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Aula 02 – Coesão Textual

1. Introdução.
Tradicionalmente, atribui-se à coesão o papel de estrutura sintática de um texto.
A gramática tradicional concebe a coesão como um recurso sintático de formar a tessitura
de um texto, por meio do uso das conjunções, pronomes ou mesmo, no caso da coesão
referencial, o uso de substitutos para determinados referentes do texto, sendo um fator
essencial para a textura.

Todavia, com os avanços dos estudos no campo linguístico, especificamente na


linguística de texto, que preocupa-se com os processos de formação do texto, e não com
a gramática a nível frasal, percebeu-se que a coesão, apesar de se dar na superfície do
texto, é um processo no qual o autor deixa pistas importantes para a construção de sentido.

2. Definição de coesão.
Conforme Marcuschi, a coesão não é nem suficiente nem necessária para a
textualidade, embora seja um princípio constitutivo do texto1. Ou seja: um texto pode não
conter elementos linguísticos que possam explicitar o processo de coesão e ainda assim
ser um texto. É possível ver isso com clareza no texto de Ricardo Ramos, abaixo:

Circuito fechado.

Chinelos, vaso, descarga. Pia, sabonete. Água. Escova, creme dental, água, espuma, creme de
barbear, pincel, espuma, gilete, água, cortina, sabonete, água fria, água quente, toalha. Creme para cabelo,
pente. Cueca, camisa, abotoaduras, calça, meias, sapatos, gravata, paletó. Carteira, níqueis, documentos,
caneta, chaves, lenço. Relógio, maço de cigarros, caixa de fósforos, jornal. Mesa, cadeiras, xícara e pires,
prato, bule, talheres, guardanapos. Quadros. Pasta, carro. Cigarro, fósforo. Mesa e poltrona, cadeira, cinzeiro,
papéis, telefone, agenda, copo com lápis, canetas, blocos de notas, espátula, pastas, caixas de entrada, de saída,
vaso com plantas, quadros, papéis, cigarro, fósforo. Bandeja, xícara pequena. Cigarro e fósforo. Papéis,
telefone, relatórios, cartas, notas, vales, cheques, memorandos, bilhetes, telefone, papéis. Relógio. Mesa,
cavalete, cinzeiros, cadeiras, esboços de anúncios, fotos, cigarro, fósforo, bloco de papel, caneta, projetos de
filmes, xícara, cartaz, lápis, cigarro, fósforo, quadro-negro, giz, papel. Mictório, pia. Água. Táxi, mesa, toalha,
cadeiras, copos, pratos, talheres, garrafa, guardanapo, xícara. Maço de cigarros, caixa de fósforos. Escova de
dentes, pasta, água. Mesa e poltrona, papéis, telefone, revista, copo de papel, cigarro, fósforo, telefone interno,
externo, papéis, prova de anúncio, caneta e papel, relógio, papel, pasta, cigarro, fósforo, papel e caneta,
telefone, caneta e papel, telefone, papéis, folheto, xícara, jornal, cigarro, fósforo, papel e caneta. Carro. Maço
de cigarros, caixa de fósforos. Paletó, gravata. Poltrona, copo, revista. Quadros. Mesa, cadeiras, pratos,
talheres, copos, guardanapos. Xícaras. Cigarro e fósforo. Poltrona, livro. Cigarro e fósforo. Televisor,
poltrona. Cigarro e fósforo. Abotoaduras, camisa, sapatos, meias, calça, cueca, pijama, espuma, água.
Chinelos. Coberta, cama, travesseiro.
Fonte: Os melhores contos brasileiros de 1973. Porto Alegre: Editora globo, 1974 pp. 169-175

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2012, p. 53

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O texto não apresenta uma continuidade superficial (não tem conjunções ou
pronomes fazendo as conexões entre as sentenças). Pelo conceito tradicional de coesão,
esse não seria considerado um texto. Porém, é possível entendê-lo! Mas como? Bem, isso
é possível porque o texto, por meio de suas escolhas léxicas, está montando cenários
familiares do dia-a-dia da maior parte das pessoas.

No texto a seguir, podemos perceber que há elementos coesivos fazendo a


remissão de referenciais, entretanto, os fatos alistados não se relacionam, não formando,
desta feita, uma textura:

João vai à padaria. A padaria é feita de tijolos. Os tijolos são caríssimos. Também os mísseis são
caríssimos. Os mísseis são lançados no espaço. Segundo a Teoria da Relatividade, o espaço é curvo. A
geometria rimaniana dá conta desse fenômeno.

Fonte: MARCUSCHI, Luiz Antônio. Produção textual, análise de gêneros e compreensão. São Paulo:
Parábola Editorial, 2008 p.107

Assim, finalizamos mostrando que, apesar de não ser nem necessária nem
suficiente, a coesão textual possui sua relevância na produção e recepção textual. Koch
afirma que “o conceito de coesão textual diz respeito a todos os processos de
sequencialização que asseguram (ou torna irrecuperável) uma ligação linguística
significativa entre os elementos que ocorrem na superfície do textual”.2

3. Mecanismos de coesão.

a. Coesão referencial.
Chama-se de coesão referencial o mecanismo textual onde um componente da
superfície do texto faz remissão a outro(s) elemento(s) do universo textual. Quando isso
ocorre, o termo que é retomado é chamado de referente textual. O elemento que faz a
retomada é chamado de forma referencial.

As formas de coesão referencial são duas: as formas remissivas não-


referenciais, que são aquelas formas que não possuem autonomia (sozinhas, não
funcionam como referenciais), e as referenciais, que possuem algum tipo de referência
virtual própria.

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KOCH Apud MARCUSCHI, 2008.

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Formas de coesão referencial

Formas remissivas não-referenciais Formas remissivas referenciais

→ Pronomes pessoais → Sinônimos


→ Artigos → Pronomes substantivos → Hiperônimos
→ Pronomes adj. → Advérbios pronominais → Nomes genéricos
→ Numerais ordinais → Pós-formas verbais → Grupos nominais def.
→ Numerais cardinais → Nominalizadores
→ Elementos metaling.
→ Elipses

Das formas de referenciação, a pronominal, também chamada de pós-forma, é a


mais utilizada como fator organizador do texto. Abaixo temos um esquema de suas
funções distributivas no texto:

Referência pronominal

Endófora Exófora

Anáfora Catáfora Externoaotexto

recupera o Antecipa o
referente referente

b. Coesão sequencial.

De acordo com Koch, a coesão sequencial se dá por meio de procedimentos


linguísticos os quais estabelecem, entre partes do texto (sequências textuais), diversos
tipos de relação de significado, à medida que se faz o texto progredir. Ela pode ocorrer
por meio de mecanismos de sequenciação da língua ou por meio da progressão tópica.3

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2018, p. 49

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Formas de coesão sequencial

Sequenciaçãoparafrástica Sequenciaçãofrástica

→ Progressãotemática
→ Repetiçãolexical
→ Encadeamentopor justaposição
→ Paralelismos
• Marcadores espaciais
→ Paráfrases
• Marcadores conversacionais
→ Recorrência de tempo
→ Encadeamentopor conexões
verbal
• Relações lógico-semânticas
• Relações argumentativas

4. Análise.
Observe o versículo 1 da carta de Judas:
“Judas, servo de Jesus Cristo e irmão de Tiago, aos chamados, amados em
Deus Pai e guardados em Jesus Cristo, a misericórdia, a paz e o amor vos sejam
multiplicados.”
Esse versículo corresponde à introdução da carta, sendo gênero carta, esta parte
é essencial. Compreende a apresentação inicial entre os interlocutores e é um modelo
socialmente estabelecido.

Em primeiro lugar, percebemos o mecanismo de referenciação, na primeira parte


do versículo, fazendo remissão ao referente “Judas”, por meio dos qualificadores: (1)
Servo de Jesus Cristo, (2) irmão de Tiago. Como afirma Koch, “a referenciação constitui
uma atividade discursiva. O sujeito, por ocasião da interação verbal, opera sobre o
material linguístico que tem à sua disposição, operando escolhas significativas para
representar estados de coisas, com vistas à concretização de sua proposta de sentido”4.
Portanto, ao escolher tais referentes, Judas quer não somente informar, mas reconstruir a
si mesmo a partir de uma perspectiva: ele é uma autoridade religiosa. Isso também carrega
força argumentativa, mas não vamos falar sobre isso agora.

Assim, o uso do mecanismo de coesão referencial feito por Judas mostra que a
sua função não é só retomar o referente, mas ressignificá-lo; construindo, dessa forma,
sentido e desenvolvendo o texto.

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Koch 1999, 2002 Apud, 2018.

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SIBB– Língua Portuguesa II Prof.: Pr Francisco Neto
Na segunda parte do versículo, temos três particípios que também estão
funcionando como referentes, estão fazendo remissão a um referencial: (1) chamados, (2)
amados e (3) guardados. Resta saber: quem é o referencial? Para entendermos a quem se
refere, é preciso entender algo sobre o gênero carta: toda carta é um texto escrito de
alguém para alguém, ou para alguns(as). Assim, Judas está escrevendo para um grupo de
pessoas (isso é notório pelo uso do plural), mas estas pessoas não foram inseridas no texto.
Assim, temos um exemplo de referenciação exofórica: os referentes apontam para um
referencial fora do texto, que, no caso, trata-se dos irmãos aos quais Judas intenta
escrever.

É notório também que, ao retomar o referencial, ele é recategorizado: são


descritos através de particípios que assumem pressuposições a respeito deles: eles são
crentes, submetidos a Deus, por isso são “chamados”. Eles são “amados” por Deus, pois
foram objeto do amor salvador (foram chamados), e, consequentemente, são
“guardados”, ou seja, preservados de incorrerem nas artimanhas do engano doutrinário
promovido pelos falsos mestres, os quais o autor denunciará.

Por último, vemos o pronome “vos” fazendo uma remissão anafórica ao referente
que foi recategorizado anteriormente. O pronome aí faz com que o texto, especificamente
a saudação inicial, tenha continuidade. Ou melhor, o que o autor ainda pretende dizer aos
seus interlocutores tenha continuidade.

Agora, perceberemos como os mecanismos de coesão sequencial são utilizados


pelo autor para dar seguimento ao texto e, ao mesmo tempo, construindo suas apreciações
e intenções.

No seguimento dos versos 3 e 4 nós temos:

“Amados, quando empregava toda a diligência em escrever-vos acerca da


nossa comum salvação, foi que me senti obrigado a corresponder-me convosco,
exortando-vos a batalhardes, diligentemente, pela fé que uma vez por todas foi entregue
aos santos. Pois certos indivíduos se introduziram com dissimulações, os quais, desde
muito, foram antecipadamente pronunciados para esta condenação, homens ímpios, que
transformaram em libertinagem a graça de nosso Deus e negam o nosso único Soberano
e Senhor, Jesus Cristo.”
Estes indivíduos são retomados em vários momentos no decorrer do texto, até o
versículo 19:

a) Estes (v.8, 10, 12, 14, 19).

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b) Eles (v.11).
c) Os tais (v.16).

Conforme as operações sequenciais parafrásticas, vemos que Judas usou os


verbos, no v.3, para apontar para trás (uma vez que faz uso do aspecto imperfectivo). Por
meio disso, ele diz duas coisas: (1) a sua escrita foi planejada e (2) mostra o pano de
fundo para sua escrita.

No v.4, o recorrente uso dos verbos no tempo passado tem a função de descrever
os indivíduos que serão combatidos por Judas no decorrer da carta. De certa forma, Judas
está narrando o que eles fizeram para se tornarem alvos de seus ataques.

Do ponto de vista da coesão sequencial frástica, o texto pode se desenvolver por


meio de elementos conectores que tem por objetivo: (1) promover relações de sentido ou
(2) argumentar. Assim, neste momento da carta de Judas, ele dá seguimento ao texto
usando dois elementos conectores: (1) quando e (2) pois. O primeiro conector indica
tempo anterior, o que indica o pano de fundo que o autor pretende construir. O segundo
conector introduz a justificativa do v.3:

a) Judas quer escrever sobre a batalha pela fé, que foi dada aos santos.
b) Pois há indivíduos que estão introduzidos no meio da igreja e são perniciosos a
esta fé.

Por este recurso, Judas constrói um argumento: a fé precisa ser ardentemente


defendida porque há indivíduos que são ameaças a preservação desta.

No restante do texto, há mais desenvolvimentos por meio de conectores:

a) “da mesma sorte” (v.8) – Os exemplos anteriores servem para comparar (os
indivíduos cometem as mesmas coisas pelas quais Israel, os anjos caídos e
Sodoma foram condenados). Dai, infere-se que estes também merecem a
mesma condenação.
b) “contudo” (v.9) – o autor constrói uma argumentação: enquanto estes
perversos difamam os seres superiores, nem mesmo Miguel (um ser superior
aos homens) ousou infamar o diabo.
c) “porém” (v.10) – o argumento continua: estes difamam aquilo que não
conhecem, enquanto Miguel, que conhece a esfera angelical, não o fez.

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d) “porque” (v.11) – aqui há uma justificativa para o “aí deles”. Eles serão
condenados pois cometeram os mesmos erros que estes três personagens
emblemáticos do A.T.
e) “também” (v.14) – há uma soma de mais um argumento: existe uma profecia
condenatória que se enquadra justamente com o perfil destes homens. O
arremate é o v.6, onde aquilo que será julgado por Deus, na profecia de
Enoque (impiedade e linguagem insolente) é encontrado nos homens ímpios
que Judas vem combatendo.

Por último, é importante perceber como o autor constrói os tópicos que são
desenvolvidos no texto. Vamos perceber, por meio das escolhas léxicas, como isso é feito:

Referência Julgamento Perversão/Rebelião


v.5 “destruiu” “não creram”
v.6 “tem guardado”, “juízo”, “Grande dia”. “abandonaram”
v.7 “fogo eterno”, “punição”. “entregaram-se à prostituição”

Nesta seção, o autor desenvolve no tópico que a perversão do que Deus disse ou
fez conduz a juízo e condenação.

Nos versos 8-10 os termos “difamar” e “juízo infamatório” são recorrentes e


desenvolvem um tópico sobre o problema do desrespeito aos seres da esfera angélica.

A partir de 11-16 o autor vai desenvolver o tópico sobre o juízo que tais homens
sofrerão. As escolhas léxicas apontam para tal: (1) três personagens que representam a
revolta contra Deus; (2) seis metáforas que apontam para características reprováveis,
sendo a última uma ilustração do destino final deles; (3) caracterização da impiedade dos
homens que são dignas de julgamento.

5. Exercício.
Leia II Tessalonicenses 1 e aliste:
a. Os referenciais que são introduzidos no texto por Paulo.
b. Os referentes que fazem a remissão (dividi-los em catafóricos, anafóricos
e, se houver, exofóricos).
c. O desenvolvimento do texto por meio de conectores
d. O desenvolvimento dos tópicos, através de escolhas léxicas.

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Aula 03 – Focalização e relevância

1. Introdução.
Focalização é a concentração dos interlocutores, no momento da interação
verbal, em apenas uma parte de seu conhecimento de mundo e compartilhado.

A focalização permite determinar significados:

a. De palavras homônimas e polissêmicas.


b. De elementos dêiticos.

Ela é responsável também pelas escolhas de expressões nominais que são


responsáveis pela construção e reconstrução de referentes textuais.

A noção de relevância, para a interpretação de texto, é a percepção de que os


conjuntos de enunciados do texto estão sendo relevantes para um mesmo tópico
discursivo que os unifica.

2. Focalização.
Observemos o capítulo 1 do evangelho de Marcos e percebamos como o autor
dá pistas para que os leitores focalizem e construam significados a partir das escolhas de

O texto começa com uma expressão nominal: “princípio do evangelho de Jesus


Cristo, Filho de Deus”. - Ἀρχὴ τοῦ εὐαγγελίου Ἰησοῦ Χριστοῦ [υἱοῦ θεοῦ].

O termo “evangelho” pode ser interpretado de forma equivocada se a focalização


do leitor não compartilhar do mesmo conhecimento compartilhado com o autor:

a. Poderia ser entendido como gênero textual.


b. Poderia ser entendido como “boas notícias” apenas.

Portanto, o conhecimento partilhado entre Marcos e os seus interlocutores não


permite que o vocábulo “evangelho” seja entendido das formas citadas acima. Para que
isso fique bem estabelecido, o autor descreve como “evangelho de Jesus Cristo”, e mais
tarde (v.14) como “evangelho de Deus”, o que seria uma recategorização do referencial
– não se trata aqui de “boas notícias” apenas, mas de algo que vai se especificar,
principalmente no contexto cristão, como sendo posteriormente confundido com o
próprio Senhor Jesus Cristo.

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Outro termo que vai delimitar o foco do texto é o termo “princípio”. Princípio
aqui tem uma função dêitica temporal: mostrar como começou. Assim, toda a parte
introdutória até a introdução do Senhor Jesus como personagem.

Marcos vai mostrar que esse evangelho (essa novidade atrelada a Jesus) tem
como base a teologia de Isaías, especificamente do Servo sofredor (o que Marcos vai
desenvolver ao longo do livro), e isso tem começo com o ministério de João Batista.

Quando nós lemos a fala de João no v. 7, 6 é possível entender que “após mim”
e “aquele” são elementos que apontam para frente (dêiticos) e é possível entender que o
pronome indefinido “aquele” está referenciando “Jesus”, já que ainda estamos lidando
com João Batista aqui. Jesus ainda não foi introduzido, o foco de Marcos ainda é João,
ou “a voz que clama” (v.2).

As descrições também funcionam como pistas da focalização do texto.


Percebamos como Marcos proporciona isso na primeira parte do capítulo 1:

a. João Batista:
I. É introduzido como “a voz que clama no deserto”. – seu papel
profético é profético.
II. (v.4) “no deserto” e “pregando”. Marcos mostra que João
desempenhou as funções do indivíduo das profecias do A.T.,
III. (v.6) essa descrição de João tem outro papel de reafirmar sua
função profética.
b. Jesus Cristo:
I. (v.7) é introduzido por João Batista como “aquele que é mais
poderoso que eu”.
II. Se João é a “voz” e o “mensageiro”, o “aquele” que vem após
João só pode ser o “Senhor”.
III. (v.9-11) o fato de Jesus ser interceptado pelo Espírito Santo e
receber o testemunho do céu “este é meu Filho amado”, o
identifica como o Filho de Deus e “aquele” ao qual João se
referiu.

Outro fator importante que marca a focalização do texto é o gênero textual. Ao


se deparar com um texto narrativo não-ficcional, o leitor vai guiar sua leitura sabendo que
aquele texto possui enredo, personagens, tempo, espaço etc. e que os fatos descritos no

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texto não são criados (apesar de serem perspectivas do autor a respeito dos fatos) pelo
autor, mas ocorreram no mundo concreto.

Observe outro exemplo de como a focalização é guiada pelo autor em Mc 8.31.


Esse versículo é um encapsulamento de tudo o que está para acontecer na história daqui
até o fim. O dêitico “começou” mostra que o foco a partir de agora vai ser a rejeição de
Jesus por parte dos líderes religiosos, sua morte e ressurreição.

3. Relevância.
A relevância possibilita a visualização de um esboço do texto, uma vez que diz
respeito a organização dos enunciados a partir de um tópico discursivo que os amarra.
Assim, é possível perceber o avanço e a mudança dos tópicos no texto.

Em Marcos 1.2-14 todos os enunciados podem ser especificados por um tópico:


a preparação para o início do ministério do Filho de Deus.

a. Essa preparação se dá pelo ministério de João Batista (v.2-8).


b. Essa preparação se dá pelo testemunho divino (v.9-13).
c. Essa preparação se finda com a prisão de João (v.14).

Entretanto, há um hipertópico, no qual subjazem todos os demais tópicos


desenvolvidos ao longo do texto. Mc 1.1 funciona como esse hipertópico: todo o livro
fala sobre o evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus.

No desenvolvimento de um tópico pode haver o que se chama de digressão. A


digressão é a fuga do tópico para se apresentar um parêntese, ou um conteúdo que não
está atrelado ao tópico. Em Marcos, um exemplo de digressão está em 6.17-29, o tópico
que envolve esta parte trata do avanço do anúncio do evangelho do Filho de Deus (6.7-
56), onde, nesta expansão, Herodes fica sabendo da fama de Jesus e o identifica como a
ressurreição de João Batista. A digressão serve para explicar o porquê do medo de
Herodes.

4. Exercício.
a. Leia a epistola de Paulo a Filemon e responda, à luz da focalização:
i. Como entender o uso que Paulo faz dos termos “filho” e do
verbo “gerei” no v.10?
ii. Como entender “útil” e “inútil” ?
iii. Como entender o v.15 e 16?
b. Identifique o hipertópico da carta e os tópicos que subjazem dele.

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Aula 04 – Marcas de articulação na progressão textual

1. Introdução.
Os segmentos textuais (partes do texto) podem ser organizados de diversas
maneiras no processo de produção textual. Os elementos que são dispostos na
organização dos textos são chamados de marcadores textuais.

Conforme Koch, os marcadores textuais podem ter diversas funções. Entre elas,
a de relacionar elementos de conteúdo, que se dá na situação espaço/tempo, estabelecer
relações lógico-semânticas, sinalizar relações discursivo-argumentativas e, por último,
exercer função metadiscursiva.

A seguir, vamos observar todas essas funções alistadas acima.

2. Articuladores de conteúdo proposicional.


Tais marcadores servem para sinalizar as relações espaciais e temporais
estabelecidas pelos enunciados, ou estabelecer relações de caráter lógico-semântico.

a) Marcadores de relação espaçotemporais.

Podemos ver que Paulo utiliza vários articuladores temporais e espaciais para
indicar seu distanciamento temporal e espacial de Jerusalém e dos apóstolos no início da
sua conversão e chamado, na carta aos Gálatas.

Em 1.10-17, Paulo está levantando e defendendo uma tese. A tese é: O


evangelho que prego não recebi por meio de homens. Assim, Paulo começa a traçar
um histórico seu, no qual ele vai se utilizar de elementos temporais e espaciais que vão
dar suporte a sua tese:

Em 1.13 Paulo faz uma viagem no tempo mostrando sua atuação como judeu
fervoroso, ao lutar contra o cristianismo com todas as suas forças. Ele introduz sua ideia
com um particípio que tem função temporal (ποτέ) apontando para o passado. Paulo se
distancia do seu procedimento judaico, mas o usa aqui para mostrar que sua conversão
não (o uso do aoristo aponta para um distanciamento).

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Em 1.15 Paulo usa um advérbio (ὅτε) para modificar a expressão “aprouve
revelar seu Filho”, mostrando que, em um momento divinamente estabelecido, Paulo é
convertido.

A expressão “nem subi a Jerusalém” (1.17) é um articulador espacial, mostrando


que Paulo não teve contato com os apóstolos (metonimicamente retratados com
“Jerusalém”).

Outras expressões que servem de articuladores temporais usadas por Paulo são
“decorridos três anos”, “subi a Jerusalém”, “quinze dias”, “depois, fui para as regiões da
Síria e da Cilícia”.

b) Indicadores de relações lógico-semânticas.

Em Gálatas 1.4 há um uso de um operador lógico-semântico (ὅπως): Esse


advérbio que funciona como conjunção aqui tem por objetivo conectar as sentenças
estabelecendo uma relação de finalidade: Cristo se entregou pelos nossos pecados com a
finalidade de nos desarraigar deste mundo perverso: a morte de Cristo, por nossos
pecados, tem por finalidade nos desarticular (o uso do subjuntivo aoristo transmite essa
ideia de propósito) deste mundo perverso.

3. Articuladores discursivo-argumentativos.
Diferente dos indicadores de relações lógico-semântica, os operadores
discursivos-argumentativos (apesar de se utilizarem do mesmo material linguístico que o
outro) têm uma função distinta: provocar persuasão.

Conforme Koch, “estes operadores articulam dois atos de fala, em que o segundo
toma o primeiro como tema, com o fim de justifica-lo ou melhor explica-lo; contrapor-
lhe ou adicionar-lhe argumentos; generalizar, especificar, concluir a partir dele;
comprovar-lhe a veracidade; convocar o interlocutor à concordância etc”5.

Observando Gálatas 1.10 em diante, Paulo usa diversos articuladores com


finalidade argumentativa para defender seu chamado apostólico e a autenticidade do
evangelho que prega, demonstrando-o de origem divina e não humana.

Em 1.10 Paulo usa uma conjunção disjuntiva (ἢ) que tem um efeito provocativo
de convocação a concordância. A ideia de Paulo não é trazer duas alternativas, mas

5
2018, p.129

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provocar seus leitores (a pergunta retórica ajuda a formular) a concordarem que Paulo
está buscando agradar a Deus. A sentença final, que é conectada por um “se” (εἰ) que traz
uma condição hipotética improvável, o que direciona a leitura das perguntas retóricas:
uma vez que Paulo buscasse a aprovação dos homens, não seria um servo de Deus.

O “Pois” (γὰρ), que é traduzido por “porém”, tem a função de anunciar uma tese
de Paulo. Quando Paulo usa o presente do indicativo, mostra que essa tese lhe é devida.
Ele se identifica com ela.

O “porque” (ὅτι) tem a função de justificar a tese introduzida anteriormente,


onde o apóstolo traz duas falas contrastantes. O “mas” (ἀλλὰ), operador de contrajunção,
direciona o leitor a aceitar a segunda afirmação em oposição a primeira. O mesmo
operador é usado por Paulo para contrapor a sua atuação judaica como algoz dos cristãos
e a sua situação posterior, quando o próprio Deus se revelou a ele (1.15). Esse mesmo
operador é usado em 1.17 para mostrar uma contraposição geográfica: Paulo não foi a
Jerusalém, porém foi à Arábia e depois, a Damasco.

Tudo isso constrói o argumento paulino de que seu evangelho e,


consequentemente, convocação para o apostolado não foram concedidos a ele por
homens, mas por Deus.

4. Articuladores de organização textual.


Tais marcadores têm a função de estruturar a linearidade do texto trazendo a
ele organização e facilitando a sua interpretação.

Entre os mais usados, estão: primeiramente, em seguida, depois, enfim, em


primeiro lugar, por último etc.

Em Filipenses 4.8 Paulo conclui uma seção da carta usando um “finalmente”


(λοιπόν), indicando o fim de um bloco.

5. Exercício.
Faça uma análise detalhada dos articuladores presentes no trecho de Efésios
2,11-22

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Aula 05 – Intertextualidade

1. Introdução.
Intertextualidade é um dos temas mais estudados pela linguística atualmente.

Conforme Ingedore Koch, intertextualidade consiste na ocorrência de um texto


dentro de outro, o qual foi produzido anteriormente e que faz parte da memória social ou
da memória discursiva de um grupo.6

Marcuschi entende que a intertextualidade é uma propriedade constitutiva de


qualquer texto. Todo texto se constitui a partir de outros textos, dialogando com estes.

Maingueneau faz uma distinção entre intertextualidade e intertexto. Intertexto


seria a presença de fragmentos discursivos que aparecem em um texto e a
intertextualidade seria o princípio genérico que rege todas as formas de intertexto.

Que todo texto se constrói a partir de outros textos, absorvendo-os e utilizando-


os, isso é fato. Entretanto, vamos tratar da intertextualidade a partir do estudo de Koch,
entendendo-a como uma utilização de textos anteriores com uma intensão específica.

Para Koch, a intertextualidade tem as seguintes classificações:

a) Explícita: quando, no próprio texto, há menção à fonte do intertexto


(como em citações).
b) Implícita: quando se coloca intertexto alheio, sem menção, com o
intuito de seguir a sua orientação argumentativa, de ridicularizá-lo ou
de argumentar em sentido contrário.

2. Intertextualidade explícita.

Na intertextualidade explícita, o uso de intertexto serve para apoiar ideias ou


para ser descontruído e contraposto.

6
2018, p. 142

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Em Marcos 1.2 e 3 podemos ver a intertextualidade explícita (apesar das
discordâncias quanto a citação) ao recorrer a textos do Antigo Testamento para apoiar
neles ideias que serão construídas de forma narrativa.

Ao citar Malaquias 3.1, que por sua vez recorre a Êxodo 23.20, e Isaías 40.3,
Marcos está tecendo uma temática do novo êxodo (João convocando o povo ao deserto).
O novo êxodo, que inicia no deserto com a pregação de João, aponta para o ministério do
servo sofredor (Isaías 40-55).

Lucas também cita Isaías, porém, ele usa um pouco mais do texto de Isaías para
corroborar com sua perspectiva do novo êxodo: ele abrange “toda carne” (3.1-6): o novo
êxodo não é pelo poder de Roma ou do seu expansionismo político nem por parte dos
líderes religiosos em Jerusalém. O caminho do novo Êxodo é a partir do deserto, por meio
de João Batista.

3. Intertextualidade implícita.

De forma implícita, a intertextualidade é um tanto mais sutil e é pressuposto, por


parte do autor, que seu interlocutor saberá recuperar o intertexto, pois estaria em sua
memória discursiva.
Exemplo: Jeremias 4.23 há uma referência ao texto de Moisés. A ideia de “sem
forma e vazia” aponta para a terra em seu estado pré-ordem, ou em estado de “desordem”.
A ideia do texto de Moisés é a de que Deus é o organizador cósmico que fornece ordem
e funcionalidade ao mundo. Jeremias usa essa expressão para demonstrar a desordem
estabelecida em Jerusalém, quando os exércitos inimigos a invadirem, e o Senhor
derramará sua ira e tornará aquela terra como que no princípio.
Outro exemplo interessante é Jonas 4. 1-5: Jonas usa as palavras de Moisés, em
Êx 34.6, 7 e 32.32. A temática de Êxodo é a interseção de Moisés pelo povo ao clamar
por misericórdia a Deus. O livro de Jonas apresenta o Deus misericordioso que concede
Sua graça a quem Ele quer. Jonas, ao dialogar com Moisés, apresenta uma figura mosaica
às avessas: ele roga a Deus por Nínive, mas pelo Juízo de Nínive, uma vez que Deus
acatou o arrependimento do povo e não despejou da Sua ira.
4. Exercício: Procure no Evangelho de João um ou mais exemplos de
intertextualidade, desenvolva uma análise procurando a intensão do uso.

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Aula 06 – Estudo de narrativas (introdução)

1. Introdução.

O estudo dos gêneros textuais tem cerca de 25 séculos de existência no ocidente,


considerando que sua observação sistemática foi Iniciada por Platão.

2. Conceito de gênero textual.

A expressão “Gênero” é vista na tradição antiga ocidental, fundamentalmente


dentro dos estudos do gênero literário desenvolvidos por Platão, depois Aristóteles,
Horácio e Quintiliano, pela idade média, Renascimento e Modernidade, até os primórdios
do século XX.7

Na linguística de texto, o conceito de gênero está profundamente conectado com


o funcionamento social e suas implicações na língua. O fato de existirem gêneros
discursivos diversos, que são seguidos por indivíduos de um grupo social, leva a pergunta:
por que tais pessoas seguem estes padrões de uso da língua? Por exemplo: por que os
concluintes de curso superior precisam escrever uma monografia? Por que a maior parte
das pessoas que se utilizam da internet escrevem e-mails? Por que funcionários de
determinadas empresas precisam escrever relatórios, contratos e etc?

A resposta a esta indagação, conforme Bhatia, se dá no aspecto funcional que os


gêneros possuem dentro das comunidades discursivas: uma monografia tem por função
obtenção de nota, uma propaganda publicitária tem por objetivo apresentar e orientar a
compra de determinado produto, uma receita culinária tem por propósito orientar na
produção de um determinado prato.8

3. Narrativas Bíblicas.

Como podemos ver, todas os gêneros têm uma função. As narrativas não são
diferentes neste quesito. Todo texto narrativo objetiva uma finalidade que está ligada a
sua função.

7
MARCUSCHI, p. 147
8
Apud. MARCUSCHI, p. 151

16
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Os povos do Antigo Oriente Próximos não escreviam ensaios ou tratados. Isso é
típico de nossa cultura moderna, amplamente influenciada pelo racionalismo. Eles
usavam narrativas com diversos propósitos.

Vemos que o Antigo Testamento apresenta, em termos percentuais, 40% de sua


constituição formada por narrativas. Elas são composições de diversos estilos, formas,
categorias, etc. Mas todas elas têm uma função para além de narrar uma história:
transmitir percepções teológicas, políticas, cosmogônicas, etc. Claro que eles não
pensavam analiticamente e categorizavam seus escritos dessa forma.

Gênesis – Pelo menos de 1-11 tem um propósito cosmogônico

Crônicas – um propósito político – adesão dos que retornam do exílio para o


projeto de reconstrução do templo.

I e II Samuel – um propósito político: mostrar que o povo de Deus só vai bem


quando seu sistema de governo é regido por Deus.

Rute – um propósito propagandista – mostrar que as raízes da família real


formavam um núcleo de preservação do temor a Deus.

a) O que é narrativa.
Há três elementos fundamentais para se compreender narrativas:
I. O autor faz seleções para compor uma narrativa. Por exemplo: os
evangelhos são composições seletivas. Os autores não têm por propósito
falar de cada aspecto da vida de Jesus. Eles são seletivos.
II. As narrativas possuem perspectivas. Cada autor possui uma perspectiva
sobre determinado evento. Ele não vai enxergar o evento da mesma
forma que outra pessoa enxergaria. Assim, quando passa a narrar, sua
perspectiva funciona como um filtro pelo qual a história vai ganhando
sentido e forma.
III. Todo texto narrativo é estruturado ou arranjado pelo seu autor. Assim,
as cenas são encaixadas propositalmente para ganhar a forma pretendida
pelo autor para que proporcione os sentidos também pretendidos e
negociados com os interlocutores.

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b) Relação entre narrativa e realidade.

As narrativas têm por característica trazer a realidade como potencialidade: a


partir da observação da vida de outrem, construir paradigmas para a realidade dos leitores.
Exemplo: o livro de Crônicas apresenta a grandeza dos reinos cujos reis e o povo andaram
com Deus e o obedeceram. Essa observação serve como paradigma: devemos relembrar
que Deus cumpre suas promessas (aliança deteronômica).

As narrativas também servem para constituir a identidade de um povo ou de uma


pessoa. Ao ler Gênesis 11-50 é perceptível que Moisés está construindo a identidade
nacional de Israel como nação que tem por base uma aliança feita entre Deus e Abraão.
O livro de Samuel apresenta Davi como o rei escolhido por Deus. Sua ascensão natural
apresenta um pano de fundo político-teológico: Deus é quem organiza a liderança de Seu
povo. A constituição da personagem Davi e sua grandeza é uma construção de cenas em
que, por técnica literária, o autor pretende a adesão e concordância do leitor.

5. Princípios para o estudo de narrativas.


a) Análise estrutural.

A análise do arranjo de um texto narrativo é importante para se perceber como


o autor constituiu as cenas e como essa ordem de cenas ajuda na construção dos
significados pretendidos.

Observando o livro de Juízes, é possível ver uma progresso na desobediência a


Deus (intercalado com exemplos de grande fé) a medida em que uma síntese da conquista
é feita no primeiro capítulo:

I. Cena 1. As conquistas de Judá com a ajuda de Simeão (1.1-8).


II. Cena 2. A conquista de Otniel, sobrinho de Calebe (1.11-15).
III. Cena 3. Os queneus sobem para o deserto de Judá (1.16).
IV. Cena 4. As conquistas de Judá com a ajuda de Simeão (1.17-19).
V. Cena 5. Digressão: A conquista de Calebe (1.20).
VI. Cena 6. A conquista de Benjamim (1.21).
VII. Cena 7. A conquista de Manassés e Efraim (1.22-26).
VIII. Cena 8. A não-conquista de Manassés (1.27
IX. Uma família como microcosmo paradigmático
b) Análise estilística.

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c) Análise redacional.

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