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As Origens da Feijoada

O mais brasileiro dos sabores

Reza a tradição que a feijoada, a mais típica entre todas as iguarias que compõem o rico universo gastronômico
brasileiro nos foi legada pelos negros escravos. De acordo com o relato mais conhecido em todo o país esse
delicioso acepipe teria surgido a partir do repúdio dos portugueses pelas partes menos nobres dos porcos, como as
orelhas, rabos ou pés, que tendo sido rejeitados, eram então cedidos aos moradores das senzalas, seus escravos.

A alimentação dos escravos, por sua vez, era escassa e composta basicamente por cereais como o feijão ou o milho.
A esses elementos básicos eram acrescidos os temperos tão tradicionais na história ancestral dos povos africanos
que foram para cá trazidos nos navios negreiros e também a farinha de mandioca.

De posse de todos esses ingredientes comuns em seu cotidiano e reforçados pela irregular doação das partes
negligenciadas da carne de porco, teriam os escravos resolvido cozinhar tudo ao mesmo tempo com feijão, água, sal
e condimentos como pimentas diversas (sem, contudo, exagerar na dose). Essa prática teria resultado no
surgimento da feijoada que, aos poucos, teria deixado o habitat específico dos trabalhadores cativos e chegado as
Casas Grandes dos senhores de engenho.

Não há como averiguar com total certeza a autenticidade desse relato. Na verdade, a busca pelas origens da
feijoada demanda uma pesquisa que nos permita juntar peças e montar um autêntico quebra-cabeças a partir de
depoimentos e documentos de época que demonstrem quando e como esse tradicional prato foi sendo construído.

Há, entretanto, entre os pesquisadores mais consistentes do setor de história da alimentação, a constatação de que
é pouco provável que os afro-brasileiros tenham sido os criadores dessa obra-prima da gastronomia nacional. É
lógico que isso está sujeito a contestações de toda ordem já que estamos falando de uma verdadeira paixão
nacional...

O início de nossa conversa sobre a feijoada nos faz retornar ao tempo em que os portugueses por aqui chegaram,
na transição do século XV para o XVI. Nesse período foi verificada a existência do comandá (ou comaná, cumaná)
entre os indígenas que por aqui viviam. O feijão era uma das plantas que foram identificadas como parte da dieta
regular dos indígenas (se bem que, como sabemos, a base dessa alimentação tupi-guarani era a mandioca).

O feijão já existia em nossas terras, mas não era um produto genuinamente americano ou mais especificamente
brasileiro. Ele já era consumido na Europa e na África. E mesmo aqui, no Novo Continente, não era o prato principal
como poderíamos pensar. Também não era consumido diariamente pelos africanos ou pelos europeus.

Quem consolida o gosto e o consumo de feijão em nossas terras não é o explorador português que se estabelecia
em nossas terras, tampouco os indígenas que se alimentavam de feijão como complementação de suas refeições e
nem mesmo o africano que estava sendo importado para executar o trabalho pesado nos nascentes canaviais
nordestinos. O consumo regular foi consolidado pelos próprios brasileiros, ou seja, pelos descendentes de
europeus, africanos e indígenas que dão origem a essa etnia tão particular e renovada nascida em nossas terras.

Mas, historicamente, que brasileiros são esses que criam esse laço de amor eterno com o feijão?

De acordo com o célebre estudo “História da Alimentação no Brasil”, de autoria de um fenomenal pesquisador
brasileiro chamado Luís da Câmara Cascudo, o sabor do feijão se incorpora ao cotidiano dos brasileiros a partir da
ação de dois grupamentos, um atuando especificamente a partir do sudeste e outro do nordeste, ou sejam, os
bandeirantes paulistas e os vaqueiros nordestinos.

Em seu processo de interiorização de nosso país, caçando bugres ou tocando gado, os exploradores paulistas e os
criadores de gado da Bahia e de Pernambuco tinham em sua bagagem a farinha, a carne seca e o feijão como
companheiros inseparáveis pelas trilhas inóspitas em que perambulavam. A razão para isso era o fato de que esses
víveres eram duráveis e podiam ser carregados por longos caminhos sem que viessem a apodrecer rapidamente.

No caso do feijão há um adendo, por onde passavam ou aonde se estabeleciam tanto os bandeirantes quanto os
vaqueiros plantavam esse cereal. No caso paulista, ao voltarem, os bandeirantes recolhiam o que haviam semeado
meses antes e abasteciam-se para não padecer com a fome. Por outro lado, no sertão nordestino, o feijão era um
dos poucos produtos que conseguia se desenvolver em territórios não muito propícios a vários outros gêneros
agrícolas...
O feijão, em ambos os casos era a segurança que esses primeiros brasileiros precisavam ter para a realização de
seus esforços cotidianos de trabalho e produção.

A consideração em relação a necessidade do feijão para a dieta diária dos brasileiros ainda no período colonial pode
ser percebida, por exemplo, pelo fato dos portugueses não terem legislado restrições a venda desse produto a nível
interno como o fizeram com todos aqueles que eram interessantes aos seus negócios no mercado externo, caso do
açúcar, do tabaco ou mesmo do milho.

A maior parte do conhecimento que possuímos acerca dessa história é proveniente de relatos de exploradores e
viajantes que descobriram e colonizaram o interior de nosso país. A partir da perspectiva desses homens pudemos
entender porque era comum se pensar então que “só o feijão mata a fome” ou que “não há refeição sem feijão”
conforme dizeres reiterados no século XIX.

Quando chegamos ao século XIX é discurso comum entre os estrangeiros que para cá se deslocaram mencionar em
seus escritos que o feijão já havia se tornado essencial, indispensável e típico na alimentação de nosso país, em
todas as regiões do Brasil.

As receitas do cotidiano seguem o esquema básico criado pelos vaqueiros e pelos bandeirantes, com o feijão sendo
cozido com a carne seca e com toicinho para ter um sabor mais pronunciado e apreciado por todos e
acompanhado, depois de pronto, pela inseparável farinha de mandioca. Era costume em várias regiões que os
feijões fossem esmagados e que depois fosse colocada a farinha para se criar uma massa realmente substanciosa
com esses elementos e com o caldo originário do cozimento.

Quanto aos escravos, Câmara Cascudo menciona que não trouxeram em seu repertório original africano a tradição
de misturar elementos em seus cozidos. Preferiam cozinhar feijão separadamente do milho ou de outros elementos
que lhes eram fornecidos para preservar o gosto e o sabor original. Isso já seria um indício de que não foram eles
que deram a formatação final para o mais brasileiro de todos os sabores, a feijoada.

Para reiterar ainda mais seus posicionamentos, o pesquisador potiguar lembra da forte influência espanhola sobre a
culinária portuguesa e que as tradições ibéricas quanto a cozidos são marcadas pela utilização de vários
ingredientes conjuntamente para reforçar o caldo, dando-lhe mais consistência ou “substância” nos dizeres
populares.

Menciona, inclusive, que isso não era tradicional apenas entre os ibéricos, mas também entre outros europeus de
ascendência latina, como os italianos e os franceses. Para ilustrar seus posicionamentos, Cascudo nos lembra de
pratos históricos e conhecidíssimos dessas escolas gastronômicas como a Olla Podrida castelhana, a Paella
espanhola, o bollito italiano ou ainda o cassoulet francês.

Diga-se de passagem que entre os portugueses eram comuns os cozidos que misturavam carne de vaca, lingüiças,
paios, presuntos, toucinhos, lombo de porco, couve, repolho, cenouras, vagens, abóboras e feijão... branco.

Com toda essa história tão particular e própria e, não dispondo de certos elementos comuns a sua culinária em
território brasileiro, não é de se estranhar que possamos atribuir aos nossos antepassados portugueses o advento
da feijoada. Refeição completa que reúne num só prato as carnes, as sopas e as hortaliças, adaptada a nossa região
com a incorporação dos hábitos bandeirante e vaqueiro de comer feijão, surgiu desse casamento de interesses e
contingências a maior e mais famosa delícia brasileira.

É claro que, apesar de todo esse percurso de influências luso-brasileiras, não é possível desprezar a mão dos negros
a cozinhar nas casas de família a feijoada e a incorporar a essa iguaria todo aquele calor e sabor próprios dos
temperos que conheciam, especialmente das pimentas...

Obs.: Vale lembrar que as receitas tradicionais de feijoada apresentam variações regionais e que, em virtude disso,
no Nordeste de nosso país prevalece o uso do feijão-mulatinho nesse prato enquanto a influência carioca impôs no
sudeste e no sul a prevalência do feijão preto, constituindo dessa maneira a mais tradicional receita que
conhecemos.

http://www.planetaeducacao.com.br/portal/artigo.asp?artigo=378
VIDEOS

http://www.youtube.com/watch?v=jo2x1GG9i2Q

http://www.youtube.com/watch?v=EsX-RVE-acY