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30/09/2019 A esperteza do PS e a ultrapassagem do 1% para a cultura

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A esperteza do PS e a ultrapassagem do
1% para a cultura New story

Rui Ibañez Matoso Stories


Sep 30 · 6 min read Series

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Publicado originalmente em Jornal Público:
https://www.publico.pt/2019/09/27/culturaipsilon/opiniao/esperteza-ps-
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ultrapassagem-1-cultura-1888162
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No âmbito das propostas eleitorais no domínio da cultura, estas eleições legislativas


ficam marcadas por uma questão percentual inédita. Até há bem pouco tempo, uma das
principais exigências dos agentes culturais situava-se na luta do 1% para a cultura,
reafirmando de forma bastante persistente a exigência de se afectar 1% do Orçamento
de Estado ao Ministério da Cultura, visando alcançar gradualmente 1% do PIB para a
cultura.

Agora, numa espécie de golpe de mágica, o candidato e primeiro-ministro do PS,


António Costa, tira mais uma surpresa da cartola e anuncia no programa eleitoral o
objectivo de “no horizonte da legislatura, atingir 2% da despesa discricionária prevista
no Orçamento do Estado”. Com esta jogada numérica o PS anula a obsessão quantitativa
em torno da luta do 1%, aumentando a fasquia em um ponto percentual.

Como responderão a esta cartada o movimento do “Manifesto Em Defesa da Cultura” e


os outros partidos da gerigonça (BE e CDU)? É que o registo histórico das exigências
político-partidárias em torno do mitológico “1% da UNESCO” vem sendo usado como
uma espécie de mantra, ou slogan, que ofusca mais do que aquilo que esclarece. Nesta
conjuntura, em que o PS, de uma assentada só, supera a melhor das boas vontades
orçamentais do BE e da CDU para a cultura, que paradigmas e propostas de
transformação das políticas culturais restam à “esquerda radical”?

Terá a esquerda caído na armadilha neoliberal de valorizar (e manipular) a dotação


orçamental per se, em detrimento da crítica ao status quo e às orientações fundamentais
ainda vigentes focadas obsessivamente na defesa dos paradigmas da
democratização/acesso à cultura tão típicos dos anos 50 do Séc. 20?. O que causa, diga-
se, se assim for, uma certa estranheza, até porque as sociedades contemporâneas vivem
num contexto planetário, global, social, cultural e tecnológico muito distinto.

Por um lado, está ainda praticamente em vigor, ao nível das políticas nacionais de
cultura, o modelo instaurado pelo ex-ministro da Cultura, Manuel Carrilho. Esta
proposta, nascida nos Estados Gerais do PS é ainda hoje aclamada pela esquerda
enquanto fundadora de uma pertinente orgânica administrativa para a cultura, bem
como de medidas tendencialmente dirigidas ao desenvolvimento da democracia
cultural, e de políticas culturais de proximidade, nomeadamente no eixo das políticas de
descentralização das artes do espectáculo ou na realização da primeira “Convenção

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Cultural Autárquica” (1999), onde terá sido, aliás, aprovada, a «magna carta» da
descentralização cultural.

Por outro, desde há décadas que o discurso em torno da “Democracia Cultural”, vem
estando presente nos meios políticos, artísticos, académicos e culturais, não se podendo
pois argumentar com o seu desconhecimento. Não obstante a defesa da cidadania
cultural e da participação cívica na definição de políticas culturais, estas tardam em
ganhar relevância nas propostas eleitorais e na governação da esquerda. Neste impasse,
o atraso na implementação de políticas culturais de terceira geração, direccionadas para
o “envolvimento directo dos agentes enquanto praticantes culturais de pleno direito e
não apenas confinados ao papel de consumidor e/ou receptor” (João Teixeira Lopes),
resulta já num preocupante distanciamento das conquistas políticas da nova esquerda
europeia propulsionada pelo Movimento dos Indignados (15M). Em Espanha, partidos
políticos como o Podemos ou Barcelona en Comú, vêm paulatinamente efectivando, na
prática, a viragem para políticas culturais sustentadas no entendimento da cultura como
bem-comum.

Esta viragem cultural na Espanha, imaginando também a sua possibilidade em Portugal,


faz toda a diferença quando se equaciona o financiamento público para cultura.
Podemos assim concluir que as políticas necessárias para a transformação do paradigma
cultural requerem a participação dos municípios como instâncias fulcrais da democracia
cultural e da vitalidade cultural dos territórios. Muitas das alterações necessárias à
construção de um novo paradigma de política cultural, estão já reflectidas no designado
Novo Municipalismo, na defesa do Direito à Cultura, na ideia de Cultura como Bem-
comum e no Direito à Cidade, tendo como base a uma perspectiva ancorada na Economia
Social e Solidária.

Julgamos que seja minimamente consensual o entendimento de que uma das principais
dificuldades centra-se em lidar com a percepção concreta de que em Portugal o poder
local se encontra refém dos respectivos aparelhos partidários, os quais estão mais
focados nas suas estratégias de dominação e manutenção do poder, em vez de
prosseguirem objectivos comuns de desenvolvimento endógeno e sustentável, no
desenvolvimento de culturas activas de cooperação e de subsidariedade ou no
aperfeiçoamento de processos de participação dos cidadãos na vida plural e diversa das
cidades. Que propostas existem para que os museus, as galerias ou os teatros municipais,
contribuam efectiva e quotidianamente para a transformação e para a melhoria das
condições de cultura, para a reflexão e criação sistemática e regular de projectos
colectivos ou para a diversidade e diálogo intercultural? Ou seja, como fazer com que os
serviços públicos de cultura descentralizados superem o mero papel ornamental a que
foram sujeitos durante décadas pela instrumentalização político-partidária?

Relendo um artigo publicado em 12 de maio de 2018, dizia que “voltando à


reivindicação consensual e universal do aumento do orçamento de Estado para o 1%,
fica a dúvida se o mesmo seria suficiente para integrar um Plano Nacional de Políticas e
Estratégias Culturais Municipais. Não será preferível equacionar já um aumento para
2% …3%….?”. O facto, novo, é que sem qualquer referência à necessidade de se
desenvolver um plano para a construção de políticas culturais locais, democráticas e
emancipatórias de base local, o PS decide no seu programa eleitoral para 2019 aumentar
a fasquia para os 2%. Com que fundamento e racional político?

Uma coisa é pretender que este aumento para 1%, 2% ou 3% sirva para manter o padrão
de políticas culturais baseado na democratização/acesso, aumentando-se a distribuição
de receitas pelos serviços públicos, entidades e organismos do Estado central já
existentes, o que incluiria obviamente maiores dotações para o financiamento público às
artes e à salvaguarda do património. É certo que isso contribuiria, de algum modo, para
a melhoria do serviço público de cultura. Mas que ideias novas temos para a adequação e
resposta dos serviços públicos perante os desafios complexos do mundo actual, diante
dos ataques em todas as frentes do capitalismo de catástrofe, no auge do
aceleracionismo tecnológico e no limiar de sobrevivência da humanidade? Que políticas
culturais queremos, afinal?

No âmbito das parcerias entre Estado central e administração local, a nossa proposta
passa pela estruturação de um plano para a requalificação das políticas culturais locais
(de proximidade), o qual seria implementado entre o governo e os municípios aderentes,
através de protocolos associados ao respectivo suporte financeiro incluído no Orçamento
de Estado para a Cultura. Os municípios teriam de se comprometer a desenvolver
políticas e estratégias participadas e publicamente discutidas, conjugando princípios e

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valores de democracia cultural e de direitos culturais e humanos (amplamente
divulgados pela Agenda 21 da Cultura).

Estes protocolos, firmados entre Governo e Municípios aderentes, seriam acompanhados


de objectivos, metas, monitorização e avaliação dos planos. Entre outras, os protocolos
prosseguiriam as seguintes finalidades:

• Criação de Conselho Municipal de Cultura / Fórum Cultural Municipal;

• Desenvolvimento de processos participativos na elaboração e governança de políticas e

estratégias culturais locais;

• Formação e profissionalização de quadros técnicos e administrativos (gestão,


produção,

mediação, programação…);

• Regularização dos contratos laborais dos trabalhadores da cultura;

• Apoio à estruturação de redes culturais locais;

• Criação de uma bolsa de espaços disponíveis e de recursos logísticos e técnicos;

• Criação de gabinetes locais de apoio a projectos culturais e criativos;

• Apoio a projectos específicos de promoção do diálogo intercultural;

• Formação, desenvolvimento e alargamento da base social dos públicos;

• Qualificação e expansão de serviços educativos;

• Apoio a programas e projectos intersectoriais: educação/cultura/património/…;

• Desenvolvimento da economia cultural e criativa;

• Desenvolvimento e integração da cultura técnica e científica;

• Re-democratização de equipamentos e instituições culturais, promovendo a


participação e a colaboração dos agentes culturais de modo transparente e equânime;

• Promoção regular de debates e sessões de trabalho entre agentes culturais e


administração

pública, descentralizados nas Juntas de Freguesia;

• Eliminação das barreiras e promoção do acesso aos equipamentos e eventos culturais;

• Incentivo à criação de plataformas digitais culturais locais;

• Desenvolvimento do jornalismo cultural local;

• Facilitação de uso de imóveis devolutos (públicos e privados);

• Facilitar a apropriação de espaços públicos urbanos para as “Artes de Rua”;

• Diversificar apoios e incentivar a pluralidade dos projectos culturais (ex: artistas


emergentes; experimentação e investigação; jovens produtores culturais; activismo
cultural.

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