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COLEÇÃO

PRAZERES POÉTICOS

Portugal | Brasil | Angola | Cabo Verde


Um livro vai para além de um objecto. É um encontro entre duas pessoas
através da palavra escrita. É esse encontro entre autores e leitores que a
Chiado Editora procura todos os dias, trabalhando cada livro com a dedi-
cação de uma obra única e derradeira, seguindo a máxima pessoana “põe
quanto és no mínimo que fazes”. Queremos que este livro seja um desafio
para si. O nosso desafio é merecer que este livro faça parte da sua vida.

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© 2017, Tiago Moita e Chiado Editora


E-mail: geral@chiadoeditora.com

Título: Metanoia
Editor: Rita Costa
Composição gráfica: Vera Sousa
Capa: Vasco Lopes
Revisão: Tiago Moita
Impressão e acabamento:
Chiado
P r i n t

1.ª edição: Março, 2017


ISBN: 978-989-774-261-3
Depósito Legal n.º 419926/17
Tiago Moita

Metanoia

Portugal | Brasil | Angola | Cabo Verde


“A Poesia é a fundação do ser pela palavra”

Martin Heidegger
(1889-1976)
“A desconcertante contradição para a maneira
vulgar de pensar vem do facto de termos de usar a
linguagem para comunicar o nosso sentir íntimo, que na
sua verdadeira natureza transcende a linguística.”

D. T. Suzuki
(1870-1966)
À minha família e a Herberto Helder
(1930-2015)
ÍNDICE

I. CRONOS. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13

Arte poética. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 15
Eclipse. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 17
Lobos. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .19
A voz do verbo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 21
A febre dos cegos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 23
O eterno eremita. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 25
Ode ao silêncio. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 27
Poiesis. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 29
Depuração. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 33
Viagem . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 35
Leituras cruzadas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 37

II. KAIROS. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 39

Epifania boreal . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 41
O primeiro poema. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 43
Ágape . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 45
Evidência. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 47
Holograma. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 49
Despedida. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 51
Insónia. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 53
Carta de um amigo ausente. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 55
Marca d’água . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 57
Egocídio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 59
O fado dos fantasmas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 61

III. AEON. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 63

Hesychia. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 65
Sofema . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 67
Visão oblíqua . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 69
Ahimsa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 71
Ovo cósmico. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 73
Merkaba . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 75
Engrama . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 77
O teatro das esferas. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 79
Enteléquia. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 81
Kenosis. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 83
Big bang . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 85

GLOSSÁRIO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 87
I.

CRONOS
Metanoia

ARTE POÉTICA

O poema não nasce


do murmúrio da cinza
ou da cópula do fogo
brota da lava do verbo
que corre nas veias das palavras

O poema não cresce


do êxtase dos quatro elementos
ou do incêndio das feridas
transforma-se em Cosmos
com o silêncio dos búzios

O poema não pergunta


nem responde
à sublimação dos espelhos
e às epifanias dos números
reage contra a inércia do mundo
e a apatia das sombras

É sal, espinho, espelho, flor,


carne, sémen, bolor, seiva
antes da menstruação do verbo
que pariu Deus

15
Tiago Moita

O poema é poema
antes da invenção das línguas
e da tradução dos ventos
Metanoia universal
do Tudo o Que É
Foi
e Virá a Ser

O poema existe
o poema morre
para voltar a ser poema
o poema transfigura-se
o poema é tudo
o poema sabe
o poema
é.

16
Metanoia

ECLIPSE

No intervalo de uma epopeia


habita um mistério ludroso
na fenda narrativa da Criação
silhueta disforme
de uma epifania sem rosto

Vive da sede branca dos olhos


dos cegos e dos loucos da Terra
navega apático pelo subtil
mutismo das palavras primitivas

Por onde passa destapa Ísis


do véu púrpura dos enigmas
ocultos do umbigo do sol
e da gravidez da lua
desperta medos absortos
das máscaras e das orgias metafísicas
entoadas pela memória dos homens ávidos
de Poesia e sentido.

17
Metanoia

LOBOS

Habitam nas entrelinhas dos mitos


e vagueiam sob o signo da lua
pelas florestas telúricas
das linguagens proibidas
do mundo

Nenhuma presença ou episódio


é estrangeiro ao seu faro
licantropia enciclopédica da noite
testemunha ocular
dos seus segredos e predicados

Decifram o medo dos vivos


como quem lavra o silêncio grave
de um anátema
e preservam o mistério das almas
da avarícia do tempo

Lobos: prova dos nove das línguas


arquétipos de albas que brotam
do coração dos verbos.

19
Metanoia

A VOZ DO VERBO

Mergulho no branco silêncio


desta página vagabunda
deixo-me afogar na incerteza
do verbo que exploro
no fundo do mar

Desci três degraus


até à sala de espelhos
desfolhando sombras oblíquas
cinzas de passados ignotos
na frígida leveza de cada passo

Desabrochei o Terceiro Olho


da minha fronte carne
fiz da escuridão um mosaico
de purgatórios holográficos

Libertei-me do casulo alquímico


que teci com sarcasmos e eufemismos
bati asas num coração de quartzo
traduzindo o silêncio de toda esta
metamorfose

Ao sétimo dia
fiz-me carne de um poema.

21
Metanoia

A FEBRE DOS CEGOS

Tudo começa com uma epifania


testada num tubo de ensaio
por um alquimista sem medalhas
durante a embriaguez do sono

O sangue ferve nos olhos


dos eunucos de bata branca
com os louros de quem não teme
desafiar as leis dos homens
e traduzir o sentido dos ventos
em nome do Universo

Invocam génios seculares


feitos santos no altar da Ciência
para semear incêndios canónicos
no tribunal da praça pública
ridicularizando verdades virgens
com sarcasmos de parábolas

Derrete-se o gesso das máscaras


durante a febre dos cegos
a loucura despe-se do mundo
que ignorou os seus urros
e fez do esquecimento
o preço a pagar
pela sua miopia.

23
Metanoia

O ETERNO EREMITA

Ninguém entende o enigma


dos teus silêncios avulsos
guardados a sete chaves
no rés-do-chão do Universo
que criaste à margem
dos incêndios do mundo

Ninguém compreende o mistério


da tua sede lídima
fome pretérita, mais que perfeita,
de um desejo lânguido
desperto durante o orgasmo dos eclipses

Perguntas familiares rasgam a pele


da solidão que escolheste amar
durante o teu exílio íntimo
dúvidas sobre a tua condição
de asceta da palavra
ameaçam a tua mente líquida
de tanto existir

Raros, os que te procuram


para receber húmus das tuas palavras
tirando esses, ninguém te entende

Só a Poesia.

25
ODE AO SILÊNCIO

Navegas errante nos intervalos dos ecos


que mastigam a carne dos ossos etéreos
dos léxicos
e sorvem a água e o sal dos poemas
que brotam das legendas das lágrimas

Serpenteias lascivo nos desertos


como quem busca uma boca
para matar a fome e a sede
a uma palavra

Bruxuleias obsceno pelos labirintos


dos significantes e dos significados
narrados pela metafísica das gramáticas
a tua voz é a egrégora
que dá vida ao teu corpo

Ausência que grita da bruma


de um búzio almiscarado
como um incêndio sem nome
que chama por mim
sussurro de pedra, vento ignoto
verbo que devolveu
o fogo dos deuses ao Homem.

27
Metanoia

POIESIS

Perguntei a uma página exangue


do lume de um êxtase de mantras
e desejos por arder do limbo dos dias
a origem da Poesia
enquanto desflorava o silêncio
da sua carne

Debrucei-me nessa angústia filosófica


como quem mergulha num deserto
para decifrar uma sede incógnita
e bruxuleante de tanto sofrer
e perguntei aos meus amigos,
sem didascálias,
como quem mendiga um sonho:
“De onde veio a Poesia?”

Nenhuma resposta…

Depois virei-me para os poetas de hoje,


jovens turcos feitos dentes-de-leão,
cheios de silogismos enciclopédicos
e metáforas na ponta da língua,
e fiz a mesma pergunta:
“De onde veio a Poesia?”

Nenhuma resposta também…

29
Tiago Moita

De seguida, virei-me para os poetas de outrora,


bibliotecas canónicas vivas
alquimistas ascetas da pureza,
exilados da morfina da realidade
e fiz a mesma pergunta
mas, desta vez, a resposta foi diferente:

“Leia os Clássicos!”

Confuso com aquela resposta


desbravei as profundezas dos livros
e comecei a esgravatar a essência
de todas as artes
devorando lirismos em chamas,
acalantos sem berço, acrósticos
anónimos, elegias sem lápide,
epigramas sem epitáfio, odes
agridoces a homens, feitos deuses
pela palavra dos poetas,
madrigais alcoviteiros, haikus e tankas
cheios de epifanias, sonetos imperiais
e quando saltei a grande muralha do ritmo…

…encontrei uma rosa


plantada num chão de mármore polar
de um templo feito de quartzo
coberto de espinhos mudos
ao meu desassossego

Caminhei descalço para a colher


mastigando o prazer e a dor
daquela fome esfíngica,
ansiosa por se extinguir
no primeiro contacto
com a sua pele

30
Metanoia

A rosa bebeu as minhas lágrimas


e incandesceu com o sorriso que rasguei
no meu rosto exsudado
a resposta à minha pergunta
não estava no momento em que a conheci
nem no instante em que a afaguei

Encontrei-a no intervalo.

31
Metanoia

DEPURAÇÃO

Sentado num rio de murmúrios e sombras


observo o bailado geométrico do lápis

Mergulho na espuma da tarde


no sono etéreo da noite
e procuro absorver o Todo
na clarividente contingência
das metáforas canónicas
do olvido

Depurei o sangue e o sal dos olhos


num salto quântico
mergulhei num oceano
de palavras primitivas
regressando à epiderme do mundo
onde o poema é uma viagem
e a vida repousa.

33
Metanoia

VIAGEM

A paisagem devora-me os olhos


tatuando no verso
filigranas multicores
sons que naufragam no cloro
de uma viagem
ao coração de uma Babel
de adjectivos e clichês

O ambiente é um universo vivo


microcosmos de onomatopeias,
parábolas e eufemismos
atirados ao limbo do efémero
onde o silêncio é um estranho
sem causa nem destino por cumprir

E no intervalo de um compasso
de signos e substantivos
registei o sorriso de uma saudade
a miragem de um beijo pretérito
e a lágrima de um abraço perdido
num mosaico de memórias solares
que remembrei numa viagem
ao coração do húmus
que fez de mim
poema.

35
Metanoia

LEITURAS CRUZADAS

Viajei até à porta do paraíso


mastigando uma saudade
que encontrei presa
entre dois versos

Deixei o coração
em piloto automático
e o cérebro em Alfa
rebuscando palavras consumidas
no crepúsculo do tempo

Troquei as teias anelares


do meu túmulo de vidro
por uma Babilónia de granito
atirando pela janela
memórias feridas
pelo sal das línguas

Caminhei sobre os séculos


de uma cidade em chamas
absorvendo didascálicas de murmúrios
perdidas nos sulcos das palavras
e nas pedras da calçada

37
Tiago Moita

E numa roda de línguas de fogo


entreguei-me aos braços da Dialéctica
a Poesia piscou-me o olho duas vezes
e sublinhou a vermelho o verso
onde decifrei o seu sorriso

Respondi ao seu apelo


num encolher de ombros
oferecendo-lhe um desejo salgado
que trazia escondido
no céu da boca

38
II.

KAIROS
Metanoia

EPIFANIA BOREAL

Mergulhei num sono de prata


para encontrar uma epifania
do nascimento de Vénus
na noite dos teus olhos

Naveguei num mantra tibetano


até à raiz de um fogo líquido
oculto na epiderme dos sonhos
tatuados no êxtase deste verso

Escalei montanhas de dúvidas


para escutar o eco do sal
que brotou quarto minguante
no lugar do teu sorriso

Procurei-te numa palavra


e só no teu coração descobri

Que tudo o que é belo


é um reflexo da rosa que somos
que tudo o que sonho
é o fruto proibido do que pensamos
e tudo o que sinto aqui e agora
resume-se na memória de uma estrela
que transcende todas as palavras
que esculpi deste silêncio.

41
Metanoia

O PRIMEIRO POEMA

O primeiro poema que li de ti


não tinha palavras nem espaços
apenas silêncios oblíquos
em margens feridas
pelo branco grito
da água

O primeiro poema que li de ti


não tinha cor nem cheiro
nem fogo nas sílabas
apenas sal e sangue
no lugar das lágrimas

O primeiro poema que li de ti


não tinha braços nem pernas
nem mãos nem dedos
apenas fios de teia
e uma bússola ao peito

O primeiro poema que li de ti


não tinha ponteiros nem estradas
apenas mapas-múndi
de labirintos e legendas

43
Tiago Moita

Tinha apenas sol e lua num rosto


esperanto num sorriso
e asas abertas nos olhos

Tinha feridas essenciais


na ponta dos dedos
e corações sem relógios
na palma das mãos

Tinha universos inexpugnáveis


e lanternas acesas em florestas virgens

Tinha tudo num meio de nadas


vazio e absoluto no ventre
de uma chama

Não era simples nem abstracto


era claro como o grito
de uma lágrima

Silhueta de uma alma


canto de pássaro engaiolado

Era sentido
era corpo
era um nome
eras tu.

44
Metanoia

ÁGAPE

Desliga-te de tudo
menos deste instante
abdica-te dessa bruma ácida
que consome o que vales
e regressa ao princípio do Nada
numa respiração prânica
até ao centro de ti

Concentra-te…

Observa-me até não observares mais nada


neste horto de urzes
que não seja o lusco-fusco
desse fumo invisível e amendoado
que brotou das reticências
de cada um de nós

Relaxa…

Deixa-te invadir pela solidão avulsa


deste abraço sinestésico
que devolvemos ao coração do verbo
que dividiu a nossa unidade
com uma maçã

Desperta…

45
Tiago Moita

Voa sem asas até ao princípio do Todo


e beija o átomo primordial
antes de sucumbir ao êxtase da lava

condensa a eternidade num segundo


e a sublimação do fogo menstruado
de um desejo serpentário
num orgasmo de uma estrela
para que, depois de renderes a guarda
aos teus sentidos,
descubras que a tua metade maior
é o reflexo de um céu que já existe
dentro de ti.

46
Metanoia

EVIDÊNCIA

Esquecer-te foi a suprema loucura


que apaguei da enciclopédia das raízes
e dos silêncios que cinzelei
no dia em que, juntos, coagulamos
a voragem do tempo em nós

Fingir o que nos aconteceu


foi um sarcasmo esdrúxulo
de uma ferida absorta

Apartámos o néctar do vinagre


numa profana comédia
de diálogos surdos
e memórias sanguíneas
do que fomos

Mergulhámos na espuma das ostras


para esculpir um incêndio rutilado
pelo feitiço das almas mudas
que lançámos para o sonho das horas
de tudo o que seremos aqui
e agora.

47
Metanoia

HOLOGRAMA

Conheci-te num poema sem palavras


silhueta singela de sereia virgem
expressão adolescente de um grito
num coágulo de memória
ferida imberbe sem tempo.

Persegui os teus passos nas nuvens


de coração surdo e olhos vendados
arrastando mosaicos e feridas
e um desejo umbilical pelo lume
de um fósforo virgem
em cada um dos teus olhos

Deixei-me levar por sorrisos


e não por sinais
deixei-me levar por máscaras
e não por gestos
mendigo cego de bússola ao peito
sedento por uma lágrima tua
à chuva

Hoje atirei o teu nome ao mar


com todos os sinónimos e adjectivos
que tatuei na pele de cada letra
nunca foste um poema sem palavras
foste apenas palavras
nunca um poema.

49
Metanoia

DESPEDIDA

Evaporei-me
escusas de me procurar
passei de sinónimo logrado
a miragem de fumo
no plexo solar
da minha paciência

Transmiti-te um pedido
sem código nem morse
com mais de seis anos
e aguardei uma resposta tua
enquanto alumbrava-me
num livro de Clarisse

Não ouviste? Alumbrei-me em Clarisse


espelhei-me em Água Viva
absorvi-me no instante
de um sonho de vidro
não em ti

Tenho relógios mais pacientes


que o teu tempo
sou capaz de explorar
todos os mistérios de universos
paralelos à minha existência
enquanto tu não voltas

51
Tiago Moita

escutando apenas a voz oblíqua


que nunca me abandona

Todos trocam saudades


semeiam lágrimas nos copos
e nos cigarros que não fumo
ignorando a solidão muda
das vozes que não escutam

Existem tantos espelhos vivos


conversando sem máscaras
poderia tentar misturar-me com eles
pensar como eles, ser um deles
mas o silêncio daquela gruta
é uma nuvem negra
para os meus chakras

O meu erro
foi a tua promessa
arquivada na usura
da tua sombra acesa

Por isso, evaporei-me


evaporei-me
de ti.

52
Metanoia

INSÓNIA

A hora grita por um verso


antes da ebulição do sono
enquanto a bruma não se evapora
com a amnésia dos quartos

É madrugada no meu relógio


mandingado pelo bailado das cinzas
o silêncio despe as máscaras
das sombras exiladas
pela embriaguez do tédio

O tempo é uma miragem


escondida numa metáfora

Procurei orgasmos de quimeras


num copo de cerveja vazio
saboreei a espuma dos calendários
no abraço de um amigo

O pensamento pede boleia à loucura


frente à esquina do desassossego
o desejo cruza-se comigo
em direcção a lado nenhum

Nada a fazer…

53
Tiago Moita

Tudo o que pensei


resume-se nisto:

A chama trina que me consome


suspira pela minha impotência
a noite em breve deixará de ser viúva
a seiva que me alimenta
é um retrato sem legendas
numa floresta de estátuas
e a hora continua a gritar por um verso
sem se aperceber do luto
pelo fim da virgindade
desta página.

54
Metanoia

CARTA DE UM AMIGO AUSENTE

Hoje
os pássaros não cantam
o dia desfaz-se
nos meus olhos
e um fogo consome-me
em lume brando
como este silêncio
que acabo de escrever

Para ti,
que não me obrigas o dia,
o tempo e o abismo.
Que não esperas esmolas,
horas e lágrimas
mas coroas de louros
na minha estrada

Para ti,
que não me atiras
com retratos vazios
e sorris dos meus futuros.
Que dispensas estrelas,
jardins, templos e impérios
e vives bem
com o meu silêncio

55
Tiago Moita

Escrevo apenas para te dizer…

Que não estou sozinho


nem triste nem perdido
nem de coração mendigo
apenas saudoso
mas sempre presente
como abraço, sorriso
vela, poema ou abrigo

Numa palavra:
amigo.

56
Metanoia

MARCA D’ÁGUA

Esconde-se na candura
do seio secreto das folhas
até que a chama grávida
de um desejo exíguo
exponha a nudez da verdade
que abriga no silêncio

Teu símbolo mancha a sede ferida


de uma nódoa do mar
húmida presença do legado azul
de uma memória

Espelho de uma obra matiz


impressão digital da chuva
rio vigilante de um lençol de vida
sal de uma lágrima guardiã
das legendas opacas
nas entrelinhas do mundo.

57
Metanoia

EGOCÍDIO

Teu nome é o gume frio


do punhal agudo
que ameaça o fio-de-prumo
do fogo invisível da terra

Tua língua, o álibi


mil e uma desculpas pardas
que atiras aos olhos de fel
daqueles que rasgam a alma
com cacos da vida
para tentar sepultar o abismo
que escavaram no corpo

Teu húmus, a apatia


a mudez do mundo
desfilando nu pelas ruas
o grito dos espelhos descalços
pela morte do verbo incandescente
que alumiou a Terra
a página virgem, ávida do poema

Teu preço, o passo em frente


o último fôlego da chama
faísca do sexto sentido dos cegos
que trocaram os olhos
por palavras eunucas

59
Tiago Moita

Teu prémio, a valsa do fumo


do ventre de uma vela de vidro
a queda de um falso anjo
no sangue das últimas sílabas
o verso interrompido
no meio da página
e o salitre do pranto
disperso pelos sulcos das mãos
que ocultaram o teu naufrágio.

60
Metanoia

O FADO DOS FANTASMAS

Diluímo-nos pelos sulcos das legendas


como lágrimas convalescentes do nevoeiro
de uma viagem sem regresso
até ao âmago de um mar de leite

Para trás, deixámos um lastro de uivos,


tatuagens de lágrimas, sementes de vidro
e uma fogueira acesa no inverno
de cada casa

Flutuamos no limbo das sílabas


como cavalos-marinhos de fumo
inebriados pelo êxtase de uma paz
virgem aos nossos sentidos

Elevamo-nos no vácuo oco das horas


para um túnel de luz lívida
como o grito indígena que rasgou
o abismo deste silêncio
que nos ouve

E no primeiro contacto
com a ressonância do húmus
comungámos o pão e o sal com o verbo
que moldou e deu o fogo ao barro
das vidas que remembrámos.

61
III.

AEON
Metanoia

HESYCHIA

Medes o peso das palavras


segundo a palpitação do sono
calculas a distância das sílabas
com a respiração dos abismos
ocultos nas raízes sanguíneas
dos espelhos

Semeias koans nas lacunas dos verbos


antes da monção das lâmpadas,
inseminação cósmica de substantivos
mudos à cacofonia das gramáticas

Habitas nos sussurros dos adjectivos


onde revelas os enigmas das orações
tatuadas na epiderme dos sentidos
cegos de nada pensar

Descreves a sinfonia do movimento híbrido


das linguagens
antes da fermentação das frases
com um ruído de fundo tântrico
decifrado pelos murmúrios das legendas.

65
Metanoia

SOFEMA

No curso do rio da vida


não navegam apenas estrelas
buriladas pela lava da bruma
nem sombras de gritos titubeantes
de sonhos ao espelho

Não navegam jangadas de folhas


ao sabor do canto das correntes
nem náufragos de pedra à deriva
na memória das raízes

Não navegam ramos de albas


esculpidos pelo cinzel das horas
nem sussurros do éter
fervilhando e pulsando pelas veias
da água

Navegam anjos em forma de nuvens


epifanias lexicais brotadas
da branca mudez desta página
para uma foz de lágrimas de seixos
transformados em poemas
pela textura das margens.

67
Metanoia

VISÃO OBLÍQUA

O homem que sonha ter o sol


entre o orvalho do céu da boca
e a sabedoria dos sentidos
não persegue tempestades de areia
nem semeia sombras no cérebro

O homem que sonha ter a lua


entre a primavera do fogo
e o outono das lágrimas
não perde tempo com miragens
nem se esconde atrás das cinzas
de uma elipse

O homem que sonha com a Terra


entre o verão dos adjectivos
e o inverno dos predicados
não deseja o paraíso numa maçã
oferecida pela metade da sua carne

O homem que sonha vive o sonho


tecido no silêncio de cada passo
persegue-o com o infinito na ponta dos dedos
a eternidade nos olhos
e a perfeição do caminho
que escolheu seguir.

69
Metanoia

AHIMSA

Quando o sangue ferve na bruma


a ponto de estalar a epiderme
dos nervos que sustentam o esqueleto
de uma ferida muda
ela renasce…

Quando a sede fel de um archote


ressuscitado pela memória cristal
de um vento que sempre volta
para limpar a poeira dos olhos do Homem
ela aparece…

Quando a fome vegetal de um canto


quebra o mais fino fio da paciência
de um povo desgastado pela ruína
e pela mais ignóbil injustiça
ela cresce…

Quando a hora diluir os ponteiros


na última gota de suor de uma palavra
ela penetra nas almas como uma ave
à solta num coração marítimo
queda os braços e rende as mãos
numa violência mansa e surda
em nome de um presente
ébrio de futuro.

71
Metanoia

OVO CÓSMICO

Nenhum ponteiro é sagrado


ao olho lúcido do verbo
quando a hora faz a curva
e abandona o panteão das memórias
de uma idade carcomida pela usura

Eva, mãe cega de todos nós


despida pela fome louca do mundo
aponta para o nascimento de um dia
feito de amor e ódio, luz e carne
num desejo de lágrimas

Escondida entre as pernas


uma criança observa
a fúria animal do homem novo
desesperado por sair do ovo cósmico
e beijar o céu num suspiro mântrico

O sangue que brotou da fenda


coagulou um reflexo no deserto,
visão sanguínea de uma ruptura
e uma nesga de bruma céptica
a tudo o que irá escrever
nos anais do tempo.

73
Metanoia

MERKABA

Os intervalos das sílabas etéreas


donde brota o sal do teu nome
evocam o fogo-fátuo vítreo
que bruxuleia titubeante
durante o compasso dos segmentos
dos relógios que negam o teu corpo

Procuro-te quando mergulho


na rosa carne do Terceiro Olho
e assisto à evaporação das vírgulas
que tatuei nas máscaras avatares
de quem nunca fui

Encontro-me enquanto observo


A valsa matemática dos diamantes
dois triângulos fundidos no Devir
de uma geometria sagrada de sons
burilados por uma voz sem eco

Por fim…

Transcendo os sintagmas das escadas


até não encontrar mais nenhum muro
tetraético que separe a carne do sol
e descubro o centro do Cosmos
quando encontro a raiz do poema
após a erosão dos nomes.

75
Metanoia

ENGRAMA

Tudo é visível aos olhos do poeta


que mergulha ávido nos sulcos
das palavras primordiais do vazio
germinadas da levedura do branco
universo akáshico da nudez azul
de uma página

Para além da nossa dimensão porosa


nenhum elemento é estranho a ele
nos labirintos das miragens herméticas
que navegam nos abismos
das gavetas oníricas dos hemisférios

E na sublimação astral da escrita


tatua as metáforas dos retratos,
serigrafia etérea de símbolos e sons
esculpidos durante a cópula muda
dos sentidos

Resultado: uma mandala pictórica


hermenêutica transcendental de um eco
extraterrestre aos uivos das pedras
que vivem no ventre dos espelhos
da água.

77
Metanoia

O TEATRO DAS ESFERAS

O palco é um incêndio por lavrar


veste-se de silêncios e memórias
que muitas vezes fingimos esquecer
nos sulcos etéreos dos corpos

Cada gesto palavra ou expressão


é uma geometria sagrada
de sentimentos e sensações lunares
exposta à nudez porosa
de uma verdade amnésica do mundo

O enredo é uma sincronicidade


de teias psicológicas e antagónicas
cheias de charadas burlescas
e metáforas coronárias
a escorrer dos poros

Cai o pano da sinfonia celeste


do teatro das esferas
quando o público entranha
o enigma das metamorfoses
das peças que mastigou
e regressa ao útero das casas
com uma estrela cravada ao peito
sedento de tanto viver.

79
Metanoia

ENTELÉQUIA

Se detiveres o formigueiro
que brota da flor do éter
para o molde do teu desejo
não a encontras…

Se fugires da Dialéctica
de um pensamento do fogo
que dá vida ao teu ser
não a encontras…

Se negares um grão de mostarda


das mãos do verbo dos verbos
que fez do teu barro, ser em si
não a encontras…

Se pensares no fim da estrada


para lá da lâmina do céu
e ignoras os gritos das suas chagas

Desiste…

Regressa a ti
começa tudo de novo
e detém-te no instante
em que o poema nasceu
quando ainda estavas
a meio do caminho.

81
Metanoia

KENOSIS

De nada servem os adjectivos


enquanto ignorarmos o sentido do sémen
que verteu do sonho de Deus
para o útero dos índices

Que seria da luz


sem a existência da sombra?
Miragem geométrica de um fio
rasgando um vazio sem nome?

Que seria do enredo


sem o princípio e o fim?
Ondas oscilantes na imaginação
hermética dos sons?

Por isso esvazia a taça


detém-te no instante que nasceu
do fruto branco desta sede azul
e morde esse pomo rubro de tanto saber
no intervalo que separa o fogo da água
até perderes o medo dos muros
que ergueste sobre ti próprio
e descobrires que o fundo da taça
é o reflexo desse Nada
que só deseja ser Tudo
tal como tu.

83
Metanoia

BIG BANG

Transcrevo a voz oblíqua


desta matéria negra fluente
onde o tempo é um ponto de interrogação
oculto no sarcasmo dos relógios
enquanto escuto o mantra dos astros
nas abóbadas dos multiversos
sem me desviar da rota marítima do lápis

Burilo as arestas das dúvidas


e os espaços em branco dos buracos negros
onde escuto o arfar tântrico dos éones
antes de atingirem o primeiro orgasmo

Enquanto me arrasto nessa cópula celestina


decifro os koans das marcas d’água
e ignoro os conselhos dos astrónomos
inebriados pela febre dos cegos

Sem perder o rumo desta tradução


com o começo da quinta sinfonia das esferas
após a primeira explosão do húmus
atravesso as estrelas e as galáxias
pelas margens dos versos
à velocidade de um fio de sol
como quem procura uma palavra
perdida no meio das insónias nómadas
dos lobos

85
Tiago Moita

No fim da página onde termina o êxtase


de toda esta orgia cósmica
escrevo na ardósia do céu
o poema que nasceu a frio
do ruído de fundo deste verbo
feito de éter e sal
e silêncio na língua.

86
GLOSSÁRIO

ÁGAPE: Palavra grega que exprime o amor puro


e incondicional. Afeição. Amor por toda a criação.
Amor que transcende a complexidade sexual.

AHMISA: Não-violência, abstenção de não-preju-


dicar.

ENGRAMA: Imagem multidimensional arquivada


na nossa mente supra-consciente.

ENTELÉQUIA: Estado de perfeição. Estado de Ser


em acto plenamente realizado. Perfeição enquanto
caminho e não fim.

HESYCHIA: Personificação do silêncio. Silêncio do


corpo, mente e espírito. Fase preparatória da Apatheia.
Espécie de transe para ouvir o Todo.

KENOSIS: Manifestação do Absoluto no Relativo e


na involução cíclica do Ser. Esvaziar-se a si mesmo.
Aceitação do Divino de Deus.

MERKABA: Veículo de luz do ser humano, capaz de


transformar o espírito em estágios mais avançados até
ao corpo físico, para outras dimensões. Ferramenta
que auxilia os seres humanos a alcançar o seu pleno

87
Tiago Moita

potencial. Campo de energia cristalina composto


por geometrias sagradas específicas que se estende
pelo corpo até uma distância de vinte metros, a uma
velocidade próxima da luz.

METANOIA: Transformação de comportamento ou


de carácter, mudança de pensar e sentir no caminho
da perfeição, conversão interior. Na retórica é um
artifício que serve para reforçar uma afirmação, para
refazê-la logo de seguida, corrigindo-a, enfatizando-a
ou atenuando-a.

POIESIS: Acção ou capacidade de produzir ou fazer


alguma coisa, especialmente de forma criativa. Forma
de conhecimento de forma lúcida.

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Impresso em Lisboa, Portugal, por:

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