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A PROPOSTA TEOLOGICA DAS EPISTOLAS GERAIS

Danilo Pallar Lemos

As epistolas gerais possuem algumas peculiaridades, entre essas, uma


que podemos considerar central, é a de relacionar temas que são de ordem e
contexto do Antigo Testamento. Trazendo esses dentro da realidade da Igreja
formada por cristãos Judeus, um cristianismo judaico ou dentro desta
cosmovisão. Schreiner(2008, p. 470) vai considerar que as epistolas gerais: “
Não contem uma discussão detalhada sobre a Igreja, uma vez que cada
epistola responde a questões especificas nas Igrejas; o espaço dado o tema da
Igreja varia”. A proposta central é tratar os temas de ordem gerais, dentro do
contexto e realidade de cada comunidade judaica, dentro do ambiente de Igreja
em que estão inseridos.
Nas epistolas gerais, a Igreja esta atravessando certo distanciamento de
elementos centrais da vida cristã e também doutrinaria. Elementos que nos
primeiros anos do transcurso da Igreja, foram mais visíveis, principalmente nas
cartas escritas por Paulo. Em que como a Igreja esta nascendo em alguns
lugares, a vida cristã esta mais visível no testemunho e as doutrinas são o
embasamento teológico recebido com facilidade e assimilado. Sobre esse fator,
Goppelt( 2002, p. 395) ira apresentar a seguinte explicação:
A cristandade primitiva da primeira geração teria sido determinada por uma
esperança entusiasta da volta imediata de Cristo. A decepção dessa
esperança teria provocado uma crise radical e uma total mudança da
autocompreensão cristã na segunda geração.

A mudança da autocompreensão cristã mencionada na citação acima, são


mais visíveis nos alertas das cartas de Hebreus, 1º e 2º Pedro e as epistolas de
João. Período após 55 d.C, em que algumas concepções doutrinarias e
praticas da vida cristã são arrefecidas. Sendo preciso escritos que confrontem
e tragam a comunidade das Igrejas a um retorno aos fundamentos doutrinários
e teológicos que receberam nos primeiros dias. Assim são advertidos a
repensarem seus convívios na sociedade, família, Igreja e ate nos sentidos
políticos, conservando o testemunho e defesa da fé da comunidade de Cristãos
dos primeiros anos e décadas da Igreja.
A teologia das epistolas esta enfrentando uma tensão, entre dois tempos,
em que Goppelt(2002, p. 396) assim explica:
Entre a vocação para a nova existência da liberdade escatológica e a
remanescente sujeição às estruturas da vida histórica, formou-se, pois, uma
forte tensão. Suportar essa tensão a longo prazo, esse era, na verdade, o
problema dado pela demora da parusia. Ele é abordado continuamente pela
literatura pós-paulina, pois em todas as partes nascia, nas igrejas, a
tendência de retornar à conformidade com o mundo e às formas de vida da
sociedade em geral. Exemplos para essa problemática são a Epístola aos
Hebreus (Hb 12,12s)

Podemos com isso dizer que a teologia proposta é de uma reconstrução sobre
temas doutrinários, sobre Cristo, salvação, Escrituras, vida cristã e também
alguns assuntos de ordem escatológica são enfatizados.
Nesse tempo em que o autor da carta aos Hebreus, Tiago, Pedro, João e
Judas estão escrevendo suas epistolas, percebemos que um dos problemas
teológicos a serem tratados; é a ética cristã e social. Repensar e relembrar
pontos propulsores de mudanças de caráter e comportamento é um foco visível
na teologia dos escritos das epistolas gerais. Confrontar, reavaliar e orientar
são os verbos que estão direcionando o enfoque escritutístico dos autores
destas cartas, no quesito da vida ética. É notório que a pratica de vida esta
distante dos ensinos e ênfases pedagógicas de Jesus em seus ensinos. Assim
a proposta de ênfase de temas éticos estão presentes, como um meio de trazer
a Igreja aos princípios morais adquiridos nos seus primeiros dias.
O cristão e a sociedade se torna um tema urgente, debatido em vários
âmbitos, nas epistolas gerais. Estavam constantemente sendo os cristãos
avaliados e criticados pela sociedade, era preciso repensar algumas atitudes
neste relacionamento social. Uma das razoes deste confronto da sociedade
para com os cristãos, é por não aceitar a mudança de comportamentos sociais
que muitos abandonaram; ao viver uma vida distante de toda pratica de
pecado. Pedro sobre essa realidade e tema, declara em (1º. Pe 4.3) o seguinte:
Porque é bastante que, no tempo passado da vida, fizéssemos a vontade
dos gentios, andando em dissoluções, concupiscências, borracheiras,
glutonarias, bebedices e abomináveis idolatrias.

Como vimos acima o Apostolo Pedro um dos autores do grupo de epistolas


gerais, esta fazendo um paralelo da realidade dos Judeus cristãos; com o
passado e o presente social em que viveram com as praticas pecaminosas que
estavam associados. Neste quesito surge um problema de ordem social e ate
politica a ser resolvido, vindo um debate teológico surgir nesta temática. Que
Goppelt( 2002, p. 401) assim analisa:
Aos olhos do mundo gentio, os cristãos violavam os conceitos básicos da
filosofia helenista. Pecavam contra o princípio da harmonia e convivência
pacífica (harmonia e eirene) princípio esse que, de acordo com a filosofia do
povo, era ditado ao homem pela natureza. Era preciso, pois, provocar
resistência e desconfiança, no dia-a-dia, quando não apenas membros do
estranho povo judeu, mas compatriotas, conhecidos e parentes se
distanciavam pessoalmente, como cristãos, do modo de vida de seu povo e
insinuavam aquela mesma escandalosa ideia de exclusividade constatada
entre os judeus.

A questão visível no paragrafo acima é o exclusivismo religioso dos


Judeus, ate no contexto do Cristianismo. Não tendo convívio social nenhum,
abandonando todos os círculos que conviviam antes da conversão. Vindo aos
olhares dos Gentios, ser uma pratica de preconceito religioso com enfoques
sociais. Não seria somente uma resistência a todas as praticas de pecado, mas
uma exclusão social em que os Judeus estavam promovendo. Porem o que é
preciso entender que as atitudes dos cristãos, não se tratava pela ótica
teológica e Bíblica, uma intolerância. Mas uma resistência a todo o convívio
que pudesse lhes contaminar, mesmo que causasse esses julgamentos por
parte dos Gentios.
A apologética esta presente na teologia das epistolas gerais, pois no caso de
João e Judas, estavam combatendo as heresias propagadas pelos Gnósticos.
Vindo em suas cartas conceder a Igreja, refutações ensinos hereges do
Gnosticismo. Judas assim define a esses propagadores de heresia em (Jd 18-
19):
Mas vós, amados, lembrai-vos das palavras que vos foram preditas pelos
apóstolos de nosso Senhor Jesus Cristo, os quais vos diziam que, no ultimo
tempo, haveriam escarnecedores que andariam segundo as suas ímpias
concupiscências.

Eram condutores de ensinos falsos que tinham o objetivo de não só dissuadir


os princípios da Igreja, mas confundir a muitos, se infiltrando em meio a Igreja.
A defesa das doutrinas centrais da fé, ensinadas desde o principio aos
Cristãos, precisavam ser revitalizadas, eram uma proposta teológica a
revitalização de argumentos apologéticos. Thielmann(2007, p.536) sobre esse
quadro de ataque de falsos mestres diz:
Surge um quadro de mestres que ridiculizam a doutrina tradicional,
ensinando que é irracional. Os elementos do ridículo se torna em
estratégias persuasivas. Considerando os que se apegavam as antigas
tradições cristas como retrógados.

Com essa proposta de que as tradições cristas ensinadas pelos Apóstolos era
um ensino retrógado, viam com vãs filosofias helenistas, propondo uma
dissensão teológica no seio da Igreja. Causando assim divisões, o Apostolo
Pedro em sua primeira carta assim os considera em (2º.Pe 2.10):

Mas principalmente aqueles que segundo a carne andam em


concupiscências de imundícia e desprezam as dominações. Atrevidos,
obstinados, não receiam blasfemar das autoridades;

A perversão dos ensinamentos e a dissolução doutrinaria era uma


preocupação, geradora de ensinos para rebater aos ataques promovidos pelos
Gnósticos, que viam com essas propostas para causar um dano a conduta da
Igreja. Precisava conceder posicionamentos sustentáveis teologicamente para
fortalecer a Igreja em suas bases doutrinarias. O Apóstolo Pedro sobre esse
fato assim adverte em (2º.Pe 3. 17 e 18):
Vós, portanto, amados, sabendo isto de antemão, guardai-vos de que, pelo
engano dos homens abomináveis, sejais juntamente arrebatados e
descaiais da vossa firmeza; antes, crescei na graça e conhecimento de
nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. A ele seja dada a glória, assim
agora como no dia da eternidade. Amém!

A defesa da humanidade e divindade de Cristo esta presente nas


epistolas gerais, principalmente nos escritos de João. O qual certamente esse
tema esta enfocando, porque este é um dos temas em que os seus oponentes
Gnósticos, procuram divergir e provar ao contrario. João como sendo uma
testemunha ocular busca nessa defesa uma consolidação desta verdade com
maior ênfase. Dizendo que ensina o que “viu e ouviu”, em (1º Jo. 1.3): “O que
vimos e ouvimos, isso vos anunciamos, para que também tenhais comunhão
conosco; e a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo”.
A abordagem de João é em grande parte uma defesa da existência de
Cristo em carne e o mesmo sendo também filho de Deus e o próprio Deus.
Reedificando que aqueles que conhecem e possuem a Cristo o seguem e
acreditam em suas palavras. Como está em (1º.Jo 4.6):
“Nós somos de Deus; aquele que conhece a Deus ouve-nos; aquele que não é
de Deus não nos ouve. Nisto conhecemos nós o espírito da verdade e o
espirito do erro”. Esta declaração se torna um confronto a avaliarem, quem
esta ensinando a verdade e possui elementos mais convincentes de defesa.
Portanto as epistolas de João fazem uma apologia e lembrança aos ensinos e
defesas do Jesus histórico dos Evangelhos; principalmente o por Ele escrito em
defesa da divindade de Cristo.
A Cristologia se torna uma doutrina presente, não só nas cartas de João,
mas também nos outras epistolas, como a de Hebreus e as de Pedro. O autor
de Hebreus desenvolve uma abordagem focando em dois segmentos, primeiro
uma defesa da humanidade, divindade e preexistência de Cristo; depois
relacionando elementos presentes dentro do contexto do Antigo Testamento,
no Pentateuco, como á Lei, Sumo Sacerdote, Tabernáculo os rituais de
sacrifícios; para exemplificar e fazer um paralelo com a dimensão da obra de
Cristo. Já o Apostolo Pedro em (1º.Pe 2. 24): “Levando ele mesmo em seu
corpo os nossos pecados sobre o madeiro, para que, mortos para os pecados,
pudéssemos viver para justiça; e pelas suas feridas fostes sarados”. Está como
podemos ver, pressupondo a humanidade de Cristo e confirmando a obra
expiatória.
O Apostolo Pedro ainda aborda sobre outros temas da Cristologia, na
condição de testemunha, que participou do acontecimento, trazendo maior
veracidade. Como o caso da narrativa da transfiguração, que assim expõe em
(2º Pe 1. 16 -18):

Porque não vos fizemos saber a virtude e a vinda de nosso Senhor Jesus
Cristo, seguindo fábulas artificialmente compostas, mas nós mesmo vimos a
sua majestade, porquanto ele recebeu de Deus Pai honra e glória, quando
da magnifica glória lhe foi dirigida a seguinte voz: Este é o meu filho amado,
em quem me tenho comprazido. E ouvimos esta voz dirigida do céu,
estando nós com ele no monte santo.

Aqui nesta exposição o Apostolo Pedro, esta enfatizando a gloria expressa da


divindade de Cristo.
Outras doutrinas são tratadas em conjunto pelos autores das epistolas
gerais, como o caso da antropologia, em que vão situar o homem em sua
própria essência e depois o seu relacionamento com Deus. O escritor da carta
aos Hebreus, vai discorrer sobre o assunto, considerando o homem mortal e
sendo incapaz de com suas próprias forças ou intelecto conseguir a sua
salvação. Sendo dependente de Deus e tendo em Cristo sua ancora. Sobre ser
mortal o autor assim refere em (Hb 2.6): “Mas, em certo lugar, testificou
alguém, dizendo: Que é o homem, para que dele te lembres? Ou o filho do
homem para que o visites?” Ai vemos, a dimensão da misericórdia de Deus,
porque quem somos nos em nossa essência, mas Deus nos considerou e
concedeu honra, como esta em (Hb 2.7): “ Tu o fizeste um pouco menor do que
os anjos, de gloria e de honra o coroaste e o constituíste sobre as obras de
tuas mãos”.
O Apostolo Tiago em sua epistola já tem uma preocupação direcionada
com o comportamento do homem. Guthrie(2011, p. 185) sobre esse sentido
comenta: “Tiago esta mais interessado no comportamento pratico do ser
humano do que em questões especulativas acerca da constituição humana”.
Tiago também ira abordar em (Tg 2. 26) sobre a diferença que existe entre o
espirito humano e o corpo, ou seja, a matéria e o espirito. Nessa abordagem
Tiago ira ter a concordância de posição por parte de Apostolo Pedro em suas
epistolas. Como vemos em (1.Pe 2.11) quando diz: “Amados, peço-vos, como
a peregrinos e forasteiros, que vos abstenhais das concupiscências carnais,
que combatem contra a alma,” Tiago e Pedro neste aspecto espiritual e
material do homem, estão se conciliando para defender juntos a insuficiência
do homem; em poder se auto controlar, sozinho sem a intervenção de Deus.
Sobre a corrupção do pecado que ocorre no mundo, Pedro vai indicar ser a
concupiscência que opera para conduzir o homem a suas paixões. Como fica
claro em (2º. Pe 1.4):
Pelas quais ele nos tem dado grandíssima e preciosas promessas, para que
por elas fiqueis participantes da natureza divina, havendo escapado da
corrupção, que, pela concupiscência, há no mundo.

Pedro deixa claro que em nos mesmos há uma insuficiência, devido a matéria
corrompida pelo pecado que opera no mundo. Sobre essa declaração de
Pedro, Guthrie( 2011,p.187) ainda complementa: “Pedro deixa claro que
nenhuma participação da natureza divina é possível sem que o próprio Deus
tome a iniciativa”. Esta concepção de Pedro fica muito visível em todo o
contexto do Novo Testamento, o qual faz a defesa do homem sendo por si
próprio corrompido pelo pecado.
Concluindo as epistolas gerais desenvolvem em conjunto, cada autor com
sua característica de abordagem e também publico a alcançar; vão defender
posições teológicas que solidificam o Novo Testamento em todo seu arcabouço
doutrinário. Ampliando essa nossa posição, Thielman(2007, p.535) diz:

As cartas de Joaninas, por um lado, e Judas e 2 Pedro, por outro,


testemunham dois movimentos em direção à intelectualização das tradições
apostólicas das quais elas surgiram. Um surgiu dentro das igrejas sob a
liderança do discípulo amado, e o outro dentro das igrejas com alguma
conexão com Paulo. É impossível saber se eles tiveram algum
relacionamento um com o outro, e a evidência de que Santiago tinha
conhecimento de um ou outro movimento continua Ser ambíguo. No
entanto, a ampla semelhança desses dois movimentos é surpreendente:
desculpam ou justificam o comportamento contrário à ética, baseada em
seu conhecimento progressivo.

A conexão como vemos tratada na citação acima, concede uma amplitude


de concepções, que mesmo em alguns momentos não se convergindo,
constroem um posicionamento com interpretações solidas. Concluindo a
teologia das epistolas gerais, é contextualizada com a Trindade, sociedade,
Igreja e com o homem no seu presente e futuro. Assim torna-se uma teologia
sistemática, que analisa e propõe como deve o homem considerar e praticar a
vida com Deus.

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