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Luciana
Andrade

O Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Minas Gerais


completou 50 anos e, ao longo do ano de 2016, estão ocorrendo seminários e eventos
comemorativos. No dia 11 de agosto, realizou-se a mesa “Desafios da institucionalização
da agenda feminista e de Gênero no DCP/UFMG”, com as presenças das Professoras
Magda Neves (PUC Minas), Solange Simões (Univsersity of Eastern Michigan) e Marlise
Matos (PPGCP/UFMG). Além da participação do Professor Cristiano Rodrigues
(DCP/UFMG).

Apesar de todas as dificuldades ainda presentes – que não diferem dos demais
departamentos nas universidades[1], o DCP está na vanguarda no debate de Gênero e a
institucionalização destes estudos na Pós-Graduação. Atualmente “Gênero,
Reconhecimento e Feminismo” é uma das linhas de pesquisa do Programa de Pós-
Graduação em Ciência Política e engloba diferentes pesquisas que têm Gênero como
lente teórica, empírica, política, militante. Movimentos trans*, mulheres e meio rural, a
representação midiática dos movimentos feministas, violência contra as mulheres,
feminicídio, movimentos autônomos de mulheres, a questão racial, são alguns dos
temas que vêm sendo pesquisados no âmbito do programa.

Conversamos um pouquinho com as Professoras Marlise Matos e Solange Simões para


conhecer um pouco mais sobre essa história. Abaixo a entrevista para vocês.

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Como foi, Marlise, a sua chegada à Ciência Política, a sua trajetória com os
estudos de Gênero?

Marlise Matos: Eu tenho uma trajetória de caráter muito interdisciplinar. Na


graduação eu fiz Psicologia aqui na UFMG, no mestrado eu fiz Teoria Psicanalítica na
UFRJ, depois o doutorado em Sociologia no IUPERJ. Nesse percurso todo, desde a
graduação, a questão central e o debate que acompanha essas mudanças, Gênero foi
ponto de convergência, foi o fio condutor da minha trajetória. Então, me descubro
feminista já na graduação. Não havia como a gente tem hoje, movimentos organizados
dentro da universidade, era uma pessoa ali e outra aqui. E na época, por coincidência,
Sandra Azeredo, que é da Psicologia, e que foi uma das precursoras importantes,
coordenadora do NEPEM, no período que eu estava fazendo a graduação, ela estava
fazendo o doutorado fora, então eu não a conheci. Então não me envolvi diretamente na
universidade, na graduação, com questão acadêmica feminista. Mas eu era feminista
por conta da minha trajetória pessoal, de ter lido Simone de Beauvoir com 18 anos,
então, assim, entrei por ai. E toda a discussão da minha formação tem muito a ver com
a questão das mulheres. Então, o meu trabalho com a agenda dos estudos de Gênero é
algo que é o meu fio condutor. Eu me sinto à vontade nesse campo de estudos e nessa
área de produção do conhecimento. Mais do que ser uma Socióloga, mais do que ser
uma Cientista Política, mais do que ser Psicóloga, eu me sinto uma Feminista
Acadêmica. E eu trabalho a minha produção muito mais orientada pelo campo dos
estudos feministas e dos estudos de Gênero. Então eu acho que esse é o lugar que eu me
encontro, que eu me reconheço como acadêmica, como alguém que faz pesquisas, como
alguém que faz extensão, como alguém que leciona. Então, de fato, é a área da minha
produção e é aonde realmente eu me encontro e que eu me reconheço como acadêmica.

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E você, Solange, como foi essa inserção nos estudos de Gênero aqui no DCP
na década de 80, quando você ainda era estudante de mestrado?

Solange Simões: Uma questão importante de ser mencionada é o reconhecimento de


que havia desigualdade de gênero não só na sociedade em geral, mas dentro dos
movimentos de esquerda, isso é fator constitutivo importante para a organização das
mulheres tanto em termos de militância feminista quanto para as mulheres acadêmicas,
que combinavam as duas coisas. Uma produção do conhecimento feminista e a
organização feminista para a transformação da sociedade. E este é um elemento
internacional. Acontece na Europa, nos Estados Unidos, que acontece em vários
contextos, de um momento onde a centralidade era dada à classe social, às questões
socioeconômicas, e as questões de Gênero não tinham visibilidade e eram até negadas,
em muitas medidas. Então, isso eu acho que é um fator comum à emergência do
feminismo tanto acadêmico quanto de militância, não só no Brasil como no mundo. E
aqui no DCP, nessa época, era exatamente isso. Eu estava muito envolvida com o
movimento sindical, com o sindicato dos professores, com a formação do PT. Mas,
naquele momento, há o assassinato da Ângela Diniz. E se começam manifestações
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contra esse tipo de discriminação absurda contra as mulheres na sociedade brasileira,
como o “crime de honra”, contra o assassino dela, o Doca Street, por ele ter sido
absolvido. E depois também o movimento feminino pela anistia. A minha primeira
entrada no feminismo foi através do feminismo socialista. E o primeiro curso que eu
tive no DCP, que foi claramente um curso sobre relações de gênero e feminismo, foi
ofertado pela Professora Celina Albano, da Sociologia, e o Professor Marcos Coimbra,
da Ciência Política. Então, naquele momento, eu acho que era uma descoberta de uma
dimensão a mais nas várias desigualdades, que não estava sendo abordada.

Marlise, e ao longo desses dez anos que você está na Ciência Política, como
você avalia a institucionalização dos estudos de Gênero?

Marlise Matos: A Associação Brasileira de Ciência Política vai fazer um livro de


memórias da institucionalização do campo, e eu fui convidada pelo Presidente da ABCP
para escrever um capítulo sobre a institucionalização dos estudos de Gênero. Para isso,
eu avaliei 20 anos de produção de artigos científicos em nove revistas acadêmicas da
área das ciências humanas e sociais e avaliei 16 anos de produção de teses e
dissertações da área de Gênero na Ciência Política. Feito isso, é muito evidente ver que a
partir de 2004, 2005, há, de fato, uma institucionalização destes estudos. Primeiro, o
que a gente pode obsevar que a presença feminina no campo ainda é infinitamente
maior na produção de artigos e com ainda mais força na produção de teses e
dissertações, que tem pouquíssimos homens, o que não deveria ser em minha opinião.
Eu acho que não é patrimônio e exclusividade das mulheres o debate feminista e de
gênero. E você consegue traçar essa institucionalização a partir da trajetória individual
de algumas pessoas. Há uma concentração muito forte na minha pessoa e na Professora
Flávia Biroli, da UNB. Então nós duas, sem dúvida nenhuma, somos as duas pessoas
que estão tomando essa frente aí de trazer, de fato, a questão de Gênero e feminista
para dentro da Ciência Política. Agora, nada disso acontece em céu de brigadeiro.
Porque aqui na Ciência Política acontece como sempre aconteceu nas outras áreas, hoje
isso não acontece com tanta frequência na Sociologia e na Antropologia, acredito eu,
mas, durante muito tempo, no começo dessa institucionalização se discutia se isso era
ciência ou não era ciência. Se esse conhecimento feminista era uma militância e não era
uma ciência propriamente dita, né. Então, a gente ainda tem que ouvir, na própria
Ciência Política, questionamentos nessa direção, de que isso não é um campo científico,
é um campo de ativismo, é um campo de militância. O que em minha opinião, é uma
leitura absolutamente rasteira, equivocada e enviesada. Mas há o reconhecimento de
algumas figuras muito importantes de que “o que há de novidade, de originalidade no
campo da teoria democrática, são as feministas que estão fazendo”. Portanto, há o
reconhecimento da produção acadêmica feminista como uma produção de ponta no
conhecimento político hoje no mundo. E aqui no Brasil eu não acho que é diferente, eu
acho que a gente está indo na mesma toada.

E você Solange, como avalia essa institucionalização dos estudos de Gênero


nos Estados Unidos, que é o seu campo de atuação?

Solange Simões: Eu já estou nos Estados Unidos há vinte anos. Sou professora de um
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Departamento de Sociologia e de um Departamento de Estudos da Mulher e de Gênero.
Realmente eu acompanhei essa trajetória mais lá do que aqui, apesar de continuar
trabalhando com Neuma Aguiar e com a Marlise[2]. Então, essa discussão pra mim, no
contexto americano, ela é muito mais presente. E é uma discussão bastante diferente do
que acontece aqui no Brasil. Nos Estados Unidos você tem a constituição de programas
primeiro, e departamentos. O que está acontecendo hoje nos Estados Unidos é a grande
preocupação com os novos rumos, com o que vai acontecer com esses programas e esses
departamentos de estudos de gênero e mulher. E em que medida eles ainda continuam,
de certa maneira, marginais dentro das universidades. Em que medida que esses
departamentos estão sendo reconhecidos, ou seja, que estudos de gênero estão sendo
reconhecidos como uma nova disciplina e não apenas como uma empreitada
multidisciplinar. Há uma tentativa, agora, de fazer com que os professores que
lecionam nesses departamentos de estudos de Gênero e Mulher sejam aqueles com
doutorado em Estudos de Gênero e da Mulher. Mas com isso, é um tiro pela culatra,
porque você acaba com esse caráter multidisciplinar que constituiu esses programas e
esses departamentos. Porque atualmente, nesses departamentos, você tem professores
de todos os departamentos/programas da Universidade e você tem alguns professores
que também são do departamento, como é o meu caso. A grande maioria são
professores de todos os departamentos das várias áreas. Que seja da área de Saúde,
Psicologia, Ciências Sociais, Economia, etc, que dão cursos sobre Gênero e Feminismo e
que compõem o corpo do departamento. Agora, com essa progressão do Gênero, dos
estudos de Gênero nas universidades americanas, você tendo pessoas com doutorado
sendo contratadas, isso significa, hoje, que só pode dar aula sobre Estudos de Gênero e
da Mulher, quem fez o doutorado. Ou seja, com isso, você acaba com o caráter
multidisciplinar. Na minha opinião, eu acho que isso é um problema seríssimo. Porque
eu acho que o caráter multidisciplinar é constitutivo do conhecimento feminista. E se
você hoje acha que o conhecimento de gênero vai ser gerado, principalmente e alguns
acham que até exclusivamente, por aqueles com formação, com diploma, doutorados
em Estudos da Mulher e de Gênero, nós temos ai um impasse muito grande. Ai temos
impasses não só em termos do tipo de conhecimento que vai ser gerado, mas também
institucionalmente, porque pra mim é o enfraquecimento desses programas e
departamentos. Eu acho que este é um caminho que tem que ser avaliado de maneira
muito crítica. Para algumas feministas que defendem a criação desses departamentos
desta forma, é que estes tipos de cursos é que possibilitariam a produção do
conhecimento de uma forma multidisciplinar. Não apenas multi, mas interdisciplinar.
Eu acho extremamente questionável e problemático. Eu não estou questionando você
ter um diploma em Estudos da Mulher e de Gênero, o que eu estou questionando aqui,
é a concepção de que agora o quadro de professores desse departamento deve ser
composto apenas por professores com doutorado em Programas de Estudos da Mulher
e de Gênero. Isso pode afetar o caráter multidisciplinar da disciplina e em termos
organizacionais, você ficar muito isolado, com um departamento muito pequeno e com
pouca visibilidade. Esses cursos cresceram muito nos Estados Unidos justamente
porque contam com a força de todos os professores, de todos os departamentos, que
pesquisam e querem dar aula sobre Gênero e Feminismo.
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E como foi pra você, Solange, uma mulher brasileira, que estuda teorias de
Gênero, ir dar aula nos Estados Unidos? Como é essa experiência?

Solange Simões: Eu fui para os Estados Unidos pela Fulbright, como professora
visitante, para a Universidade de Michigan, Center for Political Studies. Inicialmente eu
não trabalhei com a questão de Gênero. Eu fiz o meu doutorado na Inglaterra, e quando
voltei para o Brasil havia aqui a necessidade de uma maior formação em metodologia de
Survey e eu fui para os Estados Unidos com esse objetivo, com essa bolsa da Fulbright,
e acabei me envolvendo num Survey comparativo internacional sobre questões
ambientais globais. Então a minha inserção foi mais pelo método e depois
evidentemente me interessei também pelo tema. Mas, quando eu tive a oportunidade
de fazer esse concurso, para ter essa posição dupla, de Departamento de Sociologia e de
Departamento de Estudos de Gênero e da Mulher, foi uma oportunidade pra mim de
voltar mais à temática de Gênero, porque eu trabalho com outras temáticas também na
Sociologia como a temática da classificação racial, questão das estruturas de classes.
Então foi uma oportunidade de voltar a dar mais ênfase nos meus trabalhos às questões
de Gênero e desigualdade. E pra mim foi uma grande oportunidade porque eu passei a
trabalhar muito na questão internacional comparativa sobre a perspectiva de estudos
de gênero e feministas, e foi um espaço bastante importante tanto do ponto de vista da
academia quanto também para minha militância. Eu represento a Sociologists for
Women in Society, no UN Economic and Social Council da ONU, e tem uma reunião
anual em Nova Iorque do Economic and Social Council, onde há participação de
feministas de todo o mundo, você tem ali como parte do Economic and Social Council o
CEDAW, o Committee on the Elimination of Discrimination against Women, é
realizada uma grande reunião com o tema sobre a desigualdade de gênero no mundo, e
eu tenho a oportunidade de participar. Então pra mim essa vinculação entre os cursos
que eu dou, o tipo de pesquisa que eu faço, e ai uma possibilidade de militância com
mulheres do mundo inteiro, que eu acho super legal, super bacana, eu adoro. Mas, como
eu entrei na área de globalização de gênero, e sendo brasileira, na realidade, é um fator,
ser brasileira é um fator super positivo para alguém que está dando um curso sobre
globalização e gênero na universidade americana. Então eu acho que isso me coloca em
uma posição melhor do que uma americana dando um curso sobre globalização e
gênero numa universidade americana. Porque há muita discussão sobre o feminismo do
sul global, do norte global, e vindo do sul global, eu acho que me coloca numa posição
de encarar alguns debates epistemológicos, alguns debates sobre a produção do
conhecimento, me dão uma posição, acho que privilegiada de poder fazer à crítica,
determinadas críticas que as americanas brancas eu acho que se sentiriam
desconfortáveis em fazer.

Agora, para finalizar, Marlise, como o Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre


a Mulher (NEPEM), que você coordena, acompanha essa trajetória da
institucionalização dos estudos de Gênero e feminismo no Brasil?

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Marlise Matos: Eu acho que é importante mencionar que se precisa de espaços
institucionais para realizar projetos. Porque você não pode tratar os desafios como uma
coisa endereçada a você, pessoa física. Você precisa ter lugares institucionais que
abarquem. E eu acho que o NEPEM é uma instituição muito importante e a gente já está
aqui na UFMG já mais de 30 anos. Se não me engano é o terceiro núcleo de Gênero que
foi criado no Brasil. E é uma honra pra mim, uma alegria estar à frente da coordenação
do NEPEM. A história de constituição do NEPEM tem a ver com a história dos estudos
de Gênero e feministas nas ciências humanas. O NEPEM teve um protagonismo muito
importante na Sociologia, na Antropologia, na Psicologia, que são as áreas que já se
permearam, e já institucionalizaram esses estudos de forma muito anterior à própria
Ciência Política. Eu acho que é um espaço institucional que é importante você o
defender, e o manter existindo, porque ele abriga e abrigou, e eu espero que continue
abrigando, as pesquisas de alunos de graduação, de pós-graduação, de fazer aquilo que
é uma vocação fundamental, vertebradora do campo do feminismo, que é o trabalho de
extensão universitária. Onde de fato se há uma produção militante, e pra mim não é um
demérito, o trabalho militante do feminismo, porque justamente o feminismo se propõe
do ponto de vista epistemológico, a ser uma intervenção e transformação do
conhecimento a serviço da transformação do mundo, e, portanto, a área da extensão
universitária é o lugar onde é possível você produzir essas formas de intervenção e de
ação para modificar as relações, para você se aproximar da vida como ela é, se
aproximar da vida real das mulheres, como a gente faz em inúmeros projetos. Na
formação extensionista no Vale do Jequitinhonha, na região metropolitana de Belo
Horizonte, com mulheres em situação de vulnerabilidade, em situação de risco, em
situação de violência. Então eu acho que o espaço do NEPEM é o espaço para o
acolhimento dessas iniciativas, de pesquisas que têm dado continuidade a esse desafio
de continuar produzindo conhecimento qualificado sobre as mulheres e sobre as
relações de Gênero. E o NEPEM é um espaço interdisciplinar. Que é o que é a vocação
mesmo do campo dos estudos feministas e de gênero. Ser esse lugar da inter e da
transdisciplinaridade. Que a gente tem tanta dificuldade em fazer acontecer nas nossas
universidades. A gente fala como um valor, como um princípio, como uma direção, mas
a gente não pratica. E o campo de gênero e feminista é um campo da prática
interdisciplinar por excelência. Sempre foi. Nasceu assim e continua exercitando a sua
existência assim dessa forma. Inclusive com os desafios e os dilemas que isso implica.
Mas, o NEPEM é um espaço importante, de referência nacional, e eu espero em algum
momento também internacional, eu tenho construído essas pontes, na região latino-
americana, tentado fazer esse esforço de aproximar o NEPEM, o nosso núcleo, com os
nossos trabalhos, as nossas pesquisas, os nossos alunos, da produção regional latino-
americana. Eu acho que vale a pena abrir o NEPEM para esse diálogo, que hoje está
nessa agenda do pós e do decolonial, é um trabalho que eu tenho interessado em fazer
esforços nessa direção, para que a gente não seja mais uma a desconhecer o resto da
América Latina, e a gente construa essa identidade também como América Latina.

[1] Um diagnóstico sobre a presença das mulheres nas Ciências Sociais pode ser visto
aqui: https://revistaescuta.wordpress.com/2016/03/24/a-voz-das-ciencias-sociais-e-
masculina/
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[2] As professoras Marlise Matos, Solange Simões e Yumi Garcia coordenam um projeto
de pesquisa intitulado: O impacto do programa bolsa família sobre a vida das
mulheres nos meios rural e urbano em Minas Gerais – Gestão do cotidiano e projeções
para a autonomia, do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher.

A História pode ser apreendida através de meios bastante diversos, compreendendo


novelas, filmes, músicas, livros e revistas. Cada vez mais professoras e professores de
História tem se atentado a isso e procuram trazer esse conhecimento prévio dos
estudantes para a sala de aula.

Uma crítica frequente à produção histórica acadêmica é a pouca circulação dos seus
resultados, ficando muitas vezes restrita entre os pares. Uma das causas apontadas é a
linguagem e estrutura acadêmicas, que dificultariam a leitura para quem não é do meio.

Novos pesquisadores tem pensado nisso, e o blog Cientistas Feministas é uma iniciativa
que procura divulgar tanto a História quanto os demais campos do conhecimento de
forma mais acessível.

Um trabalho defendido em 2014 no Programa de Pós-Graduação em Educação da


Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC) procurou inovar em seu formato: trata-se
de uma dissertação totalmente feita em HQ (História em Quadrinhos).

Produzida por Vinícius Finger, o trabalho intitulado “Zombi, zambi, zumbi : narrativas
sobre Palmares” busca discutir as diversas narrativas históricas acerca do Quilombo de
Palmaras e de Zumbi, seu líder. Dividida em cinco partes, a dissertação trabalha com a
visão dos acontecimentos durante o período colonial, imperial e republicano, este
último dividido nas partes Zumbi pós-abolição, Zumbi revolucionário e Zumbi eterno.
Faz isso de uma forma bastante interessante: através das aulas que abordam tais
assuntos durante esses períodos. Assim, discute também o sistema educacional
brasileiro através do tempo.

No período colonial, percebe-se a presença de um discurso religioso bastante forte. Já


no período imperial, a HQ mostra que a história de Zumbi era estudada como mais um
obstáculo no processo de unificação nacional (FINGER, 2014, p. 53) e o bandeirante
Domingos Jorge Velho, apresentado como um herói.

Em “Zumbi pós-abolição”, o autor representa uma sala de aula no Estado Novo de


Getúlio Vargas, onde fica latente a incongruência entre um discurso que dizia que a
escravidão no Brasil foi mais branda com a realidade da senzala.

No quarto período, chamado pelo autor de “Zumbi revolucionário”, o Brasil está na


ditadura, e um professor universitário, vigiado pelos militares, encontra-se com uma
aluna fora da sala de aula para explicar-lhe a versão ensinada nas escolas não condiz
com o que foi a luta em Palmares:

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Imagem 01: professor explicando à aluna sobre Palmares. Fonte: FINGER, 2014, p. 91

No quinto período, “Zumbi eterno”, adolescentes assistem um filme sobre Zumbi, que
desconstrói a primeira versão mostrada na dissertação – a colonial – em que Zumbi
teria se matado para não se entregar. Depois do quinto período, o autor reproduziu
cenas cotidianas do Brasil de hoje em que mostra como o país ainda continua racista:

Imagem 02: cena racista atual representada na HQ. Fonte: FINGER, 2014, p. 134

“Zombi, zambi, zumbi : narrativas sobre Palmares” é um trabalho acadêmico que


inovou em seu formato. Pode ser usado em sala de aula para discutir com os alunos a
forma como a História enquanto área do conhecimento é construída ao longo do tempo.
A linguagem dos quadrinhos também pode atrair mais leitores e, assim, diminuir a
distância entre o conhecimento produzido nas universidades e o público em geral.

Se você se interessou, a dissertação está disponível on-line aqui.

A triste verdade é que as ciências humanas e sociais, no Brasil, ainda são muito
eurocêntricas e anglófilas. Há algumas décadas, os estudos sobre a América Latina e em
comparação com a América Latina ganharam fôlego, mas ainda não ocupam o papel
central que ocupam os trabalhos baseados em teorias europeias ou anglo-saxãs ou que
se propõem a fazer uma comparação entre o Brasil e essas regiões do mundo. Também
nos últimos anos, estudos sobre a África ganharam mais espaço no meio acadêmico
brasileiro, mas estão longe de serem os trabalhos centrais das diversas áreas das
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ciências humanas e sociais. Pesquisas sobre outras partes do mundo, como, por
exemplo, a Ásia, são, ainda, extremamente incipientes no Brasil. E quem perde com isso
somos nós, as pesquisadoras e os pesquisadores brasileiros.

Ler trabalhos empíricos e teóricos, pesquisar sobre, fazer comparações com outras
partes do mundo, para além da Europa e dos Estados Unidos pode ser de grande valia
para os pesquisadores brasileiros. Muitas vezes, outras partes do mundo passaram por
processos próximos aos que passamos no Brasil e um diálogo com esses trabalhos pode
ser bastante elucidativo. Por isso, neste post, decidimos tratar de um tema pouco
conhecido no Brasil: a situação da propriedade fundiária na China do século XIX. Para
isso, vamos fazer um pequeno resumo do artigo “Land registration and local society in
Qing China: Taxation and Property Rights in Mid-Nineteenth Century Guangdong”,
publicado em 2011, pelo professor da Universidade de Tóquio, Kentaro Matsubara.

Matsubara argumenta que a propriedade na China do século XIX deve ser entendida
como uma estrutura complexa, que envolvia linhagem, território, governo e política
local. A propriedade sobre um pedaço de terra não era individualizada, ou seja, não
pertencia a um indivíduo específico. A propriedade de um pedaço de terra pertencia a
uma linhagem. Tampouco havia, nesse período, um registro estatal homogêneo da
propriedade fundiária. Assim, muitas vezes, a abrangência de um direito de
propriedade sobre um pedaço de terra dependia de negociações – às vezes, assimétricas
– entre diferentes linhagens, sem a interferência estatal. Para que uma linhagem
tivesse, de fato, a propriedade sobre um terreno, era necessário que houvesse um
acordo, um pacto abrangente com outros membros da comunidade. Essas negociações,
em alguns momentos, envolviam agentes estatais locais. Mas, mesmo nesses casos, os
agentes locais, ao fim, tinham que confiar no que lhes diziam as partes interessadas,
pois o Estado não tinha conhecimento próprio sobre a situação da titularidade fundiária
nesse período.

Nesse cenário, surgiram vários conflitos a respeito do pagamento de impostos sobre a


terra. As informações que o Estado chinês tinha registradas para a cobrança de
impostos, em grande parte dos casos, não guardavam correspondência com a efetiva
titularidade da terra ou, até mesmo, com o tamanho real da propriedade fundiária.
Assim, novamente, em momentos de disputas a respeito da responsabilidade para se
pagar os impostos sobre a terra, era muito importante que as partes negociassem entre
si. Em casos em que a negociação não era frutífera e agentes estatais locais intervinham
na disputa, outra vez, esses agentes tinham que confiar, sobretudo, nas informações que
as partes lhes traziam sobre os casos.

Em conclusão, Matsubara argumenta que o sistema de coleta de impostos não podia se


basear em um conhecimento estatal sobre o terreno, mas tinha que partir do
conhecimento das partes sobre a propriedade em questão. Assim, o consenso entre as
partes envolvidas era essencial para o sistema tributário e para o próprio exercício
efetivo de direitos de propriedade sobre um terreno.

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Assim, o trabalho de Matsubara traz importantes contribuições para o tema da
propriedade em contextos de burocratização dos Estados nacionais. Ao longo do século
XIX e do início do século XX, muitos Estados começaram a formar corpos robustos de
burocratas e começaram a desenvolver técnicas para “ver”, para “conhecer” seu
território e sua população. Esse processo, muitas vezes, encontrou resistência social. O
trabalho de Matsubara descreve uma sociedade em que o Estado ainda não produzia, de
maneira consistente, conhecimentos próprios sobre o terreno e sua população e mostra
quais eram as implicâncias sociais desse “desconhecimento”.

Referência:

MATSUBARA, Kentaro. “Land registration and local society in Qing China: Taxation
and Property Rights in Mid-Nineteenth Century Guangdong”, International Journal of
Asian Studies, 8, 2 (2011), pp. 1-25.

Como já foi teorizado por várias historiadoras – e mesmo aqui no blog -, a história das
mulheres costuma ser ignorada pelos livros de história e ciências humanas. A história
que é vista como “geral”, frequentemente, conta, apenas, a história dos homens,
colocando a história das mulheres como “específica”.

Ora, as mulheres são metade da população mundial. As questões de homens são vistas
como se fossem questões “gerais” por causa do poder instituído masculino. Na nossa
sociedade capitalista (e em outros modos de produção também, mas esse não é o objeto
desse texto), os lugares de poder são ocupados por homens que o exercem para
satisfazer as vontades e necessidades de homens.

Isso porque, historicamente, foi reservado às mulheres o espaço doméstico/privado. Às


mulheres é imposto o papel social de mães, esposas e donas de casa, que devem cuidar
do marido, dos filhos e dos idosos. Mesmo hoje – que se diz que as mulheres
“conquistaram o mundo do trabalho” (o que é falacioso, já que as mulheres pobres
precisam trabalhar há séculos para complementar a renda familiar) -, as
responsabilidades domésticas continuam nas mãos das delas. Já aos homens é
destinado o espaço público, a política, a voz, o poder.

Nesse sentido, é importante recuperar a história das mulheres para mostrar que elas
sempre estiveram presentes como atrizes sociais e não apenas como “apêndices” dos
homens. Michelle Perrot, uma historiadora francesa, por exemplo, dedicou-se a contar a
história dos excluídos e das excluídas da história. Ela é uma grande teórica que merece
ser visitada (no final do texto serão indicadas obras dessa historiadora para leitura).

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Imagem retirada do site: https://goo.gl/vmiJkA

Após essa breve introdução, falaremos, então, sobre a importância do papel das
mulheres durante o período da ditadura civil-militar brasileira (1964-1985). Muitas
brasileiras estiveram na linha de frente na luta contra a ditadura, como Amelinha
Telles, Iara Iavelberg, Conceição Imaculada de Oliveira, etc.

Inclusive, o movimento feminista organizado no Brasil foi desenvolvido de maneira


particular, se comparado ao desenvolvimento em outros países. Ele nasceu junto aos
movimentos de esquerda na luta contra a ditadura. As mulheres, além de lutar contra o
regime de exceção, começaram a apontar o machismo dentro dos movimentos de
esquerda ortodoxos, lutando para que os homens do movimento passassem a
“desnaturalizar” práticas sexistas que prejudicavam a luta revolucionária.

Nesse sentido, importante destacar que todos e todas militantes de esquerda,


identificados como “comunistas” de maneira pejorativa pelo governo militar, sofreram
intensas perseguições e punições. Mas também é importante destacar que as mulheres
sofreram um tipo de tortura específico.
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São numerosos os relatos de mulheres que sofreram torturas através da violência
sexual. Elas foram obrigadas a ficar nuas diante de vários homens, que ficavam lhes
dirigindo ofensas machistas (já que as mulheres de esquerda militantes políticas eram
vistas como desviantes do padrão moral burguês). Além disso, inúmeras foram
estupradas, algumas abortaram em sessões de tortura (levavam chutes na barriga e
choques na vagina), muitas foram torturadas na frente de seus filhos para traumatizar
as crianças, etc.

“Maria Amélia estava amarrada na cadeira do dragão, quando o torturador Lourival


Gaeta, o “Mangabeira” começou a masturbar-se na sua frente. Ao gozar, jogou o sêmem
em cima de seu corpo. “Não gosto de falar sobre isso, mas sei da importância de tratar
desse assunto, da desigualdade entre homens e mulheres na hora da tortura. Eles
usaram da desigualdade para nos torturar mais”, disse, sob forte emoção, Maria Amélia
de Almeida Teles. Ela relatou o abuso sexual que sofreu na abertura da audiência
pública “Verdade e gênero- a violência da ditadura contra as mulheres”, ocorrida na
segunda-feira, 25, organizada pela Comissão Nacional da Verdade e Comissão Estadual
da Verdade de São Paulo “Rubens Paiva”.”
(fonte: http://www.adrianodiogo.com.br/noticias/internas/id/1885/comissoes-da-
verdade-debatem-violencia-da-ditadura-contra-as-mulheres/)

Imagem da militante feminista Amelinha Teles, retirada do site:


http://goo.gl/38D2ES

Por outro lado, também houve uma explosão no número de organização de mulheres
nos bairros periféricos. Essas mulheres organizadas começavam a se reunir
incentivadas pela igreja católica para discutir o evangelho e fazer tricô. Com o tempo
passaram a debater os problemas da comunidade e cobrar soluções como a construção
de creches, asfaltamento de vias públicas etc.

Foi um importante passo para a organização dessas mulheres da periferia, em sua


maioria negras, que tinham suas demandas ignoradas tanto pelo governo quanto pelos
movimentos de esquerda, já que muitas não trabalhavam como assalariadas (mas
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trabalhavam em suas casas).

A experiência das mulheres da periferia e das mulheres operárias organizadas no


período da ditadura é narrada por Elizabeth Souza-Lobo, que fez várias pesquisas na
época das greves do ABC nos anos 70 e 80. Ela mostra como as trabalhadoras não se
sentiam contempladas pela luta dita como “geral” liderada pelos homens. Os sindicatos
não ouviam suas demandas e não se importavam com as denúncias de violências
sexistas e menores salários pagos às mulheres.

“(…) a própria utilização do termo específico, cada vez que se quer referir a questões que
concernem às mulheres, supõe uma universalidade neutra que se opõe à especificidade
feminina.”
(SOUZA-LOBO, 2011, p. 256)

Portanto, é sempre necessário trazer luz a essas experiências das mulheres, que,
raramente, são contadas e, mais raramente ainda, são ouvidas. Mulheres
revolucionárias estão lutando para ter seu espaço há muito tempo, precisamos
relembrá-las sempre que possível para que cada vez mais mulheres possam se inspirar
nelas e ingressar na luta anticapitalista e antipatriarcal.

Bibliografia e livros sugeridos:

CORDEIRO, Janaina Martins. Direitas em movimento: A campanha da mulher pela


democracia e a ditadura no Brasil. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2009.

LOBO, Elizabeth Souza. A classe operária tem dois sexos. São Paulo: Editora Fundação
Perseu Abramo, 2011.

PERROT, Michelle. Os Excluídos da História: Operários, Mulheres e Prisioneiros .


2010, São Paulo: Paz e Terra.

_______. Minha história das mulheres. 2007, São Paulo: Editora Contexto.

_______. As mulheres ou os silêncios da história. 2005, Bauru: EDUSC.

RAGO, Margareth. Trabalho feminino e sexualidade. in História das mulheres no


Brasil. Mary Del Priore (org). São Paulo: Editora Contexto, 2013.

TELES, Amelinha; LEITE, Rosalina Santa Cruz. Da guerrilha à imprensa feminista: a


construção do feminismo pós luta armada no Brasil (1975-1980). São Paulo: Martins
Fontes, 2013.

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Ilustração: @lacunainkk

Mary del Priore é uma historiadora brasileira bastante conhecida por seus livros de
divulgação de História do Brasil, tendo mais de trinta títulos publicados.
Doutora em História pela USP, Mary fez pós-doutorado na Ecole des Hautes Etudes en
Sciences Sociales e foi professora da USP e da PUC/RJ. Atualmente leciona na pós-
graduação de História da Universidade Salgado Filho.
No mês passado, ela lançou seu mais novo trabalho, um livro que mistura ficção e
história. Nesta entrevista, exclusiva para o #cientistasfeministas, a historiadora conta
um pouco sobre sua trajetória, sobre os desafios para historiadoras e historiadores e
também sobre o novo livro.

– Nos últimos anos você tem se dedicado a escrever livros de divulgação de História.
Como foi essa decisão?
Ela nasceu de uma conjuntura favorável. Ao final dos anos 90, observei que as
Ciências Humanas tinham entrado em declínio, com um número de publicações cada
vez menor, que as obras de divulgação estavam ganhando terreno e consistência. E,
finalmente, que a USP não era mais a minha praia. Lecionar perdia o encanto, frente
ao engessamento das disciplinas, a verticalização das pesquisas, a mesmice do
ambiente do universitário. De mudança para o Rio, timidamente comecei a procurar
as editoras, propondo-lhes coleções e títulos que atendessem a interesses
transdiciplinares. A José Olympio me permitiu o lançamento de “Baú de Histórias”,
uma coleção de obras voltadas para o grande público, misturando textos autorais e
documentos raros pertencentes à coleção Paulo Geyer. A Elsevier amparou a
publicação de uma série de dicionários: de personagens da literatura às drogas.
Paralelamente, dei início a uma série de biografias históricas. “O Príncipe Maldito”,
finalista do prêmio Portugal Telecom, foi o primeiro da série, com grande sucesso.
Nunca mais parei! Fui premiada com os livros que se sucederam, mas, ganhei o mais
importante: o interesse do grande público.

– Na sua opinião, há uma carência de obras de História? Como historiadoras e


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historiadores podem se aproximar mais dos leitores?
Não há, absolutamente, uma carência de obras de história. Aliás, a multiplicação de
pós-graduações em história, em todo o Brasil, vem provocando uma massa imensa e
de alta qualidade de publicações acadêmicas. Só que elas não servem para o leitor
comum, que não se interessa por debates teórico-metodológicos, infindáveis notas de
rodapé e conceitos complicados. Para se aproximar do leitor é preciso ter a coragem
de abandonar essas regras que foram fixadas pelo Positivismo, no século XIX e gostar
– mais importante – muito de escrever.

– Embora o número de homens e mulheres no campo da História seja mais equilibrado


que em outras áreas, percebe-se ainda uma discrepância quando olha-se mais de perto
para nossos referenciais teórico-metodológicos. Nossas referências são, na grande
maioria, masculinas. Como mudar esse cenário?
Trabalhando, trabalhando e trabalhando! As mulheres que gostarem de Teoria devem
se dedicar a pensar conceitos e abordagens que tenham conexões com nosso passado.
Isso evitaria a reprodução de teóricos estrangeiros que asfixiam a produção nacional
e que não cansamos de citar. Sobre um deles, Carlo Ginzburg, disse com ironia o
grande historiador e acadêmico Evaldo Cabral de Mello: “No Brasil usa-se Ginzburg
até para estudar escravidão em Conceição do Mato Dentro”!!!!

– Seu mais recente livro é uma obra de ficção baseada em documentos reais. Para você,
quais as aproximações e diferenças entre História e Literatura?
O grande historiador Paul Veyne já disse que “a história é um romance verdadeiro”.
Desde os anos 90, um grande debate crítico sobre a narrativa histórica vem
apaixonando vários autores, alguns deles explicitaram, como o fez Georges Duby, que
a história deveria “divertir” também. Alguns mais jovens, como Ivon Jablonka,
acusam os textos tradicionais de ter tornado a disciplina ilegível. Mais: que o
abandono das salas de formação de historiadores se deve a esse modelo que foi
construído com a chegada do “historiador, funcionário”: aquele que trabalha na
universidade e que esquece que, fora da torre de marfim, há um mundo de
gente interessada em aprender sobre os antepassados. Desde a Antiguidade houve um
diálogo estreito entre História e Literatura. Milhares de autores, de Balzac a
Marguerite Yourcenar, o comprovam. Entre nós, de Alencar ao imenso Assis Brasil,
também. A diferença é que a história não inventa. Ela não é ficção. Mas uma
narrativa ficcional, baseada em centenas de documentos pode transportar o leitor ao
passado, com igual eficiência. Foi o que fiz. Misturei atores históricos que existiram a
vozes ficcionais inspiradas em personagens do passado, que até falam como seus
predecessores.

Para quem se interessou, é possível ler um trecho de “Beije-me onde o sol não alcança”
no blog em que Mary colabora, o História Hoje.

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