tra- Questões fundamentais
dução foram diferentes ~ K Ilongo dos tempos, mantendo-se,
apesar disso, ligados por l a p s comuns. O Capitulo 3 exa-
mina os problemas específicos envolvidos na tradução da
poesia, da narrativa e do drama. Na conjunto, a ênfase re-
cai na tradução literária, embora algumas das quesths
abrdadas no Capituio 1 sejam apiicãveis a todos os as- O primeiro passo para a anhlise dos processos de tra-
pectos da traduçáo e da interpretação. dução io reconhecer que, embora a tradução impIique um
Estou bem ciente de que, entre os aspectos da tradução núcleo central de actividade linguística, ela pertence mais
não desenvolvidos neste livro, o problema da tradução en- propriamente h sernidrica, a ciência que estuda os siste-
tre línguas de diferentes sistemas é claramente o mais cru- mas, as estruturas, os processos e as funçiks dos sinais
cial. Este aspecto é brevemente afiorado na Capítulo 1. (Hawkes, St~ucturalisrnand Semiotics. Londres, 1977).
mas como infeIizmente s6 posso trabalhar com línguas De acordo com uma abordagem estritamente linguística, a
indo-europeias, achei mais prudente não me aventurar em tradqão consistiria em transferir o 'sentido' contido num
áreas fora da minha competência, excepto ao nível dos conjunto de signos linguisticos para outro conjunto de sig-
princípios tebricos gerais susceptíveis de aplicação a todas nos linguisticos atraves do recurso competente ao dicio-
as Iinguas. nário e h grarnatica; contudo, o processo envolve tarnbbm
Subjaz a todo este debate sobre a tradução a convicç8o um vasto conjunto de critdrios extralinguísticos.
de que existem princípios gerais do processo de tradução Edward Sapir sustenta que "a língua d um guia para a
que podem ser determinados, categorizados e, em última malidade social" e que os seres humanos se encontram A
insthcia, utilizados no ciclo texto - teoria - texto inde- rncrc2 da língua que se tornou o meio de expressão da sua
pendentemente das línguas envolvidas. swiedade. A experiencia, insiste Sapir, 6 largamente de-
terminada pelos hábitos linguisticos da comunidade e
cada estrutura isolada representa uma realidade distinta:
Nenhum par de hguas 6suficientemente similar para que se possa
considerar que representam a maqma realidade sciciai. 0 s mundos
em que vivem difwentes sociedades são mundos distintos, não
a p a s o mesmo mundo com r6tulos diferentes.'
No seu artigo 'Sobre os Aspectos Linguísticos da Tra-
dução" Rumm Jakobson distingue t&s tipos de traduqão:
A tese de Sapir, mais tarde subscrita por Benjamin Lm 1) Tradução intralinguística ou reformulação (uma in-
Whorf, relaciona-se com outra mais recente, avançada terpretação de signos verbais por meio de outros
pelo semioticista sovietico Jurí Lotman, segundo a qual signos da mesma língua).
a língua é um sistema modeiizante. Lotman descreve a
2) Tradução interliriguística ou tmduç60 pmpriarncnte
literatura e a arte em geral como sistemas mudelizantelr
dita (uma interpretação de signos verbais por meio
secunddrios, devido ao facto de derivarem do sistema mo-
de outra iíngua).
delizante primário que 6 a língua e declara, tão perempt6-
rio como Sapir ou Whorf, que 'Vma língua n8o pode exis- 3) Tradução intersemidtica ou t m m u t a ç ã o (uma in-
tir se não estiver inserida no contexto de uma cultura e terpretação de signos verbais por meio de signos de
uma cultura não pode existir se não tiver no seu centro a sistemas não-verbais).
estrutura de uma língua nat~ral."~A lingua 6,assim, o co-
ra~" do corpo da cuItura, e é a interacção entre as duas Tendo estabelecido três tipos dos quis o segundo, a
que assegura a continuação da energia vital. Do mesmo tradução interlinguística, descreve o pmcesso de transfe-
modo que o cirurgião não pode, ao operar o coração, des- rancia da Lingua de Partida para a Língua de Chegada, Ja-
curar o corpo que o contdm, também o tradutor não pode kabsan passa de imediato a indicar o problema central nos
tratar o texto separado da cultura sem correr um grande três tipos de tradução: se bem que as mensagens [recodifi-
risco. cadas] sirvam de interpretações adequadas de unidades de
código ou mensagens, n8o se obgm normalmente com-
pleta equivalência através da tradução. Nem a aparente
sinonímia produz equivalência, t Jakobson mostra como
a tradução intralingufstica tem de recorrer com frequencia
a uma combinação de unidades de código por forma a
' SAPIR. Edwanl - Cultum, h g u a g e aind P e r d i r y . Berkeley, h
Angeles: University of California hs,1956, p. 69. -
JAKOBSON, Roman On Linguistic Aspacfs of Translation. In BRO-
UITMAN. lurk USPENSKY. B. A. - On the Semiotic Mechanism d WER, R.A. (ed)- On Tmnslation.Carnbridge Hiirvard University Press, 1959.
C u l m . New Litemry History, DC (2). 1978, p. 211-32. p. 232-9.
interpretar cabalmente o sentido de uma simples unidade. tem que recorrer a uma combinação de unidades para en-
6 por isso que um dicionário de sinónimos pode indicar contrar uma fomulação equivalente aproximada. Jakob-
peqeito como sinónimo de ideal e veículo como sinõnimo son dá o exemplo da palavra russa syr (um b e n t o feito
de franspoHe, mas não se pode dizer em nenhum dos de coalhada fermentada), que se traduz por aproximação
casos que se produz completa equival&ncia,uma vez que em Inglês por cottuge cheese. Jakobson argumenta que
cada unidade contkm em si um conjunto de associações e neste caso a íraduç8o d apenas uma interpretação ade-
conotações não-transferiveis. quada de uma unidade de código e a quivai&ncia6 im-
Dado que a completa equivai2ncia (no sentido de si- possível.
nonímia ou identidade) nilo ocorre em nenhuma das trSs
categorias, Jakobson declara que toda a arte W c a 6, en-
tão, tecnicamente intraduzível:

Apenas a transpiçh criativa t possivel: seja a transposiçáo in- O tradutor activa, portanto, critérios que transcendem
trdingulstica- de uma forma poética para oum, seja a transposi- os puramente linguísticos e ocorre um processo de desca-
-
ç3o íni~riingufsíica de uma I i n p para m a , ou, findmnte, a
dificação e recodificação. O esquema do processo de tra-
m p o s i ç ~ intersemiótica
o - de um sistema de signos para outro,
dução proposto por Eugene Nida ilustra os estádios en-
por ex., da arte verbal para a música, dança, cinema ou pintura.
volvidos:*
O que Jakobson afirma t5 retomado por Georges Mou-
TBXO NA UNGUA TEXTO TRAW Z IW
nin, o teofizador francês, que .entende a tradução como FONTE NA dNGUA RECEPTOR4
uma sQie de operaçM das quais o ponto de partida e o
produto final são sign$caçCes e funcionam dentro de uma
dada culturam4Assim, por exemplo, a palavra inglesa
pastry, se traduzida para Italiano sem atender sua signi-
ficação, n& desempenhará a sua função de sentido no in-
terior de uma frase ainda que possa haver uma palavra
'equivalente' no dicionhio, pois pasta tem um campo as-
sociativo completamente diferente. Neste caso, o tradutor

PnOUNiN, Gwrgcs - Lespmblarnes thkoriques de Ia rmduciion. Paris: "IDA, -


Eugene: TABER. Charies The Theory aiid Pmcticlice ufTmsla-
tíon. ttiden: E. 1. Brill. 1969,p. 4R4.
Gallimard, 1963.
Consideremos a questão de traduzir yes e h e l b para Inglês resulta tao hiperb6lica que frequentemente cria um
Frands, Alemao e Italiano como exemplos das comple- efeito cõrnico,
xidades envolvidas na tradução interlinguistica do que, Com a tradução da palavra hello, o temo corrente in-
& partida, poderiam parecer vocAbulos n8o problemáticos. glês de saudação amigitvel num encontro, os problemas
A primeira vista, esta tarefa parece simples, tratando-se de multiplicam-se. Os dicionários dão:
línguas indo-europeias, próximas do ponto de vista lexical
e sinkictioo e tendo em comum estes temos de saudação Francês: ça w?;h110
e assentimento. Para yes os dicionários correntes d b : Alemão: wie geht's; halb
Italiano: old; pronlo; ciao
Franck oui, si
Alemão: ja Enquanto o Inglês não distingue entre o termo usado
Italiano: si para saudar alguém em presença e o termo usado ao aten-
&r o telefone. o Francês, o Alemão e o Italiano fazem essa
fi imediatamente 6bvio que a existência de dois ter- distinção. O italiano pronto s6 pode ser usado numa sau-
mos em FrancEs implica uma utiliza#ío que não exististe nas dação telefhica, tal como o Alemão hullo. Alem disso, o
outras línguas. Uma pesquisa mais avançada mostra que Francês e o Alemão usam como formas de saudação bre-
oui é o termo geralmente usado e si um termo específico ves perguntas retóricas, enquanto as mesmas em IngEs -
para situações de contradição, conárovCrsia e discordan- How are you? ou How do yciu do? - apenas se usam em
cia. O tradutor inglês deve, portanto, ter presente esta re- situaçlies mais formais. O italiano ciao, de longe a forma
gra ao traduzir o termo ingles que é o mesmo em todos os mais comum de saudação em todos os estratos da socie-
contextos. dade italiana, é usado igualmente i chegada e Ii partida,
Quando se considera o uso da afirmativa no discurso sendo uma palavra de saudação utilizada em situação de
coloquid, levanta-se um outro problema. O termo yes nem contacto, quer num encontro quer numa despedida, e não
sempre pode ser traduzido por oui, ja ou si, porque o Fran- no específico contexto de chegada ou de encontro inicial.
cês, o Alemão e o Italiano frequentemente dobram ou re- Assim sendo, perante a tarefa de traduzir hei10 para Fran-
petem as afirmativas de u m a forma que não é um procedi- cês, o tradutor tem primeiro de extrair do termo o cerne do
mento usual em Inglb (por ex., si, si, si; ja, ja, etc.). sentido, e as fases do processo, seguindo o diagrama de
Daqui resulta que a tradução italiana ou alemã de yes por Nida, são as seguintes:
um Cnico termo p d e , por vezes, parecer excessivamente
brusca e, por outro lado, a repetição de afirmativas em
L/NGUA FONTE ~ G U AECEPTORA
A em presenqa -, o estatuto e a posicão social dos falantes e
#EU0 ÇA VA? o consequente peso de uma saudação coloquial em dife-
rentes sociedades. Até a tradução do termo aparentemente
MUDA* AMIGAVE~. mais simples convoca a interacção de todos estes factores.
A CHEGADA aisnnçÃo n s i ~ ~
FORMAS DE SAUDAÇAO A questão da transfom@io semiótica fica mais clara
BISTENTES se se considerar a txadução de um simples nome, como o
inglês butter [manteiga]. Seguindo Saussure, a relação es-
trutural entre o significado fsignifik) ou conceito de buner
e o significarite(sigrmiJ;uat)OU a imagem acBsticaproduzida
pela palavra butter constitui o signo linguistico butter.'
O que aconteceu durante o processo de tradução foi E uma vez que a língua 6 entendida como um sistema
que a noção de saudagão foi isolada e a palavra Aelb foi de relações interdependentes, o signo butter funciona em
substituida por uma frase comportando a mesma noção. InglSs como um nome numa relação estrutural particular.
Jakobson descreveria isto como transposição interhnguís- Mas Saussure tambkin distinguiu entre relaç6es sintagm8-
tica, enquanto Ludskanov lhe chamaria tmnsfomçdo se- ticas (ou horizontais), que a palavra mantém com as outras
midtica: palavras da frase, e relações paradigmáticas (ou verticais),
que a palavra mancém com a estnitura linguística no seu
As transformações semióticas (Ts) sFio substituiçáes dos signos
que codificam uma mensagem por signos de ouiro cMigo, man-
todo. Além disso, dentro do sistema modelizmte secund4-
tendo {tanto quanto posslvel em face da entropia) a informação in- rio existe outro tipo de relações paradigm8ticas e o tradu-
variante em relaçáo a um dado sistema de referSncia6 tor, tal como o especialista em técnicas publicithias, tem
de atender %slinhas p~cadigmilticasquer primárias quer
No caso de yes, a infomiação invariante 6 afirmação, secundãnas. Com efeito, em Inglês britânico, butter detdrn
enquanto no caso de hello, a invariante é a noção de sau- um conjunto & associações de salubridade, pureza e ele-
da$&. Mas, ao mesmo tempo, o tradutor tem de conside- vado estatuto(em comparação com a margarina, em tem-
rar outros criterios coma, por exemplo, a existência da re- pos considerada apenas como produto sscundhio, mas
gra ouilsi em Francês, a função estilistica das afirmativas agora comercializada igualmente por ser prática, já que
repetidas, o contexto social da sauda~ão- telef&nica ou n k endurece com a refrigeração).

e LUDSKANOV. A. - A Semioiic Appmach to the Theory of Translation. -


Cf. SAUSSURE, Ferdinand de Course i11 General Linguistics. London:
Langua~cSeientes, 35 {Apríl). 1975, p. 5-8. Fontano. 1974.
Na tradução de butter para Italiano há uma substitui- iii~iorde significados na língua de partida os problemas
ção palavra-por-palavra:Aumr - burro. Tanto bsrrrer como aumentam. O esquema diagramático que Nida elaborou
burm descrevem o produto feito n partir do leite e comer- para a estrutura semiíntica de spirit (v. pAg. seguinte) ilus-
cializado na forma de grandes pedaps de gordura comes- ira um conjunto mais complexo de relações semânticas?
ú'vel, de cor creme, destinado ao consumo humano. E, no Quando se verifica um conjunto tão fértil de relações
entanto, nos seus contextos cuitwais isolados não se pode semânticas corno no caso em apreço, C possivel usar uma
dizer que butter e burro signifiquem o mesmo. Em Itãlia, palavra para fazer trocadilhos e jogos de palavras, uma
burro, normalmente & cor clara e sem sal, é usada princi- forma de humor que funciona confundindo ou misturando
palmente em culinária e não tem nenhuma conotação de os significados(como, por exemplo, a piada sobre o padre
elevado estatuto. Por outro lado, na Grã-Bretanha, buiter, alco6lico que comungava demasiadas vezes com o 'espi-
muitas vezes de um amarelo vivo e com sal, 6 usada para rito santo', etc.). O tradutor tem, então, de atender ao uso
barrar pão e, menos frequentemente, para cozinhar. De- particular de espirito na frase em si mesma e na frase em
vido ao elevado estatuto de butter, a frase bread and but- relação com outras frases, e atender ainda ao texto global
ter é a que tem uso corrente mesmo quando o produto e aos contextos culturais da frase. Assim, por exemplo,
realmente usado é a margarinas. Assim, existe uma dife-
rença quer entre os objectm significadospor butter e burro O esp(rito da crianp faieckh ergueu-se da sepdtwa
quer entre a função e o valor desses objectos nos seus con-
textos culturais. O problema da equivalencia envolve, refere-se A categoria 7 do esquema de Nida e a nenhuma
neste caso, a utilização e a percepção do objecto num dado outra. Mas
contexto. A tradução de buner - burro, embora perfeita-
mente adequada a um determinado nível, iambem serve 0 espínlu da cum permaneceu vivo.
para lembrar a validade da afirmação de Sapir segundo a
qual cada língua representa uma realidade diferente. pode referir-se hs categorias 5 ou 7 ou, em sentido meta-
A palavra butter descreve um produto especificamente fkco, As categorias 6 e 8, sendo o sentido apenas deter-
identificável, mas no caso de uma palavra com um leque minado pelo contexto.

Este esquema foi tirado & NIDA. Eugene - Tnwm'sa Science of Tmns-
Atente-se tambh h exist2nciada exp& idiomática h d and htrner, luti*. Wb Speciul Referefite ia Prlncip!~~ and Proceti~trexInvnlwd in Blhle
que significa mim de subskbncia bssicos, pexemplo, to e m una's b d Tmloting. Lcidcn: E. 1. Brill, I%, p. 107. Salvo indicação em c o n w o . to-
and brrrter. das as çitqiies de Nida s8n tiradas dwta obra.
Firth define 'sentido' como "um complexo de relações
de vários tipos entre os termos componentes de um con-
texto situacionai"l0 e cita o exemplo da frase inglesa Say
when, em que as palavras 'significam' o que 'fazem'. Ao
traduzir esta expressão, & a função que se traduz e não as
palavras em si, e o processo de tradução envolve a decisão
de substituir os elementos linguísticos na língua de che-
gada. E dado que a frase e s d como afirma Firth, direçta-
mente ligada aos padrões de conduta social ingleses, ao
traduzir para Franc&sou para Alemão. o tradutor tem de
resolver o problema da não existência de uma convenção
parecida em qualquer das culturas & chegada. Do mesmo
modo, o tradutor ingl2s da expressão francesa Bon appetit
confronta-se com um problema parecido, pois, mais uma
vez, o enunciado € culturalmente determinado. Como
exemplo das complexidadesenvolvidas, vejamos um caso
de uma situação dramática hipotética em que a frase Ban
appetit assume um significado cmial:

U m gnipo de familiares a c a h de ter u m amarga discussão, a


uni& & fmíiia foi abalada, disseram-se coisas imperdodveis.
Ados ojaiirar comemorativo pam n qual todos vieram estb pmstes
a ser semido c a famaia setira-w It mesa, em sil@ncio,pmnta a ini-
ciar a refeiçdo. Os praros esrdo servidos, todos @#I& sentados e (I
espem; o pai quebra o silêncio pani aksejar a todos 'Bun uppe~ir'
e a refeiçüo começa.
Não se especifica se a expressão d utilizada de uma 3) Considerar o leque de expressks existentes na lin-
forma mecânica, como pstrte do ritual disrio, ou se é usada gua de chegada, atendendo h classe, estatuto, idade,
de forma irónica, triste ou mesma cruel. Num palco, o ac- sexo do falante, bem como a sua relação com os in-
tor e o encenador teriam de decidir coma interpretar a ex- terlocutores e o contexto em que se encontram na
pressb com base no seu conceito de encenação bem como língua de partida.
do sentido globai e da estrutura da p q a . A interpretação 4) Considerar a significação da frase no seu contexto
seria expressa atravds da inflexão da voz. Porém. qualquer particular - i. e., um momento de alta tensão no
que fosse a interpretação, manter-se-ia o significado de texto drnm(itic0.
um enunciado simples irrompendo numa situação de 5 ) Substituir, na língua de chegada, o núcleo inva-
grande tensão, riante da frase na língua original nos dois sistemas
O tradutor tem de ter em conta a questão da interpre- de referência (o sistema particular do texto e o sis-
tação para além do problema de seleccionar, na Ilngua de tema da cultura do qual o texto brotou).
chegada, uma frase de sentido minimamente parecido. A
traduçáo exacta 6 impossível: Good appetite em Inglês, Levj, o grande estudioso checoslovaco da traduqão,
fora de uma frase esbuturada, não significa nada. Nem insisth na ideia de que qualquer contxacção ou omissão na
sequer existe no Ingles corrente nenhuma expressão que tradução de expressões diffceis 6 um acto imoral. O mesmo
desempenhe a mesma função da expressfio francesa. Exis- estudioso acredita que o tradutor tem a responsabilidade
tem, contudo, algumas expressões susceptíveis de aplica- de encontrar solução para o mais desanimador dos proble-
ção nalgumas situações - a expressão coloquial Dig m i ou mas e declarou que se deve adoptar a perspectiva funcio-
Tuck in [Vamos ao tacho], a expressão mais informal Do nal com respeito não apenas ao sentido, mas tambdm ao
sfarf [Porfavor comecem] e outras ritualizadas I kope you estilo e B forma. A grande riqueza dos estudos sobre a tra-
l i b it [Espero que gostem] ou I hope it's alright (Espero dução da Bíblia e a documentação existente sobre o modo
que seja do vosso agrado], Para determinar que expressão corno os tradutores, individualmente, tentaram resolver os
utilizar em Inglês, o tradutor tem de: seus problemas atravds de solu@es engenhosas B uma
fonte particularmente fértil de exemplos de transformação
1) Aceitar a intradudizibilidade, ao nível linguistico, semi6tica.
da frase original na língua de chegada. Na tradução de Bon appetit na situação acima descrita
2) Aceitar a ausencia de uma convenção social pare- o tradutor conseguiu extrair do texto um conjunto de cri-
cida na lingua de chegada. térios para determinar qual a expressão mais adequada na
língua de chegada, mas certamente num outro contexto se- pela cultura. A expressão idiomática italiana rnenare i1 can
ria outra a alternativa. Em tradução, a ênfase recai sempre per I 'aia constitui um bom exemplo do tipo de triuisfor-
no leitor ou no ouvinte, e o tradutor tem de fazer com que mação expressiva que ocorre no processo de tradução.I1
o texto na língua de chegada corresponda à versão da Iin- Traduzida letra, a frase
gua de partida. A natureza dessa correspondenciapode va-
riar consideravelmente (ver Capitulo 31, mas o princípio Ciwanni sta mnando i1 can per l'aia
permanece constante. Daí que Albrgcht Neubert esteja
absolutamente certo quando diz que o soneto shalrespea- daria em Inglês:
remo 'Shall I compare thee to a summer's dayT' [Deve-
rei wmparar-te a um dia de verTio?] não pode ser seman- John is Ieading his dog amund tha threshingflwx

ticamente traduzido para uma língua falada num país onde


os verões sejam desagradáveis; do mesmo modo,o con- A imagem engendrada por esta frase 6 algo estranha e,
ceito de Deus Pai não pode ser traduzido para uma língua a não ser que o contexto se referisse especificamente a
em cuja cultura a divindade seja do sexo feminino. É uma situação deste tipo, a frase resultaria obscura e vir-
muito perigoso tentar impor o sistema de valores da cui- tualmente sem sentido. A expressão inglesa que mais se
tura da língua de partida h cultura da língua de chegada e aproxima da italiana k to k a t abour fhe bush, t
amm ela
obscura excepto se utilizada idiomaticamente, e, então, a
o tradutor não deve deixar-se tentar pela corrente que
frase traduzida correctrtmente daria
julga possível determinar as intsn~õesoriginais de um au-
tor com base num texto isolado. O tradutor não pode ser o
John is beating about the bush.
autor do texto fonte, mas, enquanto autor do texto tradu-
zido, ele tem uma inequívoca responsabilidade perante OS " P o p a distingue vhios tipos d@ transfonnaçk expressiva:
leitores do texto na língua de chegada. 1. Tmng'ior~çdocunslitwiw (em W u @ o ) descrita como a transforma-
@o inevit8vel que msulta das dlfomnçns mue duas linguas. duas po8ti-
cas ou dnis estilos.
2. Tmn~ommç& genddgica. quando rn caracteristicas coostituiivap do
texto enquanto g h m liierário mudam.
3. Tmnsforwiação idividud, quando o e ~ t i l oe o idioleto do rradumr in-
iroduzem um siskrna de desvios individuais.
A tradução de expcessbs idiomhticas leva-nos mais 4. Truiti@omaçüo negativa. quando a informaçk t traduzida de forma in-
comia, devido so de&imento da tingrui w 1esnutura do originai,
longe ria consideração da questão do sentido e da tradu- S. Tm$onnuçd~ 16pico.quando os factos tbpias do original &O aliera-
ção, porque elas, como os trocadilhos, são determinadas dos na hadução.
O InglCs e o Italiano em expressões idiomiiticas cor- entre tradução 'literal' e tradução 'livi-e'13não Em em conta
respondentes que exprimem a ideia de prevaricação e, o conceito de tradução como transforma@io semiótica. Ma
portanto, no processo da tradução interlinguisticit, uma é sua definiHode equivalência na hdução, PopoviE distin-
substituida pela outra. Essa substituição faz-se, não na gue quatro tipos:
base dos elementos linguisticos da frase nem na base de 1 ) Equivai&nciu ling uisrica. quando existe homoge-
uma correspondência ou semelhança de imagens contidas neidade ao nível linguistico entre os textos da lín-
na frase. mas na base da função da expressão idiom8tica. gua fonte e da lingua alvo, i.e.. traduçiio palavra por
A frase da lirigua fonte 6 substituída na língua alvo por palavra.
uma frase que serve o mesmo propõsito na cultura de che-
gada e o processo envolve a substituição de signos da lin- 2) Equivalência pragm'tica, quando existe equival8n-
gua fonte por signos da Ifngua alvo. As observações de cia ao nível dos 'elementos do eixo expressivo pa-
Dagut relativas aos problemas envolvidos na tradução da radigdtico', i.e., equival&nciagramatical, que Po-
metfifora s i o interessantes quando aplicadas também h poviZ considera uma categoria mais elevada do que
tradução de expressks idiodticas: a equivai8ncia lexical.
3) Equivalência estillsticu, quando se verifica uma
Dado que na língua fonte a rnethfm d, por definição, um novo de- 'equivalência funcional de elementos entre o origi-
sempenho, uma novidade semhticti, não pode obviamente ter um
nal e a tradução visando a identidade expressiva de
'equivalente' pronto na Ilngua alvo: aquilo que 6 bico não @e
ter duplicado. Aqui, a competEncia bilingue do tradutor - "le
uma invariante com sentido idgntico' .
mnf', como afirma M a l l d , " de ce qui est dans la langue ei de 4) Equival8ncia textual (sinfagmúfica),quando existe
-
ce qui n'en est pas" s6 lhe e w e no sentido negativo de lhe dizer equivalência ao nível da estruturação sintagmãtica
que a 'equivalência'. seja ela qual for, nãa pode ser 'enconaada',
terá de ser 'criada'. A grande questão que se coloca d a de saber se
do texto, ;.e., equivalência de forma e de forrnula-
uma rnetgfora @e, em rigor. ser traduzida como tal ou se pode ção*i4
apenas ser de aIgum modo 'reprnduzida'. l2
Como tal, a tradução das expressks idiomáticas en-
Contudo, a distinção operada por Dqut entre 'tradu- volve a determinação da equivalência estilistica que re-
ção' e 'reprodução', tal como a distinção feita por Catford
I' CATFORD. J. C. - A Uiigciislic Thcory tfTrunsla~ioii.
hndan: O x f d
Univeniiy P r e ~ 1965.
,
i1 DACUT. M. B.- Can Metaphor Be TwnslaiPd?Bribt.1, XXII (1). 1976, Ia Salvo indicaçh em contrário. talas ti% citaf&s h Popovif são tiradas

p. 21-33. do seu Diriaruírio.


sulta na substituição da expressão na língua fonte por ou- um sério obstáculo ao seu uso em teoria da tradução. Eu-
tra expressão que tenha uma função equivalente na língua gene Nida distingue dois tipos de equivdencia -f o m l e
alvo. dindmica - sendo que a equival6ncia formal "centra a sua
A tradução 6 muito mais do que a substituição de ele- atenção na mensagem em si, tanto na forma como no con-
mentos lexicais e gramaticais entre línguas e, como se ve- teúdo. Nesse tipo de tradução preocupamo-nos com cor-
flsca no caso da tradução de expressões idiomáticas e de respondências do tipo poesia para paesin, frase para frase.
metáforas,o processo pode passar por descartar elementos conceito para conceito." Nida designa este tipo de tradu-
linguísticos bhicos & língua fonte por forma a atingir o ção por 'tradução glossáfia', visando permitir que o leitor
objectivo da 'identidade expressiva' entre as duas lfnguas. prceba o m h i m o possível do contexto da lfngua fonte. A
Porém, a partir do momento em que o rradutor passa o pa- equival2nch dinhicn baseia-se no principio do efeito
tamar da estrita equivalhcia linguistica, começa a surgir equivalente, i. e., o principio segundo o qual a relação en-
o problema de determinar a natureza exacta do nivel de tre o receptor e a mensagem devia lograr ser a mesma que
equivaihcia pretendido. se estabelece entre os receptores originais e a mensagem
Albrectit Neubert distingue entre o estudo da tradução na lfngua fonte. Como exemplo deste tipo de equivalEn-
enquanto processo e enquanto produío, Este teorimdor cia, Nida cita a tradução de um passo da BiúLia (Romanos,
afirma categoricamente que "o elo em falta entre os dois 16;16) feita por J. B. Philips, na qual a ideia de "saudar
componentes de uma teoria completa da tradução parece com r, 6sculo sagrado*' é traduzida por "dar uns aos outros
ser o de uma teoria das relações de equivalbncia que pode um caloroso aperto de mão". Este exemplo daqui10 que se
ser concebida quer para o modelo dinãrnico quer para o pode considerar como uma tradução inadequada e de mau
estátic~".'~O problema da equivalência, um termo exces- gosto revela bem a fragilidade dos tipos de tradução, va-
sivamente usado em Estudos de Tradução. assume uma gamente definidos, concebidos por Nida. O principio do
importância central e, embora Neubert esteja certo quando efeito equivalente, que foi muita popular em certas cultu-
ressalva a necessidade de uma teoria das relações de equi- ras em determinados momentos Iiist6ricos, pode colocar-
valCncia, Raymond van den Broeck também tem razão -nos em posiç&s & especulação e conduzir-nos, por ve-
quando critica o uso excessivo do termo, alegando que a zes, a conclusões muito dúbias. Assim, a decisão de E. V.
definiçao precisa de equivalência na MatemBtica constitui Rieu de traduzir Homero para Inglês em prosa, portlue o
significado da forma kpica na G&ia Antiga pode consi-
NEUBERT, Albrecht - Elemenie eioer allgemeincn Thede der Trans- derar-se equivalente ao significado & prosa na Europa
lation. Actes du X* Coirgds Iniemati~nnl&s tingiiisies. B ü c m t 11, 1967, p.
45 1 6 . moderna, t um caso de equivalência dinâmica aplicada hs
propriedades formais de um texto, o que revela mesmo um zam-se numa relaqão hierárquica na qual a equival8ncia
conflito entre as prdprias categorias de Nida. sedntica tem prioridade sobre a equivuleincia sintdctica
É um dado adquirido em Estudos de Traduçáo que se e a equivak8ncia pragmddica condiciona e modifica as ou-
o mesmo poema for traduzido por doze tradutores eles tras duas. A equivalencia global resulta da relação entre os
produzirão doze ver- diferentes. E, contudo, algures pr6pnos signos, da relação entre os signos e aquilo que
em cada uma dessas doze versões encontra-se aquilo que eles representam e & relação entre os signos, o que eles
PopoviE designa por 'niicleo invariante*do p m a origi- representam e os seus utilizadores. Assim, por exemplo, o
nal. Este 'núcleo invarímte*,adianta PopoviE, & represen- cadcter chocante contido em expressões blasfkmicas ita-
tado pelos elementos semânticos esthveis, básicos e cons- lianas e espanholas s6 adquire uma equivalência pragmá-
tantes do texto, cuja existência pode provar-se atravks da tica, i. e., só produz um efeito de choque em Inglês se elas
condemação semântica experimental. As transformações, forem substituidas por outras com conoia$ões sexuais,
ou variantes, s8o as alterações que não modificam o nii- como por exemplo porca Madonna - f~ckinghellt7.Do
cleo de sentido, mas influenciam a forma de expressão. mesmo modo, a interacção entre as t s s componentes tam-
Em suma, a invariante pode definir-se como aquilo que há bém determina o processo de seleqão na língua alvo,
de comum entre todas as traduçbes de uma mesma obra. como acontece, por exemplo, na escrita de cartas. As nor-
Assim, a invaiante faz parte de uma relação dinamita e mas que regem a escrita de cartas variam consideravel-
não pode confundir-se com argumentos especulativos so- mente de língua para língua e de período para perlodo,
bre a 'natureza', a 'espírito' ou a 'alma' do texto - essa mesmo no seio da Europa. Daí que uma mulher inglesa ao
'qualidade indefm'vel' que supostamente os tradutores ra- escrever uma carta a uma amiga em 1812 não terminasse
ramente sib capazes de captar. a sua carta com a expressão wifh love ou irr sisrerhod,
Na tentativa de solucionar o problema da equivalência como poderia fazer hoje em dia, nem uma italiana t d -
na tradução, Neubert postula que, do ponto de vista de nasse uma carta sem uma série de saudqões formais ao
uma tearia do texto, a quival$ncia na tradução tem de ser destinatário e aos seus parentes. Em ambos os casos - no
considerada uma categoria semidtica, compreendendo as protocolo da escrita de cartas e na questão da obscenidade
componentes sintáctica, sedniica e pmgmdtica, segundo - o tradutor descodifica e tenta recodificar de uma forma
a categorização de Pierce.I6 Estas componentes organi- pragmática.
- -

'Q Cf. PIERCE. C.S. - Collecied Papers. Ed.C. Hiutshome: i? Weim: A. li Um aspecto interesante das linguas em contacio reside no facto de us
Burks. Cambridge. h. : Uoiversity P m s . 193 i-58,8 vols.. Parri um
Harvard siwerns do cai& e da blasferniiiserem frequentemente permulfiwis. Na casa do
discussiiodo conuibuto de P i e m para oi wmibtica, ver HAWKeS, T. - Stmctu- espanhol mexicano, o sistema anglwmericanofoi i n c a r p o h no sistema es-
mlism and Semiotics. London: Mcthuen. 1977. p. 126-30. panhol tradicional.
Há,nos Estudos de Traduqão, duas linhas de desen- produto, ao gosto refinado do comprador e ao estatuto so-
volvimento no encalço de uma definição de equivalhcia. cial que o produto confere. Outros elementos enfatizados
A primeira, como seria de prever, coloca a &dasenos pro- são: o processo de destilação, natural e de elevada quali-
blemas específicos da semhtica e na transferência dos dade, a pureza da Agua escocesa e a duraça0 do tempo de
conteúdos serrifinticos da língua fonte para a Língua alvo. maturação do produto. O anúncio consiste num texto es-
No hnbito da segunda, que explora a questão da equiva- crito e numa fotografia do produto. Por outro lado, o Mar-
Iencia nos textos literhios, o trabalho dos Formalistas tini & publicitado apelando a um grupo sociai diferente,
Russos e do Círculo Lingulstico de Praga, em conjunto que tem de ser conquistado por um produto lançado h&re
com alguns desenvo1vimentos maás recentes em sindlise lativamente pouco tempo. Em sintonia com esse objec-
do discurso, alargou o problema da equivalgncia h sua tivo, o anfincio do Maríini apela a uma camada mais jo-
aplicqão h tradução de textos dessa natureza. Jarnes Hol- vem e incide menos na questão da qualidade e mais no
mes, por exemplo, pensa que a utilização do termo equi- estatuto social, de adesão h moda, que o produto confere.
vdencia d 'perverso', dado que postular uma tal igualdade A fotografia que acompanha o breve texto mostra 'pes-
6 pedir demais, enquanto DuriSin argumenta que ao iradu- soas bonitas" a beber Martini, elementos do jet ser inter-
tor de um texto literiirio não compete estabelecer a aqui- nacional que habitam um mundo de fantasia onde supos-
valência da língua natural, mas apenas a dos procedimen- tamente todos são ricos e deslumbrantes. Estes dois tipos
tos artísticos. E esses procedimentos não podem ser vistos de anfincio tomaram-se ião estereotipados na cultura bri-
isoladamente, pois devem ser localizados no contexto km- tânica que s30 imediatamentereconhecidos e muitas vezes
poral e cultural especifico em que foram utilizado^.'^ parodiados.
Tomemos como exemplo dois anúncios encontrados Num anúncio dos mesmos produtos num semanário
no suplemento a cores do jornal British Smday: um de italiano verifica-se o mesmo duo de imagens - uma fri-
uisque escocês e outro de Martini, onde cada produto está sando a genuinidade, a qualidade, o estatuto social; a ou-
a ser publicitado para atrair diferentes prefefincias de tra, a excitação, o deslumbramento, a juventude, o estar na
gosto. A clientela do uísque, mais antiga e mais tradicio- moda. No entanto, como o Martini está h6 muim implan-
nd do que a do Martini, 6 atraída apelando h qualidade do tado no mercado de massas e o uísque escocês 6 um re-
cém-chegado, as imagens que acompanham os produtos
Para algum wmplm ver os c i t d m por R a y m d van den B w k em são exactarnente o reverso das brithicas. Quer dizer: o
'The Cmtpi of Gquivalenfc in Traoslation niewy; Some Critical R e b mesmo modo,com aplicaçks diferentes, é usado na pu-
tions". In H O W S , J a m a S.;LAWGRT.J o d:BROECK, Rãyrnond van den
(ods.) - Litemiiiw mtd Translution. Lwvain: ACCO, 1978, p. 29-48. blicidade destes dois produtos em duas sociedades. Os
produtos s b os mesmos nas duas sociedades, mas tem va- a uma abordagem que concebe a equivalência como uma r

lores diferentes. Daí que se possa dizer que, no contexto dialktica entre os signos e as estruturas denm e fora dos
brithico, o uisque e s c d s 6 equivalente ao Martini no textos da língua de partida e da lingua de chegada.
contexto italiano e vice-vem, na medida em que são apre-
sentados pela publicidade como seniindo funções sociais
equivalentes. PERDAS E GANHOS
A perspectiva de Mukafovskf, segundo a qual o texto
literário, ao mesmo tempo que tem um carácter aut6nom0, A partir do momento em que se aceita que não pode
serve a comunicaçáo, foi retomada por htrnan que de- haver identidade entre duas línguas. toma-se possivel
fende que um texto t explfcito(é expresso em signos de- abordar a questão das perdas e dos gai~hosno processa de
finidos), delimitdo (começa e acaba em determinados traduçáo. E de novo um indicador do baixo estatuto da
pontos) e estruturado em resultado da sua organização in- Lraduçiio o facto de se ter perdido tanto tempo a debater
terna. Os signos do texto encontram-se numa relação de as perdas na transferência de um texto da LP para a LC
oposição com as signos e as estruturas que lhe são ex- ignorando o que tambéni se pode ganhar, porque o tradu-
teriores. O tradutor deve, portanto, ter em conta o duplo tor pode por vezes enriquecer ou esclarecer o texto origi-
carkter do texto enquanto entidade autbnoma e comuni-
nal como resultado directo do processo de tradução. Além
cativa e o mesmo deveria fazer qualquer teoria da equiva-
disso, a que por vezes parece 'perder-se' no contexto da
lencialg
LP pode ser substituído no contexto da LC, como no caso
Em tradução, a equivalência não deve, portanto, ser
das traduções de Petrarca por Wyatt e Surrey (v. infrr, p.
entendida como a busca da identidade entre textos, pois
100-101 e 168-174).
que essa identidade nem sequer existe entre duas versões
Eugene Nida é uma boa fonte de informação acerca
do mesmo texto na língua de chegada quanto mais entre a
versão da LP e a da LC.Os quatro tipos postulados por dos problemas das perdas em badução, sobretudo no que
PopoviE constituem um Citil ponto de partida e as irês ca- respeita hs dificuldades encontradas pelo tradutor perante
tegorias semidticas propostas por Neubert abrem caminho termos ou conceitos na LP que não existem na LC. Nida
cita o exeinplo do Guaica, uma língua do sul da Vene-
Para uma disrcuW das -rias de Lotman. ver FOKKEMA, I). W. -
zuela, em que não é difícil encontrar substitutos satisfat6-
Continuíty and Change in Russim Fonnalism, Czech Smcmralism, and Soviet rios para os termos homicídio, roubo, metirira, etc., mas
-
Semiotícs. PTL. I (I), (Jan., 1976). p. 15396 e SHUKMAN, Ann The Caw- em que os termos para bom, muu,frio e bonito abr~ngem
nimdonof the Real: Jun' M a n L l k w y of Literature and Analysis d h t r y .
PTL 1 (2). (Abril 1976), p. 317-39. um leque de sentidos muito diferente. Como exemplo Nida
indica que o Guaica, em vez de seguir uma classifica~ão te6rico) entre uma 'língua que possui o conceito de tempo'
dicot6mica & bom e m u , adopta uma divisão tripartida: (PortuguEs) e uma língua que o não possui (Hopi). (Ver
figura
I ) Bom inclui alimentos que se desejam,matar inimi-
gos, mascar drogas com moderação, chegar fogo a
mulher para a ensinar a obedecer, e roubar algudm
que não pertença ao grupo.
2) Mau inclui fruta podre, qualquer objecto com de-
feito, matar algudm do grupo, roubar um membro
da família alargada e mentir a quem quer que seja.
3) Wola~EoG!E tabús inclui o incesto, o ser demasiado
íntimo da sogra, uma mulher casada comer tapir an-
tes do nascimento do primeiro filho e uma criança
comer roedores.

Nem 6 preciso ir tão alem da Europa buscar exemplos


deste tipo de diferenciação. O grande número de termos
em Finlandês para variantes de neve, em Ar& para a
conduta do camelo, em InglEs para luz e água, em F m d s
para tipos de pão, todos se apresentam ao tradutor, atk
certo ponto, como um problema de intraduzibilidade. Os
tradutores da Bíblia têm registado as dificuldades adicio- tig. 1 - Comparação feita por Whwf enm uma Ilngua que possui o conceito de
tempo e uma Ifngua que o não possui.
nais que envolvem, por exemplo, o conceito de Trindade
ou o sign cado social das pardbolas nalgumas culturas.
Alkm dos problemas lexicais, há línguas que não &rn tem-
pos verbais ou iun conceito de tempo que corresponda de
alguma maneira aos sistemas de raiz indo-europeia. Para
ilustrar este aspecto serve a cornparaç& feita por Whorf " WHORF, Benjamin Lee - Languag~,Thwrght and fiali@ (Selecied
(que pode n8o ser figvel, mas t citada aqui como exemplo Writlngs)ed. J. B. Canoll. Carnbridge, MM.: Tlie MIT h s s . 1956, p. 213.
ser traduzidas por frases equivalentes na maior parte das
línguas" e o termo democracy 6 internacional.
Quando o tradutor encontra dificuldades deste tipo, le- Atd certo ponto Catford tem razão. As frases inglesas
vanta-se a questão da intraduzibilidade do texto. Catford reproduzidas podem ser traduzidas para a maior parte das
distingue entre dois tipos de intraduzibilidaide: /ingufsíica linguas europeias e o t e m &mcracy 6 internacional-
e cultuml. Ao nível linguístico, a intraduzibilidade ocorre mente utilizado. Porém, Catford não tem em conta dois
quando não existe na LC um substituto léxico ou sint8c- factores importantíssimos, o que é paradigmdtico do pro-
tico para um dado item de uma LP.Assim, por exemplo, a blema que se origina quando se aborda a questão da intra-
expressão alemã Um wieviel Uhr da$ man Sie morgen duzibilidade a partir de uma perspectiva excessivamente
weckn? ou a dinamarquesa Jeg fandr breve1 são linguis- estreita. Se a frase I'm going home for traduzida em Fran-
ticarnente intraduzíveis para Ingles, porque ambas tem c&s por Je vais chez mi,o sentido contido na frase origi-
esiruturas que não existem em Ingles. Contudo. arnbas po- nal (i.e., a afirmação pdo próprio da intenção de se dirigir
dem ser adequadamente traduzidas para Inglês se se apli- para o seu local de residencta dou de origem) apenas 6 va-
carem as regras da estrutura inglesa. gamente reproduzido. E se a frase for enunciada, por
A categoria da intraduzibilidade linguistica, proposta exemplo, por um americano a residir temporariamente em
por Catford e também subscrita por PopoviE, não levanta Londres, a frase pode significar o regresso h wa residên-
problemas, mas a segunda categoria 6 mais problemática. cia temporária em Londres ou a travessia do AtlBntico de
Segundo o prdprío, a intraduzibilidade linguística deve-se regresso h América, dependendo do contexto em que é
a diferenças que existem entre a LP e a LC: por seu lado, usada, e esta distinção taia de ser expliciiada em Francês.
a intraduzibilidade cultural deve-se B ausEncia na cultura Além disso, o temo inglês hom, como o francêsfoyer ou
da LC & um traço situaciona1relevante presente no texto o português lar, rem um leque de sentidos associados que
da LP.Catford recorre ao exemplo dos diferentes contei- não são inteiramente traduzíveis pela frase chez moi, mais
tos do termo bathroom [casa de banho] ao contexto ingles, limitada desse ponto de vista. Parece, portanto, que o
finlandês ou japonês, nos qwis este equipamento e o termo home apresenta exactamente o mesmo tipo de pro-
modo como ele 6 utilizado não são nada semelhantes. Mas bkemas que a casa de banho finlandesa ou japonesa.
Catford também alega que não se podem descrever como A complexidade aumenta ainda mais no caso da tra-
intraduzíveis os itens lexicais mais abstractos tais como o dução do termo democracy.Catford diz que o termo existe
ingles home ou demacracy, argumentando que frases no Ikxico de muitas linguas e, embora o termo seja sus-
como I'm going home ou He 's at home podem "facilmente ceptível de aplicação a várias situaças poIiticas, o con-
texto guiari4 o leitor na selecção dos traços siáuacionais Darbelnet e Vinay, na sua Útil obra Stylistique compa-
apmpnados. O problema é que o leitor dará ao termo um rke du fimçais ct de l'arnglais [Estilística Comparada do
conteiido baseado no seu @pio contexto cultural e apli- Frands e do I n g i t ~ ] malisaram
,~ em pormenor exemplos
cará essa acepção particular. Assim, a diferença entre o ad- de diferenças linguísticas entre as duas iínguas, diferenças
jectivo demucrdtico/a, presente nas seguintes três frases, é que originam zonas onde a tradução 6 impossível. Mais
fundamental para três concepções políticas totalmente di- uma vez, foi PopoviL?quem tentou definir intraduzibiii-
ferentes: dade sem operaruma separação entre o linguísticoe o cul-
tural. PopoviC distingue também dois tipos. O primeiro 'é
O Pariido Dernncdico Americano defrnido como
A República Democráfíca Alemd
A ala democrdtica da Poriido Conservudor Brirãnico Uma situaçGo em que os elementos lin&sticos do origid não
podem ser adequadamente substituídos em temos estruairais. li-
Embora o termo seja internacional. a sua utilização em neares, funcionais ou semânticos em resultado da inexistgncia de
diferentes contextos mostra que jB não hA (se é que algum denotação ou de conotação.
dia houve) concordância geral donde retirar traços situa-
cionais relevantes. Se a cultura for entendida como &na- O segundo tipo transcende o puramente linguistico:
mica, a terminologia da estruturação social também deve
Uma situaçh em que a rel* que exprime um Jgnuicado, i.c. a relnçh
ser dinâmica. Lotmm afirma que o estudo semiótico da
entre o 9entido criativo e a sua cxpres& lingufstica no original, n31o en-
cultura ngo s6 considera a cultura como um sistema de contra uma expressgo linguislica adequada na traduçiio.
signos mas sublinha a ideia & que "a prdpria articulação
da cultum com a signo e com o significadoconstitui uma O primeiro tipo pode considerzir-se paralelo h cate-
das suas cmcterfsticas tipol6gicas b&i~as".~' Catford goria da intmduzibilidade lingulsfica de Catford; neste
parte de premissas diferentes e, não appofundando o bas- segundo tipo cabem frases como Bm uppetit ou a interes-
tante a questão da natureza d i n h i c a da língua e da cul- sante série de fórmulas que o Dinamarqués usa diaria-
tura, invalida a sua pr6pria categoria da infmduzibilidade mente para exprimir agradecimento. A gramática dina-
cultsaml. Na medida em que a língua 6 o sistema modeli- marquesa de Bredsdorí para leitores de lingua inglesa
zante primhio numa cultura, a intraduzibilidade estã, de fornece &talhes esmeradamente elaborados sobre os dife-
facto, necessariamente implícita no prwesso de tradução.
" DARBELNET. J. L. :VINAY, J. P. - S#ylisliquecomparde du m i s
LOTMAN, I.; USPENSKY, 8. A. - Op.cii. er de 1 'mlais,Paris: Widtw. 1958.
rentes contextos de utilização dessas expressões. A expli- cado assumido por baimponnmento na sociedade italiana
cação para a frase Tak for mad, por exemplo, t a seguinte: em geral. o temo não p d e ser inteiramente compreen-
'hão existe nenhum equivalente ingles desta expressão, dido sem algum conhecimento dos hábitos de condução
que é dirigida aos anfitriks pelos hóspsdes ou membros dos italianos, a fkquência com que ocorrem os 'acidentes
da família após uma refeiçao." ligeiros' e o peso e a relevância de tais incidentes. Em
O caso do italiano tanapnamento na frase C'&stato un suma, tnmponamento é um signo que n b pode ser h d u -
samponmnto constitui um exemplo ligeiramente mais zido para InglZs nem mesmo por uma frase explicativa. A
difícil. relação entre o sentido criativo e a sua expressão linguk
Como o Inglês e o Italiano são suficientemente prbxi- tica não pode. portanto, ser adequadamente substituída na
mos para seguirem um padrão de organização sintfictica tradução.
vagamente parecido no que tma a elementos componen- O segundo tipo postulado por PopoviE, tal como a se-
tes e h ordem das palavras, a frase parece perfeitamente gunda categoria de Catford, ilustra as dificuldades em
traduzível. O nível conceptud tamMm i5 traduafvel: co- descrever e definir os limites da traduzibilidade,'mas en-
munica-se num tempo presente um acontecimento ocor- quanto Catford parte de dentro da linguistica, PopoviE
rido num tempo passado. A dificuldade prende-se com a parte de uma posição que envolve uma teoria da comuni-
tradução do substantivo itdiano, que aparece em lingles cação litechia. Boguslav Lawendowski, num artigo em
modificado por um adjectivo, além de requerer ainda in- que faz o ponto da situação relativamente aos estudos de
formação adiciond parentbtica. A versão na lfngua alvo, tradução e à semiótica, defende que Catford "se divorcia
descontada a variaçao sintáctica que existe entre o Italiano da realida~ie",~~ enquanto Georges Mounin a f i m que se
e o lngl&s,d i tem dado demasiada atenção ao problema da intraduzibi-
licia.de em detrimento da resoluqão de alguns dos proble-
mas reais que os tradutores têm de enfrentar.
Mounin reconhece os grandes benefícios que os de-
Dadas as diferenças na utilização dos tempos verbais, senvolvimentos da linguística trouxeram aos Estudos de
a frase na língua de chegada pode assumir uma de duas Tradução. O desenvolvimento da linguística estrutural, os
formas dependendo do contexto original e, dado o tama- contributos & Saussure, de Hjeimslev, do Círculo Lin-
nho da frase nominal, esta também pode ser reduzida se a
natureza do acidente puder ser determinada pela receptor " LAWENDOWSKI. Boguslav P.- On Semiotic Aspacts of Trmlaiion.
In SEBMK. Thamaq (ed.) - Sighi. Smnd und Se~se.Bloornington: Indiana
exteriormente & frase. Mas,quando se considera o signifi- University 1978, p. 264-83.
guístico de Moscovo e do Circulo Linguístico de Praga Como j4 foi sugerido, t claramente uma tarefa do tra-
têm sido de um valor inestimllvel. Chomsky e a hgufstica dutor encontrar uma solu~ãoat4 para o mais intimidante
transfomacional tamMm teve o seu impacto, particular- dos problemas. Essas soiuções p d e m variar muitíssimo;
mente no que respeita ao estudo da sedntica. Mounin de- a decísb do tradutor sobre o que constitui informação in-
fende que 6 graças aos avanços verificados na linguística variante relativamente a um dado sistema & referências 6,
contemporânea que podemos (e devemos) aceitar que; em si, um acto criativo. Levf acentua o elemento intuitivo
1) A experiência pessoal, naquilo que ela tem de iInico, na tradução:
d intraduzivel.
Como todos os processos semitíticvs, tambem a tradução tem a sua
2) Teoricamente, as unidades básicas de qualquer par dimendo pmgtffática. A teoria da bdução tende a ser norrnativa,
de Iinguas (por exemplo, fonemas, monemas, etc.) a instniir as tradutores sobre qual seria a solução ÓPCIMA; con-
nem sempre s80 cornpdveis. tudo, o verdadeiro trabalho tradutivo 6 pragdtim: entre as soIu-
ç8es possfveis, o badutor decide-se por aquela que pmrriete a má-
3) ~*cornunicaçi40io possfvel quando se explicitam as ximo efeito com o mInirno esfo~o.O mesmo t dizer que ele se
situações respectivas do falante e do ouvinte, ou do orienta pela chamada BSTRATÉOIA
autor e do tradutor.

Por outras palavras, Mounin acredita que a linguística dfi-


monstra que a tradução é um processo dialéctico exequí-
vel com relativo sucesso: O objectivo da teoria da tradução é, então, chegar a
um entendimento dos pwessos implicados no acto da
A tradugo pode sempre começar com as situ* mais claras. as tradução e não, como t em geral erroneamente entendido,
mensagens mais concretas, os universais mais elementares. Mas, fornecer um conjunto de normas para realizar a tradução
como ela envolve a consideração de uma língua na sua g l M i -
dade,juntamentecom as suas mensagens mais subjmtivas, através perfeita. Do mesmo m d o , a crítica literhia não procura
da o b m ~ q ã ode situaçües comuns e de uma multiplicação de fornecer um conjunto de instruções para a produção do
contactos que carecem de clarificg80. entáo, M o há dbvida de que poema ou do romance perfeitos. mas antes perceber as es-
a comunicação atravds da eaduç%onunca pode estar completa- truturas internas e externas que operam dentro e ao redor
mente acabada, o que também demonstra que nunca t inteiramente de uma obra de arte literária. Não se pode categorizar a
irnpos~fvel.~
2s - Dic litermran~che
LEV?, Jifl Uberseiwn~.Therrrie rincr Kumtgomg.
Trad. WalIer Schamschula Frankfurt am Main: Aihenaion, 1969.
dimensão pragdtica da tradução, tal como não se pode de- Os Estudos de Tradução encontram-se, portanto, muito
finir ou receitar a 'inspiração' de um texto. A partir da acei- para além das velhas distinçks que procuraram desvalo-
tação deste facto, d possível resolver duas questões que tem rizar o estudo e a prática da tradução recorrendo a distin-
atormentado os Estudos de Tradução: o problema da exis- ções temiinol6gicas como 'científico vs criativo'. A teoria
t&nciaou não de ma 'cikncia da tradução' e o problema de e a pdtica estão indissoluvelmente ligadas e não estão em
se considerar a tradugão uma 'actividade secundária'. conflito. A compreensão dos processos não pode senão
Do que acima ficou dito infere-se que é neste mo- ajudar à produção e, uma vez que o produto & o resultado
mento descabido qualquer debate sobre a existencia de de um complexo sistema de descodificação e recodifica-
uma ciência da tradução.Já existe, com os Estudos de Tra- ção nos níveis semântico, sint8cticoe pragmático, não de-
dução, uma disciplina séria a investigar o processo de h- veria ser avaliado segundo uma interpretação hierárquica
dução, a tentar clarificar a questão da equival8ncia e a desactuaiizada daquilo que constitui a 'criatividade'.
examinar o que nesse processo constitui o sentido. Mas A causa dos Estudos de Tradução bem como da pr6-
não há nenhuma teoria que pretenda ser normativa e, pria traduçgo d sintetizada por Octavio Paz no seu pe-
embora a afirmação de kfevere sabre o objectivo da queno livro sobre tradução. Todos os textos, diz, fazem
disciplina (ver supra, p. 28) sugira que uma teoria com- parte de um sistema literário que procede de outxos siste-
preensiva poderia tamb&mser aproveitada como noma mas e com eles se relaciona, sendo, por isso, 'traduções de
de pmcedimento para produzir traduções. ela está muito traduç&s de traduções':
longe de sugerir que o prop6sito de uma teoria da trddu-
ção seja o de ser normativa. Qualquer tcxto d único e 6,ao mesmo tempo, a traduçm de outro
A partir do momento em que se aceite o cardcter prag- texto. Nenhum texto É inteiramente original, porque a pr6pria lín-
gua, na sua essência.j6 4 uma tradução: primeiramente. do mundo
mhtico da tradução e a partir do momento em que seja de- não-verbal c, em segundo lugar. porque cada signo e cada fiase é
lineada a reIação entre autor, tradutor e leitor, pode repu- a tradução de outro signo e de outra frase. &te argumento pode,
diar-se o mito da tradução como actividade secunddria p & m . ser revertido sem perder nenhuma da sua validade todos
com todas as subjacentes associaçtCões de baixo estatuto. OK textos são originais, porque Ldas as W g õ e s são diferentes.

Um diagrama da comunicação que se estabelece no pro- Até certo ponto. todas as tniduçbes são uma invençáo e, enquanto
tal, únicas.%
cesso da tradução mostra que o tradutor acumula as fun-
ções de receptor e emissor, 4 o fim e o princípio de duas
correntes de comunicação, separadas mas interligadas:
" PAZ. Qctavio- Trudwcidn:lirrrriium g lircralidud. Baratloni: Tusquets
- -
Autor Talo Receptor = Tradutor - Tcxiri - Rmephr Editor, 1971, p. 9.
História da tradução literária

Nenhuma introdução aos Estudos de Traduçh ficaria


completa sem uma perspectiva hist6rica da disciplina, mas
se um Sinico livro seria insuficiente para tão vasto em-
preendimento, um único capítulo 6-0 ainda mais. O tempo
e o espaço disponíveis apenas permitem observar de que
modo algumas I i n h de abordagem A tradução foram
emergindo em diferentes períodos da cultura europeia e
americana e de que modo têm variado o papel e a função
da tradução. Assim, por exemplo, a distinção entre a tm-
duçiio literal e a tmduçc?odo sentido, que data do sistema
romano, tem continuado, de uma maneira ou de outra, a
ser alvo de debate at6 ao presente, enquanto a relação en-
tre a tradução e o nacionalismo emergente explica o signi-
ficado de diferentes conceitos de cultura. A perseguição
aos tradutores da Biblia durante os séculos em que os es-
col8sticos traduziam e retraduziam avidamente os clltssi-
cos gregos e romanos constitui um elo importante na ca-
deia do desenvolvimento do capitalismo e no declinio do
feudalismo. Do mesmo modo, a abordagem hermenêutica
posta em prática pelos grandes tradutores romanticos in- estrutural e da teoria da comunicação ao estudo da tra-
gleses e alemães articula-se com a alteração da concepçZio duçfio. O quarto período, que coexiste com o terceiro,
do papel do indivíduo no contexto social. Nunca é de mais tem origem nos anos sessenta e caracteriza-se por "um
frisar que o estudo da tradução, sobretudo na vertente regresso h indagação hemenbtica. quase metaflsica, so-
diacrdnica, constitui uma parte vital da histbria literhia bre a traduçgo e a interpretação", em suma, por uma vi-
e cultural. são da tradução que coloca a disciplina num amplo qua-
dro de referência que inclui um grande número de outras
disciplinas:
PROBLEMAS DE PERIODIZAÇÃO
A fiIoIogia cl%ssicae a literatura comparada, a lexicomeha e a
Em After Babei George Steiner divide a escrita sobre etooda, a ardise sociol6gica do discurso. a wt6rica formal, a
&ticli e o esiudo da gramiticii, todas se combinam para dilucidar
a teuria, a pratica e a histdria da tradução em quatro perio- o acto da tradução e o processo da 'vida entre ai. linguas'.
dos. O primeiro estende-se, segundo ele, das declarações
de Cícero e de Horkio sobre a tradução A publicação, em
As divisões de Steiner, embra interessantes e lúcidas,
1791, da obra Essrmy on the Principies of Translation,de
ilustram, no entanto, a dificuldade de estudar diacronica-
Alexandre Fiaser Tytler. A característica fundamental deste
mente a tradução, pois o seu primeiro período cobre cerca
perícdo 6 a 'focalização empírica imediata', i. e., as afir-
de mil e setecentos anos, enquanto os dois iiltimos se re-
mações e as teorias sobre a tradução brotam diretamente
duzem a uns escassos rrinta anos. Os seus comentários so-
da prãtica da traduçgo. De acordo com Steiner, o segundo
bre os recentes avanços da disciplina siio muito acertados,
período, que se estende até à publicação, em 1946, de
mas não deixa de ser verdade que a principal característica
Sous I'invocarion de Suini Jkrome, de Larbaud, caracte-
do seu primeiro período também se verifica hoje em dia
riza-se por ser um período de indagação te6ricri e herme-
no conjunto de obras que têm origem nas observaçks e
nêutica e pelo desenvolvimento de uma terminologia e de
polémicas levantadas pelos tradutores. A sua divisão qua-
uma metodologia próprias para a abordagem da tradução.
dripartida é, no mínimo, altamente idiossincrAsica, mas
O terceiro período comqa com a publicação dos primei-
consegue evitar um grande perigo: a pridizaçb ou
ros escritos sobre tradução automdtica nos anos quarenta
compartimenhçãoda história literária É virtualmente im-
do século XX e caracteriza-se pela aplicação da linguistica
possivel dividir peridos por datas, porque, como afirma
Lotman. a cultura humana é um sistema dinlmico. As ten-
1 STEINER. George -AJcr &kl.bndm OxTnrd Univcrsity Pres, 1975.
p. 236 ns. tativas para situar estádios de desenvolvimento dentro de
limites temporais estritos contradizem esse dinamismo. lernon Holland).~oroutro lado, a metodologia aplicada
Um exemplo magnífico do tipo de dificuldades associadas por Timothy Webb no seu estudo sobre Shelley enquanto
à 'abordagem pela periodização' é o que se prende com a tradutor5 envolve uma wãiise atenta da produção de um
definição dos limites temporais do Renascimento. H& tradutor em relação com o resto da sua obra e com os con-
ainda um amplo leque de obras de referência a tentar de- ceitos contemporâneos do papel e do estatuto da tradução.
cidir se Petrarca e Chaucer foram escritores medievais ou 0 s estudos deste género, que não estão submetidos a no-
renascentistas, ou se Rabelais era um espírito medieval ções rígidas de período. mas procuram investigar sistema-
post hoc, ou se Dante foi um génio renascentista com dois ticamente as alterações do conceito de tradução, tendo em
sCculos de avanço. Uma investigação da tradução nestes consideração o sistema de signos que integra uma dada
termos não seria mesmo nada proveitosa. cultura, são preciosos para o estudante de Estudos de Tra-
Contudo, h&certos conceitos de tradução que prevale- dução. Este 65, de facto, um campo muito fértil para a fu-
cem em diferentes épocas e que podem ser documentados. tura investigaçãio. No entanto, esses estudos de tradutores
T. R. Steiner2 analisa a teoria da tradução, em lingua e traduções do passado têm-se concentrado mais na ques-
inglesa, entre 1650 e 1800, começando por Sir John tão da irfluência, no efeito do produto na lingua de che-
Denham e acabando em William Cowper, e dá conta da gada sobre um dado contexto cultural, do que nos proces-
predominância do conceito setecentista do tradutor como sos envolvidos na criação desse prcduto e sobre a teoria
pintor ou imitador. André Lefevere3 compilou um con- subjacente i criação. Assim, por exemplo, apesar de algu-
junto de afirmaç6es e documentos sobre tradução onde é mas apreciaqfies críticas sobre o significado da tradução
detectado o estabelecimento de uma tradição alemã de tra- no desenvolvimento do dnone literário romano, perma-
dução que começa em Lutero e termina em Rozenzweig, nece por fazer um estudo sistemático em lingua inglesa da
passando por Gottsched e Goethe, pelos irmãos Schlegel e teoria romana da tradução. As a1egac;ões contidas na de-
Schleiermacher. Uma abordagem menos sistemática, mas claração de Matthiesson segundo a qual "um estudo das
ainda balizada por uma referência temporal peculiar, a traduções isabelinas é um estudo dos veículos pelos q u i s
anlilise de F. O. Matthiesson a quatro proeminentes tradu- ri Renascimento entrou em Inglaterra" náo são escoradas

tores ingleses do século XVI (Hoby, North, Florio e Phi- por nenhuma investigação cientifica das mesmas.

-I MATMIESSON. F. O. - Trnttslurion.Ati Eliuibrfhntr Arr. Cambridge,


STEINER. 7'. R. - EqliFh Tr~in.~laliuiz
Thtar): 1650-18#. Assen; Amr- Mass.: Hnrvard Univeruity Press. 1931. Aa ciiqóes seguintes dc North e Hol-
terdam: Van Gorcurn. 1975. tand sgo tiradas deste tcxio.
' LEFEVERE. Andrf - Trairrlaring Liirruiure: TI)@Gerftu~n;FwIiii<in. WEBB, Timuay - Thu Iiidri in the Crurible. London: Oxford Univer-
h r n Lurhrr IU Rnsm,"iv~ig.Asxn; Amsierdam: Van Gorciim. 1977- sity Pirss, 1976.
Ao tentar estabelecer algumas linhas de abordagem h rimtios entendem a tradução dentro do contexto alagado
tradução, ao longo de um período que se estende desde das duas funções principais do poeta: o dever humano uni-
Cfcm até ao presente, k preferível seguir uma estrutura versd de adquirir e disseminar a sabedoria, e a arte espe-
cronológica flexível, sem proceder a divis6es claramente cial de fazer e dar forma ao poema.
delimitadas. Por isso. em vez de tentar incluir generalida- A importância da tradução na literatura romana tem
des sobre o conceito de tradução especificamente 'renas- sido frequentemente utiiizada para acusar os romanos de
centista' ou 'clAssico', tentei seguir tinhas de abordagem serem incapazes de criar uma literatura imaginativa pr6-
que podem, ou nW, ser facilmente Iocalizdveis num con- pria, pelo menos atd ao *do I a. C. A imaginação cria-
texto temporal. Assim, as concepções de 'tradução literal' tiva dos gregos tem sido redçada e comparada ao espírito
e 'tradução do sentido' reaparecem aqui e ali com diferen- mais prático dos romanos e a exaltação romana dos mo-
tes graus de tnfase em consonância com diferentes con- delos gregos tem sido tomada como prova da sua falta de
ceitos de língua e de comunicação. O objectivo de um ca- originalidade. Contudo, o juizo de valor subjacente a este
pítulo como este deve ser o de levantar questões ao invés tipo de generalizações est8 errado. Os romanos percepcio-
de Ihes fornecer as respostas, e revelar áreas susceptíveis navam-se como a continuação dos seus modelos gregos e
de futura pesquisa em vez de pretender ser uma hist6tia os críticos literários m o s discutiam os textos gregos
definitiva. sem que a língua em que eram escritos constituisse um
factor de inibição, O sistema IiteMa romano estabelece
uma hierarquia de textos e autores que transcende as fron-
OS ROMANOS teiras linguísticase que reflecte o ideal romano de Estado,
hier8t.quicci e centralizado, mas com preocupações sociais,
Eric Jacobsen ahma, de uma forma algo radical, que baseado na verdadeira lei da Razão. Cícero afirma que a
a tradução 6 uma invenção romana.Apesar do seu c d c - mente domina o corpo como um rei governa os seus súb-
ter hiperbdlico, a afirmaçZío pode servir de ponto de par- ditos ou um pai controla os seus filhos, mas adverte que.
tida para tecermos algumas considerações sobre o papel e onde a Razão for dona e senhora absoluta, ela "oprime e
o estatuto de que gozava a tradução entre os romanos. As esmaga"? No que respeita h tradução. o ideal seria que o
posições de Cícero e Horhcio sobre a traduç8o tiveram texto original existisse para ser imitado e não para ser es-
grande influgncia em gerações sucessivas de tradutores e magado pela aplicação demasiado rígida da Razão.Cícero

' -
CfCERO Righi and Wrong. In h l n Uiemure. ed. NI. Grant. Har-
rnondswonh: Penguin Books. 1978. p. 42-3.
exprime assim esta distinção: "Se traduzo palavra por pa- ciladas que espreitam o 'tradutor escravo', aconselhava
lavra, o resultado soará estranho, e se levado peh necessi- tamMm um recurso comedido it criação de novas palavras.
dade altero algo na ordem e nas palavras, pareceh que me Horhcio comparava a cunhagem de novas palavras e o de-
afastei da função de tradutor." Nas suas observações so- clhio de outras i mudança das folhas na Primavera e no
bre a tradução, quer Hodcio quer Cfcero estatielecemuma Outono, vendo este processo de enriquecimento através da
importante distinção entre tmdu~üoliteral e tmúuçüo do traduçh como natural e desejhvel, desde que o escritor
sentida. O principio subjacente de enriquecer a lhgua e a praticasse a moderação. Assim, para HorAcio e Cícero, a
literatura nativas atravks da traduçh fez w m que a ênfase arte do tradutor consistia numa interpretação ponderada
fosse colocada nos critérios estéticos do produto na língua do texto fonte para produzir uma versão na língua de che-
de chegada e não nas noções mais @das de 'fidelidade'. ga& baseada no princípio non verbum de verbo, sed sen-
Horkio, na sua Arte Puktica, adverte contra a initaçao s i m arprimre de sensu (exprimirnão palavra por palavra,
excessivamente cautelosa do mcdelo de partida: mas sentido por sentido) &miando que a sua responsabi-
lidade era para com os leitores da língua de chegada.
Um tema coahecida p d c ser apropriado desde que não se perca O conceito romano de tradução como fonte de enri-
tempo com um tratamento vulgar do mesmo; também náo &e o quecimento tem ainda uma outra dimensão, i. e., a prima-
txadutor comportar-se oomo um escravo e verter palavra por pala- zia do grego como língua & cultura e a capacidade dos ro-
vra. nem, ao imitar outro escritor, deve mwgulhar em dificuldades manos letrados para lerem os textos na língua wiginai.
das quais, por vergonha ou exigencia pr6pria, dificilmente wnw-
Tomando em conta estes factores, alma-se a posiçgo quer
guirá libertw-se?
do tradutor quer do leitor. O leitor romano, & um m d o
geral, era capaz de considerar a tradução como um meta-
Se o enriquecimenta do sistema iiterário faz parte inte-
texto do original. O texto traduzido era lido através do
grante da concepção romana de tradução, não O de todo
texto fonte, o que não acontece com um leitor monolingue
surpreendente encontrar nela tambkm uma preocupação que apenas tem acesso ao texto fonte atrav6s da sua tradu-
com o enriquecimentoda lingua. Era tão corrente o hãbito ção. Para os tradutores romanos a tarefa de transferir um
de decalcar ou cunhar palavras que Hodcio, ao mesmo texto de uma língua para outra pode ser entendida como
tempo que prevenia o futuro escritor para que evitasse as um exercício de estilística comparada, uma vez que não
lhes mexigido 'dar a conhecer' nem a forma nem o con-
-
C~CERO De optimo p n e r e omtonun. Lncb Clwical Library. Trad. de terido per se, e consequentemente não tinham de se sujei-
H.M.Hubbell. London: Heinemann, 1959.
H O R ~ I O- On ihe AH of PoeIry. In Clas6icd Lifenrry Criiicism. Har- tar h esmtura do original. P d m , o bom tradutor, ciente
mondswonh: Penguin Books, 1965, p. 77-97. de que o leitor conhecia o original, ficava condicionado
por esse conhecimento. pois qualquer avaiiação do seu piciou aos tradutores uma missão que abarcava critérios
trabalho basear-se-ia na utilização criativa que fazia do tanto estkticos como doutrinários. A histbria da tradução
seu modelo. No seu Tratado da Sublime,'O Longinus men- da Biblizt representa, consequentemente, um microcosmos
ciona "a imitação e a emulação dos grandes historiadores da histdria da cultura ocidental. O Novo Testamento co-
e poetas do passado" como uma das formas de atingir o meçou a ser traduzido muito cedo e a célebre e contro-
sublime, e a tradução é uma forma de imitação no con- versa versão de São Jerhirno, que teve muita influência
ceito romano de produçiío litedria. em gerqões sucessivas de tradutores, foi encomendada
A tradução romana 6 talvez um caso ímpar, por decor- pelo Papa Dâmaqo em 384 d. C. Na senda de Cícero, São
rer de uma concepção de produção litedria que segue um Jerónimo declarou haver traduzido o sentido pelo sentido
cânone de excelência que transcende fronteiras linguísti- e não a palavra pela palavra, mas o problema da tdnue
cas. Alkm disso, não se pode esquecer que, com o darga- fronteira entre o que constituía liberdade estilistica e o que
mento do Império Romano,o bilinguismo e o trilinguisma constituía interpretação herética haveria de permanecer
se tomaram cada vez mais comuns, aumentando o abismo como pedra de tropeço durante séculos.
entre o Latim falado e o Latim literfio. As ditas 'liberda- A traduqão da Bíblia continuou a ser uma questão cen-
des' dos tradutores romanos, muito citadas nos s~culos tral pelo stculo XVII adentro, tendo-se os problemas avo-
X W e XViTi, devem ser entendidas no contexto de um lumdo com o desenvolvimentodo canceito de cultura na-
sistema global que inclui essa concepção de tradução. cional e com o aparecimento da Reforma. A tradução
passou a ser usada como m a nos conflitos, quer dogm4-
ticos quer políticos, ã medida que os Estados nacionais co-
meçaram a emergir e a centralização da Tgreja começou a
enfraquecer, o que. em termos linguisticos, se evidenciou
Com a expansão do Cristianismo, a h-aduçãoadquiriu pelo declínio do Latim como língua universal."
um novo papel: o de espalhar a palavra de Deus. Uma re- l1 H6 um va~to conjunto de bibliografia wbrc a histdria da kwiuçâo da Bf-
ligião tão baseada num texto como é o Cristianismo pro- blia. A obra dc Eugene Nido, %wr& a Science of Trun.vlafing (Leidex E.J .
Brill, 1964) inclui uma extensa lista biblio&fica. Hd o u t m obras em Inglêsque
tiizem Úteis inidu$@esao tcma: BRUCE, F. F. - The Etigfi.rIi BIBle, A Hisloy
-
'" LONGINUS Es-M?On lhe S~ihtiinr.In Cla~sirulLirernty Cri~irisn:. nf Tru~fblations (London: Luttcnvorth Press, 1 % 1): PAIVRImE. A. C. - h-
H m n d s w m h : Penguin Books. 1965. p. 99- 156.(Em Português. foi publicada #lish Biblicul Tro~lurion(bndon: André Deutxh, 1973); SCHW A W W . -
em 1984 uma iraduçao do dculo XVIII com trxm aciualizado. Cf. OLIVEIRA, PrincipIe~a d PmMems rj Eliblical Tmn~lniion:S[JII~S R e j ~ n w ~ i i oC
t in i i t m r -
Cust6dio José de - Tmrado do Sublime de Diotilsio Longinn. Intduçrio e ec- xie.~md thtir h c k ~ m u n d( h ò r i d g t : Cambridge Univasity Press, 1955);
tuatizaç8o do rexto por Maria h n o t Cmalhão Buescu. Lisboa: Imprensa Na- ROBINSON. H. Wheeler (ed.) - Thr Bibh i11 its Ancient atd English Vemions
cional - Casn da M d n . 1984). 1N.T.l (Oxford:nPe Clareodon Rem. 1640).
A primeira tradução integral da Biblia para o Inglês foi 2) a comparação das versões;
produzida por Wycliffe entre 1380 e 1384 e marcou o ini- 3) o aconselhamenta junto de '%velhos gramAticos e
cio de um @do pródigo em traduções da Blblia para o velhos teólogos" sobre palavras difíceis e sentidos
Inglês, associado LL mudança de atitude, própria da movi- complexos; e
mento da Reforma entgo em formação, face ao papel do 4) o traduzir o mais ctararnente possivel a 'frase' (i, e.,
texto escrito no âmbito da igreja. John Wycliffe (c. 1330- o sentido), senda a tradução revista por um gmpo
-84), o notável teólogo de Oxford, avançou a teoria do de colaboradores.
'domínio da graça', segundo a qual o homem se reprirta
directamente a Deus e h lei de Deus (que Wycliffe enten- A função política da tradução - tornar acessível o texto
dia como sendo não a lei canonica, mas os ensinarnentos integral da Bíblia - determinou m a definição de priori-
da Bíblia). Se a teoria de Wycliffe pressupunha que a Bi- dades por parte dos tradutores: no PrefAcio,Purvey afirma
blia se aplicava a toda a vida humana, consequentemente claramente que o tradutor deve traduzir 'a partir da frase'
todos deveriam ter acesso a esse texto fundamental numa (sentido) e não apenas a partir das palavras, "para que n
língua que todos pudessem entender, i. e., em vernaculo. frase seja t8o cima ou esclarecedora em Ingl&scomo em
As opiniões de Wycliffe, que atraíram um circulo de se- Latim e não se afaste da letra". O que se pretendia era uma
guidores, foram atacadas como heréticas e ele e o seu versão inteligível, idiomática: um texto que pudesse ser
grupo foram denunciados como lolardos*,mas a obra que utilizado por um leigo. O dcance da sua importaacia pode
ele iniciou continuou a florescer depois da sua morte e o medir-se pelo facto de terem sido feitas 150 c6pias da ver-
seu discípulo John Purvey reviu a primeira edic;ão algurn são revista de Rirvey mesmo depois da projrbiqão, em Ju-
tempo antes de 1408 (ano do primeiro manuscrito datado). lho de 1408, sob pena de excornunhTio, da circulação de
A segunda Bíblia wycliftiteana contem um Prólogo traduções sem a aprovação dos conselhos diocesanos ou
geral, composto entre 1395 e 1396, e o décimo quinto ca- provinciais. A lamenhçâo de Knyghton, o Cronista, de
pitulo do Prólogo descreve os quatro estádios do processo que "a pérola do Evangelho B deitada fora e esmagada pe-
de tradução: los pés dos porcos" foi cemmente contrariada pelo inte-
resse generalizado nas versões wyclifiteanas.
I ) um esforço de colaboraqão para reunir velhas Bí-
Na século XVI a história da tradução da Bhlia adqui-
blias e comentários para estabelecer I> audntico riu novas dimensões com o advento da imprensa. A seguir
texto fonte latino:
h versks wycliffrteanas a grande tradução inglesa foi a
Grupo heetico do dçulu XIV consiitufdo pelos seguidores de Valter Loi- do Novo Testamento,da autoria de W~lliamTyndale (1494-
lard que proclamava a inutilidade dos sacramentm. a indivisihilidade da Igreja - 1536) e impressa em 1525. A sua prodarnada intenção, ao
e a indcpendtnciado p v o em relaçio aos reis e em relmo ao papa. [N.T.]
traduzir, era também a de oferecer u m a versão o mais William Zndale, fazendo-se eco de Erasmo, atacou a
clara possivel aos leigos e, quando morreu na fogueira em hipocrisia das autoridades eclesiãsticas que pmibiam os
1536, já havia traduzido o Novo Testamento a partir do leigos de lerem a Biblia nas suas línguas nativas a bem das
Grego e partes do Antigo Testamento a partir do Hebraico. suas almas, mas aceitavam o uso do vernáculo em "hist6-
O sBculo XVI testemunhou a tradução da Bfblia para rias e f~buiasde amor, libertinagem e devassidão tão s6r-
um grande niirnero de iínguas ewopeias,quer na versão pro- didas quanto se possa imaginar, para corromperem as
testante quer na versão catblica romana. Em 1482, o Penta- mentes dos jovens".
teuco havia sido impresso em Bolonha e a Biblia hebraica A história da traduqão biblica no s k u b XVI est8 inti-
integral apareceu em 1488; Erasmo, o grande humanista
mamente ligada ao aparecimento do Protestantismo na
holandês, publicou o primeiro Movo Testamento Grego
Europa. A queima pública do Novo Testamento, traduzido
em 1516. em Basileia. Esta versão viria a servir & base A
iradução alemã de Martinfio Lutem, em 1522. Apareceram por Tyndale em 1526, seguiu-se uma rdpida sucessão de
traduções dinamarquesas do Novo Testamento em 1529 e vers&s da Biblia: a de Coverdale ( 15351, a Grande Bíblia
de novo em 1550; em sueco, entre 1526 e 1541, e a Bíblia (1539) e a Biblia de Genebra, em 1560. A Biblia de Co-
checa apareceu entre 1579 e 1593. Continuaram a apare- verdale também foi banida, mas já não havia como lutar
cer traduções e versões revistas de traduções jB feitas em contra a maré da tradução da Bíblia, valendo-se cada nova
inglês, Holandês, Alemão e Francês. Erasmo resumiu bem versão do trabalho de tradutores anteriores, apropriando,
o espírito evangelizador da traduç%oda Bíblia ao afirmar: emendando. revendo e corrigindo.
Não seria decerto incorra numa generaii+o absurda
Desejaria que todas as mulheres lessem os evangelhos e as epis-
sugerir que os objectivos dos tradutores quinhentistas da
tolas de São Paulo e queria, por Deus, que fossem traduzidos para
as línguas de todos os homens para que assim pudessem ser lidos Biblia podem ser distribuídos por €rêscategorias:
e crinhwidos, não s6 pelos Escoceses e Irlandeses. mas tarnMm
i ) Esclarecer erros encontrados em versões anteriores
...
pelos Turcos e w Sarracenos. Queria, por Deus, que o lavrador
devido a manuscritos deficientes na língua fonte ou
entoasse um texto das escrituras ao vara[ da seu arado. E que o te-
celão, mimada ao seu tear, com eles vencesse. o M i o do tempo. h incompeencia linguistica.
E que o caminhante com eles aliviasse u cansaço da jornada. Em
suma, queria que tida a comunicaç%oentre cristáos se fizesse pe- 2) Produzir um estilo vedculo acessível e estetica-
las escrituras, pois, de certo modo, n6s somos aquilo que siio as mente satisfaf6rio.
faIas do nosso quotidian~.'~
3) Esclarecer questões dogmzlticas e reduzir o cankter
de metatexto com que as escrituras eram interpreta-
l2 ERASMO - Novum I m f ~ r m e ~ t u Basle:
m. Fmben, 15 16 (Tiad.Inglesa
de W.Tyndale, em 1 529), das e reapresentadas aos leigos.
Na sua Carta Circular Sobre a Tmdução, de 1530, pressão e oferecer aos leitores um texto de confiança. No
Martinho Lutero coloca de tal forma a Wase na segunda Prefácio a Bíblia do Rei Jaime, de 1611, intitulado "Dos
categoria que usa os verbos uberseizen (traduzir} e ver- Tradutores ao Leitor". pergunta-se: "Será que o reino de
deutschen f germanizar) quase indiscriminadamente. Lu- Deus feito de palavras ou de sfiabas?" A tarefa do tradu-
tem também aponta para a importância da relação entre o tor não era apenas linguistica, mas também doutrinária,
estilo e o sentido: "A gramática serve para a declinaçgo, a por direito prdprio, pois o tradutor da Biblia do século
conjugação e a construção de frases, mas no discurso de- XVL (frequentemente anbnimo) era um líder radical na
vem considerar-se o sentido e o assunto, não a grarnhtica, luta pela aceleração do progresso espiritual do homem.O
porque a gramática não deve sobrepor-se ao sentido." l3 fen6meno da colaboração na tradução da Bíblia represen-
Embora vdorizassem a fluidez e a inteligibilidade do tou ainda outra faceta significativa dessa luta.
texto traduzido como critérios importantes, os tradutores
renascentistas da Bíbiia preocuparamse também com a
O PAPEL EDUCATIVO DA B~BLIAE O VERNÁCULO
transrnissh de uma mensagem literalmente precisa. Numa
Bpoca em que a escolha de um pronome @a significar a
O papel educativo da tradução das Escrituras vem de
diferença entre a vida e a condenação 3 morte por heresia
muito antes dos séculos XV e XVI, e os primeiros co-
a precisão assumia uma importância centrd. Ainda assim,
mentários em vernáculo inseridos nos manuscritos latinos
e porque a traduçiío da Bíblia foi um elemento constitutivo
constituíram uma preciosa fonte de informação sobre o
da valorizaçãocrescente do estatuto das iínguas v d c u l a s ,
desenvolvimento das línguas europeias. No que respeita
a questão do estilo continuava a ser vital. Lutem acon-
ao Inglês, por exemplo, os Evangelhos Lindisfme (trans-
selhava os futuros tradutores a recorrerem aos provbrbios critos c. 700 d. C.) continham, no século X, inserida nas
e expressks vernãculas, quando ajustados ao Novo Testa- entrelinhas, uma traduqão literal do original latino no dia-
mento; por outras palavras, aconselhava a juntar h riqueza lecto de Northumbria. Estas glosas subordinavam critérios
de imagens do texto fonte as potencialidades da tradição de excelência estilística ao método literal, cabendo con-
vernkula. E, uma vez que a Bíblia é, por si s6. um texto tudo na designação de traduções por envolverem um pro-
que cada leitor individual tem de reinterpretarquando o lê, cesso de transferência interlinguística. Porém, o sistema
as sucessivas traduções tentam atenuar as diirvidas de ex- das glosas constituis apenas um dos aspectos da tradução
nos séculos que testemunharam a emergência de diferen-
l3 LüTERO, Martiuim - Tablc Talks, 1532. Ambas as citações, & Emmo
tes linguas europeias na fornia escrita. No dculo IX, o rei
c Lufero, foram exmfdaã de Bubel, I X (I), 1970. um númtm especial conria-
g& t r d u ç b de textos ielígiosos. Alfredo (no seu reinado de 871 a 8991, que havia tradu-
zido (ou mandado traduzir)um conjunto de textos latinos, O conceito de tradução como exercício de escrita e
declarou que o objectivo dessas traduções em ajudar o como meio de desenvolver o estilo omt6rio era uma im-
povo inglk a recuperar dos efeitos devastadores das inva- portante componente do sistema educativo medieval ba-
sões dinamarquesas, que tinham & s m d o os antigos seado no estudo das Sete Artes Liberais. Este sistema, na
centros de ensino monásticos, desmoralizado e dividido o forma em que foi legado por teoriradores romanos como
reino. No Frefgcio h sua traduçiio da Cum Pmtoralis (um Quintiliano (século I d. C.), cuja Institutio Oraforia foi um
manual para párocos), Alfreda apela a uma renovação texto seminal, estabelecia duas áreas de estudo: o Triviurn
do ensino atraves de um acesso mais alargado aos tex- (grmitica, retbrica e dialéctica) e o QicaLilriviutn (aritmd-
tos por meio da sua tradução para as línguas vernáculas, tica, geometria, música e astronomia), formando o Tri-
reclamando ao mesmo tempo para a língua inglesa o esta- vium a base do conhecimento í1los6fico.~~
tuto de língua liter&ria por direito próprio. Ao referir-se h Quintiliano acentuou a utilidade da paráfrase como
forma como os romanos traduziram textos para seu pr6- meio de ajudar o estudante quer na anáiise d a estruturas
prio beneficio, como fizeram "todas as outras nações cris- quer na aplicação prática de formas de ornamentação e de
tãs", AlFredo afhrna: "parece-me preferível, se concorda- síntese. A p 6 a s e é, então, receirada como parte de um
rem. que iarnMm traduzamos alguns dos livros que todos conjunto de exercicios em dois estádios distintos: a pará-
os homens devem ler p m a língua que todos entende- frase inicial b t a m e n t e colada ao texto, e um segundo
mos".14 Ao traduzir a Cura Pastoralis, Alfredo aiega ter estádio, mais complexo, em que o escritor acrescenta algo
traduzido o texto hwilum word be wo&, hwilurn andgiet do seu estilo pessoal. Quintiliano defende estes exercicios
of nndgiete (umas vezes palavra por palavra, outras vezes a par da traduç30 e, na verdade, as duas actividades não
sentido por sentido), o que se revela um facto deveras in- são claramente diferenciadas uma vez que arnbas tEm o
teressante, pois pressupõe que a função do produto final 6 mesmo fim em vista: o desenvolvimento da ciência ora-
que determinava o processo & tradução e não qualquer tória. Quintilíano recomenda a tradução do Grego para o
norma de procedimento pd-estabelecida. A tradução era Latim, como variante da paráfrase dos textos originais
entendida como tendo um papel moral e didáctico a de- latinos, para ampliar e desenvolver o poder imaginativo
sempenhar, com uma clara componente politica, muito do estudante.
distante do papel estritamente instrumental no estudo da
ret6rica. que tamMm lhe era cometido na mesma dpoca. l5 Cf. JACOBSEM,E. - Op. cit. para mair detalhes sobre o papel das Ira-
d u w no sistema medieval de mino em ret6rica. Ver tarnbem CURTJUS, E. -
'+ALiTEm - Prefácio a PUSIOM~Cure de Greg6rio. In BROOK, G.L. - European Liiemiure a& lhe h t i n Middle Ages. hndon: Routiedge & Kegan
Paul. 1953.
An Intmdrucrion to Old W l i t h . Manchester: Mancharter Univwsiiy Press, 1955.
A defesa da tradução como exercício estilistico, por de Folena não é nova: Roger Bacon (c. 1214-92) estava
parte de Quintiliano, pressupunha obviamente a tradução bem ciente das diferenças entre traduzir para o Latim a
de originais gregos para Latim e o Latim foi a Ihgua do partir de línguas antigas e traduzk textos contemporâneos
sistema educativo em toda a Europa durante séculos. Po- para vernáculo; o mesmo acontecin com Dante (1265-
rém,o aparecimento de literaturas nas línguas vemkulas -132 l), e ambos se referem a tradução quando falam dos
a partir do século X conduziu a nova mudança no papel da critérios morais e estéticos das obras de arte e das obras de
tradução. Alfredo tinha exaltado a sua importhcia como conhecimento geral. Bacon, por exempIo, debate o pro-
meio de fomentar a comunicação e, na sua perspectiva, ela bIema da perda em tradução e da sua contrapartida, a cu-
envolvia a criação de um texto veniáculn. Como em toda nhagem, tal como Horácio havia feito séculos antes. Por
a Europa começaram a aparecer literaturas com pouca ou seu lado, Dante centra-se mais na importância da acessi-
nenhuma tradição escrita própria que pudesse alimentá- bilidade que a tradução proporciona. Ambos partilham, no
-las, as obras produzidas noutros contextos culturais eram entanto, a ideia de que a tradução é muito mais do que um
traduzidas, adaptadas e absorvidas em grande escala. A exercício de estilistica comparada.
tradição adquiriu uma dimensão adicional quando os es- A distinção entre tradução horizonral e tradução verti-
critores puseram o seu talento ao serviço da tradução cal & útil, porque mostra como a traduqão podia ser asso-
como meio de elevar o prestígio da sua própria língua ver- ciada a dois sistemas literários coexistentes, mas distintos.
n8cula. Assim, o modelo romano de enriquecimento pela São no entanto muitas, e diferentes, as linhas de desenvol-
tradução tomou uma nova forma. vimento existentes na tradução literária at&ao princípio do
No seu 6til artigo sobre divulgação e tradução, Gian- skulo XV, e a distinção apresentada por FoIena apenas
franca Folena sugere que a traduçgo medieval pode ser faz luz sobre uma pequena área. E enquanto a abordagem
descrita como vertical, referindo-se ã tradução para ver- vertical se divide em dois tipos diferentes - a glosa inter-
nãculo a partir de uma língua fonte de especial prestígio e linear ou tradução literal, oposta au método ciceroniano da
valor (por exemplo, o Latim) ou horizonrul, aquela em que tradução do sentido, elaborado no conceito de paráfrase de
ambas as línguas, a de partida e a de chegada, têm um va- Quintiliano - a abordagem horizontal envolve questões
lor similar (por exemplo, do Provençal para o Italiano, do complexas como a da imitatio e a do emprestimo. O ele-
Normando-Francês para o I n g l ê ~ ) .Porém,
'~ esta distinção vado estatuto da imiiutio no dnone medieval significava
que a originalidade não era muito premiada e o talento de
' O FOLENA, Gianfranca - "'Volgarizzare'e 'iradum': idea e terminologia

detla tnduzione de1 Medio Evo italiano e romanm all'urnan~sirnoeuropeu". In um autor consistia em tratar de maneira diferente ideias e
Ln Tríidu~icineS a g ~ri Studi. Tricste: Edixioni LINT, 1973, p. 57- 120. temas estabelecidos. Raramente é clara e discemível a li-
nha de fronteira entre a situação em que autor se con- a l h da Europa, iam sendo construídos relógios e insh-
siderava tradutor de outro texto e aquela em que um autor mentos cada vez mais sof1sticdos para medir o tempo e o
fazia uso de material traduzido, plagiado de outros textos. espaço. os quais, juntamente com a teoria coperniciana do
No conjunto da obra de um Único escritor, como Chaucer universo, afectareun os conceitos de cultura e sociedade e
(C. 1340-1400) por exemplo, encontra-se um leque de tex- alteraram radicalmente as perspectivas.
tos que inclui traduçks reconhecidas, adaptaçdes livres, Um dos primeiros escritores a formular uma teoria da
empréstimos propositados, reescritas e correspondências tradução foi o humanista franc&sEtienne Dolet (1509-
muito prdximas. E, muito embora alguns teorizadores, - 1546), julgado e executado por heresia por 'traduzir mal'
como Dante e João de Trevisa (1326-14 12), levantem a um dos Diálogos de Platão, num sentido que implicava
questão da ayaciridão em tradução, essa noção depende da descrença na imortalidade. Em 1540, Dolet publicou um
capacidade do tradutor para ler e compreender o original e pequeno esboço de princípios de tradução intitulado Lu
maniire de bien rmduire d'une iangue era autre [A ma-
não assenta na subordinaçfio do tradutor a esse texto na
neira de bem traduzir de uma lingua para outra] e estabe-
língua fonte. A tradução, seja a vertical seja a horizontal,
leceu cinco princípios para o tradutor:
C vista como uma tkcnica, inextricavelmente ligada a mo-
dos de leitura e interpretação do texto original, que 6 em 1) O tradutor deve entender completamente o sentido
si mesmo uma fonte de material que o escritor pode usar e o significado expressos pelo autor original, em-
da forma que melhor entender. bora tenha toda a liberdade para clarificar os aspec-
tos mais obscuros.
2) O tradutor deve ter um conhecimento perfeito tanto
da língua de partida como da língua de chegada.
3) O tradutor deve evitar as traduções à letra.
A seguir à invenção da imprensa no século XV,o pa-
pel da tradução sofreu significativas mudanças, o que não 4) 0 tradutor deve usar uma linguagem de utilização
deixou de ficar a dever-se ao grande aumento do volume corrente.
das traduções produzidas. Ao mesmo tempo, foram feitas 5) 0 tradutor deve escolher e ordenar as palavras de
também algumas tentativas de formular;50 de uma teoria forma apropriada à produção do tom comto.
da tradução, A função da tradução mudou, tal como mu-
dou a função do próprio ensino. A medida que as grandes Os princípios assim preconizados e hierarquizados por
viagens dos descobrimentos rasgavam os horizontes para Dolet acentuam a importância da comprsensdo do texto de
partida como requisito fundamental. O tradutor é muito que se julgava possível que o 'espirito' ou o'tom' do ori-
mais do que um Unguista competente e a tradução envolve ginal fosse recriado noutro contexto cultural. O tradutor
uma aproximação ao texto de partida com conhecimento procura, então, operar urna 'transmigração' do texto ori-
de causa e com sensibilidade, bem como a percepção do ginal. que ele aborda ao duplo nível técnico e metafísico,
lugar que a tradução pretende ocupar no sistema da língua equiparand&se ao autor, com deveres e responsabilida-
de chegada. des para com o autor original e para com o leitor.
George Chapman ( 1559- 16341, o grande tradutor de
Homero, corroborou as ideias de Dolet. Na dedicatória da
sua obra Seven Books (1598), Chapman declara que:I7 O RENASCIMENTO

O trabalho de um tradutor talentos0 e digno consisie em observar Ao falar de Dolet no seu estudo sobre os grandes tra-
as frases, figuras e formas do discuno propostas pelri autor, o seu d u t o r ~franceses, Edrnond Cary acentua a imprtftncia da
verdadeiro sentido e elevação, e adrimk-Ias com figuras c formiis tradução no século XVI:
de rethriça. ajustadas ao original, na lingua para a qual traduz: se-
ria para niim motivo de contentamento ter atingido tais qualidades
A beimlha da t r a d ~ ã omanteve-se acesa durante kda a épaca de
nas minhas obras.
Dolet. Afinal, a Reforma foi sobretudo uma disputa entre traduto-
res. A tradução tomou-se um assunto de Estrsdo e um assunro de
Chapman elabora um pouco mais a sua teoria na Epiriola Religião. A Sorbonne e o rei Btavam igualmente preocupados
ao Leilor da sua tradução de A Ilíada. Na Epistola, Chap- com ela. k e t a s e prosadores debatwam a questão: a o h &fense
man afirma que um tradutor deve: a Illustmiwn de la h g u e Fmçaise. de Joacfiirn du Bellay, or-
ganiza-se h volta de problemas relacionados com a traduçã~.'~
1) Evitar traduções h letra.
2) Tentar atingir o 'espírito' do original. Num ambiente assim, em que a vida de um tradutor de-
3) Evitar perdas excessivas, apoiando-se numa sólida pendia do modo como traduzisse uma frase, não t de ad-
investigação de outras versões e glosas. mirar que as fronteiras do conflito fossem traçadas com
muita veemgncia. O tom agressivamente afimativo &
A doutrina platónica sobre a inspiração divina da Epístola de Chapman ou do panfleto de Dolet está pre-
poesia ~ambémse repercutiu claramente no tradutor, pois
I* CARY, ü. - Lrs CranJs Tmdi*.reius Fmnçais. Genbe: Librairie de
I' SHEPHERD. R. Heme (ed.) - Chup~nun'sHomer. London: Chartu I'Univcrsiit, 1963, p. 7-8. Este livro contém um facdmile da panfleto 1540 ori-
ginal de Dokt. ia nmniPre de bien t h i m d'une iungue en autrc.
& Windus, 1875.
sente na obra e nas af'irmqh de grande número de tra- ticular, e a única tradução fiel possível consiste em dar-lhe
dutores da epoca. Uma importante característica do pe- uma função similar no sistema cultural de chegada. Por
riodo (que se reflecte também no niimero de traduções da exemplo, Wyatt pega no célebre soneto de ktrarca sobre
Biblia que actualizavam a linguagem das versões anterio- os acontecimentos de 1348 relativos h mom do cardeal
res sem necessariamente fazerem grandes mudanças na Giovanni Colonna e de Laura que comqa:
interpretação) 6 a dumação do presente atravh do uso da
linguagem e do estilo contemprâneos. O estudo de Ma- Roita k I'alia colonna e'l verde lauro
Che faoem ombra al mio stanco p~osero; (CCLXN)
thiesson sobre os tradutores isribelinos apresenta uma sé-
(Quebrou-se a alta coluna (Collona) e o verde louro (Laura)
rie de exemplos que atestam o modo como se manifesta a Qw cobriam com a sua sombra o meu cansado pensamento.)
af~rmaçãodo indivíduo no seu tempo. Nota, por exemplo,
a frequente substituição do discurso indirecto pelo dis- e transforma-o em :
cwso directo na traduçb de Plutarco realizada por North
(1 5791, um artifício que confere imediatismo e vitalidade ao The pillar penshed is whearto 1lent;
texto, e cita exemplos em que North usa uma vigorosa h- The strongest staye of myne unquiet myade:
guagem contemporhea. Assim, na versão de No&, diz-se (Pereceu o pilar sobre o qual eu
Apoiava o meu inquieto espírito:)
que Pompeu "lançou realmente todas as achas na fogueira
para conseguir ser escolhido como ditador" (V, p. 30-1) e
6bvio que Wyatt usa aqui o processo de haduqão para
que M n i o decidiu que o corpo & Cdsar deveria ser fazer algo mais do que traduzir h letra os versos de Pe-
"honradamente enterrado e n8o h socapa" (VI, p. 200). trarca ou recapturar a qualidade elegiaca do original. A
Na poesia, os ajustamentos feitos no texto original por tradução de Wyatt enfatiza o 'Eu' e tambdm a força e o
tão eminentes tradutores como Wyatt (1503-42) e Surrey apoio do que se perdeu. Tenha ou não validade a teoria
(c. I517-47) levaram alguns cficos a descreverem por que defende ter sido este soneto escrito em comemora-
vezes as suas traduções como 'adaptações', mas essa dis- çgo da queda d e Cromwe!l, em 1540,b inequívoco que
tinção pode induzir em erro. Uma anáiise das traduções de o tradutor optou por uma voz que garante impacto ime-
Petrarca realizadas por Wyatt, por exemplo, revela uma fi- diato nos leitores contemporâneos. por ser uma voz do
delidade n%ohs palavras em si mesmas nem h estruturas seu tempo.
frásicas, mas a uma ideia do significado do poema na sua A actudizaçáo dos textos ahavés da Iradugão, por meio
relação com os seus leitores. Por outras palavras, o poema de acrdscimos, omissiks ou alterações propositadas, 6 cla-
é entendido como um artefacto de um sistema cultural par- ramente visível na obra de Philemon Holland ( 1552- 16371,
.
o 'tradutor-mor' Ao traduzir Tito Livio,Holland declarou tradições em vias de separação sob a pressáo do nacionalismoe do
conflito religim.'9
que o seu objectivo em garantir que Tito Lívio "oferecesse
o seu pensamento em Inglês, se não com o mesmo grau
& eloquência, pelo menos tão sinceramente quanto em A tradução não foi, de modo nenhum, uma actividade
Latim" e alegou não ter usado "nenhuma frase afectada, secundária; foi antes uma actividade primária, exercendo
mas... um estilo parco e popular". Foi a procura desse es- um poder modelador da vida intelectual da época e, por
tilo que o levou a introduzir alteraç&s tais como utilizar a vezes, a figura do tradutor parece quase mais a do activista
teminoIogia do seu tempo para certas palavras-chave ro- revolucionário do que a do servo de um autor ou texto
manas. Assim, por exemplo, p a t m er plebs devem Lords original.
ou Nobles and Commons; comitium k traduzido por cum-
mon hall, High court, Parliiawnt; praetor torna-se h r d
Chiefe Justice ou Lord Govemour uf tke City. Outras ve
o S ~ C U L OXVII
zes, tentando clarificar passagens e referências obscuras,
Em meados do skculo XVII os efeitos da Contra-Re-
insere frases explicativas e, acima de tudo, denuncia o seu
forma, o conflito entre a monarquia absoluta e o emer-
convicto nacionalismo. No Prefdio ao Leitor da sua tra-
gente sistema parlamentar, e o alargamento do fosso entre
dução de Plínio, HoUand ataca aqueles críticos que pro- o tradicional Humanismo Cristão e a ciencia, todos con-
testam contra a vulgarização dos clássicos latinos e co- duziram a modificações radicais na teoria da literatura e,
menta que eles "não honram a pdtria e a língua materna logo. no papel da tradufão. As tentativas de Descartes
como deviam", caso conthio ansiariam por "triunfar so- ( 1 596- 1650) para formular um método de raciacinia indu-
bre os Romanos subjugando a sua literatura sob a ponta da ti vo reflectiram-se na preocupação das críticos Iiterkios
pena inglesa'' como vingança pela conquista romana da para esiabelecer regras de produqão estética. Na tentativa
Bretanhn consumada no passado pela espada. de encontrar modelos, os escritores viraram-se para os
Na Europa renascentista a tradução desempenhou um mestres da antiguidade, vendo na imitação um meio de
papel de importância central. Como d'ma George Steiner: instrução. Em Fransa, a tradução dos clássicos aumentou
consideravelmenie entre 1625 e 1660, a grande bpoca do
Num tempo de inovqão explosiva, e entre uma ameaça real de ex- cliissicismo francês e do florescimento do teatro francês
cessos e desordem. a traduçiio absorveu, formou e orientou os ele-
mentos bhicos essenciais. Foi, no verdadeiro sentido do termo, a
baseado nas unidades de Aristdteles. Por sua vez, os escri-
matéria-prima da imaginação. Além disso, estabelweu uma Mgim
de relação entre passado e presente, e enb.e diferentes línguas e " STEINEK. George - Op. cií., p. 247.
tores e teorizadores franceses foram entusiasticamente ira- Abraharn Cowley (16 18-67) vai mais longe e no seu
duaidos para Inglês. 'Prefkio' b Odes Piriddricas (1656) ousa afirmar que "ti-
A Enfase nas regras e nos modelos na Inglaterra deste rou, deixou de fora e acrescentou o que quis" nas suas tra-
perlodo não significava, porem, que a arte fosse enten- duções, com o intuito de dar a conhecer ao leitor não tanto
dida como mera capacidade de imitação. Arte significava o que o autor original disse precisamente, mas antes " oseu
ordem, ao estilo elegante e harmonioso da Natureza, o ta- modo e forma de dizer". Cowley defende o seu modo de
lento inato que transcendia qualquer definição e, contudo, traduzir, repudiando os críticos que (como Dryden) o clas-
definia a forma acabada. Sir John Denham (1615-69), sificam como 'imitação'; e T.R. Steiner afirma que o pre-
cuja teoria da tradução - expressa no seu poema ''To Sir facio de Cowley foi tomado como o manifesto dos "tradu-
Richard Fanshawe upon his Translation of Pastor Fido" tores libertinos dos finais do século XVII".
(1648) e no Prefácio h sua tradução de The Destruction No seu importante Prefacio as Cartas de Ovidio (1680),
uf Troy (1656) (ver infm) - contempla quer o aspecto for- John Dryden (1631- 1700) tentou resolver os problemas da
mal (Arte) quer o espírito (Natureza) da obra, desaconse- tradução, formulando trgs tipos básicos:
lha o tradutor de poesia a recorrer ao metodo da traduq5lo
literal: I) Metdfrase, que seria verter um autor paiavra por pa-
lavra, ou verso por verso, de uma iíngua para outra;
Pois não E sua tarefa mduzir Lfngm para Llngua, mas Poesia
para Poesia; e iPoesia é de um espírito tão subtil que, ao verter- 2) Paráfrase, ou íraâução em sentido lato; o conceito
-se de uma Lingua para outra, tudo se evaporar& e se um novo es- ciceroniano de tradução do sentido;
pfrito não entrar na transfusão, não restará mais do que um Capur
3) Imitação, em que o tradutor pode abandonar o texto
rn~mum.~
original quando entender.
Denham defende um conceito de tradução que vê o Destes três tipos, Dryden elege o segundo como o
tradutor e o autor original como iguais, operando em con- mais equilibrado, desde que o tradutor respeite certos cri-
textos sociais e temporais claramente diferenciados. Para
tbrios: para traduzir poesia, o tradutor tem de ser poeta,
Denham, o tradutor tem o dever de extrair do texto de
deve dominar as duas línguas e entender quer as caracte-
partida aquilo que considera ser o núcleo essencial da obra
rísticas quer o 'espírito' do autor original, ddm de se ajus-
e reproduzir ou recriar a obra na língua de chegada.
tar aos cSnones estbticos da sua época. Dryden recurre à
metáfora do tradutor-pintor de retratos, que tantas vezes
As c i t e r i de Sir John Dcnham, Abraham Cowley e lohn üryden %%o
retiradas de tcrtos mirnpressof;na obra citada de T. R.Steiner. haveria de reaparecer no século XVIII, dizendo que o pin-
tor tem O dever de fazer com que o seu retrato se pareça
com o original.
Na sua Dedication of the Aeneis (1 697),Dryden afirma Subjacente ao conceito de tradução defendido por
ter enveredado pelo caminho que ele próprio tragou e ter Dryden e Pope encontra-se outro elemento que transcende
seguido "entre os dois extremos da paráfrase t da tradução a questão do debate enbe excesso de fidelidade e iiber-
literal", mas, seguindo os modelos franceses, actualiza a dade excessiva, que é a questão do &ver moral do tradu-
lingua do texto original: "Fiz os possiveis para @r Virgi- tor para com o seu leitor contemprânm. O impulso para
lio a falar um ingl&sque o próprio tivesse falado se tivesse clarificar e tornar acessivel a essência de um texto condu-
nascido em Inglaterra na Qoca presente". Vejamos um ziu a um elevado número de reformulações de textos anti-
exemplo de Vifiio vertido por Dryden, os primeiros ver- gos para os adequar aos padrões contemporâneos de lin-
sos do discurso de Dido descrevendo os seus sentimentos guagem e de gosto. Daf a célebre reestnituraçãodos textos
para com Eneias na linguagem decoma de uma heroína de Skakespeare e as tsuçãedadaptações de Racine. Na
contemporânea: sua obra L$e uf Pope (1779-SO), Johnson (1709-84), ao
debater a questão dos acréscimos a um texto aíravds da
My dearest Anna! What new dreams affright
tradu@o, comenta que isso & certamente desejável se o
My labourhg soul! What visions of the oight
Disturb my quiet, and disiract my breast texto ganhar em elegância e nada ihe for retirado. Afirma
With sb-ange i d t a s of wr Trojan g ~ t s t . ~ ~ ainda que "o objectivo de um escritor 6 ser lido", alegando
que Pope escreveu para o seu tempo e para o seu povo.
As ideias de Dryden sobre tradução foram seguidas de O direito do indivíduo a ser o destinatário de uma men-
perto por Alexander Pope (1688- 1744), que defende a sagem na sua própria lingua e no seu pr6prio ambiente
mesma via interrnédia, acentuando uma leitura atenta do cultural 6 um elemento importante do conceito setecen-
original para detectar as rninúcias do estilo e da forma e tista de tradução e está ligado ã mudança do conceito de
manter aceso o 'fogo' do poema. 'original idade'.
Para exemplificaro modo particular como Pope verteu
Homero, compare-se a sua traduçgo do seguinte passo -
um episódio do Livm 22 de A Iliada - com a versão de
Chaprnan. A Andrómaca & Pope sofre e desespera ao
DRYDEN, J. - Thr Aeneid, IV.bndon: Oxford Univerãity Press, 1961. passo que a de Chaprnan surge como uma guerreira por di-
p. 212. reito próprio. Chaprnan utiliza v e h s directos. o que con-
fere h cena quaiidade dramA.tica; por outro lado, as estru- significativas $ medida que se alteraram tmMm os mo-
turas latinizantes que Pope utiliza reforçam a agonia da dos de codificar e descrever os processos da criação lite-
expectativa, conduzindo, em crescendo, ao momento em rária. Goethe (1749-1832) defendia que toda e qualquer li-
que o horror se torna visível. E mesmo esse horror é apre- teratura deve passar par três fases de tradução, embora,
sentado de modo bastante diferente - em Pope, o 'Heitor sendo essas fases recorrentes, possa acontecer que ocor-
divinizado' contrasta com a descrição mais longa da de- ram todas ao mesmo tempo num determinadosistema lin-
gradação do herói que Chapman nos guisiico. A primeira dpoca "familiariza-noscom os paises
estrangeiros nos nossos próprios termos". Goethe cita a
She spoh; and furious, with distrackd Pace, Biblia alemã de Lutero como exemplo desta tendencia. O
Fears in her Heart m d Anguish in hcr Face, segundo modo G o da apropriação atravhs da substituição
Files through the Dome, (the mtiids her steps pursue) e da reprodução, em que o tradutor absorve o sentido da
And rnoums the walls, and sends a m n d hw view. obra esirangeira, mas o reproduz nos seus pr6prios termos
Too soon her Eyes the killing Object found.
The god-like Hecror dragg'd almg the ground.
e, neste caso, Goethe cita Wieland e a tradição francesa
A sudden Darkness shades her swimming Eyes: (uma tradição muito depreciada pelos imrizadores ale-
She friints, she fdls; h r Breath, her mlour fies. (Pope) mães). O terceiro modo, que considera o mais elevado, 6
o que procura uma perfeita identidade entre o texto na lin-
Thus fury-like she went, gua de partida e o texto na língua de chegada: atingir esse
%O women, aç she will'd, at hand; and made hcr quick ascent objectivo implica a criação de um novo'modo', fundindo
Up to the tower and p m s of men. her spirit in uproar. Round aquilo que toma Único o original com uma forma e estru-
She cast her greedy eye. and saw hw Hwmr slain, and bound
TAchilles chariot, manlessly dragg'd to the Grecian fleet.
tura novas. Goethe cita a obra de Voss, que traduziu Ho-
BIack night s t m k thmugh her, under her trance tmk away her fect. mem, como exemplo do tradutor que atingiu este tão
(ChapmW apreciado terceiro nível. Goethe postula um novo conceito
de 'originalidade' em tradução a par da existência de es-
O conceito, vigente no século XVIII, do tradutor como truturas profundas universais que o tradutor deve empe-
pintor ou imitador com um dever moral quer para com o nhar-se em descobrir. O problema desta abordagem 6 que
autor original quer para com o leitor da tradução estava ela se aproxima perigosamente de uma teoria da íntradu-
bastante gerieraiizado, mas sofreu uma shrie de alterações zibilidade.
Mais perto do fimdo sbculo XVIII, em 179 I, Alexan-
WPE, A. - Ths Iliad of Homer, td. Muyard Mack. tondon: Methwn, der F m m Tytler publicou um volume intitulado The Prin-
1467. Chapmai:'s Homer. op cii. cipies of Tmnshion, o primeiro estudo sistedtico, em
Ungua inglesa, sobre os processos de tradução.u Tytler es- o espirito inerente torna-se myis difícil de determinar
tabeleceu ir& princípios básicos: medida que gradualmente os escritores se viraram para o
1) A tradução deve fazer uma transcrição completa da debate acerca das temias da Imaginação, longe da anterior
ideia da obra original. ênfase no papeI moral do artista e daquilo que Coleridge
descreveu como a "cópia dolorosa"cujo resultado seriam
2) 0 estilo e o modo da escrita devem ser do mesmo apenas ''dscaras, não formas respirando vida"."
c k t e r dos do original.
3) A tradução deve ter toda a naturalidade da compo-
sição original. O ROMANTISMO

Qtler reage contra a influencia de Dryden, alegando Na sua importante obra de referência sobre o Roman-
que o conceito de 'paráfrase' levou a traduções exagera- tismo europeu, ta romantisme dans ia litiirature eum-
damente livres, embora reconheça que parte do dever do p4enne (19481, Paul van Tieghern descreve o movimento
tradutor consiste em clarificar as ambiguidades do origi- como "uma crise da consciência e ~ p e i a "Embora
.~ a
nal mesmo quando isso acarreta omissão ou adição. TyBer crise se anuncie muito antes, no skulo XVIII,o alcance
recorre h comparqão setecentista do tradutor/pintor, mas da reacção contra o raciondismo e a harmonia formal (os
com uma diferença: o tradutor não pode usar as mesmas ideais neo-ciássicos) comqou a desenhar-se com nitidez
cores do original, devendo, nãio obstante, imprimir ao seu na liltima década desse século em conjunção com as ondas
retrato "a mesma força e o mesmo efeito". O tiadutordeve de choque, cada vez mais amplas, que se seguiram h
esforçar-se para ‘adaptar a pr6pria alma do seu autor, que RevoluçBo Francesa de 1789. A rejeição do racionalismo
deve falar através dos seus 6rgãos". reforçou a função vital da imaginação e a mundividência
Então,de W d e n a Tytier, a a r i a da traduç30 v- individualista do poeta como um ideal a um tempa meta-
cupou-se com o problema de recriar o espírito, a alma ou fisico e revolucionário. A afiimiação do individualismo
a natureza essenciais da obra de arte. Porkm, a dicotomia, trouxe a n ~ ã de o liberdade criadora tornando o poeta
antes assumida sem dificuldade, entre a estrutura f m d e num criador quase místico, cuja função era fazer a poesia
A obra de w e r surgiu logo depois da publíeaçb. em 1789, de T h Isiiur
Gospls. de Cmpbell, da qual o volume I conihn um estudo sobre a " -
MEMDGE. S. T. 'Yhi Poeay and A#. Biogmphia Litemria, n.
teoria e it hist6ria das uaduçks das Escrituras. A obra de Tytier apcirece com um Oitford:Clwndwi heas, 1907.
dtil artigo iotmdutório da autoria I J. F. Huntsman na vol. 13-de Amterdam n VEGHEM, Paul van - Le Romnnristne h s la liirdmiicm errmp6eiure.
Clmsics in Uiigui~tics.Amstcrdam: John Bmjnjsmins. B. V.,1978. Paris :Albin Michel. 1948.
que recriaria o universo de novo, como defendia Shelley O ideal de um grandioso espinto modelador que trans-
em f i e Defense vf h e s y (1 820). cende o mundo contingente e recria o universo conduziu a
As distinções de Goethe entre tipos de tradução e es- uma reavaliação do papel do poeta ao longo dos tempos e
tádios numa hierarquia de avaliação estetica apontam para i premência de descubrir grandes indivíduos do passado
uma mudança de atitude relativamente 21 traduçk, resul- que tivessem partilhado a mesma noção de criatividade.
tante de uma reavaliaçh do papel da poesia e da criativi- A ideia de que, em todas as épocas, os escritores se teriam
dade. Em Inglaterra, Coleridge (1772-1834) esboçava em envolvido no processo de repetir o que Blak designou por
Bivgruphiu Literaria (1817) a sua teoria da distinção en- "o Corpo Divino em Cada Homem" resuItou num vasto
tre Fantasia e ImaginaçGo, afirrneuido que a Imaginação 6 número de tcaduções, tais como as traduç&s de Shake-
a força orgãnica e criativa suprema, comparada com o me- speare (1797-1833) de Schlegel e Tieck, as versões de
canismo sem vida da Fantasia Esta teoria apresenta afini- Schlegel e de Cary da Divim C o m d i a (1805-14) e a
dades com a teoria da oposição entre a forma mecânica vasta corrente multidireccional de traduções de obras crí-
e a forma orgânica, concebida pelo teorizador e tradutor ticas e literhias contemporâneas em todas as línguas eu-
alemão August Wilhelm Schlegel (1 767-1845) na sua ropeias. Na verdade, nesta é p a foram traduzidos tantos
obm Vorlesungcn uber dramatische Kmst und Liremtur textos com um efeito seminal na h g u a de chegada (como
(1 809), traduzida para Inglês em 1813. Quer a teoria in- aconteceu com os autores alemães em IngIes e vice-versa,
glesa quer a alem%levantam a questão de como definir a com Scott e Byron em Francês e Italiano, etc.) que os c&
tradução: actividade mecbica ou actividade criadora? No ticos fim tido dificuldade em distinguir entre estudos so-
debate romântico sobre a natureza da tradução 6 visível a bre a influência e estudos sobre a tradução propriamente
atitude ambígua de um grande ncimero de escritores e tra- dita. A M a s e no impacto & tradução na cultwa de che-
dutores. A. W. Schlegel defendia que todos os actos de gada operou de facto uma mudança de interesses, que se
fala e de escrita são actos de tradução, porque é da natu- afastaram dos processos da tradução. Aldm disso, no prin-
reza da comunicação descodificar e interpretar as mensa- cípio do século XIX podem deteminar-se duas tengncias
gens recebidas, e sublinhava ainda que a forma do origi- em conflito. Uma exalta a tradução como categoria do
nal deveria manter-se (por exemplo, ele próprio manteve pensamento, sendo o tradutor considerado, por direito, um
nas suas traduções a terza r i m de Dante). Entretanto, génio criador em contado com o &nio do original e enri-
Friedrich Schlegel(1772-1829) concebia a tradução wmo quecendo a língua e n literatura para as quais imduz. A ou-
uma categoria do pensamento t não corno uma actividade tra encara a tradução em termos da função mais mecânica
ligada apenas h Ifngua e h literatura. de 'tornar conhecido' um texto ou um autor.
A preeminência da Imaginação oposta h Fantasia con- O pressuposto de que o sentido se encontra por detrás e
duz implicitamente ao pressuposto de que a tradução tem nos intmtícios da língua criou um impasse ao tradutor.
de ser inspirada por uma força criadora superior para ser Eram apenas duas as saidas para esta difícil situaçw
mais do que urna actividade do quotidiano destituída do
espinto modelador original, o que levanta um outro pro- 1) A utilização da tradução literal, concentrando-se na
blema: o problema do sentido. Se a poesia for entendida lingua imediata da mensagem; ou
como uma entidade distinta da língua, como t que pode 2) A utilização de uma lingua artificiat derivada da
ser traduzida se não se partir do princípio de que o tradu- iíngua do texto orighal, por meio da qual as erno-
tor 6 capaz de ler entre as palavras do original e, portanto, ç h especiais do original pudessem ser transmitidas
d capaz de reproduzir o texto-pordetrhs-do-texto,aquilo a amvb da sensação de estranheza por da provocada,
que Mallarme chamaria mais tarde o texto do silêncio e
dos espaços?
No seu estudo sobre Shelley e a tradução, Timothy
Webb mosm como a ambiguidade do papel do tradutor se
reflecte na própria escrita do peta. Tendo como fonses as Friedrich Schleiemacher (1768-1834) prop6s a cria-
obras de Sheiley e a do seu bibgrafo, Medwin, Webb de- ção de um sub-sistema linguístico próprio para ser utili-
monstra que Sheiiey encarava a tradução como uma acti- zado apenas na literatura traduzida; por seu lado, Dante
vidade menor, como "uma forma de preencher os intersti- Gabriel Rosseui (1828-82) defendeu a subserviência do
cios da inspiração", e afirma que, aparentemente, Shelley tradutor às formas e h língua do original. As duas propos-
oscilava entre a tradução & obras aâmjradas pelas suas tas representam tentativas de lidar com as dificuldades que
ideias e a tradução de obras admiradas pelas suas virtudes SheiIey tão expressivamente descreve em The Defense of
literárias. Esta oscilação é signficativa. pois, em certo sen- Poesy, quando adverte:
tido, segue a hierarquia da tradução postulada por Goethe
iiio insensato fundir uma viokta no cadinho B procura do prin-
e põe a descoberto a problema que a tradução colocou no cipio formal da sua cor e do seu cheiro como tentar transfundir
estabelecimento de uma estética romhtica. Mais impor- noutra lingua as criapões de um poeta. A planta tem & brotar de
tante ainda, com a retirada do interesse pelos processos novo da semente, ou não dará flor - e este 4 o peso da rnddieode
formais da tradução, a noção de intraduzibilidade levaria Babe1.M
a uma Enfase exagerada na precis8o técnica e ao conse-
quente pedantismo das traduçks dos finais do século XIX. -*b SHELLEY. Percy By sshe - me Defetice o/ h e s y . [o Complete
V. bndon: Emeut Bem, 1965, p. 109-43.
A teoria de Schleiermacher de uma língua pr6pria para cientemente arcaicas, pejadas de peculiaridades linguís-
a tradução foi apoiada por diversos tradutores ingleses do ticas, a ponto de se brnarem difíceis de ler, chegando
século XIX, como F. W. Newman, Carlyle e Williarn Morris. mesmo a ser obscuras, Não se fazem concessões ao leitor,
Newman declarou que o tradutor deve manter, sempre que de quem se espera que se depare com a obra tal como eIa
possível, todas as peculiaridades do original, 'kuidando de 6, enfrentando, atravds da estranheza do texto traduzido, a
o deixar o mais estrangeiro po~sível".~'A função da pecu- "escrangeirem*'da sociedade que originalmente produziu
liaridade 6 explicada por G.A. Simcox na recensáo h tra- o texto. A estranheza do estiio de Morris pode ver-se no
dução realizada por Morris de The Stow of tke Vo1sun.g~ seguinte trecho, tirado do Livro VI da Eneida:
and Niblungs (1870) onde declara que "o estranho Inglês
arcaico da tradução com a dose certa de sabor estrangeiro" What God,O Paiinure, did snatch thw so away
muito contribuiu para "disfarçar as discreplncias e as im- From us thy friends and drown thee dead Amidst lhe wateq way?
perfeiçks do ~riginal".?~ Speak out! For Seer Apollo, found rio guilefui pmphet mt,
By this one answer in my sou1a Iying hope harh nursed:
William Moms (1834-96) traduziu um elevado n6-
Who sang of thee safe from the deep and gaining field and fold
mero de textos, incluindo as sagas escandinavas, a Odis- Of fair Ausonia: suchwise he his plighted word doth h ~ l d ! ~
seia de Homero. a Eneida de Vergílio, os romances fran-
ceses medievais, etc., e granjeou um considerável aplauso
da critica. Sobre a sua tradução da Odisseia, Oscar Wilde
escreveu que se tratava de "uma verdadeira obra de arte,
uma transferência não apenas de língua para língua, mas A necessidade de transportar através do tempo e do
de poesia para poesia". Apontou, porém. que "o novo es- espaço o carácter remoto do original é uma preocupa-
pirito acrescentado na transfusão" era mais escandinavo ção recorrente dos tradutores vi torianos. Thomas Carly le
do que grego e esta opiniiio ilustra bem as expectativas ( 1 795- 1 88 1 ), que, nas suas traduçks do Alemão, utilizou
que um leitor do século XIX tinha relativamente a uma
elaboradas estruturas dessa língua, louvou a profusão das
tradução. As traduções de Morris são deliberada e cons- traduções alemãs, argumentando que os alemães estuda-
vam as outras nações "interpretando o seu espírito, o que
NEWMAN, F, W. - Wliinrrir Truiisluiicin ir1 T h ~ r i drid
q Prircrii.u, 186 I.
In E~stiysI?\.Murliriv Aniokl. Londrin: Oxi'onl Univcrsity hesr;. I 9 14, p. 3 13-77.
merece mais frequente imitaçào", a fim de se poder par-
?A SIMCOX. G.A. - recriix50 in Ar*<irlrinr.11. Agosto 1890. p. 278-9. Esta ticipar de "todo e qualquer valor ou beleza" que outra
ciiaçfio hcm como o comcnliria dc Oscar Wildc Fornrn iinidui; de FAULKNER,
P. (ed.) - Willirrin M1irri.i. Tlir Cririr-01Herirti~r.I.nndon: Rnutlcdge & Kegm
Paul. 1973. " MORRIS. W . - Tlrc Arririr1 V . Borinii: Roberi Bros.. 1876. p. 146.
e, portanto, estavam lançadas as fundações para uma no-
nação tenha DO mesmo modo, no Prefácio ção & tradução enquanto interesse de uma minoria.
hs suas traduções dos Primeiros Poetas Italianos ( 1 86 1), Na sua primeira lição On Traa~htingHomer. Mathew
Dante Gabriel Rossetti (1828-82) declarou que "Verdadei-
Amold (1822-68) aconselha o leitor comum a confiar nos
mente, o Único motivo para transferir poesia para outra
intelectuais, pois s6 eles podem ajuizar se uma tradução
lingua deve ser o de dotar outra nação, na medida do pos-
produz aproximadamente o efeito do origind, e oferece
sivel, de mais um domlnio de &leza",3' observando, no
aos futuros tradutora os seguintes conselhos:
entanto, que os originais eram frequentemente obscuros e
imperfeitos. Que o tradutor na0 connfi, então. na sua ideia do que os antigos
O que ressalta deste conceito de tradução partilhado gregos teriam pensado dele, pois perder-se-6 na iodefinição.
por Schleiamacher, Carlyle e os Pré-rafaelitasé, portanto, Que n%oconfie no que o leitor inglês comum pensa dele, pois
um interessante paradoxo. Por um lado, hA um imenso res- deixar-se4 conduzir por um cego. Que não confie na sua prb-
peito pelo original, tocando quase as raias da veneração, pria apreciaçso do seu trabaiho, pois pode ser levado ao engano
mas esse respeito baseia-se na garantia de qualidade de por caprichos pessoais. Que indague qual a reacção que o seu
trabalho provoca naqueles que sabem grego e também apreciam
cada escritor. Por outras palavras, o tradutor convida o lei- a poesia."
tor intelectual, culto, a partilhar o que ele julga ser uma
experiencia enriquecedom, seja em termos morais ou es- De acordo com Arnold, o tradutor deve centrar-se
téticos. Alem disso, o texto original entendido como pra- principalmente no texto original e deve servir esse texto
piedade,como um objecto dotado de beleza a ser adicio- com inteiro empenhamento. O leitor do texto traduzido
nado a uma colecç$ío, sem nenhuma concessão ao gosto serA levado ao texto original pela via da traduqão - uma
ou hs expectativas da vida da época. Por outro lado, ao posição oposta Aquela que é expressa por Erasmo quando
produzirem conscientemente traduçks arcaicas destina- debate a questão da n e c e s s ~ acessibilidade
a ao texto ori-
das a serem lidas por uma minoria, os tradutores rejeitam
ginal. Com o endurecimento das tendências nacionalistas
implicitamente o ideal da literacia universal. O leicor inte-
e o crescimento do orgulho na cultura nacional, os tradu-
lectual representava uma minoria muito pequena'Qo p6-
tores franceses, ingleses ou alemães, por exemplo, deixa-
blico leitor em crescente expansão ao longo desse século ram de entender a tradução como um meio privilegiado de
enriquecer a sua própria cultura. A concepção elitista de
-
CARLYLE. l I o m & ~ The Srate qfGemmn Littrature. I n Criiical arnd
Miscellanwus Essays. L o h n : Chapman & I-iail, 1905, Vol. l,p. 55.
ROSSFLTI, Diuiie Oabriel - Prefácio As suas traduçlks dos Primeiros j= ARNOLD, Mathew - On Trnnslatinp Hornrr. LiçHo I. I n Essavs by

Potras Italianos, in Awms und ThnsI#ianS 1850-1870. h & O x f d Uni- Maihew Arnold. op. cit.. p. 247.
versiiy ~ S S 1968.
. p. 175-9.
cultura e de educação incorporada nesta atitude contri- a rima é um mero ornamento, a borda floral da sebe, e é
buiu, ironicamente, para a desvalorização da tradução. distinta da vida ou da verdade do poema. O aadutor é. re-
Pois se a traduçiío era entendida wmo um instrumento, legado para a posição de tknico, nem poeta nem comen-
como um meio de levar o leitor do texto traduzido ao texto tador, com uma tarefa claramente definida. mas severa-
na iíngua de parti&, no original, então, a excelência do mente limitada.
estilo a o próprio talento do tradutor para a escrita eram Em contraposigão perfeita com esta v i h de Longfel-
certamente de somenos importância. Henry Wadsworth low, Edward Fitzgerald (1809-631, mais conhecido pela
Langfellow (1 807-81) acrescentou h questão do papel do sua versão de The Rubaiyni of Ornar Khayyam (18581, de-
tradutor uma outra dimensiío, que veio restringir a função clarou que um texto tem de viver a todo o custo"com uma
do tradutor ainda mais do que o havia feito a proposta de transfusão da nossa pior Seiva se não formos capazes de
Amold. A prop6sito da sua tradugão da Divina Comedia
reter a melhor do Original". Foi Fitzgerald o autor da cé-
de Dante, e justificando a sua decisão & a traduzir em
lebre afirmação de que é melhor ter um pardal vivo do que
verso branco, Longfellow declarou:
uma bguia embalsamada, Pw outras palavras, ao hves de
O linico minto do meu livra ?i que ele diz exactamente o que
tentar levar o leitor do texto de chegada ao original na iín-
Dante diz e não aquilo que o mdutor imagina que Dante teria dita gua de partida, a obra de Fitzgdd procura Irazer uma
se tivesse sido ingles. Por outras palavras, imprimindoritmo h tra- versão do texto original para a cultura de chegada wmo
duçáo, esforcei-me por tomfi-la tao Iiteral quanto uma tradução de u m entidade viva, embora a sua opinião algo extrema s+
prosa. ... Na baduç80 de Dante t preciso renunciar a algo. P o d d
bre a menoridade do texto original, citada na Introdução
ser h bela rima que floresce em cada verso como a madressilva que
a d m a a sebe? Tem de ser, com vista h prestrvação de algo mais (ver swpm, p. 231, seja indicadora & uma atitude displi-
preciosa do que a rima. nomeadamente, a fidelidade, a verdade - cente que demonstra uma outra forma de elitismo, A linha
a vida da sebe propriamente dita. ...A tarefa do tradutor 6 transfe- individualista romhntica conduziu, em tradutores como
rir ri que o autor diz,não explicar o que ele quer dizer;essa t a ta- Fitzgerald, Quilo que Eugene Nida descreve como "espf-
refa do comentador. O problema do tradutor B o que o autor diz e
rito exclusivista", onde o tradutor aparece como um mer-
o modo m o O diz."
cador talentos0 oferecendo mercadorias exbticas a uns
A extraordinária concepção de traduçao defendida por quantos iluminados.
Longfellow leva ao extremo a posição literalista. Para ele, As principais correntes sobre a tipologia das traduções
no extenso período que vai do capitalismo industrial e da
LONGFELLOW. Henry Wadswoah. Apud William J. De Sua Danrc - expansão colonial h I Guerra Mundial podem classificar-
Hill: Universiiy of North Carolina h,
inta EngIish. Chapl 1964, p. 65. -se, em termos gerais, da seguinte maneira:
1) A tradução como actividade académica, em que a partir de F,W. Newman,expoente dxirno &ste tipo de
preeminência do texto de partida é pressuposta de tradução.
facto sobre quaiquer versão na Iíngua de chegada.
2) A tradução como modo de motivar o leitor inteli-
gente a voltar ao texto original.
3) A traduçáo como meio de ajudar o leitor da língua J. M.Cohen pensa que a teoria vitoriana da tradução
de chegada a tornar-se naquilo que Schleiermacher estava alicerçada "num em, fundamental" (a utilização &
denomina o meihor leitor do originai, através de uma linguagem falsamente antiga para veicular a distancia
uma deliberada e engenhosa "estcangeima"âo texto no tempo e no espaçd4), e que o pedantismo e a utilização
traduzido. de arcaísmos por muitos tradutores s6 pode ter contribuido
4) A sadução como meio amv6s do qual o tradutor, para colocar a tradução h margem das outras actividades
que se v8 a si próprio como Aladino na caverna en- litergrias e para o seu continuado declínio & estatuto. O
cantada(imagem de Rossetti), oferece ao leitor da mhtodo de traduzir de Fitzgerdd, no qual o texto original
língua de chegada a sua opção pmgmhtica. d o barro tosco com o qual será moldado o produto na lín-
gua de chegada, foi certamente um êxito de popularidade,
5 ) A tradução como meio pelo qud o tradutor procura
mas é significativo que tenha surgido a controvérsia sobre
elevar o estatuto do texto original pois que lhe 6
como definir o seu trabalho - como tradugão ou como ou-
atribuido um estatuto cultural inferior.
tra coisa (adaptação, versão, etc.) -, ri que 6 um indicador
& existência de uma opinião generalizada sobre o que de-
Destzis cinco categorias, depreende-se que os tipos (1)
ve& ser uma tradução. Embara a arcaização esteja jA fora
e (2) tenderiam a produzir traduções muito literais, talvez
de moda, é importante lembrar que os tradutores a utiliza-
mesmo @antes, acessíveis apenas a uma minoria letrada
ram w m base em s6lidos princípios te6ricos. George Stei-
e os tipos (4) e (5) conduziriam a traduções muito mais li-
ner levanta questões importantes quando se reporta h sua
vres, que, dado o processo ecldctico de tratar o original,
prática, com particular refefincia à teoria de Emile Li&
poderiam alterar completamente o texto de partida. A ter-
e ao seu L'Enfer mis en v i e u langage Fmnçois (1 879) e a
ceira categoria. talvez a mais inkressante e típica de todrts,
RudoIf Borchardt e ao seu Dnnte Deutsch:
tenderia a produzir traduções cheias de arcaísmos formais
e linguíscicos, Foi este o método que foi tão veementemente
atacado por Amold quando cunhou o verbo newmmizac a
A proposição"o poeta esmgeiro teria produzido tal e tal texto se com a obra fascinante, mas assistem8rica, de Valkry Lar-
ele tivesse escrito na d a iíngua" constitui uma especulação. baud, Sous l'invocatiun de Saint k m m . No seu estudo
Esta proposição subscrwe a autonomia, mais exactamente, a sobre traduções e tradutores ingleses, Cohen ainda inclui,
'meta-autonomia' da tiaduçh. Mas faz muito mais do que isso: in-
d u z uma existência alternativa, um 'podia ter sido' ou um 'po-
de forma incompleta, referências ocasionais a parte da
derá vir a ser', na subskia e na condição hiso6nca da nossa prb- obra tmdutória de Robert Graves e C. Day Lewis, levando
pria @a, literatura e legado de sensibilidade.3 assim o leitor, superíicialmente, atk aos anos de 1950,
Muita da produção critica inglesa sobre teoria e prática da
Deste modo, numa época de mudança social a uma es- tradução na primeira metade do século XX observa a con-
cala sem precedentes, o princípio da arcaização pode com- tinuidade de muitos conceitos vitorianos de tradução - li-
parar-se a uma tentativa de 'colonizaç~oto' do passado. teiatidade, arcaização,pedantismo e produção de um texto
Como & m a Borchardt, ao declarar que a tradução deve- de qualidade literária inferior para uma elite rninorithia.
ria restituir algo ao original: "O círculo do intercâmbio Mas essa mesma critica volta sempre ao problema da ava-
histórico de formas que se estabelece entre as nações fe- liação sem estar de posse de UM buse tedrica sdlida qw
cha-se quando a Alemanha devolve ao objecto estrangeiro susterire u m tal investigqdo. O crescente isolamento da
aqui10 que dele assimilou &pois de livremente o ter me- vida intelectual brithica e mericana em conjunção com
lhorado."36 A distância entre esta noção de tradução e as o pendor anti-teorético da critica literária não ajudaram a
defendidas por Cícero e Ho&io, também elas produtos de desenvolver o estudo cienrificodas traduções em língua
um estado em expansão, dificilmente pcderia ser maior. inglesa. De facto, custa até a crer que alguns estudos te-
nham sido escritos na mesma épuca que testemunhou o
aparecimento do Estruturalismocheco e do New Criticism,
o desenvolvimento da teoria da comunicação, a aplicação
da linguística ao estudo da tradução, em suma, o estabele-
Ao tentar condensar um vasto conjunto de materiais cimento das bases a partir das quais procederam os estu-
num espaço exíguo, t sempre problematicodecidir quando dos recentes sobre tradução.
dar o debate por encerrado. George Steiner termina o seu Jh se tratou, nos primeiros capítulos deste livro, do
segundo período da hist6ria da tradução no ano de f 946, progresso do desenvolvimento dos Estudos de Tradução,
bem como do gradual aumento de importantes obras em
" STHWER, Gwrge - op. cii., p. 334. Ingies sobre tradução publicadas desde os finais dos anos
BORCHARDT.R. - D M I ~
und Deiiixcher W e , 1908.Reim. I n lefe-
vere, A., up. rir., p. 109. de 1950. Seria, contudo, errado ver a primeira metade do
século XX como uma bpoca esGri1 no que respeita B prp.
naquilo que é uma visão bastante idiossincrhtica da hist&
dução em iíngua inglesa sobre teoria da tradução. pois que,
ria da tradução, afirma que, embora haja uma profusão de
aqui e ali, importantes baluartes da traduçáo abordaram
testemunhos pragmiticos individuais. o leque de ideias
pragmaticamente algumas questões. A obra de Ezra Pound
tediicas t pequeno:
é importanã'ssima na histbria da tradução e o seu talento
de tradutor equipara-se h sua sagacidade como critico e Se mencionamios São Jerónimo, Lutero, Dryden, Holderlin, No-
teorizador. A conferência de Hifaire Btllm intitulada On valis, Schleiermacher, Nietzsche, EPa Pound, Vai&, I h c K e ~ a ,
Tmnslation, apresentada em 193 1, constitui u m a aborda- Franz Roswzweig, Walm Benjamin e Qiline, teremos referido a
gem Breve, mas altamente inteligente e sistematizada, dos quase totalidade daqueles que disseram algo de fundarneniai w
problemas práticos levantados pela tradução e da questão inovador sobre a eadu~Zio.~
global do estatuto do texto traduzido. O artigo de James
McFarlane, "Modes of Trmslation"(1 9531, elevou o nivel Podm, a descri* que Steiner faz do tradutor como uma
do debate em língua inglesa sobre tradução e tem sido des- presença indefinida, ou a descrição de Larbaud que o
crito como "a primeira publicação no Ocidente a tratar da compara a um m n t e h porta da igreja, s8o visões essen-
tcadu@io e das traduções de u m a perspectiva modema e cialmente p6s-romhticãs e têm muito mais a ver com no-
interdisciplinar, e a estabelecer um programa de pesquisa ç6es de hierarquia na cadeia de comunicação entre autor,
para estudiosos interessados nesta questão como objecto texto. leitor e tradutor do que com aspectos intrínsecos do
de processo de tradução em si. Por exemplo, no estudo que
Deste breve esboça pode ver-se claramente que em Timothy Webb realizou sobre Shelley enquanto tradutor é
@ocas diferentes prevaleceram diferentes concepçhs de visível uma crescente divagem entre tipos de actividade
traduçao e que a função e o papel do tradutor se alterou ra- literária; o mesmo estudo tam- ilustra como era possi-
dicalmente. A explicação dessas mudanças cabe i história vel, na Inglaterra do principio do século XIX,existir uma
culturd, mas o efeito da mudança de concepção de tradu- hierarquia no trabalho de um mesmo autor. Porque as ati-
ção no processo de tradução propriamente dito id ocupar tudes em relação ii tradução e h concepções de tradução
os investigadores ainda por muito tempo.George Steiner, prevalecentes pertencem 5 época que as produz e aos fac-
tores s6cieecoaómicos que enformam e determinam essa
J7 HOLMES, J m ; LAMBERT, Jod; BROECK, Rayrnond van den época. Maria Corti demonstrou como, ao longo do skculo
(eds.)- Literdure d TmnxIation. Louvain ACCO,1978. O FkfBcio deste vo- XIX e devido a uma maior difusao do livro impresso, o
lume descreve o adgo do Professw McFarime m o um "principio orientador".
-
O anigo a p m u in Durloiuir UnlwrsiryJoarnsrrl. XLV. 1952-3, p. 77-93.
" STEINER. Gmrge - Op. cir.. p.109.
autor deixou de ter uma ideia precisa do seu público leitor,
ou porque era potencialmente muito vasto ou porque pas-
sou a abranger classes e grupos sociais vários. Para o bii-
dutor, este problema de uma visão desfocada era ainda
mais a~entuado.~ Capítulo 3
A hist6ria dos Estudos de Trzidução deveria, portanto,
ser encarada como uma h de estudo essencial para o Problenuis específicos da
teorizador contemporaneo, mas não deveria ser abordada tradução literária
de uma perspectiva redutora e resbita. A definição que
Gadda apresenta de sistema presta-se muito bem a ser
aplicada h diacronia dos Estudos de Tradução e serve tam-
bém para ilustrar a dimensão e a complexidade do baba- Na introdução a este livro d m e i a necessidade de
lho que ainda mal começou: uma estreita relação entre a teoria e a prática da tradução.
O tradutor que não faz nenhuma tentativa para entender o
Pensamos, portanto, que todo o sistema é uma rede infinita de re-
como que subjaz ao processo de traduç30 6 como o con-
lações inextrícáveis: o cume pode avistar-se a panir de várias alii-
hides; e tocio o sistema assenta numa infinidade de eixos coorde- dutor de um automóvel que não faz a mínima ideia do que
nados, pdendo assumir um número infinito de fornas." faz o veículo andar. Do mesmo m d o , o mecânico que
passa uma vida a desmontar motores, mas nunca deu um
passeio de c m pelo campo corresponde 21 imagem exacta
do árido académico que examina o como em detrimento
do que d Neste terceiro capítulo, proponho, assim. abor-
dar a questão & tradução de obras literárias através de
uma aníiiise pormenorizada de exemplos', não tanto para
avaliar os produtos, mas antes para mostrar como a esco-
lha de critérios por parte do tradutor pode dar azo a pm-
blemas específicos de tradução.
CORTI. Marla - An I n d u c t i o n to Litemty Semiofics, md. M. Bogat
e A. Mandelbaum. Bloomington. h d o n : Indiana Universily Pms, 1978. ' hin que~taoda cxempliticqào colocou+mepwante um dilema: manter
-
GADDA, Carlo Emilio I n medita~iunimilune~e.Turim: Ejnaudi. os exemplos inglesese, portanto, tarnMm os wment4rimda autora ou substitui-
1974. p. 229. -los p r exemplos de tradwqki portuguesss'?Por um lado, nZa existem ttaduçks
130

AS ESTRUTURAS As peremptúrias afirmações de Cluysenaar sobre a tra-


dução literfia derivam claramente & uma abordagem es-
Anne Cluysenaar, no seu livro sobre estilística Literá- truturalista dos textos litecários, a qual concebe um texto
ria, faz algumas afirmações importaritessobre tradução. O como um conjunto de sistemas relacionados que operam
tradutor, afirma, não deve trabalhar a partir & preceitos dentro de um conjunto de outros sistemas. Como d u m a
gerais, quando determina o que preservar ou o que confi- Robert Scholes:
gurar à semelhança do texto de parti& ma5 deve trabalhar
olhando a 'tada estrutura individual, seja prosa ou seja Cada unidade literána, desde a simples fme até h ordem gbbd
das palavras, pode ser entendida em relaçso com o conceito de sis-
verso", uma vez que "cada estrutura colocard a ênfase tema. Em particular, podemos considerar obras, gkneros literários
em certos iraços ou niveis linguisticos e não em outros". e o conjunto da literahua como um sistema dentm do sistema
Cluysenm passa depois a analisar a tradução do poema maior da cultura h u m l
"'hs ps", de Vaiéry, executada por C. Day Lewis, e chega
B concIusão de que a traduçgo não funciona, porque o O facto de muitas tradutores não perceberem que um
tradutor "trabalhou sem o apoio de uma teoria da W u ç ã o texto litersrio se compõe de um complexo conjunto de sis-
Iiterária devidamente adequada." O que Day Lewis fez, temas que existem em relação diaktica com outros con-
continua a autora, foi ignorar a relação das partes entre juntos que extravasam as suas fronteiras levou-os fre-
si e das partes com o todo, sendo a sua tradução, em quentemente a concentrar-se em aspectos particulares de
suma, "um exemplo de erro de percepç8o quanto B um texto em detrimento de outros. Estudando o leitor mé-
forma". E propõe como remédio para tais casos de inade- dio, Lotman dekminoii quatro posições essenciais do
quação "a descrição da estrutura dominante de c d a obra destinatário,
a ser traduzida." 1) O leitor centra-se no conteiido, i. e., selecciona o ar-
gumento em prosa ou a p-e poética.
portuguesasde &s os texto8 cmhidos. por outro, as tnidu@s existentes n k 2) 0 leitor apreende a complexidade da estrutura da
suscitamobviamente M mesmos comentários. Assim, optei pw mankr ris exem- obra e a f m a como os vários niveis interagem.
plos em Lfngua Inglesa. dando. enw parênteses rectos rw em notas de mia*
a traduqão pwlugua~dos segmentas de texto paniculmtnte irnpmtes p&a 3) 0 leitor extrapola deliberadamente um nível da
a ryirnpieensãodas pmblmes apresentados. Sempre que passível &eindica-
ç h das tradu- portuguesas existentes e as respactivas refCrg,ia~bibliog6
obra com um objectivo específico.
ficas. [N.
-
CLWSENAAR. Anne Inttváuction to Liiemty Siylistlcs. hndon: SCHOLES, Rolxrt- Stnraumlirm in Litemhrw. Ntw Haven: Yale Uni-
versity Ress,1974, p. 10.
B a M . 1976. p. 49
4) O feitor descobre elementos não essenciais h génese tor do século XX pela figura da paciente Griselda' consti-
do texto e usa O texto para os seus próprios fim3 tui exactamente um exemplo de alteração da percep~ão,
enquanto o desaparecimento do poema épico das literatu-
k óbvio que, para a tradução, a posição ( I ) seria corn- ras nacionais ocidentais conduziu inevitavelmente a uma
pletamente inadequada (embora muitos tradutores, de ro- leitura diferente dessas composiç6es. A um nivel estrita-
mances particularmente, se tenham cenwado no conteúdo mente semântico, uma vez que o significado das palavras
21 custa da estrutura fomiai do texto); a posição (2) parece se altera, o leitorltradutor não lograr&evitar encontrar-se
o ponto de partida ideal, enquanto que as posições (3) e (4) a si pr6prio na quarta posição de Lotman se não proceder
seriam acei?Aveis nalgumas circunstáncias. O tradutor é, a uma profunda pesquisa etimológica. Assim, quando
afinal. primeiro um leitor e s6 depois um escritor, pelo que Gloucester (no Rei k u r , acto III, cena vi), condenado,
deve tomar uma posição nu processo da leitura. Assim, atormentado e prestes a ter os olhos arrancados, invectiva
por exemplo, na traduç30 de Fulgor y mwrte de Joaquín Regan com a expressão "Naughty lady"" deve ter-se a
Murieta, de Neruda, Benn Belitt faz, no Prefãcio, a h a - noção de que desde então se processou u m a considerável
çíies sobre o direito do leitor a esperar "uma sonoridade alteração no peso do adjectivo, que hoje em dia se usa para
americana que não está presente na infiexão de Neruda", repreender crianças ou para descrever algum pecadiiho li-
e um dos resuf tados da tradução é que os contornos politi- geiramente c6mico (frequentemente de natureza sexual).
cos da peça mudam completamente. Ao acentuar a 'acção' Já se gastou muito tempo e muita tinta a tentar dife-
e o elemento 'mitico de cowboys e índios', a dialéctica da renciar entre traduções, versões, adaptações e ã estabele-
peça €t eliminada, podendo considerar-se a tradução de cer uma hierarquia de 'correcçb' entre estas categorias.
Beiitt como um exemplo extremo do leitor que Locman Porém,a diferenciação entre elas deriva de um conceito
posiciona em (3).4 de leitor como receptor passivo do texto no qual a Verdade
A quarta posição, em que o leitor descobre no texto se encontra guardada como uma relíquia. Por outras pala-
elementos que sofreramuma evolução desde a sua gdnese, vras, se o texto 6 entendido como um objecto que s6 deve
6 quase inevit8vel quando o texto pertence a um sistema produzir uma única leitura invariante, qualquer 'desvio'
cultural distante no tempo e no espaço. A aversão do lei- por parte do leitor/üadutor serã julgado como uma trans-

Condessa de Salluza que viveu no sBculo XI, personagem central de


LUTMAN,Juri - Srt-ukrura Khudozriemnirogo Tekpa. Moscovo: Is- uma lenda na qual sc inspiraram Bocaccio, Pcímca. Perrault, e que é modcIode
kusstwi. 1970.Trad. italiana: h struttum de1 tesio pactim. Milan: Muda, 1972. virtudes conjugais. p. J
-
* NERUDA, Pablo Splendor ond Dwth of Jonquin Msvicrri, trad. Bm " O adjtctiw "IWghry" significa amahcnte " m d a " , mas tinha na
Belitt. New York: Farrar, Shusã & Gimx, 1972. +a um valor hoje representadopelo adjectivo "malvadoia". (N. T.)
gressão. Um tal juízo tem pertinhcia quando se trata de ironia nos sonetos de Shakespeare ou que ignora o modo
documentos cientificos, por exemplo, onde os factos s8o como a doutrina da transubstanciaçW 6 utilizada como ar-
apresentados em temos absolutamente objectivos tanto tifício de subtdgio para a produçáo do manifesto anti-
ao leitor do texto original como ao leitor do texto tradu- fascista de Vittorini em Conversazioni in Sicilia estará a
zido, mas o caso dos textos LiterArios d diferente. Um dos descontrolar o equilíbrio das forças em presença ao tratar
maiores avanços nos estudos literárim do século XX foi a o original como propriedade sua. E todos estes elementos
revalorização do leitor. Barthes, por exemplo, ve a obra li- podem perder-se se a leitura não tomar inteiramente em
t e m a como o lugar em que o leitor se torna não tanto um conta a estrutura global da obra e a sua relação com o
consumidor como um prodaator do texto? Por seu iado, Ju- tempo e o lugar em que foi produzida. Maria Corti resume
lia Knsteva ve o leitor como expandindo o processo se- o papel do leitor em termos que poderiam igualmente ser-
midsico & obraa6Então, o tradutor traduz ou descodifica vir de dvedncia ao tradutor:
o texto de acordo com um determinado conjunto de siste-
mas dissolvendo-se a ideia de uma Ieitura 'correcta', Ao Cada dpoea produz os sws pr6pnm signos. que se manifestam em
mesmo tempo, o conceito de intertextuulidade, cunhado mwlelas sociais e litersxios.Logo que a í e s modelos se consomem
por Kristeva, segundo o qual todos os textos estão ligados e a realidade parece desaparwer, sW wcess8nos novos signos
para recapturar a realidade, t isto permite-nos atribuir um valor de
uns aos outros, pois nenhum texto se pode considerar informqb As etcururas dinhicas da literarna. Vista deste modo,
completamente livre dos textos que o precederam e que o a literatura 6 õo mesmo tempo a oondição e o lugar da comunica-
rodeiam, tornou-se também profundamente significativo ção artística entre emissores e destinathio~ou pliblico, As mensa-
para o estudante de tradução. Como sugere Paz (ver supra, gens trilham o seu caminho no tempo, lenta ou rapidamente; algu-
p. 73), todos os textos são traduções de traduções de tra- mas mensagens aventuram-se em encontros que desfazem
uimpietlmiente urna linha & comunicação; mas, m m enorme es-
d u w s e não é possível traçar a linha que separa o Leitor
forp. outra linha se constrói. Este iilrimo facto é o mais significa-
do Tradutor. tivo: ele q u e r aprendizagem e dedicação da parte daqueles que
E também bastante evidente que a ideia do leitor como querem perceWlo, porque a funçiío hípersignica das grandes
tradutor e a enorme l i W d e que esta visão confere devem obras litefias mnsfwma o código da nossa vis* do mundo?
ser tratadas com muira responsabilidade. O 1eitorItradutor
que não reconhece o materialismo dialéctico que serve de Assim, primeiro o tradutor IWtiaduz na lingua de par-
fundamento L peças de Brscht ou que não reconhece a tida e, depois, através de um processo adicional de & s w

"ARTES, R~lmd - SiZ.London: Cape, 1974. CORTI. Maria - An Inimd~c~ion 10 Liierary Sedotics. B l d n g t o n ;
-
KRISTEVA. Julia Le mre du mmun. Thc Hague; Pais: Mouton, 1970. London: Idm Univeniity Rcss, 1978, p. 145.
dificação, traduz o texto para a língua alvo. Ao fazê-lo, o pela tradução da poesia do que de qualquer outro modo li-
tradutor vai mais longe do que um simples leitor do texto terArio. Muitos dos escudos que passam por investigar es-
original, pois aborda o texto a partir de mais de um con- tes problemas sáo ou avaliações de diferentes traduções de
junto de sistemas. Parece, portanto, descabido argumentar uma obra ou testemunhos pessoais de tradutores sobre o
que a tarefa do tradutor 6 traduzir, mas não interpretar, maio como resolveram certos problemas.* Raramente os
como se se tratasse de dois exercícios separados. A mdu- estudos sobre tradução de poesia tentam discutir proble-
ção interlinguísticahá-de reflectir seguramente a interpre- mas met&l6gicos a partir de uma posição não-empirica
taça0 criativa que o tradutor faz do texto original. Alkm e, contudo, 6 precisamente esse tipo de estudos que é mais
disso, o tipo de reprodução da forma, do metro, do ritmo, valioso e mais necesshio.
do tom, do registo, etc. será determinado tanto pelo sis- No seu livro sobre os vários mktodos utilizados pelos
tema de partida como pelo sistema de chegada e depen- tradutores ingleses do Poema de Catulo, André iefe-
der8 tamMm da funçãlo da tradução. Se, como no caso das vem cataloga sete estratégias diferentes:
co~ecçksbilingues, se pretende que a tradução figure
1) Tmduç60 fonémicu, que procura reproduzir o som
numa p8gina e o texto original na outra, esse factor res&i- da lingua de partida na língua de chegada produ-
tivo constituir-se-&num importante critério. Se. por o u m zindo ao mesmo tempo uma paráfrase aceitável do
lado, os leitores do texto a ser reproduzido desconhecerem sentido. Lefevere acaba por concluir que embora
quer o sistema linguistico quer as suas convenções sócio- isto funcione razoavelmente bem na tradução da
literãrias, entk a traduçáo seri construida em temos di- onomatopeia, o resultado global 6 tosco e por vezes
ferentes dos utilizadas na versão bilingrie. No Capítulo 2 completamente desprovido de sentido.
j A ficou claro que os critdrios que regem os modos de tra-
dução tem sofrido variações consideráveis ao longo dos 2) Tradução literal, onde a tónica na tradução pda-
tempos e não há, certamente. nenhuma f6mula modelo vra-por-palavra distorce o sentido e a sintaxe do
para os tradutores seguirem. original.

Veja-se, por exrmplo, RAFFEL, Burton - The mrked ?brigue: a Si&


qflhe Tramlatim Process. The Hague: Mouton. 1971; LEWIS. C. Day - On
A TRADUÇÃO DE POESIA Tmnslating Poetv+Abingdan-wi-nimes: A b k y Pers, 1970: SUA, William &
- h n f e Usto mlisk.Chapel Hill: Uniwrsity of No& Camlina Prens. 1964
No campo da tradução literária, tem sido dedicado SELVER. Paul - The Art uf Tmnslating Puetty, London: John Baker, 1966.
LEWVERE. André - T r m I d i n g Pmrty. S m n Simrcgk and n Bliie-
muito mais tempo h investigação dos problemas suscitados prini. Amakrdam; Van Gorcum, 1975.
3) Tmduçtio rndfricn, em que o critério dominante t a O estudo de Lefevere corrobora as afirmações de
reprodução do metro do original. Lefevere conclui Anne Cluysenaar, pois as deficiências dos métodos que
que, tal como na tradução literai, este mdtodo se de examina devem-se a uma sobrevalorização de um ou
concentra num aspecto particular do texto original mais aspectos do poema em detrimento do todo. Por ou-
em detrimento do texto enquanto todo. tras paiavras, ao estabelexer um conjunto de critérios me-
4) De poesiu para prosa, que resulta, conclui Lefe- todol6gicos a seguir, o tradutor fixou-se em alguns ele-
vere, na distorção do sentido, do valor comunica- mentos h custa de outros, e deste fracasso em considerar o
tivo e da sintaxe do texto original, embora não em p m n como uma estrutura orgbica resulta uma badução
grau tão elevado como nas tipos de tradução literal que 6 visivelmente desequilibrada. Contudo, o termo ver-
ou métrica. síio utilizado por Lefevere pode induzir em e m , porque
parece implicar uma distinção entre versáb e tradução, ba-
5) Tradugio rimda, em que o tradutor "se sujeita a seando o argumento na separação entre forma e conte~do.
uma dupla servidão": o metro e a rima. Quanto a E, como afirma Popo~iE,'~ "o tradutor tem o direito de di-
esta categoria, as conclus&s de iefevere são bs- ferir organicamente, de ser independente", desde que a
m e duras, uma vez que ele sente que o produto fi- busca de independgncia seja feita em nome do original, vi-
nal não é mais do que uma 'caricatura' de Catulo. sando a sua reprodução como obra viva.
6 ) TmduçHo em verso branco, em que, mais uma vez, J. P. Sullivan, no seu artigo 'The Poet as Translator",
se acentuam as restrições impostas ao tradutor pela no qual aborda o poema de Paund Hornagc to Sextus Pro-
escolha da estrutura, embora se reconheça que se perfim, conta ter perguntado a Pound por que razão utili-
obem um maior rigor e um grau mais elevado de li- zou a expressão 'Oetian gods" em vez de "Oetian God"
teralidade. (i. e., Hércules) na Secção I do poema, ao que Pound re-
7) Intcrpretqão. Sob este t6pico Lefevere traz h dis- plicou simplesmente que isso "teria lixado o movimento
cussão aquilo que designa por versões - em que o do verso". E antes disso. no mesmo artigo, Suilivan cita
conteúdo do texto original 6 mantido, mas a forma Pound defendendo-se dos ferozes ataques h sua obra nes-
-
é alterada e i m i t a ç s em que o tradutor p d u z tes temos:
um poema da sua lavra que, "na melhor das hip6-
teses, tem em comum com o original o título e o
10 P O ~ O V I ~
~ n, r a -o ~ h concepr
e of "~hift af Expression"in ~ ~ a n s t a -
ponto de partida". tion Analysis. In HOLMES. f m e a (4.) - TAe N a m of Tmmlation. The Ha-
gue:Paris: Mwton, 1970.
Não, eu não fiz uma tradwo de Ropertius. Aquele imbecil de h forma ou ao tom que ajude ao renascimentode uma nova
Chicago tomou o Homagc por uma iradução apesar da refedncia linha de comunicaç30, para utilizar as pdavras de Maria
a Wordsworth e da par6dia ao v e m de Yeals. (-mo se, a alguém Corti, a n8o ser que o sistema de chegado seja igualmente
que pretendesse ser mais versado em Latim do que de facto 6, nBo
tido em considem@o. Com os clássicos, isso significa, em
fosse f m í o recorrer a u m a wr& de Bohn para corrigir as im-
perfei#ia') primeiro lugar, ultrapassar o problema da tradução s e
gundo um eixo vertical, em que o texto original goza de
Para Pound era clara a distinção entre as suas M u - um estatuto mais elevado do que o texto traduzido. E a
çães e o Homage, mas para os críticos formados na con- menos que se trate de uma tfanscriçZio literal, isso signi-
cepção oitocentista da excelência da literalidade, a distin- fica tamMm aceitar a teoria de PopoviE, segundo a qual no
ção era irrelevante. Pound tinha ideias muito p i s a s processo de tradução são inevitáveis as transformaç6es
sobre a responsabilidadedo Wutor; porém, o seu quadro expressi~as.'~
& referências aproximar-se-ia muito mais do de PapoviE Como exemplo de que diferentes conceitos de tradu-
do que do do Professor W.G. Hale.12Pound definiu o seu ção se podem aplicar h tradução de um autor cl8ssico. ve-
Humge como algo diferente de uma tradução: o seu ob- jamos três versões inglesas do Poema 13' & Catulo:
jectivo ao escrever o poema foi alegadamente ressuscitar
Propertius. Foi, em suma, uma espécie de ressurreigão li- I' PopoviE distingue cinco iipw de transformaçáo expmsiva:
terária. a) ~ ~ ~ ~ f a r m a ~ ü u que d inevidvel devido hdiferençw en-
cw~iiurivu.
tre os dois sistemas linguísticos.
Na tradução de um texto pertencente a um período b) T1~19foormçüogemhigica, descrita m o "um tipo de craasfonna-
muito remoto no tempo, o maior problema e que não 96 o $ia t6pica que implia uma mudança nas cmcierishcas mnstitutivas
do texto enquanto g é n m lite&o".
poeta e os seus contemporâneos jB morreram, mas o sig- c) Tmfonnapío individual."um sistema de desvios individuais moti-
n$caQo do poema no seu contexto também está morto. vados pia propensãoexpressivado iradutw e pelo seu ideolecto sub-
Por vezes, como acontece com a écloga, por exemplo, o jt~tivo".
d) Trunsfamçüa negarim, m que hwve um mal-entendido na ira-
gknero est8 extinto e não h6 fidelidade h estrutura original, du* .
e) T ~ o m Ç d tdpicu.
o em quc a diferença entre a versão da LP e a
Henry Gmrge Bohn ( 1 796- 1884) -Escritor inglês, conhecido pela^ suas da LC se deve B utilizaf30 dc diferentes denotqks. PopoviiY adianta
publicaç&s de autores clissims a p q o s económicw.[N.T.] mesmo que este tipo de kadonnaçHa pode awrrer quando a cmw
-
SULLIVAN. J. P. - The Poet as a Translatw Ezra h n d and Sexuis favwecida em di:uimenio da denomçb.
Propertius. TRe k n y o n Revim, XXIiI (3). Sumrner. 1961. p. 4ó2-82. ' Cwnildo-te,meu Fbbilb u jantar bem em minlia casa,/denirri de d g m
j2 O ProfegggrW. G. Hale foi um proeminente combatente anti-Pwind e ur dias, se iiivres o favor dos &uses, / conranro que tragar contigo uma boa e
seus virulentm ataques B tradução realizada por Pwind estiveram no centro de lurita rei& /não esquecerrdo u m bela rapariga, / vinho, humor e alegria /Se
um longo debate sobre a n a m a da 'fidclidadc'. tnwxeres isto. mesrjovial amigo. / ceards en14i11bem: d que a balsa do teu Ca-
An invitarion to Dinner An essence fo my lu& giwn
By a11 the Loves and Ve~uses;
Cenabis bene, mi Fabulle, apud me Once stz$it, yaia'U petitio~heaven
paucis, si fibi di favent, d i e h , To mke you nose ond mly twse.
si tecum anulerh b o n m atque magnm (Sir Wiiiim Marris, 1924)
cenam, non sine crmdida puella (2) say Fabullur
et vim et sak et omibus cachinnh. you'U get a sweil &ner ar my h e
haec, si, inquam. atfuleris, mure noste< a mupIe three daysfrrrm now [ q p r luck b l d s outJ
a11 yov golta do is brhg the dinner
cenabis bene; m m rui Cafuirlli
and make it good and be sum tbem 3 pleno
pienus $QCCYIUT esi amnmrum
Oh yes dott'tforget a girl(1 like blonde8)
sed contra m i p i e s mms amows
anda bonle ofwine mayk
seu quid srutvius eleganiiusve esc
And any ggwd jokes and s~~ yoir 'e head
nam unguentMm d&, quod mae puella~
jicsi do t h r l& I te0 you 01' pai 01' pai
d o ~ r u nW
t ~em Cupidimsque,
you'll get a swell dinner
q d iu cum olfacies, deos mgabis, 7
totuna ut te faciant, FobuIIe, nasum.
whor,
ahut,
( I ) Now, pieas@ihc g d s , Fubullus, you ME?
Shail dine hcw well in a day #r two; well;
Bui bring a good big dinnel; mind, wil hem take a imk in my wallet,
fikewise u p ~ girl, w and wine yeah those'm cobweh
And wit and jokes of every kind. but here.
Bring rhese, I sax g d mn, and dine 1'11 give yoir somerhhg mo
Righr well: for your C~íullus'purse ICAN'TGVlb:YOUANYTHINGB W L D V E M B Y
1sfiill - bui only cobwebs ham. no?
But you with low i t s e ~ l ' ldose,
l well hem's somerhirrg nicer and o lifrk more cherce m y k
Or whar siill sweeter;finer is, I gor perfume se'
i#was a g1ft to HER
straighíjívm VENUS and CUPID LTD.
h110/est& cheia de teias de a&... /mas em tmca recebe& Amimds pum / when yau get a wkirojtkBl you'l~praythe gods
ou uma coisa ainda mais suave e m i s distinta: /dar-te-ei do pejsuite qiie d mi- to make p [yes yoa will, FabuIlus)
aimoda/ &mm as V d m e m Cupidos, /e, q d o ht o aspimms, roga& ALL
aos detue~/que te fafam ta& nariz meu cam Fbbrrb. (CATULO. Caia Vai4
n o - h s i s . Testo latino e ver& prbquesa p
rE m Barcelos. Porio: Poria NOSE
Editora, 1875. Tomo I). [N.T.1
(3) Invíring a friend for supper Nor shaii our cups muke a n y guiltie men:
But, ai our pumng, we will be, as when
To night, gmve sir, bo#h my poom h s e , a d Z We inmently mel. No simpk worrl,
Doe egualiy desim your companie; W shll be urrer'd ar our rnirthfuil bood
Not thaf we thinke srs worthy such a gksi. Shail rnake ais sad next mrning: or m i g h r
Biu ihai your worth will dignije our feasi, T h Libertie, h t wee'il enjoy to night.
With thme that come; wkose gmce muy make that seeme
Snmething, which, e&, wuld hope for no esteeme,
i t is lhefaim accepfunm, Sir, cmam
The entertaiment perfect: no1 the cates.
6 6bvio que os três poemas ingleses são muito dife-
Yet shull you haw, to mct@e your paloie,
rentes entre si; são visualmente diferentes em temos de
An olie. capem, or some bemr saila& tamanho, fonna, organização dos versos e extremamente
Ushring the nurttan; with a sbrt-lag'd hen, diferentes no tom. O que têm em comum t o que PopoviC
If we cm get h e fuli
~ af egs, and then, designa por núcleo invariante, i. c., elementos corno o
L i m m , and w i w for saarce: to these, a c- convite pura jantar, o tom jocoso e terno e a declaração
Is nof to be &spaipair'do$ for our nwney;
& pobreza. O que falta na terceira versão, contudo, e está
And, rhoughfowle, ri6w, be scarce, yer them ate clarkes,
The skie mt falling. ihinke we may have Iarkes. presente no original e nas outrrds duas, é o elemento do
He te11 your more, and lye, sa you will com: elogio a LR~bia. O n6deo invariante compreende o tema e
Qfparm'ch.pheasanr. wwd-cock, of whick #orne o tom, já que a forma e a abordagem utilizadas pelos ou-
May yer be rhem; andgohuit, $we can: tros tradutores divergem bastante. Marris tentou nitida-
Knat, m'le,ond @o. How so ere. rny mun mente produzir uma traduçiro literal tanto quanto o pemii-
Skall d e a piem af WrgiI, Tacitas,
Uvie, or of some hner bode ;o us,
tem a sintaxe e as esúuturas fonnais da rima e do melro
Ofwhich wea?l speake our minh, ami& our me#; inglesas, mas o m6todo B tão redutor que no verso 10 j4 o
And Ilc pmfesse no verses to repeate: sentido se encontra obscurecido e embotada a agudeza do
To this, if mgh appeare, whkh I not know oJ; poema.O talento de Catulo consiste em comprimir uma
Thar will ihepamic, nor rny papel: show of grande quantidade de informação numa moldura apertada,
Digesrive cheese, andfruit them SUE will bee;
em escrever um poema que é a um tempo um convite li-
Bui thor, which mos? doth r& my Muse, and mee,
Is a pure cup ofrich Canary-wine,
geiramente cbrnico a um amigo e um elogio h mulher
Which is the Memkk, noy but s h l l h m*ner amada. Além disso. o seu exito depende da famiiiaiidade
Of which had HUMEC, or A n a c m rapte4
%ir lives, a~does their lines, til1 now hud l a s ~ d Agradeço ao meu colega Paul Merchar~tpor me ter chamado a atençk
T&m, Neciar; #r P d y ', ar Parmt by; parrt tstcs exemplos.
do leitor com um conjunto de sistemas de referência - a de garantir o predorninio da caracterização do emissor so-
piada sobre os deuses, por exempIo, ou o significado do bre todos os outros elementos. A sua versão é um mon&
perfume. que não dizem nada ao leitor contemporheo. logo drarnhtico mas, em vários aspectos, aproxima-se
Marris, porém, escolhe baduzir as palavras apesar de as muito mais do original do que Marris. O seu verso de
referências serem obscuras, optando por uma cwiosa for- abertura, Say, Fabullus, detkm o impacto imediato do pri-
mulação arcaica nos versos 11 e 12. Utiliza o temo es- meiro verso de Catulo, contrariamente A formalidade do
sence em vez de perfume, traduz meae pusllne pelo ele- primeiro verso da versão de Mmis onde o elemento ami-
vado to my lady e manthm o plural da forma Veneres zade t colocado depois de so please t k gods e, portanto,
Cupidimsque embwa o significado desse plural passe distanciado. As inserções e os acréscimos ao original de
despercebido aos leitores ingleses. Nos dois iiltimos ver- Catub são tentativas propositadas de clarificar pontos que
sos encontra oums dificuldades. Ao traduzir tu olfacies possam ser obscuros para o leitor do século XX - assim,
Wr sniff ir, Marris altera o registo, regressando lago na o verso I CAN'T GIVE YOU ANrTHING BWT LOVE
segunda pme do verso a uma linguagem mais polida, mas BABY visa ligar as duas partes do poema que na versilo de
desta vez com todas as conotaçks do temo heaven (o Marris parecem tão desniveladas. Por outro lado, a frase
termo escolhido para traduzir &os) em oposiçiio a god. I? VENUS a& CUPID LTD. constitui uma tentativa & cla-
caso para nos interrogarmos sobre quais terão sido os cri- rifica* por outro mdtodo. Aqui, a jocosidade original
terios de Marris na tradução deste poema. Se ele tivesse que advém da forma plural foi transposta para oum sis-
querido meramente transmitir o conteúdo do original aos tema de humor em que a piada deriva & utilização dos no-
leitores ingleses. ter-se-ia contentoido com uma parafrase; mes dos deuses num contexto desviante.
donde decorre que se preocupou em criar um poema em Assim sendo, a versão de Copley, longe de ser uma
Inglês. Marris na0 logrou escapar aos escolhos que espe- desvirtuação do original, aproxima-se em alguns aspectos
ram o tradutor que decide prender-se a um esquema rimá- mais do poema latino do que a versão mais LiteraI de Mar-
tico muito formal na versão da língua de chegada, em pre- ris. Como PopoviE afirmou, o facto de o processo de tra-
juízo, como no caso em apreço, de dotar o poema ingI&s
dução poder envolver transformaç6es nas propriedades
semalnticas do texto não significa que o tradutor pretenda
de alguma força e substâocia.
sub-valorizar a força semântica do original; significa, an-
Os critérios de Frank Copley, por outro iado, são muito
tes, que o tradutor
claros. Centrou-se no tom jocoso e coloquial do original,
na relação intima que transparece do poema entre o emis- Se empenha em veicular a substância sernhtica do original apesm
sor e o destinatArio e actualizou a linguagem na tentativa das diferenças que separam o sistema do original do sistema da
Michael Rifaterre, no seu livm Semiotics of Poetry, ela se distanciava em termos de função. Em contrapartida,
sustenta que o leitor 6 a iinica instância onde se faz a liga- grandes desvios na forma e na linguagem aproximaram-na
ção entre o texto, o interpretante e o intertexto e sugere da intenção original. Este não é, contudo,o Bnico critério
que para a traduçao de poesia. Uma anáiise de duas tentativas
de tradução do poema anglo-saxão The Sedamr revela
A fahriçaqão do sentido pelo leitor não corrcspondc tanto a uma um conjunto muito diferente de princípios. Dada a exten-
progressão ao longo do pwma e a uma justaposir;ão serni-aleató- são do poema, a discussão restringir-se-&apenas a algu-
ria de associaçóes verbais quanto a um reconhecimento intermi- mas passagens.
tente do texto exigido pela pr6pria dualidade dos signos - não-gra-
maticais como a mimese; e gramaticais, dentro da rede de The Seafawr
significaçõe~.~~
( I ) A sorig l shg of my seu-udventure,
Segundo Rifaterre, na mente do leitor desenvolve-se The strain qfprJ, the stress of toil,
Which ofi 1 endirred in anguish qfspirit
um processo de "continuo recomeço" e uma indefinição,
Thtvugh weay hours of aching w w .
ora superada ora retomada, a cada nova "significação re- My bark was swept by the breaking sem:
velada". E, em sua opinião, esta Outuação que torna um Bitter ihe watch from the bow by nnigt
poema continuamente legivel e fascinante, Mas se Rifa- As my ship dmve on within sou& qftk mk.
hfy feet w e n nurnb with tha nipping cold,
teme esth certo quanto ao modo como descreve a aproxi-
Hsurger sapped a sea-wmry spirit,
m a ç b do leitor Ci obra poktica - e, no inicio do seu livro. And cure weighed heqv upon my heari.
ele afirma que as camadas de sentido s6 emergem ap6s vh- Little the landlubh~ safe on shore,
rias leituras - então, esta tese reforça o argumento contra Knows wAai l'w sufered in icy seas
uma 1radut;iÍo absoluta e inflexível e contra a validade da Wmched and wam by the winler s i u m ,
Hung with icicles, s t u q by hail,
tradução decalcada que, afinal, é meramente uma leitura LoneIy lyfriendless and farfmm home.
restritiva de um poema. In my e m no sound but the rnar of the se%
As três versões do poema de Catulo permitiram ver The icy combers, the cry of the swan;
que quanto mais a tradução se aproximava de uma recria- I n plme of thc ~ d - h a l l and Iaughrer of men

ção das estruturas linguísticas e formais do original mais My only singing the sea-mew's call,
TA@s c m m of the gannet, the shriek of the g d ;
fimugh the wail of the wiId gak beaiing the blufs
'I RIFATERRE. Michael - Srmiori's Londrin: In-
u / P w r r ~Bl~iiningtiin;
. The piercing c'y 4th ice-cwted peirel.
diana IJniveniiy Press. 1978. p. IM. The stom-drenched eaglek echoing scwam
In a11 my wretchedness, weary and [m, Whar woe men endum in exrle's h t n .
I had no mmfort af com& or kin ourreaches,
Yet still, even mw, my d e x i ~
Littk indeed can he credit, w b s e iown-l#e My spirit . w m over iracts uf sea,
Pleasantly passes in feasting and joy, O'er the home of the whle, and the world's txpunse.
ShlieredJ%rn perii, whai wmty pain Eager; d e s i m , t h h sprite reiurneth;
m e n I'w sdewd in f~tti811 seas. Ir cries in my ears m d it u m my ha?I
Night shadss darkened with driving snow To ths path ofthe whala ruid lhe plursging seu
Fmm the fkezirig narth, Md the bonds offmt (Chdes W. K e n d y )
Fim-l&d the h d , whileJálling hail, The Seafarer
Co&st of h m l s , m w e d mrih.
YH sfill, even mw, my spirit wiihin me (2) May I j ô r my own selfsong's truth redron.
Drives me sea-wurd to mil the deep, Joumq's jargon, how I in harsh clnys
To ride the bng mel1 of tk salt sea-wave. Hardrhip endured afl.
Nmer a day h;my heari's k s i w Bitfer Breastcares have I abided,
Would Earuich meforth on thc long seu-path. Known on my ked many a care's h 0 4
Faia offar harbors aAd foreign shores. ARd dire ma-surge, and thers I 03spenr
Yet liws no man so Iordly of mwd, Narmw nighiwarch nigh t k ship's head
So eager in giving, so ardent in youth, While s h t o s s d close to cii$s. Coldly @icted
$o bold Un his de&, ar so dear to his l o d My feer were by frosr benumbed.
W h is fwe ftvm dread in hisfar seu-tmvel, Chill iis c h um;c w n g sighs
Or fear of G d s p u v s e and plan for bisfate. Hew my hwn mwid und hunger hgot
fie beat of the hurp, and besmwal of trearure, Me@-weary mood. Lest man kmw nnf
T k low of woman, und worldiy b p e , Tkat he nn dry l d Iowliest liveth,
Nor orher interest can RoEd his hdrt List how I, core-wretchd on ice-cold sea,
Saw only the sweep of fhc surgittg billows; Weathed the winter: wretched outcast
Hk hmrf is haunted by bve of the seu. Depriwd of my k i m n ;
Trees are budding ond towm umfui< Hung wirk h a d ice-@kes, whete hail-scurgew,
tr
Mewbws kindle and a11 life quicke~s, There i heard n a ~ g h saw
t t h h r s h sea
A11 things hasten fhe eager-heutted, A d ice-cold wave, ai whilts thc swan cries,
Who joy themin, to joumey @r; Did for my games the gatun?i's clatnour,
Tumi~gseaward to distmt shores. Seu-Çwls' l o h s s wos fdr me hughter:
The cuckoo stirs k i ~ t with plaintnie cdl, The rnews'singing alf rny mad-dnk.
The hemld of S ~ I with ; munefsil sow, Stonns, on lhe stotre-cliffsbeaten, fel1 on the st@m
Foretelling the mrmw that skzbs t k hean In icy fearhem; fill ofi tht e@ scmdmed
W h liveth in luxirry, liriie he h u w s With spmy on h h pinion.
Not any pmfecror Over lhe whale 's acm, would d e r wide.
May make merry man faring me&. On earih 's sklter cumih o$ to me,
This he fitrle believes, who aya h wUrswne I[fe Eager and rea&, the crying lone;Pyec
Abides 'mid bmrrghers some hemy birshess, Whets for the whaie-path tke heart iresistibiy,
Wolthy and wine-flushed how I weaty 08 O'er tmcks of ocearn; seeing rhuf a n y h
Musi bide above brine, My lord & e m to me this dead lije
Neamth nightsh&, ssnowethj5vm no& OR h and on i& I believe no1
Ftastftwze t8e land, kailfell UE earth tken, Tliot ony mnh-weal e t e d stotdeth
Com Qthe coldesr. Nathiess t h m knockeih m w Saw there k somewhat cala miro^^
The heari's thughr lha#Z on high s t r e ~ u T h t , ere u m ' s &e go, lum ir to twain.
7%esalt-wavy nunuli tmverse aime Disease or otdness or sword-hate
Moaneth o l w y my mind's lusr Beats out the b a i hfrom doom-grfppedbdy
Tkat Ifatrfot$h, ~ h a If afor &me And for this, every earl whntevet.for i b s e
Seek mt a fureign fasmess. Speaking @r -
For this fhre's M d - l o h man over earth's midst, L a d q f t h liwing, b t e t h some h t wod,
Not though he be given his god, birt will hnw in his puth gmed; Tlini he will wonk ere he p s o n d
Nor his deed to the daring, twr hh king to the faitAfi Fmme un the fuir earth 'gaimrfoes his malice,
~ have his scrrnowfor sea-&E
B MshZl h & g a&?, ...
Whateverhis lotd wilb So that a11 men shall honour him afer
He hfh nor &ri for hurputg, nor in ring-huving And his Inud i k m remain 'mid ihe EnglrPh.
Nor winsomeness to wife, twr world'~delight Aye, for ever; a lasrfng ire's blaPi,
Nor my whii ebe sm the waw's slash, Delight 'mid lhe d o t q h ~
h t longing comes upon him 10famf o ~ hon rhe water Ihys lÍitie durabie,
Bosque taReth blossom, cmeih òeauty of bewies, And all amgance of earihn fiches,
Fie& to faimss, land fures bri9ke1: There c o m mw no kings nor Caesars
Ail this advw~ishetkman eager of moai, Nor goM-givíng l d s like t h e gone.
The Aeart t m ro $mwiso rhat he then thinks Howe'er in mirth mcsi magn$ed,
On flood-ways ia be far dewrting. Wwe'er lkd in life mmt brdliesf,
Cicckoo callefi with g h y crying, Drwr ai1 rhis exisfencc, ddights LiRdumble!
He singeth sumtnerwatd boderh sormw, Wneth the watch, h ihe worid holtletk.
Ths bitter kart's Mood Burgker hows mt - T&nb hideth hvuók. TRe bhle is hyed Iow.
-
U e the prospemus man what some perform Earthy glory ageth and s@areth.
Whew waindering &em W&SI dmweth. No mnn at all goingtk earih's gait,
So that but now my keari burstj5-m my bwastlock, But age f a r i s against him, his face paleth,
My d 'm'd ihe mre-fiod Gwy-haid ke gmmietk kmws gone ~ómpanhm,
Lardly men, are to earlh o'ergive~, no corpo do texto por forma a retirar todo e qualquer pos-
Nor m y Ae then theflesh-cow~whose life ceaseth sível significado cristão. Assim, nos versos 73-81 da ver-
Nor eat ihe sweet twrfeel the sorry,
são de Pound 18-se:
Nor stir hand nor fhink in mid heat-t,
And t h o q h k s t m ihe gmve with gold,
His bani bmrhers, iheir kried b o d h And for this, evwy earl whatever, for those speaking after -
Be an unlikely I ~ U hwrd.
W Laud of rhe Iiving, tioasteth some 1x1word.
(Ezra Pound) That k will wotk ere he p w wward.
F m e on the fair earth 'gainst foes his malice.
Daring ado...
Em primeiro lugar, há que determinar aquilo de que So that all men shall honour him after
trata o poema: trata-se de um diáiogo entre um velho ma- And h i s laud beyond them remain 'mid the English.
rinheiro e um jovem ou um mon6logo sobre o fascínio do Aye, for ever, a lasting life's blast,
mar apesar do sofrimento passado pelo marinheiro? De- Ddight 'mid the doughty,
ver-se-ã entender a mensagem cristã como parte inte-
grante do poema ou estarão os elementos criscãos artifi- O cotejo com uma tradugão literal do mesmo passo
cialmente sobrepostos aos fundamentos pagãos? Em permite avaliar melhor o alcance das alterações introduzi-
segundo lugar, tendo o tradutor optado firmemente por um das por Pound:
determinado tipo de abordagem ao poema. resta-lhe ainda
a questão da forma da poesia anglo-saxónica: uma com- Wherefor ihe praise of living rnen who shall s p a k &r he is gme,
tbe best o f f m e after death for evtry man, is that he shwId stnw
posição baseada em complexos padrões & acento no inte-
ere he must depart, wwk on earth with bold deeds against hma-
rior de cada verso, a cisão do verso em duas partes e ainda lice of friends, against the devil. sa that hchildren of men may
os magníficos padrões de aliteração que percorrem tcdo o lata ewdt him and his praise tive afterwards m n g the angels for
poema, Qualquer tradutor deve, antes de mais, decidir o ever and ever, the jvy of life etemal. delight amid angels.Ib
que constitui a estrutura global (i. e., se deve ou não omi-
tir as referências cristãs) e, depois, decidir sobre o que fa- Deste modo, deofle togeanes [contra o demdnioj 6
zer ao traduzir um tipo de poesia que depende de uma sé- omitido no verso 76; mid englum [entre os anjos] fica mid
rie de ddigos inexistentes na língua de chegada. the English [entre os ingleses]; dugebum [anfcrriões de
A badução realizada por Kennedy limita-se aos pri- anjos] fica the doughq [os valtimsus].Numa alteração de
meiros 65 versos de um total de 108; par outro lado, a tra- alcance ainda maior, a tradução de earl [homem] por earl
dução feita por Ezra Pound compreende 101 versos e,
tendo omitido a conclusão, foi obrigado a fazer alterações
[conde] acaba por centrar o poema de Pound no sofri- Existe um vasto conjunto de bibliograf~isobre a ques-
mento de um indivíduo superior e não no sofrimento do tão da exactidão da tradução de Pound e seria possível in-
homem comum.A figura que emerge do poema de Pound cluir a versão de Kennedy no h b i t o do mesmo debate.
6 a de um exilado atingido pelo desgosto, destroçado mas Porem, tal como Pound afirmou relativamente a Homage,
não subjugado, que compara a sua vida solitasia no mar e não foi sua intenção produzir uma transcriçiio literal, e
a do homem uma atenta comparagão entre o original e a sua tradução
de Tlee Seafarer revela c k m n t e um elaborado conjunto
who aye in winsome iife de jogos de palavras que mostram um profundo conheci-
Abides 'mid burghm some heavy business,
mento da língua angfo-saxbnica. Parece que se pode dizer,
Wealthy aad \rrine-flushed,
[que leva uma vida gaiante, contudo. que uma proximidade linguística entre os siste-
mergulhado nos afazem ciWnns, mas de partida e de chegada não foi o principal crithio de
rico e libando vinhos generosos,] Pound. No pmm de Kennedy, s8o em menor número os
grandes desvios em relação ao original, mas também não
Mas ts figura retratada na versão de Kennedy, uma figura se pode dizer que a proximidade tenha sido um crittkio
que suaviza a agressiva repetição de I com o pronome corn central. O quadro seguinte pode conduzir vagamente a
função de complemento me e o determinante possessivo uma ideia dos critérios subjacentes is duns versoes:
my, C semelhante Sr de Ulisses, impelido por um insacigvel
desejo. Os iíltimos versos da versão de finnedy m o s m Porind
a figura ulissiana num processo & auto-superação, e a (11 Vem Uvre Presewaçb do aspecto
propositada tradugo de gifre [insatisfeito] pelo termo visual ti<>original
mais positivo eager [bvidoj (que Pound copia) altera o pela manutenção
equiIibrio do poema favorecendo a imagem do Seafarer da cisão do verso em
duas parta.
como uma personagem activa:
(2) Ilusão de preservação do Tentativa de ptepwar o
acento anglo-saxdnicoaaavts acento original mesmo B
Eager, desirws, the lone spite retumeth,
de versas cindidos e custa da monotonia no
It cries in my e m and it urges my heart
irregulares no texto traduzido. texto ttaduzido.
To the path of the whalc and h plunging sea.
[Avido, insatisfeito, o espírito âa solidão regressa 3 Complexos padrbes de P-s de aliteraçb menos
Grita aos meus ouvidos e impele o meu comçao aliteração supwficialmenit complexos.
Para a rota da Meias. para o mar volto,] Wmílares aos do original.
(4) Tentativa de arremedar a Alguma inversh e algumas (9) O poema tenta criar o 'sabor' O poema náo tenta
invmão da sintaxe palavras compostas. do verso angfo-sax6nico propositadamente reproduzir
germhica, iis palavras Ex.:sea-wave; eager-hearted. atrav6s do artifício da o 'sabor' anglesax6nic0,
compostas. os maismos, etc. reproduc;áoda forma. da
Ex.: m d - l o f r y man; bosque linguagem e dos padiões
taketh blossorn; any earth- fonkticos anglo-saxhicos no
weal etemal standetk. texto meta.
(5) Nenhuma tentativa de Utilização de uma linguagem (10) O poema tenta reprcduzir o O mesmo.
nmiernimr a linguagem, o do &uIo M. modo elegíaco do original.
que resulta num poema onde Ex.: landdubkc l've. Uso
a linguagem e a sintaxe são continuado de pronomes com Esta tabela não 4 de todo exaustiva, mas serve para
conquentemente arcaicas e função de wmplemento com m o s m alguns dos critérios que a andise das traduções
'eslmnhas'. arcaísmos. dando origem a
uma linguagem desniveladae
pode determinar. A versão & found aparenta ser a mais
heterogbnea. complexa das duas, porque parece operar em mais niveis
da que a de Kennedy; porém, ambos os poetas usam cla-
6 Tentativa de reproduç%odos Nenhum tentativa de
som do original. reprodu~ãodos bvns do
ramente o texto original como ponto de partia para a
origimL constnição de um outro poema com um sistema de signi-
ficação prõprio. As suas traduwes baseiam-se na inter-
(7) Poema concebido como Poema concebido como o
d+cristão. Enfase nos estudo de um individuo
pretaçiu que cada um faz do original e na configuraçüo
v d m s da força e da exilado. N h se tentam dessa interpretação.
perseverança, prdprios da eliminar as refefincias Hd quem defenda (cf. Longfellow, p. 120 supm) que a
cultura germinica anterior ao religiosas. mas a decisão & tradução e a interpretuçdo são duas actividades separadas
cristianismo. Omissiio dos tipenas mduir uma parte do e que é dever do tradutor traduzir o que 1Ii est8 e não 'in-
Qltimosversos; omiss3o ou poema evita quase todos os terpretar'. É óbvia a falhcia deste argumento: se cada lei-
modificaçãade todas as problemas dessa natureza.
referências a bus. h vida
tura C uma interpretaç8o. as duas actividades não podem
eterna, etc. separar-se. James Hol mes desenhou o seguinte diagrama,
muito útil para mostrar a inter-relação entre tradução e in-
(8) O poema tenta mostrar o Q poema tenta relacionar o
individuo num mundo mundo anglwnaxGa m m o terpretaçãa crítica:l7
distanciado em termos de mundo do leitor 1' HOLMES. Jnmes - Forrns of Vcrsc Trannlation and Ihc Translation of
tempo. espaço e valores. contempodneo. Verse F m . In HQLMES, Jamcs (ed.) - Thr N ~ t u woJTrmiIu~iun.The Hague:
Paris: Mouion, 1970.
Poema As traduções de T h Seafarer e do poema de Catulo
acima discutidas ilustram aigumas das complexidades en-
E~crftkom
Ihgw do poema
W o crltleo noutra
Paema inspirado
pw Poema
Poema awm de
I volvidas na tradução de poesia quando existe uma distân-
cia demasiada, em termos de tempo e de espaço, entre as
culturas de partida e de chegada. Todas as traduções re-
Ilngua outro p m a
flectern a leitura, a interpretação e a selecção âe critdrios
operadas pelos tradutores individuais e determinadaspelo
conceito de Junção quer da tradução quer do texto origi-
nal. Pelos poemas analisados, v+-= que nalguns casos a
modernização da linguagem e do tom foi prioritána en-
quanto noutros a caracterfstica dominante foi a arcaização
propositada. O kito OU o fracasso destas tentativas é dei-
A traduçáo de poesia situa-se no ponto axiaI onde vá- xado ao discernimento do leitor, mas o recurso a diferen-
nos tipos de interpretwh se interseccionam com vários tes mdtodos serve para realçar a ideia de que n3o há uma
tipos de imitação e derivação. O tradutor continua a pro- iínica maneira certa de traduzir um poema tal como não há
duzir 'novas' versries de um dado texto, não tanto para uma única maneira certa de o escrever.
atingir uma 'tradução perfeita' ideal, mas porque cada ver- Aié aqui a discussão limitou-se a sistemas longínquos
são anterior, sendo determinada pelo contexto, representa entre si. Quando consideramos a questão de traduzir um
uma leitura acessivel h época em que foi produzida, e, escritor contemporâneo, neste caso, um poema de Giu-
alem disso, t2 individual. As versões que Williarn Morris seppe Ungmtti (1 888- 1970), surgem outros problemas. O
produziu de Homero ou do Beowulf são idiossincrásicas poema k caracten'stico de Ungaretti na medida em que 6
p r duas razões: elas brotam do próprio sistema de priori- tão linear e despido quanto uma escultura de Brancusi e
dades de Morris e da sua opção pela linguagem e pelas extremamente intenso na sua aparente simplicidade:
formas arcaicas, mas são também vitorianas na medida em
que exemplificam um conjunto de cbdigos caracteristico
de um determinado periodo temporal. A grande diferença
entre uin texto e um metatpxtc) é que o primeiro se encon-
trafixado no tempo e no espaço e o segundo é variável. Há
somente uma Divina Coi~imedia,mas há iniimeras leituras
e teoricamente inúmeras traduções.
usar normas da língua italiana numa estrutura linguística
Un'aitra notte, inglesa. Acontece, assim, que a força do original de-
h quest'oscuro pende da reguhridade da ordem vocabular e a do texto
colle mani
ingles depende da estranhem.
g&e
distingue O problema da oonfiguraça0 espacial é particular-
iI mio viso mente difícil quando se trata de verso livre, pois a confi-
Mi vedo guração tem ela pr6pria significado. Para ilustrar este
abbandonato nd'infinito facto, se tomarmos a célebre frase sem sentido de Noam
Também tipica de Ungaretti é a configuração espacial do Chomsky - Colourless gresn idem sleep furiousiy [As
poema, u m a parte intrínseca vital da estrutura global, que ideias verdes sem cor dormerri furiosamente] - e a confr-
interage com o sistema verbal para construir a gramdtica gurarmos da seguinte forma:
especial do poema. Assim, a configumçio espacial 6 um
aspecto que o tradutor deve ter em conta, mas t! evidente
que não foi bem o caso nas versões abaixo reproduzidas.
(A) I n this dark IB) In this dark
with frozen hands with h u k
I malte out frozen a aparente falta de harmonia lógica entre os elementos da
my face I makt wt frase poderia ser aceitável, uma vez que cada 'verso'
my face acrescentaria uma ideia e o sentido global derivaria da as-
I see myself I see myself sociaqáo de elementos ildgicos numa estrutura regular
adrift in infinite space. abandoned in the infinite.
(Patnck Creagh) (Cbrles Torniinson)
aparentemente 16gica. O significado não seria, contudo,
determinado pelo conteúdo, mas pelos signos, porque
Na versão A hB apenas seis versos contrariamente aos quer as palavras isoladas quer a associação de ideias acu-
sete do original e da versão 3, o que se deve à proposi- mulariam sentido à medida que o poema fosse lido.
tada regularização da sintaxe inglesa no segundo verso. As duas tradugões do poema de Ungaretti tentam de
A versiio B, contudo, distorce a sintaxe da lfngua de che- algum modo configurar uma estrutura visual conforme ao
gada por forma a manter o adjectivo fmzen isolado no original, mas não deixa de se vislumbrar a disancia que
terceiro verso paralelamente ao original gelate. Esta dis- existe entre as sintaxes italiana e inglesa. Ambas as ver-
torção da sintaxe, que produz um efeito totalmente dife- sões inglesas parecem enfatizar o pronome pessoal I, por-
rente do do original, deriva de uma decisgo deliberada de que a estnitura da frase italiana pode dispensá-lo. Ambas
optam por traduzir distiriguu por mab our, o que altera o noutro." Sustenta, contudo, que, graças a uma das grandes
registo em Ingles. O último verso do poema, propositada- conquistas da investigação serniótica recente, esta visão já
mente mais extenso na versão original, também resulta não é aceitável uma vez que, de acordo com o conceito de
mais extenso nas duas versões, observando-se aqui, con- intertextuaiidde, todo o texto é em certo sentido uma tra-
tudo, uma grande divergencia entre as duas. A versão 8 dução:
mantém-se próxima do original ao reter o derivado do La-
tim nbrtdoned em oposição ao termo ang1o-sax6nico Todo e qualquer texto é um conjunto de deterroinadas transforma-
ções de outros textos, precedentes e circuiadantes, dos quais @e
adrifl da versão A. A versão B mantém o termo infinite,
atk não estar inteiramente consciente; o poema constr6i-se dentro
que na versão A é urna estrutura mais elaborada - infinite desses ouúm textos, contra eles e wrcorrendoos tran~versal-
space, uma opção que acrescentatambém um elemento de mente. E estes outros textos são, por sua vez, tecidos com ele-
rima ao poema. mentos textuais pré-existeotes, cujo momento primordial de '&-
A aparente simplicidade do poema italiano, com as gem' nunca poderá ser l~brigado.'~
suas imagens claras e estrutura simples. esconde o recurso
calculado ao que os Formalistas Russos designaram por O tradutor pode, portanto, libertar-se das restrições
osrranetzie, isto é, tomar estranho, ou conscientemente impostas pelas convenções que regeram a tradução em di-
adensar a linguagem de uma obra individud por forma a ferentes momentos da Hist6ria e iratar o texto responsa-
intensificar a sua percepção (cf. Tony Bennet, Fomlism velmente como o ponto de partida para o metatexto ou a
nrid Marxism. Londres, 1979). Nesta perspectiva, a vm3o leiturca-tdç& (uma leitura interlinguistica), uma vez
A, que vai em busca da 'normalidade' das estruturas lin- que, como se deduz dos exemplos acima analisados, o
guisticas usadas por Ungaretti, perde muita da força da- processo de tradução activa diferentes criterios, e todos
quilo que Ungaretti designa por 'imagem verbal'. Por outro envolvem necessariamente transfomiaQões expressivas ã
lado, a v e r s a B opta por um registo mais elevado, recor- medida que o tradutor se esforça por combinar a sua lei-
rendo a artifícios ret6ricos como a inversão da estrutura tura pragmhtica com os ditames do sistema cultural de
fr8sica e a utilizaçáo do vocábulo deivado do Latim no ã1- chegada. O leitor pode não gostar da versão que Frank
timo, longo verso, para, por outra via, rxdensar a linguagem. Copley criou de Catulo. muito ao estilo dos anos de 1950
Num breve, mas muito btil, artigo sobre tradução, ou do arremedo que E m Pound faz da poesia anglo-sax6-
Terry Eagleton observa que o debate se tem centrado na nica ou da versão levemente empolada que Tomlinson faz
nq8o de que o texto 6 um determinado dado "centrande
-se então a controvérsia em determinar que operações (li- l8 EAGLETON, nrry - h h t i o n and Tmsfortnation. Stand, 19 (31,
vre, literal, recriativa) são necessárias para o transformar p. 72-7.
de Ungaretti, mas ningdm pode deixar de reconhecer que She ihat me lerneth to love and suffer
os textos traduzidos resultam de um conceito de tradução And wiii that my mst,and lustes negligente
ponderado e concebido com uma precisa função em mente. Be rayned by reason, shame, and reverente
With his hardines taketh displeasure.
Antes de concluir este breve panorama sobre alguns Wherewithall. vnto the hertes forrest he fleith,
dos critérios que presidem h tradu~gode poesia. proponho Leving his enterprise with payne and cry
observarmos mais um texto t duas versões inglesas. todos And there hirn hideth and not appeth.
distanciados do leitor contemporâneo por v8t.ios séculos. What may 1 do when my maister Eereth.
Uma qualidade interessante destas traduções prende-se But, in the felde. with him io lyve and dye?
com o facto de os tradutores, ao optarem por manter e não For go& is the liff, ending faithfully.
(Sir Thomas Wyatt)
por substituir a forma do texto original, terem introduzido
uma nova forma no sistema & chegada, no caso, o soneto. Love lhat doth raine and live within my thought.
And buylt his seat withia my captive brest.
Amor, che nel pensa mio vive e regna Clad in the armes wherein with me he fowght
e '1 suo scggio rnaggior neI mio cor h e , Oft in rny face he doth his banner reirt.
hlor armato ne Ia fronte vbne, But she that tawght me love and suffcr paine,
ivi si laca, et ivi pon sua insegna My doubtfull hope and eke my hote desire
Quella ch'amarc e sofferir me 'nsegna With sahamfast lmke to shadao and refrayne,
e v01 che 'I gran desio, l'accesa s p , Her smyIing m e convertyth siraight to yre.
ragion, vergogna e reveren~aaffrene, And cowardt love than 10 the hen apace
di nostro ardir fra se stessa si sdegna. Taketh his flight where he doth lorke and playne
Onde Amor paventoso Fugge ai COE, His purpse Imt, and dare not show his face.
lasciando ogni sua impxesa.e píange, e irema; For my lordes gylt thus fawtless byde I payne;
ivi s'asconde, e non appar piS fore. Yet from my lorde shall not my foote remove.
Che poss'io fm, temendo i1 moi signore, Sweet is the deaih that taketh end by love.
se non siar seco in fin a I'ora estrema? (Surrey)
cM bel fin fa chi ben amando more.
(Francesco Petrarca) Quando comparados os três sonetos, o aspecto mais
The longe love, that in my thought dwh harbar
impressionante diz respeito ao grau de variaçao entre eles.
And in myn hert doeth kepe his residente O soneto de Petrarca é constituído por um grupo de oito
hto my face preseth with bold pretense, versos seguido por outro de seis e segue o esquema rim&
And therin campeth, spreding his baner. tico a b ba I a b ba / c d c I c d c. O soneto de Wyatt di-
vide-se de forma similar, mas o esquema rimático varia: momento?, acrescentando, no Silho verso, que aquele
abbalabba/cdc/cdd,oqueserveparaisotarosdois que morre amando acaba bem.
iiltúnos versos. O poema de Surrey varia ainda mais: a b n b No perna de Petrarca, o Amante apresenta-se como
/ c d cd / e c e c I f f e constitui-se em três conjuntos de tirnido, respeitoso e subordinado, quer aos desejos da Se-
quatro versos em crescendo até à parelha final. O signifi- nhora quer ao comando do Amor. Não & o sujeito, mas sim
cado destas diferenças de forma torna-se claro a uma lei- o objecto da acção, e a estrutura do poema - com uma
tura atenta de cada soneto. única utilizaçiç8o da primeira pessoa do singular da forma
O soneto de Petrarca começa com um conceito: o verbal, no final do poema - reforça essa imagem. O último
Amor? mestre e senhor do coração do sujeito poktico (o verso, uma elaborada expres&a verbal, enfatiza as vim-
Amante), é representado como um comandante militar des da passividade, ou melhor, do tipo de amor passivo
que coloca as suas insfgnias no rosto do Amante assim se que 6 enmmiado ao longo do poema Não basta, todavia,
tornando visível. A frase formada pelos primeiros quatro considerar este poema isoladamente; ele deve ser enten-
versos começa com a palavra A m r e termina com Amw dido como parte do C m n i e r e de Petrarca e, portanto,
mostrando as suas cores. Nos quatro versos seguintes há em articulação com os outros poemas da colectânea, atra-
uma mudança de perspectiva, centrando-se agora sobre vés & estruturas linguisticas, imagens e um padrão central
Quelh ch 'amame sofferir me 'nsegna[Aquela que me en- de configuração. Além disso, a atitude expressa pelo
sina a m r e a sofrer].De novo os quatro versos formam Amante neste poema (que se articula com a visao, vigente
uma Unica frase que começa descrevendo o desejo da Se- no século XíV, do papel do amor e da escrita) niio deve ser
nhora de que o Amante se reja pela razão, pela vergonha e tomada demasiado h letra. O leve humor irónico que per-
pela reverência e termina com o verbo si sdegna [desde- passa na descrição da derrota do Amor e da impotência do.
nha],a ideia principal h volta & qual o poema gira. O ter- Amante para dgo que não seja obedecer-lhe abala os sé-
ceto seguinte descreve a fuga de regresso do Amor ao co- rios princípios morais subjacentes ao poema. A voz do
ração, o seu receio pelo descuntentamento da Senhora e a poema tomado na sua globalidade 6, assim, diferente da
consequência,que é esconder-se. E, contudo, no terceto fi- voz do Amante.
nal que o Amante fala, dirigindo ao leitor uma pergunta di- A traduçaio de Wyatt opera uma série de transforma-
recta provocada pelo desespero de estar irremediavel- ç&s significativas, a comqar pelo primeiro verso, com a
mente ligado, numa relação feudal, ao seu Senhor, o adição do adjectivo longe, que trai a clara personificação
Amor. O que posso fazer, pergunta, se o meu Senhor re- do primeiro verso de Petrarca. Além disso, em Petrarca o
ceia (e eu receio-o a ele),senão ficar com ele at6 ao irttimo Amor '%v&e reina", em Wyatt o Amor "in my thought
do& harbour" [habita o meu pensamento]. 6 na versão de Amante formula o ideal alternativo de uma vida boa, En-
Surrey que a linguagem militar predomina; em Wyatt, a contramo-nos jh no mundo da polirica. do indivíduo mo-
terminologia do combate fica reduzida a uma terminolo- vido pela garantia da sua sobrevivencia, muito longe do
gia cerimonial. No segundo conjunto de quatro versos, h6 mundo petrarquiano da pré-Reforma.
outra transformação importante: no soneto de Petrarca a A tradução de Surrey mantém a linguagem militar do
Senhora está descontente com a audácia do Amor e do texto original, mas vai bastante mais longe. O Amante 6
Amante (di nostm nrdir) enquanto em Wyatt a Senhora "captyve", e ele e o Amor combateram frequentes vezes,
est8 descontente "with his hardhes". Na descrição da fuga Além disso, a Senhora não se encontra numa posição ina-
do Amor, Wyatt cria a imagem de "the hertes forrest" e, cessfvel, zangada pela exposição do Amor, Ela jB está con-
optando por substantivos ("with payne and cry") em vez quistada e apenas está descontente por aquilo que parece
de verbos, suaviza a imagem de humilhaçtção total e abjecta ser um fervor excessivo. Petrarca refere desio e spenc [de-
pintada por Petrarca. sejo e esperança], mas Surrey apresenta a paixão em ter-
E nus últimos versos que se torna nítida a distância mos fisicos, Quando a Senhora muda '%r smyling grace"
que separa Wyatt & Petrarca. Em Wyatt, o Amante faz para o descontentamento, o Amor foge, mas a sua fuga 6
uma pergunta que realtfçamais a sua coragem e boas inten- decididamente condenada pelo Amante. O "Amor co-
ções do que a sua impotgncia. A expressão italiana te- barde" (Coward bve) foge e na protecção do coração
mendo i1 mio signore contkm uma arnbiguidade (ou é o "doth lurke and playne". No 6ltimo verso do terceiro con-
Senhw que meia ou o Amante que receia o Senhor ou, junto de quatro. o Amante afirma claramente que 6 "ino-
muito provavelmente, ambos); em Wyatt, a afirmação é cente" Cfawtless)e que sofre por causa da "culpa do seu
.inequívoca: "my master fereth". O 6ltimo verso, "For senhor" (mylordes gylf).A decisão de dividir o poema em
good is the liff, ending faithfully", fortaiece a imagem de três conjuntos de quatro versos p i e ver-se como uma re-
nobreza do Amante. Enquanto em Peixarca o Amante pa- configuraçk do material. O poema não avança em cres-
rece descrever a beleza da morte através do amor cons- cendo para uma pergunta e para um iil timo verso sobre as
tante, em Wyatt o Amante sublinha as virtudes & uma boa virtudes de morrer amando bem. Em vez disso, termina
vida e de um final fiel. O que transparece do poema de com dois versos em que o Amante afirma a sua detenni-
Wyatt é 0 retrato de um Amante activo, corajoso e fiel, nação em não abandonar o seu culpado senhor mesmo que
para quem a expressão do amor e do descontentamento da tenha que enfrentar a morte. A voz do poema não se dis-
Senhora não se esconde de modo nenhum em temos mi- tingue da voz do Amante, e a ênfase no Eu. já presente no
litaristas. O Amor mostra as suas cores e é rejeitado, e o poema de Wyatt, é reforçada pelos passos do poema em
que h&uma nítida identificqão com a posição do Amante prosa literária. Uma explicação para este facto poderia ser
contra o mau comportamento do falso senhor Amor. o estatuto mais elevado da poesia, mas é mais provável
As duas traduções inglesas, produtos de um sistema que tal se deva h err6ne.a noção generalizada de que o ro-
s6cio-cultural imensamente diferente do da época petrar- mance 6,de certa forma, uma estrutura mais simples do
quiana, ajustam subtilmente (e &s vezes não tão subtil- que o poema e, consequentemente, mais fkil de traduzir.
mente) os padr6es estruturais e os padrões de significado Ai6m disso, abundam os testemunhos dos poetas-traduto-
do texto original. Na tradução de S w e y . as transforma- res relativamente mecodologia utilizada, não sendo tão
çaes são de tal ordem que parece que ele n b apenas tra- frequentes os testemunhos dos tradutores de prosa. Con-
duziu, mas propositadamente repudiou, os elementos do tuclo, como j l ficou demonstrado, há muito a aprender so-
texto original que não aprovava (por exemplo, a passivi- bre a determinação dos crit6rios que levam A realizaç80 de
dade do Amante, a insondãvel hierarquia que coloca o uma tradução.
Amante no degrau mais baixo da escada). Esta posição Durante muitos anos utilizei um exercício concebido
não teria cabimento numa sociedade que via como dese- para descobrir como 6 feita a abordagem da tradução de
j6vel o movimento de ascensão social. Mas no caso das um romance. Os alunos seío convidados a traduzir um ou
traduçks de Wyatt e de Surrey, tal como na tradução do mais parigrafos de abertura de um romance qualquer e as
poema de Catulo realizada por Jonson, os seus contem- traduçlks são depois discutidas e comentadas em grupo. O
porheos tê-las-iam lido activando um conhecimento que este exercicio tem demonstrado, vezes sem conta, 6
previ0 do original, e as transformações que t5rn sido con- que os alunos c o m e m frequentemente a traduzir um
denadas ao longo de gerações como tendo roubado algo texto que não leram previamente ou que apenas leram uma
a Petrarca teriam tido uma função muito diferente nos vez, algum tempo antes. Em suma, os alunos abrem o
círculos da intelectualidade culta do tempo de Wyatt e texto original e começam pelo princípio, sem terem em
Surrey. conta de que modo ele se articula com a estrutura global
da obra. Como vimos, seria inaceitiivel iniciar a traduçlio
de um poema deste modo. Esta diferença 6 significativa
porque ela mosira que, quando o texto ern causa é um ro-
mance, prevaIece uma concepçáo diferente acerca da dis-
Se no campo da tradução de poesia tem havido um ex- tinção imaginhia entre f m a e conteúdo. Parece que 6
tenso debate, o mesmo não tem acontecido no que respeita mais fAcil para o incauto tradutor de prosa considerar a
aos problemas especificas levantados pela tradução da forma e o conteúdo como instâncias sepurdveis.
Como exemplo do que pode acontecer quando o tra- uma marcada presença do narrador, e o mundo aqui repre-
dutor acentua o contetido 21 custa da estrutura global, ob- sentado partilha grandes afinidades com aquele que o lei-
serve-se o seguinte extracto, a abertura de uma tradu$b tor apreende aomo o seu próprio mundo racional.
inglesa da obra de Thomas Mann A Montanha Mdgica: O problema desta tradução toma-se visível quando se
compara com o texto original em Alemão e se mede a dis-
An unassuming young man was trayelling in midsummw, tância entre o texto original e o texto traduzido. O ro-
fmm hiç native city of Hamburg to Davos-Platz in the Canton of mance de Mann começa assim:
Grisons, on a three week's visit.
From Hamburg to Davos is a long journey - too Iong, indeed, Ein einfacher junger Measch reiste im Hachsommer von
for so brief a stay. It crosses all sorts of country; goes up hill and Hamburg, seiner Vaterstadf nach Davas-Pla~irn Graubundis
down dale, descenda from the plataus of Souihern Germany to chen. Er fuhr auf Besuch fur drei Wochen.
the sbres of M e Constante, over its bounding wavcs and on Von Hamburg bis dorthinauf, dar isl aber eine weiie Reise; zu
across marshes once thougbt to be bottornless.' weit eigentlich im Verhalmis zu einem so kunen Aufenthalt. Es
(h. H.T.LowsePoner) " geht durch rn&met Herren Lander, bergauf and bergab. on der
suddeutschen Hochebene hinunter zum Gestade des Jchwabi~
Esta acelerada e edrgica passagem, que consiste em chen Meeres wrd zu Schiff uber seine qningwde Weiien hh, da-
três frases com quatro verbos de ricção e movimento, ar- hin uber Scblunde. die fniher fur unergnindlicb galten.
rasta o leitor directamente para dentro & narrativa. Os
acertados pormenores da viagem e a duraçb da estada a Nesta passagem de abertura, 15 dada ao leitor uma sdne de
que se propõe o jovem ajustam-se ao juizo de valor do pistas que ihe fornecem a chave de alguns dos c6digos ac-
narrador acerca da brevidade da visita. Em suma, o que tivados ao longo do romance. O romance não se restringe,
aqui se nos apresenta é uma abertura descritiva forte, com obviamente, às limitações do mundo real e representa a
luta ideoldgica entre opostos dramgticos como saiide e
' U m rapaz simples viajava, em pleno verão. de Hamburgo, aua cidade
doença, democracia e reaccionarismo, e a acção situa-se
oatal. p r a Davos-Platz,no canta0 dos Grisões. h 18 dc visita, por t&s semanas. num sanat6rio onde as personagens se encontram 'em f6-
Mas. de Hamburgo até s w alturas a viagem 6 knga; dernasido h g a , na nas', distanciadas da luta pela existência. A viagem des-
vtrdade. para uma estadia tBo c- É prtciso amvessar diversos Estados, su-
bindo e dcsmda do planalto da Aiemanha meridional a J B beira do lago de
crita nas primeiras linhas funciona portanto em mais do
Construiçk cujas ondas saltitantes são trmsposia9 da navio. poh cima de abismoer que um nível: h i a viagem de facto do jovem; a viagem
outrora considmdos i n d v e i s , (MANN,Thomas - Montanha Mdgiço. Trad. simbólica atravts de uma nação; a viagem como metáfora
de Herbert Caro. Lisboa:Livros do Brasil, s . 4 p. 7.) [N.T,]
" Agradeça ao meu colega Tony PRelan por ter chamado a minha atenç8o
da demanda na quai o leitor esd prestes a embarcar.Além
para este exemplo. disso, na descrição da viagem Mann recorre propositada-
mente a artifícios (como por exemplo, o temo clássico I1 primo di giugno deli'anno smrso Fontamara rimase per Ia prima
Gestude para margem [show]),que evocam estilos pr6- volta senza iiiumínazione elettrica. 11 due di giugno, i1 tre di
giugno, i1 quatím di gíugna, Foniamaca continub a rimanere s e m
prios do sáculo XVIII, pois um outro grande vector que
illumimzione eleitnca. C081 nei givmi seguenti e nei mesi se-
atravessa O romance é a tentativa de juntar dois modos es- guenti, finchd Fontamara si riabirub a1 regime de1 chiam di luna.
tilfsticos: o lírico e o narrativo. A condwsação das esbu- Per arrivm dai chiam di luna d a luce elettrica, Fon- aveva
turas Frssicas de Mann levada a cabo pelo tradutor ingl&s messo un centhio di anni, attraveeso l'oiio di oliva e i1 w l i o .
reduz o número de niveis atravts dos quais o ieitor pode Per tomam dalia luce elettrica a1 chiam di luna bastb una serni.
(Fontamm, I. Sllone)
abordar o texto, pois a principal preocupação do tradutor
foi claramente a de criar a impressão de movimento r&- 00the first of June last year Fontarnara went without elecüic hght
pido. Assim, a segunda Crase foi integrada na primeira for- for the fifm time. Fontarnara remainedwithout elecaic light on the
mando uma iinica e a quarta frase foi reduzida amvés de secand, the third and the fourth of June.
So it continued for days and months. In the end Fonmam
omissões deliberadas @.rexemplo zu Schif- by bmt [de got u d to rnwnlight again. A century had e l a p d between the
borco]). Os termos estilizados que descrevem lugares fo- moonligbt era and the e l d c era. a century which imluded the
ram substituídos por nomes geogdficos directos e a lin- age of oil and that of petrol, but one evening was suficitnt to
guagem elevada de Mann foi substituída por uma série de plunge us back from elecúic light to the light of the moon.
( F o ~ m mG.. David e E. Mossbacher)
clichés pr6prios de um d a t o coloquial de uma viagem de-
masiado longa.
H&ainda outras variações. A apresentação do protago- O passo de abertura de Funtamam introduz imediatamente
o Ieitor no rono da obra, um tom que se mantém ao longo
nista logo na primeira frase de Mann em termos pmposi-
da obra através do artifício & uma série de narradores fic-
tadamente neutros constitui uma outra chave de Leitura
tícios cujos relatos Silone supostamente regi&. E é o tom
para o leitor; todavia, no traduzir einfaicher [comwn] por
umsuming [modesto, simples],o tradutor inglês introduz
- deprimido e levemente irónico mesmo na descri$& de
experiências emocionantes e dolorosas - que confere ao
um poderoso elemento caracterizador alterando a perspec- romance um carácter especial, No parágrafo de abertura, o
tiva do leitor. E B difícil não coiicluir que o tradutor inglk narrador descreve a transitoriedade do progresso, o modo
não teve uma percepgão adequada do significado do ro- como o longo e lento desenvolvimento da tecnologia que
mance. havendo atk mesmo um caso de e m de tradução: levou ã ligação de energia elküica numa pequena aideia
Sctaidde [abismos] traduzido por marshes Ipantanos]. de montanha pode ser contrariado numa única noite, e 6
O seguinte excerto constitui um exemplo & um tipo desse modo que o tom, ligeiramente trocista, quase resig-
diferente de desvio pela traduqão: nado, fica imediatamente estabelaido.
O texto italiano é constituido por cinco frases. As pri- quiai que começam por 'So it cmtinued' e 'In the e&.
meiras duas abrem com referências temporais - i1 primo di Mas a junção de duas frases originais numa iinica e longa
giugno situa o começo & narrativa numa data detemi- frase, criando uma estrutura pesada, acaba por provocar a
nada; i1 due di giugm abre a frase que desenvolve a afir- perda do movimento representado no texto original. Os in-
mação abrupta inicial e conduz o leitor no tempo. A ter- fmitivos arrivare e t o m w tornaram-se em elapsed e to
ceira fiase volta a abrir com uma referência temporal plmge back, a frase attraverso l'olio di oliva e i1 petrulio
agora caracterizada pela primeira palavra em registo colo- foi expandida (mas nem por isso ficou mais clara) em a
quial cosi e avança ainda mais no tempo futuro, por se- cenlacty which included the age of oil und bhat of psrt-ril. O
manas e meses. As últimas duas frases abrem a b a s com termo era introduz uma nota discordante, a inversão da ú1-
locuç&s verbais de movimento: per arrivare e pcr for- tima parte da frase provocou a perda de todo o impacto
naw, que resumem a ideia exposta no parhgrafo de aber- das ÚXtirnas palavras do original e a introdução do pm-
tura sobre o movimento lento da evolução tecnoldgica nome pessoal irs torna ainda mais incongruente a mudança
comparado com a velocidade com que essa tecnologia de registo entre as quatro primeiras frases e a última.
pode ser abandonada. A linguagem deste parágrafo é, as- Houve, certamente, uma tentativa de estabelecer padrões
sim, enganosamente simples e o tom quase coloquial ca- de repetição no texto inglCs (por exemplo, a repeti* de
mufia uma passagem densamente ret6rica, cuidadosa- em e de cenfury};porém expressões como chiam di Lmc~aa
mente estruturada em crescendo até ao climax e utilizando e luce elerttica não lograram uma traduçgo consistente.
uma s6rie de p-s de repeti$& (por exemplo, as vhias Em suma, com tantas incongru€ncias, é difícil perceber
expressões temporais, outras como ilhminazione elet- quais os critérios subjacentes Zt traduçgo inglesa, O que,
trica, luce elettrica, chiam di lunu, etc.). por outro lado, 6 bem visível é que os tradutores ingleses
A tradução inglesa não manteve o padrão de cinco fra- não deram a atenção devida função dos artiffcios estiiís-
ses, iniciadas quer por uma locução temporal quer por um
ticos usados por Silone.
verbo de movimento. Em vez disso, a segunda frase rea- DesenvoIvendo o conceito de Roman Ingden dos
liza uma inversão colocando as locuçaes temporais no fim 'correlatos intencionais da frase', que constituem o mundo
- uma opção que se enquadra no modo estiiistico & lín- presente no texto literário,lg Wolfgang Iser observa que
gua inglesa - e as outras tr&s frases são formadas divi-
dindo uma frase originai em duas e juntando outras duas
frases originais. Esta estratégia resulta bem na primeira
instfincia, criando duas breves afimagões em tom c o l e
os correlatos intencionaisrevelam subtis conexões que individud- negativa que ressaltam das primeiras frases de uma obra
mente são menos concretas do que as dumaç2les. as alegações e volumosa. No entanto, o que é preciso deixar claro que,
as ob~rvaç&s,apesar de estas sá assumirem a sua 1-4 significa- apesar & enorme influência de que disfmtou a anáiise da
ção atraves da interaqãa com os seus corre lato^.^ narrativa desde a primeira teoria da prosa de Shlovsky, h6
obviamente muitos leitores que ainda aderem ao principio
Iser continua dizendo que a b e não consiste apenas num de que um romance consiste sobretudo num conte& ma-
enunciado "mas visa algo para afkm daquilo que real- terial pamfmsedvcl que pode ser dicectamente traduzido.
mente diz", uma vez que as frases de um texto literfio E, ao mesmo tempo que há um consenso sobre a impro-
"constituem sempre uma indicação de algo que esth para priedade de u m a par#rase em prosa de um poema, o
vir e cuja esbutura C prenunciada pelo sw conteúdo espe- mesmo não acontece quando se tra&a de um texto em
cifico". Nesse caso, se o tradutor se ativer apenas ao con- prosa. Vezes sem conta os tradutores de prosa nã9 medem
teúdo específico da frase, o produto perderá dimensão. No esforço6 para criarem textos leglveis na lingua de chegada,
caso das tradu* inglesas dos textos acima referidos, as evitando a afectação que pode decorrer de uma colagem As
frase.s parecem ter sido traduzidas cada uma por si e não estruturas sintgcticas da língua de partida, falhando, no
coma partes integrantes de uma estrutura global. Para usar entanto, em não considerarem o modo como cada frase faz
a terminologia de PopoviZ, as versões inglesas exibem vã- parte de uma estrutura global. E, ao apontar esta deficiên-
rios tipos de framformqionegativa envolvendo: cia, que B antes de mais uma deficiencia de leitura, creio
que mais do que ajuizar deste ou daquele trabalho indivi-
1. tradução inexacta da informação; dual, tenho em mira toda uma área da tradu@o que precisa
2. 'sub-interpretação' do texto original; de ser examinada.
Hilaire Bellw2' delineou seis regras gerais para o tra-
3. interpretação superficial das conexões entre os cor- dutor de textos narrativos:
relatos intencionais.
1) O tradutor não deve 'arrancar' palavra por palavra
Tendo começado por afirmar que pretendia evitar jui- ou frase por frase, mas deve " p d e r sempre por
zos de valor sobre esta ou aqueIa tradução, pode parecer blocos". Deve considerar a obra como uma unidade
que me desviei do plano wiginal. Por outro lado, pode integral e traduzi-la por seoções, perguntando-se
parecer injusto enfatizar tanto os casos de transformaçW "antes de cada uma, qual o sentido total que deve
transferir".
ISER, Woifgang - The Implied Reader. BaltimorelLondon: The lohns
Hopkins Pms,1974, p. 277.
" BELLOC,Hilaire - On Tm~shion.Oxford: The Ctmdon Pms, 1931.
2) O tradutor deve traduzir expresszu idiomática por cia nas duas línguas, mas que reaimente não tem,
expressão idiumárica "e as expressões idiomAticas como por exemplo, o verbo francês derminder (per-
requerem, por natureza, uma tradução para uma guntar), erradamente traduzido para InglBs por to
forma diferente da do original". A este prophito, cdemuncd (exigir).
Belloc cita o caso da expressão grega "Pela Cão!"
5) Belloc aconselha o tradutor a bhnsmutarousada-
que, se traduzida literalmente, resuIta simplesmente
mente", sugerindo que a essência da tradugão 8: "a
cómica em Ingiês ["By the Dog!"] e sugere que a
ressurreição de um objecto estranho num corpo na-
expressão "By God!" d muito mais adequada. Do
tivo".
mesmo modo, continua Belloc, o presente histbrico
francês deve traduzir-se em InglCs pelo passado e o 6) O tradutor nunca deve embelezar.
sistema francês pelo qual se define uma proposic;ão
colocando-a na forma de uma pergunta ret6rica não As seis regras de Belloc contêm questões de rkcnica e
pode ser transferido para o Inglês, onde o mesmo questões de principio. A sua ordem das prioridades é um
não se aplica. pouco curiosa, mas fica bem acentuada a necessidade de o
tradutor considerar o texto narrativo como uma entidade
3 ) 0 tradutor deve traduzir "intenção por intenção",
estniturada, tendo sempre em conta as exighcias estilisti-
tenda em mente que "a intenção de uma frase numa
cas e sintacticas da língua de chegada Bellac reconhece
língua pode ser menos ou mais enffitica do que a
que há uma responsabilidade moral relativamente ao origi-
forma da frase". Por 'intenção', Belloc parece refe-
nal, mas acredita que o tradutor tem o direito de alterar sig-
rir-se ao peso que uma dada expressão pode ter
nificativamente o texto no processo de tradução por forma
num contexto particular na LP que seria despropor-
a oferecer ao feitw da LC um texto em conformidade com
cionado se fosse traduzido literalmente para a LC.
as normas estilisticas e idiodticas que lhe são pr6prias.
Cita virios exemplos em que o peso da frase na LP
A primeira regra & Belloc, na qual discute a necessi-
6 claramente maior ou menor do que a tradução li-
dade de o tradutor dividir o texto em blocos, levanta
teral na LC. Na tradução da 'intençb' é frequente-
aquele que é talvez o problema central do tradutor de
mente necessário acrescentar palavras que não esta-
prosa: a dificuldade de determinar unidades de trudqão.
vam no original em nome de uma "conformidade
I? evidente que o texto, numa relação dialktica com ou-
com o espírito da língua".
tros textos (ver intettextmlidade, supra p. 134) e situado
4) Belloc alerta contra osfalsus nmigos, aqueles vocá- num contexto histórico específico, é a unidade principal.
bulos ou estruturas que parecem ter correspondên- Mas se o tradutor de poesia pode mais EaciImente dividir
o texto em unidades traduzíveis, como versos, estrofes, es- tem atormentado gerações de tradutores. A recente tradu-
t3ncias, o tradutor & prosa enfrenta uma tarefa bem mais ção, por Caíhy Porter, da obra L Ã l w of Worker Bees, de
complexa 6 certo que muitos romances se dividem em Alexandra Kollontai, contém a seguinte nota:
capitulas e secções, mas, como Barthes demonstrou com
a sua metodoiogia dos cinco c M g o s de leitura (ver S/Z, Os russos têm um primeiro nome (o nome de baptismo), um pa-
discutida por T. Hawkes - Stmcturalism and Semiutics. mírnico e um apelida. Normalmente trata-se uma pessoa pelo
seu primeira nome mais o patronimico: Vasilisa Dementevna. Ma-
Londres: 19771,a atnitura de um texto narrativo não é de
ria Semenovna. Há ainda abreviqões mais íntimas dos primeiros
modo nenhum tão linear como a divisão em capítulos nomes, que tem subtis matizes de afecto, de superioridade ou de
pode levar a pensar, Se o tradutor toma uma frase ou um amizade. Assim, por exemplo, Vasiiisa muda-se em Vasya ou VS-
parhgrafo eomo unidade mínima e a traduz sem atender ii yuk Vladimir torna-* Voldya, Voldka, Volodechia ou Volya."
sua relação com a totalidade da obra, wrre o risco de pro-
duzir um texto na língua de chegada como aqueles acima A tradutora explica convenientemente o sistema d ~ no- s
referidos, em que o conteúdo parafraseável foi traduzido mes russos; porém, esta nota de pouco serve ao longo do
h custa de todo o resto. processo de leitura, pois Cathy Porter mantem na texto
A solução para este dilema deve, mais uma vez, ser traduzido as variações dos nomes e o leitor inglês é por
encontrada na função quer do texto quer dos artifícios t4c- vezes confrontado, numa única psgina, com uma descon-
nicos nele utilizados. Se os tradutores de Silone tivessem certante profusão de nomes referentes todos h mesma per-
considerado a funçiio do tom, teriam percebido por que ra- sonagem. Em suma, o sistema da Ifngua de partida foi
zBo o cuidadoso padrão rethrico do par&&~ de abertura transposto para o sistema da língua de chegada, onde mais
precisava de urna observação mais atenta. Do mesmo não faz do que provocar confusão e obstniir o p e s s o de
mado, se a tradutora de Mann tivesse considerado a fun- leitura. Por outro lado, como observou Boris Uspensky no
ção da descrição, quer do jovem quer da viagem, ela teria seu precioso livro A Puetics of Compasifi~n?~ em Russo
percebido as razões que determinaram a escolha do registo as variaçks dos nomes podem denotar mudanças de
de linguagem. Todo o texto se c o m e de uma série de ponto de vista. Falando de Os Irmãos Kummazov, por
sistemas concatenados, tendo cada um ddes uma função exemplo, Uspensky mostra como as v~~ dos nomes
deteminhvel em relação ao texto inteiro, e a tarefa do tra-
dutor é apreender estas funções. " -
KOWNTAI. Alexmh Law of %&r Bees. W. Cathy ibtcr.
Landmx V-. 1977. p. 226.
Considere-se,como exemplo, o problema da tradução -
USPENSKY, BOtis A h t i c s of C o m p h ~ d hh
. A n g e k Univer-
dos nomes pr6prios em textos russos, um problema que si@of Califomia Resa, 1973.
podem indicar milltiplos pontos de vista h medida que língua de partida e a língua de chegada deve ser descar-
uma personagem é focalizada por outras personagens do tada. O tradutor deve, portanto. em primeiro lugar, deter-
romance e a partir do interior & narrativa. No processo minar afição do sistema da língua de partida e prmurar
de tradução 6, portanto, essenciai que o tradutor considere um sistema na iingua de chegada que cumpra essa mesma
a função dos nomes e não o sistema propriamente dito. função. Levf formulou as questões centrais que se depa-
Não serve de muito ao leitor ingl6s encontrar miíltiplas va- ram ao tradutor de textos narrativos quando perguntou:
riantes de um nome se ele não estiver ciente da fhngiio
dessas variantes e, uma vez que o sistema dos nomes em Que grau de utilidade 6 atribuido aos vhios artifícios estilisticos
hgl&sé completamente diferente, o tradutor deve ter esse e à sua preservação em diferentes tipos de literatura...? Quai é a
facto em conta e proceder como sugere Belloc, traduzindo importhcia relativa dos pa-s lingufsticos e da estiIo em dife-
rentes tipos de literatura...? Que ideia terão feito os tradutores de
"expressão idiomitica por expressão idiomática". diferentes t ~ a e sde diferentes tipos de textos do pública a quem
O caso dos nomes próprios em Russo B apenas um digiarn as suas t r a d ~ ç õ e s ? ~
exemplo do problema que consiste em tentar transferir um
sistema da Ungua de partida para urna língua de chegada
que não tem um sistema comparável. Outros exemplos se- A TRADUÇAO DE TEXTOS D R A ~ T I C O S
riam as formas dialectais ou os artificios linguisticos pró-
prios de uma região ou de um grupo sociai. Como a f m a No que respeita aos estudos tradutol6gicos orientados
Robert Adarns, de forma algo displicente: para os modos literários, se 6 certo que a maior parte se
centra nos problemas envolvidos na tradução de poesia 1í-
Paris náo pade ser Londres ou Nova Iorque, tem de ser Paris;
o nosso h d tem de mr Piem e não Peter; tem de bcber um 'ape-
rica, também é verdade que os textos dramáticos ttm sido
ritif' e não um 'cocktail'. fumar Gauloises e não Kents e descer muito esquecidos. H&muito poucos dados sobre os pro-
a rue du Bac, não a Back Srtet. Por oum Iado, quando ele E apre- blemas específicos da tradução de textos'dram8ticos e os
sentado a uma senhora, soará ridlculo se disser 'encantado, Ma- testemunhos dos tradutores que o fazem deixam muitas
dame"." vezes pensar que a metodologia usada no processo de
tradução d a mesma com que são abordados os textos
No debate sobre a equivaiência (cf. supm p. 5 0 6 1 ), fi- narrativos.
cou demonstrado que qualquer noção de igualdade entre a

ADAMS, R h n M.- Pmteu, Hit fies. His T r ~ i kNew


. Yotk:W. W. " L E V ~Jifl
, -Translation a i a Wecisirin Procesli. Tu Honour Rornari
Morton, 1973, p. I S. luhbson III. Tht Hagut: Moutm, 1967, p. 117 1-82.
B todavia, mesmo uma reflexão superficial sobre o as- Como ficou demonstraâo, o perigo de uma atitude
sunto é suficiente para mostrar que o texto dramátioo não como esta 6 imediatamente 6bvio. A primazia do texto es-
pode ser traduzido como um texto m t i v o . Para comqar,
crito conduz ao pmsuposto de que hB uma só leitura c e m
a leitura de urn texto drardtico é diferente. Ele 6 lido
e, logo, uma só maneira cerra de o representar, caso em
como algo irocomp!eto e nBo como uma entidade inteira-
que o tradutor de textos dramAticos estaria muito mais
mente acabada, pois 6 s6 no espectáculo teatral que todo o
preso a um modelo pré-concebido do que o tradutor de
potencial do texto é actualimdo. O que colma ao ímdutor
poesia lírica ou de textos nanativos. Alem disso, qualquer
um problema centrai: traduzir o texto como um texto pu-
desvio do encenador ou do tradutor ficaria sujeito a um
ramente literário ou tentar traduzi-lo na suafunção & mais
juizo de vdor que consideraria ambm as 'traduçSes' como
um elemento de outro sistema mais complexo. Como tem
mais ou menos desviantes em relação norma correcta.
demonstrado a semidtica teatral, o sistema iingufstico d
apenas mais um componente opcional numa concatmação Uma noção de teatro que n8o considere o texto dramático
e a representqão teatral como indissoluveimente ligudos
de sistemas que compõem o espectdculo. Anne Ubersfeld,
por exemplo, afirma que d impossivel separar o tato da conduzir8 inevitavelmente h discrirninqtção de todo aquele
repmsentagão teatral, uma vez que o espxáculo teatral que parecer ofender a pureza do texto escrito.
consiste numa relação áialéctica entre os dois, e demons- Além disso, o texto dramático é um elemento funcio-
trou t a m b h que foi a distinção artificial entre os dois que nal no processo total que constitui o teatro, e as suas ca-
conferiu ao texto literário um estatuto mais elevado. A su- racterlsticas distinguem-no do texto que 6 escrito para ser
premacia do texto litefio teve como resultado a percep lido. JZí VeltmsQ mostrou como certas caracterfsticas do
ção do esptáculo teatral como uma mera 'tradugão': texto dramático são distintivas, apontando, por exemplo, o
modo como os diaogos se desenrolam, no tempo e no es-
A t a d a do encenador e, portanto. 'traduzir pam outra linguagem' paço, e sao sempre integrados na s i w ã o extralinguística,
um texto~cwnoqualtemo&verppinaeio&ser'fieI'.htap que compreende os cen&ios bem como as personagens:
si* baseia-se no conceito da equivulência ~mâttticaentre o texto
ã o apenas o 'modo da expressão',
escrito e a sua ~ ~ i a ç teaeal; A klação entre o didiogo e a situaçiio extraliaguistka € intensa
no seriti& hjelmslevíana do termo, será alterado; a forma e o con- e reciproca. A siuiação fornece frequentemente o tema aos di8-
teddo da expressão permaneceráo idgnticos na eanspsi@ode um logos. Mais do que isso, seja quaI for o assunto, a situaçao ex-
sistema de signw textuais para um sistema de signos teatrais" tralinguística interfere nos di8logos de várias maneiras; afec-
-. tando o seu desenrolar, provocando mudanças ou reveses e, por
" UBERSFELD, Arme - i i w le thmre.Paris: Editions Socialcs, 1978, vezes, mesmo uma intemipçao. Por seu lado, o diálogo ilumina
-
p. 15-16. Veja-se tambem E M ,Keii Semiotics ofThentre mid Dmnsa. h n - progressivamente a situação e frequentemente a modifica ou
don: Methuen, 1980. transforma. O verdadeiro seritido de cada unidade individual de
significado depende tanto da situação extraIinguística coma da prd-requisito, espera-se claramente que ele faça algo dife-
contexto linguístico."
rente do tradutor de outros tipos de texto. A noção de que
o texto escrito possui uma dimensão extra que o wadutor
Por outro lado, o texto caracteriza-se pelo ritmo, pela en- deve descortinar pressupõe, mesmo assim, uma distinção
toa@~,pela sonoridade, pelo tom, por M o s estes elemen-
entre texto e espectáculo teatral, entre escrita t concreti-
tos que podem não ser directamente apreendidos por uma zação cenica. Pareceria mais 16gic0, portanto, partir do
leitura h c t a do texto isoladamente. Num dos raros arti-
principio de que um texto drmitico, concebido para ser
gos sobre tradução para act0res,2~Robert Corrigan afirma
representado, possui características estruturais distintivas
que a todo o momento o tradutor tem de ouvir a voz que
que o tornam representãvel aqdm e dkm das orienta@es
fala e ter em consideração o &ter gestual da linguagem,
da encenação. Consequentemente, o tradutor tem de de-
o ritmo e as pausas que ocorrem quando o texto escrito €
falado. A este respeito, Robert Comgan aproxima-se do
terminar quais sfio essas característicase traduzi-las para a
conceito de discurso teatral de Peter Bogatyrev. Debatendo lingua de chegada, mesmo que isso implique crarisforma-
ções significativas nos planos linguístico e estilistico.
a função do sistema linguístico no teatro em relação com a
experihcia total, Bogatyrev declara que: A questão da representabilidade na tiadução com-
plica-se ainda mais pela evolução da concep$ão de repre-
No teatro, a expressão linguistica d uma estrutura composta & sig: sentação teabal. Consequentemente, a produção contem-
nos lingufsticos e outros. Por exemplo, o discurso teatral, que deve porânea de um texto de Shakespeare ser8 enfomada pelos
ser o signo da situaçao mia1 da personagem, t acompanhado pela desenvolvimentos ao nível dos estilos de representar, do
enunciação gestuaI do actor e completada pebguarda-roupa, pelo espaço de representação, do papel do p6biico e dos dife
cenário, etc., que são também signos de uma situação ~ o c i a l . ~
rentes conceitos de tragédia e comédia que ocorrem
desde a dpoca de Shakespeare. Além disso, os estilos de
Uma vez que o tradutor de textos dram8ticos se con-
representação e os conceitos de teatro também variam con-
fronta com o crithio adicional da represeníabilidade como
sideravelmente nos diferentes contextos nacionais, o que
introduz ainda um outro elemento que o tradutor deve ter
-
VELTRUSKY, JiH Dmma as Utemiiim. Lisse: Peter de Ridder Press.
em conta.
1977. p. 10.
2B CORRIGAN. Roben - Translating for A c i m . In ARROWSMiTH, Como exemplo ilustrativo de algumas das complexida-
W.:SHATIUCK. R. ( d a . ) - The CmB and Conftxt o j Trunslation,Auslin: des envolvidas na determinação dos criikios para a tradu-
University of Texas h s s . 196 1.
BOGATYREV, Peter - Les signes du tMtre. PoBiqus. VIII, 1971. ção de um kxlo dramático, considere-se a vexata quaestio
p. 5 17-30. de Racine. o dramaturgo clássico francCs. Um olhar pelrts
traduções inglesas revela imediatamente um facto signifi- envolvidos na traduyão de textos dramáticos, citei alguns
cativo: os textos foram traduzidos isoladamente (por exemplos de transfonnação tradutória em que o problema
exemplo, o caso das traduções de Esther e Belênicc por residia na divergência relativamente aos padrões gesfwis
John Masefield) ou como parte de uma edição de obras das duas línguas envolvidas. resultando isso na dissolução
completas (por exemplo, o caso de R. B. Boswell, a pri- de estruturas essenciais do texto da língua de partida. A
meiro tradutor da obre racineana). Esta distinção mossa tradução, por Ben Belitt, de F u l ~ o yr Muerte de Juaquín
que alguns desses textos foram traduzidos tendo em mente Murieta, anteriormente referida (cf. supra, p. 132), 6 um
a sua representação teatral e outros foram traduzidos sem bom exemplo de um caso em que o tradutor alterou a base
essa preocupação. fi sustentável que o volume das 'peças ideolbgica do texto atravis de uma ênfase excessiva nos
completas' twha sido produzido a pensar num pilblico lei- critérios extralinguisticos- no caso, segundo o prefácio de
tor e, portanto, a Iiteralidade e a fidelidade linguistica te- Belitt, as expectativas do público americano.
nham sido os principais critérios. Na formulação de uma Se ateniarrnos no verso de abertura da Fedra de Ra-
teoria da tradução de team deve, contudo, ter-se sempre cine - LR dcissein en e31 pris; je pars, cher Théram2ne -
em conta a concepção de expressão linguística de Bogaty- imediatamente aflora uma série de problemas semhticos,
rev, e o elemento iínguistioo deve ser traduzido tendo em sintácticos e estilísticos, acrescidos das dificuldades rela-
mente a sua função no discurso teatral na sua totatidade. tivas As cconvençfies do teatro clássico francês e aos pÚ-
As dificuldades da tradução para o teatro conduziram blicos imensamente diferentes da França do séc. XVII e
a uma acumulação de crítica que ora ataca a W u ç ã o da Inglaterra ou da Amkrica do século XX. O mesmo
como demasiado literal e irrepresen~velora demasiado li- verso & traduzido da seguinte forma por três iradutores
vre e desviante em relação ao original. Por exemplo, o p e ingleses:
sado pedantismo de muitas versões inglesas de Racine
constitui um testemunho acabado do e m da literalidade I have m l v e d , Thrroinenes. to go. (John Caimcmss)
excessiva, mas o problema de definir 'liberdade' na tradu- No,tio, my jrienl. we 're o#. (Robert Lowell)
ção de teatro e mais dificil de discemir. Num pequeno ar- No. No. I can't. Hoiu cuti I sruy? (Tony Hanison)
tigo" em que apresentava alguns dos problemas básicos
As três versões traduzem a intençãro de Hipólito de
BASSNEiT- MCOUIRE. Sum - Translating Spatid Poetry: An Exa- partir, mas só as duas primeiras veiculam como factor
mínatíon wf Theatre Te~tsin Perfonnancc. I n HOLMES. James; LAMBERT,
Jost; BROECK,Raymond van den (eds.) - L i t e r n r u ~Md 7hsIa1iion. Lou- chave a rela~ãoentre Hipólito e o seu amigo TerAmenes.
vak ACCO,1978. p. 161-80. Ao nível estilistico, a primeira e a terceira versões seguem
a prdtica corrente de traduzir por verso branco o alexan- atribuída. Na Epistola, Crowne não mediu esforços para
drino francês, uma vez que os dois tradutores têm,nos res- justificar a tradução (aiegando ser d a da autoria de um
pectivos sistemas linguisticos, essa medida do teatro clk- 'Jovem Cavalheiro') e para explicar por que é que a pro-
sico. Em termos de teatro, apenas a segunda e terceira dução não tinha sido bem sucedida. Crowne atribui o fra-
versões traduzem a estrutura gestual subjacente ao texto casso da peça não ío tradução, embora reconheça que a
francês - o ritmo inscrito na Iinguagem que determina o versão inglesa não havia adoptado a forma versificada,
desempenho fisico do actor. Jean-Louis Barrault observou mas As expsctativas do público que, acostumado a uma
que o verso de abertura da Fedru condizia com o ritmo das dada tradição teatrai, não correspondeu aos maneirismos
passadas & Hipólito, assegurando que ele estaria na mar- & tradição do mtro francês. Contudo, menos de quarenta
cação correcta ao pronunciar a palavra 'Thbramène'."' No anos depois, a vers8o de Ambrose Philips de Andrdtnucu.
primeiro verso do texto original. há uma €&e e uma de- intitutada 7'he Distres'f Mother, foi um sucesso tão grande
terminação, reforçadas nas duas partes do verso, que atin- que continuou em cena ao longo do stculo X V U , sendo o
gem o clfmax pelo recurso ao nome pr6prio. Quer a se- papel principal muito cobiçado pelas principais actrizeu
gunda quer a terceira vers&s inglesas tentam recriar esse inglesas desse peri'odo. O que é que havia feito miilips
efeito recorrendo a artifícios como a repetição e a per- para transformar em tão grande sucesso uma peça ante-
gunta retórica, veiculando o sentido do verso original e re- riormente julgada contriiria ao gosto inglês?
produzindo um padrão gestuai. Em suma, o processo de Em primeiro lugar, Philips alterou substancialmente a
tradução envolveu não apenas a transferência de uma se- peça, reduzindo o texto em alguns pontos, acrescentando
quência iinguistiça da língua de partida para a lingua de falas e mesmo cenas inteiras no fim dos actos TV e V, e in-
chegada ao níveI do significado do discurso, mas tambtm cluindo uma cena final que conduz a um final feliz. &ta
uma transferência da função do enunciado Linguístico em percepção da tragddia de Racine provocou algumas críti-
articulação com os outros signos componentesdo discurso cas que acusavam a tradução de Philips de desviante, mas
teatral.
Philips explica muito claramente no Prefácio por que ra-
A primeira versa0 inglesa da obra Andrdmaca de
zão sentiu a necessidade de adaptar o texto de Racine:
Racine, representada em 1674, apareceu impressa no ano
seguinte acompanhada de uma Epístola ao Leitor, da au- Se eu tiver sido =paz de manter as Graças de Monsieur Racinc na
toria de John Crowne,a quem a tradução era geralmente minha Tentativa e não o tiver prejudicado com as Litierdades que
frequentemente tomei para adaptar um tão grande M a , não ierei
'' BARRAüLT, Jean-Lmis - PMdm de Jean Racinc, mise en s d t w ti razão para não ficar satisfeito com o Trabalho que tive em levar a
cammenioims. Paris: editions du Seuil, 1W. mais completa das suas obras ao p a h inglês.
Aparentemente, os principais critérios de Philips para a respeitar a estrutura de superfície do texto original, mas ao
tradução foram: facto de o badutor recriar em termos teatrais a estrutura
profunda da cena. Por exemplo, o longo mondlogo de
1 ) representabilidade; Orestes é reduzido, porque as convenções teatrais inglesas
2) a articulação da peça com as convenç6es do teatro não incluíam mon6logos tão extensos. Píiades tem mais
do seu tempo (um teatro que re-estruturou Shakes- falas e toma mais a feição de amigo do que de figura de
p e m ao serviço do cânonc, do decoro e do bom contraste, porque a figura do confidente não era tfio bem
gosto);
aceite no palco inglês. Para usar a terminologia de James
Holmes, Philips estabeleceu uma hierarquia de cnrres-
3) clareza nas inter-relações entre as personagens. potrdênciu.~~~, em que o texto i encarado como um ele-
mento adaptável na produção do espectáculo teatral.
Ao reconhecer que um cuidadoso equilíbrio entre perso- A versão de Tony Harrison, do século XX, Phuedra
nagens, cenas e falas, tão importantes no original, não te- Brittanicn, realizada em 1976, adopta critérios similares.
ria nenhum significado em Inglês - ou, se tivesse, resulta- Nesta tradução, Harrison afastou-se da Grécia, das refe-
ria pesado e artificial - Philips optou por re-estmturar a rências aos deuses, do destino, do Minotauro - de todo o
peça para um público inglês. A base da técnica de Philips universo mitol6gica que enfoma Fedru - e substituiu tudo
é bem visivel, por exemplo, na primeira cena do primeiro isso pela índia colonial. Tal como Fedra trata da junç8o de
=to. Em Racine, a primeira cena dá ao público a infor- dois sistemas opostos - as paixões de uma casa amaldi-
mar;ilo mínima necessária para seguir a intriga (por exem- çoada e o mundo da ordem e da racionalidade -, nesta vi-
plo, o amor de Orestes por Hermíone, prometida em ca- são da hdia colonial também entram em contacto dois
samento a Pirro e o amor de Pirro pela viúva troiana, mundos distintos: o da ordem inglesa, tão desamparado
Andrómaca). SimuItaneamente, a cena apresenta logo a neste novo contexto, e o das forças das trevas, tipificadas
paixão fatal de Orestes com a qual a peça ira terminar. O por uma cultura estranha revoltada contra os colonizado-
papel de Piiades é o de servir de contraste hquela paixão, res. Assim, na cena final onde a Fedra de Racine confessa
de introduzir os tons apaziguadores da razão. O equilíbrio i n f i m m e funrsre, a Memsa-
Le. ciel init dcrns Inon s ~ ~ utie
da cena depende da relação entre estes dois diferentes ti- hib do texto de Hariison diz Iiidiu put durk pnssions in my
pos de homem. A tradução de Philips conserva quer a fun- ht.easr. U m bom exemplo da técnica de Harrison é visivel
ç k da primeira cena, introduzindo as coordenadas da in-
'2 HOLMES. James - Descrihinp 1,iterary Tranalaiiiins: Models and Me-
triga, quer o equilibrio da relaçgo entre os dois amigos, ihods. In HOLMES, Jaincs; LAMBEnT: Jod: BROECK, Raymond van dcn
mas esta similaridade não se deve ao facto de o tradutor (eds.) - Lilrrri/rirt. rirrtl Tr~inskiiioir:Louvuin: ACC'O. 1978.
comparando a sua versão do momento em que Enona (a
Ayah) descobre a paixão secreta de Fedra com a versão Que faites-vous, M d m e ? et g u d morte1 mui
Contre ioui vatw sartg vous anime aujaurd'hui?
que Robert LoweU propõe da mesma cena

OENONE
Madame, au nom des piirrs que pour vous j'ai versks,
Par vos faibles genosu que je tiens embmss&s,
Dklivrez mon esprit de ce funesie doure.

WRE
De l'umour j 'ai toutes les jkreurs.

Pour qui?

WRE
Ciel! que Iui vais+ dire, et par oii c o m n c e r ? Tu ws outr k comble des homurs.
..
J'aime. A ce norn faral,je tremble, je fí-issonm,
OWONE J 'aim...
Par 1v a i n e s ~ u r cesset
s G% m'ofinser:
Qui?
PlmRE
O hains de Vdnw!O fatal@ cal& ! PHÈDR~

Dans qwls t!ga#rnents I'amour jeta mn mPre! Tu cmnnais c e j l s de l9Amamd@,


Ce prlnce si longtemps par moi-même o p p r i d ?
OENOW
Oublions-les, Madomc :et qu'd rout l'aveinir
Un silence &temitache ce souvenil:

m m
Arime, ma ~ipyy,de que1 amour Blessde,
VOUJmurdtes aiur h r d s o& vousfates laissée!
AYM: (on h a knees) Ah i&, I implore you by my tears,
Memsahib, by these tear$ i h r wet p u r dress and by your ~'&nng body. Heaven hears,
rid ayah of her anguish, and confiss. and knows the mth aiready. Lef me see.
(*r
MEMSAHIB: a pause) Statld up.
You wish it? l k n I will. Up, o$ your knees. Your Aesitatiun's killing me!
@use) What can I te11 you? How the gods m p m me!
AYAH: Memsahib mrr& her pmmise. Teil me.Pkase. Speak'
MWSAHLB:i don'r kmw what to say. Or how to s t u ~ . Oh %nu, maudering Vem! Love gored PasiphaZ
(pau=) with the hll.
AYAH: TsU m,Memahib. You break my heart. Forgel
WSAHIB: (sudden vehemence) your morher! When she died she paid her debt
Mother! Driven by the da& godr ' spiie Oh Ariadne, Oh, my Sisteq lost
beyond the fronrien of appetire. for love rif Thesem on fhat mky çoagt.
A judge 'iwife! Obsmne! Bestialities laby, wwknf m m u s lmguor m k e x you mve
Hindws might s a l p t u r e w a tempie frieze! agairist your f m i l y ; they o m in the grave.
AYAH: Fuqer! Forgei! Ths gmd W e e l we are on Remorseiess Aphrvdite drives me. I,
mrns a11 i h i iwrtvr to oblivion. my mce's last Ond wrsi iove-victirrt, die.
MWISAHIB:Sis~er!Abandoned... by him to0... lefi ftehind... Are you in lave?
driwn to drugs and drink... Out af hcr mind! Iam wiih h!
AYAH: Mcmsahib, no. h ' t lei bfack despair W b
flui1 at your family Foreka~Furebeax is h?
MEMSAHIB:It's I d a ! Ymr cruel godr athirss 1'11 reli you. Nothing bve em do
for victims. Me ihe last and mmr accused! could equal... Nurse, I a m in love. The shanie
AYAH: (mth dawning)
kills me. 1 low h... Do no1 osk Ris natne.
Nor lave?
Wko?
MEMSAHLB:LoY$. Liki.fwl:
Nurse, you know my old twthingfor the son
AYAH: Memsuhib, whom?
of Thesew and the barbarous Amnzort?
MEMSAHIB:Pmpam to k a r witness to the hand of doom.
Hippdytus! My God, oh my GodI
i bve...I lm...I love... You kmw the one
You,
...
I seemed ro hate so much ihe Rajput's MIL..
not I, h v e named him.
AYAH: Thomas Theophilus? Tne haFbreed! Shamd
MMSAHIB: I caddn 5 bring myself to speak his 1~1nte.
(Tony Haniaon)
Harrison reteve claramente o movimento essencial da Quando se trata de traduzir para o teatro, a traduç8o
cena, as falas breves e angustiadas de Memsahib e a insis- dos textos literhios assume uma nova e mais compIexa
tencia desesperada de Ayah que conduzem ao ponto alto dimensão, pois o texto d apenas um eIemento na totali-
da revelação, mas substituiu o pano de fundo grego por dade do discurso teatrai. A linguagem em que o texto dra-
outro sistema de referências e aumentou as faias & Fedra mático está escrito serve de signo no interior da rede da-
para tornar o significado mais explícito. As canotações da quilo que Tbadeus Kowzan designa por signos auditivos
paixão ilícita de Memsahib também foram alteradas: na e E como o texto dramhico 6 escrito para vozes,
versão de Harrimn, o tabu que 6 violado é o das fronteiras o texto literário contdrn tambtcm um conjunto de sistemas
inter-raciais, não o do incesto. Contudo, a txadução man- paralinguísticus, como o tom, a entoação, a velocidade
ttm uma estrutura versificat6riii compacta que faz lem- do enunciado, o sotaque, etc. que constituem matéria sig-
brar Dryden em vez do habitual verso branco. Quando nificam. Além disso. o texto dram8tico contém em si o
comparada com a tradução de Lowell, que utiliza a mesma subtexto ou aquilo a que chamãmos o texto ges-1, que
forma, mas com muito menos flexibilidade, torna-se determina a acção física do actor. Assim, não 6 s6 o con-
muito c l m a diferença entre uma traduç90 orientada para texto, mas tambim o código gestual encastrado na pr6-
a kirurn e uma tradução orientada para a representação. pria lingua que determina o trabalho do actor; e o tradu-
Lowefl expande o texto de Racine com explicaç6esdo tor que ignorar todos os sistemas alkm do puramente
universo mitol6gico que podem ser obscuras para os leito- literário corre sérios risco^.^
res do dculo XX.No que respeita mais directamente ao Mais uma vez, como acontece com outros tipos de tra-
equiliíbrio da cena, Lowell dA a Fedra uma série de falas dução abordados neste livro, a questão centraI prende-se
em que a assertividade do Eu é bastante acentuada, ao com afunção do texto a traduzir. Uma das funções do tea-
passo que Haríison segue Racine fazendo das interven- tro é operar a outros nfveis para além dos estritamente lin-
ções de Memsahib um combinação de pensamentos em guísticos, e o papel do espectador assume uma dimensão
voz alta e falas dirigidas B sua dama de companhia. La- p~blicanão partilhada pela leitar individud cujo contacto
well vai ao ponto de dar a Fedra duas falas adicionais I'lt
tell you e I um in love. Em suma,embora à. primeira vista .U -
KOWZAN, T. Liitdmhtre e! Spcmcle. The Hague; W s : Mouton.
1975.
possa parecer que Lowell seguiu de perto o texto de Ra- .'4 Note-se que as orien- gesruais que se eraconvam no inkrior do
cine em termos de conteiido, foi Harrison quem mais ade- t e x b se distinguem das didaxáiias. Contudo. como ficou demonstrado em Ira-
b a i h mcentes sobre semiótica dos textos dramátiwr, 14possível considerar as
quadamente verteu as mudanças de movimento da cena, didmiscAlias de alguns dramaturgm (por ex.. Pirandeiio, Shaw. Wesker) como
apesar das dbvim diferenças de linguagem. uniddes de discurso, onde se pode discwaír uma voz claramente perceptível.
com o texto é essencialmente do foro privado. Um factor
central a ter em consideração pelo tradutor de textos dra-
mliticos deve ser, portanto, a sua vertente de representação
teatral e a sua relação com o piiblico, o que me parece su-
ficiente não s6 para justificar rnodificaçGes,como as ope-
radas por Philips e Harrison no texto de Racine, mas tarn-
hém para sugerir que o tradutor deve ter em conta a função
do texto como elemento da, e para, a representação.
Conclusão

Ao escrever a conclusão deste livro, não posso deixar


de pensar na vasta quantidade de material que ficou por
discutir. Por exemplo, não chegaram a ser referidos os de-
senvolvimentos que se deram ao nível da tradução auto-
mittica, que contribuíram pwa o avanço da linguística e
posteriormente, por sua vez, beneficiaram desses avanços.
Também ficaram fora do âmbito deste livro os problemas
complexos da tradução dos textos fflmicas. em que o pro-
cesso de tradução envolve tambtim uma componente ciné-
tico-visual, pois o público espectador atenta nos movi-
mentos dos lábios dos actores, bem como a questão afim
da legendagem, onde a velocidade de leitura, a paráfrase e
o resumo são elementos insepariveis. Nem foi abordada a
questão, porventura mais importante, da traduqão oral ou
interpretasão. E fhcil justificar estrts lacunas com falta de
espaço, mas parece-me importante referir o facto para que
a livro n5u sofra de um preconceito que foi precisamente
sua intenção ultrapassar: uma inclinação para a literatura
'elevada' que desvaloriza o trabalho desenvolvido na Area
do cinema e a investigação sobre literatura oral e novas Ao nfvel da tradugão literária, o trabalho a fazer tam-
tecnologias. Nada poderia estar mais longe da minha in- bem é muito 6bvio. E preciso um estudo compreensivo da
tenção; a principal d o para tratar textos geralmente tradução de textos dramhticos com vista ao estabeleci-
aceites como 'fiterários' foi famiiiarizar o leitor com os mento de uma temia e é preciso atentar seriamente em
problemas de tradução mais amplamente discutidos. problemas especificas da tradução & narrativa. A obra de
Os Estudos de Tradução, como se afirmou na Introdu- André Lefevere sobre os problemas rnetodo~6gicosenvol-
ção, ainda são uma jovem disciplina com um longo cami- vidos na tradução de poesia deveria ser continuada e ex-
nho à sua frente. E neces&io um debate tdrico mais ge- pandida e todo o debate sobre a tradução literária ganha-
ral quanto h m m z a da tradug8o e 6necessário estabelecer ria muito com a inclusão de uma abordagem aos
u m a terminologia para proceder a esse debate. A primeira problemas levantados pela tradução de textos europeus e
tentativa de Anton PopoviE para elaborar um Dictiomry of americanos.
Litemry Tmnslation Terminology merece o nosso aplauso, Todavia, ao enumerar alguns projectos que devem ser
mas ele precisa de ser redireccionado e actualizado por levados mais além, e importante não esquecer dois pontos
forma a abranger os textos teatrais e os textos fíimicos. chave: o enorme e rgpido progresso que a disciplina co-
Uma grande vantagem de uma temiinoiogia mais acessível nheceu e a inter-relaçãoentre a teoria e a prática que ainda
seria a de podemos afastar-nos da velha e dgo vaga d i a - prevalece. Referindo-se hs complexidades da tradução,
tomia tradução livre I tradução literal e dos respectivos jui- Roman Jakobson observou ironicamente que
zos de valor. TmMm nos permitiria distanciamo-nos da
distinção, bastante vaga, entre tradução orientada para o Os problemas complexos abundam quer na Mtica quer na teoria
autor e tradução orientada para o público leitor. da traâução; de tempos a tempos fazem-se tentativasde cortar o r16
g6rdio proclamando o dogrna da int~aduzibilidade.~
k preciso sabermos muito mais sobre a hist&ia dos
Estudos de Tradução. Tornou-se priorit5irio obter mais do-
cumentação e mais infmagão sobre a evolução do con- Na verdade, esse dogma tem sido muitas vezes usado para
ceim de tradução e estabelecer uma colaboração a nível defender a impossibilidade não $6 da tradução mas tam-
internacional sobre a história da tradução, como queria Ja- bdm do Estudo da Tradução, por alegadamente ser impos-
mes Holmes. Compreender melhor a evolução dos Estu- sível debater uma questão tão subtil como a transferência
dos de Tradução e do estatuto do texto traduzido signXca I JAKOBSON, Roman - On Linguistic Aspects of Translalion. In B R a
ficamos mais bem equipados para resolver os problemas WES, R. A. (4.-) &I T m I ~ l i o nCambridge,
. Massachussets: Hiward Uni-
que surgem nos nossos contextos. venity Res%1959, p. 234.
do 'espírito criativo' de uma língua para outra. Contudo, e
apesar desse dogma, os tradutores continuam a traduzir e
o prolongado debate iniciado nessa promessa pode agora
ser continuado por todos quantos se tenham deparado com
problemas no exercício da tradução e queiram passar de
uma posição pragmhtica e empírica a um discurso mais
científico e interdisciplinar.

Ao reunir sugest&s de leituras complementares a p e


nas inclui textos em língua inglesa. Nas notas de roda*
de cada capítulo são dadas referências de obras importan-
tes noutras linguas. Nas obras a seguir referenciadas.tam-
bém se indica quais as que contêm bibliografias gerais.
Foram excluídos alguns textos em Iingua ingiesa peIa
razão de que, embora se afirmem como estudos de tradu-
çio, apenas contêm observações casuais e subjectivas so-
bre problemas levantados pelo processo de tradução e não
contribuem para o estabelecimento de uma disciplina cri-
tica de Estudos de Tradução.

ARROWSMITH. W.; SHA'ITUCK, R. (eds.) - %i Cmft and Coniext


of Tmlation. Austin: Universíty of Texas Press, 1961.
Tratri-se de uma útil colwção & ensaiusque alm-dam quesiiks ge-
rais e especificas. O volume contém dois esiuhs sobre údução de
aauo: um da autoria de Petet Arnoa sobre 'TransIating the
Greeks" e outro de Robert Comgan sobre 'TmsIating fwActml'.
BROWER, Reuben (ed.)- Oin Trunslaiion.Cambridge, Mass.: W a r d não como uma discipiim de direito pr6prio mas como uma forma
University Press, 1959. de exernplificar aspectos da hguistica aplicada.
Esta mIecção de ensaios continua a ser uma das mais iiieis anto. GUENTHNER,F.; GUENTWNER-REmR, M. (eds.) - Meaning
Iogias em Ilngua ingIesa e inclui capitula sobre diversos aspectos and Tmnslation. PhiIosophicol and Lingdtic Appnmches. Lon-
da aadqâo. Encontram-se aqui mpitulos sobre a M u ç b da Bi- don: DUCkworh, 1978.
blia. a tradução automhtica e, de importhcia capitd, o estudo de
LAWENDOWSKT, B. - On Serniotic Aspem of TFaaslation. In SE-
Roman Jakobson "'h Liguistic Aspecis of ~ s l a t i o n " .Reuben BEOK, T. (4.-)
Sight, Sound ond Seme. Blmmington: indiana
Brower 6 tamMm o organuador de mim volume intitulado Mir-
University m,1878, p. 26rl-82.
ror on Mirro4 publicado em Haward. em 1974. no qual o debate
sobre a traduçb t mais alargado, incluindo &os sobre irnitaçiio LEW,Jih' - The Translation of VerbaI Art. b MATEJKA, L.;TITU-
em i a . NIK,I. R.(eds.) - Semiotics ofArt. Cambridge, Mass.: MiT Press,
1976, p. 2 18-27.
SAVOW l ' h d a r e - The Ari of 7hwlation. h d o n : Cape, 1957.
LITDSKANOV, A. - A Serniotic Appmch to the Theory of Transla-
O autor deste l i m i aborda os Eitudos de Tradu* na perspectiva
do hurnanismo liberal mdicional. A tradqáo t mmndida como
tion. Langmipe Sciences, 35, April 1975. pp. 5-8.
forma de acabar com as b a m h s h comunicaçáo e o debate de- McFARLANE, J. - Mdes of Translation. Durhm University .iouma[,
senrola-se num nível pouca sistemhtico. 14, 1953, p ~77-93.
.
STEWER, George - Afier Babei: Aspects of Languagc and Tmnda- NEWMARK, P.- lbenty-three Restricted Rules of Transiatioa. The
rion. London; Oxford Universiíy Press, 1975. Ittc~rporatedLinguist, 12 (1). 1973, pp. 9-15.
Este livra abrange uma vasta área e & p d c u l a m n t e btil por NIDA. E.- Towardr a Science ofTranslating.Leiden: E.J. BnU, 1964.
abrdar a questb do multilinguismo e da tradução, O seu ponto Um livro extremamente Útil e precioso para o estudante de tradu-
fiam é o pragrnatismo que o divorcia de muito do trabalho em
ção. Contém também uma extensa bibliografia sobre questões es-
curso na área dos Estudos de Tradução. A bibiiografia t organi-
pecificas da hadução da Bíblia.
zada cronologicmente.começando com o ensaio de Schleierma-
cherâe 1813. NIDA, H;TABER, C. - The T h o t y and Pmciice ojrtwnslatiotn.Lei-
den: E.J. Brill, 1969.

TEORIA GERAL DA TRADUÇÃO


CATFORD, J. C.; - A Limguistic Theory of Tmnslaiían. London: Ox-
ford University hess, 1965. COHEN,J. M. - English T f ~ s l a t o rand
s Tmnslations. London: Long-
Trata-sede uma arguta indagaçb sobre o ptocesso de tradução mane. pub. para o British Comi1 e The Mational Book League,
peffpxtivado de um detemiindo ãngulo. O seu principal defeito 1962.
consiste no facto diz o seu aum abordar a questáo h luz de uma -
JACOBSEM, Eric Translation: A Tmditiunal CraJf, Copenhagen:
teoria linguistica geral. fazendo com que a traduçh seja estudada Nordisk Fwlag. 1958.
Esta obra contém informação muito intemaante sobre a função da Neste volume encontra-setambém o artigo de F.W.Newman "H&
tradução no h b i t o da traclição ret6rica medievaI, mas, como o au-
meric Translation in Theory and Practice", em que € contestada a
teoria da IraduçXo de Arnald.
tor afirma na Introdução, evita 0 mais possível dorar questões de
teoria geral e priracípics da tradu*. BEAUGRANDE, R* de - Fuctors in a Thwry of Poetir Trnnsla-
KELLY,L.G.- The True Interprerer: A History of Tmlatioin Thmry ting. Arnsterdam; Assen: Van Gwcurn, 1978.
and Pmciice in the Wst. Oxford: Blackwell, 1979. B E L W , Hiiaire- On b l a t i m . Oxford: ?he Ciarendon h,193 1.
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1977. DAYLEWS, C. - On 1Fnnsiüring Poetry. Abingdon-on-Thames:Ab-
Trata-se de uma s e l q ã o de escritos sobre tradução da autoria de bey Press. 1970.
reputadox tradutores aiemàes, organizada para proporcionar uma EAGLETON, Terry - Translatíon and Transfonnation. Starid, XUC (31,
visão geral da mudança de atitudes relativamente B traduçb. 1877. p. 72-7.
MA'ITIESSON, R O. - Tmnslation: An Elizahe~hanArt. Carnbridge, HOLMES, James (ed.) - The Nuture nf Tmnslatíon: Essays on t h
Mas.: Harvard Univmity Press, 193 I . THcory and Pracdce ofti~eraryTranslaion. The Hague: Mouton,
Uma U i s e útil. mas assistemática. da obra de quatto importan- 1970.
tes tradutores da dpma isabelina: Hoby, North, Florio e PhiIemon &te volume contdm alguns capítulos muito importantescom, por
Holland. exemplo, o de J. Holmey, " F m s of Verse Translation and rhe
-
STEINER, T. R. English Tmnslation Zhory, 1650-1800. Amsler- Tmslation of Verse Fom",e o de Anton PopoviE 'The Concept
dam; Assen: Van Gwcum. 1975. of 'Shift of Expssion' in Translation Analysis".
Este volume 6 especialmente importante. porque contkm um longo HOLMES, J.; LAMBEIZT. J,; LEFEVERE. A. (4-. ) aitd
Litermre
ensaio crítico sobre o padrão evolutivo da teoria da tradução in- Tmnslation. Louvain: ACCO, 1978.
glesa de 1650 a 1800 bem como uma antologia de escritw da Esta obra reúne as cornunicaç8esproferidas no Col6quio sobre Li-
mesmo período sobre traduçw. temtbra e Traduçfio mIi& na Universidade Catblica de Leuven
em 1W6, bem como o attigo que insiitui os Estudos de Tradução
TEORIA DA TRADUÇÃO LITER~RIA
como disciplina autónoma. Contém urna vasta bibliograf~m,em-
bwa "gananhdade uma forma algo desajeitada, onde se indicam
-
ADAMS, R. Pmt~iu:His fies, His Truth: Disc~ssionson Litcmty textos sobre tradução em Iaglh, Franc&se AImão.
Tmslation. New York: W. H. Nortoo. 1973. LWEVERE, An# -
TmEating Poetty: Seven Strategies onda BIue-
Trata-se de um livro altamente idíossincrdsicu. mar contem alguns prinr. Assen; Amsttrdam: Van Gorcum, 1975.
exemplos muito úteis de problemas wpecificosda tradução litedrh. Um livro muito ritil que mosfra como resolver o problema do es-
ARNOLD, Mathew - On Translating Homer. In Essays by M a t h Ar- tabelecimentode uma rnetdologia poua a iradução de poesia ama-
nold. London: Oxford University Press. 1914. vb da análise de sete kaduções de um texto Iatino.
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Anexo
Texto original do poema The Seafarer

M a g í c be me sylfum sodgied wrecan,


sibas secgan, hu ic geswincdagum
earfodhwile oft browade.
bim breostceare gebiden hmbbt,
5 gecunnad in ceole cearselda fela,
ato1 yba gewealc. Pmr mec oft bigeat
nearo nihtwaco p t nacan stefnan,
ponne he be clifum mossas. Calde gebrungen
waxon fet mine, forste gebunden,
i o caldum clomrnum, pmr ba ceare seofedun
hat ymb heortan; hungor innan slat
merewerges mod. P E ~se mon ne wat
lx hirn on foldãn fzgrost limpeb,
hu ic earmcearig iscealdne sie
15 winter wunade wrzccan lastum,
winemagum bidroren,
bihongen hrimgiceliim; h q l scururn fleag.
P a r ic ne gehyrde butan hiimman s z ,
iscaldne waeg, hwiliim lfete song
20 dyde ic me to gomene, ganetes hleohr wriieclastas widost lecgad.
ond huilpan sweg fore hleahtor wera. Forbon nu min hyge hweorfed ofer hreberlocan,
rnzw singende fore medodrhce. min modsefa mid mereflode,
Stormas standifu beotan, P;ier him stearn oncwaed 60 ofer hwaeles ebel hweorfed wide,
isigfekra; fui oft bt eam biged, e o r b sceatas, cymed efi to me
25 urigfebra. N ~ n i ghleomga gifre ond graedig; gielled antloga.
feasceaftig fkrd frefian meahte; hweted on hwdweg hreper unwearnum,
Forbn hirn gclyfd lyt, se ah Mes wyn ofer holma gelagu.
gebiden in burgurn, beaiosipa hwon. ForpOn me hauan sind
wlonc and wingal, hu ic werig oft 65 Dryhmes dreamas bnne bis deade lif,
36 in brindade bidan scwlde. Izne on londe. Ic gelyfe no
Nap nihrscua, n o r b sniwde, batt hirn eordwelan ece stondad,
brim hrusan bond, hzgl feol on e o r k , Simle breora m pinga gehwylce
coma caldast. Forkn m y w d nu sr bis tid aga to rweon weorbeb:
heortan gebhtas. b t ie hean sueamas. 70 adi obbe yldo ecghete
35 sealtyba gelac sylf cunnige; f ~ g u mfromweardum feorh odbinged.
monaa modes lust maola gehwylce F o m lxet eoda gehwam xftercwebdra
r
fedi ta feran, baet ic feor heonan lof lifgendta is la~twordabetst,
elbeodigra eard gewce. paet he gewyrce ar he on weg scyle,
Forpon nis bzs modwlmc man ofer e o r b , 75 freme on foldan wiil fmnda nik.
40 ne his gifena b s god, ne in geog* to pãs hwaet, deorum &dum deofle togeanes,
ne in his daedum to p a s dpw, ne hím his dryhten to brs hoid, b t hine aelda h r n efter hergen,
ba2t he a his safore Jorge mbbe, and his Ilf s i b b lifge mid englum
to hwon bine Dryhten gedon d e . awa to ealdre, ecan lifes bIaed,
Ne bip him to hearpan hyge ne to hringbge, drearn mid dugebum.
45 ne to wife wyn ne to woruide hyht, Dagas sind gewitene,
ne ymbe owiht elles nefne yrnb yda gewealc; ealle onrnedlan eorbn rices.
ac a hafad iongunge se on l a p funda& Nearon nu cyningas ne caseras
Bearwas blostmum nimab, byrig faegriab, m goldgiefan swylce iu wzron,
wongas wlitigad, woruld onetteb: ponne hi maest mid hirn -maerba gefremedon
50 ede gemoniab modes fume 85 and on dryhtlicestum dome lildon.
çefan to s l b , hrn pe swa pencea Gedroren is dugua eal, dreamas sind gewitene;
an ffodwegas feor gewitan, wuniaã pa wacran and F s wordd healdab,
Swylce geac mona6 geamran reorde, brucab purh bisgo. Blaed k gehnaged,
singd sumeres weard, sorge beoded eorban indryhto ealdad and searai).
55 bitter in breosthord. Paet se beorn se wat, 90 swa nu monna gehwylc geond mlddangeard.
secg esteadg, hwaei ba sume dreogad Yldo hirn on fared, onsyn bhcab,
gornelfeax gnornad. wat his iuwine,
aahiinga bearn e o r k forgiefene.
Ne mEg him bnne se flaschoma, h n n e him baet feorg Iúsab.
95 ne swete forswelgan ne sar gefeh.
ne hond onhreran ne rnid hyge kncan.
Peah graef wiiie golde suegan Sumário
brobor his geborenum. byrgan be deadum
mapmum mislicum. baet hine.mid wille,
lw ne mzg b;ere sawle bib synna fd
gold to geme for lrodeseegsaii,
bnne he hit aer hydee) benden he her lcofad.
Micel bib se Meotudes egsa, -forbn hi seo molde oncyrred;
'

se gestapelade scipe grundas,


1 0 5 e o r w sceatas and uprdor.
Estudos de Tradução. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Do1 bip se lx hirn his Dry hten ne ondradek: cymed hse dead PrefAcio do Direstor da Skie New Accents . . . . . .
unbinged. Agradeçimentos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Eadig bia se pe eapmad ieofab; cymea hirn seo ar of heofonum.
Meotd hbaet mod gestapelad, forbn he in hs meahte gelyfea. PrefBcio B Edição Revista (1991) . . . . . . . . . . . . .
PrefBcio h Terceira Edição. . . . . . . . . . . . . . . . . . .

i. Q U E S T ~ E SFUNDAMENTAIS .............
Língua e cultura . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Tipos de traduçb . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Descodificação e recodificaçk . . . . . . . . . . . . .
Problemas de equivalência.. . . . . . . . . . . . . . . .
Perdas e ganhos. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Intraduzibilidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Ciência ou 'actividade secundária'?. .........