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Posto isto, frisamos que há uma diferença entre as redes sociais dos sites que as
sustentam. Os sites não são em si redes sociais, “eles podem apresentá-las, auxiliar a percebê-
las, mas é importante salientar que são, em si, apenas sistemas” (RECUERO, 2009, p. 103).
Ou seja, esses sites se estruturam enquanto ferramenta na manutenção da rede social em si,
que se mantém viva pelas trocas conversacionais dos atores sociais.
O diferencial desses sites de rede social frente a outras formas de comunicação é
justamente a possibilidade de se construírem redes de visibilidade e manutenção dos elos
sociais estabelecidos em redes off-line, de tal modo que a distinção entre on e off-line passa a
se diluir, afinal, a relação entre esses dois mundos possui laços estreitos e fronteiras cada vez
mais tênues. Nessas redes, ocorre uma mediação que complexifica as interconexões entre os
indivíduos. Para Recuero (2009, p. 118), a internet se configura como mediadora de
informações que são “armazenadas, replicadas e buscadas”. A partir dessas características, as
redes sociais na internet tornam-se espaços relevantes para a transmissão, configuração e troca
de elementos comunicativos essenciais para a manutenção dos grupos que delas fazem parte.
A partir de uma reflexão sobre os modos como o processo de midiatização afeta a
sociedade e considerando a crescente articulação de coletivos em redes sociais digitais,
buscamos neste momento uma aproximação à teoria dos sistemas sociais proposta por Niklas
Luhmann para poder compreender como ocorre a circulação e a interação entre os atores
sociais no grupo de discussão sobre a mobilização estudada. Para tanto iniciamos com uma
discussão sobre alguns aspectos da teoria desenvolvida por Luhmann e, na sequência,
fazemos alguns apontamentos pertinentes ao nosso trabalho.
Luhmann (2005, 2010) ficou conhecido no pensamento sociológico moderno por
contrapor noções já sedimentadas no campo, propondo o polêmico conceito de sociedade sem
indivíduo e pensando na cibernética de segunda ordem (FEDUZZI, 1997), em que os sistemas
observadores observam a si mesmos como parte do sistema e não do lado de fora. Sua teoria
se ampara na premissa de que é possível explicar a complexificação da sociedade a partir de
sistemas sociais autopoiéticos, autorreferenciais e operacionalmente fechados. Para chegar
nessa noção sistêmica da sociedade, Luhmann (2005, 2010) leva para as Ciências Sociais
alguns conceitos e ideias já presentes em discussões de outras disciplinas, como Biologia,
Robótica, Psicologia e Neurofisiologia.
Assim, Luhmann (2005, 2010) faz, como ponto de partida, a diferença entre ambiente
e sistema. Essa diferenciação é a saída encontrada pelo teórico para preencher lacunas no
pensamento clássico referentes ao esquema tradicional que relaciona o todo e suas partes
(FEDUZZI, 1997). Os sistemas se manteriam, então, a partir das trocas estabelecidas com o
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seu ambiente. Para entender essa relação entre os sistemas e o ambiente, é importante
entender o sistema enquanto forma de diferenciação entre o lado interno da forma (sistema) e
o lado externo (ambiente).
A teoria de Luhmann (2005, 2010) se estrutura a partir da tríade: autopoiese,
fechamento operacional e acoplamento estrutural. A autopoiese se refere à capacidade dos
sistemas de produzirem informações que circulam internamente e que alimentam o sistema,
mantendo-o como um organismo vivo. Isso aconteceria porque, segundo Luhmann (2005), as
informações são sempre constructos internos. Com o ambiente não cooperando nesse
processo, chegamos à tese do fechamento operacional. Esse fechamento se dá pela autonomia
do sistema, que gere as suas autoproduções estruturais. O fato de os sistemas serem
autopoiéticos remete à capacidade de produzirem suas próprias regras e insumos para sua
existência, podendo produzir o que o autor chama de autofortificação.
O salto na teoria luhmanniana está em pensar a vida do sistema em função de uma
produção que é interna e que não depende do meio que o circunda. Isso tornaria o sistema
operacionalmente fechado e autopoiético. Uma das principais críticas ao pensamento de
Luhmann (2005, 2010) refere-se a esse fechamento do sistema nele mesmo. O autor, no
entanto, atenta que um sistema operacionalmente fechado não significa um sistema isolado. É
aqui que entra a noção de acoplamento estrutural, que designa as interdependências entre
sistemas e ambiente, que não estão disponíveis operacionalmente. Ou seja, o ambiente pode
irritar o sistema. A noção de irritação surge para caracterizar a produção de ressonâncias do
sistema em relação aos acontecimentos do meio externo.
Posto isto, percebemos que as redes sociais – e os sites de redes sociais, como o
Facebook, mais especificamente – podem ser pensadas enquanto sistemas. Os grupos de
discussão que se articulam como fóruns e comunidades em rede fariam parte desse
macrossistema. Entendendo a organização sistêmica que se desenvolve nesse ambiente, temos
a relação estabelecida entre os sistemas da mídia, dos movimentos feministas e dos usuários
como acoplamentos estruturais, que se interpenetram com o objetivo de trocar “energias” e
evitar a entropia.
Os sites de redes sociais se configuram como sistemas fechados, possuindo lógicas
próprias de funcionamento e elementos interativos próprios – por exemplo, as funcionalidades
próprias do Facebook, que serão descritas na seção seguinte. No entanto, há uma relação com
outros sistemas quando vídeos ou imagens provenientes de outros sites de redes sociais ou
ainda da mídia tradicional entram no sistema como acoplamento estrutural ou ainda como
irritação. Essa irritação afeta as redes e suas atividades de interação, fazendo surgir uma
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resposta que pode vir em forma de um redimensionando de suas práticas, como repensar a
própria função do grupo fechado e os temas ali discutidos.
O grupo observado, Eu não mereço ser estuprad@ [OFICIAL], é pensado também
através desse viés sistêmico, pois a partir de regras próprias organiza o seu funcionamento. A
relação com o ambiente externo se dá através da diferenciação entre aquilo que diz respeito ao
grupo (sua função, temas de interesse e sua razão de existência) e aquilo que está fora de suas
normativas. As irritações acontecem quando informações provenientes de outros sistemas e
do meio externo entram no sistema, provocando tensões no grupo e fazendo com que a
informação seja processada e conformada às dinâmicas do próprio sistema.
Assim, entendemos que o Facebook integra um sistema maior, o midiático, enquanto o
grupo de discussão, ao estar vinculado ao Facebook, pode ser compreendido como um
subsistema, em relação mútua de trocas com o meio e outros sistemas. Para uma melhor
compreensão dos mecanismos do Facebook, apresentamos e descrevemos na sequência
algumas de suas funcionalidades.

2.3.1 O Facebook e suas gramáticas

Lançado em 2004, o Facebook surgiu a partir da iniciativa de alguns estudantes da


Universidade de Harvard, nos EUA, que tinham o objetivo de criar uma rede de contatos entre
os universitários. Para ingressar no sistema, era preciso estar vinculado a alguma instituição
de ensino superior reconhecida. Com o tempo, o sistema foi se abrindo também para
estudantes de escolas secundárias (RECUERO, 2009). A partir da apropriação dos usuários, o
Facebook foi se transformando e rapidamente se espalhou para o mundo todo. Mark
Zuckerberg, um de seus fundadores e atual dono, é uma das pessoas mais pessoas mais ricas
do mundo53. De propriedade do Facebook.inc, o Facebook tornou-se um império de
comunicação e alvo de discussões e investigações científicas acerca da privacidade e
vigilância em rede, das restrições moralistas a conteúdos disseminados e da relação com seus
anunciantes em troca de informações dos usuários.
O Facebook é hoje o site de rede social com a maior base de usuários do mundo.
Segundo dados divulgados pela própria empresa54, o site possui 1,4 bilhão de usuários ativos
(aqueles que entram no site pelo menos uma vez no mês), sendo que 890 milhões de usuários

53
Sua fortuna estimada é de US$ 39,2 bilhões. Fonte: http://olhardigital.uol.com.br/noticia/mark-zuckerberg-e-
um-dos-10-homens-mais-ricos-do-mundo/50959. Acesso: 20 jan. 2016.
54
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/tec/2015/01/1581963-facebook-supera-estimativa-de-receita-de-
analistas-usuarios-ja-sao-14-bi.shtml. Acesso: 15 jun. 2015.

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