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Criatividade

Na verdade, o que é a criação matemática? Não consiste em fazer novas


combinações com entidades matemáticas já conhecidas. Qualquer um poderia fazer
isso, mas as combinações assim construídas seriam infinitas e, na sua maior parte,
absolutamente sem interesse. Criar consiste precisamente em não fazer combinações
inúteis e em fazer aquelas que são úteis e que constituem uma pequena minoria.
Invenção é discernimento e escolha.
Henri Poincaré

1. Introdução conceituai: o uso Podemos ver, nesses vocábulos,


vulgar, a definição do dicionário, que a criatividade pressupõe um sujeito
o uso em psicologia criador, isto é, uma pessoa inventiva
que produz e dá existência a algum
Quando falamos de criatividade, produto que não existia
parece sempre que ingressamos num anteriormente. Vemos, também, que
universo um tanto mágico, habitado imaginar é uma forma de inventar ou
por seres escolhidos pelos deuses, criar um produto. Portanto, esse pro-
seres que possuem o dom da invenção, duto da atividade criativa de um
geralmente na área de artes, que é sujeito não é, necessariamente, um
negado ao comum ilos mortais. objeto palpável, mas pode ser uma
Chamamos de criativas as pessoas que ideia, uma imagem, uma teoria.
sabem desenhar, tocam algum Agora estamos prontos para
instrumento, têm alguma habilidade abordar alguns conceitos elaborados
manual "especial", como pintar por psicólogos que vêm se dedicando
camisetas ou ser bom marceneiro; à pesquisa na área da criatividade e
enfim, as que sabem fazer coisas que a levantando várias hipóteses sobre as
maioria das pessoas (principalmente pessoas criativas. Diz Ghiselin, poeta,
nós) não sabe. crítico e professor da Universidade de
Será que basta habilidade técnica Utah, que a medida da criatividade de
para ser criativo? Ou será que a um produto "está na extensão em que
criatividade envolve processos mais ele reestrutura nosso universo de
complexos? compreensão";2 ou, segundo Laklen,
Vamos começar a nossa discussão pesquisador da Space Agen-cy, EUA,
partindo de alguns significados da a medida da criatividade é "a extensão
palavra criar e de seus derivados da área da ciência que a contribuição
criador, criatividade e criativo que cons- abrange".3 Mas o quê significam essas
tam do dicionário1: definições?
criar. V t. d. 1. Dar existência a; gerar. 2. 2. Critérios de determinação da
Dar origem a; gerar, formar. 4. Dar
princípio a; produzir, inventar, criatividade
imaginar. Podemos notar que as definições
criador. Adj. 3. Inventivo, fecundo, de Ghiselin e Laklen medem a
criativo. criatividade pelo critério da
criatividade. S. f 1. Qualidade de abrangência de seus efeitos, isto é,
criativo. quanto mais uma contribuição (seja
criativo. Adj. Criador ela um objeto ou uma
1. FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Aurélio século XXI: o dicionário da língua
portuguesa. 3. ed.
Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999.
2. GHISELIN, Brewster. "The creative process and its relation to the identification of creative
talent." In 1955
Univ. ofUtah Research Conference on Identification of Creative Scientijic Talent, 1956.
3. LAKLEN, apudTAYLOR, Calvin W. Criatividade: progresso e potencial. São Paulo, Ibrasa/Edusp,
s.d. p. 27.

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idéia) remexer nossas crenças estabelecidas, quanto fica confinada no território das
mais revolucionar o nosso universo de saber(o que artes, mas que também é necessária
temos como sendo o “certo”, o “indiscutível”), mais à ciência e à vida em geral. A
criativa ela será. ciência nã poderia progredir se
Notamos, também, que com todos alguns espíritos mais criativos não
esses con ceitos já está inserida a ideia do tivessem percebido relações entre
novo, A obra verda deiramente criativa latos aparentemente desconexos, se
traz algum tipo de novidade que nos não tivessem testado as suas
obriga a rever o que já conhecíamos, hipóteses e chegado a novas teorias
dando-lhe uma nova organização. explicativas dos fenómenos.
Acontece quando
exclamamos:"Nossa,nunca tinha • A imaginação
percebido isso!". O processo de trabalho do
O novo que a obra criativa nos cientista apioxima-se do processo de
propõe, no entanto, não é gratuito, ou trabalho do artista. Ambos|
seja, a novidade não aparece só por ser desenvolvem um tipo de
novidade. Podemos, então, dizer que comportamento denominado
tudo que é criativo é novo, mas nem "exploratório", isto é, dedicam-se a
tudo que é novo é criativo. Explicando explorar" as possibilidades,"o que
melhor: a inovação aparece com poderia ser", em vez de se deter no
relação a um dado problema ou a uma que realmente é. Para isso, necessitam
dada situação, solucionando-a ou da imaginação. Assim, um dos sen tidosde
esclarecendo-a ou, no caso da arte, criar é imaginar. Imaginar é a
oferecendo uma nova compreensão capacidade de ver além do imediato,
das possibilidades do mundo humano. do que é, de criar possibilidades
A inovação surge, geralmente, do novas. E responder à pergunta: "Se
remanejo do conhecimento existente não fosse assim, como poderia ser?". Se
que revela insuspeitados parentescos dermos asas à imaginação, se
ou semelhanças entre fatos já conhe- deixarmos de lado o nosso senso
cidos que não pareciam ter nada em crítico e o medo do ridículo, se
comum. Gutenberg, por exemplo, abandonarmos as amarras lógicas da
resolveu o problema da impressão ao realidade, veremos que somos capazes
ver uma prensa de uvas para fazer de encontrar muitas respostas para a
vinho. Aparentemente, uvas e vinho, de pergunta. Este é o chamado pensamento
um lado, e papel e letra, de outro, nada divergente, que leva a muitas respostas
tinham em comum, e no entanto foi a possíveis. É o contrario do pensamento
partir da visão da impressão deixada convergente, que leva a uma única res-
pelos pés sujos do suco da uva prensada posta, considerada certa. Por exemplo, à
sobre o chão que Gutenberg pensou pergunta "Quem foi o primeiro
em pressionar papel contra tipos português a chegar oficialalmente ao
molhados de tinta. Brasil?", só há uma resposta certa
Já temos, pois, mais um critério Pedro Álvares Cabral. Para a pergunta
para medir a criatividade: a inovação, "Se os portugueses não tivessem
além da abrangência já citada. Não 'descoberto' o Brasil, como estaríamos
podemos esquecer, no entanto, que a vivendo hoje?",há inúmeras respostas
inovação tem de ser relevante, isto é, possíveis. A primeira envolve memória;
adequada à situação. Um ato, uma ideia a segunda, imaginação.
ou um produto é criativo quando é Tanto o artista quanto o cientista
novo, adequado e abrangente. Quando têm de ser suficientemente flexíveis
nos referimos à criatividade artística, para sair do seguro, do conhecido, do
portanto, estamos nos referindo a obras imediato, e assumir os riscos ao
ou artistas que apresentam um novo propor o novo, o possível.
modo de olhar/sentir/compreender os • A inspiração
problemas de uma época.Toda obra de Nesse contexto, qual seria o lugar da
arte criativa nos oferece uma nova visão
da realidade humana e, nesse sentido, tão falada inspiração? Na verdade, a
ela é abrangente e relevante. inspiração e o resultado de um
processo de fusão de ideias efetuado
3. Criatividade como no nosso subconsciente. Diante de
capacidade humana um problema, de uma preocupação
Levando em conta essa discussão, ou ainda de uma situação, obtidas
percebemos que a criatividade é as informações fundamentais acerca
uma capacidade humana que não do assunto, o nosso subconsciente
passa a lidar com esses dados, 4. Desenvolvimento e repressão da
fazendo uma espécie de jogo criatividade
associativo entre os vários elementos.
É como tentar montar um quebra- Podemos alnmai que, * orno
cabeça: experimentamos ora uma capacidade humana, a criatividade
peça, ora outra, até acharmos a podo ser desenvolvida ou reprimida.
adequada. É o momento em que a O desenvolvimento acontece na
imaginação é ativada para propor medida em que o ambiente familiar, a
todas as possibilidades, por mais escola, os amigos, o lazer ofereçam
inverossímeis que sejam. Desse jogo condições ao pleno exercício do
subconsciente surgirão em nossa comportamento exploratório e do
consciência sínteses e novas pensamento divergente, incentivando
configurações dos dados sobre as o uso da imaginação, do jogo, da
quais trabalhará nosso intelecto, interrogação constante, da
pesando-as,julgando-as, adequando- receptividade a novidades e do
as ao problema ou à situação. Ao desprendimento para ver o todo sem
surgimento dessas sínteses em nossa preconceito e sem temor de errar.
consciência damos o nome de A repressão, por sua vez, acontece
inspiração. quando essas condições não são
Tanto o artista quanto o cientista oferecidas e, além disso, é enfatizado
trabalham intelectualmente a o não assumir riscos e o ficar no
inspiração. O artista tem de formular
um projeto, ou seja, escolher os terreno seguro da repetição do já
conceitos, sentimentos ou ideias que conhecido.
deseja representar para, então, Assim, a criatividade não é um
decidir entre materiais, técnicas e es- dom que só os génios têm e os outros
tilos mais adequados para a produção não. E uma capacidade que todos nós
da sua obra. O cientista tem de podemos desenvolver se nos
elaborar e testar as suas hipóteses dispusermos a praticar alguns tipos
para chegar a uma teoria ou produto de comportamentos específicos.
novos.

[A imaginação] animal consiste das coisas que lhe atuam


sobre os sentidos. Coisas ausentes, que
A imaginação é provavelmente a maior
ele deseje ou tema, provavelmente não
força a atuar sobre os nossos sentimentos
têm substitutos em sua consciência, como
— maior e mais constante do que
as imagens de tais coisas na nossa, mas
influências exteriores, como ruídos e
aparecem, quando por fim o fazem,
visões amedrontadores (relâmpagos e
como satisfações de necessidades
trovões, um caminhão em disparada, um
imperiosas, ou como crises em seu
tigre furioso), ou prazer sensual direto,
espreitar e reagir mais ou menos
inclusive mesmo os intensos prazeres da
constante. [...]
excitação sexual. O que esteja realmente
No centro da experiência humana,
acontecendo é, para um ser humano,
portanto, existe sempre a atividade de
apenas uma pequena parte da realidade;
imaginar a realidade, concebendo-lhe a
a maior parte é o que ele imagina em
estrutura através de palavras, imagens ou
conexão com as vistas e sons do
outros símbolos, e assimilando-lhe
momento.
percepções reais à medida que surgem
A imaginação constitui o seu mundo.
— isto é, interpretando-as à luz das ideias
O que não quer dizer que seu mundo seja
uma fantasia, sua vida um sonho, nem gerais, usualmente tácitas. Esse processo
qualquer outra coisa assim, poética e de interpretação é tão natural e constante
pseudofilosófica, isso significa que seu que sua maior parte decorre de modo
"mundo" é maior do que os estímulos que inconsciente.
o cercam; e a medida deste, o alcance de LANGER, Suzanne K, Ensaios
sua imaginação coerente e equilibrada. O filosóficos. São Paulo, Cultrix, 1971. p,
ambiente de um 132-133; 135-136,
Funções da arte

A razão de ser da arte nunca permanece inteiramente a mesma. A junção da


arte, numa sociedade em que a luta de classes se aguça, difere, em muitos aspectos,
da função original da arte. No entanto, a despeito das situações sociais diferentes, há
alguma coisa na arte que expressa uma verdade permanente. E é essa coisa que nos
possibilita — nós, que vivemos no século XX — o comovermo-nos com as pinturas
pré-históricas das cavernas e com antiquíssimas canções.
Ernst Fischer

Introdução mostrando-lhes a grandeza e a riqueza


do imiu do céu, numa tentativa de
As obras de arte, desde a segurá-los dentro da religião católica,
Antiguidade até hoje, nem sempre ameaçada pela Reforma protestante.
tiveram a mesma função. Ora Na medida em que os argumentos ra-
serviram para contar uma história, cionais não conseguiam se manter de
ora para rememorar um pé diante das críticas dos protestantes,
acontecimento importante, ora para a via que restava para a Igreja católica
despertar o sentimento religioso ou era a emocional.Esse é um exemplo da
cívico. Foi só no século XX que a arte sendo usada para finalidade
obra de arte passou a ser considerada religiosas.
um objeto desvinculado desses No início do século XX, por ocasião
interesses não-artísticos, um objeto da implantação das repúblicas
propiciador de uma experiência soviéticas, o "realismo socialista" teve
estética por seus valores intrínsecos. por finalidade retratar a melhoria das
Dependendo, portanto, do condições de vida do trabalhador e as
propósito e do tipo de interesse com principais figuras da revolução socialista
que alguém se aproxima de uma obra como um meio para despertar o
de arte, podemos distinguir três sentimento cívico e manter a
funções principais para a arte: lealdade da população. A própria arte
pragmática ou utilitária, naturalista e engajada, que floresceu entre nós no
formalista. final de 1950 e início da década de
1960, pré tendia conscientizar a po
1. Função pragmática ou pulação sobre sua situação
utilitária socioeconômica. Hoje, ainda, mesmo
que educadores esteam convencidos
Dentro desta visão, a arte serve da importância da arte na vida de todos
ou é útil para se alcançar um fim não- os cidadãos, tanto por seu poder de
artístico, isto é, ela não é valorizada nos fazer compreender imediata e
por si mesma, mas só como meio de intuitivamente certas questões colocadas
se alcançar uma outra finalidade. ao ser humano em cada época como
Esses fins não-artísticos variam muito pelo prazer derivado do contato com
no curso da história. Na Idade Média, obras de arte que nos encantam,
por exemplo, na medida em que a permanecem os argumentos de que a
maior parte da população dos feudos arte é meio de ocupar o tempo de
era analfabeta, a arte serviu para crianças carentes para que se afastem
ensinar os principais preceitos da da criminalidade, ou que o trabalho
religião católica e para relatar as com arte desenvolve habilidades
histórias bíblicas. Esta é uma manuais que mais tarde poderão ser
finalidade pedagógica da arte. aproveitadas na vida útil, ou seja,
Na época da Contra-Reforma, a profissional. Estes continuam sendo
arte barroca foi muito utilizada para usos da arte para outros fins.
emocionar os fiéis,
corretamente para que possamos
Portanto, as finalidades a serviço identificá-lo); a inteireza, ou seja, a
das quais a arte pode estar podem ser qualidade de ser inteiro, íntegro (o
pedagógicas, religiosas, políticas ou assunto deve ser representado por
sociais. inteiro); e o vigor, que confere um
Nessa perspectiva, quais seriam os poder de persuasão (especialmente se
critérios para se avaliar uma obra de arte? a situação representada for imaginá-
Esses critérios também são exteriores à ria). Um exemplo deste último é a
obra: o critério moral do valor da figura do E.T, no filme de mesmo
finalidade a que serve (se a finalidade for nome de Spielberg. Ele foi
boa, a obra é boa); e o critério de eficácia representado com tamanho vigor que
da obra em relação à finalidade (se o fim ficamos convencidos da
for atingido, a obra é boa). Como possibilidade de sua existência,
vemos, em nenhum momento, con enternecemo-nos com suas aventuras
forme esse tipo de interesse, a obra é e torcemos por ele até o final.
encarada ilo ponto de vista estético.
3. Função formalista
2. Função naturalista
Finalmente, o interesse formalista,
A função naturalista refere-se aos como o próprio nome indica,
interesses prlo conteúdo da obra, ou preocupa-se com a forma de
seja, pelo que a obra retrata, em apresentação da obra. Essa forma
detrimento da sua forma ou modo de contribui decisivamente para o
apresentação. significado da obra de arte e, portanto, é
A obra é encarada como um espelho, o único dos interesses que se ocupa da
que reflete a realidade e nos remete arte enquanto tal e por motivos que
diretamente a ela. Em outras palavras, não são estranhos ao âmbito artístico.
a obra tem função referencial de nos Desse ponto de vista buscamos, em
enviar para fora do mundo artístico, cada obra, os princípios que regem sua
para o mundo dos objetos retratados. organização interna: os elementos que
Por isso, uma escultura de D. Pedro I, entraram em sua composição e as
por exemplo, serviria, dentro dessa relações entre eles. Não importa o tipo
perspectiva, para nos remeter ao de obra analisado: pictórico,
homem e ao político, ao que ele escultórico, arquitetônico, musical,
representou num determinado teatral, cinematográfico etc. Todos
momento histórico brasileiro. comportam uma estruturação interna
Deixaríamos em segundo plano a de signos selecionados a partir de um
leitura propriamente dita da código específico.
escultura, isto é, valores como Há, nessa função, uma valorização
qualidade técnica, expressividade, da experiência estética como um
criatividade etc., pois o nosso interesse momento em que, pela percepção e
estaria voltado somente para o assunto pela intuição, temos uma consciência
tratado. intensificada do mundo. Embora a
experiência estética propicie o
Essa atitude perante a arte surge conhecimento do que nos rodeia,
bastante cedo, Ela aparece na este conhecimento não pode s er
Grécia, no século V AC nas formulado em tlermos teóricos porque
esculturas e pinturas que"imitam" ou ele é imediato, concreto e sensível .
"copiam" a realidade. Essa
tendência caracterizou a arte O critério pelo qual uma obra ele arte
será avaliada, na perspectiva forrnalista,
ocidental até meados do século é sua capacidade de sustentar a
XIX, quando surgiu a fotografia. A contemplação estética de um público
partir de então, a função da arte, cuja sensibilidade seja educada e
especialmente da pintura, teve de madura, isto é, que conheça vários
ser repensada e houve uma ruptura códigos e esteja disponível para en-
contrar na própria obra suas regras de
do naturalismo. organização.
Os critérios de avaliação de uma Como exemplo, para ilustrar essa
obra de arte do ponto de vista da função, vamos analisar um samba da
função naturalista são: a correção da bossa nova, Samba de uma nota só, de
representação (se é o assunto que nos
interessa, deve ser representado
António Carlos Jobim e Newton uma comentando ou ilustrando os
Mendonça, gravado por João Gilberto. rocedimentos da utra. Para entender isso, é
Samba de uma nota só preciso ouví-lo. Durante os primeiros quatro
1 Eis aqui este sambinha versos, a música acompanha a ideia de ser
2 Feito numa nota só feita sobre uma nota só.
3 Outras notas vão entrar Os versos 5 e 6 são acompanhados de
4 Mas a base é uma só uma mudança, e os versos 7 e 8 voltam
5 Esta outra é consequência para a nota base, relacionando a
6 Do que acabo de dizer complementaridade das notas com a
7 Como eu sou a consequência complementaridade dos participantes de uma
8 Inevitável de você. relação amorosa ( eu e você) e introduzindo
9 Muita gente existe por aí o aspecto individualista.
10 Que fala, fala e não diz nada, ou A melodia que acompanha os quatro
quase nada versos seguintes (9, 10, 11 e 12) utiliza toda
11 Já me utilizei de toda a escala a escala musical, fazendo um contraponto
12 E no final não sobrou nada, não ao resto da composição, ao mesmo
deu em nada tempo que ilustra a letra. Não é a
13 E voltei pra minba nota variedade de notas utilizadas em uma
14 Como eu volto pra você composição que lhe confere valor
l 5 Vou mostrar com a minha nota estético.
16 Como eu gosto de você Em seguida, como dizem os versos
17 Quem quiser todas as notas — ré, mi, 13, 14, 15 e 16, volta-se à nota base,
fá, sol, lá, si, dó introduzindo-se outra vez o tema
18 Fica sempre sem nenbuma. Fique amoroso.
numa nota só. Por meio da analogia entre as notas e
os amores, os versos finais e o fim da
Em primeiro lugar, precisamos melodia voltam a repetir os mesmos
estabelecer o quadro de procedimentos já mostrados. O segundo
referências a partir do qual vamos aspecto que esta análise evidencia é que,
proceder à análise, quadro este ao comentar e ilustrar os procedimentos
que é dado pela própria obra. desta criação musical, a compsição
É uma canção, com música e esclarece alguns dos próprios princípios da
letra. É uma composição musical bossa nova que, na época, vinham sendo
popular, portanto urbana, de fácil criticados por fugirem dos padrões de
entendimento, inserida no samba aceitos até então.
processo de comunicação de A interpretação de João Gilberto é
massa. É música da classe média perfeita: afinada, contida, clara, transmitindo
do Rio de Janeiro, com ideologia as nuances emocionais sem exageros. O
pequeno-bur-guesa, individualista, próprio amor aí cantado é declarado de forma
sem preocupação social. Pertence à simples, sem os arroubos característicos do
bossa nova, cujas propostas samba-canção. Podemos, por essas razões
principais são: perceber que a obra apresenta uma unidule
• fazer uma renovação na MPB a orgânica (entre forma musical e letra)
partir da incorporação de perceptível ao ouvido treinado, que se
elementos do jazz, como a encanta ao deparar com ela.
improvisação, os acordes
dissonantes; Conclusão
• ser música camerística (ao contrário
do modelo operístico), intimista, E apenas do ponto de vista didático
para pequenos ambientes; que podemos separar as funções da arte.
• usar uma batida diferente do samba Na verdade, elas podem se apresentar
tradicional; juntas. As vezes, para que uma obra tenha
• integrar harmonia-ritmo-melodia finalidade pedagógica,por exemplo, ela
e contraponto (a melodia não é precisa ter função naturalista. Outras vezes
conduzida pelo ritmo); é o estético que se sobrepõe às outras
• integrar voz, instrumento e funções. Por essas razões, é o modo tomo
arranjo, de forma que um n o s aproximamos de qualquer obra de
complete o outro, enriquecendo arte que vai determinar a função da obra
o resultado final naquele momento. Em si, todas as obras que
são verdadeiramnte de arte são capazes de
O primeiro aspecto que sustentar a contemplação estética de um
notamos no Samba de uma observador sensível e treinado.
nota só é que letra música
estão estreitamente ligadas,
O significado na arte

E neste sentido de aparecimento à nossa percepção que uma obra de arte


constitui uma forma. Pode ser uma forma permanente como a de um edifício ou de
um vaso ou de um quadro, ou uma forma transiente, dinâmica, como a de uma
melodia ou de uma dança, ou ainda uma forma sugerida à imaginação, como a
passagem de eventos puramente imaginários, aparentes, que constitui uma obra
literária. Mas é sempre um todo perceptível, com identidade própria; como um ser
natural, tem um carâter de unidade orgânica, auto-suficiência, realidade individual...
Suzanne Langer

Introdução Ela pode ou não ter uma lógica


Como ficou claro na Unidade I, o semelhante à do senso comum ou da
ser humano está continuamente ciência. Ela também não precisa ter ampla
atribuindo significados ao mundo. A circulação, isto é, não há necessidade de
essa atividade damos o nome que um público numeroso tenha acesso a
genérico de leitura. Portanto, não ela. A informação estética continua a
lernos apenas os textos escritos, mas existir mesmo dentro de um sistema de
lemos igualmente outros tipos de comunicação restrito, até interpessoal, ou
textos, não-verbais, aos quais mesmo quando não há nenhum receptor
apto a acolhê-la. Sabemos que isso
também atribuímos significados. Já aconteceu inúmeras vezes. Por exemplo, a
vimos que a arte se constitui em um informação estética contida numa tela de
texto muito especial, pois a Van Gogh permaneceu lá, embora em sua
atribuição de significados está presa a época ninguém pudesse entendê-la. Outra
sua forma sensível de apresentação e é característica da informação estética que a
inseparável dela. diferencia da informação semântica é o
A divisão que vamos fazer a seguir fato de não ser traduzível em outras
em termos de forma e conteúdo é linguagens. Quando dizemos "O tempo
apenas didática e opera um corte na hoje está ruim", podemos traduzir a
unidade da obra de arte, como um informação semântica contida nessa frase
bisturi que disseca corpos viventes e para qualquer outra língua, sem perda da
os separa em partes para que se possa informação original. Quando vemos, no
conhecer cada uma e, depois, apreender entanto, num filme, uma cena com tempo
a relação entre elas. Ao fazer isso, ruim, vemos a qualidade da cor, a força do
estamos destruindo, em primeiro vento, da chuva ou da neve, a vegetação,
lugar, a experiência estética e, em os ruídos ou o silêncio, a névoa, a
segundo lugar, a Gestallt da obra, ou qualidade da luz e inúmeros outros
seja, a apreensão do conjunto, do todo, detalhes que nos são mostrados pelas
dentro do qual as partes tomam câmeras e que nos causam um determina-
sentido. do sentimento. Essa informação estética
não pode ser traduzida nem para a
1. A especificidade da linguagem verbal nem para qualquer outra
informação estética sem ser mutilada, isto é, sem perder parte
de sua significação.
Teixeira Coelho Netto, ao discutir A informação estética apresenta, ainda,
a informação estética, comparando-a um outro aspecto distintivo, que é o fato
à semântica, levanta aspectos muito de não ser esgotável numa única leitura.
interessantes.1
A informação estética, ao contrário
da informação semântica, não é
necessariamente lógica.

l Coelho Netto, José Teixeira. Introdução à teoria da informação estética. Petrópolis, Vozes, 1973.
p. 9-16.
Por exemplo, a informação sobre o se detém na obra, na mensagem, mas é
tempo ruim só me conta algo de remetida para o contexto fora da obra. Na
novo na primeira vez em que for classificação de Jakobson, a função presente
dada. Ela se esgota. A informação seria a referencial, centrada exatamente no
estética contida em uma obra de arte, contexto externo à obra. A estruturação da
no entanto, pode ser lida de várias obra, a sua organização interna, não chama
maneiras por pessoas diferentes ou a nossa atenção. Para que isso aconteça, é
por uma mesma pessoa. Na primeira necessário sair do habitual, daquilo a que
vez que lemos um livro ou ouvimos estamos acostumados e que, por isso mes-
uma música, recebemos uma certa mo, nem percebemos mais. Em outras
quantidade de informações; numa palavras, sair do esperado, o que
segunda leitura ou audição, podemos implica transgredir o código
receber outras informações; anos consagrado.
mais tarde, ainda outras. Essa Quando o código é usado de
característica de inesgotabilidade per- maneira incomum, a forma de apresentação
mite que as obras de arte não da mensagem chama a nossa atenção pela
envelheçam nem se tornem sua força poética. Isso fica bastante claro em
ultrapassadas. A obra de arte é aberta, poesia. As palavras de que nos utilizamos
no sentido de que ela própria instaura para escrever um poema ou para nos
um universo bastante amplo de comunicarmos no dia-a-dia são funda
significações que vão sendo captadas, mentalmente as mesmas. Na fala diária, no
dependendo da disponibilidade dos entanto, não prestamos atenção à forma das
receptores.2 palavras, porque o que nos interessa para
que a comunicação se efetive é o seu
2. A forma conteúdo semântico. A poesia ao contrário,
Roman Jakobson, conhecido chama a nossa atenção para essa forma. Há
linguista, definiu algumas um poema de Carlos Drummond de
características da função poética da Andrade intitulado "Ao Deus Kom Unik
linguagem e ampliou muito a noção Assão". Sem dúvida, chama a atenção.
do poético. Com ele, a função poética Primeiro, pela forma de escrever comunicação:
ganha uma dimensão estética, com a letra K, de uso restrito na língua
podendo, assim, ser aplicada a todas portuguesa; com a substituição do ç por dois
as outras formas artísticas além da S; com a divisão da palavra em três outras.
poesia.3 Em seguida, notamos que deus é substantivo
masculino, enquanto comunicação é
• A função poética: a transgressão do
substantivo feminino. Portanto, várias
transgressões do código num único título.
código O que precisa ficar claro, no eutanto, é
A função poética da linguagem, que essas inovações e subversões do código
segundo Jakobson, caracteriza-se por não são gratuitas, não são feitas só para ser
estar centrada sobre a própria engraçadas. Elas contribuem para o
mensagem, isto é, por chamar a significado da obra, neste caso, o poema.
atenção sobre a forma de estruturação Assim, vejamos: quanto à transformação do
e de composição da mensagem. A feminino em masculino, sabemos que
função poética pode estar presente nossa sociedade dá mais valor ao homem
tanto numa propaganda, num out- do que à mulher; uma deusa nunca é
door, quanto numa poesia, numa levada. muito a sério. O poder de deus é
música ou em qualquer outro tipo de muito mais forte também porque as religiões
obra de arte. ocidentais não cedem nenhum lugar a
Mas como é que se chama a deusas. Quanto ao uso da letra K, dos
atenção para a própria mensagem? dois S e à divisão da palavra, causam um
Como vimos, no interesse naturalista estranhamento, um distanciamento, re-
pela arte, a atenção do espectador não metendo a códigos e culturas
estrangeiros.

2. ECO, Umberto. Obra aberta. São Paulo, Perspectiva. 2000


3. JAKOBSON, Éssais de linguistique générale . Paris: Minuit. 1963,
p. 209-248
4. ANDRADE, Carlos Drumond de. As impurezas do barnco. RJ: José
Olympio, 1976. p.3

.
Em se tratando de deus, remetem compreendermos os novos códigos e
também a deuses e faraós as novas linguagens.
(Tutancâmon etc.). A divisão da A existência das vanguardas, no
palavra comunicação reflete uma entanto, é imprescindível à
divisão nas discussões sobre o próprio manutenção da fermentação cultural.
assunto. No campo das artes não podemos
A partir dessa discussão sobre a falar em progresso. O conceito de
função poética, que leva progresso envolve ideias de melhoria e
necessariamente à transgressão dos ultrapassagem, absolutamente
códigos habituais e consagrados, estranhas ao mundo artístico. A arte
podemos justificar por que incluímos do século XX ou XXI não é melhor
as linguagens artísticas entre as que são nem pior que a arte grega ou
estruturadas de forma mais flexível. Se renascentista. É apenas diferente, por-
romper o código é uma característica que responde a questões colocadas
própria da arte, nenhum código pelo ser humano e pela cultura atuais.
artístico pode ser inflexível (como, por Os artistas de vanguarda são
exemplo, os códigos matemáticos) nem exatamente aqueles que levantam es-
exercer força coercitiva sobre a produ- sas questões antes que a maior parte da
ção dos artistas. Ou estes não seriam sociedade as tenha percebido e
artistas. respondem-nas trabalhando a
linguagem e a forma sensível de suas
O papel das vanguardas artísticas obras.
A ênfase dada à forma da obra de 3. O conteúdo
arte e às transgressões do código nos
leva a examinar o papel das A interpretação da obra de arte, ou
vanguardas artísticas. Avant-garde, em seja, a atribuição de significados pelo
francês, é um termo militar que espectador se dá em vários níveis. O
designa o grupo de soldados que primeiro nível é o do sentimento, que já
avança à frente da guarda ou foi discutido. Sentir em uníssono com a
batalhão.Transferindo o termo para a obra, deixar que ela nos leve e enleve,
área artística e cultural, também seguir seu ritmo interno, é o modo
designa os desbravadores, os que próprio de decodificação que se dá na
fazem o "reconhecimento do terre- experiência estética. Esse sentimento
no", os que ampliam o espaço da apresenta-se como uma unidade não
linguagem artística por meio de dissociável da experiência, isto é, ele só
experimentações.É a vanguarda que pode acontecer na presença da obra.
rompe os estilos, que propõe novos O segundo nível de interpretação
usos do código. Atrás dela vêm os se dá por meio do pensar e envolve
batalhões, ou seja, outros artistas,
considerados seguidores e que formam
as escolas. Neste momento, o que era análise cuidadosa da obra.
novo, o que constituía uma Como se pode fazer essa análise?
transgressão do código, passa a ser, Sem querer fornecer um
outra vez, o habitual, o código receituário, é possível traçar algumas
consagrado. balizas para uma análise que respeite a
individualidade de cada obra.
Por essas razões, a linguagem da Em primeiro lugar, precisamos fazer
vanguarda cultural e artística é sempre um levantamento da forma, em
difícil de entender. É por isso que temos termos descritivos. Para isso, no
certa dificuldade em compreender as obras entanto, é necessário conhecer alguns
expostas nas Bienais, os filmes de arte, o aspectos fundamentais das linguagens
teatro experimental, a música dotlc- artísticas. Por exemplo a linguagem
cafônica e assim por diante. Todas teatral difere da linguagem
essas obras instituem um novo cinematográfica. Se formos analisar,
repertório de signos e novas regras de portanto um espetáculo teatral,
combinação e de uso. Leva algum tem- precisamos, antes de mais nada, saber
po, e muita convivência com o mundo o que caracteriza a linguagem
artístico, para dominarmos, ou seja, específica do teatro.
Em seguida, descrevemos a obra do É por isso que dissemos que arte
ponto de vista denotativo, isto é, a nos traz o conhecimento de um mundo
partir do que realmente vemos ou não somente o conhecimento de uma
ouvimos. Por exemplo, antes de perce- obra. A arte instaura um universo de
bermos que se trata do afresco Última significações que jamais é esgotado e
ceia, de Leonardo daVinci, nós vemos, que ultrapassa em muito a intenção do
representados na parede, treze homens autor.Esquematicamente, podemos
atrás de uma mesa, de frente para nós, representar esse processo da seguinte
agrupados três a três, exceto a figura forma:
central, com tal tipo de indumentária,
fazendo tais gestos etc.Essa descrição universo de significações
possíveis de um obra
dos signos que aparecem na obra e de
como se combinam é muito importante, x: intencionalidade do autor
pois vai nos fornecer dados para y, h, w, n etc.:
estabelecermos relações que não estão significados que
tão aparentes, mas que se encontram podemos atribuir à
implícitas na obra. Por isso é obra, sem
desrespeitar sua
imprescindível que façamos uma proposta
descrição detalhada, cuidadosa, a mais o: significado arbitrário;
completa possível. q ue não pertence ao
Finalmente, como na leitura de um universo obra e que não
podemos impor a ela
livro, vamos levantar os significados
conotativos de cada signo e dos signos Para terminar, vamos dar dois
combinados entre si. No momento em exemplos de como fazer leituras
que se coloca uma figura sobre um analíticas possíveis. nm poema de
determinado fundo, em que se Augusto de Campos e de uma obra de
combinam determinadas cores ou sons arte visual de Nelson Leirner.
ou formas, em que se associa uma
música a uma imagem, os significados uma vez
de cada signo vão sendo alterados pelos uma fala
uma foz
significados dos outros signos, uma vez uma bala
formando um espesso tecido de uma fala uma voz
significações que se cruzam e uma foz uma vala
entrecruzam. uma bala uma vez
No levantamento dessas uma voz
conotações, precisamos sempre levar uma vala
em conta a época e o lugar em que a uma vezs
obra foi criada. Por exemplo, no Re-
nascimento o unicórnio simbolizava a Trata-se de um poema concreto,
virgindade. Se desconhecermos esse portanto, sua forma visual tem tanta
fato, a interpretação de uma obra do importância quanto a forma sonora.. O
período em que apareça esse símbolo que vemos? Palavras d i s p o s t a s
será deficiente. Por outro lado, além n a folha formando dois ângulos agudos;
desse significado conotativo o primeiro voltado para a direita e o
cristalizado, podemos encontrar segundo, para a esquerda. O eixo
outros significados a partir da direita/esquerda é dado pela centralidae
perspectiva da nossa época. Por isso, das palavras "uma vez" que se- repetem,
para podermos penetrar a significação dando início e fechamento às figuras
mais profunda de qualquer obra de dos ângulos.
arte, são necessários conhecimentos Esse texto faz parle da segunda fase do
de história geral, de história da arte e movimento concretista na qual o
dos estilos, da história dos valores e da desejo era compor um poema que,
filosofia da época em que a obra foi usando a fragmentação de palavras
criada, a fim de podermos situá-la no ideias ou frases, esgotasse as possibi-
seu contexto. Precisamos também, lidades combinatórias das palavras ou
estar engajados no nosso tempo para temas usados, do modo mais sintético
podermos perceber o que a obra nos possível.
diz hoje.

5. Auguslo de Campos, 1957. in SIMON,


lumna M. DANTAS Vinicius. Poesia
concreta. S.Paulo. Abril Educação1982. p 28
No poema, além da repetição do Para chegarmos aos sentidos conotati
pronome "uma", o poeta usa dois vos, vamos, em primeiro lugar, analisar as
outros grupos de palavras que funções das fechaduras e das chaves:
mantêm semelhanças sonoras entre si: manter algo guardado, não disponível a
vez, voz, foz; e fala, bala, vala. Se quem não detém a posse da chave; um
considerarmos cada ângulo outro sentido é o do segredo/secreto, ambas
separadamente, a sequência das pa- as palavras derivadas da mesma raiz latina.
lavras é exatamente a mesma. Mantêm-se segredos guardados a sete
Entretanto, a sua sobreposição que chaves, como no dito popular. Um outro
acontece entre a quarta e a sétima aspecto que precisamos considerar é o de
linhas, nos leva a ler linearmente as olhar pelo buraco da fechadura, para
duas metades, complementando o descobrir o segredo ou o secreto, hábito
sentido: uma vez uma bala, uma fala bastante difundido entre as crianças, mas
uma voz, uma foz uma vala, uma bala não só entre elas. A fechadura, a chave
uma vez. representam interdições, proibições. Se-
Do ponto de vista conotativo, a param, também, o público do privado.
expressão "uma vez" nos remete à Estes sentidos colorem o fato de eu me
narrativa de histórias, unindo, neste ver refletido(a) no fundo da fechadura que
caso, uma fala, uma voz, uma bala, me convida a olhar para mim mesmo. Não
uma vala, uma foz. Ou seja, a vida de olhar a pura aparência, como faria em
alguém — a fala e a voz — e a bala qualquer outro espelho, mas para o segredo,
que corta essa vida, levando-a para a olhar para as facetas que não são públicas e
vala, o fim. A visualidade do poema que, talvez, eu não queira reconhecer nem na
sugere dois movimentos privacidade da minha consciência.
antagónicos, embora complementares: Devemos considerar, agora, o contexto
o da vida e o da morte. dentro do qual foi criada a obra: Brasil de
Agora, uma leitura possível de Você 1964, época do golpe militar em que o país
faz parte I, de Nelson Leirner. passa para o regime de ditadura, que era
cheio de segredos e arquivos secretos sobre
a vida política e privada de inúmeros
cidadãos. Época em que se iniciam as
torturas e as prisões políticas, em que
pessoas desaparecem nos porões do
Departamento de Ordem Política e Social
. (Dops).
Diante dessa informação, Você f az parte I,
adquire outros sentidos: querendo ou não,
todos nós, brasileiros, fizemos e fazemos
parte da história do país, seja por ação ou
O que vemos? por omissão. Seja porque assumimos o nosso
Um objeto construído de madeira, papel de atores dessa história ou porque nos
aglomerado de madeira, aço cromado escondemos dela, pensando que não é
e espelho, quadrado, medindo 111,3 assunto nosso, mas de políticos.
cm de lado e 10,2 cm de Se consideramos a mesma obra no
profundidade. A peça é dividida em contexto atual, perceberemos que ela
dezesseis quadrados idênticos, de aço também pode levar à reflexão de como
cromado, quinze dos quais apresentam tem se tornado um hábito expor a vida
buracos de fechadura pretos, com uma privada na mídia, por meio de entrevistas
chave igualmente preta. Um único na tevê ou em revistas, de programas como
deles, o que ocupa o terceiro lugar, na o Big Brother ou ainda nos sites da internet,
segunda fileira, está pintado de preto, que mostram o dia-a-dia das pessoas ou
não tem a chave e mostra um espelho eventos especiais, como um parto. Isso só é
no fundo da fechadura. As chaves são possível porque há um número grande de
móveis,podendo ser giradas pelo público pessoas interessadas em "olhar pelo buraco
para ficar em qualquer posição desejada. da fechadura" da vida dos outros,
O título deste trabalho artístico principalmente das pessoas famosas. É
apresenta dois sentidos denotativos: quase uma compensação da existência
você faz parte porque pode mexer na anônima que levamos: ao partilhar a vida
obra, alterando sua aparência, e privada dos outros, temos a ilusão de
porque se vê refletido no espelho, partilhar a sua intimidade, de termos um
passando a fazer parte integrante da maior número de "amigos".
obra.
Desse modo, a obra, que contexto de produção da obra e de
inicialmente parecia uma brincadeira, disponibilidade interna para entender a
se enche de sentido. Torna-se bela. Ou, arte a partir de suas propostas —, que é
talvez, um grande "barato". E nos inesgotável em uma única leitura e que não
emociona, enche-nos de alegria, de pode ser traduzida para outra linguagem
satisfação. É o sentimento de sem perder parte de seu conteúdo, a
completude. atribuição de significados às obras arte é
uma tarefa que necessita de aprendizado
Conclusão específico.
É preciso separar,por razões didáticas,
Uma vez que a informação forma e conteúdo para a seguir analisar as
estética existe dentro de um sistema particularidades de cada um, notando as
de comunicação mais restrito — por transgressões do código e como a
exigir o conhecimento específico de significação vai surgindo da observação
linguagens artísticas, de história da cuidadosa dos elementos denotativos e
arte, do conotativos.
Concepções estéticas

A distinção entre cultura "erudita" e "não-erudita" (ou de massa e popular)


baseia-se em parte numa avaliação da diferença entre objetos únicos e objetos
produzidos em massa. Na era da reprodução tecnológica em massa, a obra do
artista
tinha um valor especial simplesmente porque era única, porque trazia sua
assinatura
pessoal, individual. As obras da cultura popular (o próprio cinema foi por muito
tempo incluído nessa categoria) eram consideradas obras de pouco valor por serem
objetos manufaturado s, que não traziam uma marca individual —feitos por um
grupo para um público não-diferenciado. Mas, à luz da prática contemporânea das
artes, esta distinção parece extremamente superficial. Muitas obras de arte das
últimas décadas possuem um caráter decididamente impessoal. A obra de arte está
reafirmando sua existência como "objeto" (mesmo como objeto fabricado ou
produzido em massa, inspirado nas artes populares) e não como uma "expressão
pessoal individual".
Susan Sontag

Introdução
O naturalismo, segundo Harold
O conceito de belo, é Osborne, pode ser definido como a
eminentemente histórico. Cada época, ambição de colocar diante do
cada cultura, tem o seu padrão de observador uma semelhança
beleza próprio. Já houve até quem convincente das aparências reais das
dissesse que "gordura é formosura". coisas. A admiração pela obra de arte,
Da mesma forma, as manifestações nessa perspectiva, advém da habilidade
artísticas têm sido bastante diversas e,
por vezes, até desconcertantes no do artista em fazer a obra parecer ser o
curso da história. Essa diversidade se que não é, parecer ser a realidade e não
deve a vários fatores, que vão do a representação.
político, social e económico até os De acordo com a atitude
objetivos artísticos que cada época ou naturalista, podemos distinguir
cultura tem se colocado. algumas variações, dentre as quais as
Ao longo dos séculos, surgiram mais importantes são o realismo e o
várias correntes estéticas que vieram a idealismo.
determinar não só as relações entre arte O realismo mostra o mundo como
e realidade, porém, mais importante ele é, nem melhor nem pior. É
ainda, o estatuto e a função da obra de característico, por exemplo, da arte
arte. renascentista do século XV.
Discutiremos aqui algumas dessas Já o idealismo retrata o mundo nas
correntes mais importantes que suas condições mais favoráveis. Na
marcaram a produção artística, sendo, verdade, mostra o mundo como
por isso, fundamentais para a com- desejaríamos que fosse, melhorando
preensão da história da arte. e aperfeiçoando o real. É o padrão da
arte grega, que não retrata pessoas
1. O naturalismo grego • reais, mas pessoas idealizadas. Foram
os gregos que elaboraram a teoria das
Conceito de naturalismo proporções do corpo humano.
O naturalismo constitui uma Depois da Idade Média, a ruptura
noção fundamental que marcou com a atitude naturalista ocorre na
profundamente grande parte da arte segunda metade do século XIX com os
ocidental: a arte grega antiga e, após impressionistas, que passam a dar
uma interrupção durante a Idade primazia às variações da luz e não aos
Média, da arte renascentista até o objetos representados.
final do século XIX.
Essa mudança de atitude se deve, Essa atitude perante a arte está fundada
em parte, ao aparecimento do sobre o conceito de mímese.
"bisavô" da máquina fotográfica — o Embora mímese seja normalmente
daguerreótipo —, que fixa as imagens traduzida por "imitação", para os gregos ela
do mundo de forma mais rápida e significava muito mais que isso. Para Platão
mais econômica do que a tela pintada. (séc.V a.C), no Crátilo, as palavras "imitam"
Por essa razão, os artistas, a realidade. Neste caso, a tradução mais
principalmente os pintores, tiveram correta para mímese talvez fosse
de repensar a função da arte e o "representar", e não "imitar".
espaço específico da pintura. Para Aristóteles (séc. IV a. C.), a arte
"imita" A natureza. Arte, para ele, no
• O naturalismo na arte grega entanto, englobava todos os ofícios
Na Grécia Antiga não havia a ideia manuais, indo da agricultura ao que hoje
de artista no sentido que hoje chamamos de belas-artes. Por isso, a arte,
empregamos, uma vez que a arte estava enquanto poiésis, ou seja, "construção",
integrada à vida. As obras de arte dessa "criação, a partir do nada", "passagem do
época eram utensílios (vasos, ânforas, não-ser ao ser". imita a natureza no ato de
criar. Por outro lado também aqui poderíamos
copos, templos etc.) ou instrumentos entender mímese com o sentido de
educacionais. Assim, o artífice que os "representar". Para Aristóteles “todos os
produzia era considerado um traba- ofícios manuais e toda a educação 1com
lhador manual, do mesmo nível do pletam o que a natureza não terminou".
agricultor ou do ferramenteiro. Ele era Ainda segundo Aristóteles, a apreciação
um artesão numa sociedade que da arte vem do prazer intelectual de
considerava indigno o trabalho manual. reconhecer a coisa representada por meio da
Nesse período (sécs.V e IV a.C.) imagem, desse modo, ele resolve o
foram desenvolvidas técnicas com a problema do feio. O prazer, no caso, não
principal motivação de produzir cópias vem do reconhecimento da coisa feia, mas
da aparência visível das coisas. A da habilidade que o artista demonstra ao
função da arte era criar imagens de representá-la.
coisas reais, imagens que tivessem É no sentido de cópia ou reprodução
aparência de realidade. exata e fiel que a palavra mímese passa a ser
Há várias anedotas que ilustram adotada pela teoria naturalista. E as obras de
bem isso, embora poucos exemplares arte, nessa perspectiva, são avaliadas
da pintura grega tenham chegado até segundo o padrão de correção colocado por
nós. Dizem que Apeles pintou um Platão:"Agora suponhamos que, neste caso, o
cavalo com tanto realismo que homem também não soubesse o que eram os
cavalos vivos relincharam ao vê-lo. vários corpos represendos. Ser-lhe-ia
Outra história conta que Parrásio possível ajuizar da justeza da obra do artista?
pintou uvas tão reais que passarinhos Poderia ele, por exemplo, dizer se ela
tentavam bicá-las. mostra os membros do corpo em seu
Na verdade, talvez essas pinturas só numero verdadeiro e natural e em suas
possam ser consideradas realistas em situações reais, dispostos de tal forma em
relação à es-tilização da pintura que relação uns aos outros que reproduzam o
a precedeu ou à pin- agrupamento natural - para não falarmos
tura egípcia, por na cor e na forma -, ou se ttudo isso está
exemplo. Por outro confuso na representação? Poderia o
lado, temos de homem, ao vosso parecer, decidir a
admirar a fidelidade questão se simplesmente não soubesse o
anatómica das escul- que era a criatura retratada?".2
turas gregas, tais
como a Vitória de 2. A estética medieval e a
Samotrácia e o estilização
Discóbulo. Na Europa ocidental, durante a Idade
Média, não houve grande interesse pelas
artes que, como coisas lenenas ligadas à
cultura pagã, poderiam prejudicar o

1. ARISTOTELES. A Política. Rio de Janerlro.


Tecnoprint/Ediouro, s/d.
2, PLA TÃO. As Leis: Incluindo Epinomis. Bauru,
Edipro. 1999.
fortalecimento da alma e do espírito. perfeição divina.
Entretanto, em virtude do
analfabetismo generalizado das , Santo Agostinho
populações dos feudos, a Igreja
utiliza-se da pintura e da escultura Santo Agostinho elabora "uma rigorosa teoria
para fins didáticos, ou seja, para do belo como regularidade geométrica. 4
ensinar a religião e incutir o temor do Ao tratar da ordem e da música,
julgamento final e das penas do considera o número como medida de
inferno. As obras de arte assumem a comparação que leva à ordenação das
condiçao de símbolos que manifestam partes iguais dentro de um t odo integrado
a natureza divina e canalizam a e harmônico.
devoção do homem para o deus O gosto pela proporção, o próprio
supremo. conceito de beleza como ordenação dos
Por isso, a postura naturalista é objetos ao que deve ser, pressupõe um
abandonada em prol da estilização, conceito anterior da ordem ideal, dado por
isto é, da simplificação dos traços, da iluminação divina. Não podemos esquecer
esquematização das figuras e do das origens platónicas de seu pensamento
abandono dos detalhes individualizado- em que o ideal precede o real, mera cópia
res. A estilização responde melhor à daquele. Esse conceito ideal de beleza
necessidade de universalização dos fundamenta a objetividade do julgamento
princípios da religião cristã. da beleza real, concreta, e é fonte das
A arte bizantina do mesmo normas para a produção do belo.
período mostra extraordinária
homogeneidade a partir de sua co- • Santo Tomás de Aquino
dificação, no séculoVI, até a queda de
Constantinopla em 1453. Preocupada Cabe a Santo Tomás de Aquino (séc.
com a expressão religiosa e com a XIII) retomar o pensamento de
tradução da teologia em forma de Aristóteles e recuperar o mundo sensível
arte, a Igreja Ortodoxa bizantina pa- que havia sido considerado fonte de
droniza a expressão artística, pecado durante quase toda a Idade
abolindo a representacão do volume Média. Se é criação de Deus, o mundo
em pinturas e mosaicos, preferindo as terá as marcas de sua origem e será a
figuras chapadas, cujas vestes eram re- encarnação simbólica do logos divino.
presentadas por linhas sinuosas (ver a Pode, assim, ser objeto de nossa atenção e
reprodução do mosaico da Igreja de interpretação. Para Santo Tomás, a
São Vital). beleza é um dos aspectos do bem: "A
Mantidas suas características próprias, beleza e a bondade de uma coisa são
tanto no Ocidente quanto no Império fundamentalmente idênticas". A beleza é
Bizantino prevalece a idéia de que a o aspecto agradável da bondade, pois o
beleza não é um valor independente belo é agradável à cognição.
dos outros, mas que é o refulgir da
verdade no símbolo. A obra de arte,
assim, permite-nos alcançar a visão
direta da perfeição da natureza divina.
Nesse ponto de vista, a beleza é uma
qualidade mais bem apreendida pela
razão do que pelos sentidos, e
corresponde ao pensamento religioso
dessa época, marcado pelo desejo de

Santo Tomás estabelece três condições


para a beleza:
• integridade ou perfeição, uma vez que
os objetos incompletos ou parcialmente
destruídos são feios;
ascender do mundo sensual das sombras, • devida proporção ou harmonia entre as
das aparências, à contemplarão direta da partes e entre o objeto e o espectador;
teoria da arte. Combinaram-se elementos
• claridade ou luminosidade, ou seja, o cartesianos e aristotélicos nos conceitos
resplandecer da forma em todas as partes da polissêmicos, isto é, com muitos sentidos, de
matéria. razão e natureza.Artistas e críti cos
identificaram o seguir a natureza com o
3. O naturalismo renascentista seguir a razão, uma vez que a natureza
humana consiste em ser racional.
O Renascimento artístico, ocorrido entre os Por isso, o racionalismo estético, nos
séculos XIV e XV na Europa, passa a séculos XVII e XVIII, tentou estabelecer
dignificar o trabalho do artista ao elevá-lo à normas sólidas para o fazer artístico,
condição de trabalho intelectual. mediante a dedução de uma xioma
Conseqúentemente, a fundamental e evidente por si mesmo
obra de arte assume um Esse axioma pode ser expresso nos seguintes
outro lugar na cultura da termos: a arte é uma imitação da natureza
época. que inclui o universal, o normativo, o
essencial, o caraterístico e o ideal. A natureza
deve ser representada em abstrato, com as
Nesse contexto, as artes vão buscar um características da espécie. O princípio básico
naturalismo crescente, mantendo estreita da arte, portanto, continua a ser a imitação,
relação com a ciência empírica que embora de cunho idealista.
desponta na época e fazendo uso de todas Posteriormente, esses princípios foram
as suas descobertas e elaborações em busca reduzidos a um sistema, dando origem ao
do ilusionismo visual. A perspectiva academismo, isto é, ao classicismo ensinado
científica, a teoria matemática das pro- pelas acaclemias de arte. E a chamada estética
porções, que possibilitam a criação da normativa, que estabelece regras para o fazer
ilusão da terceira dimensão sobre uma artístico, limitando a criatividade e a
superfície plana, as conquistas da individualidade da intuição artística,
astronomia, da botânica, da fisiologia e da O academismo acaba por estrangular a
anatomia são incorporadas às artes. vida da atitude naturalista na arte, abrindo
Osborne distingue seis princípios funda- espaço para indagações e propostas novas.
mentais que dominaram o ponto de vista
renascentista no terreno da estética: 5. Kant e a crítica do juízo estéti* o
Na Critica do juízo, elaborada em 1790,
1. A arte é um ramo do conhecimento e, portanto, Kant se ocupa, em primeiro lugar, do
criação da inteligência. julgamento estético, expressando de maneira
2. A arte imita a natureza com a ajuda das ciências. lógica muitas das ideias e doutrinas dos
3. As artes plásticas e a literatura têm propósito estetas ingleses do século XVIII e
de melhoria social e moral, aspirando ao ideal. modelando-as em um sistema coerente.
4. A beleza é uma propriedade objetiva das coisas e
consiste em: ordem, harmonia, proporção, adequação. Começou por distinguir a base lógica
A harmonia se expressa matematicamente. do juízo estético da base lógica dos j u í z o s
5. As artes alcançaram a perfeição na Antiguidade s o b re o u t ras fo n t es d e p raz er e da
clássica, que deve ser estudada. base dos juízos utilidade e de bondade.
6. As artes estão sujeitas a regras de perfeição ra- Estabeleceu, t am b ém a distinção entre
cionalmente apreensíveis que podem ser formu- percepção estética e formas de pensamento
ladas e ensinadas com precisão. Aprendemo-las conceituali (belo é o que agrda
pelo estudo das obras da Antiguidade. pendentemente de um conceito), indo contra a
estética cartesiana e racionalista.
4. Iluminismo e academismo: a A seguir, dividiu a beleza em duas
estética normativa espécies: a beleza livre, que não depende de
nenhum conceito de perfeição ou uso; e a
Descartes (séc. XVII) não elaborou beleza dependente desses conceitos. Os
uma teoria estética, mas seu método e juízos estéticos, para Kant, estão
conclusões em relação à teoria do relacionados com a primeira espécie de
conhecimento foram decisivos no beleza.
desenvolvimento da estética neoclássica. A partir do conceito de prazer
A busca da clareza conceitual, do rigor desinteressado, Kant diferencia os juízos
dedutivo e da certeza intuitiva dos estéticos dos juízos morais, dos juízos
princípios básicos invadiu o campo da sobre a utilidade e dos juízos
baseados no prazer dos sentidos. A e originalidade. O conceito romântico de
experiência do belo se dá no sensível imaginação criadora não era, como vemos,
e independe de qualquer interesse de um conceito psicológico e jamais foi
outro tipo. "O gosto é a faculdade de claramente definido.
julgar um objeto ou um modo de Quanto ao simbolismo, no período
representação por uma satisfação ou romântico adquire especial relevância a
insatisfação inteiramente ideia de que a obra de arte é um símbolo, é
independentes do interesse. Ao objeto a encarnação material de um significado
dessa satisfação chama-se belo." Para espiritual.
Kant, portanto, a beleza reside Enfim, o romantismo concebe a arte
primordialmente na atitude como expressão das emoções pessoais de um
desinteressada do sujeito, em relação a artista cuja personalidade genial se torna o
qualquer experiência. O que garante a centro de interesse.
universalidade dos juízos estéticos é o
fato de que todos os homens têm a 7. A ruptura do naturalismo
mesma faculdade de julgar, assim
como a razão também é idêntica para A revolução estética iniciada no século
todos. XVIII, quando se propôs a atenção
desinteressada como marca da percepção
6. A estética romântica estética e o sentimento como forma de
cognição, foi completada nos últimos cem
As ideias fundamentais da estética anos, passando a apreciação estética a ser o
romântica, desenvolvida ao longo de único valor das obras de arte.
um século (meados do século XVIII Nas palavras de André Malraux, crítico
a meados do século XIX) na Europa, francês do século XX, "a Idade Média
podem ser resumidas pelas expressões tinha tanta noção do que entendemos pelo
génio, imaginação criadora, originalidade, termo arte quanto a Grécia ou o Egito, que
expressão, comunicação, simbolismo, careciam de uma palavra para exprimi-lo.
emoção e sentimento. Para que essa ideia pudesse nascer, foi
A noção de génio, como dom preciso que se separassem as obras de arte de
intelectual e espiritual inato, liga-se sua função. [...] A metamorfose mais
em especial à figura do artista, que profunda principiou quando a arte já não
passa a ser apresentado como possu- tinha outra finalidade senão ela mesma".4
indo profunda compreensão da E essa independência da obra de arte
suprema realidade. Visto dessa tanto em relação à intenção do autor quanto
forma, o génio era essencialmente a valores e propósitos não propriamente
original e expressava sua natureza estéticos que vai caracterizar a produção do
superior por meio de obras pelo século XX.
intermédio das quais as pessoas A partir do momento em que o ser da
comuns entrariam em contato com arte não é representar naturalisticamente o
ele e comungariam com a sua mundo, nem promover valores, sejam eles
personalidade. sociais, morais, religiosos ou políticos,
A imaginação, por sua vez, passou a torna-se possível encontrar a especificidade
ser vista como faculdade captadora de da arte enquanto promotora da experiência
verdade, acima e, às vezes, superior à estética.
razão e ao entendimento, sendo um Ao lado disso, encontramos o repúdio à
dom especial do artista. Era, ao estética sistemática e um certo ceticismo
mesmo tempo, criadora e reveladora quanto às possibilidades de definição da
da natureza, dentro de uma visão beleza.
romantizada do idealismo transcen- A nova atitude estética advém do estado
dental kantiano que circunscrevia a de espírito cauteloso, empírico e analítico
forma da experiência à capacidade que não quer generalizar, mas que se
configuradora da mente. mantém atento às características individuais
Ê a imaginação que nos permite de cada forma de arte. Isso possibilitará a
compreender os sentimentos dos outros e cada uma empreender experimentações, na
comunicar-lhes os nossos. Pelo seu poder busca da sua linguagem específica e
de recombinar impressões sensíveis e característica, como vimos quando
dados da experiência, é fonte de invenção discutimos o papel das vanguardas.
l MALRAUX, André. "Lês voix du silence". Apud OSBORNE, Harold. Estética e teoria da arte. São Paulo,
('ullrlx, 1970. p. 248.

395
Com a dissolução da atitude O que fica escondido é o fato de
naturalista, os artistas passam a que, ao selecionar as imagens que vão
menosprezar o assunto ou tema das ser mostradas, ao cortá-las, ao montá-las
suas obras para valorizar o fazer a numa determinada ordem, a produção do
obra de arte. Qualquer assunto serve, telejornal já mutilou a realidade, já a
ou mesmo nenhum assunto, como é o interpretou e nos mostra o produto final
caso da arte abstrata e da música manipulado como se fosse o fato em si.
atonal. É o naturalismo a serviço da ideologia
dominante.

8. O pós-modernismo
Vivemos uma época de pós-tudo. A
velocidade da transmissão da informação na
sociedade pós-industrial, dominada pelos
meios de comunicação de massa, pelos
Desse modo, a obra de arte microcomputadores, pelas máquinas de fax,
adquire um estatuto próprio de obra, pela Internet e pelos satélites, faz surgir uma
isto é, ela não tem por função estética adequada a essas condições de vida.
representar nenhum aspecto da O pós-modernismo, movimento iniciado na
realidade exterior, pois ela é a própria arquitetura italiana dos anos 1950, coloca-
realidade. Realidade especial, se como reação à busca da universalidade e
diferente da realidade do nosso racionalidade, propondo a volta do passado
cotidiano. Realidade de obra de arte. por mei o de materiais, formas e valores
Apesar de essa ruptura ter simbólicos ligados à cultura local.
condicionado praticamente toda a Da arquitetura, passa para as artes plásticas
produção artística do século XX, a pop arte dos anos 1950 e 1960),para a literatura
postura naturalista continuou a (o novo romance francês), para o teatro,
predominar em outros campos, com os happenings, as performances, até
principalmente nos meios de chegar às intervenções,
comunicação de massa, como a tevê, o A estética pós-moderna caracteriza-se pela
cinema, o rádio. desconstrução da forma. No romance, no cinema,
Por exemplo, ao considerarmos a no teatro não há mais uma história a ser
programação televisiva, percebemos contada ou personagens fixas as coisas vão
que toda ela tem por objetivo criar acontecendo, aparentemente sem ligações
uma ilusão de realidade e, mais do que causais. Caracteriza-se ainda pelo pastiche e
isso, fazer-nos acreditar nessa ecletismo que permitem juntarem-se as coisas
realidade criada. As telenovelas, os mais variadas e até mesmo antagónicas na
telejornais, os programas de auditório mesma obra; pelo uso da paródia, discurso
querem nos convencer de que as paralelo que comenta e, em geral, ridiculariza o
coisas acontecem do jeito que nos discurso principal; pelo uso da metalinguagem,
está sendo mostrado. A casa do isto é, da citação de outras obras; pela incorporação
trabalhador, da empregada doméstica, do cotidiano e da estética dos meios de comunicação
de massa; pela efemeridade, ou pequena duração, de
os quais, todos sabemos, ganham muitas das suas obras.Não existe um estilo único,
pouco, tem móveis e objetos de tudo vale dentro do pós-tudo.
decoração bastante caros. Eles
próprios usam roupas caras e da moda,
e raramente aparecem trabalhando.
Essa realidade mostrada na tevê não
nos incomoda, não nos perturba o
lazer. Muito pelo contrário, nos diz
que o mundo está em ordem e as
pessoas, felizes. As próprias imagens
do telejornai dão-nos a impressão de
que presenciamos os acontecimentos
ao vivo.
5. Happenings são os espetáculos teatrais, sem um texto definido, que se constróem a partir da
interação atores-público; as performances referem-se a espetáculos, seja de teatro, música
ou artes visuais que se utilizam de varias linguagens artísticas; intervenções são as
manifestações artísticas que interfere na vida da cidade.
9. O pensamento estético no se posicionar criticamente diante da
Brasil tradição, a fim de compreender as
questões de seu tempo e elaborar um
Na verdade, é difícil separar novo discurso, veremos que será
totalmente a atividade de crítica de somente na segunda metade do século
arte daquela que propõe novas XX que os intelectuais passarão a
questões estéticas, porque o crítico exercer esse papel no meio artístico
também pensa a arte, só que não brasileiro. Nesse momento, eles vão
abstratamente, mas a partir de certas além da análise e crítica das obras ou
obras. Há críticos importantes no movimentos para criarem, a partir do
Brasil, que fundamentam seu panorama das artes de seu tempo,
trabalho em conhecimento profundo novas categorias de análise, indicando
da história da arte. Aracy Amaral, e discutindo a mudança de paradig-
Walter Zanini, Angélica de Moraes, mas, bem como a importância destes
Lisette Lagnado, na área de artes dentro do contexto da cultura local e
visuais, Helena Katz, na dança, Ismail global. Entre eles, cumpre destacar a
Xavier, Amir Labaki Jean-Claude atuação de Anatol Rosenfeld, em
Bernardet, no cinema, Enio Squeff e literatura e teatro, Benedito Nunes,
Miguel Wisnik em música, Mário Pedrosa, nas artes plásticas,
Mariângela Alves de Lima, no teatro, Décio Pignatari, analisando a mídia, e
entre tantos outros. Na verdade, antes Teixeira Coelho Netto. Este último
de serem críticos de arte, eles são tem-se distinguido por sua produção
intelectuais, às vezes também artistas, crítica em várias áreas: teatro,
que pensam a linguagem específica à arquitetura, cinema, artes visuais,
qual se dedicam, para poderem bem dentro do espírito pós-moderno
analisar as características da produção em que as claras fronteiras entre as
em arte. artes são derrubadas, prevalecendo a
De outro lado, temos a própria crítica da cultura como um todo. Seus
produção artística: artistas apresentam textos levantam polemicas cruciais a
suas obras, instauram suas poéticas partir da desconstrução de paradigmas
particulares, dando continuidade ao estabelecidos.
que já foi produzido, criando Mesmo com a atuação desses
"famílias com similaridades"—para pensadores, a reflexão estética no
não se usar o termo escolas, que não Brasil ainda não forma um corpo
têm mais sentido na teórico consistente.
contemporaneida-de — ou rompendo
com essa "tradição" e abrindo novos Conclusão
caminhos. As vezes, esses mesmos
artistas se posicionam e refletem sobre O desenvolvimento das
suas linhas de trabalho, escrevem concepções estéticas, como vemos, é
manifestos, donde vermos os termos histórico, já que cada época e lugar
"estética da fome”, “estética propõem questões diferentes para a
tropicalista" etc. vida humana. O próprio papel e
Se levarmos em conta, função da arte na vida tem variado
entretanto, a ideia de que uma das conforme a geração e o espaço.
características do filósofo é a de Contudo, o que é permanente é a
presença da arte e do estético no
mundo humano.

FILOSOFANDO, introdução à filosofia.


Maria lúcia de Arruda ARANHA e
Maria Helena Pires MARTINS.
São Paulo: Editora Moderna. 2003.
pp. 365-397