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África e as ingerências

externas
22 de Setembro, 2018

Sebastião Vinte Cinco |*


Os anos 60 representaram para a grande maioria dos povos africanos a
chegada do “admirável mundo novo” com o advento das independências
e da formação de Estados soberanos.

As independências e a criação de Estados soberanos politicamente


liderados por africanos encerrou o triunfo de muitas gerações de
combatentes (da liberdade) que deram as suas vidas pelo sonho de uma
bandeira e uma pátria livre das amarras do colonialismo. 
Para a materialização deste sonho de inúmeras gerações de africanos
que se bateram firme e incessantemente sem interesses egoístas
concorreram o Direito Internacional Público tendo como pano de fundo a
Nova Ordem Mundial saída da Segunda Grande Guerra concretizadas
pela Resolução 1514 (XV) da Assembleia-Geral de 14 de Dezembro de
1960 que, traduzindo  os mais profundos anseios dos povos então sob
dominação colonial,  precipitou a libertação política de África. 
Porém, desde o limiar das independências os jovens Estados Africanos
que optaram pelas orientações socialista e capitalista de organização
económica, distinguindo-se, assim, pelos modelos  de economia de
mercado ou de economia centralizada/planificada, respectivamente,
conforme se inspiravam nos países do dito  bloco socialista
(representado pela antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas ou
nos países do bloco capitalista (capitaneado pelos Estados Unidos da
América) experimentaram sem sombra de dúvidas inúmeras situações
que bem podem ser caracterizadas como constituindo verdadeiras
acções de ingerência externa. 
Do ponto de vista estritamente político  os Estados Africanos foram
gerados num momento particularmente sensível da história da
humanidade em que o mundo se encontrava dividido por aqueles dois
blocos diametralmente opostos e que se confrontavam permanentemente
pelo controlo de  zonas estratégicas em que se enquadravam diversos
países do continente berço. A tomada, à nascença, de “partido” por entre
os dois contendores mundiais levou a que países africanos com uma e
outra orientação político-económica e ideológica fossem
instrumentalizados em sede das guerras por procuração (proxy wars) no
âmbito da Guerra Fria. Nesse período em que grande parte dos Estados,
em nome das ideologias das suas matrizes políticas, tomaram posições
em conflitos fratricidas que adiaram o crescimento económico, o conceito
de ingerência externa esteve muito presente no dia-a-dia das agendas
políticas com repercussões sobre os povos. 
Enquanto sujeitos de Direito Internacional no âmbito das guerras por
procuração em que foram partes, os Estados africanos jogaram um papel
importante e que contribuiu, sobremaneira, para, materializando o
espírito saído da Cimeira de Reikjavik de 11 e 12 de Setembro de 1986
entre Reagan e Gorbachev, precipitar o fim da confrontação directa entre
os dois blocos. Neste particular cite-se a heróica Batalha de Cuíto-
Cuanavale que teve o condão de conduzir a Namíbia à independência, e
de pôr fim ao regime anacrónico do Apartheid na África do Sul. 
O ciclo das flagrantes acções de ingerências externas, muito por conta
da desintegração da União Soviética, fechou-se no primeiro lustro dos
anos 90, altura em que os últimos Estados de orientação socialista e de
economia planificada de África optaram pela instauração do
multipartidarismo, da livre iniciativa e dos pleitos eleitorais, 
tendencialmente periódicos.  
Virada a página da Guerra Fria os Estados Africanos poderiam
certamente ter dado início a uma marcha rumo ao crescimento e ao
desenvolvimento económico uma vez que grande parte dos mesmos
assentam sobre territórios com riquezas naturais incomensuráveis,
podendo mesmo, em sede da cooperação sul-sul e sob o manto de
organizações continentais como a União Africana, desenvolver
mecanismos de solidariedade para o nivelamento por alto dos índices de
desenvolvimento humano.  
Sucede, porém, que volvidos 28 anos desde o fim da bipolarização do
mundo o continente africano confronta-se essencialmente com
problemas de má gestão e de endividamento colossal e recorrente. 
Entretanto, a despeito do fim da Guerra Fria e da cessação das acções
flagrantes de ingerência externa, não raras vezes alguns líderes
africanos se vêm escudando no discurso das ingerências externas para
justificarem a sua gestão perdulária, bem como a sua incapacidade  de
contribuir para a elevação social e económica dos africanos que, na sua
maioria, continuam a conviver na mais  abjecta miséria. 
A narrativa da ingerência externa em questão tem servido para
arregimentar africanos, inclusivamente (pseudo)intelectuais, contra o
Ocidente como se este fosse o único e exclusivo causador dos males
que grassam pelo continente, exonerando as lideranças africanas de
quaisquer responsabilidades pelos seus actos de gestão. Ora, se por um
lado a justificação da degradação da vida dos africanos com a suposta
intervenção externa de países do primeiro mundo encerra uma vã
tentativa de legitimar a gestão perdulária dos bens de todo um povo, por
outro lado essa mesma justificação pode ridicularizar as lideranças que
resistem a admitir os seus fracassos na condução das economias
estaduais, na medida em que demonstram pura e simplesmente a sua
incapacidade  de promover a satisfação de necessidades básicas e
conducentes à coesão social como, por exemplo, a implementação de
sistemas de saúde, de educação e de justiça capazes de funcionar em
benefícios das comunidades africanas. 
A vida em comunidade de Estados jamais poderá estar isenta de
ingerências externas no sentido mais lato da palavra.  Aliás, em última
análise, a imiscuição em assuntos de outrem encerra um modo de
sobrevivência dos Estados, tal como ocorre nas relações humanas,
estando hoje provado que nenhum país, por mais poderoso que seja,
pode escapar ao fenómeno em apreço. Veja-se o que ocorre com os
Estados Unidos da América, confrontados que se encontram com um
episódio de ingerência externa num processo em que jamais se
imaginaria pudesse um dia ser alvo de imiscuição de terceiros. Seja
como for,  estamos em crer que as ingerências externas não são nem
podem, no contexto actual livre da Guerra Fria, ser suficientemente
invasivas ao ponto de inviabilizar os Estados Africanos de promoverem o
fornecimento de água potável, de electricidade, de reconhecimento de
cidadania através da massificação de registos civis e de atribuição de
bilhetes de identidade, de acesso a um sistema de ensino que privilegie o
mérito e a um sistema de saúde capaz de demover os seus cidadãos
mais endinheirados de viajarem para o estrangeiro a fim de  se tratarem
do que quer que seja, maxime de  simples constipações. 
Para gáudio do continente berço novos ventos vêm soprando com a
chegada ao poder de  novas lideranças africanas que cada vez mais se
têm vindo a distanciar de narrativas falaciosas que justificam a má gestão
com supostas acções de terceiros, em particular de países do primeiro
mundo. No caso concreto de Angola, o convite formulado ao Fundo
Monetário Internacional, entidade promotora da gestão criteriosa de
erários, bem como o encetar de uma ampla campanha de moralização
da sociedade com as medidas de combate à corrupção e à impunidade
demonstram habilidades que apontam para o desenvolvimento de uma
relação profícua e promissora com os Estados e Instituições ou
Organizações com tradição e experiência de boa gestão. 
Com este tipo de postura que deve ser encorajado a todos os títulos mais
rapidamente se pode inferir que a narrativa da ingerência externa não
passa, hoje, de um discurso anacrónico e perigoso na medida em que
terá sido este um dos incentivos à gestão perdulária do erário e da
promoção da corrupção no continente africano.