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Caderno

RELAÇÃO
ESTADO-SOCIEDADE

3ª edição revisada e atualizada

Brasília/DF
ESAF
Escola de Administração Fazendária
2008
Ministério da Fazenda
Ministério da Educação
Controladoria-Geral da União
Secretaria de Orçamento Federal

RELAÇÃO ESTADO-SOCIEDADE
Caderno 2
Texto reelaborado pela Comissão do Referencial Teórico-Metodológico - CRTM

Brasília/DF
2008
Copyright© 2008 Ministério da Fazenda. Ministério da Educação. Todos os direitos reservados
Série Educação Fiscal. Caderno 2

MINISTRO DA FAZENDA
Guido Mantega
SECRETÁRIO-EXECUTIVO
Nelson Machado
DIRETOR-GERAL DA ESCOLA DE ADMINISTRAÇÃO FAZENDÁRIA - ESAF
Mauro Sérgio Bogéa Soares
SECRETÁRIO-EXECUTIVO DO GRUPO DE TRABALHO EDUCAÇÃO FISCAL – GEF
João Dias Neto
COORDENAÇÃO-GERAL
Gerência do Programa de Educação Fiscal – Geref/Esaf
Claudemir Frigo
Adriana Braga
CONCEPÇÃO DO MATERIAL DIDÁTICO
Gerência do Programa de Educação Fiscal – Geref/Esaf

ELABORAÇÃO DOS TEXTOS


Comissão Nacional de Elaboração de Material para Capacitação (Versão 1)
Conceição Teodora Baptista – Esaf – Ministério da Fazenda
Edson Luís da Silva – Secretaria de Estado de Finanças - RO
Edwiges Rosália Ferreira – Secretaria de Estado da Educação – RJ
Eugênio Celso Gonçalves – Secretaria da Receita Federal – 6ª RF/MG
Ingrid Lilian Fuhr Raad – Ministério da Educação
Márcia Valéria Ayres Simi de Camargo – Secretaria de Estado de Fazenda – DF
Margarete I. Franco Moreira – Secretaria de Estado da Receita e Controle – MS
Maria Lúcia da Silva Guimarães – Ministério da Educação
Ivany Ehrhardt – Ministério da Fazenda/ Esaf

ATUALIZAÇÃO DOS TEXTOS


Comissão do Referencial Teórico-Metodológico – CRTM (versão atualizada)
Ana Gardênia Felizardo de Souza – Secretaria de Estado da Educação – SE
Ana Paula Sampaio Lopes –Secretaria de Educação - PE
a.
Antonio Jordão da Silva Júnior – Secretaria da Receita Federal do Brasil – 9 RF/PR
Argemiro Torres Neto – Secretaria da Fazenda - CE
Eva Rocha de Azevedo Torreias –Esaf – DF – Ministério da Fazenda
Christovão Thiago de Brito Neto – Secretaria da Receita Federal do Brasil – 7a. RF/ES
Eugênio Celso Gonçalves – Secretaria da Receita Federal do Brasil – 6a. RFl/MG Jaqueline
Alexandre – Secretaria da Fazenda – PE
a.
José Valter Lopes de Oliveira – Secretaria da Receita Federal do Brasil – 3 RFl/PI
José Ronaldo M. Monte Santo – Secretaria de Orçamento Federal/ MPOG
Kácio Manoel Campos dos Santos – Secretaria de Estado da Fazenda – SE
Luiz Sérgio de Oliveira Lopes – Controladoria-Geral da União
Márcia Valéria Ayres Simi de Camargo – Secretaria de Estado da Fazenda– DF
Martin Francisco de Almeida Fortes – Secretaria de Orçamento Federal/ MPOG
Maurício Rodrigues de Araújo – Ministério da Educação
Orlando Pereira da Silva Jr. – Secretaria de Estado de Finanças – RO
Sandro Cavalieri Savóia – Secretaria de Estado da Educação– PR
Silvane Lopes Chaves – Secretaria de Estado de Educação – PA
REVISÃO E NORMALIZAÇÃO BIBLIOGRÁFICA
Ana Maria Guimarães Gonçalves

REORDENAÇÃO DE TEXTOS
Ivany Ehrhardt

DIAGRAMAÇÃO
Alex Silva

ENDEREÇO
Escola de Administração Fazendária – Esaf/MF
Gerência do Programa de Educação Fiscal - Geref
Bloco Q1, salas 02 e 04 Estrada de Unaí, km 4 – BR 251
CEP: 71.686-900 – Brasília-DF

ENDEREÇO ELETRÔNICO E E-MAIL


http://www.esaf.fazenda.gov.br
educ-fiscal.df.esaf@fazenda.gov.br

Programa Nacional de Educação Fiscal (Brasil)


Relação estado-sociedade/ Programa Nacional
de Educação Fiscal. – Brasília 2008.
p. 87 : il. (Série Educação Fiscal. Caderno 2)
3ª edição revisada e atualizada.

Participação dos Ministérios da Fazenda, e da


Educação, da Controladoria-Geral da União e da
Secretaria de Orçamento e Finanças.

1. Teoria do Estado.2. Sociedade. Evolução do


Estado.
I. Título II. Série

CDD
APRESENTAÇÃO
A Escola de Administração Fazendária – Esaf, cuja missão se vincula à
promoção da cidadania fiscal, apresenta a nova versão dos cadernos pedagógicos,
elaborada por uma comissão nacional do Grupo de Educação Fiscal – GEF e cujos
conteúdos são a base para aplicação do Programa Nacional de Educação Fiscal –
PNEF.

O PNEF visa ao constante aprimoramento da sociedade, na busca de uma


relação harmônica entre o Estado e o cidadão e na defesa permanente das garantias
constitucionais.

A compreensão da atividade financeira do Estado é pressuposto para o pleno


exercício da cidadania. No entanto, historicamente esses conteúdos nunca foram
adequadamente disseminados em nossa sociedade. O PNEF objetiva suprir essa
lacuna, pois fundamenta-se na compreensão da função socioeconômica do tributo;
da estrutura e do funcionamento de uma administração pública pautada por princípios
éticos; da correta alocação dos recursos públicos e das estratégias e meios para o
exercício do controle democrático.

Estes cadernos foram revisados e ampliados, atendendo a uma demanda


crescente da sociedade e adequando os conteúdos aos fatos sociais, políticos e
econômicos que constantemente modificam nossa história. Dentre as alterações
destacamos a inserção de um manual para elaboração de projetos, aspectos de
política previdenciária, diretrizes para a reforma tributária, as novas bases de
financiamento do ensino fundamental e os avanços promovidos pelo poder público e
pela sociedade na transparência e no controle dos gastos públicos.

Esperamos, dessa forma, contribuir para a formação de uma cidadania crítica e


participativa, capaz de promover as transformações necessárias para que o País
alcance um novo patamar de desenvolvimento sustentável.

Mauro Sérgio Bogéa Soares


Diretor-Geral da Escola de Administração Fazendária
Coordenador Nacional do PNEF
O BICHO

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os
detritos.

Quando achava alguma coisa,


Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,


Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um


homem.
Manuel Bandeira
(1886-1968)
SUMÁRIO
1. INTRODUÇÃO.......................................................................................................................................................13

2. A EVOLUÇÃO HISTÓRICA DO CONCEITO DE ESTADO E DE SOCIEDADE......................................................14


2.1 Sociedade................................................................................................................................................................14
2.2 Estado.....................................................................................................................................................................14
2.3 A idéia de Constituição............................................................................................................................................15
2.4 Antecedentes da Constituição escrita.....................................................................................................................15
2.4.1 Pactos forais e cartas de franquia........................................................................................................................15
2.4.2 Contratos de colonização.....................................................................................................................................15
2.4.3 As leis fundamentais do reino...............................................................................................................................16
2.4.4 As doutrinas do pacto social.................................................................................................................................16
2.4.5 O pensamento iluminista......................................................................................................................................17
2.5 A era dos direitos.....................................................................................................................................................17
2.5.1 Noção polêmica de Constituição..........................................................................................................................17
2.5.2 O Constitucionalismo e a construção histórica dos direitos do homem...............................................................18

3. O ESTADO BRASILEIRO.........................................................................................................................................25
3.1 Cidadania no Brasil, o longo caminho.....................................................................................................................25
3.1.1 Período colonial (1500 – 1822): o peso do passado............................................................................................25
3.1.2 Período Imperial (1822 – 1889): os direitos políticos saem na frente. ......................................................................28
3.1.3 A Primeira República (1889 – 1930) ....................................................................................................................33
3.1.4 Da Revolução de 1930 ao golpe militar de 1964..................................................................................................37
3.1.5 O Regime Militar...................................................................................................................................................43

4. ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO E CIDADANIA..........................................................................................48


4.1 Reflexões.................................................................................................................................................................48
4.2 Elementos do Estado..............................................................................................................................................48
4.3 Organização do estado e dos poderes....................................................................................................................49
4.4 Administração pública..............................................................................................................................................52
4.5 Democracia...................................................................................................................................................................53
4.6 Cidadania................................................................................................................................................................53

5. ESTADO, CAPITAL E TRABALHO..........................................................................................................................56


5.1 A crise no liberalismo...............................................................................................................................................56
5.2 Neoliberalismo, globalização e desemprego estrutural...........................................................................................56

6. DIFERENÇAS SOCIAIS: DESAFIOS PARA O BRASIL NO COMBATE À POBREZA, EXCLUSÃO SOCIAL E


CONCENTRAÇÃO DE RENDA....................................................................................................................................60
6.1 A desigualdade social..............................................................................................................................................60
6.2 Desenvolvimento humano e IDH............................................................................................................................61
6.3 Desenvolvimento infantil.........................................................................................................................................64
6.4 Educação e cidadania – um binômio necessário....................................................................................................68

7. A PREVIDÊNCIA SOCIAL NO BRASIL....................................................................................................................73


7.1 Breve histórico.........................................................................................................................................................73
7.2 Previdência Social: seu papel na atualidade e no futuro do Brasil.........................................................................74
7.3 Importância da Previdência Social..........................................................................................................................74
7.3.1 Anseio popular e dever do Estado........................................................................................................................74
7.3.2 Gigante desperto..................................................................................................................................................76
7.3.3 Previdência e combate à pobreza........................................................................................................................76
7.3.4 Motor dos municípios...........................................................................................................................................76
7.3.5 Ascensão social dos idosos..................................................................................................................................77
7.3.6 Nível de proteção social no Brasil........................................................................................................................77
7.3.7 Mobilizar para incluir.............................................................................................................................................78
7.3.8 Programa de Educação Previdenciária................................................................................................................79
7.3.9 Construir um futuro melhor...................................................................................................................................80

8. ÉTICA.............................................................................................................................................................................81
8.1 Entendendo o que é ética........................................................................................................................................81
8.2 O Estado que desejamos........................................................................................................................................83

REFERÊNCIAS..................................................................................................................................................................85
LEGISLAÇÃO PERTINENTE.............................................................................................................................................88
SITIOS................................................................................................................................................................................89
1 INTRODUÇÃO
A relação Estado e sociedade é uma relação histórica e dinâmica que vem sendo
construída com a história da própria humanidade. É o resultado dos conflitos, dos interesses,
das interações e dos sonhos. Tratar dessa relação é falar sobre o poder e a vida gregária:
como se organizar e como assegurar a sobrevivência da espécie humana na nossa casa
comum – a Terra, garantindo a um maior número de pessoas acesso a recursos básicos que
lhes possibilitem viver com dignidade.
Uma breve retrospectiva da relação dialética Estado e sociedade, na perspectiva do
poder, mostra-nos como ela moldou a história da humanidade: escravizamos “negros sem
alma”, dominamos outros povos baseados em “superioridade étnica”; declaramos que todos
os humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos; explodimos bombas atômicas,
fizemos revoluções e concebemos a democracia; produzimos guerras mundiais, criamos
doenças e inventamos vacinas; geramos o efeito estufa, comprometemos a biosfera,
lutamos contra as mudanças do clima; excluímos 2/3 da humanidade, defendemos a
solidariedade entre as nações, fomos fundamentalistas, praticamos a tolerância;
concentramos renda, lutamos contra as injustiças sociais; fizemos greve, organizamo-nos
em ONGs, partidos e associações e reivindicamos direitos.
glossário Vida gregária: vida em grupo.

Biosfera: camada do globo terrestre habitada pelos seres vivos.

Observe que essas relações continuam aconte-cendo: os conflitos de interesses e as


interações. Logo, a relação Estado e sociedade é marcada historicamente por tudo o que
construímos e continua aberta, sendo construída no agora por nossas decisões, nossos
valores, nossa visão de mundo.

Quando não votamos, também decidimos. Quando respeitamos o diferente, quando


não jogamos lixo na rua, quando cuidamos de nós, dos que estão a nossa volta e do
ambiente ao nosso redor, estamos construindo.

Também construímos quando somos indiferentes ou omissos ou ainda quando


estamos alheios à realidade. Quando achamos natural crianças nas esquinas pedindo ou se
prostituindo, e miséria, violência, corrupção, destruição do meio ambiente... a cada resposta
ou a cada omissão definimos quem somos.
A cada sim e a cada não construímos essa relação. São essas nossas marcas
deixadas na vida, nossos passos no chão.
A condição de estarmos vivos exige responsabilidade e cuidado para conosco, para
com o outro, com a natureza e tudo o que está ao nosso redor. A vida é preciosa demais para
vivermos no “automático”.

E essa relação é construída por nós, somos sujeitos das nossas histórias, sujeitos da
história da humanidade.

O que mata o jardim não é o abandono...


O que mata um jardim é esse olhar vazio
De quem por ele passa indiferente.
(Mário Quintana)

13
A EVOLUÇÃO HISTÓRICA DO CONCEITO DE
2 ESTADO E DE SOCIEDADE
2.1 Sociedade
Sociedade é um conjunto de pessoas que
vivem em certa faixa de tempo e de espaço segundo
normas comuns e que são unidas pelo sentimento
de grupo. É, na verdade, uma entidade autônoma
que emerge da experiência da vida coletiva,
possuindo características próprias que transcendem
aos indivíduos que a ela pertençam.

2.2 Estado
Estado teria surgido da necessidade de se estabelecer um acordo entre os indivíduos,
com o objetivo de dirimir os conflitos que se apresentavam num período mais primitivo, no
tocante à divisão de bens.

O Estado é resultado de uma longa evolução na maneira de


organização do poder. Ele surge com traços mais definidos a partir
das transformações por que passa a sociedade política por volta do
século XVI. A concentração de poder em uma única pessoa é a
característica principal do Estado moderno.
A sociedade formula diversos meios e estruturas para a vida
gregária. Temos na Idade Média um modelo de vida social
singularmente diferente do que se tem hoje em dia. Naquele
tempo, o poder político e o poder econômico encontravam-se
concentrados na mesma pessoa, no domínio de cada feudo. Era o
Estado Feudal.
Com o advento da Idade Moderna, emerge o Estado Absolutista com um novo
modelo. Há uma centralização de poder político e administrativo. Estimula-se uma unificação
de fronteiras, língua, cultura, economia e poderio militar. Assim, formula-se o Estado que
entendemos hoje, em seu embrião, tendo como premissa uma ordenação estável e
permanente.

glossário
Estado Absolutista: “Forma de governo em que o detentor do poder o exerce sem dependência
ou controle de outros poderes”.

14
A origem do Estado pode ser explicada como resultado de um processo histórico
expresso pelos grupos ou classes com maior poder, que institucionalizaram esse poder
estabeleceram a ordem na sociedade e garantiram para si o excedente econômico¹.
O caminho que escolhemos para falar desta relação Estado-sociedade – que é a
história da humanidade – é uma breve retrospectiva das idéias que formaram as
Constituições escritas dos Estados-nações, pois a Constituição é o instrumento jurídico de
institucionalização do poder, ou carta magna, ou lei maior que rege um país.

É necessário entendermos
que Nação e Estado têm
dimensões distintas.
A nação é anterior ao Estado, é a sua substância humana, uma realidade sociológica,
um conceito de ordem subjetiva, é, segundo Miguel Reale (2006), “um Estado em potência”.
O Estado é uma realidade jurídica, seu conceito é necessariamente objetivo. Várias nações
podem reunir-se em um só Estado (Império Austro-Húngaro, por exemplo), assim como uma
só nação pode dividir-se em diversos Estados.

2.3 A idéia de Constituição


Sendo o Estado o resultado de uma longa evolução na maneira de organização do
poder, ele traz em si a idéia de institucionalização desse poder, que também é uma criação
coletiva apoiada em precedentes históricos e doutrinários. Surge aqui a idéia de Constituição
escrita.

Desde a antiguidade há a percepção sobre a hierarquia das leis.


Na célebre obra de Aristóteles – A política – está clara essa distinção

Ariatóteles
entre leis constitucionais e outras leis, comuns ou ordinárias.

2.4 Antecedentes da Constituição escrita


2.4.1 Pactos forais e cartas de franquia
Os pactos forais são convenções entre o monarca e os súditos no que se refere
ao modo de governo e às garantias de direitos individuais, e seu fundamento é o
acordo de vontades. A história constitucional inglesa é rica em pactos forais .
As cartas de franquia têm a forma escrita e tratam da proteção aos direitos individuais.

2.4.2 Contratos de colonização


Surgem com os descobrimentos das Américas, nos séculos XVI e XVII. Os
puritanos, não encontrando na nova terra poder estabelecido e imbuídos de
igualitarismo, fixaram, por mútuo consenso, as regras por que haveriam de
governar-se. Transparece, aí, a organização do governo pelos próprios governados,
que é outro pilar da idéia de Constituição.

15
2.4.3 As leis fundamentais do reino
A existência de leis fundamentais que se impõem ao próprio rei é uma criação
dos legisladores franceses, empenhados em defender a Coroa, contra as fraquezas
do próprio monarca. Afirmava essa doutrina que, acima do soberano e fora de seu
alcance, há regras quanto à aquisição, ao exercício e à transmissão do poder, quanto
à autoridade do rei, que está subordinada à lei, e quanto à estabilidade da lei, somente
alteráveis pelos Estados Gerais.
glossário Estados Gerais: eram assim chamadas as assembléias convocadas pelos reis da França, durante o regime
absolutista, para tratar de assuntos importantes relativos ao Estado.

Nessa doutrina encontra-se a fonte de superioridade e imutabilidade das regras


concernentes ao poder, que estão presentes nas Constituições escritas.

2.4.4 As doutrinas do pacto social


A idéia de Constituição foi por muitos associada à de renovação ou
restabelecimento do pacto social, que é o acordo dos diversos seguimentos de uma
sociedade na definição das regras fundamentais da convivência social.
No final da Idade Média, floresceu a idéia de que a autoridade dos governantes
se fundaria num contrato com os súditos: o pacto de sujeição ou pactum subjectionis.
Por esse pacto, o povo se sujeitaria a obedecer ao príncipe enquanto este se
comprometia a governar com justiça, ficando Deus como árbitro do contrato. Assim,
violando o príncipe a obrigação de justiça, os súditos estariam dispensados da
obediência devida, por meio da intervenção do Papa, representante da divindade
sobre a Terra.

Hobbes Locke Rousseau

No século XVII, Hobbes (1588-1679), no livro Leviatã, e Locke (1632-1704), no


Tratado do governo civil, desenvolveram a concepção de que a própria sociedade se
funda num pacto, num acordo, ainda que tácito, entre os homens. A mesma idéia foi
difundida por Rousseau (1712-1778), às vésperas da Revolução Francesa, em sua
obra Contrato social. Dessas lições resulta sempre que o poder decorre da vontade
dos homens e tem um estatuto fixado por eles.
16
2.4.5 O pensamento iluminista
A idéia de Constituição ganhou força associada às concepções do Iluminismo
no século XVIII. Esta cosmovisão tem cinco idéias-força, que se exprimem pelas
noções de Indivíduo, Razão, Natureza, Felicidade e Progresso. De fato, ela concebe o
homem como indivíduo, ou seja, como um ser individualizado, com vida e direitos
próprios, que não se confunde com a coletividade nem se funde nesta. Esse indivíduo
é eminentemente racional, determina a sua vontade por uma razão que não aceita
senão o que lhe pode ser demonstrado. Razão, portanto, que rejeita o preconceito, isto
é, tudo aquilo que não pode ser explicado objetivamente. Tal indivíduo racional vive
num mundo governado em última instância por uma natureza boa e previdente. Dessa
natureza resultam leis (naturais) que conduzem à melhor das situações possíveis,
desde que não embaraçadas. Visam à felicidade, que é o objetivo do homem. Objetivo
a ser realizado na Terra e não no Céu, como era o caso da salvação eterna, meta
proposta para o homem pelo Cristianismo. Enfim, o otimismo quanto ao futuro, pois o
homem, sua condição de vida, seus conhecimentos, sempre estão em
aperfeiçoamento, em progresso.
Essa cosmovisão é fonte do liberalismo político e econômico, que triunfa com
as revoluções dos séculos XVIII e XIX na Europa. Neste último plano, o liberalismo
afirma a virtude da livre concorrência, da não-intervenção do Estado, enfim o laissez-
faire, que enseja a expansão capitalista1.
No plano estritamente político, o liberalismo encarece os direitos naturais do
homem, tolera o Estado como um mal necessário e exige, para prevenir eventuais
abusos, a separação de poderes que Montesquieu teorizou, de forma definitiva, em o
Espírito das Leis.
Liberalismo: doutrina política segundo a qual o Estado não deve intervir nas relações econômicas que se
estabelecem entre indivíduos, classes sociais ou países. Converteu-se, desde o final do século XVIII, na ideologia da
burguesia em sua luta contra as estruturas que se opunham ao livre jogo das forças econômicas e à participação da
sociedade na direção do Estado.
glossário
Laissez-faire: célebre máxima da escola fisiocrata francesa do século XVIII “Laissez faire, laissez passer: le monde
va de lui même” (“deixa fazer, deixa passar: o mundo anda por si mesmo”) é a que melhor expressa a natureza da
economia liberal. Efetivamente, a escola liberal acredita que a economia possui seus próprios mecanismos de auto-
regulamentação, que atuam com eficácia sempre que o Estado não dificulte seu funcionamento espontâneo.

Fonte: Enciclopédia Britânica. Consulta feita ao sítio Leituras Cotidianas nº 1 em 31 jan. 2008.

2.5 A era dos direitos

2.5.1 Noção polêmica de Constituição


Desde que surgiu, como base da doutrina liberal, a idéia de Constituição escrita
revestiu-se de caráter polêmico. Não designava qualquer organização fundamental,
mas apenas a que desse ao Estado uma estrutura conforme os princípios do
liberalismo.
Era, pois, uma arma ideológica contra o Ancien Régime, contra o absolutismo,
contra a confusão entre o monarca e o Estado, contra uma organização acusada de
ser irracional. Propunha substituir tudo isso por um governo moderado, incapaz de
abusos, zeloso defensor das liberdades individuais2.
glossário Ancien Régime: Expressão francesa que significa antigo regime e se refere ao regime monárquico vigente
antes da Revolução Francesa,

1
FERREIRA FILHO, 1987.p.4-9. Adaptação feita por Edson Silva, 2004.
2
FERREIRA FILHO, 1987.p.4-9. Adaptação feita por Edson Silva, 2004.

17
Esse conceito polêmico é que exprime, numa fórmula célebre,
a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789: “Toda
sociedade na qual não está assegurada a garantia dos direitos nem
determinada a separação dos poderes não tem Constituição” (art.
16).
Mais explicitamente, para o liberalismo, Constituição é um
documento escrito e solene que organiza o Estado, adotando
necessariamente a separação dos poderes e visando a garantir os
direitos do homem.

2.5.2 O Constitucionalismo e a construção histórica dos direitos do homem


O Constitucionalismo foi um movimento político e jurídico que visava a
estabelecer em toda parte regimes constitucionais, quer dizer, governos moderados,
limitados em seus poderes, submetidos a Constituições escritas.
Confunde – se, no plano político, com o liberalismo e, como este, sua marcha no
século XIX e nas três primeiras décadas do século XX foi triunfal. Ou pela derrubada
dos tronos, ou pela “outorga” dos monarcas, um a um, todos os Estados europeus,
salvo a Rússia, adotaram o constitucionalismo liberal3 .
Nas Américas, o fim da sujeição das colônias impôs a adoção de Constituições
escritas, em que, rompendo a organização histórica, a vontade dos libertadores
pudesse fixar as regras básicas da existência independente. Sem dúvida, o
Constitucionalismo na América procede da mesma orientação que o europeu. Aqui,
porém, a Constituição escrita era exigência da própria independência, pois esta
implicava o rompimento dos costumes e a destruição das instituições políticas
tradicionais. No Brasil, no entanto, tanto a declaração de independência quanto a
proclamação da república foram movimentos políticos das elites, sem a participação
social, o que nos legou Constituições que careciam de legitimidade. Efetivamente, só
tivemos participação popular a partir dos anos 30 do século XX com o Movimento
Constitucionalista de 1932 e as campanhas pela redemocratização, que geraram as
Constituições de 1946 e 1988.
O grande obstáculo ao desenvolvimento da democracia constitucional na
América Latina, na África e em grande parte do Oriente é que esse regime depende da
existência de uma opinião pública ativa e informada, que por sua vez é fruto de um
certo grau de instrução, riqueza e lazer e de um ambiente cultural em que se preze o
gosto pelo debate de idéias, o que só se torna possível após um certo grau de
desenvolvimento. De um modo geral, os povos mais ricos tendem a ser os mais livres,
e o enriquecimento geral propicia a reivindicação de maior liberdade. No entanto, falta-
lhes solidariedade com aqueles que lutam para alcançar um grau de desenvolvimento
capaz de dar dignidade humana a todos. Enquanto perdurar essa visão por parte dos
países desenvolvidos, a democracia planetária continuará a ser um mito.
Assim, pode-se afirmar que democracia, cidadania, direitos humanos e sociais
não são direitos inatos ou naturais à condição humana, mas sim conquistas históricas,
fruto de uma multissecular disputa de interesses antagônicos em torno do poder e
sujeitos às marchas e contramarchas da história. Daí a nossa esperança de que a
humanidade possa evoluir e, no futuro que esperamos não seja tão distante,
assegurar dignidade a todos. Afinal, se a democracia é uma construção histórica, o
que impede que a façamos cada dia mais justa e universal? Com efeito:
3
FERREIRA FILHO, 1987.p.4-9. Adaptação feita por Edson Silva, 2004.

18
- Os jusnaturalistas do século XVIII poderiam conceber direitos trabalhistas
como os que temos hoje?
- No início da Revolução Industrial havia condições concretas para se pensar no
direito humano e um meio ambiente equilibrado?
- Há vinte anos se poderia discutir o direito à inclusão digital?

Jusnaturalismo: Doutrina segundo a qual existe um “direito natural” (ius naturale), ou seja, um sistema de normas
de conduta intersubjetiva diverso do sistema constituído por normas fixadas pelo Estado (direito positivo). Esse direito
natural tem validade em si, é anterior e superior ao direito positivo e, em caso de conflito, é ele que deve prevalecer. O
glossário
Jusnaturalismo é, por isso, uma doutrina antitética à do “positivismo jurídico”, segundo a qual só há um direito, o
estabelecido pelo Estado, cuja validade independe de qualquer referência a valores éticos.

Fonte: Dicionário de Política, de Norberto Bobbio, Nicola Matteucci e Gianfranco Pasquino. Co-edição UNB e
Imprensa Oficial de São Paulo.

O primeiro marco histórico dos direitos humanos, da


forma como os concebemos hoje, nasce na Era Moderna
com a construção teórica do que viria a ser o Estado
liberal, advinda dos ideais iluministas em oposição ao
absolutismo monárquico.

O segundo momento histórico ocorre quando esses


direitos são transferidos do plano teórico e se tornam o
fundamento material do Estado de Direito.
Esse momento foi tão importante para a história da humanidade, por
representar a ruptura com o Estado Absolutista, que marca o início da Era
Contemporânea. Os documentos que simbolizam essa virada histórica nos destinos
da humanidade são as Declarações de Direitos dos Estados Norte-Americanos e a da
Revolução Francesa.
Sobre a historicidade desses direitos, e contra a idéia de que são inatos,
naturais à espécie humana, afirma Bobbio (1997):

Do ponto de vista teórico, sempre defendi – e continuo a


defender, fortalecido por novos argumentos – que os
direitos do homem, por mais fundamentais que sejam, são
direitos históricos, isto é, nascidos em certas
circunstâncias, caracterizados por lutas em defesa de
novas liberdades contra velhos poderes, e nascidos de
modo gradual.

Norberto Bobbio

19
E utilizando os fatos históricos como base de seus argumentos, prossegue:

(...) a liberdade religiosa é um efeito das guerras de religião; as liberdades civis,


das lutas dos parlamentos contra os soberanos absolutos; a liberdade política e
as liberdades sociais, do nascimento das lutas dos trabalhadores assalariados,
dos camponeses com pouca ou nenhuma terra, dos pobres que exigem dos
poderes públicos não só o reconhecimento da liberdade pessoal, das
liberdades negativas, mas também a proteção ao trabalho contra o
desemprego, os primeiros rudimentos da instrução contra o analfabetismo,
depois a assistência para a invalidez e a velhice (...) Ao lado dos direitos
sociais, que foram chamados direitos de segunda geração, emergiram hoje
os chamados direitos de terceira geração (...) o mais importante deles é
reivindicado pelos movimentos ecológicos: o direito de viver em um ambiente
não poluído. Mas já se apresentam novas exigências que só poderão
chamar-se de direitos de quarta geração, referentes aos efeitos cada vez mais
traumáticos da pesquisa biológica, que permitirá manipulações do patrimônio
genético de cada individuo. Quais os limites dessa possível (e cada vez mais
certa no futuro) manipulação? Mais uma prova, se isso ainda fosse necessário,
de que os direitos não nascem todos de uma vez. Nascem quando devem e
podem nascer. Nascem quando aumenta o poder do homem sobre o homem
– que acompanha inevitavelmente o progresso técnico, isto é, o progresso da
capacidade do homem de dominar a natureza e os outros homens – ou cria
novas ameaças à liberdade do indivíduo, ou permite novos remédios para
novas indigências.

Os direitos nascem,
portanto, junto com a idéia
de cidadania, ou seja, das
lutas sociais.

É o caso da Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã, proposta à Assembléia


Nacional da França em 1791, por Olympe de Gouge (pseudônimo de Marie Gouge), que lutou
em inúmeras frentes, inclusive pelo fim da escravidão.
Por sua importância histórica e também por sua atualidade em muitos aspectos,
decidimos transcrever essa declaração, ainda hoje pouco conhecida, em um mundo que
insiste em perpetuar o desprezo ao direito da mulher:

20
Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã

Este documento foi


proposto à
Assembléia Nacional
da França, durante a
Revolução
Francesa
(1789-1799). Marie
Gouze (1748-
1793), a autora,
era filha de um
açougueiro do Sul
da França, e
adotou o nome de
Olympe de
Gouges para
assinar seus
panfletos e
petições em uma
grande variedade
de frentes de luta,
incluindo a
escravidão, em que
lutou para sua
extirpação. Batalhadora,
em 1791 ela propõe uma
Declaração de Direitos da
Mulher e da Cidadã para
igualar-se à outra do
homem, aprovada pela
Assembléia Nacional.
Girondina, ela se opõe
abertamente a
Robespierre e acaba por
ser guilhotinada em
1793, condenada como
contra-revolucionária e
denunciada como uma
mulher "desnaturada".

Olympe de Gouges
(Setembro de 1791)

21
PREÂMBULO
Mães, filhas, irmãs, mulheres representantes da nação reivindicam constituir-se
em uma assembléia nacional. Considerando que a ignorância, o menosprezo e a ofensa
aos direitos da mulher são as únicas causas das desgraças públicas e da corrupção no
governo, resolvem expor, em uma declaração solene, os direitos naturais, inalienáveis e
sagrados da mulher. Assim, que esta declaração possa lembrar sempre, a todos os
membros do corpo social, seus direitos e seus deveres; que, para gozar de confiança, ao
ser comparado com o fim de toda e qualquer instituição política, os atos de poder de
homens e de mulheres devem ser inteiramente respeitados; e, que, para serem
fundamentadas, doravante, em princípios simples e incontestáveis, as reivindicações das
cidadãs devem sempre respeitar a Constituição, os bons costumes e o bem-estar geral.
Em conseqüência, o sexo que é superior em beleza, como em coragem, em meio
aos sofrimentos maternais, reconhece e declara, em presença, e sob os auspícios do Ser
Supremo, os seguintes direitos da mulher e da cidadã:
Art. I - A mulher nasce livre e tem os mesmos direitos do homem. As distinções
sociais só podem ser baseadas no interesse comum.
Art. II - O objeto de toda associação política é a conservação dos direitos
imprescritíveis da mulher e do homem. Esses direitos são a liberdade, a
propriedade, a segurança e, sobretudo, a resistência à opressão.
Art. III - O princípio de toda soberania reside essencialmente na nação, que é a
união da mulher e do homem: nenhum organismo, nenhum indivíduo, pode
exercer autoridade que não provenha expressamente deles.
Art. IV - A liberdade e a justiça consistem em restituir tudo aquilo que pertence a
outros, assim, o único limite ao exercício dos direitos naturais da mulher, isto é,
a perpétua tirania do homem, deve ser reformado pelas leis da natureza e da
razão.
Art. V - As leis da natureza e da razão proíbem todas as ações nocivas à
sociedade: tudo aquilo que não é proibido pelas leis sábias e divinas não podem
ser impedidos e ninguém pode ser constrangido a fazer aquilo que elas não
ordenam.
Art. VI - A lei deve ser a expressão da vontade geral: todas as cidadãs e
cidadãos devem concorrer pessoalmente ou com seus representantes para sua
formação; ela deve ser igual para todos.
Todas as cidadãs e cidadãos, sendo iguais aos olhos da lei, devem ser
igualmente admitidos a todas as dignidades, postos e empregos públicos,
segundo as suas capacidades e sem outra distinção a não ser suas virtudes e
seus talentos.
Art. VII - Dela não se exclui nenhuma mulher: esta é acusada, presa e detida
nos casos estabelecidos pela lei. As mulheres obedecem, como os homens, a
esta lei rigorosa.
Art. VIII - A lei só deve estabelecer penas estritamente e evidentemente
necessárias e ninguém pode ser punido senão em virtude de uma lei
estabelecida e promulgada anteriormente ao delito e legalmente aplicada às
mulheres.

22
Art. X - Ninguém deve ser molestado por suas opiniões, mesmo de princípio; a
mulher tem o direito de subir ao patíbulo, deve ter também o de subir ao pódio
desde que as suas manifestações não perturbem a ordem pública estabelecida
pela lei.
Art. XI - A livre comunicação de pensamentos e de opiniões é um dos direitos
mais preciosos da mulher, já que essa liberdade assegura a legitimidade dos
pais em relação aos filhos. Toda cidadã pode então dizer livremente: “sou a mãe
de um filho seu", sem que um preconceito bárbaro a force a esconder a
verdade, sob pena de responder pelo abuso dessa liberdade nos casos
estabelecidos pela lei.
Art. XII - É necessário garantir principalmente os direitos da mulher e da cidadã;
essa garantia deve ser instituída em favor de todos e não só daqueles aos quais
é assegurada.
Art. XIII - Para a manutenção da força pública e para as despesas de
administração, as contribuições da mulher e do homem serão iguais; ela
participa de todos os trabalhos ingratos, de todas as fadigas, deve então
participar também da distribuição dos postos, dos empregos, dos cargos, das
dignidades e da indústria.
Art. XIV - As cidadãs e os cidadãos têm o direito de constatar por si próprios ou
por seus representantes a necessidade da contribuição pública. As cidadãs só
podem aderir a ela com a aceitação de uma divisão igual, não só nos bens, mas
também na administração pública, e determinar a quantia, o tributável, a
cobrança e a duração do imposto.
Art. XV - O conjunto de mulheres igualadas aos homens para a taxação tem o
mesmo direito de pedir contas da sua administração a todo agente público.
Art. XVI - Toda sociedade em que a garantia dos direitos não é assegurada,
nem a separação dos poderes determinada, não tem Constituição; a
Constituição é nula se a maioria dos indivíduos que compõem a nação não
cooperou na sua redação.

CONCLUSÃO
Mulher, desperta. A força da razão se faz escutar em todo o Universo.
Reconhece teus direitos. O poderoso império da natureza não está mais
envolto de preconceitos, de fanatismos, de superstições e de mentiras.
A bandeira da verdade dissipou todas as nuvens da ignorância e da
usurpação. O homem escravo multiplicou suas forças e teve necessidade
de recorrer às tuas, para romper os seus ferros. Tornando-se livre,
tornou-se injusto em relação à sua companheira.

Fonte: Biblioteca Virtual de Direitos Humanos da USP. Disponível no sítio: <www.direitoshumanos.usp.br>


Acesse o link “documentos anteriores à criação da ONU”, pesquisa feita em 7 fev. 2008.

23
Em que pesem os notáveis avanços políticos das revoluções liberais dos séculos XVIII
e XIX, os direitos fundamentais alcançavam somente a burguesia proprietária e masculina,
apenas nas fronteiras daqueles Estados que os celebraram em seu ordenamento jurídico.
Por isso, segundo Bobbio, “A afirmação dos direitos do homem ganha em concreticidade,
mas perde em universalidade” (Bobbio,1997, op. cit., p.30).
Por essa razão, o advento da Carta da ONU de 1948, representa fato novo na história
da humanidade, pelo caráter universal e vinculante daquele documento. Pela primeira vez
fomos capazes de conceber e construir um consenso mínimo em torno de princípios e direitos
universais, princípios e direitos aos quais não pode se opor nenhuma ordem jurídica nacional.

A Declaração é o primeiro passo


concreto da humanidade na direção
da tão sonhada democracia
planetária. No dizer de Bobbio
(op. cit. p. 1):
“Haverá paz estável, uma paz que
não tenha a guerra como
alternativa, somente quando não
existirem cidadãos deste ou
daquele Estado, mas sim do
mundo”.

Para Bobbio, vencemos uma etapa importante da história da humanidade. No entanto,


a tarefa que nos cabe agora é ainda maior. Não se trata tanto de fundamentar os direitos
humanos, pois seu fundamento maior é a Declaração Universal, o que importa nessa quadra
da história, nesse limiar do século XXI é assegurar-lhes efetividade.
Ainda segundo Bobbio (1997, op. cit. p. 45): “Não se pode pôr o problema dos direitos
humanos abstraindo-o dos grandes problemas do nosso tempo, que são os problemas da
guerra e da miséria”. Acrescentaríamos ainda: a intolerância religiosa, étnica e o terrorismo.
Para o filósofo italiano, vivemos um contraste entre o “excesso de potência, que criou
condições para uma guerra exterminadora, e o excesso de impotência, que condena grandes
massas humanas à fome”. (op. cit. p. 45)
Mas para que haja efetividade dos direitos humanos no mundo contemporâneo, a luta
pela cidadania está umbilicalmente atada à questão fiscal: nenhum direito social ganha
concretude sem política pública. E toda política pública depende do orçamento para se
realizar.
Por sua vez, a tributação alcança o patrimônio, a renda e o consumo dos cidadãos que
vivem “em uma sociedade pluralista, desigual e injusta e, nesse contexto, mais do que nunca,
a cidadania fiscal é um elo entre as desigualdades sociais e a efetivação da dignidade da
pessoa humana” (IATAROLA, p.105).

Já não nos bastam mais a solenidade de declarações universais ou cartas


constitucionais, como a de 1988. Há um profundo hiato entre a abundância de promessas
nelas contidas e a miséria de nossas realizações.

Não queremos ser “cidadãos de papel”, para usarmos uma expressão de Gilberto
Dimenstein. Temos fome de direitos. Mas a primeira etapa para realizar nossos direitos é
conhecê-los, para deles fazer nossa profissão de fé.
24
3 O ESTADO BRASILEIRO

3.1 Cidadania no Brasil, o longo caminho


3.1.1 Período colonial (1500 – 1822): o peso do passado

O país nasceu da conquista de povos seminômades pelos europeus, detentores de


tecnologia muito mais avançada para a época. O efeito imediato da conquista foi a
dominação e o extermínio, pela guerra, pela escravização e pela doença, de milhões de
indígenas aqui residentes.
A conquista teve conotação comercial, a colonização foi um empreendimento do
governo colonial aliado a particulares. A atividade que melhor se prestou à finalidade lucrativa
foi a produção de açúcar, mercadoria com crescente mercado na Europa. Essa produção
tinha duas características importantes: exigia grandes capitais e muita mão-de-obra. Outro
produto tropical, como o tabaco, juntou-se, depois, ao açúcar. Consolidou-se, por esse modo,
um traço que marcou durante séculos a economia e a sociedade brasileiras: o latifúndio
monocultor e exportador de base escravista.
A mineração, sobretudo de aluvião, requeria menor volume de capital e de mão-de-
obra, além de ser uma atividade volátil, cheia de incertezas. As fortunas podiam surgir e
desaparecer rapidamente. Teve papel decisivo na expansão territorial da colônia.
Outra atividade econômica importante desde o início da colonização foi a criação de
gado, que se desenvolveu no interior do país como atividade subsidiária da grande
propriedade agrícola.
glossário Seminômades: grupo social que combina a prática ocasional da agricultura com atividades pastoris, sem local fixo.
Aluvião: detritos provenientes de erosão, depositados por correntes de água e que podem conter ouro.

O fator mais negativo para a


cidadania foi a escravidão. Calcula-
se que até 1822 tenham sido trazidos
para a colônia cerca de três milhões
de africanos escravizados. Na época
da independência, numa população
de cerca de cinco milhões, incluindo
uns 800 mil índios, havia mais de um
milhão escravizados.

A escravização de índios foi


praticada no início do período
colonial. Calcula-se que havia na
época da descoberta do Brasil cerca
de quatro milhões de índios. Em 1823
restava menos de um milhão.

Escravidão dos índios

Portugal, à época da conquista, tinha cerca de um milhão de habitantes, insuficientes


para colonizar o vasto império que conquistara.
Escravidão e grande propriedade não construíram ambiente favorável à formação
de futuros cidadãos.

25
Entre escravizados e escravizadores,
existia uma população legalmente livre, para a qual faltavam as
condições para o exercício dos direitos civis, sobretudo a educação.
Ela dependia dos grandes proprietários para morar, trabalhar e
defender-se contra o arbítrio do governo e de outros proprietários.

Não se pode dizer que os senhores fossem cidadãos. Eram, sem


dúvida, livres, votavam e eram votados nas eleições municipais.
Eram simples potentados que absorviam parte das funções do Estado,
sobretudo as funções judiciárias.
Em suas mãos, a justiça, que é a principal garantia dos direitos civis,
tornava-se simples instrumento do poder pessoal.
O poder do governo terminava na porteira
das grandes fazendas.

glossário
Potentados: senhores de grande autoridade e/ou poder material.

Os impostos eram também freqüentemente arrecadados por meio de contratos


com particulares. Outras informações públicas, como o registro de nascimentos,
casamentos e óbitos, eram exercidas pelo clero católico. A conseqüência de tudo isso
era que não existia de verdade um poder que pudesse ser chamado de público, isto é,
que pudesse ser a garantia da igualdade de todos perante a lei, que pudesse ser a
garantia dos direitos civis.
Outro aspecto da administração colonial portuguesa que dificultava o
desenvolvimento de uma consciência de direitos era o descaso pela educação
primária. De início, ela estava nas mãos dos jesuítas. Após a expulsão desses
religiosos em 1759, o governo assumiu a sua responsabilidade, mas de maneira
completamente inadequada.
Em 1872, meio século após a independência, apenas 16% da população era
alfabetizada.
A situação não era muito melhor na educação superior, escolas superiores só
foram admitidas após a chegada da corte, em 1808. Em contraste com a Espanha,
Portugal nunca permitiu a criação de universidades em sua colônia.
No século XVIII houve inúmeras revoltas políticas no Brasil.
A mais politizada foi a Inconfidência Mineira, também conhecida como Conjuração
Mineira (1789).

26
Segundo alguns historiadores, o nome Conjuração Mineira é o mais adequado, pois
(...) a própria expressão 'Inconfidência Mineira', utilizada na época e que
a tradição curiosamente manteve até hoje, mostra isso. 'Inconfidência' é
uma palavra com sentido negativo que significa falta de fidelidade, não-
observância de um dever, especialmente com relação ao soberano ou
ao Estado. Durante o Império, o episódio incomodava, pois os
conspiradores tinham pouca simpatia pela forma monárquica de
governo. Além disso, os dois imperadores do Brasil eram descendentes
em linha direta da rainha Dona Maria, responsável pela condenação dos
revolucionários (FAUSTO, 1995, p.118).

Outro autor que defende essa idéia é Carvalho (2003), ao afirmar que Tiradentes só
se tornou um herói nacional na República4.

A revolta que teve o cunho mais popular foi a Revolta dos Alfaiates, também conhecida
como Conjuração dos Alfaiates ou Conjuração Baiana, diferente da Conjuração Mineira
apesar de esta última ser mais conhecida; foi o

(...) movimento organizado na Bahia em 1798, por gente marcada


pela cor e pela condição social: mulatos e negros, livres ou
libertos, ligados às profissões urbanas, como artesãos ou
soldados, e alguns escravos. Entre eles destacavam-se vários
alfaiates, derivando daí o nome da conspiração
(FAUSTO, 1995, p.119).
Tiradentes esquartejado
(Pedro Américo 1893)

A última e mais séria revolta do período colonial foi a revolução praieira, que aconteceu
em 1817, que incluía, além de Pernambuco, as capitanias da Paraíba e do Rio Grande do
Norte, que controlaram o governo durante dois meses.

Na revolta de 1817 apareceram com mais


clareza alguns traços de uma nascente consciência de
direitos sociais e políticos, apesar de ainda não colocar
em questão a escravidão.
Chegou-se ao fim do período colonial com a
grande maioria da população excluída dos direitos civis
e políticos e sem a existência de um sentido de
nacionalidade. No máximo, havia alguns centros
urbanos dotados de uma população politicamente mais
aguerrida e algum sentimento de identidade regional. Inconfidência MIneira

4
Filme interessante a ser analisado é “Os inconfidentes”, produzido no Brasil em 1972, no ano das comemorações do
sesquicentenário da emancipação política do Brasil, sob a direção de Joaquim Pedro de Andrade. Baseado em Autos da
Devassa, de Tomás Antonio Gonzaga, Cláudio Manuel da Costa e Alvarenga Peixoto e O Romanceiro da Inconfidência, de
Cecília Meireles <http://www.adorocinemabrasileiro.com.br/>. O filme se torna ainda mais interessante se analisado a partir
do contexto político do Brasil na década de 1970, pois se caracteriza como uma crítica velada aos porões da ditadura militar.

27
3.1.2 Período Imperial (1822 – 1889): os direitos políticos saem na frente.

A independência do Brasil foi relativamente pacífica. A principal característica política


da independência brasileira foi a negociação entre a elite nacional, a coroa portuguesa e a
Inglaterra. O Brasil foi o único país americano a optar pela monarquia. Alguns historiadores
afirmam que essa opção se deu pelo fato de o poder simbólico e centralizador da Coroa
permitir a manutenção da unidade territorial da antiga colônia, evitando conflitos e a
fragmentação territorial no processo de independência, como ocorreu nas antigas colônias
espanholas, das quais derivaram inúmeras repúblicas.
Com a intermediação da Inglaterra, Portugal aceitou a independência do Brasil
mediante o pagamento de uma indenização de dois milhões de libras esterlinas. Nesse
contexto, a dependência política e econômica do Brasil em relação a Portugal foi substituída
pela dependência financeira para com a Inglaterra, dando origem a dívida externa brasileira.
O papel do povo foi mais decisivo em 1831, quando o primeiro imperador foi forçado a
renunciar.

Organograma da Constituição de 1824


O imperador Reinava absoluto sobre os outros poderes do império.

Poder Moderador

Imperador

Poder Legislativo Poder Executivo Poder Judiciário

Assembléia Geral Conselho de Estado Supremo Tribunal de Justiça

Presidentes de Províncias

Senado Câmara dos Deputados Conselho de Províncias

À época da independência, a conjuntura política brasileira apontava para duas


direções opostas: a direção americana, republicana, e a direção européia, monárquica. Do
lado americano, havia o exemplo admirado dos Estados Unidos; do lado europeu, havia a
tradição colonial portuguesa, as pressões da Santa Aliança e, sobretudo, a influência
mediadora da Inglaterra. Foi esta última que facilitou a solução conciliadora e forneceu o
modelo de monarquia constitucional, complementado pelas idéias do liberalismo francês
pós-revolucionário. O constitucionalismo exigia a presença de um governo representativo
baseado no voto dos cidadãos e na separação dos poderes políticos. A Constituição de 1824,
outorgada pelo imperador e não promulgada pelo Legislativo, regeu o país até o fim da
monarquia, combinando idéias de constituições européias, como a francesa de 1791 e a
espanhola de 1812, e estabeleceu três poderes tradicionais, o Executivo, o Legislativo
(dividido em Senado e Câmara) e o Judiciário. Como resíduo do absolutismo, criou ainda um
quarto poder, chamado Moderador, que era privativo do imperador. A principal atribuição
desse poder era a livre nomeação dos ministros de Estado, independentemente da opinião
do Legislativo.
glossário Constituição promulgada e outorgada: Uma Constituição promulgada é aquela em que o Congresso
Nacional discute e vota o texto com ampla participação da sociedade. A Constituição outorgada é a em que o chefe
do Executivo impõe seu texto à sociedade. É típica de regimes ditatoriais.

28
A Constituição regulou os direitos políticos e definiu quem teria direito de
votar e ser votado. Podiam votar todos os homens de 25 anos ou mais que
tivessem renda mínima de 100 mil réis.

As mulheres não votavam, e as pessoas escravizadas não eram


consideradas cidadãs. Os libertos podiam votar na eleição primária. O
limite caía para 21 anos no caso dos chefes de família, dos oficiais
militares, bacharéis, clérigos, empregados políticos, em geral de todos os
que tivessem independência econômica.

A eleição era indireta, feita em dois turnos. No primeiro, os votantes


escolhiam os eleitores, na proporção de um eleitor para cada cem
domicílios. Os eleitores, que deviam ter renda de 200 mil réis, elegiam os
deputados e senadores. Os senadores eram eleitos em lista tríplice da
qual o imperador escolhia o candidato de sua preferência. Os senadores
eram vitalícios, os deputados tinham mandato de quatro anos. Nos
municípios, os vereadores e juízes de paz eram eleitos pelos votantes em
um só turno. Os presidentes de província eram de nomeação do governo
central. Essa legislação permaneceu quase sem alteração até 1881.

Mais de 90% da população


vivia em áreas rurais, sob o
controle ou influência dos grandes proprietários.
Nas cidades, muitos votantes eram funcionários
públicos controlados pelo governo.

Em 1881, a Câmara dos Deputados aprovou lei que introduzia o voto direto,
eliminando o primeiro turno das eleições. Não haveria mais, daí em diante, votantes, haveria
apenas eleitores, com voto facultativo, excluídos os analfabetos.
A lei de fato limitou o voto ao excluir os analfabetos. Somente 15% da população era
alfabetizada, ou 20%, se considerarmos apenas a população masculina. De imediato, 80%
da população masculina era excluída do direito de voto.
Houve um corte de quase 90% do eleitorado. O mais grave é que o retrocesso foi
duradouro.

29
Rebeliões no
Período Imperial
Algumas rebeliões da Regência tiveram
caráter nitidamente popular. A primeira delas
deu-se em 1832, na fronteira das províncias de
Pernambuco e Alagoas. Chamou-se Revolta
dos Cabanos. Os cabanos eram pequenos
proprietários, índios, camponeses,
escravizados. Defendiam a Igreja Católica e
queriam a volta de D. Pedro I. Índios do Norte na Província do Grão-Pará

A revolta popular mais violenta e dramática foi a Cabanagem, na província do Pará,


iniciada em 1835. Os rebeldes eram na maioria índios, chamados “tapuios”, negros e
mestiços. A capital da província, Belém, foi tomada, e boa parte da população branca, cerca
de cinco mil pessoas, formada de comerciantes e proprietários brasileiros e portugueses,
refugiou-se, junto com o presidente, em navios de guerra estrangeiros. A província caiu nas
mãos dos rebeldes, que a proclamaram independente, sob o comando de um extraordinário
líder de 21 anos chamado Eduardo Angelim.
Outra revolta popular aconteceu em 1838, no Maranhão, perto da fronteira com o
Piauí, em região de pequenas propriedades. Ficou conhecida como Balaiada porque um dos
líderes era fabricante de balaios e o outro era vaqueiro. A ele se juntou um também um ex-
escravizado à frente de três mil escravizados fugidos das fazendas das regiões vizinhas.
Chegaram a reunir 11 mil homens e foram derrotados em 1840.

Balaiada
(fabricantes de balaios)

Deve-se mencionar ainda a revolta dos Malês de 1835, em Salvador.

glossário

A chamada Revolta dos Malês registrou-se


de 25 a 27 de janeiro de 1835, na cidade de
Salvador, capital da então Província da Bahia,
no Brasil.
Consistiu numa sublevação de caráter racial, de
escravos africanos das etnias hauçá e nagô, de
religião islâmica, organizados em torno de
propostas radicais para libertação dos demais
escravos africanos. O termo "malê" deriva do
iorubá "imale", designando o muçulmano.
Foi rápida e duramente reprimida pelos poderes
constituídos.
Fonte: wikipédia, pesquisa feita em 20 fev.2008.

Confronto entre as tropas da Guarda Nacional e negros.

30
Obras de Jean Baptiste Debret - Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil.

O Colar de Ferro Negro de Origem Muçulmana

As manifestações populares do Segundo Reinado tiveram natureza diferente. No


Primeiro Reinado e na Regência, elas se beneficiavam de conflitos entre facções da classe
dominante. Após 1848, os liberais e os conservadores abandonaram as armas e se
entenderam graças à alternância no governo promovida pelo Poder Moderador. O Estado
imperial consolidou-se. As revoltas populares ganharam, então, a característica de reação às
reformas introduzidas pelo governo. Assim, podemos citar algumas: em 1851 e 1852 houve
reação em várias províncias contra uma lei que introduzia o registro de nascimento e de
óbitos (o registro era feito pela Igreja) e mandava fazer o primeiro recenseamento nacional; a
lei do recrutamento militar de 1874 provocou reações que duraram até 1887.
Em Canudos, interior da Bahia, um líder carismático e
messiânico, Antônio Conselheiro, reuniu milhares de
sertanejos depois que a polícia o perseguiu por ter
destruído listas de novos impostos decretados após a
proclamação da República. Ele tentou criar uma
comunidade de fiéis onde as práticas religiosas tradicionais
seriam preservadas e onde todos poderiam viver
irmanados pela fé. Sua comunidade foi destruída a poder
de canhões, em nome da República e da modernidade.

A escravidão no Brasil: da diáspora africana à abolição


A herança colonial pesou mais na área dos direitos civis. O novo país herdou a
escravidão, que negava a condição humana dos escravizados, as grandes propriedades
rurais, fechadas à ação da lei, e um Estado comprometido com o poder privado. A Inglaterra
exigiu, como parte do preço do reconhecimento da independência, a assinatura de um
tratado que incluía a proibição do tráfico de pessoas escravizadas. O tratado foi ratificado
em 1827. Em obediência às suas exigências, foi votada em 1831 uma lei que considerava o
tráfico como pirataria. Mas a lei não teve efeito prático; foi desse episódio histórico que surgiu
a expressão, popular até hoje, “lei para inglês ver”. Tal ato não deve ser entendido como uma
ação humanitária da Inglaterra, um dos países que mais lucrou com o tráfico de pessoas
escravizadas. É importante lembrar que, nessa época, a Inglaterra estava passando por uma
revolução industrial- em grande parte financiada com o ouro das Minas Gerais. Buscava,
portanto, mercado consumidor para seus produtos manufaturados, daí seu interesse em
proibir o tráfico e acabar com o trabalho escravo.
glossário
Ratificado: confirmado, reafirmado

31
Calcula-se que, desde o início do tráfico até sua efetiva proibição em 1850, tenham
entrado no Brasil quatro milhões de escravizados. Sua distribuição era desigual. De início,
nos séculos XVI e XVII, concentravam-se na região produtora de açúcar, sobretudo
Pernambuco e Bahia. No século XVIII, um grande número foi levado para a região de
exploração do ouro, em Minas Gerais. A partir da segunda década do século XIX,
concentraram-se na região do café, que incluía Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo.
Por iniciativa do imperador, com o apoio da imprensa e a ferrenha resistência dos
fazendeiros, o gabinete chefiado pelo visconde do Rio Branco conseguiu fazer aprovar, em
1871, a lei que libertava os filhos de escravizados nascidos daí em diante. Apesar da
oposição dos escravizadores, a lei era pouco radical. Permitia aos donos dos “ingênuos”, isto
é, dos que nascessem livres, beneficiar-se de seu trabalho gratuito até 21 anos de idade.
A abolição definitiva só começou a ser discutida no Parlamento em 1884. O Brasil era o
último país de tradição cristã e ocidental a libertar as pessoas escravizadas.

Comemoração da Abolição

No Brasil, aos libertos não foram dadas nem escolas, nem terras, nem empregos.
Passada a euforia da libertação, muitos ex–escravizados regressaram às suas fazendas ou a
fazendas vizinhas para retomar o trabalho por baixo salário. Onde havia dinamismo
econômico provocado pela expansão do café, como em São Paulo, os novos empregos,
tanto na agricultura como na indústria, foram ocupados pelos milhares de imigrantes,
sobretudo italianos, que o governo atraía para o país. Lá, os ex-escravizados foram expulsos
ou relegados aos trabalhos mais pesados e mal pagos.
Os primeiros anos do pós-abolição, somados à política de branqueamento e à criação
do mito da democracia racial, a partir da década de 1930, trouxeram conseqüências
duradouras para a população negra. Até hoje essa população ocupa posições inferiores nos
índices e indicadores sociais, daí a reivindicação dos movimentos sociais, em especial do
Movimento Negro, de políticas públicas afirmativas. Um exemplo disso são as políticas de
cotas.
A população negra teve de enfrentar sozinha o desafio da ascensão social e
freqüentemente precisou fazê-lo por rotas originais, como o esporte, a música e a dança. Mas
não foram apenas estas as contribuições legadas pelo povo negro ao país. Os afro-
brasileiros marcaram presença, por exemplo, na literatura, com Machado de Assis e Lima
Barreto; nas ciências, com os irmãos Rebouças, entre outros5.
5
Para desenvolver no campo da educação um trabalho que valorize a cultura de matriz africana, recomenda-se atenção
às Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino da História e Cultura
Afro-brasileira e Africana (2004). Trabalho interessante a respeito pode ser encontrado, entre outros, no site a cor da
cultura (http://www.acordacultura.org.br/).

32
A famosa revolta da marinha, nos primeiros anos da República, conhecida também
como Revolta da Chibata, foi liderada por um negro, João Cândido, cuja luta ficou eternizada
nos versos de João Bosco e Aldir Blanc, que, em seu maravilhoso refrão, diz:

Glória a todas as lutas inglórias


Que através da nossa história
Não esquecemos jamais.
Salve o Navegante Negro
Que tem por monumento
As pedras pisadas do cais.

3.1.3 A Primeira República (1889 – 1930)

A proclamação da República, em 1889, não alterou o quadro político do Brasil. O


historiador Murilo de Carvalho (1987), em relação à proclamação da República, disse que o
povo assistiu a tudo bestializado, julgando se tratar de uma parada militar, ou seja, não houve
participação popular nesse processo.
A Constituição republicana de 1891 eliminou apenas a exigência da renda de 200 mil
réis, que não era muito alta. A principal barreira ao voto, a exclusão dos analfabetos, foi
mantida. Continuavam também a não votar as mulheres, os mendigos, os soldados, os
membros das ordens religiosas.
Do ponto de vista da representação política, a Primeira República (1889-1930) não
significou grande mudança.
Ela introduziu a federação de acordo com o modelo dos Estados Unidos. A
descentralização facilitou a formação de sólidas oligarquias estaduais.
glossário
Oligarquias: governo em que a autoridade é exercida por algumas pessoas ou famílias poderosas.

A Primeira República ficou conhecida como “República dos Coronéis”. Quando a


Guarda perdeu sua natureza militar, restou-lhe o poder político de seus chefes. Coronel
passou, então, a indicar simplesmente o chefe político local. O coronelismo era a aliança
desses chefes com os presidentes dos estados e
desses com o presidente da República. Nesse paraíso
das oligarquias, as práticas eleitorais fraudulentas não
podiam desaparecer.
Os eleitores continuaram sendo coagidos,
comprados, enganados ou simplesmente excluídos
pelos grandes proprietários, elite formada pelos
oficiais da Guarda Nacional, os chefes de polícia e
seus delegados, os juízes, os presidentes das
províncias ou estados, os chefes dos partidos
nacionais ou estaduais.
Primeira República
A Câmara Federal reconhecia como deputados
os que apoiassem o governador e o presidente da República, e tachava os demais
pretendentes de ilegítimos.
Até mesmo os membros mais esclarecidos da elite política nacional, bons
conhecedores das teorias do governo representativo, quando se tratava de fazer política,
recorriam aos métodos fraudulentos ou eram coniventes com os que os praticavam.
33
Pode-se concluir, então, que até 1930 não havia povo organizado politicamente nem
sentimento nacional consolidado. A participação na política nacional, inclusive nos grandes
acontecimentos, era limitada a pequenos grupos. A grande maioria do povo tinha com o
governo uma relação de distância, de suspeita, quando não de aberto antagonismo. Quando
o povo agia politicamente, em geral o fazia como reação ao que considerava arbítrio das
autoridades.
Mas, apesar de todas as leis que restringiam o direito do voto e de todas as práticas
que deturpavam o voto dado, não houve no Brasil, até 1930, movimentos populares exigindo
maior participação eleitoral. A exceção foi o movimento pelo voto feminino. O voto feminino
acabou sendo introduzido após a revolução de 1930, embora não constasse do programa
dos revolucionários.

Homenagem a mulheres
brasileiras:
Selos comemorativos

- Elis Regina
- Clementina de Jesus
- Dulcina de Morais
- Clarice Lispector

e as aviadoras

- Thereza de Marzo
- Anésia Pinheiro e
- Ada Rogado

http://www.usp.br/espacoaberto/arquivo/2002/espaco25nov/0varia.htm

“O sufragismo, movimento pelo direito das


mulheres ao voto, afirma-se no mundo desde meados
do século XIX, a partir da Inglaterra e dos EUA. É fruto
da Revolução Industrial e do ingresso maciço da mão-
de-obra feminina no mercado de trabalho”. (ATLAS
HISTÓRICO. Isto é Brasil 500 anos, 1998).
No Brasil, o voto feminino foi instituído em 1932.
Apesar dessa conquista e do fortalecimento do
movimento feminista na década de 1960,
principalmente fora do país, nossa sociedade, fundada
no patriarcalismo, continua marcada por
representações e práticas preconceituosas em relação
às mulheres.
Mesmo no plano jurídico, as restrições aos
direitos da mulher ainda levaram décadas para serem
revogadas. Com efeito, as mulheres continuaram com
os seus direitos civis bastante limitados, pois o homem
permanecia como cabeça do casal. Entre 1962 e 1988
vigorou o Estatuto da Mulher Casada, que mantinha a condição do marido de chefe da
sociedade conjugal, com poderes de representação da família, de administração dos bens,
de fixação do domicílio conjugal e a obrigação de prover os meios materiais para a
manutenção da família. Somente com o advento da Constituição de 1988, ao estabelecer, no
art. 226, § 5º, que "Os direitos e deveres referentes à sociedade conjugal são exercidos
igualmente pelo homem e pela mulher", foi que ocorreu a plena equiparação dos direitos
civis, com a extinção da figura do cabeça do casal.
34
Outro marco importante na defesa dos direitos da mulher foi a edição da Lei Maria da
Penha - LEI Nº 11.340, DE 7 DE AGOSTO DE 2006, que criou mecanismos para coibir a
o
violência doméstica e familiar contra a mulher, nos termos do § 8 do art. 226 da Constituição
Federal, da Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as
Mulheres e da Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra
a Mulher.

O nome da lei é uma homenagem a Maria da Penha Maia, que foi agredida pelo
marido durante seis anos. Em 1983, por duas vezes, ele tentou assassiná-la. Na
primeira, com arma de fogo, deixando-a paraplégica e, na segunda, por
eletrocução e afogamento. O marido de Maria da Penha só foi punido depois de
19 anos de julgamento e ficou apenas dois anos em regime fechado.
A lei altera o Código Penal brasileiro e possibilita que agressores de mulheres
no âmbito doméstico ou familiar sejam presos em flagrante ou tenham sua
prisão preventiva decretada. Esses agressores também não poderão mais ser
punidos com penas alternativas, a legislação também aumenta o tempo
máximo de detenção previsto de um para três anos. A nova lei ainda prevê
medidas que vão desde a saída do agressor do domicílio à proibição de sua
aproximação da mulher agredida e filhos.

Até 1930, o Brasil ainda era um país predominantemente agrícola. Segundo o censo
de 1920, apenas 16,6% da população vivia em cidades de 20 mil habitantes ou mais (não
houve censo em 1930), e 70% se ocupava em atividades agrícolas.
Na sociedade rural, dominavam os grandes proprietários, que antes de 1888 eram
também, na grande maioria, proprietários de pessoas escravizadas. Eram eles,
freqüentemente em aliança com comerciantes urbanos, que sustentavam a política do
coronelismo, que impedia a participação política dos ex-escravizados, que negava os seus
direitos civis. Nas fazendas, imperava a lei do coronel, criada por ele, executada por ele.
Quando o Estado dava seu apoio político ao governador, havia a troca de indicações de
autoridades, como o delegado de polícia, o juiz, o coletor de impostos, o agente do correio, a
professora primária. A justiça privada ou controlada por agentes privados é a negação da
justiça.
No período entre 1884 e 1920, entraram no Brasil cerca de três milhões de imigrantes.
Desses, 1,8 milhão foram para São Paulo.

Imigração italiana no Brasil

A assistência social estava quase exclusivamente nas mãos de associações particulares.


35
O governo pouco cogitava de legislação trabalhista e de proteção ao trabalhador.
Houve retrocesso na legislação: a Constituição republicana de 1891 retirou do Estado a
obrigação de fornecer educação primária, constante da Constituição de 1824. Predominava
então um liberalismo ortodoxo, já superado em outros países. Não cabia ao Estado
promover a assistência social. A Constituição republicana proibia ao governo federal interferir
na regulamentação do trabalho. Tal interferência era considerada violação da liberdade do
exercício profissional.
glossário Liberalismo ortodoxo: liberalismo tradicional, com defesa intransigente da liberdade individual e contra a
ingerência do poder estatal.

Logo no início da República, em 1891, foi regulado o trabalho de menores na capital


federal (Rio de Janeiro). Em 1927 voltou-se ao assunto com a aprovação do Código dos
Menores.
Surpreendentemente, o reconhecimento dos sindicatos rurais, em 1903, precedeu o
dos sindicatos urbanos, em 1907. O fato se explica pela presença de trabalhadores
estrangeiros na cafeicultura. Vale lembrar que alguns estrangeiros, especialmente
anarquistas que lutavam pelas causas operárias nos centros urbanos, foram expulsos do
país neste período. As representações diplomáticas de seus países de origem estavam
sempre atentas ao tratamento que lhes era dado pelos fazendeiros e protestavam contra os
arbítrios cometidos.
Só em 1926, quando a Constituição sofreu sua primeira reforma, é que o governo
federal foi autorizado a legislar sobre o trabalho.
Durante a Primeira República, a presença do governo nas relações entre patrões e
empregados se dava por meio da ingerência da polícia.
A fermentação oposicionista começou a ganhar força na década de 1920 com os
operários. Em 1922 e 1924 houve revolta dos jovens oficiais no Rio de Janeiro e São Paulo,
respectivamente. Em São Paulo eles controlaram a capital por alguns dias, abandonaram a
cidade e juntaram-se a outros militares rebeldes do sul do país e formaram a coluna que
percorreu milhares de quilômetros sob perseguição dos soldados legalistas, até internar-se
na Bolívia em 1927, sem ter sido derrotada. A coluna ganhou o nome dos seus dois
comandantes iniciais, o coronel Miguel Costa, da Polícia Militar de São Paulo, que
abandonou a luta, e o capitão Luís Carlos Prestes, do Exército.

Obopuru
Obra de
Tarsila do Amaral
Semana de
Arte Moderna

O movimento de 1922 pretendia recuperar a influência perdida pelos militares no


governo republicano, em que as oligarquias passaram a exercer maior influência. O fermento
oposicionista manifestou-se também no campo cultural e intelectual. No ano de 1922, foi
organizada em São Paulo a Semana de Arte Moderna.
36
A década de 1920 terminou presenciando uma das poucas campanhas eleitorais da
Primeira República em que houve autêntica competição. O candidato oficial à presidência,
Júlio Prestes, paulista como o presidente que estava no poder, representava a continuidade
administrativa. O candidato da oposição, Getúlio Vargas, à frente da Aliança Liberal,
introduziu temas novos em sua plataforma política. Falava em mudanças no sistema
eleitoral, em voto secreto, em representação proporcional, em combate às fraudes eleitorais;
falava em reformas sociais, como a jornada de trabalho de oito horas, férias, salário mínimo,
proteção ao trabalho das mulheres e menores de idade.

Júlio Prestes João Pessoa

A Aliança Liberal ameaçava ainda o sistema por ter colocado em campos opostos as
duas principais forças políticas da República, os estados de São Paulo e Minas Gerais. Os
dois estados alternavam-se na presidência, era a denominada Política do café-com-leite. Em
1930, o acordo foi quebrado quando São Paulo insistiu em um candidato paulista para
substituir um presidente também paulista. Rompido o acordo, os conflitos latentes, dentro e
fora das oligarquias, encontraram campo fértil para se manifestar.
A elite política mineira, frustrada em suas ambições, aliou-se à elite gaúcha, sempre
insatisfeita com o domínio de paulistas e mineiros. As duas juntaram-se à elite da Paraíba.
A eleição, como de costume, foi fraudada, e o governo, também como de costume,
declarou-se vencedor. As coisas pareciam caminhar para a retomada da pax oligárquica,
quando então o governador da Paraíba, João Pessoa, foi morto por um inimigo político local.
Sua morte forneceu o pretexto para que os elementos mais radicais da Aliança Liberal
retomassem a luta, desta vez com propósito abertamente revolucionário.
Sem grandes batalhas, caiu a Primeira República, aos 41 anos de vida, e Getúlio
Vargas assumiu o poder.

3.1.4 Da Revolução de 1930 ao golpe militar de 1964

Em 3 de outubro de 1930, o presidente da República, Washington Luís foi deposto por


um movimento armado dirigido por civis e militares de três estados da federação, Minas
Gerais, Rio Grande do Sul e Paraíba, episódio que passou para a história como “A Revolução
de 1930”, embora tenha havido, e ainda haja, muita discussão sobre se seria adequado usar
a palavra revolução para descrever o que aconteceu.
Mas foi sem dúvida o acontecimento mais marcante da história política do Brasil desde
a independência. É importante, então, discutir suas causas e seu significado. A Primeira
República caracterizava-se pelo governo das oligarquias regionais, as mais fortes eram as de
São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Fatos internos e externos começaram a abalar
esse acordo oligárquico. Entre os externos, devem-se mencionar a Grande Guerra, a
Revolução Russa e a quebra da Bolsa de Nova York em 1929.
glossário
Oligárquico: grupo de algumas pessoas poderosas que dominam uma parte dos
interesses do país.
37
A guerra causou impactos econômicos e políticos. O preço do café, principal produto
de exportação, sofreu grande queda, reduzindo-se, em conseqüência, a capacidade de
importar. Maior produtor de café, o estado de São Paulo foi particularmente penalizado. O
governo desenvolvera amplo programa de defesa do preço do café. Como conseqüência,
grandes safras foram produzidas nos últimos anos da década de 1920. A superprodução
coincidiu com a crise e com a Grande Depressão que a seguiu, e os preços do café
despencaram.

Washington Luiz Getúlio Vargas

O ano de 1930 foi um divisor de águas na história do país. A mudança mais espetacular
verificou-se no avanço dos direitos sociais. Uma das primeiras medidas do governo
revolucionário foi criar um Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio. A seguir, veio vasta
legislação trabalhista e previdenciária, completada em 1943 com a Consolidação das Leis do
Trabalho.
Os direitos políticos tiveram evolução mais complexa. O país entrou em fase de
instabilidade, alternando-se ditaduras e regimes democráticos. A fase propriamente
revolucionária durou até 1934, quando a Assembléia Constituinte votou nova Constituição e
elegeu Vargas presidente. Em 1937, o golpe de Vargas, apoiado pelos militares, inaugurou
um período ditatorial que durou até 1945. O voto popular começou a ter peso importante por
sua crescente extensão e pela também crescente lisura do processo eleitoral. A experiência
terminou em 1964, quando os militares intervieram mais uma vez e implantaram nova
ditadura.

Os direitos civis
progrediram lentamente.

Não deixaram de figurar nas três Constituições do período, inclusive na ditatorial de


1937. Mas sua garantia na vida real continuou precária para a grande maioria dos cidadãos.
Durante a ditadura, muitos deles foram suspensos, sobretudo a liberdade de expressão do
pensamento e de organização. O regime ditatorial promoveu a organização sindical, mas o
fez dentro de um arcabouço corporativo, em estreita vinculação com o Estado. Os
movimentos sociais independentes avançaram lentamente a partir de 1945. O acesso da
população ao sistema judiciário progrediu pouco.
Houve progresso na formação de uma identidade nacional, na medida em que
surgiram momentos de real participação popular. Foi o caso do próprio movimento de 1930 e
das campanhas nacionalistas da década de 1950, sobretudo a da defesa do monopólio
estatal do petróleo. O nacionalismo, incentivado pelo Estado Novo, foi o principal instrumento
de promoção de uma solidariedade nacional, acima das lealdades estaduais.

38
Entre 1930 e 1937, o Brasil viveu uma fase de grande agitação política. A Era Vargas
superou a República Velha pela amplitude e pelo grau de organização dos movimentos
políticos. Quanto à amplitude, a mobilização atingiu vários estados da Federação, além da
capital da República; envolveu vários grupos sociais: operários, classe média, militares,
oligarquias, industriais. Quanto à organização, multiplicaram-se os sindicatos e outras
associações de classe; surgiram vários partidos políticos; e pela primeira vez foram criados
movimentos políticos de massa de âmbito nacional.

<http://pt.wikipedia.org/wiki/Revolu%C3%A7%C3%A3o_Constitucionalista_de_1932>.

As elites paulistas uniram-se e revoltaram-se contra o governo federal em 1932,


exigindo uma nova Constituição para o país. A revolta paulista, chamada Revolução
Constitucionalista, durou três meses e foi a mais importante guerra civil brasileira do século
XX.
Os paulistas perderam a guerra no campo de batalha, mas a ganharam no campo da
política. O governo federal concordou em convocar eleições para a assembléia constituinte
que deveria eleger também o presidente da República. As eleições se deram em 1933, sob
novas regras eleitorais que representavam já grande progresso em relação à Primeira
República. Para reduzir as fraudes, foi introduzido o voto secreto e criada uma justiça
eleitoral. O voto secreto protegia o eleitor das pressões dos caciques políticos; a justiça
eleitoral colocava nas mãos de juízes profissionais a fiscalização do alistamento, da votação,
da apuração dos votos e o reconhecimento dos eleitos. O voto secreto e a justiça eleitoral
foram conquistas democráticas. Houve também avanços na cidadania política. Pela primeira
vez, as mulheres ganharam o direito ao voto.
A Constituinte confirmou Getúlio Vargas na presidência e elaborou uma Constituição,
inspirada na de Weimar, da Alemanha, em que pela primeira vez constava um capítulo sobre
a ordem econômica e social.
glossário
Constituição de Weimar: Data de 1919. Foi instituidora da primeira república alemã, elaborada e votada na
cidade de Weimar, na Saxônia; texto constitucional equilibrado e prudentemente inovador.

O golpe e o estabelecimento do Estado Novo vieram em 1937. O primeiro movimento


foi a deposição do governador do Rio Grande do Sul, Flores da Cunha, ex-aliado de Vargas.
Finalmente, um documento forjado por oficiais integralistas foi usado como pretexto final para
fechar o Congresso e decretar nova Constituição. O documento, batizado de “Plano Cohen”,
descrevia um pretenso plano comunista para derrubar o governo. Para causar mais impacto,
o plano previa o assassinato de vários políticos
O nacionalismo econômico do Estado Novo só fez crescer com o passar do tempo.
Seus cavalos de batalha foram a siderurgia e o petróleo. Vargas negociou com os
Estados Unidos a entrada do Brasil na guerra em troca de apoio para construir uma grande
siderúrgica estatal.
39
A oposição ao Estado Novo só ganhou força por efeito das mudanças externas
trazidas com o final da Segunda Guerra Mundial. De 1937 a 1945 o país viveu sob um regime
ditatorial civil, garantido pelas forças armadas, em que as manifestações políticas eram
proibidas, o governo legislava por decreto, a censura controlava a imprensa, os cárceres se
enchiam de inimigos do regime.
Desde o primeiro momento, a liderança que chegou ao poder em 1930 dedicou grande
atenção ao problema trabalhista e social. Vasta legislação foi promulgada, culminando na
Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), de 1943.

A Constituição de 1934 consagrou a competência do governo para regular as relações


de trabalho, confirmou a jornada de oito horas e determinou a criação de um salário mínimo
capaz de atender às necessidades da vida de um trabalhador chefe de família.

O salário mínimo foi adotado em 1940.

A Constituição criou também a Justiça do Trabalho, que entrou em pleno


funcionamento em 1941. Em 1943, veio a Consolidação das Leis do Trabalho.
Na área da previdência, os grandes avanços se deram a partir de 1933. No entanto há
controvérsias, alguns historiadores e cientistas políticos defendem a idéia de que nesse
período o Estado passou a tutelar os sindicatos.
Apesar de tudo, porém, não se pode negar que o período de 1930 a 1945 foi a era dos
direitos sociais. Nele foi implantado o grosso da legislação trabalhista e previdenciária. O que
veio depois foi aperfeiçoamento, racionalização e extensão da legislação a número maior de
trabalhadores. Foi também a era da organização sindical, só modificada em parte após a
segunda democratização, de 1985.
Vargas foi, afinal, derrubado por seus próprios ministros militares em 1945. Após a
derrubada de Vargas, foram convocadas eleições presidenciais e legislativas para dezembro
de 1945. As eleições legislativas destinavam-se a escolher uma assembléia constituinte, a
terceira desde a fundação da República. O presidente eleito, general Eurico Gaspar Dutra,
tomou posse em janeiro de 1946.

40
Capa do Jornal Folha Carioca, 1946.
<www.senado.gov.br/comunica/historia/cajor.htm>

A Constituição de 1946 manteve as conquistas sociais do período anterior e garantiu


os tradicionais direitos civis e políticos. Até 1964, houve liberdade de imprensa e de
organização política.
Ao candidatar-se à eleição presidencial de 1950, o ex-ditador não teve dificuldade em
eleger-se, conquistando quase 49% dos votos, contra apenas 30% do competidor mais
próximo. Seu segundo governo foi o exemplo mais típico do populismo no Brasil e consolidou
sua imagem de “pai dos pobres”. O populismo não foi um fenômeno exclusivo do Brasil. Na
América Latina, podemos citar o exemplo da Argentina, de Juan Domingo Perón, e do
México, de Lázaro Cárdenas.
O populismo era um fenômeno urbano e refletia esse novo Brasil que surgia, ainda
inseguro, mas distinto do Brasil rural da Primeira República, que dominara a vida social e
política até 1930.
A outorga dos direitos sociais fazia com que esses direitos não fossem vistos como
tais, como independentes da ação do governo, mas como um favor em troca do qual se
deviam gratidão e lealdade. A cidadania que daí resultava era passiva e receptora antes que
ativa e reivindicadora.
A eleição de Vargas a presidente pelo voto popular, em 1950, representou um grande
desapontamento para seus inimigos, que tentaram utilizar meios legais e manobras políticas
para impedir sua posse. Seu segundo governo foi marcado por radicalização populista e
nacionalista. O ministro do Trabalho, João Goulart, agia em acordo com os dirigentes
sindicais, pelegos ou não. Pelo lado nacionalista, destacou-se a luta pelo monopólio estatal
de exploração e refino do petróleo, corporificada na criação da Petrobrás, em 1953. Essa
política provocou a reação dos conservadores. Vocalizando essa reação, parcela dos
comandantes militares passou a exigir a renúncia do presidente.

glossário Pelego: é um termo depreciativo, utilizado no jargão do movimento sindical para se referir aos líderes ou
representantes de um sindicato que, em vez de lutar pelo interesse dos trabalhadores, defende secretamente os
interesses do empregador.

Dez anos mais tarde, esse mesmo comando militar conservador e golpista, com o
apoio de setores políticos entreguistas, submissos ao imperialismo americano, precipitaria o
movimento armado de 1º de abril de 1964, inaugurando a longa noite da democracia que
durou 21 anos e cujas seqüelas deixaram marcas profundas na sociedade brasileira que
perduram até os nossos dias.
Vargas preferiu matar-se a ceder ou a lutar. Deu um tiro no coração no dia 24 de
agosto de 1954, em seu quarto de dormir no Palácio do Catete, deixando uma carta-
testamento de forte conteúdo nacionalista e populista.
41
O próximo presidente eleito foi Juscelino Kubitscheck, cujo governo foi

Eurico Gaspar Dutra


marcado pela fundação de Brasília, por grande desenvolvimento econômico, e
no qual o salário mínimo real atingiu seus índices mais altos até hoje. No
entanto, ocorreu também um aumento da inflação em seu período de governo.
Seu sucessor, Jânio Quadros, foi eleito em 1960 com 48,3% dos votos.
O governo de Jânio Quadros foi curto. Ele tomou posse em janeiro de
1961 e renunciou em agosto desse mesmo ano, alegando impossibilidade de
governar. Em verdade, seu objetivo era dar um golpe e tornar-se ditador, mas
João Goulart

como sua renúncia foi imediatamente aceita pelo Congresso, seu plano
golpista desmoronou. Os ministros militares declararam não aceitar a posse
do vice-presidente, Goulart, instalando-se uma crise política. Renovou-se a
disputa que dividia políticos e militares desde o governo Vargas.
Juscelino Kubitschek

A posse de Goulart só ocorreu após um ato adicional instituindo no Brasil


o parlamentarismo, segundo o qual o presidente só seria chefe de Estado,
ficando a chefia de governo a cargo de um primeiro-ministro eleito pelo
Congresso Nacional.
Desde o primeiro momento, Goulart e as forças que o apoiavam
buscaram reverter a situação e restaurar o presidencialismo. Depois de uma
série de primeiros-ministros que não conseguiram governar, o Congresso
Jânio Quadros

marcou um plebiscito para janeiro de 1963 para decidir sobre o sistema de


governo. Como era de esperar, por nossa tradição política, o presidencialismo
venceu por grande maioria e Goulart assumiu os plenos poderes de um
presidente.

Em 1963, o governo promulgou o Estatuto do Trabalhador Rural, que


pela primeira vez estendia ao campo a legislação social e sindical. O
impacto maior do estatuto foi sobre o processo de formação de
sindicatos rurais, tornado agora muito mais simples e
desburocratizado. Em 1964, a Confederação dos Trabalhadores na
Agricultura (Contag), formada nesse ano, já contava com 26 federações
e 263 sindicatos reconhecidos pelo Ministério.

No Rio de Janeiro, em 13 de março


de 1964, foi realizado grande comício em
frente à Central do Brasil com 150 mil
pessoas. O Presidente, além do seu
discurso, assinou dois decretos: um deles
nacionalizando uma refinaria de petróleo,
o outro desapropriando terras às margens
de ferrovias e rodovias federais e de
barragens de irrigação. O decreto mais
explosivo era o de desapropriação de
terras. A maior dificuldade legal à reforma
agrária estava na Constituição, que exigia
pagamento em dinheiro das terras
desapropriadas. O pagamento em
dinheiro elevava muito os custos da
reforma, e o Congresso recusava-se a
O comício da Central do Brasil em 13 março de 1964.
<http://paginas.terra.com.br/arte/sarmentocampos/RedeLegalidade.htm>.
emendar a Constituição nesse item.

42
A partir desse comício do dia 13, os acontecimentos se precipitaram. No dia 19 de
março, um comício foi organizado em São Paulo em protesto contra o comício realizado no
Rio de Janeiro. Calculado em 500 mil pessoas, foi promovido por organizações religiosas,
sob inspiração de um padre norte-americano e financiado por homens de negócio paulistas,
centrou sua retórica no perigo comunista que se alegava vir do governo federal. Outros
comícios semelhantes foram planejados para outras capitais sob o lema “Marcha da Família
com Deus pela Liberdade”. É importante lembrar que o contexto mundial deste período
estava marcado pela denominada “Guerra Fria”, isto é, pela bipolaridade mundial
representada pelos EUA (capitalista) X URSS (socialista).
Como a tensão crescia, os militares se aproveitaram para intervir dando um golpe de
Estado e implantando o regime militar. Tal fato iniciou, na história de nosso país, a
denominada “Ditadura Militar”, período de restrição de direitos civis, especialmente políticos,
além da liberdade de imprensa.

3.1.5 O Regime Militar

No início dos anos 1960 era premente o anúncio de uma nova ordem social e
econômica na América Latina. Enquanto a nossa burguesia levantava bandeiras
nacionalistas como a grande via de superação do subdesenvolvimento, os movimentos
sociais no Brasil empenhavam-se em instituir o Estado de Bem-Estar Social e a democracia
participativa, sedimentando uma nova cultura política imune ao patrimonialismo,
mandonismo, paternalismo, clientelismo e fisiologismo. Ou seja, enquanto as elites
brasileiras propugnavam a inserção do Brasil na ciranda financeira do capital internacional,
como remédio para o atraso, os movimentos sociais condicionavam o nosso
desenvolvimento à ruptura progressiva com o sistema capitalista, pavimentando a via para o
socialismo. De um lado, desenvolvimento com segurança para o capital; de outro,
desenvolvimento com ruptura da ordem capitalista. Nas palavras de Florestan Fernandes:

o movimento popular deveria manter sua


autonomia para, assim, impulsionar o
processo revolucionário, transformando a
etapa democrática em revolução socialista
(Florestan, apud Celso Frederico in FERREIRA, 2001, p. 102).

Florestan Fernandes

Esse conflito de projetos produziu uma saudável efervescência de idéias,


propulsionando nossa intelectualidade aos debates públicos, comprometidos na construção
de um futuro com democracia, soberania e bem estar para os brasileiros. No entanto, essa
arena democrática e republicana foi barbaramente interrompida pelo golpe militar de 1964,
que solapou as liberdades constitucionais e levou aos seus porões e calabouços intelectuais,
professores, universitários, trabalhadores, camponeses, padres, freiras para serem
torturados, assassinados ou expulsos do país. Como anota o sociólogo Delson Ferreira:
(...) o recurso ao autoritarismo militar foi voltado para dar seguimento ao
processo de modernização capitalista que, a partir daquele momento,
devia ser implementado sob qualquer custo.
43
O populismo havia esgotado, na visão dos mentores políticos, militares e
empresariais do golpe, suas possibilidades de encaminhar tal
modernização. Para essa concepção, desenvolvimento e insegurança
eram incompatíveis; daí a imposição do novo lema ao país, que vinha
sendo elaborado pela Escola Superior de Guerra desde 1949,
desenvolvimento e segurança (FERREIRA, op. cit., p. 104).

Os governos militares podem ser divididos em três fases.


- A primeira vai de 1964 a 1968 e corresponde ao governo do general Castelo Branco e
primeiro ano de governo do general Costa e Silva. No último ano, 1968, a economia
retomou os altos índices de crescimento da década de 1950.

- A segunda fase vai de 1968 a 1974 e compreende os anos mais sombrios da


história do país, do ponto de vista dos direitos civis e políticos. Foi o domínio dos
militares mais truculentos, reunidos em torno do general Garrastazu Médici.

Ainda em 1968 foi decretado o Ato Institucional Número Cinco, que:


- fechou o Congresso Nacional por quase um ano;
- cassou o mandato de senadores, deputados, governadores e prefeitos;
- interveio no poder judiciário demitindo juízes e ministros do Supremo Tribunal
Federal;
- decretou estado de sítio;
- recrudesceu a censura aos meios artísticos e à mídia; entre outros tolhimentos
aos direitos individuais e coletivos da sociedade.

A terceira fase começa em 1974, com a posse do


general Ernesto Geisel, continua com o general João
Batista de Oliveira Figueiredo em 1979 e termina em
1985, com a eleição indireta de Tancredo Neves.

Apesar da tragédia da morte de


Tancredo Neves, a retomada da
supremacia civil em 1985 se fez de
maneira razoavelmente ordenada e,
até agora, sem retrocessos.

www.colegiosaofrancisco.com.br
44
A Constituinte de 1988 redigiu e
aprovou a Constituição mais
liberal e democrática que o país
já teve, merecendo por isso o
nome de Constituição Cidadã.
<www.klickeducacao.com.br>

A Constituição de 1988 eliminou o grande obstáculo ainda existente à universalidade


do voto, tornando-o facultativo aos analfabetos e aos adolescentes entre 16 e 18 anos. Além
disso, esta Constituição estabelece os direitos e garantias fundamentais, bem como o
respeito à diversidade, como, por exemplo, ao estatuir em seu art. 3º: “Constituem objetivos
fundamentais da República Federativa do Brasil: (...) IV - promover o bem de todos, sem
preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”.
Em 1989, houve a primeira eleição direta para presidente da República desde 1960.
Duas outras eleições presidenciais se seguiram em clima de normalidade, precedidas de um
inédito processo de impedimento do primeiro presidente eleito.
A demonstração da construção permanente da democracia pode ser observada nos
mais diversos sentidos, constituindo-se em claro exemplo o surgimento
do Movimento dos Sem-Terra (MST). De alcance nacional, o MST
representa a incorporação à vida política de parcela importante da
população, tradicionalmente excluída pela força do latifúndio.
A partir do terceiro ano do governo Sarney o desencanto começou a
crescer, pois ficara claro que a democratização não resolveria
automaticamente os problemas do dia-a-dia que mais afligiam o grosso
da população.

José Sarney Fernando Collor de Melo Fernando Henrique Cardoso

Fernando Collor, embora vinculado às elites políticas mais tradicionais do país,


apresentou-se como messias salvador desvinculado dos vícios dos velhos políticos. Venceu
o primeiro turno das eleições, derrotando políticos experimentados e de passado inatacável,
como o líder do PMDB, Ulisses Guimarães, e o líder do PSDB, Mário Covas. No segundo
turno, derrotou o candidato do PT, o também carismático Luís Inácio Lula da Silva. Mesmo
depois da posse do novo presidente, seu partido tinha 5% das cadeiras na Câmara dos
Deputados.
Humilhada e ofendida pelos atos de corrupção praticados, a população que fora às
ruas oito anos antes para pedir as eleições diretas repetiu a jornada para pedir o impedimento
do primeiro presidente eleito pelo voto direto. O Congresso abriu o processo de impedimento
que resultou no afastamento do presidente, dois anos e meio depois da posse, e em sua
substituição pelo vice-presidente, Itamar Franco.
45
As duas eleições presidenciais seguintes também foram realizadas em clima de
normalidade. Na primeira, em 1994, foi eleito em primeiro turno o sociólogo Fernando
Henrique Cardoso. Seu grande mérito foi a criação do Plano Real, que conseguiu reduzir
sensivelmente a inflação. No entanto, o plano teve como âncoras o câmbio supervalorizado,
a abertura comercial e a elevação substancial das taxas de juros, que trouxeram como
resultado a desnacionalização do parque industrial, redução da atividade econômica e
elevação significativa do desemprego. Durante seu mandato, o Congresso, sob intensa
pressão do Executivo, aprovou a reeleição, que veio a beneficiar o presidente na eleição de
1998, ganha por ele também no primeiro turno.
A escandalosa desigualdade que concentra nas mãos de poucos a riqueza nacional
tem como conseqüência níveis dolorosos de pobreza e miséria. Tomando-se a renda de 70
dólares – que a Organização Mundial da Saúde (OMS) considera ser o mínimo necessário
para a sobrevivência – como a linha divisória da pobreza, o Brasil tinha, em 1997, 54% de
pobres. A porcentagem correspondia a 85 milhões de pessoas, numa população total de 160
milhões. No Nordeste, a porcentagem subia para 80%. A persistência da desigualdade é
apenas em parte explicada pelo baixo crescimento econômico do país nos últimos 20 anos do
século XX. Mesmo durante o período de alto crescimento da década de 1970 ela não se
reduziu.
Crescendo ou não, o país permanece desigual. O efeito positivo sobre a distribuição
de renda trazida pelo fim da inflação alta foi passageiro. A crise cambial de 1999 e a
conseqüente redução do índice de crescimento econômico eliminaram as vantagens
conseguidas no início.
Nessa conjuntura de grande concentração de renda e elevado nível de desemprego, o
líder sindical Lula vence as eleições de 2002. O governo de Luiz Inácio Lula da Silva
compreende um primeiro mandato, que vai de 1º de
janeiro de 2003 a 31 de dezembro de 2006; reeleito
prossegue dirigindo o país em segundo mandato,
que se estenderá até 31 de dezembro de 2010.
Na economia, destaca-se a baixa inflação,
antecipação do pagamento das dívidas ao FMI, fim
do ciclo de privatizações, estímulo ao microcrédito e
linhas de financiamento para aposentados e
trabalhadores de baixa renda, ampliação de
investimentos na agricultura familiar, crescimento do
mercado interno, redução do índice de desemprego,
entre outras realizações.
Na educação é notável o incentivo à escolarização.
Para o nível básico foi criado o Fundeb (Fundo de
Manutenção e Desenvolvimento da Educação
Básica), em que pretende investir cerca de 5 bilhões
anuais. No campo da educação superior temos o
Prouni (Programa Universidade para Todos), que
Luiz Inácio Lula da Silva
oferece mais de 100 mil bolsas de estudo,
gratuitamente, em universidades privadas de todo o país. No entanto as universidades
parceiras do Prouni deixam de recolher diversos tributos federais, enquanto as universidades
públicas carecem de mais investimentos para manter sua estrutura, ampliar o número de
vagas e melhorar a qualidade do ensino, da pesquisa e extensão. Para suprir essa falta,
recentemente foi lançado o Reuni (Programa de Apoio a Planos de Expansão e
Reestruturação das Universidades Federais). A meta prevista pelo Reuni é dobrar o número
de estudantes de graduação nas universidades federais nos próximos dez anos. Em 2007,
essas instituições ofereceram 133.941 vagas de ingresso. Com o Reuni, esse número está
projetado para 229.270 em 2012.
46
Após percorrer tantos anos de história do
nosso país, ficamos com a sensação
desconfortável de que temos muito ainda
que avançar na realização de um Estado de
Bem-Estar Social. Os progressos feitos são
inegáveis, mas foram lentos e não escondem
o longo caminho que ainda nos falta
percorrer.

Foto: Ministério da Educação

Esse caminho está marcado pela necessi-


dade de superarmos as desigualdades
sociais decorrentes de uma sociedade de
classes; os preconceitos e discriminações
decorrentes de atitudes sexistas, homo-
fóbicas, entre outras; bem como precon-
ceitos e discriminações raciais incompatíveis
com um país multicultural e pluriétnico como
o Brasil.
47
ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO E
4 CIDADANIA
4.1 Reflexões

Ser cidadão (...) é participar o máximo possível da


Eu preciso participar vida em comunidade para que seja possível
das decisões que compartilhar com os semelhantes as coisas boas
interferem na minha da vida – as materiais e aculturais. Ser cidadão é,
vida. Um cidadão ainda, opor-se a toda forma de não-participação.
com um sentimento Ser cidadão é, enfim, adotar uma p o s t u r a e m
favor do bem comum.
ético forte e
(...) cidadania deve englobar todos, mesmo
consciência da aqueles desprivilegiados, em situação de
cidadania não deixa desvantagem em relação aos outros. Todos
passar nada, não devem ser cidadãos.
abre mão desse (MELLO. 2001.)
poder de
participação. O Estado de Direito é aquele em que os homens
são governados pelo poder da lei e não pelo poder
de outros homens. A lei é a proposição jurídica que
Herbert de Souza, trata igualmente todos que estejam na mesma
o Betinho (1994) situação. A vontade da lei se impõe tanto aos
particulares como aos agentes do Estado como
pessoa de direitos e obrigações.
(NOGUEIRA, 1989.).

Indivíduo e sociedade existem mutuamente. A


democracia favorece a relação rica e complexa
indivíduo/sociedade, em que os indivíduos e a
sociedade podem ajudar-se, desenvolver-se,
regular-se e controlar-se mutuamente. A
democracia fundamenta-se no controle da
Soberania é a racionalização jurídica máquina do poder pelos controlados...
do poder, no sentido da transformação
da força em poder legítimo, de poder [...]
de fato em poder de direito. Em uma (...) A soberania do povo cidadão comporta ao
sociedade política, indica poder de
mando em última instância ou poder mesmo tempo a autolimitação desta soberania
supremo. Entre nós, este poder é pela obediência às leis e a transferência da
originário e exclusivo do Povo, que o
exerce diretamente ou por meio de soberania aos eleitos. A democracia comporta ao
seus representantes eleitos, nos
termos da Constituição.
mesmo tempo a autolimitação do poder do Estado
Fontes: Dicionário de Política de Norberto Bobbio,
pela separação dos poderes, a garantia dos
Nicola Matteucci e Gianfranco Pasquino. Co-
edição UnB e Imprensa Oficial de São Paulo e
direitos individuais e a proteção da vida privada.
Constituição Federal de 1988, art. 1º, § único. (MORIN, 2002.)

48
4.2 Elementos do Estado

Estado: um povo social, política e juridicamente


organizado, que, dispondo de uma estrutura administrativa,
de um governo próprio, tem soberania sobre determinado
território.

Pode-se conceituar Estado como uma instituição que tem por


objetivo organizar a vontade do povo politicamente
constituído, dentro de um território definido, tendo como uma
de suas características o exercício do poder coercitivo sobre
os membros da sociedade. É, portanto, a organização político-
jurídica de uma coletividade, objetivando o bem comum.

São elementos do Estado:

o Poder Político Soberano: expressa-se como ordenamento jurídico impositivo, ou


seja, o conjunto das normas e leis que regulam o convívio social.

A Constituição Federal de 1988 diz:

Artigo 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer


natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no
País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à
segurança e à propriedade...

(...)

Inciso II – ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma


coisa senão em virtude da lei;

(...)

O Povo: é o conjunto de cidadãos que instituem e ao mesmo tempo se subordinam ao


poder soberano, possuindo direitos iguais perante a lei.

O Território: inclui o espaço terrestre, aéreo e aquático e é outro importante elemento


do Estado. Mesmo o território desabitado - onde não há interações sociais – é parte do
Estado, que sobre ele exerce poder soberano, controlando seus recursos. Ainda que
haja sociedade ou até mesmo nação, quando não há território controlado pelo poder
soberano, não há Estado.

O Governo: corresponde ao núcleo decisório do Estado, encarregado da gestão da


coisa pública.

glossário
Coisa pública: é o conjunto de bens públicos tangíveis (ex: edifícios, investimentos) e intangíveis (ex.: educação,
segurança pública).

49
4.3 Organização do estado e dos poderes
O art. A Constituição Federal de 1988, em seu art. 1º, dispõe que o Brasil é
uma república federativa, constituída pela união indissolúvel da União, dos
Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, e que esses entes têm autonomia
política, administrativa e financeira para cuidar dos interesses dos cidadãos.
O Estado brasileiro está organizado em poderes. São Poderes da União,
independentes e harmônicos entre si, o Legislativo, o Executivo e o Judiciário. (art. 2º.
C.F./88).

Poder Legislativo Poder Executivo Poder Judiciário


Elabora as Executa as Fiscaliza as
leis no País leis no País leis no País

No caso brasileiro, a Constituição estabelece que:

o Poder Legislativo é exercido pelo Congresso Nacional,


composto pela Câmara dos Deputados e pelo Senado
Federal, e cabe ao Congresso Nacional dispor sobre todas as
matérias de competência da União;

o Poder Executivo é exercido pelo Presidente da República,


auxiliado pelos Ministros de Estado;

o Poder Judiciário é exercido por: Supremo Tribunal Federal,


Superior Tribunal de Justiça, tribunais regionais federais e
juízes federais, tribunais e juízes do trabalho, tribunais e
juízes eleitorais, tribunais e juízes militares.

Os três Poderes são independentes, mas deve haver entre eles um equilíbrio, dado
por mecanismos de pesos e contrapesos. Assim, tem-se a presença de cada um dos poderes
na órbita do outro, mediante as faculdades de estatuir e de impedir.
glossário
Estatuir: estabelecer como preceito ou norma.

50
O Executivo atua

No Legislativo, por meio: No Judiciário:


- da mensagem presidencial (nos casos de recomendação); - ao nomear membros do
- do poder de veto (nos casos de impedimento); Poder Judiciário;
- de envio de matéria sobre orçamentos e finanças; - ao conceder indultos (perdão).
- de elaboração de leis delegadas;
- de envio de medida provisória (que tem força de lei).

O Legislativo atua

No Executivo, pelas faculdades de: No Judiciário:


- rejeitar veto; - na organização desse
- sustar os atos normativos do Poder Executivo que poder;
exorbitem o poder regulamentar ou os limites de - nas atividades de processar
delegação legislativa; e julgar Ministros do
- instaurar processo de impeachment contra a Supremo Tribunal Federal.
autoridade executiva;
- aprovar tratados;
glossário
- apreciar e ratificar as indicações do Executivo para
o desempenho de cargos da administração pública;
- zelar pela organização administrativa e judiciária Impeachment: (palavra de origem
inglesa) processo que se instaura contra
do Ministério Público e da Defensoria Pública; altas autoridades do governo com fins
- exercer a fiscalização contábil, financeira e de destituir os titulares de cargos
públicos que comprovadamente
orçamentária, mediante suas atribuições de controle praticaram infrações graves no exercício
externo, com o auxílio do Tribunal de Contas. dos deveres funcionais.

O Judiciário atua

No Legislativo: No Executivo:
- quando profere a ilegalidade
- quando decide acerca de inconstitucionalidade de
de medidas administrativas.
seus atos.

A sociedade cria o Estado para que possa ter, por seu intermédio, a garantia de direitos
individuais e coletivos e a realização do bem comum, que se concretiza com o
desenvolvimento das atividades estatais.
51
4.4 Administração pública
É a Administração Pública que desenvolve as atividades estatais visando ao bem
comum, de acordo com a lei.
Por Administração Pública compreende-se o conjunto de órgãos, funções e agentes
públicos com a finalidade de desenvolver as atividades do Estado, visando à consecução dos
interesses coletivos. A Administração Pública deve expressar o compromisso do Estado com
o bem-estar da coletividade.

A Administração Pública é constituída da seguinte forma:

- Administração Pública Direta - entidades estatais, como a presidência da


República, as secretarias estaduais e municipais;

- Administração Indireta - autarquias, fundações públicas, empresas públicas e


sociedades de economia mista.

Tais atividades devem ser realizadas em conformidade com aquilo que a lei
estabelece e de acordo com os princípios constitucionais que regem a
Administração Pública.

A Constituição brasileira estabelece, no artigo 37, que as atividades desenvolvidas


pela Administração Pública devem obedecer aos seguintes princípios:

- Legalidade obediência à lei;

- Impessoalidade inexistência de preferências, privilégios ou diferenciações que não


sejam previstos na lei;

- Moralidade princípios éticos de justiça e probidade;

- Publicidade visibilidade e transparência das ações públicas;

- Eficiência desempenho satisfatório das atividades a fim de alcançar os melhores


resultados na prestação dos serviços públicos.

“Todo poder emana do povo, que o exerce por


meio dos representantes eleitos ou diretamente,
nos termos desta Constituição”.
CF/1988 Art. 1º § único

A fonte real do poder do Estado está no povo que, de acordo com seu grau de instrução
e participação:

- cria suas leis por intermédio dos seus representantes eleitos – Poder Legislativo;
- elege os chefes do Poder Executivo para realização das atividades estatais, por
intermédio da Administração Pública, de acordo com as leis criadas pelo Legislativo e
com recursos advindos da própria sociedade – os tributos;
mantém o Poder Judiciário, que tem a função de fiscalizar o fiel cumprimento da lei.
52
A finalidade do Estado é o bem comum, assim, os três Poderes devem garantir esse
objetivo.

Uma águia nunca voa só. Vive e voa sempre em pares. Importa aqui recordar a
lição de um mestre do Espírito. O ser humano-águia é como um anjo que caiu
de seu mundo angelical. Ao cair, perdeu uma das asas. Com uma asa só não
pode mais voar. Para voar tem de abraçar-se a outro anjo que também caiu e
perdeu uma asa. Em sua infelicidade, os anjos caídos mostram-se solidários.
Percebem que podem ajudar-se mutuamente. Para isso, devem se abraçar e
completar suas asas. E só assim, abraçados e juntos, com a asa de um e de
outro, podem voar. Voar alto rumo ao infinito do desejo. Sem solidariedade, sem
compaixão e sem sinergia, ninguém recupera as asas da águia ferida que
carrega dentro de si. Um fraco mais um fraco não são dois fracos, mas um forte.
Porque a união faz a força. Uma asa mais uma asa não são duas asas, mas
uma águia inteira que pode voar, ganhar altura e recuperar sua integridade e
sua libertação.
(BOFF, 1997, p. 105-108).

4.5 Democracia

A democracia, segundo a conhecida fórmula de Abraham Lincoln, é o governo do


povo, pelo povo e para o povo. É o modo de partilha de poder em que o povo participa da
gestão e das decisões fundamentais do Estado.
Como governo do povo, precisa do consenso da maioria dos cidadãos e do respeito às
regras estabelecidas. Ao mesmo tempo abriga diversidade, antagonismos e necessita do
conflito de idéias e opiniões, o que lhe confere vitalidade e produtividade. Dessa maneira, tem
um caráter dialógico:

- consenso/conflito;
- liberdade/igualdade/fraternidade;
- comunidade/antagonismos sociais/ideológicos.
A democracia não é apenas uma forma de organização governamental, ela vai muito
além, é a forma organizacional do Estado em que a participação do cidadão é fundamental
numa relação cotidiana entre as pessoas.
A democracia nutre-se da autonomia do espírito dos indivíduos e da sua liberdade de
opinião e de expressão. Os sistemas de poder são considerados democráticos quando os
agentes políticos são livremente escolhidos pela sociedade para o exercício da governança;
e, além disso, quando o povo pode interferir nos processos de governo, seja promovendo o
controle social da ação política, inclusive do comportamento ético dos políticos eleitos, seja
participando diretamente da concepção e construção de políticas públicas.

4.6 Cidadania
Não é tarefa fácil definir o termo cidadania. Etimologicamente, cidadania origina-se do
vocábulo latino civis, que em grego é o mesmo que polis. Em decorrência, cidadão era o
membro da polis, ou seja, da Cidade-Estado grega (IATAROLA, p.92). Aqui a cidadania é
entendida como “o direito da pessoa em participar das decisões nos destinos da cidade por
meio da ekklesia, assembléia popular, na ágora, praça pública onde se reunia para deliberar
sobre decisões de comum acordo”. (CARDOSO, 2002).
53
Ao lado desse enfoque político, também encontramos definições normativas de
cidadania. Para a filósofa alemã Hannah Arendt é o “direito de ter direitos” (ARENDT, apud
Fritola, p. 52); para Maria Cristina dos Santos Cruanhes é o “direito de todos a ter todos os
direitos iguais” (CRUANHES, apud Fritola, op. cit, p. 52). Em verdade, para que possamos
assegurar a todos, essa igualdade de direitos é necessário que os regimes democráticos
saibam conjugar a máxima aristotélica segundo a qual isonomia consiste em tratar
desigualmente os desiguais na exata medida em que se desigualam.
Em nossa Constituição Federal a cidadania apresenta-se como um dos fundamentos
da República Federativa do Brasil, sem o qual não há democracia. Esse é o sentido indicado
no Dicionário Aurélio, eletrônico, edição de 1999, onde a cidadania é definida como “a
qualidade ou estado do cidadão”, sendo cidadão conceituado como “o indivíduo no gozo dos
direitos civis e políticos de um Estado, ou no desempenho de seus deveres para com este”.

Gadotti (1998), por sua vez, ressalta o aspecto ético do termo,


ao defini-lo como a “consciência de direitos e deveres no
exercício da democracia”.

Enfim, cada conceito citado destaca um aspecto importante ao ressaltar a


democracia participativa, a ética ou o direito. No entanto, o conceito de cidadania não se
esgota nessa dimensão formal, ético-político-jurídica. É preciso percebermos a dinâmica
desse conceito. A educação para a cidadania é um processo em construção. Cada país tem
uma qualidade de cidadania diferenciada e de acordo com seu momento histórico. É
diferente ser cidadão na Inglaterra, na Alemanha, na África do Sul ou no Brasil. A cidadania,
que é de natureza histórica, desenvolveu-se dentro de outro fenômeno histórico que
chamamos de Estado-Nação e que data da Revolução Francesa, de 1789.
Ora, se o conceito de cidadania varia no tempo e no espaço, é porque os princípios
éticos, o modo de fazer política e os conteúdos normativos transformam-se historicamente.

O autor que desenvolveu a distinção entre as várias


dimensões da cidadania a partir dos direitos que lhe são
inerentes, T.H. Marshall, classificou-os em:
- Direitos civis - são os direitos fundamentais à vida, à liberdade, à propriedade, à
igualdade perante a lei, desdobram-se na garantia de ir e vir, de escolher o
trabalho, de manifestar pensamento, de organizar-se, de ter respeitada a
inviolabilidade do lar e da correspondência, de não ser preso a não ser pela
autoridade competente e de acordo com as leis, de não ser condenado sem
processo legal regular. Sua base é a liberdade individual ou liberdade negativa.

- Direitos políticos - referem-se à participação do cidadão no governo da


sociedade, como a capacidade de se organizar em partidos, de votar, de ser
votado. Os direitos políticos têm como instituição principal os partidos e um
parlamento livre e representativo. São eles que conferem legitimidade à
organização política da sociedade. Sua essência é a idéia de autogoverno.

- Direitos sociais - garantem a participação na riqueza coletiva. Eles incluem


direitos à educação, ao trabalho, ao salário justo, à saúde, à aposentadoria.

54
Na Constituição Federal de 1988, estes três elementos da cidadania, o civil, o social e
o político, são identificados no Título II, Dos Direitos e Garantias Fundamentais.

O elemento civil está destacado no artigo 5º:

“Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos
brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à
liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade”(...)

O elemento social está previsto no artigo 6:

“São direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a


previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos
desamparados, na forma desta Constituição” .

Por último, o elemento político, identificado principalmente no artigo 14, que assegura
a todo cidadão o direito ao voto direto e secreto para a escolha dos representantes por meio
dos quais é exercida a soberania popular e, no artigo 17, que estabelece que é livre a criação,
fusão, incorporação e extinção de partidos políticos.
Os sistemas políticos são considerados democráticos quando seus agentes são
livremente escolhidos pela sociedade (povo) para o exercício da governança e, além disso,
quando o povo pode intervir nos processos de governo, promovendo o controle social da
ação política, inclusive do comportamento ético dos políticos eleitos.
Apesar de a promoção da cidadania estar presente em vários momentos em nossa
Carta Magna, é evidente a sua ausência no cotidiano do brasileiro. Diariamente a mídia
estampa práticas de corrupção que já são culturalmente associadas à relação do brasileiro
com a “coisa pública”, advindo disso o tal “jeitinho brasileiro”.
Uma pesquisa realizada em 2006 pela organização não-governamental Transparency
International, com o objetivo de medir o quanto os cidadãos percebem a corrupção no
cotidiano político nacional, aponta o Brasil na posição de número 70, em um ranking de 160
países. Na posição número 1 estão Finlândia, Islândia e Nova Zelândia, como os países
menos corruptos do mundo. Esse indicador denuncia o nosso fracasso no quesito cidadania
e a urgência de educarmos a sociedade para o seu pleno exercício.

Quando alguém disse dos negócios do Estado:


que me importa?
– pode-se estar certo de que o Estado está perdido.
Rousseau, Do contrato social

Para que tenhamos uma visão mais completa da relação Estado e sociedade, é
importante prosseguirmos em nossa reflexão histórica sobre a intervenção do Estado na vida
econômica e social. A intervenção do Estado é parte da própria construção da sociedade,
fundada no trabalho assalariado.
Inicialmente a intervenção do Estado incidiu na regulação jurídica das relações e
condições de trabalho, dando origem à hoje chamada legislação trabalhista; posteriormente,
desdobram-se nos chamados sistemas públicos de proteção social, também modernamente
conhecido como de seguridade social.

55
5 ESTADO, CAPITAL E TRABALHO

5.1 A crise no liberalismo


A crise de 1929, com a quebra da Bolsa de Nova York, seguida de uma profunda
recessão mundial, demonstrou a fragilidade do regime econômico liberal de mercado. De
fato, o descontrole econômico provocado pelo regime de plena liberdade de mercado
desencadeou graves prejuízos sociais e fortes perturbações políticas que criaram as
condições materiais para o surgimento ou fortalecimento de regimes totalitários de direita,
como o nazismo e o fascismo, de conseqüências desastrosas para a humanidade. A crise
levou governantes de diversos países e diferentes orientações políticas à convicção de que
somente uma forte intervenção estatal poderia atenuar o desemprego e minorar as
disparidades de renda.

O keynesianismo nos apresenta o conjunto de idéias


que propunham a intervenção estatal na vida
econômica com o objetivo de conduzir a um regime de
pleno emprego. A economia seguiria o caminho do
pleno emprego, sendo o desemprego uma situação
temporária que desapareceria graças às forças do
mercado.O objetivo do keynesianismo era manter o
crescimento da demanda em paridade com o aumento
da capacidade produtiva da economia, de forma
suficiente para garantir o pleno emprego, mas sem
John Maynard Keynes
excesso, pois isto provocaria um aumento da inflação.
(SOUZA, 2003)

Keynesianismo: é a teoria econômica consolidada pelo economista inglês John Maynard Keynes, que consiste
numa organização político-econômica oposta às concepções neoliberalistas, fundamentada na afirmação do Estado
como agente indispensável de controle da economia, com objetivo de conduzir a um sistema de pleno emprego. Teve
enorme influência na renovação das teorias clássicas e na reformulação da política de livre mercado.
Keynes atribuiu ao Estado o direito e o dever de conceder benefícios sociais que garantam à população um padrão
glossário mínimo de vida como a criação do salário-mínimo, do salário-desemprego, a redução da jornada de trabalho (que
então superava 12 horas diárias) e assistência médica gratuita. O Keynesianismo ficou conhecido também como
"Estado de Bem-Estar Social”, tendo sido originalmente adotado pelas políticas econômicas inauguradas pelo
presidente americano Frank Delano Roosevelt, com o New Deal, que respaldaram, no início da década de 1930, a
intervenção do Estado na economia com o objetivo de tentar reverter uma depressão e uma crise social que ficou
conhecida como a crise de 1929 e, quase simultaneamente, por Hjalmar Horace Greeley Schacht, na Alemanha
nazista. Cerca de 3 anos mais tarde, em 1936, essas políticas econômicas foram teorizadas e racionalizadas por
Keynes em sua obra clássica Teoria geral do emprego, do juro e da moeda.
Fonte: Wikipédia (www.wikipédia.com.br), pesquisa feita em 7 fev. 2008.

5.2 Neoliberalismo, globalização e desemprego estrutural


A derrota do nazi-facismo e o fim da Segunda Guerra constituem o marco histórico da
materialização do ideário Keynesiano bem-estar social, notadamente na Europa ocidental.
Seguiram-se os chamados “trinta anos dourados” do capitalismo, em que a combinação de
elevados níveis de investimentos públicos, forte crescimento econômico, sistemas tributários
preponderantemente progressistas e crescente arrecadação de tributos possibilitaram aos
Estados Nacionais, no plano econômico, meios para consolidar políticas de pleno emprego e,
no plano social, a instituição e universalização das políticas de educação, saúde e
assistência social.

56
A partir da crise do petróleo de 1973, seguida pela onda inflacionária que surpreendeu
os Estados de Bem-Estar Social, o liberalismo gradativamente voltou à cena devidamente
adaptado à realidade política, econômica e social de um mundo crescentemente globalizado.
Nessa nova roupagem, recebe o nome de neoliberalismo. O neoliberalismo denunciou a
inflação como resultado do Estado demagógico perdulário, chantageado ininterruptamente
pelos sindicatos e pelas associações. Responsabilizou os impostos elevados e excessivos,
juntamente com a regulamentação das atividades econômicas, como os culpados pela
queda da produção.
glossário
Perdulário: gastador.

O mal era causado, pois, pela aliança espúria entre o Estado de Bem-Estar Social e os
sindicatos. A reforma que apregoavam devia passar pela substituição do Estado de Bem-
Estar Social e pela repressão aos sindicatos.
O Estado deveria ser desmontado e gradativamente desativado, com a diminuição
dos tributos e a privatização das empresas estatais, enquanto os sindicatos seriam
esvaziados por uma retomada da política de desemprego, contraposta à política keynesiana
do pleno emprego (geração de um exército industrial de reserva, para usar uma expressão do
Marxismo que é bem elucidativa dessa ação). Enfraquecendo a classe trabalhadora e
diminuindo ou neutralizando a força dos sindicatos, haveria novas perspectivas de
investimento, atraindo novamente os capitalistas de volta ao mercado.

<www.fapmg.org.br/dbimagens/%7B09DEF0C6-79C9-4....>.

No neoliberalismo há a preocupação em se formar blocos econômicos que, sob a


justificativa de maior facilidade na circulação da produção (e conseqüente barateamento),
cria verdadeiras fortalezas protecionistas em torno das economias mais fortes.
Os governos-símbolo do neoliberalismo nos países centrais foram o de Margareth
Tatcher, na Inglaterra (1979 – 1990), e de Ronald Reagan, nos Estados Unidos (1981 – 1989).
No entanto, os setores estratégicos das economias norte-americana e inglesa continuam sob
protecionismo.
Os efeitos perversos da globalização financeira e do neoliberalismo somente
começaram a chamar atenção da opinião pública mundial muito recentemente quando a
recessão bate à porta da maior economia do mundo, enquanto que, no contexto dos país
subdesenvolvidos, tais efeitos têm sido desastrosos há duas décadas.
57
http://direitoeconomia.com/ficheiros/globalizacao1.thumbnail.jpg

No mundo globalizado, a competição e a competitividade entre as empresas


tornaram-se questões de sobrevivência. Entretanto, como o poder das empresas (quanto ao
domínio de tecnologias, de capital financeiro, de mercados, de distribuição, entre outros) é
desigual, surgem relações desiguais entre elas e o mercado. Algumas sairão vitoriosas e
outras sucumbirão. Muitos setores da economia estão oligopolizados e até mesmo
monopolizados, dificultando a entrada de novos competidores. Desse modo, a noção de livre
mercado é relativa. Muitos setores da atividade econômica já têm “dono” e dificilmente
permitem a entrada de novos produtores. A globalização da economia e das finanças
beneficia, assim, amplamente, o grande capital, as grandes corporações transnacionais.
A globalização surgiu de forma inesperada e descontrolada. Tem causado
desemprego em países, desafia o poder tradicional dos governos e
passa para as pessoas a sensação de que o mundo se transformou
num ambiente selvagem, do dia para a noite.
Essa forma de globalização favorece os países que concentram
maior poder econômico e diminui a autonomia política e decisória dos
Estados, que, adotando uma inserção subordinada à lógica da “Nova
Ordem Mundial”, passam a reduzir impostos de importação, atacar
conquistas sociais e sindicais e submeter suas políticas e legislações
aos interesses dos países centrais.
glauberfuturopedagogo.blogspot.com

Globalização: Para o geógrafo Milton Santos, a globalização é o ápice do processo de internacionalização do


mundo capitalista. Segundo ele, “para entendê-la, como de resto a qualquer fase de nossa história, há dois elementos
fundamentais a se levar em conta, o estado da técnica e o estado da política”. Nossa época é caracterizada por uma
técnica de altíssima precisão científica, o que favorece um elevado grau de intencionalidade no seu uso. Os atores
hegemônicos se apropriam dessa técnica para aumentarem seu poder. Como a técnica se tornou planetária, os atores
também se tornaram planetários. Dessa forma, a globalização é uma forma de casamento da técnica com a política,
agora exercida pelos atores hegemônicos (grandes transnacionais) e não mais pelos Estados. A técnica hegemônica é
glossário a base de dois outros fenômenos também inéditos, que são a informação e o dinheiro globalizados, que tornaram as
fronteiras permeáveis, resultando na diminuição do poder interno das nações.

Fontes: Santos (2003: 23) e Revista Fórum, nº 56, novembro de 2007, p. 12.

As principais características da globalização são a homogeneização dos centros urbanos, a expansão das
corporações para regiões fora de seus núcleos geopolíticos, a revolução tecnológica nas comunicações e na
eletrônica, a reorganização geopolítica do mundo em blocos comerciais (não mais ideológicos) e a hibridização entre
culturas populares locais e uma cultura de massa universal.
Fonte: www.wikipedia.com.br, pesquisa feita em 30 jan.2008.

Na América Latina, os modelos de estabilização têm resultado em forte dependência


externa para garantir a estabilidade de preços. E simultaneamente têm sucateado
importantes setores industriais e gerado um crescimento do desemprego estrutural.

58
No Brasil a política neoliberal adotou as medidas preconizadas no Consenso de
Washington, da abertura comercial indiscriminada, da desregulamentação dos mercados
financeiros, com as privatizações e com as novas formas de relações de trabalho.

A denominação Consenso de Washington designa um


conjunto de medidas econômicas fundamentadas em dez
princípios básicos formulados em novembro de 1989 - que
não por acaso foi o mês da queda do muro de Berlim - por
economistas de instituições financeiras sediadas em
Washington ( FMI, Banco Mundial e Departamento do
Tesouro Americano), consubstanciadas em texto do
economista John Williamson, do International Institute for
Economy, e que se tornou o receituário oficial do FMI na
década de 1990, destinado a promover ajustes fiscais em
países endividados e com problemas em seus balanços de
pagamentos.

59
6 DIFERENÇAS SOCIAIS:
DESAFIOS PARA O BRASIL NO COMBATE À POBREZA,
EXCLUSÃO SOCIAL E CONCENTRAÇÃO DE RENDA

6.1 A desigualdade social

O descobrimento
Mário de Andrade

Abancado à escrivaninha em São Paulo


Na minha casa da rua Lopes Chaves,
De supetão senti um friúme por dentro.
Fiquei trêmulo, muito comovido
Com o livro palerma olhando pra mim.

Não vê que me lembrei que lá no norte, meu Deus!


Muito longe de mim,
Na escuridão ativa da noite que caiu,
Um homem pálido, magro, de cabelo escorrendo nos olhos,
Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,
Faz pouco se deitou, está dormindo.

Esse homem é brasileiro que nem eu.


(ANDRADE, apud, Bethânia, 2003)

O traço mais marcante da sociedade brasileira é a desigualdade social.

Segundo o Relatório de Desenvolvimento Humano 2007/2008 e a Pesquisa Nacional


por Amostras de Domicílio, do IBGE (2006), podem-se verificar algumas dessas diferenças:

Em 2005,
- 7,5% dos brasileiros viviam com menos de um dólar por dia e 21,2%, com menos de
dois dólares por dia.

Em 2006,
- os 10% mais pobres detinham 0,8% da renda nacional, enquanto os 10% mais ricos
acumulavam 44,9%;
- a taxa de desemprego foi de 8,4% , o que corresponde a 8 milhões de pessoas;
- 36% dos trabalhadores trabalhavam sem carteira assinada e 51,2% não
contribuíam para a previdência social;
- entre a população economicamente ativa, 26,5% possuía rendimento mensal
médio inferior a um salário mínimo, enquanto somente 0,6% auferia rendimento de
mais de 20 salários;
- enquanto 1% da população tem renda média mensal de R$ 11.438,00 e os 5% mais
ricos têm rendimento médio de R$ 5.622,00, os 10% mais pobres “sobrevivem” com
R$ 73,00 em média por mês, os 20% mais pobres, com R$ 219,00, os 60% mais
pobres, com R$ 523,00.

60
Como conseqüência, a renda no Brasil permanece entre as mais concentradas do
mundo. Atualmente ocupamos a 10ª posição no ranking dos países com pior distribuição de
renda, à frente apenas da Colômbia, Bolívia, Haiti e alguns países da África Subsaariana, a
região mais pobre do planeta. Mas há indicadores positivos nesse cenário: dados recentes
demonstram que após décadas sem alterações significativas, a pobreza está caindo e a
renda do trabalho no Brasil vem se desconcentrando de forma expressiva nos últimos anos,
como veremos a seguir.

Estudo desenvolvido pelo Centro de Políticas Sociais, da Fundação Getúlio Vargas,


sob a coordenação do economista Marcelo Néri, demonstra que a queda da desigualdade
nos primeiros anos deste novo milênio é a maior em toda a história do Brasil. Só em 2004,
quando a distribuição de renda cresceu em um ritmo dobrado em relação a 2002 e 2003, a
redução da desigualdade foi a principal responsável pela queda de 8% da pobreza. Se não
fosse o aumento da distribuição de renda, a queda na pobreza seria de apenas 3%. De 2001 a
2004, os 50% mais pobres aumentaram a renda per capita em 13,8%, enquanto no topo da
pirâmide os 1% mais ricos perderam 7,8% e os 10% mais ricos perderam 5,5%. Segundo o
professor Nery, três razões concretas e uma reflexão explicam a redução da desigualdade
social: o aumento expressivo da escolaridade, do emprego e o acerto do governo em
desenvolver programas sociais. A sociedade brasileira também estaria contribuindo com
mais consciência e solidariedade.
O Relatório de Desenvolvimento Humano 2006 do PNUD – Programa das Nações
Unidas para o Desenvolvimento - apresenta o Brasil como exemplo de melhoria na
distribuição de renda e cita o “Bolsa Família” como uma das razões para esse desempenho.
O país é o décimo mais desigual num ranking de 126 nações e territórios (mesmo assim
avançou seis posições nos últimos anos). "O crescimento econômico criou empregos e
promoveu aumento real de salário. E um amplo programa social - o “Bolsa Família” - tem feito
transferências de renda para 7 milhões de famílias que vivem na pobreza extrema ou
moderada, para ajudar na alimentação, saúde e educação, criando benefícios hoje e bases
para o futuro", diz o texto do PNUD. Em fins de 2007 o “Bolsa Família” alcançava 11 milhões
de beneficiários.

6.2 Desenvolvimento humano e IDH

Outro fator positivo a ressaltar é o aumento constante e consistente do Índice de


Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil, o que permitiu que o país em 2006 ingressasse
pela primeira vez no grupo dos países de alto desenvolvimento humano. Em termos
absolutos, o país alcançou a barreira de 0,800 (linha de corte) no índice, considerada o marco
de alto desenvolvimento humano. Em termos relativos, o Brasil caiu uma posição no ranking
de 177 países e territórios: de 69º em 2006, para 70º este ano.
61
TENDÊNCIAS DE LONGO PRAZO DO IDH NO BRASIL
Expectativa de Taxa de Taxa de PIB per capita
vida no alfabetização matrícula (paridade de poder
ANO nascimento de adultos combinada de compra em IDH
(% com + de 15 US$ - 2005)
(%)
anos)

1990 66,1 82,0 67,3 7219 0,723


1995 68,2 84,7 74,4 7798 0,753
2000 70,3 86,9 90,2 8085 0,789
2004 71,5 88,6 87,5 8325 0,798
2005 71,7 88,6 87,5 8402 0,800
Fonte: PNUD – RDH 2007/2008 – pesquisa feita em 13 dez. 2007.

Diz o relatório:

Ao ingressar no grupo de países de alto desenvolvimento humano, o


Brasil marca o início, mesmo que simbólico, de uma nova trajetória e de
um novo conjunto de aspirações. O olhar deve voltar-se ao desempenho
do conjunto de países latino-americanos que têm um desenvolvimento
humano superior ao Brasileiro, incluindo Argentina, Chile, Uruguai,
Costa Rica, Cuba e México.

Outro indicador importante que deve ser considerado em países com elevados níveis
de concentração de renda como o Brasil é o coeficiente de Gini.
No Brasil a evolução recente do coeficiente de Gini vai ao encontro de outros
indicadores sociais e demonstra uma tendência consistente de redução das desigualdades,
segundo o Relatório de Desenvolvimento Humano (PNUD -2007/2008):
O coeficiente de Gini é muito utilizado para se medir e comparar a desigualdade de
renda entre os países. Varia de zero a um, sendo que quanto mais próximo de zero melhor é a
distribuição de renda; ao reverso, quanto mais perto de um a renda está mais concentrada.

Ano do relatório Coefiente de Gini Posição no ranking entre


os países mais desiguais
do planeta
2002 0,607 4º lugar
2004 0,591 6º lugar
2006 0,580 10º lugar
Fonte: PNUD – RDH 2006, pesquisa feita em 15 dez. 2007.

O relatório destaca que reduzir a desigualdade é importante porque é uma das


formas de acelerar a redução da pobreza.

A taxa de redução da pobreza de um país se dá em função de dois


fatores: o crescimento econômico e a parcela desse incremento
apropriada pelos pobres. Em outras palavras, quanto maior a parcela
apropriada pelos pobres, maior será a eficiência do país em transformar
crescimento em redução da pobreza. (RDH 2006)
62
Pochmann (2007:74) demonstra que “a cada cem postos
de trabalho abertos atualmente no setor urbano, 34
dependem diretamente do gasto social, ao passo que, na
metade da década de 1990, eram somente 18”, concluindo
que, sem a elevação do gasto social, poderíamos ter 2,2
milhões de desempregados a mais no país, o que demonstra
claramente a eficácia anti-cíclica dessa política.
No entanto, ainda temos muito que avançar para
cumprirmos o primado do artigo 3º, III da Constituição
(erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as
desigualdades sociais e regionais), pois, segundo
Márcio Pochmann
<www.unicamp.br>. Pochmann (2007: 75 -76):

Entre 1995 e 2004 o Índice de Gini passou de 0,585 para 0,547 (obs:
há uma divergência com os números do PNUD, embora em ambos
os casos a tendência seja de baixa), acumulando uma queda de
6,5%”, que pode ser explicada, preponderantemente, pela conjunção
do aumento do gasto social e elevação do salário mínimo, o que mais
uma vez demonstra a eficácia relativa da política social. No entanto, a
participação da renda do trabalho na renda nacional vem caindo
desde o inicio dos anos 80 quando era de 50% do total da renda
nacional e hoje é de apenas 36%. Assim, a medida de redução de
concentração de renda apontada é parcial, pois ainda segundo
Pochmann (op. cit.: 77) “o Índice de Gini mede fundamentalmente a
desigualdade no interior da renda do trabalho, deixando, portanto, de
fora as outras formas de renda que mais têm crescido no Brasil, como
juros, lucros, renda da terra e aluguéis. Dessa forma, a desigualdade
de renda e riqueza tem sido maior, sobretudo quando a política
monetária do governo federal garante uma renda mínima para cerca
de 20 mil clãs parentais por meio do pagamento dos juros da dívida
pública.

Você pode e deve acompanhar o desenvolvimento


humano do seu município, do seu Estado, do País.
A partir desse acompanhamento você terá um
retrato de como vai a qualidade de vida de onde
você vive e de que mundo está deixando aos seus
descendentes.

Atualmente, na página do PNUD (<www.pnud.org.br>) estão disponíveis os IDH de


todos os municípios brasileiros e até de sub-regiões de uma mesma capital (como Recife e
Manaus) ou que integram uma zona metropolitana (como no caso de Belo Horizonte e
Salvador).

63
6.3 Desenvolvimento infantil
O Brasil tinha uma taxa de 57 mortes de
menores de cinco anos por mil nascidos vivos em
1990. Esse número foi reduzido em 2006 para 20
mortes por mil nascidos vivos, de acordo com os
dados globais do Unicef.
Com essa nova marca, o País deixou a 86ª
posição no ranking mundial da taxa de mortalidade
na infância, saltando para a 113ª. No ranking
ocupam as primeiras posições os países com as
mais altas taxas de mortalidade na infância. Entre
os que têm a menor taxa, estão Suécia, Cingapura,
Espanha, Japão, Alemanha e Bélgica.
Na América do Sul, apenas três países têm
taxas de mortalidade melhores do que o Brasil
(Chile, na 148ª posição, com a taxa de nove mortes
por mil nascidos vivos; o Uruguai, em 138ª lugar,
com 12 mortes por mil; e a Argentina, em 125ª, com 16 mortes por mil).

IMPORTANTE:
As informações constantes desta seção foram retiradas do
documento “ Situação Mundial da Infância 2008 – Caderno
Brasil”, disponível no sítio <www.unicef.org.br>, pesquisa feita
em 28 jan. 2008.
O Índice de Desenvolvimento Infantil (IDI) foi um instrumento desenvolvido pelo Fundo
das Nações Unidas para a Infância - Unicef com o objetivo de monitorar a situação da
primeira infância em países, regiões, estados e municípios. Serve como ponto de partida
para uma análise dos problemas da primeira infância sob um enfoque integrador, que
considera a própria natureza da criança e seu desenvolvimento dentro do ciclo de vida.

O IDI é composto por quatro indicadores básicos:

- Crianças menores de seis anos morando com pais com escolaridade precária;
- Cobertura vacinal em crianças menores de um ano de idade;
- Cobertura pré-natal de gestantes;
- Crianças matriculadas na pré-escola.

A escolha desses indicadores tem relação direta com as causas ou os problemas que
afetam o desenvolvimento infantil, e não com os indicadores de efeito ou de efetividade,
como taxas de mortalidade, taxas de desnutrição, entre outras.
O índice tem uma variação de 0 a 1, sendo 1 o valor máximo que um município, estado
ou região deve buscar no processo de sobrevivência, crescimento e desenvolvimento de
suas crianças no primeiro período de vida. Quanto mais próximo de 1, melhor a situação da
primeira infância.
Para efeitos de classificação e comparação entre países, emprega-se a mesma
classificação do IDH, ou seja, IDI acima de 0,800 = desenvolvimento infantil elevado; entre
0,500 e 0,799 = desenvolvimento infantil médio; abaixo de 0,500 = desenvolvimento infantil
baixo.

64
No cálculo feito com indicadores de 2006, todos os estados
brasileiros e o Distrito Federal encontram-se com IDI acima de
0,500, ou seja, todas as unidades da Federação têm, no
mínimo, um nível de desenvolvimento infantil médio. Esse
resultado é um avanço quando em comparação com edições
passadas do IDI.

Em 1999, sete estados tinham um desenvolvimento infantil baixo (IDI < 0,500). Em
2004, esse número foi reduzido para um estado. Nesse sentido, Alagoas e Amazonas
destacam-se. O primeiro, por ter conseguido sair da classificação de desenvolvimento infantil
baixo para desenvolvimento infantil médio. O segundo, por ter avançado nove posições em
relação a edições passadas. Da mesma maneira, enquanto em 1999 nenhum estado era
classificado como tendo um desenvolvimento infantil elevado (IDI>0,800), em 2004, um
estado obteve essa classificação, e, em 2006, três estados estão com IDI acima de 0,800 (ver
Figura 1).

Figura 1

Ranking dos
Estados segundo
o IDI, 2006.

Entre os anos de 1999 e 2006, pode-se notar uma melhora no IDI de todas as regiões
brasileiras (Figura 2), sendo que o Norte e o Nordeste se destacam quando em comparação
com as outras regiões.
65
Figura 2
Evolução do IDI entre 1999 e 2006 (%)

Apesar do avanço mais significativo em termos percentuais, o Nordeste e o Norte


continuam com os menores IDI entre as regiões brasileiras, com 0,647 e 0,655,
respectivamente.

Figura 3
Evolução do Índice de Desenvolvimento Infantil – IDI (0 – pior; 1 – melhor),
de 1999 a 2006

66
Figura 4
Proporção de pobres por idade pontual, Brasil, 2005 (%)

Fonte: IBGE/Pnad 2005 Tabulação Especial de Eqüidade

Esse dado é impressionante e deve ser utilizado para desenvolver e


focar as políticas públicas de redução da miséria, que devem se
concentrar prioritariamente entre crianças e adolescentes e, entre as
crianças, na faixa etária de até seis anos de idade, a mais vulnerável e a
mais desprotegida no Brasil.

Figura 5
Porcentagem de pobres por idade (2005)

Fonte: IBGE/Pnad 2005 Tabulação Especial de Eqüidade

67
Das crianças em situação de pobreza, 4,7 milhões com até seis anos estão em
famílias beneficiadas pelo Programa Bolsa Família , o que corresponde a 10,2% do total de
beneficiários do programa. O Nordeste é a região com maior número de beneficiados de até
seis anos, com 48% do total, seguido pela Região Sudeste, com 27% do total de crianças
nessa faixa etária.

Tabela 1
Número de beneficiários do Programa Bolsa Família de até seis anos:
Brasil e Regiões – março de 2007

TOTAL % sobre o total

BRASIL 4.683.038 100%


Norte 507.802 11%
Nordeste 2.233.331 48%
Sudeste 1.267.733 27%
Sul 432.181 9%
Centro-oeste 241.991 5%

6.4 Educação e cidadania – um binômio necessário

Segundo Marshall, a educação popular – entendida como


educação acessível a todos - é definida como um direito social e tem sido
historicamente um pré-requisito para a expansão dos outros direitos.
Inclusive a própria cidadania.
Imbuída desse pensamento, em 1999, a Unesco solicitou a Edgar
Morin que sistematizasse um conjunto de reflexões que servissem como
ponto de partida para se repensar a educação do próximo milênio. Uma primeira versão
circulou pelos quatro cantos do planeta, cabendo a Nelson Vallejo-Gomez integrar
comentários, sugestões e remanejamentos que, posteriormente, retornaram a Morin para o
acabamento final e estão contidos no livro Os sete saberes necessários à educação do
futuro, de Edgar Morin, Unesco, 2002, a saber:
- As cegueiras do conhecimento: o erro e a ilusão
- Os princípios do conhecimento pertinente
- Ensinar a condição humana
- Ensinar a identidade terrena
- Enfrentar as incertezas
- Ensinar a compreensão
- A ética do gênero humano

Enquanto o europeu está neste circuito planetário de conforto, grande número de


africanos, asiáticos e sul-americanos acha-se em circuito planetário de miséria.
Sofrem no cotidiano as flutuações do mercado mundial, que afetam as ações do
cacau, do café, do açúcar, das matérias-primas que seus países produzem. Foram
expulsos do campo por causa dos processos mundializados provenientes do
Ocidente, principalmente os progressos da monocultura industrial; camponeses auto-
suficientes tornaram-se suburbanos em busca de salário; suas necessidades agora
são traduzidas em termos monetários.
68
Aspiram à vida de bem-estar com a qual os fazem sonhar os comerciais e os filmes do
Ocidente. Utilizam recipientes de alumínio ou de plástico, bebem cerveja ou coca-cola.
Dormem sobre restos recuperados de espuma de polietileno e usam camisetas com
estampas americanas. Dançam ao som de músicas sincréticas cujos ritmos
tradicionais chegam em orquestrações vindas da América. Dessa maneira, para o
melhor e o pior, cada ser humano, rico ou pobre, do Sul ou do Norte, do Leste ou do
Oeste, traz em si, sem saber, o planeta inteiro. A mundialização é ao mesmo tempo
evidente, subconsciente e onipresente.

[...]

Dessa maneira, o século XX a um só tempo criou ou dividiu um tecido planetário único;


seus fragmentos ficaram isolados, eriçados e intercombatentes. Os Estados dominam
o cenário mundial como titãs brutos e ébrios, poderosos e impotentes. Ao mesmo
tempo, a onda técnico-industrial sobre o globo tende a suprimir muitas das
diversidades humanas, étnicas e culturais. O próprio desenvolvimento criou mais
problemas do que soluções e conduziu à crise profunda de civilização que afeta as
prósperas sociedades do Ocidente.

Concebido unicamente de modo técnico-econômico, o desenvolvimento chega a um


ponto insustentável, inclusive o chamado desenvolvimento sustentável. É necessária
uma noção mais rica e complexa do desenvolvimento, que seja não somente material,
mas também intelectual, afetiva, moral...
O século XX não saiu da idade do ferro planetária; mergulhou nela.

O legado do século XX
O século XX foi o da aliança entre duas barbáries: a primeira vem das profundezas dos
tempos e traz guerra, massacre, deportação, fanatismo. A segunda, gélida, anônima,
vem do âmago da racionalização, que só conhece o cálculo e ignora o indivíduo, seu
corpo, seus sentimentos, sua alma, e que multiplica o poderio da morte e da servidão
técnico-industriais.
Reconhecer esses fatos como herança dupla – de morte e de nascimento – nos
permitirá superá-los.

A herança de morte
O século XX pareceu dar razão à fórmula atroz segundo a qual a evolução humana é o
crescimento do poderio da morte.
A morte introduzida pelo século XX não é somente a de dezenas de milhões de mortos
das duas guerras mundiais e dos campos de extermínio nazistas e soviéticos; é t
ambém a de novos poderes de morte.

As armas nucleares
A possibilidade de extinção global de toda a humanidade pelas armas nucleares não
foi dissipada no limiar do terceiro milênio; ao contrário, cresceu com a disseminação e
a miniaturização da bomba. O potencial de auto-aniquilamento acompanha daqui em
diante a marcha da humanidade.

69
Os novos perigos
A possibilidade de morte ecológica com a dominação desenfreada da natureza pela
técnica conduz a humanidade ao suicídio e ameaça envenenar irremediavelmente o
meio vivo a que pertencemos.A morte reintroduziu-se com virulência em nossos
corpos, que acreditávamos estarem daqui para a frente asseptizados (vírus da
Aids e bactérias resistentes a antibióticos).
As forças autodestrutivas, latentes em cada um de nós, foram particularmente
ativadas, sob o efeito de drogas pesadas como a heroína, por toda parte onde se
multiplica e cresce a solidão e a angústia.
Assim a ameaça paira sobre nós com a arma termonuclear, envolve-nos com a
degradação da biosfera, potencializa-se em cada um de nossos abraços; esconde-se
em nossas almas com o chamado mortal das drogas.

A morte da modernidade
Aprendemos com Hiroshima que a ciência era ambivalente; vimos a razão retroceder
e o delírio staliniano colocar a máscara da razão histórica; vimos que não havia leis da
História que guiassem irresistivelmente em direção ao porvir radiante; vimos que em
parte alguma o triunfo da democracia estava assegurado em definitivo; vimos que o
desenvolvimento industrial podia causar danos à cultura e poluições mortais; vimos
que a civilização do bem-estar podia gerar ao mesmo tempo mal-estar. Se a
modernidade é definida como fé incondicional no progresso, na tecnologia, na ciência,
no desenvolvimento econômico, então esta modernidade está morta.

A esperança
Se é verdade que o gênero humano, cuja dialógica cérebro/mente não está encerrada,
possui em si mesmo recursos criativos inesgotáveis, pode-se então vislumbrar para o
terceiro milênio a possibilidade de nova criação cujos germes e embriões foram
trazidos pelo século XX: a cidadania terrestre. E a educação, que é ao mesmo tempo
transmissão do antigo e abertura da mente para receber o novo, encontra-se no cerne
dessa nova missão.

A contribuição das contracorrentes


O ocaso de século XX deixou como herança contracorrentes regeneradoras.
Freqüentemente, na História, contracorrentes suscitadas em reação às
correntes dominantes podem se desenvolver e mudar o curso dos acontecimentos.

Devemos considerar:
- a contracorrente ecológica que, com o crescimento das degradações e o
surgimento de catástrofes técnicas/industriais, só tende a aumentar;
- a contracorrente qualitativa que, em reação à invasão do quantitativo e da
uniformização generalizada, apega-se à qualidade em todos os campos, a começar
pela qualidade de vida;
- a contracorrente de resistência à vida prosaica puramente utilitária, que se
manifesta pela busca da vida poética, dedicada ao amor, à admiração, à paixão, à
festa;

70
- a contracorrente de resistência à primazia do consumo padronizado, que se
manifesta de duas maneiras opostas: uma, pela busca da intensidade vivida
(“consumismo”); a outra, pela busca da frugalidade e da temperança;
- a contracorrente, ainda tímida, de emancipação em relação à tirania
onipresente do dinheiro, que se busca contrabalançar por relações humanas e
solidárias, fazendo retroceder o reino do lucro;
- a contracorrente, também tímida, que em reação ao desencadeamento da
violência, nutre éticas de pacificação das almas e mentes.

Pode-se igualmente pensar que todas as aspirações que nutriram as grandes


esperanças revolucionárias do século XX, mas que foram frustradas, poderão
renascer na forma de nova busca de solidariedade e de responsabilidade.

Poder-se-ia esperar, igualmente, que a necessidade de volta às raízes, que


mobiliza hoje fragmentos dispersos da humanidade e provoca a vontade de assumir
identidades étnicas ou nacionais, pudesse aprofundar-se e ampliar-se, sem negar-se
a si mesmas, nesta volta às raízes, ao seio da identidade humana de cidadãos da
Terra-Pátria.
Pode-se esperar uma política a serviço do ser humano, inseparável da política
de civilização, que abriria o caminho para civilizar a Terra como casa e jardim comuns
da humanidade.
Todas essas correntes prometem intensificar-se e ampliar-se ao longo do
século XXI e constituir múltiplos focos de transformação, mas a verdadeira
transformação só poderia ocorrer com a intertransformação de todos, operando assim
uma transformação global, que retroagiria sobre as transformações individuais.
(MORIN, 2002)

O poeta come amendoim - Mário de Andrade


PLANETÁRIA
A CIDADANIA

Brasil amado não porque seja minha pátria,


pátria é acaso de migrações e do pão nosso onde Deus der...
Brasil que eu amo porque é o ritmo do meu braço venturoso
O gosto dos meus descansos,
O balanço das minhas cantigas, amores e danças.
Brasil que eu sou porque é a minha expressão muito engraçada,
Porque é o meu sentimento muito pachorrento,
Porque é o meu jeito de ganhar dinheiro, de comer e de dormir.

A noção de pátria comporta identidade comum, relação de filiação afetiva,


costumes, crenças, hábitos, língua e cultura em geral. A concepção de cidadania nasceu
dentro da concretização do Estado-Nação. Hoje nossa realidade nos remete à formação
de blocos econômicos onde se congregam várias nações. Verificamos, então, a
necessidade de conceber a cidadania planetária, partindo de uma consciência e um
sentimento de pertencimento mútuo que nos una à nossa Terra, considerada como
primeira e última pátria.
Todos os humanos, desde o século XX, vivem os mesmos problemas
fundamentais de vida e de morte e estão unidos na mesma comunidade de destino
planetário.

71
Precisamos aprender a ser, viver, dividir e nos comunicarmos como humanos do planeta
Terra.

Devemos inscrever em nós:


- a consciência antropológica, que reconhece a unidade na diversidade;
- a consciência ecológica, isto é, a consciência de habitar, com todos os seres mortais, a
mesma esfera viva (biosfera): reconhecer nossa união consubstancial com a biosfera
conduz ao abandono do sonho prometéico do domínio do universo para nutrir a
aspiração de convivibilidade sobre a Terra;
- a consciência cívica terrena, isto é, da responsabilidade e da solidariedade para com os
filhos da terra;
- a consciência espiritual da condição humana, que decorre do exercício complexo do
pensamento e que nos permite, ao mesmo tempo, criticar-nos mutuamente e
autocriticar-nos e compreender-nos mutuamente.

[...] De toda maneira, a era de fecundidade dos Estados-Nações


dotados de poder absoluto está encerrada, o que significa que é
necessário não os desintegrar, mas respeitá-los, integrando-os em
conjuntos e fazendo-os respeitar o conjunto do qual fazem parte.
[...]
o duplo imperativo antropológico impõe-se : salvar a unidade
humana e salvar a diversidade humana. Desenvolver nossas
identidades a um só tempo concêntricas e plurais: a de nossa etnia,
a de nossa pátria, a de nossa comunidade de civilização, enfim, a de
cidadãos terrestres.
Estamos comprometidos, na escala da humanidade planetária, na
obra essencial da vida, que é resistir à morte. Civilizar e solidarizar a
Terra, transformar a espécie humana em verdadeira humanidade
torna-se o objetivo fundamental e global de toda educação que
aspira não somente ao progresso, mas à sobrevida da humanidade.
A consciência de nossa humanidade nesta era planetária deveria
conduzir-nos à solidariedade e à comiseração recíproca, de
indivíduo para indivíduo, de todos para todos. A educação do futuro
deverá ensinar a ética da compreensão planetária.
(MORIN, 2002).

glossário
Prometéico: Relativo a Prometeu, um titã da mitologia grega.

A saída proposta por muitos analistas é encontrar uma nova base de mudança que deve
apoiar-se em algo que seja global, de fácil compreensão e realmente viável. Essa base deve ser
ética, de uma ética mínima. Essa ética mínima emerge de uma consciência que o ser humano
está conquistando coletivamente de que só tem este planeta para viver e que tem
responsabilidade pelo destino comum.
É fundamental saber sobre a nossa situação social e econômica, sobre as causas reais
da nossa pobreza e exclusão social, privilégios do sistema financeiro nacional e mundial,
exploração do trabalho infantil, menores abandonados, abuso sexual de menores, chacinas de
meninos e meninas de rua, sobre o perigo nuclear que nos ameaça a todos.
O texto solicitado pela Unesco a Edgar Morin, anteriormente transcrito, já busca essa
base de mudança quando reflete sobre a educação do futuro, com esses princípios éticos.
Segundo Paulo Freire, ...“aprender para nós é construir, reconstruir, constatar para mudar, o
que não se faz sem abertura ao risco e à aventura do espírito”.
72
7 A PREVIDÊNCIA SOCIAL NO BRASIL

7.1 Breve histórico


Durante a Primeira República, no campo da legislação social, apenas algumas tímidas
medidas no campo trabalhista e previdenciário foram adotadas, a maioria delas após a
assinatura pelo Brasil, em 1919, do Tratado de Versalhes e do ingresso do País na Organização
Internacional do Trabalho (OIT).

Em 1923 foi criada a Caixa de Aposentadoria e Pensão (CAP) para os ferroviários,


conforme a Lei Eloi Chaves, de 24 de janeiro de 1923. Esse fato é conhecido como o marco
inicial da Previdência Social no Brasil.
A Lei Eloy Chaves tratava especificamente das CAPs das empresas ferroviárias, pois
seus sindicatos eram bem mais organizados e possuíam maior poder de pressão política. O
objetivo inicial era apoiar esses trabalhadores durante o período de inatividade.
Três anos depois, em 1926, ao final da Primeira República, havia pelo menos 47 Caixas,
uns 8 mil operários contribuintes e cerca de 7 mil pensionistas. No entanto, as poucas medidas
tomadas restringiam-se ao meio urbano. No campo, onde vivia a maioria da população, a
pequena assistência social que existia era exercida pelos coronéis. Assim como controlavam a
justiça e a polícia, os grandes proprietários também constituíam o único recurso dos
trabalhadores quando se tratava de comprar remédios, de chamar um médico, de ser levado a
um hospital, de ser enterrado.
A situação de exclusão previdenciária dos trabalhadores do campo e dos empregados
domésticos perdurou até a década de 1970. Por outro lado, nos anos 1930, o crescimento da
população urbana e a ampliação do sindicalismo levaram a uma tendência de organização
previdenciária por categoria profissional, o que fortaleceu as instituições de previdência, que
passaram a ser assumidas pelo Estado, surgindo então os Institutos de Aposentadorias e
Pensões - IAPs.
Rapidamente os institutos representantes de categorias com renda superior se tornaram
politicamente fortes, pois dispunham de mais recursos financeiros e políticos. Tal fato gerou um
problema de distorção entre os diversos institutos, com categorias efetivamente representadas
e outras sub-representadas. Dessa forma, era clara a necessidade de um sistema
previdenciário único, o que só veio a ocorrer em 1960 com a Lei Orgânica de Previdência
Social - LOPS, que unificou a legislação referente aos Institutos de Aposentadorias e Pensões.
Posteriormente, o Decreto-Lei n° 72, de 21 de novembro de 1966, uniu os seis Institutos de
Aposentadorias e Pensões existentes na época, criando o Instituto Nacional de Previdência
Social - INPS.
O INPS unificou as ações da previdência para os trabalhadores do setor privado, exceto
os trabalhadores rurais e os domésticos. No decorrer da década de 1970, a cobertura
previdenciária expandiu-se com a concentração de recursos no governo federal,
especialmente em razão das seguintes medidas:
73
- em 1972, a inclusão dos empregados domésticos;

- em 1973, a regulamentação da inscrição de autônomos em caráter compulsório;

- em 1974, a instituição do amparo previdenciário aos maiores de 70 anos de idade


e aos inválidos não-segurados (idade alterada posteriormente);

- em 1976, extensão dos benefícios de previdência e assistência social aos


empregados rurais e seus dependentes.

Com a Constituição de 1988, foi criado o conceito de Seguridade Social composto pelas
áreas da saúde, assistência e previdência social.

7.2 Previdência Social: seu papel na atualidade e no futuro do Brasil


As informações constantes deste item foram retiradas
da publicação “Previdência e Estabilidade Social” (2005),
elaborada pela equipe do Programa de Educação
Previdenciária do Ministério da Previdência Social.

A Previdência Social constitui-se, hoje, em uma das


políticas sociais mais eficientes do governo federal. Sem
ela, outros 18,1 milhões de pessoas se somariam à
população com renda considerada abaixo da linha da
pobreza. Com seus variados benefícios e sua rede de
grande capilaridade e penetração, a Previdência garante
renda diretamente a 22 milhões de pessoas e, indiretamente, a outros 55 milhões. Isso significa,
segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, que o chamado regime
básico da previdência alcançou cerca de 77,7 milhões de pessoas, o que representa mais de
45% da população brasileira.
A cobertura de riscos sociais, como idade avançada, acidente, doença, maternidade,
reclusão e invalidez, ente outros, assegura reposição de renda aos beneficiários, com garantia
de manutenção do poder aquisitivo, em função da regular reposição periódica da inflação. Por
isso, famílias que possuem idosos têm uma renda média 24% superior às demais.
O papel da Previdência Social é fundamental para a estabilidade social no País. A sua
abrangência, a garantia de renda e a proteção contra os motivos geradores de limitação ou
incapacidade para o trabalho são suas funções obrigatórias.

7.3 Importância da Previdência Social


7.3.1 Anseio popular e dever do Estado
Como viver inclui alguns perigos, as incertezas sobre o amanhã estão sempre a
atormentar os trabalhadores. Ninguém em sã consciência deseja ver a família passar por
necessidades, sem um mínimo de conforto material. Medo de acidentes ou doenças que levem
à morte ou à invalidez, medo da velhice desamparada ou do desemprego são preocupações
que fazem parte do cotidiano dos trabalhadores. A rigor, para o cidadão desprotegido, fatos
naturais como envelhecer - e até ter um filho - podem representar uma aventura bem mais
arriscada do que o desejável. Para evitar o pior, no entanto, não basta apenas querer o melhor.
É preciso também se prevenir.

74
É fundamental assumir alguns cuidados durante o período mais produtivo da vida para
amenizar as adversidades inesperadas e assegurar uma velhice digna e tranqüila.

foto: Cinderela Caldeira

Segurança e tranqüilidade são anseios da maioria da população. E proteger o cidadão,


uma obrigação do Estado. Ciente do seu dever, o Estado oferece uma rede de seguridade onde
se destaca a Previdência Social.
Contribuir para a Previdência Social é se resguardar no presente e preparar o futuro com
esforço próprio. O seguro previdenciário garante uma forma de substituição de salário para
quem adota, com antecedência, a medida de contribuir para o sistema. Isso mantém o cidadão
com capacidade de consumo ao longo da vida, mesmo que ocorram problemas que o impeçam
de trabalhar.

<www.usp.br/.../espaco27jan/ilustras/varia02.jpg>

Estão previstos na Previdência Social benefícios em casos de acidentes (inclusive de


trabalho), de doenças, de morte ou invalidez. Há ainda os amparos à maternidade e aos
dependentes do segurado recluso, além das aposentadorias por idade ou tempo de
contribuição.

75
7.3.2 Gigante desperto
Hoje a Previdência Social paga benefícios a mais de 22 milhões de pessoas por mês. O
total de beneficiários diretos da Previdência é superior às populações do Chile e do Uruguai
somadas.
Estima-se que a Previdência Social, direta e indiretamente, beneficie mais de 77,7
milhões de pessoas, algo em torno de 45% da população brasileira. Isso significa que, além do
próprio beneficiário, existem, em média, outras 2,5 pessoas por família vivendo com os
recursos da Previdência.
Em 2002, a conta da Previdência Social somou mais de R$ 88 bilhões. Esse valor
representou 6,7% das riquezas do país, isto é, do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. No
Nordeste, as transferências da Previdência ultrapassam 10% do PIB da região, e, em alguns
estados, este valor chega a 16,7% do PIB.
Trata-se, portanto, de uma estrutura gigante, mas em nada adormecida, e que precisa
crescer ainda mais para o bem-estar social de parcela expressiva da população.
O sistema paga os benefícios, impreterivelmente, até o décimo dia útil do mês e, a partir
de abril de 2004, até o quinto dia útil do mês. E não há intermediários. O dinheiro sai dos cofres
públicos e segue diretamente para a conta de pensionistas e aposentados. Isso evita, entre
outras distorções, o uso político e o desvio de verbas.

7.3.3 Previdência e combate à pobreza


A redução dos níveis de pobreza durante a década de 1990 ocorreu, fundamentalmente,
a partir da combinação da estabilização econômica com o aumento das transferências de
recursos da Previdência Social.
Para se demonstrar o efeito da Previdência sobre a redução da pobreza, a equipe da
Diretoria de Estudos Sociais – Disoc, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – Ipea,
simulou qual seria o nível atual de pobreza no País e sua evolução, caso não existisse a
Previdência.

O papel da Previdência Social na redução da pobreza, por meio das transferências de


recursos, é fundamental para o País. Mas existe um grande numero de pessoas que não estão
inscritas na Previdência, constituindo-se em uma verdadeira “bomba social”, que irá estourar
nas mãos das próximas gerações caso não sejam incorporadas ao sistema mediante inscrição
e pagamento regular das respectivas contribuições.

7.3.4 Motor dos municípios


A Previdência Social não faz somente com que a vida do trabalhador fique menos
vulnerável aos infortúnios que rondam a atividade produtiva. Vai além: as aposentadorias e
pensões fincam um dos principais pilares da estabilidade social do País. O sistema
desempenha o papel de motor da economia na maioria das cidades do Brasil.
Em 67,8% dos municípios, as transferências previdenciárias superam os repasses do
Fundo de Participação dos Municípios, em outras palavras, ultrapassam os recursos federais
decorrentes da transferência de 22,5% da arrecadação do Imposto de Renda e do Imposto
sobre Produtos Industrializados aos municípios. Mais de 80% dos municípios do Espírito Santo,
Rio de Janeiro, Pernambuco, Ceará e São Paulo se incluem nessa situação.

76
Nesses estados, de cada dez municípios, ao menos oito recebem mais dinheiro da
Previdência do que do FPM. Isso é verdade tanto para as regiões mais ricas quanto para
aquelas com menor nível de renda. Em São Paulo, são 80,5% de municípios em que as
transferências previdenciárias são maiores do que o FPM e, no Piauí, 51,4%. Isso tudo indica
que a economia dos municípios estaria mais emperrada, não fosse a presença da Previdência
Social a injetar recursos por meio dos benefícios previdenciários.
Há ainda uma particularidade da qual poucos têm conhecimento: em mais de 90% dos
municípios brasileiros, o pagamento de benefícios previdenciários é superior à arrecadação da
Previdência no próprio município, o que nos remete à evidente conclusão de que a capacidade
distributiva da Seguridade Social se verifica ainda mais acentuada, ou seja, a Previdência
Social apóia as camadas menos favorecidas da população e as regiões mais carentes do País,
contribuindo para a realização do princípio contido no art. 3º, III da Constituição, a saber: “Art. 3º
Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: (...) III - erradicar a
pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais”.

7.3.5 Ascensão social dos idosos


A Previdência Social é a principal responsável pela estabilidade social no Brasil, pois
protege elevada parcela da população idosa e, conseqüentemente, suas famílias. Os idosos
formam o grupo mais forte dentro do sistema. Cerca de 78% da população brasileira com idade
igual ou superior a 60 anos recebe algum benefício previdenciário. À medida que a população
envelhece, aumenta essa relação: 91,1% das pessoas com 70 anos ou mais de idade são
beneficiários.
Esse amparo da Previdência Social aos mais velhos faz com
que os idosos do Brasil, ao contrário do que se observa em
outros países latino-americanos, possuam uma situação
socioeconômica melhor do que os mais jovens. Isso explica em
grande parte um fenômeno que marca atualmente o interior do
país: a ascensão social dos idosos.

Na área rural vivem aproximadamente 7


milhões de beneficiários da Previdência, que
sustentam quase 25 milhões de pessoas.
<brigadasinternacionais.blogspot.com>

Lembre-se de que, na área rural, estão incluídas as populações indígenas, quilombolas,


ribeirinhos, seringueiros, entre outros. Os recursos da Previdência se incorporam à lógica
cultural e socioeconômica desses diferentes grupos, contribuem para a valorização dos idosos
e são utilizados na realização de rituais e festas religiosas, garantindo segurança às famílias em
um contexto econômico de sazonalidade e incerteza dos ingressos provenientes do
extrativismo.
Ao agir, ainda que indiretamente, no combate à pobreza e na sustentação dos
rendimentos dos mais carentes, a Previdência Social vem ganhando contornos de um imenso
programa de renda mínima desde a década passada.

7.3.6 Nível de proteção social no Brasil


Os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – PNAD/IBGE 2003 revelam
que existem 27 milhões de trabalhadores entre 16 e 59 anos socialmente desprotegidos – isto é,
que não contribuem para a Previdência Social, não recebem nenhum benefício e não se
enquadram na categoria de segurados especiais. Os trabalhadores que contam com proteção
social, por sua vez, são 44,8 milhões.

77
A desproteção social
é maior entre os
trabalhadores domésticos
e os trabalhadores por
conta-própria, superando
os 65%.

Dos 27 milhões de trabalhadores sem proteção social, 9,8 milhões têm rendimentos
oriundos do trabalho inferiores a um salário mínimo, dificilmente terão possibilidade de
contribuir e, dessa maneira, consistem no público potencial de políticas de combate e
superação da pobreza. Por sua vez, aproximadamente 16,9 milhões de trabalhadores recebem
renda igual ou superior ao valor de um salário mínimo e poderiam ser incorporados ao sistema
previdenciário clássico (contributivo). Essa incorporação é fundamental, pois no futuro, caso
não tenham acumulado renda suficiente, tais trabalhadores dependerão ou da família ou de
benefícios assistenciais, onerando toda a sociedade.

7.3.7 Mobilizar para incluir


O sistema previdenciário envolve uma enorme massa de recursos e de obrigações. Para
que ele se perpetue, é necessário que cada participante contribua com uma parcela da renda no
decorrer da vida ativa.
Caso o cidadão receba uma aposentadoria sem ter, em algum momento, contribuído
para ela, o sistema como um todo arcará com a conta desse benefício, na medida em que os
recursos terão de ser retirados de outros contribuintes.
O expressivo aumento na concessão de benefícios para idosos a partir da Constituição
de 1988 não foi acompanhado por uma expansão do ingresso de trabalhadores ativos na
Previdência Social.
Pode-se argumentar apressadamente que ninguém “vive de amanhã”. Contudo, ainda
não se conheceu indivíduo que esteja absolutamente imune a acidentes, a doenças, à velhice
ou ainda à morte precoce. Assim, mesmo no presente, o trabalhador que não estiver
resguardado pela Previdência corre o risco de – ao perder a capacidade de trabalho, temporária
ou permanentemente, devido a doenças e a acidentes – colocar a si e a família numa situação
vulnerável.
A elevação da longevidade significa que as pessoas estão vivendo cada vez mais. Isso
pode ser comprovado pela expectativa de vida do brasileiro, que era de 42 anos na década de
1940, passando para 71,3 anos em 2003. A despeito desse extraordinário avanço social, a
expectativa de vida no Brasil ainda é fortemente influenciada pelas elevadas taxas de
mortalidade infantil. Desconsiderando o efeito da mortalidade infantil – o que remete ao
conceito de expectativa de sobrevida – a longevidade é ainda maior. Por exemplo, uma pessoa
que já atingiu 55 anos tem uma expectativa de sobrevida de 24,3 anos, isto é, possivelmente
viverá até os 79,3 anos (55 anos + 24,2).

78
A taxa de fecundidade indica o número médio de filhos que uma mulher em idade fértil
possui. Em 1960, cada mulher tinha, em média, 6,2 filhos. Esse indicador caiu para 2,1 em
2003, atingindo pela primeira vez a chamada taxa de reposição – isto é, aquela que garante
apenas a manutenção do tamanho de uma população.
A combinação do aumento da longevidade com a redução da fecundidade fez com que a
parcela da população brasileira com mais de 60 anos passasse de 4% para 8,6%, no período de
1940 a 2000, com previsão de alcançar 15% em 2020.
Além dos aspectos demográficos, as mudanças no mercado de trabalho também estão
intimamente relacionadas com a Previdência Social. O grau de informalidade das relações de
trabalho vem se mostrando um fenômeno duradouro nos últimos anos. Ressalta-se que o
contingente de trabalhadores sem carteira e por conta própria passou, ao longo da última
década, por um processo de flexibilização das relações de trabalho a partir da reestruturação
produtiva das empresas. Trata-se de um fenômeno estrutural de mudanças no mercado de
trabalho, que tem exigido o redesenho das políticas sociais em todo o mundo.

7.3.8 Programa de Educação Previdenciária


O Programa de Educação Previdenciária – PEP, instituído pela Portaria Ministerial nº.
1.671/00 e reestruturado pelas Portarias GM nº. 409/2003 e 1.276/2003, vem desenvolvendo
ações com vistas ao cumprimento de seu objetivo, que é o de informar, conscientizar a
sociedade acerca de seus direitos e deveres em relação à Previdência Social, com vistas à
ampliação da cobertura previdenciária.
Trata-se de uma campanha educativa voltada para a inclusão de cerca de 27 milhões de
trabalhadores que não têm acesso aos benefícios e serviços da Previdência Social por não
estarem vinculados ao regime, segundo estatísticas oficiais. Nesse sentido, o PEP assume
caráter educativo, informativo e de conscientização desses trabalhadores acerca da
importância da Previdência Social em suas vidas e dos benefícios e serviços oferecidos,
contribuindo para o cumprimento de um dos objetivos da seguridade social inserido na
Constituição Federal, que é a universalidade da cobertura e do atendimento.
Em vez de esperar pela sociedade em seus balcões de atendimento, a prática é de ir ao
encontro do cidadão para informá-lo sobre o caráter imprescindível da Previdência na vida das
pessoas. Os comitês estão indo às escolas, às feiras livres, às ruas, aos campos, às praias, às
prisões, às tribos indígenas, entre outros lugares. Além disso, estão realizando ações na mídia
e celebrando acordos de cooperação técnica e administrativa com segmentos da sociedade
civil organizada, tudo para garantir ao cidadão o direito, sagrado, à informação.

No centro da cidade e no
mercado municipal,
cidadãos recebem
orientações sobre a
importância da Previdência
Social na vida dos
trabalhadores. A ação foi
realizada em comemoração
aos 81 anos da
Providência Social.
Local: Rio branco/AC - Data: janeiro de 2004
Comitê Regional de Rio Branco/AC
79
O Programa de Educação Previdenciária (PEP) é parceiro do Programa de Educação
Fiscal e possui 102 comitês regionais e 1.147 comitês locais regionais espalhados por todos os
estados do Brasil. Para localizar o comitê mais próximo de sua escola, sindicato ou entidade
social, consulte o sítio eletrônico do programa no seguinte endereço:
<www.previdenciasocial.gov.br>; clique em “trabalhador sem previdência” e em seguida
acesse a janela do Programa de Educação Previdenciária.

http://www.paulofreire.org/cartat.htm
4

7.3.9 Construir um futuro melhor


Aprofundar o debate construtivo sobre as causas dos sem-previdência no Brasil a fim de
encontrar soluções perenes para o problema não é obrigação só do governo, mas também da
sociedade. A questão é grave e a solução exige solidariedade. O nó a que o sistema está
aprisionado só será desatado com a participação dos mais variados segmentos da sociedade
civil.
Aumentar a proteção social é um desafio que transcende o período de um ou dois
governos, perpassando gerações. Por isso, é necessário um pacto social consistente, que
mobilize um mutirão nacional para viabilizar o sistema previdenciário frente aos desafios do
futuro.
Aderir ao sistema previdenciário e informar aos demais cidadãos a importância desse
ato – seja em casa, nos bairros, nos sindicatos, nas escolas, nos locais de trabalho e lazer – é
agir e torcer por um amanhã mais tranqüilo e menos desigual para o Brasil.

80
8 ÉTICA
8.1 Entendendo o que é ética
Em sua obra Ética, o filósofo Adolfo Sánchez Vásquez (1992) nos
ensina que a moral, vocábulo derivado do latim, mores, significa os
costumes praticados habitualmente numa sociedade, enquanto a ética
“é a teoria ou ciência do comportamento moral dos homens em
sociedade”. Ou seja, a ética é a reflexão sobre os mores, sobre os
<www.jornada.unam.mx>

hábitos adotados nas relações humanas, é a filosofia da moral, é um


éthos, vocábulo grego que nos remete à idéia de caráter ou modo de ser
reflexivo do homem inserido na comunidade (VÁSQUEZ, 1992, p.14).
De fato, o comportamento humano prático-moral remonta à nossa
própria origem social, já estando presente nas comunidades primitivas.
Muitos milênios depois, além de agir moralmente, o homem passa a
Adolfo Sánchez
Vásquez refletir sobre seu comportamento em sociedade. Dá-se assim a
passagem do plano da prática moral para o da teoria moral. Essa
passagem coincide com o surgimento do pensamento filosófico que assim fez surgir a esfera de
problemas teórico-morais ou éticos (Idem, p.7).
Como disciplina teórica, a ética procura tratar criticamente o comportamento dos seres
humanos considerado em sua totalidade e diversidade: “O que nela se afirme sobre a natureza
ou fundamento das normas morais deve valer para a moral da sociedade grega ou para a moral
que vigora de fato numa comunidade humana moderna” (Idem, p.11).
Por exemplo, o modo como a mulher é tratada no Islamismo ou a própria existência de
escravos no mundo antigo fazem parte da moral, de um modo de ser
histórico, mas não é um modo de ser ético, isto é, não passa pelo crivo da
filosofia da moral, que é, antes de tudo, uma filosofia crítica sobre a
moral.
Em suma, a idéia de ética é inseparável da idéia de justiça na
comunidade humana. A história da cidadania se mescla com a própria
evolução histórica da democracia e dos direitos humanos. Como anota

<jus2.uol.com.br>
Ana Cristina da Silva IATAROLA (2006), “A cidadania como noção de
direitos e deveres do homem em comunidade somente pode ser vista a
partir dos direitos humanos e da idéia de justiça” (IATORALA, 2006,
p.105). Ana Cristina da
Para a filósofa brasileira Marilena Chauí (1999), o campo ético é Silva Iatarola
constituído por dois pólos que se inter-relacionam: o agente ou sujeito
moral e os valores morais ou virtudes éticas. São condições inerentes ao sujeito moral:

- ser consciente de si e dos outros, isto é, ser capaz de refletir antes de agir e de reconhecer os
outros como sujeitos éticos à sua semelhança; o agir ético se completa na pessoa do outro;
- ser dotado de vontade, isto é, ser capaz de conter seus impulsos (desejos) e agir segundo a
razão (consciência), decidindo entre as alternativas possíveis por aquela que realiza o bem mais
elevado a ser tutelado;
- ser responsável, isto é, ser capaz de avaliar as conseqüências de sua ação não só para si, mas
para todos os que serão afetados pelo seu agir, assumindo essas conseqüências e respondendo
por elas;
- ser livre, que, por um lado, é não se submeter a poderes externos que lhe forcem ou causem
constrangimento; por outro, é desenvolver a capacidade de agir com autonomia, isto é, de
autogovernar-se, traçando para si mesmo as regras que irão presidir sua conduta.

81
A ética impõe ao sujeito moral uma exigência de se tornar ativo ante a realidade social
que o cerca. O sujeito moral, portanto, não é um objeto sobre o qual todas as influências e
determinações externas são exercidas. O sujeito moral é um ser livre, autônomo e responsável
pelos próprios atos:

Passivo é aquele que se deixa governar e arrastar por seus


impulsos, inclinações e paixões, pelas circunstâncias, pela
boa oumá sorte, pela opinião alheia, pelo medo do outro, pela
vontade deum outro, não exercendo sua própria consciência,
vontade, liberdade e responsabilidade(CHAUÍ, 1999, p. 338).

Marilena Chauí

Para a autora de Convite à Filosofia, o sujeito moral ativo ou virtuoso é

... aquele que controla interiormente seus impulsos,


suas inclinações e suas paixões, discute consigo
mesmo e com os outros o sentido dos valores e dos
fins estabelecidos, indaga se devem e como devem
ser respeitados ou transgredidos por outros valores e
fins superiores ao existente, avalia sua capacidade
para dar a si mesmo suas regras de conduta, consulta
sua razão e sua vontade antes de agir, tem
consideração pelos outros sem se subordinar nem se
submeter cegamente a eles, responde pelo que faz,
julga suas próprias intenções e recusa a violência
contra si e contra os outros. Numa palavra, é
autônomo” (Idem, p. 338).
Essa idéia de autonomia está diretamente relacionada à idéia de democracia e
república, pois não se constrói um Estado Democrático de Direito sem a participação ativa e
crítica de todos os cidadãos; não se defende a coisa pública num ambiente de violência, de
afronta à dignidade humana. Como ciência do comportamento moral, cabe à ética enunciar o
que é bom, justo, virtuoso, ou seja, aquilo que nos leva à busca da felicidade, aqui entendida
como a felicidade plural, coletiva, capaz de nos conduzir a um patamar superior de dignidade
humana.
A dignidade da pessoa humana é primado fundamental de nossa Constituição cidadã,
inscrito no seu art. 1°. Por isso, é essencial que façamos uma reflexão sobre as virtudes éticas,
que tenhamos consciência do seu significado, a fim de que possamos balizar nossa ação moral,
seja na vida profissional, seja nas relações sociais ou familiares.
Ser virtuoso em um ambiente democrático e participativo é colocar-se na perspectiva do
outro. É desenvolver a sublime sabedoria de compreender o que se passa na alma do outro. É
agir com a firme e desinteressada intenção de suavizar a aflição dos que sofrem. É ter
sabedoria e humildade para entender que só nos realizamos enquanto seres humanos pelo
olhar do outro, que nos molda e nos define. São virtudes essenciais ao exercício da vida em
sociedade.

82
8.2 O Estado que desejamos
Na idealização do Estado que desejamos, podemos observar os princípios e valores
éticos contidos na Carta da Terra, que parte de uma visão ética integradora e holística,
considerando as interdependências entre pobreza, degradação ambiental, injustiça social,
conflitos étnicos, paz, democracia, ética e crise espiritual.

Seus formuladores (Comissão internacional, criada no Foro Rio+5, RJ, 1997) dizem-no
claramente:

A Carta da Terra está concebida como uma declaração de princípios éticos


fundamentais e como um roteiro prático de significado duradouro,
amplamente compartido por todos os povos. De forma similar à Declaração
Universal dos Direitos Humanos das Nações Unidas, a Carta da Terra será
utilizada como um código universal de conduta para guiar os povos e as
nações na direção de um futuro sustentável.

Transcrevemos a seguir os princípios fundamentais da Carta da Terra:

respeitar e cuidar da comunidade de vida

- respeitar a Terra e a vida com toda a sua diversidade;


-cuidar da comunidade de vida com compreensão, compaixão e
amor;
-construir sociedades democráticas, justas, sustentáveis,
participatórias e pacíficas;
- assegurar a riqueza e a beleza da Terra para as gerações futuras.

integridade ecológica

- proteger e restaurar a integridade dos sistemas ecológicos da Terra,


com especial preocupação com a diversidade biológica e com os
processos naturais que enriquecem a vida;
- prevenir o dano ao ambiente como melhor método de proteção
ambiental e, quando o conhecimento for limitado, tomar o caminho da
prudência;
- adotar padrões de produção, consumo e reprodução que protejam as
capacidades regenerativas da Terra, os direitos humanos e o bem-estar
comunitário;
- aprofundar o estudo da sustentabilidade ecológica e promover a troca
aberta e ampla aplicação do conhecimento adquirido.

83
justiça social e econômica

- erradicar a pobreza, como um imperativo ético, social, econômico e


ambiental;
- garantir que as atividades econômicas e instituições, em todos os
níveis, promovam o desenvolvimento humano de forma eqüitativa e
sustentável;
- afirmar a igualdade e a equidade de gênero como pré-requisitos
para o desenvolvimento sustentável e assegurar o acesso universal
à educação, ao cuidado da saúde e às oportunidades econômicas;
- apoiar, sem discriminação, os direitos de todas as pessoas a um
ambiente natural e social capaz de assegurar a dignidade humana, a
saúde corporal e o bem-estar espiritual, dando especial atenção aos
povos indígenas e às minorias.

democracia, não-violência e paz

- reforçar as instituições democráticas em todos os níveis e garantir-


lhes transparência e credibilidade no exercício do governo,
participação inclusiva na tomada de decisões e no acesso à justiça;
- integrar na educação formal e na aprendizagem ao longo da vida os
conhecimentos, os valores e habilidades necessários para um modo
de vida sustentável;
- tratar todos os seres vivos com respeito e consideração.

Conclui a Carta: “Que o nosso tempo seja lembrado pelo despertar de uma nova reverência em
face da vida, por um compromisso firme de alcançar a sustentabilidade, pela rápida luta pela
justiça e pela paz, e pela alegre celebração da vida”.

O processo da Carta da Terra está estruturado da seguinte forma:

- Comissão Internacional, composta por 23 membros representando as regiões da África e


Oriente Médio, América Latina e Caribe, América do Norte, Ásia e Pacífico, e Europa;
- Comitê Executivo Internacional, composto por cinco membros, sendo um de cada região,
respectivamente: Amadou Toumani Touré (África), Mercedes Sosa (América Latina), Maurice
Strong (América do Norte), Kamla Chowdhry (Ásia) e Mikhail Gorbachev (Europa);
- Secretariado Internacional, com sede em San José, Costa Rica, no Conselho da Terra;
- Equipe Internacional de Redação, sob a coordenação de Steven Rockefeller;
- Equipe Internacional de Apoio, composta por organizações não-governamentais de
abrangência mundial;
- Comissões Executivas Continentais, compostas por representantes das Comissões
Nacionais, em cada região;
- Comissões Nacionais, compostas por organizações governamentais e não-governamentais
em cada país;
- Estruturas locais, criadas pelas Comissões Nacionais, a partir da realidade organizacional
de cada país;
- Conferências temáticas, organizadas em nível local, nacional ou mundial para promover a
consulta dentro de algum setor específico, ampliando a participação do maior número
possível de pessoas na elaboração da Carta da Terra.

Para mais informações consulte o sítio:<www.cartadaterra.org.br>.

84
REFERÊNCIAS
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VASQUEZ, Adolfo Sánchez. Ética. 21.ed. São Paulo: Civilização Brasileira, 2001.

87
Legislação pertinente
Lei nº 11.340, de 7 de agosto de 2006. Lei Maria da Penha

Lei nº 10.741, de 1º de outubro de 2003. Estatuto do Idoso

ECA.
- Lei nº 10.639/03
Altera a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e
bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da rede de ensino a
obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-brasileira”, e dá outras
providências.

- Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais


e para o Ensino da História e Cultura Afro-brasileira e Africana – 2004.
Deliberação do Conselho Estadual de Educação do Paraná – 04/06
Normas complementares às Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação
das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino da História e Cultura Afro-brasileira
e Africana.

Lei nº 9.795, de 27 de abril de 1999, dispõe sobre a educação ambiental, institui a


Política Nacional de Educação Ambiental e dá outras providências.

Diretrizes Operacionais para a Educação Básica das Escolas do Campo.


CNE/MEC, Brasília, 2002.

88
Sítios
Relação de sítios da internet que possibilitam ao leitor ampliar e aprofundar a
abordagem dos conteúdos desenvolvidos neste caderno.

Obs.: Todos os endereços foram consultados em fevereiro de 2008.


http://www.acordacultura.org.br - Este sítio objetiva realçar a expressiva contribuição da
cultura negra na formação de nossa nacionalidade.
http://www.cCAartadaterra.org/. - Sítio das organizações sociais brasileiras que defendem
e divulgam os princípios da Carta da Terra em favor do desenvolvimento sustentável do
planeta. Destaque para a publicação “Carta da Terra para Crianças”, escrita e ilustrada em
linguagem acessível aos nossos cidadãos mirins e disponível para download.

www.cepal.org - Comissão Econômica para a América Latina e Caribe dedicada a estudos


e pesquisas sobre as perspectivas econômicas e sociais de nossa região.

www.genus.org.br - Instituição da sociedade civil que luta contra a discriminação de


gênero, sexo e orientação sexual.

www.ibge.gov.br. – Acesse as estatísticas econômicas, sociais, populacionais do Brasil,


estados e municípios. Localize no mapa e conheça um pouco mais a respeito de todos os
países do mundo, estados ou municípios de nosso país.

www.mulheresnegras.org - Objetiva contribuir para a emancipação política, econômica e


cultural e conseqüente melhoria da qualidade de vida das mulheres negras brasileiras, da
população afrodescendente e dos brasileiros em geral.

www.palmares.gov.br - Fundação Cultural Palmares, entidade pública vinculada ao


Ministério da Cultura, cuja missão corporifica os preceitos constitucionais de reforços à
cidadania, à identidade, à ação e à memória dos segmentos étnicos dos grupos
formadores da sociedade brasileira, somando-se, ainda, o direito de acesso à cultura e a
indispensável ação do Estado na preservação das manifestações afro-brasileiras.

www.paulofreire.org - Sítio do Instituto Paulo Freire, dedicado à vida, obra e legado do


grande educador brasileiro.
www.planalto.gov.br/seppir - Sítio oficial da Secretaria Especial de Políticas de Promoção
da Igualdade Racial da Presidência da República.
www.socioambiental.org.br - Sítio do Instituto Socioambiental, entidade dedicada à
preservação ambiental e defesa dos direitos dos povos indígenas do Brasil. Possibilita
pesquisa a respeito da localização, língua e costumes de nossas nações indígenas.
Destaque para o link que permite o acesso a mais de 80 sítios que tratam da tradição, arte,
cultura, condição social, econômica, demográfica desses povos.

www.unicef.org.br - Fundo das Nações Unidas para a Infância. Destaque para a


apresentação do Relatório de Desenvolvimento Infantil.
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90
ESAF