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Terreiros: Núcleos de Promoção de Saúde.

Humanização da Saúde cinco anos pós Durban como Contribuições para o Alcance
dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio1

Celso Ricardo Monteiro2.

Sérgio de Abreu Santos3;

Maria Cristina Silveira Prado Martins4.

"Recomendamos que a Organização Pan-Americana de


Saúde promova ações para o reconhecimento das
variáveis raça/etnia/gênero como variáveis significativas
no campo da saúde e que desenvolva projetos
específicos dirigidos à prevenção, diagnóstico e
tratamento de afrodescendentes." (Parágrafo 111.
Plano de Ação da Conferência das Américas, Santiago
de Chile, dezembro de 2000).

Introdução

A Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde nasceu no eixo Rio de Janeiro – São
Luiz do Maranhão, enquanto desdobramento do Projeto Ató-Ire do Centro de Cultura Negra do
Maranhão e, em resposta aos problemas relacionados à saúde pública que os Terreiros estavam
discutindo no âmbito do projeto. Na ocasião, saúde sexual e reprodutiva foi a matéria que
proporcionou às lideranças de religiões afro-brasileiras, o debate sobre as praticas de saúde
realizadas pelos Terreiros e a possibilidade da conexão destas, com o Sistema Único de Saúde.
Faz-se desnecessário informar que problemas de saúde do corpo e da alma são as questões mais
presentes na história de tais religiões. Do Catimbó ao Candomblé de Ketu, do Batuque ao Nagô
Egbá, da Umbanda à Jurema Sagrada, a busca pela saúde está associada á questões ancestrais,
pessoais, inter-pessoais, ou até do coletivo, se considerarmos que o ambiente bom o bastante é
aquele onde o equilíbrio é uma característica.

Em 2000, quando nascia o Grupo de Valorização do Trabalho em Rede 5 o contágio do HIV


através do pernilongo ainda era uma matéria presente nas agendas, apesar das grandes
contribuições que também a comunidade cientifica já havia dado, inclusive neste terreno. As
Sacerdotisas e Sacerdotes de Religiões Afro-Brasileiras, envolvidos no processo de fundação desta
instituição, abriram as portas de suas Casas de Axé para a ampliação do debate. Capacitar
Agentes Multiplicadores de Informação em Prevenção de DST-Aids foi a resposta do GVTR já nos
primeiros momentos de vida. Nesta experiência, registrada pelos vários relatórios do processo,
produzidos pelo grupo, encontraremos inúmeros mecanismos capazes de nos ajudar a refletir

1
Tese para o II Seminário Paulista da Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde;
Novembro/2006. Tal artigo oferta também uma devolutiva das ações da Rede Nacional de Religiões Afro-
Brasileiras e Saúde em São Paulo.
2
Associado Fundador Grupo de Valorização do Trabalho em Rede contatos: gvtr@brfree.com.br
3
Presidente do Instituto Beneficente Viva à Vida e Ponto Focal da Rede Nacional de Pessoas
Vivendo com Aids – SP. Contatos: patersanctus@uol.com.br
4
Secretária Geral do Grupo de Valorização do Trabalho em Rede. Contatos:
gvtr_secretaria@terra.com.br
5
Como soma de esforços entre Celso Ricardo Monteiro, Reginaldo Ortiz Dolci e outros, em resposta
a ausência das discussões sobre religiões afro-brasileiras na agenda do movimento de luta contra aids e
ausência das discussões sobre Aids nos espaços religiosos;
2

sobre o lugar da religiosidade neste universo, o papel do Sacerdote/Sacerdotisa, do agente


multiplicador e o papel do Estado – laico, democrático e de direito – nesta que mais tarde, vem a
ser uma das ações capazes de contribuir para contenção da epidemia de Aids, sobretudo nos
espaços sagrados, uma referência para quem pretende livrar-se de dor. Faltou, portanto, maior
atenção às questões relacionadas a qualidade de vida das pessoas vivendo com Aids, mas a
Organização não se omitiu do debate. Naquele momento, discutir relação familiar em tempos de
Aids, lipodistrofia, adesão aos medicamentos antiretrovirais, foi uma necessidade e uma
estratégia que possibilitou a reflexão e a promoção de atitudes, que incorporassem esta discussão
no dia-a-dia dos agentes multiplicadores e na agenda das organizações de governo, que ainda
tinham entre si, o desafio de prevenir HIV num espaço onde muitas vezes falar de Aids era falar
de moral, de intimidade e de valores. Para além destas, as questões discutidas pelo Programa
Inter-religioso de Combate à Aids 6 levou a coordenação do projeto a discutir e acatar as
recomendações que se voltavam a outras questões de saúde pública, sem contundo, desvirtuar-
se da intolerância religiosa enquanto eixo principal deste debate. Acesso ao corpo dos recém-
falecidos e, direito a visita aos doentes internados eram as pautas mais urgentes e importantes
naquele momento político. Entendia-se que o processo de convivência e diálogo inter-religioso
proporcionaria caminhos pacíficos para a redução de determinados problemas, talvez, uma das
razões por qual nasceu a Rede Ghandi (Associação Palas Athena do Brasil), porém, a
transformação da cultura e qualificação desta “educação que não educa”, sobretudo educar para
a diversidade, era e continua sendo o real problema desta saúde pública que hoje, tenta efetivar
uma Política Nacional de Humanização, mas não oferta nem a gestores, nem a profissionais,
quem dirá a usuários da saúde, a certeza de que aquilo que está em andamento é realmente
aquilo que deve ser feito, para não aumentar, já que nem sempre se diminui, a dor de quem vai à
Unidade Básica de Saúde, ao Hospital e não alcança o seu objetivo. Vale menção, a idéia de que
entre todos os que buscam saúde, na casa da saúde, há aqueles que adoecem ainda mais,
sobretudo, subjetivamente.

No espaço sagrado das religiões afro-brasileiras, a relação entre Homens e Deuses


contribui para o pleno desenvolvimento da saúde do corpo e da alma, até porque, todos possuem
lugar certo e determinado neste universo, onde a medicina espiritual é uma constante, mas não
está exclusivamente associada a presença de uma doença e sim, ao bem estar do individuo.
Diante disto, o lançamento do livro Religiões Afro-Brasileiras e Saúde, organizado por Silva
(2003), no Seminário de Estudos em Aids, Raça e Afro-etnia realizado pelo GVTR/SP com apoio
da Organização Mundial de Saúde, nas dependências do Centro de Referência e Treinamento em
DST-AIDS/Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, intensifica o debate sobre Saúde e Fé 7 e
inclui São Paulo (Organização de Governo, Organizações da Sociedade Civil e comunidades do
povo de santo) num circuito nacional, que vem desaguar na realização do I Seminário Paulista de
Religiões Afro-Brasileiras e Saúde, realizado pelo GVTR em parceria com o Conselho da
Comunidade Negra do Estado de São Paulo e com apoio da Secretaria de Estado da Saúde de São
Paulo. Neste momento, a ampliação da rede já era uma pauta presente nas articulações.

O II Seminário Paulista da Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde 8 surge da


necessidade de ampliar o debate em torno do direito e do acesso à saúde, a partir da perspectiva
e da visão de mundo das religiões afro-brasileiras, considerando a relevância dos valores e
princípios presentes no território negro africano e afro-brasileiro, visto que “africanidades” e “afro-
brasilidades” bem como as identidades religiosas são mecanismos importantes no processo de
6
Projeto do GVTR durante 2001/2003 que discutiu aids com diferentes religiões, tradições e
filosofias, capacitando agentes multiplicadores de informação e abrindo a discussão na Coordenação Estadual
de DST/Aids dando vida ao GT Religiões enquanto resposta do Estado.
7
Documentário produzido pelo Projeto Ató-Ire: Religiões Afro-Brasileiras e Saúde/CCN e lançado
durante o citado seminário.
8
Cuja comissão organizadora este ano reúne lideranças religiosas, educadores em saúde pública e
gestores, assim inovando em São Paulo.
3

atenção, promoção e recuperação da saúde. O impacto da fé na saúde dos indivíduos vem


mostrando-se cada vez mais um fator de extrema relevância para quem não crê no médico, como
crê nas autoridades religiosas de uma forma geral. Importante registrar que a busca por saúde do
corpo e da alma é uma das questões mais presentes nas religiões afro-brasileiras dada à relação
dos iniciados com suas respectivas divindades e seus demais pares.

A saúde de que tratamos neste texto perpassa pelo desejo, mas intensifica a necessidade
de ações para além do debate político, não somente sobre a busca pela saúde plena e de melhor
atendimento prestado pelos serviços públicos da área, mas, também de um outro olhar sobre a
Política Nacional de Humanização da Saúde, desenhada pelo Ministério da Saúde e que
preconiza a valorização das culturas. Muito embora os documentos oficiais sinalizem a atenção
aos temas chamados transversais, as ações realizadas pelos inúmeros agentes caminham dentro
de uma lógica diferenciada, que se articula em torno da resolutividade do problema (e não o
alcança), ao invés de trabalhar para evitá-lo. Vide política de medicamentos antiretrovirais.

Neste sentido, Educação Popular em Saúde, (Formação e Capacitação de Lideranças


Comunitárias, Lideranças Religiosas, Agentes Comunitários de Saúde, Educadores Sociais,
Conselheiros de Saúde e porque não de profissionais), além de Atenção e Promoção de Saúde,
Valorização e Conexão dos saberes, são questões primordiais para a garantia do Direito a Saúde,
na perspectiva dos Direitos Humanos e de forma distanciada da lógica de mercado, sem, contudo,
perder de vista o poder da oferta (compra e venda de uma saúde pública mercantilizada). Para
tanto, a experiência do GAJA – Grupo de Atenção aos Jovens e Adolescentes 9 vem dizer que é
fundamental a formação de novas lideranças, prioritariamente entre os jovens e adolescentes já
que os números da Aids, só crescem nesta faixa etária.

Neste ínterim, a Conferencia Mundial contra o Racismo, Discriminação Racial,


Xenofobia e Intolerância Correlata realizada em 2000 em Durban avança ao trazer
recomendações a exemplo da que segue, que transmite com plena felicidade a necessidade
destas pessoas e comunidades que pedem saúde, a partir de quem são, do que representam, do
que estão inseridos e com isto, a importância de suas e das inúmeras visões de mundo, onde
saúde tem espaço referencial:

“Convida os Estados, as organizações governamentais e não-


governamentais, as instituições acadêmicas e o setor privado a
aperfeiçoarem os conceitos e métodos de coleta e análise de dados; a
promoverem pesquisas, intercâmbio de experiências e de práticas
bem sucedidas e a desenvolverem atividades promocionais nesta
área; a desenvolverem indicadores de progresso e de participação de
indivíduos e dos grupos em sociedade que estão sujeitos ao racismo,
discriminação racial, xenofobia e intolerância correlata (...) Incentiva a
Organização Mundial da Saúde e outras importantes organizações
internacionais a promoverem e desenvolverem atividades para o
reconhecimento do impacto do racismo, discriminação racial,
xenofobia e intolerância correlata, como determinantes sociais
significativos das condições de saúde física e mental, inclusive da
pandemia de HIV/AIDS e do acesso aos serviços de saúde e a
prepararem projetos específicos, inclusive pesquisas, para assegurar
serviços de saúde, eqüitativos para as vítimas”. (Parágrafos 93 e 153.
9
Projeto do GVTR iniciado em Vila Formosa, na Associação Centro de Mamãe Oxum, Pai Guiné e
Caboclo da Pedra Branca, liderado por Mãe Liliana Tófoli.
4

Plano de Ação da III Conferência de Durban, África do Sul, setembro


de 2001).”

Meta 06: Combater a Aids, a Malária e outras Doenças, a partir da arte


de cuidar construindo caminho para a Humanização da Saúde.

Campos, em "Medicina Popular do Nordeste: superstições, crendices e meizinhas" (1967),


destaca que:

“Os saberes médicos trazidos pelos negros estavam também permeados


de usos e costumes dos mulçumanos, pois os árabes chegaram à África
bem antes dos portugueses; e em 1899 havia no Brasil apenas doze
"médicos formados", portanto a maioria da população se valia era da
medicina popular — um misto de crendices, superstições e
conhecimentos estruturados na prática observada de uma geração para
outra.”

Parafraseando Eduardo Campos (1967), para as populações pobres brasileiras, sobretudo


nas zonas rurais, curandeiro (a), rezador, rezadeira, raizeiro (a) e "comadres parteiras" existem, e
quase sempre, necessariamente, para a salvação 10!

Este II Seminário, resultado do trabalho de base realizado em diferentes regiões do Estado


de São Paulo, vem intensificar esta discussão, tendo como objetivo: a ampliação do debate público
sobre as ações em saúde, considerando os Terreiros enquanto núcleos de promoção da saúde,
para o fortalecimento das ações existentes neste universo e, a conexão entre as Religiões Afro-
Brasileiras e o Sistema Único de Saúde, rumo à promoção da Equidade, combatendo o preconceito
racial, o racismo institucional e a intolerância religiosa e, buscando colaborar para com o alcance
dos Objetivos para o Desenvolvimento do Milênio, a partir de parcerias formais entre Organizações
da Sociedade Civil, Comunidades de Terreiro e Organizações de Governo nas três esferas da
gestão.

Ações e Reflexões das Religiões Afro-Brasileiras para a Promoção da


Saúde.

Depois de realizadas oficinas, articulações locais, reuniões com gestores e encontros


intermunicipais, o primeiro seminário da Rede, em São Paulo, organizado para refletir e propor um
sistema de saúde mais equânime teve como pano de fundo as questões de Direitos Humanos,
diante do preconceito racial, do racismo institucional e da intolerância religiosa presente no
universo da saúde pública. Enquanto realização da Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e
Saúde – SP, em parceria com o Conselho de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra
do Estado de São Paulo e com apoio da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, da
Coordenadoria Especial dos Assuntos da População Negra/Secretaria de Participação e Parceria da
Prefeitura de São Paulo, o seminário voltou-se integralmente para os inúmeros documentos
importantes da área e definições também da mais alta importância, como, por exemplo, as
deliberações da XII Conferência Nacional de Saúde/2003, as diretrizes do Comitê Técnico
de Saúde da População Negra do Ministério da Saúde e os Oito Objetivos do Milênio,

10
Citado por Fátima Oliveira no artigo Medicina Popular de Matriz Africana no site
www.vermelho.org.br consultado em 04 de Agosto/2006;
5

citados já na mesa de abertura, onde tiveram assento representante do Governo do Estado, da


Prefeitura de São Paulo e da comunidade de Terreiro.

Uma vez analisada a demanda trazida pelo seminário e apresentada algumas das
experiências exitosas do povo de santo e de Organizações de Governo, pode-se pensar que muitos
dos atores não possuíam até aqui, instrumentos para poderem trabalhar em suas comunidades
locais, razão pela qual o evento se deve ao que a Rede chama de um fenômeno desconsiderado:

“As autoridades religiosas são constantemente convocadas a darem


respostas aos problemas de saúde da população, com ações que vão para
além do campo sagrado, mágico Ancestral. As forças da natureza,
consideradas recurso Ancestral da maior valia, possibilitam um contato direto
com o universo dos Orixás, Voduns, Inquices e Encantados, gerando assim a
saúde espiritual, por meio da identidade religiosa e/ou racial enquanto
aspecto da saúde mental entre outros. A partir daí, o equilíbrio e o meio
ambiente bom o bastante, segundo Winnicot, citado pelos religiosos,
interagem de forma a garantir a qualidade de vida do sujeito”.

Sabe-se que exemplos de respostas e apoios políticos vêm surgindo em meio à


problemática; Destaque para o GT Aids – Religiões (inter-religioso) da Coordenação Estadual de
DST-Aids, que segundo sua Coordenadora, Paula de Oliveira e Sousa, previa-se ainda para o final
de 2005, a discussão sobre a ampliação do conjunto de ações capazes de dar respostas aos
problemas enumerados pela Rede e seus parceiros. Depois de ter adquirido a experiência e os
parceiros necessários para a realização desta primeira fase do trabalho, o grupo entende que a
discussão sobre fé e religiosidade, deve ser feita por quem de direito (e não pelo Estado), no
entanto, as ações em saúde, a partir de comunidades específicas e juntas aos serviços, devem ser
articuladas de acordo com a linguagem desta parcela da população não podendo mais, ser
desconsiderada e, todos devem gozar deste direito.

Reflexões, contribuições e perspectivas para a promoção da Equidade e


dos Direitos Humanos.

Equidade, princípio do SUS, foi de fato, a tônica das discussões do I Seminário que teve
como eixo: o Direito e Acesso á Saúde no Estado, em meio á Diversidade e a
vulnerabilidade do público atendido. O evento proporcionou a formatação de um rico espaço
para trocas de experiências e informações sobre as práticas terapêuticas de matrizes africanas e
sua conexão com o Sistema Único de Saúde/SUS, na busca por uma saúde equânime. Estimular a
discussão sobre saúde integral, tendo como foco a saúde sexual e reprodutiva e suas relações com
a religiosidade afro-brasileira, enfatizando as questões de gênero, raça/etnia e direitos humanos,
não só foi pauta do encontro, como devem ser a área de atuação da rede no próximo período, já
que ampliada de cinco para 19 cidades, no que inclui-se a região metropolitana, o Alto Tietê e a
Baixada Santista, consideravelmente representada.
As propostas cogitadas pelo seminário devem “instrumentalizar a comunidade de Terreiro
em torno das questões também relacionadas à gestão participativa, contribuindo assim, com o
desenvolvimento das políticas públicas de saúde” voltadas para a população negra e comunidades
de Terreiros, visando a promoção da Equidade no Estado de São Paulo.

Representada pela Dra Cristina Torres, expositora do Painel sobre “Desafios dos Gestores e
dos Religiosos” a Organização Pan – Americana de Saúde/Woshington, que vem atuando
bravamente no campo da Etnicidade em Saúde, abrilhantou ao seminário, disponibilizando
informações referentes ao tema, cujos “problemas são cada vez maior se olharmos para a América
Latina como um todo. Com todos os problemas que tem, o Brasil está muito adiante da realidade dos
países vizinhos…” segundo Dra Torres.
6

O SUS que Queremos.

Capacitação e formação de quadro foram as palavras de ordem do evento. Ao construírem


uma Agenda Política durante o Painel que encerrou o seminário: Comunidades de Terreiro e
suas Conexões com o SUS, coordenado pelo Babalorixá e Sociólogo, Professor José Luís
Monteiro/RJ, os participantes entenderam que “O SUS QUE QUEREMOS” deve acolher a
diversidade em todas as suas formas, permitindo uma maior respeitabilidade entre
profissionais de saúde e sus-dependentes, o que está literalmente ligado à Política de
Humanização do Governo. Para tanto, um conjunto de estratégias foram pactuadas pelos
presentes, visando uma resposta eficaz e intersetorial ao preconceito racial, ao racismo institucional
e a intolerância religiosa no SUS.
Durante sua Assembléia Geral Ordinária, no inicio de 2006, o Grupo de Valorização do
Trabalho em Rede, comprometeu-se, assim acolhendo as recomendações de seus parceiros, a
contribuir para com o fortalecimento da Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde no
Estado de São Paulo. Para tanto, incorporou ao seu Planejamento Estratégico, a implementação
das propostas oriundas do seminário da rede.
Em Junho de 2006, o grupo anunciou durante a realização do II Encontro Intermunicipal de
Religiões Afro-Brasileiras e Saúde (e intensificou tal trabalho na sua I Oficina de Monitoramento da
Agenda de Compromissos) o resultado das ações promovidas até dado momento. Estas já eram os
resultados do evento, que caminhavam para a implementação de políticas públicas em âmbito
local. Eis os dados apresentados:

”O I Seminário Paulista da Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e


Saúde apontou caminhos de organização política da comunidade de Terreiro
para as articulações com o poder público. Diante disto, as propostas
apontadas abaixo foram sendo executadas uma a uma, de forma a atender
as expectativas das lideranças religiosas e os demais parceiros da Rede.
Hoje, tais proposições encontram-se em dois blocos: ações realizadas e
ações em andamento“.
Ações realizadas;

I. Mapear os prováveis parceiros locais (Terreiros; Governo; ONG; Pessoas Físicas, etc.):
encontrar esses nomes a partir das poucas ações que se tem noticias, possibilitou a escolha
das cidades que seriam contempladas com o Projeto de Capacitação de Lideranças
Comunitárias.
II. Levantar as expectativas da Comunidade de Terreiro em cada localidade;
III. Possibilitar reuniões com a comunidade de Terreiro, visando a realização de ações nesta
área especifica: O Painel Religiões Afro-Brasileiras e Saúde no Dia Mundial de Saúde, o II
Encontro Intermunicipal de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde, foram duas das atividades da
Rede, incorporadas na agenda de compromissos do GVTR e no calendário da Cidade de
São Paulo. Pretende-se ainda, que o 1 o. de Dezembro, Dia Mundial de Luta Contra Aids,
seja adicionado na agenda.
IV. Abrir diálogo com o governo local: a realização do I Seminário Paulista possibilitou uma
melhor relação com o governo Estadual, outras parcerias e o envolvimento de outros
pares, destacadamente o Núcleo de Educação Comunitária da Secretaria de Saúde do
Município de Várzea Paulista.
V. Realizar oficinas para cada município (dando voz e visibilidade aos núcleos municipais da
Rede);
VI. Alcançar as comunidades mais carentes;
VII. Realizar em São Paulo um seminário de Religiões Afro-brasileiras e Saúde para a
América Latina (OPS), por meio da Secretaria Geral da Rede Nacional de
Religiões Afro-Brasileiras e Saúde-Núcleo RJ: OPS – Woshington solicitou ao GVTR a
recepção da Diretora Titular do Departamento de Medicina Tradicional e Complementar da
7

Organização Mundial de Saúde. O evento reuniu representantes da comunidade cientifica,


da OMS, da OPS, de diferentes seguimentos afro-religiosos e de parlamentares de
diferentes países da América Latina e Caribe.
VIII. Realizar o II Seminário Paulista de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde em 2006:
Está em andamento a organização da II edição do seminário, previsto para Novembro –
enquanto agenda de Governo;
IX. Promover Capacitação em Saúde para que as autoridades religiosas possam se articular
junto aos outros atores/atrizes;
X. Estabelecer parceria com a Coordenadoria dos Assuntos da População Negra da
Prefeitura de São Paulo: GVTR e CONE/SEPP - PMSP vêm trabalhando juntos, por meio
de colaboração mútua, desde de Janeiro/2006 (Projeto Ile Axé – A Saúde na Casa dos
Orixás). No coração da proposta de trabalho está o desenvolvimento político e educativo da
comunidade de Terreiro, considerando as diversidades contidas na cidade de São Paulo e
adjacências;
XI. Abrir a discussão em torno do Programa de Humanização em Saúde – Secretaria
de Estado da Saúde de São Paulo: O Comitê de Humanização em Saúde/SES
concordou em ouvir a comunidade de Terreiro e, no Painel Religiões Afro-Brasileiras e
Saúde/Dia Mundial de Saúde dividiu mesa com os religiosos. Tal momento foi importante
para que a SES ouvisse e vivenciasse, mais de perto, os momentos provocados pela Rede
Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde.

Ações em Andamento:

a. Mapeamento das experiências exitosas na área: esta é uma ação constante, no


entanto, foi fundamental para contemplar a execução do projeto de capacitação de
lideranças comunitárias, pois seria necessário dar oportunidades para aqueles que não
tinham acesso a informação.
b. Identificar os atores/atrizes que já realizam e os que possuem interesse na área
(em âmbito local): Esta faz parte do mapeamento e à cada nova ação, indica-se futuras
potências que precisam ser fortalecidas;
c. Identificar - sensibilizar os profissionais de saúde e outros que estejam ligados a
diferentes comunidades de terreiro (ou não): Este processo é mais lento, porém,
percebe-se hoje, um relacionamento que difere do anterior;
d. Publicação dos Anais do I Seminário Paulista de Religiões Afro-Brasileiras e
Saúde em parceria com o Conselho de Participação e Desenvolvimento da
Comunidade Negra do Estado de São Paulo: os participantes o I Seminário não
enviaram suas apresentações para a tal publicação, muito embora tenham sido feitas várias
solicitações. Propõe-se que o conteúdo do primeiro some-se ao conteúdo do segundo
seminário e, esta junção resulte em uma publicação;

Diante dos inúmeros desafios, as instituições e pessoas envolvidas no processo, indicam


estas, como as contribuições das religiões afro-brasileiras para o alcance dos Objetivos do Milênio,
sobretudo, no que tange a Meta 06: Combater a Aids, a Malária e outras Doenças, mesmo
sabendo que a diversidade étnico-racial e a pluralidade religiosa não estão inseridas oficialmente,
nos objetivos aqui citados. Para além disto, a reclamação do movimento Negro de luta contra o
racismo é clara:

“Os chefes de Estados esquecerem que ações afirmativas são


primordiais para o alcance das oito metas, pois é preciso que se leve
em consideração a lógica da Equidade, não só nos textos e discursos
políticos, mas sim, no cotidiano dos serviços públicos, o que significa,
8

adequar as linguagens e sistemas para que a população negra, se


reconheça nestes espaços e experimente serviços de qualidade”.

Painel Religiões Afro-Brasileiras e Saúde e Humanização – Dia Mundial


de Saúde/200611.

O Painel Religiões Afro-brasileiras e Humanização da Saúde, realizado no Dia Mundial de


Saúde em 2006, inaugura a parceria entre o GVTR – Grupo de Valorização do Trabalho em Rede e
a Coordenadoria dos Assuntos da População Negra/Secretaria Especial de Participação e Parceria.
Na ocasião Sandra Souza da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo/Comitê de Humanização
Hospitalar e Elisabete Aparecida Pinto/Área Temática de Saúde da População Negra/Secretaria
Municipal de Saúde trouxeram suas contribuições para o debate, cujas reflexões transcrevemos
abaixo:

 Saúde Pública no Brasil – os desafios da sociedade civil em meio aos dados


epidemiológicos: como qualificar a saúde da população? O conceito de saúde de cada um,
pertence a um mundo diferente, com linguagem e visão diferente. Quando o problema é
acesso deve-se levar em conta as questões sócio-econômicas e políticas que envolvem esta
discussão. Sabe-se, portanto que a população não entende gráfico, portanto, não usufrui a
mesma linguagem dos técnicos.

 Informação é poder: é preciso que a população conheça cada vez mais sobre o sistema
único de saúde, a sua legislação, a forma como ele está organizado e a estrutura da
participação popular; Os gestores devem tomar conhecimento dos entraves ideológicos,
políticos, étnicos e religiosos que impedem o processo de atenção a saúde; Existem
conexões importantes no campo da fé, com a atuação em saúde e, estas conexões,
tampam uma grande lacuna deixada pela não procura ou abandono do serviço, devido a
falta de confiança no médico, ou os problemas na relação profissional de saúde/usuário já
na triagem.

 O lugar da religião: a fé das pessoas não depende necessariamente, de um local especifico


para manifestação. Contudo, em torno do discurso sobre a laicidade, o estado brasileiro
impõe a população um serviço público arraigado de sentimentos e fantasmas dos seus
funcionários. A intolerância religiosa é uma constante no ambiente hospitalar e demais
unidades de saúde; sendo assim, a pratica da fé nos espaços hospitalares fica sempre para
depois.

 Acessibilidade: os Sacerdotes/Sacerdotisas de religiões afro-brasileiras não possuem


garantia de acesso aos doentes hospitalizados e aos corpos de seus seguidores na ocasião
do óbito; as relações sociais entre os profissionais de saúde, possuem inúmeros entraves,
inclusive na relação empregado – empregador; a forma como estes conflitos são
solucionados, quando são, vai indicar a qualidade do atendimento ofertado ao usuário;

 SUS – referência para as Américas: o SUS é um plano de saúde? Não pode acolher a
população com a idéia de que aquele sujeito doente é “mais um número” pois aquele
sujeito é uma pessoa com história, cultura, trauma, etc,etc,etc.
 Pautas simultâneas: o real sentido da identidade racial, pois “ninguém pode me privar de
ser negro” nem tão pouco coibir a minha fé. O médico não teve esta aula em sua

11
Devolutiva do Painel – que contou com apoio da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo
(Comitê de Humanização Hospitalar), inaugurando a parceria entre GVTR e Coordenadoria dos Assuntos da
População Negra/Secretaria Especial de Participação e Parceria – Prefeitura do Município de São Paulo.
9

formação, então, o Pólo de Educação Permanente deve olhar para a formação do médico,
tendo em mente que as pessoas “são iguais, porém diferentes”.

 O impacto da fé no processo saúde-doença: sabe-se que o trabalho realizado pelos


Sacerdotes e Sacerdotisas dos Terreiros, Benzedeiras e Rezadeiras é primordial para boa
parte da população. A fé é sempre o primeiro refúgio do doente.

 A resposta das religiões afro-brasileiras: os Sacerdotes e Sacerdotisas dos Terreiros estão


cada vez mais organizados. Foi estabelecido o diálogo entre diferentes setores de governo
e diferentes movimentos sociais. Hoje o povo de santo está atuando por meio da Rede
Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde (aproximadamente 17 Estados com Núcleos
Municipais). Mas é preciso vontade política por parte do Estado, que por sua vez, não
implementa as ações que são pactuadas para o bom desenvolvimento do SUS.

 Demanda, resposta e impacto: os Terreiros são territórios acolhedores, humanizados que


podem cooperar para com o avanço do sistema único de saúde. Para tanto, é preciso que
se estabeleçam parcerias que visem a formação e implementação de redes sociais, locais,
atuantes, no seio da população alvo, com a linguagem e participação da comunidade;

Educação em saúde

Apoiados na proposta de processo educativo que tem como base os quatros pilares da
educação12, seguimos refletindo sobre o processo de educação em saúde.

1. Toda formação humana é intencional e não se esgota na ação de um sujeito sobre o outro;
2. A educação favorece a criação de oportunidades de desvelamento das diferentes realidades
com as quais nos deparamos e das quais participamos;
3. A educação toca diferentes dimensões humanas;
4. A educação é, pois, um elemento gerador de novas/outras formas de conceber o mundo
para nele atuar;
5. A ação educativa requer troca de saberes, desejos e vontades, fortalecimento da ação
cooperada, o enfrentamento e a superação do não saber-fazer.
6. A educação concebe o sujeito como pleno de possibilidades, inacabado, complexo e
singular;
7. A educação não se resume a uma função meramente instrumental, e não está a serviço da
reprodução ou da transmissão de informações, valores e crenças que imobilizam sujeitos e
coletividades, que podem servir para inferiorizar ou desqualificar o saber do outro, para
afirmar ou cristalizar idéias e práticas discriminatórias;

Referencia bibliográfica:

MONTEIRO, Celso Ricardo. I Seminário Paulista de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde – Devolutiva/Dezembro


de 2005.

GVTR – Painel Religiões Afro-Brasileiras e Humanização da Saúde/Dia Mundial de Saúde – Relatório Descritivo.

GVTR – II Encontro Intermunicipal de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde (01 de Julho de 2006) – Relatório
Descritivo.
BRASIL – Ministério da Saúde, consulta ao site oficial, Portal da Saúde, em Julho de 2006.

12
Conforme exposição no curso do Projeto de Participação e Controle Social da População Negra em
Saúde/Brasília – Agosto de 2006.
10

BRASIL – Presidência da República/SEPPIR, consulta ao site oficial, em


www.presidencia.gov.br/seppir em Agosto de 2006.

GVTR – Devolutiva da I Oficina de Monitoramento da Agenda de Compromissos (02 de Julho de 2006);

___________ODM. Nós Podemos – Objetivos de Desenvolvimento do Milênio; Consulta ao site:


www.nospodemos.org.br em Julho/2006;
ONU – PNUD Brasil. Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento; consulta ao site oficial em Agosto
de 2006.